Dicionrio de Filosofia  

Nicola Abbagnano




                                        PREFACIO




      O objetivo deste dicionrio  colocar  disposio de todos um repertrio das possi-
bilidades de filosofar oferecidas pelos conceitos da linguagem filosfica, que vem se cons-
tituindo desde o tempo da Grcia antiga at nossos dias. O Dicionrio mostra como algumas
dessas possibilidades foram desenvolvidas e exploradas  exausto, ao passo que outras
foram insuficientemente elaboradas ou deixadas de lado. Ele apresenta, assim, um balano
do trabalho filosfico do ponto de vista de sua fase atual.
      Em funo desse objetivo foi estabelecida a regra fundamental a que obedeceu a
formulao dos verbetes: a de especificar as constantes de significado passveis de serem
demonstradas ou documentadas com citaes textuais, mesmo que de doutrinas aparente-
mente diferentes. Mas as constantes de significado s podem ser especificadas quando os
diferentes significados, compreendidos por um mesmo termo, so claramente reconhecidos
e distintos. Essa  a exigncia da clareza, considerada fundamental numa obra como esta
e que, na verdade,  condio essencial para que a filosofia possa exercer qualquer funo
de esclarecimento e orientao nos confrontos entre os seres humanos.
      Numa poca em que os conceitos so freqentemente confusos e equvocos a ponto
de se tornarem inutilizveis, a exigncia de uma definio rigorosa dos conceitos e de suas
articulaes internas adquire importncia vital. Espero que o Dicionrio que ora apresento
ao leitor esteja  altura dessa exigncia e contribua para difundi-la, restituindo aos conceitos
sua fora diretiva e asseguradora.
      Vejo-me agora na grata obrigao de lembrar aqui as pessoas que me ajudaram na
realizao deste trabalho.
      O professor GIULIO PRETI elaborou para mim alguns verbetes de lgica (sendo o
principal, justamente, Lgica), todos assinados com as iniciais G. P. Tambm me ajudou na
compilao de alguns outros, que trazem suas iniciais e as minhas.
      Todos os artigos principais do Dicionrio foram discutidos, s vezes longa e minucio-
samente, com um grupo restrito de amigos: NORBERTO BOBBIO, EUGNIO GARIN, C. A. Viano,
Pietro Rossi, Pietro Chiodi.
      Outros amigos ajudaram-me a encontrar ou confrontar textos de mais difcil acesso.
Foram eles GRAZIELLA VESCOVINI FEDERICI, GRAZIELLA GIORDANO, SRGIO RUFFINO.
      Minha mulher, Marian Taylor, me prestou grande ajuda na correo das provas.
      A todas essas pessoas dirijo meu cordial agradecimento. Mas o trabalho deste Dicionrio
no teria sido iniciado nem levado a termo sem a ampla ajuda da grande e benemrita casa
editora UTET, que agora a publica. A ela expresso, portanto, minha gratido.
                                                                      NlCOLA ABBAGNANO
     Turim, 11 de outubro de 1960.
VI                                       PREFCIO

NOTA  SEGUNDA EDIO ITALIANA

     Esta segunda edio, inteiramente revista, contm 22 verbetes novos: Artefato; Assero;
Autmato; Casamento; Classe, conscincia de, Deus, morte de, Diacrnico, Sincrnico;
Doxologia; Ensomatose; Futurologia; Iluminismo; Ocorrncia; Performativo; Poitico;
Praxiologia; Previso-, Psicodlico; Recusa, grande, Tbuas de verdade, Teleonomia; Ler, Tra-
balho.
     Foram inteiramente refeitos os verbetes:
     Condicional; Conseqncia; Entimema; Implicao-, Matrizes, mtodo das; Pantesmo;
Tecnocracia.


                                                                                     N.A.
     Turim, 20 de abril de 1971.
                                OBSERVAES



       1. -- O Dicionrio contm apenas termos, no nomes prprios. No entanto, contm
termos como Platonsmo, Aristotelismo, Criticismo, Idealismo, etc, que se referem  dou-
trina de um filsofo ou de uma escola, ou a aspectos ou linhas comuns a vrias doutrinas.
Mas esses verbetes limitam-se a expor os pontos principais das doutrinas ou linhas em
questo com a maior brevidade possvel, dado que as opinies dos filsofos a que se
referem so amplamente citadas em todos os verbetes principais.
       2. -- Foram includos artigos dedicados no apenas s simples disciplinas filosficas
(Metafsica, Ontologia, Gnosiologia, Metodologia, tica, Esttica, etc), mas tambm a discipli-
nas cientficas de carter ou fundamento terico (Matemtica, Geometria, Economia, Fsica,
Psicologia, etc), em cuja abordagem os verbetes do Dicionrio limitam-se a distinguir as
diversas fases conceituais pelas quais a disciplina passou ou as diversas linhas que ela oferece
como alternativas de pesquisa ou de interpretao.
       3. -- Para os termos que se referem a conceitos complexos ou problemticos, ou que
tiveram ou tm interpretaes diversas, foi adotado o seguinte procedimento: A) Demos de
incio, quando possvel, o significado geral ou generalizado ao qual podem ser reduzidos
todos os significados encontrveis, ou a maioria deles; E) distinguimos e agrupamos em
poucas categorias estes ltimos significados; O cada categoria de significado foi ilustrada
com citaes de textos. Tivemos o cuidado de fazer com que os significados fundamentais
fossem distinguidos e formulados de modo que inclussem o maior nmero possvel de
significados encontrveis.
       4. -- O Dicionrio tem, como qualquer outro Dicionrio lingstico, uma base essen-
cialmente histrica: isso mostra quais foram e quais so os usos de um termo na linguagem
filosfica ocidental e tambm, se for o caso, relaciona-os com seu uso na linguagem comum.
As ambigidades de significado foram cuidadosamente registradas. Quando foi possvel
faz-lo sem demasiado arbtrio, indicamos o modo de evitar tais ambigidades.
       5. -- Foram utilizadas abreviaes para os ttulos das obras citadas com maior freqn-
cia (ver a lista apresentada nas pginas seguintes). Para as obras clssicas, utilizamos os
sistemas de citao adotados correntemente pelos estudiosos. Sempre que possvel, indica-
mos, das obras citadas, a parte ou volume, o captulo e o pargrafo, alm da pgina, para
tornar a citao independente das diversas edies ou tradues existentes.
       6. -- Os verbetes assinados pelas iniciais G. P. so da autoria do professor Giulio Preti,
da Universidade de Florena.
        LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURAS



Aristteles (384-322 a.C.)                           Bocio (c. 480-c. 526)
An.post. = Analayticaposteriora, ed. Ross, 1949-     Phil. cons. = Phosophiae consolations libri V, 524.
An. pr. = Analyticapriora, ed. Ross, 1949-
Cat. = Categoriae, ed. Minio-Paluello, 1949.         Campanella (1568-1639)
De cael. = De caelo, ed. Allan, 1936.                Phil. rat. = Philosophia rationalis, 1638.
Degen. an. = De generatione animalium, ed.           Ccero (106-43 a.C.)
    Bekker, 1831.                                    Acad. = Academicontm reliquiae cum Lucullo,
Depart. an. = departibusanimalum, ed. Becker,            ed. Plasberg, 1923.
    1831.                                            De divin. = De divinatione, ed. Plasberg e Ax,
El. sof. = De sohphisticis elenchis, ed. Bekker,         1965.
    1831.                                            De finibus = De finibus bonorum et malorum,
Et. eud. = Ethica eudemia, ed. Susemihl, 1879.          ed. Shiche, 1915.
Et. nic. = Ethica nicomachea, ed. Bywather 1957.     De leg. = De legibus, ed. Mueller, 1897.
Eis. = Physcorum Hhri VIII, ed. Ross, 1950.         De nat. deor. = De natura deorum, ed. Plasberg
Met. = Metaphysica, ed. Ross, 1924.                      1933.
Poet. = De arte potica, ed. Bywather, 1953.         De off. = De officis, ed. Atzert, 1932.
Pol. = Poltica, ed. Newman, 1887-1902.              De rep. = De republica, ed. Castiglioni, 1947.
Ret. = Rethorica, ed. Bekker, 1831.                  Top. = Tpica, ed. Klotz, 1883.
Top. = Topicorum libri VIII, ed. Bekker, 1831.       Tusc. = Tusculanae disputationes, ed. Pohlenz,
                                                         1938.
Arnauld (1612-1694)
log. = La logque ou l'art depenser, 1662, in        Descartes (1596-1650)
    CEuvres Phosophiques, 1893.                     Discours = Discours de Ia mthode, 1637.
Aulo Gllio (c. 122-c. 180)                          Md. = Mditations touchant Iapremirephilo-
Noct. Att. = Noctes Attcae, ed. Hertz e Hosius,        sophie, 1641.
                                                     Pass. de Vrne = Passions de Vme, 1649.
   1903.
                                                     Princ.phil. = Principia philosophiae, 1644.
Bacon (1561-1626)
Nov. Org. = Novum Organum, 1620.                     Diels (1848-1922)
Deaugtn. scient. = De augmentis scientiarum,         DIELS = Die Fragmente der Vorsokratiker, 5a
   1623.                                                ed., 1934. A letra A refere-se aos testemu-
                                                        nhos, a letra B aos fragmentos; o nmero
Bergson (1859-1941)                                      sempre o que foi dado por Diels em sua
vol. cratr. = volution cratrice, 1907, 8a ed.,      classificao.
   1911.
Deux sources = Deux sources de Ia morale et de       Digenes Larcio (sc. III d.C.)
   Ia religion, 1932; trad. it. M. Vinciguerra,      DIOG. L. = Vitae etplacta philosophorum, ed.
   Milano, 1947.                                        Cobet, 1878.
                               LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURAS


DunsScot (1265-1308)                                  Inq. Cone. Underst. = Inquiry Concerning
Rep. Par. = Reportata Parisiensa, in Opera, ed.         Human Understanding, 1748.
   Wadding, vol. Xi, 1639-                            Treatise = A Treatise of Human Nature, 1738;
Op. Ox. = Opus Oxoniense, nelle Opere, ed. de            ed. Selby-Bigge, 1888.
   L. Wadding, vol. V-X. As partes desta obra
   publicadas sob o ttulo de Ordinatio nos           Husserl (1859-1938)
   quatro primeiros volumes da Opera omnia,           ldeen, I, II, III = Ideen zu einer reinen
   em ed. org. pela Commissione Vaticana em              Phnomenologie u ndphnomenologischen
   1950, foram citadas no texto seguido nesta            Philosophie, I, II, III, 1950, 1951, 1952.
   ltima edio.                                     Cart.Med.= Cartesianische Meditationen, 1950.
                                                      Krisis - Die Krisis der europischen Wissens-
Fichte (1762-1814)                                        chaften unddie transzendentalePhnome-
Wissenschaftslehre = Grundlagedergesammten                nologie, 1954.
    Wissenschaftslehre, 1794, in Werke, org. pelo
   filho I. H."Fichte, 8 vols., 1845-46.
                                                      Jaspers (1883-1969)
   Tambm as outras obras de Fichte so cita-
   das (salvo advertncia em contrrio) por essa      Phil. = Philosophie, 3 vols., 1932; 3a ed., 1956.
   edio ou pela das Machgelassene Werke,
   org. tambm pelo filho, 1834-35 (citadas no        Kant (1724-1804)
   texto como Werke, IX, X, XI).                      Antr. = Anthropologie inpragmatischerHinsicht,
                                                         1798.
Ficino (1433-1499)                                    Crt do JUZO = Kritik der Urteilskraft, 1790.
Theol. Plat. = Theologia Platnica, in Opera, 1561.   Crt. R. Prtica Kritik derpraktischen Vernunft,
In Conv. Plat. de Am. Comm. = In Convivium               1787.
    PlatonisdeAmore Commentarium, bidem.             Crt. R. Pura = Kritik der reinen Vernunft, Ia
                                                         ed., 1781; 2a ed., 1787. As citaes referem-
Flon (c. 20 a.C.-c. 50 d.C.)                            se  2- ed., salvo indicao em contrrio.
Ali. leg. =Allegoria legis, ed. Colson e Whitaker,    Met. derSitten = Metaphysik der Sitten, 1797.
     1929-62.                                         Prol. = Prolegomena zu einer jeden knftigen
                                                         Metaphysik, die ais Wissenschaft wird auf-
Hegel (1770-1831)                                        treten knnen, 1783-
Ene. = Encyklopdie derphilosophischen Wis-           Religion = Die Religion innerhalb der Grenzen
    senschaften im Grundrisse, 2- ed., 1827; ed.         der blossen Vernunft, 1793.
    Lasson, 1950. Nas citaes desta obra tam-           s vezes so indicadas entre colchetes as
    bm foi consultada a verso italiana de B.           pginas segundo a edio da Academia
    Croce, Bari, 1906.                                   Prussiana. Nesse caso, no que diz respeito 
Fil. do dir. = Grundlinien der Philosophie des           Crtica da Razo Pura, indica-se com A a 1 -
    Rechts, 1821.                                        edio e com B a segunda,
Phnomen. des Geistes = Phnomenologie des
    Geistes, 1807.                                    Kierkegaard (1813-1855)
    Quando no  dada outra indicao, as obras       Werke = Gesammelte Werke, trad. ted. E. Hirsch,
    de Hegel so citadas na edio original:             1957 ss.
    Werke, Volstndige Ausgabe, 1832-45.
                                                      Leibniz (1646-1716)
Hobbes (1588-1679)
                                                      Disc. demt. = Discoursdemtaphysique, 1686,
Decorp. = De corpore, 1655.
De bom. = De homine, 1658                                ed. Lestiene, 1929.
Leviath. = Leviathan, 1651.                           Monad. = Monadologie, 1714.
                                                      Nouv. ess. = Nouveaux essaissur 1'entendement
Hume (1711-1776)                                         humain, 1703.
Inq. Cone. Morais = Inquiry Concerning the            Thod. = Essais de Thodice sur Ia bont de
   Principies ofMorais, 1752; ed. Greene Grose,          Dieu, Ia liberte de Vhomme et Vorgine du
   1879; nova ed., 1912.                                 mal, 1710.
                                  LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURAS                                     XI

   As duas obras precedentes e muitos outros          Ap, = Apologia Socratis.
   escritos de Leibniz so citados de Opera           Carm. = Charmides.
   Phosophica, ed. Erdmann, 1840. Tambm             Conv. = Symposium.
   so citadas as duas coletneas: Mathematische      Crat. = Cratylus.
   Schriften, ed. Gerhardt, 7 vols., 1849-63;         Crit. = Crito.
   Philosophische Schriften, ed. Gerhardt, 7 vols.,   Critia = Critias.
   1875-90.                                           Def. = Definitiones.
                                                      Ep, = Epistulae.
Locke (1632-1704)                                     Eutid. = Euthydemus.
Saggio = An Essay conceming Human Un-                 Eed. = Phaedo.
                                                      EU. = Philebus.
   derstanding, 1690; ed. Fraser, 1894; trad. it.
                                                      Gorg. = Gorgias.
   C. Pellzz, Bari, 1951.                           lon. = Lone.
                                                      Lach. = Laches.
Lucrcio (c. 96-c. 53 a.C.)
                                                      Leggi = Leges.
Derer. nat. =Dererum natura, ed. Bailey, 1947.        Men. = Menon.
                                                      Parm. = Parmenides.
MillJ. S. (1806-1873)                                 Pol. = Politicus.
Logic = System of Logic Ratiocinative and             Prot. = Protagoras.
   Inductive, 1843.                                   Rep. = Respublica, ed. Chambry, 1932.
                                                      Sof. = Sophista.
Nicolau de Cusa (1401-1464)                           Teet. = feaethetus.
De docta ignor. = De docta ignorantia, 1440.          Tim. = Timaeus.
                                                         Os textos so citados na edio de Burnet,
Ockham (c. 1280-c. 1349)                                  1899-1906.
In Sent. = Quaestiones in LVlibros Sententiarum,
    1495.                                             Plotino (205-270)
                                                      Enn. = Enneades, ed. Brhier, 1924.
Orgenes (c. 185-c. 253)
Deprinc. = De principiis.                             Santo Agostinho (354-430)
Injohann. = Lnjobannem.                               De civ. Dei = De civitate Dei.
                                                      Conf. = Confessionum libri XIII.
Pascal (1623-1662)
Penses (os nmeros referem-se  ordem da             Santo Toms de Aquino (1225-1274)
    ed. Brunschvicg).                                 S. Th. = Summa Theologiae, ed. Caramello,
P. G. = MIGNE, Patrologia graeca, o primeiro             Torino, 1950.
                                                      Contra Gent. = Summa contra Gentiles, Torino,
    nmero indica o volume.
                                                         1938.
P. L. = MIGNE, Patrologia latina, o primeiro n-      De ver. = Quaestiones disputatae de veritate,
    mero indica o volume.                                Torino, 1931.
Pedro Hispano (Papa Joo XXI, c. 1220-1277)           Scheler (1874-1928)
Summ. log. = Summulae logicales, ed. Bo-              Formalismus = Formalismus in der Ethik und
   nhenski, 1947                                         die materiale Wertethik, 1913-16.
                                                      Sympatbie= Wesen undFormen der Sympathie
Peirce 1839-1914)                                        1923; trad. franc. Lefebvre, 1928.
Coll. Pap, = Collected Papers, vols. I-VI, ed.
    Hartshorne e Weiss, 1931-35; vols. VII-VIII,      Schelling (1775-1854)
   ed. Burks, 1958.                                   Werke = Smmtliche Werke, organizada pelo
                                                         filho K. F. A. Schelling: I srie (obras j edita-
Plato (c. 427-c. 347 a.C.)                              das), 10 vols.; II srie (obras inditas), 4
Ale, I, II = Alcibiades, I, II.                          vols., 1.856 ss.
XII                           LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURAS


Schopenhauer (1788-1860)                           Stobeo (sc. V)
Die Welt = Die Welt ais Wille und Vorstellung,     Ed. = Eclogaephysicaeetethicae, ed. Wachsmuth
   1819; 2a ed., 1844; trad. it. P. Savi-Lopez e       e Hense, 1884-1923.
   G. De Lorenzo, Bari, 1914-30.                   Spinoza
                                                   Et. = Ethica more geomtrico demonstrata, 1677,
Scotus Erigena (sc. D0                                in Opera, ed. Wachsmuth e Hense, 1884-1923.
De divis, nat. = De divisione naturae, nella P.
   L, 122.                                         Telsio (1509-1588)
                                                   De rer. nat. = De rerum natura iuxta prpria
                                                      principia, I-II, 1565; III-IX, 1586; ed. Spam-
Sneca (12 a.C-65 d.C.)                               panato, 1910-23.
Ep. = Epistulae moralesadLucilium, ed. Beltrami,
    1931; trad. it. U. Boella, Torino, 1951.       Wittgenstein (1889-1951)
                                                   Tractatus= Tractatns logicophilosophicus, 1922.
Sexto Emprico (180-220.)
Adv. math. = Adversus mathematicos, ed. Mau,       Wolff (1679-1754)
    1954.                                          Cosm. = Cosmologia generalis, 1731-
Pirr. hyp. = Pirroneion hypotyposeon libri trs,   Log. = Philosophia rationalis, siveLgica, 1728.
   ed. Mutschmann, 1912.                           Ont. = Philosophia prima sive Ontologia, 1729.




      Outras abreviaturas no esto registradas acima porque ou so de uso corrente entre os
estudiosos, ou so de compreenso imediata, como Ap., para Apndice; Fil. para Filosofia;
Phil. para Philosophie ou Philosophy; Intr. para Introduo; Schol. para scholium; etc.
                                               A

    A. 1. Foi Aristteles quem usou pela primei-     1). Durante muito tempo essa frmula expri-
ra vez, particularmente em Analticos, as pri-      miu o princpio de identidade e, ao mesmo
meiras letras maisculas do alfabeto, A, B, F,      tempo, constituiu um tipo de verdade absoluta-
para indicar os trs termos de um silogismo.        mente indubitvel. Diz Boutroux: "O princpio
Todavia, como na sua sintaxe o predicado           de identidade pode ser assim expresso: A  A.
posto antes do sujeito (A vnp%ti tco B, "A        No digo o Ser, mas simplesmente A, isto ,
inerente [ou pertence] a B"), em geral em Ana-      qualquer coisa, absolutamente qualquer, susce-
lticos os sujeitos so B e L. Na Lgica da Idade   tvel de ser concebida, etc." (De 1'ide de loi
Moderna, com o costume de se escrever "A est        naturelle, 1895, p. 12).
B", A tornou-se normalmente o smbolo do                5. No simbolismo de Lukasiewicz a letra "A"
sujeito.                                             usada como o smbolo da disjuno para a
    2. A partir dos tratadistas escolsticos (ao    qual se emprega mais comumente o smbolo
que parece, de Introductiones de Guilherme          "V" (cf. A. CHURCH, Introduction to Mathema-
de Shyreswood, sc. XIII), a letra A  usada na     tical Logic, nota 91).
Lgica formal "aristotlica" como smbolo da           ABALIEDADE. V. ASF.IDADE.
proposio universal afirmativa (v.), segundo
os conhecidos versos que chegaram at ns em            ABDERITISMO (ai. Abderitismus). Assim
vrias redaes. Nas Summulae de Pedro His-         Kant designou a concepo que considera que
pano (ed. Bochenski, 1. 21), l-se:                 a histria no est em progresso nem em re-
    A affirmat, negat E, sed universaliter          gresso, mas sempre no mesmo estado. Deste
ambae,                                              ponto de vista, a histria humana no teria
    I affirmat, negat O, sed particulariter         mais significado do que a de qualquer espcie
ambae.                                              animal; seria apenas mais penosa (Se o gnero
    3. Na lgica modal tradicional, a letra A de-   humano esta em constante progresso para o
signa a proposio modal que consiste na            melhor, 1798).
afirmao do modo e na afirmao da propo-              ABDUO (gr. nayorf]; lat. Keductio; in.
sio. P. ex.: " possvel que p" onde p  uma      Abduction; fr. Abduction; ai. Abduction; it.
proposio afirmativa qualquer (ARNAULD, Log.,      Abduzion).  um processo de prova indireta,
II, 8).                                             semidemonstrativa (teorizado por Aristteles
    4. Na frmula "A  A" ou "A=A", que come-       em Top., VIII, 5, 159 b 8, e 160 a 11 ss.; An.pr,
ou a ser usada com Leibniz como tipo das ver-      II, 25, 69 a 20 ss.), em que a premissa maior 
dades idnticas e foi adotada depois por Wolff      evidente, porm a menor  s provvel ou de
e por Kant como expresso do chamado prin-          qualquer forma mais facilmente aceita pelo
cpio de identidade (v.), A significa um objeto     interlocutor do que a concluso que se quer
ou um conceito qualquer. Fichte dizia: "Todos       demonstrar. Embora se trate de um processo
concordam que a proposio A  A (assim             mais dialtico do que apodtico, j fora admiti-
como A=A porque este  o significado da c-         do por Plato (cf. Men., 86 ss.) para a matem-
pula lgica) e, de fato, no  preciso pensar       tica, e tambm ser sancionado como um dos
muito para reconhec-la como plenamente cer-        mtodos de demonstrao matemtica por
ta e indubitvel" (Wissenschaftslehre, 1794,        Proclo (In Eucl, 212, 24).
ABERTO                                                                                   ABSOLUTISMO


   Peirce introduziu o termo abduction (ou              mim, salv-la-". Por isso nos Evangelhos, a
retroducton) para indicar o primeiro momento            noo de abnegao no  uma noo de mo-
do processo indutivo, o da escolha de uma                ral asctica, mas exprime o ato da renovao
hiptese que possa servir para explicar determi-         crist, pelo qual da negao do homem velho
nados fatos empricos (Coll. Pap., 2.643).              nasce o homem novo ou espiritual.
   ABERTO (in. Open; fr. Oiwert; it. Aperto).               ABSOLUTISMO (in. Absolutisni; fr. Absolu-
Adjetivo empregado freqentemente em sen-                tisme, ai. Absolutismus; it. Assolutismo). Termo
tido metafrico na linguagem comum e filo-              cunhado na primeira metade do sc. XVIII para
 sfica para indicar atitudes ou instituies que        indicar toda doutrina que defenda o "poder ab-
 admitem a possibilidade de participao ou co-         soluto" ou a "soberania absoluta" do Estado. No
 municao ampla ou at mesmo universal. Um             seu sentido poltico original, esse termo agora
 "esprito aberto"  um esprito acessvel a su-         designa: le o A. utopista de Plato em Rep-
gestes, conselhos, crticas que lhe vm dos             blica; 2- o A. papal afirmado por Gregrio VII
 outros ou da prpria situao e que est dis-          e por Bonifcio VIII, que reivindica para o Papa,
posto a levar em conta, isto , sem preconcei-          como representante de Deus sobre a Terra, a
tos, tais sugestes. Uma "sociedade aberta"            plenitudopotestatis, isto , a soberania absoluta
uma sociedade que possibilita a correo de             sobre todos os homens, inclusive os prncipes,
suas instituies por vias pacficas (K. POPPER,        os reis e o imperador; 3Q o A. monrquico do
The Open Society and it Enemies, Londres,               sc. XVI, cujo defensor  Hobbes; 4B o A. demo-
1945). Bergson deu o nome de sociedade aber-            crtico, teorizado por Rousseau no Contrato so-
ta quela que "abraa a humanidade inteira"             cial, por Marx e pelos escritores marxistas como
(Deux sources, 1932,1; trad. ital., p. 28). C. Morris   "ditadura do proletariado". Todas essas formas
falou de um "eu aberto" (The Open Self, 1948),          do A. defendem igualmente, embora com moti-
A. Capitini de uma "religio aberta" (Religione         vos ou fundamentos vrios, a exigncia de que
aperta, 1955).                                          o poder estatal seja exercido sem limitaes ou
   AB ESSE AD POSSE.  uma das consequen-               restries. A exigncia oposta, prpria do libe-
tiaeformales (v. CONSEQNCIA) da Lgica Esco-          ralismo (v.),  a que prescreve limites e restri-
lstica; ab esse ad posse valet (tenef) con-            es para o poder estatal.
sequentia, ou, com maior rigor, ab Ma de inesse             No uso filosfico corrente, esse termo no
valet (tenet) Ma depossibili; isto : de "'p'  ver-    se restringe mais a indicar determinada doutri-
dadeira" segue-se que "'p'  possvel". G. P.           na poltica, mas estende-se  designao de
   AB INVTDIA. Assim Wolff denomina "as ra-             toda e qualquer pretenso doutrinai ou prtica
zes com as quais se provoca dio contra as             ao absoluto, em qualquer campo que seja con-
opinies dos outros" (Log.,  1.049).  o assunto       siderado. Diz, p. ex., Reiehenbach (The Theory
preferido pelos "perseguidores", isto , por            of Probablty, p. 378): "Devemos renunciar a
aqueles "que, com o pretexto de defender a              todos os resduos do A. para compreender o
verdade, procuram levar os adversrios ao pe-           significado da interpretao, em termos de fre-
rigo de perderem a fama, a fortuna ou a vida"           qncia, de uma assero de probabilidade em
(Ibid.,  1.051).                                       torno de um caso individual. No h lugar para
   ABISSAL, PSICOLOGIA. V. PSICOLOGIA, E.               o A. na teoria das asseres de probabilidade
   ABNEGAO (gr. 7rpvr|Oi; lat. Abnega-             referentes  realidade fsica. Tais asseres so
tio-, in. Self-denial; fr. Abngation; ai. Verleu-      usadas como regras de conduta, como regras
gnung- it. Abnegacione).  a negao de si              que determinam a conduta mais eficaz em
mesmo e a disposio de pr-se a servio dos            dado estgio do conhecimento. Quem quiser
outros ou de Deus, com o sacrifcio dos pr-            encontrar algo a mais nessas asseres des-
prios interesses. Assim  descrita essa noo no        cobrir no fim que perseguiu uma quimera". O A.
Evangelho (Mat., XVI, 24; Luc, IX, 23): "Se al-         filosfico no  tanto de quem fala do Absoluto
gum quer vir aps mim, renuncie a si mesmo,            ou de quem lhe reconhece a existncia, mas de
e tome cada dia a sua cruz". Essa negao de si         quem afirma que o prprio absoluto apoia suas
mesmo, porm, no  a perda de si mesmo,                palavras e lhes d a garantia incondicional de ve-
mas, antes, o reencontro do verdadeiro "si              racidade. Nesse sentido, o prottipo do A.
mesmo", como se explica no versculo seguin-            doutrinai  o Idealismo romntico, segundo o
te: "pois quem quiser conservar a sua vida,             qual, na filosofia, no  o filsofo como ho-
perd-la-; mas quem perder a sua vida por              mem que se manifesta e fala, mas o prprio
ABSOLUTO                                                                                  ABSOLUTO

Absoluto que chega  sua conscincia e se ma-           A grande voga filosfica desse termo deve-
nifesta.                                            se ao Romantismo. Fichte fala de uma "dedu-
    ABSOLUTO (in. Absolute; fr. Absolu; ai.         o A.", de "atividade A.", de "saber A.", de "re-
Absoluto; it. Assoluto). O termo latino absolutas   flexo A.", de "Eu A.", para indicar, com esta
(desligado de, destacado de, isto , livre de       ltima expresso, o Eu infinito, criador do
toda relao, independente) provavelmente           mundo. E na segunda fase de sua filosofia,
corresponde ao significado do termo grego           quando procura interpretar o Eu como Deus,
kath' auto (ou por si) a propsito do qual diz      usa a palavra de modo to abusivo que beira o
Aristteles: "Por si mesmo e enquanto ele mes-      ridculo: "O A.  absolutamente aquilo que ,
mo significam a mesma coisa; p. ex.: o ponto       repousa sobre si e em si mesmo absolutamen-
e a noo de reta pertencem  linha por si por-     te", "Ele  o que  absolutamente porque  por
que pertencem  linha enquanto linha" (An.          si mesmo... porque junto ao A. no permanece
post., I, 4, 73 b 30 ss.). Nesse sentido, essa      nada de estranho, mas esvai-se tudo o que no
palavra qualificaria uma determinao que per-       o A." (Wissenschaftslehre, 1801,  5 e 8;
tence a uma coisa pela prpria substncia ou         Werke, II, pp. 12, 16). A mesma exagerao
essncia da coisa, portanto, intrinsecamente.       dessa palavra acha-se em Schelling, que, assim
Esse  um dos dois significados da palavra dis-     como Fichte da segunda maneira, emprega,
tinguidos por Kant, o que ele considera mais        alm disso, o substantivo "A." para designar o
difundido, mas menos preciso. Nesse sentido,        princpio infinito da realidade, isto , Deus. O
"absolutamente possvel" significa possvel "em     mesmo uso da palavra reaparece em Hegel,
si mesmo" ou "intrinsecamente" possvel. Des-       para quem, como para Fichte e Schelling, o A.
se significado Kant distingue o outro, que con-     , ao mesmo tempo, o objeto e o sujeito da
sidera prefervel, segundo o qual essa palavra      filosofia e, embora definido de vrias formas,
significaria "sob qualquer relao"; nesse caso,    permanece caracterizado pela sua infinida-
"absolutamente possvel" significaria possvel      de positiva no sentido de estar alm de to-
sob todos os aspectos ou sob todas as relaes      da realidade finita e de compreender em si
(Crt. R. Pura, Dial. transe, Conceitos da razo    toda realidade finita. O princpio formulado na
pura, se. II).                                     Fenomenologia (Pref.) de que "o A.  essen-
    Esses dois significados se mantm ainda no      cialmente o resultado" e de que "s no fim est
uso genrico dessa palavra, mas o segundo           o que  em verdade" leva Hegel a chamar de
prevalece, talvez por ser menos dogmtico e         Esprito A. os graus ltimos da realidade, aque-
no fazer apelo ao misterioso em si ou  natu-      les em que ela se revela a si mesma como
reza intrnseca das coisas. P. ex., dizer "Isto    Princpio autoconsciente infinito na religio, na
absolutamente verdadeiro" pode eqivaler a          arte e na filosofia. O Romantismo fixou assim o
dizer "Esta proposio contm em si mesma           uso dessa palavra tanto como adjetivo quanto
uma garantia de verdade"; rna.s pode tambm         como substantivo. Segundo esse uso, a pala-
querer dizer "Esta proposio foi amplamente        vra significa "sem restries", "sem limitaes",
verificada e nada h ainda que possa provar         "sem condies"; e como substantivo significa
que ela  falsa"; este segundo significado         a Realidade que  desprovida de limites ou
menos dogmtico do que o primeiro. Assim,           condies, a Realidade Suprema, o "Esprito"
responder "Absolutamente no" a uma pergunta        ou "Deus". J Leibniz dissera: "O verdadeiro in-
ou a um pedido significa simplesmente avisar        finito, a rigor, nada mais  que o A." (Nouv. ess.,
que este "no" est solidamente apoiado por         II, 17,  1). E na realidade esse termo pode ser
boas razes e ser mantido. Esses usos comuns       considerado sinnimo de "Infinito" (v.). Em vis-
do termo correspondem ao uso filosfico que,        ta da posio central que a noo de infinito
genericamente,  o de "sem limites", "sem res-      ocupa no Romantismo (v.), entende-se por que
tries", e portanto "ilimitado" ou "infinito".     esse sinnimo foi acolhido e muito utilizado no
Muito provavelmente a difuso dessa palavra,        perodo romntico. Na Frana, essa palavra foi
que tem incio no sc. XVIII (embora tenha          importada por Cousin, cujos vnculos com o
sido Nicolau de Cusa que definiu Deus como o        Romantismo alemo so conhecidos. Na In-
A., De docta ignor, II, 9),  devida  lingua-      glaterra, foi introduzida por William Hamilton,
gem poltica e a expresses como "poder A.",        cujo primeiro livro foi um estudo sobre a Filo-
"monarquia A.", etc, nas quais a palavra signi-     sofia de Cousin (1829); e essa noo tornou-se
fica claramente "sem restries" ou "ilimitado".    a base das discusses sobre a cognoscibilida-
ABSORO, LEI DE                                                                         ABSTRAO

de de A., iniciadas por Hamilton e Mansel e          it. Astrazion).  a operao mediante a qual
continuadas pelo evolucionismo positivista           alguma coisa  escolhida como objeto de per-
(Spencer, etc), que, assim como esses dois           cepo, ateno, observao, considerao,
pensadores, afirmou a existncia e, ao mesmo         pesquisa, estudo, etc, e isolada de outras coi-
tempo, a incognoscibilidade do Absoluto. Na          sas com que est em uma relao qualquer. A
filosofia contempornea, essa palavra foi am-        A. tem dois aspectos: l2 isolar a coisa previa-
plamente usada pela corrente que estava mais         mente escolhida das demais com que est rela-
estreitamente ligada ao Idealismo romntico,         cionada (o abstrair de); 2- assumir como objeto
isto , pelo Idealismo anglo-americano (Green,       especfico de considerao o que foi assim iso-
Bradley, Royce) e italiano (Gentile, Croce),         lado (A. seletiva ou prescindente). Esses dois
para designar a Conscincia infinita ou o Espri-    significados j foram distinguidos por Kant
to infinito.                                         (Logik,  6), que, porm, pretendia reduzir a A.
    Essa palavra permanece, portanto, ligada a       somente  primeira dessas formas.
uma fase determinada do pensamento filosfi-             A A.  inerente a qualquer procedimento
co, mais precisamente  concepo romntica          cognoscitivo e pode servir para descrever todo
do Infinito, que compreende e resolve em si          processo desse gnero. Com tal finalidade foi
toda realidade finita e no , por isso, limitado    utilizada desde a Antigidade. Aristteles expli-
ou condicionado por nada, nada tendo fora de         ca com a A. a formao das cincias teorticas,
si que possa limit-lo ou condicion-lo. No seu      isto , da matemtica, da fsica e da filosofia
uso comum, assim como no filosfico, esse            pura. "O matemtico", diz ele, "despoja as coi-
termo continua significando o estado daquilo
                                                     sas de todas as qualidades sensveis (peso, le-
que, a qualquer ttulo,  desprovido de condi-
                                                     veza, dureza, etc.) e as reduz  quantidade
es e de limites, ou (como substantivo) aquilo
que se realiza a si mesmo de modo necessrio e       descontnua e contnua; o fsico prescinde de
infalvel.                                           todas as determinaes do ser que no se redu-
                                                     zam ao movimento. Analogamente, o filsofo
    ABSORO, LEI DE (in. Law of absorption;         despoja o ser de todas as determinaes parti-
fr. Loi d'absorption; it. Leggi di assorbimen-
                                                     culares (quantidade, movimento, etc.) e limita-
to). Com esse nome designam-se na Lgica
                                                     se a consider-lo s enquanto ser" (Met., XI, 3,
contempornea os dois teoremas da lgebra
das proposies:                                     1.061 a 28 ss.). O processo todo do conhecer
                                                     pode ser, segundo Aristteles, descrito com a
                                                     A.: "O conhecimento sensvel consiste em assu-
   pr\pq = p;                    p(.pr\q)=p,         mir as formas sensveis sem a matria assim
                                                     como a cera assume a marca do sinete sem o
e os dois teoremas correspondentes da lge-          ferro ou o ouro de que ele  composto" (De
bra das classes:                                     an., II, 12, 424 a 18). E o conhecimento intelec-
                                                     tual recebe as formas inteligveis abstraindo-as
   a x\ab =a;                     a (ar\b) = a.      das formas sensveis em que esto presentes
                                                     (ibid., III, 7, 431 ss.). S. Toms reduz o conheci-
   A A. , nessas expresses, a possibilidade        mento intelectual  operao de A.: abstrair a
lgica de substituir-sep porpvpq ou porp(/>r)        forma da matria individual e assim extrair o
q) nas primeiras expresses; ou a por a r\ ab        universal do particular, a espcie inteligvel das
ou por a(ar\ b) nas segundas expresses. (Cf.        imagens singulares. Assim como podemos con-
CHURCH, Intr. toMathematicalLogic, 15, 8). Fora      siderar a cor de um fruto prescindindo do fruto,
da linguagem da lgica, essa lei significa que,      sem por isso afirmar que ela existe separada-
se um conceito implica outro, ele absorve este       mente do fruto, tambm podemos conhecer as
outro, no sentido de que a assero simultnea       formas ou as espcies universais do homem,
dos dois eqivale  assero do primeiro e           do cavalo, da pedra, etc, prescindindo dos
pode ser, portanto, substituda pela assero        princpios individuais a que esto unidas, mas
deste toda vez que ela reaparea. Cf. TAU-           sem afirmar que existem separadamente des-
TOLOGIA.                                             tes. A A., por isso, no falsifica a realidade, mas
    ABSTRAO (gr. pccpeai; lat. Abstractia,     s possibilita a considerao separada da for-
in. Abstraction; fr. Abstraction; ai. Abstraktion;   ma e, com isso, o conhecimento intelectual hu-
ABSTRAO                                                                                  ABSTRAO

mano (S. Th., I, q. 85, a. 1). Esses conceitos, ou     anlises, todavia, no negam a A., mas a sua
conceitos afins, repetem-se em toda a Es-              noo psicolgica em favor do seu conceito l-
colstica. A Lgica de Port-Royal (I, 4) resumiu       gico-simblico. A A. no  o ato pelo qual o es-
muito bem o pensamento da Escolstica e a es-          prito pensa certas idias separadamente de
treita conexo do processo abstrativo com a            outras; , antes, a funo simblica de certas
natureza do homem, dizendo: "A limitao da            representaes particulares. Kant, porm, su-
nossa mente faz que no possamos compreen-             blinha a importncia da A. no sentido tradicio-
der as coisas compostas seno considerando-as          nal, pondo-a ao lado da ateno como um dos
nas suas partes e contemplando as faces diver-         atos ordinrios do esprito e sublinhando a sua
sas com que elas se nos apresentam: isto  o           funo de separar uma representao, de que
que geralmente se costuma chamar conhecer              se est consciente, das outras com que ela est
por A.".                                               ligada na conscincia. Embora ele exemplifique
    Locke foi o primeiro a evidenciar a estreita       de modo curioso a importncia desse ato ("Mui-
conexo entre o processo de A. e a funo sim-         tos homens so infelizes porque no sabem
blica da linguagem. "Mediante a A.", diz ele,         abstrair". "Um celibatrio poderia fazer bom
"as idias extradas de seres particulares tor-        casamento se soubesse abstrair a partir de uma
nam-se representantes gerais de todos os obje-         verruga do rosto ou a partir da falta de um
tos da mesma espcie e os seus nomes tornam-           dente de sua amada" [Antr.,  31),  claro que o
se nomes gerais, aplicveis a tudo o que existe        procedimento todo de Kant, que tem por fim
e est conforme com tais idias abstratas... As-       isolar (isolieren) os elementos do conhecimento,
sim, observando-se hoje no gesso ou na neve            apriori, ou da atividade humana, em geral, 
a mesma cor que ontem foi observada no leite,          um procedimento abstrativo. Diz ele, por ex.:
considera-se s esse aspecto e faz-se com ele a        "Em uma lgica transcendental, ns isolamos o
representao de todas as outras idias da mes-        intelecto (como acima, na Esttica transcen-
ma espcie; e dando-se o nome 'brancura',              dental, a sensibilidade) e extramos de todo o
com este som significa-se a mesma qualidade,           nosso conhecimento s a parte do pensamen-
onde quer que ela venha a ser imaginada ou             to que tem origem unicamente no intelecto"
encontrada; e assim so compostos os univer-           (Crt. R. Pura, Div. da Lg. transcend.).
sais, quer se trate de idias, quer se trate de            Com Hegel, assiste-se ao estranho fenmeno
termos" (Ensaio, II, 11,  9). Baseando-se nes-        da supervalorizao da A. e da desvalorizao
sas observaes de Locke, Berkeley chegou             do abstrato. Hegel ope-se  opinio de que
negao da idia abstrata e da prpria funo          abstrair significa somente extrair do concreto,
da abstrao. Nega, em outros termos, que o            para proveito subjetivo, esta ou aquela nota que
homem possa abstrair a idia da cor das cores,         constitua o conceito, entre outras que todavia
a idia do homem dos homens, etc. No h, de           permaneceriam reais e vlidas fora do conceito,
fato, a idia de um homem que no tenha ne-            na prpria realidade. "O pensamento abs-
nhuma caracterstica particular, assim como            traente", diz ele, "no pode ser considerado
no h, na realidade, um homem desse gnero.           como pr  parte a matria sensvel que no
As idias gerais no so idias desprovidas de         seria prejudicada por isso em sua realidade; ,
carter particular (isto , "abstratas"), mas idias   antes, superar e reduzir essa matria, que  sim-
particulares assumidas como signos de um gru-          ples fenmeno, ao essencial, que s se ma-
po de outras idias particulares afins entre si. O     nifesta no conceito" (Wissensch. der Logik, III,
tringulo que um gemetra tem em mente para            Do conceito em geral, trad. it., pp. 24-25). O
demonstrar um teorema no  um tringulo               conceito a que se chega com a A. , por isso, se-
abstrato, mas um tringulo particular, p. ex.,         gundo Hegel, a prpria realidade, alis, a subs-
issceles; mas j que no se faz meno desse          tncia da realidade. Por outro lado, todavia, o
carter particular durante a demonstrao, o           abstrato  considerado por Hegel como o que 
teorema demonstrado vale para todos os trin-          finito, imediato, no posto em relao com o
gulos indistintamente, podendo cada um deles           todo, no resolvido no devir da Idia, e por isso
tomar o lugar do que foi considerado (Princ. of        produto de uma perspectiva provisria e falaz.
Hum. Know., Intr.,  16). Hume repetiu a anli-        "O abstrato  o finito, o concreto  a verdade, o
se negativa de Berkeley {Treatise, I, 1, 7). Tais      objeto infinito" (Phil. derReligion, II, em Werke,
ABSTRAO                                                            ABSTRATTVO, CONHECIMENTO


ed. Glockner, XVI, p. 226). "Somente o concreto        s verdadeiras e prprias entidades abstratas,
 o verdadeiro, o abstrato no  o verdadei-           como p. ex., na matemtica. "O fato mais co-
ro" (Geschicbte der Phil, III, em Werke, ed.           mum da percepo, como, p. ex., 'h luz', impli-
Glockner, XIX, p. 99). Est claro, todavia, que        ca A. prescindente ou prescindncia. Mas a A.
Hegel entende por abstrato aquilo que co-              hiposttica, que transforma 'h luz' em 'h luz
mumente se chama concreto -- as coisas, os             aqui', que  o sentido que dou comumente 
objetos particulares, as realidades singulares         palavra A. (desde que prescindncia indica a A.
oferecidas ou testemunhadas pela experincia           prescindente),  um modo especialssimo do
-- enquanto chama de concreto o que o uso co-          pensamento. Consiste em tomar certo aspecto
mum e filosfico sempre chamou de abstrato,            de um objeto ou de vrios objetos percebidos
isto , o conceito; e chama-o de concreto por-         (depois que j foi 'pr-cindido' dos outros as-
que este constitui, para ele, a substncia mesma       pectos de tais objetos) e em exprimi-lo de forma
da realidade (conforme o seu princpio "Tudo           proposicional com um juzo" (Coll. Pap., 4.235;
o que  racional  real e tudo o que  real  ra-      cf. 3.642; 5.304). Essa distino que j fora ace-
cional"). De qualquer forma, essa inverso de          nada por James (Princ. ofPsychol, I. 243) e
significado permitiu que boa parte da filosofia        aceita por Dewey {Logic, cap. 23; trad. it., pp.
do sc. XIX se pronunciasse a favor do concreto        603-604) no impede que tanto a prescindncia
e contra o abstrato, ainda quando o "concreto"         quanto a A. hiposttica sejam especificaes da
de que se tratava era, na realidade, uma simples       funo geral seletiva, que tradicionalmente foi
A. filosfica. Gentile falava, p. ex., de uma "lgi-   indicada pela palavra "abstrao". Paul Valry
ca do abstrato", ou do pensamento pensado, e           insistiu poeticamente na importncia da A. em
de uma "lgica do concreto", ou do pensamen-           todas as constaies humanas, logo tambm
to pensante (Sistema di lgica, I, 1922, pp. 119       na arte: "Estou dizendo que o homem fabrica
ss.). Croce falava da "concretitude" do conceito       por A.; ignorando e esquecendo grande parte
como imanncia deste nas representaes sin-           das qualidades daquilo que emprega, aplican-
gulares e da "abstrateza" das noes considera-        do-se somente a condies claras e distintas
das desligadas dos particulares ilgica, A- ed.,       que podem, via de regra, ser simultaneamente
1920, p. 28). Bergson contraps constantemente         satisfeitas no por uma, mas por muitas esp-
o tempo "concreto" da conscincia ao tempo             cies de matrias" (Eupalinos, trad. ital., p. 134).
"abstrato" da cincia e, de modo geral, o proce-           ABSTRACIONISMO (in. Abstractionisni; fr.
dimento da cincia que se vale de conceitos ou         Abstractionnisme, ai. Abstraktionismus; it. As-
smbolos, isto , de "idias abstratas ou gerais",     trazionismo). Assim William James (The Mea-
ao procedimento intuitivo ou simptico da filo-        ning of Truth, 1909, cap. XIII) denominou o
sofia (cf., p. ex., Lapenseet le mouvant, 3- ed.,     uso ilegtimo da abstrao e em particular a
1934, p. 210). Esses temas polmicos foram             tendncia a considerar como reais os produtos
bastante freqentes na filosofia dos primeiros         da abstrao.
decnios do nosso sculo. E certamente a pol-
                                                          ABSTRATAS, CINCIAS. V. CINCIAS, CLASSI-
mica contra a A. foi eficaz contra a tendncia de
                                                       FICAO DAS.
entificar os produtos dela, isto , de considerar
                                                          ABSTRATAS, IDIAS. V. ABSTRAO.
como substncias ou realidades, entidades que
no tm outra funo seno possibilitar a des-            ABSTRATIVO, CONHECIMENTO (lat
crio, a classificao e o uso de um complexo         Cognitio abstractiva-, in. Abstractive knowledge,
de dados. Mas, por outro lado, essa mesma po-          fr. Connaissance abstractive, ai. Abstrahierende
lmica s vezes fez esquecer a funo da A. em         Erkenntniss; it. Conoscenza astrattiva). Termo
todo tipo ou forma de atividade humana, en-            que Duns Scot empregou de modo simtrico
quanto tal atividade s pode operar atravs de         e oposto ao de conhecimento intuitivo (cog-
selees abstrativas. Mach insistiu nessa funo       nitio intuitiva), para indicar uma das esp-
da A. nas cincias, afirmando que ela  indis-         cies fundamentais do conhecimento: a pri-
pensvel para a observao dos fenmenos,              meira delas "abstrai de toda existncia atual"
para a descoberta, ou para a pesquisa dos prin-        enquanto a segunda "se refere ao que existe
cpios (Erkenntniss undIrrtum, cap. VIII; trad.        ou ao que est presente em certa existncia
fr., pp. 146 ss.). A esse propsito foi oportuna-      atual" (Op. Ox., II, d. 3, q. 9, n. 6). A distino
mente distinguida por Peirce uma dupla funo          foi aceita por Durand de St. Pourain (In Sent,
da A.: a de operao seletiva e a que d ensejo        Prol, q. 3, F) e por Ockham, que, porm, a
                                                       reinterpretou a seu modo, entendendo por co-
ABSTRATOR                                                                                   ACADEMIA


nhecimento intuitivo aquele mediante o qual se              Em sentido mais restrito e preciso, essa pa-
conhece com evidncia a realidade ou a irrea-           lavra significa "impossvel" (adynatori) porque
lidade de uma coisa ou de algum outro atributo          contraditrio. Nesse sentido, Aristteles falava
emprico da prpria coisa; portanto, em geral,          de raciocnio por A. ou de reduo ao A.: seria
"toda noo simples de um termo ou de vrios            um raciocnio que assume como hiptese a
termos de uma coisa ou de vrias coisas, em vir-        proposio contrria  condio que se quer
tude da qual se possa conhecer alguma verdade           demonstrar e faz ver que de tal hiptese deriva
contingente especialmente em torno do objeto            uma proposio contraditria  prpria hipte-
presente" (In Sent., Prol., q. 1, Z.). F. entendeu      se (An. pr, II, 11-14, 61 ss.). A demonstrao
por conhecimento abstrativo o que prescinde da          por A., acrescenta Aristteles (ibid., 14, 62 b
realidade ou da irrealidade do objeto e  uma           27), distingue-se da demonstrao ostensiva
espcie de imagem ou cpia do conhecimento              porque assume aquilo que, com a reduo ao
intuitivo. Nada se pode conhecer abstrativa-            erro reconhecido, quer destruir; a demonstra-
mente, diz ele, que no tenha sido conhecido            o ostensiva, ao contrrio, parte de premissas
intuitivamente, seno at mesmo o cego de nas-          j admitidas. Leibniz chamou de demonstrao
cena poderia conhecer as cores (Ibid, I, d. 3, q.      apaggica o raciocnio por A. e considerou-o
2, K). Essa doutrina do conhecimento intuitivo         til ou pelo menos dificilmente eliminvel, no
a primeira formulao da noo de experincia           domnio da matemtica (Nouv. ess., IV, 8,  2).
no sentido moderno do termo (V. EXPERINCIA).           Kant, que emprega o mesmo nome, justifi-
    ABSTRATOR. V. OPERADOR.                             cou-o nas cincias, mas o excluiu da filosofia.
    ABSTRUSO (lat. Abstrusus [= escondido];             Justificou-o nas cincias porque nestas  im-
in. Abstruse, fr. Abstrus; ai. Abstrus; it. Astruso).   possvel o modus ponens de chegar  verdade
Termo pejorativo para qualificar qualquer no-           de um conhecimento a partir da verdade das
o inslita ou de difcil compreenso; ou,             suas conseqncias: seria necessrio, de fato,
como diz Locke (Ensaio, II, 12,  8), "distante         conhecer todas as conseqncias possveis: o
dos sentidos e de toda operao do nosso esp-          que  impossvel. Mas, se de uma proposio
rito". Esse termo  aplicado sobretudo a no-            pode ser extrada ainda que uma s conse-
es abstratas, mas aplica-se igualmente a noes       qncia falsa, a proposio  falsa: por isso o
que se afastem, mais ou menos, do universo              modus tollens dos silogismos conclui ao mes-
comum do discurso.                                      mo tempo com rigor e com facilidade. Mas
    ABSURDO (gr. cetOTiov, avaxov; lat. Ab-           esse modo de raciocinar  isento de perigos s
surdum; in. Absurd; fr. Absurde, ai. Absurd; it.        nas cincias em que no se pode trocar objeti-
Assurd). Em geral, aquilo que no encontra             vo por subjetivo, isto , nas cincias da nature-
lugar no sistema de crenas a que se faz refe-          za. Em filosofia, porm, essa troca  possvel,
rncia ou que se ope a alguma dessas cren-             isto , pode acontecer que seja subjetivamente
as. Os homens -- e, em especial, os filsofos          impossvel o que no  objetivamente imposs-
-- sempre usaram muito essa palavra para con-           vel. Portanto, o raciocnio apaggico no leva
denar, destruir ou pelo menos afastar de si cren-       a concluses legtimas (Crt. R. Pura, Disciplina
as (verdadeiras ou falsas) ou mesmo fatos ou           da razo pura, IV).
observaes perturbadoras, incmodas ou, de               AB UMVERSALI AD PARTICULAREM. 
qualquer modo, estranhas ou opostas aos sis-            uma das consequentiaeformates (v. CONSEQN-
temas de crenas aceitos por eles. Portanto, no        CIA) da Lgica escolstica: ab universali adpar-
 de surpreender que at mesmo experincias             tcularem, sive ndefinitam sive singularem
ou doutrinas que depois seriam reconhecidas             valet (tenef) consequentia; isto : de "todo A 
como verdadeiras tenham sido por muito ou               B" valem as conseqncias "alguns A so B",
pouco tempo definidas como absurdas. P. ex.:            "A  B", "S (se S  um A)  B".
os antigos reputavam A. a crena nos antpodas              ACADEMIA (gr. 'AKatu.eia; lat. Acade-
porque, no tendo a noo da relatividade das           mia; in. Academy, fr. Acadmie, ai. Akademie,
determinaes espaciais, acreditavam que nos            it. Accademia). Propriamente a escola funda-
antpodas os homens deveriam viver de cabea            da por Plato no ginsio que tomava o nome
para baixo. Nesse sentido, a palavra significa          do heri Academos e que depois da morte de
"irracional", isto , contrrio ou estranho quilo      Plato foi dirigida por Espeusipo (347-339
em que se pode crer racionalmente, ou "in-              a.C), por Xencrates (339-14 a. C.), por Pole-
conveniente", "fora de lugar", etc.                     mon (314-270 a. C.) e por Cratete (270-68 a.C).
ACADEMIA FLORENTINA                                                                               AO

Nessa fase, a Academia continuou a especula-            AO (gr. Tipv; lat. Actio; in. Action; fr.
o platnica, vinculando-a sempre mais estrei-     Action; ai. Tat, Handlung; it. Azione). 1. Termo
tamente ao pitagorismo; pertenceram a ela ma-       de significado generalssimo que denota qual-
temticos e astrnomos, entre os quais o mais       quer operao, considerada sob o aspecto do
famoso foi Eudoxo de Cnido. Com a morte de          termo a partir do qual a operao tem incio ou
Cratete, a Academia mudou de orientao com         iniciativa. Nesse significado, a extenso do ter-
Arcesilau de Pitane (315 ou 314-241 ou 240          mo  coberta pela categoria aristotlica do fazer
a.C), encaminhando-se para um probabilismo          (Tiovev), cujo oposto  a categoria da paixo
que derivava da poca em que Plato afirmara,       (v.) ou da afeio (v.). Fala-se, assim, da A. do
sobre o conhecimento das coisas naturais, que       cido sobre os metais ou do "princpio de A. e
estas, no tendo nenhuma estabilidade e soli-       de reao" ou da A. do DDT sobre os insetos;
dez, no podem dar origem a um conhecimen-          ou ento fala-se da A. livre ou voluntria ou res-
to estvel e slido, mas s a um conhecimento       ponsvel, isto , prpria do homem e qualifica-
provvel. De Arcesilau e de seus sucessores         da por condies determinadas. Produzir, cau-
(de que no sabemos quase nada) esse ponto          sar, agir, criar, destruir, iniciar, continuar,termi-
de vista estendeu-se a todo o conhecimen-           nar, etc. so significados que inscrevem-se nesse
to humano no perodo que se chamou de               significado genrico de ao.
"Academia mdia". A "nova Academia" comea              2. Aristteles foi o primeiro a tentar destacar
com Camades de Cirene (214 ou 212-129 ou           desse significado genrico um significado espe-
128 a.C); essa orientao de tendncia ctica e     cfico pelo qual o termo pudesse referir-se so-
probabilstica foi mantida at Flon de Larissa,    mente s operaes humanas. Assim, comeou
que, no sculo I a.C, iniciou a IV Academia, de     excluindo da extenso da palavra as operaes
orientao ecltica, na qual Ccero se inspirou.    que se realizam de modo necessrio, isto , de
Mas a Academia Platnica durou ainda por            um modo que no pode ser diferente do que .
muito tempo e sua orientao tambm se reno-        Tais operaes so objeto das cincias teo-
vou no sentido religioso-mstico, que  prprio     rticas, matemtica, fsica e filosofia pura. Essas
do Neoplatonismoiy.). S em 529 o imperador         cincias referem-se a realidades, fatos ou even-
Justiniano proibiu o ensino da filosofia e con-     tos que no podem ser diferentes do que so.
fiscou o rico patrimnio da Academia. Da-           Fora delas est o domnio do possvel, isto , do
mscio, que a dirigia, refugiou-se na Prsia        que pode ser de um modo ou de outro; mas
com outros companheiros, entre os quais Sim-        nem todo o domnio do possvel pertence 
plcio, autor de um vasto comentrio a Aris-        ao. Dele  preciso, com efeito, distinguir o da
tteles, mas logo voltaram desiludidos. Foi as-     produo, que  o domnio das artes e que tem
sim que terminou a tradio independente do         carter prprio e finalidade nos objetos produ-
pensamento platnico.                               zidos (Et. nic, VI, 3-4, 1.149 ss.). S. Toms
   ACADEMIA FLORENTINA. Foi fundada                 distingue A. transitiva (transiens), que passa
por iniciativa de Marslio Ficino e de Cosimo       de quem opera sobre a matria externa, como
de Mediei e reuniu um crculo de pessoas que        queimar, serrar, etc, e A. imanente (imma-
viam a possibilidade de renovar o homem e a         nens), que permanece no prprio agente, como
sua vida religiosa mediante um retorno s           sentir, entender, querer (S. Tb., II, I, q. 3, a 2; q.
doutrinas genunas do platonismo antigo. Nes-       111, a. 2). Mas a chamada A. transitiva nada
sas doutrinas, os adeptos do platonismo, espe-      mais  do que o fazer ou produzir, de que fala
cialmente Ficino (1433-1499) e Cristvo Lan-       Aristteles (ibid., II, I, q. 57, a. 4). Nessas obser-
dino (que viveu entre 1424 e 1498), viam a          vaes de S. Toms, assim como nas de
sntese de todo o pensamento religioso da An-       Aristteles, est presente a tendncia a reconhe-
tigidade e, portanto, tambm do cristianismo       cer a superioridade da A. chamada imanente,
e por isso a mais alta e verdadeira religio pos-   que se consuma no interior do sujeito operante:
svel. A esse retorno ao antigo ligou-se outro      A. que, de resto, outra coisa no  seno a ativi-
aspecto da Academia florentina, o anticuria-        dade espiritual ou o pensamento ou a vida
lismo; contra as pretenses de supremacia pol-     contemplativa. S. Toms diz, com efeito, que s
tica do papado, a Academia sustentava um re-        a A. imanente  "a perfeio e o ato do agente",
torno  idia imperial de Roma; por isso, De        enquanto a A. transitiva  a perfeio do termo
monarchia de Dante (V. RENASCIMENTO) era obje-      que sofre a A. {ibid., II, I, q. 3, a 2). Por outro
to freqente de comentrios e discusses.           lado, S. Toms distingue, na A. voluntria, a A.
AO, FILOSOFIA DA                                                             AO, FILOSOFIA DA

comandada, que  a ordenada pela vontade, p.          do da razo prtica, de que Kant falara, no ti-
ex., caminhar ou falar, e a A. elcita da vontade,    nha significado fora do domnio moral; mas
que  o prprio querer. O fim ltimo da A. no        com Fichte esse primado significa que s na A.
 o ato elcito da vontade, mas o comandado: j       o homem se identifica com o Eu infinito. O
que o primeiro apetecvel  o fim a que tende a       smbolo da filosofia da A. pode ser expresso
vontade, no a prpria vontade iibid., II, I, q. 1,   na frase de Fausto, na obra de Goethe, que
a. 1 ad 2a). Esses conceitos permaneceram du-         propunha traduzir In principio erat Verbum
rante muito tempo inalterados e so pressupos-        do IV Evangelho por "No princpio era a A.".
tos tambm pela chamada filosofia da A. (v.);             Foi com esses pressupostos romnticos que
esta, se tende a exaltar a A. como um caminho         a filosofia da A. se vinculou; na Frana, atravs
para entrar em comunicao mais direta com a          de OU-Laprune (1830-99) e de Blondel (1861-
realidade ou o Absoluto, ou na posse mais se-         1949), assumiu forma religiosa: para ela a A. 
gura destes, no se preocupa muito em forne-          o ncleo essencial do homem e s uma anlise
cer um esquema conceituai da A. que lhe deter-        da A. pode mostrar as necessidades e as defi-
mine as constantes. Essa tentativa, porm, foi        cincias do homem, assim como sua aspirao
feita por cincias particulares, em vista das suas    ao infinito, que, por sua vez, s pode ser satis-
exigncias, especialmente pela sociologia. As-        feita pela A. gratuita e misericordiosa de Deus.
sim, p. ex., Talcott Parsons determinou o esque-      A supremacia da A. era transferida por George
ma da ao. Esta implicaria: 1Q um agente ou          Sorel (1847-1922) do domnio religioso para o
um ator; 2Q um fim ou estado futuro de coisas         social e poltico. Aqui a ao se desembaraava
em relao ao qual se orienta o processo da A.;       de toda limitao factual ou racional e era re-
3U uma situao inicial que difira em um ou           conhecida como capaz de criar por si, com o
mais importantes aspectos do fim a que tende a        mito, a sua prpria justificao (Rflexions sur
A.; 4e certo complexo de relaes recprocas en-      Ia violence, 1906). A crena de que a A. possa
tre os elementos precedentes. "Dentro da rea         produzir por si s as condies cio seu xito e
de controle do ator", diz Parsons, "os meios em-      por si s justificar-se de modo absoluto, consti-
pregados no podem, em geral, ser considera-          tui o ativismo (v.) prprio de algumas correntes
dos como escolhidos ao acaso ou dependentes           filosficas e polticas contemporneas.
exclusivamente das condies da A., mas de-               Por uma das no raras ironias da histria do
vem de algum modo estar sujeitos  influncia         pensamento, justamente uma das correntes que
de determinado fator seletivo independente,           pertencem  filosofia da A. deveria levar a no-
cujo conhecimento  necessrio  compreenso          o de A. at seus limites mximos e enca-
do andamento concreto da A.". Esse fator  a          minh-la para uma nova fase interpretativa. Essa
orientao normativa que, embora possa ser            corrente  o pragmatismo (v.). Se, num pri-
diferentemente orientada, no falta em nenhum         meiro momento, William James declara que a
tipo de A. efetiva (The Structure of Social           A.  a medida da verdade do conhecer e, por-
Action, 1949, pp. 44-45). Esse esquema analti-       tanto, considera-a capaz de justificar propo-
co proposto por Parsons sem dvida cor-               sies morais e religiosas teoricamente in-
responde muito bem s exigncias da anlise           justificveis, as anlises empiristas de James e,
sociolgica; mas pode ser assumido tambm             melhor ainda, as de Dewey deveriam eviden-
em filosofia como base para a compreenso da          ciar o condicionamento da A. por parte das cir-
A. nos vrios campos de que a filosofia se ocu-       cunstncias que a provocam, sua relao com a
pa, isto , no campo moral, jurdico, polti-         siaiao que constitui seu estmulo e, da, os li-
co, etc.                                              mites da sua eficincia e da sua liberdade. Mas,
   AO, FILOSOFIA DA (in. Philosophy of              desse ponto de vista, a A. deixa de estar ligada
Action; fr. Phlosophie de Vaction, it. Filosofia     unicamente ao sujeito e de encontrar unica-
delVazion). Com esse nome indicam-se algu-           mente nele ou na atividade dele (vontade) o
mas manifestaes da filosofia contempornea,         seu princpio. Perde a possibilidade de consu-
caracterizadas pela crena de que a A. constitui      mar-se e de exaurir-se no prprio sujeito; e tor-
o caminho mais direto para conhecer o Absolu-         na-se um comportamento, cuja anlise deve
to ou o modo mais seguro de possu-lo. Trata-         prescindir da diviso das faculdades ou dos
se de uma filosofia de origem romntica: o            poderes da alma, enquanto deve ter presente a
moralismo de Fichte fundava-se na superiori-          situao ou o estado de coisas a que deve ade-
dade metafsica da A. (V. MORALISMO). O prima-        quar-se (V. AO; COMPORTAMENTO).
AO ELCITA e AO COMANDADA                         10                                  AO REFLEXA

   AO ELCITA e AO COMANDADA                           mas  escolha dos conceitos e das hipteses
 (lat. Actus elicitus et actus imperatus). Segundo         para a descrio dos fenmenos naturais (v.
 os Escolsticos, a A. voluntria elcita  a pr-         ECONOMIA).
 pria operao da vontade, o querer, enquanto a                AO RECPROCA. V. RECIPROCIDADE.
A. comandada  dirigida, iniciada e controla-                  AO REFLEXA (in. Reflex action; fr. Ac-
 da pela vontade, como, p. ex., caminhar ou                 tion rflexe, ai. Reflex Bewegung; it. Azione
 falar (S. TOMS, S. Th., II, I, q, 1, a, 1).               riflessd). Em geral, uma resposta mecnica (in-
     AO MNIMA (in. Least action; fr. Moin-              voluntria), uniforme e adaptada, do orga-
 dre action; ai. Kleinsten Aktion; it. Azione mni-         nismo a um estmulo externo ou interno ao
 ma). Princpio de que "a natureza nada faz de              prprio organismo. Um reflexo , p. ex., a con-
intil" (natura nihilfacitfrustra) e segue o ca-           trao da pupila quando o olho  estimulado
minho mais curto e econmico. Essa mxima                   pela luz ou a salivao pelo gosto ou pela vista
encontra-se em Aristteles (Dean., III, 12, 434 a           de um alimento. Do reflexo assim entendido
31; Decael, I, 4, 271 a 32; Depart. an., I, 5, 645          deve distinguir-se o arco reflexo, que  o dis-
a 22),  repetida por S. Toms (In IIIAn., 14) e            positivo anatomofisiolgico destinado a pr o
retomada nos tempos modernos por Galileu,                   reflexo em ao. Tal dispositivo  formado
Fermat, Leibniz, etc. Em 1732, Maupertuis for-             pelo nervo aferente ou centrpeto que sofre o
mulava matematicamente esse princpio e o                  estmulo, pelo nervo eferente ou centrfugo
introduzia em mecnica com o nome de "lei de               que produz o movimento e por uma conexo
economia da natureza" (LexParsimoniae). Mas                entre esses dois nervos, estabelecida nas clu-
tambm para Maupertuis esse princpio conser-              las nervosas centrais. A importncia filosfica
vava o carter finalista que convencera Aris-              dessa noo, elaborada primeiramente pela fi-
tteles a adot-lo. No Ensaio de cosmologia,               siologia (sc. XVIII), depois pela psicologia,
Maupertuis escrevia: " este o princpio, to s-          est no fato de ter sido assumida como esque-
bio, to digno do Ser supremo: qualquer que                ma explicativo causai da vida psquica; inicial-
seja a mudana que se realize na natureza, a               mente, apenas dos mecanismos involuntrios
soma de A. despendida nessa mudana  a me-                (instintos, emoes, etc), depois, tambm das
nor possvel". Todavia o princpio no tem, em             atividades superiores. Tudo o que, da vida ps-
mecnica, o significado finalista que lhe atribua         quica, pode ser reportado  A. reflexa, pode
Maupertuis. Na reexposio que dele fez La-                ser explicado causalmente a partir do estmulo
grange (Mcanique analytique, II, 3, 6), ficou             fsico que pe em movimento o arco reflexo.
claro que ele exprime a conservao no s do              Em vista de sua uniformidade, essa A.  previ-
mnimo como tambm do mximo de A. e que,                  svel a partir do estmulo: isso quer dizer que
alm disso, tanto o mnimo quanto o mximo                 ela  causalmente determinada pelo prprio
devem ser considerados de modo relativo e no              estmulo. Desse modo, a A. reflexa no  se-
absoluto. Desse ponto de vista, Hamilton gene-             no o mecanismo pelo qual a causalidade ps-
ralizava o princpio na forma de "princpio da A.          quica se insere na causalidade da natureza, como
estacionaria": e, nessa forma, diz somente que,            parte dela.
em certas classes de fenmenos naturais, o                     Essas noes foram sendo elaboradas a par-
processo de mudana  tal que qualquer gran-               tir da metade do sc. XIX, isto , desde que a
deza fsica apropriada  um extremo (isto , um            psicologia se constituiu como cincia experi-
mnimo ou um mximo, mais freqentemente                   mental (V. PSICOLOGIA). De acordo com a orien-
um mnimo). Mas a grandeza em questo e o                  tao atomista, prpria da psicologia durante
seu mnimo ou mximo so coisas que podem                  muito tempo, ela procurou resolver os reflexos
mudar de uma ordem de consideraes para                   complexos em reflexos simples, dependentes
outra.                                                     de circuitos nervosos elementares. A doutrina
    Sobre princpio da mnima ao j se falou             dos reflexos condicionados, fundada por Pav-
em psicologia, em esttica e at na tica (cf.             lov em bases experimentais (a partir de 1903;
JAMES, Princ. qf PsychoL, II, pp. 188, 239 ss.;            cf. os escritos de Pavlov recolhidos no volume /
SIMMEL,  Einleitung in die Moral Wissenschaft,             riflessi condizionati, Turim, 1950), obedece 
1892,1, p. 58). No deve ser confundido com o              mesma exigncia e, alis, contribuiu para
princpio metodolgico da economia, que no                refor-la durante algum tempo, fazendo nas-
diz respeito  ao da natureza ou de Deus,                cer a esperana de que os comportamentos su-
AO REFLEXA                                         11                                                ACASO

periores tambm pudessem ser explicados pela              gado ilegtimo: e, com efeito, todos os reflexos
combinao de mecanismos reflexos simples.                observveis so complexos e um reflexo "sim-
Um reflexo condicionado  aquele em que a                 ples", isto , no decomponvel,  uma simples
funo excitadora do estmulo que habitual-               conjectura. Em terceiro lugar, as mesmas refle-
mente o produz (estmulo incondicionado)                 xes sobre os reflexos condicionados demons-
assumida por um estmulo artificial (condicio-            tram a irregularidade e a imprevisibilidade de
nado) ao qual o primeiro foi de algum modo                certas respostas: irregularidade e imprevisibili-
associado. P. ex., se se apresenta um pedao de           dade que Pavlov explicava com a noo de ini-
carne a um co, esse estmulo provoca nele                bio, que, porm,  somente um nome para
salivao abundante. Se a apresentao do pe-             indicar o fato de que certa reao, que se espe-
dao de carne foi muitas vezes associada com              rava, no se verificou (GOLDSTEIN, DerAufbau
outro estmulo artificial (p. ex., o som de uma           des Organismus, 1927; MERLEAU-PONTY, Struc-
campainha ou o aparecimento de uma luz),                  ture du comportement, 1949). Essas e outras or-
este segundo estmulo acabar por produzir,               dens de observao, apresentadas sobretudo
sozinho, o efeito do primeiro, isto , a saliva-          pela psicologia da forma (cf., p. ex., KATZ,
o do co.  claro que a combinao e a so-              Gestaltpsychologie, cap. III), mostram que o re-
breposio dos reflexos condicionados podem               flexo no pode ser entendido como uma A. de-
explicar numerosos comportamentos que,                   vida a um mecanismo causai. Fala-se de reflexo
primeira vista, no esto ligados a reflexos na-          sempre que se pode determinar, em face de
turais ou absolutos. Mais recentemente, viu-se            certo estmulo, um campo de reaes suficien-
tambm no reflexo condicionado a explicao               temente uniformes para serem previstas com
do chamado comportamento simblico do ho-
                                                          alto grau de probabilidade. As A. reflexas cons-
mem, isto , do comportamento dirigido por
signos ou smbolos, lingsticos ou de outra na-          tituem, desse ponto de vista, uma classe de rea-
tureza. P. ex., o viajante que encontra na estra-         o, mais precisamente a que se caracteriza
da um cartaz advertindo que a estrada est in-            pela alta freqncia de uniformidade das pr-
terrompida adiante, reage (p. ex., voltando)              prias reaes. Mas com isso a noo de reflexo
exatamente como se houvesse visto a interrup-             sai do esquema causai para entrar no esquema
o da estrada. Aqui o smbolo (o cartaz) subs-           geral de condicionamento (V. CONDIO).
tituiu, como estmulo artificial, o estmulo natu-            ACASO (gr. aTjiaxov; lat. Casus; in. Chan-
ral (a vista da interrupo). Pavlov e muitos             ce, fr. Hasard; ai. Zufall; it. Caso). Podem-se
defensores da teoria dos reflexos condiciona-             distinguir trs conceitos desse termo que se
dos mantiveram-se fiis ao princpio de que               entrecruzaram na histria da filosofia. ls o con-
todo reflexo que entra na composio de um                ceito subjetivista, que atribui a imprevisibilida-
reflexo condicionado  um mecanismo simples               de e a indeterminao do evento casual  ig-
e infalvel, realizado por determinado circuito           norncia ou  confuso do homem. 2a o conceito
anatmico. Por isso, a teoria do reflexo condi-           objetivista, que atribui o evento casual  mistu-
cionado, na forma exposta por Pavlov, inscre-             ra e  interseo das causas. 3e a interpretao
ve-se nos limites daquilo que hoje se costuma             moderna, segundo a qual o acaso  a insufi-
chamar "teoria clssica do ato reflexo", isto ,          cincia de probabilidades na previso. Este l-
da interpretao causai da A. reflexa.                    timo conceito  o mais geral e o menos me-
                                                          tafsico.
   Todavia, um respeitvel complexo de obser-
vaes experimentais, feitas pela fisiologia e                ls Aristteles (Fs., II, 4, 196 b 5) j falava da
pela psicologia nos ltimos decnios, a partir            opinio segundo a qual a sorte seria uma cau-
de 1920, aproximadamente, foi tornando cada               sa superior e divina, oculta para a intelign-
vez mais difcil entender a A. reflexa segundo            cia humana. Os Esticos equiparavam o A. ao
seu esquema clssico. Em primeiro lugar, viu-             erro ou  iluso; julgavam que tudo acontece
se que a A. dos estmulos complexos no                  no mundo por absoluta necessidade racional
previsvel a partir da A. dos estmulos simples           (Plac. philos., I, 29).  claro que quem admite
que o compem, ou seja, os chamados reflexos              uma necessidade desse gnero e a atribui
simples combinam-se de modos imprevisveis.               (como achavam os Esticos)  divindade ima-
Em segundo lugar, o prprio conceito de "re-              nente no cosmos ou  ordem mecnica do uni-
flexo elementar", isto , do reflexo que entraria         verso no pode admitir a realidade dos eventos
na composio dos reflexos complexos, foi jul-            que costumam ser chamados de acidentais ou
ACASO                                                12                                             ACASO

fortuitos e muito menos do acaso como princ-             bito das coisas que no acontecem nem de
pio ou categoria de tais eventos; deve ver neles          modo absolutamente uniforme nem freqente
a ao necessria da causa reconhecida em ato             e que poderiam acontecer com vistas a uma fi-
no universo, negando como iluso ou erro o                nalidade" (ibd., 197 a 32). Para Aristteles, a
seu carter casual.  esse o motivo por que               determinao da finalidade  essencial, j que
Kant, que modela as suas categorias e os seus             o A. tem ao menos o aspecto ou a aparncia da
princpios a priori sobre a fsica newtoniana,            finalidade: como no exemplo de quem vai ao
inteiramente fundada no princpio de causali-             mercado por motivo completamente diferente
dade, nega a existncia do A., e faz, alis, dessa        e ali encontra um devedor que lhe restitui a
negao um dos princpios a priori do intelec-            soma devida. Nesse exemplo chama-se A. (ou
to: "A proposio 'nada ocorre por A. (in mun-            sorte) o evento da restituio devido ao encon-
do non datur casus)'  uma lei a priori da na-            tro que no foi deliberado ou desejado como
tureza" (Crt. R. Pura, Analtica dos princpios,         finalidade, mas que teria podido ser uma finali-
Refutao do idealismo). Hegel, que parte do              dade: enquanto, na realidade, foi o efeito aci-
princpio da perfeita racionalidade do real, atri-        dental de causas que agiam com vistas a outras
bui o A.  natureza, ou melhor, v na natureza            finalidades. A noo de encontro, de enre-
"uma acidentalidade desregulada e desenfrea-              damento de sries causais para a explicao do
da" (Ene,  248), mas na medida em que a natu-            A., foi retomada na Idade Moderna por filso-
reza no est adequada  substncia racional              fos, matemticos e economistas, que reconhe-
do real e, por isso, carece ela prpria de reali-         ceram a importncia da noo de probabilida-
dade. De modo anlogo, na filosofia contem-               de (v.) para a interpretao da realidade em
pornea, Bergson explicou o A. pela troca, me-            geral. Assim, Cournot definiu o A. como o car-
ramente subjetiva, entre a ordem mecnica e a             ter de um acontecimento "devido  combina-
ordem vital ou espiritual: "Que a mecnica das            o ou ao encontro de fenmenos indepen-
causas que fazem a roleta parar sobre o nme-             dentes na ordem da causalidade" (Thorie des
ro me permita vencer e, por isso, aja como um             chances et desprobabilits, 1843, cap. II), no-
gnio benfico para quem os meus interesses               o que se tornou predominante no positi-
tivessem grande importncia; ou que a fora               vismo, tambm porque foi aceita por Stuart Mill
mecnica do vento arranque uma telha do teto              (Logic, III, 17,  2): "Um evento que acontea
e a arroje sobre a minha cabea, isto , que aja          por A. pode ser mais bem descrito como uma
como um gnio malfico que conspirasse con-               coincidncia da qual no temos motivo para in-
tra a minha pessoa; em ambos os A. eu encon-              ferir uniformidade... Podemos dizer que dois
tro um mecanismo onde eu teria procurado e                ou mais fenmenos so reunidos ao A. ou que
onde deveria encontrar, ao que parece, uma in-            coexistem ou se sucedem por A., no sentido
teno:  isso que se exprime quando se fala              de no serem, de modo algum, vinculados pela
de A." (vol. cratr, 8a ed., 1911, p. 254).              causao; que no so nem a causa ou o efeito
                                                          um do outro, nem efeitos da mesma causa ou
   2e Por outro lado, seguncio a interpretao            de causas entre as quais subsista uma lei de
objetivista, o A. no  um fenmeno subjetivo,            coincidncia, nem efeitos da mesma colocao
mas objetivo, e consiste no entrecruzar-se de             de causas primrias". De modo semelhante,
duas ou mais ordens ou sries diversas de cau-            Ardig (Opere, III, p. 122) relaciona o A. com a
sas. A mais antiga das interpretaes desse tipo          pluralidade e o entrelaamento de sries cau-
 a de Aristteles. Aristteles comea notando            sais distintas. Essa noo, todavia,  objetiva s
que o A. no se verifica nem nas coisas que               entre certos limites, ou melhor, s na aparn-
acontecem sempre do mesmo modo, nem nas                   cia. Dizer que o A. consiste no encontro de
que acontecem quase sempre do mesmo                       duas sries causais diferentes significa que ele
modo, mas entre as que ocorrem por exceo                 um acontecimento causalmente determinado
e sem qualquer uniformidade (Fs., II, 5, 196 b           como todos os outros, mas s mais difcil de
10 ss.). Desse modo, ele atribui corretamente o           ser previsto porque a sua ocorrncia no de-
A.  esfera do imprevisvel, isto , do que acon-         pende do curso de uma srie causai nica. Se-
tece fora do necessrio ("o que acontece sem-             gundo essa noo, a determinao causai do A.
pre do mesmo modo") e do uniforme ("o que                  mais complexa, mas no menos necessitante;
acontece quase sempre do mesmo modo"). As-                a imprevisibilidade, caracterstica fundamental
sim sendo, o A. (ou a sorte)  definido por               do A., deve-se to-somente a tal complexidade
Aristteles como "uma causa acidental no m-
ACATALEPSIA                                             13                                         ACIDENTE


e no  de natureza objetiva. Para que seja de               portanto, suspende o seu assentimento, isto ,
natureza objetiva, tal imprevisibilidade deve ser            no afirma nem nega (SEXTO EMPRTCO, Pirr. hyp.,
realmente devida a uma indeterminao efetiva                I, 25).
inerente ao funcionamento da prpria causali-                   ACCEDENTIS FALLACIA. A falcia (v.) j
dade.                                                         identificada por Aristteles (El. sof, 5, 166 b)
    3Q Essa ltima alternativa constitui um tercei-          como derivada da identificao de uma coisa
ro conceito do A., conceito que se pode fazer                com um seu acidente ou atributo acidental ("Se
remontar a Hume. Parece que Hume quer re-                    Corisco  diferente de Scrates, e Scrates  ho-
duzir o acaso a um fenmeno puramente sub-                   mem, Corisco  diferente de um homem"). Cf.
jetivo, pois diz: "Embora no haja no mundo al-              PEDRO HISPANO, Summ. log., 7, 40 ss.        G. P.
guma coisa como o A., a nossa ignorncia da                      ACENTO (gr. rcpooua; lat. Accentus; in.
causa real de cada acontecimento exerce a                    Accent; fr. Accent; ai. Prosodie, it. Accento).
mesma influncia sobre o intelecto e gera se-                Segundo Aristteles (Sof. ei, 4, 166 b), seguido
melhante espcie de crena ou de opinio".                   pelos lgicos medievais (cf. PEDRO HISPANO,
Mas, na realidade, se no existe "A." como no-               Summ. log., 7, 31), da acentuao diferente das
o ou categoria em si, tampouco existe a "cau-              palavras pode derivar, em enunciados escri-
sa" no sentido necessrio e absoluto do termo;               tos, uma equivocidade que pode causar paralo-
existe somente a "probabilidade". E  na proba-              gismos.                                     G. P.
bilidade que est fundado o que chamamos A.:                     ACIDENTE (gr. cruu.pefkiK; lat. Accidens;
"Parece evidente que, quando a mente procu-                  in. Accident; fr. Accident; ai. Accidenz; it. Ac-
ra prever para descobrir o acontecimento que                 cident). Podem-se distinguir trs significados
pode resultar do lanamento do dado, consi-                  fundamentais desse termo, quais sejam:
dera-se o aparecimento de cada lado como igual-                  Ia uma determinao ou qualidade casual
mente provvel; e essa  a verdadeira natureza               ou fortuita que pode pertencer ou no a deter-
do A.: de igualar inteiramente todos os eventos              minado sujeito, sendo completamente estranha
individuais que compreende" (Inq. Cone. Un-                   essncia necessria (ou substncia) deste;
derst., VI). Essa idia de Hume deveria revelar-                 2B uma determinao ou qualidade que, em-
se extremamente fecunda na filosofia contem-                 bora no pertencendo  essncia necessria
pornea. O conceito de que o A. consiste na                  (ou substncia) de determinado sujeito e estan-
equivalncia de probabilidades que no do                   do, portanto, fora de sua definio, est vincu-
acesso a uma previso positiva em um sentido                 lada  sua essncia e deriva necessariamente
ou em outro foi enfatizado por Peirce, que tam-              da sua definio;
bm viu sua implicao filosfica fundamental:                   3S uma determinao ou qualidade qualquer
a eliminao do "necessitarismo", isto , da                 de um sujeito, que pertena ou no  sua es-
doutrina segundo a qual tudo no mundo acon-                  sncia necessria.
tece por necessidade (Chance, Love and Logic,                    Os dois primeiros significados do termo fo-
II, 2; trad. it., p. 128 ss.). Desse ponto de vista,         ram elaborados por Aristteles. "Acidente", diz
o A. torna-se um exemplo particular do juzo                 ele (Top., I, 5, 102 b 3), "no  nem a definio
de probabilidade, mais precisamente, de que a                nem o carter nem o gnero, mas, apesar dis-
prpria probabilidade no tem relevncia sufi-               so, pertence ao objeto; ou tambm,  o que
ciente para permitir prever um evento. Nesse                 pode pertencer e no pertencer a um s e mes-
sentido, o A. foi considerado uma espcie de                 mo objeto, qualquer que seja ele." Como essa
entropia (v.) e o conceito relativo comumente                definio exprime a essncia necessria de
 empregado no campo da informao e da ci-                  uma realidade, isto , a substncia (v. DEFINI-
berntica (v.).                                              O), o acidente est fora da essncia necess-
   ACATALEPSIA (gr. Kaxa^riv|/a; in. Aca-                  ria e, portanto, pode pertencer ou no ao ob-
talepsy, fr. Acatalepsie, ai. Akatalepsie, it. Acata-        jeto a que se refere. Todavia, o acidente pode
lessid).  a negao feita por Pirro e pelos ou-             ter uma relao mais ou menos estreita com o
tros cticos antigos da representao com-                   objeto a que se refere, conforme a causa dessa
preensiva ((pavTocaaKaTocT|7rTiKri), isto , do            relao; por isso, Aristteles distingue dois sig-
conhecimento que permite compreender e                       nificados, ambos empregados no Organon e
apreender o objeto, que, segundo os Esticos,                A metafsica: 1- o acidente pode ser casual na
era o verdadeiro conhecimento. A acatalepsia                medida em que a sua causa  indeterminada:
a atitude de quem declara no compreender e,                 p. ex., um msico pode ser branco, mas como
ACIDENTE                                               14                                         ACIDENTE

isso no acontece por necessidade ou na maior               prpria realidade. Talvez esse uso tenha sido
parte dos casos, ser branco, para um msico,                iniciado por Porfrio, que define o aci-
ser um "acidente". Da mesma forma, para al-                dente (Isag., V, 4 a, 24): "O que pode ser gera-
gum que cave um buraco a fim de colocar                    do ou desaparecer sem que o sujeito seja
uma planta, encontrar um tesouro  acidental,               destrudo". Essa definio, obviamente, refere-
j que a encontrar um tesouro no se segue ne-              se  definio aristotlica do acidente como "o
cessariamente o ato de cavar um buraco, nem                 que pode pertencer e no pertencer a um s e
acontece habitualmente em semelhante cir-                   mesmo objeto". S. Toms anota corretamente
cunstncia. Nesse significado (Mel, V, 30,1.025             (Met., V, 1.143) que, no segundo dos dois signi-
a 14), portanto, acidente  tudo o que acontece             ficados aristotlicos, o acidente se contrape 
por acaso, isto , pela inter-relao e o entrela-          substncia. Em virtude dessa contraposio, o
amento de vrias causas, mas sem uma causa                 acidente  "o que est em outra coisa" (S. Th.,
determinada que assegure a sua ocorrncia                   III, q. 77, a. 2 ad l e ), isto , em um sujeito ou
constante ou, pelo menos, relativamente fre-                substrato sem o qual ele, no curso ordinrio da
qente. Mas h tambm: 2a o acidente no ca-                natureza (isto , prescindindo da ordem da gra-
sual, ou acidente por si, isto , aquele carter            a que se manifesta no sacramento do altar)
que, embora no pertena  substncia, estan-               no pode subsistir (ibid., III, q. 76, a. 1 ad\-).
do, pois, fora da definio, pertence ao objeto             Nesse significado, em que o acidente se contra-
em virtude daquilo que o prprio objeto . P.               pe  substncia, porquanto o seu modo de ser
ex., ter ngulos internos iguais a dois retos no            inerir (inesse) a algum sujeito, em oposio
pertence  essncia necessria do tringulo, tal            ao subsistir da substncia que no tem neces-
qual  expressa pela definio; por isso,  um              sidade de apoiar-se em outra coisa para existir, o
acidente. Mas  um acidente que pertence                    termo acidente torna-se coextensivo ao de qua-
ao tringulo por acaso, isto , por uma causa               lidade em geral, sem referncia a seu carter
indeterminvel, mas por causa do prprio                    casual e gratuito, que Aristteles tinha ilustra-
tringulo, quer dizer, por aquilo que o tringu-            do. A terminologia dos escolsticos adere habi-
lo ; e  por isso um acidente eterno (Met., V,             tualmente a este ltimo significado, que destes
30, 1.025 a 31 ss.). Aristteles ilustra a diferena        passa para os escritores modernos, na medida
do seguinte modo (An.post, 4, 73 b 12 ss.): "Se             em que se valem da linguagem escolstica. To-
relampeja enquanto algum caminha, isso                    davia, mais prxima da definio aristotlica
um acidente, j que o relmpago no  causa-                que do uso escolstico encontra-se a definio
do pelo caminhar... Se, porm, um animal morre              de Stuart Mill, para quem os acidentes so to-
degolado, em virtude de um ferimento, dire-                 dos os atributos de uma coisa que no esto
mos que ele morreu porque foi degolado, e                   compreendidos no significado do nome e no
no que lhe ocorreu, acidentalmente, morrer                 tm vnculo necessrio com os atributos
degolado". Em outros termos, o acidente por si              indivisveis dessa mesma coisa (Logic, I, 7,  8).
est vinculado causalmente (e no casualmen-                    Locke e os empiristas ingleses, o mais das ve-
te) s determinaes necessrias da substn-                zes, usam no lugar da palavra acidente, a pa-
cia, embora no faa parte delas. E embora                  lavra qualidade (v.). Mas a sua insistncia na
no haja cincia do acidente casual, porque a               inseparabilidade das qualidades em relao 
cincia  s do que  sempre ou habitualmente               substncia, que sem elas se esvai no nada, influi
(Met., X, 8, 1.065 a 4) e porque ela investiga a            no uso posterior da palavra em questo: uso
causa, ao passo que a causa do acidente  in-               que tende a reduzir ou a anular a oposio en-
definida (Fs., II, 4, 196 b 28), o acidente por si         tre acidente e substncia e a considerar os aci-
entra no mbito da cincia, como  indicado                 dentes como a prpria manifestao da subs-
pelo prprio exemplo geomtrico de que se                   tncia. Na verdade esse uso tambm pode ser
valeu Aristteles em Met., V, 30, e em numero-              encontrado em Spinoza, se, porm, se admi-
sos textos dos Tpicos.                                     tir que a palavra "modo" que ele emprega 
                                                            sinnimo de acidente; essa sinonmia parece
   Com esse segundo significado aristotlico                ser sugerida pela definio que ele d de
da palavra pode-se relacionar o terceiro signifi-           "modo" (Et., I, def. 5) como o que est em outra
cado, segundo o qual ela designa, em geral, as              coisa e  concebido por meio dessa outra coisa.
qualidades ou os caracteres de uma realidade                De qualquer forma, a mudana de significado 
(substncia) que no podem ficar sem ela, por-              claramente verificvel em Kant e Hegel. Kant
que o seu modo de ser  o de "inerir" (nesse) 
ACIDIA                                                15                                            ACORDO

diz (Crt. R. Pura, Analtica dos princpios, Pri-         te nesse sentido que Husserl falou de "mtodo
meira Analogia): "As determinaes de uma                  da A. (Klrung)" (Ideen, I,  67, 125). Husserl
substncia, que no so seno modos especiais              insistiu no fato de que a A. exige que seja leva-
do seu existir, chamam-se acidentes. Eles so              do  evidncia o seu substrato (as experincias
sempre reais, porque dizem respeito  existn-             vividas que a sustentam) de tal modo que
cia da substncia. Ora, se a esse real que est na         "transforme todo elemento morto em vivo,
substncia (p. ex., ao movimento como aciden-              toda confuso em distino e todo elemento
te da matria) se atribui uma existncia especial,         no intuvel em intuvel" (Jbid.,  125). Por sua
essa existncia  chamada de inerncia, para               vez, Jaspers usou do termo Erhellung para indicar
distingui-la da existncia da substncia, que se           a relao entre existncia e razo. A A.  a
chama subsistncia". Essa passagem retoma a                existncia que procura tornar-se evidente para
terminologia escolstica com um significado to-            si mesma e assim aclarar-se como razo. "A A.
talmente diferente, pois os acidentes so consi-           existencial", diz Jaspers, "no  conhecimento
derados "modos especiais de existir" da prpria            da existncia, mas recorre s suas possibilida-
substncia. Noo anloga encontra-se em                   des" (Vernunft undExistenz, II, 7). Isto signi-
Hegel, que diz (Ene,  151): "A substncia  a             fica que "a razo no existe como pura razo,
totalidade dos acidentes nos quais ela se reve-            mas  o fazer-se da existncia possvel" (ibid.,
                                                           II, 6); e precisamente este fazer-se  a aclarao.
la como a absoluta negatividade deles, isto ,
como potncia absoluta e, ao mesmo tempo, co-                  ACONTECIMENTO (gr. crvu.(3epriK; lat. Ac-
mo a riqueza de cada contedo". O que signi-                cidens; in. Occurrence; fr. vnement; ai.
fica que os acidentes, na sua totalidade, so               Vorfall; it. Accadiment). Um fato ou um evento
a revelao ou a prpria manifestao da subs-             que tem certo carter acidental ou fortuito ou,
tncia. Fichte exprimira, por outro lado, um               pelo menos, do qual no se pode excluir esse
conceito anlogo, afirmando, na esteira de                 carter.
Kant, que "Nenhuma substncia  pensvel se-                   A CONTRARIO. Forma de argumentao
no com referncia a um A. ... Nenhum A.                  dialtica por analogia: do contrrio se conclui
pensvel sem substncia" (Wssenschaftslehre,              o contrrio. (Se a A convm um predicado B, a
 1794,  4 D, 14). O uso desse termo sofreu, as-           no-A  provvel que convenha um predicado
sim, ao longo da sua histria, uma evoluo pa-            no-B).                                        G. P.
radoxal: comeou significando as qualidades ou                 ACORDO (in. Agreement; fr. Convenance;
determinaes menos estreitamente ligadas                 ai. bereinstmmung; it. Accord). Essa noo
natureza da realidade, ou at mesmo gratuitas              serviu, na Idade Moderna, para definir a natu-
ou fortuitas, e acabou por significar todas as de-         reza do juzo ou da proposio em geral. Diz a
terminaes da realidade e, assim, a prpria rea-          Lgica de Port-Royal: "Depois de conceber as
lidade em sua inteireza.                                   coisas atravs de nossas idias, comparamos
                                                           essas idias entre si; e descobrindo que algu-
   ACDIA (lat. Acedia; in. Sloth; fr. Accidie, ai.        mas esto de acordo entre si e outras no, ns
Acedie, it. Accidia). O tdio ou a nusea no               as ligamos ou as desligamos, o que se chama
mundo medieval: o torpor ou a inrcia em que               afirmar ou negar e, geralmente, julgar" (Log.,
caam os monges que se dedicavam  vida                    II, 3). Essa noo foi usada no mesmo sentido
contemplativa. Segundo S. Toms, consiste no               por Locke, para definir o conhecimento em
"entristecimento do bem divino" e  uma esp-              geral, entendido como "a percepo do vncu-
cie de torpor espiritual que impede de iniciar o           lo e do acordo ou desacordo e da oposio
bem (S. Th., II, II, q. 35, a. 1). Com o tdio, a          entre as nossas idias, quaisquer que sejam
acdia tem em comum o estado que a con-                    elas" (Ensaio, IV, 1,  2). Essa noo foi criticada
diciona, que no  de necessidade, mas de sa-              por Leibniz: "O acordo ou o desacordo no 
tisfao (V. TDIO).                                       propriamente o que  expresso pela proposi-
   ACLARAO (in. Clarification; fr. clair-               o. Dois ovos esto de acordo e dois inimigos
cissement; ai. Klrung, Erhellung; it. Chiarifi-           esto em desacordo. Trata-se aqui de um modo
cazion). No uso filosfico contemporneo,                 de acordo ou de desacordo bastante particular"
esse termo tem um significado especfico, por-             (Nouv. ess., IV, 5). Spinoza falou de acordo
que no significa genericamente "esclarecimen-             (convenientia) entre a idia e o seu objeto. "A
to", mas indica o processo com que se leva                idia verdadeira deve convir com o seu ideado;
clareza conceituai certo substrato de conscin-            ou seja, o que objetivamente est contido no
cia ou de experincias vividas. Foi precisamen-            intelecto deve necessariamente ser dado na na-
ACOSMISMO                                              16                                      ADEQUAO

tureza" (Et., I, 30). Mas para esse significado, v.         Ben Salomo Israel (que viveu no Egito entre
VERDADE.                                                    845 e 940) no seu Liber de definitionibus. Essa
    ACOSMISMO (in. Acosmism; fr. Acosmis-                   definio foi retomada por S. Toms que lhe
me, ai. Akosmismus; it. Acosmism). Termo em-               deu uma exposio clssica (S. Th., I, 16, 2;
pregado por Hegel (Ene,  50) para caracte-                 Contra Gent., I, 59; Dever., q. 1, a. 1). As coisas
rizar a posio de Spinoza, em oposio                    naturais, cuja cincia o nosso intelecto recebe,
acusao de "atesmo" freqentemente dirigida               so a medida do intelecto, j que este possui a
a este filsofo. Spinoza, segundo Hegel, no                verdade s na medida em que se conforma s
confunde Deus com a natureza e com o                        coisas. As prprias coisas so, por sua vez, me-
mundo finito, considerando o mundo como                     didas pelo intelecto divino, no qual subsistem
Deus, mas, antes, nega a realidade do mundo                 suas formas tal como as formas das coisas ar-
finito afirmando que Deus, e s Deus,  real.               tificiais subsistem no intelecto do artfice. Deus,
Nesse sentido a sua filosofia no  atesmo,                portanto,  a verdade suprema porquanto o
mas acosmism, e Hegel nota, ironicamente,                  seu entendimento  a medida de tudo o que 
que a acusao contra Spinoza deriva da ten-                e de todos os outros entendimentos. A noo
dncia a crer que se pode mais facilmente ne-               de adequao (ou acordo, ou conformidade,
gar Deus do que negar o mundo.                              ou correspondncia)  pressuposta e empre-
    ACRIBIA (gr. cncppeioc). Exatido ou preci-            gada por muitas filosofias, mais precisamente
so. No sentido moderno, escrpulo em seguir                por todas as que consideram o conhecimento
as regras metdicas de qualquer pesquisa cien-              como uma relao de identidade ou semelhan-
tfica. No significado platnico, "o exato em si"           a (v. CONHECIMENTO). Locke afirma que "o
(orr xaicpip)  o justo meio (x (xxpiov), isto        nosso conhecimento  real s se h conformi-
, o conveniente, ou o oportuno enquanto ob-                dade entre as idias e a realidade das coisas"
jeto de um dos dois ramos fundamentais da                   (Ensaio, IV, 4,  3). O prprio Kant declara
arte da medida, isto , daquele que propria-                pressupor "a definio nominal da verdade como
mente interessa  tica e  poltica. O outro               acordo do conhecimento com o seu objeto" e
ramo da mesma arte  o que, sendo propria-                  prope-se o problema ulterior do critrio "geral
mente matemtico, concerne ao nmero, ao                    e seguro para determinar a verdade de cada
comprimento,  altura, etc. (Pol, 284 d-e)                  conhecimento" (Crt. R. Pura, Lgica transe,
    ACROAMTICO (gr. Kpoa(J.atiK; in.                    Intr., III) e Hegel usa explicitamente a idia de
Acroamatic; fr. Acroamatique, ai. Akroama-                  correspondncia (Ene,  213): "A idia  a ver-
tisch; it. Acroamatic). Assim foram chama-                 dade, j que a verdade  a correspondncia
dos, por se destinarem a ouvintes, os textos de             entre objetividade e o conceito, mas no que
Aristteles que constituam lies por ele mi-              coisas externas correspondam s minhas re-
nistradas no Liceu, para distingui-las das des-             presentaes; estas so apenas representaes
tinadas ao pblico, das quais restam apenas                 exatas que eu tenho como indivduo. Na idia
fragmentos. Todas as obras aristotlicas que                no se trata nem disto, nem de representaes,
possumos so acroamticas, porque os textos                nem de coisas externas". Aqui Hegel faz a dis-
compostos para um pblico mais vasto, quase                 tino entre a exatido das representaes
todos em forma de dilogo, caram em desuso                 finitas, prprias do indivduo, enquanto corres-
quando os textos de lies, levados a Roma                  pondentes a objetos finitos, e a verdade do
por Sila, foram reorganizados e publicados por              conceito infinito, ao qual s pode corresponder
Andronico de Rodes em meados do sc. I a.C.                 a idia infinita ("O singular por si no cor-
(V. EXOTRICO).
                                                            responde ao seu conceito: esta limitao da sua
                                                            existncia constitui a finitude e a runa do sin-
   ADEQUAO (lat. Adaequatio; in. Adequa-                  gular"). Num e noutro caso, o critrio  sempre
tion; fr. Adquation; ai. bereinstimmung; it.              o da correspondncia. Na orientao lingstica
Adequazon). Um dos critrios de verdade,                  da filosofia analtica contempornea mantm-
mais precisamente aquele pelo qual um conhe-                se a noo de correspondncia como relao
cimento  verdadeiro se est adequado ao ob-                de semelhana entre linguagem e realidade.
jeto, isto , se se assimila e corresponde a ele            Wittgenstein, p. ex., diz: "A proposio  a ima-
de tal modo que reproduza, o mais possvel, a               gem (Bild) da realidade... A proposio, se 
sua natureza. A definio da verdade como                   verdadeira, mostra como esto as coisas"
"adequao do intelecto e da coisa" foi dada                (Tractatus, 4.021, 4.022). A coincidncia entre
pela primeira vez pelo filsofo hebraico Isac
ADEQUADO                                             17                                    ADIVINHAO

doutrinas to diferentes sobre essa noo de              no se sente desejo nem repulsa, como, p. ex.,
verdade deve-se  interpretao do conheci-               o fato de que os cabelos ou as estrelas sejam
mento como relao de assimilao (v. CONHE-              em nmero par. O segundo indica aquilo pelo
CIMENTO; VERDADE).                                        que se sente excitao ou repulsa, mas no
    ADEQUADO (lat. Adaequatus; in. Adequate,              mais por isto do que por aquilo, como no caso
fr. Adquat; ai. Adquat; it. Adeguadd). Nem              de duas moedas idnticas das quais  preciso
sempre o significado desse adjetivo est vin-             escolher uma. No terceiro sentido, diz-se que 
culado ao significado do substantivo corres-              indiferente "o que no contribui nem para a fe-
pondente. Ele pode significar em geral "co-               licidade nem para a infelicidade, como a sade
mensurado a". Nesse sentido dizemos que uma               e a riqueza ou, em outros termos, aquilo de
descrio  adequada se no neglicencia ne-               que se pode fazer bom ou mau uso" (Pirr. hyp.,
nhum elemento importante da situao des-                 III, 177). Kant usou esse termo para indicar as
crita; ou que um pagamento  adequado se                 aes julgadas moralmente indiferentes, isto ,
proporcional  importncia da remunerao,                nem boas nem ms (Religon, I, observao e
etc. Spinoza fez uso constante da noo de                nota relativa) (v. LATITUDINARISMO; RIGORISMO).
idia adequada, por ele assim definida (Et., II,             ADIAFORSTICA, CONTROVRSIA (in
def. IV): "Entendo por idia adequada a que,              Adiaphoristic controversy, fr. Controverse adia-
considerada em si, sem relao com o objeto,              phoristque, ai. Adiaphoristen Streit; it. Contro-
tem todas as propriedades ou as denomina-                 vrsia adiaforistica). Controvrsia surgida entre
es intrnsecas da idia verdadeira. Digo in-            os luteranos a respeito do valor das prticas reli-
trnsecas para excluir a denominao que                 giosas (como a Missa, a Extrema-Uno, o Cris-
extrnseca, isto , a correspondncia da idia            ma, etc.) que Lutero declarara "indiferentes"
com o objeto ideado". Aqui, como se v, a                 para a salvao e que Melncton aceitara por es-
noo de adequado  admitida de modo com-                 prito de conciliao ou de paz. A controvrsia
pletamente independente da noo de ade-                  concluiu-se com a "frmula de concrdia", de
quao (v.). Spinoza nega explicitamente que              1577-80, que reafirmava o carter indiferente ou
a idia verdadeira seja a que corresponde ao              neutro dos ritos e das cerimnias.
prprio objeto porque nesse caso ela se dis-                 ADIO LGICA (in. Logical addition; fr.
tinguiria da idia falsa somente pela denomi-             Addtion logique, ai. Logsche Addition, it. Ad-
nao extrnseca e no haveria diferena en-              dizione lgica). Na lgebra da Lgica (v.) d-se
tre idia verdadeira e idia falsa quanto  sua           esse nome a operao "a + b", que goza de
realidade e perfeio intrnsecas (Et., II, 43,           propriedades formais anlogas s da adio arit-
escol.).                                                  mtica (importantssima a exceo "a + a = a").
   AD HOMINEM. Assim foi chamada, na lgi-                Interpretada como operao entre classes ua +
ca do sc. XVII, a argumentao dialtica que             b", forma a classe que contm todos e s os
consiste em contrapor ao adversrio as con-               elementos, comuns e no comuns, da classe a e
seqncias que resultam das teses menos                   da classe b. Interpretada como operao entre
provveis concedidas ou aprovadas por ele                 proposies, ua + b" indica sua afirmao dis-
(JUNGIUS, Lgica, 1638, V, 1,8; LOCKE, Ensaio, IV,        juntiva ("a ou b").                         G. P.
17, 21, etc).                                                A DICTO SECUNDUM QUID AD DICTUM
    ADIFORA(gr. tpopoc; in., fr., ai., Adia-          SIMPLICITER.  uma das consequentiae
phora; it. Adiaford). Cnicos e esticos chama-           formales(y. CONSEQNCIA) da Lgica aristotlica
ram de adifora, isto , indiferentes, todas as            escolstica: a dicto seciindum quid ad dictum
coisas que no contribuem nem para a virtude               simpliciter non valet consequentia; isto , se A
nem para a maldade. P. ex., a riqueza, a sade              B em relao a alguma coisa, no se segue
podem ser utilizadas tanto para o bem como                 que A seja B em sentido absoluto (ARISTTELES,
para o mal; so, portanto, indiferentes para a            El. sof, 168 b 11; PEDRO HISPANO, Summ. log.,
felicidade dos homens; no porque deixem os               7, 46).                                  G. P.
homens indiferentes (na realidade, suscitam o                AD IGNORANTIAM. Assim Locke chamou
seu desejo), mas porque a felicidade consiste             o argumento que consiste em exigir que o ad-
somente no comportamento racional, isto , na             versrio acolha a prova aduzida ou aduza uma
virtude (DIG. L, VII. 103-104).                          melhor (Ensaio, IV, 17, 20).
   Os esticos distinguiam trs significados de              ADIVINHAO (gr. (lavxea; lat. Divina-
indiferena. O primeiro indica aquilo pelo que            to; in. Divnation, fr. Divination; ai. Wahr-
ADJETIVO                                               18                                        ADMISSO

sagung; it. Divinazion). Profetizao do futu-             em coisas admirveis" (Met., I, 2, 982 b 12 ss.).
ro, com base na ordem necessria do mundo.                  No princpio da Idade Moderna, Descartes ex-
Era admitida pelos esticos, sendo, alis, assu-            primiu o mesmo conceito: "Quando se nos de-
mida como prova da existncia do destino.                   para algum objeto inslito, que julgamos novo
Crisipo achava que as profecias dos adivinhos               ou diferente do que conhecamos antes ou su-
no seriam verdadeiras se as coisas todas no               pnhamos que fosse, admiramos esse objeto e
fossem dominadas pelo destino (EUSBIO, Praep.              ficamos surpresos; e como isso ocorre antes
Ev., IV, 3, 136). Para Plotino, a A.  possibilitada        que saibamos se o objeto nos ser ou no til,
pela ordem global do universo, graas  qual                a A. me parece a primeira de todas as paixes;
todas as coisas podem ser consideradas sinais               e no tem oposto porque, se o objeto que se
das outras. Os astros, por exemplo, so como                apresenta no tem em si nada que nos surpreen-
cartas escritas nos cus, que, mesmo desempe-               da, no somos afetados por ele e o considera-
nhando outras funes, tm o papel de indicar               mos sem paixo" (Pass. de Vme, II, 53).
o futuro {Enn., II, 3, 7). A A. baseada no                  Nesse ponto, a diferena entre Descartes e
determinismo astrolgico foi admitida pelos fi-             Spinoza  grande: Spinoza considerou a A. ape-
lsofos rabes, especialmente por Avicena, e                nas como a imaginao de algo a que a mente
destes passou para alguns aristotlicos do Renas-           permanece atenta por ser algo desprovido de
cimento, como p. ex. Pomponazzi {De incan-                  conexo com outras coisas {Et., III, 52 e escol.)
tationibus, 10).                                            e recusou-se a consider-la como uma emoo
    ADJETIVO (lat. Adjectivuni; in. Adjective,              primria e fundamental, e muito menos como
fr. Adjectif, ai. Eingenschaftswort; it. Aggettiv).        uma emoo filosfica que esteja na origem da
Na lgica tradicional, esse nome indica um                  filosofia. A nica atitude filosfica, para ele, 
modo da coisa significada enquanto distinta ou              o amor intelectual a Deus, a contemplao
distinguvel da prpria coisa indicada pelo                 imperturbvel e bem-aventurada da conexo
substantivo (PEDRO HISPANO, Summ. log., 6.02;               necessria de todas as coisas na Substncia Di-
ARNAULD, Log., II, 1). Na lingstica moderna, o            vina. Para Aristteles e para Descartes, a A. ,
A.  a classe de palavras definvel pela sua fun-           ao contrrio, a atitude que est na raiz da d-
o de caracterizar a substncia e divide-se em             vida e da investigao:  tomar conscincia de
descritivo ou limitativo, conforme siga ou pre-             no compreender o que se tem  frente, que,
ceda o nome (cf. BLOOMFIELD, Language, 1933,                mesmo sendo familiar, sob outros aspectos
pp. 202 ss.).                                               revela-se, a certa altura, inexplicvel e mara-
   AD JUDICIUM. Assim chamou Locke a ar-                    vilhoso. Kant falava da A. a propsito da fi-
gumentao que consiste "em usar as provas                  nalidade da natureza, porquanto esta  inex-
extradas de qualquer um dos fundamentos do                 plicvel com os conceitos do intelecto {Crt. do
conhecimento ou da probabilidade".  a nica                Juzo,  62). Por sua vez, Kierkegaard definia a
argumentao vlida {Ensaio, IV, 17, 22).                   A. como "o sentimento apaixonado pelo devir"
                                                            e a reputava prpria do filsofo que considera
   ADMIRAO (gr. auueiv; lat. Admi-                     o passado, como um sinal da no-necessidade
ratio; in. Wonder, fr. Admiration; ai. Bewun-               do passado. "Se o filsofo no admira nada (e
derung, Staunen; it. Ammirazione). Segundo                  como poderia, sem contradio, admirar uma
os antigos, a A.  o princpio da filosofia. Diz            construo necessria?),  por isso mesmo es-
Plato: "Essa emoo, essa A.  prpria do fil-            tranho  histria, j que, onde quer que entre
sofo; nem tem a filosofia outro princpio alm              em jogo o devir (que certamente  no passa-
desse; e quem afirmou que ris  filha de                   do), a incerteza do que seguramente se trans-
Taumas a meu ver no errou na genealogia"                   formou (a incerteza do devir) s pode expri-
{Teet., 11, 155 d). E Aristteles: "Devido  A. os          mir-se por meio dessa emoo necessria ao
homens comearam a filosofar e ainda agora fi-              filsofo e prpria dele" {Philosophische Broc-
losofam: de incio comearam a admirar as coisas            ken, p. IV,  4). Whitehead disse: "A filosofia
que mais facilmente suscitavam dvida, de-                  nasce da A." {Nature and Life, 1934, 1).
pois continuaram pouco a pouco a duvidar at
das coisas maiores, como, p. ex., das modifica-                 ADMISSO (in. Admission; fr. Admission,
es da lua e do que se refere ao sol, s estre-            ai. Aufnahme, it. Admmisione). Uma proposi-
las e  gerao do universo. Aquele que duvida              o alheia, que se assume alheia (porquanto
e admira sabe que ignora; por isso, o filsofo             outros j a propuseram ou por ser comumente
tambm amante do mito, pois o mito consiste                 empregada), com a finalidade de fundamentar
ADOPCIONISMO                                           19                            AFECO ou AFEIO

nela algum raciocnio ou de fazer, a partir dela,           que consiste em sofrer uma ao ou em ser in-
alguma inferncia. Ou ainda: o ato de admitir               fluenciado ou modificado por ela. Nesse senti-
tal proposio. A proposio admitida pode ser              do, um afeto (que  uma espcie de emoo
considerada verdadeira, falsa, provvel ou indi-            [v.]), ou uma paixo,  tambm uma A., na
ferente; se considerada verdadeira, chama-se                medida em que implica uma ao sofrida, mas
axioma; se provvel, hiptese, se indiferente,              tambm tem outras caractersticas que fazem
postulado. Mas pode ser admitida s com a fi-               dele uma espcie particular de afeio. Dize-
nalidade de ser refutada, mediante reduo ao               mos comumente que um metal  afetado pelo
absurdo. A A. distingue-se de assuno (v.)                 cido, ou que fulano tem uma afeco pulmo-
porque aquela diz respeito a uma proposio                 nar, ao passo que reservamos as palavras "afe-
cuja escolha ou proposta, como base de racio-               to" e "paixo" para situaes humanas, que
cnio, j foi feita por outros.                             apresentam todavia certo grau de passividade
    ADOPCIONISMO (in. Adoptionism; fr. Ado-                 por serem estimuladas ou ocasionadas por
ptionisme, ai. Adoptionismus; it. Adozionismo).             agentes externos.
Doutrina segundo a qual Cristo, em sua natu-                    Nesse sentido generalssimo, Aristteles en-
reza humana,  considerado Filho de Deus s                 tendeu a palavra 7i0o, que considerou como
por adoo. Essa doutrina compareceu vrias                 uma das dez categorias e exemplificou com
vezes na histria da Igreja. Foi ensinada por               "ser cortado, ser queimado" (Cat., 2 a 3); cha-
Teodoro, bispo de Mopsustia, por volta de                  mou de afetivas (7ioc9rjT.iKca) as qualidades sen-
400; foi retomada no sc. VIII por alguns bispos            sveis porque cada uma delas produz uma A.
espanhis, combatida por Alcuno e condenada                dos sentidos (ibid., 9 b 6). Alm disso, ao de-
pelo Concilio de Frankfurt de 794. Essa doutrina            clarar, no princpio de De anima, o objetivo de
implicava a independncia da natureza humana                sua investigao, Aristteles entendeu que visa-
em relao a Deus e, da, o dualismo entre na-              va conhecer (alm da natureza e da substn-
tureza humana e natureza divina: dualismo                   cia da alma) tudo o que acontece i. alma, isto ,
inadmissvel do ponto de vista da dogmtica                 tanto as A. que paream suas, quanto as que
crist.                                                     ela tem em comum com a alma dos animais
    AD VERECUNDIAM.  assim que Locke                       (Dean., I, 1, 402 a 9). No referido texto a pala-
denominou a argumentao que consiste "em                   vra A. (rax0r|) designa o que acontece  alma,
citar as opinies de homens que por talento,                isto , qualquer modificao que ela sofra. O
doutrina, eminncia, poder ou algum outro                   carter passivo das A. da alma, carter que pa-
motivo obteve fama e firmaram reputao                     recia ameaar-lhe a autonomia racional, levou
na estima comum com alguma espcie de auto-                 os esticos a declarar irracionais, logo ms, to-
ridade" (Ensaio, IV, 17, 19).  o apelo  autori-           das as emoes (DIG. L, VII, 110): donde a
dade.                                                       conotao moralmente negativa que assumiu a
    AFASIA (gr. cKpocotoc; in. Aphasia; fr. Apha-           expresso "A. da alma", revelada claramente
sie, ai. Aphasie, it. Afasia). Em sentido filosfi-         em expresses como perturbatio anim, ou
co,  a atitude dos cticos na medida em que                concitatio anim, usadas por Ccero (Tusc, IV,
se abstm de pronunciar-se, de afirmar ou de                6, 11-14) e por Sneca (Ep., 116), e expressa-
negar alguma coisa a respeito de tudo o que                mente consideradas por S. Agostinho (De civ.
"obscuro", isto , que no move a sensibilidade             Dei, IX, 4) como sinnimos de affectio e
de forma a produzir uma modificao que in-                 affectus (emoo). Mas S. Agostinho e, depois
duza necessariamente a assentir. A A. , assim,             dele, os escolsticos mantiveram o ponto de
a absteno do juzo vinculada  suspenso do               vista aristotlico da neutralidade das A. da
assentimento (v.) (SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp.,              alma sob o ponto de vista moral, no sentido de
I, 20, 192 ss.).                                            que elas podem ser boas ou ms, segundo se-
                                                            jam moderadas ou no pela razo; ponto de
    AFECO ou AFEIO (gr. nGo; lat.                     vista que S. Toms defendeu referindo-se pre-
Passio; in. Affection; fr. Affecton; ai. Affektion;        cisamente a Aristteles e a S. Agostinho (S. Th.,
it. Affezone). Esse termo, que s vezes  usado            II, I, q. 24, a. 2).
indiscriminadamente por afeto (v.) e paixo
(v.), pode ser distinguido destes, com base no                  A noo de modificao sofrida, isto , de
uso predominante na tradio filosfica, pela               qualidade ou condio produzida por uma
sua maior extenso e generalidade, porquanto                ao externa, mantm-se constante na tradio
designa todo estado, condio ou qualidade                  filosfica e exprime-se o mais das vezes com a
AFECO ou AFEIO                                       20                           AFECO ou AFEIO

palavra passio, que s na segunda metade do                    uma A. assim que dela formamos idia clara e
sculo XVIII assume o seu significado moderno                  distinta". Nesse caso, realmente, essa idia se
(v. PAIXO). Assim, Alberto Magno entende por                  distingue s racionalmente da emoo e se re-
A. "o efeito e a conseqncia da ao" (S. Th.,                fere s  mente; assim, deixa de ser uma A.
I, q. 7, a 1). S. Toms, que d idntica defini-               (ibid., V, 3)- Por isso Deus, que  desprovido
o (ibid., I, q. 97, a. 2), distingue trs significa-         de idias confusas, est isento de A. (ibid., V,
dos do termo: "O primeiro, que  o mais pr-                   17). No mesmo sentido, exprime-se Leibniz
prio, tem-se quando alguma coisa  afastada                    (Monad.,  49): "Atribui-se a ao  mnada na
daquilo que lhe convm segundo a sua nature-                   medida em que ela tem percepes distintas, e
za ou a sua inclinao prpria, como quando a                  a A. na medida em que tem percepes confu-
gua perde a sua frieza por ao do calor, ou                  sas". No mesmo sentido exprimem-se Wolff
como quando o homem adoece ou se entriste-                     (Ont.,  714) e Crusius (Vernunftwahrheiten,
ce. O segundo significado, que  menos pr-                     66).
prio, tem-se quando se perde uma coisa qual-                       Kant exprimiu do modo mais claro possvel
quer, seja ela ou no conveniente; e nesse                     a noo de A. como recepo passiva, em um
sentido se pode dizer que sofre uma ao                       texto de Antropologia ( 7): "As representaes
(pati) no s quem adoece mas tambm quem                      em relao s quais o esprito se comporta pas-
se cura e, em geral, quem quer que seja altera-                sivamente, por meio das quais, portanto, o su-
do ou mudado. Num terceiro sentido, diz-se                    jeito sofre uma A. [Affection] (de si mesmo ou
quando o que estava em potncia recebe aqui-                   de um objeto), pertencem  sensibilidade;
lo que ele era em potncia sem perder nada;                    aquelas, porm, que incluem o verdadeiro agir
em tal sentido, pode-se dizer que tudo o que                   (o pensamento) pertencem ao poder cog-
passa da potncia ao ato sofre uma ao mes-                   noscitivo intelectual. Aquele  tambm chama-
mo quando se aperfeioa" (ibid., I, q. 79, a. 2).              do poder cognoscitivo inferior e este, poder
Cada um desses significados, distinguidos por                  cognoscitivo superior. Aquele tem o carter da
S. Toms e compreendidos na noo geral de                     passividade do sentido interno das sensaes,
A., pode ser encontrado no uso ulterior do ter-                este tem o carter da espontaneidade da aper-
mo. Passio animi era a denominao que al-                     cepo, isto , da conscincia pura do agir que
guns escolsticos (cf. OCKHAM, In Sent., I, d. II,             constitui o pensamento; e pertence  lgica
q. 8 C) davam  species intelectiva, isto , ao                (isto , a um sistema de regras do intelecto) as-
universal ou conceito. A passio em geral  defi-               sim como aquele pertence  psicologia (isto ,
nida por Campanella (Phil. ration. dialectica,                 ao complexo de todos os atos internos subme-
I, 6) como "um ato de impotncia que consiste                 tidos a leis naturais) e fundamenta a experin-
em perder a prpria entidade -- essencial ou                   cia interna". Esses conceitos so fundamentais
acidental, no todo ou em parte -- e em receber                 para toda a Crtica da Razo Pura, especial-
uma entidade estranha". Descartes deu expres-                  mente para a distino entre esttica e lgica,
so clssica a essa noo em Paixes da alma                   que repousa no seguinte princpio: "Todas as
(I, 1, 1650): "Tudo o que se faz ou que aconte-                intuies, por serem sensveis, repousam em
ce de novo geralmente  chamado pelos filso-                 A.; os conceitos, ao contrrio, repousam em
fos de afeco, no que se refere ao sujeito a                 funes" (Crt. R. Pura, Analtica dos conceitos,
quem acontece, e de ao, no que se refere                     I, seo I). Essas observaes de Kant esto em
quilo que faz acontecer; de tal modo que, em-                 polmica com a tese da escola leibniziano-
bora o agente e o paciente sejam muitas vezes                 wolffiana, segundo a qual a sensibilidade con-
bem diferentes, a ao e a afeco no deixam                  siste nas representaes indistintas e a intelec-
de ser a mesma coisa com esses dois nomes,                     tualidade, nas distintas; o que, segundo notava
devido ao dois sujeitos diferentes aos quais se                Kant (Antr,  7, nota), significa que a sensibi-
pode referir". Em sentido anlogo, essa palavra                lidade consiste numa falta (falta de distino),
 empregada por Spinoza para definir o que                    enquanto esta  algo de positivo e de indispen-
ele chama de affectus e que ns chamaramos                   svel ao conhecimento intelectual.
de emoes ou sentimentos. As emoes, en-
quanto passiones, isto , A., constituem a impo-                 Em concluso, o termo A., entendido como
tncia da alma, que as vence transformando-as                 recepo passiva ou modificao sofrida, no
em idias claras e distintas. "A emoo, diz                  tem necessariamente conotao emotiva; e,
Spinoza (Et., V, 3), "que  uma A., cessa de ser              embora tenha sido empregado freqentemente
                                                              a propsito de emoes e afetos (pelo carter
AFETIVO                                               21                                              FRICA


claramente passivo destes), deve considerar-se              minao daquilo que deve ser o uso regulador
extensivo a toda determinao, inclusive                    das idias da razo pura.
cognoscitiva, que apresente carter de passivi-                AFIRMAO (gr. Kaxpocai; lat. Affirma-
dade ou que possa de qualquer modo ser con-                 tio\ in. Affirmation; fr. Affirmation; ai. Be-
siderada uma qualidade ou alterao sofrida.               jahung; it. Affermazion). Termo com o qual
    AFETIVO (in. Affective- fr. Affectif, ai.              se pode designar tanto o ato de afirmar, quanto
Affektiv-, it. Affettivo). O significado deste ad-         o contedo afirmado, isto , a proposio afir-
jetivo no se vincula ao da palavra "afeto", j que         mativa. Por isso, Aristteles considerou-a uma
designa em geral tudo o que se refere  esfera             das duas formas da assero, mais precisamen-
das emoes. "Estado A.", "funo A.", "condio           te a que "une alguma coisa com alguma coisa".
A." significam estado, funo ou condio de               (De interpr, 17 a 25). Segundo a mesma teoria
carter genericamente emotivo e podem refe-                aristotlica, ela une dois conceitos em um con-
rir-se a qualquer emoo, afeto ou paixo. O               ceito composto. Substancialmente, a tradio
mesmo significado genrico tem a expresso                 lgica sucessiva conservou essa doutrina e, da,
"vida A." e a empregada por Heidegger, "situa-             esse significado do termo A.; s os adeptos da
o A." (Befindlichkeii), para indicar a estrutu-          teoria do juzo como assentimento (Rosmini,
ra emotiva da existncia humana em geral (v.               Fr. Brentano, Husserl) consideram a A. como
SENTIMENTO).                                               ato de aceitao de uma representao ou idia
   AFETO (lat. Affectus; in. Affection; fr. Affect-        (v. ASSERO).                                 G. P.
ion; ai. Affektion; it. Affett). Entendem-se com              AFORISMO (gr. poptau = determina-
esse termo, no uso comum, as emoes posi-                 o, delimitao; in. Aphorism; fr. Apborisme;
tivas que se referem a pessoas e que no tm               ai. Aphorismus; it. Aforism). Proposio que
o carter dominante e totalitrio da paixo (v.).          exprime de maneira sucinta uma verdade, uma
Enquanto as emoes podem referir-se tanto a               regra ou uma mxima concernente  vida pr-
pessoas quanto a coisas, fatos ou situaes, os            tica. Inicialmente, essa palavra foi usada quase
A. constituem a classe restrita de emoes que             exclusivamente para indicar as frmulas que
acompanham algumas relaes interpessoais                  exprimem, de modo abreviativo e mnemnico,
(entre pais e filhos, entre amigos, entre paren-           os preceitos da arte mdica: p. ex., os A. de
tes), limitando-se  tonalidade indicada pelo              Hipcrates. Bacon exprimiu sob a forma de A.
adjetivo "afetuoso", e que, por isso, exclui o             as suas observaes (contidas no livro I do
carter exclusivista e dominante da paixo. Essa           Novum organum) "sobre a interpretao da na-
palavra designa o conjunto de atos ou de atitu-            tureza e sobre o reino do homem": provavel-
des como a bondade, a benevolncia, a inclina-             mente para sublinhar o carter prtico e ativo
o, a devoo, a proteo, o apego, a grati-              dessas observaes enquanto dirigidas a pre-
do, a ternura, etc, que, no seu todo, podem               parar o domnio do homem sobre a natureza. E
ser caracterizados como a situao em que uma              Schopenhauer chamou de A. sobre a sabedoria
pessoa "preocupa-se com" ou "cuida de" ou-                 de vida (em Parerga und Paralipomena) os
tra pessoa ou em que esta responde, positiva-              seus preceitos para tornar feliz, ou menos infe-
mente, aos cuidados ou a preocupao de que                liz, a existncia humana, conservando assim na
foi objeto. O que comumente se chama de "ne-               palavra o seu significado de mxima ou regra
cessidade de A."  a necessidade de ser com-               para dirigir a atividade prtica do homem.
preendido, assistido, ajudado nas dificuldades,                A FORTIORI. Expresso que no indica
seguido com olhar benvolo e confiante. Nes-               um modo especfico de argumentar, mas signi-
se sentido, o A. no  seno uma das formas do             fica simplesmente "com maior fora de razo".
amor (v.).                                                 Alguns lgicos designam com essa expresso
    AFINIDADE (in. Affinity, fr. Affinit, ai.             as inferncias transitivas do tipo "x implica y, y
Affinitt; it. Affinit). Kant chamou de "lei da           implica z, logo x implica z" (cf. STRAWSON, Intro-
A. de todos os conceitos" a regra da razo que             duction to Logical Theory, 1952, p. 207).
prescreve "a passagem contnua de uma esp-                    FRICA (in. frica-, fr. Afrique, ai. Afrik, it.
cie  outra por meio do aumento gradual da                 frica). Os filsofos procuraram s vezes justi-
sua diferena" (Crt. R. Pura, Apndice  dialtica        ficar "especulativamente", isto , nos termos da
transcendental). Essa lei, que resume em si as             sua filosofia, tambm a diviso dos continentes,
outras duas de homogeneidade (v.) e de                     no a considerando causai ou convencional,
especificao (v.), constitui, com elas, a deter-          mas essencial e racional. Assim, Hegel props
AGAPISMO                                             22                                            AGORA

a diviso do velho mundo em trs partes, A.,              da cincia positiva, sobretudo os problemas
sia e Europa, que estariam entre si como tese,           metafsicos e religiosos. O prprio Huxley de-
anttese e sntese. Nessa trade, a A. represen-          clarou ter cunhado esse termo "como anttese
taria o momento em que o esprito no conse-              do 'gnstico' da histria da Igreja, que pretendia
gue chegar  conscincia e o homem permane-               saber muito sobre coisas que eu ignorava". Esse
ce embrutecido na passividade e na escravido             termo foi retomado por Darwin, que se decla-
(PhilosophiederGeschichte, ed. Lasson, pp. 203            rou agnstico em uma carta de 1879- Desde
ss.). Analogamente, Gioberti viu na raa africa-          ento o termo foi usado para designar a atitude
na "a mais degenerada das estirpes humanas"               dos cientistas de orientao positivista em face
porque "o negro  privao da luz" (Protologia,           do Absoluto, do Infinito, de Deus e dos respec-
II, p. 221).                                              tivos problemas, atitude essa marcada pela re-
    AGAPISMO (in. Agapism). Termo empre-                  cusa de professar publicamente qualquer opi-
gado por Peirce para designar a "lei do amor              nio sobre tais problemas. Assim, foi chamada
evolutivo", em virtude da qual a evoluo cs-            da agnstica a posio de Spencer, que, na
mica tenderia a um incremento do amor frater-             primeira parte dos Primeiros princpios (1862),
no entre os homens (Chance, Love and Logic,               pretendeu demonstrar a inacessibilidade da
pp. 266 ss.).                                             realidade ltima, isto , da fora misteriosa que
    AGATOLOGIA (in. Agathology, fr. Agatho-               se manifesta em todos os fenmenos naturais.
logie, ai. Agathologie, it. Agatologid). Nome ra-         O fisilogo alemo Du-Bois Raymond, num
ramente usado para a doutrina do bem, como                texto de 1880, enunciava Os sete enigmas do
parte da tica (v.).                                      mundo (origem da matria e da vida; origem
    AGENTE (gr. noiriTiK; lat. Agens; in.               do movimento; surgimento da vida; organiza-
Agent; fr. Agent; ai. Ttige, it. Agente). Em ge-         o finalista da natureza; surgimento da sen-
ral, o que toma a iniciativa de uma ao ou               sibilidade e da conscincia; pensamento racio-
aquilo de que a ao promana ou deriva, em                nal e origem da linguagem; liberdade do querer),
contraposio a paciente, que  o que sofre a             em face dos quais ele achava que o homem
ao. Esses termos so prprios da filosofia              estava destinado a pronunciar um ignorabimus,
escolstica (v. AO). Para intelecto A., v. INTE-        j que a cincia nunca poder resolv-los. No
LECTO.                                                    mesmo perodo, essa palavra foi estendida para
   AGNOIOLOGIA (in. Agnoiology). Palavra                  designar tambm a doutrina de Kant, porquan-
introduzida por J. F. Ferrier (Institutes of              to esta considere que o nmeno, ou a coisa em
Metaphysics, 1856, p. 48) em correlao com               si, est alm dos limites do conhecimento hu-
epistemologia (v.), para indicar as duas esferas          mano (v. NMENO). Mas essa extenso da pala-
em que se divide a pesquisa filosfica. A A.             vra no pode ser considerada de todo legtima,
a doutrina da ignorncia, assim como a epis-              dada a concepo kantiana de nmeno como
temologia  a doutrina do saber. A esfera da              conceito-limite.  parte integrante da noo de
ignorncia era assim definida em relao com              A. a reduo do objeto da religio a simples
a esfera do saber, com o procedimento que                 "mistrio", em cuja interpretao os smbolos
depois tambm foi seguido por Spencer, para               usados so de todo inadequados.
determinar os limites do incognoscvel (v.).                 AGONSTICO (gr. ycViOTiK; in. Ago-
   AGNOSIA (gr. yvcooa; in. Agnosy, fr.                 nistic; fr. Agonistiqu). Uma das distines,
Agnosie, ai. Agnosie, it. Agnosia). Atitude de            referidas por Digenes Larcio, dos dilogos
quem professa nada conhecer, como a de                    platnicos. O A. e o exercitativo seriam as duas
Scrates, que afirmava s saber que no sabia             espcies do dilogo zettico ou inquisitivo-, e o
(PLATO, Ap., 21 a), reforada pelo ctico                dilogo zettico e o expositivo seriam as duas
Arcesilau, que dizia no saber nem mesmo isso             divises fundamentais dos dilogos platnicos
(CCERO, Acad., I, 45).                                   (DIG. L, III, 49).
   AGNOSTICISMO (in. Agnosticism; fr. Ag-                    AGORA (gr. x vV; lat. Nunc, in. Now; fr.
nosticisme, ai. Agnosticismus; it. Agnosticism).         Instant; ai. Jetzt; it. Ora). Entende-se por este
Esse termo foi criado pelo naturalista ingls             termo, na linguagem filosfica, o momento
Thomas Huxley em 1869 (CollectedEssays, V,                presente como limite ou condio do tempo,
pp. 237 ss.) para indicar a atitude de quem se            portanto diferente do instante (v.), que  uma
recusa a admitir solues para os problemas               espcie de encontro entre a eternidade e o tem-
que no podem ser tratados com os mtodos                 po. Segundo Aristteles, o A.  o presente ins-
AGOSTINISMO ou AUGUSTINISMO                           23                                             ALEGORIA

tantaneo, sem durao, que serve de limite mvel              Essas caractersticas aproximam os grandes
entre o passado e o futuro (Fs., IV, 11, 219 a            mestres da Escolstica franciscana como Ale-
25). Essa noo reaparece com freqncia nas               xandre de Hales (aprox. 1200), Robert Gros-
especulaes medievais sobre o tempo. Algu-                setete, S. Boaventura, Roger Bacon, Duns Scot
mas vezes, o A. foi concebido como uma res fluens          e muitos outros menores. Algumas dessas ca-
que logo se corrompe falha, sendo suplantada               ractersticas tambm podem ser encontradas
por outra (cf. PEDRO AUROLO, In Sent, II, d. 2, q.        em doutrinas filosficas modernas e contem-
1, a. 3). Essa concepo foi combatida por                 porneas, s quais chegam atravs da tradio
Ockham, que identificou o A. com a posio do              medieval ou, diretamente, da obra de S. Agos-
mvel cujo movimento  tomado como medida                  tinho.
do tempo (Summulae in librospbysicorum, IV,                   AGREGADO (in. Aggregate, fr. Agrgat; ai.
8). Na filosofia contempornea, esse termo foi             Aggregat; it. Aggregat). Em geral, uma coleo,
empregado por Husserl para indicar o horizonte             um aglomerado, um agrupamento, uma soma
temporal da vivncia. Como nenhuma expe-                   ou uma quantidade de coisas que, apesar disso,
rincia pode cessar sem a conscincia de cessar            conservam a individualidade. Esse termo  mui-
ou de ser cessada, essa conscincia  um novo              to usado em matemtica e lgica matemtica
instante presente ou agora. "Isto significa que            contempornea (v. CONJUNTO) e, em geral, nas
cada A. de uma experincia tem um horizonte                cincias naturais, que o empregam para indicar
de experincias que, tambm estas, tm a forma             massas ou agrupamentos de elementos que,
originria do A. e, como tais, constituem o ho-            apesar de estarem juntos, conservam as pro-
rizonte originrio do eu puro, o seu A. de cons-           priedades que tm separadamente.
cincia, abrangente e originrio (Ideen, I,  82).            AGRESSO, INSTINTO DE. V. INSTINTO.
   AGOSTINISMO ou AUGUSTINISMO (in                            ALEGORIA (gr. Xkrxyopia; lat. Allegoria; in.
Augustnianism; fr. Augustinism; ai. Augustinis-           Allegory, fr. Allgorie, ai. Allegorie, it. Allegoria).
mus; it. Agostinismo). Entende-se por esse ter-            No seu primeiro significado especfico, essa
mo, mais do que a doutrina original de S. Agos-            palavra indica um modo de interpretar as Sa-
tinho, o conjunto de caracteres doutrinrios que           gradas Escrituras e de descobrir, alm das coi-
caracterizaram uma das tendncias da Fscolstica           sas, dos fatos e das pessoas de que elas tratam,
(v.), seguida predominantemente pelos douto-               verdades permanentes de natureza religiosa ou
res franciscanos, em oposio  tendncia                  moral. A primeira aplicao importante do
aristotlico-tomista dos doutores dominica-                mtodo alegrico  o comentrio ao Gneses
nos. A fisionomia geral do A. medieval pode                de Flon de Alexandria (sc. I). Flon no hesita
ser expressa com os seguintes pontos (cf.                  em contrapor o sentido alegrico ao sentido
MANDONNET, SigerdeBrabant, 2a ed., 1911,1, pp.             literal e em qualificar de "tolo" (er|0r|c;) este
55 ss.): a) falta de distino precisa entre o do-         ltimo. Eis um exemplo: '"E Deus acabou no
mnio da filosofia e o da teologia, isto , entre a        stimo dia as obras que Ele criou' (Gn., II, 2).
ordem das verdades racionais e a das verdades               absolutamente tolo crer que o mundo nasceu
reveladas; b) teoria da iluminao divina, segun-          em seis dias ou, em geral, no tempo. Por qu?
do a qual a inteligncia humana no pode funcio-           Porque todo tempo  um conjunto de dias e de
nar seno pela ao iluminadora e imediata de              noites necessariamente produzidos pelo movi-
Deus e no pode encontrar a certeza do seu co-             mento do sol que vai para cima e para baixo da
nhecimento fora das regras eternas e imutveis             terra; mas o sol  uma parte do cu, de tal
da cincia divina; c) primazia da noo de bem             modo que se conclui que o tempo  mais re-
sobre a de verdadeiro e, portanto, da vonta-               cente do que o mundo" (AH. leg., I, 2). Por sua
de sobre a inteligncia, tanto em Deus quanto              vez, Orgenes, que  o primeiro autor de um
no homem; d) atribuio de uma realidade po-               grande sistema de filosofia crist, distinguia nos
sitiva  matria, ao contrrio de Aristteles, que         textos bblicos trs significados: o somtico, o
nela v pura potencialidade; do que deriva, p.             psquico e o espiritual, que esto entre si como
ex., que o corpo humano possui realidade ou                as trs partes do homem: o corpo, a alma e o
atualidade prprias, isto , uma forma indepen-            esprito (Deprinc, IV, 11). Na prtica, porm,
dente da alma e que a alma , portanto, uma                contrapunha o significado espiritual ou alegrico
forma ulterior que se acrescenta ao composto               ao corpreo ou literal e sacrificava decidida-
vivente e animal; da, a chamada pluralidade               mente este ltimo em favor do primeiro, j que
das formas substanciais no composto.                       s o significado alegrico constitui a verdade
ALEGORIA                                              24                               ALEXANDRINISMO

racional contida nas Sagradas Escrituras (ibid.,           Boa parte da esttica moderna declara, por
IV, 2). Em seguida, tornou-se dominante na                 isso, que a A.  fria, pobre e enfadonha; e insiste
Idade Mdia a distino de trs significados da            na interpretao da poesia e, em geral, da
Escritura (como se encontra, por exemplo, for-             arte, com base no smbolo (v.), que pode ser
mulada por Hugo de S. Vtor, Descripturis, III):           vivo e evocador, porque a imagem simblica 
significado literal, significado alegrico e signi-        autnoma e tem interesse em si mesma, isto ,
ficado anaggico. Eis como Dante expe a                   um interesse que no transforma sua refern-
doutrina: "As escrituras podem ser entendidas              cia convencional em conceito ou doutrina. To-
e devem ser expostas sobretudo em quatro                   davia, se levarmos em conta a potencialidade e
sentidos. Um chama-se literale  o que no vai             a vitalidade de certas obras de arte que tm
alm da prpria letra; o outro chama-se aleg-             clara estrutura alegrica (p. ex., Divina com-
rico e  o que se esconde sob o manto das                  dia e muitas pinturas medievais e renascentistas),
fbulas, sendo a verdade oculta sob belas men-             deveremos dizer que a A. no impossibilita,
tiras... O terceiro sentido chama-se moral, e             necessariamente, a autonomia e a leveza da
o que os leitores devem atentamente ir desco-              imagem esttica e que, em certos casos, mes-
brindo nas escrituras para utilidade sua e de              mo a correspondncia pontual entre imagem e
seus discpulos... O quarto sentido chama-se               conceito pode no ser mortificante para a ima-
anaggico, isto , supra-sentido; e aparece                gem nem lhe tolher a vitalidade artstica ou
quando se expe espiritualmente uma escritu-               potica. T. S. Eliot fez, justamente a propsito
ra que, embora seja verdadeira tambm no sen-              de Dante, uma defesa da A. nesse sentido {The
tido literal, pelas coisas significadas significa          Sacred Wood, 1920, trad. it., pp. 241 ss.).
coisas supremas da eterna glria: como se pode                 ALETIOLOGIA (ai. Alethiologie). Assim
ver naquele canto do Profeta que diz que, com              chamou Lambert a segunda das quatro partes
a sada do povo de Israel do Egito, a Judia               do seu Novo organon (1764), mais precisamente
tornou-se santa e livre. O que, embora seja                a que estuda os elementos simples do conhe-
verdadeiro segundo a letra manifesta, no me-              cimento.  uma espcie de anatomia dos con-
nos verdadeiro  o que se entende espiritual-              ceitos que tem a finalidade de compreender os
mente, isto , que na sada da alma do pecado,             conceitos mais simples e indefinveis.
ela se torna santa e livre em sua potestade"                   ALEXANDRINISMO (in. Alexandrinism, fr.
(OBanq., II, 1). Mas entre esses sentidos, como            Alexandrinisme, ai. Alexandrinismus; it. Ales-
diz o prprio Dante, o fundamental, para o                 sandrinismo). Entende-se por esse termo a cul-
telogo como para o poeta,  o alegrico. E, de            tura alexandrina, isto , a cultura do perodo
fato, na Idade Mdia a A. tornou-se o modo de              que se seguiu  morte de Alexandre Magno
entender a funo da arte e, especialmente, da             (323 a.C), que unificara o mundo antigo sob o
poesia. Joo de Salisbury dizia que Virglio, "sob         signo da cultura grega centralizando-a no Egi-
a imagem das fbulas, exprime a verdade de                 to, na nova cidade de Alexandria. A dinastia
toda a filosofia" e que Dante (Vita nuova, 25)             dos Ptolomeus almejou fazer dessa cidade um
definia assim a tarefa do poeta: "Vergonha seria           grande centro intelectual para o qual conflus-
para aquele que rimasse coisas sob as veste de             sem a cultura grega e a oriental, mediadas e
figura ou de cor retrica, e depois, interrogado,          unificadas pela lngua que se tornara patrimnio
no soubesse desnudar as suas palavras de                  comum dos doutos, o grego. Cientistas e pen-
tal veste, de modo que tivessem real entedi-               sadores de todos os pases ficavam hospeda-
mento".                                                    dos no Museu e tinham  sua disposio um
   No mundo moderno a A. perdeu valor e                    material cientfico e bibliogrfico excepcional
negou-se que ela possa exprimir a natureza ou              para o tempo. Ao Museu foi depois acrescenta-
a funo da poesia. Viu-se nela a aproximao              da a biblioteca, cujo primeiro ncleo, diz-se, foi
de dois fatos espirituais diferentes, o conceito           formado pelas obras de propriedade de Arist-
de um lado, a imagem de outro entre os quais               teles, e que depois se tornou riqussima, at
ela estabeleceria uma correlao convencional              compreender 700.000 volumes. A cultura ale-
e arbitrria (Croce); e sobretudo, foi acusada de          xandrina  caracterizada pelo divrcio entre
negligenciar ou impossibilitar a autonomia da              cincia e filosofia. Enquanto as pesquisas cien-
linguagem potica, que no teria vida prpria              tficas, a determinao dos mtodos da cincia
porque estaria subordinada s exigncias do                e a sistematizao dos resultados do grandes
esquema conceituai a que deveria dar corpo.                passos nesse perodo, a filosofia renuncia  ta-
A1EXANDRISMO                                        25                                              ALGUM

refa que constituiu a sua grandeza no perodo            pegadas foram seguidas por Stanley Jevons
clssico: a de procurar livremente os caminhos           (PurLogic, 1864), porj. Venn (Symbolic Logic,
e os modos de uma existncia propriamente                1881) e pelo alemo E. Schrder (lgebra der
humana. Enrijece-se na pretenso de assegurar            Logk, 1890-1895). A lgebra da lgica geral-
ao homem, a todo custo, a paz e a serenidade             mente  entendida como um clculo literal bi-
de esprito, e desse modo torna-se privilgio            valente, caracterizado: \- pelo fato de que as
de uns poucos pensadores que conseguem iso-              equaes podem assumir apenas os valores 0
lar-se do resto da vida e dos problemas que a            ou 1; 2 pelos axiomas "a + a = a" e "a = a"
dominam, desinteressando-se, portanto, tam-              (com todas as conseqncias que da deri-
bm da pesquisa cientfica. A cincia da era             vam); 3fi pela ausncia de operaes indiretas,
alexandrina conta com grandes matemticos                como a subtrao (no sendo possvel equi-
(Euclides, Arquimedes, Apolnio); astrnomos             parar a negao"- a"  subtrao, no obstante
(Hiparco e Ptolomeu); gegrafos (Eratstenes);           o axioma, j enunciado por Leibniz, "a ~ a =
mdicos (Galeno). A filosofia apresenta-se di-           0"). Esse clculo literal em si nada significa,
vidida em duas grandes escolas: o Epicurismo             um mero jogo simblico (precisamente, uma
(v.) e o Estoicismo (v.); e em duas tendncias           "A. booliana" entre as muitas possveis), mas
filosficas sustentadas por escolas diferentes: o         passvel de duas interpretaes, que interes-
Ceticismo (v.) e o Ecletismo (v.). Pode-se dizer         sam  Lgica. Na primeira, os smbolos a, b,
que  desse perodo que provm a noo de                c,... indicam classes; os sinais "+", "." indicam
filosofia, ainda hoje muitas vezes predominan-           operaes entre classes (v. ADIO; MULTIPLI-
te no senso comum, como atividade consoladora            CAO LGICA); a < b interpreta-se como "a
ou tranqilizante, que impede ao homem imis-             classe a est includa na classe b"; o sinal de
cuir-se nas coisas da vida comum e procura               negao "- a" ou "a"' indica a classe formada
garantir-lhe a imperturbabilidade de esprito.           por todos os indivduos que no pertencem 
    ALEXANDRISMO (in. Alexandrianisni; fr.               classe a-, 0 indica a classe vazia; 1 indica a clas-
Alexandrisme, ai. Alexandrismus; it. Alessan-            se total ou universo do discurso (v.). A segun-
drism). Assim foi chamada, no Renascimento,             da interpretao , ao contrrio, proposicional:
a doutrina de Alexandre de Afrodsia sobre o             os smbolos a, b, c,... indicam proposies; os
intelecto ativo (v.).                                    sinais "+", ".", indicam operaes sobre pro-
    ALFA-MEGA. Expresso usada no                       posies; "a< b" indica implicao ("a impli-
Apocalipse para designar Deus como princpio             ca >"); "- a" (ou a') indica a negao da pro-
e fim do mundo (Ap., I, 8; 21, 6; 22, 13; etc).          posio a; finalmente, 0  interpretado como
    LGEBRA DA LGICA (in. Logical lgebra;              "falso", 1  interpretado como "verdadeiro". Des-
fr. Algbre de Ia logique, ai. lgebra derLogik;         se modo, funda-se a interpretao do clculo
it. lgebra delia lgica). J Leibniz intura a          lgico-algbrico que vai absorver a silogstica
possibilidade de um clculo literal que tivesse          tradicional, transformando-a em disciplina
afinidade com a A. comum, em que, definin-               formal e dedutiva. Foi ultrapassada pela Lgi-
do-se por axiomas (muito semelhantes aos al-             ca matemtica, fundada por Frege e Russell, e,
gbricos) certas operaes lgicas (adio, sub-         depois, pela Lgica simblica contempornea, que
trao, multiplicao, diviso, negao) e certas        absorveu os elementos mais vitais da A. da
relaes (implicao, identidade) fundamen-              Lgica.                                       G. P.
tais, indicadas com smbolos extrados da ma-                ALGORITMO (in. Algorism; fr. Algorithme,
temtica, seria possvel derivar desses axio-            ai. Algorithmus; it. Algoritmo). Qualquer pro-
mas, mediante clculo, todas as regras da                cesso de clculo. Esse termo, derivado do nome
silogstica tradicional. Mas (talvez pelo predo-         do autor rabe de um tratado que introduziu a
mnio de fortes preocupaes com o conte-               numerao decimal na Europa do sc. IX, de-
do de origem filosfica sobre a idia pura do            signava a princpio os processos de clculo
clculo) Leibniz no chegara a resultados                aritmtico e depois foi generalizado para indi-
satisfatrios. No foram mais felizes as tenta-          car todos os processos de cclulo.
tivas de seus continuadores, como Lambert.                   ALGUM (in. Some, fr. Quelque, ai. Einige,
Somente os lgicos ingleses do sc. XIX con-             it. Qualch). Na Lgica contempornea, "A."
seguem fundar uma verdadeira A. O primeiro               ou "alguns"  um operador de campo, cujo
foi George Boole {Mathematical Analysis of               smbolo mais usado  ''(3x)", p. ex., em frmu-
Logic, 1847; Laws of Thougbt, 1854), cujas               las como "(3x) . f(x)", que se l "existe ao menos
ALGUMA COISA                                          26                                      ALIENAO

um x tal que f(x)  verdadeira". Corresponde a             estado que no tem nada mais de humano (De
uma soma ou a uma disjuno lgica operada                 gratia contemplatonis, V, 2). Nesse sentido, a
no campo de validade do (x), isto ,  disjuno           A. no  seno o xtase (v.).
"f(a) ou f(b) ou f(c) ou ...". Onde f(x) for um                2. Esse termo foi empregado por Rousseau
predicado, essa frmula eqivaler  frmula               para indicar a cesso dos direitos naturais 
costumeira "algum x  f ou ainda "alguns x                 comunidade, efetuada com o contrato social.
so /" da Lgica tradicional. J nos Analticos            "As clusulas deste contrato reduzem-se a uma
                 
de Aristteles, T  (habitualmente no dativo xivi          s: a A. total de cada associado, com todos os
na frmula x A xivi xw B Tcp^et, "A  ineren-           seus direitos, a toda a comunidade" (Contrato
te a algum B')  usado com esse valor preciso,             social, I, 6).
como sinal da proposio particular afirmati-                  3. Hegel empregou o termo para indicar o
va. No latim medieval, introduzindo-se como                alhear-se a conscincia de si mesma, pelo qual
forma normal de proposio a frmula "homo                 ela se considera como uma coisa. Este alhear-
currit", o xi grego, que j em Aristteles sem-           se  uma fase do processo que vai da cons-
pre se referia ao sujeito lgico da proposio,            cincia  autoconscincia. "A A. da auto-
 traduzido pelo adjetivo aliquis, concordando             conscincia", diz Hegel, "coloca, ela mesma, a
gramaticalmente com o sujeito (assim, aliquis              coisalidade, pelo que essa A. tem significado
homo currit, mas aliqui homines currunt, em-               no s negativo, mas tambm positivo, e isto
bora as duas formas, em Lgica, sejam perfei-              no s para ns ou em si, mas tambm para a
tamente sinnimas): da, o nosso "A." e "al-               prpria autoconscincia. Para esta, o negativo
guns". Todavia,  na Lgica medieval que se                do objeto ou a auto-subtrao deste ltimo fem
lhe reconhece claramente a funo de opera-                significado positivo, isto , ela mesma; de fato,
dor, isto , de signo no significante cuja nica          nessa A. ela coloca-se a si mesma como objeto
tarefa  modificar a denotao do termo que                ou, por fora da inscindvel unidade do ser-
funciona como sujeito.                       G. P.         para-si, coloca o objeto como si mesma, enquan-
   ALGUMA COISA (gr. T; lat. Aliquid; in.                 to, por outro lado, nesse ato est contido o
Somethng; fr. Quelque chose; ai. Etwas; it.               outro momento do qual ela tirou e retomou
Qualcosa). Um objeto indeterminado. Diz Wolff:             em si mesma essa A. e objetividade, estando,
"A.  aquilo a que corresponde determinada                 portanto, no seu ser outra coisa como tal, junto
noo" (Ont.,  591): o que quer dizer aquilo a            a si mesma. Este  o movimento da conscin-
que corresponde uma noo que no inclua                   cia que nesse movimento  a totalidade dos
contradio. Baumgarten vale-se desta ltima               prprios momentos" (Phnomen. des Geistes,
caracterstica para definir A. (Met.,  8). E Kant         VIII, 1).
dizia: "A realidade  A., a negao  nada"                    Esse conceito puramente especulativo foi
(Crt. R. Pura, Anal. dos princ, Nota s anfibolias        retomado por Marx nos seus textos juvenis,
dos conceitos da reflexo). E Hegel: "O ser                para descrever a situao do operrio no regi-
determinado, refletido em si neste seu carter,            me capitalista. Segundo Marx, Hegel cometeu
 o que existe, o A." {Ene,  90). O conceito             o erro de confundir objetivao, que  o processo
agora de pertinncia da lgica (cf. QUANTIFI-              pelo qual o homem se coisifica, isto , exprime-
CADOR).                                                    se ou exterioriza-se na natureza atravs do tra-
   ALIENAO (in. Alienation; fr. Alination;              balho, com a A., que  o processo pelo qual o
ai. Entfremdung; it. Alienazione). Esse termo,             homem se torna alheio a si, a ponto de no se
que na linguagem comum significa perda de                  reconhecer. Enquanto a objetivao no  um
posse, de um afeto ou dos poderes mentais, foi             mal ou uma condenao, por ser o nico cami-
empregado pelos filsofos com certos significa-            nho pelo qual o homem pode realizar a sua
dos especficos.                                           unidade com a natureza, a A.  o dano ou a
    1. Na Idade Mdia, s vezes foi usado para             condenao maior da sociedade capitalista. A
indicar um grau de ascenso mstica em dire-               propriedade privada produz a A. do operrio
o a Deus. Assim, Ricardo de S. Vtor conside-            tanto porque cinde a relao deste com o pro-
ra a A. como o terceiro grau da elevao da                duto do seu trabalho (que pertence ao capita-
mente a Deus (depois da dilatao e do so-                 lista), quanto porque o trabalho permanece
levament) e considera que ela consiste no                 exterior ao operrio, no pertence  sua perso-
abandono da lembrana de todas as coisas                   nalidade, "logo, no seu trabalho, ele no se
finitas e na transfigurao da mente em um                 afirma, mas se nega, no se sente satisfeito, mas
ALIENAO                                             27                                              ALMA


infeliz... E somente fora do trabalho sente-se             de A. depende da problematicidade da noo
junto de si mesmo, e sente-se fora de si no                de homem.
trabalho". Na sociedade capitalista, o trabalho                ALMA (gr. \|fu^r|; lat. Anima; in. Soul; fr.
no  voluntrio, mas obrigatrio, pois no               me, ai. Seele, it. Anima). Em geral, o princpio
satisfao de uma necessidade, mas s um meio              da vida, da sensibilidade e das atividades espiri-
de satisfazer outras necessidades. "O trabalho             tuais (como quer que sejam entendidas e clas-
exterior, o trabalho em que o homem se aliena,             sificadas), enquanto constitui uma entidade em
 um trabalho de sacrifcio de si mesmo, de                si, ou substncia. Esta ltima noo  importante
mortificao" (Manuscritos econmico-filosfi-             porque o uso da noo de A. est condicionado
cos, 1844, I, 22). Esse uso do termo tornou-se             pelo reconhecimento de que certo conjunto de
corrente na cultura contempornea, no s na               operaes ou de eventos, chamados "psqui-
descrio do trabalho operrio em certas fases             cos" ou "espirituais", constituem manifestaes
da sociedade capitalista, mas tambm a prop-              de um princpio autnomo, irredutvel, pela
sito da relao entre o homem e as coisas na               sua originalidade, a outras realidades, embora
era tecnolgica, j que parece que o predom-              em relao com elas. Que a alma seja incorprea
nio da tcnica "aliena o homem de si mesmo"                ou tenha a mesma constituio das coisas
no sentido de que tende a fazer dele a engrena-            corpreas  questo menos importante, j que
gem dg uma mquina (v. TCNICA). Tambm                    a soluo materialista em geral se fundamenta,
sob esse ponto de vista Sartre retornou ao con-            assim como a soluo oposta, no reconheci-
ceito hegeliano da A., entendida como "um ca-              mento da A. como substncia. Nesse significa-
rter constante da objetivao, seja ela qual for":        do fundamental, a A.  o mais das vezes con-
                                                           siderada como "substncia": entendendo-se por
onde se entende por "objetivao" qualquer
                                                           esse termo precisamente uma realidade em si,
relao do homem com as coisas e com os                    isto , que existe independentemente das ou-
outros homens (Critique de Ia raison dialectique,          tras (v. SUBSTNCIA). O reconhecimento da reali-
1960, p. 285). Marcuse, por sua vez, conside-              dade-A. parece prover slido fundamento aos
rou a A. como a caracterstica do homem e da               valores vinculados s atividades espirituais hu-
sociedade "numa s dimenso", ou seja, como                manas, os quais, sem ela, pareceriam suspensos
a situao na qual no se distingue o dever ser            no nada; de modo que a substancialidade da A.
do ser, por isso, o pensamento negativo, ou                considerada, pela maior parte das teorias fi-
a fora crtica da Razo,  esquecida ou calada            losficas tradicionais, como uma garantia da
pela fora onipresente da estrutura tecnolgi-             estabilidade e da permanncia desses valores;
ca da sociedade (One Dimensional Man, 1964,                garantia que, s vezes,  reforada pela crena
p. 12).                                                    de que a A. , no mundo, a realidade mais alta
    Na linguagem filosfico-poltica hoje corren-          ou ltima, ou, s vezes, o prprio princpio
te, esse termo tem os significados mais ds-               ordenador e governador do mundo. Dadas es-
pares,, dependendo da variedade dos carac-                 sas caractersticas da noo, a sua histria filo-
teres nos quais se insiste para a definio do             sfica apresenta-se relativamente montona, por
homem. Se o homem  rkzo autocontemplativa                ser, predominantemente, a reiterao da reali-
(como pensava Hegel), toda relao sua com                 dade da A. nos termos dos conceitos que cada
um objeto qualquer  A. Se o homem  um ser                filsofo assume para definir a prpria realida-
natural e social (como pensava Marx), A.  re-             de. Assim, p. ex., a A.  ar para Anaxmenes (Fr.
fugiar-se na contemplao. Se o homem  ins-               2, Diels) e para Digenes de Apolnia (Fr. 5,
tinto e vontade de viver, A.  qualquer represso          Diels), que julgam ser o ar o princpio das coi-
ou diminuio desse instinto e dessa vontade;              sas;  harmonia para os pitagricos (ARISTTE-
se o homem  racionalidade operante ou ativa,              LES, Pol., VIII, 5, 1340 b 19), que na harmonia
A.  entregar-se ao instinto. Se o homem                  exprimvel em nmeros vem a prpria estru-
razo (entendida de qualquer modo), A.  refu-             tura do cosmos;  fogo para Herclito (Fr. 36,
giar-se na fantasia; mas, se  essencialmente              Diels), que v no fogo o princpio universal;
imaginao e fantasia, A.  qualquer disciplina            para Demcrito,  formada por tomos redon-
                                                           dos, que podem penetrar no corpo com gran-
racional. Enfim, se o indivduo humano  uma
                                                           de rapidez e mov-lo (ARISTTELES, Dean., I, 2,
totalidade auto-suficiente e completa, A.  qual-          404,1); e assim por diante. Provavelmente Plato
quer regra ou norma imposta, de qualquer modo,             s fez exprimir um pensamento implcito nes-
 sua expresso. A equivocidade do conceito
ALMA                                                 28                                               ALMA

sas determinaes, quando afirmou que a A. se                Essas determinaes aristotlicas constitu-
move por si e a definiu com base nessa carac-             ram, por sculos a fio, todo o projeto da "psico-
terstica. "Todo corpo cujo movimento  impri-            logia da A.". Consoante os vrios interesses
mido de fora  inanimado, todo corpo que se               (metafsico, moral, religioso) que orientaram
move de per si, do seu interior,  animado; e             os desenvolvimentos dessa psicologia, ao lon-
essa , precisamente, a natureza da A." (Fed.,            go de sua histria deu-se maior nfase a uma
245 d). A alma , portanto, a causa da vida               ou a outra das determinaes aristotlicas. Destas,
(Crat., 399 d) e por isso  imortal, j que a vi-         as mais importantes so: que a alma  substn-
da constitui a sua prpria essncia {Fed., 105 d          cia, isto , realidade no sentido forte do termo,
ss.). Com essas determinaes, Plato fazia n-           e princpio independente de operaes, isto ,
tida distino entre a realidade da A., simples,          causa. So determinaes cuja finalidade  ga-
incorprea, que se move por si, que vive e d             rantir um slido sustentculo para as atividades
vida, e a realidade corprea, que tem os                  espirituais, portanto para os valores produzi-
caracteres opostos. E essas determinaes de-             dos por tais atividades. A segunda srie de
viam servir de base a todas as consideraes              determinaes  a da simplicidade e da indi-
filosficas ulteriores sobre a alma.                      visibilidade, cujo objetivo  garantir a impas-
                                                          sibilidade da A. em face das mudanas do cor-
    Entre elas, a de Aristteles  a mais impor-          po e, atravs de sua indecomponibilidade, a
tante, pois as determinaes que ele atribui ao           sua imortalidade. A terceira determinao im-
ser psquico, nos termos do seu conceito de               portante  a sua relao com o corpo, definida
ser, deveriam permanecer por longo tempo o                por Aristteles como relao da forma com a
modelo de boa parte das doutrinas da alma.                matria, do ato com a potncia. A primeira
Segundo Aristteles, a A.  a substncia do               determinao no  negada nem mesmo pelos
corpo.  definida como "o ato final (entelechia)          materialistas. Epicuro, que diz ser a A. compos-
mais importante de um corpo que tem a vida                ta por partculas sutis, difundidas por todo o
em potncia". A A. est para o corpo assim                corpo como um sopro quente, cr, todavia, que
como a viso est para o rgo da viso:  a              ela tem a capacidade causativa da sensao,
realizao da capacidade prpria de um corpo              que  preparada pelo corpo -- que dela parti-
orgnico. Assim como todo instrumento tem                 cipa --, mas que, em certa medida,  indepen-
sua funo, que  o ato ou a atividade do ins-            dente do prprio corpo, pois, quando a A. se
trumento (como, p. ex., a funo do machado               separa do corpo, este deixa de ter sensibilidade
 cortar), tambm o organismo, enquanto instru-           (Ep. a Herod., 63 ss.). Desse modo, a A. no 
mento, tem a funo de viver e de pensar, e o             simples nem imortal (dissolve-se nas suas par-
ato dessa funo  a A. (Dean., II, 1, 412 a 10).         tculas com a morte do corpo), mas ainda 
Por isso, a A. no  separvel do corpo ou, ao            uma realidade em si, dotada de capacidade
menos, no so separaveis do corpo as partes              causativa prpria, indispensvel  vida do cor-
da A. que so atividades das partes do corpo, j          po. De modo anlogo, os esticos julgam que
que nada impede que sejam separveis as par-              a A.  um sopro congnito; que, como tal, 
tes que no so atividade do corpo (ibid.; 413            corpo, pois, se no o fosse, no poderia unir-
a 4 ss.). Com essa restrio, Aristteles alude          se a ele nem separar-se dele; todavia, pode ser
parte intelectiva da A., que ele chama de "um             imortal, como  certamente imortal a A. do
outro gnero de A.", e a considera como a                 mundo, de que fazem parte as A. dos seres
nica separvel do corpo (ibid., II, 2, 413 b 26).        animados e as dos sbios (DIG. L, VII, 156-
Como ato ou atividade, a A.  forma e como                67). Aqui, a corporeidade da A. no a isenta de
forma  substncia, em uma das trs determi-              simplicidade nem de imortalidade; o mesmo se
naes da substncia, que so: forma, matria             d com a concepo de Tertuliano, que tam-
ou o composto de forma e matria. A mat-                 bm a considera um sopro, ou flatus, de Deus
ria  potncia, a forma  ato e todo ser animado          e, portanto, gerada, corprea e imortal (De
 composto por essas duas coisas; mas enquanto            an., 8 ss.).
o corpo no  o ato da A., a A.  a atividade de
                                                              A aceitao quase universal da doutrina aris-
um corpo determinado, isto , a realizao                totlica da A. tem uma exceo em Plotino, que
da potncia prpria desse corpo: donde se pode            critica tanto a doutrina segundo a qual a A. 
dizer que ela no existe nem sem o corpo nem              corpo quanto a da A. como forma do corpo
como corpo (ibid., 414 a 11).                             (Enn., IV, 7, 2 ss.; IV, 7, 8, 5). E o motivo  um
ALMA                                                  29                                               ALMA

s: Plotino no acha que a A. tenha ligao                e a transmite ao mundo cristo, com o reconhe-
alguma com o corpo e a sua nica preocupa-                 cimento da interioridade espiritual como via de
o  definir a realidade exatamente nos ter-              acesso privilegiada  realidade prpria da alma.
mos da sua independncia em relao ao cor-                    Essa via de acesso  a experincia interior,
po e a todas as determinaes corpreas. Por               a reflexo sobre a prpria interioridade, a "con-
conseguinte, Plotino acentua os caracteres di-             fisso" como reconhecimento da realidade nti-
vinosda A.: sua unidade e indivisibilidade, donde          ma; em uma palavra, o que na linguagem mo-
sua ingenerabilidade e incorruptibilidade, que             derna se chama conscincia(v.). Nos Solilquios
so todos caracteres negativos, assim como, alis,         (I, 2), S. Agostinho declarava no querer co-
so negativos os caracteres que Plotino atribui            nhecer nada alm de "Deus e a A.". Mas, para
a Deus. Mas qual  a via de acesso  realidade             ele, Deus e a A. no exigem duas indagaes
da A. assim entendida? Plotino responde que,               paralelas ou de qualquer forma diferentes, j
para examinar-se a natureza de uma coisa,                 que Deus est na A. e se revela na mais oculta
preciso consider-la em sua pureza, pois tudo              interioridade da prpria A. "No saias de ti,
o que se lhe acrescenta  um obstculo a seu               volta-te para ti mesmo, no interior do homem
conhecimento. Da, para examinar-se o que                 mora a verdade; e, se achares mutvel a tua
a A.,  preciso retirar-lhe tudo o que lhe                natureza, transcende-te a ti mesmo" (De vera
estranho, isto , convm olhar para si mesmo e             rei,  39). Essa atitude, que domina toda a bus-
retirar-se na prpria interioridade. Desse modo,           ca agostiniana, deveria produzir frutos mais tarde,
a noo de conscincia, entendida como intros-             a comear pela Escolstica tardia, -- Mas a
peco ou reflexo sobre si mesmo, ou refle-               Escolstica, em seu conjunto,  dominada pela
xo interior, graas a Plotino, comea a superar           doutrina aristotlica da A., reproposta quase
a noo de A., j que a prpria alma  reduzida            nos mesmos termos desde Scotus Erigena (De
ao movimento de introspeco. "No  saindo                divis. nat., II, 23) at Duns Scot (Op. Ox., IV, 43,
da A.", diz Plotino, "que se podem ver a sabe-             q. 2), que se limita a acrescentar que, sendo a
doria e a justia; a A. v essas coisas em si              A. a forma do corpo, como dizia Aristteles,
mesma, na sua reflexo sobre si mesma; no seu              no pode subsistir quando o corpo  destrudo;
estado primeiro, v-as em si como esttuas cheias          logo, a imortalidade  pura matria de f. As
da ferrugem do tempo, que ela limpa.  como                prprias observaes de S. Toms (5. Th., I, q.
se o ouro tivesse A. e ficasse livre do lodo que           75; Contra Gent., II, 79 ss.) nada acrescentam 
o cobrisse: no incio, estaria na ignorncia de si         doutrina aristotlica da A., salvo a maior insis-
mesmo, no se veria como ouro, depois, admi-               tncia na independncia desta em relao ao
raria a si mesmo vendo-se isolado, e no de-               corpo, com o fim de assegurar-lhe a imortalida-
sejaria ter outra beleza estranha, mas seria tan-          de. A nica inovao que a Escolstica agos-
to mais forte quanto mais ficasse entregue a si            tiniana apresenta em relao a essa teoria, em
mesmo" (Enn., IV, 7, 10). Essas palavras de                oposio  orientao aristotelicotomista da mes-
Plotino abrem a outra alternativa da doutrina              ma Escolstica, diz respeito  relao entre A. e
da A., isto , aquela pela qual acabar sendo              corpo: a admisso de uma forma corporeitatis,
suplantada pelo conceito de conscincia. Aqui,             que  prpria do corpo como tal, anteriormen-
retirar-se em si mesmo, ficar entregue a si mes-           te  sua unio com a A., e que o predispe a tal
mo, olhar para a prpria interioridade, refletir           unio. A forma corporeitatis  a realidade que o
sobre si so expresses que servem para defi-              corpo humano possui, como corpo orgnico,
nir um tipo de busca que prescinde completa-               independentemente da sua unio com a A. (DUNS
mente do corpo e, por isso, tambm daquilo                 SCOT, Op. Ox., IV, 11, q. 3; OCKHAM, Quodl, II,
com que o corpo se pe em relao, isto , as              q. 10). Essa admisso vincula-se ao reconheci-
coisas e os outros homens (bd., V, 3, 1-2).              mento de que a matria, em geral, no  pura
                                                           potncia, mas possui, j como matria, certa
    Os neoplatnicos e os Pais da igreja orien-            realidade atual que  precisamente a forma
tal repetem as determinaes neoplatnicas:                corporeitatis (v. AGOSTINISMO).
a imaterialidade e a unidade da A. so os ca-
racteres fundamentais, atribudos por Porfrio                Mas a Escolstica do sc. XIV oferece-nos,
(STOBEO, Ecl., I, 818) e por Proclo (Inst. theol,          com Ockham, uma inovao muito mais ra-
15), assim como por Gregrio de Nissa (De                  dical: a dvida apresentada sobre a realidade
an. etresur., pp. 98 ss.). Mas  sobretudo S. Agos-        da A. intelectiva. Diz, com efeito, Ockham
tinho que recolhe a herana do neoplatonismo               (Quodl., I, q. 10) que, se entendermos por A.
ALMA                                                 30                                               ALMA

intelectiva "uma forma imaterial e incorruptvel          seja pensamento, mas pode ser o prprio cor-
que est por inteiro em todo o corpo e por                po (/// Objections, 2). Mas a interpretao ma-
inteiro em cada parte, no se pode conhecer               terialista no nega que a alma seja uma "coisa",
com evidncia, nem com a razo nem com a                  isto , uma "realidade".
experincia, que tal A. seja forma do corpo e                  No que diz respeito  noo de alma no
que o entendimento seja prprio de semelhante             mundo moderno, o desenvolvimento decisivo
substncia". De fato, as razes que se podem              ocorre com Descartes, em cuja doutrina a rea-
aduzir para a demonstrao de tal forma so               firmao da realidade da A. une-se ao reconhe-
dbias; e, quanto  experincia, tudo o que               cimento de uma via de acesso privilegiada a tal
experimentamos so a inteleco, a volio,               realidade. Essa via de acesso  o pensamento,
etc.: operaes que podem muito bem ser pr-              ou melhor, a conscincia (v.). O cogito ergo
prias de uma "forma extensa, genervel e                  sum revela de modo evidente, segundo Des-
corruptvel", isto , do prprio corpo. Por isso,         cartes, a substncia pensante, isto , revela "um
Ockham relega a matrias de f no s a imor-             ser, cuja existncia nos  mais conhecida do
talidade da A. (como j havia feito Scot), mas a          que a dos outros seres, de modo que pode
prpria realidade da A. intelectiva como su-              servir como princpio para conhec-los" (Lett. 
posto sujeito das operaes espirituais de que            Clercelier, em (Euvres, IV, 443). Ora, o cogito
temos experincia. Essa negao baseia-se pre-            compreende "tudo o que est em mim e de que
cisamente na experincia que se tem dos pr-              sou imediatamente consciente" (IIRp., def. I):
prios atos espirituais (intelectivos e volitivos),        isto , duvidar, compreender, conceber, afir-
experincia que, para Ockham,  um conheci-               mar, negar, querer, no querer, imaginar, sen-
mento intuitivo e de natureza espiritual {cognitio        tir, etc. Assim, a conscincia  uma via de aces-
intuitiva intellectiv), pelo qual esto imedia-          so privilegiada -- porque to segura, a ponto
tamente presentes, na sua singularidade e nas             de ser absolutamente indubitvel -- a uma re-
suas relaes recprocas, os atos ou as opera-            alidade, a substncia A., que, por sua vez, tam-
es espirituais (In Sent., prol. q. 1; Quodl., I,        bm  privilegiada porque pode servir como
q. 14; II, 1. 12). -- Com essas observaes, o            princpio para conhecer as outras realidades. E
conceito de experincia interna, diferente da             de fato  a prpria conscincia, enquanto tes-
experincia sensvel ou externa, era introduzi-           temunha do carter passivo da faculdade sen-
do na histria da filosofia, precisamente quan-           svel, que faz pensar em uma substncia ou
do a realidade a que tal experincia deveria              realidade diferente da A., que aja sobre a A.,
dar acesso, isto , a realidade da A., era posta          isto , em uma substncia corprea ou exten-
em dvida. Com Descartes, a experincia in-               sa, certificada pelo princpio da veridicidade
terna deveria tornar-se o ponto de partida da             divina. Desse modo, Descartes determinou a
filosofia moderna.                                        virada subjetivista na interpretao da A. como
                                                          substncia. Para ele, os atributos da A. conti-
    A noo de A. como substncia sobrevive              nuam sendo os tradicionais, como simplicidade,
crise do Renascimento. Nem mesmo o materia-               indestrutibilidade, unidade, etc. Mas a via de
lismo de Telsio e o de Hobbes constituem                 acesso  realidade da A. tem o privilgio de ser
negaes propriamente ditas da substancialidade           a mais certa porque possui a certeza do cogito.
da alma. Telsio admite uma substncia                    Comparada a esta, a certeza das outras coisas,
intelectiva, diretamente criada e infundida por           isto , das substncias extensas,  secundria e
Deus no homem, s para explicar a vida reli-              derivada, porque mediada pela conscincia. --
giosa do homem, a sua aspirao ao transcen-              Ora, essa colocao domina todas as doutrinas
dente (De rer. nat., V, 2); mas o mesmo "esp-            modernas. Spinoza e Leibniz traduzem o con-
rito animal", de que ele se vale para explicar a          ceito cartesiano da A. nos termos de seus con-
sensibilidade, a inteligncia e at a vida moral          ceitos de realidade. Para Spinoza, a A.  "a idia
do homem, embora sendo de natureza corprea               de um corpo singular existente em ato" (Et., II,
e produzido pelo smen,  por ele considerado             11):  a conscincia correlativa a um corpo
como realidade em si, como "substncia" (ibid.,           orgnico. No se pode dizer que a A. seja subs-
V, 10). Quanto a Hobbes, declara ilegtima a              tncia porque a substncia  uma s, Deus.
transio operada por Descartes da proposio             Mas, como idia, a A.  parte do intelecto infi-
"Sou uma coisa que pensa", que  indubitvel,             nito de Deus, isto , uma manifestao neces-
 proposio "Sou uma substncia pensante",               sria da substncia divina (ibid., II, 9), portanto
j que no  necessrio que a coisa que pensa
ALMA                                                  31                                                ALMA

eterna (ibid., V, 23). Para Leibniz, a A.  uma            objetos externos, ainda assim  semelhante a
substncia espiritual, uma mnada que, como                um sentido e pode ser propriamente chamado
um espelho, representa em si todo o mundo,                 sentido interno" (ibid., II, I, 4). Com isso, Locke
mas  em si mesma simples, isto , sem partes              admitiu duas vias de acesso paralelas e inde-
e indecomponvel (Monad.,  1, 56). Diferente-            pendentes a duas realidades que se pressupem
mente das outras mnadas, que so os tomos                independentes e paralelas, isto , o corpo e a
espirituais que compem todas as coisas do                 alma.-- Hume no pressups a distino des-
universo (inclusive as corpreas), a A.  espri-          sas duas realidades, nem, por conseqncia,
to, isto , razo, porquanto possui as verdades            admitiu a distino entre as duas vias de acesso
necessrias e pode, assim, elevar-se aos atos              respectivas. A realidade substancial, seja a das
reflexivos que constituem os objetos principais            coisas materiais, seja a da A. ou do eu,  uma
dos nossos raciocnios (Thod., pref.; Monad.,             construo fictcia, que parte das relaes de
 30). Mas trata-se mais de uma diferena de               semelhana e de causalidade das percepes
grau do que de qualidade: a A.  somente uma               entre si(Treatise, I, 4, 2 e 6; Inq. Cone. Underst.,
mnada mais ativa e perfeita, na qual as                   XII, 1). Todavia os ingredientes elementares de
apercepes, isto , as percepes claras e dis-           tais construes, ingredientes que so o nico
tintas, tm mais participao do que as peque-             dado certo da experincia, so constitudos por
nas percepes ou percepes obscuras e con-               impresses e por idias, isto , so fornecidos
fusas. A doutrina de Leibniz representa, assim,            pela experincia interna ou conscincia. De tal
uma reduo ao limite, no sentido espiritualista,          modo que, enquanto realiza a demolio ctica
do princpio cartesiano que privilegiava a cons-           da noo de A. como realidade ou substncia,
cincia. A "psicologia racional'' de Wolff, que            Hume contribui em igual medida para estabele-
foi objeto especfico da crtica de Kant, no             cer a supremacia da conscincia, cujos dados
seno a expresso sistemtica da doutrina de               so reconhecidos como os nicos elementos
Leibniz.                                                   certos do conhecimento humano.
    A partir de Descartes, o conceito de "cons-                A rivalidade entre as duas noes de A. e de
cincia", isto , de totalidade ou mundo da ex-            conscincia chega ao ponto culminante na crtica
perincia interna, comea gradualmente a su-               de Kant  psicologia racional, isto ,  noo de
plantar o conceito tradicional de alma. J                 A. nos seus atributos tradicionais de subs-
Descartes e Leibniz, embora se referindo s                tancialidade, simplicidade, unidade e possibili-
determinaes tradicionais da A. como substn-             dade de relaes com o corpo (Crt. R. Pura,
cia, acabam interpretando a seu modo a noo               Dial. transe, Paralogismos da razo pura). A
de substncia: a realidade que atribuem  A.              crtica kantiana consiste em dizer que toda a
a revelada e testemunhada pelos atos, ou pelo              psicologia racional funda-se num "paralogis-
ato fundamental da conscincia como pensa-                 mo", isto , num erro formal de raciocnio ou
mento, apercepo, etc. Locke, que reputava                num "equvoco", no sentido de assumir como
'incognoscvel" a substncia espiritual (assim             objeto de conhecimento, ao qual  aplicvel a
como, alis, a material) {Ensaio, II, 23, 30), con-        categoria de substncia, aquele "Eu penso", que
siderou certo, de modo privilegiado, o co-                  simples "conscincia" e que  a condio
nhecimento que o homem tem da prpria exis-                primeira do prprio uso das categorias. "A uni-
tncia, atribuindo-o a um "conhecimento                    dade da conscincia", diz Kant, "que est no
 intuitivo" que no  seno a conscincia dos              fundamento das categorias, aqui  tomada por
prprios atos espirituais (ibid., IV, 9, 3). Alm          intuio do sujeito, tomado como objeto, apli-
disso, Locke identificou na experincia interna,           cando-se-lhe a categoria de substncia."  pre-
 ou reflexo, uma das fontes do conhecimento               ciso observar que a conscincia de que Kant
 e entendeu-a como "a percepo das opera-                 est falando  a expressa pela proposio
 es que o nosso esprito realiza em torno das            emprica "Eu penso", que contm em si a pro-
 idias que recebe do exterior". Tais operaes            posio "Eu existo" (ibid., Refut. do arg. de
 so as de percepo, pensamento, dvida,                  Mendelssohn, nota), isto , a conscincia da
 conhecimento, vontade, etc, isto , em geral,             prpria existncia como determinvel por par-
 todos os atos do esprito de que se  conscien-           te de um contedo emprico dado, ou seja, como
 te. "Essa fonte de idias", acrescenta Locke,             "espontaneidade" intelectual que s pode ope-
 "reside internamente no homem, e embora no               rar sobre um material fornecido pela experin-
 seja um sentido, porque nada tem a ver com os             cia. Portanto,  diferente do conhecimento de si
ALMA                                                   32                                              ALMA

mesmo que, assim como qualquer outro co-                    que a A.  substncia significa unicamente que
nhecimento, s  possvel mediante a aplica-                o esprito  tambm individualidade, ou seja,
o das categorias a um contedo emprico e,                conscincia individual. As determinaes tradi-
portanto,  tambm conhecimento fenomnico                  cionais so aqui conduzidas para significados
(ibid., Analtica dos conceitos,  25). Assim sen-          diversos, condicionados pela reduo da A. 
do, a crtica kantiana  psicologia racional e ao           primeira fase do esprito consciente.
conceito de A. sobre o qual ela se baseia con-                  Por outro lado, e com outro intuito, o Po-
siste em declarar ilegtima a transformao da              sitivismo efetuava a mesma reduo da A. 
conscincia em substncia e, por isso, em eli-              conscincia, retomando e continuando a doutrina
minar a prpria noo de A. como realidade                  do empirismo clssico, especialmente de Hume.
subsistente por si.                                         O intento, aqui, era preparar e fundar uma "cin-
    Essa crtica foi, de certa forma, decisiva na           cia" dos fatos psquicos, que tivesse o mesmo
histria da filosofia: no que os filsofos te-             rigor das cincias da natureza. Nessa direo, o
nham deixado de falar de algum modo em A.,                  termo A. j aparece como imprprio e  fre-
mas o tipo ou espcie de realidade que se atri-             qentemente substitudo pelo termo esprito (v.);
bui  A., a partir de Kant, passa a ser entendida           nesse sentido, Stuart Mill diz, p. ex., que o es-
em termos de conscincia e, freqentemente,                 prito (mind)  a "srie das nossas sensaes",
reduzida  prpria conscincia. Essa inverso               tendo, alm disso, "uma infinita possibilidade
da relao entre A. e conscincia, pela qual a              de sentir" (Examination of Hamilton's Philo-
conscincia, antes via de acesso  realidade-A.,            sophy, pp. 242 ss.) ou, mais simplesmente, "aquilo
transforma-se nessa mesma realidade,  igual-               que sente" {Logic, VI, IV, 1). Tornam-se objeto
mente evidente nas duas grandes correntes da                da psicologia os "fenmenos psquicos" ou "os
filosofia oitocentista, o Idealismo e o Positivismo.        estados de conscincia", que so explicados
Hegel, p. ex., considera a A. como o primeiro               por meio da associao variada dos seus ele-
grau do desenvolvimento do Esprito, que  a                mentos mais simples (v. ASSOCIACIONISMO). Essa
conscincia no seu grau mais alto, isto ,                  "psicologia sem alma" dominou os primrdios
Autoconscincia, e a configura como "Esprito               da psicologia cientfica e foi a insgnia polmi-
subjetivo", isto , como o esprito em seu as-              ca pela eliminao, em seu campo, da noo
pecto de individualidade. Eis como ele descre-              tradicional da A. como substncia.
ve o processo do Esprito subjetivo: "Na A., a                  Contudo, esse termo foi e ainda  usado
conscincia desperta; a conscincia coloca-se               para indicar o conjunto das experincias ps-
como razo que desperta assim que toma cin-                quicas enquanto recolhidas em alguma unida-
cia de si; e a razo, por meio de sua atividade,            de. Assim o entendeu Wundt (Logik, II, pp. 245
liberta-se fazendo-se objetividade, conscincia             ss.), que por unidade entendeu a unidade da
do seu objeto" {Ene,  387). O primeiro desses              conscincia. E assim o entende tambm Dewey:
momentos, isto , o despertar da conscincia               "Em concluso, pode-se afirmar que a palavra
a alma. A ela Hegel atribui as caractersticas              A., quando libertada de todos os resduos do
tradicionais (substancialidade, imaterialidade),            tradicional animismo materialista, denota a
mas no sentido de que essas caractersticas                 qualidade das atividades psicofsicas, organiza-
podem dizer respeito  conscincia. "A A.", diz             das em unidade. Alguns corpos tm A. de modo
ele, "no  imaterial s para si, mas  a                   eminente, assim como outros tm, eminente-
imaterialidade universal da natureza, a sua vida            mente, fragrncia, cor e solidez... Dizer enfati-
ideal simples. Ela  a substncia e, portanto, o            camente que uma pessoa tem A., ou uma gran-
fundamento absoluto de qualquer particulari-                de A., no significa pronunciar uma frase
zao e individualizao do esprito, de tal modo           aplicvel igualmente a todos os seres huma-
que o esprito tem na A. toda a matria da sua              nos. Exprime, ao contrrio, a convico de que
determinao e a A.  a idealidade idntica e               o homem ou a mulher em questo possui em
prevalente desta. Mas, nessa determinao ain-              grau notvel as qualidades de participao sen-
da abstrata, a A.  apenas o sonho do esprito,             svel, rica e coordenada em todas as situaes
o nous passivo de Aristteles, que, sob o as-               da vida. Assim, as obras de arte, a msica, a
pecto da possibilidade,  tudo" {ibid.,  389).             pintura, a arquitetura tm A., enquanto outras
Em outros termos, dizer que a A.  imaterial                so mortas, mecnicas" (Experience andNature,
significa to-somente que a matria no existe              pp. 293 ss.). Mas a A., nesse sentido, no  mais
porque "a verdade da matria  o esprito": dizer           "um habitante do corpo"; designa um conjunto
ALMA, PARTES DA                                      33                                       ALMA BELA


de capacidades ou de possibilidades de que                vontade  determinada pelo dever), mas tam-
cada homem ou cada coisa em particular par-               bm "graciosa", no sentido de que nela a sen-
ticipa em maior ou menor grau. A ltima crtica           sibilidade concorda espontaneamente com a
 noo de A.  a de Ryle (.Concept ofMind,               lei moral. "Chama-se A. bela", diz Schiller, "a
1949), que deu  concepo de A. de origem                alma em que o sentimento moral acabou por
cartesiana o nome de "espectro na mquina".               assenhorear-se de todas as afeies do homem,
Na realidade, essa noo  muito mais antiga,             a ponto de poder, sem receio, entregar  sensi-
como se viu, e sua fora se deve, mais do que             bilidade a direo da vontade, sem nunca cor-
s suas capacidades explicativas, s garantias            rer o risco de achar-se em desacordo com as
que fornece ou parece fornecer a determina-               decises desta... Uma A. bela no tem outro
dos valores. Ryle julga que essa noo  fruto            mrito que o de existir. Com facilidade, como
de um erro categorial, pelo qual os fatos da              se o instinto agisse por ela, cumpre os deveres
vida mental so considerados pertencentes a               mais penosos pela humanidade e o sacrifcio
um tipo ou categoria (ou classe de tipos ou               mais herico, que ela arrebata do instinto natu-
categorias) lgica (ou semntica) diferente               ral, aparece como livre efeito desse mesmo
daquela a que eles pertencem. Esse erro  seme-           instinto" (Werke, ed Karpeles, XI, 202. Cf.
lhante ao de quem, depois de visitar salas, la-           PAREYSON, A esttica do idealismo alemo, pp.
boratrios, bibliotecas, museus, escritrios, etc,        239 ss.). Kant no refutou decididamente esse
que constituem uma Universidade, pergunta o               conceito de Schiller e, mesmo atenuando-o,
que vem a ser e onde fica a prpria Universi-             no negou que a virtude pudesse ou devesse
dade. A Universidade no  uma unidade que                concordar com a graa (Religion, I, obs., nota).
se acrescente aos organismos ou aos membros               Alis, em Antropologia (I,  67), adotou a ex-
que a constituem, e que possua, portanto, uma             presso A. bela, entendendo por ela o "ponto
realidade  parte de tais organismos ou mem-              central em torno do qual o juzo de gosto rene
bros. Assim tambm, a A. no tem realidade               todas as suas apreciaes do prazer sensvel,
parte das manifestaes singulares e dos com-             na medida em que .este pode unificar-se com a
portamentos particulares superiores que essa              liberdade do intelecto". Esse conceito viria a ter
palavra serve para designar em seu conjunto.              grande importncia no Romantismo. Hegel re-
    Em concluso, j muito antes dessa ltima             tomou-o em Fenomenologia do esprito (VI, C,
condenao, a noo tradicional de A., como               c): a A. bela  uma conscincia que "vive na
uma espcie de realidade em si, princpio e               nsia de manchar com a ao e com o existir a
fundamento dos chamados eventos mentais,                  honestidade do seu interior"; que, no queren-
fora abandonada e reduzida  noo de enti-               do renunciar  sua refinada subjetividade, ex-
dade funcional ou de uma espcie de coorde-               prime-se somente com palavras e que, se dese-
nao e de sntese entre aqueles eventos. Mas,            ja agir, perde-se em absoluta inconsistncia.
nesta forma, essa noo remete  de conscin-             Goethe dedicou  "confisso de uma A. bela" o
cia (v.).                                                 VI livro das Experincias de Wilhelm Meister e
                                                          a fazia falar assim; "No me recordo de nenhu-
   ALMA, PARTES DA. V. FACULDADE.
                                                          ma ordem; nada me aparece com forma de lei;
  ALMA BELA (gr. Kakr\ \|A)Xt; fr- Belle me,             um impulso que me conduz e me guia sem-
ai. Schne Seele, it. Anima belld). Essa expres-          pre retamente; sigo livremente minhas disposi-
so tem origem mstica: Plotino j falava da A.           es e sei to pouco de limitaes quanto de
bela, que  a A. que retorna a si mesma ou  ela          arrependimentos". A A. bela  uma das figuras
mesma (Enn., V, 8, 13), recordando talvez a               tpicas do Romantismo: a encarnao da mo-
"beleza nas almas" de que Plato falava como              ralidade, no como regra ou dever, mas como
forma de beleza superior  beleza do corpo (O             efuso do corao ou do instinto. Scheler, mes-
Banq., 210 b). Essa expresso reaparece nos               mo apercebendo-se do decadentismo dessa
msticos espanhis do sculo XVI. Expresso               noo romntica, considera ainda que "a antiga
equivalente (Beauty of the Hearf) e a mesma               questo a respeito da relao entre a A. bela,
expresso (belle m) encontram-se, respecti-             que quer o dever-ser ideal e o realiza no por
vamente, em Shaftesbury e em Nova Helosa                 dever, mas por inclinao, e o comportamento
(1761) de Rousseau. Mas no seu significado                'pelo dever', a que Kant reduz todo valor mo-
especfico, essa expresso foi usada pela pri-            ral, deve ser resolvida no sentido de que a A.
meira vez por Friedrich von Schiller para indicar         bela  no s de igual valor, mas de valor supe-
o ideal de uma A. no s "virtuosa" (isto , cuja
ALMA DO MUNDO                                        34                                       ALTERIDADE

rior" (Formalsmus, p. 226). Mas, no uso con-             (Sobre a A. do mundo, 1798) para demonstrar
temporneo, essa expresso assumiu um signi-              a continuidade do mundo orgnico e do mun-
ficado irnico e motejador, designando a atitu-           do inorgnico num todo, que  tambm um
de de quem vive satisfeito com a sua suposta              organismo vivo, enquanto Hegel negava a "A.
perfeio moral, ignorando ou desconhecendo               mundial", pois considerava que a A. "tem a sua
os problemas efetivos, as dificuldades e as lu-           verdade efetiva s como individualidade, sub-
tas que tornam difcil o exerccio da atividade           jetividade" (Ene,  391). Com o predomnio da
moral eficaz. Essa reviravolta de apreciao deve-        cincia e da concepo mecnica do mundo, a
se, provavelmente, a Nietzsche, que, em                   noo de A. do mundo tornou-se, obviamente,
Genealoga da moral (I,  10), descreveu os               intil.
puros de corao, as A. belas que embandeiram                  ALGICO (in. Alogical; fr. Alogique, ai. Alo-
poeticamente suas virtudes, como "homens do               gisch; it. Alogico). 1. O mesmo que a-racio-
ressentimento", que estremecem com um es-                  nal (v.).
prito subterrneo de vingana contra aqueles que              2. O que no pode ser reduzido a algum
encarnam a riqueza e o poder da vida (v. RES-             tipo particular de racionalidade e de lgica. O
SENTIMENTO).                                              substantivo algica foi empregado nesse senti-
    ALMA DO MUNDO (gr. uxyA.r| yx>yj\; lat.              do por Jaspers: "Nesse ponto nasce uma algica
Anima mundi; in. World-soul; fr. medu mon-               racional (vernunftige Alogik), isto , o movi-
de; ai. Weltseele, it. Anima dei mondo). Noo            mento verdadeiro da razo que alcana o seu
recorrente na cosmologia tradicional, que, fre-           objetivo s quando quebra a lgica do intelec-
qentemente, concebe o mundo como "um                     to" (Vernunft undExistem, 1935, IV, 2, trad.
grande animal", dotado, portanto, de A. pr-              it., p. 128).
pria. Assim Plato concebeu o mundo em Timeu                   ALOGLOSSIA (fr. Alloglossie). Troca ou con-
e imaginou que a A.dele fosse construda e dis-           fuso no significado das palavras. Esse termo 
tribuda geometricamente pelo Demiurgo (Tim.,             usado por Leibniz (V. Lettre  Clarke,  45).
34 b). -- Essa noo foi retomada pelos esti-                 ALTERAO (gr. M.o<ai; in. Alteration;
cos, que identificaram Deus com o mundo e                 fr. Alteration; ai. Alteration; it. Alterazione).
conceberam-no como "um animal imortal, ra-                Segundo Aristteles, uma das formas da mu-
cional, perfeito, inteligente e bem-aventurado"           dana, mais precisamente aquela conforme 
(DIG. L, VII, 137). Para Plotino, a A. do mun-           categoria da qualidade, no se entendendo por
do  a segunda emanao do Uno ou Deus e                  qualidade a que  essencial a uma substncia e
procede do Intelecto, que  a primeira emana-             se expressa na diferena especfica, mas a que
o, assim como este procede do Uno. A A.                 uma substncia ou realidade recebe ou sofre
universal est voltada, de um lado, para o inte-          (Eis., V, 2, 226 a 23 ss.). Em outros termos, a
lecto e, de outro, para as coisas inferiores ou           A., para Aristteles,  a aquisio ou a perda
materiais que ela ordena e governa (Enn., V, 1,           de qualidades acidentais, como, p. ex., estar
2). Na Escolstica, a A. do mundo foi, s vezes,          ora com boa sade, ora com m sade (Met.,
identificada com o Esprito Santo, como em                VIII, 1, 1.042 a 36). Esse significado de "mu-
Abelardo (Theol. Christ., I, 17) e em alguns re-          dana qualitativa" permaneceu no uso filosfi-
presentantes da Escola de Chartres (Bernardo              co da palavra em questo, conquanto nem sem-
Silvestre, Teodorico de Chartres). No Renas-              pre esse uso tenha ficado dentro dos limites
cimento, essa doutrina foi retomada por Giordano          fixados por Aristteles, que exclua da A. as
Bruno, para quem Deus  o intelecto universal,            qualidades essenciais.
"que  a primeira e principal faculdade da A. do              ALTERIDADE (gr. xepTT]; lat. Alteritas,
mundo, e esta  forma universal daquele [do               Alietas; in. Otberness; fr. Altrit, ai. Anderheit,
prprio mundo]" {De Ia causa, III); essa doutri-          Anderssein; it. Alterita). Ser outro, colocar-se
na foi comumente aceita por todos os que ad-              ou constituir-se como outro. A A.  um concei-
mitiram a validade da magia, que foram muitos             to mais restrito do que diversidade e mais ex-
(Cornlio Agripa, Paracelso, Fracastoro, Cardano,         tenso do que diferena. A diversidade pode ser
Campanella, etc), j que considerada como o               tambm puramente numrica, no assim a A.
fundamento da "simpatia universal" entre as               (cf. ARISTTELES, Met., IV, 9,1.018 a 12). Por ou-
coisas do mundo, que o mago utiliza em seus               tro lado, a diferena implica sempre a determi-
encantamentos e em suas operaes miraculosas.            nao da diversidade (v. DIFERENA), enquanto
Schelling utilizou o conceito de A. do mundo              a A. no a implica. Aristteles considerou que
ALTERNAO                                           35                                      ALTRUSMO


a distino de um gnero em vrias espcies               tros. Essa mxima, acreditava ele, no contraria
e a diferena dessas espcies na unidade de               indistintamente todos os instintos do homem j
um gnero implica uma A. inerente ao prprio              que o homem possui, ao lado dos instintos
gnero: isto , uma A. que diferencia o gnero            egostas, instintos simpticos que a educao
e o torna intrinsecamente diverso (Met., X, 8,            positivista pode desenvolver gradualmente, at
1.058 a 4 ss.). Do conceito de A. valeu-se Plotino        torn-los predominantes sobre os outros. Com
para assinalar a diferena entre a unidade ab-            efeito, as relaes domsticas e civis tendem a
soluta do primeiro Princpio e o intelecto, que           conter os instintos pessoais, quando eles susci-
 a sua primeira emanao.- sendo o intelecto             tam conflitos entre os vrios indivduos, e a
ao mesmo tempo pensante e pensado, intelec-               promover as inclinaes benvolas que se de-
to enquanto pensa, ente enquanto  pensado,               senvolvem espontaneamente em todos os indi-
 marcado pela A., alm de s-lo pela identida-           vduos. Esse termo logo foi aceito por Spencer
de (Enn., V, I, 4). De modo anlogo, Hegel                (Princpios de psicologia, 1870-72), segundo o
utiliza o mesmo conceito para definir a nature-           qual a anttese entre egosmo e A. estaria des-
za com relao  Idia, que  a totalidade racio-         tinada a desaparecer com a evoluo moral e
nal da realidade. A natureza  "a idia na forma          que haveria cada vez mais coincidncia entre a
de ser outro (Anderssein)". Desse modo,  a               satisfao do indivduo e o bem-estar e a feli-
negao de si mesma e  exterior a si mesma:              cidade do outro (Data ofEthics, % 46). Como se
de modo que a exterioridade constitui a deter-            v, o fundamento da tica altrusta  naturalis-
minao fundamental da natureza (Ene,  247).             ta, porque apela para os instintos naturais que
Mas, de modo mais geral, pode-se dizer que,               levam o indivduo em direo aos outros e pre-
segundo Hegel, a A. acompanha todo o desen-               tende promover o desenvolvimento de tais ins-
volvimento dialtico da Idia, porque  ineren-           tintos. O seu termo polmico  a tica indivi-
te ao momento negativo, intrnseco a esse de-             dualista do sc. XVIII, que reivindica os valores
senvolvimento. De fato, to logo estejam fora             e os direitos do indivduo contra os da socieda-
do ser indeterminado, que tem como negao                de, em especial do Estado. Comte, como todo
o nada puro, as determinaes negativas da                o Romantismo (v.), obedece  exigncia opos-
Idia tornam-se, por sua vez, alguma coisa de             ta, que insiste no valor preeminente da autori-
determinado, isto , um "ser outro" que no               dade estatal; por isso, sua tica prescreve pura
aquilo mesmo que negam. "A negao -- no                 e simplesmente o sacrifcio do indivduo. No
mais como o nada abstrato, mas como um ser                , portanto, de se estranhar que as doutrinas
determinado e um algo --  somente forma                  interessadas na defesa do indivduo tenham
para esse algo,  um ser outro" (Ene,  91)-              considerado com hostilidade e desprezo a moral
                                                          do altrusmo. Assim, em Nietzsche, ao identifi-
   ALTERNAO. V. ALTERNATIVA.
                                                          car-se amor ao prximo com A., este  conde-
   ALTERNATIVA, PROPOSIO (in. Alter-
                                                          nado por Zaratustra. "Vs ides ao prximo fu-
native proposition; fr. Proposition alternative,          gindo de vs mesmos e querereis fazer disso
ai. Alternative Proposition; it. Proposizione al-         uma virtude; mas eu leio atravs do vosso A...
ternativa). Com esse nome costuma-se indi-                No sabeis suportar-vos a vs mesmos e no
car, propriamente, a proposio molecular dis-            vos amais o bastante; e eis que quereis sedu-
juntiva "p ou q" ("ao menos p  verdadeiro,               zir o vosso prximo induzindo-o ao amor e
portanto se p no  verdadeiro, q  verdadei-             embelezar-vos com o seu amor" (Also sprach
ro"). Mas no raro, em uso no rigoroso, as               Zarathustra, cap. sobre o Amor ao prximo).
componentes da disjuntiva molecular so cha-              Em terreno mais objetivo e cientfico, Scheler
madas de "alternativas", uma em relao  ou-             (Sympathie, II, cap. I) negou a identificao
tra. Parece que a palavra alternatio, introduzi-          (pressuposta tambm por Nietzsche) do A. com
da pelos escritores latinos para indicar a                o amor. Observou que os atos que se dirigem
proposio disjuntiva, deriva da linguagem ju-            para os outros enquanto outros nem sempre
rdica.                     G.                  P.        so, necessariamente, "amor". A inveja, a mal-
    ALTRUSMO (in. Altruism; fr. Altruisme, ai.           dade, a alegria maligna, referem-se igualmente
Altruismus-, it. Altrusmo). Esse termo foi criado        aos outros enquanto outros. Um amor que faz
por Comte, em oposio a egosmo (v.), para               abstrao total de si mesmo apia-se num dio
designar a doutrina moral do positivismo. No              ainda mais primitivo, isto , o dio de si mes-
Catecismopositivsta (1852), Comte enunciou a              mo. "Fazer abstrao de si, no poder suportar
mxima fundamental do A.: viver para os ou-
AMAB1MUS                                             36                                   AMBIVALNCIA

o colquio consigo mesmo, so coisas que nada             transformando gradualmente, j que a relao
tm a ver com o amor". Na realidade, a mxima             entre o A. e o organismo, ou entre o homem e
do A., "viver para os outros", se tomada literal-         o grupo social deixou de ser entendida segun-
mente, faria de todos os homens meios para                do um esquema mecnico, isto , como uma
um fim que no existe; por isso,  contrria a            relao de determinismo causai absoluto. A ao
um dos teoremas mais bem estabelecidos da                 seletiva que o ser, sobre o qual o A. age, exerce
tica moderna (e da tica em geral), isto ,              em face do prprio A. foi amplamente subli-
aquele segundo o qual o homem nunca deve                  nhada. "O A. de um organismo", disse Goldstein,
ser considerado um simples meio, mas deve ter             "no  algo acabado, mas vai-se formando con-
sempre, tambm, valor de fim.                             tinuamente,  medida que o organismo vive e
    AMABIMUS. V. PURPREA.                                age. Poder-se-ia dizer que o A.  extrado do
    AMBIENTE (in. Environment; fr. Milieu; ai.            mundo pela existncia do organismo, ou, mais
Mittel; it. Ambiente). No significado corrente,           objetivamente, que um organismo no pode
um complexo de relaes entre mundo natural               existir se no conseguir encontrar no mundo,
e ser vivo, que influem na vida e no comporta-            talhar nele, para si, um A. adequado, contanto,
mento do mesmo ser vivo. Nesse sentido, essa              naturalmente, que o mundo lhe oferea essa
palavra (milieu ambiani) foi provavelmente                possibilidade" (Aufbau des Organismus, 1934,
introduzida pelo bilogo Geoffroy St.-Hilaire             p. 58). Analogamente, a propsito do A. hist-
(tudes progressives d'un naturaliste, 1835),             rico-social, Toynbee disse: "O A. total, geogr-
sendo retomada e empregada por Comte (Cours               fico e social, em que est compreendido tanto
dephilosophiepositive, li. 40,  13 ss.). Obser-         o elemento humano quanto o no-humano,
vaes sobre a influncia das condies fsicas,          no pode ser considerado um fator positivo a
especialmente do clima, sobre a vida dos ani-             partir do qual as civilizaes foram geradas. 
mais, em geral, e do homem em particular, e               claro que uma combinao virtualmente idn-
at sobre a vida poltica do homem, encon-                tica dos dois elementos do A. pode originar
tram-se freqentemente nos escritores antigos             uma civilizao num caso e deixar de origin-
(cf., p. ex., ARISTTELES, Pol., VII, 4, 7), sendo        la em outro, sem que seja possvel, de nossa
depois repetidas de vrias formas. No mundo               parte, explicar essa diferena absoluta em seu
moderno, deve-se a Montesquieu (Livro XIV                 surgimento com alguma diferena substancial
de Lesprit des lois, 1648) o princpio, por ele           nas circunstncias, por mais exatos que te-
sistematicamente desenvolvido, de que "o ca-              nham sido os termos da comparao" (A Study
rter do esprito e as paixes do corao so             ofHistory, I, p. 269). Isto, obviamente, no sig-
extremamente diferentes nos diversos climas"              nifica que o A. no aja de nenhum modo sobre
e por isso "as leis devem ser relativas  diferen-        a vida e sobre as criaes dos homens, mas
a dessas paixes e  diferena desses ca-                apenas que  mais condio do que causa. Os
racteres". O positivismo oitocentista atribuiu ao         filsofos sublinharam esse novo significado de
A. fsico e biolgico valor de causa determinante         ambiente. Mead disse: "O A.  uma seleo
de todos os fenmenos propriamente huma-                  dependente da forma viva" {Phil. oftheAct, p.
nos, da literatura  poltica. A obra literria e         164). Por outro lado, Heidegger pretendeu
filosfica de Taine contribuiu para a difuso             analisar o ser no mundo (que  determinao
dessa tese, segundo a qual o ambiente fsico,             essencial da existncia) como um questiona-
biolgico e social determina necessariamente              mento e uma discusso da noo de A. que a
todos os produtos e valores humanos, bastan-              biologia apenas pressupe (Sein und Zeit,
do para explic-los. Em Filosofia da arte (1865),          12).
Taine afirmou que a obra de arte  produto
necessrio do ambiente e que, por isso, se pode              AMBIGIDADE (in. Ambiguity- fr. Am-
inferir dele no s o desenvolvimento das for-            biguit. ai. Ambiguitt; it. Ambiguit). 1. O mes-
mas gerais da imaginao humana, como tam-                mo que equivocao (v.).
bm a explicao para as variaes de estilos,               2. Referindo-se a estados de fato ou situa-
as diferenas de escolas nacionais, e at mes-            es: possibilidade de interpretaes diversas
mo os caracteres gerais das obras individuais.            ou presena de alternativas que se excluem.
No mundo contemporneo, a noo de A. con-                   AMBIVALNCIA (in. Ambivalence, fr. Am-
tinuou sendo fundamental nas cincias biolgi-            bivalence, ai. Ambivalenz; it. Ambivalenzd).
cas, antropolgicas e sociolgicas, mas foi se            Estado caracterizado pela presena simultnea de
                                                          valorizaes ou de atitudes contrastantes ou
AMERICA                                               37                                          AMIZADE

opostas. Esse termo  usado especialmente em               Estados Unidos como de um pas prspero,
psicologia, para indicar certas situaes emotivas         mas dominado por um vil utilitarismo e por sua
que implicam amor e dio, e em geral atitudes              inevitvel companheira, a ignorncia, que abriu
opostas em face do mesmo objeto (cf. E.                    caminho  estpida beatice anglicana,  tola
BLEULER, Lehrbuch derPsychiatrie, 2- ed., 1918).           presuno e  brutal vulgaridade, aliada a uma
    AMRICA (in. America; fr. Amrique, ai.                estulta venerao pelas mulheres (Die Welt, II,
Amerika-, it. America). Os filsofos do Roman-             44; Parerga, II, VI  92). Da mesma tendncia
tismo tiveram participao ativa na "disputa no            denegridora no se exime o outro ramo do
Novo Mundo", que se iniciou em meados do                    Romantismo, o positivismo, que, atravs de
sc. XVIII e pode-se dizer que ainda perdura,               Comte, desvaloriza o alcance da revoluo ame-
a propsito da inferioridade ou superioridade              ricana, v nos Estados Unidos uma "colnia
da Amrica. A tese da fragilidade ou da "imatu-            universal" e considera a sua civilizao de todo
ridade" das Amricas nasce com Buffon, que,                desprovida de originalidade e uma simples fi-
examinando comparativamente as espcies ani-               lial da civilizao inglesa (Coursdephil.positive,
mais na A. e na Europa, conclua que na A. "a              V, 470-71; VI, 60 n.). Por outro lado, o mesmo
natureza viva  bem menos ativa, bem menos va-             Romantismo sugeria a Emerson uma exaltao
riada e, pode-se dizer tambm, bem menos                   mstica da A., to fantstica e arbitrria quanto
forte" (CEuvres, ed. 1826-28, XV, 429). As teses           as infamaes dos romnticos europeus (The
de Buffon foram polemicamente amplificadas                 American Scholar, 1837; The Young American,
pelo abade De Paw, num texto de 1768,                       1844). J Humboldt notava (Ansichten derNatur,
Recherchesphilosophiques sur les Amricains.                1807) o carter arbitrrio e fantstico desses
Nas mos de Hegel, as observaes de Buffon                comentrios que pretendiam ser "cientficos"
e De Paw tornam-se, em conformidade com                    ou "especulativos" e que eram somente dog-
seu esprito, "determinaes absolutas", verda-            matizaes de preconceitos. Mas, apesar disso,
des necessariamente deduzidas. A A.  um                   os elementos da polmica sobre o Novo Mun-
mundo novo no sentido de ser imaturo e fraco;              do permaneceram por longo tempo e talvez
nele, a fauna  mais dbil, mas em compensa-               ainda hoje permaneam os mesmos que apon-
o a vegetao  monstruosa. Nela faltam os               tamos (para mais detalhes, cf. A. GERBI, La dis-
dois instrumentos de progresso civil, o ferro e            puta dei Nuovo Mondo, Milo-Npoles, 1955).
o cavalo (Ene,  339, Zus.). A A. , portanto,                 AMIZADE (gr. (piA.0C; in. Friendship; fr.
um mundo novo no sentido de ser jovem e                    Amiti, ai. Freundschaft; it. Amicizia). Em ge-
imaturo. At mesmo o mar entre a A. do Sul e               ral, a comunidade de duas ou mais pessoas
a sia "manifesta uma imaturidade fsica quan-             ligadas por atitudes concordantes e por afetos
to  sua origem". E, por tudo isso, "a A. sempre           positivos. Os antigos tiveram da A. um concei-
se mostrou e mostra-se ainda impotente, tanto              to muito mais amplo do que o admitido e usa-
do ponto de vista fsico quanto do espiritual"             do hoje em dia, como se infere da anlise que
(Phil. der Geschichte, ed. Lasson, pp. 122 ss.).          Aristteles fez dela nos livros VIII e IX da tica
bem verdade que, talvez mesmo por essa ima-                a Nicmaco. Segundo Aristteles, a amizade 
turidade, a A.  "a Terra do futuro, para a qual,          uma virtude ou est estreitamente unida  vir-
em tempos futuros, talvez na luta entre o Norte            tude: de qualquer forma,  o que h de mais
e o Sul, se voltar o interesse da histria univer-        necessrio  vida, j que os bens que a vida
sal". Mas Hegel logo acrescenta: "Como terra               oferece, como riqueza, poder, etc, no podem
do futuro, ela absolutamente no nos diz res-              ser conservados nem usados sem os amigos
peito. O filsofo no entende de profecias. Pelo           (VIII, 1, 1.155 a 1). A A. deve ser distinguida das
lado da histria ns temos mais a ver com o que            duas coisas com as quais parece ter mais afini-
foi e com o que , ao passo que na filosofia no           dade: amor e benevolncia. Distingue-se do
nos ocupamos nem do que s foi, nem do que                 amor ((p^nen) porque este  semelhante a uma
s ser, mas do que  e  eternamente: da razo;           afeio (v.); a A. a um hbito (v.). De tal modo
com o que j temos muito que fazer" (ibid., ed.            que o amor tambm pode dirigir-se a coisas
Lasson, p. 129). Schopenhauer, por sua vez,                inanimadas, ao passo que corresponder ao amor,
repetia as observaes (se assim se podem                  que  prprio da A. implica uma escolha que
chamar) sobre a inferioridade da fauna ameri-              provm de um hbito (VIII, 5, 1.157 b 28). Alm
cana e dos indgenas; e acrescia, na linguagem             disso, o amor  acompanhado por excitao e
florida das suas invectivas, uma descrio dos             desejo, que so estranhos  A.; alm disso, di-
AMIZADE                                              38                                              AMOR

ferentemente da A.,  provocado pelo prazer               A.  um habito (assim como hbito  a virtu-
causado pela vista da beleza (IX, 5, 1.166 b              de), isto , uma disposio ativa e compromissiva
30). A A. distingue-se tambm da benevolncia             da pessoa. Depois de Aristteles, a A. foi exal-
porque esta tambm pode dirigir-se a desco-               tada pelos epicuristas, que nela basearam um
nhecidos e permanecer oculta: o que no acon-             dos fundamentos de sua tica e de sua conduta
tece com a A. (IX, 5, 1.167 a 10). A A. , certa-         prtica. Nessa escola, porm, assume carter
mente, uma espcie de concrdia, mas uma                  aristocrtico;  uma das manifestaes da vida
concrdia que no repousa na identidade de                do sbio, e no est, como em Aristteles, vin-
opinies, mas, assim como a concrdia entre               culada s relaes humanas como tais. Nos tes-
cidades, na harmonia das atitudes prticas, de            temunhos epicuristas que nos chegaram, rea-
sorte que, a justo ttulo, chama-se de "A. civil"         parecem alguns reparos aristotlicos, como, p.
a concrdia poltica (IX, 6, 1.167 a 22). A A. ,         ex., que "A A. nasce do til, mas  um bem por
certamente, uma comunidade no sentido de                  si. Amigo no  quem procura sempre o til,
que o amigo se comporta em relao ao amigo               nem quem nunca o une  A., pois o primeiro
como em relao a si mesmo (IX, 12, 1.171 b               considera a A. como um trfico de vantagens,
32). H tantas espcies de amizades quantas               e o segundo destri a esperana confiante de
so as comunidades, isto , as partes da socie-           ajuda, que  parte importante da A." (Sent. Vat.,
dade civil: entre os navegantes, entre os solda-          39-24, Bignone).
dos, entre os que fazem um trabalho qualquer                  Com o predomnio do Cristianismo, a im-
em comum (VIII, 9, 1.159 b 25). Pode haver                portncia da A. como fenmeno humano pri-
tambm A. entre senhor e escravo, se o escravo            mrio declina na literatura filosfica. O concei-
no for considerado apenas um instrumento                 to mais amplo e mais importante passa a ser o
animado, mas um homem. S na tirania h pouca             do amor, do amor ao prximo, que carece dos
ou nenhuma A., pois nela no h nada em co-               caracteres seletivos e especficos que Aris-
mum entre quem manda e quem obedece, e a                  tteles atribura  amizade. De fato, "prxi-
A.  to mais forte quanto mais coisas comuns             mo"  aquele com que deparamos ou que est
houver entre iguais (VIII, 11, 1.161, b 5). H            comumente em relao conosco, seja quem
tambm tantas A. quantas so as formas do                 for, amigo ou inimigo. A mxima aristotlica
amor: entre pai e filho, entre jovem e velho,             da A., "comportar-se com o amigo como con-
entre marido e mulher. Esta ltima  a mais               sigo mesmo", ver nele "um outro eu" (Et. nic,
natural e nela se unem a utilidade e o prazer             IX, 9, 1170 b 5; IX, 12, 1171 b 32),  estendida
(VIII, 12, 1.161 b 11). Quanto ao fundamento              pelo Cristianismo a todo prximo.
da A., pode ser a utilidade recproca, o prazer               AMOR (gr. epco yiu]; lat. Amor, cantas;
ou o bem, mas  claro que, enquanto a A. fun-             in. Love, fr. Amour, ai. Hebe, it. Amore). Os sig-
dada na utilidade ou no prazer est destinada a           nificados que este termo apresenta na lingua-
acabar quando o prazer ou a utilidade cessa-              gem comum so mltiplos, dspares e con-
rem, a A. fundada no bem  a mais estvel e               trastantes; igualmente mltiplos, dspares e
firme, portanto a verdadeira A. (VIII, 3, 1.156 a         contrastantes so os que se apresentam na tra-
6 ss.). Essa anlise de Aristteles, a mais com-          dio filosfica. Comearemos apontando os
pleta e bela que em filosofia j se fez sobre o           usos mais correntes da linguagem comum, para
fenmeno A., apia-se nos seguintes pontos: l9            selecion-los, orden-los e utiliz-los como cri-
a A.  uma comunidade ou participao solid-             trio de seleo e organizao dos usos filos-
ria de vrias pessoas em atitudes, valores ou             ficos desse termo: a) em primeiro lugar, com a
bens determinados; 2- est ligada ao amor, tem            palavra A. designa-se a relao intersexual,
formas semelhantes, mas no se identifica com             quando essa relao  seletiva e eletiva, sendo,
o amor; 3Q aproxima-se mais da benevolncia               por isso, acompanhada por amizade e por afe-
e, por isso, est vinculada aos afetos positi-            tos positivos (solicitude, ternura, etc). Do A.,
vos, que implicam solicitude, cuidado, pieda-             nesse sentido, distinguem-se freqentemente
de, etc. Assim, segundo Aristteles, a A.  mais          as relaes sexuais de base puramente sensual,
ampla do que o amor, que  limitado e condicio-           que no se baseiam na escolha pessoal, mas na
nado pelo prazer da beleza. E  diferente do              necessidade annima e impessoal de relaes
amor pelo seu carter ativo e seletivo, pelo que          sexuais. Muitas vezes, porm, a mesma lingua-
Aristteles diz que o amor  uma afeio (Jt9o),        gem comum estende tambm para esse tipo de
isto , uma modificao sofrida, ao passo que a           relaes a palavra A., como quando se diz "fa-
AMOR                                                  39                                               AMOR

zer amor"; ti) em segundo lugar, a palavra A.              ca tambm graus diversos de intimidade, de
designa uma vasta gama de relaes inter-                  familiaridade e de emotividade. P. ex., o A.
pessoais, como quando se fala do A. entre                  entre homem e mulher, entre pai e filho, entre
amigos, entre pais e filhos, entre cidados, en-           cidados ou entre homens que se considerem
tre cnjuges; c) em terceiro lugar, fala-se do A.          como "prximos" tem diferentes bases biolgi-
por coisas ou objetos inanimados: p. ex., A. ao            cas, culturais e sociais e no permite a reunio
dinheiro, a obras de arte, aos livros, etc; d) em          sob o mesmo tipo ou a mesma forma de soli-
quarto lugar, fala-se de A. a objetos ideais: p.           dariedade, de concrdia e de co-participao
ex., A.  justia, ao bem,  glria, etc; e) em            emotiva. Ser necessrio, portanto, ter em mente
quinto lugar, fala-se de A. s atividades ou for-          essa diversidade ao se considerar o uso que os
mas de vida: A. ao trabalho,  profisso, ao               filsofos fizeram desse termo, j que no raro
jogo, ao luxo, ao divertimento, etc.;/) em sex-            esse uso  modelado por um ou mais tipos
to lugar, fala-se de A.  comunidade ou a entes            particulares de experincia amorosa.
coletivos: A.  ptria, ao partido, etc; g) em                  Os gregos viram no A. sobretudo uma fora
stimo lugar, fala-se de A. ao prximo e de A.              unificadora e harmonizadora, que entenderam
a Deus.                                                    baseada no A. sexual, na concrdia poltica e
    Sem dvida, alguns desses significados po-             na amizade. Segundo Aristteles (Met., I, 4, 984
dem ser eliminados por imprprios, j que                  b 25 ss.), Hesodo e Parmnides foram os pri-
podem ser expressos e designados mais exata-               meiros a sugerir que o A.  a fora que move
mente por outras palavras. Assim: a) a relao             as coisas, que as une e as mantm juntas. Em-
intersexual s pode ser chamada de A. quando               pdocles reconheceu no A. a fora que mantm
 de base eletiva e implica o compromisso re-              unidos os quatro elementos e, na discrdia, a
cproco. Evitar-se-, assim, chamar de "A." a              fora que os separa: o reino do A.  o esfero, a
relao sexual ocasional ou annima. No que                fase culminante do ciclo csmico, na qual to-
diz respeito aos usos indicados em c) (isto , A.          dos os elementos esto ligados na mais com-
a objetos inanimados), est claro que, a, a pa-           pleta harmonia. Nesse fase, no h nem sol
lavra A. est por desejo de posse, quando tal              nem terra nem mar, porque no h nada alm
desejo atinge a forma dominante da paixo. E,              de um todo uniforme, uma divindade que frui
no que tange aos usos indicados em d) (A. a                a sua solido (Fr. 27, Diels). Plato nos deu o
objetos ideais), est tambm claro que a pala-             primeiro tratado filosfico do A.: nele foram
vra "A." est a a indicar certo compromisso               apresentados e conservados os caracteres do
moral, capaz de fixar limites e condies  ati-           A. sexual; ao mesmo tempo, tais caracteres so
vidade do indivduo. Enfim, no que diz respei-             generalizados e sublimados. Em primeiro lugar,
to a e) (A. a atividades, etc.) a palavra "A." est        o A.  falta, insuficincia, necessidade e, ao mes-
a indicar certo interesse mais ou menos domi-              mo tempo, desejo de conquistar e de conservar
nante, isto , mais ou menos incorporado na                o que no se possui (O Banq., 200 a, ss.). Em
personalidade do indivduo, ou at mesmo uma               segundo lugar, o A. dirige-se para a beleza, que
"paixo". Portanto, pode-se tomar em conside-              outra coisa no  seno o anncio e a aparn-
rao, como significados prprios e irredutveis           cia do bem, logo, desejo do bem (ibid., 205 e).
da palavra "A.", as acepes indicadas em (d),             Em terceiro lugar, o A.  desejo de vencer a
(ti), (f), (g). Esses usos revelam de imediato             morte (como demonstra o instinto de gerar,
certas afinidades de significado: Ia o A. desig-           prprio de todos os animais) e , portanto, a
na, em todos os casos, um tipo especfico de               via pela qual o ser mortal procura salvar-se da
relao humana, caracterizado pela solidarie-              mortalidade, no permanecendo sempre o
dade e pela concrdia dos indivduos que dele              mesmo, como o ser divino, mas deixando aps
participam; 2 o desejo, em particular o desejo            si, em troca do que envelhece e morre, algo de
de posse, no se inclui necessariamente na cons-           novo que se lhe assemelha (ibid., 208 a, b). Em
tituio do A., pois, se  discutvel que se inclua        quarto lugar, Plato distingue tantas formas do
no A. sexual, deve ser totalmente excludo do              A. quantas so as formas do belo, desde a be-
A. de que se fala em (ti), (/), (g); 3Q o carter          leza sensvel at a beleza da sabedoria, que  a
especfico da solidariedade e da concrdia, que            mais elevada de todas e cujo A., isto , a filoso-
constituem o A., no pode ser determinado de               fia, , por isso mesmo, o mais nobre (ibid., 210
uma vez por todas, j que  diferente, segundo             a, ss.). Em Fedro, a finalidade  mostrar o cami-
as formas ou as espcies diversas do A. e impli-           nho pelo qual o A. sensvel pode tornar-se amor
AMOR                                                  40                                               AMOR


pela sabedoria, isto , filosofia, e o delrio er-        car uma das fases do caminho que conduz a
tico pode tornar-se uma virtude divina, que                Deus. O Uno de Plotino no  A., porque 
afasta dos modos de vida usuais e empenha o                unidade inefvel, superior  dualidade do de-
homem na difcil procura dialtica {Fed., 265 b.           sejo {Enn., VI, 7, 40). Mas o A.  o caminho
ss.). Essa doutrina platnica do A., ao mesmo              preparatrio que conduz  viso dele, porque
tempo em que contm os elementos de uma                    o objeto do A., segundo a doutrina de Plato,
anlise positiva do fenmeno, oferece tambm                o bem, e o Uno  o bem mais alto {ibid., VI,
o modelo de uma metafsica do A., que seria                7, 22). O Uno, portanto,  o verdadeiro termo
retomada vrias vezes na histria da filosofia.            e o objeto ltimo e ideal de todo A., conquanto
Aristteles, ao contrrio, detm-se na consi-              no seja atravs do A. que o homem se une a
derao positiva do amor. Para ele o A.  A.               Ele, mas atravs da intuio, de uma viso em
sexual, afeto entre consangneos ou entre                 que o vidente e o visto se fundem e se unificam
pessoas de algum modo unidas por uma rela-                 {ibid., VI, 9, 11).
o solidria, ou amizade (v.). Em geral, o A.                Com o Cristianismo, a noo de A. sofre
e o dio, como todas as outras afeies da                 uma transformao; de um lado,  entendido como
alma, no pertencem  alma como tal, mas ao                relao ou um tipo de relao que deve esten-
homem enquanto composto de alma e corpo                    der-se a todo "prximo"; de outro, transforma-
{Dean., I,1, 403 a 3) e, portanto, enfraquecem-            se em um mandamento, que no tem cone-
se com o enfraquecimento da unio de alma e                xes com as situaes de fato e que se prope
corpo {Ibid., I, 4, 408 b 25). Aristteles tambm          transformar essas situaes e criar uma comu-
reconhece no A. o fundamento de necessida-                 nidade que ainda no existe, mas que dever
de, imperfeio ou deficincia, em que Plato              irmanar todos os homens: o reino de Deus. O
insistira. A divindade, diz ele, no tem necessi-          A. ao prximo transforma-se no mandamento
dade de amizade, pois  o seu prprio bem                  da no-resistncia ao mal (MATEUS, 5, 44), e a
para si mesma, enquanto para ns o bem vem                 parbola do bom Samaritano (LUCAS, 10, 29 ss.)
do outro {Et. eud., VII, 12, 1.245 b 14). O A. ,          tende a definir a humanidade  qual o A. deve
portanto, um fenmeno humano e no  de                    dirigir-se, no no seu sentido composto, mas
estranhar que Aristteles no tenha feito ne-              no seu sentido dividido, como cada pessoa com
nhum uso dele em sua teologia. Ele  uma                   quem cada um entre em contato; a qual, exa-
afeio, isto , uma modificao passiva, en-              tamente como tal, faz apelo  solicitude e ao A.
quanto a amizade  um hbito, uma disposio               do cristo. Alm disso, na concepo crist, o
ativa {Et. nic, VIII, 5, 1.157 b 28). Ao A. unem-se        prprio Deus responde com A. ao A. dos ho-
a tenso emotiva e o desejo: ningum  atingido            mens; por isso, seu atributo fundamental  o de
pelo A. se no foi antes ferido pelo prazer da             "Pai". As Epstolas de S. Paulo, identificando o
beleza; mas esse prazer de per si no  ainda              reino de Deus com a Igreja e considerando a
A., que s se tem quando se deseja o objeto                Igreja o "corpo de Cristo", cujos membros so
amado que est ausente e se anseia por ele                 os cristos {Rom., 12, 5 ss.), fazem do A. (y7un),
quando presente {ibid., IX, 5, 1.167 a 5). O A.            que  o vnculo da comunidade religiosa, a
que est ligado ao prazer pode comear e aca-              condio da vida crist. Todos os outros dons
bar rapidamente, mas pode tambm dar lugar                 do Esprito, a profecia, a cincia, a f, nada so
 vontade de conviver; neste caso, assume a                sem ele. "O A. tudo suporta, em tudo cr, tudo
forma da amizade {Md., VIII, 3, 1.156 b 4). Se             espera, tudo sustenta... Agora h f, esperana,
a anlise aristotlica do A.  desprovida de re-           amor, trs coisas; mas o amor  a maior de
ferncias metafsicas e teolgicas, convm re-             todas" {Cor., I, 13, 7-13). A elaborao teolgi-
cordar que a ordenao finalista do mundo e a              ca sofrida pelo Cristianismo no perodo da
teoria do primeiro motor imvel levam Arist-              Patrstica no utilizou, no princpio, a noo de
teles a dizer que Deus, como primeiro motor,               A. Nos grandes sistemas da Patrstica oriental
move as outras coisas "como objeto de A.", isto            (Origenes, Gregrio de Nissa), a terceira pes-
, como termo do desejo que as coisas tm de               soa da Trindade, o Esprito Santo,  entendida
alcanar a perfeio dele {Met., XII, 7, 1.072 b           como uma potncia subordinada e de carter
3). Essas palavras sero muito empregadas pela             incerto: da, tambm, as freqentes discusses
filosofia medieval. Ao findar da filosofia grega,          trintras que o concilio de Ncia (325) no
o neoplatonismo utilizou a noo de A. no                 logrou eliminar de todo. Somente por obra de
para definir a natureza de Deus, mas para indi-            S. Agostinho, com a identificao do Esprito
AMOR                                                41                                             AMOR

Santo ao A. (enquanto Deus Pai  o Ser e Deus            portanto, um A. naturale um A. intelectual; o
Filho  a Verdade), o A.  introduzido explici-          A. natural  tambm um A. reto, por ser uma
tamente na prpria essncia divina e torna-se            inclinao posta por Deus nos seres criados;
um conceito teolgico, alm de moral e reli-             mas o A. intelectual, que  caridade e virtude,
gioso. O A. a Deus e o A. ao prximo unem-se              mais perfeito do que o primeiro; portanto, ao
em S. Agostinho, quase formando um conceito              se acrescentar a ele, aperfeioa-o, do mesmo
nico. Amar a Deus significa amar o A.; mas,             modo como a verdade sobrenatural se acres-
diz Agostinho, "no se pode amar o A. se no             centa  verdade natural, sem se lhe opor, e a
se ama quem ama". No  A. o que no ama                 aperfeioa (S. Th., I, q. 60, a. 1). Quanto ao A.
ningum. Por isso, o homem no pode amar a               intelectual, isto ,  caridade, esta  definida
Deus, que  o A., se no amar o outro homem.             por S. Toms como "a amizade do homem por
O A. fraterno entre os homens "no s deriva             Deus", entendendo-se por "amizade", segundo
de Deus, mas  Deus mesmo" (De Trin., VIII,              o significado aristotlico, o A. que est unido 
12):  a revelao de Deus, em um de seus                benevolncia (amor benevolentiae), isto, que
aspectos essenciais,  conscincia dos homens.           quer o bem de quem se ama, e no quer sim-
Contudo, em S. Agostinho, a noo de A. ainda            plesmente apropriar-se do bem que est na
 a mesma dos gregos: uma espcie de relao,            coisa amada (amor concupiscientia), como
unio ou vnculo que liga um ser ao outro:               acontece com quem ama o vinho ou um cava-
quase "uma vida que une ou tende a unir dois             lo. Mas a amizade supe no s a benevolncia
seres, o amante e o que se ama" (ibid., VIII, 6).        como tambm o A. mtuo e, assim, funda-se
   Essas idias de Agostinho so retomadas               em certa comunicao, que, no caso da carida-
freqentemente durante todo o desenvolvimento            de,  a do homem com Deus, que nos comu-
de uma das principais correntes da Escolstica           nica a Sua bem-aventurana (ibid., II, 2, q. 23,
medieval, o agostinismo (v.): por Joo Scotus            a. 1). Essa comunho , segundo S. Toms, o
Erigena e Joo Duns Scot. Scotus Erigena diz:            que h de prprio no A.: este  uma espcie de
"O A.  a conexo e o vnculo pelo qual todas            unio ou vnculo (unio vel nexus) de natureza
as coisas so ligadas em amizade inefvel e em           afetiva, semelhante  unio substancial porquan-
indissolvel unidade... Com justia, diz-se que          to quem ama comporta-se em relao ao ama-
Deus  A., porque ele  causa de A. e o A.               do como em relao a si mesmo. Uma unio
difunde-se atravs de todas as coisas, rene-as          real  tambm efeito do A., mas trata-se de
todas na unidade e as reconduz ao seu inefvel           uma unio que no altera nem corrompe aque-
ponto de partida: o movimento de A. de toda              les que se unem, mas se mantm nos limites
criatura tem o seu termo em Deus" (De divis.             oportunos e convenientes, fazendo, p. ex. que
 nat., I, 76). E Duns Scot afirma que Deus gera          conversem e dialoguem ou que se unam de
o Verbo conhecendo a Sua prpria essncia e              outros modos semelhantes (ibid., II, 1, q. 28, a.
exala o Esprito Santo amando esta essncia.             1, ad 2). Porquanto "amar" significa querer o
Desse modo, o A. eterno  a origem e a causa             bem de algum, o A. pertence  vontade de
de toda comunicao da essncia divina e,                Deus e a constitui. Mas o A. de Deus  diferente
embora esse ato no seja "natural", porque              do amor humano porque, enquanto este lti-
um ato de vontade,  todavia necessrio (Op.             mo no cria a bondade das coisas, mas a en-
 Ox, I, dist. 10, q. 1, ns 2). Comentrios anlo-        contra no objeto pelo qual  suscitado, o A. de
gos reaparecem freqentemente na corrente                Deus infunde e cria a bondade nas prprias
mstica (v. MISTICISMO), enquanto na corren-             coisas (ibid., I, q. 20, a. 2).
te aristotlica o uso teolgico da noo de A. 
muito mais restrito, preferindo-se ilustrar a na-           A especulao teolgica sobre o A. retorna
tureza divina com base nos conceitos de ser,             no platonismo renascentista, mas este acentua
 substncia e causalidade. Contudo, em toda a            a reciprocidade do A. entre Deus e o homem,
Escolstica, so repetidas as idias de Aristte-        consoante a tendncia, prpria do Renascimento,
les sobre a amizade, oportunamente modifi-               de insistir no valor e na dignidade do homem
cadas e adaptadas para caracterizar a natureza           como tal. Marslio Ficino afirma que o A.  o
do A. cristo (cantas). Assim, S. Toms afirma           liame do mundo e elimina a indignidade da
 que  comum a toda natureza ter certa inclina-          natureza corprea, que  resgatada pela solici-
 o, que  o apetite natural ou o A. Essa incli-        tude de Deus (Theol. plat., XVI, 7). O homem
 nao  diferente nas diferentes naturezas e h,        no poderia amar a Deus, se o prprio Deus
                                                         no o amasse; Deus volve-se para o mundo
AMOR                                                  42                                               AMOR

como um livre ato de A., cuida dele e torna-o              isto , de um modo que no encontra corres-
vivo e ativo. O A. explica a liberdade da ao             pondncia em qualquer tipo de experincia
divina assim como a da ao humana, j que                 amorosa. A unidade, seja ela ou no consciente
ele  livre e nasce espontaneamente da livre               de si, nada tem a ver com o A. e , alis, a negao
vontade (In Conv. Plat. de Am. Comm., V, 8).               do A., porque exclui a relao e a comunidade
As mesmas palavras repetem-se em Dilogos                  que o constituem em todas as suas manifestaes.
de amor, de Leo Hebreu, que tiveram vastssima             bastante bvio que onde h uma s coisa no
difuso na segunda metade do sc. XVI. Mas                 h nem quem ame nem quem seja amado.
tambm no naturalismo do Renascimento o A.                      tradio agostiniana podem-se referir as
retorna, s vezes, como fora metafsica e teo-            famosas palavras de Pascal: "O Deus de Abro,
lgica. Campanella julga que as trs primalidades          o Deus de Isaac, o Deus de Jac, o Deus dos
do ser (isto , os trs princpios constitutivos do        Cristos,  um Deus de A. e de consolao, 
mundo) so o Poder, o Saber e o A. (Met., VI,              um Deus que enche a alma e o corao daque-
promio). O A. pertence a todos os entes porque            les que Ele possui e lhes faz sentir interiormen-
todos amam o seu ser e desejam conserv-lo                 te a sua prpria misria e a misericrdia infinita
(ibid., VI, 10, a. 1). Nas trs primalidades, a re-        d'Ele" (Penses, 556, Brunschvicg). Mas  duvi-
lao de um ser consigo mesmo precede a sua                doso que neste texto ou em outros semelhan-
relao com o outro: s se pode exercer fora              tes de Pascal se possa ver muito mais do que a
sobre outro ser na medida em que se a exer-                noo de que Deus  -- em primeiro lugar e
ce sobre si mesmo; assim, pode-se amar e conhe-            sobretudo -- objeto de amor. Quanto a Male-
cer o outro ser s na medida em que se conhece             branche, afirma que Deus criou o mundo "para
e se ama a si mesmo (ibid., II, 5, 1, a. 13). Em           proporcionar-Se uma honra digna de Si"
todas as coisas finitas as trs primalidades mis-          (Recherche de Ia vrit, IX) e que o Verbo dis-
turam-se com os seus contrrios: a potncia                se: '' o meu poder que faz tudo, tanto o bem
com a impotncia, a sapincia com a insipincia,           quanto o mal... por isso, deves amar somente a
o A. com o dio. Somente em Deus, que  infi-              mim, porque ningum fora de mim produz em
nito, elas excluem tais contrrios e existem em            ti os prazeres que experimentas por ocasio do
pureza e em absoluto (ibid., VI, promio). Tra-            que acontece no teu corpo" (Mditations
ta-se, como se v, de comentrios que lembram              chrtennes, XII, 5); palavras que parecem ex-
os de Agostinho. E, na realidade, o uso metafsico         cluir a doutrina de Deus como A.
e teolgico da noo de A. pode ser considera-                 As apreciaes de Descartes sobre o fen-
do, na tradio filosfica, como uma contribui-            meno A., em escala humana, so importantes.
o do agostinismo, pelo menos at ao Ro-                  "O A.", diz ele, " uma emoo da alma, produ-
mantismo, quando essa noo assume sentido                 zida pelo movimento dos espritos vitais que a
pantesta, cujo precedente mais importante                incita a unir-se voluntariamente aos objetos que
Spinoza.  preciso ter em mente que o uso teo-             lhe parecem convenientes." Porquanto  pro-
lgico da noo de A. implica no s que Deus              duzido pelos espritos, o A., que  uma afeio
 objeto de A. (o que no  negado por nenhu-              e depende do corpo, difere do juzo que tam-
ma concepo crist da divindade), mas que                 bm induz a alma, de sua livre vontade, a unir-
Ele prprio ama: o que  algo completamente                se s coisas que julga boas (Pass. de 1'me, II,
diferente e que se encontra s no agostinismo,             79). O A. distingue-se, outrossim, do desejo,
no Romantismo e em algumas concepes que,                 que  dirigido para o futuro; permite, porm,
como a de Feuerbach e do positivismo moder-                que nos consideremos imediatamente unidos
no, tendem a identificar Deus com a humani-                com o que amamos "de tal modo que imagina-
dade. Na realidade, o A., no seu conceito clssi-          mos um todo de que somos s uma parte e do
co, que tem como modelo a experincia humana,              qual a coisa amada  a outra parte" (ibid., 80).
tem como condio a falta -- e portanto o dese-            Descartes rejeita a distino medieval entre A.
jo e a necessidade -- daquilo que se ama; dificil-         de concupiscncia e A. de benevolncia por-
mente pode ser atribudo a Deus, que, na sua               que, diz ele, essa distino concerne aos efeitos
plenitude e infinitude, est isento de qualquer            do A., mas no  sua essncia: na medida em
deficincia. A concepo pantesta do A., p.               que estamos unidos voluntariamente a algum
ex., como a de Spinoza, de Schelling e de Hegel,           objeto, qualquer que seja a natureza deste, te-
resolve essa dificuldade s quando interpreta o            mos por ele um sentimento de benevolncia e
A. como unidade ou conscincia da unidade,                 este  um dos principais efeitos do A. (ibid.,
AMOR                                                  43                                              AMOR

81). H, todavia, vrias espcies de A., relativas         sinta dor na infelicidade da pessoa amada, pois o
aos diferentes objetos que possamos amar: o                que d prazer imediato, por si mesmo,  tam-
A. que um homem ambicioso sente pela glria,               bm desejado por si mesmo como constitutivo
o pobre pelo dinheiro, o beberro pelo vinho,              (ao menos em parte) do objetivo das nossas
um homem brutal por uma mulher que deseje                  intenes e como algo que faz parte da nossa
violar, o homem honrado pelo amigo ou pela                 prpria felicidade e nos d satisfao". Segun-
mulher e um bom pai pelos filhos so espcies              do Leibniz, essa noo de A. elimina a oposio
diversas e todavia semelhantes de A. As quatro             entre duas verdades, isto , entre a que diz ser-
primeiras, porm, so A. s  posse dos objetos            nos impossvel desejar outra coisa que no o
para os quais a emoo se dirige e no so A.              nosso prprio bem, e a que diz no haver A. a
aos objetos em si mesmos; as outras, no entan-             no ser quando procuramos o bem do objeto
to, dirigem-se aos prprios objetos e desejam o            amado por si mesmo e no para nossa prpria
bem deles (ibid., 82). Desta natureza  tambm             vantagem. Tem tambm a vantagem, segundo
a amizade, que, alm do mais, est ligada                 Leibniz, de ser comum ao A. divino e ao A.
estima da pessoa amada; de tal modo que no                humano porque exprime todos os tipos de A.
se pode ter amizade por uma flor, um pssaro,              "no mercenrio", como, por ex., a cantas ou
cavalo, mas s pelos homens (ibid., 83). Em                "benevolncia universal" (Op.phil., p. 218). Su-
geral, quando julgamos o objeto do A. inferior             bentende-se que, neste sentido, o A. pode
a ns mesmos, sentimos por ele simples afeto               voltar-se s para "o que  capaz de prazer ou
(v.); quando o julgamos igual a ns mesmos,                de felicidade"; assim, no se pode dizer, a no
sentimos amizade, e quando o julgamos supe-                ser por metfora, que amamos as coisas ina-
rior a ns mesmos, sentimos devoo. Desta                 nimadas que nos do prazer (Nouv. ess., II, 20, 4).
ltima, o principal objeto , naturalmente, Deus,          Apreciaes desse gnero so bastante freqen-
mas pode dirigir-se tambm  ptria,  cidade              tes nos escritores do sc. XVIII. Wolff diz que o
e a qualquer homem que julgamos muito supe-                A.  "a disposio da alma de sentir prazer pela
rior a ns mesmos (ibid., 83). Na mesma linha,             felicidade alheia" (Psichol. emprica,  633). E
acha-se a anlise de Hume, segundo a qual o                Vauvenargues afirma: "O A.  comprazer-se no
A.  uma emoo indefinvel, mas cujo mecanis-             objeto amado. Amar uma coisa significa com-
mo pode ser compreendido. A sua causa  sem-               prazer-se em sua posse, em sua graa, em seu
pre um ser pensante (no se podem amar ob-                 crescimento e temer a sua privao, o seu de-
jetos inanimados) e o mecanismo com que essa               caimento, etc." (De Vesprit humain,  24).
causa age  constitudo por uma dupla cone-
                                                               Nenhum dos escritores do sc. XVIII pe em
xo: conexo de idias -- entre a idia de si e
                                                           dvida que o A. se baseia nos sentidos, pelo
a idia do outro ser pensante -- e conexo
                                                           que se diferencia da amizade. Vauvenargues,
emotiva entre a emoo do A. e a do orgulho
                                                           por ex., diz: "Na amizade, o esprito  o rgo
(que  a emoo que nos pe em relao com
                                                           do sentimento; no A., so os sentidos" (ibid.,
o nosso eu); ou entre a emoo do dio e a da
                                                            36). E Kant parece admitir esse pressuposto
humildade (Diss. on thePassions, II, 2). Em geral,
                                                           quando distingue o A. baseado nos sentidos,
os escritores do sc. XVIII insistem na conexo
                                                           ou "patolgico", do A. "prtico", isto , moral,
do A. com a benevolncia, que  a caracters-
                                                           que  imposto pela mxima crist "Ama a Deus
tica na qual Aristteles insistira a propsito da
                                                           sobre todas as coisas e ao prximo como a ti
 amizade. Leibniz exprimiu essa noo do A. da
                                                           mesmo". O A. a Deus, como inclinao, diz
 forma mais clara, que deveria ser repetida nu-
                                                           Kant,  impossvel, pois Deus no  um objeto
 merosas vezes na literatura do sculo: "Quan-
                                                           dos sentidos. Outrossim, A. semelhante aos
 do se ama sinceramente uma pessoa", diz ele
                                                           homens  possvel, mas no pode ser imposto,
 (Op. Phil, ed. Erdmann, pp. 789-790), no se
                                                           porque ningum tem o poder de amar o outro
 procura o prprio proveito nem um prazer
                                                           por preceito. "Amar a Deus", portanto, pode
 desligado do da pessoa amada, mas procura-se
                                                           significar to-somente "cumprir de bom grado
 o prprio prazer na satisfao e na felicidade
                                                           os seus mandamentos"; e "amar ao prximo",
 dessa pessoa; e se essa felicidade no agradas-
                                                           to-somente "pr em prtica de bom grado to-
 se por si mesma, mas s pela vantagem que
                                                           dos os deveres para com ele". Mas, aqui, a ex-
 dela resultasse para ns, j no se trataria de A.
                                                           presso "de bom grado" diz que a mxima cris-
 sincero e puro.  preciso, pois, que se sinta
                                                           t s obriga a aspirar a esse A. prtico, mas que
 imediatamente prazer nessa felicidade e que se
                                                           ele no  atingvel pelos seres finitos. Com efei-
AMOR                                                  44                                             AMOR


to, seria intil e absurdo "impor" o que se faz            mesma unidade -- que colocam como princ-
"de bom grado"; por isso, o preceito evangli-             pio da razo -- o fundamento da filosofia. Mas
co apresenta a inteno moral na sua perfeio             foi justamente essa unidade que permitiu aos
total "como um ideal de santidade no atingvel            Romnticos elaborar uma teoria do A. pela qual
por nenhuma criatura e que, todavia,  o exemplo           o prprio A., mesmo voltando-se para coisas
de que devemos procurar aproximar-nos pelo                 ou criaturas finitas, v ou colhe, nelas, as ex-
progresso ininterrupto, mas infinito" (Crit. R.            presses ou os smbolos do Infinito (isto , do
Pratica, I, I, cap. 3) (v. FANATISMO).                     Absoluto ou de Deus). Pela unidade de finito e
    A doutrina de Spinoza apresenta dois con-              Infinito, a aspirao ao Infinito pode ser satis-
ceitos de A., dos quais o segundo seria utiliza-           feita ainda no mundo finito, p. ex., no A. 
do pelos Romnticos. Em primeiro lugar, o A.,              mulher. A., poesia, unidade de finito e Infinito
como qualquer outra emoo (affectus),  uma               e sentimento dessa unidade vm a ser sinni-
afeco da alma (passio) e consiste na alegria             mos para os romnticos. Friedrich Schlegel tal-
acompanhada pela idia de uma causa externa                vez seja quem melhor expressou esses concei-
{Et., III, 13 escl.). Nesse sentido, deve-se dizer        tos. "A fonte e a alma de todas as emoes  o
com mais propriedade que Deus no ama nin-                 A.; e, na poesia romntica, o esprito do A. deve
gum, pois no est sujeito a nenhuma afeco              sempre estar presente; invisvel e visvel... As
(ibid., V, 17 corol.). Mas existe um "A. intelec-          paixes galantes de que no se pode fugir na
tual de Deus", que  a viso de todas as coisas            poesia moderna, do epigrama  tragdia, so o
na sua ordem necessria, isto , na medida em              grau mnimo desse Esprito, ou melhor, confor-
que derivam, com eterna necessidade, da pr-               me o caso, a sua letra extrnseca, ou absoluta-
pria essncia de Deus (ibid, V, 29 escl.; 32              mente nada, ou algo de no amvel e despro-
corol.). Este A. intelectual  o nico eterno e           vido de A. No, o que nos comove nos sons da
aquele com que Deus ama-se a si mesmo; de                  msica  o Sopro divino. Ele no se deixa to-
tal modo que o A. intelectual da mente para                mar  fora nem agarrar mecanicamente, mas
com Deus  parte do A. infinito com que Deus               deixa-se atrair amoravelmente pela beleza mortal
se ama a si mesmo. "Resulta", diz Spinoza, "que            para nela velar-se: tambm as palavras mgicas
Deus, porquanto se ama a si mesmo, ama os                  da poesia podem ser penetradas e animadas
homens e, por conseqncia, o A. de Deus                   por sua fora. Mas, na poesia onde o Sopro no
aos homens e o A. intelectual da mente a Deus              est ou no pode estar em toda parte, ele no
so a mesma coisa" (ibid., V, 36 corol.). Esse A.          est em absoluto. Ele  uma Substncia infinita
 aquilo em que consiste a nossa salvao ou               que no anui com pessoas, ocasies, situaes
bem-aventurana, ou liberdade; e  o que, nos              e tendncias individuais nem por elas se inte-
livros sagrados, se chama "glria" (ibid., escl.).        ressa: para o verdadeiro poeta, todas essas coi-
Est claro que j no  uma afeco, nem uma               sas, mesmo que a sua alma lhes esteja intima-
emoo no sentido que Spinoza deu a tais ter-              mente afeta, so apenas o indcio do Altssimo,
mos, mas  a pura contemplao de Deus, ou                 do Infinito, so o hierglifo do nico e eterno
melhor, como a mente que contempla Deus                    A. e da sagrada plenitude de Vida da natureza
no  seno um atributo de Deus, esse A. outra             plasmadora" (Prosaischenjugendschriften, ed.
coisa no  seno a contemplao que Deus                  Minor, II, p. 371). A poesia torna-se, assim, um
tem de si, como unidade de si mesmo e do                   anlogo do A. e o A., como anseio do Infinito,
mundo. Aqui, o conceito de A. deixa de referir-se          isto , de Deus, do Universo, do Eterno, pode
 experincia humana: torna-se o conceito                  satisfazer-se e encontrar a paz no finito, nas
metafsico da unidade de Deus consigo mesmo                criaturas do mundo. Em Discpulos de Sais, de
e com o mundo, logo com todas as manifestaes             Novalis, Jacinto, que partira  procura da deusa
do mundo, inclusive os homens.                             velada Isis, acaba encontrando, sob o vu da
                                                           deusa, Florinha de rosa, isto , a menina amada
    Esse conceito tornar-se-ia central e domi-             que ele abandonara para sair em busca de Sais.
nante no Romantismo (v.) da primeira metade                O sentimento, em particular o A., revela o lti-
do sc. XIX, que se baseia inteiramente na ten-            mo mistrio do Universo. Hegel exprimiu com
tativa de demonstrar a unidade (isto , a total            as frmulas mais rigorosas e pregnantes esse
identidade e intimidade) de finito e Infinito.             conceito de A. J num texto juvenil de inspira-
Schleiermacher faz dessa unidade, enquanto se              o romntica, cujos pressupostos so justa-
revela na forma do sentimento, o fundamento                mente Schleiermacher e Schlegel (NOHL, Hegels
da religio; Fichte, Schelling e Hegel fazem da
AMOR                                                                                             AMOR

theologische Jugendschr., pp. 379 ss., trad. in        nimas nuanas se tem prazer de acompanhar,
DE NEGRI, Princ. di Hegel, pp. 18 ss.), o "verda-      exagerando-lhes a importncia e o valor. Tam-
deiro A."  identificado com a "verdadeira uni-        bm faz parte do A. romntico, na medida em
ficao", que s ocorre "entre seres vivos que         que o seu objeto  o infinito, ou melhor, a
so iguais em poder" e que, em tudo e por              infinita unidade e identidade, a insistncia no
tudo, esto vivos um para o outro, isto , de          A. como aspirao, desejo ou anseio, que, em
nenhum lado esto mortos um para o outro. O            vez de achar satisfao no ato sexual, teme ser
A.  um sentimento infinito pelo qual "o vivo          diminudo ou enfraquecido por esse ato e ten-
sente o vivo". Os amantes "so um todo vivo".          de a evit-lo. A "distncia"  considerada pelos
So reciprocamente indepedentes s na medi-            Romnticos como um meio que favorece os
da em que "podem morrer". O A.  superior a            sonhos voluptuosos; por isso, via de regra o A.
todas as oposies e a todas as multiplicidades.       romntico arrefece em presena do objeto
Essas notas romnticas voltam nas obras madu-          amado.
ras de Hegel. "O A.", diz ele, "exprime em geral           Mas a concepo romntica do A. encontra-
a conscincia da minha unidade com um outro,           se tambm em filosofias e tendncias diferen-
de tal modo que eu, para mim, no estou iso-           tes do Romantismo ou que, pelo menos, no
lado, mas a minha autoconscincia s se afirma         compartilham de todos os seus caracteres.
como renncia ao meu ser por si e atravs do           Schopenhauer distingue nitidamente o A. se-
saber-se como unidade de mim com o outro e             xual (epco) e o A. puro (yrr|). O A. sexual 
do outro comigo" (Fil. do dir.,  158, adendo).        simplesmente a emoo de que se serve o "g-
"A verdadeira essncia do A.", diz ainda Hegel         nio da espcie" para favorecer a obra obscura
em Lies de esttica, "consiste em abandonar a        e problemtica da propagao da espcie
conscincia de si, em esquecer-se em outro si          {Metafsica do A. sexual). Mas o "gnio da es-
mesmo e, todavia, em reencontrar-se e possuir-         pcie" no  seno a cega, maligna e desespe-
se verdadeiramente nesse esquecimento" ( Vorles.       rada "vontade de viver", que constitui a subs-
 ber desthetik, ed. Glockner, II, p. 149). O A.     tncia do universo, o seu "nmeno". O A. sexual
 "identificao do sujeito com outra pessoa";        no , portanto, nada mais do que a manifesta-
"o sentimento pelo qual dois seres no existem         o, em forma fenomnica, isto , sob a apa-
seno em unidade perfeita e pem nessa iden-           rncia da diversidade e da multiplicidade dos
tidade toda a sua alma e o mundo inteiro" (ibid.,      seres vivos, da nica fora que rege o mundo.
p. 178). "Esta renncia a si mesmo para identi-        Quanto ao A. puro, no  seno compaixo, e
ficar-se com outro, esse abandono no qual o            a compaixo  o conhecimento da dor alheia.
sujeito reencontra, porm, a plenitude do seu          Mas a dor alheia  tambm a dor do mundo, a
ser, constitui o carter infinito do A." (ibid., p.    dor da prpria vontade de vida dividida em si
 179). Desse ponto de vista, Hegel diz tambm          mesma e lutando contra si mesma nas suas
que a morte de Cristo  "o A. mais alto", no           manifestaes fenomnicas: alm das quais, o
sentido de que ela exprime "a identidade do            A. como compaixo  a percepo da unidade
divino e do humano"; e assim  "a intuio da          fundamental (Die Welt, I,  67). Desse modo,
unidade no seu grau absoluto, a mais alta intui-       conserva-se na teoria de Schopenhauer a no-
o do A." (Phil. der Religion, ed. Glockner, II,      o romntica do A. como sentimento da uni-
p. 304). Essa noo romntica, que v no A. a          dade csmica. E permanece tambm na anlise
totalidade da vida e do universo na forma de           de um discpulo seu, Eduard von Hartmann,
um "sentimento infinito" que  fim para si mes-        que a torna mais explcita, afirmando que o A.
mo, encontra-se em toda a tradio literria do         a identificao entre amante e amado, uma
Romantismo, especialmente na narrativa, a co-          espcie de ampliao do egosmo por meio da
mear por Lucinda, de Schlegel. Essa noo             absoro de um eu por outro eu, donde o sen-
tambm impregnou os costumes e a vida dos              tido mais profundo do A. consiste em tratar o
povos ocidentais at, pode-se dizer, os dias atuais,   objeto amado como se fosse, na sua essncia,
em que o adjetivo "romntico" ainda parece o           idntico ao eu que ama. Se essa unidade e iden-
mais adequado para definir a natureza dos sen-         tidade no existissem, afirma Hartmann, o pr-
timentos exaltados e tendentes a infinitizar-se,       prio A. seria uma iluso; mas Hartmann cr que
 em que o aspecto espiritual e o aspecto sensual       no se trata de uma iluso, porque a identidade
 se complicam e se limitam reciprocamente,             que o A. tem em vista, ou realiza ao menos em
 dando lugar a vicissitudes interiores, cujas m-      parte,  a identidade do Princpio Inconsciente,
AMOR                                                  46                                            AMOR

da Fora Infinita que rege o mundo (Phnome-               A., e, em geral, da atividade humana, s pode-
nologie des sittliche Betvusstseins, 1879, p- 793).        riam produzir-se  custa da inibio e da subli-
    Pode-se dizer, em geral, que todas as teorias          mao da libido. Esta alternativa parece falsa
que reduzem o A. a uma fora nica e total, ou             na linha dos fatos e muito inquietante do ponto
segundo as quais, de algum modo, ele deriva                de vista moral. Mas talvez ainda mais grave seja
de fora semelhante, participam, de alguma                 o fato de que a doutrina de Freud no contm
forma, da noo romntica do A. como unida-                nenhum elemento apto a explicar a escolha
de e identidade. Sob esse aspecto, deve-se re-             que est presente em todas as formas do A. e
conhecer um fundo romntico at na doutrina                que est totalmente ausente nos comportamentos
de Freud, segundo a qual o A.  a especificao            instintivos, que so cegos e annimos. Entre-
e a sublimao de uma fora instintiva origin-            tanto, o prprio Freud insiste no valor da esco-
ria, que  a libido. A libido no  o impulso              lha em sua crtica do A. universal. "Algumas
sexual especfico (isto , dirigido para o indiv-         pessoas", diz Freud, "tornam-se independentes
duo do outro sexo), mas simplesmente a ten-                da aquiescncia dos seus objetos transferindo
dncia  produo e  reproduo de sensa-                 o valor principal do fato de serem amadas para
es voluptuosas relativas s chamadas "zonas              seu prprio ato de amar; protegem-se da perda
ergenas", que se manifesta desde os primei-               do objeto amado dirigindo seu A. no a objetos
ros instantes da vida humana. O impulso sexual             individuais, mas a todos os homens igualmen-
especfico  uma formao tardia e complexa,               te, e evitam as incertezas e as desiluses do A.
que, por outro lado, nunca se completa, como               genital desistindo do objetivo sexual deste e
demonstram as perverses sexuais, to varia-               transformando o instinto em um impulso de in-
das e numerosas. Essas perverses, portanto,               teno inibida. O estado que elas induzem em
segundo Freud, no so desvios de um impulso               si mesmas com esse processo -- uma atitude
primitivo normal, mas modos de comportamento               de ternura imutvel e no desvivel -- tem pouca
que remontam aos primeiros instantes da vida,              semelhana superficial com as tempestuosas
que escaparam ao desenvolvimento normal e                  vicissitudes do A. genital, mas deriva deste"
fixaram-se na forma de uma fase primitiva (v.              (Civilization and its Discontents, p. 69)- As
PSICANLISE). Da libido desenvolvem-se, segundo            objees que Freud faz a esse tipo de A. so
Freud, as formas superiores do A., mediante                duas: ele no discrimina seus objetos, o que se
a inibio e a sublimao. A inibio tem a                resolve em injustia para com os prprios ob-
funo de manter a libido nos limites compat-             jetos; em segundo lugar, nem todos os homens
veis com a conservao da espcie; dela deri-              so dignos de A. "Se amo algum", diz Freud,
vam as emoes morais, em primeiro lugar as                "ele deve ser digno desse A. de um modo ou
da vergonha, do pudor, etc, que tendem a                   de outro-, ou por ser to semelhante a mim em
imobilizar e a conter as manifestaes da libi-            algum aspecto importante que posso amar-me
do. Na inibio da libido e de seus contedos              a mim mesmo nele, ou por ser muito mais
objetivos enrazam-se as neuroses. A sublima-              perfeito do que eu, de sorte que posso amar nele
o, ao contrrio, d-se quando a libido se se-            o meu ideal de mim mesmo, ou por ser filho de
para do seu contedo primitivo, isto , da sen-            meu amigo, com o qual quero compartilhar
sao voluptuosa e dos objetos que a esta se               afetos e dores. Mas, se no h nenhum motivo
vinculam, para concentrar-se em outros obje-               especfico para am-lo, am-lo ser bastante
tos que sero, desse modo, amados por si mes-              difcil para mim e ser uma injustia para aque-
mos, independentemente da sua capacidade                   les que so dignos do meu A., j que estarei
de produzir sensaes voluptuosas. Na sublima-             pondo estes ltimos no mesmo nvel dele. Alm
o da libido inibida assentam, segundo Freud,             disso, o A. que poderei dar-lhe, como cumpri-
todos os progressos da vida social, a arte, a              mento do preceito de A. universal, ser somen-
cincia e a civilizao em geral, ao menos na              te uma pequenssima parte do A. que, por to-
medida em que tais progressos dependem de                  das as leis da razo, estou autorizado a dar a
fatores psquicos. Para Freud, todas as formas             mim mesmo. Em concluso, o mandamento de
superiores do A. so apenas sublimaes da                 amar o prximo como a ns mesmos  a mais
 libido inibida. Desse modo, a teoria freudiana            forte defesa contra a agressividade humana e
do A. parece apresentar ao homem uma nica                 exemplo superlativo da atitude antipsicolgica
alternativa, entre o primitivismo sexual e o               do super-ego cultural. Mas  um mandamento
ascetismo total, j que as formas superiores do            impossvel de respeitar: uma inflao to gran-
AMOR                                                 47                                               AMOR

de de A. s poderia diminuir-lhe o valor e no                 Nessas concepes, os termos "humanidade"
seria um remdio para o mal" (Jbid., pp. 139-              e "A." passam a ser sinnimos, porque signifi-
141). Essas consideraes pressupem, obvia-               cam a unidade dos seres humanos e, s vezes,
mente, que o A. implica uma escolha motivada               at mesmo a unidade csmica segundo o con-
pelo valor reconhecido no objeto amado ou a                ceito romntico. Desse ponto de vista, as for-
ele atribudo; mas justamente esse elemento de             mas do A. so classificadas conforme a maior
escolha no tem lugar na doutrina de Freud,                ou menor extenso do crculo de objetos a que
que se funda totalmente no princpio do carter            o A. se estende. Assim o A.  ptria seria inferior
instintivo da libido, de que deriva todo A.                ao A.  humanidade; o A.  famlia, inferior ao
    A crtica de Freud ao "A. universal"  impor-         A.  ptria; o A. a si mesmo, inferior ao que se
tante, e em alguns aspectos decisiva para a                sente por um amigo. Scheler mostrou (Nature-
orientao contempornea em torno do pro-                  za e forma da simpatia, 1923) o carter fictcio
blema do A. Todavia, Freud dirigiu essa crtica            dessa hierarquia que pretende reduzir as varie-
contra um alvo errado, o preceito evanglico               dades autnomas do A. a uma nica forma, qtie
do A. ao prximo: o verdadeiro alvo dessa cr-             teria graus diversos segundo a extenso do cr-
tica  a noo moderna, de origem positivista,             culo humano que constitui seu objeto. Suas
do A. universal. A origem dessa noo pode ser             observaes a esse respeito coincidem subs-
encontrada em Feuerbach, no qual tem estreita              tancialmente com as j acenadas por Freud: o
conexo com a noo romntica de A., em                    valor do A. diminui, no cresce,  medida que
particular com a de Hegel. Feuerbach parte do              o A. se estende a um nmero maior de objetos:
pressuposto de que o objeto ao qual um sujeito            j que, em geral, o A. ao que est prximo tem
se refere essencial e necessariamente outro no            mais valor do que o A. ao que est distante,
 seno a natureza objetiva do prprio sujeito             pelo menos quando dirigido a um ser vivo; e
e que, portanto, no objeto o homem contem-                 Nietzsche errou quando contraps (em Assim
pla-se a si mesmo e torna-se consciente de si:            falou Zaratustra) o A. ao distante ao A. ao pr-
a conscincia do objeto no  seno a auto-               ximo. Scheler negou o prprio pressuposto da
conscincia do homem (Wesen des Christentum,
                                                           doutrina do A. universal: a noo romntica do
1841; trad. fr., p. 26). Esta  a mesma noo da
                                                          A. como unidade ou identificao. O A. e, em
unidade entre subjetivo e objetivo, entre o eu
                                                           geral, a simpatia em todas as suas formas (v.
e o outro, transferida do Infinito (para onde os
                                                           SIMPATIA) implicam e, ao mesmo tempo, funda-
Romnticos a levaram) para o homem, na sua
finitude. No obstante essa transferncia, a noo        mentam a diversidade das pessoas. O sentido
continua a mesma; na verdade, o A.  entendi-              do A. consiste justamente em no considerar e
do por Feuerbach, romanticamente, como uni-                em no tratar o outro como se fosse idntico a
dade e identidade: "a unidade de Deus e ho-               si. "O A. verdadeiro", diz Scheler (Sympathe,
mem, de esprito e natureza". O A. "no tem               I, cap. IV, 3), "consiste em compreender sufi-
plural". A prpria encarnao, para Feuerbach             cientemente uma outra individualidade mo-
como para Hegel,  somente "o puro, absoluto              dalmente diferente da minha, em poder colo-
A., sem acrscimo, sem distino entre A. divi-           car-me em seu lugar, mesmo considerando-a
no e humano" (ibid., p. 82). Com base nessa               diferente de mim e mesmo afirmando, com calor
noo, Feuerbach delineou a extenso progres-             emocional e sem reserva, a sua prpria realida-
siva do A. ao objeto sexual ao A.  criana, ao           de e o seu prprio modo de ser." O A. dirige-
filho, do filho ao pai, e finalmente  famlia, ao        se necessariamente ao ncleo vlido das coi-
cl,  tribo, etc, extenso esta que seria devida         sas, ao valor, tende a realizar o valor mais elevado
 multiplicao das aes recprocas e, por isso,         possvel (e isto j  um valor positivo) ou a
da dependncia recproca das instituies e dos           suprimir um valor inferior. Pode voltar-se para
interesses vitais. O ltimo termo dessa exten-            a natureza, para a pessoa humana e para Deus,
so progressiva seria "a humanidade em seu                naquilo que tm de prprio, isto , de diferente
conjunto", que, como tal,  o objeto mais alto            daquele que ama. Scheler reconhece, com Freud,
do A. e o ideal moral por excelncia. A tica             que "o A. sexual representa um fator primordial
positivista, especialmente com Comte e Spencer,           e fundamental, no sentido de que a fora e a
baseou-se no A. estendido a toda a humanida-              vivacidade de todas as outras variedades de
de; nele tambm se baseou a tica do neo-                 A.vital e de vida instintiva derivam desse A."
criticismo alemo, da forma como se encontra,             (ibid., II, cap. VI,  5). No entanto, no se reduz
p. ex., expressa em Cohen.                                ao instinto sexual porque implica escolhas, que,
AMOR                                                   48                                              AMOR

por princpio, se orientam para as qualidades               Deus por sua obra, A. que criou todas as coi-
vitais, que chamamos de mais "nobres". Mas se               sas e  capaz de revelar, a quem saiba interrog-
o A. sexual domina a esfera vital, existem outras           lo, o mistrio da criao. A esse A. cabe aperfei-
formas de A. correspondentes  esfera espiri-               oar a criao da espcie humana (ibid., IV,
tual e  esfera religiosa; essas formas so varieda-        pp. 356-57) e devolver ao universo a sua fun-
des qualitativamente diferentes, qualidades pri-            o essencial, que  a de ser "uma mquina
mordiais e irredutveis umas s outras, que fazem           destinada a criar deuses". O carter spinoziano,
pensar numa pr-formao, na estrutura ps-                 romntico e pantesta dessas observaes  mui-
quica do homem, das relaes elementares que                to evidente e patenteia a noo que pressupem:
existem entre os homens (ibid.). Entre essas                a do A. como unidade que  identidade.
formas no est, porm, o A.  humanidade. A                    Se o "amor sagrado" de Bergson  de cunho
humanidade pode ser amada como indivduo ni-               romntico, no menos romntico  o "amor
co e absoluto somente por Deus; por isso, o                 profano" de Sartre. O pressuposto da anlise
chamado A.  humanidade  somente o A. ao                   de Sartre  que o A.  a tentativa ou, mais exa-
homem mdio de certa poca, isto , aos valo-               tamente, o projeto de realizar a unidade ou a
res correntes nessa poca, que interessam aos               assimilao entre o eu e o outro. Essa exign-
defensores dessa forma de amor. Esta, segun-                cia de unidade ou de assimilao , por parte
do Scheler, outra coisa no  seno ressenti-               do eu, a exigncia de que ele seja para o outro
mento, ou seja, dio pelos valores positivos                uma totalidade, um mundo, um fim absoluto.
implcitos em "terra natal", "povo", "ptria",              O A. , fundamentalmente, um querer ser ama-
"Deus", dio que, substituindo esses portado-               do; e querer ser amado significa "querer situar-
res de valores especificamente superiores por               se alm de todo o sistema de valores posto
humanidade, procura iludir-se e iludir os ou-               pelos outros, como condio de toda valoriza-
tros sobre o A. (ibid?).                                    o e como fundamento objetivo de todos os
   Na filosofia contempornea, as anlises de               valores" (L'tre et le nant, p. 436). A vontade
Scheler so a primeira tentativa de desvincular             de ser amado , assim, a vontade de valer para
a noo de A. do ideal romntico da absoluta                o outro como o prprio infinito. "O olhar do
unidade. Pode-se vislumbrar, todavia, a suges-              outro no me permeia mais de finitude, no
to e a ao desse ideal em duas doutrinas                  imobiliza mais o meu ser naquilo que sou sim-
contemporneas, aparentemente heterogneas:                 plesmente; no poderei ser olhado como feio,
a doutrina do A. mstico de Bergson e a doutri-             como pequeno, como vil, porque estes ca-
na do A. sexual de Sartre. Segundo Bergson, a               racteres representam necessariamente uma li-
frmula do misticismo  esta: "Deus  A. e objeto           mitao de fato do meu ser e uma apreenso
de A." (Deux sources, III; trad. it. p. 275). Em-           da minha finitude enquanto finitude" (ibid.,
bora se possa duvidar da exatido da primeira               p. 437). Mas, para que o outro possa considerar-
parte dessa frmula, porque dificilmente se pode            me assim,  preciso que ele possa querer, isto
encontrar nos msticos a tese de que Deus ame               , que seja livre: por isso, a posse fsica, a pos-
o homem (o que Deus oferece ao homem que                    se do outro como coisa, , no A., insuficiente e
o ama  a salvao, a bem-aventurana e a                   frustrante.  preciso que o outro seja livre para
participao na sua "glria"), o que Bergson                querer amar-me e para ver em mim o infinito.
pretende dizer  que o arrebatamento mstico                O que quer dizer:  preciso que se mantenha
se realiza como uma unidade entre o homem e                 "como pura subjetividade, como o absoluto pelo
Deus. "No h mais separao completa entre                 qual o mundo vem ao ser" (ibid., p. 455). Mas
quem ama e quem  amado: Deus est presen-                  a esto, precisamente, o conflito e o fracasso
te e a alegria  sem limites" (ibid, p. 252). Por           inevitveis do A., pois, por um lado, o outro
essa unidade, o A. do homem por Deus  o A.                 exige de mim a mesma coisa que eu exijo dele
de Deus por todos os homens. "Atravs de Deus,              -- ser amado e valer para mim como a totali-
com Deus, ele ama toda a humanidade com A.                  dade infinita do mundo -- e, por outro, justa-
divino." Mas esse A. no  a fraternidade do                mente por querer isso, por amar-me, "frustra-
ideal racional nem a intensificao de uma sim-             me radicalmente com o seu prprio A.-, eu exigia
patia inata do homem pelo homem:  "o pros-                 que ele assumisse o meu ser como objeto privi-
seguimento de um instinto" que est na raiz da              legiado, mantendo-se como pura subjetividade
sensibilidade e da razo, assim como de todas               em relao a mim, mas, desde que me ama,
as outras coisas; e identifica-se com o A. de               em vez disso reconhece-me como sujeito e
AMOR                                                49                                              AMOR

mergulha na sua objetividade diante da minha             cluir-se e contradizer-se. Querer ser amado sig-
subjetividade" (ibid., p. 444). Em outros ter-           nifica, para Sartre, querer ser a totalidade do
mos, cada um, no A., quer ser para o outro o             ser, o fundamento dos valores, o todo e o infi-
objeto absoluto, o mundo, a totalidade infinita,         nito: isto , o mundo ou Deus mesmo. E o
mas para isso  necessrio que o outro perma-            outro, o amado, deveria ser um sujeito igual-
nea subjetividade livre e igualmente absoluta.          mente absoluto e infinito, capaz de tornar ab-
Mas, como ambos querem exatamente a mes-                 soluto e infinito quem o ama. So evidentes os
ma coisa, o nico resultado do A.  um conflito          pressupostos romnticos dessa colocao. A
necessrio e um fracasso inevitvel. H, toda-           unidade absoluta e infinita que o Romantismo
via, outro caminho para realizar a assimilao           clssico postulava ingenuamente como uma
de um ser com o outro, que  exatamente o                realidade garantida do A. torna-se, em Sartre,
contrrio do que foi descrito: em vez de proje-          um projeto inevitavelmente destinado ao fra-
tar absorver o outro conservando-lhe a alte-             casso. O Romantismo de Sartre  frustrado e
ridade, posso projetar fazer-me absorver pelo            consciente de sua falncia.
outro e perder-me na sua subjetividade para                  No entanto, est patente na filosofia con-
desembaraar-me da minha. Nesse caso, em                 tempornea a tendncia anti-romntica a pri-
vez de procurar existir para o outro como ob-            var o A. do carter de infinitude, isto , da
jeto-limite, como mundo ou totalidade infinita,          natureza "csmica" ou "divina", e a circunscrev-
procurarei fazer-me tratar como um objeto en-            lo em limites mais restritos e demarcveis. Russell
tre os outros, como um instrumento a ser utili-          evidenciou a fragilidade do A. romntico, que
zado, em uma palavra, como uma coisa. Ter-               pretende ser a totalidade da vida, mas caminha
se-, ento, a atitude masoquista. Mas o prprio         rapidamente em direo  exausto e ao malo-
masoquismo  e deve ser um fracasso, pois,               gro. "O A.", disse ele, " o que d valor intrn-
por mais que se queira, nunca se vir a ser um           seco a um matrimnio e, como a arte e o pen-
simples instrumento inanimado, uma coisa                 samento,  uma das coisas supremas que tornam
humilde, ridcula ou obscena; ser necessrio,           a vida digna de ser vivida. Mas, embora no
precisamente, querer isso, isto , valer, para           haja bom casamento sem A., os melhores casa-
essa finalidade, como subjetividade livre {ibid.,        mentos tm um objetivo que vai alm do A. O
pp. 346-347). No h, portanto, salvao no A.:          A. recproco de duas pessoas  demasiado cir-
o conflito e o fracasso so-lhe intrinsecamente          cunscrito, demasiado separado da comunidade
necessrios. Por outro lado, Sartre v conflito          para ser, por si mesmo, o objetivo principal da
anlogo tambm no simples desejo sexual, cujo            vida. No , em si mesmo, fonte suficiente de
"ideal impossvel" assim define: "Possuir a              atividade, no oferece perspectivas suficientes
transcendncia do outro como pura trans-                 para constituir uma existncia em que se possa
cendncia e no entanto como corpo-, reduzir o            encontrar uma satisfao fundamental. Cedo
outro  sua simples facticidade, pois ele ainda          ou tarde, torna-se retrospectivo,  um tmulo
est no meio do meu mundo, mas fazer que                 de alegrias mortas, no uma fonte de vida nova.
essa facticidade seja uma representao per-             Esse mal  inseparvel de qualquer finalidade
ptua da sua transcendncia nadificante" (ibid.,         atingvel numa nica emoo suprema. Os nicos
pp. 463-464). E, como o A. pode tender para o            fins adequados so os que tm incidncia no
masoquismo como soluo ilusria do seu con-             futuro, que nunca podem ser plenamente al-
flito, assim tambm o desejo sexual tende para           canados, mas esto em constante 'crescendo'
o sadismo, isto , para a no-reciprocidade das          e so infinitos, como a infinitude da busca hu-
relaes sexuais, para o gozo de ser "potncia           mana. S quando o A. est ligado a algum fim
possessiva e livre em face de uma liberdade              infinito dessa espcie pode ter a seriedade e a
aprisionada pela carne" (ibid., p. 469). No h          profundidade de que  capaz" (Principies of
dvida de que a anlise de Sartre, to rica de           Social Reconstruction, p. 192). Com isto, o A.
reparos e referncias, representa um exame sem           no  negado, mas reconduzido aos limites que
preconceitos de certas formas que o A. pode              o definem. "O homem", diz ainda Russell, "que
assumir e assume e dos conflitos em que de-              nunca viu as coisas belas em companhia da
sembocam. Mas trata-se das formas do A. ro-              mulher amada no conheceu plenamente o
mntico e das suas degeneraes. O A. de que             mgico poder que tais coisas possuem. E mais:
fala Sartre  o projeto da fuso absoluta entre          o A.  capaz de romper o duro cerne do eu,
dois infinitos; e dois infinitos s podem ex-            porque  uma espcie de colaborao biolgi-
AMOR                                                  50                                              AMOR


ca, na qual as emoes de um so necessrias               relao que o constitui, por interesses, necessi-
 satisfao dos propsitos instintivos do ou-             dades, aspiraes, preocupaes, etc, cuja
tro" (A conquista da felicidade; trad. it., p. 42).        comparticipao constituir a base ou o motivo
Nesse sentido, porm, no requer o sacrifcio              do A. Especificamente, o A. poder ser definido
das pessoas que se amam, mas constitui enri-               como o controle emotivo de tais tipos ou modos
quecimento e realizao da sua personalidade.              de comparticipao e dos comportamentos
No requer nem mesmo o emudecimento do                     correspondentes. O valor desse controle emotivo
esprito de ambas as partes, mas, antes, o res-            pode ser evidenciado por algumas observa-
peito  autonomia recproca e a fidelidade aos             es. P. ex., a fidelidade no A. no tem valor se
compromissos assumidos. Por isso,  indispen-              no deriva do controle emotivo, mas de uma
svel a realizao da igualdade de condio                fria noo de dever; e, por outro lado, certas
moral e jurdica entre os sexos, bem como a                infidelidades no ofendem necessariamente o
transformao e a liberalizao das regras mo-             A. Nesses limites, em cjue o A.  um fenmeno
rais que ora restringem e inibem com dema-                 humano, para cuja descrio termos como "uni-
siada rigidez as relaes sexuais. Por outro lado,         dade", "todo", "infinito", "absoluto" so desca-
porm, ''a relao sexual sem A. tem valor m-             bidos, o A. perde em substncia csmica tanto
nimo e deve ser considerada uma primeira expe-             quanto ganha em importncia humana; e o seu
rincia, capaz de dar uma noo aproximada do              significado, objetivamente constatvel, para a
A." (Marriage and Morais, cap. IX; trad. it.               formao, a conservao e o equilbrio da per-
p. 118).                                                   sonalidade humana, torna-se fundamental. A
    Um olhar de conjunto nas teorias menciona-             noo de A. nesse sentido  a ilustrada por
das mostra a recorrncia de duas noes fun-               Plato, Aristteles, S. Toms, Descartes, Leibniz,
damentais do A., sendo possvel vincular cada              Scheler, Russell.
uma dessas teorias a uma ou a outra. A primei-                 A segunda teoria recorrente sobre o A.  a
ra  a do A. como relao que no anula a reali-           que v nele uma unidade absoluta ou infinita,
dade individual e a autonomia dos seres entre              ou seja, conscincia, desejo ou projeto de tal
os quais se estabelece, mas tende a refor-las,           unidade. Desse ponto de vista, o A. deixa de
por meio de um intercmbio, controlado                     ser um fenmeno humano para tornar-se um
emotivamente, de servios e cuidados de todo               fenmeno csmico ou, melhor ainda, a nature-
tipo, intercmbio no qual cada um procura o                za do Princpio ou da Realidade Suprema. O
bem do outro como seu prprio. Nesse senti-                xito ou o malogro do A. humano passa a ser
do, A. tende  reciprocidade e  sempre rec-              indiferente; alis, o A. humano, como aspira-
proco na sua forma bem-sucedida, que sempre                o  identidade absoluta e como tentativa por
poder ser chamada de unio (de interesses,                parte do finito de identificar-se com o Infinito,
de intentos, de propsitos, de necessidades,               est previamente condenado ao insucesso e
bem como de emoes correlativas), mas nun-                reduzido a uma aspirao unilateral, pela qual
ca de "unidade", no sentido prprio desse ter-             a reciprocidade  decepcionante, que se con-
mo. Nesse sentido, o A.  uma relao finita               tenta em imaginar a vaga forma de um ideal
entre entes finitos, suscetvel da maior varie-            fugaz. So duas as conseqncias desse con-
dade de modos, em conformidade com a va-                   ceito de A. A primeira  a infinitizao das vicis-
riedade de interesses, propsitos, necessida-              situdes amorosas que, consideradas como for-
des e relativas funes emotivas, que podem                mas ou manifestaes do Infinito, assumem um
constituir sua base objetiva. "Relao finita" sig-        significado e um alcance desproporcional e
nifica relao no necessariamente determina-              grotesco, sem relao com a importncia real
da por foras inelutveis, mas condicionada por            que tm para a personalidade humana e para
elementos e situaes aptas a explicar suas mo-            as suas relaes com os outros. A segunda 
dalidades particulares. Significa tambm rela-             que todo tipo ou forma de A. humano destina-
o sujeita ao xito como ao malogro e, ainda              se ao fracasso; e o prprio xito de tal A.,
nos casos mais favorveis, suscetvel de xitos            verificvel na reciprocidade, na possibilidade
s parciais e de estabilidade relativa. Nesse caso,        da comparticipao,  assumido como sinal desse
obviamente, o A. nunca  "tudo" e no constitui            fracasso. Essas duas atitudes podem ser facil-
a soluo de todos os problemas humanos. Cada              mente encontradas na literatura romntica so-
tipo ou espcie de A., e, em cada tipo ou esp-            bre o A.  a noo defendida por Spinoza, Hegel,
cie, cada caso ser delimitado e definido, na              Feuerbach, Bergson, Sartre.
AMORAL, AMORAUSMO                                     51                                             ANALISE

  AMORAL, AMORALISMO (in. Amoral, arno-                    bem-estar, e tem em si mesmo o nico objeto e
ralism, fr. Amoral, amoralisme, ai. Amoralisch,            o nico fim; de modo que, enquanto as emo-
Amoralsmus; it. Amorale, amoralism). O ad-               es que vm do A. nos do s coisas, o amor
jetivo "A." designa propriamente o que  indi-             prprio quer que as coisas se dem a ns e faz
ferente s valorizaes morais: nesse sentido,             de si mesmo o centro de tudo". Kant, mesmo
um homem A.  um homem sobre cuja condu-                   considerando o amor de si uma espcie de
ta os juzos sobre o bem e sobre o mal no tm             egosmo (entendido, porm, no sentido mais
nenhuma influncia e que, por isso, se com-                geral de desejo da felicidade), distinguia-o como
porta independentemente deles. O termo                     benevolncia para consigo (ou filucia) levada
"amoralism" designa, porm, uma profisso                 ao extremo pela complacncia para consigo
de amoralidade e, da, a pretenso de prescin-             (ou arroganta) e considerava-o suscetvel de
dir dos valores da moral corrente e de substi-             harmonizar-se com a lei moral e tornar-se "amor
tuir esses valores por outros; nesse sentido, foi          racional de si" (Crt. R. Pratica, livro I, cap. III,
empregado freqentemente para designar a                   A129). As anlises de Scheler insistiram no carter
atitude de Nietzsche (v. TRANSMUTAO DOS                  no-egostico do A. de si: "Amor orientado para
VALORES).                                                  os valores e, por seu intermdio, para os obje-
    AMOR DE SI (gr. (piAoarria; in. Self-love, fr.         tos portadores deles, sem preocupar-se em sa-
Amourdesoi; ai. Eigenliebe, it. Amordis). Esta            ber a quem pertencem esses valores, se a 'mim'
expresso no deve ser confundida nem com                  ou a 'outros' ". (Sympathie, II, cap. 1,  1)
"amor prprio", que significa vaidade, ou, no                 AMOR FATI. Expresso usada por Nietz-
melhor dos casos, sentido de altivez ou de or-             sche como "frmula para a grandeza do ho-
gulho, nem com egosmo (v.). Aristteles dis-              mem" e que significa: "No querer nada de
tinguiu a filucia, que  uma virtude, do ego-             diferente do que , nem no futuro, nem no
smo vulgar de quem ama a si mesmo, querendo               passado, nem por toda a eternidade. No s
atribuir-se a maior parte dos lucros, dos praze-           suportar o que  necessrio, mas am-lo". Essa
res e das honras. "O filaucioso", disse ele, "            frmula exprime a atitude prpria do super-
sobretudo aquele que se apropria do belo e do              homem e a natureza do "esprito dionisaco",
bem, faz deles seus senhores e obedece-lhes                enquanto aceitao integral e entusistica da
em tudo" (Et. nic, IX, 8, 1.168 a, 28). Em outras          vida em todos os seus aspectos, mesmo nos
palavras, quem ama a si mesmo no verdadeiro                mais desconcertantes, tristes e cruis (Ecce
sentido no pretende a parte maior do prazer,              Homo, passim; Wille zurMacht, ed. Krner, I,
das honras ou do lucro, mas a parte maior do                282) (v. DESTINO).
bem e do belo, isto , o exerccio da virtude.                AMOR PRPRIO. V. AMOR DE si; EGOSMO.
Em sentido anlogo, S. Toms afirma que o                     ANAGGICO (gr. vaycoyiK; in. Anago-
homem ama a si mesmo quando ama a sua                      gic; fr. Anagogque, ai. Anagoge, it. Anagogico).
natureza espiritual, no a corprea, e que em              Um dos significados da Escritura (como distin-
tal sentido deve amar a si mesmo depois de                 guidos, p. ex., por HUGO DE SO VTOR, De
Deus, mas antes de qualquer outro ser; de modo             scripturis, III), mais precisamente o que con-
que, por ex., no pode tolerar incorrer em pe-             siste em proceder das coisas visveis s invis-
cado para livrar o prximo do pecado (S. Th.,              veis e, em geral, das criaturas  sua Causa pri-
II, II, q. 26, a. 4). Na Idade Moderna, Malebranche        meira (v. ALEGORIA).
(em Premire lettre au R. P. Lami) retomou a                 ANAGGICO, ARGUMENTO. V. ABSURDO.
distino entre amor prprio e A. consideran-                 ANLISE (gr. vakvoiq; lat. Analysis; in.
do o primeiro como fonte de todos os desre-                Analysis; fr. Analyse, ai. Analyse, it. Analisi).
gramentos humanos e o segundo, ao contrrio,               Em geral, a descrio ou a interpretao de
como o princpio de todos os esforos para o               uma situao ou de um objeto qualquer nos
cumprimento do dever. Essa distino foi reto-             termos dos elementos mais simples pertencen-
mada por Vauvenargues (De 1'esprit humain,                 tes  situao ou ao objeto em questo. A fina-
24): "Com o amor de si mesmo pode-se procu-                lidade desse processo  resolver a situao ou
rar a prpria felicidade fora de si. Pode-se amar          o objeto nos seus elementos, de modo que um
qualquer coisa fora de si mais do que a prpria            processo analtico  considerado bem-sucedi-
existncia e no se  o nico objeto para si               do quando tal resoluo  realizada. Esse pro-
mesmo. O amor prprio, ao contrrio, subordi-              cesso foi empregado por Aristteles na lgica
na tudo s prprias comodidades e ao prprio               da demonstrao (apoditica), com a finalidade
ANALISE                                                  52                                          ANALISE

de resolver a demonstrao no silogismo, o                    definio dos termos da definio, e assim por
silogismo nas figuras, as figuras nas proposi-                diante, at as partes simples, ou seja, aos ter-
es (An.pr, I, 32, 47 a 10). Na lgica do sc.               mos indefinveis" (De arte combinatoria, Op.,
XVII, a diferena entre A. e sntese comeou a                ed. Erdmann, p. 23 a-b). Com outras palavras,
ser exposta como a diferena entre dois mto-                 Newton dizia a mesma coisa: "Pelo caminho da
dos de ensino. "A ordem didtica", dizia Jungius,             A. podemos ir dos compostos aos ingredientes
"pode ser sinttica, isto , compositiva, ou ana-             e dos movimentos s foras que os produzem;
ltica, isto , resolutiva". A ordem sinttica vai            e, em geral, dos efeitos s suas causas e das
"dos princpios ao principiado, dos constituin-               causas particulares s gerais, at que o racioc-
tes ao constitudo, das partes ao todo, do sim-               nio termine nas mais gerais" (Opticks, 1704, III,
ples ao composto" e  empregada pelo lgico,                   1, q. 31; ed. Dover, p. 404). Wolff contrapunha,
pelo gramtico, pelo arquiteto e tambm pelo                  no mesmo sentido, o mtodo analtico e o
fsico, quando passa das plantas aos animais ou               mtodo sinttico: "Chama-se analtico o mto-
dos seres menos perfeitos aos mais perfeitos. A               do pelo qual as verdades so dispostas na or-
ordem analtica procede por via oposta e                     dem em que foram encontradas ou ao menos
prpria do fsico e do tico, na medida em que                em que poderiam ser encontradas. Chama-se
este ltimo passa, por exemplo, da considera-                 sinttico o mtodo pelo qual as verdades so
o do fim  considerao da ao honesta                     dispostas de tal modo que cada uma possa ser
(Lgica hamburgensis, 1638, IV, cap. 18). A                   mais facilmente entendida e demonstrada a
partir de Descartes, a A. e a sntese deixaram                partir da outra" (Log.,  885). No  diferente o
de ser consideradas dois mtodos de ensino                    significado que Kant deu  oposio dos dois
e passaram a ser dois processos diferentes de                 mtodos. Mais particularmente, em De mundi
demonstrao. Diz Descartes: "A maneira de de-                sensibilis atque intellegbilis forma et ratione,
monstrar  dupla: uma demonstra por meio da                   I,  1, nota, ele distinguiu dois significados de
A. ou resoluo, a outra por meio da sntese ou               A.: um qualitativo, que  "o regresso a rationato
composio. A A. demonstra o verdadeiro ca-                   ad rationem", e outro quantitativo (que decla-
minho pelo qual a coisa foi metodicamente in-                 ra utilizar), que  "o regresso do todo s suas
ventada e permite ver como os efeitos depen-                  partes possveis, mediadas, ou seja, s partes
dem da causa... A sntese, ao contrrio, como                 das partes, de tal modo que a A. no  a divi-
se examinasse as causas a partir de seus efeitos              so, mas a subdiviso do composto dado". Kant
(ainda que a prova que ela contm v no raro                 valeu-se desse procedimento em todas as suas
das causas aos efeitos), na verdade demonstra                 obras principais, em cada uma das quais a par-
com clareza o que est contido nas suas con-                  te positiva fundamental  constituda de uma
cluses e utiliza uma longa srie de definies,              "Analtica". Segundo Kant,  analtico o proce-
postulados, axiomas, teoremas, problemas" (Rp.               dimento prprio da "lgica geral", porquanto
auxIIOb.). O prprio Descartes nota que os                    "resolve toda a obra formal do intelecto e da
antigos gemetras utilizaram, de preferncia, a               razo nos seus elementos e expe esses ele-
sntese (como, de fato, fizeram PAPOS, VII, 1 ss.,            mentos como princpios de toda valorizao
e PROCLO, Com. ao I livro de Eudides, p. 211,                 lgica de nosso conhecimento" (Crt. R. Pura,
Friedlein), enquanto ele preferiu a A., porque                Lg. transe, intr., 3). O mesmo procedimen-
esse caminho "parece o mais verdadeiro e o                    to tambm  prprio da lgica transcendental,
mais adequado ao ensino". Hobbes repetia, subs-               que isola o intelecto, isto , a parte do conhe-
tancialmente, essas consideraes (Decorp., VI,               cimento que tem origem s no intelecto (co-
 1-2) e a Lgica de Port-Royal chamava a A. de               nhecimento a priori), mais precisamente da
"mtodo de inveno" e a sntese de "mtodo                   Analtica transcental, que  "a resoluo de
de composio" ou "mtodo de doutrina" (Log.,                 todo o nosso conhecimento a priori nos ele-
IV, 2). Esse ponto de vista sancionava a supe-                mentos do conhecimento puro intelectual". O
rioridade do processo analtico na filosofia mo-              procedimento analtico tambm foi usado por
derna. Essa superioridade tambm  pressu-                    Kant em Crtica da Razo Pratica, com o fim
posta por Leibniz, que define a A. do ponto de                de isolar os princpios prticos, isto , morais;
vista lgico-lingstico: "A.  isto: resolva-se qual-        e em Crtica do Juzo, a fim de determinar
quer termo dado em suas partes formais, isto ,               os fundamentos do juzo esttico e do juzo
d-se a sua definio; sejam essas partes, por                teleolgico: trata-se, em todos os casos, de de-
sua vez, resolvidas em partes, isto , d-se a                terminar os elementos verdadeiros ou efetivos
ANALISE                                                  53                                            ANALISE

que condicionam essas atividades, em contras-                 electromagnticos (o chamado "ter") pode ser
te com os elementos aparentes ou fictcios (ou                considerada resultado da consolidao do pro-
"dialticos"). Naturalmente, o mtodo analtico               cedimento analtico. Em matemtica, o mesmo
nada tem a ver com os juzos analticos. "O mtodo            procedimento prevaleceu quando se renunciou
analtico, enquanto oposto ao sinttico,  coisa bem          a discutir o que so os pontos, as retas, os
diferente de um complexo de juzos analticos:                nmeros, em si, e passou-se  A. das relaes
quer dizer somente que se parte daquilo que                  intercorrentes entre esses termos e dos postu-
objeto da questo, como dado, para remontar                   lados que as exprimem. Desse ponto de vista,
s condies que o tornam possvel" (Prol,  5,               a A. estendeu-se e consolidou-se em detrimento
nota). Hegel fixou de modo anlogo o carter                  daquilo que se chama "metafsica", isto , do
fundamental do procedimento analtico quan-                   domnio das realidades absolutas e das verda-
do escreveu: "Mesmo quando o conhecimento                     des necessrias. No campo das cincias hist-
analtico procede por relaes, que no so ma-               ricas, Dilthey contraps ao mtodo metafsico
tria exteriormente dada, mas determinaes                   e apriorstico, empregado, p. ex., por Hegel, o
do pensamento, ainda assim continua analti-                  mtodo analtico e descritivo prprio da psico-
co, porquanto, para ele, essas relaes so dados!'           logia; da falar-se hoje de "A. histrica", que
(Wissenschaft der Logik, III, III, II, A a; trad. it.,        visa compreender um fato histrico nos seus
p. 295). Pode-se afirmar que o reconhecimento                 elementos. Fala-se tambm de "A. sociolgi-
de dados  o carter fundamental do procedi-                  ca", no sentido de um mtodo voltado para a
mento analtico, o que mais profundamente o                   resoluo da realidade social nos comporta-
distingue do sinttico (v. FILOSOFIA).                        mentos, nas atitudes e nas instituies, que cons-
    Na filosofia e, em geral, na cultura moderna              tituem seus elementos observveis.
e contempornea, a tendncia analtica, isto ,                   No domnio da filosofia contempornea, a
a tendncia a reconhecer a A. como mtodo                     A. assume vrias formas, segundo os instru-
de investigao, disseminou-se e mostrou ser                  mentos com que  feita ou segundo os objetos
muito frtil. Essa tendncia coincide substancial-            ou campos de experincia para os quais esteja
mente com a tendncia empirista (no sentido                   voltada. Na filosofia de Bergson, a A. tem como
metodolgico do empirismo [v.]) a restringir a                alvo a "conscincia", isto , a experincia inte-
investigao aos "fatos observveis" e s rela-               rior, e tende a encontrar os dados ltimos, isto
es entre tais fatos: tendncia que implica,                 , imediatos, de tal experincia. Na filosofia de
em cada caso, a exigncia de indicar o mtodo                 Dewey, a A. est voltada para a experincia
ou o procedimento mediante o qual o fato pode                 humana em seu carter total e amorfo e tende
ser efetivamente observado. Nesse sentido, o                  a resolv-la em operaes naturais. Na filosofia
procedimento analtico leva  eliminao de                   de Husserl, a A. volta-se para o mundo da cons-
realidades ou de conceitos "em si", isto , ab-               cincia como intencionalidade (v.) e  "anlise
solutos ou independentes de qualquer obser-                   intencional", direcionada para a determinao
vao ou verificao e pressupostos como                      das estruturas da conscincia e as "formas" es-
realidades ou verdades "ltimas". Sob esse as-                senciais dos seus contedos objetivos. Na filo-
pecto, a fsica relativista e a mecnica quntica             sofia de Heidegger, a A. est voltada para a
 podem ser consideradas resultados do proces-                 existncia, isto , para as situaes mais co-
 so analtico. Quando Einstein observou que,                  muns e repetveis em que o homem se encon-
 para falar de "fatos simultneos",  necessrio              tra no mundo. No empirismo lgico, a A.  A.
 oferecer um mtodo para observar a simulta-                  da linguagem e tende a eliminar as confuses
 neidade de tais fatos (dando, assim, a chave da              mediante a determinao e a verificao do sig-
 teoria da relatividade), s fez levar a bom ter-             nificado ou modo de uso dos signos. Essas ten-
 mo a A. da noo de "fatos simultneos". E,                  dncias analticas da filosofia contempornea
 quando Niels Bohr e seus alunos evidenciaram                 so mais ou menos opostas  metafsica tradi-
 o fato de que toda observao fsica  acompa-               cional e tendem a conferir  pesquisa filosfica
 nhada por um efeito do instrumento observa-                  um mtodo rigoroso para confirmao e a ve-
 dor sobre o objeto observado, s fizeram levar               rificao de seus resultados. Ao mesmo tempo,
 a bom termo a A. de "observao fsica"; e                   todas elas condescendem, em maior ou menor
 dessa anlise nasceu toda a mecnica quntica.               grau, com certas inflexibilidades metafsicas:
 Analogamente, a renncia a postular um meio                  ao se falar, p. ex., de "dados ltimos", como Berg-
 de transmisso no observvel dos fenmenos                  son, de "formas ou essncias necessrias", como
ANALTICA                                               54                                   ANALITICIDADE


Husserl, de "estruturas necessrias", como                   es de idias e coisas de fato, e com a distino
Heidegger, de "proposies atmicas" ou de                   estabelecida por Leibniz, entre verdades de
"fatos atmicos", como o empirismo lgico, etc.              razo e verdades de fato (v. EXPERINCIA; FATO).
Pode-se dizer, contudo, que a tendncia das                  Foram estabelecidos os seguintes fundamen-
filosofias analticas e da diretriz analtica das            tos da A.:
cincias consiste na progressiva eliminao de                   Ia Certa operao do esprito.  o que faz
"pontos finais", isto , de elementos ou estrutu-            Hume, ao afirmar que as proposies concer-
ras que, por sua substancialidade e necessida-               nentes s idias "podem ser descobertas com
de, bloqueiem o curso ulterior da A. e a imobi-              uma simples operao do pensamento" (Inq.
lizem em resultados assumidos como definitivos               Cone. Underst., IV, 1). A caracterstica desta
e, portanto, subrados a toda verificao ulte-              operao  no depender dos fatos, mas trata-
rior. Essa tendncia visa, portanto, determinar              se de uma caracterstica negativa que pouco
e utilizar tcnicas de verificao passveis de              diz sobre o fundamento da analiticidade.
correo ou retificao. Desse ponto de vista, a                 2- Certa relao de implicao entre sujeito
A.  o equivalente atualizado do empirismo                   e predicado.  o que faz Kant, ao definir o juzo
tradicional e a ela se contrape a metafsica no             analtico como o juzo em que "o predicado B
sentido clssico do termo, como cincia ou                   pertence ao sujeito A como algo que est con-
pretensa cincia daquilo que, sendo "necessa-                tido (implicitamente) nesse conceito A' (Crt.
riamente" e "em si", no tem necessidade de                  R. Pura, intr., IV). Sobre o carter dessa impli-
ser analisado, isto , descrito, interpretado ou             cao, porm, nada se diz; e o famoso exem-
compreendido mediante procedimentos veri-                    plo, aduzido por Kant, da proposio "os cor-
ficveis.                                                    pos so extensos", que seria analtica em face
    ANALTICA (in. Analytics; fr. Analitique, ai.            da proposio "os corpos so pesados", que
Analitik, it. Analtica). Em geral, uma disciplina           seria sinttica, no esclarece por certo esse
ou uma parte de disciplina cujo mtodo fun-                  conceito, j que no se v por que a extenso
damental  a analise (v.). Aristteles chamou                deve estar contida implicitamente no conceito
de A. a parte da lgica que visa resolver qual-              de corpo, e no o peso.
quer raciocnio nas figuras fundamentais do                     3B Tautologia. Nesse sentido, Wittgenstein
silogismo {Primeiros analticos) e qualquer prova            considerou as proposies analticas como
nos prprios silogismos e nos primeiros princ-              tautologias. "A tautologia", disse ele, "no tem
pios, que constituem suas premissas evidentes                condies de verdade porque  incondicional-
(Segundos analticos). Kant chamou de "A.                    mente verdadeira" (Tractatus, 4.461). Mas, por
transcendental" a primeira parte da "doutrina                outro lado, ela no  uma "representao da
dos elementos" na Crtica da Razo Pura e na                 realidade" porque "permite todas as situaes
Crtica da Razo Prtica (enquanto a segunda                 possveis" (ibid., 4.462). Essa definio tem grande
parte  a Dialtica), entendendo por A. a deter-             difuso na filosofia contempornea. Carnap
minao das condies a priori do conheci-                   exprimiu-a dizendo que "um enunciado  cha-
mento e da ao moral. A Crtica do Juzo con-               mado analtico quando  uma conseqncia da
tm, alm disso, uma A. do belo, uma A. do                   classe nula de enunciados (e, assim, uma con-
sublime e uma A. do juzo teleolgico, que                   seqncia de cada enunciado)" (Logiscbe Syntax
determinam as condies a priori: respectiva-                der Sprache,  14). Isso significa que um enun-
mente, as primeiras duas do juzo esttico, a                ciado  analtico quando a sua negao  con-
outra do juzo sobre a finalidade da natureza.               traditria: carter aceito por outros autores para
Heidegger fala de uma "A. ontolgica do ser",                definir a A. e que faz das verdades analti-
isto , de uma anlise da existncia como ser                cas "verdades necessrias" (REICHENBACH, The
no mundo, como aproximao e preparao                     Theory of Probability, 1949,  4, p. 20; LEWIS,
ontologia, isto ,  determinao do significado             Analysis of Knowledge and Valuaton, 1950, p.
do ser em geral (Sein und Zeit,  5).                        89, etc). A verdade analtica da tautologia de-
   ANALTICA, PSICOLOGIA. V. PSICOLOGIA, e.                  riva do fato de que ela exaure o nvel das pos-
   ANALITICIDADE (in. Analyticity, fr. Ana-                  sibilidades e, portanto,  evidente pela simples
lyticit, ai. Analytizitt; it. Analiticit). Valida-        forma do enunciado. Carnap exprimiu esse
de das proposies, que no depende dos fa-                  carter com o conceito de "descrio de esta-
tos. Esse conceito  moderno e nasce com a                   do" (State-description), pelo qual se entende "a
distino estabelecida por Hume, entre rela-                 descrio completa de um possvel estado do
ANALOGIA                                             55                                          ANALOGIA


universo dos indivduos relativamente a todas             entre a cincia e a diania, que pertencem 
as propriedades e relaes expressas pelos                esfera da inteligncia (que tem por objeto o
predicados do sistema" (.Meaning andNecessity,            ser), e entre a crena e a conjectura, que per-
 2). A descrio de estado representa os "mun-           tencem  esfera da opinio (que tem por objeto
dos possveis" de Leibniz: um enunciado  ana-            o vir-a-ser). "O ser est para o vir-a-ser", diz
ltico quando  vlido para todos os mundos               Plato, "assim como a inteligncia para a opi-
possveis. Os lgicos, todavia, tendem hoje a fa-         nio; e a inteligncia est para a opinio assim
zer a distino entre verdade lgica e verdade            como a cincia est para a crena e a diania
analtica. P. ex., a proposio "nenhum homem             para a conjectura". Aristteles usa essa palavra
no casado  casado"  uma tautologia e, por-             no mesmo sentido de igualdade de relaes.
tanto, uma verdade lgica; mas a proposio               Assim, ele diz que as coisas em ato no so
"nenhum solteiro  casado" no  mais uma                 todas iguais entre si, mas so iguais por A., no
tautologia, mas ainda  uma proposio anal-             sentido que todas tm a mesma relao com os
tica, fundada na sinonmia entre "solteiro" e             termos que servem, respectivamente, de po-
"no casado". (Cf. QUINE, From a LogicalPoint             tncias. "No  necessrio", diz Aristteles, "pedir
ofView, 1953, cap. II).                                   a definio de tudo, mas observar tambm a A.,
    4a Sinonmia. Esta pode ser estabelecida:             isto , ver que o construir est para a habilida-
a) mediante definies, como se costuma fazer             de de construir na mesma relao em que o
na matemtica e em todas as linguagens artifi-            estado de viglia est para o dormir, o ver para
ciais; b) mediante o critrio da intercambiabi            o ficar de olhos fechados, a elaborao do
lidade, com que Leibniz define a prpria iden-            material para o prprio material e a coisa for-
tidade (v.); nesse caso, chamam-se sinnimos              mada para a informe" (Met., 9, 6, 1.047 b 35
os termos intercambiveis num mesmo con-                  ss.). Do mesmo modo, Aristteles afirma que
texto, sem que se altere a verdade do prprio             os elementos e os princpios das coisas no so
contexto; c) mediante regras semnticas, como             os mesmos, mas s anlogos, no sentido de
tambm ocorre nas linguagens artificiais.  de            que so as mesmas as relaes que tm entre
se notar que a dificuldade de se estabelecer,             si. P. ex., "no caso da cor, a forma ser o bran-
com esses procedimentos, o significado exato              co; a privao, o negro; a matria, a superfcie;
de sinonmia e, portanto, o de A. levou alguns l-        no caso da noite e do dia, a forma ser a luz, a
gicos modernos a negar a existncia de distin-            privao ser a escurido e a matria ser o ar"
o ntida entre A. e sinteticidade (MORTON WHITE,        (ibid., 12, 4, 1.070 b 18). Obviamente, o branco,
 The Analytic and the Synthetic. an Untenable             o negro e a superfcie no so, respectivamente,
Dualism, em SIDNEY HOOK, ed. John Dewey,                  o mesmo que luz, escurido e ar, mas  idn-
Nova York, 1950; W. V. O. QUINE, From a Logical           tica a relao entre essas duas trades de coisas
Point of Veiv, Cambridge, 1953, cap. II).                (como entre muitssimas outras trades): rela-
                                                          o que  expressa com os princpios de for-
    ANALOGIA (gr. va,OYoc; lat. Analogia; in.
                                                          ma, privao e matria. Nesse sentido, isto ,
Analogy, fr. Analogie, ai. Analogie, it. Analo-
                                                          como igualdade de relaes em todos os casos
gia). Esse termo tem dois significados funda-
                                                          em que se acham realizados, tais princpios so
mentais: 1Q o sentido prprio e restrito, extrado
                                                          chamados de analgicos. Fora da metafsica, a
do uso matemtico (equivalente a proporo)
                                                          mais clebre aplicao do conceito de A.  a
de igualdade de relaes; 2S o sentido de ex-
                                                          que, em tica, Aristteles faz em relao  jus-
tenso provvel do conhecimento mediante o
                                                          tia distributiva. Esta consiste em dar a cada um
uso de semelhanas genricas que se podem
                                                          segundo os seus mritos e, por isso,  consti-
aduzir entre situaes diversas. No primeiro
                                                          tuda por uma proporo na qual as recompen-
significado, o termo foi empregado por Plato
                                                          sas esto entre si assim como os mritos res-
e por Aristteles e  at hoje empregado pela
                                                          pectivos das pessoas a quem so atribudos.
lgica e pela cincia. No segundo significado,
                                                          Trata-se, nota Aristteles, de uma proporo
o termo foi e  empregado na filosofia moder-
                                                          geomtrica no contnua, j que nunca ocorre
na e contempornea. O uso medieval do termo
                                                          que a pessoa a quem se atribui alguma coisa e
 intermedirio, entre um e outro significado.
                                                          a coisa que se lhe atribui constituam um termo
     Ia Plato usou esse termo para indicar a             numericamente uno (Et. nic, V, 5, 1.131 a 3D-
igualdade das relaes entre as quatro formas             Aristteles depois fez uso freqente do concei-
-- duas a duas -- de conhecimento, que distin-            to de analogia nos seus livros de histria natu-
guiu na Repblica (VII, 14, 534 a 6), ou seja,
ANALOGIA                                             56                                           ANALOGIA


ral, dizendo que so anlogos os rgos "que              que  o primeiro princpio universal do ser,
tm a mesma funo" (Depart. an., I, 5 645 b              mas Deus no  semelhante a elas: esta relao
6). Esse conceito deveria revelar-se de funda-             a A. (S. Tb., I, q, 4, a. 3). A relao analgica
mental importncia na biologia do sc. XIX.               estende-se a todos os predicados atribudos, ao
quando, com Cuvier, serviu de fundamento e                mesmo tempo, a Deus e s criaturas. P. ex., o
de ponto de partida para a anatomia compa-                termo "sbio", quando se refere ao homem,
rada.                                                     significa uma perfeio diferente da essncia e
    Nesse significado, sem aluso  noo de              da existncia do homem, ao passo que, quan-
probabilidade, mas  de proporo, esse termo             do se refere a Deus, quer dizer uma perfeio
 hoje empregado em lgica. As "A. formais" so           idntica  sua essncia e ao seu ser; alm disso,
condicionadas pelo carter transitivo das rela-           quando se refere ao homem, d a entender o
es cuja igualdade estabelecem. P. ex., diz-se           que quer significar, ao passo que, quando se
que, se "x antepassado de y e y antepassado             refere a Deus, deixa fora de si a coisa significada,
de z, x c antepassado de z"; ou ento: se "x             que transcende os limites do entendimento hu-
parte de y e y  parte de z, x  parte de z". A           mano (ibid., I, q. 13, a. 5). O significado dife-
concluso  exata, mas no o seria se, em lugar           rente que um termo pode assumir segundo a
das relaes "antepassado de" ou "parte de",              sua atribuio a esta ou quela realidade foi
fossem usadas, p. ex., "pai de", "ama" ou "odeia",        depois chamado, pelos escolsticos, A. de atri-
etc. No se pode dizer, com efeito, "x  pai de           buio. Esse tipo de A. verifica-se no s a
y e y pai de z, logo x  pai de z". A A. vale            propsito da atribuio de um mesmo termo a
s para as chamadas "relaes transitivas", cujo          Deus e s criaturas, mas em muitos outros ca-
princpio pode ser assim expresso: as asseres           sos, como p. ex., quando se diz que um medi-
de que x est em relao transitiva com y e que           camento saudvel e que um animal  saudvel,
y est em relao transitiva com z implicam a             na medida em que o medicamento  a causa da
assero de que x est em relao transitiva              sanidade que est no animal (ibid., I, q. 13, a.
com z (cf. RUSSELL, Intr. to Math. Philosophy,            5). A A. de proporcionalidade refere-se, porm,
1918, cap. VI; STRAWSON, Intr. toLogical Theory,          s  analogicidade de significado entre o sere
II, 2, 11).                                               Deus e o ser das criaturas, tornando-se tema de
    O uso do termo no sentido de extenso pro-            discusses polmicas na Escolstica do sc. XIII
vvel do conhecimento foi iniciado pela                   e da primeira metade do sc. XIV. A A. de
Escolstica, embora tal significado tenha per-            proporcionalidade  freqentemente atribuda
manecido estranho  prpria Escolstica. Com              a Aristteles pelos tomistas (assim como pelo
efeito, essa palavra teve uso metafsico-teolgi-         prprio S. Toms), mas na verdade, ainda que
co para distinguir e, ao mesmo tempo, vincular            Aristteles tivesse comeado a reconhecer v-
o ser de Deus e o ser das criaturas, que tinham           rios sentidos do ser, fizera-o s para reconduzi-
sido contrapostos pela Escolstica rabe e so-            los a modos e especificaes do nico sentido
bretudo por Avicena, respectivamente como o               de substncia, isto , do ser enquanto ser, do
ser necessrio, que no pode no ser, e o ser             ser na sua necessidade, que  o objeto da
possvel, que pode ser e por isso precisa do ser          metafsica. Aristteles, por isso, no distinguia
necessrio para existir. Assim, Guilherme de              nem podia distinguir o ser de Deus do ser das
Alvrnia diz que o ser das coisas criadas e o ser         outras coisas: p. ex., Deus e a mente so substn-
de Deus no so idnticos nem diferentes, mas             cias precisamente no mesmo sentido (Et. nic, I,
anlogos: de algum modo se assemelham e se                6, 1.096 a 24). O maior crtico e opositor do
correspondem, sem ter o mesmo significado                 tomismo neste ponto foi Duns Scot, que, repor-
(De Trin., 7). S. Toms distingue, com mais pre-          tando-se exatamente a Aristteles, considerou
ciso, o ser das criaturas, separvel da sua es-          que a noo de ser  comum a todas as coisas
sncia e, portanto, criado, do ser de Deus, idn-         existentes, logo tanto s criaturas quanto a Deus.
tico  essncia e, portanto, necessrio. Esses            Considerou-a, por isso, unvoca pelo motivo
dois significados do ser no so unvocos, isto           fundamental de que, se assim no fora, seria
, idnticos, nem equvocos, isto , simplesmente         impossvel conhecer algo de Deus e determi-
diferentes; so anlogos, ou seja, semelhantes,           nar qualquer atributo Seu, remontando, por via
mas de propores diversas. S Deus tem o ser             causai, das criaturas (Op. Ox., I, d. 3, q. 3, n. 9).
por essncia; as criaturas o tm por particiao;         Desse modo, tambm restabeleceu a unidade
elas, enquanto so, so semelhantes a Deus,               da cincia do ser, isto , da metafsica -- que,
ANALOGIA                                             57                                        ANALOGIA


para o tomismo, dividia-se em cincia do ser              do assentimento; mais precisamente, conside-
criado (metafsica) e em cincia do ser neces-            ra-a como probabilidade concernente a coisas
srio (teologia) -- e, portanto, reduziu a teolo-         que transcendem a experincia. A A.  a nica
gia a cincia pratica (isto , no dirigida para o        ajuda de que dispomos, segundo Locke, para
conhecimento do homem, mas para a sua orien-              alcanar um conhecimento provvel dos "seres
tao com vistas  salvao.                              materiais finitos fora de ns", dos seres que, de
    2 O segundo significado desse termo, como            qualquer modo, no nos sejam perceptveis, ou
extenso provvel do conhecimento mediante                enfim da maior parte das operaes da nature-
a passagem de uma proposio que exprime                  za que se escondem da experincia humana
certa situao para uma outra proposio que              direta (Ensaio, IV, 16). Leibniz concordou com
exprime uma situao genericamente seme-                  Locke, ao ver na A. "a grande regra da proba-
lhante, ou como extenso da validade de uma                bilidade", na medida em que aquilo que no
proposio de certa situao para uma situa-              pode ser comprovado pela experincia pode
o genericamente semelhante, era conheci-                parecer provvel se est mais ou menos de
do pelos antigos com o nome de "procedimen-               acordo com a verdade estabelecida. Leibniz
to por semelhana" (t roxpapo^fj ou St                acrescenta alguns exemplos do uso que os cien-
piotxriTO). Aristteles diz: "A probabilidade          tistas fizeram da A. e recorda que Huygens,
tambm aparece no procedimento por seme-                  fundando-se precisamente nela, julgou que o
lhana quando se diz o contrrio do contrrio:            estado dos outros planetas  muito semelhante
p. ex., se  preciso fazer o bem aos amigos,              ao da Terra, salvo pela diferena produzida por
pode-se dizer, por semelhana, que  preciso              suas diferentes distncias do Sol (Nouv. ess., IV,
fazer o mal aos inimigos" (Top., I, 10, 104 a 28;         16, 12). Na realidade, os cientistas dos scs.
cf. El. sof, 173 b 38; 176 a 33, etc.) Esse proce-        XVII e XVIII utilizaram muito a A.; e no foi sem
dimento, obviamente, nada tem que ver com a               razo que Kant utilizou esse termo para expri-
A.: a relao  diferente (assim como "fazer o            mir alguns princpios regulativos fundamentais
mal"  diferente de "fazer o bem") e entre as             da cincia do seu tempo. Entendeu, em geral,
duas situaes, portanto, no h igualdade de             por A. uma forma de prova teortica (v. PROVA)
relaes, mas s uma semelhana genrica.                 e definiu-a como "a identidade da relao entre
Aristteles aconselha a usar esse procedimento            princpios e conseqncias (entre causas e efei-
para questes polmicas {Top., VIII, 1, 156 b             tos) enquanto tem lugar, no obstante, a dife-
25). Euclides de Mgara j havia contestado sua           rena especfica das coisas ou das qualidades
validade lgica. Ele "repudiava o procedimen-             em si (quer dizer: consideradas fora daquela
to por semelhana dizendo que ele vale de                 relao), que contm o princpio de conseqn-
coisas semelhantes ou de coisas dessemelhantes.           cias semelhantes" (Crt. do Juzo,  90). Enume-
Se de coisas semelhantes,  melhor tratar das             rou quatro "A. da experincia", enunciando-as
prprias coisas do que das que lhes so seme-             do seguinte modo: d) princpio da permann-
lhantes; se de coisas dessemelhantes,  intil a          cia da substncia, que assim se exprime: "Em
comparao" (DlG. L., II, 107) Os epicuristas            toda mudana dos fenmenos a substncia per-
entendiam que a induo era um raciocnio por             manece e a sua quantidade na natureza no
analogia e, portanto, defendiam a sua validade            aumenta nem diminui"; b) princpio da srie
subordinadamente ao postulado da uniformi-                temporal segundo a lei da causalidade, que assim
dade da natureza. Diz Filodemo: "Quando ns               se exprime: "Todas as mudanas ocorrem se-
julgamos: 'J que os homens que esto ao nosso            gundo a lei do nexo de causa e efeito"; c) prin-
alcance so mortais, todos os homens so mor-             cpio da simultaneidade segundo a lei da ao
tais', o mtodo analgico s ser vlido se su-           recproca, que assim se exprime: "Todas as
pusermos que os homems que no esto em                   substncias, enquanto podem ser percebidas
condies de se mostrarem a ns so, sob to-              no espao como simultneas, esto entre si em
dos os aspectos, semelhantes aos que esto ao             ao recproca universal". Kant esclareceu do
nosso alcance, de tal modo que se deve pres-              seguinte modo o sentido em que esses princ-
supor que eles tambm so mortais. Sem esse               pios so chamados de analogias. Em matem-
pressuposto, o mtodo da A. no  vlido" (De             tica, as A. so frmulas que exprimem a igual-
 signis, II, 25). Na filosofia moderna, a primeira        dade de duas relaes quantitativas e so sempre
 defesa da A.  provavelmente a de Locke, que,            constitutivas, isto , quando so dados trs
no IV livro de Ensaio, inclui a A. entre os graus         membros da proporo,  dado tambm o quarto,
ANALOGIA                                            58                                        ANALOGIA


que, portanto, pode ser construdo. Em filoso-           tambm tem a propriedade b. P. ex., diz-se
fia, porm, a A.  a igualdade entre duas rela-          que os planetas so habitados porque a Terra
es no quantitativas, mas qualitativas: o que           habitada". Esse modo de argumentar pode,
quer dizer que, dados trs termos da propor-             segundo Stuart Mill, aumentar s em grau no
o, o quarto termo no , por isso, dado, mas           determinvel, mas em todo caso muito modes-
s  dada certa relao com eles. Essa relao           to, a probabilidade da concluso; mas em com-
 uma regra para procur-lo na experincia e             pensao, pode dar lugar a muitas falcias
um sinal para descobri-lo. De modo que o                 (Logic, V, 5, 6).
princpio da permanncia da substncia, o prin-              Mas a lgica e a metodologia atuais so muito
cpio de causalidade e o princpio de reciproci-         menos cticas em relao  A. talvez porque a
dade de ao no fazem parte verdadeiramen-              remetam ao significado \", isto ,  igualdade
te da constituio dos objetos de experincia,           de relaes. P. ex., um dos procedimentos ana-
mas valem somente para descobri-los e para               lgicos consiste na criao de smbolos que
situ-los na ordem universal da natureza. Esses          tenham semelhana maior ou menor com as
princpios so,  bem verdade, apriori, e por-           situaes reais, e cujas relaes reproduzam as
tanto certos de forma indubitvel, mas, ao mesmo         relaes inerentes aos elementos de tais situa-
tempo, so desprovidos de evidncia intuitiva,           es. Tais smbolos so, s vezes, modelos
ao passo que os "axiomas da intuio" (v. Axio-          mecnicos, quer dizer, desenhos, esquemas ou
MA) e as "antecipaes da percepo" (v. ANTE-           mquinas que reproduzem as relaes existen-
CIPAES) so princpios constitutivos porque            tes entre elementos reais; tais so, p. ex., os
ensinam "como os fenmenos, tanto com res-               modelos do sistema solar, da estrutura do to-
peito  sua realidade percebida, quanto com              mo, do sistema nervoso, etc. Outras vezes, tais
respeito  sua intuio, podem ser produzidos            modelos so obtidos atravs do chamado pro-
segundo as regras de uma sntese matemtica"             cesso de extrapolao, que consiste em levar
(Crt. R. Pura, Anal. dos princ, III, 3). Como se        ao limite o comportamento de um conjunto de
v, permanece neste uso kantiano o significa-            casos ordenados numa. srie na qual se supo-
do da A. como igualdade entre relaes, mas              nham eliminadas, gradualmente, as influncias
tais relaes so ditas "qualitativas" no sentido        perturbadoras. Fala-se, p. ex., em velocidade
de que, com elas, no so dados os objetos,              infinita ou em velocidade zero, ou massas re-
mas s as relaes que permitem descobri-los             duzidas a um ponto geomtrico, em alavancas
e organiz-los em unidades. E, com efeito, os            perfeitas, em gases ideais, etc. Todo modelo 
princpios da permanncia da substncia, de              um exemplo de A., no sentido l e , por ser pr-
causalidade e de reciprocidade no levam a               prio de um modelo reproduzir, entre os seus
conhecer nada, mas servem para descobrir os              elementos, as mesmas relaes dos elementos
objetos cognoscveis e organiz-los, segundo             da situao real. Mas os fsicos tambm falam
os seus nexos, na unidade da experincia. Nes-           hoje de A. como de condio ou de elemento
se sentido, a A.  um instrumento, alis, um dos         integrante das hipteses e das teorias cientfi-
instrumentos fundamentais para estender o                cas. Segundo essa orientao, a A. faz parte da
conhecimento dos fenmenos naturais, usan-               constituio de uma hiptese na medida em
do como guia as suas conexes determinantes.             que "as proposies de uma hiptese devem
    A lgica e a metodologia da cincia do sc.          ser anlogas a algumas leis conhecidas": nesse
XIX no confiaram na A., considerando-a, ge-             sentido, a A. no  s um auxlio  formulao
ralmente, como uma extenso da generaliza-               de uma teoria, mas  parte integrante dela.
o indutiva alm dos limites dentro dos quais           "Considerar a A. como um auxlio  inveno
ela oferece garantia de verdade. Stuart Mill con-        das teorias  to absurdo quanto considerar a
siderou o raciocnio por A. "uma inferncia de           melodia um auxlio para a composio de uma
que o que  verdade em certo caso tambm                sonata. Se, para compor msica, s fosse ne-
verdade em um caso de algum modo seme-                   cessrio obedecer s leis da harmonia e aos
lhante, mas no exatamente paralelo, isto ,             princpios formais de desenvolvimento, todos
no semelhante em todas as circunstncias                seramos grandes compositores; mas  a au-
materiais. Um objeto tem a propriedade b; ou-            sncia do sentido meldico que nos impede de
tro no tem a propriedade b, mas  semelhante            atingir excelncia musical simplesmente com-
ao primeiro em uma propriedade a no ligada              prando um manual de msica" (N. R. CAMPBELL,
a b; a A. levar  concluso de que esse objeto          Physics; The Elements, 1920, p. 130). A A. cor-
ANALYSIS SITUS                                       59                                     ANARQUISMO


responderia, portanto, em fsica ao que  o               156; cf. CCERO, Top., 56-57). Os esticos enu-
sentido musical em msica: garantiria a ade-              meravam cinco tipos fundamentais de racioc-
quao de uma hiptese cientfica s uniformi-            nios anapodticos e julgavam que a eles pode-
dades expressas ou formuladas nas leis.                   riam ser reduzidos todos os outros raciocnios;
  ANALYSIS SITUS. V. TOPOLOGIA.                           da Sexto Emprico dizer que, afastados esses,
   ANAMNESE (gr. v|ivr|m; in. Reminis-                 toda a dialtica cairia por terra. Eis como se
cense, fr. Rminiscence, ai. Reminiszens; it.             exemplificavam esses tipos fundamentais: ls Se
Anamnest). O mito da A.  exposto por Plato               dia, h luz. Mas  dia. Logo h luz. 2- Se  dia,
em Mnon, como anttese e correo do "prin-              h luz. Mas no h luz. Logo no  dia. 3o Se
cpio erstico" de que no  possvel ao homem            no  dia,  noite. Mas  dia. Logo no  noite.
indagar o que sabe nem o que no sabe, pois               4e Ou  dia ou  noite. Mas  dia. Logo no 
seria intil indagar o que se sabe e impossvel           noite. 5e Ou  dia ou  noite. Mas no  noite.
indagar quando no se sabe o que indagar. A               Logo  dia (Pirr. hyp., II, 157-58; DIG. L, VII,
este discurso, que "pode tornar-nos preguio-             80). Adotando esses raciocnios como funda-
sos e agrada muito aos fracos", Plato ops o             mento da dialtica, da prpria arte de racioci-
mito segundo o qual a alma  imortal e, portan-           nar, os esticos reduziam ao raciocnio A. hipo-
to, nasce e renasce muitas vezes, de tal modo             ttico ou disjuntivo, que  sempre de dois termos,
que viu tudo neste mundo e noutro, pelo que               qualquer outra espcie de raciocnio, negando
pode, em certas ocasies, recordar o que sabia            implicitamente que tivesse valor autnomo o
antes. "E como toda a natureza  congnere e              raciocnio demonstrativo de trs termos, isto ,
a alma apreendeu tudo, nada impede que quem               o silogismo aristotlico.
se recorde uma s coisa (que  aquilo que se                  Como sinnimo do termo, Leibniz usou as-
chama de 'aprender') encontre em si todo o                silogstico, para indicar um tipo de raciocnio
resto, se tiver coragem e no se cansar na bus-           no silogistico. " preciso saber", disse ele, "que
ca, j que buscar e aprender no so mais que             h conseqncias assilogsticas boas, que no
reminiscncia" (Men., 80 e-81 e). Croce cha-              poderiam ser demonstradas a rigor com um
mou de A. o processo do conhecimento hist-               silogismo sem trocar um pouco os termos; e
rico, j que seu sujeito, o Esprito Absoluto, no        essa mesma mudana dos termos faz que a
tem outra coisa a fazer seno recordar ou                 conseqncia seja assilogstica". P. ex.: "Jesus
rememorar aquilo que est nele; e as fontes da            Cristo  Deus, logo a me de Jesus Cristo  a
histria (documentos e runas) s tm a funo            me de Deus"; ou ento: "Se Davi  o pai de
de fazer rememorar. (Teoria e storia delia                Salomo, Salomo  filho de Davi" (Nouv. ess.,
storiografia, 1917, pp. 12 ss.; La storia come            IV, 17, 4).
pensiero e come azione, 1938, p. 6).                          ANARQUISMO (in. Anarchism; fr. Anarchis-
   ANANQUISMO (in. Anankisni). Termo em-                  me, ai. Anarchismus; it. Anarchismo). Doutri-
pregado por Peirce para indicar o princpio da            na segundo a qual o indivduo  a nica reali-
necessidade absoluta na evoluo do mundo                 dade, que deve ser absolutamente livre e que
(Chance Love and Logic, II, 5; trad. it., p. 201).        qualquer restrio que lhe seja imposta  ileg-
   ANAPODTICO (gr. vocrceiKTO; lat. In-              tima; de onde, a ilegitimidade do Estado. Cos-
 dimostrativus; in. Anapodeictic, fr. Anapodicti-         tuma-se atribuir a Proudhon (1809-65) o nasci-
 que, ai. Anapodiktisch; it. Anapodittic). Lite-         mento do A. Sua principal preocupao foi
ralmente: no demonstrvel. Aristteles assim             mostrar que a justia no pode ser imposta ao
chamou as premissas primeiras do silogismo                indivduo, mas  uma faculdade do eu indivi-
que ele dizia tambm serem imediatas (Et. nic,            dual que, sem sair do seu foro interior, sente a
VI, 12, 1.143 b 12; An.post., I, 2, 72 b 27, etc).        dignidade da pessoa do prximo como a sua
Mas a teoria dos raciocnios anapodticos foi             prpria e, portanto, adapta-se  realidade cole-
desenvolvida pelos esticos precisamente por              tiva mesmo conservando a sua individualidade
oposio  teoria silogstica de Aristteles. En-         (A Justia na revoluo e na Igreja, 1858).
quanto os silogismos ou raciocnios apodtcos            Proudhon desejaria que o Estado fosse reduzi-
extraem uma concluso no evidente de pre-                do  reunio de vrios grupos formados, cada
missas evidentes, os raciocnios anapodticos             um, para o exerccio de uma funo especfica
tm uma concluso evidente e so a base de                e depois reunidos sob uma lei comum e um
todos os outros raciocnios que possam ser re-            interesse idntico (Justice, I, p. 481). Esse ideal
duzidos a eles (SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp., II,           pressupe a abolio da propriedade privada
ANFIBOLIA                                             60                                        ANGUSTIA

que, num texto clebre (O que  a proprieda-               , como atitude do homem em face de sua
de?, 1840), ele definia "um furto". No domnio             situao no mundo, esse termo foi introduzido
da filosofia, o maior terico do A. foi Max Stirner        por Kierkegaard em Conceito de angstia
(pseudnimo de Kaspar Schmidt, 1806-56), au-               (1844). A raiz da A.  a existncia como possi-
tor de uma obra intitulada O nico e a sua                 bilidade (v. EXISTNCIA). AO contrrio do temor
propriedade(1845). A tese fundamental de Stirner           e de outros estados anlogos, que sempre se
 que o indivduo  a nica realidade e o nico            referem a algo determinado, a A. no se refere
valor, logo  a medida de tudo. Subordin-lo a             a nada preciso:  o sentimento puro da possi-
Deus,  humanidade, ao Estado, ao esprito, a              bilidade. O homem no mundo vive de possibi-
um ideal qualquer, seja embora o do prprio                lidade, j que a possibilidade  a dimenso do
homem,  impossvel, pois o que  diferente do             futuro e o homem vive continuamente debru-
eu individual e se lhe contrape,  um fantas-             ado sobre o futuro. Mas as possibilidades que
ma do qual ele acaba escravo. Desse ponto de               se apresentam ao homem no tm nenhuma
vista, a nica forma de convivncia social  a             garantia de realizao. S por piedosa iluso
associao desprovida de qualquer hierarquia,              elas se lhe apresentam como possibilidades
da qual o indivduo participa para multiplicar a           agradveis, felizes ou vitoriosas: na realidade,
sua fora, mas que para ele  apenas um meio.              como possibilidades humanas, no oferecem
Essa forma de associao pode nascer to-so-               garantia alguma e ocultam sempre a alternati-
mente da dissoluo da sociedade atual, que,               va imanente do insucesso, do fracasso e da
para o homem,  o estado de natureza, e pode               morte. "No possvel tudo  possvel", diz Kier-
ser somente o resultado de uma insurreio
que consiga abolir todas as constituies esta-            kegaard, o que quer dizer que uma possibili-
tais. No carter revolucionrio do A. depois               dade favorvel no tem maior segurana do
insistiram os anarquistas russos, dos quais o              que a possibilidade mais desastrosa e horrvel.
maior foi Mikhail Bakunin (1814-96), autor de              Logo, o homem que se d conta disso, reco-
numerosos livros entre os quais um intitulado              nhece a inutilidade da habilidade e diante de si
Deus e o Estado (1871), em que afirma a neces-             s tem dois caminhos: o suicdio ou a f, isto ,
sidade de destruir todas as leis, instituies e           o recurso a "Aquele a quem tudo  possvel". A
crenas existentes. A tese anarquista da                   A. , segundo Kierkegaard, parte essencial da
contraposio ntida e radical entre todas as              espiritualidade prpria do homem, de sorte que,
ordens polticas e sociais existentes, considera-          se o homem fosse anjo ou animal, no conhe-
das como o prprio mal, e a nova ordem libertria          ceria a A.: e, como efeito, logra mascar-la ou
futura, considerada como o bem total, foi rea-             escond-la o homem cuja espiritualidade 
presentada por G. Landauer (Die Revolution,                demasiado dbil. Enquanto reflexo sobre a
1923). (Sobre ele cf. K. MANNHEIM, Ideologia               prpria condio humana, a espiritualidade do
und Utopie, 1929, IV,  1; trad. it., p. 194 ss.).         homem est ligada  A., isto , ao sentimento
                                                           da ameaa imanente em toda possibilidade
    ANFEBO1IA (gr. (i(piPoA,a; lat. Amphibolia,          humana como tal. -- Na filosofia contempor-
in. Amphiboly, fr. Amphibolie, ai. Amphibolie,             nea, Heidegger centrou na A. a sua anlise exis-
it. Anfibolia). Em Aristteles (El. sof, 4, 166 a),        tencial (v. EMOO). A A.  a situao afetiva
 um dos sofismas in dictione, mais precisa-               fundamental, "que pode manter aberta a cont-
mente a falcia (v.) que provm do fato de que
uma frase torna-se ambgua pela construo                 nua e radical ameaa que vem do ser mais pr-
gramatical defeituosa. Mais genericamente, o               prio e isolado do homem": isto , a ameaa da
termo A. foi entendido como uma palavra que                morte. Na A., o homem "sente-se em presena
significa duas ou mais coisas (SEXTO EMPRICO,             do nada, da impossibilidade possvel da sua
Pirr. hyp., II, 256). Em Kant, o termo A.  usado          existncia". Nesse sentido, a A. constitui essen-
na expresso "A. dos conceitos de reflexo"                cialmente o que Heidegger chama de "o ser
para indicar a confuso entre o uso emprico-              para a morte", isto , a aceitao da morte como
intelectual e o uso transcendental dos concei-             "a possibilidade absolutamente prpria, incon-
tos de reflexo como "unidade" e "multiplici-              dicional e insupervel do homem" (Sein und
dade", "matria", "forma" e semelhantes (Crtica           Zet,  53). Mas nem por isso a A.  o medo da
R. Pura, An. dos princ, Apnd.)              G. P.         morte ou dos perigos que podem provoc-la.
                                                           Diz Heidegger: "O medo tem assento no ente
   ANFEBOLOGIA. V. ANFIBOLIA.                              de que se cuida dentro do mundo. A A., po-
   ANGSTIA (in. Dead; fr. Angoisse, ai. Angst;            rm, brota do prprio Ser-a. O medo chega
it. Angoscia). No seu significado filosfico, isto
ANGUSTIA                                              61                                                ANJOS

repentino do intramundano. A A. ergue-se do                aqui, enquanto houver tempo para afast-lo.
ser-no-mundo enquanto lanado ser-para-a-                  Portanto, a A. , de um lado, expectativa do
morte" (ibd.,  68 b). A A. no  nem mesmo               trauma e, de outro, uma repetio atenuada
o pensamento da morte ou a espera e a prepa-               deste" (Hemmung, Symptom undAngst, 1926,
rao da morte. Viver para a morte, angustiar-             cap. XI, B; trad. it., p. 106). Por outro lado, o
se, significa compreender a impossibilidade da             estudo das pessoas nas quais a A. se manifesta
existncia enquanto tal. E compreender tal im-             nas formas mais acentuadas (p. ex., nas que
possibilidade significa compreender que todas              sofreram leses cerebrais) levou alguns cientistas
as possibilidades da existncia, consistentes em           (p. ex., GOLDSTEIN, DerAufbaudesOrganismus,
antecipaes ou projetos que pretendem trans-              1934) a definir a A. como "a impossibilidade de
cender a realidade de fato, s fazem reincidir             pr-se em relao com o mundo" e de "realizar
na realidade de fato. Por isso, o verdadeiro               uma tarefa correspondente  essncia do orga-
significado da A.  o destino, isto , a escolha           nismo", considerando-a assim como o caso-
da situao de fato como herana de que no                limite das "reaes de catstrofe" que acompa-
se pode fugir e o reconhecimento da impossi-               nham o conflito do organismo com o mundo.
bilidade ou nulidade de qualquer outra esco-                  ANIMISMO (in. Animism; fr. Animisme, ai.
lha que no a aceitao da situao em que j              Animismus; it. Animism). Termo usado por
se est. Em outros termos, a A. como compreen-             Tylor {Primitive Culture, I, 1934, pp. 428-429)
so existencial possibilita ao homem transfor-             para indicar a crena difundida entre os povos
mar a necessidade em virtude: aceitar como                 primitivos de que as coisas naturais so todas
um ato de escolha a situao de fato, que  o              animadas; da a tendncia a explicar os aconte-
seu destino e que, sem a A., procuraria inutil-            cimentos pela ao de foras ou princpios
mente transcender. A coincidncia de necessi-              animados. No A. assim entendido Tylor v a
dade de liberdade parece, assim, ser o signifi-            forma primitiva da metafsica e da religio. Essa
cado da A. heideggeriana (ibid.,  74). Nesse              doutrina partia do pressuposto de que a pri-
sentido, Heidegger diz que a A. "liberta o ho-             meira e fundamental preocupao do homem
mem das possibilidades nulas e torna-o livre               primitivo era explicar, de algum modo, os fatos
para as autnticas" (ibid.,  68'b).                       que o circundam. A observao sociolgica,
    Todavia, no foi s a filosofia existencialista        porm, demonstrou que isso no  verdade e
que considerou a A. como revelao emocio-                 que o primitivo se interessa antes de mais nada
nal da situao humana no mundo. Uma rica                  pela caa, pela pesca, pelos eventos e pelas
literatura psicolgica esclareceu o carter                festividades da tribo, e que esses interesses no
onipresente da A., que  diferente do medo, do             esto vinculadas ao A., mas  magia (v.). A
temor e de outros estados emocionais de car-              doutrina segundo a qual foi do comportamen-
ter episdico que se referem a situaes particula-        to mgico que nasceu a religio e  em torno
res. A A. parece, ao contrrio, um ingrediente             dele que gira a cultura primitiva foi chamada
constante da situao humana do mundo, seja                pr-animismo. (Cf. MARRET, The Threshold of
qual for a explicao dada  sua origem. Freud             Religion, 1909; G. FRAZER, The Golden Bough,
inicialmente f-la remontar ao ato do nascimento,          1911-14; MALINOWSKI, Magic Science and
isto , ao ato "em que se acham reunidas todas             Religion, 1925).
as sensaes penosas, todas as tendncias e as                A1\JOS (gr. ayyE/loi; lat. Angeli; in. Angels; fr.
sensaes corpreas, cujo conjunto se tornou               Anges; ai. Engel; it. Angeli). Foi esse o nome
o prottipo do efeito produzido por um perigo              que a teologia crist deu s "criaturas incorpreas"
grave" {Einfhrung in die Psychoanalyse, 1917,             que funcionam como intermedirias entre Deus
III, 25; trad. fr., p. 424). Em seguida, mais gene-        e as criaturas corpreas, admitidas pelo neo-
ricamente, considerou a A. como a "reao do               platonismo (v. DEUS). A fonte da angelologia
Ego ao perigo", ou melhor, " prpria essncia             medieval  o texto do Pseudo-Dionsio, o
do perigo"; essa situao  tambm definida                Areopagita, Sobre a hierarquia celeste (sc. V).
por Freud como "uma situao de impotncia".               A hierarquia celeste  constituda por nove or-
Diz Freud: "Estou na expectativa de que se                 dens de A. agrupadas em disposies ternrias.
verifique uma situao de impotncia; ou en-               A primeira  a dos Serafins, dos Querubins e
to a situao presente me lembra um aconte-               dos Tronos; a segunda  a das Dominaes, das
cimento traumtico j vivido. Assim, antecipo              Virtudes e das Potestades; a terceira, a dos Prin-
esse trauma, comporto-me como se j estivesse              cipados, dos Arcanjos e dos Anjos. Essa doutri-
ANOETICO                                               62                          ANTIGOS E MODERNOS

na foi aceita por S. Toms (S. Tb., I, q. 108, a.           do intelecto, dependente da regra apriori, se-
2) e adotada por Dante no Paraso.                          gundo a qual "em todos os fenmenos o real
   ANOETICO (in. Anoetic; fr. Anotique, ai.                objeto da sensao tem uma qualidade intensi-
Anoetik, it. Anoetic). Adjetivo que se usa s              va, isto , um grau" (v. CONCEITO).     G. P.
vezes para designar as funes diferentes do                   ANTEPREDICAMENTAIS (lat. Antepraedi-
intelecto, p. ex., a sensibilidade, as emoes, etc.        camenta; in. Antepredicament; fr. Anteprdi-
   ANOMALIA (in. Anomaly, fr. Anomalie, ai.                 cament; ai. Anteprdicament; it. Antipredica-
Anomalie, it. Anomalia). Em geral, todo fato                menti). Na Idade Mdia, com o nome de A.
ou elemento que se afasta do modelo unifor-                 designava-se a Isagoges categorias de Porfrio.
me, constantemente verificado, de certo gne-               Alm disso, a mesma palavra tambm designa-
ro de fatos ou elementos: p. ex., um corpo vivo             va, naturalmente, as quinque vocs (ou catego-
apresenta uma A. se a estrutura de algum r-                rias da Lgica) tratadas na Isagoge. gnero (v.),
go seu se distancia da encontrvel em corpos               espcie (v.), diferena (v.), prprio (v.), aci-
do mesmo gnero. Um fato anmalo  um fato                  dente (v.). Husserl chamou de evidncia an-
que contradiz a previso provvel, fundada em               tepredicativa a evidncia com que os objetos
uniformidades recorrentes (v. ANORMALIDADE).                se do, com as vrias modalidades de seu ser,
   ANOMIA (in. Anomy fr. Anomie, ai. Ano-                   no mundo da vida (v.): evidncia que serve de
mie, it. Anom).Termo moderno usado sobre-                 fundamento para o juzo predicativo ou apo-
tudo por socilogos (p. ex., Durkheim), para                fntico (Erfahrung und Urteil, 1939, intr.).
indicar a ausncia ou a deficincia de organiza-                ANTFASE (gr. vTcpaoi). Em Aristteles
o social e, portanto, de regras que assegu-               (An.post., 72 a 12-14, e passim), significa con-
rem a uniformidade dos acontecimentos sociais.              tradio, isto , "oposio (entre dois enuncia-
    ANORMALIDADE (in. Abnormality fr. Anor-                 dos) que exclui qualquer caminho intermedi-
malit, ai. Unregelmssigkeit; it. Anormalit).             rio". Em Aristteles, tambm, silogismo por A. 
O que  contrrio a uma norma e, por isso, se               o que conclui com uma contradio; na Lgica
subtrai, em certa medida,  funo ou ao fim                estica,  o raciocnio que conclui com um dile-
que a norma tende a garantir ou a atingir. Esse             ma, como " dia ou no  dia" (mas, em Arist-
termo tem significado diferente de anomalia                 teles, "se  dia, ento no  dia").        G. P.
(v.), j que esta nem sempre constitui uma A. A                ANTIGOS E MODERNOS (in. Ancients
anomalia  uma variante imprevista, um caso                 andmoderns, fr. Anciens etmodernes; it. Antichi
que se afasta da uniformidade reconhecida. Pode             e moderni). A disputa sobre a superioridade
ou no ser uma A. P. ex., um rgo anmalo                 dos A. ou dos modernos nasceu na Itlia com
anormal s quando no  capaz de realizar a                 Pensiere diversi (1620) de Alessandra Tassoni,
funo que lhe seria prpria.                               desenvolveu-se sobretudo na Frana e na In-
    ANTECEDENTE (in. Antecedent; fr. Ant-                  glaterra e versou substancialmente sobre o con-
cdent-, ai. Antezedens; it. Antecedente). Em               ceito da histria como progresso. A noo de
Lgica, o primeiro termo de uma conseqncia                progresso, alis, origina-se precisamente dessa
(v.).                                         G. P.         polmica e, em particular, do Dilogo dos mor-
    ANTECIPAO (gr. rcpA,r|\|n; lat. Antici-             tos (1683) de Fontenelle. Esse conceito, elabo-
patio; in. Anticipation; fr. Anticipation; ai. An-          rado nessas discusses, fora j expresso por
tizipation; it. Anticipazion). Com esse termo,             Giordano Bruno com a afirmao de que "so-
os lgicos esticos e epicuristas designavam os             mos mais velhos e temos mais idade do que
conceitos gerais (de gnero e espcie) na me-               nossos predecessores", porque atravs do tem-
dida em que, por meio deles, os dados da ex-                po o juzo amadurece (Cena delle ceneri, in
perincia eram "antecipados" pela mente (DIG.              "Op. It.", 31-32); conceito este que Bacon ex-
L, VII, 1, 54). Na filosofia moderna, na esteira            primira com ventas filia temporis, extrado de
da polmica epicurista contra o papel atribudo             Aulo Glio (Noct. Att., XII, 11): "A Antigidade",
pelos esticos s A. no conhecimento, Francis               dizia Bacon, "foi 'antiga' e mais velha em relao
Bacon e outros filsofos usam A. em sentido                 a ns, mas em relao ao mundo, nova e mais
depreciativo, para indicar uma hiptese gra-                jovem; e assim como de um ancio podemos
tuita, no confirmada pela experincia (Nov.                esperar muito mais conhecimento das coisas
 Org., I, 26). Em Kant, Antzipationem der                  humanas e maior maturidade de juzo do que
 Wahrnehmung ("A. da percepo") designa o                  de um jovem -- pela experincia e pelo grande
segundo grupo de princpios sintticos apriori              nmero de coisas que viu, ouviu e pensou --,
ANTI HISTORICISMO                                    63                                     ANTINOMIAS


tambm da nossa poca (se tivesse conscincia             experincia ou que, de algum modo, desem-
das suas foras e quisesse experimentar e com-            boque em afirmaes no verificveis em ter-
preender) seria justo esperar maiores coisas              mos de experincia (v. METAFSICA). Mais espe-
que dos tempos A., sendo esta para o mundo                cificamente, a crtica antimetafsica dirige-se (a
a maioridade, ajudada e enriquecida por infini-           exemplo de Hume) contra os dois conceitos
tos experimentos e observaes" (Nov. Org., I,            fundamentais, substncia e causa, ou ento
84). Esse conceito, repetido porFontenelle, cons-         contra interpretaes que possibilitem sua apli-
tituiu o primeiro ncleo da noo de progresso            cao a objetos que transcendam os limites da
(v.). (Sobre a disputa dos A. e dos modernos,cf.          experincia.
RIGAULT, Histoire de Ia querelle des anciens e                ANTINOMIAS (in. Antinomies; fr. Antino-
des modemes, 1856; J. B. BURY, The Ideei of               mies-, ai. Antinomien; it. Antinomie). Com esse
Progress, 1932, cap. IV).                                 termo ou com o termo paradoxos so chama-
    ANTI-HISTORICISMO (in. Antihistoricism-,              das as contradies propiciadas pelo uso da
fr. Antihistoricisme, ai. Antihistorismus; it. An-        noo absoluta de todos em matemtica e em
tistoricismo). Termo empregado principalmente             lgica. Nesse sentido, as A. no eram desco-
por Croce para designar o Iluminismo, que,                nhecidas na Antigidade, porque fizeram parte
como "racionalismo abstrato", teria considera-            dos raciocnios insolveis ou conversveis de
do "a realidade dividida em supra-histria e              que se compraziam megricos e esticos e que
histria, num mundo de idias ou de valores e             s vezes tambm foram chamados de dilemas
num mundo inferior que as reflete ou as refle-            (v. DILEMA). Tais raciocnios so tratados na
tiu at agora de modo fugidio e imperfeito e              Escolstica tardia, nas colees de Insolubilia
ao qual convir uma vez por todas imp-los,               ou de Obrigatria; o mais famoso  o do men-
fazendo suceder  histria imperfeita, ou  his-          tiroso, que Ccero j recordava: "Se dizes que
tria pura e simples, uma realidade racional              mentes, ou ests dizendo a verdade e ento
perfeita" (Lastoria, p. 51). Desse ponto de vis-          ests mentindo, ou ests dizendo mentira e en-
ta, so "anti-histricas" todas as doutrinas que          to dizes a verdade" (Acad., IV, 29, 96). Esse
distinguem o que  do que deve ser, isto ,               paradoxo era discutido no sc. XIV por Ockham
que no admitem a identificao hegeliana entre           (Summa log., III, III, 38). Na lgica contempo-
realidade e racionalidade. -- Na verdade, o               rnea, a primeira contradio desse gnero foi
Iluminismo no  "anti-historicismo", mas "anti-          evidenciada por Burali Forti em 1897 e se refe-
tradiconalsmo", pois constituiu a primeira e            ria  srie dos nmeros ordinais: se a srie de
mais radical condenao da tradio como                  todos os nmeros ordinais tem um nmero
portadora e garantia de verdade (v. ILUMINISMO;           ordinal, que seja p. ex. ), o) tambm ser um
TRADIO).                                                nmero ordinal, de tal modo que a srie de
   ANTILOGIA ( gr. vnOYa; in. Anttiogy, fr.            todos os nmeros ordinais ter o nmero tt> + 1,
Antilogie, ai. Antilogie, it. Antilogia). Contra-         maior do que co, e co no ser o nmero ordinal
dio (v.). s vezes esse termo eqivale a dis-           de todos os ordinais ("Uma questo sobre os n-
cusso, ou  arte da discusso porque esta con-           meros transfinitos", em Rend dei Circolo Ma-
siste em contrapor um argumento a outro                   temtico di Palermo, 1897). Mas o mais famoso
argumento. Antilgcos foi o ttulo de uma obra           paradoxo, o que chamou mais a ateno, foi o
de Protgoras (DrG. L, III, 37).                         de Russell, referente  classe de todas as clas-
   ANTILOGISMO (in. Antilogism; fr. Antilo-               ses que no so membros de si mesmas. H
gisme, ai. Antilogismus; it. Antilogismo). Ther-          classes que no so membros de si mesmas, como
mo cunhado com palavras gregas (vx "anti,               p. ex. a classe dos homens: esta, no sendo
contra" e /I70, "razo"), introduzido para in-          homem, no  membro de si mesma. H, po-
dicar atitudes filosficas de hostilidade  razo         rm, classes que so membros de si mesmas,
discursiva.                                 G. P.         como a "classe dos conceitos", que  tambm
                                                          um conceito. Ora, a classe de todas as classes
   ANTIMETAFSICO (in. Antimetaphisic; fr.                que no so membros de si mesmas  ou no
Antimtaphysique, ai. Antimetaphysik, it. Anti-            membro de si mesma? Se , contm um mem-
metafsico). Termo usado pelos modernos para              bro que  membro de si mesmo e, portanto,
indicar uma atitude ou uma orientao de pen-             no  mais a classe de todas as classes que no
samento contrria s afirmaes da metafsica             contm a si mesmas como membro. Se no,
clssica e que se recusa a admitir a validade de          ser uma das classes que no contm a si mes-
uma averiguao que ultrapasse os limites da
ANTINOMIAS                                          64                                     ANTINOMIAS

mas como membro e deve, por isso, pertencer                  Em seguida, nessa teoria dos tipos, o pr-
 classe de tais classes. Esse paradoxo publi-           prio Russell inseriu uma teoria dos graus, dan-
cado por Russel em 1902 deu depois lugar                do lugar  chamada teoria ramificada dos ti-
reorganizao feita por Whitehead e Russel na            pos, que ele exps em 1908 (no artigo j citado)
lgica matemtica (Principia mathematica,                e que est na base dos Principia mathematica.
1910-13). Outros paradoxos so os de Kning              Segundo essa teoria, so de grau zero ou ele-
(1905), de Richard (1906), de Grelling (1908),           mentares as funes proposcionais (v.) ou
de Jourdain (1913); mas, como notou Russell,             predicados que no contm nenhuma varivel
pode haver um nmero indefinido de parado-               aparente (entendendo-se por varivel aparen-
xos com a mesma caracterstica, a auto-refern-          te a que se repete numa funo independente
cia ou a reflexividade. Em cada um deles se diz          dela, no no sentido de ter o mesmo valor para
alguma coisa de todos os casos de um dado gnero         cada valor da varivel, mas no sentido de que
e, do que se diz, nasce um novo caso que  e             os valores particulares desta no mudam a na-
no  da mesma espcie daqueles aos quais o              tureza da funo). So de grau um as funes
todos se refere. Portanto, a soluo bvia das A.        proposcionais apresentadas de uma varivel
 a que apresenta regras capazes de impedir a            aparente cuja classe de variao  um conjunto
referncia auto-reflexiva de onde nascem as A.           de objetos individuais. So de grau dois as apre-
    Tal  o princpio adotado por Russell: "Tudo         sentadas de uma varivel aparente que est no
o que implica o todo de uma coleo no deve             lugar de uma funo proposicional de grau um;
ser termo da coleo", ou inversamente: "Se,             e assim por diante. Isto posto, estabelece-se a
admitindo que certa coleo tem um total, ela            regra segundo a qual no podem ser tratadas
teria membros definveis somente em termo                no mesmo plano proposies que podem ser
daquele total, ento a dita coleo no tem to-          extradas de funes de grau diferente. P. ex.,
tal" (Mathematical Logic asBased on the Theory           a A. do mentiroso depende do fato de a frase
of Types, 1908), em Logic and Knowledge, p.              "eu minto" ser interpretada no sentido de "Qual-
63). A mesma exigncia era apresentada por               quer que seja a minha presente afirmao x, x
Poincar, na forma da excluso das definies
impredicativas (v.), isto , das definies que           uma mentira", e de se identificar essa frase,
implicam um crculo vicioso.                             que chamamos y, com a afirmao x. Mas na
                                                         realidade y  de grau diferente de x porque x
    Todavia, essa simples exigncia negativa,             a varivel aparente contida em y-. por isso,
sobre a qual todos os lgicos esto de acordo,           no pode ser identificada com y. Em outras
no  suficiente porque no fornece um crit-            palavras, quando se diz "eu minto", no se
rio exato para distinguir o uso legtimo do ile-         entende que a prpria frase "eu minto" seja
gtimo da palavra todos. E, sobre qual possa             uma mentira, mas que  mentira alguma outra
ser esse critrio, os lgicos no esto de acor-         frase a que ela se refere. Russell, porm, para
do. Contudo,  possvel distinguir dois tipos de         tornar possvel, em matemtica, o tipo de
solues que podem ser atribudas, respecti-             assero impropriamente expressa com a frase
vamente, a Russell e a Frege.                            (que d lugar s A.) "todas as propriedades de
    l9 A primeira soluo consiste em distinguir         x", introduzia o axioma das classes ou axioma
vrios graus ou tipos de conceitos e em limitar          de redutibilidade. Dizia: "Seja (p xuma funo
a predicabilidade de um tipo em relao ao               de qualquer ordem de um argumento x, que
outro. A teoria dos tipos de Russell responde a          pode ser um indivduo ou uma funo de qual-
essa exigncia. Segundo essa teoria, devem-se            quer ordem. Se cp  da ordem imediatamente
distinguir: conceitos de tipo zero, que so os           superior a x, escrevemos a funo na forma
conceitos individuais, isto , os nomes pr-             tylx; nesse caso, chamaremos (p de funo pre-
prios; conceitos de tipo um, que so proprie-            dicativa. Assim, a funo predicativa de um
dades de indivduos (p. ex., branco, vermelho,           indivduo  uma funo de primeira ordem.
grande, etc); conceitos de tipo dois, que so            Para argumentos de tipo mais alto, as funes
propriedades de propriedades, e assim por dian-          predicativas tomam o lugar que as funes de
te. Isso posto, a regra para evitar a A.  a se-         primeira ordem tm em relao aos indivduos.
guinte: um conceito nunca pode servir de                 Conclumos ento que toda funo  equiva-
predicado numa proposio cujo sujeito seja
de tipo igual ou maior do que o prprio concei-          lente, para todos os seus valores, a alguma
to. Essa teoria foi exposta por Russell no apn-         funo predicativa do mesmo argumento"
dice de Principies of Mathematics, de 1903.              (.MathematicalLogic, 81-82). Russell acreditava
ANTINOMIAS                                          65                       ANTINOMIAS KANTIANAS

ter salvo desse modo o conceito de classe da A.              Uma soluo desse gnero j fora apresen-
e, ao mesmo tempo, t-lo tornado ainda utiliz-          tada por Ockham, quando, na anlise do para-
vel em sua funo fundamental, que seria a de            doxo do mentiroso, reconhecera o carter
reduzir a ordem das funes proposicionais.              indecidvel dos enunciados auto-reflexivos. As-
Mas esse axioma suscitou muitas crticas, que            sim, dizia Ockham, no  legtimo dizer que A
mostraram especialmente que seu efeito era               signifique "A significa o falso". Certamente 
restaurar a possibilidade das definies                 possvel que A signifique o falso, mas justa-
impredicativas que a teoria dos graus tendia a           mente porque  possvel, e s por isso, A no
eliminar (cf. sobre tais crticas A. CHURCH,             significa nem o verdadeiro nem o falso (Summa
Introduction to Mathematical Logic,  59, n.             log., III, III, 38).
588). O mesmo Russell, na introduo  2- edio             Esse ponto de vista foi consolidado pelo
de Principia mathematica (1925), recomenda-              chamado teorema de Gdel, segundo o qual 
va o abandono do axioma da redutibilidade.               impossvel provar a no-contradio de um sis-
    Ramsey props ento dividir as A. em duas            tema logstico com os meios de expresso con-
categorias: as antinomias lgicas (em sentido            tidos no mesmo sistema ("ber formal
estrito), que so as exemplificadas pela A. de           Unentscheidbare Stze der Principia Mathematica
Russell e que no fazem referncia  verdade             und verwandter Systeme", in Monatscb. Math.
ou  falsidade das expresses; e as A. sintti-          Phys., 1931 ) Isto posto, pode-se entender como
cas, exemplificadas pela A. do mentiroso, que            nascem A. sintticas quando os predicados ver-
nascem da referncia semntica e podem, por-             dadeiro e falso, referentes a uma linguagem
tanto, ser chamadas de semnticas ou epste-             determinada S, so usados dentro dessa mesma
molgicasiFoundations ofMathematics, 1931).              linguagem. Por outro lado, a contradio pode
Ramsey observou que as antinomias da segun-              ser evitada usando-se os predicados "verdadei-
da espcie no comparecem nos sistemas                   ro (em S" e "falso (em Si)", numa sintaxe de
logsticos, mas s nos textos que os acompa-
nham e que, portanto, podem ser desprezadas              Si no formulada na prpria Si, mas em outra
pela lgica, na medida em que esta tem como              linguagem S2 (CARNAP, Logical Syntax of
objeto a construo de sistemas simblicos.              Language,  60 b). Vale dizer que a afirmao
Quanto s A. lgicas, porm, Ramsey observou             "eu minto" pode ser verdadeira em nvel de
que basta a teoria simples dos tipos, cuja regra         certa linguagem e falsa em nvel de outra lin-
fundamental Carnap, seguindo a sugesto de               guagem; isto , ela permanece indecisa enquanto
Ramsey, assim formulou: "Um predicado per-               no se determinar o nvel da linguagem a que
tence sempre a um tipo diferente do de seus              se refere. Solues substancialmente semelhantes
argumentos (isto , pertence a um tipo de nvel          a estas foram propostas por Quine (Mathematical
mais alto); por isso, um enunciado nunca pode            Logic, 1940, cap VII; cf. From a LogicalPoint of
ter a forma 'F(F)"' (The Logical Syntax of                View, VII, 3) e por Church (Introduction to
Language,  60 a). Essa regra basta para evitar          Mathematical Logic,  57).
as definies impredicativas (y): de modo que                ANTINOMIAS KANTIANAS (in. Kantian
a teoria dos tipos simples  hoje a mais                 antinomies; fr. Antinomies kantiennes; ai. Kants
comumente aceita pelos lgicos, no que con-              Antinomien; it. Antinomie kantiane). A pala-
cerne s A. lgicas.                                     vra A. significa propriamente "conflito de leis"
   2a A segunda soluo fundamental das A.               (QUINTILIANO, Inst. or., VII, 7, 1), mas foi esten-
diz respeito s A. sintticas, isto , semntico-        dida por Kant para indicar o conflito em que a
epistemolgicas, que so aquelas nas quais               razo se encontra consigo mesma em virtude
comparecem reiteradamente os conceitos de                dos seus prprios procedimentos. Kant falou
verdadeiro e falso. Essa soluo consiste em             das A. no campo da cosmologia racional, isto ,
considerar essas A. como proposies indeci-             da doutrina que tem por objeto a idia do mundo.
dveis, isto , como proposies sobre cuja              Esta idia, como todas da razo pura (v. IDIA),
verdade ou falsidade a estrutura da lngua em            nasce da tentativa -- ilegtima, segundo Kant
que so formuladas no permite decidir nem               -- de aplicar as categorias a si mesmas, isto ,
num sentido nem noutro. Mediante a amplia-               do uso reflexivo as categorias. A idia do mundo
o da lngua considerada, tais proposies              , de fato, a "unidade incondicionada das con-
podem tornar-se suscetveis de deciso, mas              dies objetivas da possibilidade dos objetos
essa ampliao pode dar ensejo a outras propo-           em geral". As "condies objetivas, etc." so as
sies indecisas.                                        categorias e os princpios delas derivados; e a
ANTINOMIAS KANTIANAS                               66                        ANTINOMIAS KANTIANAS

unidade  ainda uma categoria. As A. que sur-           to dele demasiado pequeno para o intelecto,
gem desse modo so, segundo Kant, naturais              ao passo que a anttese apresenta um conceito
ou inevitveis; naturais porque a idia de mun-         demasiado grande para o mesmo intelecto.
do que lhes d origem, embora desprovida de             Assim, se o mundo teve princpio, regredindo-
validade emprica e, portanto, cognoscitiva,           se empiricamente na srie dos tempos, seria
formada pela razo com um procedimento                  preciso chegar a um momento em que esse
natural que consiste em aplicar s categorias as        regresso se detm; o que  um conceito de
prprias categorias, que s deveriam ser apli-          mundo demasiado pequeno para o intelecto.
cadas aos fenmenos; inevitveis porque, uma            Se, ao contrrio, o mundo no teve princpio, o
vez formada a idia de mundo como a totalida-           regresso na srie do tempo nunca pode esgotar
de absoluta, incondicionada, de todos os fen-          a eternidade; o que  um conceito demasiado
menos e das suas condies, no se pode ab-             grande para o intelecto. O mesmo se diga para
solutamente evitar chegar a proposies                 a finitude ou a infinitude espacial, para a
contraditrias. Kant enumera quatro A. que              divisibilidade ou a indivisibilidade, etc. Em todo
correspondem aos quatro grupos de catego-               caso, chega-se a uma noo do mundo que: ou
rias: segundo a qualidade, a quantidade, a re-          restringe em limites estreitos a possibilidade de
lao e a modalidade. So elas:                         o intelecto ir de um termo a outro na srie dos
                                                        eventos, ou estende esses limites a tal ponto
    1- Antinomia. Tese. o mundo tem um incio           que torna insignificante essa mesma possibili-
no tempo e no espao, est fechado dentro de            dade. Logo, a soluo da A. s pode consistir
limites. Anttese-, o mundo no tem nem incio          em no assumir a idia do mundo como reali-
no tempo nem limite no espao, mas  infinito           dade, mas como uma regra que leva o intelecto
tanto no tempo quanto no espao.                        a regredir na srie dos fenmenos sem nunca
    2- Antinomia. Tese. toda substncia composta        poder parar em algo incondicionado (Crtica R.
consta de partes simples e nada existe alm do          Pura, Antinomias, seo 8). A essas A. da razo
simples ou do que resulta composto do sim-              pura Kant acrescentou uma A. da razo prtica
ples. Anttese: no existe no mundo coisa algu-         {Crt. R. Prtica, I, livro II, cap. II,  1), que
ma composta de parte simples e no existe em            consiste no conflito criado pelo conceito de
lugar algum nada de simples.                            sumo bem: "Ou o desejo da felicidade deve ser
    3a Antinomia. Tese: a causalidade segundo           a causa mbil para o mximo de virtude ou o
leis da natureza no  a nica causalidade pela         mximo de virtude deve ser a causa eficiente
qual possam ser explicados os fenmenos do              da felicidade"; e uma A. do juzo teleolgico
mundo.  necessrio admitir, para a explica-            {Crt. do Juzo,  70), que  formada pela tese:
o destes, tambm uma causalidade da liber-            "Toda produo das coisas materiais  possvel
dade. Anttese: no h nenhuma liberdade, mas           segundo leis puramente mecnicas", pela an-
tudo no mundo acontece unicamente segundo               ttese: "Alguns produtos da natureza no so pos-
as leis da natureza.                                    sveis segundo leis puramente mecnicas". He-
    A- Antinomia. Tese: no mundo h alguma              gel interpretava as A. kantianas como se Kant
coisa que, como sua parte ou como sua causa,            tivesse querido retirar a contradio do mundo
 um ser absolutamente necessrio. Anttese:            em si mesmo e atribu-la  razo. E acrescenta-
em nenhum lugar existe um ser absolutamen-              va: " sentir ternura demais pelo mundo querer
                                                        afastar dele a contradio e transport-la para o
te necessrio, nem no mundo nem fora do mun-            esprito, para a razo, deixando-a a, sem solu-
do, como sua causa.                                     o. Na verdade,  o esprito que tem fora
    Tanto a tese quanto a anttese de cada uma          suficiente para suportar a contradio, mas 
dessas A.  demonstrvel com argumentos                 tambm o esprito que lhe d soluo" (Wiss.
logicamente irrepreensveis: entre uma e outra          derLogik, I, seo II, cap. II, C, nota 2). Na rea-
, pois, impossvel decidir. O conflito, portan-        lidade, o mtodo dialtico (v. DIALTICA), que 
to, permanece e demonstra a ilegitimidade da            o mtodo prprio da razo, segundo Hegel, pro-
noo que lhes deu origem, isto , da idia de          cede exatamente passando da tese  anttese, e,
mundo. Esta, estando alm de toda experincia           portanto, exige sempre a contradio; mas 
possvel, permanece incognoscvel e no pode            uma contradio que sempre se resolve na sn-
fornecer nenhum critrio capaz de decidir por           tese, por isso nunca  uma antinomia.
uma ou por outra das teses em conflito. A ile-
gitimidade da noo de mundo  evidenciada                 As A. kantianas foram discutidas e inter-
pelo fato de a tese das A. apresentar um concei-        pretadas de vrias maneiras, mas no deram
ANTIPERISTASE                                        67                                  ANTROPOLOGIA


origem a estudos aprofundados sobre a sua con-            qual, portanto, um corpo  impenetrvel para
sistncia lgica. Entre os prprios neokantianos,         o outro (Qp., ed. Erdmann, pp. 463, 691).
nem todos reconheceram sua validade; Renouvier,               ANTROPOLOGIA (in. Anthropology, fr. An-
p. ex., aceitava sem reservas as teses e rejeita-         thropologie, ai. Anthropologie, it. Antropolo-
va as antteses, reconhecendo assim a finitude            gia). Exposio sistemtica dos conhecimen-
do mundo no espao e no tempo {Essais de                  tos que se tm a respeito do homem. Nesse
critique gnrale, I, p. 282). No entanto, o re-          sentido geral, a A. fez e faz parte da filosofia,
sultado alcanado pela discusso kantiana das             mas, como disciplina especfica e relativamente
antinomias  importante. Consiste em ter pos-             autnoma, s nasceu em tempos modernos.
to de lado a idia tradicional do mundo como              Kant distinguiu a A. fisiolgica, que seria aquilo
totalidade absoluta e em ter ensinado o uso               que a natureza faz do homem, da A. pragm-
crtico do conceito de mundo (v.).                        tica, que seria aquilo que o homem faz como
    ANTIPERSTASE (gr. vxtTcepoxoccR; lat.             ser livre, ou ento o que pode e deve fazer de
Antiperistasis). Um dos modos tradicionais de             si mesmo (Antr, pref.). Essa distino perma-
explicar o movimento dos projteis; j que a              neceu e hoje se fala de A. fsica, que conside-
natureza no permite o vcuo, quando um corpo             ra o homem do ponto de vista biolgico, isto
sai velozmente do lugar em que estava, o ar se            , em sua estrutura somtica, em suas rela-
precipita para esse lugar e empurra o prprio             es com o ambiente, em suas classificaes
corpo, que passa assim a outro lugar; e assim             raciais, etc, e de A. cultural, que considera o
por diante, por toda a extenso do movimen-               homem nas caractersticas que derivam das
to. A essa explicao Aristteles objetava que            suas relaes sociais. A A. fsica costuma, por
no se leva em conta o fato de existir um cor-            sua vez, ser dividida em paleontologia huma-
po que no  movido por outro: o cu (Fs.,               na e somatologia. A paleontologia humana
VIII, 10, 267 a 12). Essa noo foi criticada             trata da origem e da evoluo da espcie hu-
pelos que elaboraram a teoria do impulso (v.):            mana, especialmente a partir do que  revela-
p. ex., Buridan (Quaest. super physicam, VIII,            do pelos fsseis. A somatologia trata de todos
q. 12. Cf. ainda BOVILLO, De nihilo, em Opera,            os aspectos fsicos do homem. A arqueologia
1510, f. 72 v.).                                          e a etnologia correspondem, no campo cultu-
  ANTTESE (gr. viiGeca; in. Antithesis; fr.            ral, s duas cincias precedentes; e a lings-
Antithse, ai. Antithesis; it. Antitesi). 1. Con-         tica tem como objeto no s a anlise e a
traposio: Aristteles diz que a contradio            classificao das lnguas, mas a compreenso,
uma A. que no tem termo mdio {An.post., I,              atravs das lnguas, da psicologia individual e
2, 72 a 10).                                              de grupo (cf. R. LINTON, ed., The Science of
    2. Um dos dois termos da contraposio,               Man in the World Crisis, 1945, 1952). Segun-
aquele que se ope  tese. Nesse sentido, Kant            do Lvi-Strauss, a A. distingue-se da sociolo-
chamou de A. o segundo membro da antinomia                gia na medida em que tende a ser uma cincia
(v.) e Hegel chamou de A. o segundo membro                social do observado, ao passo que a sociolo-
do procedimento dialtico, mais precisamente              gia tende a ser a cincia social do observador
"momento dialtico" ou "negativo racional".               (Anthr. structurale, 1958, cap. XVII).
   ANTITTICA (ai. Antithetik). Kant enten-                  Os filsofos sublinharam muitas vezes a
deu com esse termo "um conflito de conheci-               importncia da A. como cincia filosfica, isto
mentos aparentemente dogmticos (thesis cum               , como determinao daquilo que o homem
antithesi), sem que se atribua a nenhum deles             deve ser, em face do que . Humboldt, p. ex.,
um direito predominante ao assentimento". A               queria que a A., embora procurasse determinar
A. se oporia assim  Ttica (v.). Em particular,          as condies naturais do homem (temperamento,
a A. transcendental  "uma investigao em                raa, nacionalidade, etc.) visasse descobrir, atra-
torno da antinomia da razo pura, as suas cau-            vs dessas condies, o prprio ideal da huma-
sas e o seu resultado" {Crt. R. Pura, Dialtica,         nidade, a forma incondicionada  qual nenhum
livro II, cap. II, sec. II).                             indivduo est completamente adequado, mas
    ANTITIPIA (gr. vitTorca; lat. Antitypia, in.        que permanece o objetivo a que todos os in-
Antitypy, it. Antitipia). Termo de origem epi-            divduos tendem (Schriften, I, pp. 388 ss.). Nesse
curista (SEXTO EMPRICO, Adv. math., 1,21) em-            sentido a A. foi entendida por Scheler (O lugar
pregado por Leibniz para indicar o atributo da            do homem no cosmos, 1928), que por isso a
matria pelo qual "ela est no espao" e pelo             coloca em situao intermediria entre a cin-
ANTROPOMORFISMO                                         68                                         APARNCIA

cia positiva e a metafsica. -- Mais especifica-              chenung; it. Apparenza). Na histria da filoso-
mente, a tarefa da A. filosfica deveria ser con-             fia, esse termo teve dois significados diame-
siderar o homem no simplesmente como na-                     tralmente opostos. ls ocultao da realidade;
tureza, como vida, como vontade, como esprito,               2- manifestao ou revelao da realidade. Con-
etc, mas como homem, isto , relacionar o                    forme o 1Q significado, a A. vela ou obscurece
complexo de condies ou de elementos que o                  a realidade das coisas, de tal modo que esta s
constituem com seu modo de existncia espe-                  pode ser conhecida quando se transpe a A. e
cfico. Tal  a exigncia feita, p. ex., por                 se prescinde dela. Pelo 2a significado, a A.  o
Biswanger (Ausgewhlte Vortrge undAustze,                  que manifesta ou revela a realidade, de tal mo-
I, p. 176). Nesse sentido, o Ensaio sobre o ho-              do que esta encontra na A. a sua verdade, a sua
mem (1944) de Cassirer  um estudo de A.                     revelao. Com base no ls significado, conhe-
filosfica centrado no conceito de homem como                cer significa libertar-se das A.; pelo 2- significa-
animal symbolicum, isto , como animal que                   do, conhecer significa confiar na A., deix-la
fala e cria o universo simblico da lngua, do               aparecer. No primeiro caso, a relao entre A.
mito e da religio.                                          e verdade  de contradio e oposio; no se-
    ANTROPOMORFISMO (in. Anthropomor-                        gundo,  de semelhana ou identidade. Essas
phsni; fr. Anthropomorphisme, ai. Anthropo-                 duas concepes de A. intricaram-se de vrias
morphismus; it. Antropomorfism). Indica-se                  formas na histria da filosofia ocidental. De um
com este nome a tendncia a interpretar todo                 lado, esta nasceu do esforo de atingir saber
tipo ou espcie de realidade em termos de                    mais slido transpondo os limites das A., isto ,
comportamento humano ou por semelhana                       das opinies, dos sentidos, das crenas popu-
ou analogia com esse comportamento. "Cren-                   lares ou mticas. De outro, procurou, com igual
as antropomrficas" ou "antropomorfismos"                   constncia, ter em conta a A. ("salvar os fen-
so chamadas, em geral, as interpretaes de                 menos"), reconhecendo assim que nela se
Deus em termos de conduta humana. Uma cr-                   manifesta, em alguma medida, a prpria reali-
tica desse A. j foi feita por Xenfanes de                  dade.
Colofonte. "Os homens", disse ele, "crem que
os deuses tiveram nascimento e que tm voz e                      O contraste entre A. e realidade foi estabe-
corpo semelhantes aos deles" (Fr. 14, Diels);                lecido pela primeira vez, de modo ntido e in-
por isso, os etopes fazem os seus deuses de                 cisivo, por Parmnides de Elia, que contraps
nariz chato e negros; os trcios dizem que tm               "a via da verdade e da persuaso", que tem por
olhos azuis e cabelos vermelhos; at os bois, os             objeto o ser, a sua unidade, inevitabilidade e
cavalos, os lees, se pudessem, imaginariam os               necessidade,  "via da opinio", que tem por
seus deuses  sua semelhana (Fr. 16, 15). Mas               objeto o no-ser, isto , o mundo sensvel no
o A. no pertence s ao domnio das crenas                  seu devir. Mas o mundo da opinio e o mundo
religiosas. Toda a cincia moderna foi-se for-               da A. coincidem, segundo Parmnides: "Tam-
mando atravs da libertao progressiva do A.                bm isto aprenders: como, verossimilmente,
e do esforo de no considerar as operaes da               so as coisas aparentes para quem as examine
natureza segundo a sua semelhana com as do                  em tudo e por tudo" (Fr. 1,31, Diels). A mesma
homem, mas juxta prpria principia.                          coincidncia entre A. e opinio, opinio e sen-
   ANTROPOSOFIA (in. Anthroposophy, fr.                      sao,  pressuposta por Plato, que interpreta
Anthroposophie, ai. Anthroposophie, it. Antro-               o princpio expresso por Protgoras, da homo-
posofia). Esse termo foi criado por J. P. V. Troxler,        mensura, como se significasse "tal como as coisas
para indicar a doutrina natural do conhecimen-               aparecem para mim, tais so para mim" e, por-
to humano (Naturlehre der menschlichen Er-                   tanto, como se identificasse conhecimento e
kenntnis, 1828), e retomado por R. Steiner, quan-            sensao (Teet., 152 a). Por outro lado, o mun-
do, em 1913, separou-se do movimento teosfico               do da opinio , segundo a Repblica, o mundo
e quis ressaltar a importncia da doutrina a                 sensvel dividido nos seus dois segmentos de
respeito da natura e do destino do homem. Cf.                sombras e imagens refletidas e de coisas e se-
STEINER, DieRtselderPhilosophie, 2 vols., 1924-             res vivos (Rep., VI, 510). Segundo Plato, desse
26 (v. TEOSOFIA).                                            mundo das A. sensveis s se pode ter conhe-
  APAGGICO, RACIOCNIO. V. ABDUO;
                                                             cimento verossmil ou provvel, dada a sua
REDUO.                                                     natureza incerta e fugaz: conhecimento que no
   APARNCIA (gr. x (paivu.evov; lat. Appa-                difere em grau, mas em qualidade, do conheci-
rentia; in. Appearance, fr. Apparence, ai. Ers-              mento cientfico ou racional que tem por obje-
APARNCIA                                              69                                       APARNCIA


to o ser (Tim., 29). O mesmo Plato, porm,                 como intermediria do conhecimento intelec-
afirmando que o objeto da opinio est para o               tual, afirmava que "as prprias coisas so vistas
objeto do conhecimento como a imagem est                   pela mente e o que se v no  urna forma
para o modelo (Rep., VI, 510 a), admitiu uma                especular qualquer, mas a prpria coisa no seu
relao de semelhana ou de correspondncia                 ser-que-aparece (esse apparens) e este ser apa-
entre A. e realidade. Mas o passo decisivo foi              rente  o que chamamos do conceito ou repre-
dado por Aristteles, que reconheceu a neu-                 sentao objetiva" (In Sent, I, d. 9, a. 1). A
tralidade da A. sensvel; esta, tanto como sen-             distino entre o sentido e o intelecto no de-
sao quanto como imagem, pode ser to ver-                 pende, portanto, da natureza do objeto apreen-
dadeira quanto falsa. Certamente erram os que               dido, mas do modo de apreender. Ao senticio
consideram verdade tudo o que aparece, pois                 e  imaginao as coisas aparecem sob as con-
deveriam admitir tambm a realidade dos so-                 dies da quantidade, ao passo que o intelecto
nhos; e, quanto ao futuro, no poderiam esta-               abstrai do que  quantitativo e material (ibid.,
belecer nenhuma diferena entre a opinio do                I, d. 35, a. 1). Mas  s no mundo moderno, a
perito (p. ex., do mdico que faz um progns-               partir do sc. XVII, que a filosofia reconhece
tico) e a opinio do ignorante (Met., IV, 5, 1.010          explicitamente o carter real da A. Hobbes tal-
b 1 ss.). A A. no contm, portanto, nenhuma                vez seja o primeiro a reconhecer isso de ma-
garantia de verdade e s o juzo intelectual a              neira bem clara. "De todos os fenmenos que
respeito dela pode certific-la ou refut-la. Mas,          nos circundam", diz ele, "o mais maravilhoso 
por outro lado, ela  o ponto de partida da                 justamente o aparecer.  certo que entre os
prpria pesquisa cientfica que, como demons-               corpos naturais alguns possuem em si os exem-
tra o que os matemticos fazem em relao s                plares de todas as coisas e outros, de nenhuma.
A. astronmicas, deve partir das A. fsicas e,              Conseqentemente, se os fenmenos so os
portanto, da observao das coisas vivas e das              princpios para conhecer as outras coisas, 
suas partes para passar depois  considerao               preciso dizer que a sensao  o principio para
das razes e das causas (Depart. an., I, 1, 639             conhecer os prprios princpios e que dela deriva
b 7). Em outros termos, a A.  o ponto de partida           toda a cincia. Para indagar as causas da sensa-
para a busca da verdade, que, porm, s                    o no se pode, portanto, partir de outro fe-
reconhecida em sua necessidade mediante o                   nmeno que no seja a prpria sensao" (De
uso dos princpios do intelecto.                            corp., 25,  1). Assim, Hobbes identifica A. real
    No ltimo perodo da filosofia grega, a no-             com sensao e assume-a como ponto de par-
o de A. torna-se proeminente. De um lado,                 tida para a indagao das coisas no criadas
os cticos fazem da A. o critrio da verdade e              pelo homem (assim como as definies so o
da conduta, julgando impossvel passar alm                 ponto de partida para a indagao das coisas
dela e julgar sobre ela (SEXTO EMPRICO, Pirr.              criadas pelo homem, isto , dos entes matem-
 hyp., I, 21-24; II, 18-21). Do outro lado, os              ticos e polticos). Com essas palavras, Hobbes
neoplatnicos so levados a considerar todo o               formulava o fundamento do empirismo mo-
mundo sensvel como A., isto , manifestao                derno. Ao mesmo tempo em que ressaltava o
do mundo inteligvel, e este ltimo como A. ou              carter relativo e subjetivo das A. sensveis, as-
imagem de Deus: pensamento que ser herda-                  sumiu-as como nico fundamento do conheci-
do por Scotus Erigena: "Tudo o que se entende               mento humano. Locke observa que, se os nos-
e se sente nada mais  do que a apario do                 sos sentidos fossem modificados e se tornassem
aparente, a manifestao do oculto" (De divis.              mais rpidos e agudos, a A. das coisas mudaria
 nat., III, 4). Desse ponto de vista, "o mundo             completamente; mas ento ela se tornaria in-
uma teofana, toda obra da criao manifesta a              compatvel com o nosso ser ou pelo menos
essncia de Deus, que, portanto, se torna aparen-           com as necessidades da nossa vida (Ensaio, II,
te e visvel nela e por ela" (ibid., I, 10; V, 23).         23, 12). "A. sensveis" so as idias de que fala
                                                            Berkeley (Principies, 33) e as impresses de
    Acompanhando essas duas vias encontra-se                que fala Hume (Treatise, II, 5). "Fenmenos ou
 o que se poderia chamar de revalorizao da A.             aparies" so, segundo Leibniz, todos os da-
 no mundo moderno. Seguindo a primeira, est                dos de que dispe o sujeito pensante; a distin-
 o que se poderia chamar de revalorizao                   o entre A. reais e A. ilusrias s  feita con-
 empirista. J na Escolstica do sc. XIV, Pedro            siderando-se, de um lado, a vivacidade, a
Aureolo, partindo da negao de qualquer rea-               multiplicidade e a coerncia das prprias A., e,
 lidade universal e no intuito de eliminar a species
APARNCIA                                           70                                      APARNCIA


de outro, a possibilidade de predizer os fe-             toda a doutrina de Hegel  sustentada pelo pen-
nmenos futuros a partir dos fenmenos pas-              samento de que no h realidade to recndita
sados e presentes (Op., ed. Erdmann, pp.                 que, de algum modo, deixe de manifestar-se e
443-444).                                                aparecer. Na filosofia contempornea, esse ponto
    Com isso, a A. perdeu o carter enganoso e           de vista teve a melhor expresso na obra de
abre-se o caminho da distino kantiana entre            Heidegger. "Como significado da expresso 'fe-
a A. (Erscbeinung) e a iluso (Scbein). As A.            nmeno' deve-se estabelecer o seguinte: o que
so os fenmenos como objetos da intuio                se manifesta em si mesmo, o revelado... Defi-
sensvel e, em geral, da experincia; os fen-           nimos esse manifestar-se como aparecer
menos so realidade, alis as nicas realidades          (Scheineri). Tambm em grego a expresso
que o homem pode conhecer e de que pode                  phainomenon tem esse significado: o que tem
falar. "Eu no digo", afirma Kant, "que os cor-          o aspecto de aparente, A. ... S porque alguma
pos parecem simplesmente seres externos ou               coisa, em virtude do seu sentido, pretende em
que minha alma parece simplesmente dada na               geral manifestar-se, isto , ser fenmeno, 
minha autoconscincia, quando afirmo que as              possvel que ela se manifeste como algo que
qualidades do espao e do tempo -- segundo as            no , que tenha o aspecto de... Reservamos
quais, como condio da sua existncia, coloco           para o termo 'fenmeno' o significado positivo
aqueles e esta -- esto no meu modo de intuir            e original de 'phainomenon' e distinguimos
e no nesses objetos. Seria um erro meu se               fenmeno da A., considerando esta ltima como
transformasse em mera iluso (Schein) aquilo             uma modificao particular de fenmeno" (Sein
que devo considerar como fenmeno" (Crt. R.             und Zeit,  7 A). Isto, porm, no quer dizer
Pura, Esttica transcendental, Observaes ger.,         que a filosofia contempornea tenha identifica-
3). A afirmao: "Os sentidos representam para           do ser com A. Antes, props de outra forma o
ns os objetos como aparecem, o intelecto como           problema de sua relao, passando a conside-
so"  interpretada por Kant no sentido de que           rar essa relao de modo objetivo ou ontolgico,
o intelecto representa os objetos na conexo             isto , sem referncia a qualquer subjetivao
universal dos fenmenos (o que no significa             idealista. No  por acaso que a ltima obra
que eles sejam independentes da relao com              importante em que se debateu de forma tradi-
a experincia possvel e, portanto, das "A. sen-         cional o problema da relao entre A. e realida-
sveis") (ibid., Anal. dos princ, cap. III). Por         de pertence a um idealista: F. H. Bradley (Apa-
isso, a A. fenomnica tem esse nome para res-            rncia e realidade, 1893). Sobretudo por
saltar as suas conexes com as condies sub-            influncia da colocao fenomenolgica (v.
jetivas do conhecer e para distingui-la do hipo-         FENOMENOLOGIA), a considerao da relao entre
ttico conhecimento numnico, de tal forma               aparecer e ser deixou completamente de ser
que se possa estabelecer com clareza os seus             feita, tanto no que se refere ao dualismo entre
limites (v. FENMENO).                                   esses dois termos quanto no que se refere aos
                                                         outros dualismos com que em geral era inter-
   Por outro lado, a prpria negao do carter          pretada, como entre sensao e pensamento,
ilusrio da A. foi utilizada, na filosofia moder-        entre subjetividade e objetividade, etc. A rela-
na, para reafirmar o carter absoluto do conhe-          o toda  feita no plano objetivo das experin-
cimento humano. Assim, Hegel v na A. feno-              cias diferentes ou dos graus diferentes de expe-
mnica a prpria essncia. A. e essncia no se          rincias. Um filsofo que baseie suas construes
opem, mas se identificam: a A.  a essncia             num grupo de experincias ou em dado tipo de
que existe na sua imediao. "Aparecer", diz             realidade, privilegiando-o e considerando-o fun-
ele, " a determinao por meio da qual a es-            damental,  levado a julgar menos reais ou
sncia no  ser, mas essncia; e o aparecer             significantes, e de certo modo simplesmente
desenvolvido  o fenmeno. A essncia no                "aparentes", as outras formas de experincia
est, portanto, atrs ou alm do fenmeno; mas,          ou os outros tipos de realidade. P. ex., quem
justamente porque a essncia  o que existe, a           privilegia a experincia interior ou conscincia
existncia  o fenmeno" (Ene,  131).  ver-             levado a considerar menos significante ou, de
dade que, como determinao "imediata", a A.             certo modo, s "aparente" a experincia exter-
est destinada, segundo Hegel, a ser absorvida           na ou sensvel, e vice-versa. Mas em todo caso,
ou superada por outras determinaes, refleti-           mesmo o que se declara aparente  admitido
das ou mediatas, no desenvolvimento dialtico            como A. de alguma coisa e, por isso, dotada, j
da Idia absoluta; mas tambm  verdade que
APATIA                                                71                                     APERCEPO


como A., de um grau ou medida de realidade.                aumento" (Nouv. ess., II, 9, 4). Enquanto as per-
De modo que a relao entre realidade e A.                 cepes pertencem tambm aos animais e s
vem a configurar-se como relao entre reali-              plantas, a A.  prpria do homem porquanto
dade e imagem, ou realidade e smbolo e, em                suas percepes so acompanhadas pela "po-
todo caso, entre dois graus ou determinaes               tncia de refletir". Todavia, quando ele  redu-
objetivas.                                                 zido ao estado de letargia, a reflexo e a A.
    APATIA (gr. nQzm-, in. Apathy, fr. Apathie,          cessam (ibid., II, 9, 14). -- No mesmo sentido,
ai. Apathie, it. Apatia). Esse termo significa pro-        Wolff definiu a A. como a atividade pela qual
priamente insensibilidade, mas no uso filosfi-            percebemo-nos a ns mesmos como sujeitos
co antigo designou o ideal moral dos cnicos e             percipientes e, assim, nos distinguimos da coi-
dos esticos, isto , a indiferena em relao a           sa percebida (Log,,  13). Ora, essa , para Kant,
todas as emoes, o desprezo por elas: indife-             a A. emprica, que deve ser distinguida da A.
rena e desprezo alcanados mediante o exer-               pura. Com a primeira, "acompanho com a cons-
ccio da virtude. Nesse sentido, para o qual a             cincia cada uma das representaes"; com a
insensibilidade no  um dom inato e natural,              segunda, "componho-as todas, uma com a ou-
mas um ideal de vida difcil de alcanar, cnicos          tra, e sou consciente da sua sntese". A A. pura
e esticos viram na A. a prpria felicidade (DiG.         ou "transcendental"  o "eu penso", que "deve
L, VI, 1, 8-11). Kant viu na A. um ideal nobre,            poder acompanhar todas as minhas represen-
mas acrescentou que a natureza foi sbia quan-             taes, pois de outro modo seria preciso ima-
do deu ao homem a simpatia, para gui-lo pro-              ginar em mim alguma coisa que no pudesse
visoriamente -- antes que nele a razo alcan-              ser pensada, o que significa que a representa-
asse a maturidade --, como auxlio ou apoio               o seria impossvel ou, ao menos para mim,
sensvel  lei moral e sucedneo temporrio da             no existiria absolutamente" (Crt. K. Pura, Anal.
razo (Antr.,  75). As Idades Moderna e Con-              dos conceitos,  16). A caracterstica fundamen-
tempornea, apesar da forte influncia que a               tal da A. pura  a objetividade: ela  o funda-
tica estica sempre exerceu, no se mostram               mento da constituio unitria dos objetos e
propensas ao ideal da A., j que so levadas a             das relaes que estes tm entre si. De fato, a
reconhecer o valor positivo das emoes e a                unidade de um objeto singular e dos objetos
evitar, por isso, a condenao sumria e total             entre si no  constituda pela relao subjetiva
destas, que est compreendida na noo de                  entre as representaes, isto , pela relao
apatia (v. EMOO).                                        que as representaes encontram na A. emprica
    APEIRON (gr. COTEtpov). O infinito ou o                (ou conscincia intuitiva), mas pela relao ob-
indeterminado: segundo Anaximandro de Mileto,              jetiva cuja possibilidade  a A. pura ou cons-
o princpio e o elemento primordial das coisas.            cincia discursiva (reflexiva). Com efeito, com
No  uma mistura dos vrios elementos                     base na A. emprica s se poderia dizer: "Cada
corpreos, em que estes estejam compreendi-                vez que levanto um corpo, sinto a impresso
dos cada um com as suas qualidades deter-                  de peso" e, assim, estabelecer uma relao pu-
minadas, mas  matria em que os elementos ainda           ramente subjetiva, ainda que constante, entre o
no esto distintos e que, por isso, alm de in-           soerguimento de um corpo e a impresso de
finita,  tambm indefinida e indeterminada                peso (isto , entre duas representaes). Isso
(Diels, A, 9). Essa determinao dupla de in-              no autorizaria a dizer objetivamente: "O cor-
finitude no sentido de inexauribilidade e de               po  pesado". Essa afirmao pode ser enuncia-
indeterminao permaneceu por muito tempo                  da s porque o vnculo entre o corpo e o peso
ligada ao conceito de infinito (v.).                        estabelecido objetivamente pela A. pura (ibid.,
                                                            19). Nesse sentido, a A. pura  "o princpio da
    APERCEPO (in. Apperception; fr. Apper-               unidade sinttica", que condiciona todas as outras
ception; ai. Apperzepton; it. Appercezione). O            snteses, isto , todos os outros conhecimentos,
significado especfico dessa palavra foi esclare-          porque todo conhecimento , segundo Kant,
cido pela primeira vez por Leibniz como cons-              uma sntese entre um dado sensvel e uma for-
cincia das prprias percepes. Diz Leibniz:              ma a priori. A A.  o princpio originrio do
"A percepo da luz ou da cor, p. ex., de que              conhecimento na medida em que  a condio
temos A.  composta por muitas pequenas per-               do uso emprico das categorias. Kant insistiu
cepes de que no temos A.; um rudo que                  no carter puramente formal da A. pura, enten-
percebemos, mas ao qual no damos ateno,                 dendo que ela no  uma realidade psicolgica
torna-se aperceptvel se sofrer um pequeno
APERCEPO                                           72                                            APETITE

ou de outra natureza, mas uma possibilidade, a                 APETITE (gr. pel; lat. Appetitio, appetitus;
da unificao da experincia, considerada como             in. Appette, fr. Apptit; ai. Begierde, it. Appe-
"espontaneidade" ou atividade subjetiva, isto ,           tizion). Em geral, o princpio que impele um
da inteligncia (ibid.,  25). Em outras palavras,         ser vivo  ao, com vistas  satisfao de uma
ela  s "a conscincia pura da atividade que              necessidade ou desejo ou  realizao de um
constitui o pensamento" (Antr.,  7). Da inter-            fim. Assim Aristteles entendeu o A., que ele
pretao da A. pura, em sentido realista, ou               colocou, junto com sentido e com intelecto,
seja, do seu entendimento no como condio                entre as partes diretivas da alma (Et. nc, VI, 2,
ou possibilidade do conhecimento, mas como                 1.139 a 17). "O que no pensamento", acrescen-
atividade criadora do prprio conhecimento,                ta ele, " afirmao e negao, no A.  perse-
Fichte inferiu a noo do eu como Auto-                   guir e evitar". O A.  o princpio de ao ltimo;
conscincia absoluta, criadora do seu mundo,              pois, se  verdade que os mveis da ao pare-
com a qual se inicia o Idealismo romntico (v.            cem dois, o A. e o intelecto prtico,  tambm
IDEALISMO; Eu). Em sentido psicolgico-me-                verdade que este ltimo induz  ao s na
tafsico, o conceito de A. tambm foi entendido           medida em que seu princpio  apetecivel (De
por Maine de Biran, que chamou de "A. interna             an., III, 10, 433 a 21). Ao A. pertencem o dese-
imediata" a conscincia que o eu tem de si                jo, a irascibilidade e a vontade (ibid., II, 3, 414
mesmo como "causa produtora" no ato de dis-               b 2). O A., todavia, s vezes pode ser justo e s
tinguir-se do efeito sensvel que a sua ao              vezes no; pode visar ao bem aparente ou ao
determina (Euvres indites, ed. Naville, I, p. 9;        bem real; portanto, A. diferentes podem ser s
III, pp. 409-410).                                        vezes contrrios, como acontece quando o dese-
    Um novo conceito de A. foi dado por Herbart           jo e a razo se combatem. O A. como princpio
como fundamento para entender o mecanismo                 de ao pode, portanto, ser controlado pela
da vida representativa. A A. foi entendida por            escolha racional ou pelos sentidos, embora a
Herbart como a relao entre massas diferen-              natureza superior tenda a dominar (De an., III,
tes de representaes, que faz que uma massa              10-11, 433 ss.). Com base nessas ltimas consi-
se aproprie da outra do mesmo modo como as                deraes aristotlicas, os escolsticos distingui-
novas percepes do sentido externo so aco-              ram um apetite sensvel e um apetite intelectivo;
lhidas e elaboradas pelas representaes ho-              S. Toms afirma que so duas potncias dife-
mogneas mais antigas. Esse fenmeno pelo                 rentes da alma, uma passiva e a outra ativa (S.
qual uma massa representativa, chamada de                  Th., I, q. 80, a. 2). A exemplo de Gregrio de
apercipiente, acolhe e assimila em si uma ou              Nissa (De hom. opif., 8) e de Joo Damasceno
mais representaes homogneas, chamadas                  (Defideorth., II, 12), os escolsticos admitiram
de aperceptivas,  o fenmeno da A., que Herbart          tambm a diferena entre apetite irascvel e
identificou com o sentido interno (Psychol. ais           apetite concupiscvel: o concupiscvel inclina a
 Wissenschaft, II,  125). Essa noo foi muito           perseguir o bem sensvel e a evitar o que 
usada em psicologia e pedagogia no sc. XIX,              sensivelmente nocivo; o irascvel  aquilo pelo
sobretudo para esclarecer o fenmeno do apren-            qual se resiste s aes nocivas e se reage em
dizado e para identificar as condies psicol-           face a tudo o que  difcil (cf. S. TOMS, S. Th.,
gicas que o facilitam. Wundt insistiu no carter          q. I, 81, a. 2).
ativo da A. como o ato pelo qual um contedo                 Essas observaes permaneceram pratica-
psquico  levado  compreenso mais clara e              mente inalteradas durante sculos. Hobbes diz
falou tambm de uma ''psicologia da A.", que              que o A. e a fuga diferem do prazer e da dor
deveria contrapor-se  psicologia dominante,              assim como o futuro difere do presente; so
associacionista, precisamente pelo maior des-             ambos prazer e dor, mas no presentes, porm
taque dado  atividade diretiva e ordenadora              previstos ou esperados (Dehom., 11,1). Spinoza
da A. (Physiologsche Psychologie, II, p. 454).           ligou o A. ao esforo (conatus) da mente em
Wundt falou tambm, em Psicologia dos povos,              perseverar no prprio ser por prazo infinito:
de uma "A. animadora" como de uma funo                  "Esse esforo", diz ele, "chama-se vontade quan-
psicolgica especfica, consistente em crer vi-           do se atribui s  mente; chama-se A. quando
vas todas as coisas, funo que estaria na base           se refere ao mesmo tempo  mente e ao corpo;
do mito e, portanto, tambm da religio e da              o A. , por isso, a prpria essncia do homem,
arte. -- Esse termo caiu em desuso na filosofia           de cuja natureza derivam necesariamente as
contempornea.                                            coisas que servem  sua conservao e que,
APOCATASTASE                                             73                                        APOFTICO


portanto, est destinado a cumprir" (Et., III, 9,             "At mesmo o inventor do mal (isto , o dem-
escl.). Leibniz viu no A. a ao do princpio                nio) unir sua voz ao hino de gratido ao Sal-
interno da mnada que opera a mudana ou a                    vador" (De hom. opif., 26). Na idade Moderna,
passagem de uma percepo a outra (Monad.,                    doutrina anloga foi sustentada por Renouvier
 15). Kant definiu o A. como "a determinao                 em Nova monadologia (1899): retoma-se aqui
espontnea da fora prpria de um sujeito, que                a tese de Orgenes da pluralidade dos mundos
acontece por meio da representao de uma                     sucessivos e da passagem de um mundo ao
coisa futura considerada como efeito da fora                 outro, determinada pelo uso que o homem faz
mesma" (Antr.,  73). O A. constitui, por isso, o             da liberdade em cada um deles;  corrigida s
que, na Crtica da Razo Prtica, se chama                    no sentido de que "o fim alcanado torna a
"faculdade inferior de desejar", que pressupe                reunir-se com o princpio, no na indistino
sempre, como motivo determinante, um objeto                   das almas, mas na humanidade perfeita, que 
emprico: diferentemente da faculdade "supe-                  a sociedade humana perfeita". A doutrina da A.
rior" de desejar, que  determinada pela sim-                 distingue-se da concepo clssica dos ciclos
ples representao da lei (Crt. R. Prtica, livro            do mundo em dois pontos principais: ls os
I, cap. I,  3, escl. I).                                    mundos que se sucedem no so a repetio
                                                              idntica um do outro, porque atravs deles se
     Na filosofia moderna e contempornea, esse               realiza progressivamente a recuperao do es-
termo caiu em desuso e foi substitudo por                    tado perfeito original; 2- a sucesso dos mun-
outros como "tendncia" ou "vontade", aos quais               dos no  sem princpio nem fim, j que come-
se referem s vezes as determinaes que a                    a com a queda das inteligncias celestes e
filosofia antiga atribura ao apetite.                        termina com a A.
    APOCATASTASE (gr. noKaxoTam; lat.
Restituticr, in. Apocatastasis; fr. Apocatastasis, ai.            APODTICA (lat. Apodictica; ai. Apodiktik,
                                                              it. Apoditticd). Parte da lgica que tem por objeto
Apokatastasis; it. Apocatastas).  a teoria pr-             a demonstrao. Esse nome foi usado por al-
pria dos Padres orientais: prev a restituio                guns lgicos do sc. XVII, como p. ex. Jungius.
final do mundo e de todos os seres nele conti-                "Entre as partes especiais da lgica", dizia ele,
dos  condio perfeita e feliz que tinham na                 "precede por dignidade a que tem por objeto a
origem. Trata-se, portanto, de uma noo dife-                verdade necessria, isto , a verdade propria-
rente da de movimento cclico, prpria dos                    mente dita, e que nos conduz atravs da
antigos (pitagricos, Anaximandro, esticos,                  apodixe, isto , a demonstrao  cincia, de
etc), que interpreta a vida do mundo como a                   modo que  justamente chamada de apodtica
recorrncia de um ciclo sempre idntico, que                  ou epistemnica" (Lgica hamburgensis, 1638,
se repete infinitas vezes (v. CICLO DO MUNDO).                IV, cap. I,  1). Esse nome depois foi raramente
 Segundo Orgenes, o mundo sensvel formou-                   usado (cf., p. ex., BOUTERWKK, Ideen zu einer
se com a queda das substncias intelectuais que               Apodiktik, 1799).
 habitavam no mundo inteligvel, queda devida
                                                                  APODIXE. V. DEMONSTRAO.
 a um ato livre de rebelio a Deus, do qual                      APOFANSE. V. ENUNCIADO.
 participaram todos os seres supra-sensveis, com a              APOFNTICA (in. Apophantic). Termo em-
nica exceo do Filho de Deus. Dessa queda                   pregado por Hamilton para indicar a doutrina
 e da degenerao que se lhe seguiu, os seres se              do juzo (Lectures on Logic, I, 1866, p. 225).
 reerguero expiando, com uma srie de vidas                     APOFNTICO (gr. nopavTiK; in. Apo-
 sucessivas, em vrios mundos, seu pecado ini-                phantic, fr. Apophantique, ai. Apophantisch; it.
 cial e sero, por fim, restitudos  sua condio            Apofantic). Declarativo ou revelativo. Arist-
 primitiva (Injohann., I, 16, 20). Orgenes ad-               teles chamou de A. o enunciado que pode ser
 mite, assim, pluralidade sucessiva de mundos, mas            considerado verdadeiro ou falso e considerou
 corrige o Estoicismo no sentido de que esses                 que esse tipo de enunciado  o nico objeto da
 mundos no so repetio uns dos outros. A                   lgica: da qual, portanto, so excludas as ora-
 liberdade de que os homens so dotados impe-                 es, as ordens, etc, cujo estudo pertence  re-
 de essa repetio (Contra Cels., IV, 67-68). Con-            trica ou  potica (De interpr., 4, 17 a 2). Esse
 ceito anlogo  expresso por Gregrio de Nissa,              significado permaneceu fixo no uso filosfico.
 que interpreta a sucesso dos mundos como o                    APOFTICA, TEOLOGIA. V. TEOLOGIA NE-
 teatro da reeducao progresiva dos seres                   GATIVA.
 condio de bem-aventurana original. Gregrio                  APOFTICO (gr. 7ro<p<mK; in. Apophatic;
 afirma decididamente o carter universal da A.:              fr. Apophatique, ai. Apophatisch; it. Apofatico).
APOLINEO DIONISACO                                     74                                       APORETICA

Negativo, isto , segundo Aristteles, que "se-              camente isoladas, a sorte de dipo e o smbolo
para uma coisa da outra", quer dizer, nega a                 flico" (Untergang des Abendlandes, I, 3, 2,
pertinncia de um predicado a um sujeito (An.                 6). Essa caracterizao, assim como a corres-
pr, I, 1,24 a 19).                        G. P.              pondente do faustismo (v.)  perfeitamente
   APOLNEO-DIONISACO (in. Apollonian-                      arbitrria e fantstica.
 dionysian; fr. Apollinien-dionysiaque, ai. Apol-                APOLOGTICA (in. Apologetics; fr. Apolo-
 linisch-dionyssch; it. Apollineo-dionisiaco). A            gtique, ai. Apologetik, it. Apologeticd). Disci-
anttese entre apolneo e dionisaco foi expres-             plina que tem por objeto a defesa (apologia)
sa por Schelling como a anttese entre a forma               de determinado sistema de crenas. Esse ter-
e a ordem, de um lado, e o obscuro impulso                   mo se refere, mais freqentemente,  defesa
criador, do outro. Esses dois aspectos devem                 das crenas religiosas: p. ex., "A. crist".
ser reconhecidos em cada momento potico                         APOLOGISTAS (in. Apologists; fr. Apologistes;
(PM. der Offenbarung, 24, em Werke, II, 4, p.                ai. Apologeten, it. Apologisti). Assim se chamam
25). Hegel, por sua vez, referia-se a essa ant-             os Padres da Igreja do sc. II, que escreveram
tese: "O verdadeiro  um triunfo bquico, onde               em defesa (apologia) do Cristianismo contra os
no h ningum que no esteja brio; e, como                 ataques e as perseguies que lhe eram movi-
esse momento resolve todos os momentos que                   dos. A primeira apologia de que se tem notcia
tendem a separar-se, ele  tambm uma trans-
parente e simples tranqilidade" (Phnomen.                  (mas da qual resta apenas um fragmento)  a
desGeistes, intr., III, 2; trad., it. p. 40). Retoma-        defesa apresentada ao imperador Adriano, por
da por Richard Wagner (Die Kunst und die                     volta de 124, por Quadrado, discpulo dos Aps-
Revolution, 1849), essa anttese foi populariza-             tolos. O principal dos Padres A.  Justino. Ou-
da por Nietzsche, que dela se valeu em Nasci-                tros autores de apologias so Taciano, Aten-
mento da tragdia (1871), para explicar a arte               goras, Tefilo, Hrmias. Com os Padres A.
e a vida da Grcia antiga. O esprito apolneo               comea a atividade filosfica crist. A tese co-
domina as artes plsticas, que so harmonia de               mum que defendem  de que o Cristianismo 
formas; o esprito dionisaco domina a msica,               a nica filosofia segura  til e resultado ltimo
que , ao contrrio, desprovida de forma por-                a que a razo deve chegar. Os filsofos pagos
que  embriaguez e exaltao entusistica. Foi               conheceram sementes de verdade que no
s graas ao esprito dionisaco que os gregos               puderam entender plenamente: os Cristos
conseguiram suportar a existncia. Sob a in-                 conhecem a verdade inteira porque Cristo  o
fluncia da verdade contemplada, o homem                     logos, isto , a razo mesma da qual participa
grego via em toda a parte o aspecto horrvel e               todo o gnero humano. A apologtica desses
absurdo da existncia: a arte veio em seu so-                Padres constitui, portanto, a primeira tentativa
corro, transfigurando o horrvel e o absurdo                 de inserir o Cristianismo na histria da filosofia
em imagens ideais, por meio das quais a vida                 clssica.
se tornou aceitvel (Geburt der Tragdie,  7).                  APONIA (gr. 7tovoc; in. Aponia-, fr. Aponie,
Essa transfigurao foi realizada pelo esprito              ai. Aponie, it. Aponia). A ausncia de dor como
dionisaco, modulado e disciplinado pelo esp-               prazer estvel e, portanto, eticamente aceit-
rito apolneo, e deu lugar  tragdia e  com-              vel, na tica de Epicuro (Fr. 2, Usener).
dia. Mais tarde, Nietzsche viu no esprito                       APOREMA (gr. tttpT)|j.a; in. Aporem; fr.
dionisaco o prprio fundamento da arte en-                  Aporme, ai. Aporem; it. Aporema). Em Arist-
quanto "corresponde aos estados de vigor ani-
mal" (WillezurMacht,  361, ed. Krner, 802).                teles (Top., VIII, 11, 162 a),  definido como
O estado apolneo no  seno o resultado                    um raciocnio dialtico que conclui com uma
extremo da embriaguez dionisaca, uma esp-                  contradio e que no permite, portanto, esta-
cie de simplificao e concentrao da prpria               belecer por qual dos dois ramos da prpria
embriaguez. O estilo clssico representa esse                contradio se deva optar.
 estado e  a forma mais elevada do sentimento                   APORETICA (in. Aporetic; fr. Aportique, ai.
 de potncia. A exemplo de Nietzsche, Spengler               Aporetik, it. Aporetica). Assim Nicolau Hartmann
 chamou de apolnea "a alma da cultura antiga                chamou (de aporia = dvida) o estgio da pes-
 que escolheu o corpo individual, presente e                 quisa filosfica que consiste em pr em evi-
 sensvel, como tipo ideal de extenso". Apolneos           dncia os problemas, isto , todos os aspectos
 so "a esttica mecnica, os cultos materiais               dos fenmenos que no foram compreendidos
 dos deuses do Olimpo, as cidades gregas politi-             e que, por isso, constituem aporias naturais
                                                             (Systematische Philosophie,  5).
APORIA                                                75            APRENDIZADO ou APRENDIZAGEM

    APORIA (gr. rcopa; in. Aporia; fr. Aporie,           impede que quem se lembre de uma s coisa
ai. Aporie, it. Aporia). Esse termo  usado no             -- que  o que se chama aprender -- encontre
sentido de dvida racional, isto , de dificul-            em si mesmo todo o resto, se tiver constncia e
dade inerente a um raciocnio, e no no de                 no desistir da procura, porque procurar e apren-
estado subjetivo de incerteza. , portanto, a              der nada mais so do que reminiscncia" (Men.,
dvida objetiva, a dificuldade efetiva de um               81 d). O A. , segundo Plato, devido  asso-
raciocnio ou da concluso a que leva um racio-            ciao das coisas entre si, pela qual a alma pode,
cnio. P. ex., "As A. de Zeno de Elia sobre o            aps haver captado uma coisa, captar tambm
movimento", "As A. do infinito", etc.                      a outra que a esta se encontra vinculada. No
   A POSTERIORI. V A PRIORI.                               foi substancialmente diferente a teoria pro-
    APREENSO (lat. Apprehensio; in. Appre-                posta por Herbart: o A.  apercepo (v.). A
hension; fr. Apprhension; ai. Apprehenzion,               apercepo, para Herbart,  o fenmeno pelo
it. Appreensone). Termo introduzido pela Esco-            qual uma "massa de representaes" acolhe em
lstica do sc. XIV para designar o ato com que            si uma nova representao que pode, de algum
se apreende ou se toma como objeto um termo                modo, ligar-se quelas (Psychol. ais Wissenschaft,
qualquer (conceito, proposio ou qualidade                1824, II, 125 ss.). Teoria semelhante foi exposta
sensvel), distinguindo-se de assentimento(y~),            e ilustrada porWundt (GrundrissderPsychologie,
com que se julga a seu respeito, isto , afirma-           1896, p. 249 ss.), e de Wundt passou a toda a
se ou nega-se. Ockham diz: "Entre os atos do               psicologia psicofsica.
intelecto, um  o apreensivo, que se refere a                  Na psicologia contempornea, o mesmo
tudo o que  promovido pelo ato da potncia                conceito de A. como associao foi ilustrado e
intelectiva, e o outro pode ser chamado de                 posto em novas bases por Thorndike, que for-
judicativo, pois com ele o intelecto no somen-            mulou sua doutrina com base na observao
te apreende o objeto, mas tambm assente nele              de organismos animais, mas cujas concluses
ou dissente dele" (In Sent., prol., q. 1, 0). O ato        logo foram estendidas ao homem. Segundo
apreensivo pode consistir na formao de uma               Thorndike, o A.  um processo de tentativas e
proposio ou no conhecimento de um com-                   erros (Trial and Error), guiado pela operao
plexo j formado (Quodl., V, q. 6). Essa palavra           de prmio e punio. As primeiras reaes a
tambm  empregada por Wolff (Log.,  33) e                uma situao problemtica so dadas ao acaso.
Kant a utilizou na primeira edio da Crtica da           Quando uma dessas reaes obtm xito, 
Razo Pura (Deduo dos conceitos puros do                 escolhida nas tentativas seguintes, logrando
intelecto), ao falar de uma "sntese da A.", que           enfim eliminar as outras. Thorndike formulou a
consistiria em recolher o mltiplo da representa-          chamada lei do efeito, segundo a qual a respos-
o de tal modo que dele surja "a unidade da in-           ta a um estmulo  reforada se seguida por um
tuio". s vezes, no uso moderno, A. vem                  prmio. Segundo Thorndike, esses dois fatores,
contraposto  compreenso como conhecimento                a repetio da reao adivinhada e o prmio,
primitivo ou simples que no contm nenhuma                bastam para explicar todos os processos do A.
explicao ou valorizao do objeto apreendido.            e, portanto, toda a conduta do homem (cf.
  APRENDIZADO ou APRENDIZAGEM (gr                          AnimalIntelligence. ExperimentalStudes, 1911;
H0T]cn.; in. Learning; fr. Apprendre, al. Erler-         The Psychology ofWants, Interests andAltitudes,
nung; it. Apprendimento). Aquisio de uma                 1935, esp. p. 24). Mais recentemente, as mes-
tcnica qualquer, simblica, emotiva ou de                 mas idias foram generalizadas por Hull, que
comportamento, ou seja, mudana nas respos-                insistiu nos mveis do A., vendo neles um es-
tas de um organismo ao ambiente, que melho-                tado de necessidade. Um estmulo condiciona-
re tais respostas com vistas  conservao e ao            do pode permanecer ligado a uma resposta que
desenvolvimento do prprio organismo. Esse                 o segue s se esta produzir uma diminuio da
 o conceito que a psicologia moderna d de                necessidade (Principies ofBehavior, 1943).
A., apesar da variedade de teorias que apresen-                Se essa doutrina  ou no suficiente para
ta. Esse conceito, alm disso, no  seno a               explicar o A. humano,  coisa em que os psic-
generalizao de uma noo antiqssima de                 logos no esto de acordo (cf. a discusso res-
A., considerado como forma de associao. Foi              pectiva em E. R. HILGARD, Theoriesof Learning,
Plato o primeiro a ilustrar essa noo com sua            1948). A dvida diz respeito ao problema de
teoria da anamnese: "Sendo toda a natureza                 saber se o A. consiste simplesmente em dar
congnita e tendo a alma aprendido tudo, nada              respostas adivinhadas ou se tambm implica a
APRESENTAO                                           76                         A PRIORI, A POSTERIORI


escolha inteligente de tais respostas com base              aposteriori, ou demonstrao quia, ou demons-
em determinados porqus. Parece difcil excluir             trao no perfeita, e d a conhecer as causas
do processo humano do A. as opes inteligen-               pelas quais o efeito existe" (An.post, I, q. 9).
tes guiadas pelas relaes expressas pelos si-              Com esse sentido, ambos os termos so usados
nais "se", "mas", "como", "apesar de", etc. Desse           durante toda a Escolstica e at o sc. XVII,
ponto de vista, o fato de o homem entender a                para indicar duas espcies de demonstrao.
relao entre os sinais e as respostas  um ele-                2 A partir do sc. XVII, por obra de Locke
mento do A. irredutvel  pura lei do efeito (cf.           e do empirismo ingls, os dois termos adqui-
M. WERTHEIMER, Productive Thinking, 1945).                  rem significado mais geral: a priori passa a
   APRESENTAO (in. Appresentation; fr.                    designar os conhecimentos que podem ser ob-
Apprsentation; ai. Darstellung; it. Appresen-              tidos mediante o exerccio da razo pura e a
tazione). Termo utilizado por Husserl para                  posteriori, ao contrrio, os que podem ser ob-
designar a experincia indireta que o eu tem                tidos pela experincia. Hume e Leibniz esto
dos outros eus. A A. "nos d o que, nos outros,             de acordo em contrapor, nesse sentido, apriori
nos  inacessvel no original"; por ela, "uma               e a posteriori. Diz Hume: "Ouso afirmar, como
outra mnada constitui-se em minha".  uma                  proposio geral que no admite exceo, que
"apercepo por analogia" (Mditations cart-               o conhecimento da relao de causa e efeito
siennes, 1931,  50 ss.).                                  no , em nenhum caso, alcanado pelo racio-
   A PRIORI, A POSTERIORI. Com esses dois                   cnio apriori, mas surge inteiramente da expe-
termos foram designados os elementos das trs               rincia, quando descobrimos que certos obje-
distines seguintes: ls a distino entre a de-            tos particulares esto constantemente unidos a
monstrao que vai da causa ao efeito e a que               outros" (Inq. Cone. Underst., IV, 1). E Leibniz
vai do efeito  causa; 2a a distino entre os              contrape constantemente o "conhecimento a
conhecimentos que podem ser obtidos com a                   priori' ao "conhecimento por experincia"
razo pura e os conhecimentos que podem ser                 (Nouv. ess., III, 3,  15; Monad., % 76) e "a filo-
obidos com a experincia; 3S a distino entre              sofia experimental, que procede aposteriori',
tautologias e verdades empricas.                            razo pura", que "justifica apriori' (Op., ed.
    le A primeira distino, que remonta                   Erdmann, p. 778 b). Wolff exprimia, com sua
Escolstica, liga-se  distino aristotlica en-           costumeira clareza, o uso dominante em seu
tre "o que  anterior e mais conhecido para                 tempo dizendo: "O que aprendemos com a
ns" e "o que  anterior e mais conhecido por               experincia, dizemos conhecer aposteriori; o
natureza", distino que Aristteles assim es-              que sabemos pelo raciocnio dizemos conhe-
clarecia: "Dizendo anterior e mais conhecido                cer apriori' (Psychol. emp.,  5, 434 ss.).
em relao a ns, pretendo referir-me ao que                   A noo kantiana de a priori, como conhe-
est mais perto da sensao; dizendo, porm,                cimento independente da experincia, mas no
anterior e mais conhecido absolutamente, pre-               precedente (no sentido cronolgico)  prpria
tendo referir-me ao que est mais longe da                  experincia, , sob certo aspecto, a mesma de
sensao". E como os objetos mais distantes                 Leibniz e dos wolffianos. "Existem", dizia Leibniz,
da sensao so os mais universais, ao passo                "idias que no nos vm dos sentidos e que
que os mais prximos dela so os singulares,                encontramos em ns sem form-las, ainda que
aquilo que  primeiro absolutamente, ou por                 os sentidos nos dem ocasio de aperceb-las"
natureza,  precisamente o universal {An. post.,            (Nouv. ess., I, 1,  1). Kant deu mais rigor a essa
1, 2, 72 a 1 ss.). A partir de Alfarabi, a filosofia        noo, distinguindo os conhecimentos apriori
rabe havia formulado a distino entre a de-               puros, que, alm de no dependerem absoluta-
monstraopropterquide a demonstrao quia,                 mente de nenhuma experincia, so desprovi-
que Alberto da Saxnia depois chamou, res-                  dos de qualquer elemento emprico. P. ex.,
pectivamente, de demonstraes apriorie de-                 acrescentava ele, a proposio "Toda mudana
monstraes a posteriori. "A demonstrao                  tem sua causa"  uma proposio apriori, mas
dupla", diz Alberto; "uma  a que vai das cau-              no  pura, porque mudana  um conceito
sas ao efeito e chama-se demonstrao apriori,              que s pode ser extrado da experincia (Crt.
ou demostrao propter quid, ou demonstra-                  R. Pura, intr., 1). Mas a originalidade da noo
o perfeita, e d a conhecer a razo pela qual             kantiana est na funo atribuda a a priori,
o efeito existe. A outra  a demostrao que vai            que no constitui um campo ou domnio de
dos efeitos s causas e chama-se demonstrao               conhecimentos  parte, mas a condio de todo
A PRIORI, A POSTERIORI                               77                                 RABE, FILOSOFIA


conhecimento objetivo. A priori  a forma                 qual ele consistiria sobretudo nos conceitos
do conhecimento, assim como a postenori  o               definitrios e nas estipulaes convencionais
contedo. Em a priori fundam-se os conheci-               de que se vale a cincia (cf. C. I. LEWIS, "A
mentos da matemtica e da fsica pura; mas o              Pragmatic Conception of the 'a priori'", em
a priori por si mesmo no  conhecimento, mas             Readngs in Phosophical Analysis, 1949, pp.
a funo que condiciona universalmente qual-              286 ss.). Mas, o mais das vezes, por apriori
quer conhecimento, tanto sensvel quanto inte-            entende-se simplesmente o enunciado tauto-
lectual. Os juzos sintticos a priori so, com           lgico ou analtico e por a postenori a verdade
efeito, possveis, em virtude das formas apriori          emprica (v. ANAUTICIDADE).
da sensibilidade e do intelecto. O a priori ,               APROPTOSIA (gr. 7ipO7iTCi>oa). Segundo
para Kant, o elemento formal, isto , ao mesmo            os esticos, a liberdade em relao  precipita-
tempo o que condiciona e fundamenta todos                 o, isto , a capacidade de deter o assenti-
os graus do conhecimento; e no s do conhe-              mento ou de neg-lo (DiG. L. VII, 1, 46).
cimento, j que tambm no domnio da vonta-                  APROSPTOSIA (gr. cmpocmTCOa). A liber-
de e do sentimento subsistem elementos apriori,           dade do erro (cf. ALESSANDRO DE AFRODISIA, De
como demonstram a Critica da Razo Prtica                an., 150, 35).
e a Critica do Juzo. A noo kantiana de a                   APTIDO (in. Aptitude; fr. Aptitude; ai.
priori foi adotada ou pressuposta por boa par-            Eignung; it. Attitudin). Esse termo indica a
te da filosofia moderna. O Idealismo romntico            presena de determinados caracteres que, em
corrigiu-a no sentido de admitir que todo o               seu conjunto, tornam o indivduo capaz de re-
saber  apriorstico, isto , inteiramente produ-         alizar determinada tarefa. Na determinao das
zido pela atividade produtiva do Eu. Assim                A. baseia-se a orientao profissional, isto , a
pensaram Fichte e Schelling. Hegel julgava que            seleo e a preparao do indivduo para este
o pensamento  essencialmente a negao de                ou aquele trabalho, em conformidade com as
um existente imediato, logo, de tudo o que  a            suas habilidades.
postenori ou se baseia na experincia. O apriori             AQUILES (gr. 'A%iA,e; lat. Achilles; in.
, ao contrrio, a reflexo e a mediao da               Achilles; fr. Achillee, ai. Achilleus; it. Achille).
imediao, isto , a universalidade, o "estar o           Com esse nome indicava-se o segundo dos
pensamento em si mesmo" (Ene,  12). Mais                 quatro argumentos de Zeno de Elia contra o
freqentemente, na filosofia moderna, o apriori           movimento. Aristteles exprimiu-o assim: "O
conserva o significado kantiano. E a tal signifi-         mais lento na corrida nunca ser alcanado pelo
cado se vincula, apesar de todas as diferenas,           mais veloz, pois aquele que persegue dever
a noo de apriori material de Husserl. Essa              comear por alcanar o ponto de que o fugiti-
noo est ligada  das ontologias regionais,             vo partiu, de tal modo que o mais lento sem-
pois, segundo Husserl, "por conhecimentos sin-            pre ter vantagem" (Ms., VI, 9, 239 b 14). O
tticos a priori deveriam ser entendidos os               pressuposto deste, como dos outros argumen-
axiomas regionais, de tal modo que haveria                tos,  a infinita divisibilidade do espao. V.
tantas classes irredutveis de conhecimentos sin-         DICOTOMIA, FLECHA, ESTDIO.
tticos apriori, quantas so as regies" (Jdeen,
I,  16). Ora, regies do ser so, p. ex., os con-            RABE, FILOSOFIA (in. Arabicphilosophy,
ceitos de objeto material, conscincia, ani-              fr. Philosophie rabe, ai. Arabische Philosophie;
malidade, sociedade, etc; e os axiomas relati-            it. Filosofia araba). Por esse nome entende-se
vos a cada uma de tais regies implicam a                 a filosofia dos rabes do sc. VIII ao XII, que
referncia ao seu contedo especfico e so,              tem seus representantes principais em Al Kindi
por isso, materiais.                                      (sc. IX), Alfarabi (sc. IX), Avicena (sc. XI),
                                                          Al Gazali (sc. XI), Averris (sc. XII). Assim
   3a Na filosofia contempornea, a existncia            como a filosofia do mundo cristo na mesma
de um apriorino sentido kantiano ou hegeliano             poca, a filosofia rabe  uma Escolstca (v.),
 quase sempre negada. Diz, p. ex., Reichenbach:          isto , a utilizao da filosofia grega, em espe-
"No existe nada de semelhante  auto-evidn-             cial a aristotlica, com o fim de entender ou de
cia sinttica; as nicas fontes admissveis do            demonstrar as verdades religiosas do Coro. A
conhecimento so a percepo sensvel e a auto-           filosofia grega tornou-se conhecida entre os
evidncia analtica das tautologias" ( The Theory         rabes a partir do califado de Haroun-el-Raschid,
of Probablity, p. 372). s vezes, defendeu-se            durante o qual comearam a ser traduzidas para
uma "concepo pragmtica" do apriori, pela               o rabe as obras de Aristteles e de outros auto-
RABE, FILOSOFIA                                     78                                            ARBTRIO

res gregos, j traduzidas para o siraco. Entre              4Q Com Al Gazali (sc. XI), a filosofia A.
as obras que exerceram maior influncia no                apresenta a reao do esprito religioso contra
pensamento rabe, alm dos textos de Arist-              a filosofia: Al Gazali afirma, contra Alfarabi e
teles, houve uma Teologia atribuda a Aristte-           Avicena, a liberdade da natureza divina e o
les, que  uma miscelnea de trechos extra-              carter arbitrrio da criao.  sua obra Des-
dos das Enneadese Plotino, e o Liberdecausis,            truio dos filsofos, Averris respondeu com
que  a traduo dos Elementos de teologia de             Destruio das destruies de Al Gazali.
Proclo. Foram tambm traduzidas para o rabe                 A filosofia A., alm de ter importncia por si
as obras de Euclides, Ptolomeu e Galeno, os               mesma, ao acompanhar o auge do florescimento
comentrios aristotlicos de Alexandre de                 do imprio rabe no Mediterrneo, exerceu
Afrodisia e alguns Dilogos de Plato. Os fun-            notvel influncia sobre a Escolstica latina. Em
damentos filosficos que os rabes elabora-               primeiro lugar, forneceu a essa Escolstica boa
ram e que, de certo modo, representam as ca-              parte de seu material, que lhe chegou atravs
ractersticas da sua filosofia, so os seguintes:         das tradues latinas das tradues rabes das
    Ia A noo de Deus como o "Ser necess-               tradues siracas das obras de autores gregos.
rio", isto , tal que no pode no existir, e do          Em segundo lugar, ofereceu-lhe um constante
mundo como algo cuja necessidade deriva de                ponto de referncia polmico, levando-a a or-
Deus. Uma vez produzidos por uma Causa pri-               ganizar-se como filosofia da liberdade em face
meira necessria, todos os eventos do mundo               da filosofia da necessidade do mundo muul-
so, por sua vez, necessrios. Os rabes admi-            mano. O prprio aristotelismo, na sua primeira
tem uma cadeia causai ininterrupta que vai de             manifestao ao mundo ocidental, foi identifi-
Deus, como Primeiro Motor, s Inteligncias               cado com a sua interpretao .; e s por obra
celestes e aos cus e, enfim, aos acontecimen-            de Alberto Magno e de S. Toms foi depois
tos terrestres e ao homem. Justificam, por isso,          adotado s exigncias da Escolstica crist (v.
a astrologia, explicando suas deficincias pelo           ESCOLSTICA).
imperfeito grau de observao.
    2- Doutrina do intelecto agente ou ativo                 A-RACIONAL (gr. a,dyo; lat. Alogus; in.
como substncia de natureza divina, separada              Arational; fr. Alogique-, ai. Alogisch; it. Ara-
da alma humana; doutrina que Averris modi-               zional). O que  desprovido de razo ou no
ficou no sentido de considerar separado do                se pode exprimir ou explicar racionalmente: o
homem e divino tambm o intelecto passivo                 mesmo que irracional. Esse  o uso clssico do
ou potencial que Al Kindi e Alfarabi considera-           termo (PLATO, Grg., 501 a; O Banq., 202 a;
vam prprio do homem. Ao homem pertence,                  Teet., 205 e; Sof., 238 c, etc; ARISTTELES., Et.
segundo Averris, s uma espcie de reprodu-              nic, X, 2, 1.172 b 10). O termo grego (assim
o ou de imagem do verdadeiro intelecto. O               como o latino) serve tambm para designar as
nico intelecto divino multiplica-se nas vrias           grandezas incomensurveis que chamamos ir-
almas humanas como a luz do sol se multiplica             racionais (ARISTTELES, An.post., I, 10, 76 b 9;
distribuindo-se nos vrios objetos que ilumina.           EUCLIDES, EL, X, def. 10; etc). O uso moderno
Essa doutrina, que punha em dvida a imorta-              tentou, raramente e sem xito, distinguir A. de
lidade da alma humana, na medida em que                   irracional.
separava dela e atribua a Deus a sua parte                   ARBTRIO (lat. Arbitriuni; in. Free will; fr.
mais elevada e imaterial, foi chamada de dou-             Arbitre, ai. Willkur, it. Arbtrio). O princpio da
trina da unidade do intelecto.                            ao nos animais e no homem. A. , por isso,
    3e Tendncia prpria do aristotelismo e, em           termo mais geral do que vontade (v.), que s
particular, de Averris a pr a filosofia acima           pode ser atribuda ao homem. Diz Kant " A.
da religio, atribuindo-lhe o fim da contempla-           simplesmente animal {arbitriuni bruturr) o que
o e reservando  religio o domnio da ao.            s pode ser determinado por estmulos sens-
Essa tendncia foi interpretada pelos escolsticos        veis, ou seja, patologicamente. Mas o que 
latinos como a "doutrina das duas verdades",              independente de estmulos sensveis e, portan-
isto , da independncia entre verdade filos-            to, pode ser determinado por motivos que no
fica e verdade religiosa, que poderiam ser at            so representados a no ser pela razo, chama-
mesmo contrastantes. Obviamente, esse ponto               se livre A. (arbitriuni liberum) e tudo o que a
de vista era a negao da prpria Escolstica             ele se liga como princpio ou como conseqn-
ocidental, que visava justificar filosoficamente          cia  chamado prtico" (Crt. R. Pura, Doutrina
as verdades religiosas.                                   transcendental do mtodo; O cnone da r. pura,
ARCANO                                               79                                         ARITMTICA


seo I). O A. implica, assim, uma possibilida-           ou aquilo a que uma funo deve ser aplicada
de de escolha, que, todavia, ainda no  liber-           para que tenha determinado valor. Essa palavra
dade. Para livre A., v. LIBERDADE.                        foi usada pela primeira vez nesse sentido por G.
  ARCANO. V. ARQUEU.                                      FREGE (Funktion undBegriff 1891) (v. FUNO).
  ARCH. V. PRINCPIO.                                       ARISTOCRACIA. V. GOVERNO, FORMAS DE.
   ARCNTICO (ai. Archontisch). Assim Hus-                   ARISTOTELISMO (in. Aristotelianism; fr.
serl denominou o carter dominante e unificador           Aristotlisme, ai. Aristotelismus; it. Aristotelismo).
de uma experincia vivida, na medida em que               Por esse termo entendem-se alguns fundamen-
normalmente esta no tem apenas um, mas                   tos da doutrina de Aristteles que passaram 
muitos caracteres interligados de maneiras di-            tradio filosfica ou que inspiraram as escolas
versas (Ideen, I,  117) (v. VIVNCIA).                   ou os movimentos que se reportam mais dire-
   ARETOLOGIA (in. Aretology, fr. Artologie,             tamente ao prprio Aristteles, como a escola
ai. Artologie, it. Aretologia). Raramente usa-           peripattica, o A. rabe, o A. cristo medieval,
do: a doutrina das virtudes.                              o A. do Renascimento e vrias outras tendn-
   ARGUMENTO (gr. ,yo; lat. Argumentam;                cias do mundo medieval e moderno. Tais fun-
in. Argument; fr. Argument; ai. Argument; it.             damentos podem ser resumidos da seguinte
Argomento). 1. Num primeiro significado, A.              forma:
qualquer razo, prova, demonstrao, indcio,                1Q Importncia atribuda por Aristteles 
motivo capaz de captar o assentimento e de                natureza e o valor e a dignidade das indaga-
induzir  persuaso ou  convico. A. comuns             es a ela dirigidas. Enquanto Plato pensava
ou tpicos ou esquemas de A. so os lugares               que tais indagaes s poderiam atingir um grau
(temeu, loci) que constituem o objeto dos Tpi-           de probabilidade muito inferior ao conhecimento
cos de Aristteles. Ccero, com efeito, definia os        cientfico (Tini., 29 c), Aristteles considerava
lugares como as sedes das quais provm os A.,             que nada h na natureza to insignificante que
que so "as razes que do f de uma coisa                no valha a pena ser estudado, j que, em to-
duvidosa" (.Top., 2, 7). O significado gene-              dos os casos, o verdadeiro objeto da pesquisa
ralssimo da palavra A. tambm  esclarecido               a substncia das coisas (v. SUBSTNCIA).
pela definio de S. Toms: "A.  o que conven-             2e Conceito de metafsica como filosofia pri-
ce (arguif) a mente a assentir em alguma coisa"           meira e teoria da substncia, assim como fun-
(De ver, q. 14, a. 2, ob. 14), e pela de Pedro            damento da enciclopdica completa das cin-
Hispano, que retoma a expresso de Ccero:                cias (v. METAFSICA).
"A.  uma razo que d f de uma coisa duvi-                 3e Doutrina das quatro causas (formal, ma-
dosa" (Summ. log., 5.02). No mesmo sentido,               terial, eficiente, final) doutrina do movimento,
essa palavra  usada por Locke na definio da            como passagem da potncia ao ato, que per-
probabilidade, que existe quando "existem A.              mitiram a interpretao de toda a realidade
ou provas capazes de fazer uma proposio                 natural (v. os verbetes correspondentes).
passar por verdadeira ou de ser aceita como                  4S Teologia com seu conceito do Primeiro
verdadeira" (Ensaio, IV, 15, 3). E Hume, por              Motor e do Ato Puro (v. DEUS).
sua vez, dividia os A. em demonstraes (pura-               5Q Doutrina da essncia substancial ou ne-
mente conceituais), provas (empricas) e pro-             cessria como base da teoria do conhecimento
babilidades (Inq. Cone. Underst.,Vl, nota). Nesse         e da lgica (v. ALMA; ESSNCIA; SER).
sentido, A.  qualquer coisa que "d f" segun-               6S Importncia atribuda  lgica, cujo pri-
do a excelente expresso de Ccero, isto , que           meiro expositor sistemtico  Aristteles, como
de algum modo produza um grau qualquer de                 instrumento de todo conhecimento cientfico
persuaso.
                                                          (v. CONCEITO; LGICA; SILOGISMO; TPICA; etc).
    2. No segundo significado entende-se por A.               As vrias correntes do A. s se reportaram,
o tema ou o objeto (in. subject-matter, ai.               habitualmente, a alguns desses fundamentos;
Aufgabe), o assunto de um discurso qualquer,              isso explica por que o A. ora apareceu como
aquilo em torno de que o discurso versa ou                metafsica teolgica (na Escolstica medieval),
pode versar. A esse segundo significado do ter-           ora como naturalismo (no Renascimento), ora
mo vincula-se o seu uso em lgica e matem-               como espiritualismo (em algumas interpretaes
tica para indicar os valores das variveis inde-          modernas,p. ex., as de Ravaisson e Brentano).
pendentes de uma funo. Nesse sentido, A.                  ARITMTICA (in. Arithmetic; fr. Arithm-
o que preenche o espao vazio de uma funo               tique, ai. Arithmetik, it. Aritmtica). Teoria ma-
ARQUEOLGICA, HISTRIA                                80                                  ARQUITETNICA


temtica dos nmeros naturais, isto , dos n-             pertence-lhe porque ele  ativo e porque aspi-
meros inteiros positivos. Entendem-se co-                  ra; porque conserva e venera; porque tem ne-
mumente por leis da A. as seguintes proposi-               cessidade de libertao. A essa trindade de re-
es ou regras:                                            laes correspondem trs espcies de histria,
   l a a + f e = >+a (lei eomutativa da adio);          sendo possvel distinguir o estudo da hist-
   2- ab = ba (lei eomutativa da multiplicao);           ria do ponto de vista monumental, do ponto
   3a a + (b + c) = (a + b) + c (lei associativa da        de vista arqueolgico e do ponto de vista cr-
adio);                                                   tico". A histria monumental  a que considera
   4a cjac) = (ab)c (lei associativa da multipli-         os grandes eventos e as grandes manifestaes
cao);                                                    do passado e os projeta como possibilidades
   5a a(b + c) = ab + ac (lei distributiva).               para o futuro. A histria A. considera, ao contr-
   A formalizao da A., isto , a reduo da A.           rio, o que no passado foi a vida de cada dia e nela
a um sistema lgico fundado em poucos axio-                enraza a mediocridade do presente. A histria
mas, foi efetuada pela primeira vez por Peano,             crtica serve, porm, para romper com o passa-
que se valeu de alguns conceitos de Dedekind.              do e para renovar-se (v. HISTRIA).
Peano pressups como primitivas as noes de                   ARQUTIPO (lat. Archetypus; in. Archetype,
zero, de conjunto de nmeros naturais e de                 ai. Archetyp, Urbild; it. Archetipo). Modelo ou o
sucesso enunciada com a expresso o sucessivo             exemplar originrio ou original de uma srie
de. Mostrou que todas as proposies da A.                 qualquer. As idias de Plato foram considera-
podiam derivar dos cinco axiomas seguintes:                das A. enquanto modelos das coisas sensveis
   le 0  um nmero natural;                               e, mais freqentemente, as idias existentes na
   2- se x  um nmero natural, o nmero                   mente de Deus, como modelos das coisas
sucessivo tambm  um nmero natural;                      criadas (PLOTINO, Enn., V, 1, 4; PROCLO, InRep.,
   3e se x e y so nmeros naturais e se o                 II, 296). Mas Locke (Ensaio, II, 31,  D empre-
sucessivo de x  idntico ao sucessivo de y,               gou a palavra A. para dizer somente modelo:
ento x e y so idnticos;                                 "Chamo adequadas as idias que representam
   4S se x  um nmero natural, o nmero                   perfeitamente os A. dos quais a mente supe
sucessivo de x  diferente de O,                           que elas tenham sido extradas, que ela enten-
   5 S se 0 pertence a um conjunto o e s e o               de sejam representadas por aquelas idias, e a
sucessivo de um nmero natural qualquer per-               que ela as refere". A., nesse caso, so as foras
tence tambm a esse conjunto, o conjunto dos               naturais, as idias simples ou as idias comple-
nmeros naturais  uma parte de a.                         xas assumidas como modelos para medir a ade-
   Com a expresso aritmetzao da mate-                  quao das outras idias (v. ECTIPO).
mtica entende-se, s vezes, a exigncia surgida               ARQUEU. Segundo Teofrasto Paracelso,  a
em meados do sc. XIX, no campo das mate-                  fora que move os elementos, isto , o esprito
mticas, principalmente por obra de Weierstrass,           animador da natureza. Como todas as coisas so
de conferir unidade e rigor lgico  anlise               compostas de trs elementos (enxofre, sal, mer-
matemtica, fundando-a numa teoria dos n-                 crio), assim todas as foras que as animam so
meros reais. Essa teoria foi depois desenvol-              constitudas pelos seus arcanjos, isto , pela
vida por Cantor (1845-1918) e Dedekind                     atividade inconsciente do A. (Meteor, pp.
(1831-1916).                                               79 ss.).
   Cf. as memrias de lgica matemtica de                     ARQUITETNICA (gr. pjcixeiCTOViKri x^vri;
Peano, ora coligidas em Opere scelte, Roma,                in. Architectonic; fr. Architectonique; ai.
1958. Cf. tambm B. RUSSELL, Introduction to               Architektonik, it. Architettonicd). Em geral a
Mathematical Philosophy, 1918 (v. MATEMTI-                parte de construir, na medida em que supe a
CA; NMERO).                                               capacidade de subordinar os meios ao fim e o
   ARQUEOLGICA, HISTRIA (in. Archeo-                     fim menos importante ao mais importante. Nesse
logical history, fr. Histoire archologique, ai.           sentido, essa palavra  usada por Aristteles
Archologische Geschichte, it. Storia archeo-              (Et. nic, I, 1, 1.094 a 26), que fala tambm (Et.
logic). Na segunda das Consideraes inatuais             eud., I, 6, 1.217 a) de uma "inteligncia A. e
(Sobre a utilidade e o inconveniente dos estu-             prtica", isto , construtiva e operativa. Essa
dos histricos para a vida, 1873), Nietzsche dis-          palavra foi usada pela primeira vez como nome
tingue trs espcies de histria: "A histria per-         de uma disciplina filosfica por Lambert, que a
tence a quem vive segundo trs relaes:                   usou como ttulo de uma obra sua (Arquitetnica,
ARQUITETNICA, BELEZA                                  81                                                 ARTE


1771) e entendeu-a como "a teoria dos elemen-               te e no eticamente. Arrepender-se esteticamen-
tos simples e primitivos no conhecimento filo-              te  repugnante, porque  afetao; arrepen-
sfico e matemtico". Kant retomou essa pala-               der-se metafisicamente  coisa intil e fora de
vra para indicar "a arte do sistema", ao qual               lugar, pois no foi o indivduo que criou o mun-
dedicou um captulo (o III) na segunda parte                do e no lhe cabe incomodar-se tanto com a
principal de Crtica da Razo Pura. Como sis-               vaidade do mundo" (Entweder-Oder, em Werke,
tema, entendeu "a unidade de conhecimentos                  II, p. 223; Furcht undZittern, em Werke, III, p.
mltiplos reunidos sob uma nica idia", isto ,            143). Cf. M. SCHELER, Reue und Wiedergeburt,
organizao finalista que cresce de dentro, como            em Vom Ewigen im Menschen, 4a ed., 1954).
o organismo vivo. Na esteira de Kant, C. S. Peirce             ARS MAGNA. V. COMBINATRIA, ARTE.
fala de arquitetura das teorias cientficas e filo-             ARTE (gr. Txvr|; lat. Ars; in. Art; fr. Art; ai.
sficas cujas regras procura definir {.Chance,              Kunst; it. Arte). Em seu significado mais geral,
Love and Logic, II, 1).                                     todo conjunto de regras capazes de dirigir uma
   ARQUITETNICA, BELEZA. V GRAA                           atividade humana qualquer. Era nesse sentido
   ARQUITETURA. V. ARQUITETNICA.                           que Plato falava da A. e, por isso, no estabe-
   ARREPENDIMENTO (lat. Paenitentia; in.                    leceu distino entre A. e cincia. A., para Plato,
Repentance, fr. Repentir, ai. Reue, it. Pentimento).         a arte do raciocnio (Fed., 90 b), como a pr-
O angustiante reconhecimento da prpria cul-                pria filosofia no seu grau mais alto, isto , a
pa. Esta  a definio em que os filsofos con-             dialtica (Fed., 266 d); A.  a poesia, embora
cordam, ainda que a expressem com palavras                  lhe seja indispensvel a inspirao delirante
diferentes (S. TOMS, S. Th., III, q. 85, a. 1; DES-        (ibid., 245 a); A.  a poltica e a guerra (Prot.,
CARTES, Pass. delme, III, 191; SPINOZA, Et., III;          322 a); A.  a medicina e A.  respeito e justia,
Definio das paixes, 27; HEGEL, Werke, ed.                sem os quais os homens no podem viver jun-
Glockner, X, p. 372, etc). Os filsofos tambm              tos nas cidades (Ibid., 322 c, d). O domnio
esto de acordo em admitir o valor moral do                 global do conhecimento  dividido em duas A.,
arrependimento. Spinoza, embora julgue que                  a judicativa (KpiTtKf| ou YVCOCTUKT) e a dispositiva
o A. "no  uma virtude, isto , no deriva da              ou imperativa (nixaKiiKt ou 7riOTaTiKf|), das
razo" e que, portanto, quem se arrepende                  quais a primeira consiste simplesmente em
duplamente miserando e impotente (uma vez                   conhecer e a segunda em dirigir determinada
porque agiu mal e depois porque se aflige com               atividade com base no conhecimento (Pol, 260
isso), reconhece que aquele que est submeti-               a, b; 292 c). Desse modo, para Plato a A. com-
do ao A. pode, todavia, voltar a viver segundo              preende todas as atividades humanas ordena-
a razo muito mais facilmente do que os outros              das (inclusive a cincia) e distingue-se, no seu com-
(Et., IV, 54). Montaigne, que dedicou ao A. um              plexo, da natureza (Rep., 381 a). -- Aristteles
de seus ensaios mais notveis (Essais, III, 2),             restringiu notavelmente o conceito de A. Em
observara, porm, que o A. no deve transfor-               primeiro lugar, retirou do mbito da A. a esfera
mar-se no desejo "de ser outro". "No cabe                  da cincia, que  a do necessrio, isto , do que
propriamente A. pelas coisas que no esto em               no pode ser diferente do que . Em segundo
nosso poder, assim como no cabem as sauda-                 lugar, dividiu o que no pertence  cincia, isto
des. Imagino infinitas naturezas mais elevadas              , o possvel (que "pode ser de um modo ou de
e mais ponderadas do que a minha; mas com                   outro") no que pertence  ao e no que per-
isso no melhoro as minhas faculdades, assim                tence  produo. Somente o possvel que 
como o meu brao e o meu esprito no ficam                 objeto de produo  objeto da A. Nesse senti-
mais vigorosos s porque eu os conceba di-                  do, diz-se que a arquitetura  uma A.; e a A. se
ferentemente do que so'' (ibid., ed. Rat., III,            define como o hbito, acompanhado pela ra-
p. 28).                                                     zo, de produzir alguma coisa (Et. nic, VI, 3-4).
                                                            O mbito da A. vem, assim, a restringir-se mui-
   Em sentido anlogo exprime-se Kierkegaard,               to. So A. a retrica e a potica, mas no  A.
que viu no A. o ponto culminante da vida tica              a analtica (lgica), cujo objeto  necessrio. So
e, ao mesmo tempo, o sinal do seu conflito                  A. as manuais ou mecnicas, como  A. a me-
interno. O a.  inerente  escolha que, na vida             dicina, ao passo que a fsica ou a matemtica
tica, o homem faz de si msmo. "Escolher a si               no so A. Esse , pelo menos, o ponto de vista
mesmo  idntico a arrepender-se de si mes-                 do Aristteles maduro, j que as pginas com
mo... At o mstico se arrepende, mas fora de si            que se abre a Metafsica parecem estabelecer
e no dentro de si; arrepende-se metafisicamen-
ARTE                                                  82                                        ARTEFATO


uma distino puramente de grau entre a A. e               quem o pratica. Kant resumiu as caractersticas
a cincia, colocando a A. como intermediria               tradicionais desse conceito ao fazer a distino
entre a experincia e a cincia. Mesmo aquelas             entre A. e natureza, de um lado, e entre A. e
pginas se concluem, porm, com a afirmao                cincia, do outro; e distinguiu, na prpria A., a
de que a sabedoria  antes conhecimento te-               A. mecnica e a A. esttica. Sobre esse ltimo
rico do que A. produtiva (Met., I, 1, 982 a 1 ss.).        ponto, diz: "Quando, conformando-se ao co-
Essa distino aristotlica no foi, porm, ado-           nhecimento de um objeto possvel, a A. cum-
tada em todo o seu rigor pelo mundo antigo e               pre somente as operaes necessrias para
medieval. Os esticos ampliaram de novo a                  realiz-lo, diz-se que ela  A. mecnica; se,
noo de A., afirmando que "a A.  um conjun-              porm, tem por fim imediato o sentimento do
to de compreenses", entendendo por com-                   prazer,  A. esttica. Esta  A. aprazvel ou bela
preenso o assentimento ou uma representa-                 A.  aprazvel quando sua finalidade  fazer
o compreensiva (SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp.,              que o prazer acompanhe as representaes
III, 241, Adv. dogm., V, 182); na verdade, essa            enquanto simples sensaes;  bela quando o
definio no permite distinguir A. de cincia.            seu fim  conjugar o prazer s representaes
E Plotino, que, por sua vez, faz tal distino             como formas de conhecimento'1 (Crt. do Juzo,
porque quer conservar o carter contemplativo               44). Em outros termos, a bela A.  uma esp-
da cincia, distingue as A. com base em sua                cie de representao cujo fim est em si mesma
relao com a natureza. Distingue, portanto, a             e, portanto, proporciona prazer desinteressa-
arquitetura e as A. anlogas, cuja finalidade  a          do, ao passo que as A. aprazveis visam somen-
fabricao de um objeto, das A. que se limitam             te a fruio. A essa concepo de A. remetem-
a ajudar a natureza, como a medicina e a agri-             se ainda hoje os que vem nela a libertao das
cultura, e das A. prticas, como a retrica e a            restries impostas pela tecnocracia (MARCUSE,
msica, que tendem a agir sobre os homens,                 One Dimensional Man, 1964, pp. 238 ss.), ou
tornando-os melhores ou piores (Enn., IV, 4,               pelo menos um meio de corrigi-las, fazendo
31). A partir do sc. I foram denominadas "A.              valer, nesse sistema, a.expresso da personali-
liberais" (isto , dignas do homem livre), em              dade individual (GALBRAITH, The New Indus-
contraste com as A. manuais, nove disciplinas,             trial State, 1967, p. XXX).
algumas das quais Aristteles teria denomina-                  Embora ainda hoje a palavra A. designe
do cincias, e no artes. Essas disciplinas foram          qualquer tipo de atividade ordenada, o uso culto
enumeradas por Varro: gramtica, retrica,                tende a privilegiar o significado de bela A. Dis-
lgica, aritmtica, geometria, astronomia, m-             pomos, de fato, de um termo para indicar os
sica, arquitetura e medicina. Mais tarde, no sc.          procedimentos ordenados (isto , organizados
V, Marciano Capela, em Npcias de Mercrio e               por regras) de qualquer atividade humana:  a
da filologia, reduzia a sete as A. liberais (gra-          palavra tcnica. A tcnica, em seu significado
mtica, retrica, lgica, aritmtica, geometria,           mais amplo, designa todos os procedimentos
astronomia e msica), eliminando as que lhe                normativos que regulam os comportamentos
pareciam desnecessrias a um ser puramente                 em todos os campos. Tcnica , por isso, a
espiritual (que no tem corpo), isto , a arqui-           palavra que d continuidade ao significado
tetura e a medicina, e estabelecendo assim o               original (platnico) do termo arte. Por outro
 curriculum de estudos que deveria permane-                lado, os problemas relativos s belas A. e a seu
cer inalterado por muitos sculos (v. CULTURA).            objeto especfico cabem hoje ao domnio da
S. Toms estabelecia a distino entre A. liberali         esttica (v.).
e A. servili com o fundamento de que as pri-
meiras destinam-se ao trabalho da razo, as                   ARTEFATO (in. Artifact; fr. Artefact; ai.
segundas "aos trabalhos exercidos com o cor-               Artefakt; it. Artefatt). Objeto produzido, no
po, que so de certo modo servis, porquanto o              todo ou em parte, pela arte ou por qualquer
corpo est submetido servilmente  alma e o                atividade humana, na medida em que se distin-
homem  livre segundo a alma" (S. Th., II, 1, q.           gue do objeto natural, produzido pelo acaso.
57, a. 3, ad 3). Contudo, a palavra A. continuou           Por isso, a presena de A. num estrato geolgi-
designando, por longo tempo, no s as A.                  co normalmente  considerada pelos antrop-
liberais mas tambm as A. mecnicas, isto , os            logos como sinal de presena do homem na
ofcios, assim como ocorre ainda hoje, pois                idade correspondente: a natureza e a comple-
entendemos por A. ou arteso um ofcio ou                  xidade dos A. so formadas como base para
                                                           distinguir os tipos de cultura a que pertencem.
ARTFICE INTERNO                                        83                                             ASPECTO


Para ser reconhecido como tal, o A. deve ma-                 tade de viver, pelo cerne e essncia de um
nifestar a inteno, preexistente  sua constru-             mundo que se reconhece cheio de dor" (Die Welt,
o, de utiliz-lo com finalidade determinada,               I,  68), e por isso o nico instrumento de libera-
ou seja, deve constituir a realizao de um pro-             o de que o homem dispe.
jeto (v.)                                                        ASCETISMO (in. Asceticism; fr. Asctsme;
    ARTFICE INTERNO. Esse foi o nome que                    ai. Asketismus; it. Ascetismo). A prtica da ascese.
Giordano Bruno deu, em De Ia causa, princi-                      ASEIDADE ou ASSEIDADE (lat. Aseitas; in.
pio e uno, ao intelecto universal, que  "facul-             Aseity, fr. Asit, ai. Aseitt; it. Aseit). Qualida-
dade e parte potencial ntima mais real e pr-               de ou carter do ser que tem em si mesmo a
 pria da alma do mundo", porque "forma a matria             causa e o princpio do prprio ser, ou seja,
e a figura desde dentro".                                    Deus. Abaliedade  a qualidade contrria, isto
     ARVORE DE PORFRIO (lat. Arbor Por-                     , a do ser que tem causa em outro ser. Voc-
phyriana; in. Tree of Porphyry, fr. Arbre de                 bulos usados na Escolstica tardia.
 Porphyre, ai. Baum des Porphyrius; it. Albero di                ASNO DE BURIDAN (in. Buridan's Ass; fr.
 Porfirio). Clebre esquema ou modelo de defi-               ne de Buridan; ai. Esel des Buridan; it. Asino
 nio por dicotomias sucessivas, que desce do               di Buridano). Jean Buridan, mestre e reitor da
 gnero mais geral s espcies nfimas (substncia:          Universidade de Paris na primeira metade do
 corprea, incorprea; substncia corprea [cor-             sc. XIV, foi discpulo de Ockham e  impor-
 po]: animado, inanimado; corpo animado: sen-                tante por algumas observaes que antecipam
 svel, insensvel; corpo animado sensvel [ani-             o princpio de inrcia da mecnica moderna (v.
                                                             IMPULSO). O caso do A., que, posto entre dois
 mal]: racional, irracional; animal racional: mortal,
 imortal; animal racional mortal [homem].-                   feixes iguais de feno, morreria de fome antes
 Scrates, Plato, etc). Embora tal "rvore" no             de resolver qual dos dois comeria, no se en-
                                                             contra em suas obras. Encontram-se nela, po-
 se encontre propriamente nos manuscritos de                 rm, suas premissas. Buridan julga que a von-
 Porfirio, foi construda com base no texto                  tade segue, necessariamente, o juzo do intelecto;
 porfiriano (Isag., 4, 20) e se acha em todos os             p. ex., a deciso  plo bem maior, se o intelec-
 tratados medievais de lgica (cf., p. ex., PEDRO            to assim julgar. Mas quando o intelecto julga
 HISPANO, Summ. log., 2, 10), de onde passou                 que dois bens so iguais, a vontade no pode
 para os textos modernos de lgica tradicional.              decidir-se nem por um nem pelo outro: a esco-
     ASCESE (gr. oicr)0i: in. Ascesis; fr. Ascse,         lha no acontece (In Eth., III, q. 1). Esse  o
 ai. Askese, it. Asces). Essa palavra significa pro-        caso do asno. Mas Buridan julga que o homem
 priamente exerccio e, na origem, indicou o                 pode no morrer de fome como o A., j que
 treinamento dos atletas e as suas regras de vida.           pode suspender ou impedir o juzo do intelecto
 Com os pitagricos, os cnicos e os esticos,               (ibid., III, q. D). A origem do caso (embora no
 essa palavra comeou a ser aplicada  vida mo-              referido ao A.) acha-se em Aristteles: "Diz-se
 ral na medida em que a realizao da virtude                que quem est muito sedento ou esfaimado, se
 implica limitao dos desejos e renncia. O sen-            se acha a igual distncia do alimento e da be-
 tido de renncia e de mortificao tornou-se,               bida, necessariamente fica imvel onde se acha"
 da, predominante; na Idade Mdia, A. signifi-              (De cael, II, 13, 295 b 33). Nem mesmo Dante
 cou mortificao da carne e purgao dos vn-               refere o caso ao A.: "Que entre dois alimentos,
 culos com o corpo. A revolta contra o ideal                 distantes e mveis -- de modo que antes se
 asctico iniciou-se no Renascimento, com a                  morria de fome -- o homem livre levasse um
 revalorizao dos aspectos corpreos e sens-               deles  boca" (Par, IV, 1-3). Na realidade, a
 veis do homem. Kant considera a moral asctica              discusso em torno do caso do A. de Buridan
 como "exerccio firme, corajoso e destemido                 foi peculiar a um perodo (a ltima Escolstica)
 da virtude" e a contrape  A. monstica, "que,             no qual se acentuou o carter arbitrrio da es-
 por temor supersticioso ou por horror hipcri-              colha voluntria e entendeu-se a liberdade do
 ta a si mesma, costuma mortificar e desprezar               homem como "arbitrrio de indiferena" (v.
 o prprio corpo", castigando-se, em vez de arre-            LIBERDADE).
 pender-se moralmente, isto , de tomar a reso-                  ASPECTO (in. Aspect; fr. Aspect; ai. Aspekt;
 luo de corrigir-se (Met. der Sitten, II,  53).           it. Aspetto). Ponto de vista ou ngulo visual de
 Schopenhauer deu significado metafsico  A.,               que pode ser considerado um fato ou uma obser-
 na qual viu "o horror do homem pelo ser, cuja               vao. Objetivamente, o lado que o fato ou a
 expresso  seu prprio fenmeno, pela von-                 situao apresenta.
ASPIRAO                                                   84                                         ASSERO

    ASPIRAO (in. Aspiration; fr. Aspiration;                   quer que aprenda uma proposio (In Sent.,
ai. Sehnsucht; it. Aspirazione). Atitude que se                  prol., q. 1, 55) assente, dissente ou duvida." A
assume em face do ideal(v.), isto , em face de                  teoria do A. , substancialmente, a teoria do
uma perfeio em cuja realizao no se tem                      erro. Segundo Ockham, quando uma proposi-
confiana. A A. no  de per si ativa e operante                 o  emprica ou racionalmente evidente, o A.
e pode permanecer no estado de veleidade                          garantido pela sua evidncia, ao passo que,
suspirosa.                                                       quando falta essa evidncia, o A.  mais ou
    ASSENTIMENTO (gr. o-uyKax9eov; lat.                        menos voluntrio e v-se diante da possibilida-
Assensus-, in. Assent; fr. Assentiment; ai. Beifall              de do erro (Md., II. q. 25). Doutrina anloga
ou Zustimmung; it. Assens). Termo correlativo                   encontra-se em Descartes. Para julgar, requer-
de apreenso (v.), que designa o ato com que                     se, em primeiro lugar, o intelecto, j que no se
se julga do objeto apreendido, isto , assente-                  pode julgar sobre aquilo de que no se tem
se a ele, dissente-se dele ou duvida-se dele. Os                 apreenso; em segundo lugar, a vontade, pela
primeiros a elaborar a teoria do A. foram os                     qual se adere ao que foi percebido (Princ.ph.,
esticos. O A.  a reao da alma  ao da                      I,  34). E na maior amplitude da vontade, isto
coisa externa, que lhe  imprimida pela repre-                   , na possibilidade de que o A. tambm seja
                                                                 dado ao que no  apreendido de modo evi-
sentao. "Assim como  necessrio que o pra-                    dente, baseia-se a possibilidade do erro (ibid,
to da balana se abaixe quando sobre ele so                      35). Locke elabora a doutrina do A. relacio-
colocados pesos, tambm  necessrio que a                       nando-a com os graus de probabilidade. "A cren-
alma adira  evidncia" (CCERO, Acad, III, 12,                  a, A. ou opinio consiste em admitir ou aceitar
37). Receber a representao  coisa involuntria,               como verdadeira uma proposio com base
j que ver branco depende da cor branca que                      em argumentos ou provas que nos convencem
se tem  frente, e assim por diante. Mas assentir                sem nos dar conhecimento certo da sua verda-
 representao est naquele que acolhe a re-                    de" (Ensaio, IV, 15, 3). A prpria f  uma esp-
presentao. O A. , pois, voluntrio.  parte                   cie de A., alis "um A. fundado na razo mais
integrante da representao catalptica (v. CATA-                alta" (ibid., 14). De modo semelhante, Rosmini
LFTICA, REPRESENTAO), segundo a qual "onde                    considerou o A. como um ato livre, que se
se tira o A., tira-se tambm a compreenso"                      segue ao conhecimento, isto ,  simples apre-
(SEXTO EMPRICO, Adv. math., VIII, 397-398). Na                  enso da coisa (Cincia moral, ed. nac. 1941,
filosofia crist, a noo de A. serviu para defi-                p. 109). A Gramtica do assentimento (1870)
nir a f. Joo Damasceno definiu a f como                       de Newmann distinguiu o A. real, destinado s
"A. no acompanhado por indagao" (non                          coisas, do A. nocional, destinado s proposi-
 inquisitivus assensus, De fide ortb., IV, 12).                  es. O A. nocional  o que se chama de pro-
Referindo-se a esse conceito, S. Toms define                    fisso, opinio, presuno, especulao; o A.
a f como "pensar com assentimento". Diz: "O                     real  a crena. O A. nocional a uma proposi-
intelecto pode aderir a uma coisa de dois mo-                    o dogmtica  um ato teolgico; o A. real 
dos. No primeiro modo, porque , movido a                        mesma proposio  um ato religioso. As duas
assentir pelo prprio objeto, porque  conheci-                  coisas no se contradizem, mas s o A. real
do por si mesmo, como ocorre com os primei-                      leva ao credo dogmtico os sentimentos e as
ros princpios de que temos inteligncia, ou                     imaginaes que condicionam a sua validade
porque  conhecido atravs de outro, como                        religiosa. Essas idias de Newmann, retomadas
ocorre com as concluses de que temos cin-                      e desenvolvidas por Oll-Laprune e por Blondel,
cia. No segundo modo, o intelecto adere a al-                    deram  filosofia da ao (v.).
guma coisa no porque tenha sido suficiente-
mente movido pelo prprio objeto, mas por                            ASSERO (gr. Ttcxpccvcn, A.yo 7io-
escolha voluntria que o inclina mais para um                    (pavxiK; lat. Oratio enunciativa; in. Statement;
lado do que para outro. Ora, se isso acontecer                   fr. Assertion; ai. Behauptung; it. Asserzione).
juntamente com a dvida e com o temor de                         Frase de sentido completo que afirma ou nega,
que o outro lado seja verdadeiro, ter-se- a opi-                podendo ser verdadeira ou falsa. Aristteles
nio; se acontecer, porm, com certeza e sem                     distinguiu a A., nesse sentido, da splica, da
aquele temor, ter-se- a f" (S. Th., II, 2, q. 1, a. 4).        ordem, etc, considerando que s ela  objeto
Na ltima fase da Escolstica, a doutrina do A.                  da lgica, ao passo que as outras formas de
foi elaborada por Ockham. Segundo ele, o ato                     expresso so objeto da retrica ou da potica
do A. acompanha o ato do aprendizado. "Quem                      (De interpr., 417 a 2-9). Disse que a A.  "uma
                                                                 frase que significa que alguma coisa inere ou
ASSILOGSTICO                                       85                                        ASSUNO

no em alguma coisa, segundo as divises do              devem-se alguns fenmenos aberrantes, como
tempo" e que a afirmao e a negao so as              a loucura, as simpatias ou antipatias irracionais,
duas formas fundamentais (ibid., 17 a 23). Bocio        as supersties, etc. Mas nas associaes natu-
traduziu a expresso de Aristteles por Oratio           rais baseiam-se todas as operaes do esprito
enunciativa (P.L., 64S, col. 314, 399), conside-         humano: o conhecimento nos seus vrios graus,
rando-a praticamente equivalente ao enuntia-             a imaginao, a vontade, etc. Para Locke, toda-
tum dos esticos. Na realidade, os dois termos           via, a A. de idias assume formas diferentssimas.
so equivalentes, se no forem consideradas as           Hume reduziu-as a trs princpios apenas: a
diferenas do contexto em que se encontrem               semelhana, a contigidade no tempo e no
(v. ENUNCIADO; PROPOSIO).                              espao e causa e efeito (Inq. Cone. Underst.,
    Na lgica matemtica contempornea, Russell,         III). Abandonado em filosofia, depois de Kant,
com base em Frege e acompanhado por muitos               como princpio explicativo de toda a vida espi-
outros lgicos, introduziu um smbolo especial           ritual, a A. permaneceu o princpio explicativo
                                                         da psicologia cientfica desde a metade do sc.
('--'), a ser anteposto ao smbolo da assero.
                                                         XIX at os princpios deste sculo. No perodo
A lgica terminista medieval julgava, porm,
                                                         contemporneo a psicologia da forma ou ges-
que as expresses " verdade que 'p'" e 'p'
                                                         taltismo (v.) impugnou o prprio pressuposto
(onde 'p'  sinal de uma proposio) devem ser
                                                         atomista em que se fundava a teoria da asso-
consideradas sinnimas. Contudo, a A. implica            ciao.
que se acredita ou se assente na proposio (v.)
expressa; como tal, s vezes  distinguida de               ASSOCIACIONISMO (in. Associationism, fr.
enunciado (v.). Cf. ASSENTIMENTO.          G. P.         Associationnisme, ai. Associazionstheorie, it. As-
                                                         socazionsm). Doutrina filosfica e psicol-
  ASSILOGSTICO. V. ANAPODTICO.
                                                         gica cujo princpio explicativo da vida espiritual
    ASSOCIAO DE IDIAS (in. Association
                                                          a associao de idias (v.). O pressuposto do
ofideas; fr. Association des ides; ai. Ideenas-         A.  o atomismo psicolgico, isto , a resoluo
soziation; it. Associazione delle ide). Com essa        de cada evento psquico em elementos simples
expresso, indica-se a conexo recproca dos             que so as sensaes, as impresses, ou, gene-
elementos da conscincia, conexo pela qual              ricamente, as idias. O fundador do A.  Hume,
tais elementos, quaisquer que sejam, evocam-             mas um de seus maiores divulgadores foi o
se uns aos outros, segundo uniformidades ou              mdico ingls David Hartley (1705-57), segun-
leis reconhecveis. A semelhana, a continuida-          do quem a associao de idias , para o ho-
de e o contraste constituem as uniformidades             mem, o que a gravitao  para os planetas: a
ou leis fundamentais da A., que j haviam sido           fora que determina a organizao e o desen-
reconhecidas por Plato (Fed., 76 a) e por Aris-         volvimento do todo. O A. encontrou outras ma-
tteles (De memria et reminiscentia, II, 451 b          nifestaes importantes na obra de J. Mill (1773-
18-20). Em seguida, o fenmeno no atraiu mais           1836), que o utilizou na anlise dos problemas
a ateno dos filsofos at a Idade Moderna.             morais, explicando pela associao entre o
Hobbes, em Leviathan, dedica um captulo (o              prazer prprio e o alheio a transio da condu-
III)  A. das imagens, mas foi Locke quem criou          ta egosta  conduta altrusta, e de Stuart Mill
a expresso "A. de idias" e introduziu o fen-          (1806-73), que o utilizou no estudo de proble-
meno a ela relativo como princpio de explica-           mas morais e lgicos. Mas, depois de Stuart
o da vida da conscincia. A importncia que            Mill, o A. deixou de ser uma doutrina filosfi-
a A. adquire em Locke deriva do pressuposto              ca viva e permaneceu to-somente como hip-
atomstico da sua filosofia: tudo o que a cons-          tese operacional no domnio da psicologia
cincia , nas suas vrias manifestaes,  pela         cientfica, de onde foi excluda s nos ltimos
combinao variada dos elementos simples                 decnios por obra da psicologia da forma (v.
fornecidos pela experincia, isto , das idias.         PSICOLOGIA).
 "Algumas das nossas idias tm entre si corres-
                                                            ASSUNO (gr. ^fjl|/i; lat. Sumptio; in. As-
 pondncia e conexo natural, e a tarefa e a
                                                         sumption, sumpton; fr. Assomption; ai. Vorder-
excelncia da nossa razo esto em rastre-las
                                                         satz, it. Assunzione). A proposio que se es-
e mant-las juntas na unio e na correspondn-           colhe como premissa do raciocnio; ou ento o
 cia que se fundam em serem elas naturais. Mas,          ato de escolher uma proposio com essa fina-
 afora isso, h outra A. de idias que se deve ao        lidade (cf. CCERO, De divin., II, 53, 108).
 acaso e ao hbito" (Ensaio, II, 33,  5). A tais
                                                            Mais precisamente, a proposio que se es-
 combinaes acidentais ou habituais de idias
                                                         colhe como primeira premissa do silogismo e
ASTROLOGIA                                                86                                      ATANATISMO


que s vezes  tambm chamada lema (v.) (cf.                   triumphatus, 1627). Outros filsofos foram hos-
HAMILTON, Lectures on Logic, I, p. 283).                       tis  astrologia, embora admitindo a validade
   A A. no implica necessariamente a verdade                  da magia. Assim, p. ex., Pico delia Mirandola,
da premissa que se assume. Pode-se assumir                     que escreveu as Disputationes adversus astro-
uma proposio verdadeira ou uma hiptese                      logos, em que acusa a A. de tornar os homens
ou ainda uma proposio falsa com o fim de                     escravos e miserveis; o mesmo fez Jean Baptste
refut-la. O termo  equivalente a. posio (v.).              van Helmont, que negou a influncia dos astros
   ASTROLOGIA (gr. oTpoXoya; lat. Astrolo-                   nos acontecimentos humanos (De vita longa,
gia; in. Astrology, fr. Astrologie, ai. Astrologie, it.        15, 12).
Astrologia). Crena na influncia dos movimen-                     A A. perdeu fundamento cientfico com a
tos dos astros sobre o destino dos homens                      cincia moderna, que, para afirmar qualquer
e cincia, ou pretensa cincia fundada nessa                   relao causai, exige que tal relao se verifi-
crena. A A. liga-se ao nascimento da astrono-                 que de modo uniforme em um nmero de ca-
mia no mundo oriental e acompanhou a astro-                    sos suficientemente grande. A relao causai
nomia na primeira parte da sua histria. Segun-                entre os movimentos dos astros e os eventos
do F. Cumont, foram os caldeus os primeiros a                  humanos poderia, portanto, ser reconhecida
conceber a idia de uma necessidade inflexvel                 como tal s com base em observaes repeti-
que regula o universo e a substituir por essa                  das e repetveis que evidenciassem todos os
idia a idia do mundo dirigido por deuses, em                 seus elos intermedirios, de tal modo que o seu
conformidade com suas paixes. A idia lhes                    funcionamento fosse entendido. Nada de se-
foi sugerida pela regularidade dos movimentos                  melhante se verificou na A., que ainda se ba-
dos corpos celestes (CUMONT, Oriental Religions                seia em antigos textos e tradies, em simbolis-
in Roman Paganism, trad. in., p. 179). Essa
                                                               mos no passveis de verificao e em crenas
crena levou a estabelecer uma correspondn-
cia entre o macrocosmo (mundo) e o micro-                      mgicas ou teosficas. Por outro lado, as cren-
cosmo (homem): correspondncia pela qual os                    as astrolgicas esto entre as mais difundidas
eventos de um se refletiriam nos eventos do                    at mesmo no mundo contemporneo, to
outro e seria possvel, a partir do conhecimen-                permeado de esprito cientfico: talvez o esp-
to dos primeiros, predizer de algum modo                       rito contemporneo encontre nelas uma com-
os segundos. A A. difundiu-se no Ocidente no                   pensao para a falta de segurana caracters-
perodo greco-romano. Assim como os antigos                    tica da sua situao e, nas predies astrolgicas,
caldeus, a filosofia rabe a justificou com base               um meio de delimitar, embora de modo arbi-
na necessidade universal que une todos os even-                trrio e fantstico, as previses em torno de seu
tos do mundo e que, partindo de Deus, como                     destino prximo ou remoto.
Primeiro Motor, vai at aos eventos humanos.                       ASTCIA DA RAZO (in. Astuteness ofthe
Essa cadeia necessria passa pelos eventos ce-                 rason; fr. Astuce de Ia raison; ai. List der Ver-
lestes: os terrestres e os humanos no so de-                 nunft; it. Astuzia delia ragione). Esse foi o nome
terminados diretamente por Deus, mas so                       que Hegel deu ao fato de a Idia Universal
determinados por Ele atravs dos eventos ce-                   fazer que, na histria, as paixes dos homens
lestes, isto , os movimentos dos astros. De                   atuem como instrumentos seus, gastando-as e
modo que tais movimentos so os que determi-                   consumindo-as para os prprios fins. "A Idia
nam imediatamente os eventos do mundo                          paga o tributo da existncia e da caducidade
sublunar e, portanto, do mundo humano; o seu                   no de seu bolso, mas com as paixes dos indi-
conhecimento torna possvel a previso destes                  vduos. Csar devia cumprir o que era necess-
ltimos. As crenas astrolgicas eram comuns                   rio para derrubar a liberdade decrpita; a sua
na Idade Mdia, apesar das condenaes ecle-                   pessoa pereceu na luta, mas o que era necess-
sisticas: o prprio Dante compartilhava delas                 rio ficou: a liberdade segundo a idia jazia mais
(Conv., II, 14; Purg., XXX, 109 ss.). No Renas-                profunda do que o acontecer externo" (Phil.
cimento, foram defendidas e justificadas por                   der Geschicbte, ed. Lasson, pp. 83-84; trad. it.,
homens como Paracelso, Bruno, Campanella.                      p. 98).
Este ltimo dedicou uma obra  A., Astro-
logicorum Libri VII, 1629, e dela se valeu para                    ATANATISMO (in. Athanatism; fr. Athana-
confirmar seu vaticnio do iminente retorno do                 tisme, ai. Athanatismus; it. Atanatismo). Assim
mundo  unidade religiosa e poltica (Atheismus                foi chamada por alguns autores do sc. XIX a
                                                               doutrina da imortalidade da alma.
ATARAXIA                                              87                                          ATESMO

   ATARAXIA (gr. xapa^oc; in. Ataraxia, fr.              admitir s os realizados em altares pblicos e
Ataraxie, ai. Ataraxie, it. Atarassia). Termo usa-         com ritual estabelecido {Leis, X, 909 d).
do primeiramente por Demcrito (Fr. 191), de-                  A anlise de Plato eqivale a dizer que a
pois pelos epicuristas e pelos esticos, para              nica forma de A. filosfico  o materialismo
designar o ideal da imperturbabilidade ou da               naturalista, para o qual o corpo precede a alma;
serenidade da alma, em decorrncia do dom-                as outras formas so mais preconceitos vulga-
nio sobre as paixes ou da extirpao destas (v.           res do que crenas filosficas (embora a pri-
APATIA). Analogamente, "o objetivo do ceticis-             meira delas, o indiferentismo dos deuses, vies-
mo  a A. nas coisas opinveis e a moderao               se a ser adotada pelos epicuristas). Um olhar
nas coisas que so por necessidade" (SEXTO                 para o curso posterior da filosofia ocidental
EMPRICO, Pirr. hyp., I, 25).                              mostra que, ao lado do materialismo, podem
    ATESMO (gr. BeT/n; lat. Atheismus; in.             ser considerados como formas de A. filosfico
Atheism; fr. Athisme, ai. Atheismus; it. Atesm).        o ceticismo, o pessimismo e o pantesmo.
, em geral, a negao da causalidade de Deus.                 ls Na Idade Moderna, a coincidncia entre
O reconhecimento da existncia de Deus pode                materialismo e A. foi afirmada por Berkeley,
ser acompanhado pelo atesmo se no incluir                que, precisamente por fora dessa coincidn-
tambm o reconhecimento da causalidade es-                 cia, foi induzido a sustentar a irrealidade da
pecfica de Deus. A primeira anlise do A. que             matria (v. IMATERIALISMO). Se se admitir que a
a histria da filosofia recorda  a de Plato, no          matria  real, a existncia de Deus ser intil,
X livro das Leis. Plato considera trs formas de          porque a prpria matria vem a ser a causa de
A.: 1B negao da divindade; 2Q crena de que              todas as coisas e das idias que esto em ns.
a divindade existe, mas que no cuida das coi-             A existncia da matria  o principal funda-
sas humanas; 3 crena de que a divindade pode             mento do A., do fatalismo e da prpria idolatria
tornar-se propcia com doaes e oferendas. A              (Princ. ofHum. Knowledge,  92-94). Efetiva-
primeira forma  o materialismo, que defende               mente se poderia dizer que um dos fundamen-
que a natureza precede a alma, isto , que a               tos do A.  a causalidade da matria e no a sua
matria "dura e mole, pesada e leve" precede               realidade. O materialismo setecentista de La
"a opinio, a previso, o intelecto, a arte e a            Mettrie e de Holbach, assim como o oitocentis-
lei". Esse  o erro de todos os filsofos da na-           ta de L. Buchner, Ernst Heckel e Flix Le Dantec,
tureza que consideram a gua, o ar e o fogo                tem esse fundamento. Deus  eliminado como
como princpios da coisas e os chamam "natu-               princpio causai de explicao, porque se ad-
reza" por entenderem que so a origem delas                mite a matria como tal.
{Leis, X, 891 c, 892 b). Para refutar o materialis-            2e A segunda forma de A. filosfico  a c-
mo s resta demonstrar que a alma precede a                tica, cuja primeira manifestao se encontra no
natureza; e Plato demonstra que o prprio                 neo-acadmico Carnades de Cirene (214-129
movimento dos corpos celestes pressupe um                 a.C). Este no s demonstra a debilidade das
Primeiro Motor imaterial (v. DEUS, PROVAS DE).             provas aduzidas sobre a existncia da divinda-
A segunda forma de A., que consiste em julgar              de, como tambm mostra as dificuldades ine-
 que a divindade no se ocupa das coisas huma-             rentes ao conceito de divindade. P. ex., diz
 nas,  refutada por Plato com o argumento de             Carnades: "Se os deuses existem, so vivos; se
 que isso eqivaleria a admitir que a divindade            vivos, sentem... Se sentem, recebem prazer ou
  preguiosa e indolente, e a consider-la infe-          dor. E se recebem dor, so passveis de pertur-
 rior ao mortal mais comum, que sempre quer                bao e de mudanas para pior; logo so mor-
 aperfeioar a sua obra, por menor que seja.               tais" (SEXTO EMPRICO, Adv. math., IX, 139-140).
 Enfim, a maior aberrao  a dos maus que                 Ponto de vista anlogo  o elaborado na Idade
 crem poder tornar a divindade propcia com               Moderna por Hume, em Dilogos sobre a reli-
 donativos e oferendas. Esses pem a divindade             gio natural. Hume julga impossvel uma pro-
 no mesmo nvel dos ces que, amansados com                va apriori existncia de Deus, j que a existn-
 presentes, permitem que os rebanhos sejam                 cia  sempre matria de fato. Quanto s provas
 roubados, e abaixo dos homens comuns, que                 a posteriori, ele rejeita a validade das provas
 no traem a justia aceitando presentes ilicita-          cosmolgicas, considerando ilegtimo pergun-
 mente oferecidos. Plato  to severo com essa            tar-se a causa de um conjunto de indivduos.
 ltima forma de A. que, para evit-la, desejaria          "Se se mostra a causa de cada indivduo em um
 impedir qualquer forma de sacrifcio privado e            conjunto que compreende vinte indivduos, 
ATESMO                                                                                        ATENO

absurdo perguntar depois a causa de todo o            Belfort-Bax, p. 71). Tesmo e pantesmo pres-
conjunto, que j foi dada com as causas parti-        supem o otimismo que no s  desmentido
culares. Isto quer dizer que no tem sentido          pelo fatos, pois vivemos no pior dos mundos
perguntar a causa do mundo na sua totalidade.         possveis, mas  tambm pernicioso, porque
Valor maior tem a prova fsico-teolgica, mas         no faz mais do que atar os homens  impiedosa
esta pode permitir somente remontar a uma             e cruel vontade de viver (Die Welt, II, cap. 46).
causa proporcional ao efeito; e, como o efeito,       Na filosofia contempornea, a doutrina de Sartre
isto , o mundo,  imperfeito e finito, a causa       representa um A. pessimista atualizado pelas
deveria ser igualmente imperfeita e finita. Mas       novas diretrizes da especulao. O fundamen-
se a divindade for considerada imperfeita e finita,   to desse pessimismo no so o mal ou a dor
no h motivo para consider-la nica. Se uma         como tais, mas a ambigidade radical, a in-
cidade pode ser construda por muitos homens,         certeza da existncia humana lanada no mun-
por que o universo no poderia ter sido criado        do e dependente s da sua liberdade absoluta, que
por muitas divindades ou demnios"? {Works,           a condena ao fracasso. Segundo Sartre, no h
II, 1827, p. 413). Por fim, a disputa entre tesmo    Deus, mas h o ser que projeta ser Deus, isto ,
e A. torna-se uma questo de palavras: "O testa      o homem: projeto que , ao mesmo tempo, ato
admite que a inteligncia original  muito dife-      de liberdade humana e destino que a condena
rente da razo humana. O ateu admite que o             falncia. {Ltre et le nant, pp. 653 ss.)
princpio original da ordem tem alguma analo-             ATENO (in. Attention; fr. Attention; ai.
gia remota com a prpria razo. Quereis ento,        Aufmerksamkeit; it. Attenzione). Noo relati-
senhores, ficar discutindo o grau de analogia e       vamente recente (sc. XVII), com a qual se en-
entrar numa controvrsia que no admite sig-          tende em geral o ato pelo qual o esprito toma
nificado preciso nem, portanto, qualquer con-         posse de forma clara e vivida de um dos seus
cluso?" {Ibid., 535.) Esse tipo de ceticismo,        possveis objetos, ou a apresentao clara e
porm, no  uma forma de A. professado como          vivida de um desses possveis objetos ao esprito.
muitas vezes ocorre com o materialismo: ten-          A noo de A. encontra-se em Descartes, que a
de, como se v, a eliminar a dramaticidade da         entende como o ato pelo qual o esprito toma
polmica sobre o A. e a demonstrar que, afinal,       em considerao um nico objeto durante al-
ela  insignificante.                                 gum tempo {Pass. de 1'me, I,  43). Locke cha-
    3e A terceira forma de A.  o pantesmo (v.).     ma de "A." a ateno passiva com que o esp-
Tambm aqui no se trata de um A. professa-           rito  atrado por certas idias, ao passo que
do, mas da acusao freqentemente feita aos          chama de "reflexo" a A. ativa pela qual ele
que identificam Deus com o mundo. Durante             escolhe certas idias como objetos privilegiados
muito tempo, Spinoza foi acusado de A. por ter        {Ensaio, II, I,  8). Diz ele: "Quando tomamos
dito Deus sive natura; na verdade, como nota-         nota das idias que se nos apresentam por si e
va Hegel, dever-se-ia falar, com mais exatido,       elas so, por assim dizer, registradas na mem-
de acosmismo (v.). Fichte tambm foi acusado          ria, trata-se da A." {ibid., II, 19,  1). Leibniz, no
de A. em conseqncia de um artigo publicado          entanto, d sentido ativo  A.: "Damos A. aos
em 1798 no Jornal Filosfico delena, "Do fun-         objetos que distinguimos e preferimos aos ou-
damento da nossa crena no governo divino             tros". E como formas da A. enumera a conside-
do mundo", no qual se identificava Deus com           rao, a contemplao, o estudo, a meditao
a ordem moral do mundo. Por causa da pol-            {Nouv. ess., II, 19,  1). Ela constitui a passagem
mica que se seguiu a esse artigo, Fichte foi          das pequenas percepes  apercepo {ibid.,
obrigado a demitir-se da Universidade de Iena.        pref.). A A. conserva esse mesmo carter ativo
Fichte, como Spinoza, rejeitava a acusao de         em Wolff {Psycbol. emp.,  237) e em Kant {Antr.,
A.; e como quer que se julgue a questo,             I,  3), que a define como "o esforo de tornar-
certo que pantesmo no  A. professado.              se consciente das prprias representaes".
    4S A. professado, em algumas de suas for-            A partir da segunda metade do sc. XIX,
mas,  o pessimismo. A desordem, o mal, a             com o surgimento da psicologia cientfica, a A.,
infelicidade do mundo so, segundo Schopen-           considerada como uma das condies da vida
hauer, obstculos insuperveis tanto para a           psquica,  includa no mbito dessa cincia.
afirmao do Deus pessoal, como quer o tesmo,        Seu conceito continua sendo o mesmo que fora
quanto para a identificao do mundo com Deus,        formulado pelos filsofos; os psiclogos distin-
feita pelo pantesmo (Selected Essays, trad. in.      guem a A. espontnea, passiva ou involuntria,
ATITUDE                                              89                                       ATIVIDADE


em que o objeto se impe  conscincia, e a A.            veis, ao menos em parte, de pesquisa objeti-
ativa, voluntria ou controlada, em que o sujei-          va, assim como as formas transcendentais no
to escolhe o objeto da sua ateno. A psicolo-            sentido kantiano. So as direes do sujeito e
gia contempornea considera a A. como adap-               utilizam determinada rede de formas transcen-
tao ativa a uma situao, como orientao               dentais" (Psychologie, intr.,  4). Mais preci-
seletiva em face dos objetos a serem percebi-             samente, a A. pode ser definida como o projeto
dos (d., p. ex., D. O. HEBB, The Organization             de opes porvindouras em face de certo tipo
of Behaviour, 1949, p- 4). Com essa noo de              de situao (ou problema), ou como um proje-
A., que se ajusta ao esquema geral predomi-               to de comportamento que permita efetuar op-
nante nas cincias antropolgicas, segundo o              es de valor constante diante de determinada
qual toda atividade do homem  a sua resposta             situao. Nesse caso, dizer, p. ex., que "xtem
a determinado complexo de estmulos (situa-               uma A. contrria ao casamento" quer dizer que
es ou problemas), a A. saiu do domnio da               x projeta no se casar; por isso, em geral, a A.
pura interioridade e foi reconhecida como uma             de x para S  um projeto de x referente ao
forma de comportamento (v.).                              comportamento que ter em face de situaes
    ATITUDE (in. Altitude, fr. Attitude, ai. Eins-        em que S possvel (cf. ABBAGNANO, Problemi
tellung; it. Atteggiamento). Termo amplamente             di sociologia, 1959, cap. V).
empregado hoje em dia em filosofia, sociologia                ATITUDE NATURAL (ai. Naturlicher Eins-
e psicologia para indicar, em geral, a orienta-           tellung). Husserl chamou assim a A. que con-
o seletiva e ativa do homem em face de uma              siste em assumir como existente o mundo co-
situao ou de um problema qualquer. Dewey                mum em que vivemos, formado de coisas, bens,
considera essa palavra um sinnimo de hbito              valores, ideais, pessoas, etc, tal como se ofere-
(v.) e de disposio (v.); em particular, parece-         ce a ns. A filosofia fenomenolgica pretende
lhe que ela designa "um caso especial de pre-             sair dessa A. por meio da dvida radical, que
disposio, a disposio que espera prorrom-              consiste em suspender a A. natural, isto , em
per atravs de uma porta aberta" (Human Nature            obstar a qualquer juzo sobre a existncia do
andConduct, 1922, p. 41). Lewis, analogamente,            mundo e de tudo o que est nele. S essa nova
diz que na A. o que est presente  captado em            A. seria o ponto de partida da pesquisa filos-
seu significado prtico e antecipatrio, como             fica (Jdeen, I,  27 ss.). (v. EPOCH; SUSPENSO
um indcio do que est alm, no futuro (An                DO ASSENTIMENTO).
Analysis of Knoivledge and Valuation, p. 438).               ATIVIDADE (in. Activity, fr. Activit, ai.
Stevenson utilizou amplamente esse termo para             Tatigkeit ou Aktivitt; it. Attivit). Esse termo
fazer a distino entre "significado descritivo" e        tem dois significados correspondentes aos dois
"significado emotivo" das palavras: ter-se-ia o           significados da palavra ao. De um lado, 
primeiro quando a resposta ao estmulo  um               empregado para indicar um complexo mais ou
conjunto de processos mentais cognoscitivos e             menos homogneo de aes voluntrias (com
o segundo, quando a resposta ao estmulo                 referncia ao 2Q significado da palavra ao),
um determinado impulso para a ao. Stevenson             como quando se diz "x desenvolveu intensa A.
chama de A. o impulso para a ao que, no se             poltica". De outro,  usado para indicar o modo
sabe por que,  qualificada de "emotiva", mas             de ser daquilo que age ou tem em seu poder a
acha difcil demais definir precisamente a A. e,          ao, como quando se diz "O esprito  ativo
por isso, assume-a no significado mais genri-            no conhecer", para dizer que no  simples-
co de disposio para a ao (Ethics and Lan-             mente receptivo ou passivo. O contrrio de A.,
guage, 1950, p. 60). Uma delimitao no mais             nesse segundo sentido,  "passividade", ao passo
 exata de significado, de resto concordante com           que o contrrio de A. no primeiro sentido 
 os comentrios acima citados,  dada por                 "inrcia" ou "inao".
 Richards, que considera as atitudes como "ati-
vidades imagisticas e incipientes, ou tendn-                O uso filosfico coincide com o uso da lin-
 cias para a ao" (Princ. ofLiterary Criticism,          guagem comum e, portanto, tambm  dplice.
 1924; 14a. ed., 1955, p. 112).                           Todavia, sobretudo no uso moderno, prevale-
                                                          ce o segundo significado. Malebranche (Re-
   Por outro lado, essa palavra foi usada com o           cherchedela vrit, II, 7), alguns idelogos fran-
mesmo significado fundamental de disposio               ceses e Galluppi (Filosofia delia volont, I, 6, 
por Jaspers, em Psicologia das vises do mundo            60) utilizam o termo A. para designar o modo
(1925). "As A. so disposies gerais, suscet-           de agir da vontade; mas, ainda nesse caso, o
 ATIVISMO                                               90                                             ATO

  significado do termo  o segundo, no o pri-              nesse sentido,  a doutrina de Georges Sorel
  meiro. Quanto a esse segundo significado, pode-           (Rflexions sur Ia volence, 1908), para quem
  se talvez remontar a Locke, que distingue a               uma filosofia social (em particular a que pre-
  "passividade" do esprito, pela qual ele recebe           nuncia a "greve geral")  um mito para unir e
  todas as idias simples, da A. pela qual ele              inspirar os trabalhadores na sua luta contra a
  "realiza por conta prpria numerosos atos" nos            sociedade capitalista. Nesse sentido, foram for-
  quais "exerce poder sobre as idias simples"              mas de A. o fascismo, o nazismo e o stalinismo
  {Ensaio, II, 12, 1). Leibniz (Nouv. ess., II, 21) e       (cf. K. MANNHEIM, Ideologie und Utopie, 1929,
  Kant usam para esse fim e com o mesmo sig-                III,  2; trad. it., p. 141).
  nificado a palavra espontaneidade (v.), embo-                 ATLNTIDA (gr. 'Atavu; in. Atlantis; fr.
  ra em Antropologia (I,  7S) Kant use a palavra           Atlantide, ai. Atlantis; it. Atlantide). Segundo
  "A.": "No que concerne ao estado das repre-               Timeu, de Plato, um sacerdote da deusa egp-
  sentaes, o meu esprito pode ser ativo, e               cia Sais teria narrado a Slon a histria da ilha
  ento demonstra poder (facultas), ou passivo,             Atlntida, situada alm das Colunas de Hrcules,
  e ento possui sensibilidade {receptivitas). Um
                                                            histria que se referia ao perodo anterior ao
  conhecimento encerra em si ambas as coisas, e
  a possibilidade de t-lo  chamada de poder               dilvio universal. Nessa ilha havia uma grande
  cognoscitivo da parte mais excelente, isto , da          monarquia que dominava a Lbia at o Egito e
  A. do esprito em ligar as representaes ou em           a Europa at a Etrria. Essa monarquia procu-
  separ-las umas das outras". A noo de A., como          rou vencer e sujeitar tambm a ento cidade de
  espontaneidade pura ou absoluta no sentido                Atenas, que, todavia, combateu sozinha e con-
  de poder criativo, est no cerne da filosofia de          seguiu vencer os invasores, garantindo a liber-
  Fichte. "A A. do eu consiste no ilimitado pr-            dade de todos os que habitavam aqum das
  se", diz Fichte (Wssenschaftslehre, 1794, II,           Colunas de Hrcules. Mais tarde, a A. afundou
  4), e, pondo-se a si mesmo, o eu tambm pe,              no mar e desapareceu, tornando impraticvel e
  ao mesmo tempo, o mundo extenso como seu                  inexplorvel o mar em que estava situada ( Tim.,
  prprio limite e condio. A partir de Fichte, a          24 ss.). A Nova Atlntida  uma obra pstuma
  filosofia moderna teve como um de seus temas              de Bacon, publicada em 1627.  a descrio de
  prediletos "a A. criadora do esprito"; em algu-          uma sociedade em que a cincia, posta a servi-
  mas, como o atualismo de Gentile, constitui o             o das necessidades humanas, descobriu ou
  tema dominante.  claro que, nessas formas                vai descobrindo as tcnicas para fazer o ho-
 extremas, a noo de atividade perde significa-            mem dominar o universo. A Nova A. , portan-
 do: este deriva da relao com a noo de pas-            to, um paraso da tcnica, onde so evadas 
 sividade, enquanto designa a possibilidade e o           perfeio as invenes e as descobertas de todo
 poder de ao em face de limites ou condies            o mundo; tem o aspecto de um enorme labora-
determinadas, ao passo que, onde a A.  infini-           trio experimental, em que os habitantes pro-
ta, no subsistem limites ou condies e a dis-           curam "estender os confins do imprio huma-
tino entre A. e passividade no tem sentido.            no a todas as coisas possveis". Os deuses tute-
     ATTVISMO (in. Activisni; fr. Activisme, ai.          lares da ilha so os grandes inventores de todos
Activsmus; it. Attivismd). O significado desse          os pases e as relquias sagradas so os mode-
termo deve ser distinguido do de atualismo               los das mais raras e importantes invenes.
(v.): este ltimo indica a teoria metafsica se-              ATO (gr. vpTEia, vxe^i^eia; lat. Actus-, in.
gundo a qual a realidade  ato ou atividade, ao          Act; fr. Acte, ai. Akte, it. Atto). Esse termo tem
passo que o termo em questo indica a atitude            dois significados: ls de ao, no sentido restrito
(s vezes racionalizada em teoria filosfica) que        e especfico desta palavra, como operao que
assume como princpio a subordinao de to-
                                                         emana do homem ou de um poder especfico
dos os valores, inclusive a verdade, s exign-
cias da ao, isto , ao xito ou ao sucesso da          dele (v. AO, 2). Dizemos, com efeito, "A.
ao (quase sempre, a ao poltica). O A. vin-          voluntrio", "A. responsvel" ou "A. do intelec-
cula-se, por isso, ao uso deliberado dos mitos           to", "A. moral", etc.; mas no dizemos "A. dos
(v.), que so construes teorticas sem ne-             cidos sobre os metais" ou "A. destrutivo do
nhuma garantia de verdade e, em alguns casos,            DDT", etc, usando, nesses casos, a palavra
decididamente falsas, mas que so, ou se acre-           "ao"; 2S de realidade que se realizou ou se vai
ditam, aptas a dirigir a ao para o xito. A.,          realizando, do ser que alcanou ou est alcan-
                                                         ando a sua forma plena e final, em contraposio
ATO                                                   91                                        ATOMISMO

com o que  simplesmente potencial ou poss-               o Primeiro Motor imvel dos cus; e, como o
vel.                                                       movimento dos cus  contnuo, seu motor
     No segundo sentido, essa palavra faz refe-            no s deve ser eternamente ativo, mas deve
rncia explcita  metafsica de Aristteles e            ser, por natureza, atividade, absolutamente des-
sua distino entre potncia e ato. O A.  a               provido de potncia. E, como a potncia  mat-
prpria existncia do objeto: est para a potn-           ria, ele  tambm desprovido de matria, A.
cia "assim como construir est para saber cons-            puro (Met., XII, 6, 1.071 b 22). A noo de
truir, como estar acordado est para dormir,               A. puro continuou sendo fundamental para a ela-
como olhar est para estar de olhos fechados               borao da idia de Deus no pensamento oci-
podendo enxergar, e assim como o objeto ex-                dental. A ela recorrem algumas modernas "filo-
trado da matria e elaborado  perfeio est             sofias do A.", como a de Gentile, que pretende
para a matria bruta e para o objeto ainda no             realizar a rigorosa e total imanncia de toda a
acabado" (Mel, IX, 6, 1.048 a 37). Alguns A. so           realidade no sujeito pensante, isto , no pensa-
movimentos, outros so aes: so aes os mo-             mento em ato( Teoria generale dello spirito come
vimentos que tm fim em si mesmos, p. ex.:                 attopuro, 1916); ou a de Louis Lavelle (LActe,
ver, entender ou pensar, ao passo que apren-               1937), na qual Deus  definido como A. parti-
der, caminhar, construir tem finalidade fora de            cipante e a existncia do homem como A. par-
si mesmos, na coisa que se aprende, no ponto               ticipado.
a que se quer chegar, no objeto que se cons-                  ATO, PSICOLOGIA DO (in. Psychology of
tri. A ao perfeita, que tem seu fim em si               the act; fr. Psychologie de Vacte; ai. Akte
mesma  chamada por Aristteles A. final ou                Psychologie, it. Psicologia delVatt). Psicologia
entelquiaiy.). Enquanto o movimento  o pro-              proposta por Franz Brentano em sua obra Psi-
cesso que leva gradualmente ao A. o que antes              cologia do ponto de vista emprico (1874), vol-
estava em potncia, a entelquia  o termo                 tada para a considerao do A. intencional que
final (telos) do movimento, a sua perfeita reali-          apresenta determinado contedo, em vez de
zao. Como tal  tambm a realizao com-                 considerar o prprio contedo; p. ex., sentir,
pleta, portanto, a forma perfeita do que vem a             imaginar ou querer, em vez das sensaes, das
ser, a espcie e a substncia. O A. precede a              imagens ou das coisas desejadas (v. INTENO).
potncia tanto em relao ao tempo quanto em                  ATO FUNDANTE (ai. Begrndender Akt).
relao  substncia, pois, embora a semente               Expresso usada por Husserl (Jdeen, I,  7) para
venha antes da planta, na realidade ela s pode            indicar o procedimento que serve para garantir
provir de uma planta. Aquilo que no devir                 a validade de uma cincia. Para o naturalista, o
ltimo , substancialmente, primeiro: a galinha            A. fundante  experimentar, que fixa um exis-
 anterior ao ovo (ibid., IX, 8, 1.049 b 10 ss.).          tente emprico; para o gemetra, que no estu-
Tais distines dominaram por muitos sculos               da a realidade, mas possibilidades ideais, o A.
o pensamento ocidental e passaram a fazer parte            fundante  a viso da essncia.
da linguagem comum. S. Toms reprope es-
                                                              ATMICO (in. Atomic; fr. Atomique, ai.
sas distines com sua costumeira clareza a prop-
                                                           Atomik, it. Atmico). Elementar, no redutvel
sito da diferena entre A. e ao, dizendo: "O A.
                                                           a partes constitutivas mais simples. Fato A.: tra-
 duplo, isto , primeiro e segundo. O A. pri-
                                                           duziu-se por essa expresso o que Wittgenstein
meiro  a forma e a integridade da coisa {forma
                                                           chamara "estado de coisas" (Sachverbalte), isto
 et integritas rei); o A. segundo  a operao
                                                           , o fato enquanto elemento ltimo do mundo
 (operatio)" (S. Th., I, q. 48, a. 5; Contra Gent.,
                                                           (Tractatus, 1922, 2). Proposio A.: proposio
 II, 59). Em outros termos, toda realidade como
                                                           elementar, isto , a que "afirma a existncia de
tal  A. e, portanto, a ao tambm  A.; p. ex.,
                                                           um fato A." (ibid. ,4,21). Corresponde  propositio
 uma operao da vontade ou do intelecto,
                                                           categrica da lgica escolstica:  uma propo-
 embora no se trate, nesse caso, de um objeto
                                                           sio imediatamente verdadeira ou falsa (pre-
 existente.
                                                           cisamente como imagem de um fato A.), no
   Na conceo aristotlica, a distino entre             decomponivel em outras proposies mais sim-
matria e A. determina a ordenao hierrquica             ples.                                  G. P.-N. A.
de toda a realidade, que vai de um limite infe-               ATOMISMO (in. Atomism; fr. Atomisme, ai.
rior extremo, que  a matria-prima (v.), pura             Atomismus; it. Atomismo). Entendem-se por essa
potencialidade indeterminada, at Deus, que               palavra trs doutrinas diversas, que tm finali-
puro A., sem mescla de potencialidade. Deus               dades diferentes: Ia o A. filosfico ou naturalis-
ATOMSTICO                                           92                                            TOMO


mo atomista; 2a a teoria atmica; 3a a concep-            alternativas de especulao e de pesquisa. Foi
o atomstica da realidade psquica ou social            o instrumento principal da explicao mecni-
ou da linguagem.                                          ca das coisas e, em geral, do mundo (v. MECA-
    Ia O A. filosfico  o de Demcrito e Leucipo,        NISMO). Leucipo e Demcrito elaboraram a se-
dos epicuristas e de Gassendi.  uma filoso-              guinte noo do sc. V a.C: o .  um elemento
fia da natureza que no tem maiores bases                 corpreo, invisvel pela sua pequenez e no
experimentais do que a fsica aristotlica (v.            divisvel. Os A. diferem s pela forma e pela
TOMO).                                                   grandeza; unindo-se e desunindo-se no vcuo,
    2- A teoria atmica (in. Atomic theory, fr.           determinam o nascimento e a morte das coisas,
 Thorie atomique, ai. Atomtheorie, it. Teoria            e dispondo-se diferentemente determinam a sua
atmica)  a que foi formulada na cincia                 diversidade. Aristteles (Mel, I, 4, 985 b 15 ss.)
moderna pela primeira vez por Dalton; expri-              comparou-os s letras do alfabeto, que diferem
me o modelo que a cincia foi pouco a pouco               entre si pela forma e do lugar a palavras e a
fazendo do tomo (v.).                                    discursos diferentes, dispondo-se e combinan-
    3a A concepo atomstica (in. Atomistic idea;        do-se diferentemente. As qualidades dos cor-
fr. Ide atomistique, ai. Atomistsches Denken;           pos dependem, portanto, da configurao, da
it. Concezione atomistica) consiste em propor,            ordem ou do movimento dos . Por isso, nem
para explicar a vida da conscincia, da socieda-          todas as qualidades sensveis so objetivas e
de ou da linguagem, uma hiptese anloga                 pertencem realmente s coisas que as provo-
do A. filosfico ou da teoria atmica, afirman-           cam em ns. So objetivas as qualidades pr-
do que a conscincia, a sociedade ou a lingua-            prias dos A.: forma, dureza, nmero, movimen-
gem so constitudas de elementos simples irre-           to; mas o frio, o calor, os sabores, as cores, os
dutveis, cujas diferentes combinaes explicam           odores so somente aparncias sensveis, pro-
todas as suas modalidades. Assim fazem o                  vocadas por configuraes ou combinaes
associacionismo (v.), para a vida da conscin-            especiais de A., mas no pertencentes aos pr-
cia, e o individualismo (v.), para a vida da              prios . (DEMCRITO; Fr. 5, Diels). O movimen-
sociedade. Fala-se, portanto, de um A. associa-           to dos .  determinado por leis imutveis: "Nada,
cionista (p. ex., dele falavam JAMES, Psychology,         diz Leucipo (Fr. 2), "ocorre sem razo, mas tudo
I, 1890, p. 604, e KATZ, Gestaltpsychologie, cap.         ocorre por uma razo e por necessidade". O
I). A expresso "A. social"  usada freqente-            movimento originrio dos A., fazendo-os girar
mente para designar as doutrinas individualis-            e chocar-se em todas as direes, produz um
tas que consideram a sociedade resolvel intei-           vrtice que leva as partes mais pesadas para o
ramente nos indivduos que a compem.                     centro e impele as outras para a periferia. Seu
Finalmente, a expresso "A. lgico" foi empre-            peso, que os faz tender para o centro, , pois,
gada por Russell em 1918 para indicar a sua               um efeito do seu movimento vorticoso. Desse
filosofia. "O motivo de dar  minha doutrina o            modo, formam-se infinitos mundos que, inces-
nome de A. lgico  que os tomos aos quais               santemente, se geram e se dissolvem.
desejo chegar como resduos ltimos da anli-                 Esses fundamentos, prprios do velho ato-
se so tomos lgicos, e no tomos fsicos"              mismo, permaneceram inalterados nas outras
("The Phil. of Logical Atomism", in TheMonist,            formas de atomismo. A fsica de Epicuro repre-
1918, agora em Logic andKnowledge, Londres,               senta uma repetio da fsica de Demcrito: na
1956). J no livro Mtodo cientfico em filosofia         verdade, no tem muita importncia a variante
(1914), falara em "proposio atmica", enten-            de Epicuro, segundo a qual os . caem em
dendo a proposio que exprime um fato, isto              linha reta e que se encontram e produzem vr-
, que afirma que uma coisa tem certa qualida-            tices, quando, sem causa, se desviam da traje-
de ou que certas coisas tm certas relaes; e            tria retilnea (CCERO, Definibus, I, 18; De nat.
chamara de "atmico" o fato expresso pela pro-            deor, I, 69). A noo de . no  utilizada
posio atmica. Tais conceitos tambm cons-              durante toda a Idade Mdia, quando a nica
tituem os fundamentos do Tractatus logico-                teoria aceita  a aristotlica, das quatro causas
philosophicus (1922) de Wittgenstein.                     (v. FSICA). NOS primrdios da Idade Moderna,
    ATOMSTICO. V. ATOMISMO.                              embora essa noo retorne ocasionalmente --
    TOMO (gr. xo^ov; in. Atom; fr. Atome, ai.           p. ex., em Nicolau de Cusa e em Giordano
Atom; it. tomo). A noo de . ofereceu                 Bruno (De minimo, I, 2) --, s  utilizada como
filosofia ocidental uma das mais importantes              instrumento de uma teoria sistemtica por Pierre
TOMO                                                   93              ATO MONOTETICO e POLITETICO


Gassendi. Este, porm, admitindo que os . so               (sobre a uniformidade do nmero das partcu-
criados por Deus, por Ele dotados de movi-                   las contidas em dado volume de gs) permitia
mento e por Ele guiados e ordenados mediante                 estabelecer o peso dos A. relativamente ao A.
uma espcie de alma do mundo, retira da fsica               do hidrognio, assumido como unidade: o que
epicurista seu carter materialista e mecnico,              conferia aos A. realidade fsica (mensurvel). A
transformando-a em fsica espiritualista e finalista         noo de . devia sofrer transformao radical
(Syntagma Philosophiae Epicuri, 1658). Entre-                a partir da segunda metade do sc. XIX, com o
mentes, Descartes dera ensejo ao mecanicismo                 estudo dos fenmenos dos gases rarefeitos e
no-atomstico e considerara impossvel a pr-               das emanaes radioativas. O., indivisvel para
pria noo de . "Se os tomos existissem, de-               a qumica, no era mais indivisvel para a fsica.
veriam necessariamente ser estendidos e, nes-                Por volta de 1904, Thompson concebia o pri-
se caso, por menores que os imaginssemos,                   meiro modelo de ., imaginando-o constitudo
sempre poderamos dividi-los com o pensamento                por uma pequena bola com carga eltrica po-
em duas ou mais partes menores e, assim, con-                sitiva, em cujo interior houvesse certo nmero
sider-los divisveis" (Princ. pbil, II, 20). Foi            de eltrons. Mas algumas experincias de
provavelmente baseado nessa considerao que                 Rutherford demonstravam que a matria  bem
Leibniz aceitou a noo de um . no mais                    menos compacta do que levaria a supor o modelo
fsico, mas psquico, isto , da mnada (v.).                atmico de Thompson. Por isso, Rutherford,
    A cincia moderna, embora mecanicista, no               por volta de 1911, imaginava a estrutura do .
se vale, em princpio, do tomo.  verdade que,              como um sistema solar em miniatura, consti-
no final de ptica (1704), Newton aduzia um                  tudo por um ncleo central com carga eltrica
complexo de razes, isto , de experincias,                 positiva (comparvel ao Sol) e por vrios el-
para admitir que "todos os corpos so compos-                trons que giram em torno dele (comparveis
tos de partculas duras"; e formulava a hiptese             aos planetas). Uma inovao ulterior do mode-
de que "Deus, no princpio, tenha dado  ma-                 lo do . foi feita por Bohr, que, tendo em men-
tria a forma de partculas slidas, dotadas de              te a descoberta do quantum de ao, imaginou
massa, duras, impenetrveis e mveis, com di-                que o eltron percorre, em torno do ncleo,
menses, configuraes, propriedades e pro-                  determinado nmero de elipses e pode saltar
pores com o espao adequadas a cada fim                    de uma elipse para outra, libertando nesse sal-
para o qual as formou" (Optics, III, 1, q. 31); mas          to um quantum de energia. A descoberta do
 tambm verdade que essas e semelhantes                     princpio de indeterminao (v.) demonstra-
especulaes no pertenciam  cincia, mas                  va, porm, que no  possvel observar por
esfera das opinies particulares do cientista.               inteiro a trajetria de um eltron e que, por
Na realidade, a hiptese atmica ingressa na                 isso, a prpria noo de trajetria no tem sig-
cincia s no incio do sc. XIX, por meio da                nificado fsico (nada que no seja observvel
qumica. A lei das propores mltiplas, for-                ou mensurvel tem significado fsico). Mas, ento,
mulada por John Dalton, exprimia o fato de                   o prprio modelo de . de Bohr perdia signi-
que, quando uma substncia se combina com                    ficado fsico e deixava de ter a pretenso de ser
quantidades diferentes de outra substncia, es-              a imagem exata do . A partir de 1927, isto ,
tas quantidades esto entre si como nmeros                  da data em que Heisenberg descobriu o prin-
simples, isto , comportam-se como se fossem                 cpio de indeterminao, a cincia praticamen-
partes indivisveis. Mas as partes indivisveis outra        te abandonou qualquer tentativa de descrever
coisa no so seno tomos. Portanto, a hipte-              o . ou de defini-lo de um modo qualquer. No
se da composio atmica da matria como                     estado atual das coisas, o adjetivo "atmico"
explicao da lei das propores mltiplas era               permanece somente para designar a escala em
proposta pela primeira vez por Dalton em 1808.               que certos fenmenos podem ser observados
Embora suscitasse, imediatamente, uma oposi-                 e medidos.
o acirrada por aparecer como o retorno de                     ATO MONOTETICO e POLITETICO (ai
uma antiga doutrina metafsica, portanto, como               Monothetischer, Polythetischer Akt; it. Atto mo-
uma invaso do campo da metafsica por parte                 notetico, politetic). Foram esses os nomes da-
da cincia, na realidade essa era uma hiptese               dos por Husserl, respectivamente,  conscin-
aventada para explicar um fato bem verificado.               cia que se constitui na sua singularidade,
E mais do que hiptese, essa noo mostrou-se                transformando os elementos mltiplos em uni-
realidade quando, em 1811, a teoria de Avogadro              dade objetiva, e aos mesmos elementos mlti-
TOMO PRIMEVO                                            94                        AUMENTO e DIMINUIO

pios, ligados sinteticamente na conscincia "plu-             por Spinoza, com a nica correo de que, desde
ral" (Ideen, I,  119).                                       que no existem substncias finitas, os atribu-
   TOMO PRIMEVO (in. Primeval atom; it.                      tos podem ser somente de Deus. "Por A., en-
tomo primevo). Hiptese cosmognica que                      tendo o que o intelecto percebe da substncia
apresenta o universo como resultado da desin-                 como constituindo a essncia dela" (Et., I, 4).
tegrao radioativa de um tomo (G. LEMATRE,                 Deus ou a substncia consta de infinitos A.,
The Primeval Atom, An Essay on Cosmogony,                     cada um dos quais exprime a sua essncia in-
1950) (v.   COSMOLOGIA).                                      finita e eterna e por isso existe a sua essncia
   ATRIBUTTVA, PROPOSIO (in. Attributi-                     infinita e eterna e por isso existe necessaria-
veproposition; fr. Proposition attributive, ai. Attri-        mente (ibid., I, 11)-. de tais A. infinitos, porm,
butre Satz; it. Proposizione attributiv). Pro-              conhecemos s dois, quais sejam, o pensamento
posio que atribui ao sujeito uma qualidade,                 e a extenso (ibd., II, 1-2). Por sua imutabilidade
uma condio, uma atividade ou uma passivi-                   e conexo com a substncia divina, os atribu-
dade; p. ex., "A gua ferve a 100C" (B. ERDMAN,              tos so, por sua vez, eternos e infinitos e  por
Logik, I,  48, 307).                                        seu intermdio que os seres finitos (os modos da
   ATRIBUTIVA e RETRIBUTTVA, JUSTIA                          substncia) se originam de Deus com absoluta
(lat. Justitia attributixjustitia expletrix). Grcio          necessidade (Jbid., I, 21-23).
distinguiu duas espcies de justia que cor-                      Na filosofia moderna e contempornea, a pa-
respondem, respectivamente, ao direito imper-                 lavra A.  usada raramente, salvo no seu signifi-
feito e ao direito perfeito. A justia A., que                cado lgico-gramatical de predicado.
concerne ao direito imperfeito, consiste em dar                   ATUALISMO (in. Actualism; fr. Actualisme,
a outra pessoa aquilo que ela no tem direito                 ai. Aktualittstheorie, it. Attualismo). Toda dou-
 de pretender: portanto, atribui-se alguma coisa              trina que reconhea como substncia ou princpio
 que a pessoa antes no possua. A justia re-                do ser um ato ou uma atividade. Toda doutrina
tributiva concerne ao direito perfeito e consiste             desse gnero  uma forma de idealismo, mais
 em dar ao outro o que este tem o direito de                  precisamente de idealismo romntico. A. ,
 pretender, vale dizer, a devida recompensa (De               portanto, a doutrina de Fichte, que reconhece
jure belli acpacis, I, 1, 8).                                 como princpio a atividade do Eu infinito. A.
     ATRIBUTO (lat. Attributum; in. Attribute, fr.            tambm  a doutrina de Hegel, para quem a
Attribut; ai. Attribut; it. Attributo). O termo la-           Idia  atualidade perfeita de conscincia. Na
tino corresponde, provavelmente, ao que Aris-                 Itlia, o termo A. restringiu-se a indicar o idea-
tteles chamava de "acidente por si" (An.post.,               lismo de Gentile, porquanto reduz toda reali-
 I, 22, 83 b 19; Mel, V, 30,1.025 a 30): indica um            dade ao ato do pensamento ou ao "pensamen-
 carter ou uma determinao que, embora no                  to em ato", ou "pensamento pensante" (Teoria
 pertena  substncia do objeto, como decorre                generale dello spirito come atto puro, 1916).
 da definio, tem causa nessa substncia, (v.                Nesse sentido, Gentile falava em "atualidade"
ACIDENTE). Na Escolstica, esse termo foi usado               ou "atuosidade" do esprito; e do esprito como
 quase exclusivamente para indicar os A. de Deus,             "autoposio", "autocriao" ou "autctise". Esse
 como bondade, onipotncia, justia, infinitude,              termo deve ser distinguido de ativismo (v.).
 etc, que tambm so chamados nomese Deus                        ATUANTE (ai. Fungieren). Vocbulo usado
 (cf. S. TOMS, S. Th., I, q. 33). Esse uso termi-            por Husserl nas ltimas obras para indicar o
 nolgco foi modificado por Descartes com a                  eu, "sujeito transcendental" ou "plo egolgico"
 extenso do termo s qualidades permanentes                  que "atua para a constituio do mundo", ou seja,
 da substncia finita. Com efeito, Descartes en-              age como princpio constitutivo do "mundo da
 tende por A. as qualidades que "inerem  subs-               vida" mesmo antes que a reflexo fenomeno-
 tncia". Por isso, "em Deus dizemos que no h               lgica o reconhea como tal (Krisis,  54). Nas
 propriamente modos ou qualidades, mas so-                    obras inditas, fala tambm, com sentido an-
 mente A., porque nenhuma variao se deve                    logo, de "intencionalidade atuante" (cf. E. FINK,
 conceber n'Ele. E mesmo nas coisas criadas, o                em Revue Internationale de Philosophie, 1939,
 que nelas no se comporta nunca de modo                      p. 266; G. BRAND, Weltlch undZeit, 1955,  6).
 diferente, como a existncia e a durao, no                   AUMENTO e DIMINUIO (gr. a^noi Kori
 deve ser, na coisa que existe e dura, chamada                cpOoi; lat. Auctio et diminutio-, in. Increaseand
 qualidade ou modo, mas A." (Princ. phil, I,                  diminution; fr. Augmentaton etdiminution; ai.
  56). Essa terminologia foi totalmente adotada              Vermehrung und Veringerung; it. Aumento e
AURAVITALIS                                          95                              AUTOCONSCINCIA


diminuzone). Segundo Aristteles, uma das                angstia" (ibid.,  64). Por outro lado, a existn-
quatro espcies de mudana, mais precisamente             cia inautntica  caracterizada pela tagarelice,
a mudana segundo a categoria da quantidade,              pela curiosidade e pelo equvoco, que consti-
tambm ela redutvel, como todas as demais,              tuem o modo de ser cotidiano, impessoal do
mudana de lugar (Fs., IV, 4, 211 a).                    homem e representam, portanto, uma deca-
   AURAVITALIS. Termo empregado por Jean                  dncia do ser em relao a si mesmo (ibid., 
Baptiste van Helmont (1577-1644), para indi-              38). Deve-se, porm, advertir que a distino e
car a fora que move, anima e ordena os ele-              a oposio entre autenticidade e inautenticidade
mentos corpreos.                                         no implicam nenhuma valorizao preferen-
  AUSNCIA. V. NADA.                                      cial. A inautenticidade faz parte da estrutura do
  AUTARQUIA ou AUTARCIA (gr. axpKeva;                   ser tanto quanto a autenticidade. "O estado de
in. Self-sujficiency, fr. Autarchie, ai. Autarkie,        decadncia do Ser-a no deve ser entendido
it. Autarchid). A condio de auto-suficincia            como uma queda de um 'estado original' mais
do sbio, para quem ser virtuoso basta para ser           puro e mais alto. De algo semelhante no s
feliz, segundo os cnicos (DIG. L, VII, 11) e os         no temos nenhuma experimentao ntica,
esticos (Md., VII, 1, 65).                               como nem mesmo o caminho de uma possvel
    AUT AUT.  o ttulo de uma das primeiras              interpretao ontolgica" (ibid.,  38). Com sen-
obras de Kierkegaard (1843), ttulo que expri-            tido anlogo ao de Jaspers e de Heidegger, as
me a alternativa que se oferece  existncia              duas palavras tm sido usadas com freqncia
humana, de duas formas de vida, ou, como diz              na filosofia contempornea.
Kierkegaard, de dois "estados fundamentais da                 AUTISMO (in. Autism; fr. Autisme, ai. Autis-
vida": a vida esttica e a vida moral. Entre esses         mus; it. Autismo). Termo criado por Bleuler
dois estados, assim como entre eles e o estado            (Lehrbuch der Psychiatrie, 1923) para indicar a
religioso, que Kierkegaard analisou em Temor              atitude que consiste na absoro do indivduo
e tremor (1843), no h passagem nem possi-               em si mesmo, com a conseqente perda de
bilidade de conciliao, mas abismo e salto.              qualquer interesse pelas coisas e pelos outros.
Kirkegaard contraps o aut aut, isto , a forma           E um egocentrismo (v.) patolgico.
da alternativa,  forma da dialtica de Hegel, na             AUTOCENTRALIDADE (in. Self-centrality,
qual h sempre conciliao, sntese e harmonia            fr. Autocentralit, ai. Selbstcentralit; it. Auto-
entre os opostos (v. DIALTICA).                          centralit). Expresso empregada por Dilthey
    AUTNTICO (in. Authentic; fr. Authentique,            em Construo do mundo histrico. "Assim como
ai. Authentisch; it. Autentico). Termo emprega-           o indivduo, cada sistema cultural, cada comuni-
do por Jaspers (ao lado do termo inautntico,             dade tem em si o seu centro. Nele esto ligadas
simtrico e oposto) para indicar o ser que               a um todo nico a interpretao da realidade,
prprio do homem, em contraposio  perda                a valorizao e a produo dos bens" (Gesam.
 de si mesmo ou de sua prpria natureza, que             Schrift., VII, p. 154). A A. das estruturas histri-
a inautenticidade. "O A.", diz Jaspers, " o mais         cas revela-se eminentemente nas pocas, cada
 profundo, em contraposio ao mais superfi-              uma das quais  um horizonte fechado, no sen-
cial; p. ex., o que toca o fundo de toda existn-         tido de que as pessoas que nela vivem tm em
 cia psquica contra o que lhe aflora  epiderme,         comum a medida do seu agir, do seu sentir e do
 o que dura contra o que  momentneo, o que              seu entender.
 cresceu e se desenvolveu com a prpria pes-                  AUTOCONSCINCIA (in. Self-consciousness;
 soa contra o que a pessoa acolheu ou imitou"             fr. Autoconscence, ai. Selbstbewusstsein, it. Au-
 (PsychologiederWeltanschauungen, 1925, intr.,            tocoscienzd). Esse termo tem significado e his-
  3,1). Heidegger expressou em outros termos             tria diferentes de conscincia (v.). Na realida-
 a mesma oposio.- "Precisamente porque o                de, no significa "conscincia de si", no sentido
 Ser-a (isto , o homem)  essencialmente a sua          de cognio (intuio, percepo, etc.) que o
 possibilidade, esse ente pode, no seu ser, esco-         homem tenha de seus atos ou de suas manifes-
 lher-se e conquistar-se ou perder-se, ou seja,           taes, percepes, idias, etc, tampouco sig-
 no se conquistar ou conquistar-se s aparen-            nificando retorno  realidade "interior", de na-
 temente" (Sein undZeit, \S>21,  9). A possibi-          tureza privilegiada;  a conscincia que tem de
 lidade prpria do Ser-a  a morte: por isso, "O         si um Princpio infinito, condio de toda rea-
 Ser-a  autenticamente ele mesmo s no isola-           lidade. Esse termo tambm nada tem a ver com
 mento originrio da deciso tcita e votada             conhecimento de si (v.), que designa o conhe-
AUTOCONSCIENCIA                                      96                              AUTOCONSCIENCIA

cimento mediato que o homem tem de si como                absoluto e criador, considerando, portanto, a
de um ente finito entre os outros.                        A. como autoproduo ou autocriao. A A.
    Nesse sentido, pode-se dizer que a histria           toma-se, assim, o princpio no s do conheci-
desse termo comea com Kant, que o usou como              mento, mas da prpria realidade; e princpio
alternativa para o termo conscincia (v.). O              no no sentido de condio, mas de fora ou
prprio Kant resumiu, em uma nota da Antro-               atividade produtiva. Autoproduzindo-se, o Eu
pologia ( 4), a sua doutrina a esse respeito. "Se        produz, ao mesmo tempo, o no-eu, isto , o
ns representarmos a ao (espontaneidade)                mundo, o objeto, a natureza. Diz Fichte: "No
interna pela qual  possvel um conceito (um              se pode pensar absolutamente em nada sem
pensamento), isto , a reflexo, e a sensibilida-         pensar ao mesmo tempo no prprio Eu como
de (receptividade), pela qual  possvel uma              consciente de si mesmo; no se pode nunca
percepo (perceptid) ou uma intuio emprica.,          abstrair da prpria A." (Wissenschaftslehre, 1794,
isto , a apreenso, providas ambas de cons-               1, 7). Mas tal A. , na realidade, o princpio
cincia, a conscincia de si mesmo (apperceptio)          criador do mundo: "O Eu de cada um , ele
poder ser dividida em conscincia da reflexo            prprio, a nica Substncia suprema", diz Fichte
e em conscincia da apreenso. A primeira                criticando Spinoza (Ibid.,  3, D 6); "A essncia
conscincia do intelecto; a segunda, do sentido           da filosofia crtica consiste no fato de que um
interno; aquela  chamada de apercepo pura              Eu absoluto  colocado como absolutamente
(e, falsamente, de sentido ntimo) e esta  cha-          incondicionado e no determinvel por nada
mada de apercepo emprica. Em psicologia,               mais alto".
indagamo-nos sobre ns mesmos segundo as                      Essa noo de A. torna-se o fundamento do
representaes do nosso sentido interno; em               Idealismo romntico. Diz Schelling: "A A. da
lgica, segundo aquilo que a conscincia inte-            qual ns partimos  ato uno e absoluto; e com
lectual nos oferece. Assim, o eu nos aparece              esse ato uno  posto no s o prprio Eu com
duplo (o que pode ser contraditrio): ls o eu             todas as suas determinaes, mas tambm qual-
como sujeito do pensamento (na lgica), ao                quer outra coisa que, em geral,  posta no lugar
qual se refere a apercepo pura (o eu que s             do Eu... O ato da A.  ideal e real ao mesmo
reflete) e do qual nada se pode dizer exceto              tempo e absolutamente. Graas a ele, o que
que  uma representao de todo simples; 2- o             foi posto realmente torna-se tambm real ideal-
eu como objeto da apercepo e, portanto, do              mente e o que se pe idealmente  posto tam-
sentido interno, que inclui uma multiplicidade            bm realmente" {System des tmnszendentalen
de determinaes que possibilitam a experin-             Ideai, 1800. seo III, advertncia). Quanto a
cia interna." A A. no , portanto, a conscincia         Hegel, j em Propedutica filosfica (Doutrina
(emprica de si), mas a conscincia puramente             do conceito,  22), dizia: "Como A. o Eu olha
lgica que o eu tem de si como sujeito de pen-            para si mesmo, e a expresso dela na sua pu-
samento, na reflexo filosfica. Sobre o eu de            reza  Eu = Eu, ou: Eu sou Eu"; e na Enciclop-
que se tem conscincia na apercepo pura,                dia ( 424): "A verdade da conscincia  a A.,
Kant falou na primeira edio da Crtica da               e esta  o fundamento daquela; de modo que,
Razo Pura como "eu estvel e permanente                  na existncia, a conscincia de um outro objeto
que constitui o correlato de todas as nossas               A.; eu sei o objeto como meu (ele  minha
representaes", ao passo que, na segunda edi-            representao) e, por isso, sei-me a mim mes-
o da obra, ele se tornou pura funo formal,            mo nele". Na sua forma mais elevada, a A.  "A.
desprovida de realidade prpria, mas ainda                universal", isto , razo absoluta. "A A., ou seja,
condio de todo conhecimento, alis, "princ-            a certeza de que suas determinaes so to
pio supremo do conhecimento" enquanto pos-                objetivas -- determinaes da essncia das coisas
sibilidade da sntese objetiva na qual consiste a         -- quanto seus prprios pensamentos,  a ra-
inteligncia. Precisamente por sua natureza               zo; esta, enquanto tem tal identidade,  no s
funcional ou formal, o eu puro, ou A. trans-              a substncia absoluta, mas tambm a verdade
cendental, no  um eu "infinito" e no tem               como saber" {Ene,  439): isto , a razo como
poder criativo: pode ordenar ou unificar o                substncia ou realidade ltima do mundo.
material, mas esse material deve ser-lhe dado
e, portanto, deve ser um material sensvel. Fichte            A A. como autocriao e, por isso, criao
transforma esse conceito funcional kantiano em            da realidade total, permanece como noo
conceito substancial: faz dele um Eu infinito,            dominante do Idealismo romntico, no s na
                                                          sua forma clssica (aqui mencionada), mas tam-
AUTOCONSERVAO                                        97                                    AUTONOMIA

bm nas suas formas recorrentes na filosofia                poderes humanos e entravam em conflito com
contempornea, quais sejam, o idealismo anglo-              o homem. O ingls Charles Babbage (1792-
saxo e o idealismo italiano (v. IDEALISMO). Fora            1871) projetou uma mquina calculadora que,
do Idealismo, essa noo no pode ser utiliza-              contudo, nunca foi construda.
da e nem apresenta problemas, j que os pro-                    Um A. lgico, ou seja, uma mquina capaz
blemas filosficos, psicolgicos e sociolgicos             de combinar proposies e delas tirar conclu-
inerentes  conscincia de si obviamente s                 ses, foi construdo por Stanley Jevons em 1869.
surgem quando por tal conscincia se enten-                 Em 1881, John Venn construiu um diagrama
dem situaes, condies ou estados de fato                 que podia ser empregado para ilustrar as rela-
limitados e determinaveis, e no uma autocriao            es entre os valores de verdade das proposi-
absoluta, que  a autocriao do mundo.                     es. Em 1885, Allan Marquand projetou uma
   AUTOCONSERVAO (lat. Sui conseruatio;                   mquina anloga  de Jevons e em 1947, em
in. Self-preservation; fr. Conservation de soi; ai.         Harvard, T. A. Kalin e W. Burkhart construram
Selbsterhaltung; it. Autoconservazion).  o bem            uma calculadora eltrica para a soluo de pro-
supremo a que tendem todos os seres da natu-                blemas elaborados com base na lgebra de
reza, segundo Telsio {De rer. nat., IX, 2). Herbart        Boole, cujo objeto so variveis que podem
chama A.  reao de um ente  ao de um                   assumir s dois valores {verdadeiro ou falso,
outro ente: na alma o ato de A.  uma represen-             indicados, respectivamente, com 1 e 0), poden-
tao {Allgemeine Metaphysik, 1878, II,  234).             do, por isso, ser aplicada em todos os casos em
   AUTCTISE. V. ATUALISMO.                                 que se tenha escolha entre duas alternativas.
   AUTODETERMINAO. V. LIBERDADE.                              A teoria dos A. em sentido moderno, ou seja,
   AUTO-EVIDNCIA(in. Self-evidence, ai. Sel-               das mquinas calculadoras, foi desenvolvida por
bstevidenz; it. Autoevidenza). Termo empre-                 A. M. Turing em 1936. Em geral, as calculado-
gado s vezes para indicar o cogito cartesiano              ras executam o programa com base no qual
como evidncia ou manifestao imediata do                  foram projetadas, mas realizam as operaes com
eu  conscincia (v.).                                      rapidez e segurana muito maiores do que as
   AUTOLGICO, HETEROLGICO (in Au-                         do homem. Por isso, essas calculadoras so
tological, heterological; fr. Autologique, htro-          "poupadoras de tempo". O bilogo ingls R. W.
logique, ai. Autologisch, heterologisch; it. Auto-          Ashby distinguiu-as dos "amplificadores da in-
logico, eterologic). A.  o adjetivo que denota            teligncia", que, em certo grau, tm aquilo que,
uma propriedade que ele mesmo possui: como                  no homem, se chama de "iniciativa". Entre estes,
polisslabo, comum, significante, etc. Hetero-              esto em fase de execuo ou de estudo os A.
lgico , ao contrrio, o adjetivo que denota               que jogam e os A. que aprendem. Von Neumann
uma qualidade que ele no possui: como vivo,                tambm falou de A. que se reproduzem (Theory
intil, ambguo, etc. A questo de saber se o               of Self-Reproducing Automata, 1966). Para as
adjetivo heterolgico , por sua vez, A. ou                 teorias relativas a esses A., ver CIBERNTICA.
heterolgico d origem a uma das antinomias                     AUTNIMO. V. Uso.
lgicas, que foi exposta por K. Grelling (Bemer-                AUTONOMIA (in. Autonomy, fr. Autonotnie,
kungen zu den Paradoxien von Russell und                    ai. Autonomie, it. Autonomia). Termo introdu-
Burali-Forti, em Abhandlungen der Frieschen                 zido por Kant para designar a independncia
Scbule, 1908) (v. ANTINOMIAS).                              da vontade em relao a qualquer desejo ou
   AUTMATO (gr. otTfxctTOV; lat. Automa-                 objeto de desejo e a sua capacidade de deter-
ton; in. Automaton; fr. Automate, it. Automd).              minar-se em conformidade com uma lei pr-
O que se move por si, em geral, uma coisa ina-              pria, que  a da razo. Kant contrape a A. 
nimada que se move por si ou, mais especifica-              heteronomia, em que a vontade  determina-
mente, um aparelho mecnico que realiza al-                 da pelos objetos da faculdade de desejar. Os
gumas das operaes consideradas prprias do                ideais morais de felicidade ou perfeio supem
animal ou do homem.                                         a heteronomia da vontade porque supem que
   Tem-se notcia de A. fabulosos, construdos              ela seja determinada pelo desejo de alcan-los
pelos antigos. No sc. XVIII, um mecnico fran-             e no por uma lei sua. A independncia da
cs construiu um A. que tocava flauta. Samuel               vontade em relao a qualquer objeto desejado
Butler, em textos romanceados (Darwin entre                  a liberdade no sentido negativo, ao passo que
as maquinas, 1863; Lucubratio ebria, 1865;                  a sua legislao prpria (como "razo prtica")
Erewhon, 1872), falava de mquinas que tinham                a liberdade no sentido positivo. "A lei moral
AUTO-OBSERVAO                                        98                                    AUTORIDADE

no exprime nada mais do que a A. da razo                  e a exercer a A. e os que esto destinados a
pura prtica, isto , da liberdade" (Crt. R. Pra-          submeter-se-lhe , portanto, feita pela nature-
tica, I,  8). Em virtude de tal A., "todo ser              za; a educao dos filsofos no faz seno sal-
racional deve considerar-se fundador de uma                 vaguardar e desenvolver o que a natureza dis-
legislao universal" (GrundlegungzurMet. der               ps. Essa desigualdade radical dos homens como
Sitten, II, B A 77). Esse ficou sendo o conceito            fundamento natural da A.  tambm a doutrina
clssico da A. Mais genericamente, fala-se hoje,            de Aristteles. "A prpria natureza ofereceu um
p. ex., de "princpio autnomo" no sentido de               critrio discriminativo fazendo que dentro de
um princpio que tenha em si, ou ponha por si               um mesmo gnero de pessoas se estabeleces-
mesmo, a sua validade ou a regra da sua ao.               sem as diferenas entre os jovens e os velhos; e,
   AUTO-OBSERVAO, AUTO-REFLEXO,                          entre estes, a uns incumbe obedecer, a outros
AUTOSCOPIA. V. INTROSPECO.                                mandar..." (Pol., 1.333 a). Mas a diferena entre
   AUTO-REFERNCIAn. Self-reference). Com                  jovens e velhos  temporria; os jovens ficaro
esse termo, equivalente a reflexividade (v.),               velhos e, por sua vez, comandaro. A diferena
em Principia Mathematica (intr., cap. II, p.                substancial e fundamental  entre o pequeno
64). de Whitehead e Russell, indica-se a carac-             nmero de cidados dotados de virtudes pol-
terstica comum das antinomias lgicas no sen-              ticas, sendo, portanto, justo que se alternem no
tido de que elas nascem do procedimento pelo                governo, e a maioria dos cidados comuns,
qual um conceito ou nome  aplicado a si mesmo              desprovidos daquelas virtudes e destinados a
(v. ANTINOMIA).                                             obedecer (ibid., II, 2, 1.261 a). O teorema fun-
    AUTORIDADE (lat. Auctoritas; in. Authority,             damental dessa concepo de A. , portanto, a
fr. Autorit, ai. Autoritt; it. Aurotit). 1. Qual-        diviso natural dos cidados em duas classes,
quer poder exercido sobre um homem ou gru-                  das quais s uma possui como apangio natu-
po humano por outro homem ou grupo. Esse                    ral o direito de exercer a A. Desse ponto de
termo  generalssimo e no se refere somente               vista, o critrio de distino das duas classes
ao poder poltico. Alm de "A. do Estado" exis-             tem pouca importncia: o importante  a distin-
te a "A. dos partidos" ou a "A. da Igreja", bem             o. Todos os aristocratismos tm em comum
como a "A. do cientista x" a quem se atribui, p.            esse teorema e essa concepo da autoridade:
ex., o predomnio temporrio de certa doutri-               encontram-se, p. ex., no racismo, bem como em
na. Em geral, A. , portanto, qualquer poder de             Tnnies, segundo o qual h trs espcies de
controle das opinies e dos comportamentos                  dignidade ou A.: "A dignidade da idade, a dig-
individuais ou coletivos, a quem quer que per-              nidade da fora, a dignidade da sabedoria ou
tena esse poder.                                           do esprito, que se encontram unidas na digni-
                                                            dade do pai quando protege, exige e dirige"
    O problema filosfico da A. diz respeito  sua
                                                            (Gemeinschaft und Gesellschaft, 1887, I, 5).
justificao, isto , ao fundamento sobre o qual
pode apoiar-se sua validade. Podem-se distin-                   2- A segunda teoria fundamental  a de que
guir as seguintes doutrinas fundamentais: Ia o              a A. se baseia na divindade. Essa  a doutrina
fundamento da A.  a natureza; 2- o fundamento              exposta no captulo XIII da Epstola aos roma-
da A.  a divindade; 3a o fundamento da A. so              nos de S. Paulo: "Toda alma esteja sujeita s
os homens, isto , o consenso daqueles mesmos               potestades superiores, porque no h potestade
sobre os quais ela  exercida.                              que no venha de Deus; e as potestades que h
    Ia A teoria segundo a qual a A. foi estabelecida        foram ordenadas por Deus. Por isso, quem re-
pela natureza  a aristocrtica, comum a Plato             siste  potestade resiste  ordenao de Deus;
e a Aristteles. Segundo essa teoria, a A. deve             e os que resistem traro sobre si mesmos a
pertencer aos melhores e  a natureza quem se               condenao. Porque os magistrados no so
incumbe de decidir quem so os melhores.                    terror para as boas obras, mas para as ms.
Plato, de fato, divide os homens em duas clas-             Queres tu, pois, no temer a potestade? Faze o
ses-, os que so capazes de se tornarem filso-             bem, e ters o seu louvor. Porque ela  ministra
fos e os que no o so (Rep., VI, 484 b). Os                de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal,
primeiros so movidos naturalmente por uma                  teme, porque ela no traz em vo a espada.
tendncia irresistvel  verdade (ibid., 485 c); os         Pois  ministra de Deus, vingadora para o cas-
segundos so "naturezas vis e iliberais" que nada           tigo daquele que pratica o mal. Por isso,  ne-
tm em comum com a filosofia (ibid., 486 b). A              cessrio que lhe estejais sujeitos, no somente
diviso entre os que esto destinados a possuir             por causa do castigo, mas tambm por obriga-
AUTORIDADE                                            99                                        AUTORIDADE

o de conscincia" (Ad rom., XIII, 1-5). Esse             povos mantm ntegro o seu direito, nada h de
documento foi fundamental para a concepo                 melhor, de mais livre, de mais feliz, uma vez
crist de A., que foi defendida por S. Agostinho           que so senhores das leis, dos juzos, da guerra,
(Deciv. Dei, V, 19; cf. V, 21), Isidoro de Sevilha         da paz, dos tratados, da vida e do patrimnio
(Sent., III, 48) e Gregrio Magno, que insiste             de cada um" (Resp., I, 32, 48). Ccero achava
no carter sagrado do poder temporal, a ponto              que s um estado assim pode ser chamado le-
de considerar o soberano como representante                gitimamente de repblica, isto , "coisa do povo"
de Deus na Terra. Substancialmente, a mesma                (ibid., I, 32, 48). Mas s vezes o reconhecimen-
tese foi adotada por S. Toms: "De Deus, como              to de que a fonte da A. est no povo une-se ao
do primeiro dominante, deriva todo domnio"                reconhecimento do carter absoluto da prpria
(De regimineprincipum, III, 1). Essa concep-              A. Isso acontece no Digesto, em que Ulpiano
o coincide com a primeira num carter nega-              diz: "O que agradou ao prncipe tem valor de
tivo, isto , em tornar a A. totalmente indepen-           lei", mas acrescenta imediatamente: "porquan-
dente do consenso dos sditos. Mas distingue-se            to foi com a lei regia, com que se regulamentou
da primeira num carter fundamental: justifi-              o poder dele, que o povo lhe conferiu toda a
ca toda A. que seja exercida de fado. Enquan-              sua A. e todo o seu poder" (Dig., I, 4, 1). Um
to a primeira no exige que a classe destina-              dos teoremas tpicos desse ponto de vista  o
da a mandar mande sempre de fato (e para                   carter de lei que se reconhece nos costumes:
Plato, com efeito, a questo no se formula               de fato, se as leis no tm outro fundamento
assim), a segunda, ao contrrio, implica que               seno o juzo do povo, as leis que o prprio
toda A. que de fato seja exercida, tendo sido              povo aprovou, mesmo sem escrever, tm o
disposta ou estabelecida por Deus,  sempre                mesmo valor das que foram escritas (ibid., I, 3,
plenamente legtima. Este  o teorema tpico da            32). Os grandes juristas do Digesto admitiam,
concepo em tela: teorema que permite                     portanto, que a nica fonte da A. era o povo
reconhec-la mesmo nas formas mais ou me-                  romano (R. W.-A. J. CARLYLE, HistoryofMediaeval
nos conscientemente mistifiadas. Quando, p.               Political Theory in the West, II, I, 7; trad. it., pp.
ex., Hegel afirma que o Estado  "a realizao             369 ss.). Foi essa a forma assumida, na Idade
da liberdade" ou "o ingresso de Deus no mun-               Mdia, pela doutrina do fundamento humano
do" (Fil. dodir,  258, adendo), estabelece uma            da autoridade. Diz Dante: "O povo romano,
coincidncia entre aquela que, para ele,  a               por direito e no por usurpao, assumiu a
mais elevada e a realidade histrica do Estado,            tarefa do monarca, que se chama imprio, so-
isto , justifica qualquer poder de fato, segun-           bre todos os mortais" (DeMon., II, 3). Do mesmo
do a mxima de sua filosofia: "Entender o que              modo, Ockham afirmava que "o imprio roma-
  tarefa da razo, porque o que   razo"               no foi certamente institudo por Deus, mas atra-
(ibid., pref.). Segundo esse ponto de vista, A. e          vs dos homens, isto , por intermdio dos
fora coincidem: quem possui fora para im-                romanos" (Dalogus inter magstrum et disci-
por-se no pode deixar de gozar de uma A.                  pulum, III, tract. II, lib. I, cap. 27, em GOLDAST,
vlida, j que toda fora  desejada por Deus              Monarchia, II, p. 899). A prpria A. papal, se-
ou  divina.                                               gundo Ockham,  limitada pelas exigncias dos
                                                           direitos e da liberdade daqueles sobre os quais
    3a A terceira concepo de A. ope-se pre-             se estende e , portanto, a A. de um principado
cisamente a esse teorema. A A. no consiste na             ministrativus, no dominativus (De impera-
posse de uma fora, mas no direito de exerc-              torum etpontificumpotestate, VI). E,  pergun-
la; tal direito deriva do consenso daqueles so-            ta sobre quais seriam os direitos e as liberdades
bre quem ela  exercida. Essa doutrina nasceu              que a prpria A. papal deve respeitar, Ockham
com os esticos e seu primeiro grande exposi-              responde que so os mesmos que cabem tam-
tor foi Ccero. Seu pressuposto fundamental               bm aos infiis, tanto antes quanto depois da
a negao da desigualdade entre os homens.                 encarnao de Cristo, j que os fiis no devem
Todos os homens receberam da natureza a ra-                nem devero estar em condies piores do que
zo, isto , a verdadeira lei que comanda e                aquelas em que estiveram os infiis tanto antes
probe retamente; por isso, todos so livres e             quanto depois da encarnao de Cristo (ibid.,
iguais por natureza (CCERO, De leg., 1,10, 28; 12,        K). Marslio de Pdua afirmava claramente a tese
33). Assim sendo, s dos prprios homens, da               geral implcita em tais idias. "O legislador, isto
sua vontade concorde podem originar-se o fun-              , a primeira e efetiva causa eficiente da lei, 
damento e o princpio da autoridade. "Quando os
AUTORIDADE                                          100                                    AXIOCNTRICO

o povo ou o conjunto de cidados, ou ainda a              divina e, portanto, capaz de guiar e corrigir o
parte predominante deles, que comanda e de-               trabalho de indagao racional. Auctoritas pode
cide, por sua escolha ou vontade em assem-                ser a deciso de um concilio, uma mxima b-
blia geral e em termos precisos, que certos              blica, a sententia de um Padre da Igreja. O
atos humanos devem ser praticados e outros                recurso  A.  uma das caractersticas tpicas da
no, com penalidades ou punies fsicas".                filosofia escolstica, pois o filsofo, individual-
{.Defensorpacis, I, 12, 3). Nicolau de Cusa afir-         mente, quer sentir-se sempre apoiado e sus-
mava, no menos explicitamente, com refern-              tentado pela responsabilidade coletiva da tra-
cia  A. eclesistica: "Como todos os homens              dio eclesistica. No faltaram, porm, nem
so naturalmente livres, qualquer A. que afaste           mesmo na Escolstica, rebelies contra a A. nesse
os sditos da prtica do mal e limite sua liber-          sentido: como a de Abelardo, que afirmou que
dade com o temor de sanes deriva s da                  a A. s tem valor enquanto a razo estiver ocul-
harmonia e do consentimento dos sditos, quer             ta, mas que passa a ser intil quando a razo
resida na lei escrita, quer na viva, representada         tem como verificar por si mesma a verdade
por aquele que governa" (De concordantia                  (Theol. christ., III, ed. Migne, col. 1.226). A filo-
catholica, II, 14). No mundo moderno, o pre-              sofia moderna caracteriza-se pelo abandono do
domnio do contratualismo (v.) e do jusna-                princpio de A., ao menos como princpio ex-
turalismo (v.) determinam o predomnio dessa              plicitamente assumido para a disciplina e a orien-
doutrina. E, embora hoje contratualismo e                 tao da pesquisa. De qualquer forma, a A. em
jusnaturalismo no possam ser invocados como              filosofia representa a voz da tradio religiosa,
justificaes suficientes do Estado (v.) e do di-         moral, poltica ou mesmo filosfica; e mesmo
reito (y.), a tese da origem humana da A. no             quando no se apoia na fora das instituies
 posta em dvida. A prpria doutrina de Kelsen,          polticas que nela se fundam, essa voz age so-
ao atribuir a A.  ordenao jurdica, no  mais         bre a pesquisa filosfica tanto de forma expl-
do que uma especificao da tese tradicional.             cita, com o prestgio que confere s teses que
Diz Kelsen: "O indivduo que  ou tem A. deve             apoia, quanto de forma sub-reptcia e disfarada,
ter recebido o direito de promulgar ordens obri-          impedindo e limitando a indagao e prescre-
gatrias, de modo que outros indivduos sejam             vendo ignorncia e tabus.
obrigados a obedecer. Tal direito ou poder pode              AUTO-SUFICINCIA. V. AUTARQUIA.
ser conferido a um indivduo somente por uma                  AVERROSMO (in. Averroism, fr. Averroisme,
ordenao normativa. A A. , portanto, origina-           ai. Averroismus; it. Averroismo). Doutrina de
riamente a caracterstica de um ordenamento               Averris (Ibn-Rosch, 1126-98), como foi enten-
normativo" (General Theory ofLaw and State,               dida e interpretada pelos escolsticos medie-
1945, II, cap. VI, C, h; trad. it.', p. 389).             vais e pelos aristotlicos do Renascimento. Re-
   Mas alm desse ponto de vista formal est o            sumia-se nos seguintes fundamentos: l s
problema das formas ou dos modos com que o                eternidade e necessidade do mundo: tese con-
consenso que funda a A. pode ser exercido ou              trria ao dogma da criao; 2- separao do
expresso, alm do problema dos limites ou da              intelecto ativo e passivo da alma humana e sua
extenso que ele pode ou deve ter em cada                 atribuio a Deus; essa tese, atribuindo  alma
campo.  claro, p. ex., que, em poltica, a A.            humana s uma espcie de imagem do intelec-
deve ter tarefas e extenso maiores do que no             to, despojava-a de sua parte mais alta e imortal;
campo da pesquisa cientfica e que, portanto,             3e doutrina da dupla verdade, isto , de uma
em poltica o consenso que a valida deve ter              verdade de razo, que se pode extrair das obras
limites e extenso e ser exercido e expresso              de Aristteles, o filsofo por excelncia, e de
com formas e caractersticas diferentes das as-           uma verdade de f: ambas podem opor-se. A
sumidas no campo cientfico. O reconhecimento             principal personalidade do A. latino foi Sigiero
que exprime aceitao ou consenso est na                 de Brabante, nascido por volta de 1235 e fale-
base de toda A.: as modalidades, as formas e os           cido entre 1281 e 1284.
limites institucionais ou no desse reconheci-               AXIAL, POCA. V. POCA.
mento podem ser muito diferentes e consti-                   AXIOCNTRICO (in. Value-centric). Termo
tuem problemas fundamentais de poltica geral             introduzido recentemente na filosofia america-
e especial.                                               na para designar a doutrina que afirma a prio-
   2. Na filosofia medieval, auctoritas  uma             ridade do valor sobre a realidade, do dever ser
opinio particularmente inspirada pela graa              sobre o ser, no sentido de que tambm o juzo
AXIOLOGIA                                           101                                            AXIOMA


existencial implica a distino de valor entre            intuio dos termos que entram na sua com-
verdade e falsidade. (Cf. E. G. SPAULDING, The            posio. Na verdade, o exemplo escolhido por
NewRationalism, 1918, pp. 206 ss.; W. M. URBAN,           S. Toms presta-se sobretudo a revelar o car-
The Intelligible World, 1929, pp. 61 ss.).                ter fictcio da evidncia intuitiva de que depen-
   AXIOLOGIA (in. Axiology, fr. Axiologie, ai.            deria a validade do axioma. A pouca distncia
Axiologie, it. Axiologi). A "teoria dos valores"         cronolgica de S. Toms, Ockham verificava
j fora, h alguns decnios, reconhecida como             que o princpio "a parte  maior do que o todo"
parte importante da filosofia ou mesmo como a             no vale quando se trata de todos que compre-
totalidade da filosofia pela chamada "filosofia           endem infinitas partes e que no se pode dizer
dos valores" e por tendncias congneres (v.              que no universo inteiro haja mais partes do
VALOR) quando, no incio de nosso sculo, a               que numa fava, se numa fava h infinitas partes
expresso "axiologi" comeou a ser emprega-              (Quodl, I, q. 9; Cent. theol., concl. 17, C). Aps
da em seu lugar. Os primeiros textos em que               as pesquisas de Cantor e de Dedekind, sabe-
esse termo aparece so: P. LAPIE, Logique de              mos hoje que esse pretenso A. , simplesmen-
Ia volont, 1902, p. 385; E. VON HARTMANN,                te, a definio dos conjuntos finitos (v. INFINI-
Grundriss der Axiologie, 1908; W. M. URBAN,               TO). Por muitos sculos procurou-se justificar
 Valuation, 1909- Esse termo teve grande acei-            de um modo ou de outro a validade absoluta
tao, ao contrrio de timologia, proposto para           dos A., mas essa validade no foi posta em
a mesma cincia (KREIBIG, Psychologische                  dvida. Bacon julgava possvel obter A. por via
Grundlegung eines Systems der Werttheorie, 1902,          de deduo ou de induo (Nov. Org., I, 19), ao
p. 194).                                                  passo que Descartes julgava-os verdades eter-
    AXIOMA (gr. ^co|J.a; lat. Axioma; in. Axiom;        nas, que residem em nossa mente (Princ.phil.,
fr. Axome, ai. Axiom; it. Assiom). Originaria-          I, 49); ambos, porm, acreditaram que eram
mente, essa palavra significava dignidade ou              verdades imutveis. Locke considerou os A.
valor (os escolsticos e Vio usavam-na por               como proposies, experimentos, experincias
dignidade) e foi empregada pelos esticos para            imediatas (Ensaio, IV, .7, 3 ss.) e Leibniz, ao
indicar o enunciado declarativo que Aristteles           contrrio, considerou-os princpios inatos na
chamava de apofntico (DIG. L, VII, 65). Os              forma de disposies originrias que a expe-
matemticos usaram-na para designar os prin-              rincia torna explcitas (Nouv. ess., I, 1, 5); mas
cpios indemonstrveis, mas evidentes, da sua             ambos lhes atriburam o carter de verdades
cincia. Aristteles fez a primeira anlise dessa         evidentes. Os empiristas no duvidaram de sua
noo, entendendo por A. "as proposies pri-             evidncia mais do que os racionalistas; Stuart
meiras de que parte a demonstrao" (os cha-              Mill afirma que eles so "verdades experimen-
mados A. comuns) e, em cada caso, os "princ-             tais, generalizaes da observao" (Logic, II,
pios que devem ser necessariamente possudos              5,  b). Para Kant, os A. tambm so evidentes,
por quem queira aprender qualquer coisa" (An.             mas apriori; define-os como "princpios sintticos
post., I, 10, 76 b 14; I, 2, 72 a 15). Como tal, o        apriori, na medida em que so imediatamente
A.  completamente diferente da hiptese e do             certos". Para Kant, a certeza imediata, isto , a
postulado (v.). O princpio de contradio ,             evidncia,  a caracterstica dos A. A matem-
ele prprio, um A., alis, "o princpio de todos          tica possui A. porque procede mediante a cons-
os A." (Mel, IV, 3, 1.105 a 20 ss.). Esse signifi-        truo de conceitos. A filosofia, porm, que
cado da palavra como princpio que se mostra              no constri seus conceitos, no possui A. Os
evidente de imediato, pelos seus prprios ter-            prprios A. da intuio, que Kant ps entre os
mos, manteve-se constante por toda a Antigidade          princpios do intelecto puro, no so realmente
 e a Idade Moderna. "Os princpios imediatos", diz        A. segundo o prprio Kant, mas simplesmente
 S. Toms (In IPost., Lio 5), "no so conhe-           contm "o princpio da possibilidade dos A. em
 cidos mediante algum termo intermedirio, mas            geral" (Crt. R. Pura, Doutrina transe, do mt.,
 por meio do conhecimento dos seus prprios               Disciplina da razo pura, I).
 termos. Dado que se saiba o que  o todo e o                Foi no mundo contemporneo que a noo
 que  a parte, reconhece-se que 'o todo  maior          de A. sofreu a transformao mais radical. A
 do que a parte', j que, em todas as proposi-            caracterstica que o definia, ou seja, a imediao
 es dessa espcie, o predicado est compre-             da sua verdade, a certeza, a evidncia, foi nega-
 endido na noo de sujeito". A verdade do A.             da. Esse resultado deve-se ao desenvolvimento
 , em outros termos, manifestada pela simples            do formalismo matemtico e lgico, isto . 
AXIOMA                                                102                                      AXIOMTICA

obra de Peano, Russell, Frege e Hilbert. Segun-                 AXIOMAS DA INTUIO (in. Axioms ofin-
do o ponto de vista formalista, que  o mais                tuition; fr. Axiomes de Vintuition; ai. Axiomen
difundido atualmente, os A. da matemtica no               der Anschauung; it. Assiomi delVintuizion).
so nem verdadeiros nem falsos, mas so as-                 Kant indicou com essa expresso os princpios
sumidos por conveno, com base em moti-                    sintticos do intelecto puro que derivam da
vos de oportunidade, como fundamentos ou                    aplicao das categorias  experincia e que
premissas do discurso matemtico (HILBERT,                  exprimem a possibilidade das proposies da
"Axiomatischen Denken", em Math. Annalen,                   matemtica e da fsica pura. Todos os princ-
1918). Desse modo, os A. no se distinguem                  pios do intelecto puro tm a funo de eliminar
mais dos postulados e as duas palavras so hoje             o carter subjetivo da percepo dos fenme-
usadas indiferentemente. A escolha dos A. de                nos, reconduzindo essa percepo  conexo
certo modo  livre e, nesse sentido, diz-se que             necessria dos prprios fenmenos, que  pr-
os A. so "convencionais" ou "assumidos por                 pria da experincia objetivamente vlida. Em
conveno". Mas, na realidade, essa escolha                particular, os A. da intuio, que correspondem
limitada por exigncias ou condies precisas               s categorias da quantidade, porque consistem
que podem ser resumidas do seguinte modo:                   na aplicao dessas categorias, transformam o
                                                            fato subjetivo de s podermos perceber a quan-
    ls Os A. devem ser coerentes, sob pena de               tidade espacial ou temporal (p. ex., uma linha
o sistema que deles depende tornar-se contra-               ou um lapso de tempo) percebendo, sucessi-
ditrio. Sistema contraditrio  o que permite a            vamente, as suas partes, no princpio objetiva-
deduo de qualquer coisa e a demonstrao                  mente vlido de que "toda quantidade  com-
de qualquer proposio, bem como a sua ne-                  posta de partes": nas palavras de Kant, de que
gao. Como a prova da no-contradio no                  "todas as intuies so quantidades extensivas";
pode ser obtida dentro de um sistema (v.                    e justificam assim a aplicao da matemtica ao
AXIOMTICA),  costume lanar mo do sistema                mundo da experincia (Crt. R. Pura, Anal. dos
da reduo a uma teoria anterior, cuja coern-              princ, cap. II).
cia parea bem confirmada, como, p. ex., a
aritmtica clssica ou a geometria euclidiana.                  AXIOMTICA (in. Axiomatics; fr. Axio-
Esse procedimento sem dvida no eqivale a                 matique, ai. Axiomatik, it. Assiomaticd). A A.
uma demonstrao de no-contradio, mas for-               pode ser considerada resultado da aritmetizao
nece um indcio importante. Outro procedimento              da anlise que ocorreu na matemtica a partir
                                                            da segunda metade do sc. XIX, provocada
 a realizao, isto , a referncia do sistema a           sobretudo por Weierstrass. A primeira tentativa
um modelo real, com base no pressuposto de                  de axiomatizao da geometria foi feita por Pasch,
que aquilo que  real deve ser possvel, portan-            em 1882. Para a axiomatizao da matemtica
to no-contraditrio.                                       tambm contriburam o formalismo de Peano,
    2Q Um sistema de A. deve ser completo no                Russell, Frege e, especialmente, a obra de Hilbert.
sentido de que, de duas proposies contradi-               Mas a A. no se limita hoje ao domnio da
trias formuladas corretamente nos termos do                matemtica: em fsica,  estudada como objeti-
sistema, uma deve poder ser demonstrada. O                  vo final ou, pelo menos, como formulao l-
que significa que, em presena de uma propo-                tima e mais satisfatria; qualquer disciplina que
sio qualquer do sistema, pode-se sempre                   atinja certo grau de rigor tende a assumir a
demonstr-la ou refut-la e, portanto, decidir              forma axiomtica. O significado da A. pode ser
sobre a sua verdade ou falsidade em relao ao              resumido brevemente nos pontos seguintes:
sistema dos postulados. Nesse caso, o sistema                   le Axiomatizar uma teoria significa, em pri-
chama-se decidvel.                                         meiro lugar, considerar, em lugar de objetos
    3S A terceira caracterstica de um sistema de           ou de classes de objetos providos de caracteres
A.  a sua independncia, isto , a sua irredu-             intuitivos, smbolos oportunos, cujas regras de
tibilidade recproca. Tal condio no  to indis-         uso sejam fixadas pelas relaes enumeradas
pensvel como a da coerncia, mas  oportuna                pelos axiomas. Como tais smbolos so des-
para evitar que as proposies primitivas sejam             providos de qualquer referncia intuitiva, a teoria
excessivamente numerosas.                                   formal assim obtida  passvel de mltiplas in-
    4Q Enfim, o menor nmero possvel e a sim-              terpretaes, que se chamam modelos. Mas o
plicidade dos A. so condies desejveis que               modelo, aqui, no  um arqutipo preexistente
conferem elegncia lgica a um sistema de                    teoria, e mesmo a teoria concreta original,
axiomas.                                                    que forneceu os dados para o esquema lgico
AXIOMTICA                                          103                                     AXIOMTICA


da A., no  seno um desses modelos. A ca-               belecem as regras de uso indemonstrveis. A
racterstica da A.  prestar-se a interpretaes          escolha das noes primitivas  parte funda-
ou a realizaes diferentes, das quais constitui          mental da constituio de uma axiomtica. Hoje
a estrutura lgica comum.                                 est claro, porm, que as prprias noes de
    2 O mtodo A.  um poderoso instrumento              "primitivo", "indefinvel" e "indemonstrvel" so
de generalizao lgica. Um dos modos de                  relativas, no sentido de que um termo indefinvel
generalizao desse mtodo consiste em des-               ou uma proposio indemonstrvel, dentro de
truir, sucessivamente, alguns axiomas de certa            um sistema, podem ser definveis ou demonstrveis
teoria dedutiva, conservando os outros e, as-             se as bases do sistema forem modificadas. P.
sim, construindo teorias cada vez mais abstra-            ex., na geometria euclidiana no se pode de-
tas. O sistema gerado pela A. assim restringida           monstrar o postulado das paralelas, mas se
 coerente se o sistema inicial o for e constitui         renunciarmos a demonstrar o teorema de que
uma generalizao deste.                                  a soma dos ngulos de um tringulo  igual a
    3a A A. torna indispensvel distinguir trs           dois retos, poderemos assumir essa proposi-
modos pelos quais  possvel diferenciar uma              o como um axioma e demonstrar a unicidade
teoria dedutiva da outra. Consideremos o caso             da paralela. Alm disso, muitas vezes os termos
da geometria euclidiana. Em primeiro lugar, se            no definidos so implicitamente definidos pelo
modificarmos um dos seus postulados, obtere-              conjunto dos postulados previamente escolhi-
mos outras geometrias denominadas prximas                dos (definio por postulados). Diz-se que a
ou aparentadas; nesse sentido, fala-se de                 escolha dos postulados  livre, mas na realida-
pluralidade de geometrias. Em segundo lugar,              de deve obedecer a determinadas condies
podemos efetuar a reconstruo lgica de qual-            que a limitam notavelmente; para essas condi-
quer uma dessas geometrias de vrios modos,               es, v. AXIOMA.
isto , segundo A. diferentes; e essas A. sero               5Q J se disse (v. AXIOMA) que o limite fun-
 equivalentes entre si. Enfim, se escolhermos             damental para a escolha dos axiomas  a sua
 uma dessas A., na maioria das vezes ser pos-            coerncia ou compatibilidade. Todavia, um
svel encontrar interpretaes diferentes para            teorema de Godel (1931) estabeleceu que uma
ela: haver vrios modelos dela, que sero cha-           aritmtica no contraditria comporta enuncia-
mados isomorfos. Haver assim: d) uma plu-                dos no decididos e, entre esses enunciados,
ralidade de geometrias; b) uma pluralidade de             est a no-contradio do sistema aritmtico.
A. para uma mesma geometria; c) uma plurali-              Em outros termos, se permanecermos no m-
 dade de modelos para uma mesma A.                        bito de um sistema, no ser possvel estabele-
    4e A caracterstica fundamental da A.  a             cer a no-contradio desse mesmo sistema.
 escolha e a clara enunciao das proposies             Esse  um dos limites da A., alm dos que foram
 primitivas de uma teoria, isto , dos axiomas            evidenciados pela corrente intuicionista dos ma-
 que introduzem os termos indefinveis e esta-            temticos (v. MATEMTICA).
                                                  B

    B. Na lgica medieval, todos os silogismos        bertado da escravido do trabalho manual e eram
indicados por uma palavra mnemnica que               destinados a mandar.
comece por B {Baralipton, Baroco, Bocardo)                Com algumas excees, essa concepo du-
so redutveis ao primeiro modo da primeira           rou por toda a Idade Mdia e foi s com o
figura {Barbara). (Cf. PEDRO HISPANO, Summ.           Renascimento que se comeou a introduzir no
log., 4.20)                                           mundo moderno o conceito de dignidade do
    BANAUSIA (gr. pavoruaoc). Essa palavra, que      trabalho manual (v. TRABALHO).
em grego significa arte mecnica ou trabalho              BARALIPTON. Palavra mnemnica usada
manual em geral, implica uma valorizao des-         pelos escolsticos para indicar o quinto modo
se tipo de atividade como coisa grosseira e vulgar.   da primeira figura do silogismo, mais precisa-
Herdoto (II, 155 ss.) j observava que tanto os      mente o que consiste em duas premissas uni-
gregos quanto os brbaros esto de acordo ao          versais afirmativas e em uma concluso parti-
considerarem inferiores os cidados que apren-        cular afirmativa, como no exemplo: "Todo animal
dem um ofcio e os seus descendentes, e ao             substncia; todo homem  animal; logo, algu-
considerarem superiores as pessoas que se             mas substncias so homens" (PEDRO HISPANO,
mantm afastadas dos trabalhos manuais e,             Summ. log., 4.08).
sobretudo, as que se dedicam  guerra. Xenofonte          BARBARA. Palavra mnemnica usada pe-
(Econom., IV, 203), por sua vez, afirma que "as       los escolsticos para indicar o primeiro dos nove
chamadas artes mecnicas trazem em si um              modos do silogismo de primeira figura, o qual
estigma social e esto desonrando as nossas           consta de duas premissas universais afirmativas
cidades". E, em Grgias (512 b), Clicles diz         e de uma concluso tambm universal afirma-
que, embora o construtor de mquinas blicas          tiva, como no exemplo: "Todo animal  subs-
possa ser til, "desprez-lo-s bem como  sua        tncia; todo homem  animal; logo, todo ho-
arte, cham-lo-s ofensivamente banausos e            mem  substncia" (PEDRO HISPANO, Summ.
no desejadas dar tua filha como esposa a seu         log., 4.07; Lgica de Port-Royal, III, 5).
filho nem desejarias que teu filho se casasse             BARBARI. Palavra mnemnica usada na L-
com uma de suas filhas". Aristteles diz ex-          gica de Port-Royal para indicar o quinto modo
plicitamente (Pol., III, 4, 1.277 ss.) que o poder    do silogismo de primeira figura (isto , o
senhorial  prprio de quem no sabe fazer as         Baralipton), com a modificao de assumir por
coisas necessrias, mas sabe us-las melhor do        premissa maior a proposio em que entra o
que os que se lhe submetem. O saber faz-las          predicado da concluso. O exemplo  o se-
 prprio dos servos, isto , "da gente destina-      guinte: "Todos os milagres da natureza so
da a obedecer" e  coisa to humilde que "no         comuns; tudo o que  comum no nos maravi-
deve ser aprendida nem pelo poltico nem pelo         lha; logo, h coisas que no nos maravilham,
bom cidado, a no ser que lhes proporcione           que so milagres da natureza" (ARNAULD, Log.,
uma vantagem pessoal". Essa noo de B.,              III, 8).
na sociedade antiga, permitia a diviso da pr-
pria sociedade em duas classes: os que extraam           BARBRIE. Esse foi o nome que Vio deu
os meios de vida do trabalho manual e eram            ao estado primitivo, selvagem, do qual o gne-
destinados a obedecer e os que se haviam li-          ro humano foi saindo pouco a pouco para che-
                                                      gar  ordem do mundo propriamente humano,
BAROCO                                              105                                               BELO

pelo temor  divindade. Deu o nome de "retor-             cindiam de qualquer referncia ao "estados
no da B."  Idade Mdia. (Scienza nuova, dig-             subjetivos" ou "estados interiores". Em 1903,
nidade, 56; Carta a De Angelis, Opere, ed. Utet,          Pavlov perguntava: "para compreender os no-
p. 159).                                                  vos fenmenos, por acaso deveremos penetrar
    BAROCO. Palavra mnemnica usada pelos                 no ser interior do animal, imaginar ao nosso
escolsticos para indicar o quarto dos quatro             modo as sensaes, os sentimentos e os dese-
modos do silogismo de segunda figura, mais                jos deles? Para o experimentador cientfico, pa-
precisamente o que consiste numa premissa                 rece-me que a resposta a essa ltima pergunta
universal afirmativa, numa premissa particu-              s pode ser um no categrico" (Reflexos con-
lar negativa e numa concluso particular negati-          dicionados, 1950, p. 17). No laboratrio de
va, como no exemplo: "Todo homem  ani-                   Pavlov (como ele mesmo conta [ibid., p. 1291),
mal; algumas pedras no so animais; logo,                foi proibido, at sob pena de multa, o uso de
algumas pedras no so homens" (PEDRO                     expresses psicolgicas como "o co adivinha-
HISPANO, Summ. log., 4.11).                               va, queria, desejava, etc"; e Pavlov no hesi-
    Dessa palavra teve origem a palavra "barro-           tava em definir como "desesperada", do ponto
co", usada para designar a forma de arte ou, em           de vista cientfico, a situao da psicologia como
geral, o esprito prprio do sc. XVII. "Parece           cincia dos estados subjetivos (ibid., p. 97).
indubitvel", disse Croce, "que essa palavra est         Todavia, o primeiro a enunciar claramente o
ligada a um daqueles vocbulos artificialmente            programa do B. foi J. B. Watson em um livro
compostos e mnemnicos, com que foram de-                 intitulado O comportamento -- Introduo 
signadas as figuras do silogismo na lgica me-            psicologia comparada, publicado em 1914. Foi
dieval. Entre esses vocbulos (Barbara, Celarent,         Watson quem deu o nome de B. a essa escola
etc), dois (pelo menos na Itlia) chamaram mais           e sua pretenso fundamental era limitar a pes-
a ateno cio que os outros e tornaram-se qua-            quisa psicolgica s reaes objetivamente
se proverbiais: o primeiro, Barbara, por ser o            observveis. A fora do B. consiste precisa-
primeiro, e o outro, sabe-se l por qu, Baroco,          mente na exigncia metodolgica que imps:
que designava o quarto modo da segunda figu-              no  possvel falar cientificamente daquilo que
ra. Digo no sei por qu, por no ser ele mais            escapa a qualquer possibilidade de observao
estranho do que os outros, nem mais estranho              objetiva e de controle. O B. foi muitas vezes
 o modo de silogismo que indicava: talvez para            interpretado, pelos que o questionam, como a
 tanto haja contribudo a aliterao com Barbara"         negao da "conscincia", do "esprito" ou dos
 (Storia delVet barocca in Itlia, 1925; 2a ed.,         "estados interiores", etc. Na realidade ele  sim-
 1946, pp. 20-21). Embora essa etimologia tenha           plesmente a negao da introspeco como
 sido comumente aceita, na verdade  totalmente           instrumento legtimo de investigao: negao
 desprovida de documentao e os nicos do-               que j fora feita por Comte (v. INTROSPECO).
 cumentos disponveis indicam que a palavra               Alm disso,  o reconhecimento deliberado do
 barroco derivou de barocchio, que, em Floren-            comportamento como objeto prprio da inda-
 a, era uma forma de trapaa ou escroqueria.             gao psicolgica. Nas suas primeiras manifes-
 Tal derivao  mencionada em uma carta de               taes, o B. estava ligado  corrente mecanicista,
 Magliabechi, de 1688 (cf. FRANCO VENTURI, "La            para a qual o estmulo externo  a causa do
 parola Barocco", em Rivista Storica Italiana,            comportamento, no sentido de torn-lo infali-
1959, pp . 128-130).                                      velmente previsvel; o prprio Pavlov ressalta-
                                                          va essa infalibilidade (ibid, p. 133). Mas esse
   BEATITUDE. V. BEM-AVENTURANA.                         pressuposto, de natureza ideolgica, hoje foi
   BEHAVIORISMO (in. Behaviorism; fr. Com-                abandonado pelo B., que permeou profunda-
portamentisme, ai. Behaviorismus; it. Bebavio-            mente a indagao antropolgica moderna (psi-
rismo, comportamentismo). Corrente da psico-              cologia, sociologia, etc.) (v. PSICOLOGIA).
logia contempornea que tende a restringir a
psicologia ao estudo do comportamento (v.),                   BELO (gr. x KOC,V; lat. Pulchrum; in. Beau-
eliminando qualquer referncia  "conscincia",           tiful; fr. Beau; ai. Schn; it. Bello). A noo de
ao "esprito" e, em geral, ao que no pode ser            B. coincide com a noo de objeto esttico s
observado e descrito em termos objetivos. Pavlov          a partir do sc. XVIII (v. ESTTICA); antes da
pode ser considerado seu fundador, pois foi o             descoberta da noo de gosto, o B. no era
autor da teoria dos reflexos condicionados e o            mencionado entre os objetos produzveis e, por
primeiro a fazer pesquisas psicolgicas que pres-         isso, a noo correspondente no se inclua
BELO                                                 106                                                BELO

naquilo que os antigos chamavam de potica,                unida a um belo colorido, que se chama bele-
isto , cincia ou arte da produo. Podem ser             za, tambm para a alma a uniformidade e a
distinguidos cinco conceitos fundamentais de               coerncia das opinies e dos juzos, unida a
B., defendidos e ilustrados tanto dentro quanto            certa firmeza e imutabilidade, que  conse-
fora da esttica: le o B. como manifestao do             qncia da virtude ou contm a prpria essn-
bem; 2S o B. como manifestao do verdadeiro;              cia da virtude, chama-se beleza" (Tusc, IV, 13,
3Q o B. como simetria; 4Q o B. como perfeio              31). Essa doutrina fixou-se por longo tempo na
sensvel; 5Q o B. como perfeio expressiva.               tradio. Foi adotada pelos escolsticos (p. ex.,
    1Q O B. como manifestao do bem  a teo-              S. TOMS, S. Tb., I, q. 39, aa. 8) e por muitos
ria platnica do belo. Segundo Plato, s  be-            escritores e artistas do Renascimento, quando
leza, entre todas as substncias perfeitas, "cou-          quiseram ilustrar o que procuravam fazer com
be o privilgio de ser a mais evidente e a mais            a sua arte: p. ex., Leonardo em Trattato delia
amvel" (Fed., 250 e). Por isso, na beleza e no            pittura.
amor que ela suscita, o homem encontra o ponto                 4e  com a doutrina do B. como perfeio
de partida para a recordao ou a contemplao             sensvel que nasce a Esttica. "Perfeio sen-
das substncias ideais (ibid., 251 a). A repeti-           svel" significa, por um lado, "representao
o dessa doutrina do B. no neoplatonismo                  sensvel perfeita" e, por outro, "prazer que acom-
assume carter teolgico ou mstico porque o               panha a atividade sensvel". No primeiro senti-
bem ou as essncias ideais de que falava Plato            do,  concebida principalmente pelos analis-
so hipostatizadas e unificadas por Plotino no             tas alemes e, em particular, por Baumgarten
Uno, isto , em Deus; o Uno e Deus so defi-               (Aesthetica, 1750,  14-18). No segundo senti-
nidos como "o Bem". " o Bem", diz Plotino,                do, foi utilizada sobretudo pelos analistas ingle-
"que d beleza a todas as coisas", de modo que             ses, em primeiro lugar por Hume (Essay Moral
o B., em sua pureza,  o prprio bem e todas               and Political, 1741) e porBurke (A Philosophical
as outras belezas so adquiridas, mescladas e              Inquiry into the Origin ofOur Ideas ofthe Su-
no primitivas: porque vm dele (Enn., 1, 6, 7).           blime and Beautiful, 1756), preocupados am-
Essa forma mstica ou teolgica nem sempre                 bos em determinar os caracteres que fazem do
reveste a doutrina do B. como manifestao do              prazer sensvel aquilo que se costuma chamar
bem, mas  bvio que semelhante doutrina                  de "beleza". Kant unificou essas duas defini-
explcita ou implicitamente pressuposta cada               es complementares de B. e insistiu naquilo
vez que se prope a funo da arte no aperfei-             que at hoje  considerado seu carter funda-
oamento moral.                                            mental, isto , o desinteresse. Conseqentemente,
    2e A doutrina do B. como manifestao da               definia o B. como "o que agrada universalmente
verdade  prpria do Romantismo. "O B.", di-               e sem conceitos" (Crt. do Juzo,  6) e insistia
zia Hegel, "define-se como a apario sensvel             na independncia entre prazer do B. e qual-
da Idia." Isso significa que beleza e verdade             quer interesse, tanto sensvel quanto racional.
so a mesma coisa e que se distinguem s por-              "Cada um chama de agradvel o que o satisfaz;
que, enquanto na verdade a Idia tem mani-                 de Belo, o que lhe agrada; de bom o que apre-
festao objetiva e universal, no B. ela tem               cia ou aprova, aquilo a que confere um valor
manifestao sensvel (Vorlesungen ber die                objetivo. O prazer tambm vale para os animais
sthetik, ed. Glockner, I, p. 160). Raramente,             irracionais; a beleza, s para os homens, em
fora de Hegel, esse ponto de vista foi apresen-            sua qualidade de seres animais mas racionais, e
tado com tanta deciso, mas reaparece em quase             no s por serem racionais, mas por serem, ao
todas as formas da esttica romntica, consti-             mesmo tempo, animais. O bom tem valor para
tuindo, indubitavelmente, uma definio tpica             todo ser racional em geral" (Crt. dojuizo,  5).
do belo.                                                   Kant distinguiu alm disso o B. livre (pulchritudo
                                                           vaga) e o B. aderente (pulchritudo adhaerens).
    3Q A doutrina do B. como simetria foi apre-            O primeiro no pressupe um conceito daqui-
sentada pela primeira vez por Aristteles: o B.            lo que o objeto deve ser; p. ex., as flores so
 constitudo pela ordem, pela simetria e por              belezas naturais livres. O segundo pressupe
uma grandeza capaz de ser abarcada, em seu                 esse conceito; p. ex., a beleza de um cavalo, de
conjunto, por um s olhar (Poet., 7, 1.450 b 35            uma igreja, etc. pressupe o conceito da fina-
ss.). Essa doutrina foi aceita pelos esticos, ci-         lidade a que tais objetos so destinados (ibid.,
tados por Ccero: "Assim como no corpo existe              16).
uma harmonia de feies bem proporcionadas,
BEM                                                  107                                                 BEM

   Com a doutrina de Kant, o conceito de B. foi            especfico, em que a palavra se refere parti-
reconhecido numa esfera especfica, tornou-se              cularmente ao domnio da moralidade, isto ,
um valor, ou melhor, uma classe de valores,                dos mores, da conduta, dos comportamentos
fundamental. Juntamente com o Verdadeiro e                 humanos intersubjetivos, designando, assim, o
com o Bem, entrou na constituio de uma                   valor especfico de tais comportamentos. Nesse
nova espcie de trindade ideal, correspondente             segundo significado, isto , como B. moral, o B.
s trs formas de atividade reconhecidas como               objeto da tica e o registro dos seus diferentes
prprias do homem: intelecto, sentimento e                 significados histricos  encontrado no verbete
vontade. Embora essa tripartio tenha sido                tica (v). Por ora, deveremos tratar da noo
considerada durante muito tempo como um                    de B. s no primeiro sentido, isto , na sua
dado de fato originrio, testemunhado pela                 acepo mais geral. Podemos, ento, distinguir
"conscincia" ou pela "experincia interior", na           dois pontos de vista fundamentais, que apre-
realidade  uma noo historicamente derivada,             sentam interseco na histria da filosofia: ls a
que, na segunda metade do sc. XVIII, nasceu               teoria metafsica, segundo a qual o B.  a rea-
da insero da "faculdade do sentimento" entre             lidade, mais precisamente a realidade perfeita
as outras faculdades (reconhecidas desde o tem-            ou suprema, e  desejado como tal; 2" a teoria
po de Aristteles): a teortica e a prtica (v.            subjetivista, segundo a qual o B.  o que  de-
GOSTO; SENTIMENTO).                                        sejado ou o que agrada, e  tal s nesse aspecto.
    5Q Como perfeio expressiva ou comple-                    1Q O modelo de todas as teorias metafsicas
titude da expresso, o B. , implcita ou explici-          a teoria de Plato, segundo a qual o B.  o
tamente, definido por todas as teorias que con-            que confere verdade aos objetos cognosc-
sideram a arte como expresso (v. ESTTICA, 3).            veis, que confere ao homem o poder de conhec-
Croce disse: "Parece-nos lcito e oportuno defi-           los, que confere luz e beleza s coisas, etc; em
nir a beleza como expresso bem-sucedida, ou               uma palavra,  fonte de todo ser, no homem e
melhor, como expresso pura e simples, pois a              fora do homem (Rep., VI, 508 e 509 b). Plato
expresso, quando no  bem-sucedida, no                  compara o B. ao Sol, que d aos objetos no s
 expresso" (Esttica, 4a ed., 1912, p. 92). E,           a possibilidade de serem vistos como tambm
conquanto, na obra de Croce, a teoria da arte              a de serem gerados, de crescerem e de nutrir-
como expresso se combine ou se confunda                   se; e, assim como o Sol que, mesmo sendo a
com a de arte como conhecimento, a definio               causa dessas coisas, no  nenhuma delas, tam-
de beleza dada por Croce pode ser adotada em               bm o B. como fonte da verdade, do belo, da
qualquer teoria da arte como expresso.                    cognoscibilidade, etc. e, em geral, do ser, no
    BEM (gr. yaOv; lat. Bonum; in. Good; fr.              nenhuma dessas coisas e est alm delas (ibid.,
Biert; ai. Gut; it. Bene). Em geral, tudo o que            509 b). Analogamente, Plotino v no B. a pri-
possui valor, preo, dignidade, a qualquer ttu-           meira Hipstase, isto , a origem da realidade,
lo. Na verdade, B.  a palavra tradicional para            o prprio Deus, considerando-o como causa,
indicar o que, na linguagem moderna, se cha-               ao mesmo tempo, do ser, da cincia (Enn., VI,
ma valor (v.). Um B.  um livro, um cavalo, um             7, 16) e, em geral, de tudo o que  ou vale um
alimento, qualquer coisa que se possa vender               ttulo qualquer (ibid., V, 4, 1). Essas noes
ou comprar; um B. tambm  beleza, dignida-                tornaram-se correntes na filosofia medieval,
de ou virtude humana, bem como uma ao                    que identificou, segundo o exemplo neopla-
virtuosa, um comportamento aprovvel. Em cor-              tnico, o B. com Deus mesmo, de modo que s
respondncia com essa extrema variedade de                 pode ser considerado "bom" o que , de algum
significados, o adjetivo bom tem uma idntica              modo, semelhante a Deus (S. TOMS. S. Th., I.
variedade de aplicaes. Podemos falar de "uma             q. 6, a. 4).
boa chave de fenda" ou de "um bom autom-                      O teorema caracterstico dessa concepo
vel" como tambm de "uma boa ao" ou de                   de B.  o que afirma a identidade do que  B.
"uma pessoa boa". Dizemos tambm "um bom                   com o que existe. "Bonum e em-so a mesma
prato", para indicar algo que corresponde ao               coisa na realidade", diz S. Toms, "embora pos-
nosso paladar, ou "um bom quadro", para indi-              sam distinguir-se um do outro racionalmente.
car um quadro bem-feito.                                   O B., com efeito,  o ente como objeto de
    Dessa esfera do significado geral, pela qual           desejo, o que no  o ente" (S. Th., 1, q. 5, a. 1).
a palavra se refere a tudo o que tem um valor              Por isso, "todo ente, como ente,  bom" (ibid.,
qualquer, pode-se recortar a esfera do significado         I, q. 5, a. 3). De fato, todo ente como tal est em
BEM                                                  108                                                BEM

ato e enquanto est em ato  perfeito: mas o               116 b 17). Assim, Aristteles delineia um siste-
que  perfeito  tambm apetecvel e  bom.                ma de preferncias que parece orientar-se para
Esse teorema revela a natureza da concepo                o carter de perfeio que os bens possuem
metafsica do B., cujo princpio  que o B.               objetivamente e que, portanto, mal se concilia
apetecvel s como realidade perfeita ou per-              com a definio do B. como objeto de desejo.
feio real. Pode-se, por isso, reconhecer uma                 Essa definio  validada pela primeira vez,
teoria metafsica do B. precisamente por essa              em todo o seu rigor, pelos esticos. Estes consi-
caracterstica, que subordina a apetecibilidade            deraram o B. exclusivamente como objeto de
 realidade e, por fim, considera o prprio B.             escolha obrigatria ou preferencial; portanto,
como a realidade suprema. Assim faz Hegel,                 foram tambm os primeiros a introduzir na ti-
p. ex., quando afirma que "a realidade efetiva             ca a noo de valor{v.). "Assim como  pr-
coincide em si com o B." {PhilosophischeProp-             prio do calor aquecer, e no esfriar, tambm 
deutik, III,  83), ou que o B.  "a liberdade             prprio do B. ajudar, e no prejudicar", diziam
realizada, o objetivo final absoluto do mundo"             eles (DiG. L., VII, 103). B., em sentido absolu-
{Fil. do dir.,  129). Todas as formas de idealis-         to,  somente o que se conforma  razo, que
mo e de espiritualismo constituem outras tan-              tem, por isso, um valor em si; mas so tambm
tas doutrinas metafsicas do B., j que todas              B., embora de modo subordinado ou mediato,
identificam o B. com a realidade e, em ltima              as coisas que fazem apelo  escolha e enquan-
instncia, com a realidade suprema;  o que                to tais tm valor, como o talento, a arte, a vida,
fazem, p. ex., Rosmini, que identifica ser e bem           a sade, a fora, a beleza, etc. iibid., 104-5; cf.
(Princip dela scienza morale, ed. nac, p. 78),            CCERO, De finibus, III, 6, 20). Essa tbua de
e Gentile, que identifica o B. com o esprito em           valores prescindia completamente da perfei-
ato: "O B. ou valor moral outra coisa no                 o objetiva a que se referiam as tbuas de
seno a realidade espiritual em sua idealidade,            valores da concepo clssica grega.
como produo de si mesma ou liberdade" {L-                   Obliterada durante toda a Idade Mdia, a
gica, 1, p. 110). Algumas filosofias contempor-           concepo subjetivista de B. volta, no Renas-
neas que preferem falar de valor em vez de B.,             cimento, com as aluses  tica do mbil, que
considerando o valor como uma realidade ab-                se repetem nesse perodo (v. TICA), mas foi
soluta e ltima, inscrevem-se na mesma con-                afirmada na sua forma mais ntida por Hobbes.
cepo tradicional de bem.                                 "O homem chama de bom o objeto de seu ape-
    2- Por outro lado, a teoria subjetivista do B.         tite ou de seu desejo, de mauo objeto de seu dio
 o inverso simtrico da teoria metafsica. Para           ou de sua averso, de vil o objeto de seu despre-
ela, o B. no  desejado por ser perfeio e               zo. As palavras 'bom', 'mau', 'vil' so sempre
realidade, mas  perfeio e realidade por ser             entendidas em relao a quem as emprega,
desejado. Ser desejado ou apetecido  o que                porque nada h de absoluto e simplesmente
define o B. Foi assim que Aristteles o definiu            tal, e no h nenhuma norma comum para o B.
vrias vezes {Et. nic, I, 1, 1.094 a 3). Todavia,          e para o mal que derive da natureza das coisas"
nesse autor, a doutrina no deixa de ter cone-             (Leviath., I, 6). Spinoza aceitou com entusias-
xes ou misturas com a doutrina oposta. Quan-              mo esse ponto de vista. "Ns no nos propo-
do precisa determinar os critrios de prefern-            mos, no queremos, no desejamos, no ansi-
cia entre os vrios bens, recorre  noo                  mos por uma coisa porque a julguemos boa,
metafsica de perfeio, isto ,  noo que               mas, ao contrrio, julgamo-la boa pelo fato de
fundamenta a teoria oposta de B. Assim, p. ex.,            a propormos, querermos, desejarmos e ansiar-
ele diz que o que  B. em absoluto  mais                  mos" {Et., III, 9, escl.). E, no prefcio ao IV
desejvel do que aquilo que  um B. para al-               Livro, reitera: "O B. e o mal no indicam nada
gum, como p. ex. curar-se  prefervel a sofrer           positivo que esteja nas coisas consideradas em
uma operao cirrgica; que o que  um B. por              si, mas so nada mais do que modos de pensar
natureza (p. ex., a justia)  prefervel ao que          ou noes que formamos, ao confrontar as coi-
um B. por aquisio (p. ex., o homem justo).               sas. Realmente, uma mesma coisa pode ser, ao
Alm disso, "mais desejvel  o que pertence a             mesmo tempo, boa, m e at indiferente". Por
um objeto melhor e mais digno, de tal modo                 sua vez, Locke afirmou que "chamamos de B.
que o que pertence  divindade  prefervel ao             o que  capaz de produzir prazer em ns e de
que pertence ao homem, e o que tange  alma                mal o que  capaz de produzir sofrimento"
 prefervel ao que tange ao corpo" {Top., III, 1,         {Ensaio, II, 21, 43); definies que encontram
BEM                                                  109                             BEM AVENTURANA

concordncia em Leibniz: "O B. divide-se em                renascer, com forma pouco alterada, a alterna-
honesto, agradvel e til, mas, no fundo, creio            tiva entre uma concepo objetivista e uma con-
que deve ser agradvel por si mesmo ou servir              cepo subjetivista: alternativa que ainda hoje
a algo que nos d sentimento de prazer: o B.              constitui um dos temas fundamentais da dis-
agradvel ou til e mesmo a honestidade con-               cusso moral (v. VALOR).
siste em um prazer do esprito" (Nouv. ess., II,               BEM-AVENTURANA (gr. |j.aKapa; lat.
20, 2). Kant aceitou essas observaes, acres-             Beatitudo; in. Beatitude; fr. Batitude; ai.
centando-lhes um elemento importante, isto ,               Seligheit; it. Beatitudin). O significado desse
a exigncia de uma referncia conceituai. "O               termo pode distinguir-se do de felicidade (v.),
B." diz ele, " o que, por intermdio da razo,            de que  sinnimo, porque designa um estado
agrada pelo seu conceito puro. Dizemos que                 de satisfao completa, perfeitamente inde-
alguma coisa  boa para (til) quando ela agra-            pendente das vicissitudes do mundo. Aristte-
da s como um meio; aquela que, ao contrrio,              les, que s vezes usa esse termo e o termo
agrada por si mesma, dizemos que  boa em si.              felicidade indiferentemente, vincula a B.  con-
Em ambas, esto sempre contidos o conceito                 templao e comensura-a com o grau da ativi-
de finalidade e a relao entre razo e vontade            dade contemplativa nos vrios seres vivos. As-
(pelo menos possvel); conseqentemente, o                 sim, a vida dos deuses  bem-aventurada porque
prazer est ligado  existncia de um objeto ou            contemplativa. Aos homens cabe uma espcie
de uma ao, vale dizer, a um interesse" (Crt.            de semelhana com essa vida porque se ele-
dojuzo,  4). A presena do conceito, isto , do          vam s vez por outra  contemplao; os ani-
fim a que a coisa tende ou da norma a que deve             mais no so absolutamente bem-aventurados
adequar-se,  o que distingue o bom do agra-               porque carecem de atividade contemplativa (Et.
dvel. Kant nota que um alimento agradvel,                 nic, X, 8, 1.178 b 9 ss.). Entre os homens,
para ser considerado "bom", deve agradar tam-              naturalmente, o sbio  o mais bem-aventura-
bm  razo, isto , deve ser considerado bom              do (ibid., I, 11, 1.101 b 24). Na filosofia ps-
em relao ao objetivo da nutrio, da sade               aristotlica e sobretudo na estica, a B. do s-
fsica. Todavia, o agradvel e o bom esto liga-           bio tornou-se tema comum de exerccio (cf. De
dos pelo fato de dependerem ambos do inte-                 vita beata de Sneca), e no neoplatonismo de
resse pelo seu objeto; alm disso, "o que  B              Plotino a crtica da felicidade, como  entendi-
absolutamente sob todos os aspectos, o B. mo-              da por esticos e aristotlicos (Enn., I, 4), 
ral, inclui o mais alto interesse, pois o B.  o           acompanhada pelo conceito de que a B.  inati-
objeto da vontade, isto , de uma faculdade de             va porque indiferente a toda realidade externa.
desejar determinada pela razo. Mas querer                 "Os seres bem-aventurados esto imveis em
alguma coisa e ter prazer por sua existncia,              si e basta-lhes ser o que so: no se arriscam a
isto , sentir interesse por ela, so a mesma              ocupar-se com nada, pois isso os faria sair do
coisa" (bid., fim). Nesse sentido, o B.  aquilo          seu estado; mas essa  a felicidade deles, pois,
que se aprecia, que se aprova e a que se atribui           sem agir, realizam grandes coisas e no fazem
"um valor objetivo" (ibid,  5). Assim, no seio            pouco permanecendo imveis em si mesmos"
da prpria teoria subjetivista, Kant valida a exi-         (ibid., II, 2,1). A partir do neoplatonismo, pode-
gncia objetivista que constitua a fora da teo-          se dizer que o conceito de B. se foi distinguin-
ria metafsica. O B., para Kant, s  B. em re-            do cada vez mais do de felicidade, ligando-se
lao ao homem, isto , em face do interesse               estreitamente  vida contemplativa, ao aban-
que o homem tem por sua existncia. Mas isso               dono da ao e  atitude de reflexo interior e
no o torna exclusivamente subjetivo, isto ,              de retorno para si mesmo. A tradio crist
no o identifica pura e simplesmente com o                 agiu no mesmo sentido, vinculando a B. a uma
prazer porque ao reconhecimento do B. est                 condio ou estado, to independente das li-
vinculada a valorizao conceituai de sua efi-             des mundanas quanto dependente da disposi-
cincia em relao a certos fins e  isto que              o interna da alma. A doutrina aristotlica da
constitui o B. como "um valor objetivo".                   felicidade, prpria da vida contemplativa, ser-
                                                           viu de modelo aos escolsticos para a elabora-
   Depois de Kant, a noo de valor tende a                o do conceito de beatitude. S. Toms diz que
suplantar a de B. nas discusses morais, e pode            a B.  "a ltima perfeio do homem", isto , a
ser considerada como sucessora do conceito                 atividade da sua faculdade mais elevada, o in-
subjetivo de B., dotada que  de suas mesmas               telecto na contemplao da realidade superior,
conexes sistemticas. Em seu lugar, porm,
BEM SUPREMO ou SUMO BEM                                110                                      BIOLOGISMO

isto , de Deus e dos anjos. "Na vida con-                   pregam essa expresso para indicar Deus mes-
templativa, o homem comunica-se com as rea-                  mo (S. TOMS, S. Th., I, q. 6, a. 1). Kant conside-
lidades superiores, ou seja, com Deus e com os               rou o adjetivo "sumo" equvoco, pois ele pode
anjos, s quais se assemelha tambm na B."                   significar tanto supremo (supremum) como per-
Portanto, o homem s obter a B. perfeita na                 feito (consummatum). O B. supremo  a condi-
vida futura, que ser inteiramente contemplativa.            o primeira e originria de todo B.: , por isso,
Na vida terrena, ele pode obter uma B. imper-                a virtude. Mas o B. perfeito  o que no  parte
feita, em primeiro lugar por meio da contem-                 de um B. maior da mesma espcie; nesse senti-
plao e em segundo lugar por meio da ativi-                 do, a virtude no pode ser chamada de "B.
dade do intelecto prtico que organiza as aes              perfeito", que  a unio de virtude e felicidade
e as paixes humanas, isto , com a virtude (S.              (Crit. R. Pratica, Dialtica, cap. II).
 Th., II, I, q. 3, a. 5). Na Idade Moderna, o con-              BENEVOLNCIA. V. BONDADE.
ceito de B. e o de felicidade foram-se distin-                  BENTHAMISMO. V. UTILITARISMO.
guindo cada vez mais, referindo-se o primeiro                   BERGSONISMO. V. ESPIRITUALISMO.
 esfera religiosa e contemplativa e o segundo                 BERKELIANISMO. V. IMATERIALISMO.
esfera moral e prtica. Pode-se dizer que o ni-                BICONDICIONAL (in.           Biconditional; fr.
co filsofo que no une os dois significados                 Bconditionnel; it. Bicondizionale). Por esse
por simples confuso  Spinoza, para quem a                  nome ou pelo de "equivalncia material" en-
B. " a satisfao ntima que nasce da cognio              tende-se comumente, na lgica contempor-
intuitiva de Deus" (Et., IV, ap. 4), identificando-a         nea, o conectivo "se e somente se", simboliza-
com a liberdade e com o amor do homem por                    do s vezes com o sinal = (cf. QUINE, Methods
Deus, que  o mesmo amor com que Deus se                     of Logic,  3). B. eqivale, obviamente,  con-
ama a si mesmo (ibid., V, 36, escl.). Mas como              juno das duas condicionais: "se p, ento d" e
a intuio de Deus ou o amor por Deus signi-                 "se q, ento p".
ficam, para Spinoza, o conhecimento da ordem                     BIOGNETICA, LEI (ai. Biogenetisches
necessria das coisas do mundo (ibid., V, 31-                Grundgesetz). Foi assim que o bilogo alemo
33), o carter mstico-religioso ou contemplativo            Ernst Haeckel (1834-1919) chamou ao pa-
da B. identifica-se com o carter mundano e                  ralelismo entre o desenvolvimento do embrio
prtico da felicidade. O mesmo significado est              individual e o desenvolvimento da espcie a
na obra de Fichte, Introduo  vida bem-aven-               que ele pertence. No que tange ao homem, "a
turada(1806). Aqui a B.  definida, tradicional-             ontognese, ou seja, o desenvolvimento do in-
mente, como a unio com Deus: mas Fichte                     divduo,  uma breve e rpida repetio (reca-
preocupa-se em abolir o significado contem-                  pitulao) da filognese ou evoluo da espcie
plativo tradicional, no a considerando resulta-             a que ele pertence" (Natrliche Schpfungs-
do de um "sonho devoto", mas da prpria mo-                  geschichte, 1868; trad. it., pp. 178-189).
ralidade operante (Werke, V, p. 474).
                                                                 BIOLOGISMO (in. Biologism; fr. Biologis-
   No pensamento moderno, essa noo e as                    me, ai. Biologismus; it. Biologism). 1. Interpre-
palavras beatitude e beato deixaram de ter um                tao do mundo fsico ou do mundo humano
uso propriamente filosfico. Alm de ter acep-               por analogia com o organismo (v. ORGANICISMO).
es religiosas pejorativas,  considerada til                 2. O mesmo que vitalismo (v.).
por alguns psiclogos, que a empregam para                      3. A metafsica de Hans Driesch (1867-1941),
indicar certos estados patolgicos de alegria,               enquanto "filosofia do orgnico". Driesch divi-
caracterizados pelo completo esquecimento da                 de a filosofia em "doutrina da ordem", que tem
realidade(PIERREJANET, DeVangoissel'xtase,                 por objeto todo o mundo inorgnico, e "doutri-
III, cap. II).                                               na da vida", que tem por objeto o mundo org-
   BEM SUPREMO ou SUMO BEM (gr xya                          nico. O pressuposto dessa subdiviso  que o
8v; lat. Summum honum; in. Supreme good;                    organismo no  redutvel s formas ou mani-
fr. Souverain bien; ai. Das hchste Gut; it. Bene            festaes da ordem inorgnica; ou, em outras
somm). Noo introduzida por Aristteles, para              palavras, no  uma mquina. O que ele tem a
indicar o que  desejado por si mesmo e no                  mais em relao  mquina  a entelquia,
em vista de outro B.  necessrio que haja um                concebida por Driesch como uma espcie de
B. supremo para evitar o processo ao infinito                mnada no sentido leibniziano, que determina
(Et. nic, I, 2, 1.094 a 18). Para Aristteles, o B.          todo o desenvolvimento de um ser vivo. A
supremo  a felicidade. Os escolsticos em-                  entelquia  supra-individual e supra pessoal: o
BIOSFERA                                             111                                        BUDISMO

nascimento de um homem  justamente a ma-              cotidianas, entre as quais o B. senso estaria em
nifestao de uma entelquia, manifestao que         seu elemento.
termina com a morte. Os indivduos so, por-               BONDADE (lat. Bonitas; in. Goodness; fr.
tanto, partes da vida suprapessoal da entelquia       Bont, ai. Gtigheit; it. Bont). Em sentido lato,
(PhosophiedesOrganischen, 1908-9; Ordnungs-           excelncia de um objeto qualquer (coisa ou
lehre, 1925).                                          pessoa). Diz, p. ex., S. Toms: "A B. que em
   BIOSFERA (fr. Biosphre). Foi esse o nome           Deus est de modo simples e uniforme, nas
dado por Le Roy  vida em sua totalidade, na           criaturas est de modo mltiplo e dividido" (S.
medida em que est para os indivduos assim             Th., 1, q. 47, a. 1). As discusses dos scs. XVII
como o pensamento est para as idias que              e XVIII a propsito da B. de Deus como mvel
produz:  a fora ou o princpio criador deles         da criao (cf. LEIBNIZ, Thod., II,  116 ss.) fun-
(L'exigence idalistique et lefait de 1'volution,     daram-se num significado mais restrito do ter-
1927). Com a apario do homem na Terra,               mo, que foi expresso claramente por Baumgar-
comea o reino da noosfera, isto , o reino do         ten: "A B. (benignidade)  a determinao da
progresso espiritual que o homem realiza em            vontade de fazer bem aos outros. O benefcio
todos os campos mediante o poder inventivo              a ao til ao outro, sugerida pela B." (Met.,
do pensamento intuitivo (La pense intuitve,           903). Nesse sentido, a B. identifica-se com o
1929-30).                                              que Aristteles chamava de benevolncia
   BIRANISMO. V. ESPIRITAUSMO.                        (eirvooc) (Et. nic, VIII, 2, 1.155 b 33). Os dois
  BOA VONTADE. V. VONTADE.                             significados desse termo esto vivos no uso
    BOCARDO. Palavra mnemnica usada pe-               comum.
los escolsticos para indicar o quinto dos seis            BOVARISMO (fr. Bovarisme). Termo deri-
modos do silogismo de terceira figura, mais            vado do nome da famosa herona de Flaubert
precisamente o que consiste em uma premissa            (Madame Bovary, 1857), para indicar a atitude
particular negativa, uma premissa universal afir-      de quem cria para si mesmo uma personalida-
mativa e uma concluso particular negativa,            de fictcia e procura viver em conformidade
como no exemplo: "Alguns homens no so                com ela, chocando-se contra a sua prpria na-
pedras; todo homem  animal; logo, alguns              tureza e contra os fatos. O termo foi criado por
animais no so pedras" (PEDRO HISPANO, Summ.          Jules de Gaultier (Le bovarisme, 1902).
log., 4.15).                                               BRAQUILOGIA (gr. Ppaxtioya). No Pro-
    BOM. V. BEM.                                       tgomsde Plato, Scrates contrape a sua exi-
    BOM SENSO (in. Good sense, fr. Bon sens;           gncia de respostas breves e sucintas  tendn-
it. Buon senso). Essa expresso, que no deve ser      cia de Protgoras de fazer longos discursos,
confundida com senso comum (v.), foi usada             obviamente porque s atravs da troca de fra-
por Descartes como sinnimo de razo, na fra-          ses concisas  possvel a discusso em forma
se que abre o Discurso do mtodo: "A faculdade         de dilogo (Prot., 334 c-335 a).
de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do              BRUTISMO (fr. Brutism). Termo empregado
falso, propriamente chamada de B. senso ou             por St.-Simon para indicar a concepo me-
razo, , por natureza, igual em todos os ho-          canicista dos fenmenos; por isso,  equivalen-
mens". Hoje, no se poderia mais admitir essa          te a mecanicismo (v.).
sinonmia. Por um lado, a razo passou cada                BUDISMO (in. Buddhism; fr. Bouddhisme,
vez mais a designar tcnicas especficas (v.           ai. Buddhismus; it. Buddismo). Doutrina reli-
RAZO) e, por outro, o B. senso continuou de-          giosa e filosfica que se originou dos ensina-
signando certo desequilbrio e certa modera-           mentos de Gautama Buda (563-480 a.C. aprox.)
o no juzo dos problemas comuns da vida e            e que foi depois desenvolvida em grande n-
no comportamento cotidiano. Muitas vezes,              mero de diferentes tendncias na ndia, na Chi-
porm, o que parece extravagante ou parado-            na e no Japo. Os principais textos do B. so os
xal para o B. senso tem mais valor do que aquilo       escritos em lngua pli, chamados de Tipitaka
que se lhe conforma, porque o B. senso tem             e divididos em trs grupos ou cestos: ls o Sutta-
como referncia apenas o sistema estabelecido          pitaka, que compreende os Sutra, isto , discur-
de crenas e de opinies, s podendo julgar a          sos ou ensinamentos atribudos a Buda; 2 o
partir dos valores que esse sistema inclui.            Vinayapitaka, que compreende as regras da
muito freqente que a cincia e a filosofia pres-      disciplina monstica; 3S Abhdhammapitaka,
cindam do B. senso, ainda que nunca ou quase           que  o "cesto" da metafsica, isto , a seo
 nunca possam deixar de lado as pequenas aes         doutrinai da coleo.
BUDISMO                                            112                                        BUDISMO

    O B.  o maior exemplo de religio perfeita-             As numerosssimas escolas, seitas e tendn-
mente ateia. Sua doutrina fundamental resume-             cias filosfico-religiosas que se originaram do
se nas quatro verdades nobres: 1- a vida  dor;           B. costumam ser agrupadas em duas grandes
2- a causa da dor  o desejo; 3a obtm-se a               categorias, chamadas, respectivamente, de pe-
cessao da dor com a cessao do desejo; 4-              queno veculo (hinayand) e grande veculo
existe um caminho ctuplo que conduz  cessa-            imahayana). O pequeno veculo foi o que per-
o da dor. O caminho ctuplo consiste: ls na            maneceu mais estritamente fiel ao ensinamento
justa viso; 2S na justa resoluo; 3e na justa          dos textos pli. A salvao est reservada ao
linguagem; 4S na justa conduta; 5" no justo vi-          monge, isto , ao que seguiu a via da meditao
ver; 6Q no justo esforo; 7S na justa mentalida-         e alcanou o nirvana. As escolas do pequeno
de; 8S na justa concentrao.                            veculo difundiram-se sobretudo na ndia, na
    Segundo o B., o homem est sujeito  lei             Birmnia, no Sio, no Camboja e no Laos. Se-
do incessante fluir da vida (dharm), que o              gundo o grande veculo, a salvao pode ser
leva de desejo em desejo, de dor em dor, de              obtida por qualquer fiel, atravs da piedade e
encarnao em encarnao. Enquanto o ho-                 da caridade para com as outras criaturas, pelo
mem no se libertar do desejo, estar submeti-           que o nirvana deixa de ser libertao individual
do ao ciclo de renascimentos (samsara). A li-            para tornar-se libertao do gnero humano
bertao do desejo, obtida por meio das regras           e, em geral, do mundo. O grande veculo di-
morais acima e da disciplina asctica (que o             fundiu-se sobretudo no Tibete, na China e no
B. compartilhava com o bramanismo e com a                Japo.
prtica ioga), obtm-se somente com a disso-                 (Cf. DAS GUPTA, A History of ndian Phi-
luo da iluso produzida pelo desejo (e que             losophy, I, 1922, pp. 78 ss.; G. Tucci, Storia
 o karmd), com a eliminao do prprio de-              delia filosofia indiana, 1957, pp. 64 ss.; S.
sejo e a destruio do apego  vida, que  o             RADHAKRISHNAN, History of Philosophy Eastern
nirvana.                                                 and Western, I, 1952.)
                                                 c
  C. 1. Na lgica medieval, todos os silogis-        dos ou ento, como ocorre mais freqen-
mos indicados com palavras mnemnicas que            temente, os clculos podem tirar seu nome
comeam por C so redutveis ao segundo              dos objetos por eles designados, ou seja, a que
modo da primeira figura (Celareni) (cf. PEDRO        se referem {Introduction to Semantics, 2- ed.,
HISPANO, Summ. log., 4. 20).                         1959, p. 230). Nesse segundo sentido, o C.
    2. Na notao de Lukasiewicz, usa-se para in-    proposicional  o estudo formal dos conec-
dicar o condicional ou a implicao lgica, mais     tivos lgicos (v. CONECTIVOS) e os seus teoremas
comumente simbolizado por "c" (A. CHURCH,            so constitudos pelas frmulas que podem
Introduction to Mathematical Logic, ne 91).          derivar das frmulas primitivas com a aplica-
    CLCULO (in. Calculus; fr. Calcul- ai. Be-       o sucessiva das regras primitivas de infe-
rechnung; it. Calcol). Entende-se hoje por esse     rncia. O C. funcional, por sua vez, tem como
termo qualquer mtodo ou procedimento de-            objeto as funes proposicionais (v. FUNO) e,
dutivo, isto , que seja capaz de efetuar infe-      alm dos conectivos, utiliza o quantificador
rncias sem recorrer a dados de fato. C. so, p.     universal (v. OPERADOR). O C. das classes ou l-
ex., os procedimentos da matemtica e da l-         gebra das classes trata de classes ou conjuntos
gica. Esse significado genrico do termo j fora     determinados por funes proposicionais ou
proposto por Hobbes, que definia a prpria ra-       predicados e d lugar a frmulas que so ex-
zo como um clculo. "A razo, dizia ele, no        presses nas quais se reitera o smbolo = ou *
 seno um C, isto , uma adio ou subtrao        (desigual). A lgebra das classes  isomrfica
das conseqncias dos nomes gerais reuni-            com o C. funcional porque coincide com ele
dos para definir e exprimir os nossos pensa-         no seu significado (v. LGEBRA DA LGICA). En-
mentos" (Leviath., I, 5). Leibniz chamou de          fim, a lgebra das relaes  o estudo formal
"C. filosfico" a cincia universal ou caracters-   das relaes (v.).
 tica universal (v.) em que ele via o instrumento       CLCULO COMBINATRIO. V COMBINA
da inveno conceituai (Op., ed. Erdmann, pp.        TRIA, ARTE.
82 ss.). Carnap faz a distino entre C. e siste-       CLCULO HEDONSTICO (in. Hedonic
ma semntico, no sentido de que, "enquanto           Calculus). Foi esse o nome que Bentham deu
os enunciados de um sistema semntico so in-        ao quadro completo dos mveis da ao huma-
terpretados, afirmam alguma coisa e por isso         na, que serviriam de guia para qualquer legisla-
 so verdadeiros ou falsos, no clculo os enun-      o futura. O quadro compreende a determina-
 ciados so considerados do ponto de vista pu-       o da medida da dor e do prazer em geral; em
ramente formal". Para sublinhar essa distino,      segundo lugar, uma classificao das vrias es-
s vezes os elementos do C. so chamados de          pcies de prazer e de dor; em terceiro lugar,
frmulas e os elementos do sistema semntico,        uma classificao das diversas sensibilidades
 de proposies (Foundations of Logic and Ma-        dos indivduos ao prazer e  dor. Pelo primei-
 thematics,  9).                                    ro aspecto, o prazer e a dor so considerados
   Carnap tambm observou que os clculos            como entidades passveis de serem pesadas e
podem tomar o nome dos sinais ou das ex-             medidas, estando, portanto, sujeitas a um C. ri-
presses que neles aparecem; nesse sentido,          goroso. Esse C. versar sobre a intensidade, a
diz-se clculo dos enunciados ou dos predica-        durao, a certeza, a proximidade, a fecundidade
CALENDES                                                114                                            CANON

e a pureza do prazer (Principies of Moral and                 muscular imediatamente ligado ao levantamen-
Legislation, 1789) (v. DF.ONTOLOGIA).                         to do peso, mas tambm o tnus de todo o
   CALENDES. Palavra mnemnica usada pela                     resto da musculatura" (KATZ, Gestaltpsychologie,
Lgica de Port-Royal para indicar o sexto modo                3; trad. it., pp. 29-30). Mais precisa e generica-
do silogismo de primeira figura (isto , Ce-                  mente, K. LEWIN definiu o C, entendido como o
lantes), com a diferena de assumir como pre-                 "espao vital" de um organismo, como "a totali-
missa maior a proposio em que entra o                       dade dos eventos possveis", da qual derivaria
predicado da concluso. P. ex.: "Todos os ma-                 o comportamento do prprio organismo (Prin-
les da vida so males passageiros; todos os                   cipies ofTopological Psychology, 1- ed., 1936, p.
males passageiros no devem ser temidos; logo,                14). Dewey emprega a palavra em sentido ge-
nenhum dos males temveis  um mal desta                      nrico: " sempre em algum C. que se verifica
vida" (ARNAULD, Log., III, 8).                                a observao deste ou daquele objeto. Tal ob-
   CALVO, ARGUMENTO DO. V. MONTO,                            servao  feita com o fim de descobrir o que
ARGUMENTO DO.                                                 aquele C. representa em relao a alguma res-
    CAMESTRES. Palavra mnemnica usada pe-                    posta ativa de adaptao com que dar prosse-
los escolsticos para indicar o segundo dos                   guimento a um comportamento" (Logic, Intr.,
quatro modos do silogismo de segunda figura,                  trad. it., p. 111).
mais precisamente o que consiste em uma pre-                      Essa noo  usada com mais preciso em
missa universal afirmativa, uma premissa uni-                 lgica, entendendo-se por C. de uma relao
versal negativa e uma concluso universal ne-                 o conjunto do dominante e do dominante in-
gativa, como p. ex.: "Todo homem  animal;                    verso da relao; isto , dos termos que esto
nenhuma pedra  animal; logo, nenhuma                         em dada relao com este ou aquele termo
pedra  homem" (PEDRO HISPANO, Summ. log.,                    (dominantes) ou dos termos com que este ou
4, 11).                                                       aquele termo se acha em dada relao (domi-
    CAMPO (in. Field; fr. Champ ai. Feld; it.                 nantes inversos) (v. RELAO). Esse conceito
Campo). Conjunto de condies que possibili-                  tambm foi usado na teoria do significado (cf.
tam um evento; ou limites de validade ou de                   A. P. USHENKO, The Field Tbeoty 0/Meaning,
aplicabilidade de um instrumento cognoscitivo.                1958) e em lingstica, em que o C. foi enten-
Dizia Kant: "Os conceitos tm um C. prprio na                dido como a rede de associaes que interli-
medida em que se referem a objetos, prescin-                  gam um termo a muitos outros termos (ULMANN,
dindo da possibilidade do conhecimento dos                    Semantics, 1962, IX, 1).
prprios objetos, e o C.  determinado unica-                     CANCELAMENTO (ai. Durchstreichung).
mente pela relao que o objeto tem com a                     Em Ideen (I,  106) Husserl chama de C. a
nossa faculdade de conhecer em geral" (Crt.                  negao de uma crena ou a tomada de posi-
do Juzo, intr.  11). Em fsica, C. significa ''dis-         o contra ela.
tribuio contnua de algumas condies pre-                      CNON (gr. ravtv; in. Canon; fr. Canon;
dominantes, atravs de um contnuo" onde a                    ai. Kanon; it. Cnone). Critrio ou regra de
palavra "condio" indica uma grandeza qual-                  escolhas para um campo qualquer de conheci-
quer, que pode variar segundo o problema de                   mento ou de ao.  provvel que esse termo
que se trata. Quando a condio  adequada-                   tenha sido introduzido pelo escultor Policleto,
mente descrita para cada ponto do espao por                  que deu esse ttulo a uma obra na qual descre-
um nmero simples (isto , por um escalar),                   via a simetria do corpo e indicava as regras e
tem-se o que se conhece por campo escalar.                    as propores que o escultor deve respeitar
P. ex., a temperatura  a condio de um C. e                 (40, A, 3 Diels). Epicuro chamou de cannica a
por isso a distribuio da temperatura por meio               cincia do critrio; para ele, critrio  a sensa-
do volume  um exemplo fsico de C. escalar                   o no domnio do conhecimento e o prazer
(D'ABRO, New Physcs, captulo X). Analoga-                   no domnio prtico (DIG. L., X, 30). Esse termo
mente, em psicologia, p. ex., na psicologia da                foi retomado pelos matemticos do sc. XVIII e
forma, onde o conceito foi assim ilustrado: "O                Leibniz o emprega para designar "as frmulas
que determina a impresso de cor que experi-                  gerais que do o que se pede" (Mathematische
mentamos em um ponto circunscrito do C. vi-                   Schriften, VIII, 217), p. ex., a frmula que d
sual  o estado excitvel global do C. visual; o              dois nmeros cuja soma e subtrao se conhe-
que determina a impresso de um peso que                      cem, ou a que d as razes de uma equao.
levantamos no  somente a tenso do grupo                    Stuart Mill chama de C. as regras que exprimem
CAOS                                                 115                                          CARTER

os quatro mtodos da pesquisa experimental,                meio de sinais sensveis concomitantes" como
isto , concordncia, diferena, resduos e varia-         as palavras, os gestos, os signos algbricos, etc.
es concomitantes (Logic, II, 8,  1 ss.). Kant           (Crt. do Juzo,  59).
entende por C. o uso legtimo de uma faculda-                  CARACTERSTICA (lat. Characteristic).
de humana em geral; por isso, considera a l-              Leibniz preferiu dar o nome de C. ou C. universal
gica geral como um C. para o intelecto e a                 quilo que, anteriormente (1666), chamara de
razo no que tange  forma (j que prescinde               "arte combinatria", isto , "a arte de formar e
de qualquer contedo); considera a analtica               de ordenar os caracteres de modo que se refi-
transcendental como "o C. do intelecto puro" e             ram aos pensamentos, isto , de modo que
chama de "C. da razo pura" o conjunto de                  tenham entre si a mesma relao que existe en-
princpios a priori do uso legtimo de certas              tre os prprios pensamentos". Os caracteres
faculdades cognoscitivas em geral. Onde no                no so seno sinais escritos, desenhados ou
 possvel o uso legtimo de uma faculdade,                esculpidos. Os fundamentos da arte combi-
no h C; por isso, a dialtica transcendental,            natria so expressos pelo prprio Leibniz no
 isto , o uso especulativo da razo, no tem              livro Fundamenta calculi, ratiocinatoris (Op.,
um C. ou pelo menos no tem um C. teortico,               ed. Erdmann, pp. 92 ss.) do seguinte modo:
mas pode ter apenas um para uso prtico (Crt.             Todos os pensamentos humanos podem ser
R. Pura, Doutr. do mtodo, cap. II). Por outro             reduzidos a poucas noes primitivas; se tais
lado, ele fala de C. do juzo moral, assim ex-             noes forem expressas com caracteres, isto ,
presso: "Deve-se poder querer que a mxima                 com smbolos,  possvel formar os smbolos
 da nossa ao se torne lei universal" (Grund-             das noes derivadas e, assim, passar a deduzir
 legung zur Met. der Sitten, II). Na filosofia             tudo o que est implcito nas noes primitivas
                                                           e nas definies. Desse modo, ser possvel
 moderna e na filosofia contempornea, em-
                                                           proceder com certeza matemtica tanto  aqui-
 prega-se mais freqentemente o termo critrio             sio de novos conhecimentos quanto ao con-
 (v.), No entanto, s vezes C. tambm  empre-             trole dos j possudos e tambm ser possvel
 gado no sentido tradicional. Dewey chama de               determinar antecipadamente que experincias
 C. os princpios lgicos de identidade, contra-           ou novas noes so necessrias a ulteriores
 dio e terceiro excludo (Logic, cap. XVII).             desenvolvimentos do conhecimento. A C. de-
     CAOS (gr. %co). Propriamente: abismo                veria, portanto, formar um clculo lgico, pro-
 hiante. Estado de completa desordem anterior              vido de smbolos e regras prprias. Kant com-
  formao do mundo e a partir do qual se ini-            parava a C. universal de Leibniz ao tesouro
 cia tal formao, segundo os mitlogos. Diz               escondido de que fala uma fbula de Fedro: os
 Hesodo: "Antes de todos os seres houve o C,              filhos, a quem o pai confiara a existncia do
 depois a Terra de largo seio" (Teog., V, 116).            tesouro no leito de morte, remexem a terra e
 Aristteles combateu essa noo (Fs., IV, 208 b          fertilizam-na, sendo esse o nico tesouro que
 31 ss.) porque admitia a eternidade do mundo.             encontram (Nova dilucidatio princpiorum
 Kant utilizou-a para indicar o estado original da         metaphysicae, 1755, prop. II). Todavia, a idia
 matria, de que os mundos depois se origina-              de Leibniz e as vrias tentativas de realiz-la
 ram (Allgemene Naturgeschichte oder Theorie              constituem o precedente histrico imediato da
des Himmels, 1755, Pref.).                                 moderna lgica simblica.
  CARACTERES (ai. Charakters). Assim Ave-                     CARACTEROLOGIA (fr. Caractrologie, ai.
narius (Kritik der reinen Erfahrung, 1888-90)              Charakterologie ou Cbamkterkunde, it. Carat-
chamou um dos dois fatores de que se com-                  terologia). Termo que entrou em uso na se-
pe o mundo da experincia, mais precisamente              gunda metade do sculo passado para indicar
aquele que consiste nas determinaes emoti-               a cincia do temperamento ou do carter. Cf.
vas, existenciais, prticas e, em geral, valo-             CARTER; ETOLOGIA.
rativas dos elementos que constituem o outro                  CARTER (gr. xapocicnp, n6o; lat. Character,
fator da prpria experincia. Assim, so C. o              in. Character, fr. Caractre, ai. Charakter, it.
prazer, a dor, o ser, a aparncia, o certo, o in-          Caratter). Propriamente o sinal, ou o conjunto
certo, etc, ao passo que as sensaes (sons,               de sinais, que distingue um objeto e permite
cores, etc.) so elementos.                                reconhec-lo facilmente entre os outros. Em
    CARACTERISMAS (ai. Charakterismen).                    particular, o modo de ser ou de comportar-se
Para Kant, so "designaes dos conceitos por              habitual e constante de uma pessoa,  medida
CARTER                                                116                                        CARTER

 que individualiza e distingue a prpria pessoa.               A distino kantiana de dois C, um natu-
 Nesse sentido, dizemos que "Uma pessoa tem                ral e imutvel e outro moral e livre,  totalmen-
 um C. bem marcado" ou "bem definido", no                  te abandonada na antropologia contempor-
 sentido de que o seu modo de agir revela orien-           nea, que, todavia, d grande destaque  no-
 taes habituais e constantes. Em sentido opos-           o de carter. Mas na interpretao dessa
 to, falamos de "falta de C." ou "C. fraco", "mau          noo, pode-se dizer que a antropologia con-
 C." ou "C. inconstante", comportamento habi-              tempornea assume um ou outro dos dois
 tualmente devido mais a opes casuais e ca-              conceitos em que Kant distinguira essa noo,
 prichosas do que a uma orientao determina-              isto , ou entende o C. como uma formao
 da e constante.                                           natural e inevitvel que o homem traz consigo
     Os antigos possuam essa noo. Herclito             e no pode modificar, ou o entende como uma
 diz que o C. (r|8o, ethos) de um homem  o               formao devida s escolhas do homem e, por-
 seu destino (Fr. 119, Diels). E o aristotlico            tanto, livre e modificvel. Faremos meno
 Teofrasto deixou-nos, no texto intitulado Os              apenas a algumas das principais posies, quer
  caracteres, a descrio de trinta tipos de C. mo-        num sentido, quer no outro. A teoria dos tipos
 rais (importuno, vaidoso, descontente, fanfar-            psicolgicos de Jung pertence  primeira ten-
 ro, etc), descritos precisamente com base em             dncia porque considera o C. como uma orien-
 suas manifestaes habituais. Esquecida duran-            tao predominantemente inconsciente, devida
 te a Idade Mdia, quando essa palavra serviu              a disposies orgnicas ou ao fundamento ins-
 sobretudo para designar a indestrutibilidade da           tintivo. O C. de um homem  a direo em que
 ordenao sacerdotal (S. TOMS, S. Th., III, q. 65,       ocorre o encontro entre esse homem e o mun-
 a. 1 ss.), essa noo foi retomada no sc. XVII           do, ou entre esse homem e a sociedade:  o
 por La Bruyre (Les caracteres, 1687) e voltou a          complexo de atitudes ou disposies para agir
 ser usada. Kant utilizou-a na tentativa de conci-         ou reagir em certa direo. Ora, no encontro
 liar a causalidade natural e a causalidade livre.         entre o homem e o mundo, so possveis duas
 Cada causa eficiente deve ter um carter, isto ,         atitudes fundamentais: ou o homem procura
 "uma lei da sua causalidade, sem a qual no se-           dominar o mundo, isto , os objetos externos,
 ria causa". Um objeto do mundo sensvel tem,              assumindo uma atitude ativa, positiva, criadora,
 em primeiro lugar, um C. emprico, pelo qual os           ou ento procura simplesmente defender-se
 seus atos, como fenmenos, esto vinculados               dele, fechando-se em si o mais possvel; a pri-
 causalmente aos outros fenmenos, em confor-              meira atitude  a extrovertida, que produz
 midade com as leis naturais. Mas o mesmo obje-            abertura, socialidade, isto , freqncia de rela-
 to tambm pode ter um C. inteligvel, "pelo qual          es com os outros; a segunda  a introvertida,
 ele  a causa daqueles atos como fenmenos,               que indica fechamento, timidez e, em todo
 mas, por si mesmo, no est sujeito a nenhuma            caso, relutncia em relacionar-se com os outros
condio sensvel e no  fenmeno". Sobre o              e com as coisas {Tipospsicolgicos, 1913). Essa
carter inteligvel pode-se dizer "que d incio          classificao de Jung ficou clebre e  comu-
por si mesmo aos seus efeitos no mundo, sem               mente empregada mesmo sem referncia s
que a ao comece nele mesmo"; e com essa                suas bases tericas. A mesma noo de C.
distino, Kant acredita ter conciliado liberdade        como dado irredutvel, estrutura originria e
e natureza (Crt. R. Pura, Antinomias da ra-             congnita, no modificvel pelas escolhas do
zo pura,  3). Com menos metafsica (e mais              indivduo,  compartilhada por Le Senne, para
clareza), em Antropologia, ele distingue um C.           quem o C.  "o sistema invarivel das necessi-
fsico, que  o sinal distintivo do homem como           dades que se encontram, por assim dizer, no li-
ser natural, e um C. moral, que  o sinal do ho-         mite entre o orgnico e o mental" (Trait de
mem como ser racional, provido de liberdade.             caractrologie, p. 1). S que, para Le Senne, o
O C. fsico diz "o que se pode fazer do ho-              C. no constitui a totalidade do homem:  s
mem; o C. moral diz o que o homem  capaz                um dos elementos da sua personalidade e esta
de fazer de si mesmo" (Antr, II, a). Schopenhauer        compreende, alm do C, tambm elementos li-
utilizou a distino kantiana entre C. emprico          vremente adquiridos, que podem contribuir
e C. inteligvel para negar a liberdade: tudo o          para especificar o prprio C. em um sentido ou
que o homem faz seria a manifestao de um               em outro. O C. , portanto, um limite objetivo,
C. inteligvel inato e imutvel (Die Welt, I,  55;      intrnseco  prpria personalidade, da escolha
Neue Paralipomena,  220).                               que a personalidade pode fazer livremente de
CARTER                                              117                             CARDEAIS, VIRTUDES

si mesma; mas como limite  algo de congnito              imagem. Mas a pessoa no pode mudar.- por-
e, em si mesmo, de imutvel. Portanto, para Le             tanto, no pode ser afetada pelas mudanas de
Senne, a determinao devida ao C. no                    C, assim como no  afetada pela doena ps-
necessitante, apesar de originria e relativa-             quica que somente a oculta (Formalismus, pp.
mente imutvel. Embora nesse ponto Le Senne                501 ss.). Essa separao ntida entre C. e pes-
se apoie num fundamento estabelecido por                   soa, que, em Scheler, se deve ao primado
Adler (de que falaremos adiante), para ele a               metafsico que ele atribui  pessoa, no encon-
noo de C,  uma determinao ou complexo                 tra equivalncia na antropologia contempor-
de determinaes originrias e imodificveis,              nea, cujos traos, mais comuns e importantes
isto , continua presa a um significado que no            no que se refere  doutrina do C, podem ser
distingue C. de temperamento (v.). Esse concei-            assim recapitulados: Ia o C.  a manifestao
to de C. faz da liberdade e do determinismo na             objetiva da personalidade humana ou  essa
personalidade humana duas foras distintas e               mesma personalidade no seu aspecto objetivo,
reciprocamente autnomas: uma reside no eu                 da forma como  apreendida pela experincia
e a outra no C. (ou no temperamento), repro-               humana comum ou pelas tcnicas de investi-
duzindo, em linguagem diferente, o dualismo                gao da personalidade (v. PERSONALIDADE); 2-
kantiano de C. inteligvel e C. emprico.                  o C. distingue-se do temperamento (v.) porque
    A doutrina de Adler, porm, fugiu a esse               no  um dado puramente orgnico como este
dualismo. Para Adler, o C.  a manifestao                ltimo e porque no  um elemento imutvel
objetiva, verificvel atravs da experincia so-           e necessitante, mas resultado das opes feitas
cial, da prpria personalidade humana. No s              por um indivduo, consistindo nas constantes
o C.  um "conceito social", no sentido de que             observveis das suas opes; 3Q tais opes
s se pode falar de C. referindo-se  conexo              no so absolutamente livres nem necessrias,
de um homem com o seu ambiente, mas tam-                   mas condicionadas por elementos orgnicos,
bm os traos ou as disposies que consti-                ambientais, sociais etc; e, em suas constantes
tuem o C. so verificveis apenas socialmente.             observveis, delineiam um projeto de compor-
As manifestaes do C. "so semelhantes a                  tamento no qual coincidem o C . e a personali-
uma linha diretiva que adere ao homem como                 dade do homem.
um esquema e lhe permite, sem muita refle-                     CARTER POTICO (it. Carattere poti-
xo, exprimir a sua personalidade original em              co). Segundo Vio, os primeiros homens conce-
 cada situao" (Menscbenkenntniss, 1926, II, 1;           beram as coisas inicialmente mediante "C. fan-
trad. it., pp. 150 ss.). Essas manifestaes no           tsticos de substncias animadas e mudas", isto
 exprimem nenhuma fora ou substrato inato,                , atos ou corpos que tivessem alguma relao
 mas so adquiridas, ainda que muito cedo.                 com as idias, e depois com "C. divinos e he-
 Substancialmente, o C.  o modo como o ho-                ricos", mais tarde explicados com palavras
 mem toma posio diante do mundo natural e                vulgares (Scienza nuova, YlAA, passim): nessas
 social; e Adler baseia sua avaliao em dois              locues obviamente a palavra "carter" est
 pontos de referncia: a vontade de poder e o              por sinal ou smbolo.
 sentimento social, que, com sua ao recpro-                CARDEAIS, VIRTUDES (lat. Cardinales
 ca, constituiriam os aspectos bsicos do carter.         virtudes-, in. Cardinal virtues; fr. Vertues car-
 "Trata-se", diz ele, "de um jogo de foras, cuja          dinales-, ai. Kardinaltugenden; it. Virt car-
 forma de manifestao exterior caracteriza o              dinalt). Assim foram chamadas por Sto. Am-
 que ns chamamos de C." (Ibid., 1926, II, 1;              brsio (Deoff. ministr., I, 34; De Par., III, 18; De
 trad. it., p. 176). Scheler, por sua vez, faz uma         sacr, III, 2) as quatro virtudes de que fala
 distino radical entre pessoa e C. A pessoa             Plato em Repblica e que esto entre as que
 o sujeito dos atos intencionais e, portanto,  o          Aristteles chamava de virtudes morais ou
 correlato de um mundo, mais precisamente do               ticas, a saber: prudncia, justia, temperana
 mundo em que ela vive. O C, ao contrrio,  a             e fortaleza. S. Toms procurou mostrar a opor-
 constante hipottica x que se assume para ex-             tunidade desse qualificativo, demonstrando
 plicar as aes particulares de uma pessoa. Por-          que s as virtudes morais podem ser chamadas
 tanto, se um homem age de forma no corres-               de C. ou principais, pois s elas exigem a disci-
 pondente s dedues que tnhamos extrado                plina dos desejos (rectitudo appetitus), na qual
 da imagem hipoteticamente assumida do seu                 consiste a virtude perfeita; por isso, devem ser
 carter, devemos estar dispostos a mudar essa             assim denominadas as virtudes morais s quais
CARIDADE                                               118                                       CASAMENTO

todas as outras se reduzem, isto , as quatro                    CARTESIANISMO. Conjunto dos funda-
acima referidas (S. Th., II, 1, q. 51) (v. VIRTUDE).         mentos tradicionalmente considerados como
   CARIDADE (gr. y7cr|; lat. Caritas; in.                  tpicos da doutrina de Descartes e aos quais se
Charity, fr. Charit, ai. Nchstenliehe, it. C-             faz habitualmente referncia tanto no sentido
rit).  a virtude crist fundamental porque                 de aceitar quanto de refutar. Podem ser resumi-
consiste na realizao do preceito cristo fun-              dos do seguinte modo: 1Q carter originrio do
damental: "Ama o prximo como a ti mesmo".                   cogito como auto-evidncia do sujeito pensante
S. Paulo foi quem mais insistiu na superiorida-              e princpio de todas as outras evidncias; 2
de da C. em relao s outras virtudes crists,              presena das idias no pensamento, como ni-
quais sejam a f e a esperana. "A C. tudo                   cos objetos passveis de conhecimento imedia-
suporta, em tudo tem f, tudo sustenta... Agora              to; 3Q carter universal e absoluto da razo que,
existem a f, a esperana e a C, essas trs                  partindo do cogito e valendo-se das idias,
coisas; mas a C.  a maior de todas" (Cor, I,                pode chegar a descobrir todas as verdades pos-
13, 7, 13). Para S. Paulo, a C. , substancial-              sveis; 4L> funo subordinada, em relao  ra-
mente, o vnculo que mantm ligados os                       zo, da experincia (isto , da observao e do
membros da comunidade crist e faz dessa                     experimento), que s  til para decidir nos ca-
comunidade o prprio "corpo de Cristo". Em                   sos em que a razo apresenta alternativas equi-
seguida, a filosofia crist viu na C. sobretudo a            valentes; 5a dualismo de substncia pensante e
ligao entre o homem e Deus. S. Toms de-                   substncia extensa, pelo qual cada uma delas
fine a C. como "a amizade com Deus" e diz:                   se comporta segundo lei prpria: a liberdade
                                                              a lei da substncia espiritual; o mecanismo 
"Essa sociedade do homem com Deus, que 
                                                             a lei da substncia extensa.
quase uma conversa familiar com Ele, comea
na vida presente por meio da graa e se                          Em sentido estrito, o C. teve representantes
aperfeioa no futuro por meio da glria; uma                 na Holanda (Henrique Rgio, 1598-1679; Pierre
e outra so mantidas pela f e pela esperana"               Daniel Hut, 1630-1721; Gilberto Votius, 1589-
(S. Th., II, 1, q. 65, a. 5). Sobre o conceito do            1676), entre os Padres do- Oratrio e os Jan-
amor cristo, v. AMOR. Na linguagem comum,                   senistas (Antoine Arnauld, 1612-94; Pierre Ni-
essa palavra s vezes  empregada no lugar de                cole, 1625-95), atravs dos quais deu origem 
beneficncia, isto , para indicar a atitude de              lgica de Port-Royal, e entre os ocasionalistas
quem quer o bem do outro e se comporta ge-                   (Arnold Geulingx, 1624-69; N. Malebranche,
nerosamente para com ele. Mas a linguagem                    1638-1715) (v. OCASIONALISMO; ESCOLSTICA). Em
comum tambm conhece e usa o significado                     sentido mais lato, podem ser consideradas
correto desse termo, ao dizer, p. ex., que "                como desenvolvimentos do C. da doutrinas de
preciso um pouco de C." a quem julga com de-                 Spinoza, de Leibniz e mesmo de Locke, que
masiada severidade o seu prximo: nesse caso,                dele extraram um ou outro fundamento. Na fi-
                                                             losofia moderna e contempornea, permanece-
obviamente, C. significa amor ou compreenso
                                                             ram como caractersticas do C. sobretudo o l s ,
(v. AMOR).
                                                             o 2- e o 4Q fundamentos.
   CARNE (gr. op; lat. Caro; in. Flesh; fr.                    CASAMENTO (gr. y(J.o; lat. Matrimo-
Chair, ai. Fleisch; it. Carne). Na terminologia              nium; in. Marriage, fr. Mariage, ai. Ehe, it. Ma-
do Novo Testamento, especialmente em S. Paulo,               trimnio). Qualquer projeto de vida em co-
 algo diferente do corpo. A C. ou carnali-                  mum entre pessoas de sexos diferentes. Esta 
dade  a averso ou a resistncia  lei de                   a definio generalizada, que leva em contra a
Deus, e por isso o pecado ou a orientao para               variedade de formas assumidas pelo C. em gru-
o pecado (p. ex., S. PAULO, Ad Rom., VII, 14;                pos sociais diferentes, bem como os diversos
VIII, 3, 8, etc. Cf. BULTMANN, Theologie des N. T,           conceitos existentes sobre o assunto. Os con-
1948, p. 223). O mesmo sentido conservou-se                  ceitos existentes podem ser agrupados do se-
na linguagem comum e na pregao moralista.                  guinte modo:
Esse termo foi usado em sentido diferente por                    l e ) C. como instituio natural. Foi concebi-
Merleau-Ponty (Le visible et Vinvisible, 1964), ao           do desse modo por Plato, que viu na "socie-
falar da "C. do mundo" como da substncia                    dade conjugai o princpio e a origem de todos
viva comum ao corpo do homem e s coisas                     os Estados" (Leis, IV, 721 a), e por Aristteles,
do mundo, que constitui, ao mesmo tempo, o                   que considerou a famlia como algo "anterior e
objeto e o sujeito das experincias humanas.                 mais necessrio que o Estado" (Et. nic, 8, 12,
CASA DOS PLANETAS                                      119                CATALPTICA, REPRESENTAO

1162 a 18 e ss.); contudo, tanto Plato quanto               as quais exercem diferentes influncias so-
Aristteles achavam indispensvel que o Esta-                bre a vida humana.
do interviesse para regulamentar as modalida-                    CASUALISMO (in. Casualism-, fr. Casualis-
des do C. Neste caso, o fim exclusivo do C.  a              me, it. Casualism). Doutrina segundo a qual
procriao e a educao da prole.                            o acaso no  somente expresso da ignorn-
    2Q) C. como instituio contratual.  dessa              cia humana a respeito das causas de certos
forma que foi entendido pelo direito romano e                acontecimentos, mas uma condio ou situa-
pelo direito cannico. Nesse caso, mesmo con-                o objetiva de indeterminao nas prprias
siderando que seu fim  a procriao e a edu-                coisas. Peirce chamou essa doutrina de tiquismo
cao da prole, deste se distingue a. forma, ou              {Chance, Love and Logic, II, 3; Coll. Pap., 6.47
essncia, do C, considerado como associao                  ss.), de l/Tl, que na realidade significa sorte.
ou comunho de vida (consortium omnis vitae,                 Um C. radical  o sustentado por Wittgenstein.
DiG. XXI, 23, 2), ou ento como "alguma con-                "Fora da lgica tudo  acaso", diz ele (Tractatus,
juno indissolvel de almas", como diz S. To-               6.3). Deve-se lembrar que a lgica trata so-
ms (S. Th., III, 1. 29, a. 2), cuja condio indis-         mente de tautologiasiv.), que nada significam.
pensvel  o consentimento, expresso nas                         CASUSTICA (in. Casuistry, fr. Casuistique,
formas estabelecidas pela lei civil ou religiosa.            ai. Kasuistik, it. Casistica). Anlise e classifica-
Kant insistia no aspecto contratual do C, defi-              o dos "casos de conscincia", isto , dos pro-
nindo-o como "unio de duas pessoas de sexo                  blemas que nascem da aplicao das normas
diferente para a posse recproca de suas facul-              morais ou religiosas  vida humana. Na Anti-
dades sexuais durante toda a vida"; conside-                 gidade, os cnicos e os esticos tiveram uma
rou-o como fonte de um direito real, alm de                 casustica. Houve e h uma C. crist, que, a
pessoal, no sentido de que cada uma das                      partir de Pascal, muitas vezes foi acusada (Pro-
duas pessoas  adquirida pela outra como coi-                vinciales, 1657) de moralidade relaxada e co-
sa, mas viu na reciprocidade dessa aquisio o               modista. A exigncia de uma C. moral foi en-
resgate da personalidade dos dois cnjuges                   carada por Kant, que esclareceu o seu conceito
(Met. der Sitten, I,  24-25). Hegel, ao contr-             da seguinte forma: "A tica, pela ampla mar-
rio, insistia na unidade tico-sentimental do C:             gem que concede aos deveres imperfeitos,
''O C. no  essencialmente unio meramente                  conduz inevitavelmente a questes que levam
natural, bestial, nem puro contrato civil, mas               o juzo a ter de decidir como a norma deve ser
unio moral do sentimento, do amor e da con-                 aplicada aos casos particulares ou que norma
fiana mtua, que transforma duas pessoas em                 particular (subordinada) fornecer por sua vez
uma" (PhilosophscbePropdeutik, I,  51; Ene,               (desse modo, podemos sempre perguntar qual
519; Fil. dodir,  162).                                     o principio de aplicao dessas normas, se-
   3a) C. como instituio social. Esse  o pon-             gundo os casos que se apresentam); e assim, a
to de vista dos antroplogos e socilogos que                tica desemboca na C". A C. no  cincia
encontraram nos diversos grupos humanos to-                  nem parte de cincia, pois nesse caso seria
das as formas possveis de C: de um homem                    dogmtica, mas  "um exerccio que ensina como
e uma mulher, de um homem e vrias mulhe-                    a verdade deve ser procurada" (Met. der Sitten,
res, de vrios homens e vrias mulheres (cf.,                II, Intr., 18, nota).
p. ex., W. N. STEPHENS, The Family in Cross-                     CATALPTICA, REPRESENTAO (gr
Cultural Perspective, 1963). Desse ponto de                  (pocvTOcaoc KaTaAji7iTiKr|; lat. Fantasia com-
vista, Lvi-Strauss considerou as regras do C.               prehensiva, ai. Kataleptische Vorstellung, it. Rappre-
como uma espcie de linguagem, um tipo                       sentazione cataletticd). Critrio da verdade,
de comunicao, mais especificamente a                       segundo os esticos, que chamaram de C, ou
comunicao das mulheres no seio de um                       seja, compreensiva, a representao evidente
grupo (Structures lmentaires de Ia parente,                ou que torna evidente o objeto que a produz.
1949; cf. Anthropologie structurale, 1958, pp.               Segundo um testemunho de Ccero (Acad., II,
69 ss.).                                                     144), Zeno atribua o significado da represen-
   CASAS DOS PLANETAS (lat. Domus pla-                       tao C.  sua capacidade de apreender ou
netarun). C. dos planetas  o nome que os                   compreender o objeto: por isso, comparava a
astrlogos (cf. Pico DEIXA MIRANDOLA, Adv.                   mo aberta  representao pura e simples; a
astrol. divin., VI, III) do s doze posies                mo que faz o gesto de agarrar, ao assentimen-
em que os planetas se encontram, segundo                     to; a mo em punho,  compreenso C; as duas
CATARSE                                             120                                      CATSTROFE

mos estreitadas, uma sobre a outra,  cincia.           partes; imitao realizada por atores e no em
Entretanto, segundo Digenes Larcio (VII, 46)            forma narrativa e que, suscitando o terror e a
e Sexto Emprico (Adv. math., VII, 28), a repre-          piedade, chega  purificao de tais afetos"
sentao C.  a que provm do real subjacente             (Poet., 1449 b, 24 ss.).  muito curioso que
e  impressa e marcada por ele de tal modo que            Aristteles, apesar de examinar todos os ele-
 conforme com ele. Em outros termos, a repre-            mentos da tragdia, no se demore na explica-
sentao C.  o ato do intelecto que apreende o           o do que  C; isso quer dizer que, a, utiliza
objeto ou  o ato do objeto que se imprime no             a palavra no sentido geral de serenidade e cal-
intelecto; em ambos os casos, garante a presen-           ma, embora no de ausncia total de emoes;
a do objeto e a conformidade da representao            sentido que se coaduna com o que ele diz so-
com ele. Os cticos, de Arcesilau em diante, pu-          bre a msica, em Poltica. Nessa obra, observa
seram em dvida o critrio da representao C,            que algumas pessoas, fortemente abaladas por
negando que se pudesse ter certeza da verdade             emoes como piedade, medo e entusiasmo,
de uma representao qualquer (SEXTO EMPRICO,            ao ouvirem cantos sacros que impressionam a
Adv. math., VII, 162-64).                                 alma, "encontram-se nas condies de quem
    CATARSE (gr. KGapot). Libertao do que             foi curado ou purificado".
 estranho  essncia ou  natureza de uma                    Todas as outras emoes tambm podem
coisa e que, por isso, a perturba ou corrompe.            sofrer "purificao e agradvel alvio". E "as
Esse termo, de origem mdica, significa "purga-           msicas mais aptas a produzir purificao
o". Plato define a C. como "a discriminao            transmitem uma alegria inocente aos homens"
que conserva o melhor e rejeita o pior" (Sof,             (Pol., VIII, 7, 1.342 a 17). Das muitas interpre-
226 d). E lembra a existncia de livros de Mu-            taes sobre a C. esttica, prevalece a de Goethe
seu e Orfeu, segundo os quais "os adeptos ce-             (Nachlese zu Aristot. Poetik, 1826), para quem
lebram sacrifcios persuadindo cidados e cida-           ela consistiria no equilbrio das emoes que a
des inteiras de que existem absolvies e                 arte trgica induz no espectador, depois de ter
purificaes dos atos injustos, por meio de sa-           suscitado nele essas mesmas emoes, e por-
crifcios e jogos aprazveis, tanto para os vivos         tanto, na sensao de serenidade e pacificao
como para os mortos". Empdocles chamou de                que ela proporciona. Se bem que haja algo de
Purificaes (ic0ocp|iot) um dos seus poemas             semelhante em Aristteles,  preciso observar
que, precisamente, se inspirava no orfismo. Em            que, para ele, o significado da C. esttica no 
Plato, esse termo tem acepo moral e meta-              diferente do da C. mdica ou moral: uma esp-
fsica. Designa, em primeiro lugar, a libertao          cie de tratamento das afeces (fsicas ou espi-
em relao aos prazeres (Fed., 67 a, 69 c); em            rituais) que no as anula mas as reduz a di-
segundo lugar, a libertao da alma em relao            menses em que so compatveis com a razo.
ao corpo, no sentido de que a alma se separa                  Na cultura moderna, o termo C. foi usado
ou se retira das atividades fsicas e realiza, j         quase exclusivamente como referncia  fun-
em vida, a separao total, que  a morte (Ibd,          o libertadora da arte. Freud s vezes chamou
67 c). Plotino insistir neste ltimo aspecto;            de C. o processo de sublimao da libido (v.
para ele a virtude purifica a alma dos desejos e          AMOR), pelo qual a libido se separa do seu con-
de todas as outras emoes, no sentido de que             tedo primitivo, ou seja, da sensao voluptuo-
separa a alma do corpo e faz que a alma se re-            sa e dos objetos a ela ligados, para concentrar-
colha em si mesma e se torne impassvel (Enn.,            se em outros objetos que sero amados por si
I, 2, 5).                                                 mesmos. Segundo Freud, a esse processo de C.
    Aristteles utilizou amplamente esse termo            ("sublimao") so devidos todos os progres-
em seu significado mdico, nas obras sobre                sos da vida social, a arte, a cincia e a civiliza-
histria natural, como purificao ou purgao.           o em geral, pelo menos na medida em que
Mas foi o primeiro que o usou para designar               dependem de fatores psquicos (v. PSICANLISE).
tambm um fenmeno esttico, qual seja, uma                   CATASSILOGISMO (lat. Catasyllogismus).
espcie de libertao ou serenidade que a poe-            Contrademonstrao. Esse termo  empregado
sia e, em particular, o drama e a msica provo-           por Joo de Salisbury (Metalogicus, IV, 5) com
cam no homem. "A tragdia", disse ele, " imi-            referncia ao verbo contrademonstrar usado
tao elevada e completa da ao, que tem                 por Aristteles (An. pr., II, 19, 66 a 25).
certa extenso, pela linguagem e diversas esp-               CATSTROFE (in. Catastrophe, fr. Catas-
cies de adornos distribudos em suas vrias               trophe, ai. Katastrophe, it. Catstrofe). Qual-
CATECISMO                                             121                                         CATEGORIA

quer teoria que procure explicar o desen-                    "Scrates escreve"), e discurso imperfeito, que
volvimento de uma realidade mediante re-                     carece de algo (p. ex., "Escreve" que d origem
viravoltas radicais e totais que ocorreriam pe-               pergunta "Quem?") (DIG. L, VII, 63). Na for-
riodicamente. Assim, Cuvier (Discours sur les                ma que depois se tornou lugar-comum na l-
rvolutions du globe, 1812) explicava a extin-               gica medieval, essa distino pode ser vista pela
o das espcies animais fsseis atravs de C.               primeira vez no tratado annimo do sc. XII,
gerais que, periodicamente, teriam destrudo as              De generibus et specebus, editado por Cousin
espcies vivas de cada espcie geolgica, per-               (CEuvres indites d'Ablard, p. 531). Ela 
mitindo que Deus criasse novas espcies. Em                  constantemente repetida na lgica posterior (cf.
1833, o gelogo ingls Lyell, em Principies of               PEDRO HISPANO, Summ. Log., 1.05).
Geology, propunha a tese, depois universal-                      CATEGORIA (gr. KaTriyopa; lat. Praedica-
mente aceita, de que o estado atual da Terra no             mentum; in. Category, fr. Catgorie, ai. Katego-
se deve a uma srie de C, mas  ao len-                    rie, it. Categoria). Em geral, qualquer noo
ta, gradual e insensvel das causas que agem                 que sirva como regra para a investigao ou
continuamente sob nossos olhos. No domnio                   para a sua expresso lingstica em qualquer
poltico, a teoria da C. foi adotada por Sorel               campo. Historicamente, o primeiro significado
{Rflexions sur Ia violence, 1906), que concebia             atribudo s C.  realista: elas so consideradas
a passagem do capitalismo para o socialismo                  determinaes da realidade e, em segundo lu-
como uma C, cuja reviravolta escapa a qual-                  gar, noes que servem para indagar e para
quer descrio.  verdade que Sorel acrescen-                compreender a prpria realidade. Foi essa a
ta no ser indispensvel que tal C. se realize               concepo de Plato, que as chamou de "gne-
(no se realizou nem mesmo a que era espera-                 ros supremos" e enumerou cinco desses g-
da pelos primeiros cristos), mas basta que ela              neros, a saber: o ser, o movimento, o repouso,
valha como um "mito". Cf. ATIVISMO; MITO.                    a identidade e a alteridade (5o/, 254 ss.). Assim
     CATECISMO (in. Catechism, fr. Catchisme,               como alguns desses gneros esto interligados
ai. Katechismus; it. Catechsmo). Kant dividiu               e outros no, tambm as partes do discurso,
o mtodo de questionrio (ou erottic) em                   isto , as palavras, se interligam, e quando essa
 catequtico, em que s se recorre  memria                 mescla corresponde  real, o discurso  verda-
de quem  interrogado, e dalogstico ou                     deiro; caso contrrio  falso {Ibid., 263 ss.).
 socrtico, com que se recorre ao que est con-              Essa correspondncia entre a realidade e o dis-
 tido na razo do interrogado e por isso  pas-              curso, atravs das determinaes categoriais, 
svel de explicitao ou desenvolvimento (Met.               tambm a base da teoria da Aristteles. Este,
 der Sitten, II, Intr.,  18, nota). Contudo, Kant           porm, parte de um ponto de vista lingstico:
 considera indispensvel um C. moral que deve-               as C. so os modos em que o ser se predica
 ria ter precedido o C. religioso, do qual seria             das coisas nas proposies, portanto os
 independente (Ibid.,  51). O positivismo oito-             predicados fundamentais das coisas. Enumera
 centista mostrou certa predileo por C. filos-            dez categorias, exemplificando como segue:
 ficos e filosfico-polticos. St. Simon compilou            1Q Substncia, p. ex.: homem ou cavalo; 2
 um (C. dos industriais, 1823-24) e Augusto                  Quantidade, p. ex.: dois cvados; 3a Qualida-
 Comte escreveu um que ficou muito famoso                    de, p. ex.: branco; 4e Relao, p. ex.: maior; 5e
 (C. positivista, 1852). Isso aconteceu porque o             Lugar, p. ex.: no liceu; 6a Tempo, p. ex.: on-
 positivismo muitas vezes se apresentou como                 tem; 7a Posio, p. ex.: est sentado; 8a Ter, p.
 religio "cientfica", que deveria suplantar a re-          ex.: usa sapatos; 92 Agir, p. ex.: cortar; IO2 5b-
 ligio tradicional.                                        frer, p. ex.: ser cortado (.Top., I, 9, 103 b 20 ss.;
                                                             Cat., 1 b 25 ss.). A relao entre as C. e o ser 
     CATEGOREMTICO (lat. Categoremata;                      assim explicada: "Porquanto a predicao afir-
 in. Categorematic, fr. Catgormatique-, ai. Ka-            ma s vezes o que uma coisa , s vezes a sua
  tegorematisch; it. Categorematic). Na gram-              qualidade, s vezes a sua quantidade, s vezes
 tica e na lgica medieval so assim chamadas                a sua relao, s vezes aquilo que faz ou o que
 as partes do discurso significantes por si mes-             sofre e s vezes o lugar onde est ou o tempo,
 mas, como o sujeito ou o predicado, enquanto                segue-se que tudo isso so modos do ser" (Mel,
  as outras so chamadas de sincategoremticas              V, 7, 1017 a 23 ss.). Esse conceito de C. como
  (v.).  provvel que essa expresso derive da              determinao pertencente ao prprio ser e do
  distino, feita pelos esticos, entre "discurso           qual o pensamento deve servir-se para conhe-
  perfeito", que tem sentido completo (p. ex.,
CATEGORIA                                              122                                      CATEGORIA

c-lo e exprimi-lo em palavras durou muito                   tais "coisas em si" ou "nmenos". As categorias
tempo; e por muito tempo as escolas filosficas              so, todavia, condies da validade objetiva
ou os filsofos s discordaram quanto ao n-                 do conhecimento, isto , do juzo em que o
mero ou a distino das categorias. Assim, os                conhecimento se concretiza. Com efeito, um
esticos reduziram-nas a quatro: substncia,                 juzo  uma conexo entre representaes, mas
qualidade, modo de ser e relao (SIMPLCIO,                 tal conexo no  subjetiva, logo no vale s
In Cat., f. 16 d). Plotino retornou aos cinco g-            para o sujeito isolado que a efetua, mas  feita
neros supremos de Plato (Enn., VI, 1, 25). Na               em conformidade com uma categoria, isto ,
Idade Mdia, a nica alternativa  doutrina do               segundo um modo, uma regra que  igual para
fundamento real das C.  o seu carter pura-                 todos os sujeitos e que, portanto, confere ne-
mente verbal, defendido pelo nominalismo.                    cessidade e objetividade quilo a que se ligou
Ockham afirma claramente que as C. no pas-                  na percepo (Prol.,  22). A doutrina de Kant
sam de signos das coisas, signos simples com                 sobre as C. pode, por isso, ser reduzida a dois
os quais podem ser constitudos "complexos"                  pontos fundamentais: 1Q as C. dizem respeito 
verdadeiros ou falsos (De corpore Christi, 15; In            relao sujeito-objeto e, por isso, no se apli-
Sent., I, d. 30, q. 2, I). Portanto, a distino das         cam a uma eventual "coisa em si" que esteja
C. no implica uma distino paralela entre                  fora dessa relao; 2a as C. constituem as de-
os objetos reais, j que nem sempre a con-                   terminaes dessa relao e so, portanto, vli-
ceitos ou a palavras distintas correspondem                  das para qualquer ser pensante finito. Kant
coisas distintas. As C. de substncia, qualidade             enumerava doze C, correspondentes s doze
e quantidade, embora distintas como conceitos,               classes de juzos: \- C. de quantidade, unida-
significam a mesma coisa (QuodL, V, q. 23).                  de, multiplicidade, totalidade; 2- C. de quali-
Essa negao radical da realidade das C. deriva              dade, realidade, negao, limitao; 3a C. de
da negao total que o nominalismo medie-                    relao-, inerncia e subsistncia (substncia e
val fazia de qualquer realidade universal. Esse              acidente), causalidade e dependncia (causa e
ponto de vista eqivale a considerar as C.                   efeito), comunho (ao recproca); A- C. de mo-
como simples nomes que se referem a classes                  dalidade, possibilidade-impossibilidade, exis-
de objetos.                                                  tncia-inexistncia, necessidade-contingncia.
   A doutrina de Kant nada tem a ver com esse                    O conceito kantiano das C. continuou pre-
nominalismo, embora tambm negue o realis-                   valecendo na filosofia moderna e contempor-
mo da concepo clssica. Para Kant as C. so                nea, se bem que mesmo os filsofos mais es-
os modos pelos quais se manifesta a atividade                tritamente kantianos no tenham entrado num
do intelecto, que consiste, essencialmente, "em              acordo sobre o "quadro" das categorias. Em ge-
ordenar diversas representaes sob uma re-                  ral, os neocriticistas procuraram simplificar e
presentao comum", isto , em julgar. Elas                  unificar esse quadro; Renouvier, p. ex., consi-
so, portanto, as formas do juzo, isto , as                derou fundamental a C. relao (j que a cons-
formas em que o juzo se explica, independen-                cincia  relao) e considerou as outras (n-
temente do seu contedo emprico. Por isso,                  mero, extenso, durao, qualidade, devir,
as C. podem ser extradas das classes do juzo,              fora, finalidade, personalidade) como determi-
enumeradas pela lgica formal. "Desse modo",                 naes e especificaes dela (Essai de critique
diz Kant, "surgem tantos conceitos puros do in-              gnrale, I, 1854, pp. 86 ss.). E Cohen conside-
telecto, que se aplicam a priori ao objetos da               rou como C. fundamental a do sistema, por-
intuio em geral, quantas eram as funes l-               que a unidade do objeto, em que se funda a
gicas em todos os juzos possveis no quadro                 unidade da natureza,  uma unidade sistemti-
precedente (isto , na classificao dos juzos);            ca (Logik, p. 339). Mas, embora no tenha havi-
porque as chamadas funes esgotam comple-                   do filsofo de inspirao kantiana que no te-
tamente o inelecto e pem  prova o seu po-                  nha desejado criar seu quadro de C, o conceito
der" (Crt. R. Pura, Anal. dos conceitos,  10).             kantiano permaneceu inalterado para toda a
As C. so os conceitos primitivos do intelecto               parcela da filosofia moderna que se inspira em
puro e condicionam todo o conhecimento inte-                 Kant. Todavia, esse conceito no  o nico na
lectual e a prpria experincia; mas elas no                filosofia moderna e contempornea. O concei-
se aplicam s coisas em si, e o conhecimento                 to tradicional de C. como "determinao do
que delas se vale (isto , todo o conhecimen-                ser" foi retomado pelo idealismo romntico e,
to humano) no pode estender-se, portanto, a                 em especial, por Hegel. Este considera as C.
CATEGORIA                                            123                                       CATEGORIA


como "determinaes do pensamento" e atri-                 do valor, ao princpio da crena, ao prin-
bui a Fichte o mrito de haver afirmado a exi-             cpio da planificao e ao princpio da depen-
gncia da sua "deduo", isto , da demonstra-             dncia (Aufbau der realen Welt, 1940). 2Q A
o da sua necessidade {Ene,  43). Mas na                 concepo kantiana de C. como condio do
verdade, para Hegel, as determinaes do pen-              objeto e o encaminhamento para a concepo
samento so, simultaneamente, as determina-                instrumental da C. unem-se na doutrina de
es da realidade (pela identidade, por ele                Husserl. Para ele, a noo de C. vincula-se  de
formulada, entre realidade e razo) e, habi-               regio antolgica e designa o conceito que ser-
tualmente, chama essas determinaes de "mo-               ve para definir uma regio em geral ou o que
mentos", e no de C. A nica C. que ele reco-              entra na definio de uma regio particular (p.
nhece verdadeiramente como tal  a prpria                 ex., "a natureza fsica"). Os conceitos que en-
realidade-pensamento, isto , a autoconscin-              tram na definio de uma regio em geral -- e
cia, o eu ou a razo. Em Fenomenologia (I, cap.            por isso so empregados nos axiomas lgicos
V,  2), diz: "O eu  a nica essencialidade pura          -- so chamados por Husserl de "C. lgicas",
do ente ou a C. simples. A C, que de outro                 ou "C. da regio". So os conceitos de pro-
modo tinha o significado de ser a essencia-                priedade, qualidade, relao de coisas, relao,
lidade do ente, essencialidade indeterminada               conjunto, nmero, etc. Tm afinidade com es-
do ente em geral ou do ente contra a conscin-             sas categorias as chamadas "C. do significado",
cia, agora  essencialidade ou simples unidade             inerentes  essncia da proposio. C. lgicas e
do ente, considerado apenas como realidade                 C. do significado so analticas. J os conceitos
pensante: ou seja, a C. consiste no fato de auto-          que entram na constituio dos axiomas regio-
conscincia e ser serem a mesma coisa". Quer               nais so chamados por Husserl de C. sintticas.
 dizer: a C. no deve ser considerada como uma             "Os conceitos fundamentais sintticos ou C",
 determinao do ser em geral, mas como a                  diz Husserl, "so os conceitos regionais funda-
 conscincia e, portanto, a prpria realidade.             mentais (referem-se por essncia a uma regio
 Essa teoria do eu e da conscincia ou do espri-          determinada e aos seus princpios sintticos),
 to como nica C. permaneceu lugar-comum de                de tal modo que h tantos grupos distintos de
 todas as formas de idealismo romntico. Sime-             C. quantas so as regies" (Ideen, I,  16). Para
 tricamente oposta  de Hegel  a doutrina de              Husserl, as C. tm sempre carter objetivo, j
 Heidegger, para quem a C. no  a determina-              que as regies ontolgicas, cujos axiomas ser-
 o da autoconscincia ou ao eu, mas do ser               vem para exprimir, so as formas da objetivida-
 das coisas. Heidegger faz a distino entre os            de: ou da objetividade em geral ou de uma
 existenciais (Existentialen), que so as determi-         objetividade especfica. Tambm existem, por-
 naes do ser e da realidade humana, do ser-              tanto, "C. do substrato" (Ibid.,  14), que se di-
 a (Dasein), e as outras C, que so "determi-             ferenciam das precedentes C. "sintticas" (isto
 naes do ser dos entes no conformes ao ser-a":         , derivadas) porque se referem a substratos
 isto , determinaes do ser das coisas (Sein             inderivveis, isto , de natureza concreta e indi-
  undZeit,  9).                                           vidual: a essncia material e o "este aqui", que,
                                                           no fundo,  o indivduo (Ibid.,  16). Nessa con-
    Na filosofia contempornea, encontra-se                cepo husserliana de C, prevalecem os traos
tanto a retomada da concepo clssica e da                realistas, embora o objeto ou as regies onto-
concepo kantiana da C, quanto novas gene-                lgicas de que Husserl fala ainda sejam obje-
ralizaes sobre seu significado: le A concep-             tos da intencionalidade da conscincia. 3Q Em
o clssica da C. como "determinao do ser"              algumas outras correntes da filosofia contem-
 retomada por N. Hartmann, que considera as               pornea, como p. ex. no empirismo lgico, as
C. como as estruturas necessrias do ser em si.            C. so consideradas regras convencionais que
Tais estruturas produzem a estratificao do               regem o uso dos conceitos. Assim, p. ex., Ryle
mundo numa srie de planos. Existem as C.                  chama de "tipo ou categoria lgica de um con-
fundamentais, que pertencem a todos os pla-                ceito o conjunto de modos nos quais, por
nos do ser, e que so as C. modais; h as C.               conveno,  lcito utilizar o termo respectivo"
bipolares (qualidade-quantidade; contnuo-des-             (Concept ofMind, Intr., trad. it., p. 4). Essa ,
 contnuo; forma-matria, etc.) e, em terceiro lu-         certamente, a noo menos dogmtica e mais
 gar, as C. do real, que determinam os carac-              geral de C. que a filosofia props at hoje, mas
 teres da realidade efetiva e que se dividem em            ainda contm certo dogmatismo, pois limita as
 quatro grupos, correspondentes ao princpio
CATEGORIAL                                            124                                       CAUSALIDADE


C. s j estabelecidas pelo uso lingstico co-                Essa terminologia conservou-se durante
mum, negando implicitamente a validade de                   toda a tradio lgica do ocidente e foi aceita
qualquer nova proposta. Contudo, cientistas, fi-            por Kant (Crt. R. Pura, Analtica dos conceitos,
lsofos e pesquisadores em geral sempre exer-                9), que, por sua vez, ampliou a distino, apli-
ceram o direito de propor novas C, isto ,                  cando-a aos imperativos, isto , s mximas da
novos instrumentos conceituais de investiga-                vontade. Chamou de C. o imperativo da morali-
o e de expresso lingstica. Donde a neces-              dade, que no est sujeita a nenhuma condio
sidade de formular a noo de categoria exata-              e, portanto, tem uma "necessidade incondicio-
mente como a de tal instrumento: noo que,                 nada e verdadeiramente objetiva", valendo,
alm de tudo, tem a vantagem de caracterizar                conseqentemente, para todos os seres racio-
igualmente bem a funo efetiva de todos os                 nais, quaisquer que sejam os seus seus desejos
conceitos de C. historicamente propostos.                   (GrundlegungzurMet. derSitten, II) (v. IMPERA-
                                                            TIVO).
   CATEGORIAL (in. Categoria!; fr. Catego-
ria7; ai. Kategorial; it. Categoriale). Que concer-            CATENOTESMO (in. Kathenotheisni). Ter-
ne s categorias ou se refere s categorias, por-           mo inventado pelo historiador das religies
tanto diferente de categrico (v.), que significa           Max Mller, para indicar a doutrina de que h
certa espcie de juzos. Assim, Hartmann deu                um s Deus por sua vez, isto , o monotesmo
o nome de "anlise C."  anlise dos estratos               dos Vedas, segundo o qual o mundo  gover-
do ser determinados pelas categorias (Der                   nado por um nico Deus de cada vez, enquan-
Aujbau der realen Welt, 1940). E fala-se de                 to as outras divindades esperam o seu turno.
"erro C." para indicar a troca de uma categoria                CAUSA EXEMPLAR. A idia, em Deus, das
por outra (p. ex., RYLE, Concept ofMind, I,  2).           coisas que ele pretende criar (v. IDIA).
    CATEGRICO (gr. KaTnyopiK; in. Cate-                     CAUSA INSTRUMENTAL (lat. Causa ins-
gorical; fr. Catgorique, ai. Kategorisch; it.              trumentalis). Acrscimo s quatro causas de
Categrico). Em geral, uma proposio ou um                 Aristteles (v. CAUSALIDADE) feito pelo mdico
raciocnio no limitado por condies. Come-                Galeno, que, contudo, admitia a superioridade
                                                            da C. final sobre todas as outras; designa o que
ou-se a chamar de C. o silogismo aristotlico
                                                             C. em virtude de alguma outra coisa, como o
(SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp., II, 163) depois que
                                                            ar, que pode ser C. do calor porque  aqueci-
os esticos elaboraram a teoria do raciocnio               do pelo fogo (cf. S. TOMS, S. Th., I, q. 45, a 5).
hipottico (v. ANAPODTICO).  muito provvel
que os esticos considerassem que a teoria                      CAUSALIDADE (gr. arcoc, amov; lat. Cau-
aristotlica do silogismo houvesse sido absor-              sality, fr. Causalit, ai. Causalitt; it. Causalit).
                                                            Em seu significado mais geral, a conexo entre
vida por sua teoria dos raciocnios hipotticos,
                                                            duas coisas, em virtude da qual a segunda 
assim como consideravam absorvida em sua                    univocamente previsvel a partir da primeira.
teoria dos axiomas ou proposies a teoria                  Historicamente, essa noo assumiu duas for-
aristotlica da interpretao (v.). Mas a lgica            mas fundamentais: Ia A forma de conexo ra-
posterior (especialmente dos aristotlicos) sim-            cional, pela qual a causa  a razo do seu efei-
plesmente acrescentou as determinaes es-                  to e este, por isso,  a dedutvel dela. Nessa
ticas s aristotlicas, falando, assim, de uma             concepo, a ao da causa  freqentemente
proposio C. e de uma proposio hipotti-                 descrita como a de uma fora que gera ou
ca, de silogismo C. e de silogismo hipottico.              produz indefectivelmente o efeito. 2a A forma de
Essa terminologia foi introduzida por Marciano              uma conexo emprica ou temporal, pela qual
Capela (De nuptiis,  404 ss.) e por Bocio na              o efeito no  dedutvel da causa, mas  previ-
tradio latina. Diz Bocio: "Os gregos chamam              svel com base nela pela constncia e uniformi-
de proposies C. as que so pronunciadas                   dade da relao de sucesso. Essa concepo
sem nenhuma condio, ao passo que so con-                 elimina a idia de fora da relao causai. A
dicionais as do tipo 'se  dia, h luz', que os             ambas essas formas so comuns as noes de
gregos chamam de "hipotticas". Correspon-                  previsibilidade unvoca, infalvel, do efeito a
dentemente, o silogismo C. ou "predicativo"                partir da causa e, portanto, tambm a de neces-
o formado por proposies C, enquanto aquele                sidade da relao causai.
que consta de proposies hipotticas  cha-                    Ia Pode-se dizer que a primeira forma da
mado de hipottico, isto , condicional (Desyll.            noo de causa comea com Plato, que con-
 hipot., I, em P. L. 64, col! 833).                         sidera a causa como o princpio pelo qual uma
CAUSALIDADE                                            125                                    CAUSALIDADE


coisa , ou torna-se, o que . Nesse sentido,                das coisas atuais, as coisas possveis das coisas
afirma que a verdadeira causa de uma coisa                  possveis {Fs., II, 3, 195 b 16 ss.).
aquilo que, para a coisa,  "o melhor", isto , a                Mas a advertncia fundamental  que as
idia ou o estado perfeito da prpria coisa; p.              quatro causas no esto no mesmo plano: h
ex., a causa do dois  a dualidade; do grande,               uma causa primeira e fundamental, um porqu
a grandeza; do belo, a beleza. De modo geral, o              privilegiado, que  dado pela essncia racional
bem  a causa daquilo que existe de bom nas                  da coisa, pela substncia (De part. an., I, 1,
coisas e das prprias coisas (Fed, 97 c ss.,                 639 b 14). A substncia  a essncia necessria,
espec. 101 c). Ao lado dessas causas "primei-                eternamente atual, princpio de realidade, por-
ras" ou "divinas", Plato admitiu depois as con-             tanto tambm do devir enquanto passagem da
 causas, que so as limitaes encontradas pela              potncia ao ato. Da substncia depende a ne-
obra criadora do demiurgo e que constituem os                cessidade causai. "Nas coisas artificiais", diz
elementos de necessidade do prprio mundo                    Aristteles, "sendo a causa essa tal coisa,  pre-
(Tim., 69 a). Mas a primeira e verdadeira an-               ciso, necessariamente, que essas outras coisas
 lise da noo de causa encontra-se em Aris-                 sejam feitas ou existam. Assim tambm na na-
tteles. Este afirma, pela primeira vez (Fs., I,            tureza, se o homem  isto, far estas coisas, e
 1, 184 a 10), que conhecimento e cincia con-               se faz estas coisas, acontecer-lhe-o outras"
sistem em dar-se conta das causas e nada mais                (Fs., II, 9, 200 a 35). Em outros termos, a ne-
so alm disso. Mas, ao mesmo tempo, nota                    cessidade pela qual uma causa qualquer (das
 que, se perguntar a causa significa perguntar o             que Aristteles distingue) age  a prpria ne-
porqu de uma coisa, esse porqu pode ser di-                cessidade pela qual uma substncia (p. ex., o
 ferente e h, portanto, vrias espcies de cau-             homem como animal racional)  o que . A ne-
 sas. Num primeiro sentido,  causa aquilo de                cessidade causai , portanto, a prpria necessi-
 que uma coisa  feita e que permanece na                    dade do ser enquanto ser, do ser substancial: a
                                                             necessidade pela qual o que  no pode ser
 coisa, como, p. ex., o bronze  causa da est-
                                                             diferente do que . A essa necessidade escapa
 tua e a prata  causa da taa. Num segundo                  somente o que  acidental ou casual (v. ACASO).
 sentido, a causa  a forma ou o modelo, isto ,
 a essncia necessria ou substncia (v.) de uma                 A doutrina de Aristteles demonstra a estrei-
 coisa. Nesse sentido,  causa do homem a na-                ta conexo entre a noo de causa e a de subs-
 tureza racional que o define. Num terceiro sen-             tncia. A causa  o princpio de inteligibilidade
 tido,  causa aquilo que d incio  mudana ou             porque compreender a causa significa com-
  ao repouso: p. ex., o autor de uma deciso  a             preender a organizao interna de uma subs-
  causa dela, o pai  causa do filho e, em geral,            tncia, isto , a razo pela qual uma substncia
  o que produz a mudana  causa da mudana.                 qualquer (p. ex., o homem, Deus ou a pedra)
  Num quarto sentido, a causa  o fim e, p. ex.,              o que  e no pode ser ou agir diferentemen-
  a sade  a causa de se passear (Ibid., II, 3, 194         te. P. ex., se o homem  "animal racional", o
  b 16; Mel, V, 2, 1013 a-b). Causa material,                que ele  ou faz depende da sua substncia
  causa formal, causa eficiente e causa final so,           assim definida, que opera como fora irresistvel
  portanto, todas as causas possveis, segundo               para produzir as determinaes do seu ser e
                                                             do seu agir.
  Aristteles. Trs teoremas fundamentais escla-
  recem essa teoria aristotlica da causa. So: l9               Os esticos entenderam a causa como fora
  a contemporaneidade da causa atual e de seu                produtiva, isto , como "aquilo por cuja ao
  efeito, como, p. ex., da ao construtora do               nasce um efeito". Segundo Sexto Emprico (Pirr.
  arquiteto e da casa; essa contemporaneidade                hyp., III, 14-15), eles distinguiram as causas
  no se verifica na causa potencial; 29 a hierar-           sinticas, concausais e cooperantes. As sin-
  quia das causas, pela qual  preciso procurar              ticas so as causas propriamente ditas que,
   sempre a causa mais alta: p. ex., o homem                 "quando presentes, est presente o efeito;
   constri porque  construtor, mas  construtor            quando retiradas ou diminudas, retira-se ou di-
                                                             minui tambm o efeito". As concausais so as
   pela arte de construir; essa arte  por isso a
                                                             causas que se reforam mutuamente na pro-
   causa mais alta; 3a a homogeneidade da causa              duo de um efeito, como no caso de dois bois
   e do efeito, pela qual os gneros so causa dos           que puxam o arado. A cooperante  a causa
   gneros, as coisas particulares das coisas parti-         que produz uma pequena fora, em virtude
   culares, o escultor da esttua, as coisas atuais          da qual o efeito se produz com facilidade:
CAUSALIDADE                                         126                                    CAUSALIDADE

como quando um terceiro vem somar-se a                    prnico, Kepler e Galileu. Essas bases so ex-
outros dois que carregam um peso com difi-                pressas em termos mecanicistas por Hobbes e,
culdade, ajudando a sustent-lo. Mas, para                em termos teolgicos, por Spinoza, mas so
os esticos, a causa por excelncia  a sinttica         sempre as mesmas. Hobbes julga que a relao
e, nesse sentido. Deus  causa e constitui o              causai se reduz  ao de um corpo sobre o
princpio ativo do mundo (DiG. L, VII, 134;              outro e que, portanto, a causa  o que gera ou
SNECA, Ep., 65, 2). A filosofia medieval em pou-         destri certo estado de coisas em um corpo (De
co ou nada inovou o conceito da estrutura causai          corp., IX, 1). A causa perfeita, isto , aquela a
(porque substancial) do mundo. Sua principal              que segue infalivelmente o efeito,  o agregado
contribuio  a elaborao do conceito de                de todos "os acidentes ativos" que existirem:
causa primeira, em um sentido diferente do                com ela, o efeito j est dado (Ibid., IX, 3). A
aristotlico, isto , no como tipo de causa fun-         concanteno dos movimentos constitui a orde-
damental, mas como primeiro elo da cadeia                 nao causai do mundo. Por sua vez, Spinoza,
causai. A elaborao desse conceito fora obra             ao ver em Deus a nica substncia, tambm v
da Escolstica rabe e, em particular, de Avi-            nele a nica causa da qual todas as coisas e
cena. Em lugar da estrutura substancial do uni-           todos os eventos do mundo (os "modos" da
verso, cuja C. constituiria a necessidade intrn-         Substncia) derivam com necessidade geom-
seca, Avcena pe a ordenao hierrquica das             trica (Et., I, 29). A necessidade causai que, para
causas, que remontam  Causa Primeira. Diz S.             Hobbes,  uma concantenao dos movimentos,
Toms (S. Th., II, 1, q. 19, a. 4): "Em todas as          para Spinoza  uma concatenao de razes,
causas ordenadas, o efeito depende mais da                isto , de verdades que constituem uma cadeia
causa primeira do que da causa segunda, por-              ininterrupta. Alm disso, para Hobbes o carter
que a causa segunda s age em virtude da cau-             mecnico da C. no diminui sua natureza racio-
sa primeira". O teorema fundamental que rege              nal, j que, alis, Hobbes v no mecanismo a
essa concatenao universal causai e o sevi ca-           nica explicao racional do mundo, no corpo
rter hierrquico  o que S. Toms exprime di-            e no movimento os dois nicos princpios de
zendo: "Quanto mais alta  uma causa, tanto               explicao, no reconhecendo outras realida-
mais amplo o seu poder causai" (Ibid, I, q. 65,           des fora deles. Isso acontece porque para ele,
a. 3): teorema de franca origem neoplatnica,             assim como para Spinoza, prevalece a identifi-
j que os neoplatnicos tinham reconhecido,               cao, aceita por Descartes, entre causa e ra-
juntamente com o carter universal da necessi-            zo. A causa  o que d a razo do efeito, de-
dade causai, a hierarquia das causas a partir da          monstra ou justifica sua existncia ou suas
causa primeira (PROCLO, Inst. theol, 11). Um              determinaes.  assim que Descartes a con-
produto dessa doutrina pode ser visto no oca-             cebe quando, definindo como analtico o m-
sonalismo (v.), segundo o qual a nica e ver-            todo que emprega, afirma que ele "demonstra
dadeira causa  Deus, e as chamadas causas                como os efeitos dependem das causas" (Secon-
segundas ou finitas so apenas ocasies de que            des repouses). Isso significa que a causa  o
Deus se serve para realizar os seus decretos              que permite deduzir o efeito. E o significado
(MALEBRANCHE, Recherche de Ia vrit, VI, 2, 3).          daquele "princpio de razo suficiente" formu-
    O conceito aristotlico-rabe de uma ordem            lado por Leibniz como base das verdades de
necessria no mundo, no qual todos os eventos             fato  que explicar por meio da causa  "dar a
encontram seu lugar e sua concatenao causai,            razo" daquilo que existe. "Nada acontece",
 defendido, no Renascimento, pelos aristot-             disse Leibniz (Thod.,  44), "sem que haja uma
licos como pressuposto essencial do seu natu-             causa ou pelo menos uma razo determinante,
ralismo. Assim, Pomponazzi pretende remeter               isto , algo que possa servir para dar a razo a
at os acontecimentos mais extraordinrios e              priori de por que algo existe ao invs de no
miraculosos  ordem necessria da natureza e,             existir e de por que existe desse modo e no
para isso, utiliza o determinismo astrolgico             de outro". Sem dvida, esse ponto de vista
dos rabes (De incantationibus, 10). A no-                no constitua uma novidade na histria da no-
o de uma ordem causai do mundo (s ve-                  o de causa; a preeminncia, reconhecida por
zes remetida a Deus como primeira causa), se-             Aristteles, da substncia como essncia racio-
gundo o conceito neoplatnico e medieval,                 nal (logos) ou forma significava, precisamente,
forma ainda o pressuposto e o fundamento dos              a exigncia de que a causa constitusse a razo
primrdios da organizao da cincia, com Co-             da coisa ou, em outras palavras, que tornasse
CAUSALIDADE                                            127                                      CAUSALIDADE


cognoscvel apriori, isto , dedutvel, a existn-           nomo Laplace assim exprimia o ideal da expli-
cia e os caracteres da prpria coisa. Quando                 cao causai na sua Teoria analtica das pro-
Leibniz diz que a natureza de uma "substncia                 babilidades, de 1812. "Ns devemos conside-
individual" basta "para compreender e para                   rar o estado presente do universo como efeito
permitir a deduo de todos os predicados do                 do seu estado anterior e como causa do que se
sujeito ao qual  atribuda" (Discours de m-                seguir. Uma inteligncia que, em dado instan-
taphysique,  8), est considerando essa nature-             te, conhecesse todas as foras de que a nature-
za como a razo ou a causa dos caracteres e da               za  animada e a situao respectiva dos seres
existncia da substncia individual, que po-                 que a compem, se fosse bastante vasta para
dem ser conhecidos apriori, isto , deduzidos                submeter esses dados ao clculo, abarcaria na
a partir dela. Nessas observaes de Leibniz ex-             mesma frmula os movimentos dos maiores
prime-se com toda a clareza a exigncia que                  corpos do universo e os do timo mais leve:
Aristteles j havia proposto: de que a causa, e             nada seria incerto para ela e o futuro, assim
em particular a "causa primeira" (no sentido                 como o passado, estaria diante de seus olhos".
aristotlico, no no medieval), constitua o prin-            Tais palavras permaneceram como a insgnia
cpio da deduo de todos os seus efeitos pos-               da cincia do sculo XIX e exprimem claramen-
sveis (v. FUNDAMENTO).                                      te o estreito nexo que a interpretao racionalista
    Esse conceito persiste na filosofia moder-               da C. estabeleceu, a partir de Descartes, entre
na, sendo compartilhado tanto pelas doutri-                  a C. e a previso infalvel, e entre a previso
nas idealistas ou aprioristas quanto pelas doutrinas         infalvel e a deduo apriori. Elas exprimem,
materialistas e mecanicistas. Fichte identifica a            de fato, um ideal de saber que possa prever
C. com a atividade criativa do eu infinito que se            qualquer acontecimento futuro, seja ele peque-
explica e se realiza segundo uma necessida-                  no ou grande, deduzindo-o por meio de leis
de racional absoluta (Wissenscbaftslebre, 1794,              imutveis e necessrias. Alguns decnios mais
 4, C-D). Hegel considera a C. como a prpria               tarde, Claude Bernard, em sua Introduo ao
substncia "enquanto refletida em si" (Ene,                  estudo da medicina experimental (1865), obe-
5153), isto , mergulhada em sua necessida-                  decendo ao mesmo ideal, exclua a possibili-
de. "A causa perde-se no seu outro, o efeito; a              dade de que a cincia, mesmo na sua exign-
atividade da substncia causai perde-se no                   cia radical de crtica, viesse a duvidar do princpio
seu operar", diz ele (Wissenschaft derLogk, III,            causai, por ele chamado de princpio do de-
2, 1 B). Mas a substncia causai  a prpria ra-             terminismo absoluto. "O princpio absoluto das
zo, isto , a realidade em sua essncia descerrada.         cincias experimentais", dizia (Introduction, I,
Nessas notas, a C.  identificada com a racio-               2, 7), " um determinismo necessrio e cons-
nalidade substancial do mundo ou  considera-                ciente nas condies dos fenmenos. Se ocor-
da uma parte, um momento ou uma manifesta-                   re um fenmeno natural, seja ele qual for, um
o dessa racionalidade. Serve ora para definir              experimentador nunca poder admitir que haja
a natureza da racionalidade, ora para ser defi-              uma variao na expresso desse fenmeno,
 nida por ela. Hegel, tomando como ponto de                  sem que, ao mesmo tempo, tenham sobrevin-
 partida o timo da palavra Ursache (causa),                 do condies novas em sua manifestao: alm
 v nela a "coisa originria" (Ene,  153), isto ,          disso, ele tem a certeza a priori de que essas
 a coisa que  a origem ou o princpio das outras            variaes so determinadas por relaes rigo-
 ou de que as outras derivam, ou seja, derivam               rosas e matemticas. A experincia mostra-nos
 racionalmente, de tal modo que constituem,                  somente a forma dos fenmenos, mas a rela-
 junto com ela, o sistema total da razo. Aqui, o            o de um efeito com uma causa determinada
 sentido atribudo  C.  o de racionalidade pura             necessria e independente da experincia, e
 e o sentido atribudo  racionalidade  o de                forosamente matemtica e absoluta". Mas,
 dedutibilidade necessria. A relao causai                apesar dessas afirmaes to decididas de um
 uma relao de deduo. Da causa deve-se                    dos maiores cientistas e metodologistas da
 poder deduzir o efeito, e se deduz efetivamente.            cincia do sc. XIX, a prpria cincia seguiu
                                                             outro curso, no que se refere  elaborao e ao
     Mais ou menos no mesmo perodo, os cien-                uso da noo de causalidade. Os progressos do
 tistas elaboravam, com base na explicao me-               clculo das probabilidades, de algumas teorias
 cnica do mundo, um conceito de C. anlogo                  fsicas (especialmente a teoria cintica dos ga-
 ao de Hegel, isto , coincidente com ele na sua             ses), e da mecnica quntica foram destinando
 natureza de relao de dedutibilidade. O astr-
CAUSALIDADE                                          128                                   CAUSALIDADE

um espao cada vez maior  noo de probabi-               tado do choque entre as duas, eu poderia con-
lidade; finalmente, a mecnica quntica tende a            ceber a possibilidade de outros mil aconteci-
substituir a noo de C, que parecia indispen-             mentos diferentes, como p. ex. que ambas as
svel aos cientistas e metodologistas do sculo            bolas permanecessem paradas ou que a pri-
passado, pela de probabilidade. Pode-se dizer              meira voltasse para trs em linha reta ou esca-
que a ltima manifestao filosfica da teoria             passe por um dos lados, em uma direo qual-
clssica da C.  a doutrina de Nicolai Hartmann,           quer. Todas essas suposies so coerentes e
que, embora considerando a realidade dividida              concebveis; e aquela que a experincia de-
em planos estratificados, cada um dos quais                monstra ser verdadeira no  mais coerente
obedece a um seu determinismo prprio, mo-                 nem concebvel do que as outras. A concluso
dela cada tipo ou forma de determinismo so-                : "todos os nossos raciocnios apriori no po-
bre a C. necessria da fsica oitocentista, enten-         dero demonstrar nenhum direito a essa prefe-
dida, na sua forma mais rigorosa, como negao             rncia"; e "seria intil tentar predizer qualquer
de qualquer possibilidade ou liberdade (Mg-               acontecimento, ou inferir alguma causa ou efei-
lichkeit und Wirklichkeit, 1938).                          to, sem o auxlio da observao e da experin-
    2- A segunda forma que a noo de C. assu-             cia" (Jnq. Cone. Underst., IV, 1). A observao e
miu na histria  a que a reduz substancialmen-            a experincia, porm, com a repetio de cer-
te  relao de previsibilidade certa. As crticas         tos acontecimentos similares, isto , com as
que, de raro em raro, a noo de C. encontrou              uniformidades que revelam, do origem ao h-
na filosofia antiga tendem a reduzir essa noo            bito de crer que tais uniformidades se verifica-
 de sucesso ou de conexo cronolgica cons-              ro tambm no futuro e que, portanto, possi-
tante, base de previsibilidade dos eventos.                bilitam a previso sobre a qual se baseia a vida
Assim, o filsofo rabe Al Gazali (sc. XI), no            cotidiana. Mas essa previso, segundo Hume,
intuito de reservar o poder causai s para                 no  justificada por nada. Mesmo depois da
Deus, negando-o nas coisas, observou que o                 experincia vivida, a conexo entre causa e
vnculo verificvel entre as coisas  certo nexo           efeito continua arbitrria (j que causa e efeito
temporal e que, p. ex., dizemos que a combus-              continuam sendo dois acontecimentos distin-
to  causada pelo fogo unicamente porque                  tos), de tal modo que continua sendo arbitrria
ocorre junto com o fogo (AVERRIS, Destructio              a previso baseada nesse nexo. "O po que eu
destructionum, I, dv. 3)- Com outro intuito,              comia antes me alimentava; isto , um corpo
Ockham, no sc. XIV, antecipava a crtica de               com certas qualidades sensveis era dotado de
Hume afirmando que o conhecimento de uma                   foras secretas naquele tempo; mas ento ser
coisa no traz consigo, a nenhum ttulo, o co-             lcito concluir que um outro po deve nutrir-me
nhecimento de uma coisa diferente, de tal                  tambm em outro tempo e que qualidades sen-
modo que "uma proposio como 'o calor es-                 sveis semelhantes devam ser sempre acompa-
quenta' de forma alguma pode ser demonstra-                nhadas por idnticas foras secretas? A conse-
da por silogismo, mas o seu conhecimento s                qncia no parece absolutamente necessria"
pode ser obtido por experincia, pois se no se            (Ibid., IV, 2). A concluso de Hume  que a
experimentar que, em presena de calor, se-                relao causai  injustificvel e que a crena
gue-se o calor em uma outra coisa, no se pode             nela s pode ser explicada pelo instinto, isto ,
saber que calor produz calor mais do que se                pela necessidade de viver que a requer. Essa
sabe que brancura produz brancura" (Summa                  anlise de Hume props o problema da C. na
log., III, 2, 38). Aqui se antecipa claramente o           forma que este mantm ainda na filosofia con-
ponto fundamental da crtica de Hume, isto , a            tempornea. O critrio usado por Hume, para
no-dedutibilidade do efeito a partir da causa.            demonstrar a insuficincia da teoria clssica, 
Hume comea negando justamente que entre                   o da previsibilidade. A relao causai deve tor-
causa e efeito haja tal relao.                           nar previsvel o efeito, mas nenhuma deduo
                                                           apriori pode tornar previsvel um efeito qual-
   "Ns nos iludimos", diz Hume, "crendo que,              quer; por isso, a deduo  incapaz de funda-
se fssemos trazidos de repente a este mundo,              mentar a relao causai. A repetio, empiri-
poderamos imediatamente deduzir que uma                   camente observvel, de conexo entre dois
bola de bilhar pode comunicar movimento a                  eventos , ento, o nico fundamento para afir-
uma outra". Mas na realidade, mesmo supondo                mar uma relao causai, e o modo como ela
que nasa em mim, por acaso, o pensamento                  possibilita essa assero  o problema que hoje
de que o movimento da segunda bola  resul-
CAUSALIDADE                                         129                                    CAUSALIDADE


est na base de todas as noes de C, condi-               Underst., VII, 1). Por isso, procurou-se "purifi-
cionamento, induo, probabilidade, etc. Kant             car" a noo de C. de suas referncias antropo-
acreditou ter respondido  dvida de Hume so-             mrficas e a tentativa mais importante nesse
bre o valor da C. transformando-a numa cate-              sentido foi feita por Comte. Ele achava que a
goria (v.), isto , num conceito apriori do in-           prpria idia de causa como fora produtiva ou
telecto, aplicvel a um contedo emprico e               agente era prpria de um estado ultrapassado
determinante da conexo e da ordenao obje-              da cincia, isto , do estado metafsico, e consi-
tiva desse contedo. Mas, na verdade, essa so-            derava prpria do estado positivo a noo de
luo s podia postular, em forma de conceito             causa como "relao invarivel de sucesso e
apriori e, portanto, de "princpio puro do in-            semelhana entre os fatos". Segundo Comte,
telecto" (a segunda analogia da experincia), a           essa noo bastava para tornar possvel a tarefa
soluo do problema proposto por Hume sem                 essencial da cincia, que  a de prever os fen-
abolir sua dificuldade. Quando Kant diz que a             menos para poder utiliz-los: a relao cons-
natureza nunca poder desmentir o princpio               tante, uma vez reconhecida e formulada em
de causa porque, para ser natureza, deve ser              uma lei, possibilita prever um fenmeno quando
pensada como natureza e a causalidade  uma               se verifica aquele ao qual ele est ligado; e a
condio do pensamento (Crt. R. Pura,  26;              previso, por sua vez, possibilita agir sobre os
Prol,  36), no faz seno dizer que a natureza,          prprios fenmenos (Cours dephil. positive, I,
para ser natureza, deve ser organizada pelas re-          cap. I,  2). Esse conceito da previso como ta-
laes causais, isto , apenas d uma definio           refa fundamental da cincia, que Comte hauria
de natureza que j inclui essa relao. Portanto,         em Bacon, mas que, a partir dele prevaleceu
a soluo kantiana, embora obviamente suge-               na especificao moderna, deveria predominar
rida pela exigncia de salvar ou garantir a               como critrio de validade e eficcia da cincia,
validade da cincia newtoniana fundada na                 portanto, do alcance e do significado do princ-
noo de causa, tem carter de soluo verbal             pio de causalidade. E as noes de C. e de pre-
e de dogmatismo camuflado. Para enfraquecer               viso foram unidas por Comte e assim perma-
esse dogmatismo, porm, contriburam no sc.              neceram depois dela. Mach, que parte dessa
XIX, o reconhecimento do carter antropomr-              conjuno entre as duas noes, quer substituir
fico do conceito de causa e, a partir do final do         o conceito tradicional de causalidade pelo con-
sc. XIX, as limitaes crescentes que o uso              ceito matemtico de funo, isto , de "interde-
desse conceito foi encontrando no pensamento              pendncia dos fenmenos ou, mais exatamen-
cientfico. Quanto ao primeiro ponto, limitar-            te, interdependncia dos caracteres distintivos
nos-emos a citar a opinio de Nietzsche, para             dos fenmenos" (Analyse der Empfindungen,
quem a noo de causa no  seno a transcri-             9- ed., 1922, p. 74). Todavia, nem Comte nem
o simblica da vontade de potncia, isto ,             Mach pem em dvida o carter necessitante
do sentimento interno de fora ou de expres-              da C. e o determinismo rigoroso que ela com-
so jubilosa. "Fisiologicamente", diz Nietzsche,          porta no mundo dos fenmenos naturais. Logo,
"a idia de causa  o nosso sentimento de po-             no pem em dvida a previsibilidade certa e
tncia, naquilo que se chama vontade; e a idia           infalvel dos fatos naturais cujas relaes
de efeito  o preconceito de crer que o senti-            causais so conhecidas. Foi s a cincia con-
mento de potncia seja a prpria potncia                 tempornea que ps em dvida essas duas coi-
motora. A condio que acompanha um even-                 sas, provocando, assim, a crise definitiva da no-
to e que j  um efeito desse evento  projeta-           o de causalidade.
da como 'razo suficiente' deste". Na realidade,
para Nietzsche toda a concepo mecnica do               Na segunda metade do sc. XIX, a formula-
mundo no passa de linguagem simblica para           o matemtica da teoria cintica dos gases,
exprimir "a luta e a vitria de certas quanti-        devida a Maxwell e a Boltzmann, serviu para
dades de vontade" (Wille zur Macht, ed. 1901,         interpretar estaticamente o segundo princpio
 296). Essa conexo da noo de C. enquanto          da termodinmica, segundo o qual o calor passa
fora produtiva com a experincia interna do          somente de um corpo de temperatura mais
homem, ou seja, essa transcrio ou concep-           alta para outro corpo de temperatura mais bai-
tualizao antropomrfica, foi sustentada no          xa. A teoria cintica interpretava esse fato como
sc. XIX por numerosos filsofos, conquanto           um caso de probabilidade estatstica; pela pri-
criticada e rejeitada por Hume (Inq. Cone.            meira vez, a noo de probabilidade, que at
                                                      ento ficara limitada ao domnio da matemti-
CAUSALIDADE                                         130                                         CAUSA SUI

ca, era utilizada no domnio da fsica. Todavia           lgico com a C. ... No h hoje nenhuma razo
a teoria cintica dos gases no representava              que permita afirmar a existncia da C. na natu-
ainda uma infrao ao princpio de C, predo-              reza e nenhuma experincia pode dar-nos a
minante em todo o restante da fsica. Foi s              prova dela" (Les fondements mathematiques
com o progresso da fsica subatmica e com a              dela mcaniquequantique, trad. fr., 1947, pp.
descoberta, devida a Heisenberg, do princ-               143 ss., 223-224, etc). Alguns anos mais tarde,
pio de indeterminao (1927), que o princpio             Reinchenbach {Theory of Probability, 1949, p.
de C. sofreu um golpe decisivo. A impossibi-              10) afirmou: "O desenvolvimento histrico da
lidade, estabelecida por esse princpio, de medir         fsica leva ao resultado de que o conceito de
com preciso uma grandeza, sem prejuzo da                probabilidade  fundamental em todas as
preciso na medida de uma outra grandeza                  asseres sobre a realidade e que, a rigor, no
coligada, torna impossvel predizer com certeza            possvel uma nica assero sobre a realida-
o comportamento futuro de uma partcula su-               de, cuja validade possa ser afirmada com algo
batmica e s autoriza previses provveis do             mais do que probabilidade". Esses progressos
comportamento de tais partculas, com base                da cincia tornaram as inteis discusses dos
em verificaes estatsticas. Em conseqncia             filsofos sobre o fundamento, o alcance e os li-
disso, a fsica tende hoje a considerar as mes-           mites do princpio de causa. Esse princpio no
mas relaes de previsibilidade no campo dos               mais usado, nem na sua forma clssica nem
objetos macroscpicos, que deram origem ao                na sua forma moderna: o conceito do saber ou
princpio de C, como casos particulares de pre-           da cincia como "conhecimento das causas"
vises provveis. Heisenberg escrevia em 1930:            entrou em crise e foi praticamente abandonado
"Nossa descrio habitual da natureza e, parti-           pela prpria cincia. Vai-se formando uma
cularmente, o pensamento de uma C. rigorosa               nova terminologia, na qual os termos condi-
nos eventos da natureza repousam na admis-                o e condicionamento (v.), definveis por meio
so de que  possvel observar o fenmeno                 dos procedimentos em uso nas vrias discipli-
sem influenci-lo de modo sensvel... Na fsica           nas cientficas, tomam o lugar do venerando e
atmica, porm, toda observao geralmente                agora inservvel conceito de causa.
est ligada a uma perturbao finita e, at certo             CAUSA SUI. 1. Liberdade como autodeter-
ponto, incontrolvel, o que era de esperar des-           minao. Nesse sentido, essa noo remonta a
de o princpio na fsica das menores unidades             Aristteles (Et. nic, III, I, 110 a) e foi constan-
existentes. Como, por outro lado, toda descri-            temente empregada para definir a liberdade
o espcio-temporal de um evento fsico est             absoluta ou incondicionada (v. LIBERDADE).
ligada a uma observao do evento, segue-se                  2. Plotino definira a Inteligncia como "obra
que a descrio espcio-temporal de eventos,              de sua prpria atividade" (ocuTo vpyr|N,a)
por um lado, e a lei causai clssica, por outro,          enquanto "tem o ser de si mesma e por si mes-
representam dois aspectos complementares,                 ma" (Enn., VI, 8, 16). Atravs do neoplato-
mutuamente excludentes, dos acontecimentos                nismo rabe e especialmente de Avicena, sem
fsicos" (Die physikalischen Prinzipien der               contar a tradio da filosofia judaica, esse con-
Quantumtheorie, IV,  3). Em 1932, Von Neu-               ceito chega a Spinoza, que d incio  sua tica
mann assim resumira a questo: "Em fsica ma-             com a definio: "Entendo por C. de si aqui-
croscpica, no h nenhuma experincia que                lo cuja essncia implica a existncia ou aquilo
prove o princpio de C, porque a ordem causai             cuja natureza s pode ser concebida como
aparente do mundo macroscpico no tem outra              existente" (Et., I, def. 1). Trata-se de uma das
origem seno a lei dos grandes nmeros e isto             muitas expresses da necessidade da nature-
de modo totalmente independente do fato de                za divina, segundo o conceito de Deus (v.)
os processos elementares (que so os verda-               no neoplatonismo rabe. Hegel retomou a
deiros processos fsicos) seguirem ou no leis            expresso de Spinoza e acrescentou que toda
de C. ... E s em escala atmica, nos processos           causa  "em si e por si causa sui", na medida
elementares, que a questo da C. pode real-               em que se reduz  C. infinita, que  a substn-
mente ser discutida; mas, nessa escala, no es-            cia racional do mundo (Ene,  153). Isso  o
tado atual de nossos conhecimentos, tudo est             que o prprio Spinoza pretendia dizer. Por-
contra ela, porque a nica teoria formal que se           tanto, o uso dessa noo para designar a di-
ajusta mais ou menos  experincia  a mec-              vindade  moderno e est vinculado  orien-
nica quntica, e esta est em pleno conflito              tao pantesta; tambm parece claro pela
CAVERNA, DOLOS DA                                          131                                       CERTEZA


observao de H e g e l (l.c) q u e C. sui e q u i v a -      gundo significado, o objetivo, e a garantia a
lente a effectus sui.                                          que se faz aluso  a solidez ou a estabilidade
   CAVERNA, DOLOS DA. V. DOLOS.                              do conhecimento verdadeiro. Segundo esse
    CAVERNA, MITO DA. Mito exposto por                         conceito, que Plato expressou do modo mais
Plato no livro VII da Repblica, segundo o                    claro, a estabilidade do conhecimento depende
 qual a condio dos homens no mundo  seme-                   da estabilidade do seu objeto, de sorte que s
 lhante  de escravos presos numa C, que s                    podem ser estavelmente conhecidas (isto ,
 conseguem enxergar projetadas no fundo da C.                  com C.) as coisas estveis, ao passo que as coi-
 as sombras das coisas e dos seres que esto                   sas instveis, isto , mutveis, s podem ser
fora. A filosofia , em primeiro lugar, a sada da             objeto de conhecimento provvel (Tira., 29
C. e a observao das coisas reais e do princ-                b-c; Fil, 59 b). Nesse sentido, a C.  apenas um
pio da sua vida e da sua cognoscibilidade, isto ,             atributo da verdade:  o carter estvel, ou seja,
do Sol (o bem [v.]); e, em segundo lugar, o re-                no sujeito a desmentidos, da prpria verdade.
torno  C. e a participao nas obras e nos valo-              No mesmo sentido a C. foi entendida por Aris-
res prprios do mundo humano (Rep., 519 c-d).                  tteles {Mel, IV, 1008 a 16; 1011 b 13; etc.) e
    CAVILAO (lat. Cavillatio; in. Cavil; it.                 por Sexto Emprico: este ltimo associa a C. 
Cavill). Esse termo foi proposto por Ccero                   verdade e  cincia (Pirr. hyp., I, 191; II. 214;
como traduo da palavra grega sophisma, que                   Adv. math., VII, 151, etc).
depois foi traduzida por falcia (v.) {De oral,                   A noo subjetiva da C. e os problemas a ela
II, 54, 217; cf. SNECA, fp., 111; QUINTIUANO, Inst.          inerentes nasceram com a importncia atribu-
or, IX, 1, 15). Nesse sentido, esse termo ainda                da pelo Cristianismo  f, quando foi reconhe-
foi recordado no sc. XVII (cf. JUNGIUS, Lgica                cida a possibilidade da segurana subjetiva do
hamburgensis, 1638, VI, 1, 16).                                saber, no garantida por um critrio objetivo de
    CELANTES. Palavra mnemnica usada pe-                      verdade. Mas, obviamente, o reconhecimento
los escolsticos para indicar o sexto modo da                  dessa possibilidade no levava a negar, mas a
primeira figura do silogismo, mais precisamente                reconhecer a outra possibilidade, de garantia
o que consiste em uma premissa universal                       objetiva. Por isso, os dois conceitos de C. so
negativa, uma premissa universal afirmativa e                  sempre esclarecidos juntos e de modo comple-
uma concluso universal negativa, como no                      mentar, na tradio filosfica. S. Toms distin-
exemplo: "Nenhum animal  pedra; todo ho-                      gue dois modos de considerar a certeza. O pri-
mem  animal: logo, nenhuma pedra  ho-                        meiro consiste em considerar a causa dela e,
mem" (PEDRO HISPANO, Summ. log., 4.08).                        sob esse aspecto, a f  mais certa cio que a sa-
   CELARENT. Palavra mnemnica usada pe-                       bedoria, do que a cincia e do que o intelecto,
los escolsticos para indicar o segundo modo                   porque se fundamenta na verdade divina, ao
da primeira figura do silogismo, mais precisa-                 passo que essas trs coisas se baseiam na ra-
mente o que consiste em uma proposio uni-                    zo humana. No segundo modo, a C. pode ser
versal negativa, uma proposio universal afir-                considerada sob o aspecto do objeto (subiectum) e,
mativa e uma concluso universal negativa,                     assim sendo,  mais certo o objeto que mais se
como no exemplo: "Nenhum animal  pedra;                       adapta ao intelecto humano e  menos certa a
todo homem  animal: logo, nenhum homem                       f (S. Th., II, 2, q. 4, a. 8). Obviamente, a C.
pedra" (PEDRO HISPANO, Summ. log., 4.07).                      considerada na sua causa  a C. subjetiva, isto
    CERTEZA (gr. Pepatcoxi; lat. Certitudo; in.              , a segurana subjetiva da verdade da crena,
Certitude, Certainty, fr. Certtude, ai. Gewis-                enquanto a C. considerada no seu objeto  a C.
sheit; it. Certezza). Essa palavra tem dois signi-            objetiva; e, de fato, S. Toms atribui a primeira
ficados fundamentais: ls segurana subjetiva da               C.  ao da vontade, no  da razo (Ibid., II,
verdade de um conhecimento; 2Q garantia que                    2, q. 2, a. 1, ad 3S). Com Descartes, a filosofia
um conhecimento oferece da sua verdade.                       moderna identificou verdade com C: a primei-
Esses dois significados ainda se mantm e para                ra regra cartesiana, "s aceitar por verdadeiro
eles o ingls tem duas palavras diferentes:                   o que se reconhece evidentemente como tal",
certitude, que se refere ao primeiro, e cer-                  estabelece essa identidade, cujo ato ou mani-
tainty, ao segundo. Os dois significados nem                  festao  o prprio cogito, na medida em que
sempre constituem alternativas excludentes,                   faz da C. que o eu tem da prpria existncia o
mas freqentemente so complementares. To-                    prprio princpio da verdade. Essa identidade
davia, no pensamento clssico prevalece o se-                 tambm  evidente em Locke, que faz a distin-
CERTEZA                                            132                                      CESARISMO

o entre a "C. da verdade", que existe quando           ser chamada de apodtica (Logik, Intr.,  IX) . O
as palavras so unidas de tal modo que repre-            prprio Hegel aceitou a identificao de C. e
sentem exatamente a concordncia ou a discor-            conhecimento e ilustrou os dois aspectos, sub-
dncia das idias que exprimem, e a "C. do co-           jetivo e objetivo, da C. sensvel da seguinte
nhecimento", que consiste em procurar essa               maneira: "Na C. sensvel, um momento  posto
concordncia ou discordncia na proposio               como aquilo que, simples e imediatamente, ,
que a exprime (Ensaio, IV, 6, 3 ) Aqui, como            assim como a essncia: esse  o objeto. O outro
elemento da verdade, inclui-se a relao com a           momento  posto como o inessencial e me-
expresso lingstica, mas a C.  identificada           diato, que no  em si, mas mediante outra coi-
com a verdade. "Chamamos de conhecer", diz               sa: esse  o eu, um saber que sabe o objeto s
Locke "o estar certo da verdade de uma pro-              porque o objeto  um saber que pode ser ou
posio" (ibid., IV, 6, 3). Esses reparos foram          tambm no ser" (Phnomen. des Geistes, I, A,
aceitos por Leibniz (Nouv. ess., IV, 3), que, no         I). Analogamente, os dois significados foram
entanto, ainda distinguia da "C. absoluta", que          distinguidos e aceitos por Husserl, que con-
provavelmente compreende as duas espcies                siderou o fenmeno da C. como originrio,
de C. reconhecidas por Locke, a C. moral,               vinculado  prpria atitude da crena, e por
qual se pode chegar pelas provas da verda-               isso chamou-o Urdoxa ou Urglaube (Ideen, I,
de da religio (Thod., Discours,  5). Contra a          104). A exemplo de Leibniz, falou-se tambm
identidade entre verdadeiro e certo, estabele-           em "C. moral" (OLLE-LAPRUNE, La certitude mo-
cida por Descartes (que Spinoza ratificava               mle, 1880), para indicar uma C. no garantida
com o seu teorema "quem tem uma idia ver-               por um critrio objetivo ou racional, como  a
dadeira sabe pelo mesmo de t-la" (Et., II,              C. da f: mas a identificao estabelecida pela
43), e analogamente  distino feita por                filosofia cartesiana entre C. e verdade no foi
Leibniz entre C. absoluta e C. moral, ergue-se           mais abandonada. Heidegger reafirmou-a di-
a doutrina de Vio, que faz a distino entre o          zendo: "A C. se funda na verdade, ou seja,
verdadeiro, identificado com o fato (porquanto           pertencendo-lhe cooriginariamente". E distin-
se pode conhecer de verdade s o que se faz              guiu os dois significados que correspondem ao
e cuja causa, portanto, se conhece), e o certo,          significado e ao objetivo de C: "o estar certo
fundado na tradio e na autoridade e que, no           como modo de ser do ser-a" (isto , do ho-
sendo susceptvel de demonstrao necessria,            mem) e a C. do "ente do qual ser-a est
est no nvel do provvel. "Os homens que no            certo", que  derivada da primeira (Sein und
sabem a verdade das coisas esforam-se por               Zeit,  52).
ater-se ao certo, porque, se no podem satis-                CESARE. Palavra mnemnica usada pelos
fazer o intelecto com a cincia, pelo menos              escolsticos para indicar o primeiro dos quatro
que a vontade repouse na conscincia." (Scien-           modos do silogismo de segunda figura, mais
za nuova, 1744, dign. 9). Segundo Vio, a filo-          precisamente o que consiste em uma premissa
sofia no pode fundar-se, como pretendem os              universal negativa, uma premissa universal afir-
cartesianos, to-somente no verdadeiro, mas              mativa e uma concluso universal negativa,
tambm deve utilizar o certo, que  constitudo          como no exemplo: "Nenhuma pedra  animal;
pelo conjunto dos conhecimentos fornecidos               todo homem  animal: logo, nenhum homem 
por aqueles que Vio chama de "fillogos", isto          pedra" (PEDRO HISPANO, Summ. log., 4.11).
, historiadores, crticos e gramticos que se
ocuparam dos costumes, das leis e das lnguas                CESARISMO ( ai. Csarismus). Spengler deu
dos povos (Ibid., dig. 10). Mas, em geral, a             esse nome  "espcie de governo que, apesar
identificao entre C. e verdade firmou-se na            de todas as formas de direito pblico, ainda
filosofia moderna. Kant chamou de C. a crena            est totalmente desprovido de forma na sua
objetivamente suficiente, isto , suficientemen-         natureza interna. Isso se verifica no fim de cer-
te garantida como verdadeira (Crt. R. Pura,             tos perodos, quando as instituies polticas
Cann da razo pura, se. 3). Distinguiu, alm           fundamentais esto mortas, ainda que minucio-
disso, a C. emprica, que pode ser originria,           samente conservadas nas suas aparncias: nes-
isto , vinculada  prpria experincia histri-         ses perodos, nada tem significado, exceto o
ca, ou derivada de uma experincia alheia; e a           poder pessoal exercido pelo Csar.  o retorno
C. racional, que se distingue da emprica pela           de um mundo, que atingiu a sua forma, ao pri-
"conscincia da necessidade" e, portanto, pode           mitivo, ao que  cosmicamente a-histrico"
                                                         (Der Untergang des Abendlandes, II, 4, 2,  14).
CEU                                                   133                                    CIBERNTICA


    CU (gr. opocv; lat. Caelum; in. Heaven; fr.         foi usada pelo americano Wiener para designar
Ciei; ai. Hmmel; it. Cielo). Aristteles distingue         "o estudo das comunicaes e, em particular,
trs significados do termo: le a substncia da cir-         das comunicaes que exercem controle efeti-
cunferncia externa do mundo, isto , o corpo               vo, com vistas  construo das mquinas cal-
natural que est na extrema periferia do univer-            culadoras" (C, or Controland Communication
so: nesse sentido, d-se o nome de C.  regio              in the Animal and theMachne, 1947). Em sen-
que se acredita ser a sede da divindade; 2- o cor-          tido mais geral, a C.  entendida hoje como o
po que ocupa o lugar mais prximo da circunfe-              estudo de "todas as mquinas possveis", inde-
rncia externa do universo e no qual se acham               pendentemente do fato de que algumas delas
a Lua, o Sol e alguns astros, dos quais de fato             tenham ou no sido produzidas pelo homem
dizemos que esto "no C"; 3S todo corpo que                ou pela natureza. E, nesse sentido, oferece o
encerrado pela circunferncia externa, isto , o            esquema no qual todas as mquinas podem
prprio mundo na sua totalidade (De cael, I, 9,             ser ordenadas, relacionadas e compreendi-
278 b 10). Este ltimo significado j fora atribu-         das (cf., p. ex., W. Ross ASHBY, An Intro-
do  palavra por Plato (Tini., 28 c). A doutrina           duction to C, 1957). No entanto, as mqui-
fundamental de Aristteles sobre o C.  a da                nas de que a C. cuida so os autmatos (v.),
incorruptibilidade. Aristteles acreditava que o            ou seja, as que so capazes de realizar opera-
C. era formado por uma substncia diferente                 es que, durante a execuo, podem ser
da das coisas sublunares, isto , pelo ter(y.).            corrigidas, de tal modo que cumpram melhor
O ter, que se move somente por movimento                   seu objetivo. Essa correo chama-se retroali-
circular, no pode sofrer gerao nem corrupo.            mentao (feedback). Como essa  a caracters-
A gerao e a corrupo dos corpos acontecem                tica fundamental das operaes realizadas pelo
pelo alternar-se dos dois movimentos opostos                homem ou por qualquer ser inteligente, essas
(do centro e para o centro), a que esto sujeitos           mquinas tambm so chamadas de inteligen-
os elementos (gua, ar, terra, fogo) que com-               tes ou de crebros eletrnicos, j que seu fun-
pem os corpos sublunares; de modo que o C,                 cionamento se deve s propriedades fsicas do
que se move por movimento circular, que no                 eltron. O esquema desse funcionamento pode
tem oposto,  incorruptvel e ingenervel (De               ser percebido nas operaes mais simples fei-
cael, II, 1 ss.). A doutrina da incorruptibilidade          ta por um ser humano. Se, ao ver um objeto
dos C. dominou toda a fsica antiga e medieval.             em certa direo (ou seja, ao receber dele uma
Na Antigidade, talvez tenha sido posta em d-              mensagem visual), eu estendo o brao para
vida por Teofrasto (cf. STEINMETZ, DiePhysik des            peg-lo e erro a direo ou a distncia, logo a
 Theophrast, 1964, 158 ss.). Na Idade Mdia, o              informao desse erro retifica o movimento de
primeiro a p-la em dvida  Ockham, que, no                meu brao e permite que eu o dirija exatamen-
sc. XIV, nega a diversidade entre a matria                te para o objeto: tanto a operao quanto a cor-
que compe os corpos celestes e a matria que               reo da operao, neste caso, so guiadas por
compe os corpos sublunares e admite como                   mensagens, ou seja, por informaes recebi-
nica diferena entre eles o fato de que a ma-              das ou transmitidas pelo sistema nervoso que
tria dos corpos celestes no pode ser transfor-            dirige o movimento do brao. Por isso, a teoria
mada pela ao de nenhum agente criado, mas                 da informao  parte integrante da C. ou, de
seria necessria, para esse fim, a ao direta de           qualquer modo, est estreitamente ligada a ela.
Deus (In Sent., II, q. 22 B). Mas essa crtica de           Na C. tambm podem ser distinguidos os se-
Ockham foi ignorada por seus prprios segui-                guintes aspectos: ls esquema geral da informa-
dores, sendo retomada s um sculo depois                   o; 2S medida da quantidade de informaes;
por Nicolau de Cusa: este afirma que a gerao              3S condies que possibilitam a informao; 4S
e a corrupo, verificadas na Terra, provavel-              objetivos da informao.
mente tambm se verificam nos outros astros,
porque no h diversidade de natureza entre                    ls O esquema de qualquer informao pa-
estes e a Terra (De docta ignor., II, 12). Toda-            rece ser constitudo, essencialmente, por trs
via, o fim dessa doutrina s foi marcado pela               elementos: a mensagem emitida, a transmisso
crtica feita por Galileu em Dilogos sobre os              e a mensagem recebida. Mas, na realidade, as
dois sistemas mximos (1632).                               coisas so bem mais complicadas, porque a
                                                            mensagem emitida (p. ex., uma frase pronun-
   CIBERNTICA (in. Cybernetics). Essa pala-                ciada em italiano ou o conjunto de pontos e li-
vra significa propriamente arte do piloto, mas              nhas que constituem uma mensagem telegrfi-
CIBERNTICA                                        134                                      CIBERNTICA

ca) j  a expresso, a traduo ou, como tam-           dundantes, cuja finalidade  prever e corrigir
bm se diz, a codificao daquilo que quem               os erros da transmisso antes que ocorram, de
emite (emissor) pretende transmitir. Por outro           tal modo que o funcionamento da transmisso
lado, a mensagem recebida deve ser entendi-              seja corrigido antecipadamente pela previso
da, ou seja, retraduzida ou descodifcada, para          das perturbaes, com o processo da retroa-
ser registrada pelo receptor e guiar sua condu-          limentao. De modo geral, pode-se dizer que,
ta. Assim, a mensagem telegrfica transmitida            quanto mais improvvel  a mensagem, maior
por meio da comunicao de pontos e linhas                a informao que ela transmite. Por isso,
deve ser descoficiada ou retraduzida em pa-              tem-se a quantidade mnima de informao
lavras, a frase em italiano deve ser entendida           quando esta permite apenas uma escolha entre
segundo as regras e o vocabulrio da lngua              duas possibilidades igualmente provveis. Essa
italiana, ou a mensagem no dar nenhuma in-             quantidade mnima foi assumida como unida-
formao a quem no sabe italiano. Em todas              de de medida da informao e chamada de bit
essas passagens, so possveis equvocos, er-            (abreviao da expresso inglesa binary digit =
ros de emisso, de transmisso, de codificao           cifra binaria).
e de descodificao, bem como perturbaes                   3e O conceito e o clculo da informao
vrias, devidas  interferncia de rudos ou de
                                                         situam-se no domnio da probabilidade (v.).
outros fatores mecnicos.
                                                         Isso quer dizer que a informao s  possvel
    2S Foi esta ltima observao que deu ense-          num mundo que no  necessariamente orde-
jo  teoria matemtica da informao com um              nado nem necessariamente desordenado. Num
teorema proposto por CE. Shannon, em 1948                mundo necessariamente ordenado, tudo seria
(cf. SHANNON F. WEAVHR, The Mathematical                 infalivelmente previsvel e a informao seria
Theory of Communications, 1949). Shannon                 intil. Num mundo necessariamente desorde-
observou que uma mensagem enviada atra-                  nado, ou seja, puro fruto do acaso, nenhuma
vs de um canal qualquer sofre deformaes               ordem seria possvel e, portanto, nenhuma in-
diversas durante a transmisso, razo pela qual,         formao seria transmissvel. A informao
ao chegar, uma parte das informaes que conti-          transmite determinada ordem de smbolos e a
nha j est perdida. Estabeleceu, assim, a ana-          medida da informao  a medida de uma or-
logia entre essa perda e a entropia (v.), funo
                                                         dem. Por exemplo, uma mensagem telegrfica
matemtica que, com base no segundo princ-
pio da termodinmica, exprime a degradao               consiste em certa combinao de pontos e li-
de energia que se verifica em qualquer trans-            nhas que, para comunicar uma informao, tem
formao do trabalho mecnico em calor, ao               uma ordem determinada, escolhida entre as
passo que a transformao inversa (do calor              inmeras ordens possibilitadas pelo alfabeto
em trabalho mecnico) nunca  completa. Com              Morse. A medida de informao  dada, como
base nessa analogia, a quantidade de infor-              se viu, pela entropia negativa, ou seja, por uma
maes transmitida pode ser calculada como               funo que exprime a diminuio da entropia,
entropia negativa, j que, na transmisso das            que  a desordem (ou seja, a distribuio casu-
mensagens, assim como na transformao da                al) dos elementos de um sistema qualquer. Por-
energia, a entropia negativa decresce continua-          tanto, as condies da C, ou seja, do uso te-
mente porque a positiva (perda de informaes            rico e prtico da teoria da informao, podem
ou degradao de energia) cresce continua-               ser recapituladas do seguinte modo:
mente. Com base nessa analogia, o clculo das                a) A negao de qualquer tipo ou forma de
probabilidades utilizado pela termodinmica              necessidade em todas as situaes em que a
pode ser empregado como instrumento muito                informao tem lugar.
oportuno para determinar as frmulas com                     b) A negao de qualquer conhecimento
que a medida da quantidade de informaes                absoluto, ou seja, total, definitivo e exaustivo; o
pode ser expressa em cada caso, cujas varia-             reconhecimento de que o conhecimento  um
es dependem do nmero e da freqncia                  fato excepcional e improvvel.
dos smbolos utilizados, de sua possibilidade                c) O reconhecimento do acaso, ou seja, da
de combinao, da interferncia dos fatores de           distribuio desordenada (equiprovvel) dos
perturbao na transmisso dos smbolos e                elementos (entropia) em todas as circunstncias
assim por diante. Neste ltimo caso, tomam-se            ou situaes em que o homem ou qualquer
em considerao os smbolos chamados re-                 organismo vivo ou mquina possa encontrar-se.
CIBERNTICA                                          135                                    CIBERNTICA


    d) A presena, em qualquer situao, de                cvel a todos esses campos (cf., p. ex., W.
possibilidades diversas entre as quais  poss-            BUCKLEY, Sociology andModern Systems Theory,
vel a escolha.                                             1967, e relativa bibl.).
    ) A possibilidade da escolha de construir                  b) Em segundo lugar, a C.  utilizada para a
modelos que selecionem as possibilidades                   construo de mquinas cada vez mais com-
alternativas, segundo a ordem de sua freqn-              plexas, s quais so confiadas operaes e ta-
cia estatstica, e, por isso, orientar as escolhas         refas que, at pouco tempo, eram considera-
seguintes.                                                 das prprias do homem. Sobre os limites e as
   /) A possibilidade de corrigir, modificar, ge-          possibilidades dessas mquinas, as opinies
neralizar ou particularizar tais modelos e criar           de cientistas e filsofos so dspares. H quem
outros novos, de acordo com as mais diferen-               considere que, em futuro mais ou menos pr-
tes exigncias tericas e prticas.                        ximo, elas podero substituir o homem na so-
   Essas condies da informao (e portanto               luo de todos os seus problemas, inclusive
da C, que a utiliza para os mais diversos objeti-          nas escolhas decisivas que dizem respeito ao
vos) so, implcitas ou explicitamente, admitidas          futuro ou  sobrevivncia do gnero humano.
por todos os cientistas que, em qualquer cam-              Outros expressam dvidas sobre essa possibi-
po, se valem dessa disciplina: constituem seu              lidade ilimitada, que entre outras coisas parece
                                                           ser desmentida pelo teorema de Gdel (v. MA-
fundamento filosfico. So resumidas no se-
                                                            TEMTICA), entre cujas implicaes est a de que
guinte trecho de F. C. Frick: "Informao e                no  possvel construir uma mquina que re-
ignorncia, escolha, previso e incerteza, tudo            solva todos os problemas. Alm disso, insiste-
isso est intimamente correlacionado... Na                 se na diferena entre o homem e a mquina,
fronteira entre o conhecimento total e a igno-             em vista da presena, no homem, do fator
rncia completa, parece intuitivamente razo-              conscincia (v.). Raymond Ruyer, por ex., afir-
vel falar de graus de incerteza. Quanto mais               mou que "sem conscincia no h informao"
ampla for a escolha, maior ser o conjunto de              e que, por isso, se o mundo fsico e o mundo
alternativas que se abrem diante de ns, mais              das mquinas ficassem entregues a si mesmos,
incertos estaremos a respeito de como pro-                 "espontaneamente tudo se tornaria desordem
ceder e maior ser a necessidade que teremos               e essa seria a prova de que nunca houve
de informaes para tomarmos uma deciso"                  ordem verdadeira, ordem consistente, ou em
(Information Theory, em Psychology: A Study                outros termos, que nunca houve informao"
ofa Science, 2- ed., Sigmund Koch, 1959, pp.               (La cybemtique et lorigine de 1'information,
614-15).                                                   1954). Tambm so muitos os que insistem,
    4a O quarto aspecto da C.  constitudo pe-            com fundamentos vrios (muitas vezes de na-
los usos e objetivos que ela pode ter nos mais             tureza metafsica ou moral) na diferena entre
diversos campos da atividade humana:                       o homem e a mquina, mas, em geral, reco-
    a) Em primeiro lugar, a C.  um poderoso               nhece-se que as mquinas tm as mesmas li-
instrumento para explicar e prever fenmenos.              mitaes do homem, ainda que em grau infe-
Um de seus sucessos mais clamorosos foi visto              rior, e que se distinguem do homem pela
no campo da gentica (v.), em que possibilitou             enorme "complexidade" do crebro huma-
explicar a transmisso dos caracteres heredit-            no e pela capacidade que tem este ltimo de
rios por meio das vrias combinaes dos ele-              prever, em proporo correspondentemente
mentos de um alfabeto gentico constitudo pelos           maior, os acontecimentos futuros. Wiener in-
cidos desoxirribonuclicos, que compem a                 sistiu na exigncia de uma simbiose entre o
hlice dupla do DNA (Watson e Crick, 1953).                homem e a mquina, para a qual  necessrio
A teoria da evoluo (v.), com bases darwi-                que o homem tenha uma clara idia dos objeti-
nianas, considera que a prpria evoluo  um              vos que devem ser preestabelecidos na progra-
processo de variaes aleatrias e de sobrevi-             mao e no uso das mquinas. De fato, obede-
vncia seletiva: dois conceitos que, como se               cendo a um programa, uma mquina pode pr
viu, so fundamentais na teoria da informao.             em atividade certas operaes que, diante de
                                                           circunstncias imprevistas, podem voltar-se
 Em psicologia, antropologia e sociologia, esses
                                                           contra os interesses e a prpria vida do ho-
conceitos so empregados para explicar qual-               mem. Wiener observou que mesmo uma m-
 quer forma de organizao e atualmente so                quina que possa aprender e tomar decises
generalizados numa teoria dos sistemas, apli-
CICLO DO MUNDO                                      136                                           CINCIA

com base em conhecimentos adquiridos no                  que no conhece saciedade, tdio nem fadiga"
ser obrigada a decidir no mesmo sentido que              (Wille zurMacht, ed. 1901,  385). O. Spengler
ns, nem a tomar decises que nos sejam acei-             achava que a prpria histria era uma sucesso
tveis: "Para quem no tem conscincia disso,             de civilizaes, que, como organismos vivos,
deixar suas responsabilidades a cargo da m-              nascem, crescem, declinam e morrem; por isso,
quina (que possa ou no aprender) significar             todos tm em comum o ritmo do seu C. orgnico
confiar suas prprias responsabilidades ao                (Der Untergang des Abendlandes, I, 1932, pp.
vento e v-las de volta entre os turbilhes               23 ss.).
da tempestade" (The Human Use of Human                       CINCIA (gr. 7tvaTi|j.T|; lat. Scientia; in.
Beings, 1950, cap. XI; cf. tambm God & Go-               Science, fr. Science, ai. Wissenschaft; it. Scien-
lem, Inc., 1964). Os problemas da C. esto in-            za). Conhecimento que inclua, em qualquer
timamente ligados aos problemas da onto-                  forma ou medida, uma garantia da prpria vali-
logia, da gnosiologia e da tica.                         dade. A limitao expressa pelas palavras "em
    CICLO DO MUNDO (gr. K K .  in. Cos-
                                  O ;                   qualquer forma ou medida"  aqui includa
mie cycle, fr. Cycle cosmique, ai. Kosmic Cyklus;         para tornar a definio aplicvel  C. moderna,
it. Ciclo dei mondo). Doutrina segundo a qual             que no tem pretenses de absoluto. Mas, se-
o mundo retorna, depois de certo nmero de                gundo o conceito tradicional, a C. inclui garan-
anos, ao caos primitivo, do qual sair de novo            tia absoluta de validade, sendo, portanto, como
para recomear seu curso sempre igual. Essa               conhecimento, o grau mximo da certeza. O
doutrina foi sugerida aos mais antigos filsofos          oposto da C.  a opinio (v.), caracterizada
pelos eventos cclicos constatveis: a alter-             pela falta de garantia acerca de sua validade.
nncia do dia e da noite, das estaes, das               As diferentes concepes de C. podem ser distin-
geraes animais, etc. A noo de C. csmico              guidas conforme a garantia de validade que se
encontra-se no orfismo, no pitagorismo, em                lhes atribui. Essa garantia pode consistir: ls na
Anaximandro (Hyp., Refut., omn. haeres., I, 6,            demonstrao; 2 na descrio; 3B na corrigi-
I), em Empdocles ( Fr. 17, Diels), em Herclito          bilidade.
(Fr. 5, Diels) e nos esticos; segundo estes,                 ls A doutrina segundo a qual a C. prove a
"quando, em seu desenvolvimento, os astros                garantia de sua validade demonstrando suas
voltam ao mesmo signo e  latitude e longitude            afirmaes, isto , interligando-as num sistema
em que cada um estava no princpio, acontece,             ou num organismo unitrio no qual cada uma
no C. dos tempos, uma conflagrao e uma                  delas seja necessria e nenhuma possa ser reti-
destruio total; depois, volta-se novamente,             rada, anexada ou mudada,  o ideal clssico da
desde o comeo,  mesma ordem csmica e de                cincia. Plato comparava a opinio (v.) s es-
novo, movendo-se igualmente os astros, cada               ttuas de Ddalo, que esto sempre em atitude
acontecimento ocorrido no C. precedente vol-              de fuga: as opinies "desertam da alma huma-
ta a repetir-se sem nenhuma diferena. Haver             na, de modo que no tero grande valor en-
novamente Scrates, novamente Plato e nova-              quanto algum no conseguir at-las com um
mente cada um dos homens com os mesmos                    raciocnio causai". Mas, "uma vez atadas, tor-
amigos e concidados: crer-se- nas mesmas                nam-se C. e permanecem fixas. Eis por que a
coisas, os mesmos assuntos sero discutidos e             C", conclui Plato, " mais vlida do que a opi-
cada cidade, aldeia e campo tambm retorna-               nio legtima e difere desta pela seus nexos"
ro. Esse retorno universal no ocorrer uma              (Men., 98 a). A doutrina da C. de Aristteles 
vez s, muitas vezes at o infinito" (NEM-               muito mais rica e circunstanciada, mas obedece
SIO, De nat. bom., 38).                                   ao mesmo conceito. A C.  "conhecimento de-
   Na filosofia moderna, essa doutrina foi reto-          monstrativo". Por conhecimento demonstrativo
mada por Nietzsche: para ele o eterno retorno             entende-se o conhecimento "da causa de um
 o sim que o mundo diz a si mesmo, a vonta-              objeto, isto , conhece-se por que o objeto no
de csmica de reafirmar-se e de ser ela mesma,            pode ser diferente do que " (An.pr., I, 2, 71 b
portanto, a expresso csmica daquele esprito            9 ss.). Em conseqncia, o objeto da C.  o ne-
dionisaco, que exata a bendiz a vida. "O mun-            cessrio (v.); por isso a C. se distingue da opi-
do se afirma por si tambm na sua uniformida-             nio e no coincide com ela; se coincidisse,
de que permanece a mesma no decurso dos                   "estaramos convencidos de que um mesmo
anos, bendiz-se por si mesmo, porque  aquilo             objeto pode comportar-se diferentemente de
que deve voltar eternamente, porque  o devir             como se comporta e estaramos, ao mesmo
CINCIA                                                 137                                            CINCIA


tempo, convencidos de que no pode compor-                    cimento adequado da essncia das coisas" (Et.,
tar-se diferentemente" (An. post., I, 33, 89 a                II, 40, scol. 2Q). Kant rotulava esse velho ideal
38). Por isso, Aristteles exclui que possa ha-               com um novo termo, sistema (v.). "A unidade
ver C. do no necessrio, ou seja da sensao                 sistemtica", dizia ele, " o que antes de tudo
ijbid, 31, 87 b 27) e do acidental (Mel, VI, 2,               faz de um conhecimento comum uma C, isto
1027, 20), ao mesmo tempo em que identifica                   , de um simples agregado, um sistema"; e
o conhecimento cientfico com o conhecimen-                   acrescentava que por sistema  preciso enten-
to da essncia necessria ou substncia (Ibid.,               der "a unidade de conhecimentos mltiplos
VIII, 6, 1031 b 5). A mais perfeita realizao                reunidos sob uma nica idia" (Crt.R. Pura,
desse ideal da C. est em Elementos, de Euclides              Doutrina do mtodo, cap. III; cf. Methaphy-
(sc. III a.C). Essa obra, que quis realizar a                sische Anfangsgrnde der Naturwissenschaft,
matemtica como C. perfeitamente dedutiva,                    Prefcio). Esse conceito da C. como sistema,
sem nenhum recurso  experincia ou  induo,                introduzido por Kant, tornou-se lugar comum
permaneceu por muitos sculos (e sob certos                   da filosofia do sc. XIX e a ele ainda recorrem
aspectos permanece at hoje) como o prprio                   as filosofias de carter teolgico ou metafsico.
modelo da cincia.                                            Isso aconteceu sobretudo por ter sido adotado
     Atravs de Elementos, de Euclides, a concep-             pelo Romantismo, que o repetiu  saciedade.
o da C. de Plato e Aristteles foi transmitida             Fichte dizia: "Uma C. deve ser uma unidade,
com mais eficcia do que atravs da descrio                 um todo... As propores isoladas geralmente
terica de Aristteles, da qual os antigos nunca              no so C, mas tornam-se C. s no todo, gra-
 se afastaram. Os esticos repetiram-na, afirmando            as a seu lugar no todo,  sua relao com o
 que "a C.  a compreenso segura, certa e                    todo" (Ueber den Begriff der Wssenschafts-
 imutvel fundada na razo" (SEXTO EMPRICO,                  lehre, 1794,  1). Schelling repetia: "Admite-se,
Adv. math., VII, 151), ou que ela " uma com-                 geralmente, que  filosofia convm uma for-
 preenso segura ou um hbito imutvel de aco-                ma peculiar dela, que se chama sistemtica.
 lher representaes, com base na razo" (DIG.               Pressupor tal forma no deduzida compete
 L, VII, 47). S. Toms repetia as idias de Arist-           a outras C. que j pressupem a C. da C, mas
teles (S. Th., II, 1, q. 57, a. 2) e Duns Scot acen-          no esta, que se prope por objeto a possibili-
 tuava o carter demonstrativo e necessrio da                dade de semelhante C." (System des trans-
 C, excluindo dela qualquer conhecimento des-                 zendentalen Idealismus, 1800, I, cap. I; trad.
 provido desses caracteres, portanto, todo o do-              it., p. 27). E Hegel afirmava peremptoriamente:
 mnio da f (Op. Ox., Prol, q. 1, m. 8). Mesmo a             "A verdadeira forma na qual a verdade existe
 ltima Escolstica, com Ockham, mantinha em                  s pode ser o sistema cientfico dela. Colaborar
 p o ideal aristotlico da C. (In Sent., III, q. 8).         para que a filosofia se aproxime da forma da C.
                                                              -- isto , da meta que, uma vez alcanada, per-
     O surgimento da C. moderna no ps em                    mitir-lhe- abandonar o nome de amor ao sa-
 crise esse ideal. De um lado, o necessitarismo               ber para ser verdadeiro saber -- eis o que me
 dos aristotlicos  compartilhado at por seus               propus" (Phnomen des Geistes, Prefcio, I, 1).
 adversrios; de outro, persiste a sugesto da                Fichte, Schelling e Hegel consideravam que o
 matemtica como C. perfeita pela sua organiza-               nico saber sistemtico, portanto a nica C,
 o demonstrativa; e o prprio Galileu coloca-               era a filosofia. Mas, para muitos filsofos do
 va as "demonstraes necessrias" ao lado da                 sc. XIX, o conceito de sistema continuou ca-
 "experincia sensata" como fundamento da                     racterizando a C. em geral, portanto tambm a
 C. (Opere, V, p. 316). O ideal geomtrico da C.              C. da natureza. H. Cohen via no sistema a mais
 tambm domina as filosofias de Descartes e                   alta categoria da natureza e da C. (Logik, 1902,
  Spinoza. Descartes queria organizar todo o sa-              p. 339). Husserl via o carter essencial da C. na
 ber humano pelo modelo da aritmtica e da                    "unidade sistemtica" que nela encontram os
 geometria: as nicas C. que ele considerava                  conhecimentos isolados e os seus fundamentos
  "desprovidas de falsidade e de incerteza", por-             (Logische Untersuchugen, 1900,1, p. 15); e indi-
  que fundadas inteiramente na deduo (Re-                   cava no sistema o prprio ideal da filosofia, se
  gulae ad directionem ingenii, II). E Spinoza                esta quisesse organizar-se como "C. rigorosa"
  chamava de C. intuitiva a extenso do mtodo                (Philosophie ais strenge Wissenschaft, 1910-11;
  geomtrico a todo o universo, extenso pela                 trad. it., p. 5). O ideal de C. como sistema conti-
  qual, "da idia adequada da essncia formal de              nuou vivo ainda muito tempo depois que as C.
  alguns atributos de Deus, procede-se ao conhe-
CINCIA                                              138                                              CINCIA

naturais dele se afastaram e comearam a                   possvel, nos fatos e nas conseqncias que
polemizar contra "o esprito de sistema".                  delas podem ser deduzidos, no fazem con-
    Se hoje  possvel considerar superado o               cesses  opinio, a no ser quando a isso so
ideal clssico de C. como sistema acabado de               obrigadas". A C. reduz-se, assim,  observao
verdades necessrias por evidncia ou por de-              dos fatos e s inferncias ou aos clculos fun-
monstrao, o mesmo no se pode dizer de to-               dados nos fatos. O positivismo oitocentista no
das as suas caractersticas. Que a C. seja, ou             fazia mais do que recorrer ao mesmo conceito
tende a ser, um sistema, uma unidade, uma to-              de cincia. Dizia Comte: "O carter funda-
talidade organizada,  pretenso que as outras             mental da filosofia positiva  considerar todos
concepes da prpria C. tambm tm. O que                 os fenmenos como sujeitos a leis naturais in-
essa pretenso tem, em todos os casos, de vli-            variveis, cuja descoberta precisa e cuja redu-
do  a exigncia de que as proposies que                 o ao menor nmero possvel constituem o
constituem o corpo lingstico de uma C. se-               objetivo de todos os nossos esforos, ao mes-
jam compatveis entre si, isto , no contradit-          mo tempo em que julgamos absolutamente
rias. Essa exigncia, sem dvida,  muito me-              inacessvel e sem sentido a busca daquilo que
nos rigorosa do que aquela para a qual tais                se chama de causas, tanto primeiras como fi-
proposies deveriam constituir uma unidade                nais" (Cours dephil. positive, I,  4; vol. I, pp.
ou um sistema; alis, a rigor,  uma exigncia             26-27). Mas o positivismo tambm insistiu no
totalmente diferente, pois a no-contradio no           carter da C. que Bacon j evidenciara: o car-
implica, em absoluto, a unidade sistemtica.               ter ativo ou operacional, graas ao qual ela
Todavia, na linguagem cientfica ou filosfica             permite que o homem aja sobre a natureza, e
corrente, muitas vezes a exigncia sistemtica            a domine atravs da previso dos fatos, possibi-
reduzida  de compatibilidade.                             litada por leis {Ibid., II,  2; p. 100). O ideal des-
    2a A concepo descritiva da C. comeou a              critivo da C. no implica, portanto, que a C.
formar-se com Bacon, Newton e os filsofos                 consiste no espelhamento ou na reproduo
iluministas. Seu fundamento  a distino ba-              fotogrfica dos fatos. De um lado, o carter an-
coniana entre antecipao e interpretao da               tecipado do conhecimento cientfico, graas ao
natureza: a interpretao consiste em "conduzir            qual ela se concretiza em previses baseadas
os homens diante dos fatos particulares e das              em relaes verificadas entre os fatos, elimina
suas ordens" (Nov. Org., I, 26, 36). Newton es-            o seu carter fotogrfico: realmente, no se
tabelecia o conceito descritivo da C, contra-              pode fotografar o futuro. Por outro lado, a mesma
pondo o mtodo da anlise ao mtodo da sn-                C. positivista evidenciou a orientao ativa da
tese. Este ltimo consiste "em assumir que as              descrio cientfica. As consideraes de Clau-
causas foram descobertas, em p-las como                   de Bernard a respeito so muito importantes:
princpios e em explicar os fenmenos partin-              "A simples constatao dos fatos", diz ele, "nun-
do de tais princpios e considerando como                  ca chegar a constituir uma cincia. Podem-se
prova essa explicao". A anlise, ao contrrio,           multiplicar fatos e observaes, mas isso no
consiste "em fazer experimentos e observa-                 levar  compreenso de nada. Para aprender,
es, em deles tirar concluses gerais por meio             preciso, necessariamente, raciocinar sobre o
da induo e em no admitir, contra as con-                que se observou, comparar os fatos e julg-los
cluses, objees que no derivem dos ex-                  com outros fatos que servem de controle" (Intr.
perimentos ou de outras verdades seguras"                   1'tude de Ia mdecine exprimentale, 1865,
(Opticks, III, 1, q. 31). A filosofia do iluminis-         I, 1,  4). Desse ponto de vista, uma C. de
mo exaltou e difundiu o ideal cientfico de                observao ser uma C. que raciocina sobre os
Newton. "Esse grande gnio", dizia D'Alem-                 fatos da observao natural, isto , sobre os fa-
bert, "viu que era tempo de banir da fsica as             tos pura e simplesmente constatados, ao passo
conjecturas e as hipteses vagas, ou pelo me-              que uma C. experimental ou de experimento
nos de t-las apenas pelo que valem e de sub-              raciocinar sobre os fatos obtidos nas condi-
meter essa C. somente s experincias e                   es que o experimentador criou e determi-
geometria" {Discours prliminaire de VEncy-                nou {Ibid., 1865, I, 1,  4).
 clopdie, em Quvres, ed. Condorcet, p. 143).                A doutrina de Mach sobre a C. no poderia
Ao mesmo tempo, D'Alembert declarava j ser                ser chamada de descritiva, se por descrio se
intil para a C. e para a filosofia o esprito de          entender a reproduo fotogrfica dos objetos,
sistema. "As cincias todas, fechadas, o mximo            mas pode ser chamada de descritiva no sentido
CINCIA                                                 139                                           CINCIA

j esclarecido. Diz Mach: "Se excluirmos aquilo                    3e Uma terceira concepo  a que reconhece,
que no tem sentido pesquisar, veremos apare-                  como garantia nica da validade da C, a sua
cer mais nitidamente o que podemos realmen-                    autocorrigibilidade. Trata-se de uma concep-
te atingir por meio de cada C: todas as rela-                  o das vanguardas mais crticas ou menos
es e os diferentes modos de relao entre os                 dogmticas da metodologia contempornea e
elementos" (Erkenntniss und Irrtum, cap. I;                    ainda no alcanou o desenvolvimento das
trad. fr., p. 25). A inovao de Mach consiste no              outras duas concepes acima; apesar disso, 
seu conceito dos elementos, j que para ele                    significativa, seja por partir da desistncia de
estes so comuns tanto s coisas como  cons-                  qualquer pretenso  garantia absoluta, seja
cincia, diferindo na conscincia e na coisa s                por abrir novas perspectivas ao estudo analtico
 na medida em que pertenam a conjuntos di-                    dos instrumentos de pesquisa de que as C. dis-
 ferentes (Ibid., cap. I; trad. fr., p. 25; cf. Die            pem. O pressuposto dessa concepo  o
 AnalysederEmpfindungen, 9a ed., 1922, p. 14).                falibilismo (v.), que Peirce atribua a qualquer
 A funo econmica que Mach atribuiu  C,                     conhecimento humano (Coll. Pap., I, 13, 141-
 ou, mais precisamente, aos conceitos cientfi-                52). Mas essa tese foi expressa pela primeira
 cos, no suprime portanto o carter descritivo                vez por Morris R. Cohen: "Podemos definir a C.
 da C, reconhecvel na tese de que a C. tem por               como um Sistema autocorretvo... A C. convida
 objeto as relaes entre os elementos. Justa-                 dvida. Pode desenvolver-se ou progredir
 mente por considerar as relaes entre os fatos,             no s porque  fragmentria, mas tambm
 a C.  uma descrio abreviadora e econmica                 porque nenhuma proposio sua , em si mes-
 dos prprios fatos {Die Mechanik, trad. in.,                 ma, absolutamente certa, e assim o processo de
 1902, pp. 481 ss.). Do mesmo modo, Bergson                   correo pode atuar quando encontramos pro-
                                                              vas mais adequadas. Mas  preciso notar que a
 reconhece o carter convencional e econ-
                                                              dvida e a correo so compatveis com os
 mico da C. pelo fato de que ela, que tem                     cnones do mtodo cientfico, de tal modo que
 como rgo a inteligncia, no se detm nas                  a correo  o seu elo de continuidade" (Stu-
 coisas, mas nas relaes entre as coisas ou si-               dies in Philosophy and Science, 1949, p. 50).
 tuaes (vol. cratr., 8- ed., 1911, pp. 161, 356).         M. Black, mais recentemente, adotou ponto de
 O ideal descritivo da C. reaparece tambm em                 vista anlogo: "Os princpios do mtodo cien-
 escritores recentes. Dewey afirma: "Como na C.               tfico devem, por sua vez, ser considerados pro-
   os significados so determinados com base em               visrios e sujeitos a correes ulteriores, de tal
    sua relao recproca como significados, as re-           modo que uma definio de 'mtodo cientfi-
    laes tornam-se os objetos da indagao e di-            co' seria verificvel em qualquer sentido do
 minui bastante a importncia das qualidades,                 termo" (Problems of Analysis, 1954; p. 23).
 que s tm funo na medida em que ajudem a                  Em termos aparentemente paradoxais, mas equi-
 estabelecer relaes" (Logik, VI,  6; trad. it., p.         valentes, K. Popper afirmara, em Lgica da des-
  171). Ora, "relaes" nada mais so do que o                 coberta cientfica (1935), que o instrumental
 outro nome de leis, j que a lei nada mais                   da C. no est voltado para a verificao, mas
  do que a expresso de uma relao: de modo                 para a falsificao das proposies cientficas.
  que o mesmo conceito da C. pode ser encon-                   "Nosso mtodo de pesquisa", dizia ele, "no
  trado em todos os escritores que reconhecem                 visa defender as nossas antecipaes para pro-
  na formulao da lei a tarefa da cincia. H.                var que temos razo, mas, ao contrrio, visa
  Dingler dizia: "A principal tarefa da C. consiste           destru-las. Usando todas as armas do nosso
  em chegar ao maior nmero possvel de leis"                 arsenal lgico, matemtico e tcnico, tentamos
  (Die Methode der Pbysik, 1937, I,  9). E, mais             provar que nossas antecipaes so falsas, para
  recentemente, R. B. Braithwaite afirmou: "O                 apresentar, no lugar delas, novas antecipaes
  conceito fundamental da C.  o da lei cientfica            no justificadas e injustificveis, novos 'precon-
  e o objetivo fundamental de unia C.  estabele-             ceitos apressados e prematuros' como escar-
  cer leis. Para compreender o modo como uma                  necia Bacon" {The Logic of Scientific Discovery,
  C. opera e o modo como qual ela fornece explica-            2a ed., 1958,  85, p. 279). Com isso, Popper
  es dos fatos que investiga,  necessrio com-             pretendeu assinalar o abandono do ideal cls-
  preender a natureza das leis cientficas e o                sico da C: "O velho ideal cientfico da episteme,
  modo de estabelec-las" (Scientific Explana-                do conhecimento absolutamente certo e de-
   tion, Cambridge, 1953, p. 2).                              rnonstrvel, revelou-se um mito. A exigncia de
CINCIA, TEORIA DA                                      140                 CINCIAS, CLASSIFICAO DAS

objetividade cientfica torna inevitvel que                   do natural. Vio quer ser o Bacon da histria,
qualquer assero cientfica seja sempre pro-                  propondo-se rastrear sua ordem e exprimi-la
visria". O homem no pode conhecer, mas s                    em leis. As caracterizaes fundamentais que
conjecturar (Jbid., pp. 278, 280). Afirmar que os              ele d da C. nova so as seguintes (cf. espe-
 instrumentos de que a C. dispe se destinam                   cialmente a C. N. de 1744, I, Do mtodo):
 a demonstrar a falsidade da C.  um outro                         Ia a C. nova  uma "teologia civil e racional
 modo de exprimir o conceito da autocorribi-                   da providncia divina", isto , a demonstrao
lidade da C: provar a falsidade de uma asser-                  da ordem providencial que se vai atualizando
o significa, de fato, substitu-la por outra                 na sociedade humana,  medida que o homem
 assero, cuja falsidade ainda no foi provada,               se ergue da sua queda e da sua misria primiti-
 corrigindo portanto a primeira. A noo da                    va. Vio ope essa teologia civil (= social)  teo-
 autocorrigibilidade sem dvida constitui a ga-                logia fsica da tradio, que demonstra a ao
 rantia menos dogmtica que a C, pode exigir                   providencial de Deus na natureza;
 da sua prpria validade. Permite uma anlise                      2a a C. nova  uma "histria das idias hu-
 menos preconceituosa dos instrumentos de                      manas sobre a qual parece dever proceder a
verificao e controle de que cada C. dispe.                  metafsica da mente humana":  a determina-
    CINCIA, TEORIA DA (in. Science of                         o do desenvolvimento intelectual humano,
 science; fr. Doctrine de Ia science; ai. Wissens-             desde as origens grosseiras at a racionalidade
 chaftslehre, it. Dottrina delia scienza). Expres-             reflexiva. Nesse sentido, tambm  uma "crtica
so com a qual Fichte designou "a C. das C. em                 filosfica que mostra a origem das idias huma-
geral", isto , a C. que expe de modo sistemti-              nas e a sua sucesso";
 co o princpio fundamental em que se apoiam                       3a em terceiro lugar, a C. nova tende a des-
todas as outras cincias. "Qualquer C. possvel                crever " uma histria ideal eterna, sobre a qual
tem um princpio fundamental que nela no                      transcorram, no tempo, as histrias de todas as
pode ser demonstrado, mas que j deve ter                     naes, nos seus surgimentos, progressos, esta-
sido verificado antes dela. Ora, onde deve ser de-            dos, decadncias e fins". Como tal, a C. nova
                                                              tambm  uma C. dos princpios da histria
monstrado esse princpio fundamental? Sem d-
                                                              universal e do direito natural universal;
vida na C. que deve fundamentar todas as C.
                                                                   4a a C. nova , alm disso, uma "filosofia da
possveis" {ber dem Begriff der Wissens-
                                                              autoridade', isto , da tradio, pois  da tradi-
chaftslehre, Y79A,  2; trad. it., pp. 11-12). Fichte         o que extrai as provas de fato (ou filolgicas)
identificava a teoria da C. com a filosofia, vendo            que comprovam a ordem de sucesso das ida-
o seu princpio fundamental no Eu.                            des da histria.
    Essa expresso ainda  usada hoje, quase                       Sobre o conceito de histria de Vio, v. HIS-
sempre com referncia a Fichte. Todavia, B.                   TRIA.
Bolzano adotou-a como ttulo de uma obra                        CINCIAS, CLASSIFICAO DAS (in
para indicar a doutrina que expe as regras de            Classification ofscences; fr. Classification des
diviso do campo em cada C. e de aprendizado              sciences; ai. Klassifikation der Wissenschafte, it.
do prprio saber (Wissenschaftslehre, 1837, I,            Classificazione delle scienze). Enquanto uma
 6; cf. IV,  392 ss.). Mas, para a disciplina que       enciclopdia (v.)  a tentativa de dar o quadro
considera as formas ou os procedimentos do                completo de todas as disciplinas cientficas e
conhecimento cientfico, tm sido usadas mais             de fixar de modo definitivo as suas relaes de
freqentemente as palavras epistemologia (v.) e           coordenao e subordinao, uma classificao
metodologia (v.).                                         das C. tem s o intuito mais modesto de dividir
    CINCIA NOVA. Expresso com que G. B.                 as C. em dois ou mais grupos, segundo a afini-
Vio designou a sua principal obra, publicada             dade de seus objetos ou de seus instrumentos
pela primeira vez em 1725 e, em novas edi-                de pesquisa.  bvio que as enciclopdias das
es, em 1730 e em 1744. O ttulo completo                C. tambm podem ser consideradas simples
Princpios de uma cincia nova acerca da na-              classificaes, mas algumas classificaes sim-
tureza comum das naes expressa a finali-                ples, feitas pelos filsofos do sculo XIX, foram
dade da obra. Vio propunha-se instaurar uma              muito mais eficazes nesse trabalho cientfico.
cincia que tivesse como tarefa o estudo das              A mais famosa de todas  a proposta por Am-
leis prprias da histria humana, do mesmo                pre, de C. do esprito, ou noolgicas, e C. da
modo como a C. natural estuda as leis do mun-             natureza, ou cosmolgicas (Essai sur Ia philo-
CINCIAS, CLASSIFICAO DAS                          141                                          CINISMO


sophe des sciences, 1834). Essa classificao foi         Como nota Carnap, assim interpretada, essa
amplamente aceita e, s vezes, reexpressa com              classificao deixa intacta a unidade da C,
outros termos, p. ex., como distino entre C.             pois "as C. formais no tm absolutamente
culturais e C. naturais (Du BOIS-REYMOND,                  objeto: so sistemas de asseres auxiliares
Kulturgeschichte und Naturnissenschaften,                  sem objeto e sem contedo" (Ibid., p. 128).
1878). Para a sua difuso a maior contribuio                 Essas ltimas palavras de Carnap explicam-
foi de Dilthey, que, em Introduo s cincias             se tendo em mente que hoje no se pode con-
do esprito (1883), insistiu na diferena entre as         ferir carter absoluto ou rigoroso  distino
cincias que visam conhecer causalmente o                  entre as vrias C. As palavras seguintes de Von
objeto, que permanece externo, isto , as C. na-           Mises exprimem bem o ponto de vista mais
turais, e as que, ao contrrio, visam com-                 corrente sobre o assunto: "Qualquer diviso e
preender o objeto (que  o homem) e a reviv-lo            subdiviso das C. tem apenas importncia pr-
intrinsecamente, isto , as C. do esprito. Win-           tica e provisria, no  sistematicamente neces-
delband, por sua vez, fazia distino entre C.             sria e definitiva, isto , depende das situaes
nomotticas, que procuram descobrir leis e di-             externas em que se realiza o trabalho cientfico
zem respeito  natureza, e C. idiogrficas, que            e da fase atual de desenvolvimento de cada
tm em mira o indivduo, em determinao                   disciplina. Os progressos mais decisivos muitas
histrica e como objeto a histria (Geschichte             vezes se originaram do esclarecimento de pro-
und Naturwissenschaften, 1894, e depois nos                blemas que se encontram nos limites entre se-
Prludien). Rickert exprimia a mesma diferen-              tores at ento tratados separadamente" (Klei-
a com mais felicidade afirmando que as C. da               nes Lehrbuch des Positivismus, 1939, V, 7).
natureza tm carter generalizante, ao passo                   CIFRA (ai. Chiffre). Segundo Jaspers,  "a
que as C. do esprito tm carter individua-               linguagem da transcendncia", isto , o smbo-
lizante (Die Grenzen der naturwissenschaft-                lo mediante o qual o ser transcendente pode
lichen Begriffsbildung, 1896-1902, pp. 236 ss.)            estar presente na existncia humana sem, con-
(v. HISTORIOGRAFIA).                                       tudo, adquirir caracteres objetivos e sem fazer
    De outro ponto de vista, Comte distinguira             parte da existncia subjetiva (Phil, III, p. 137).
duas espcies de C. naturais: as C. abstratas ou           Uma coisa, uma pessoa, uma doutrina, uma
gerais, que tm por objeto a descoberta das leis           poesia podem valer como smbolos ou C. da
que regem as diferentes classes de fenme-                 transcendncia; smbolos e C. so tambm as
nos, e as C. concretas, particulares, descritivas,         situaes-limite (v.).
que consistem na aplicao dessas leis  hist-               CINEMATOGRFICO, MECANISMO (fr.
ria efetiva dos diferentes seres existentes (Cours         Mcanisme cinmatographiqu). Foi assim que
dephil. positive, 1830, I, II,  4). Spencer reto-         Bergson denominou o procedimento do pensa-
mava essa distino e, por sua vez, dividia to-            mento em face do movimento: o pensamento
das as C. em abstratas (lgica formal e mate-              faria "instantneos" imveis do movimento, aos
mtica), abstrato-concretas (mecnica, fsica,             quais acrescentaria um movimento artificial
qumica) e concretas (astronomia, mineralogia,             externo. Esse procedimento seria a base da
geologia, biologia, psicologia, sociologia) (The           "iluso mecanicista" (vol. cratr., cap. IV).
Classifcation ofthe Sciences, 1864). E Wundt                  CINISMO (in. Cynicism; fr. Cynisme; ai.
simplificava essa classificao, reduzindo-a a             Cynismus; it. Filosofia cnica). Doutrina de
dois grupos apenas: o das C. formais (lgica e             uma das escolas socrticas, mais precisamente
matemtica) e o das C. reais (C. da natureza e             da que foi criada por Antstenes de Atenas (sc.
do esprito) (System der Philosophie, 1889).               IV a.C.) no Ginsio Cinosargos.  provvel que
Pouco diferente desta  a classificao tridica           o nome da doutrina derive do nome do Gin-
de Ostwald em C. formais, C. fsicas e C. biol-           sio, ou ento, como dizem outros, do seu ideal
gicas (Gundriss derNaturphilosophie, 1908). A              de vida nos moldes da simplicidade ( e do des-
distino entre C. formais e C. reais ainda  am-          caramento) da vida canina. A tese fundamental
plamente aceita. R. Carnap a reprops com o                do cinismo  que o nico fim do homem  a
fundamento de que as C. formais s conteriam               felicidade e a felicidade consiste na virtude.
asseres analticas e as C. reais, ou factuais,           Fora da virtude no existem bens, de modo
conteriam tambm asseres sintticas (em                  que foi caracterstica dos cnicos o desprezo
Erkenntniss, 1934, n. 5; agora em Readings in              pela comodidade, pelas riquezas, pelos praze-
the Philosopby of Science, 1953, pp. 123 ss.).             res, bem como o mais radical desprezo pelas
CIRCULO                                                142                                        CIRENAISMO

convenes humanas e, em geral, por tudo o                   cada uma de suas partes, deve partir de algo
que afasta o homem da simplicidade natural de                no demonstrado, que  por sua vez o resulta-
que os animais do exemplo. A palavra "cinis-                do de alguma outra de suas partes (Fil. do dir,
mo" permaneceu na linguagem comum para                        2, Zusatz). Por sua vez, Rosmini (Lgica, 1854,
designar um certo descaramento.                              p. 274 n) falou de um "C. slido", pelo qual o
    CRCULO ( gr. KKtap, ikXr\ko, X070; lat.            conhecimento da parte supe o do todo, e
Circulus; in. Circle, fr. Cercle, ai. Zirkelbeweiss;         vice-versa. E Gentile, remontando a tais exem-
it. Circol). Segundo Aristteles a demonstra-               plos, disse que o dialelo ou C, da forma como
o em crculo ou recproca consiste em dedu-                Emprico o mostrou no silogismo,  a caracte-
zir da concluso e de uma das duas premissas                 rstica prpria do "pensamento pensado", isto ,
de um silogismo (esta ltima assumida na rela-               do pensamento como objeto de si mesmo.
o de predicao inversa) a outra concluso                 "Esse dialelo", diz ele, "que foi sempre o pesa-
do prprio silogismo (An. pr, II, 5, 57 b ss.).              delo do pensamento, ser -- alis  -- a morte
Aristteles admite a plena validade desse pro-               do pensamento pensante; mas  a vida, a pr-
cedimento e estabelece seus limites e suas con-              pria lei fundamental do pensamento pensado,
dies a propsito de cada figura do silogismo.              sem o qual  impossvel conceber o pensamen-
Portanto, nada tem a ver com o "C. vicioso" ou               to pensante" (Log., I, parte II, VI,  3).
"petio de princpio", que ele enumera entre                    CRCULO DE VIENA (in. Vienna Circle, fr.
os sofismas extra dictionem (isto , que no                 Cercle de Vienne, ai. Wiener Kreis, it. Circolodi
dependem da expresso lingstica) e que con-                 Vienna). Tem esse nome o grupo de filsofos e
siste em assumir como premissa a proposio                  cientistas que se reuniu em torno de Moritz
que se quer provar (El. sof, 5, 167 a 36).                   Schlick, professor da Universidade de Viena,
    Somente os cticos identificaram ambas as                nos anos que vo de 1929 a 1937; grupo que
coisas e julgaram que todo silogismo no s                 compreendia, entre outros, Kurt Gdel, Philip
um C, ou seja, uma demonstrao recproca,                   Franc, Friedrich Waissmann. Otto Neurath e
como tambm  um C. vicioso, uma petio de                  Rudolf Carnap. Ao C. de Viena vinculava-se o
princpio. Nesse sentido usaram a palavra                    grupo de Berlim, em torno de Hans Reichen-
dialelo e o incluram entre os tropos, isto , en-           bach e Richard von Mises. A revista Erkennt-
tre os modos de suspender o juzo. Sexto Em-                 niss, publicada de 1930 a 1937 e dirigida por
prico atribui este tropo queles que ele cha-               Carnap e Reichenbach, foi o rgo desta cor-
ma de "cticos mais recentes", isto , os                    rente. Quando o grupo se dissolveu, com o in-
seguidores de Agripa: "Existe dialelo quando                 cio das perseguies raciais (1938), seus mem-
aquilo que deve ser confirmao da coisa                     bros foram quase todos para os Estados Unidos,
procurada precisa ser encontrado pela coisa pro-             onde continuaram em atividade profcua. Um
curada" (Pirr. hyp., I, 169; cf. DIG. L, IX, 89).           dos inspiradores do C. de Viena foi Wittgenstein.
Por sua vez, Sexto Emprico acredita que todo                Para as idias defendidas pelo C. de Viena, cuja
silogismo  um dialelo porque nele a premis-                 diretriz foi antimetafsica e empirista, v. EMPIRISMO
sa maior, p. ex., "Todos os homens so mor-                  LGICO. Para outros dados, v. BARONE, // neopo-
tais", pressupe a concluso "Scrates  mortal"             sitivsmo lgico, Turim, 1953.
(Pirr. hyp., II, 195 ss.). Essa crtica negligencia              CIRENASMO. Filosofia dos cirenaicos,
um ponto capital da lgica de Aristteles, isto              uma das escolas socrticas, mais precisamente
, que as premissas do silogismo no so esta-               a fundada por Aristipo de Cirene (sc. VI a.C),
belecidas por induo, mas exprimem a causa                  da qual fizeram parte Teodoro, o Ateu, He-
ou a substncia necessria das coisas. P. ex.,               gdias, o Advogado da Morte, e outros. O in-
quando se diz "Todos os homens so mortais",                 teresse dos cirenaicos, assim como o dos cni-
no se exprime a observao de que Fulano,                   cos, era predominantemente moral. Colocavam
Beltrano e Sicrano so mortais, mas sim um                   o critrio da verdade na sensao e o critrio
carter que pertence  substncia ou essncia                do bem no prazer. A finalidade do homem  o
necessria do homem e por isso  a causa ou                  prazer, no sendo a felicidade mais do que "o
razo de ser da concluso.                                   sistema dos prazeres" passados, presentes e fu-
    Em geral, o C.  considerado sinal da inca-              turos. A concluso dessa atitude  o conselho
pacidade de demonstrar. Hegel observou, po-                  de pensar no dia de hoje, alis, no instante em
rm, que "a filosofia forma um C." porque, em                que cada um atua ou pensa, dada a incerteza
CIVILIZAO                                            143                                      CIVILIZAO

radical do futuro. Hegsias extraa conseqn-               vezes violentamente truncada. As C, ao contr-
cias pessimistas desse ponto de vista, afirman-               rio, so grandes e duradouras; para resumir, as
do que, para o sbio, a vida  indiferente. Cf.               duas espcies esto entre si como os elefantes
as fontes recolhidas em G. GIANNANTONI, / Ci-                 esto para os coelhos (TOYNBEE, Study ofHis-
renaici, Florena, 1958.                                      tory, I, C, III, a).
     CIVILIZAO (in. Civilization; fr. Civi-                    Na realidade, a palavra C, assim como a pa-
lisation; ai. Zivlisation; it. Civilt). No uso co-          lavra cultura, deve ser ainda mais generalizada
mum, esse termo designa as formas mais eleva-                 em seu significado; e, assim como a cultura foi
das da vida de um povo, isto , a religio, a                 definida como um "sistema historicamente de-
arte, a cincia, etc, consideradas como indica-               rivado de projetos de vida explcitos e implci-
dores do grau de formao humana ou espiri-                   tos, que tendem a ser partilhados por todos os
tual alcanada pelo povo. Como subordem,                      membros de um grupo ou por aqueles espe-
fala-se de "C. da tcnica", em cuja expresso a              cialmente qualificados" (R. LiNTON, The Science of
especificao implica que no se trata da "C."               Man, Nova York, 1952, 7a ed., p. 98), tambm a
sem adjetivos. Est claro que essa noo ba-                  C. deve ser definida como o aspecto tecnolgi-
seia-se na preferncia atribuda a certos valo-               co-simblico de determinada cultura. Nesse sen-
res. Em primeiro lugar, privilegiam-se certas                tido genrico, os dois termos, C. e cultura, po-
formas de atividade ou de experincia huma-                  dem ser aplicados aos povos e aos grupos
na; em segundo lugar, privilegiam-se os grupos               humanos mais dspares. A C. constitui, como se
humanos nos quais tais formas de experincia                 pode dizer, o arsenal, isto , o conjunto dos
e de atividade so mais favorecidas. Assim, no              instrumentos de que uma cultura dispe para
h dvida de que, do ponto de vista da noo                 conservar-se, enfrentar os imprevistos de si-
acima exposta, a nica e verdadeira forma de                 tuaes novas e perigosas, superar a crise, re-
 C.  a do ocidente cristo, pois foi s entre os            novar-se e progredir. Se uma cultura pode ser
 povos do ocidente cristo que a religio, a                 entendida (segundo o esquema de Toynbee)
 arte e o "saber desinteressado" da cincia goza-            como a "resposta" dada .por um grupo de ho-
 ram de maior favorecimento, com exceo de                  mens ao "desafio" representado pelas condi-
 perodos relativamente breves.                              es da realidade biolgica fsica e social em
      O historicismo relativista e, em particular, a         que se encontram, pode-se dizer que uma "C."
 obra de Spengler abalaram o complexo de cer-                 o conjunto de armas que uma cultura forja
 tezas em que essa noo se apoiava. Spengler,               para enfrentar o "desafio". Essas armas so
 embora tenha visto na civilizao a forma mais              constitudas, em primeiro lugar, pelas tcnicas,
 elevada e madura de determinada cultura, viu                desde o mais simples e elementar trabalho ma-
 tambm nela o princpio do seu fim, e mostrou               nual at as formas mais complexas das cincias
 que no h uma cultura s, e que todas nas-                 e das artes; e, em segundo lugar, pelas formas
 cem, crescem e morrem como organismos vi-                   simblicas, isto , pelo conhecimento, pela
 vos.  sua obra deve-se a generalizao do                  arte, pela moralidade, pela religio, pela filo-
 conceito de cultura e, portanto, tambm de C,               sofia, etc, que condicionam e ao mesmo tem-
 que seria determinada fase da prpria cultura.              po so condicionadas por essas tcnicas. O en-
 Com isso, a noo de C. baseada em deter-                   trelaamento e a combinao das tcnicas e
 minada hierarquia de valores entrou em crise. Co-           formas simblicas (ou espirituais) que, por sua
 meou-se a usar a palavra C. no plural.  o que             vez, podem ser consideradas outras tcnicas,
 faz, p. ex., Toynbee, que a contraps a "socie-             constitui a base das instituies econmicas, ju-
  dade primitiva", para indicar as sociedades que            rdicas, polticas, religiosas, educacionais etc,
  constituram ou constituem mundos culturais                nas quais comumente se pensa quando se fala
  relativamente autnomos. Toynbee enumera                   de C. Na realidade, o uso cientfico (isto ,
  diferenas puramente extrinsecas entre C. e so-            objetivo e neutro) dessa palavra (uso indispen-
  ciedade primitivas. O nmero das C. conheci-               svel para o estudo e a compreenso de tantas
  das  pequeno; Toynbee enumera 21. O n-                   C. dspares de que temos memria histrica e
  mero de sociedades primitivas conhecidas                  das tantas e diferentes fases que cada uma de-
  grande; em 1915 L. T. Hobhouse e outros enu-               las atravessou e atravessa) exige que estejam
  meraram 650. As sociedades primitivas so res-             includas no conceito de C. s as caractersticas
  tritas quanto ao nmero dos seus membros e                gerais e formais dos instrumentos que ele de-
  extenso geogrfica e tm vida breve, muitas               signa, prescindindo de qualquer referncia a
CLAREZA e DISTINO                                 144                                            CLASSE1

um sistema de valores (como poderiam ser os               permite, como quando nos lembramos de uma
da C. crist ou ocidental e da C. islmica, etc).         flor ou de um animal que vimos, mas no o su-
 preciso, ento, em primeiro lugar, no perder           ficiente para distingui-lo dos outros e para
de vista a eficincia das armas que uma C. pe            reconhec-los. A distino  um grau muito
 disposio da cultura a que pertence, em                superior de evidncia e, alm do mais, um grau
vista da sua conservao e do seu progresso. E            que pertence especificamente  evidncia ra-
 claro que, em face das mudanas incessantes             cional. Com efeito, uma noo  confusa quan-
nas condies que uma cultura deve enfrentar              do no permite que se distingam suas notas
e em face da imprevisibilidade dessas mudan-              constitutivas; p. ex., os odores, os sabores, as
as, as possibilidades de sucesso dos instrumen-          cores, embora possam ser claramente reconhe-
tos tcnico-simblicos, que constituem deter-             cidos, no podem ser descritos e definidos com
minada civilizao ou uma de suas fases, no              base em seus traos constitutivos; tanto  ver-
dependem da configurao particular que assu-             dade que no podemos explicar o que  uma
miram nessa fase (ainda que essa configurao             cor a um cego. Ao contrrio, as noes distin-
tenha permitido grande xito), mas sim de sua             tas so aquelas para cujos traos podemos ter a
capacidade de autocorreo, isto , da sua ca-            definio nominal, isto , a enumerao das
pacidade de adaptao a circunstncias sempre             suas notas suficientes. Assim, o conhecimento
novas e variveis. Isso significa que as possibi-         que um qumico tem do ouro  distinto. O
lidades de sucesso de tais instrumentos depen-            conhecimento distinto  indefinvel s quando
dem essencialmente das regras metodolgicas               vem antes, ou seja, no  derivvel dos outros
que prescrevem e dirigem sua adaptao a cir-             (Op., ed. Erdmann, p. 79). A distino assim
cunstncias ou a fatos diversos e dspares, per-          estabelecida por Leibniz  muito importante
mitindo, cada vez, estrutur-los de modo opor-            porque  a prpria distino entre o conheci-
tuno em vista de tais circunstncias ou fatos, de         mento sensvel e o conhecimento racional. O
tal forma que sua eficcia permanea e au-                conhecimento sensvel pode chegar  C, mas 
mente. Desse ponto de vista, a presena ativa             sempre confuso; o conhecimento racional  o
e atuante, em todos os campos, da metodologia             conhecimento distinto. A filosofia alem, de
da pesquisa cientfica -- no sentido mais lato,           Leibniz a Kant, conservou essa distino e o
que inclui a conscincia das limitaes ou das            prprio Kant a aceita embora no a julgue sufi-
insuficincias dessa metodologia em cada fase             ciente para estabelecer a diferena entre o co-
histrica --  o ndice objetivo que mede o               nhecimento sensvel e o conhecimento ra-
grau de C, isto , o poder do arsenal de que              cional. Diz ele: "A conscincia das prprias
uma cultura dispe para a sua prpria conser-             representaes, quando basta para diferenciar
vao e o seu progresso (v. CULTURA).                     um objeto dos outros, chama-se clareza. Aque-
    CLAREZA e DISTINO (in. Clearness                    la pela qual se esclarece a composio das
and distinctness; fr. Clart et distinction; ai.          representaes chama-se distino. S esta
Klarheit und Deutlichkeit; it. Chiarezza e dis-           ltima pode fazer que uma soma de repre-
tinzione). Os dois graus da evidncia, no sentido         sentaes se torne um conhecimento no qual
subjetivo em que foi entendida a partir de                seja pensada a ordem da multiplicidade" (Antr.,
Descartes. Diz Descartes: "Chamo de clara a               I,  6).
percepo presente e manifesta ao esprito de                Essa doutrina da diferena entre C. e distin-
quem lhe presta ateno, assim como dizemos               o como graus da evidncia no conservou a
que so claras as coisas que temos diante do              mesma importncia na filosofia contempor-
olho que as olha". Chama-se, porm, distinta a            nea, que retornou ao antigo conceito objetivista
percepo que, "sendo clara,  to desligada e            da evidncia. Todavia Husserl ainda utiliza o
separada de todas as outras que no contm                conceito de C. para definir a conscincia  qual
absolutamente em si nada alm do que  claro"             o objeto  dado "puramente em si mesmo, exa-
(Princ. phil, I, 45). Essa distino cartesiana           tamente como  em si mesmo... No caso da
no  muito precisa, ao menos no que se refere            plena obscuridade, plo oposto da plena C,
ao conceito de distino; Locke, que a repro-             nada chegou a ser dado, e a conscincia  obs-
duz, no a torna mais precisa (Ensaio, II, 29,            cura, no mais vidente nem oferente em senti-
 4). Mas Leibniz tornou-a mais precisa, ao con-          do prprio" (Ideen, I,  67).
siderar clara a noo que permite discernir a                CLASSE1 (in. Class; fr. Classe, ai. Klasse, it.
coisa representada e obscura a que no o                   Classe). Em sentido sociolgico, corresponde
CLASSE1                                                 145                                             CLASSE1


ao que os antigos chamavam de "parte da ci-                    toricamente necessrio, para qualquer socie-
dade" e designa um grupo de cidados defini-                   dade no comunista) da diviso em classes.
do pela natureza da funo que exercem na                      Numa carta de 1852, resumia seu pensamento
vida social e pela parcela de vantagens que ex-                da seguinte forma: "l s A existncia das C. est
traem de tal funo. Plato admitia trs C, ou                 simplesmente ligada a determinadas fases his-
melhor, trs partes da sua cidade ideal: a dos                 tricas do desenvolvimento produtivo; 2" a luta
governantes ou filsofos, a dos guerreiros e a                 de classes conduz inevitavelmente  ditadura
dos agricultores e artfices; confiava  primeira              do proletariado; 3S essa ditadura no constitui
a tarefa de distribuir os indivduos entre as clas-            seno a passagem para a abolio de todas as
ses (Rep., III, 412 b ss.). Aristteles enumera                C. e para a sociedade sem classes" {Marx-
oito C: agricultores, operrios mecnicos, co-                 Engels Correspondence, p. 57). Para Marx, a C.
merciantes, servos agrcolas, guerreiros, juizes,              tem aquela espcie de unidade substancial
ricos e magistrados (Pol., IV, 4,1290 b 37). Mas,              slida que Hegel atribua ao esprito de um
levando-se em conta o que ele diz sobre o tra-                 povo (Volksgeist), isto , ela age na histria
balho manual (v. BANAUSIA), pode-se afirmar                    como uma unidade e subordina o indivduo,
que, na realidade, para Aristteles as C. so                  que conta apenas como membro da sua C, da
duas, alm da dos escravos, que constituem os                 qual derivam seus modos de pensar e de vi-
"instrumentos animados" (v. SERVO E PATRO), OU               ver, seus sentimentos e suas iluses.
seja: os que so forados ao trabalho manual e                    Essa rigidez do conceito de C. foi mantida
os que se libertaram de tal necessidade. "A me-                pela ideologia comunista e, mais que um con-
lhor constituio", diz Aristteles, "jamais admiti-          ceito cientfico,  um instrumento de luta poltica.
r no rol dos cidados um operrio mecnico.                  Trata-se de um conceito que foi, ele mesmo,
Mas se este j  cidado, ento deveremos atri-               condicionado por uma situao histrica parti-
buir as virtudes de cidado no a todos in-                   cular: a fase de formao do industrialismo,
distintamente, como se bastasse a condio de                  que parece dividir a humanidade em duas C.
homem livre, mas s aos que no esto fora-                  hostis, entre as quais o conflito  inevitvel: a
dos aos trabalhos necessrios  vida cotidiana"               dos capitalistas, ou seja, dos proprietrios dos
Ubid, III, 5, 1278 a 8).                                       meios de produo, e a dos proletrios, obriga-
    A noo de C. ficou muito acentuada no sc.                dos a vender aos primeiros sua fora de traba-
XVIII, por obra da Revoluo Francesa e de                     lho. As anlises contemporneas mostraram
 todo o movimento cultural que a promoveu e a                 uma estrutura mais complexa e elstica da clas-
 acompanhou. Em filosofia, porm, ela s ga-                   se. Dahrendorf, p. ex., definiu as C. com base
 nha destaque graas a Hegel, que considerava                  nas relaes de autoridade e no nas de traba-
 a diviso das C. como um ajustamento necess-                 lho; desse ponto de vista, as C. no so nem
 rio da sociedade civil, devido a bens privados,              exclusiva nem predominantemente agrupa-
 ou seja, ao capital,  aptido dos indivduos                 mentos econmicos, mas estratificaes sociais
 que, em parte,  condicionada pelo capital, a                 que, por sua vez, podem conter uma pluralidade
 circunstncias contingentes devidas  diversida-              de estratos. "Cada vez mais, as relaes sociais
 de das disposies e das necessidades fsicas e               da indstria, inclusive os conflitos de trabalho,
 espirituais {Fil. do dir.,  200). Hegel atribuiu s          deixam de dominar a sociedade como um todo,
 C. a funo mediadora entre o governo e o                     para ficarem confinadas na esfera industrial,
 povo; sua determinao exige nelas tanto o                    com suas formas e seus problemas. Na socie-
 sentido e o sentimento de Estado e governo,                   dade ps-capitalista, indstrias e conflitos de
 quanto o dos interesses dos grupos particulares              trabalho esto institucionalmente isolados, ou
  e dos indivduos (Jbid.,  302). O conceito de               seja, confinados nos limites de seu prprio rei-
  C, assim elaborado por Hegel, foi usado por                  no e no exercem influncia sobre as outras
  Marx como fundamento da sua doutrina da luta                 esferas da sociedade" (Class and Class Con-
  de classes. Na verdade, os economistas ingle-               flict in IndustrialSociety, Londres, 1959, p. 268).
  ses Malthus e Ricardo j tinham reconhecido a                O socilogo polons Stanislav Ossowski
  possibilidade de oposies entre as C, como                  identificou a existncia de estratificaes so-
  conseqncia do funcionamento das leis eco-                  ciais mesmo nas sociedades comunistas con-
  nmicas. Desses economistas, Marx aceita o                   temporneas: "Estamos bem distantes das C.
  conceito do fundamento econmico da luta de                  concebidas como grupos que nascem das or-
  C. e, de Hegel, o carter necessrio (isto , his-          ganizaes de C. espontaneamente criadas. Em
CIASSE2                                              146                        CLASSE, CONSCINCIA DE

situaes em que as autoridades polticas po-              tem o aspecto de ser obra da prpria vontade"
dem, aberta e efetivamente, mudar a estrutu-               (Fil. do dir.,  206). Hegel acrescenta que, para
ra de C, em que os privilgios, essencialssi-             o homem, "ser alguma coisa" significa "perten-
mos para a definio do status social, inclusive           cer a uma classe determinada", porque o ho-
no que se refere a uma porcentagem maior da                mem sem classe seria um simples indivduo
renda nacional, so conferidos por deciso das             isolado e no participaria da universalidade
autoridades polticas, em que grande parte                 real prpria da classe. Portanto, para o indiv-
ou mesmo a maioria da populao est inclu-               duo, reconhecer-se como pertencente a uma
da num tipo de estratificao que pode ser en-             classe no  uma degradao, mas a aquisio
contrado em hierarquias burocrticas, o con-               de sua "realidade e objetividade tica", ou seja,
ceito oitocentista de C. passa a ser mais ou               o reconhecimento da unidade, realizada no in-
menos anacrnico e os conflitos de C. do lu-              divduo, entre universalidade e particularidade
gar a outras formas de antagonismo social"                 (Jbid.,  207 e Zusatz). Para Marx, esse conceito ti-
(Class Structure in the Social Consciousness,              nha bem menos importncia, j que tudo o
Londres, 1963, P- 184). Desse ponto de vista, o            que  "conscincia" pertence  superestrutura
conceito de C. no est mais ancorado exclusi-             (v.), que  determinada pelas relaes de tra-
vamente na propriedade dos meios de produ-                 balho e produo. Contudo, Marx afirmou que,
o e deve rever os elementos fundamentais                 se entre os indivduos "houver apenas contato
da complexa organizao que pode diferir, como             local, se a identidade de seus interesses no os
de fato difere, de uma sociedade para outra e              levar a criar uma comunidade, uma associao
de um momento histrico para outro (cf. T. B.              nacional, uma organizao poltica, eles no
BOTTOMORE, Classes in Modern Society, Londres,             constituiro uma classe" (Der 18 Brumaire des
1965).                                                     Louis Bonaparte, nova ed., 1946, p. 104). Esse
   CLASSE2 (in. Class; fr. Classe, ai. Klasse, it.         conceito foi posto em primeiro plano na in-
Classe). Embora o conceito de "C." j estivesse            terpretao do marxismo feita por Georg Luc-
presente no pensamento lgico medieval, esse               kcs, no livro Histria e conscincia de classe
termo s comeou a ser usado no sc. XIX, so-              (1922), que atribui  conscincia de C. o ttulo
bretudo por obra dos lgicos ingleses, como                de sujeito da histria, ou seja, de princpio ou
Hamilton, Jevons, Venn, etc, preocupados com               fora que faz a histria. Segundo Luckcs, a
o problema da quantificao da Lgica. Pode-               conscincia de C. autntica  "a realizao ra-
se definir uma classe enumerando os membros                cional e adequada que deve ser adjudicada a
que a compem (definio extensiva) ou indi-               uma situao tpica, no processo de produo".
cando a propriedade comum de todos os seus                 Por isso, distingue-se da falsa conscincia, que
membros (definio intensiva), como quando                  uma reao inadequada a tal situao, que
se fala do "gnero humano" ou dos "habitan-                ignora suas contradies. A conscincia de C. 
tes de Londres". Russell considerou fundamental            o ponto de partida da vocao de uma C. para
a definio intensiva porque a extensiva pode              o domnio, ou seja, para a organizao de uma
ser reduzida a ela, sem que ocorra o inverso.              sociedade conforme com os seus interesses
Portanto, reduziu a C. a uma funo propo-                 (Histoire et conscience de classe, 1960, pp. 72
sicionaKv.), ou seja, a um predicado ou a um               ss.). A conscincia de C. identifica-se com a
atributo. Nesse sentido, usou o conceito dos               "compreenso total da histria", na qual se fun-
Principia Mathematica (cf. tambm Intro-                   da a possibilidade real de evoluo da prpria
duction toMathematicalPhilosophy, 1919, cap.               histria em direo a uma sociedade nova. Re-
XVII). Quanto s relaes entre o conceito de              jeitada pelo marxismo oficial, que a acusava
C. e o de conjunto, ver este ltimo termo.                 de "idealismo", essa doutrina continua sendo
                                                           discutida pelo pensamento marxista ocidental.
    CLASSE, CONSCINCIA DE (in Cons-                       Mas com a crise que o conceito de C. sofreu
ciousness of class; fr. Conscience de classe, ai.          nos estudos sociolgicos contemporneos (v.
Klassenbewusstsen; it. Conscienza di classe).             CLASSE), a conscincia de C, considerada como
Esse foi um conceito em que Hegel insistiu; se-            "conscincia das contradies entre interesses
gundo ele, o fato de um indivduo pertencer a              econmicos e sociais opostos",  entendida
uma classe  determinado no s pelas circuns-             apenas como um dos muitos elementos que
tncias objetivas, mas tambm pela vontade                 compem a noo de C. (cf., p. ex., TOURAINE,
do indivduo, de tal modo que o fato de per-               La socit post-industrielle, 1969).
tencer a essa classe "pela conscincia subjetiva
CLASSE ELEITA                                         147                                        COERNCIA


  CLASSE ELEITA. V. ELITE.                                  neralssima e pode compreender qualquer
    CLSSICO (lat. Classicus; in. Classic; fr.              procedimento de diviso, distino, orde-
Classique, ai. Klassische, it. Clssico). No latim          nao, coordenao, hierarquizao, etc. Por
tardio, esse adjetivo designava o que  excelen-            esse carter generalssimo que o torna pouco
te em sua classe ou o que pertence a uma                    individualizvel, j no recebe dos lgicos
classe excelente (especialmente  classe mili-              contemporneos a ateno que recebia dos l-
tar). Aulo Glio (Ato. Att, XIX, 8,15) contrapu-            gicos do sc. XIX (cf., p. ex., STUART MILL, Logic,
nha o escritor C. ao escritor "proletrio" (pro-            I, 7; IV, 7).
letarus). Mas a difuso dessa palavra para                    CLASSIFICAO DAS CINCIAS. V. CIN-
designar um modo ou estilo excelente -- e                   CIAS, CLASSIFICAO DAS.
prprio dos antigos --, na arte e na vida,  de-               CLASSIFICAO DOS JUZOS. V. Juzos,
vida ao Romantismo, que gostava de definir-se               CLASSIFICAO DOS.
e entender-se sempre em relao ao "classi-                    CLAVIS UREA. Assim se chamou o mto-
cismo". Segundo Hegel, o carter clssico                  do de interpretao das Sagradas Escrituras de-
definido como a unio total do contedo ideal
                                                            fendido por Flacius e pelos outros autores das
com a forma sensvel. O ideal da arte encontra
na arte C. a sua realizao perfeita: a forma               Centrias de Magdeburgo (1559-73), mtodo
sensvel foi transfigurada, subtrada  finitude,           que consistia principalmente em explicar cada
 e inteiramente conformada  infinitude do Con-             trecho isolado atravs sentido total da Escri-
 ceito, isto , do Esprito Autoconsciente. E isso          tura.
 acontece porque, na arte C, a Idia infinita                  CLAVIS UNIVERSALIS. Esse termo foi usa-
 encontrou a forma ideal em que exprimir-se,                do entre os scs. XVI e XVII para indicar a
 isto , a figura humana. Todavia, o defeito da             tcnica de memria e inveno, cujo prece-
 arte C.  o de ser arte, arte na sua completitude,         dente mais ilustre  a Ars magna de Llio, e a
 mas nada mais. Em face dela, a arte romntico-             sua conseqncia mais importante em Carac-
 crist est em nvel superior, pois nela a unida-          terstica universal de Leibniz (cf. PAOLO ROSSI,
 de da natureza divina com a natureza humana                Clavis universalis, 196) (v. CARACTERSTICA;
 (isto , do infinito e do finito) torna-se auto-           COMBINATRIA, ARTE; M N E M  N I C A ) .
 consciente e, por isso, no se exprime mais de               CLINAMEN. V. DECLINAO.
 forma externa, mas sua expresso  interio-                    COERNCIA (in. Coherence, fr. Cohrence,
 rizada e espiritualizada. Na arte romntica, a             ai. 7-,usammenbang, it. Coerenzd). 1. Ordem, co-
 beleza j no  fsica e exterior, mas puramente           nexo, harmonia de um sistema de conhecimen-
 espiritual, porque  a beleza da interioridade             to. Nesse sentido, Kant atribua aos conheci-
 como tal, da subjetividade inifinita em si mesma           mentos a priori a funo de dar ordem e C.
 (Vorlesungen ber die sthetik, ed. Glockner,              s representaes sensveis {Crt. R. Pura, Ia
 II, pp. 109 ss.). Dessas idias de Hegel, repe-            ed., Intr.,  1). Nesse sentido, a C. foi assumida
 tidas de forma pouco diferente por numerosos               por alguns idealistas ingleses como critrio da
 escritores do perodo romntico, nasceu o ideal            verdade. Segundo Bradley, p. ex., a realidade 
 convencional do classicismo como medida, equi-             uma Conscincia absoluta que abarca, na for-
 lbrio, serenidade e harmonia, contra o qual a             ma de C. harmoniosa, toda a multiplicidade dis-
 distino de Nietzsche entre esprito apolneo             persa e contraditria da aparncia sensvel
 e esprito dionisaco (v. APOLNEO) representou            (Appearance and Reality, 2- ed., 1902, pp. 143
 a primeira reao. Cf. os artigos de Tatarkiewicz          ss.). A C, nesse sentido,  muito mais do que a
 e outros na Revue Internationale de Philosophie,           simples compatibilidade (v.) entre os elemen-
  1958, 1 (n. 43).                                          tos de um sistema: implica, com efeito, no s
   CLASSIFICAO (in. Classification; fr.                   a ausncia de contradio, mas a presena de
Classification; ai. Klassification, it. Classifca-         conexes positivas que estabeleam harmonia
zion). Operao de repartir um conjunto de                 entre os elementos do sistema. Nessa acepo,
objetos (quaisquer que sejam) em classes coor-              esse termo no tem significado lgico.
denadas ou subordinadas, utilizando critrios                   2. O mesmo que compatibilidade. Esse sig-
oportunamente escolhidos. Como o concei-                    nificado  assumido com freqncia por esse
to de classe  generalssimo e compreende todo              termo em italiano e francs, j que nessas ln-
e qualquer conceito sob o aspecto da exten-                 guas o termo compatibilidade no se presta a
so, a operao de C.  igualmente ge-                      exprimir o carter do sistema desprovido de
CO-ESPECIE                                         148                                             COGITO

contradio, mas designa o carter de no-con-           mana; Campanella utiliza-o para demonstrar a
tradio recproca dos enunciados.                       prioridade de uma "noo inata de si" sobre
    CO-ESPCIE (in. Conspecies). Termo ado-              qualquer outra espcie de conhecimento; e
tado por Hamilton para indicar as espcies               Descartes para justificar o seu mtodo da evidn-
coordenadas do mesmo gnero, que so dife-               cia) e seu significado preciso seja, portanto, di-
rentes mas no contraditrias e, portanto, cons-         ferente em um ou outro filsofo, poucas vezes
tituem noes discretas ou disjuntas, chamadas           se duvidou de sua validade geral. Para toda
s vezes de dspares (v.) (Lectures on Logic, I,         filosofia que recorra  conscincia (v.) como
p. 209).                                                 instrumento da indagao filosfica, o C. deve
    COEXISTNCIA (in. Coexistence, fr. Coexis-           mostrar-se indubitvel, pois na realidade no 
tence, ai. Mitsein ou Mitdasein; it. Coesistenzd).       seno a formulao do postulado metodo-
No existencialismo contemporneo, entende-se             lgico de tal filosofia. Mas mesmo as filosofias
por esse termo o modo especfico pelo qual o             que no reconhecem tal postulado fazem uso
homem est com os outros homens no mundo:                do C. e consideram-no vlido. Assim fazem, p.
modo que  diferente daquele pelo qual ele se            ex., Locke, que v nele "o mais alto grau de
v estar, no mundo, com as outras coisas. Esse           certeza" (Ensaio, IV, 9, 3), e Kant, que v nele a
significado especfico do termo deve-se a Hei-           prpria apercepo pura (v.) ou conscincia
degger, que distinguiu a presena das coisas             reflexiva. Na filosofia contempornea, Hus-
como meios ou instrumentos utilizveis pela              serl assume explicitamente o C. como ponto
co-presena (Mitdasein) ou o ser-com dos ou-             de partida da sua filosofia (Ideen, I,  46; Cart.
tros com o Eu. A estreita conexo da C. com a            Med-,  1) e recorre a ele continuamente ao lon-
existncia faz que no possa haver compreen-             go de suas anlises, considerando-o como a
so de si sem a compreenso dos outros. "Na              prpria estrutura da experincia vivida (Er-
compreenso do ser, prpria do ser-a", diz Hei-         lebniss) ou conscincia. O prprio Heidegger
degger, "est implcita a compreenso dos ou-            no pe em dvida a validade do C, embora
tros, e isso porque o ser do ser-a  coexistncia"      reprove em Kant o fato de, com ele, ter restrin-
(Sein und Ze,  26).                                    gido o eu a um "sujeito lgico", isolado, "sujei-
     COGITO. Abrevia-se nessa palavra a ex-               to que acompanha as representaes de uma
 presso cartesiana "cogito ergosunf (Discours,           forma ontologicamente de todo indeterminada"
 IV; Md., II, 6), que exprime a auto-evidncia           (Sein und Ze,  64).
 existencial do sujeito pensante, isto , a certe-
 za que o sujeito pensante tem da sua existn-                Diante de aceitao to ampla, as crticas fo-
 cia enquanto tal. Trata-se de uma tendncia de           ram muito escassas. Pode-se pensar na crtica
 pensamento que reaparece vrias vezes na his-             de Vio, mas  fcil de ver que ela, na verdade,
 tria, ainda que com fins diversos. S. Agostinho           uma crtica do Cogito. Vio nega que a "cons-
 valeu-se dele para refutar o ceticismo acad-             cincia" do prprio ser possa constituir a sua
 mico, isto , para demonstrar que no se pode             "cincia", ou pelo menos o princpio dessa cin-
 permanecer firme na dvida ou na suspenso                cia. A cincia, de fato,  conhecimento de causa
 do assentimento. Quem duvida da verdade tem               e o C. cartesiano seria princpio de cincia s no
 certeza de que duvida, logo de que vive e pen-            caso de a conscincia ser a causa da existncia
 sa; portanto, na prpria dvida est a certeza            (De antiquissima italorum sapientia, I, 3). Mas
 que a leva  verdade (Contra Acad., III, 11; De           com isso Vio no nega que o C. constitua uma
  Trin., X, 10; Soli., II, 1). De S. Agostinho, o         certeza vlida, apenas se preocupa em corrigi-lo
 mesmo tipo de pensamento passa para alguns                afirmando que Descartes no deveria ter dito
 escolsticos; p. ex., em S. Toms: "Ningum               "penso, logo existo" (Prima risposta ai Giomale
 pode pensar com assentimento (isto , crer)               dei letterati,  3). A crtica de Kierkegaard visa
 que no ; j que, porquanto pensa alguma                 mais ao alcance do que  validade do C.
 coisa, percebe que " (De ver, q. 10, a. 12, ad.          cartesiano: "O princpio de Descartes 'penso,
 7). Na mesma poca de Descartes, esse princ-             logo sou',  luz da lgica,  um jogo de pala-
  pio  retomado por Campanella (Met., I, 2, 1).           vras, pois aquele 'sou' outra coisa no significa,
  Embora esse tipo de pensamento tenha servido             do ponto de vista lgico, seno 'sou pensante'
  a fins diferentes (S. Agostinho utiliza-o para de-       ou 'penso'" (Dirio, V, A, 30). Em outros termos,
  monstrar a transcendncia da Verdade -- que              segundo Kierkegaard, a proposio cartesiana 
   Deus mesmo -- e a sua presena na alma hu-             puramente tautolgica, j que seu pressuposto
COGITO                                                 149                                         COISA

 a identidade da existncia com o pensamento.           cartesiano como verdade lgica, mesmo limi-
Uma tatulogia, porm, ainda  uma proposio             tando seu alcance. "Se algum pretende saber
vlida. Em 1868, Peirce respondia negativamen-           que existe ou que  consciente, sua pretenso
te  pergunta "temos autoconscincia intuitiva?",        deve ser vlida simplesmente porque o seu ser
na qual a palavra autoconscincia estava por             vlida  uma condio do seu ser feita" (Problem
conhecimento da prpria existncia. Peirce no            of Knowledge, 1956, p. 53). A posio de
contestava validade do C, mas, com provas                Nietzsche sobre esse ponto era mais radical e,
psicolgicas e histricas, acreditava poder con-         provavelmente, mais correta (v. CONSCINCIA).
cluir que "no h necessidade de supor uma                   COINCIDENTIA OPPOSITORUM. Ex
autoconscincia intuitiva, desde que a auto-             presso usada pela primeira vez por Nicolau de
conscincia pode facilmente ser resultado de             Cusa para exprimir a transcendncia e a infi-
inferncia" (Coll. Pap., 5.263)- A rigor, nem mes-       nitude de Deus, que seria a coincidncia do
mo essa  uma crtica ao cogito. A crtica mais          mximo e do mnimo, do tudo e do nada, do
simples e decisiva essa noo pode ser                   criar e do criado, da complicao e da expli-
considerada a de Nietzsche: '"Pensa-se, logo h          cao, num sentido que no pode ser entendi-
alguma coisa que pensa': eis a que se reduz a            do nem apreendido pelo homem (De docta
argumentao de Descartes. Mas isso significa             ignor, I, 4; De coniecturis, II, 1). No mesmo
somente considerar verdadeira a priori a nossa
                                                         sentido, essa expresso foi utilizada por Reuchlin
crena na idia de substncia. Dizer que, quan-
                                                         (De arte cabalistica, 1517) e por Giordano Bru-
do se pensa,  preciso que haja alguma coisa
'que pense'  apenas a formulao do hbito              no, que com ela define o universo, que ele
gramatical de acrescentar um agente  ao. Em           identifica com Deus. O universo "compreen-
resumo, aqui no se faz mais do que formular             de todas as oposies no seu ser, em unidade
um postulado lgico-metafsico, em vez de con-           e convenincia" (Delia causa [v.]).
tentar-se em constat-lo... Se reduzirmos a pro-             COISA (Trpyna; lat. Res; in. Thing; fr.
posio a isto: 'Pensa-se, logo h pensamentos',         Cbose, ai. Ding; it. Cosa). Tanto no discurso
da resultar uma simples tautologia e a 'realida-       comum quando no filosfico, esse termo tem
de do pensamento' no  questionada de tal               dois significados fundamentais: ls genrico,
modo que se  levado a reconhecer a 'aparn-             designando qualquer objeto ou termo, real ou
cia' do pensamento. Mas Descartes queria que o           irreal, mental ou fsico, etc, de que, de um
pensamento no fosse uma realidade aparente,             modo qualquer, se possa tratar; 2Q especfico,
mas fosse um 'em si'" (Wille zur Macht, ed.              denotando os objetos naturais enquanto tais.
 1901,  260). Essas consideraes de Nietzsche              le No primeiro significado, a palavra  um
constituem uma crtica ao princpio do cogito            dos termos mais freqentes da linguagem co-
que muitos filsofos contemporneos aceita-              mum e tambm  amplamente empregada pe-
riam. Com efeito, Carnap refere-se a ela explici-        los filsofos. "C" pode ser o termo de um ato
tamente, repetindo-a. "A existncia do eu", diz          de pensamento ou de conhecimento, de imagi-
ele, "no  um estado de fato primitivo do               nao ou de vontade, de construo ou de des-
dado. Do C. no resulta o sum; de sou conscien-          truio, etc. Pode-se falar de uma C. que existe
te no se segue que sou, mas apenas que h               na realidade como tambm de uma C. que est
 uma experincia consciente (Erlebniss). O eu            na imaginao, no corao, nos sentidos, etc.
no pertence  expresso das experincias fun-           Assim, pode-se dizer que, nessa acepo, C.
 damentais vividas, mas constitui-se mais tarde,         significa um termo qualquer de um ato huma-
 essencialmente com o fim de delimitar seu               no qualquer ou, mais exatamente, qualquer ob-
 mbito pelo mbito do outro... Em lugar da ex-          jeto com que, de qualquer modo, se deva tra-
 presso de Descartes, seria necessrio colocar          tar.  o significado contido na palavra grega
 esta outra: 'Esta experincia  consciente; lo-         pragma.
go, h uma experincia consciente'; mas cer-
                                                             2- No seu significado mais restrito, a C.  o
 tamente isso seria pura tautologia" (Der logische
 Aufbau der Welt, 1928,  163). No entanto essa          objeto natural tambm chamado de "corpo" ou
 crtica est longe de ser compartilhada pelos           "substncia corprea". O uso do termo nesse
 prprios empristas lgicos e Ayer, p. ex., reafir-     segundo significado  at certo ponto recente.
 ma, substancialmente, a validade do princpio           Pode talvez remontar a Descartes, que, porm,
                                                         ao lado da expresso "C. corpreas" (choses
COISA                                                  150                                           COISA

 corporelles), emprega tambm "C. que pensa"              o modo de ser das C. Isso tampouco  feito
 (chose quipense), mostrando, assim, que en-               pela concepo de Mach, que define as C.
 tende a palavra no significado tradicional de             como complexos de sensaes (Analyse der
substncia (Md., II, passim). Locke preferiu a           Empfindungen, 9a ed., 1922, p. 14), ainda que
palavra "substncia" ("As idias das substncias          as "sensaes" de que fala Mach no sejam de-
so as combinaes de idias simples das quais            terminaes subjetivas, mas elementos neutros
se supe que representem C. particulares e dis-           que entram na composio tanto das C. quanto
tintas, subsistentes por si mesmas", Ensaio, II,          da mente. Esse ponto de vista foi reproduzido
 12,  6). E s com Berkeley pode-se dizer que            por Russell, para quem "uma C.  uma seqn-
o termo C. tenha suplantado definitivamente o             cia determinada de aparncias, em ligao con-
termo substncia: "As idias impressas nos senti-         tnua umas com as outras, segundo certas leis
dos pelo autor da natureza", diz ele, "so cha-           causais'" (Scientific Method in Phil, 1926, IV,
madas C. reais e as suscitadas pela imaginao,           trad. fr., p. 86).
sendo menos regulares, vividas e constantes,                  A conexo do modo de ser das C. com a
so mais propriamente chamadas idias ou                  ao humana sobre a qual, como veremos
imagens das C, que elas copiam ou represen-               logo, baseia-se a noo positiva de C,  eluci-
 tam" {Principies, I,  33)- A partir da, esse ter-      dada por Bergson, que, no entanto, a utiliza s
 mo C. passou a ser bastante freqente para               com o fim de negar a realidade das coisas. "No
 indicar o corpo ou o objeto natural em geral.            h C, h somente aes", disse (vol. cratr., \\-
 Kant estende-o ainda mais, distinguindo as               ed., 1911, P- 270). As C. so criaes da inteli-
 coisas tais como aparecem para ns, isto ,              gncia enquanto funo prtica que solidifica o
 submetidas s condies da nossa sensibilida-            devir, substituindo pela estabilidade fictcia de
 de (espao e tempo), e as C. em geral, ou C.             "C." ou de "estados" a continuidade e fluidez da
 em si (v.) (Crt. R. Pura,  8). Mas tambm fixa o       conscincia (Ibid., pp. 269 ss. 296). Nessa dou-
significado desse termo em seu tratamento so-             trina, as C. se reduzem a aes e a ao a
bre o esquematismo transcendental, onde faz              durao real da conscincia; tem-se, embora
da coisalidade ou realidade (Sachheit, Realitt)         com certa conscincia dos problemas ineren-
o esquema fundamental da categoria de quali-             tes, a costumeira reduo da C. a um estado
dade, no sentido de que "C. em geral  o que             subjetivo. E o significado de tal reduo da C.
corresponde a uma sensao em geral" (Ibid.,             a elementos subjetivos, ainda que qualificados
Esquematismo dos conceitos puros). A partir              (sensaes, representaes, idias, aes, etc),
da, a histria da noo de C. pode ser dividida          simplesmente isto: que no existem coisas.
em duas correntes fundamentais, segundo se                    h) Corrente para a qual o ser da C. tem signi-
lhe atribua ou negue um significado especfico.          ficado especfico. Foi Husserl quem ressaltou
Podemos, portanto, distinguir:                           esse significado, do ponto de vista fenome-
    d) A corrente para a qual o ser da C. se re-         nolgico, afirmando que existe "uma diferen-
solve no ser em geral. Assim, para o idealismo           a fundamental entre o ser como experincia
emprico, para o qual o ser  representao ou           vivida e o ser como C." e que, portanto, "uma
idia, a C.  representao ou idia, ou um              C. no pode ser dada em nenhuma percepo
complexo de representaes ou de idias. Essa            possvel ou outra modalidade de conscincia
doutrina, que  a de Berkeley, foi reproduzida           em geral" (Ideen, I,  42). O modo de ser espe-
inmeras vezes na filosofia moderna e contem-            cfico da C. consiste no fato de que ela  dada
pornea. Para o idealismo absoluto ou romnti-           em um nmero indefinido de aparies, mas
co, para o qual a realidade  a prpria razo, a         permanece transcendente como uma unidade
C.  um conceito da razo; e de fato Hegel a             que est alm dessas aparies, e que, todavia,
considera como uma categoria lgica (Ene,                se manifesta em um ncleo de elementos bem
 125 ss.; Wissenschaft derLogik, ed. Glockner,         determinados, circundados por um horizonte
I, pp. 602 ss.) O significado autnomo dessa             de outros elementos mais indeterminados
noo no  resgatado pela modificao da tese           (Ibid.,  44). O ser da C. se contrape, assim, ao
do empirismo clssico, proposta por Stuart Mill.         das experincias vividas ou da conscincia (v.).
Segundo eles, as C. so "possibilidades de sen-          Essa contraposio  pressuposta por todas as
saes" (Examination of Hamilton 's Phii, pp.            tentativas da filosofia contempornea de deter-
190 ss.), mas isso no delimita especificamente          minar de maneira especfica o ser da coisa. E 
COISA                                               151                                       COISA-EM-SI


significativo que tais tentativas tenham partido          montanha  pedreira, a corrente  fora hidruli-
de dois pontos de vista independentes e apa-              ca, o vento  vento em popa. A descoberta do
rentemente contrastantes, o naturalismo instru-           mundo ambiente e a descoberta da natureza
mentalista, de um lado, e a filosofia existen-            ocorrem ao mesmo tempo". Pode-se certamen-
cialista, de outro.                                       te procurar ver o que  a natureza, e deixar de
    Mead mostrou a ligao entre a noo de C.            lado a instrumentalidade das C. Mas, nesse
e o "mundo da ao". As C. se inserem numa                caso, a natureza permanece incompreensvel
fase bem determinada desse mundo, isto , na              "como o que tece e acontece, o que se precipi-
que se situa entre o incio de uma ao e a sua           ta sobre ns e nos empolga" (Sein und Zeit,
consumao final. Em outros termos,  na fase              15). Sem dvida, Heidegger conseguiu deter-
da manipulao que comparece ou se consti-                minar, ainda melhor do que o instrumentalismo
tui a C. fsica, que, no entanto,  universal no          americano, o modo de ser instrumental das
sentido de pertencer  experincia de todos               coisas, a categoria da instrumentalidade que o
(Mind, Self and Society, pp. 184-85). Dewey,              define. Por sua vez, Lewis ps em evidncia as
por sua vez, mostrou a estreita conexo do                implicaes lgicas que semelhante conceito
modo de ser das C. com a investigao. "As C",            da C. traz em si. "Atribuir uma qualidade objeti-
disse ele, "existem como objetos para ns na              va a uma C", disse ele, "significa implicitamente
medida em que tenham sido preliminarmente                 a previso de que, se eu agir de certa manei-
determinadas como resultados de investiga-                ra, ocorrer certa experincia especifcvel:
es. Quando so usadas na preparao de no-              se eu morder esta ma, seu sabor ser doce; se
vas investigaes sobre novas situaes proble-           eu a comer, ser digerida e no me envenena-
mticas, so conhecidas como objetos s em                r, etc. Essas e outras tantas proposies hipo-
virtude de indagaes anteriores que justificam           tticas constituem o meu conhecimento da
a sua assertividade. Na nova situao, os obje-           ma que tenho em mos" {Mind and lhe
tos so meios para alcanar o conhecimento de              World-Order, cap. V, ed. Dover, p. 140). As ex-
alguma outra C." (Logic, VI; trad. it., p. 175).          presses da forma Se... ento referem-se a
Dewey afirmou nitidamente o carter instru-               possibilidades que transcendem a experin-
mental das C. e, em geral, de todos os objetos            cia atual e que so prprias do homem como
de conhecimento. Tanto as "C. imediatas"                  ser ativo. "O significado cio conhecimento",
quanto os objetos da cincia fsica "construdos          disse ainda Lewis a esse propsito, "depende
por uma ordem matemtico-mecnica" so                    do significado de uma possibilidade que no 
"meios para garantir ou para evitar determina-            atual. Possibilidade e impossibilidade, logo ne-
dos objetos imediatos" (Experience and Natu-              cessidade e contingncia, compatibilidade e
 re, p. 141). Essas determinaes de Mead e               incompatibilidade, e vrias outras noes fun-
Dewey so apresentadas como resultados de                 damentais, exigem que deva haver proposi-
anlises empricas. Heidegger apresenta suas              es 'Se... ento', cuja verdade ou falsidade 
 determinaes como resultados de uma anlise             independente da condio afirmada na orao
 existencial: a noo de C.  esclarecida por ele         antecedente" (Ibid., 142 n.) (v. IMPLICAO). O
 como um elemento da existncia humana                    horizonte lgico do conceito de C, elaborado
 enquanto "ser-no-mundo". Ser no mundo                    pela filosofia contempornea, , portanto, o da
 significa ocupar-se com alguma C. e a C.                possibilidade, expresso pelas proposies con-
 sempre um instrumento (Zeug), um meio                    dicionais. Isso  confirmado pelos resultados
para... Enquanto tal, o modo de ser da C.  o             das pesquisas experimentais realizadas pela
 da instrumentalidade, e "a instrumentalidade            psicologia transacional, que levam a ver na C.
 a determinao ontolgico-categorial do ente             certa "classe de possibilidades" que constitui
 como ele  em si'. Quer dizer: a instrumen-              uma prognose generalizada, com base na ex-
 talidade no se acrescenta como uma qualida-             perincia passada, dos usos ou comportamen-
 de secundria ou extrnseca  realidade da C,            tos possveis de um objeto (Explorations in
 mas a constitui,  essa mesma realidade. O               TransactionalPsychology, org. F. P. Kilpatrick,
 modo de ser da C.  o da instrumentalidade, do           1961, cap. 21; trad. it., p. 495-96).
 ser instrumento ou instrumento para... Desse
 ponto de vista, "a natureza no pode ser en-                COISA-EM-SI (in. Thing in itself, fr. Chose
 tendida como simples presena, nem mesmo                 en soi; ai. Ding an sich; it. Cosa in s). O que a
 como fora natural. A floresta  plantao, a            C. , independentemente da sua relao com o
                                                          homem, para o qual  um objeto de conheci-
COISA-EM-SI                                             152                                        COISA-EM-SI


mento. Nem a expresso, nem a noo so                       do conceito de C.-em-si (ou nmeno), passa a
prprias e originrias de Kant, como comu-                    distinguir uma doutrina positiva e uma doutrina
mente se cr, mas representam "a convico                    negativa dos nmenos. "O conceito de um
dominante de toda a filosofia do sc. XVIII"                  nmeno, isto , de uma C. que deve ser pensada
(CASSIRER, Erkenntnissproblem, VII, 3; trad. it., II,         no como objeto dos sentidos, mas como coi-
pp. 470 ss.). A origem dessa noo pode estar                 sa-em-si (unicamente para o intelecto puro),
em Descartes, que, em Princpios de filosofia                 no  em nada contraditrio, j que no se
(II, 3), assim se exprime: "Ser suficiente obser-            pode afirmar que a sensibilidade seja o nico
var que as percepes dos sentidos referem-se                 modo de intuio". Isso posto, se entendermos
apenas  unio do corpo humano com o espri-                  por nmeno "o objeto de uma intuio no
to e que, enquanto de ordinrio nos mostram                   sensvel", isto , criadora ou divina, teremos o
aquilo que nos possa prejudicar ou ajudar nos                 conceito de nmeno em sentido positivo. Mas
corpos externos, no nos ensinam absoluta-                    na realidade esse conceito  vazio, porque nos-
mente, mas s ocasional e acidentalmente, o                   so intelecto no pode estender-se alm da ex-
que tais corpos so em si mesmos". Essa dis-                  perincia seno problematicamente, isto , no
tino entre as "C.-em-si mesmas" e as "C. em                 com a intuio nem com o conceito de uma
relao a ns", isto , como objetos de nossas                intuio possvel. Portanto, "o conceito de n-
faculdades sensveis, torna-se lugar-comum na                 mero  s um conceito-limite (Grezbegriff),
filosofia do Iluminismo. D'Alembert (lm. de                 para circunscrever as pretenses da sensibilida-
pbil.,  19), Condillac (Logique, 5), Bonnet                  de, portanto de uso puramente negativo" (Crt.
(Essai analytique,  242) repetem-na quase                    R. Pura, Analtica dos princpios, cap. III). Essa
com as mesmas palavras, e Maupertuis (Lettres,                funo puramente negativa da C.-em-si per-
IV) a expressa em termos tais que Scho-                       maneceu como um dos princpios da doutrina
penhauer teve a impresso de que Kant o pla-                  kantiana do conhecimento, porque garante,
giara. "Desde que estejamos convencidos", diz                 nela, o carter finito (isto , no-criativo) do co-
Maupertuis, "de que entre nossas percepes                   nhecimento humano.
e os objetos externos no subsiste nenhuma                        Entretanto, a filosofia ps-kantiana assinala
semelhana nem nenhuma relao necessria,                    a rpida destruio desse conceito. J as Cartas
deveremos admitir tambm que tais percep-                     sobre a filosofia kantiana (1786-87) de Rei-
es no passam de simples aparncia. A ex-                   nhold, que faziam uma exposio do criticismo
tenso, que costumamos considerar como o                      que, durante muito tempo, serviu de modelo
fundamento de todas as outras propriedades,                   para a interpretao do prprio criticismo, re-
e que parece constituir sua verdade ntima, em                duzindo o fenmeno a representao, torna-
si mesma nada mais  do que fenmeno" (Cf.                    vam dbia ou problemtica a funo da C.-em-
SCHOPENHAUER, Die Welt, II, p. 57).                           si; depois, esta era explicitamente negada, por
   Nesse ponto, como em muitos outros, Kant                   Schulze e Maimon, com base em sua incog-
no fez seno inspirar-se na orientao geral                 noscibilidade. Mas quem comeou a extrair
do Iluminismo. Todavia, em sua doutrina, co-                  conseqncias dessa negao foi Fichte: este
mo, alis no Iluminismo, o conceito de C.-em-                 viu que, eliminada a condio limitativa, consti-
si no permanece um simples lembrete da                       tuda pela C.-em-si, o conhecimento humano
limitao do conhecimento humano e uma                        tornava-se criador no s da forma, mas tam-
advertncia para afastar o homem das especu-                  bm do contedo da realidade que constitui
laes metafsicas. Aclara-se, mais precisamente,             seu objeto, transformando-se naquela "intuio
como um instrumento tcnico para circunscre-                  intelectual" que Kant atribua somente a Deus,
ver os limites do conhecimento humano. Do                     fazendo do sujeito dela, isto , do Eu, um prin-
comeo ao fim de Crtica da Razo Pura, Kant                  cpio infinito (Wissenschaftslehre, 1794,  4).
repete que o conhecimento humano  conheci-                   Essas transformaes marcam a transio do
mento cie fenmenos, no de C.-em-si, j que                  criticismo, que  filosofia de tipo iluminista, ao
ele no se baseia na intuio intelectual (para               romantismo(v.), que  uma filosofia do inifinito.
a qual ter as C. presentes significaria cri-las),            O romantismo assinalava o crepsculo defini-
mas na intuio sensvel, para a qual as coisas               tivo da doutrina da C.-em-si, que fora a insg-
so dadas sob certas condies (espao e tem-                 nia do iluminismo porque servira para expri-
po). De acordo com essa diretriz fundamental,                 mir a limitao fundamental do conhecimento
Kant, aps haver estabelecido a possibilidade                 humano. A noo de incognoscveliy.), que o
COISAL, ENUNCIADO                                       153                                            CMICO


positivismo evolucionista s vezes comparou                   Mill (Logic, III, 2, 4) retomou essa noo, vincu-
com a C.-em-si, na realidade  completamente                  lando-a  de induo. "A assero de que os
diferente. Em primeiro lugar, tem funo oposta               planetas se movem em elipse foi um modo de
 da C.-em-si: serve para oferecer  metafsica               representar fatos observados, portanto uma C;
e  religio um domnio de competncia espe-                  a assero de que eles so atrados para o Sol
cfica, em vez de restringir as pretenses do                  a assero de um novo fato, inferido por
conhecimento cientfico. Em segundo lugar, o                  induo". Essa palavra caiu em desuso na lgi-
Incognoscvel  mais definido positivamente                   ca contempornea.
pela esfera de problemas que a cincia no                        COMBINATRIA, ARTE (lat. Ars combi-
resolve do que negativamente pelos limites                    natorid). Com o nome de ars combinatoria
intrnsecos da prpria cincia. A filosofia con-              Leibniz designa o projeto, ou melhor, o ideal
tempornea, que restabeleceu e continua resta-                de uma cincia que, partindo de uma cha-
belecendo a doutrina do limite do conhecimen-                 racteristica universalis (v. CARACTERSTICA), OU
to, entende que ele  demarcado pelo alcance                  seja, de uma linguagem simblica que atri-
dos mtodos ou dos critrios que presidem                    busse um sinal a cada idia primitiva e
validade do conhecimento; portanto, j no                    combinasse de todos os modos possveis es-
precisa da iluminista "C.-em-si" para impor mo-               ses sinais primitivos, obtendo assim todas as
derao s pretenses cognitivas do homem.                    idias possveis. Esse projeto, derivado em
     COISAL, ENUNCIADO (in. Thing-senten-                     parte das idias expostas por R. Llio em Ars
 c). Na semitica contempornea, um enun-                    magna, j havia seduzido muitos pensadores
 ciado que no designa signos, mas coisas.                    dos scs. XVI e XVII (entre outros, Agripa de
 Lngua C: uma lngua constituda inteira-                    Nettesheim, A. Kircher, P. Gassendi, G. Dal-
 mente de enunciado C. (MORRIS, Foundatons                   garno) e tambm foi cultivado por continua-
 ofthe Theory of Signs, 1938,  5). Predicados                dores de Leibniz, como Wolff e Lambert.
 C: termos que designam propriedades observ-                     COMEO (lat. Inceptio; in. Beginning; fr.
 veis, isto , que podem ser determinadas pela                Dbut; ai. Anfang; it. Comnciament). Propria-
 observao direta (CARNAP, "Testablity and                  mente, o incio de uma coisa no tempo: que
 Meaning", 1936-37, em Readings in the Phil.                  pode coincidir ou no com o princpio (v.) ou
 of Science, 1953, pp. 69 ss.).                               com a origem(v.) da prpria coisa. Essa distin-
     COLETIVISMO (in. Collectivism, fr. Colec-                o  importante em alguns casos: p. ex., se-
 tivisme, ai. Kollektivismus; it. Collettivism). 1.          gundo S. Toms, a criao  matria de f en-
 Termo criado na segunda metade do sc. XIX                   quanto C. do mundo no tempo, mas no
 para indicar o socialismo no estatista, em opo-             enquanto produo do nada por parte de Deus
 sio ao estatista. Nesse sentido, foram coleti-             (S. Th., I, q. 46, a. 2). Hegel afirmou que o C.
 vistas o socialismo reformista anterior  guerra             da filosofia  relativo, no sentido de que o que
 e  coletivista o trabalhismo ingls na medida               aparece como C. , de outro ponto de vista,
 em que deseja uma sociedade sem desequi-                     resultado (Fil. do dir,  2, Zusatz). De qualquer
 lbrios de classe, portanto coletivizada, mas no            modo, segundo Hegel, o Absoluto encontra-se
 controlada pela fora por uma elite privilegiada             mais no resultado do que no C. porque este,
 que goze de um nvel de vida radicalmente di-                "da forma como era expresso antes e agora, 
 ferente do resto da populao.                               apenas universal", e o universal, nesse senti-
     2. Em sentido mais amplo, entende-se por                 do,  s o abstrato que no pode valer como
 C. toda doutrina poltica que se oponha ao in-               concretitude e totalidade; p. ex., as palavras
  dividualismo e que, em particular, defenda a                "todos os animais", que exprimem o universal
  abolio da propriedade privada e a coleti-                 de que trata a zoologia, no podem valer como
  vizao dos meios de produo. Nesse sentido,               toda a zoologia (Phnomen, des Geistes, Intr.,
  so coletivistas tanto o socialismo quanto o co-            II, 1). Apesar disso, a filosofia muitas vezes pro-
  munismo em todas as suas formas.                            curou o C. absoluto para faz-lo coincidir com
     COLIGAO (in. Colligation, fr. Colliga-                 o seu prprio "princpio", donde a procura do
  tion; ai.' Kolligation, it. Colligazion). Operao         "primeiro princpio" do filosofar.
  descritiva citada por Whewell (Novum Orga-                     CMICO (gr. TE^OOV; lat. Comicus; in. Co-
  num renovatum, 1840, III, caps. 1 e 4) para ex-             mic, fr. Comique, ai. Komisch; it. Cmico). O
  plicar o modo como  possvel reunir certo n-              que provoca o riso, ou a possibilidade de
  mero de detalhes em uma s proposio. Stuart               provoc-lo, atravs da resoluo imprevista de
CMICO                                                154                                      COMPAIXO

uma tenso ou de um conflito. A definio mais              imprevista ou, como teria dito Aristteles, er-
antiga do C.  de Aristteles, que o considerou             rada. O mesmo se pode dizer do C. das situa-
"algo de errado e feio, que no causa dor nem               es ou das expresses, que existe quando
dano" (Poet., 5,1449 a 32 ss.). O "errado" como             uma situao pode ser interpretada de dois
carter do C. significa o carter imprevisto, por-          modos diferentes ou pela equivocidade das
que irracional, da soluo apresentada pelo C.              expresses verbais; por isso,  sempre um
para um conflito ou uma situao de tenso. Es-             erro, uma soluo irracional dada a uma ex-
sas idias permaneceram substancialmente                    pectativa de soluo. Bergson tambm atribui
inalteradas na histria da filosofia. Hobbes insis-         ao C. um poder educativo e corretivo. "O rgi-
tiu no carter inesperado do C. e vinculou-o               do, o j feito, o mecanismo em oposio ao
conscincia da prpria superioridade (Dehom.,               gil, ao que  perenemente mutvel, ao vivo, a
XII,  7). Kant reduziu o C.  tenso e, portanto,          distrao em oposio  previso, enfim o
 sua soluo inesperada: "Em tudo o que                   automatismo em oposio  atividade livre,
capaz de provocar uma exploso de riso, deve                eis o que o riso destaca e gostaria de corrigir"
haver algo de absurdo (em que, portanto, o                  (Ibid., cap. II, no fim).
intelecto por si mesmo no pode achar nenhum                    COMO SE (ai. Ais ob). Expresso que se
prazer). O riso  uma afeio que deriva de                 repete muitas vezes nas obras de Kant para
uma espera tensa que, de repente, se resolve                indicar o carter hipottico ou simplesmente
em nada.  precisamente essa resoluo, que                  reguladoras, certas afirmaes. P. ex., as coi-
por certo nada tem de jubiloso para o intelecto,            sas-em-si podem ser pensadas por analogia
que alegra indiretamente, por um instante e                 "como se fossem substncias, causas, etc."
com muita vivacidade" (Crt. do Juzo,  54).               {Crt. R. Pura, Dialtica, V, d). O imperativo ca-
O Iluminismo viu no C. e no riso que o expri-               tegrico manda agir "como se o ser racional
me um corretivo contra o fanatismo, conside-                fosse um membro legislador no reino dos fins"
rando-o a manifestao do "bom humor" que                   (Grundlegung zur Met. derSitten, II). Devemos
Shaftesbury considerava o melhor modo de                    tratar as mximas da liberdade "como se fos-
corrigir o fanatismo (Letteron Enthusiasm, II).             sem leis da natureza" (Ibid., III). A faculdade
Hegel, ao contrrio, considerava-o expresso da             do juzo considera os objetos naturais "como se
posse satisfeita da verdade, da segurana que se            a finalidade da natureza fosse intencional" (Crt.
sente por estar acima das contradies e por                do Juzo,  68). O como se kantiano no  mera
no estar numa situao cruel ou infeliz. Em                fico:  simplesmente a interpretao, em ter-
outros termos, identificava-o com a felicidade              mos de operaes ou comportamentos, de pro-
segura, que pode at suportar o fracasso de                 posies cujos sentidos literal e metafsico es-
seus projetos. E nisso ele o distinguia do sim-             to alm da refutao e da confirmao, sendo,
ples risvel, em que via "a contradio pela qual           por isso, inexistentes. Vaihinger, em Filosofia
a ao se destri por si e o objetivo se anula              do como se (1911), interpretou-o como fico;
realizando-se" ( Vorlesungen berdiesthetik, ed.           sua tese  que todos os conceitos, categorias,
Glockner, III, p. 534). Essa noo hegeliana de             princpios e hipteses utilizados pelas cincias
C, no entanto,  uma idealizao romntica do               e pela filosofia so fces (v.) desprovidas de
fenmeno, mais do que uma anlise objetiva,                 validade terica, muitas vezes intimamente con-
 a exagerao do sentimento de superiorida-                traditrias, que so aceitas e mantidas s en-
de que Aristteles j observara no C, quando                quanto so teis. Outro kantiano, Paul Natorp,
considerou a comdia como "imitao de ho-                  restringiu o como se ao domnio da arte, que
mens ignbeis" (Poet., 5, 1448, 32). A noo tra-           representaria as coisas como se o que  ainda
dicional do C.  reafirmada pela anlise de                 devesse ser, ou como se o que deve ser fosse
Bergson (Le rire, 1900), que at hoje  conside-            na realidade (De Relgion nnerhalb der Gren-
rada a mais rica e precisa. Ele nota que o C.              zen der Humanitt, 1894).
obtido quando um corpo humano faz pensar
em um mecanismo simples, quando o corpo                        COMPAIXO (gr. eO; lat. Commiseratio;
prevalece sobre a alma, quando a forma sobre-               in. Pity, fr. Compassion, ai. Mitleid; it. Compas-
puja a substncia e a letra o esprito, ou quan-            sione). Participao no sofrimento alheio como
do a pessoa d a impresso de coisa; todos                  algo diferente desse mesmo sofrimento. Essa
estes so casos em que o C. est na frustrao              ltima limitao  importante porque a C. no
de uma expectativa atravs de uma soluo                   consiste em sentir o mesmo sofrimento que a
                                                            provoca. A emoo provocada pela dor de
COMPAIXO                                           155                               COMPATIBILIDADE

outra pessoa pode chamar-se C. s se for um               (Sympathie, cap. II,  3). Foi justamente essa
sentimento de solidariedade mais ou menos                 advertncia fundamental que tivemos em
ativa, mas que nada tem a ver com a identidade            mente ao caracterizarmos a C. no princpio desse
de estados emocionais entre quem sente C. e               verbete.
quem  comiserado. Aristteles definiu a C.                   COMPARATIVO (in. Comparative, fr. Com-
como "a dor causada pela viso de algum mal               pare, ai. Vergleichend; it. Comparativo). Os l-
destrutivo ou penoso que atinge algum que                gicos tradicionais chamam de questo compa-
no merea e que pode vir a atingir-nos ou a              rativa aquela em que se pergunta se algo 
algum que nos seja caro" (Ret, II, 8, 1385 b).           menor ou maior, melhor ou pior, etc, do que
Essa definio  repetida quase literalmente              outra coisa; p. ex.: "Se a justia  prefervel 
por Hobbes (Leviath., I, 6), Descartes (Pass.             fora" (JUNGIUS, Lgica, V, 2, 42). A Lgica de
de l'me, III,  185) e por Spinoza (Et., III, 22         Port-Royal denominou C. as proposies que
scol.). Segundo Adam Smith, a C.  um caso                instituem um confronto desse tipo (ARNAULD,
tpico da simpatia que constitui a estrutura de           Log., II, 10, 3); essa expresso persiste na
todos os sentimentos morais ( Theory of Moral             lgica tradicional (cf. B. ERDMANN, Logik, I,  40,
Sentments, III, 1). Para Schopenhauer, a C.  a          229).
prpria essncia do amor e da solidariedade                   COMPATIBILIDADE (in. Consistency, fr.
entre os homens, porque amor e solidarieda-               Compatibilit; ai. Widersprucbslosigket; it.
de explicam-se somente a partir do carter                Compatibilit). Ausncia de contradio como
essencialmente doloroso da vida (Die Welt, I,             condio de validade dos sistemas dedutivos.
 55 66-67).                                               "Toda verdade", dizia Aristteles, "deve estar
    Em oposio a essa tradio, h uma outra             de acordo consigo mesma sob todos os aspec-
 que v na C. um elemento negativo da vida                tos" (An. pr, I, 32, 47 a 8). Todavia, foi s na
 moral. Essa segunda tradio inicia-se com os            matemtica moderna, a partir de Hilbert, que a
 esticos (STOBEO, Ecl, II, 6, 180) e passa por           C. interna de um sistema dedutivo passou a ser
 Spinoza. Este considera que "no homem que                o nico critrio de validade do prprio sistema.
 vive segundo a razo a C. , por si mesma,               Segundo esse ponto de vista, diz-se que h C.
 ruim e intil", porque nada mais  que dor; por          no sistema em que no h nenhum teorema
 isso "o homem que vive segundo a razo esfor-            cuja negao seja um teorema; ou no qual nem
 a-se o mximo possvel para no ser tocado              todos os enunciados so teoremas. Essa segunda
 pela C", bem como tampouco pelo dio, pelo               frmula  ainda mais geral (cf. A. CHURCH, Intro-
 riso ou pelo desprezo, porque sabe que tudo              ducton to Mathematcal Logic, 1959,  17).
 deriva da necessidade da natureza divina (Et.,           Desse ponto de vista, a demonstrao da C.
 IV, 50, corol. scol.). Essa apreciao encontra          torna-se a prpria demonstrao da validade de
 expresso extrema nas invectivas de Nietzsche            um sistema bem como da existncia (v.) das
 contra a C: "Esse instinto depressivo e conta-           entidades a que ele faz a referncia. Segundo
 gioso debilita os outros instintos que querem            Hilbert, a demonstrao da C. no deveria fazer
 conservar e aumentar o valor da vida;  uma              referncia a um nmero infinito de proprieda-
 espcie de multiplicador e de conservador de             des estruturais das frmulas ou a um nmero
 todas as misrias, por isso um dos instrumentos          infinito de operaes conformes. Nesse senti-
 principais da decadncia do homem" (Anti-                do, a demonstrao deveria ser finitista, por-
  cristo, Ap. 7). O trao comum dessas condena-           que s assim seria absoluta. Mas justamente a
 es da C.  consider-la como misria ou dor            no-possibilidade da demonstrao absoluta da
  em si mesma; alis, segundo a expresso de              C. dos sistemas dedutivos foi provada pelo
  Nietzsche, como algo que conserva ou multipli-          teorema de Gdel (1931). O teorema de Gdel
  ca a misria e a dor. Scheler apontou o equvo-         no exclui que se possa provar a C. de um sis-
  co desse pressuposto que, na verdade, confun-           tema dedutivo tomado como modelo, mas, por
  de a C. (que  simpatia e participao emotiva)         sua vez, a validade do modelo no poder ser
  como contgio emotivo. Pelo contrrio, obser-           demonstrada. A C. "absoluta" foi, portanto, ex-
  va Scheler, "a C. est ausente sempre que hou-          pulsa do domnio da matemtica pelo teorema
  ver contgio do sofrimento, pois ento o sofri-         de Gdel, que estabelece, por isso mesmo, os
  mento no ser mais de outro, mas meu, e eu             limites do chamado formalismo. Realmente,
  acredito poder subtrair-me a ele evitando o             nenhum sistema formalista pode oferecer a ga-
  quadro ou o aspecto do sofrimento em geral"             rantia da sua prpria absoluta compatibilidade.
COMPLEMENTARIDADE                                      156                                    COMPOSSIVEL


Cf. W. V. O. QUINE, Methods of Logic, 1950; J.               o ser e as suas manifestaes, na medida em
LADRIRE, Les limitations internes des forma-                que estas esto contidas no ser e o ser se des-
lismes, 1957; E. NAGEL--J. R. NEWMANN, GdeVs                dobra ou se manifesta nelas. Nicolau de Cusa
Proof, 1958 (v. MATEMTICA, PROVA).                          diz que a unidade infinita  "a reunio (compli-
    COMPLEMENTARIDADE (in. Complementa-                      cati) de todas as coisas", que o movimento 
rity, fr. Complmentarit, ai. Komplementarheit;             "o desdobramento (explicati) do repouso" e
it. Complementarit). Com expresso extrada                 que Deus " a reunio (complicati) e o des-
da geometria (chamam-se complementares dois                  dobramento (explicati) de todas as coisas; por
ngulos cuja soma  igual a um ngulo reto)                  ser reunio (complicati) delas, todas as coisas
denominam-se complementares dois concei-                     esto nele ao passo que, por ser o desdobra-
tos opostos que se corrigem reciprocamente e                 mento (explicati), ele  em todas as coisas o
se integram na descrio de um fenmeno. As-                 que elas so" (De docta ignor, II, 3).
sim, p. ex., chamam-se complementares os                        COMPORTAMENTO (in. Bebavior; fr.
conceitos de onda e de corpsculo para a des-                Comportement; ai. Verhaltern; it. Comportamen-
crio dos fenmenos pticos na moderna                      to). Toda resposta de um organismo vivo a
mecnica quntica. O princpio de C. formula-                estmulos, que seja: le objetivamente observvel
do por Bohr exprime a incompatibilidade da                   por um meio qualquer; 2 uniforme. O termo
mecnica quntica com a concepo clssica                   C. foi introduzido por Watson por volta de
da causalidade (v.). Exprime-se assim: "Uma                  1914 e hoje  de uso corrente no significado
descrio espcio-temporal rigorosa e uma se-                ora exposto. Inicialmente, serviu para dar n-
qncia causai rigorosa de processos indivi-                 fase  exigncia de que a psicologia e, em geral,
duais no podem ser realizadas simultaneamen-                qualquer considerao cientfica das atividades
te; ou uma ou outra deve ser sacrificada"                    humanas ou animais assumissem como objeto
(D'ABRO, New Physics, p. 951).                               elementos observveis objetivamente, isto ,
    COMPLEXO (gr. a-uu.7te7tAf7u.evov; lat. Com-             no acessveis somente  "intuio interna" ou
plexum; in. Complex, fr. Complexe, ai. Komplex,               "conscincia". Atualmente; esse termo  de
it. Complesso). Os esticos, que introduziram                uso geral. Deve ser distinguido: 1Q de ao,
esse termo, entenderam por ele as proposi-                   porque, ao contrrio desta, o C: a) no  uma
es compostas, isto , constitudas ou por uma              manifestao de um princpio particular, p. ex.,
s proposio tomada duas vezes (p. ex.: "se                da vontade ou da atividade prtica, mas de
dia,  dia"), ou por proposies diferentes uni-             todo o organismo animal; b~)  constitudo uni-
das por um ou mais conectivos (p. ex.: " dia e              camente por elementos observveis e pass-
h luz", "Se h dia, h luz", etc.) (SEXTO EMPRICO,         veis de descrio em termos objetivos; c) 
Adv. math., VIII, 93; DIG. L, VII, 72). Na lgi-            uniforme, isto , constitui a reao habitual e
ca medieval, esse termo era generalizado e en-               constante do organismo a uma situao deter-
tendeu-se com ele ou um termo composto por                   minada; 2a de atitude, que  o C. especifica-
palavras diferentes, como "homem branco",                    mente humano e inclui, portanto, elementos
"animal racional", etc, ou a proposio simples              antecipatrios e normativos (projeto, previso,
composta do nome e do verbo (p. ex., "o ho-                  escolha etc); 3Q de conduta,  qual pode faltar
mem corre", etc). Nesse caso, o oposto de com-               o carter de uniformidade.
plexo, indicado pelo termo incomplexum (isto                    COMPOSIO (in. Composition; fr. Com-
, "simples")  o termo isolado ou qualquer ter-             posion, ai. Komposition; it. Composizione).
mo da proposio, mesmo se composto por                      Para os lgicos medievais (p. ex., PEDRO HIS-
dois ou mais termos (como, p. ex., o sujeito                 PANO, Summ. log., 7.25), compositio designa o
"homem branco" na proposio "o homem                        paralogismo ou falcia (v.) derivada do uso
branco corre") (OCKHAM, Expositio super artem                sinttico que torne a frase ambgua. , pois,
veterem, foi. 40 b). Essas noes repetem-se                 uma espcie de anfibolia (v.).              G. P.
com poucas diferenas em Vicente de Beauvais                    COMPOSSVEL (fr. Compossible, ai. Kom-
(Speculum doctrinale, 4) e em Armando de                     possibel; it. Compossibile). Leibniz designou
Beauvoir (De declaratone difficilum termi-                 com esse termo o possvel que se coaduna
norum, I, 1). Cf. TOMS, S. Th., II, 2, q, 1, a. 2.
                                                             com as condies de existncia do universo
    COMPLICAO, EXPLICAO (lat Com-                        real, isto , a possibilidade real. O possvel  o
plicati, Explicati). Termos empregados por                 que  concebvel enquanto desprovido de con-
Nicolau de Cusa para indicar a relao entre                 tradio; o C.  o que pode ser real. " ver-
COMPREENDER                                          157                                    COMPREENDER


dade que o que no , no foi e no ser,                  concorda com a razo no sentido de !'que se
no  absolutamente possvel, se possvel                  pode mostrar, quando necessrio, que no h
for tomado como compossivel... Pode ser que                contradio entre o dogma e a razo, refutando
Deodoro, Abelardo, Wicleff e Hobbes tenham                 as objees daqueles que pretendem que o
tido essa idia na cabea sem esclarec-la bem"            prprio dogma  um absurdo" (Tbod.,  60).
(Op., ed. Erdmann, p. 719). V. POSSVEL.                       2. Na filosofia contempornea, a distino
    COMPREENDER (lat. Intelligere; in. Un-                 entre a esfera do C. e a do conhecer racional
derstanding; fr. Comprendre, ai. Verstehen; it.            nasceu da exigncia de distinguir o procedi-
Comprender). A noo do C. como atividade                 mento explicativo das cincias morais ou his-
cognoscitiva especfica, diferente do conheci-             tricas do procedimento das cincias naturais.
mento racional e de suas tcnicas explicativas,            Essa exigncia nasceu da dificuldade de aplicar
pode ser considerada em duas fases histricas              a tcnica causai, prpria da cincia natural do
diferentes, a primeira na filosofia medieval ou            sc. XIX, ao domnio dos eventos humanos,
na escolstica em geral, a segunda na filosofia            como so os fatos histricos, e, em geral, ao
contempornea.                                             homem e s relaes inter-humanas. Com base
    1. Toda a Escolstica se funda no problema             nessa tcnica, considera-se "racionalmente
de "C." a verdade revelada. Mas sobre o valor              explicado" aquilo cuja gnese causai necessria
desse C. os prprios escolsticos no estavam              pode ser mostrada, isto , aquilo cuja ocorrn-
de acordo. Alguns identificaram o C. com o co-             cia se pode demonstrar necessria ou infalivel-
nhecimento racional e com a sua tcnica de-                mente previsvel quando se d a causa (v.). O
monstrativa e, sob esse aspecto, a compreen-               carter necessrio da gnese causai, na medida
sibilidade dos dogmas mostrou-se como a                    em que se conforma a uma lei imutvel, e o ca-
possibilidade de demonstr-los, isto , de equi-           rter de uniformidade mecnica que os eventos
par-los a verdades racionais. Anselmo e Abe-              causalmente explicveis assumem por efeito de
lardo parecem estar de acordo em entender as-              tal lei tornam bastante difcil transferir esse tipo
sim o intelligere que julgam indispensvel                de explicao para o mundo do homem, assim
prpria f.  bvio que, nesse caso, o intellige-          como tornam difcil explicar os fatos histricos
 re vo  absolutamente um C. no sentido espe-             e, em geral, qualquer fato que consista em uma
cfico do termo. Uma esfera especfica do                  relao com o homem. A aplicao da tcnica
 intelligere como compreender, em sua dife-                causai a tais fatos implicaria a sua reduo a ca-
rena do conhecimento demonstrativo foi, po-               sos de uniformidade mecnica, devidos  ao
rm, delineada por S. Toms na tentativa de                de leis necessitantes. De tal modo que, quando
determinar o papel da razo em face da f. Esse            nos ltimos decnios do sc. XIX as cincias
papel consiste: ls em demonstrar os prembu-               histricas, ou, como ento se dizia, as "cin-
los da f; 2S em esclarecer, mediante similitudes,         cias do esprito", que haviam atingido suficiente
as verdades da f; 3S em rebater as objees               solidez metodolgica e grande riqueza de resulta-
que se fazem contra tais verdades (In Boet. De             dos, comearam a propor-se o problema do
 Trin., a. 3). Obviamente, a segunda e a terceira          mtodo e procuraram esclarec-lo criticamente,
parte dessa tarefa, que no so de natureza                surgiu com clareza a exigncia de vincular esse
demonstrativa, constituem a esfera do com-                 mtodo a tcnicas e procedimentos diferentes
preender. E com efeito, segundo S. Toms, as               dos usados nas cincias naturais. Nesse senti-
verdades fundamentais de f, a Trindade, a                 do, o "C." como procedimento prprio das
Encarnao, a Criao, so compreensveis nes-             cincias do esprito, foi contraposto ao "expli-
se sentido: no so demonstrveis (nesse caso              car", baseado na causalidade e prprio das
seriam verdades de razo), mas podem ser                   cincias naturais.
esclarecidas por meio de analogias e, especial-               O primeiro a formular claramente essa dis-
mente, sustentadas contra as objees. Essa po-            tino foi Dilthey, em sua Introduo s cin-
sio tomista constitui a melhor e a mais difun-           cias do esprito (1883). Dilthey observou que as
dida soluo do problema do C. que nasceu na               nossas relaes com a realidade humana so
Escolstica. Era tambm defendida no sc.                  de todo diferentes das nossas relaes com a
XVIII por Leibnz contra as objees de Bayle              natureza. A realidade humana, tal como apa-
e de Toland. Segundo Leibniz, o dogma  "in-               rece no mundo histrico-social,  tal que po-
compreensvel" s no sentido de que no se                 demos compreend-la de dentro, porque
pode demonstrar, mas pode-se dizer que ele                 podemos represent-la sobre o fundamento
COMPREENDER                                          158                                  COMPREENDER


dos nossos prprios estados. A natureza, ao                rificamos com um grau diferente de preciso,
contrrio,  muda e permanece sempre como                  segundo o material das fontes" (.Gesammelte
algo de externo. Portanto, nas cincias do esp-           Aufstze zur Wissenschaftslehre, 1951, p. 67).
rito, que tm por objeto a realidade humana, o             Todavia, o conceito de causalidade individual,
sujeito no se encontra diante de uma realida-             em que Weber insistia,  pouco slido, j que a
de estranha, mas diante de si mesmo, porque                causa, enquanto aquilo que torna o efeito infa-
homem  quem indaga e homem  que                         livelmente previsvel, tem com o prprio efeito
indagado. "O C", diz Dilthey, " a descoberta              uma relao necessria e constante, por isso
do eu no tu... O sujeito do saber , aqui, idnti-         essencialmente uniforme e universal. A exign-
co ao seu objeto e este  o mesmo em todos os              cia, apresentada por Weber, de eliminar ou di-
graus de sua objetivao" (Gesammelte Schrif-              minuir o contraste entre explicao cientfica e
ten, VII, p. 191). Desse ponto de vista, Dilthey           compreenso histrica ou inter-humana, pde
apontou como instrumento prprio do C. a                   ser satisfeita s depois que a prpria cincia
Erlebnis, ou experincia vivida ou revivescente            abandonou o conceito clssico de causalidade.
que permite apreender a realidade histrica na             Entrementes, a exigncia de uma tcnica cog-
sua individualidade viva e nos seus caracteres             noscitiva que fosse diferente da tcnica expli-
especficos. Depois de Dilthey, na corrente do             cativa e causai era freqentemente reconhecida
historicismo alemo que continua a sua obra, o             pela sociologia. Znanecki invocava um "coefi-
C. permanece como o rgo do conhecimento                  ciente humanstico" na pesquisa sociolgica
histrico e, em geral, do conhecimento inter-              e ressaltava a importncia da experincia
pessoal, enquanto no suscetvel de explicao             vicariante como fonte de dados sociolgicos
causai. Todavia, sobre a prpria natureza do C.            (Method of Sociology, 1934, p. 167). Sorokin
no h acordo. Rickert entende por C. o apre-              reputava inaplicvel o mtodo causai de interpre-
ender "o sentido de um objeto, isto , a relao           tao dos fenmenos culturais (Social and Cul-
do prprio objeto com um valor determina-                  tural Dynamic, 1937, p. 26). E Maclver, por
do" (Die Grenzen der naturwissenschaftlichen               sua vez, reconhecia a inaplicabilidade da fr-
Begriffsbildung, 1896-1902). Simmel considera              mula causai da mecnica clssica  conduta
o C. como algo que vise a reproduzir a vida ps-           humana (Social Causaton, 1942, p. 263).
quica de uma outra personalidade e, portanto,                  Os filsofos, por sua vez, no encontrando
como o ato de projeo mediante o qual o sujei-            lugar para o C. entre as atividades racionais
to cognoscente atribui um estado representati-             que pareciam monopolizados pelas tcnicas da
vo ou volitivo seu a uma outra personalidade               explicao causai, acabaram vinculando-o  vida
(Die Probleme der Geschchtsphilosophie, 1892,             emotiva. Assim fizeram, principalmente, Scheler
p. 17). Por sua vez, Max Weber, embora insis-              e Heidegger, aos quais se devem, contudo, as
tisse na diferena entre explicao histrica e            mais importantes determinaes da noo do
explicao causai, quis preencher ou diminuir              C. Para Scheler, essa noo serve para fundar
o abismo que se estava formando entre os dois              as relaes humanas -- que so, de resto, aque-
procedimentos, afirmando que a prpria expli-              las pelas quais o eu reconhece o outro eu --,
cao histrica  causai, mas uma explicao               no a partir de uma inferncia ou da projeo
causai especfica, que visa a reconhecer o nexo            que o eu faa de suas experincias interiores
particular e singular entre determinados fen-             no outro, mas a partir dos fenmenos expres-
menos e no a sua dependncia de uma lei                   sivos. Assim, Scheler afirma que "a existncia
universal. "Nossa necessidade causai", escreve             das experincias interiores, dos sentimentos
ele, "pode encontrar na anlise da atitude hu-             ntimos dos outros, -nos revelada pelos fen-
mana uma satisfao qualitativamente diferen-              menos de expresso: ou seja, no adquirimos
te, que implica, ao mesmo tempo, uma ento-                 conscincia dela em decorrncia do raciocnio,
nao qualitativamente diferente do conceito               mas de modo imediato, atravs de uma 'per-
de racionalidade. Para a sua interpretao, po-            cepo' originria e primitiva. Percebemos o
demos propor-nos, pelo menos como funda-                   pudor de algum no seu rubor, a alegria no
mento, o objetivo, no s de tornar a atitude              seu riso" (Sympatbie, I, cap. II). Portanto, no
penetrvel e possvel em relao ao nosso                   verdade que conheamos em primeiro lugar
saber nomolgico, como tambm de compreen-                 o corpo dos outros e que s a partir dele infi-
d-la, isto , descobrir um motivo concreto                ramos a existncia de outros espritos. S o
que possa ser revivido interiormente e que ve-             mdico e o naturalista conhecem to-somente
COMPREENDER                                         159                                 COMPREENSO 2

o corpo, porque abstraem, artificialmente, os             lhes ocupada por tcnicas que pouco ou nada
fenmenos de expresso, que so a manifesta-              tinham que ver com o compreender. Os resul-
o primria e imediata dos outros espritos,             tados obtidos por Scheler e Heidegger, contu-
mas so esses fenmenos que esto na base                 do, so muito importantes: os primeiros negati-
da compreenso emotiva. Esta, segundo Scheler,            vamente, permitindo subtrair o C.  esfera do
deve ser distinguida da fuso emotiva porque              imediato e do inexprimvel, e os segundos po-
implica a alteridade dos sentimentos. P. ex., o           sitivamente, porque vinculam o C.  noo de
sofrimento do meu prximo e a minha com-                  possibilidade. Na anlise de Heidegger, o C.
preenso simptica so dois fatos diferentes e            no s foi generalizado, porque se tornou apli-
 justamente essa diferena que estabelece a              cvel s coisas, alm de s pessoas, como tam-
possibilidade de compreenso: nada tem a ver              bm, por isso mesmo, deixou de ser antagni-
com ela o fato de eu e o meu vizinho padecer-             co ao conceito de explicao. Compreenso e
mos o mesmo mal. As anlises de Scheler con-              explicao podem ser identificadas pela noo
triburam para fixar os seguintes pontos: 1Q o C.         de possibilidade e ser entendidas como decla-
no implica a identidade das pessoas entre as             rao da "possibilidade de...", onde o que ficou
quais ocorre a identidade dos estados de alma             pendente pode ser preenchido, nos diversos
ou dos sentimentos; implica, antes, a alteri-             campos de indagao, por diversas espcies
dade entre as pessoas e entre os seus respec-             de projetos e de previses. Mas essa aproxima-
tivos estados; 2Q a compreenso funda-se na               o entre explicao e compreenso e essa sua
relao simblica que existe entre as expe-               unificao no conceito de "possibilidade de..."
rincias internas e a sua expresso: relao que          eram sancionadas pelos prprios progressos
constitui uma espcie de "gramtica universal",           das cincias naturais, que abandonavam a no-
vlida para todas as linguagens expressivas, e            o clssica de causalidade e, portanto, se des-
que fornece o critrio ltimo da compreenso              ligavam da tcnica explicativa causai. A fsica
inter-humana. Como Scheler, Heidgger vincu-               relativista e a teoria quntica davam o passo
la o fenmeno da compreenso sobretudo                   decisivo para a eliminao da anttese entre ex-
esfera emotiva, mas acrescenta  anlise desse            plicao e compreenso. Como nota Carnap,
fenmeno uma observao de importncia fun-               na mecnica quntica "C. uma expresso, um
damental, ligando-o  noo de possibilidade.             enunciado, uma teoria significa a capacidade
Heidegger, com efeito, considera a compreen-              de us-la para a descrio de fatos conhecidos
so essencial  existncia humana (ao ser-ai), j         ou para a previso de fatos novos" (Foun-
 que ela significa que a existncia , essencial-         dations of Logic andMathematics, 1939,  25).
 mente, possibilidade de ser, existncia pos-             A "capacidade de" , portanto, o que exprime o
 svel. "Usamos freqentemente a expresso 'C.            significado da compreenso na prpria fsica.
 alguma coisa' no sentido de 'ser capaz de enca-          Mas a possibilidade da previso provvel tam-
 rar alguma coisa', 'ser capaz de', 'poder alguma         bm  tudo aquilo a que se reduz hoje a expli-
 coisa'... Na compreenso, est posto, essencial-         cao cientfica (v. EXPLICAO). Desse modo, a
 mente, o modo de ser do ser-a enquanto pu-              diferena radical que parecia solidamente es-
 der ser. O ser-a no  uma simples presena             tabelecida pela metodologia cientfica do sc.
 que, adicionalmente, possua o requisito de po-           XIX, entre cincia do esprito e cincia da na-
 der algo, mas, ao contrrio,  primariamente             tureza, acabou por desaparecer. O que esses
 um ser possvel". Portanto, "a compreenso               dois grupos de disciplinas procuram fazer, em
 tem em si a estrutura existencial que ns cha-           relao a seus respectivos objetos,  no fundo
 mamos projeto" (Sein und Zeit,  31). Como               a mesma coisa: determinar as possibilidades
 possibilidade e projeto, a existncia humana             de descrever ou de antecipar (projeto, uso, frui-
 possui uma transparncia, a existncia huma-             o) que seus objetos comportam.
 na possui uma transparncia para si mesma, que
 Heidegger chama de viso e que  a primeira                 COMPREENSO1 (in. Understanding- fr.
 manifestao da compreenso. A intuio e o              Comprhenson; ai. Verstehen-, it. Compren-
 pensamento so, por sua vez, dois derivados              sione). O ato ou a capacidade de compreen-
 distantes da prpria compreenso (Ibid.,  31).          der (v.).
     Est bem claro que a referncia do C.  vida            COMPREENSO2 (in. Comprehension; fr.
 emocional, feita por Scheler e Heidegger, era            Comprhension; ai. Inhalt; it. Comprensione).
 motivada pelo fato de a vida racional parecer-           1. A lgica de Port-Royal introduziu a distino
                                                          entre C. e extenso do conceito: distino gros-
COMPREENSO 2                                         160                                  COMPROMISSO


50 modo idntica  que ser expressa por Stuart             (que so denotados), mas todos os quadrados
Mill com a dade conotao-denotao ou pela                possveis ou imaginveis, salvo os redondos
lgica moderna com a dade intenso-exten-                  (Analysis of Knowledge and Valuation, 1950,
so. Dizia Arnauld: "Nas idias universais,  im-           pp. 39-41).
portante distinguir bem duas coisas, a C. e a ex-              COMPROMETIMENTO. V. COMPROMISSO.
tenso. Chamo de C. da idia os atributos que                   COMPROMISSO (in. Commitment; fr. En-
ela inclui em si e que no podem ser retirados              gagement; ai. Verbindlchkeit; it. Impegn). Es-
sem destru-la; assim, a C. da idia de tringulo           colha fundamental que dirija a conduta ou o
contm extenso, figura, trs linhas, trs ngu-            procedimento de investigao num campo
los e a igualdade desses trs ngulos a dois re-            qualquer. Essa noo foi empregada pelos lgi-
tos, etc. Chamo de extenso da idia os sujeitos            cos para indicar a escolha preliminar da esp-
aos quais essa idia convm que tambm se                   cie de entidade a que se referem os clculos l-
chamam inferiores de um termo geral que, em                 gicos, ou seja, das variveis que se repetem
relao a eles,  chamado superior; assim, a                nesses clculos. Diz Quine: "Comprometemo-
idia do tringulo, em geral, estende-se a todas            nos com uma ontologia que contm nmeros
as diversas espcies dos tringulos" (Log., I,              quando dizemos que h nmeros primos maio-
6). Essa distino encontrava alguns preceden-              res que um milho; comprometemo-nos com
tes na lgica medieval, mas foi expressa de                 uma ontologia que contm centauros quando
modo aproximado s a partir do sc. XVI (p.                 dizemos que existem centauros; e compro-
ex., por CAJETANUS, In Porphyrii Praed., ed.                metemo-nos com uma ontologia que contm
1579,1, 2, p. 37; cf. HAMILTON, Lectures on Logic,          Pgaso quando dizemos que Pgaso existe"
I, 1866, p. 141).  prpria distino vinculava-            (From a Logical Point of View, I). Mesmo ob-
se a determinao da relao inversa que h                 jetando contra o uso do termo "ontologia",
entre C. e extenso assim definidas-,  medida              Carnap manteve esse conceito: "A escolha de
que a C. se empobrece, isto , torna-se mais                certa estrutura lingstica e, em particular, a
geral, a extenso se enriquece, isto , o con-              deciso de usar certos tipos de variveis so
ceito se aplica a mais coisas; e vice-versa. Es-            decises prticas tanto quanto a escolha de um
sas distines e observaes foram retomadas                instrumento; dependem principalmente dos ob-
pela lgica, especialmente alem, do sc. XIX               jetivos para os quais se pretende usar o instru-
(cf., p. ex., LOTZE, Logik, 1843,  15), permane-           mento -- nesse caso, a linguagem -- e de suas
ceram constantes e por vezes foram expressas                propriedades" {Meaning and Necessity,  10).
mediante o par sinnimo conotao-denota-                   Um compromisso nesse sentido  a base de
o, especialmente por escritores ingleses.  parte         qualquer determinao do significado de exis-
a tentativa de distinguir C. de conotao (v.)              tncia (v.): a diferena entre as vrias corren-
como esfera de todas as notas possveis, alm               tes da matemtica (v.) pode ser reduzida 
das expressamente conotadas pela definio,                 diferena entre os compromissos ontolgicos
a noo de C. permaneceu constante na lgica                que lhes servem de fundamento.
do sc. XIX.
                                                                Na filosofia existencialista, esse termo foi
   2. s vezes, na lgica contempornea, a C.              usado para indicar o fato de que qualquer
assumida como anloga da denotao ou ex-                   esclarecimento que o homem possa obter so-
tenso, e no da conotao ou intenso. Assim,              bre as determinaes da existncia  um com-
Lewis define a C. de um termo como "a classifi-             promisso (uma deciso ou uma escolha) com
cao de todas as coisas coerentemente pen-                 tal determinao. Nesse sentido, Heidegger dis-
sveis, s quais o termo se aplique correta-                se que o ser do homem  aquilo em que o ho-
mente", onde por "coerentemente pensveis"                  mem est est sempre envolvido, que est sempre
se entendem todas as coisas cuja assero da                conclamando o homem para uma deciso ou
existncia no implique, explcita ou implicita-            para uma escolha (Sein und Zeit,  9). Jaspers
mente, uma contradio. Nesse significado, o                contraps ao "descompromisso" da arte pe-
termo se distinguiria de denotao ou extenso              rante a vida real o compromisso da filosofia, que
porque essa  a classe de todas as coisas reais             atua dentro da vida {Phil, I, p. 338). Sartre viu
ou existentes s quais o termo se aplica corre-             no engajamento o nascimento do projeto fun-
tamente. A denotao estaria, portanto, inclu-             damental que  a expresso da liberdade hu-
da na C; mas no vice-versa. A C. de "qua-                  mana: "Meu projeto ltimo e inicial  sempre o
drado" inclui no s os quadrados existentes                esboo de uma soluo do problema do ser.
COMUM, SENSO                                         161                                   COMUNICAO


Mas essa soluo no  primeiro conhecida e                ser-com que compreende. Ela realiza a partilha
depois realizada: ns somos essa soluo,                  da situao emotiva comum e da compreenso
fazemo-la existir com o nosso engajamento e                do ser-com. C. no  a transferncia de expe-
s podemos atingi-la vivendo-a" (L'tre et le              rincias vividas (no importa quais, p. ex., opi-
nant, p. 540).                                            nies e desejos) do interior de um sujeito para
  COMUM, SENSO. V. SENSO COMUM.                            o interior de outro sujeito. A co-presena est j
  COMUNICAO (in.           Communication; fr.            essencialmente revelada na situao emotiva
Communcation, ai. Kommunikation; it. Co-                  comum e na compreenso comum" (Sein und
muncazione). Filsofos e socilogos utilizam              Zeit,  34). Em outros termos, para Heidegger,
hoje esse termo para designar o carter espec-            C.  j coexistncia porque a co-participao
fico das relaes humanas que so ou podem                 emotiva e a compreenso dos homens entre si
ser relaes de participao recproca ou de               fazem parte da prpria realidade do homem, o
compreenso. Portanto, esse termo vem a ser                ser do ser-a. Jaspers, que est substancialmente
sinnimo de "coexistncia" ou de "vida com os              de acordo com Heidegger, a partir da passa a
outros" e indica o conjunto dos modos especfi-            opor-se s cincias empricas (psicologia, an-
cos que a coexistncia humana pode assumir,                tropologia, sociologia) que pretendem analisar
contanto que se trate de modos "humanos",                  as relaes de comunicao. Segundo Jaspers,
isto , nos quais reste certa possibilidade de             o defeito delas  que devem limitar-se 
participao e de compreenso. Nesse sentido,              considerao das relaes humanas e no das
a C. nada tem em comum com a coordenao e                 possveis, ao passo que a C. , precisamen-
com a unidade. As peas de uma mquina,                    te, possibilidade de relaes. Nesse sentido, s
observou Dewey, esto estreitamente coorde-                pode ser esclarecida pela filosofia (Phil., II,
nadas e formam uma unidade, mas no for-                   cap. III). Dewey, ao contrrio, que comparti-
mam uma comunidade. Os homens formam                       lha com Heidegger e Jaspers o ponto de vista
uma comunidade porque se comunicam, isto ,                de que a C. constitui essencialmente a realida-
porque podem participar reciprocamente dos                 de humana, considera-a, como uma forma espe-
seus modos de ser, que assim adquirem novos                cial de ao recproca da natureza e acredita,
e imprevisveis significados. Essa participao            portanto, que pode e deve ser estudada pela
diz que uma relao de C. no  um simples                 pesquisa emprica (Experience and Nature,
contato fsico ou um embate de foras. A rela-             cap. V).
o entre o predador e sua presa, p. ex., no                 Se na filosofia oitocentista, com o predom-
uma relao de C, ainda que s vezes isso pos-             nio das concepes absolutistas (o prprio
sa ocorrer entre os homens. A comunicao en-              positivismo falava da Humanidade como de
quanto caracterstica especfica das relaes hu-          um todo), eliminava-se a noo de C, na fi-
manas delimita a esfera dessas relaes que-              losofia dos scs. XVII e XVIII essa noo fora ela-
las em que pode estar presente certo grau de               borada, mas para responder a um problema di-
livre participao. O destaque do conceito de              ferente: o da "C. das substncias", isto , da
C. na filosofia contempornea deve-se: le ao               substncia alma com a substncia corpo, e reci-
abandono da noo de Autoconscincia infi-                 procamente, problema este nascido com o
nita, Esprito Absoluto ou Superalma: noo que,           cartesianismo, que distinguira pela primeira
implicando a identidade de todos os homens,                vez, de modo ntido, as duas espcies de subs-
torna, obviamente, intil o prprio conceito de            tncia. O prprio Descartes admitira como vli-
C. inter-humana; 2S ao reconhecimento de que               da a noo corrente de ao recproca entre as
as relaes inter-humanas implicam a alte-                 duas substncias, que, na sua opinio, tocavam-
ridade entre os homens e so relaes poss-               se na glndula pineal (Pass. de 1'me, I, 32).
 veis-, 3e ao reconhecimento de que tais relaes          Por outro lado, os ocasionalistas consideraram
no se acrescentam, num segundo momento,                  impossvel a ao de uma substncia finita so-
realidade j constituda das pessoas, mas en-              bre a outra, porque nenhuma substncia finita
tram a constitu-la como tal.                              pode agir, isto , ser causa; e assim julgaram
   Nesses termos, o conceito de C. faz parte               que Deus mesmo intervm para estabelecer a
de filosofias dspares. Segundo Heidegger, o               relao entre a alma e o corpo, entre os vrios
conceito de C. deve ser entendido "em sentido              corpos ou entre as vrias almas, aproveitando a
ontologicamente lato", isto , como "C. existen-           ocasio que se oferece com a mudana ocorrida
cial". "Nessa ltima constitui-se a articulao do         numa substncia para produzir mudanas nas
COMUNIDADE                                          162                                       COMUNISMO

outras substncias. Era essa a teoria das causas          sociedade, entra-se como em terra estranha.
ocasionais, sustentada, entre outros, por Male-           Costuma-se prevenir o adolescente contra a m
branche (Recherche de Ia vrit, III, II, 3).             sociedade, mas a expresso 'm C soa como
Leibniz considerou a primeira teoria impossvel           contradio" (Gemeinschaft und Gesellschaft, I,
e a segunda, miraculosa; entendeu a C. como                1). Assim expresso, esse conceito inclui bvias
harmonia preestabelecida (v.), estendendo-a               conotaes de valor, pelas quais se presta pou-
at entender a relao entre todas as partes do           co ao uso objetivo, pois parece claro que no
universo, isto , entre todas as mnadas que o            existe nenhuma C, pura e nenhuma sociedade
compem: a harmonia  preestabelecida por                 pura, e que a necessidade de fazer uma distin-
Deus de tal modo que a cada estado de uma                 o nesse sentido no  sugerida pela obser-
mnada corresponde um estado das outras m-               vao, mas pela aspirao a um ideal. Portanto,
nadas (Op., ed. Gerhardt, IV, pp. 500-501).               ao ser utilizado pelos socilogos posteriores
Obviamente, a teoria de Leibniz no  a soluo           (entre os quais Simmel, Cooley, Weber, Dur-
do problema da C; tem, de resto, o objetivo de            kheim, e outros), esse significado foi sofrendo
tornar intil a prpria C, assegurando a relao          transformaes, at assumir o uso corrente na
preordenada das mnadas entre si. O prprio               sociologia contempornea, de distino entre
Leibniz nota que sua doutrina faz da alma uma             relaes sociais de tipo local e relaes de tipo
espcie de mquina imaterial (Ihid., p. 548).             cosmopolita, distino esta puramente descriti-
Esse trao revela quanto essa doutrina est dis-          va entre comportamentos vinculados  C. res-
tante da noo contempornea de C, que,                   trita em que se vive e comportamentos orien-
como dissemos, nunca  automtica e no pode              tados ou abertos para uma sociedade mais
subsistir entre os autmatos ou entre as peas            ampla (R. K. MERTON, Social Theory and Social
de um autmato.                                           Structure, 1957, pp. 393 ss.).
   COMUNIDADE (in. Community, fr. Com-                        COMUNISMO (in. Communism- fr. Com-
munaut, ai. Gemeinschaft; it. Comunit). 1.              munisme, ai. Kommunismus; it. Comunismo).
Kant deu esse nome  terceira categoria da re-            Ideologia poltica que tem como programa o
lao, a da ao recproca, e tambm  terceira           Manifesto Comunista publicado por Marx e
analogia da experincia (ou princpio da C.) as-          Engels em 1847, desenvolvido nas obras de
sim expressa: "Todas as substncias, na medida            Marx e Engels, bem como de Lnin e Stlin. Tal
em que podem ser percebidas no espao como                ideologia pode ser resumida nos seguintes
simultneas, esto entre si em ao recproca             pontos fundamentais: Ia a personalidade huma-
universal." Observava a respeito: "A palavra              na depende da sociedade historicamente deter-
Gemeinschaft tem duplo significado, podendo               minada a que pertence, e nada  fora e inde-
indicar tanto communio quanto commercium.                 pendentemente da prpria sociedade; 2Q a
Aqui utilizamos o segundo sentido, como co-               estrutura de uma sociedade historicamente de-
munho dinmica sem a qual nem a comunho                 terminada depende das relaes de produo e
espacial (communio spatii) poderia ser conhe-             de trabalho prprias dessa sociedade, que de-
cida empiricamente" (Crt. R. Pura, Analtica dos         terminam todas as suas manifestaes: mo-
Princpios, 3a analogia). Nessa aplicao, esse           ralidade, religio, filosofia, etc, alm das for-
termo no teve xito.                                     mas de sua organizao poltica. Esses dois
   2. Contudo, a partir do Romantismo (esp.               pontos constituem a doutrina do materialismo
Schleiermacher), esse termo foi usado para in-            histrico (v.); 3a a luta de classes tem carter
dicar a forma da vida social caracterizada por            permanente e necessrio em toda e qualquer
um vnculo orgnico, intrnseco e perfeito entre          sociedade capitalista, isto , em qualquer socie-
os seus membros. Nesse sentido, C. foi contra-            dade cujos meios de produo sejam proprieda-
posta a sociedade numa obra de FERDINANDO                 de privada; 4S depois de alcanar o ponto
TNNIES, C. e Sociedade, publicada em 1887.               mximo de concentrao de riqueza em pou-
"Tudo o que  confiana, intimidade e vida ex-            cas mos e de empobrecimento e nivelamento
clusivamente em conjunto", dizia Tnnies,                 de todos os trabalhadores, a sociedade capi-
"compreende-se como vida em comunidade. A                 talista passa, necessria e inevitavelmente, para a
sociedade  o que  pblico,  o mundo; ao                sociedade socialista, que possui e exerce dire-
contrrio, encontramo-nos em comunidade                   tamente os meios de produo e , por isso,
com as pessoas que nos so caras desde o                  sem classes; 5S existe um perodo de transio
nascimento, ligados a elas no bem e no mal. Na            entre a sociedade capitalista e a sociedade co-
COMUNS, NOES                                       163                                         CONCAUSA

 munista, durante o qual o proletariado assumi-            como unidade fileiras de nmeros (como se-
 r o poder e o exercer, assim como os capita-            riam, p. ex., os inscritos nos quadrados de um
 listas fizeram, em seu prprio proveito. Esse             tabuleiro de xadrez).
 ser o perodo da ditadura do proletariado.                   CONAO (lat. Conatus). Indica-se com esse
     O C. russo deu destaque sobretudo ao lti-            nome, no Renascimento, a horm estica (DIG.
 mo desses aspectos, que, nas obras de Marx e              L. VII, 85), isto , o instinto(y ou a tendncia de
 Engels, aparecia como secundrio. E, dando-               todo ser  prpria conservao. Esse conceito
 lhe destaque, transformou-o no sentido de                 ganhou forma clssica com Spinoza, para quem
 entender a ditadura do proletariado como dita-            "o esforo de conservar-se  a prpria essncia
 dura do partido comunista, confiando ao pr-              da coisa" (Et, IV, 22, cor.). "Recebe o nome de
prio partido a funo de vanguarda do prole-               vontade quando se refere s  mente; quando se
tariado. Desse modo, o partido ^torna-se o                 refere  mente e ao corpo ao mesmo tempo cha-
instrumento fundamental para a realizao da               ma-se apetite, que, por isso,  a prpria essncia
sociedade nova e pretende comandar, contro-                do homem" (Ibid., III, 9, scol.). Vio empregava
lar e dirigir qualquer ao que tenha essa finali-         essa palavra no mesmo sentido: "A natureza co-
dade. Essa preeminncia do partido, j teo-                meou a existir por um ato de C; em outros
rizada por Lnin, foi levada ao extremo por                termos, a C.  a natureza (como tambm diz a
Stlin, que afirmou a necessidade da "parti-               Escolstica) infieri, prestes a chegar  existn-
darizao" da cincia, da arte, da filosofia e, em         cia" (De antiqussima italorum sapientia, 4,
geral, de todas as atividades intelectuais, o que           1). Hobbes deu um novo conceito desse ter-
significa simplesmente subordinar essas ativi-             mo: entendeu por C. o movimento instantneo,
dades aos interesses do partido, na forma                  isto , "o movimento num espao e num tempo
como so interpretadas e impostas por seus                 menores do que qualquer espao ou tempo da-
dirigentes.                                                dos" (De corp., 15,  2). Leibniz, numa primeira
     COMUNS, NOES (gr. KOVOU evvoiou;                   fase, entendeu C. no mesmo sentido: "A conao
lat. Notiones communes). Os esticos denomi-               (conatus) est para o movimento como ponto
nam com essa expresso os conceitos univer-                est para o espao, isto , como a unidade para o
sais ou antecipaes (v.) que se formam no ho-             infinito:  o incio ou o fim do movimento"
mem naturalmente, isto , no como produtos                (Hypothesisphysica nova, 1671, Op., ed. Gerhardt,
da instruo (ACIO, Plac, IV, 11). Essa ex-               IV, p. 229). Mas, depois, identificou a C. com a
presso foi utilizada em Elementos, de Euclides,           fora ativa, isto , com a energia  qual ele redu-
para designar os princpios evidentes, que de-             ziu a prpria matria: "A fora ativa, que tambm
pois foram chamados de axiomas (v. AXIOMA).                costuma ser chamada simplesmente de fora, no
                                                           deve ser concebida como a simples potncia
     COMUTATIVO (lat. Commutativus; in.                    vulgar do aprendizado, isto , como uma recep-
Commutative, fr. Commutatif, ai. le Auglei-                tividade de ao, mas implica um conatus, isto ,
chend; 2 Kommutatv, it. Commutativo). 1. Os              uma tendncia  ao, de sorte que, se no hou-
escolsticos chamaram de C, pela igualdade                 ver impedimento, o resultado ser a ao"
das coisas trocadas (commutationes), a espcie             (Mathematische Schriften, ed. Gerhardt, VI, p.
de justia que Aristteles chamava de "correti-             100). O mesmo conceito acha-se em Wolff (Cosm.,
va" (x 5iop0a)TiKv iKortov): ao contrrio da            % 149) (v. ESFORO).
justia distributiva, que d a cada um segundo
seus mritos, serve para equiparar as vantagens               CONATURALIDADE (in. Connatur).
e as desvantagens em todas as relaes de                  Substantivo criado por Spencer por analogia
permuta entre os homens, tanto voluntrias                 com os adjetivos "conato" e "conatural". Se-
quanto involuntrias (Et. nic, V, 4, 1131 b 25)            gundo Spencer (Psychology, II,  289), uma das
(v. JUSTIA).                                              trs idias (ao lado de coextenso e coexistn-
    2. Denomina-se propriedade C. ou lei C. o              cia) implcitas no raciocnio quantitativo, mais
axioma (ou postulado) pelo qual x ou y = y ou              precisamente a da identidade das coisas quanto
x. Essa lei serve de fundamento da soma e da                espcie, ao passo que coextenso significa iden-
multiplicao em aritmtica e da teoria dos n-            tidade na quantidade de espao ocupada e co-
meros reais. A teoria das matrizes, do ingls              existncia significa identidade no tempo de apre-
Arthur Cayley (1821-95), foi chamada de lge-              sentao  conscincia.
bra "no C", e utilizada pela mecnica qun-                  CONCAUSA (gr. owaiTa). Plato indicou
tica, porque no obedece  lei C. e considera              com esse termo a causa natural que concorre
CONCEITO                                            164                                        CONCEITO

com a causa ideal na formao das coisas do               de opinies, porque se refere s caractersticas
mundo (Tini., 68 e).                                      que, sendo constitutivas do prprio objeto, no
    CONCEITO (gr. Xyo, lat. Conceptus; in.              so alteradas pela mudana de perspectiva.
Concept; fr. Concept; ai. Begriff, it. Conceito).         Nos primrdios da filosofia grega, o C. apare-
Em geral, todo processo que torne possvel a              ceu como o termo conclusivo de uma indaga-
descrio, a classificao e a previso dos obje-         o, prescindindo, na medida do possvel, da
tos cognoscveis. Assim entendido, esse termo             mutabilidade das aparncias e visando quilo
tem significado generalssimo e pode incluir              que o objeto  "realmente", isto ,  sua "subs-
qualquer espcie de sinal ou procedimento se-             tncia" ou "essncia". Para os gregos, essa bus-
mntico, seja qual for o objeto a que se refere,          ca pareceu ser a tarefa prpria do homem en-
abstrato ou concreto, prximo ou distante, uni-           quanto animal racional, isto , tarefa prpria da
versal ou individual, etc. Pode-se ter um C. de           razo; com efeito, C. e razo so designados
mesa tanto quanto do nmero 3, de homem                   pelos gregos com o mesmo termo, logos. Aris-
tanto quanto de Deus, de gnero e espcie (os             tteles atribui a Scrates o mrito de haver des-
chamados universais [v.]) tanto quanto de uma             coberto "o raciocnio indutivo e a definio do
realidade individual, como p. ex. de um pero-            universal, duas coisas que se referem ao princ-
do histrico ou de uma instituio histrica (o           pio da cincia" (Mel, XIII, 4,1.078 b). Esse mes-
"Renascimento" ou o "Feudalismo"). Embora o               mo mrito  atribudo a Scrates por Xenofonte
C. seja normalmente indicado por um nome                  (Mem., IV, 6, 1): Scrates mostrou como o
                                                          raciocnio indutivo leva  definio do C; e o
no  o nome, j que diferentes nomes podem
                                                          C. exprime a essncia ou a natureza de uma
exprimir o mesmo C. ou diferentes conceitos               coisa, o que a coisa verdadeiramente . Plato
podem ser indicados, por equvoco, pelo mesmo             faz do universal socrtico a prpria realidade.
nome. O C, alm disso, no  um elemento sim-             O belo, o bem, o justo so substncias, isto ,
ples ou indivisvel, mas pode ser constitudo por         realidades no sentido forte do termo, realida-
um conjunto de tcnicas simblicas extre-                 des absolutas. Plato emprega os mesmos ter-
mamente complexas, como  o caso das teorias              mos (substncia, espcie, forma ou simples-
cientficas que tambm podem ser chamadas de              mente entes) para indicar as realidades ltimas
C. (o C. da relatividade, o C. de evoluo, etc).         como "em si mesmas" e como so "em ns"
O C. tampouco se refere necessariamente a coi-            (isto , como C). A mente humana contm "a
sas ou fatos reais, j que pode haver C. de               verdade dos entes" (Men., 86 a-b); ela encontra
coisas inexistentes ou passadas, cuja existn-            j como suas as substncias que constituem a
cia no  verificvel nem tem um sentido espe-            estrutura fundamental da realidade (Fed., 76
cfico. Enfim, o alegado carter de universali-           d-e). Aristteles, nesse ponto, s faz reproduzir
dade subjetiva ou validade intersubjetiva do C.           e articular numa doutrina bem mais complexa
na realidade  simplesmente a sua comunicabi-             o ponto de vista de Plato. O C. (logos)  o que
lidade de signo lingstico: a funo primeira            circunscreve ou define a substncia ou a essn-
e fundamental do C.  a mesma da linguagem,               cia necessria de uma coisa (Dean., II, 1, 412 b
isto , a comunicao.                                    16); por isso, ele  independente do gerar-se e
    A noo de C. d origem a dois problemas              corromper-se das coisas e no pode ser pro-
fundamentais: um sobre a natureza do C. e                 duzido ou destrudo por tais processos (Mel, VII,
outro sobre a funo do C. Esses dois proble-             15,1.039 b 23). Em outros termos, para Aristte-
mas podem coincidir, mas no coincidem ne-                les, o C.  idntico  substncia, que  a estru-
cessariamente.                                            tura necessria do ser, aquilo pelo qual todo
                                                          ser no pode ser diferente do que  (v. SUBS-
    A) O problema da natureza do C. recebeu               TNCIA). Essas determinaes so tpicas da con-
duas solues fundamentais: Ia o C.  a essn-            cepo do C. como essncia. Com relao a
cia das coisas, mais precisamente a sua essn-            elas, o carter da universalidade aparece como
cia necessria, pela qual no podem ser de                secundrio e derivado: por universal, diz Aris-
modo diferente daquilo que so; 2- o C.  um              tteles, entendo "o que  inerente ao sujeito
signo.                                                    em qualquer caso e por si, na medida em que
    PA concepo do C. como essncia pertence             um sujeito  o que " (An. post., I, 4, 73 b 25
ao perodo clssico da filosofia grega, em que            ss.). Ora, "o que  inerente ao sujeito em qual-
o C.  assumido como o que se subtrai  di-               quer caso e por si, etc." nada mais  do que a
versidade e  mudana de pontos de vista ou
CONCEITO                                                165                                        CONCEITO

essncia necessria do prprio sujeito, aquilo                e realidade, talvez pressuposta por Descartes,
que ele no pode no ser; de sorte que, para                  foi explicitada por Spinoza: "O crculo existente
Aristteles, a universalidade  a substancia-                 na natureza e a idia do crculo existente, que
lidade ou necessidade do conceito. Por isso,                  tambm est em Deus, so uma s e a mesma
Aristteles diz que pode haver tambm C. de                   coisa, que se manifesta por diversos atributos"
indivduo (do snolon, ou composto de matria                 (Et, II, 7, scol.). Um realismo do C, limitado
e forma), mas no do indivduo considerado                    todavia  realidade fenomnica (que , de res-
em sua matria, que  indeterminada, logo                     to, a nica acessvel ao homem),  a prpria
indefinvel, e que, p. ex., o C. de homem  a                 doutrina de Kant. De fato, se os C. empricos
alma {Mel, VII, 11, 1.037 a 26); distingue C. co-             se referem s coisas s mediante uma sensa-
muns de C. prprios (Dean., II, 3, 414 b 25) e                o, os C. puros ou categorias constituem as
fala de "C. materiais", tais como as emoes,                 prprias coisas enquanto percebidas, isto , apa-
que so definidas por meio dos movimentos                     rentes na experincia. Os C. puros ou catego-
do corpo que as suscitam Qbid., I, 1, 403 a 25).              rias so, com efeito, ao mesmo tempo, "formas
     No mbito dessa identificao do C. com a                do intelecto" e "condio dos objetos fenom-
 essncia, no constitui inovao decisiva dizer              nicos". Constituem os prprios objetos feno-
que o C. deriva das sensaes, como o faz                     mnicos, isto , os objetos de toda experincia
Epicuro, j que essa derivao, pelo carter                  possvel (Crt. R. Pura, Analtica dos concei-
necessariamente verdico das sensaes, garante               tos,  10). A doutrina fundamental do kantismo
 a realidade do C. (DiG. L, X, 32). Por outro                , precisamente, o carter constitutivo dos C.
 lado, a querela medieval sobre os universais                 puros, carter no qual se funda o prprio car-
 (v.) -- por essa palavra entendem-se os C. de                ter representativo dos C. empricos (ibid.,  16,
 gnero e de espcie -- na realidade  a disputa              nota). Sem dvida, para Kant o C. no  toda a
 entre as duas concepes fundamentais do C:                  realidade e no  criador da realidade: constitui
 a platnico-aristotlica e a estica; o realis-              a ordem necessria, pela qual a realidade se re-
 mo representa a primeira dessas concepes                   vela  indagao cientfica como submetida a
 e o nominalismo, a segunda. No causa estra-                 leis imutveis. Mas justamente por isso consti-
 nheza o fato de que a Escolstica, que, do pon-              tui a estrutura ssea, ou a ossatura necessria,
 to de vista lgico e gnosiolgico, nasceu e                  da realidade emprica, isto , da nica realida-
 desenvolveu-se sob o signo do neoplatonismo                  de que o homem pode indagar e conhecer.
  agostiniano e do aristotelismo, tenha escolhido             Desse ponto de vista, todo o arsenal do criticis-
  predominantemente a soluo realista do                     mo parece estar voltado para a reiterao da
  problema dos universais, afirmando a realidade              tese clssica, platnico-aristotlica, sobre a na-
  do C. como elemento constitutivo ou essencial               tureza do C: sua identidade com a substn-
  da prpria realidade. S. Toms diz: "Como todo              cia necessria da realidade. E essa mesma tese,
  conhecimento  perfeito na medida em que h                 sem as limitaes do fenomenismo kantiano,
  semelhana entre o conhecedor e o conhecido,                encontra-se no Idealismo romntico, que, po-
   preciso que no sentido haja a semelhana da               rm, acentua a funo criativa do C. e o iden-
  coisa sensvel quanto aos seus acidentes, mas               tifica com o Princpio racional infinito, criador
  que no intelecto haja semelhana da coisa en-               e organizador da prpria realidade.  um lu-
  tendida quanto  sua essncia" (Contra Gent,                gar-comum da filosofia hegeliana que o C. no
  IV, 11). O C. "penetra no interior da coisa"                 uma representao subjetiva pura, mas a pr-
  (Ibid, IV, 11), colhe a essncia ou a substncia            pria essncia das coisas, o seu "em si". "A natu-
  dela, j que no  seno essa substncia abs-               reza daquilo que ,  ser, no prprio ser, o
  trata da prpria coisa. Atravs da interpretao            prprio C.", diz Hegel; "e nisso est, em geral,
  da substncia aristotlica, como essncia ne-               a necessidade lgica" (Phnomen. des Geistes,
  cessria, Duns Scot reafirma a mesma tese: o                Pref.,  3). A Idia absoluta ou infinita, a Razo
  C. tem por objeto uma "natureza comum", que                 autoconsciente que  a substncia do mundo,
   o quod quid erat esse de Aristteles. Ela "no            outra coisa no  seno "o C. como C." (Ene,
    to universal quanto o C, nem to individual              213). "O C", diz ainda Hegel -- "no aquilo
   quanto a coisa, mas est na base de um e de                que se costuma ouvir chamar por esse nome,
   outra"(Op. Ox, II, d. 3, q. 1, n. 7). Esse realis-         sendo apenas uma determinao intelectualista
   mo no sofre alteraes importantes nem mes-               abstrata --  unicamente o que tem realidade,
   mo na filosofia moderna. A identidade entre C.             de tal maneira que ele mesmo se d a realida-
CONCEITO                                             166                                            CONCEITO

de" {Vil. do dir.,  1). Na concepo hegeliana, a         de-se tambm "uma proposio que, sendo
estrutura necessria da realidade  devir e pro-           antecedente em uma conexo verdadeira, 
gresso, tendo-se posto como Razo infinita e               descobridora da conseqente". Em outros ter-
criadora. Por maior que possa parecer, a distn-           mos, tem-se um signo quando se tem uma pro-
cia entre essa concepo e a clssica no  to            posio condicional do tipo "Se... ento", que
grande, do ponto de vista da teoria do C: para             satisfaa a duas condies: le deve comear
Hegel, assim como para Aristteles, o C.  a es-           pelo verdadeiro e terminar no verdadeiro, isto
sncia necessria da realidade, o que faz que ela          , tanto o antecedente como o conseqente de-
no possa ser diferente do que . Na filosofia             vem ser verdadeiros; 2Q deve ser descobridora,
contempornea o idealismo retomou a interpre-              isto , deve dizer alguma coisa no imediata-
tao hegeliana do C. como realidade necessria            mente evidente. P. ex., "Se  dia, h luz", dito
ou necessidade real. Croce, p. ex., entende-o como         quando  dia, ainda no  um signo, mas  sig-
desenvolvimento, devir e sistema, atividade ra-            no a proposio: "Se esta mulher tem leite,
cional e concreta, esprito ou razo (Lgica come          ento deu  luz", onde o antecedente  desco-
scienzadelconcettopu.ro, 1908).                            bridor do conseqente (Pirr. hyp., II, 97 ss.;
    A fenomenologia de Husserl pode ser consi-             Adv. dogm., II, 141 ss.). Essa doutrina estica
derada um retorno  forma clssica assumida                dos signos (sobre ela, v. SIGNIFICADO) permane-
pela interpretao do C. em Aristteles. Husserl           ceu como modelo da segunda alternativa fun-
integra a polmica do logicismo moderno con-               damental que a doutrina do C. encontrou. Trans-
tra o psicologismo, que v no C. uma forma-                mitida por Bocio  Escolstica latina, sua etapa
o psquica (v.). Formao psquica , p. ex., a          seguinte  a lgica de Abelardo (sculo XII),
representao de nmero que varia de mo-                   que, acentuando o carter predicativo do C,
mento a momento e de um indivduo para                     negou que ele pudesse ser considerado uma
outro; mas o C. de nmero  sempre o mesmo,                coisa (res) ou um nome (vox) -- j que nem
e  uma entidade intemporal. Os C. devem,                  a coisa nem o nome (que  tambm uma coi-
pois, ser considerados idnticos s essncias,             sa) podem ser predicados de outra coisa -- e
sendo melhor falar de essncias (que so obje-             considerou o C. como um sermo (discurso).
tos) do que de C. e, sob o aspecto subjetivo, de           Diferentemente da vox o sermo implica a refe-
"viso das essncias", como ato anlogo ao                 rncia semntica a uma realidade significada,
perceber sensvel (Ideen, I,  22-23). Assim, na          referncia que a Escolstica posterior chamar
ltima formulao histrica da interpretao do            de suppositio. A realidade significada no ,
C. como realidade necessria, o prprio ter-               segundo Abelardo, nem uma substncia univer-
mo C.  abandonado por imprprio, analoga-                 sal nem uma classe de coisas singulares, mas o
mente ao que acontece nos desenvolvimentos                 estado comum no qual convm um grupo de
da segunda interpretao de conceito.                      coisas. Nesse sentido, Abelardo diz que "a cau-
                                                           sa comum" do universal "homem"  o status
    2a Na segunda interpretao, o C.  um sig-            de homem que no  nem uma coisa, nem
no do objeto (qualquer que seja) e se acha em              uma substncia, mas aquilo em que todos os
relao de significao com ele. Por essa inter-           homens convm enquanto tais (Philosophische
pretao, encontrada pela primeira vez nos                 Schriften, ed. Geyer, pp. 19-20). Essa doutrina
esticos, a doutrina do C.  uma teoria dos sig-           depois foi retomada pela lgica terminista, cuja
nos. No pode haver signo, segundo os esti-               formulao escolstica est em Summulae
cos, nem das coisas evidentes nem das absolu-              logicales de Pedro Hispano (meados do sc.
tamente obscuras; pode haver signo apenas                  XIII). Nas Summulae, a funo desse termo,
das coisas obscuras de momento e obscuras                  tanto universal quanto particular,  definida
pela prpria natureza. A essas duas espcies de            atravs da noo de suposio (v.), segundo a
coisas correspondem duas espcies de signos:               qual os termos esto no lugar da coisa suposta,
1Q os signos rememorativos, que se referem s              de tal sorte que, p. ex., na proposio "o ho-
coisas obscuras de momento; 2- os signos                   mem corre", o termo "homem" est por S-
indicativos, que se referem s coisas obscuras             crates, Plato, etc. (Summ. log., 6.03). A Escolstica
por natureza. Tem-se um signo rememorativo,                do sc. XIV marca o abandono definitivo do
p. ex., quando se diz: "Se h fumaa, h fogo",            formalismo ou realismo que prevalecera em S.
quando ainda no se v fogo. Um signo indi-                Toms e Duns Scot e um retorno da teoria
cativo , p. ex., um movimento do corpo, que               estica do conceito. Este  chamado intentio
expresse um estado de alma. Por signo enten-
CONCEITO                                               167                                        CONCEITO


animae, como qualquer outro ato ou elemen-                   tira na diferena entre as duas coisas, distin-
to de conhecimento (j que o conhecimento                    guindo a "derivao fisiolgica" dos C, tentada
sempre se refere a alguma coisa diferente de si              por Locke, da "deduo" dos prprios C, isto
mesmo) e  definido como "signo predicvel                   , da demonstrao de sua validade (Crt. R.
de muitas coisas". Segundo Ockham, o C. pos-                 Pura,  13). A distino entre validade lgica e
sui, alm disso, outro carter fundamental:                 realidade psicolgica dos C. mantm-se em to-
um signo natural. Diz ele: '"O universal  du-               das as escolas do neocriticismo alemo con-
plo. Um  o universal natural, que  um signo                temporneo (sobretudo na Escola de Marburgo
predicvel de muitas coisas, do mesmo modo                   a que pertencem Cohen, Natorp e Cassirer) e
como fumaa naturalmente significa fogo, ge-                 fora reafirmada como indispensvel s formu-
mido do inferno, dor, e riso, alegria interior.              laes do pensamento matemtico e, em ge-
Esse universal  s uma inteno da alma, pois               ral, do pensamento cientfico por Bolzano na
nenhuma substncia fora da alma e nenhum                     sua Doutrina da cincia (1837). A elaborao
 acidente fora da alma  um universal seme-                  matemtica da lgica levava a insistir na natu-
 lhante... O outro  o universal institudo arbi-            reza objetiva, no psicolgica, do C, assim corno
 trariamente (per voluntaram institutionem);                na sua natureza simblica. Esses dois aspectos
 nesse sentido, o nome preferido, apesar de ser              do C. so ressaltados por Frege. Num texto de
 uma qualidade numericamente una,  univer-                  1890, ele afirmava que "o C.  algo de objetivo,
 sal porque  um signo institudo arbitrariamente            que no  construdo por ns", e que, portanto,
 para significar muitas coisas" (Summ. log., I,              uma proposio como "O nmero 3  um n-
 14), A funo lgica do C.  a da suposio,                mero primo"  "algo completamente indepen-
 pela qual, em todos os complexos em que en-                 dente da circunstncia de estarmos acordados
 tra, o C. est no lugar das coisas significadas;            ou dormindo, de vivermos ou no, algo que
 quanto  realidade que o C. possui na alma                  vale e valer objetivamente sempre, no im-
 como intentio animae, Ockham no se mostra                  portando se existem ou se existiro seres que
 interessado em decidir, parecendo mais inclina-             reconheam ou no essa verdade" (ber das
 do  doutrina extrema de que, na alma, o C.                 Trgheitsgesetz, 1890, em Aritmtica e lgica,
  no tem nenhuma realidade, mas existe nela                 ed. Geymonat, pp. 211-12). Sob esse aspecto,
  somente obiective, isto , a ttulo de representa-         Frege definia o C. como "o significado de um
  o ou de imagem (In Sent., I, d. 2, q. 8 E). A            predicado" (ber Begriff und Gegenstand,
  doutrina de Ockham  tpica da posio em-                 1892,  2; ed. Geymonat, p. 199) e definia o sig-
  pirista em relao  natureza do C, posio                nificado como o objeto designado pelo sig-
  que tem sempre dois pontos bsicos: le a natu-             no, distinguindo o significado do sentido,
  reza sgnica do C; 2B a sua conexo causai com             que denota "o modo como o objeto nos  da-
  as coisas, cujo produto natural seria o ho-                do" (berSinn undBedeutung, 1892,  1, ed.
  mem. Essa doutrina se encontra em Locke (En-               Geymonat, pp. 216 ss.). Essas observaes de
  saio, III, 3,  6-9), em Berkeley (Principies of          Frege so muito importantes porque assinalam
  Human Knowledge, Intr.,  12 ss.) e em Hume               o incio da resoluo, ocorrida em grande parte
  (Treatise, I, 1, 7). Hume invoca o hbito para             da filosofia contempornea, da noo de C. na
  explicar a gnese psicolgica do C. (Ibid., 1,1,           noo de significado. Husserl (que, todavia,
  7); James Mill invoca a lei da associao psico-           sustentava um realismo conceitualista) j consi-
  lgica (Analysis of the Phenomena of the                   derava os C. como significados (Bedeutungen;
  HumanMind, 2- ed., 1869,1, pp. 78 ss.), assim              cf. Ideen, I,  10). "Termos ou significados", 
  como Stuart Mill (Examination ofPhil. of Ha-               como Dewey denomina os C, classificando-os
   milton, p. 393).                                          sob esse ttulo (Logic, cap. XVIII). E R. Carnap,
                                                             no mesmo sentido de Frege, identificando o C.
     prprio do empirismo assumir a explica-                com o objeto, entendia por C. "tudo aquilo
 o psicolgica da gnese do C. como justifi-               sobre o que  possvel formular proposies"
 cao da sua validade, ou seja, considerar de-              (Der logische Aufbau der Welt, 1928,  5). Em
 monstrada a validade do C. e a legitimidade do              1942, Susan K. Langer reconhecia formalmente
 seu uso por haver demonstrado o modo pelo                   a identificao ocorrida entre C. e significado,
 qual ele se forma no homem pela ao da abs-                mostrando a convergncia de muitas correntes
 trao (como julgava Locke) ou da associao                da filosofia contempornea para o reconheci-
 psicolgica (como julgavam os empiristas da                 mento do simbolismo em cincia, arte, filosofia
 primeira metade do sc. XIX). Mas Kant j insis-
CONCEITO                                             168                                         CONCEITO

 e em todas as formas culturais em geral (Pbi-              procedimento se reproduz quando, numa pro-
 losophy in a New Key, 1942, cap. III). Quine               fisso, defrontam-se fatos que no oferecem
 indicou exatamente o ponto crtico da trans-               mais interesses biolgicos imediatos" (Erkennt-
 formao da noo de C. quando disse "signifi-             niss und Irrtum, 1905, cap. VIII; trad. fr., p.
cado  aquilo que a essncia se torna quando                136). Sob esse aspecto, os C. so "signos que
se divorcia do objeto de referncia e se casa              resumem e indicam reaes possveis do orga-
com a palavra" (From a Logical Point of View,              nismo humano em face dos fatos" (Mechanik,
II, D.                                                     1883, p. 510).  esse o carter enfatizado por
    Deve-se notar, contudo, que o termo C. ou              alguns filsofos para negar o carter terico
significado refere-se com mais freqncia a                dos C. cientficos em prol de uma forma supe-
conotao do que a denotao. Assim, Carnap,               rior ou privilegiada de conhecimento. Assim,
nas ltimas obras, entendeu por C. a proprieda-            ao C. (simples esquema econmico com vistas
de, o atributo ou a funo (Introduction to                 ao) Bergson contraps a intuio (vol.
Semantics, 1942; 2a ed., 1959,  37). Isso consti-         cratr, 8- ed., 1911, p. 247 ss.). Por esse moti-
tui uma exceo  terminologia proposta por                vo, Croce chamou os C. cientficos de pseudo-
Frege, exceo esta recomendada pelos lgicos              conceitos, reservando o nome de C.  prpria
(cf. A. CHURCH, Introduction to Mathematical               Razo {Lgica, cap. II).
Logic,  1, e n. 17). V. SIGNIFICADO.
                                                               3a A terceira funo do C.  organizar os da-
    B) A funo C. pode ser concebida de                   dos da experincia de modo que se estabele-
duas maneiras fundamentais diferentes, isto ,             am entre eles conexes de natureza lgica.
como final e como instrumental. Funo final               Um C, sobretudo cientfico, via de regra no se
atribui ao C. a interpretao como essncia, j            limita a descrever e classificar os dados em-
que, por essa interpretao, o C. no tem outra            pricos, mas possibilita a sua inferncia deduti-
funo seno exprimir ou revelar a substncia
                                                           va (DUHEM, La thoriephysique, pp. 163 ss.). 
das coisas. Desse ponto de vista, a funo
identifica-se com a prpria natureza do concei-            por esse aspecto que a formulao conceituai
to. Quando, porm, se admite a teoria simblica            das teorias cientficas tende  axiomatizao: a
do C, admite-se ipso facto tambm a sua                    generalizao e o rigor da axiomatizao ten-
instrumentalidade; e essa instrumentalidade pode           dem a levar ao extremo o carter logicamente
ser aclarada e descrita nos seus mltiplos as-             organizativo do conceito.
pectos. Os aspectos principais so os seguintes:               4e A quarta funo do C, hoje considerada
    lu A primeira funo atribuda ao C.  a de            fundamental nas cincias fsicas,  a previso.
descrever os objetos da experincia para permi-            Como j reconheciam os esticos, o objetivo
tir o seu reconhecimento. Era essa a funo                de um signo geralmente  prever e a designa-
principal que epicuristas e esticos atribuam s          o de antecipao, que epicuristas e esticos da-
antecipaes (ou prolepse). Segundo os epi-                vam ao C, exprime justamente essa funo.
curistas, a antecipao  "a compreenso, a                Por ela, o C.  um meio ou procedimento
opinio correta, o pensamento ou a noo uni-              antecipatrio ou projetante. Para Dewey, ante-
versal nsita em ns como memria daquilo                  cipa ou projeta a soluo de um problema exa-
que, freqentemente, nos apareceu como fora                tamente formulado {Logic, XX,  1; trad. it., p.
de ns" (DiG. L, X, 33)- Essa funo descritiva           516; cf. XXIII,  1; p. 599). Para outros, a funo
ou recogitiva do C. muitas vezes  omitida                 antecipatria do C.  o instrumento de que a
por ser a mais bvia. Recentemente, G. Berg-               cincia se serve "para predizer a experincia
mann chamou os C. de palavras-caracteres                   futura  luz da experincia passada" (QUINE,
(Character-Words) para indicar a sua funo                From a Logical Point of View, II, 6).
descritiva ou referencial (Philosopby of Science,              As funes de organizar e prever so exer-
1957, p. 13).                                              cidas hoje pelos tipos fundamentais de C.
    2- A segunda funo atribuda ao C.  a                cientficos, que no so nem descritivos nem
econmica. A essa funo vincula-se o carter              classificatrios, ou seja, pelos modelos, pelos
classificador do C. "A variedade das reaes               C. matemticos e pelas construes.
biologicamente importantes", disse E. Mach, "                 Os modelos constituem simplificaes ou
muito menor do que a variedade dos objetos                 idealizaes da experincia e so obtidos le-
existentes. Por isso, o homem foi levado a                 vando ao extremo caracteres ou atributos pr-
classificar os fatos nos conceitos. O mesmo                prios dos objetos empricos. Nesse sentido, so
CONCEITO-CLASSE                                        169                  CONCORDNCIA, MTODO DA


modelos os C. de velocidade instantnea, de                  uma simples vox ou flatus voeis, o nominalismo
sistema isolado, de gases perfeitos e, em geral,             de Abelardo, para quem o prprio universal 
os modelos mecnicos.                                        um discurso {serm) predicvel de muitas coi-
     Os C. matemticos so simplesmente oca-                 sas, e do nominalismo posterior, que se inspira
sies para introduzir procedimentos especiais                em Abelardo (v. NOMINALISMO; UNIVERSAIS).
de clculo e, nesse sentido, so instrumentos                    CONCLUSO (lat. Conclusio; in. Conclu-
de previso. O C. de "onda de probabilidade",                sion; fr. Conclusion; ai. Schluss; it. Conclusio-
pertencente  mecnica quntica,  dessa esp-               n). F.nquanto em Apuleio e em Bocio con-
cie, assim como so tambm dessa espcie os                  clusio  o termo mediante o qual se designa a
C. de "campo tensorial", "espao curvo", etc.                totalidade de um discurso demonstrativo, nos
     Enfim, as construes (v.) so C. de entida-            lgicos medievais  usado como traduo do
des que no so dadas na experincia, que no                cru|J.7tpoca|J.a aristotlico e da 7U(pop esti-
se assemelham nem mesmo com os objetos da-                   ca, isto , para indicar a proposio final do
dos e cuja existncia consiste simplesmente na               prprio discurso demonstrativo (cf. PEDRO HIS-
possibilidade de serem usadas como instru-                   PANO: "Est enim conclusio argumento vel ar-
mentos de previso no contexto de uma teoria.                gumentis approbata propositio"; Summ. log.,
So exemplos de construes os C. de campo,                  5.02). Na filosofia moderna e contempornea,
de eltron, de ter, etc. (P. W. BRIDGMANN, The              manteve-a o mesmo sentido. S nos filsofos
Logic of Modem Physics, 1927, cap. II; M. K.                 alemes  que Schluss muitas vezes  usado
MUNITZ, Space Time and Creation, 1957, IV, 2).               para indicar o silogismo todo.               G. P.
     CONCEITO-CLASSE (in. Class-concept). Ter-                   CONCOMITNCIA (in. Concomitance, fr.
 mo introduzido na Lgica por Russell {The                   Concomitance, ai. Konkomitanz; it. Concomi-
 Principies of Mathematics): designa o C. me-                tanzd). Um dos quatro mtodos da pesquisa
 diante o qual se define uma classe (v.), ou,                experimental enumerados por Stuart Mill, mais
 mais exatamente, a funo proposicional "F"                 precisamente o das "variaes concomitantes",
 cujas razes formam a classe, de modo que seja              expresso pela seguinte regra: "Um fenmeno
 condio necessria e suficiente para que um                que varie de algum modo toda vez que outro
 indivduo a seja um elemento de uma classe                  fenmeno variar de algum modo particular 
 ("pertena  classe") definida mediante uma                 a causa ou o efeito desse fenmeno, ou est
 funo "F" tal que a proposio "Fa" seja verda-            vinculado a ele por algum fato de causao"
 deira.                                      G. P.           {Logic, III, 8,  6). Mach reduziu a esse mtodo
     CONCEPO (in. Conception; fr. Concep-                  todos os procedimentos da cincia. "O mto-
 tion, ai. Konzeption; it. Concezion). Esse ter-            do das variaes consiste em estudar para cada
 mo designa (assim como os correspondentes                   elemento a variao que se acha ligada  varia-
 percepo e imaginao) tanto o ato do conce-               o de cada um dos outros elementos. Pouco
 ber quanto o objeto concebido, mas, preferivel-             importa se tais variaes se produzam por si
 mente, o ato de conceber e no o objeto, para o             ou se ns as provocamos voluntariamente; as rela-
 qual deve ser reservado o termo conceito (v.).              es sero descobertas pela observao e pela
 Hamilton j fazia essa observao {Lectures on              experincia" (Erkenntniss und Irrtum, cap. I;
  Logic, I, p. 41), que s vezes  repetida na filo-         trad. fr., pp. 28-29) (v. CONCORDNCIA; DIFERENA;
  sofia contempornea: "To logo um conceito                RESDUOS).
  simbolizado para ns, nossa imaginao reves-                 CONCORDNCIA, MTODO DA (in Me-
  te-o de uma C. privada e pessoal, que s pode-             thod of agreement; fr. Mthode de concordan-
  mos distinguir por um processo de abstrao                ce, ai. Methode der bereinstimmung; it. M-
  do conceito pblico e comunicvel" (SUSAN K.               todo delia concordanza). Um dos quatro
  LANGER, Philosophy in a New Key, cap. III).                mtodos da pesquisa experimental enumera-
      CONCEPTUAIISMO (in. Conceptualism, fr.                 dos por Stuart Mill, mais precisamente o ex-
   Conceptualisme, ai. Conceptualismus; it. Con-             presso pela seguinte regra: "Se dois ou mais ca-
   cettualismo). Nome que os historiadores oito-             sos do fenmeno que se est investigando tm
  centistas da filosofia medieval deram  corrente           uma nica circunstncia em comum, a circuns-
   da Escolstica medieval que os escolsticos               tncia nica na qual todos os casos concordam
   chamavam de nominalismo (v.); isso para fazer              a causa, ou o efeito, do fenmeno dado"
   a distino entre o nominalismo extremado de              {Logic, III, 8,  1). Um caso do mtodo da C. 
   Roscelin, para quem o conceito universal                 a combinao dele com o de diferena, regido
CONCRECO                                            170                                        CONDIO

pela seguinte regra: "Se dois ou mais casos nos            o desejo desta segunda espcie de prazer, isto
quais ocorre o fenmeno tm s uma circuns-                , o desejo sensvel (S. Th., II, 1, q. 30, a. 1).
tncia em comum, ao passo que dois ou mais                     CONCUPISCVEL. Uma das partes da
casos nos quais ele no ocorre tm em comum                alma, segundo Plato (v. FACULDADE).
apenas a ausncia da circunstncia, a circuns-                CONCURSUS DEI. Nos ltimos tempos da
tncia nica na qual os dois conjuntos de casos            Escolstica, essa expresso designou a parte
diferem  o efeito ou a causa ou uma parte                 devida a Deus na produo e no comporta-
indispensvel da causa do fenmeno" (Ibicl.,               mento das substncias finitas. A doutrina domi-
 4) (v. CONCOMITNCIA; DIFERENA; RESDUOS).              nante na Escolstica, exposta por S. Toms, 
    CONCRECO (in. Concretion). Palavra                    de que a causa primeira, isto , Deus,  mais
cunhada por Santayana para indicar o crescimento           eficiente do que as causas segundas, cujo po-
devido  unificao de muitas coisas. Assim, as C.         der deriva somente dela (S. Th., II, 1, q. 19, a.
formadas por associao de semelhana so                  4). Mas na ltima fase da Escolstica, mais pre-
idias ou essncias ou '"C. de discurso"; ao pas-          cisamente no incio do sc. XIV, procurou-se
so que as C. constitudas pela associao                  limitar o alcance da causalidade divina, para evi-
de contigidade so coisas (Cf. especialmente              tar que se atribussem a Deus as imperfei-
Reason in Common Sense, 1905, pp. 161 ss.).                es e os males do mundo. Assim, Durand de
    CONCRESCNCIA (in. Concrescenc).                      St.-Pourains e Pedro Aurolo consideravam que
Whitehead viu na evoluo emergente (ou cria-              o concurso de Deus para com a criatura 
dora) um "processo de C." para o qual contri-              apenas geral e mediato; que Deus cria as subs-
buem igualmente o aspecto fsico e o aspecto               tncias e lhes d a fora de que tm necessida-
espiritual, indissoluvelmente unidos e ambos               de, mas depois as deixa livres e limita-se a
ativos (Process and Reality, p. 151).                      conserv-las em seu ser, sem ajud-las em suas
    CONCRETO (in. Concrete, fr. Concret; ai.               aes. Depois de Descartes, tanto os oca-
Konkrel; it. Concreto). O contrrio de abstra-             sionalistas quanto Spinoza e Leibniz voltaram 
to (v.). Os filsofos designam habitualmente               noo tradicional da inteira e- plena causalidade
com o termo elogioso de C. aquilo que se in-               divina no mundo. Leibniz, em particular, reex-
sere em seu critrio de realidade. Por isso,               ps a seu modo a doutrina do concurso divino,
nem sempre o C.  o individual, o singular, a              distinguindo, alm do concurso extraordinrio
coisa ou o ser existente, como se poderia crer             ou miraculoso, um concurso imediato e um
e como talvez indique o uso comum do ter-                  concurso especial: o primeiro consiste no fato
mo. Para Hegel, o C.  o Universal, a Razo, o             de que o efeito no s depende de Deus, mas
Infinito, ao passo que o abstrato  o indi-                tambm que Deus concorre para produzi-lo
vduo, o objeto singular, etc. "O abstrato  o             tanto quanto a causa segunda dele; e o segun-
finito, o C.  a Verdade, o Objeto infinito", diz          do dirige-se no s  existncia da coisa como
Hegel (Philosophie der Keligion, ed. Glokner,              tambm ao seu modo de existir e s suas quali-
II, p. 226; cf. Geschichte der Philosophie, ed.            dades, j que aquilo que h de perfeito na coi-
Glockner, I, pp. 52 ss.). Assim, Croce falou de            sa s pode provir de Deus (Op., ed. Erdmann,
um "universal C." e Gentile, do "pensamento                p. 653).
C". Para Bergson, o C.  a durao real, isto                  CONDIO (in. Condition; fr. Condition;
, a vida da conscincia em sua imediao.                 ai. Bedingung; it. Condizione). Em geral, o que
Pode-se dizer que esse termo no tem outra                 torna possvel a previso provvel de um evento.
funo alm de qualificar com apreo a reali-              Essa noo formou-se na Idade Moderna, ini-
dade, verdadeira ou suposta, que se deseja                 cialmente atravs da tentativa de isentar a no-
privilegiar.                                               o de causa das suas implicaes antropo-
    CONCUPISCNCIA (lat. Concupiscientia-                  mrficas, depois pela exigncia de isent-la de
in. Concupiscence, fr. Concupiscense, ai. Ge-              seu carter necessitante. Claude Bernard, que
lste, it. Concupiscenza). Segundo S. Toms                ainda acreditava no carter necessitante da cau-
(que remete  definio aristotlica do prazer,            sa (v. CAUSALIDADE), dizia: "A obscura noo de
Ret, I, 11, 1.369 b 33),  o desejo do prazer (de-         causa deve ser confinada  origem das coisas:
lectatio). Pode-se experimentar prazer tanto por           s tem sentido quando se fala da causa primei-
um bem espiritual, quanto por um bem sen-                  ra ou da causa final. Na cincia, deve ceder lu-
svel; o primeiro pertence s  alma e o segun-            gar  noo de relao ou de condio" (Leons
do,  alma e ao corpo juntamente: a C. designa             sur les phnomnes de Ia vie, II, pp. 396 ss.).
CONDIO                                              171                                        CONDIO

Por outro lado, Stuart Mill, observando que a               do princpio de causalidade para as cincias
sucesso invarivel em que consiste a causali-              histricas (1905). Embora Weber empregue de
dade raramente se encontra entre um conse-                  preferncia a palavra causa e fale de explicao
qente e um nico antecedente, mas, na maio-                causai, o que ele diz se refere mais precisa-
ria das vezes, entre um conseqente e a soma                mente  noo de C. e serve para unir essa no-
de diversos antecedentes, todos necessrios                 o  de "possibilidade objetiva" (v. POSSIBILIDA-
"para produzir o conseqente, isto , para se-              DE), que, segundo ele,  indispensvel ao
rem seguramente seguidos por ele", acrescen-                conhecimento histrico. "O juzo sobre a pos-
tava: "Nesses casos  coisa bastante comum                  sibilidade objetiva", diz Weber, "por essncia
pr em evidncia um s dos antecedentes sob                 admite gradaes;  possvel representar a rela-
a denominao de causa, chamando os outros                  o lgica nele implcita com o auxlio dos
apenas de condies (.Logic, III, 10, 3)- A C. se-          princpios utilizados na anlise do clculo
ria, assim, o que no basta, por si s, para pro-           das probabilidades. Os componentes causais, a
duzir o efeito, ou seja, no garante a verificao          cujo 'possvel' efeito se refere o juzo, podem
do efeito. Isso corresponde ao uso da palavra               ser concebidos como isolados em relao a to-
C. na expresso conditio sine qua non (de ori-              das as C. que, em geral, podem ser concebidas
gem jurdica), em que a C. significa uma clu-              como cooperantes com eles. Poder-se-ia per-
sula ou ressalva da qual depende toda a vali-               guntar ento de que modo esse complexo de
dade do ato jurdico, embora, indubitavelmente,             C., em conjunto com as quais os componentes
no seja a sua causa. Portanto, a essa palavra              isolados estavam previsivelmente aptos a produ-
est vinculado o significado de uma limitao               zir a conseqncia possvel, se comporta
de possibilidades, de tal modo que aquilo que               em relao s outras C. em conjunto com as
 esteja fora das possibilidades assim limitadas             quais no a teriam 'previsivelmente' produzi-
 elimine ou torne no-possvel o objeto condi-              do" (Kritische studien auf dem Gebiet Knltur-
 cionado. Em relao a esse significado, essa pa-           wissenschaftlichen Logik, 1906; trad. in. em
 lavra  empregada por Kant. Embora a obra de               Methodology of Social Science, pp. 181-82). O
 Kant tenda a defender o princpio de causalida-            que Weber chama aqui "componente causai",
 de necessria como forma ou estrutura objetiva             que seria conceitualmente isolado para formu-
 da natureza, nela se faz uso freqente da noo            lar um juzo de possibilidade objetiva, isto ,
 de C. com um significado no pertinente ao de              um juzo sobre o curso que os eventos pode-
 causa, e que Kant no se deteve de propsito               riam ter tomado se aquele componente causai
 para elucidar. O uso kantiano  indicado por               tivesse intervindo, nada mais  do que uma
 expresses como as seguintes, que se encon-                C. de possibilidade, no sentido kantiano do ter-
 tram com freqncia em Crtica da Razo                    mo. Weber acrescenta: "Podemos enunciar
 Pura-. "C. da possibilidade dos fenmenos", "C.            juzos geralmente vlidos sobre o fato de que
 subjetiva da sensibilidade", "C. formal de to-             uma maneira de reagir idntica, em certas ca-
 dos os fenmenos em geral" (o tempo), "C.                  ractersticas, por parte de pessoas que enfren-
 subjetivas do pensar" (as categorias), "C. apriori         tam determinadas situaes,  favorecida em
  pelas quais  possvel a experincia" (as catego-         grau maior ou menor e podemos estimar o
  rias), etc. Nestas e em expresses semelhan-              grau em que certo efeito  favorecido por cer-
  tes, o importante  a conexo entre "C." e "pos-          tas C." (Ibid., p. 183)- Nessas palavras exprime-
  sibilidade". s vezes Kant diz simplesmente "C";          se claramente o conceito da C. como limitao
  outras vezes "C. da possibilidade"; as duas ex-           de possibilidades objetivas e, portanto, como
  presses se eqivalem. Isso significa que, se-            previsibilidade provvel do evento.
  gundo Kant, dizer que "x a C. de y" ou dizer
  que "xtorna possvel y"  a mesma coisa. O                   Os progressos da fsica, que marcaram a
  que torna possvel uma coisa (p. ex., o conhe-            queda da noo de causa (v. CAUSALIDADE), exi-
  cimento, a experincia ou o fenmeno)  a C.              gem a substituio do determinismo causai cls-
  dessa coisa. Na obra de Kant, a definio dessa           sico pelo determinismo condicional. No campo
  noo, certamente nunca dada de forma expl-              biolgico,  fcil observar que s o conceito de
  cita, mas tampouco apenas implcita, constitui            C.  capaz de exprimir as relaes funcionais
   o ponto decisivo de sua elaborao filosfica.           consideradas por essa cincia: p. ex., entre est-
   Um passo ulterior na mesma direo foi dado              mulo e resposta, que hoje no pode mais ser
   por Max Weber, em sua busca do significado               traduzida em termos de causalidade, isto , de
                                                            previso infalvel, podendo ser expressa em ter-
CONDICIONADO                                        172                                     CONDICIONAL

mos de condicionalidade, isto , de previso              afirmava que a relao  verdadeira quando
provvel (v. AO REFLEXA). Alm disso, o con-            no comea com o verdadeiro e termina com
ceito de C.  muito usado em sociologia, em               o falso. A condio apresentada por Diodoro
teoria da informao, em ciberntica e, em ge-            para a validade do C. era, assim, bem mais
ral, na teoria da organizao dos sistemas, pois          restrita do que a imposta por Flon, j que,
permite conciliar a noo de ordem com certo              para este, uma proposio verdadeira provm
grau de contingncia ou de casualidade nas                de qualquer coisa (inclusive do falso). Por exem-
relaes entre os elementos que o compem.                plo, a relao, "Se  noite,  dia", visto ser dia,
Assim, Wiener escreveu: "No  possvel obter             segundo Flon  verdadeira porque comea pe-
uma idia significante de organizao num                 lo falso (ou seja, tem antecedente falso) "
mundo em que tudo  necessrio e nada  con-              noite", mas acaba com o verdadeiro (ou seja,
tingente" (/ am a Mathematician, Nova York,               tem o conseqente verdadeiro) " dia". Segun-
1956, p. 322). Nesse aspecto, W. Ross Ashby               do Diodoro, porm,  falsa porque admite co-
considerou essencial a idia de condicionali-             mear pelo verdadeiro, desde que sobrevenha
dade, segundo a qual no espao de possibilida-            a noite, e terminar pelo falso " dia" (SEXTO
des de interao, dado por um conjunto de ele-            EMPRICO, Adv. math., VIII, 113, 117; CCERO,
mentos, cada organizao real dos elementos              Acad., IV, 143). Por isso, as interpretaes de
forada a algum subconjunto de interaes. O              Flon e de Diodoro correspondem, respectiva-
inverso da organizao  a independncia dos              mente, ao que hoje se chama de implicao
elementos (em Principies of Self-Organization,            material e implicao formal (v. IMPLICAO),
org. H. von Foerster e G. W. Zopf, Nova York,             j que Flon interpretava o C. "se  dia, h luz"
1962, p. 217).  essencial certo grau de liber-
                                                          como se dissesse "ou no  dia ou h luz" en-
dade na relao recproca das partes para qual-
quer organizao ou sistema; e onde no hou-              quanto Diodoro interpretava como se dissesse
vesse escolha entre um conjunto de alternativas           "agora  dia, portanto deve haver luz", admitin-
tampouco haveria uma organizao qualquer (J.             do uma conexo causai entre o antecedente e
ROTHSTEIN, Communication, Organization and
                                                          o conseqente. Na realidade, Flon admitia
Science, 1958, p. 35). Assim, nas disciplinas             uma tbua de verdades idnticas  da implica-
mais dspares, o conceito de C. est tomando o            o material. O C.  verdadeiro em trs casos e
lugar do conceito de causa.                               falso em um.  verdadeiro se comea com o
                                                          verdadeiro e termina com o verdadeiro: "Se 
    CONDICIONADO (in. Conditioned; fr.                    dia, h luz";  verdadeiro se comea com o
Conditionn, ai. Bedingt; it. Condizionat).              falso e termina com o falso: "Se a terra voa, a
Aquilo cuja possibilidade depende de outra                terra tem asas";  verdeiro se comea com o
coisa. Pavlov deu o nome de reflexo C. ao                 falso e termina com o verdadeiro: "Se a terra
reflexo produzido por um estmulo artificial (v.          voa, a terra existe". S  falso quando comea
AO REFLEXA).
                                                          com o verdadeiro e termina com o falso: "Se 
   Na discusso das antinomias da razo pura,             dia,  noite", desde que seja dia. E assim a rela-
Kant (Crt. R. Pura, Dialtica transcendental,            o "Se  dia discorro"  verdadeira segundo
cap. II) usou essa palavra como sinnimo de               Flon, desde que eu discorra, mas falsa segun-
causado. Hamilton (Lectures on Metaphysics,               do Diodoro. A doutrina de Flon foi substancial-
1859-1860) entendeu por C. o relativo; nesse              mente aceita pelos esticos (DIOG. L, VII, 73)
sentido, disse que "pensar  condicionar" por-            e discutida pela lgica medieval (que utilizou a
que o que se pensa ou se conhece  aquilo que             transcrio feita por Bocio) como doutrina da
existe em relao s faculdades humanas, no
                                                          conseqncia (v.).
absolutamente. Mansel atribui o mesmo signifi-
cado a essa palavra (Phil. ofthe Conditioned,                Na lgica moderna, essa doutrina foi reto-
1866).                                                    mada por Frege (a partir de Begriffsschrift,
   CONDICIONAL (in. Conditional; fr. Condi-               1879) e por Peirce a partir de 1885; segundo
tionnel; ai. Bedingt; it. Condizional). Uma re-          este, a principal vantagem da interpretao de
lao entre dois estados de coisas ou duas pro-           Flon  permitir expressar da mesma forma as
posies, indicadas pelos conectivos Se... ento.         proposies categricas e as condicionais.
Essa relao foi estudada pela primeira vez na            Assim, por exemplo, a proposio "Todo ho-
escola de Mgara e interpretada de dois mo-               mem  racional" pode ser expressa do seguinte
dos diferentes por Flon e Diodoro Cronos. Flon          modo: "Para cada objeto x qualquer,  verdade
CONDILLACISMO                                         173                                   CONGRUNCIA

que ou x no  um homem o u i  racional"                   palavra significa em geral: reconhecer uma coi-
(PEIRCE, Coll. Pap., 3- 439-45).                            sa pelo que  (corresponde ao significado do
   Hoje, o conceito de C. , na maioria das ve-             verbo grego ^OLio^OTEv, usado na traduo
zes, considerado equivalente ao de implica-                 grega da Bblia).  empregada por S. Agostinho
o (v.). Contudo, Quine props uma distin-                 tanto para indicar o reconhecimento de Deus
o oportuna entre os dois conceitos: a                     como Deus (da verdade como verdade) quanto
implicao deveria ser entendida como rela-                 para indicar o reconhecimento dos prprios
o entre proposies; o C, como relao en-                pecados enquanto tais. S. Agostinho diz:
tre objetos ou estados de fato. Assim, dever-               "Ordenas-me louvar-te e confessar-te" dirigin-
se-ia dizer: "'Se chove' implica que 'a terra se            do-se a Deus (Conf, I, 6, 9-10); e diz tambm:
molha'", enquanto o C. seria "Se chove, a terra             "H (a casa de minha alma) coisas que ofen-
se molha" (Methods of Logic, 1952,  7).                    dem os teus olhos, eu confesso e o sei"
   CONDILLACISMO. V. SENSISMO.                              (Ibid., I, 5, 6). O significado indicado compreen-
   CONDUTA (in. Conuct; fr. Conduite, ai.                  de os dois usos do termo distinguidos pelos
Betragen; it. Condott). Toda resposta do or-               estudiosos (cf. M. PELLEGRINO, AS C. deS. Agos-
ganismo vivo a um estmulo que seja objetiva-               tinho, Roma, 1956, 9-10). Alm disso, permite
mente observvel, ainda que no tenha carter               explicar: ls a composio de Confisses, que s
de uniformidade no sentido de que varia ou                  em parte contm a exposio das vicissitudes
pode variar diante de determinada situao.                 biogrficas de S. Agostinho, mas que a partir do
Por essa falta de uniformidade, a C. diferencia-            Livro X so puramente tericas, isto , dedi-
se do comportamento (v.) e o uso desse termo                cadas ao reconhecimento da Verdade e das
 til porque, de outro modo, no se distingui-             dificuldades que se interpem a esse reconhe-
ria do comportamento.                                       cimento; 2S a coincidncia da atitude de quem
   CONECTIVOS (in. Connectives; fr. Connec-                 se confessa, isto , reconhece em si mesmo a
tifs; it. Conecttiv). Na lgica contempornea,             verdade, com a atitude do retorno para si mes-
esse  o nome dado aos smbolos imprprios                  mo e do voltar-se para si mesmo, prpria da
(ou sincategoremticos [v.]) que, combinados                indagao agostiniana e neoplatnica (v. CONS-
com uma ou mais constantes, formam ou pro-                  CINCIA).
duzem uma nova constante. As constantes                      CONFLAGRAO (gr. KTipooi; lat. Con-
ou formas unidas pelos C. chamam-se operan-             flagrazione; in. Conflagration; fr. Conflagra-
dos. Um C. chama-se singular, binrio, terci-           tion; ai. Weltbrand; it. Conflagrazione). Segun-
rio, etc, conforme o nmero dos seus operan-             do Herclito (DlOG. L., IX, 1,8) e os esticos
dos. Os C. so expressos por e, ou, no, se...           (STOBEO, Ecl, I, 304), a catstrofe final que fe-
ento. Emprega-se comumente a justaposio               cha um ciclo do mundo com sua destruio
dos operandos para denotar a conjuno: assim            total pelo fogo.
"p.q" significa "p e q". Emprega-se o sinal v                CONFLITO (in. Conflict; fr. Conflict; ai. Wie-
para denotar a disjuno inclusiva: assim "p v           derstreit; it. Conflitto). Contradio, oposio
if significa 'p ou qou ambos". Emprega-se o si-          ou luta de princpios, propostas ou atitudes.
nal + para denotar a disjuno exclusiva; assim          Kant chamou as antinomias (v.) de "C. de
"p+cf significa "poup', mas no ambos". Empre-           teses". Hume falara de um C. entre a razo e o
ga-se o sinal ~ para indicar a negao: assim            instinto: o instinto que leva a crer, a razo que
"~p" significa "nop". Para o C. se... ento, v.         pe em dvida aquilo em que se cr ( Treatise,
CONDICIONAL, IMPLICAO. AS notaes citadas             I, Introduo).
so as mais comuns, mas no as nicas. Para                    CONFUSO. V. DISTINO.
outros sistemas de smbolos, v. as notas ao  5                 CONGRUNCIA (lat. Congruentia; in. Con-
de Introduction to Mathematical Logic, 1959,                gruence, fr. Congruence, ai. bereinstimmung;
de CHURCH.                                                  it. Congruenza). Adequao. P. ex., "recom-
 CONFIGURACIONISMO (in. Configura-                          pensa cngrua", isto , adequada ao trabalho
Honisni). O mesmo que Gestaltismo (v. PER-                  ou ao mrito. Em geometria, a C.  a coinci-
CEPO; PSICOLOGIA, C).                                     dncia das figuras por sobreposio ao mesmo
   CONFIRMABILIDADE. V. TESTABILIDADE;                      plano. A definio da C.  fundamental para a
VERIFICABILIDADE.                                           escolha da geometria. Reichenbach diz: "A esco-
    CONFISSO (lat. Confessio; in. Confession;              lha da geometria  arbitrria s enquanto no
fr. Confession; ai. Beichte; it. Confessione). Essa         se especificou a definio de congruncia. Uma
CONGRUISMO                                           174                                   CONHECIMENTO

vez estabelecida tal definio, torna-se uma                designa a participao pessoal dessa tcnica.
 questo emprica o problema de saber qual                  "Conheo x" significa (salvo limitaes) que
 geometria se adapta ao espao fsico" (cf. A.              sou capaz de pr em prtica procedimentos
 Einstein: Philosopher-Scientist, org. por P. A.            que possibilitem a descrio, o cculo ou a
 Schilpp, 1949, p. 295). Whitehead generalizou              previso de x. Portanto o significado pessoal
esse conceito: "A C", disse ele, " um exemplo              ou subjetivo de C. deve ser considerado se-
particular do fato fundamental do reconheci-                cundrio e derivado: o significado primrio 
mento na percepo. Ns reconhecemos: no                   objetivo e impessoal, como acima exposto.
simplesmente no sentido de comparar um fa-                  Esse significado primrio tambm permite
tor natural oferecido pela memria com um                   fazer facilmente a distino entre crena e C:
fator revelado pela sensao imediata, mas no               a crena (v.)  o empenho na verdade de
sentido de que o reconhecimento ocorre no                  uma noo qualquer ainda que no ve-
presente, sem nenhuma interveno da mem-                 rificvel; o C.  um procedimento de verifi-
ria pura" (The Concept of Nature, 1920, cap. VI;           cao ou a participao possvel em tal pro-
trad. it., p. 113).                                        cedimento.
    CONGRUSMO.  a doutrina contra-refor-                     Como procedimento de verificao, qual-
mista da graa eficaz, isto , adequada ao                 quer operao cognitiva visa a um objeto e
mrito.                                                    tende a instaurar com ele uma relao da qual
    CONHECIMENTO (gr. yvwai; lat. Cognitio;               venha a emergir uma caracterstica efetiva des-
in. Knowledge, fr. Connaissance, ai. Erkennt-              te. Portanto, as interpretaes do C. que foram
niss; it. Conoscenza). Em geral, uma tcnica               dadas ao longo da histria da filosofia podem
                                                           ser consideradas interpretaes dessa relao
para a verificao de um objeto qualquer, ou a
                                                           e, como tal, resumir-se em duas alternativas
disponibilidade ou posse de uma tcnica seme-              fundamentais: 1- essa relao  uma identidade
lhante. Por tcnica de verificao deve-se en-             ou semelhana (entende-se por semelhana
tender qualquer procedimento que possibilite a             uma identidade fraca e parcial) e a operao
descrio, o clculo ou a previso controlvel             cognitiva  um procedimento de identificao
de um objeto; e por objeto deve-se entender                com o objetivo ou de reproduo dele; 2a a rela-
qualquer entidade, fato, coisa, realidade ou               o cognitiva  uma apresentao do objeto e a
propriedade. Tcnica, nesse sentido,  o uso               operao cognitiva  um procedimento de
normal de um rgo do sentido tanto quanto a               transcendncia.
operao com instrumentos complicados de
                                                               1- A primeira interpretao  a mais comum
clculo: ambos os procedimentos permitem ve-
                                                           na filosofia ocidental. Pode, por sua vez, ser di-
rificaes controlveis. No se deve presumir              vidida em duas fases diferentes: A) na primeira,
que tais verificaes sejam infalveis e exausti-          a identidade ou a semelhana com o objeto 
vas, isto , que subsista uma tcnica de verifica-         entendida como identidade ou semelhana dos
o que, uma vez empregada em relao a um                 elementos do C. com os elementos do objeto:
C. x, torne intil seu emprego ulterior em rela-           p. ex., dos conceitos ou das representaes com
o ao mesmo C, sem que este perca algo de                 as coisas; B) na segunda fase, a identidade ou
sua validade. A controlabilidade dos procedi-              a semelhana restringe-se  ordem dos res-
mentos de verificao, sejam eles grosseiros               pectivos elementos: nesse caso, a operao de
ou refinados, significa a repetibilidade de suas           conhecer no consiste em reproduzir o obje-
aplicaes, de modo que um "C" permanece                   to, mas as relaes constitutivas do prprio objeto,
como tal s enquanto subsistir a possibilidade             isto , a ordem dos elementos. Na primeira
da verificao. Contudo, as tcnicas de veri-              fase, o C.  considerado imagem ou retratado
ficao podem ter os mais diversos graus de efi-           objeto; na segunda fase, tem com o objeto a
ccia e podem, em ltima instncia, ter eficcia           mesma relao que um mapa tem com a paisa-
mnima ou nula: nesse caso, perdem, de pleno               gem que representa.
direito, a qualificao de conhecimento. "O C.                 ) A primeira fase constitui a forma como a
de x " significa um procedimento capaz de                  doutrina do C. surgiu no mundo antigo, ou
fornecer algumas informaes controlveis so-              seja, como identificao. Os pr-socrticos
bre x, isto , que permita descrev-lo, calcul-           exprimiram-se com o princpio de que "o se-
lo ou prev-lo em certos limites. A disponibili-           melhante conhece o semelhante", pelo qual
dade ou a posse de uma tcnica cognitiva                   Empdocles afirmava que conhecemos a terra
CONHECIMENTO                                         175                                 CONHECIMENTO


com a terra, a gua com a gua, etc. (Fr. 105,             tende-se que a faculdade sensvel e o intelecto
Diels). Podem ser consideradas variantes desse             potencial so simples possibilidades de conhe-
princpio tanto a afirmao de Herclito, "o que           cer, mas quando essas possibilidades se reali-
se move conhece o que se move" (ARISTTE-                  zam, a primeira pela ao das coisas externas,
LES, De an., I, 2, 405 a 27), quanto a de Ana-             a segunda pela ao do intelecto ativo, identi-
xgoras, segundo a qual "a alma conhece o                  ficam-se com os respectivos objetos; p. ex.,
contrrio com o contrrio" (TEOFR., De sens.,              ouvir um som (sensao em ato) identifica-se
27). Esta ltima na realidade parece aludir mais           com o prprio som, assim como entender uma
a uma condio do C. -- que pressupe a di-                substncia identifica-se com a prpria substn-
versidade como dir Aristteles (De an., II, J,            cia. Portanto, Aristteles pode afirmar, em ge-
417 a 16) -- do que ao prprio ato cognitivo,              ral, que "a cincia em ato  idntica ao seu
como indica a justificao que lhe  dada: "o              objeto" (Dean., III, 7, 431 a 1).
semelhante, com efeito, no pode sofrer a ao                 Essa doutrina aristotlica pode ser conside-
do semelhante". Mas foram Plato e Aristteles             rada a forma tpica da interpretao do C.
que estabeleceram em bases slidas essa inter-             como identidade com o objeto. Com exceo
pretao do conhecimento. O encontro do se-                dos esticos, tal interpretao domina o curso
melhante com o semelhante, a homogeneida-                  ulterior da filosofia grega. Para Epicuro, o fluxo
de, so os conceitos que Plato utiliza para               dos simulacros (eidol) que se destacam das
explicar os processos cognitivos (Tm., 45 c,              coisas e se imprimem na alma serve precisa-
90 c-d): conhecer significa tornar o pensante              mente para garantir a semelhana das imagens
semelhante ao pensado. Conseqentemente,                   com as coisas (Ep. aHerod., 51). E Plotino utiliza
os graus de C. modelam-se segundo os graus                 o mesmo conceito para esclarecer a natureza
do ser: no se pode conhecer com certeza, isto             do conhecimento. Tem-se C. quando a parte
, com "firmeza" o que no  firme, porque o               da alma com que se conhece unifica-se com o
C. s faz reproduzir o objeto; por isso "o que            objeto conhecido e forma um todo com ele. Se
absolutamente  absolutamente cognoscvel, en-             a alma e esse objeto permanecem dois, o obje-
quanto o que no  de nenhum modo de ne-                   to permanece exterior  prpria alma e o co-
                                                           nhecimento dele permanece inoperante. S a
nhum modo  cognoscvel" (Rep., Al a). Dessa               unidade dos dois termos constitui o conheci-
maneira, Plato estabeleceu a correspondn-                mento verdadeiro (Enn., III, 8, 6). Na filosofia
cia entre ser e cincia, que  o C. verdadeiro;            crist, permanece a mesma interpretao, que,
 entre no ser e ignorncia; entre devir, que              alis, serve de fundamento para as mais carac-
 est entre o ser e o no ser, e opinio, que est         tersticas especulaes teolgicas e antropol-
 entre o C. e a ignorncia. E distinguiu os se-            gicas. Segundo S. Agostinho, o homem pode
 guintes graus do C: le suposio ou conjectura,           conhecer Deus porquanto ele mesmo  a ima-
 que tem por objeto sombras e imagens das                  gem de Deus. Memria, inteligncia e vontade,
 coisas sensveis; 2a a opinio acreditada, mas            em sua unidade e distino recpocra, reprodu-
 no verificada, que tem por objeto as coisas              zem no homem a trindade divina de Ser, Verda-
 naturais, os seres vivos e, em geral, o mundo             de e Amor (De Trin., X, 18). Essa noo, com
 sensvel; 3 razo cientfica, que procede por            algumas variaes secundrias, dominou toda a
 via de hipteses e tem por objeto os entes ma-            teologia medieval e tambm foi o fundamento
 temticos; 4e inteligncia filosfica, que proce-         da antropologia. Mas dela derivava uma conse-
 de dialeticamente e tem por objeto o mundo                qncia importante pelo C. que o homem tem
 do ser (Ibid., VI, 509-10). Cada um desses graus          das coisas inferiores a Deus. O reconhecimen-
 de C.  a cpia exata do seu respectivo objeto:           to da origem divina dos poderes humanos
 de modo que no h dvida de que, para Plato,            (enquanto imagens dos poderes divinos) tor-
 conhecer  estabelecer uma relao de identi-             na os poderes humanos relativamente inde-
 dade com o objeto em cada caso, ou uma rela-              pendentes dos outros objetos cognoscveis e
 o que se aproxime o mximo possvel da                  acentua a importncia do sujeito cognoscente.
 identidade. De forma ainda mais rigorosa esse             Para Aristteles, a faculdade sensvel e o in-
 ponto de vista era realizado por Aristteles.             telecto potencial nada mais so que seus
 Segundo ele, o C. em ato  idntico ao objeto,            prprios objetos "em potncia": no tm ne-
 se se tratar de C. sensvel;  a prpria forma            nhuma independncia em face desse objetos.
 inteligvel (ou substncia) do objeto, se se tra-         Mas S. Agostinho afirma, ao contrrio, que "todo
 tar de C. intelegvel (De an., II, 5, 417 a). En-         C. (notitia) deriva, ao mesmo tempo, do cog-
CONHECIMENTO                                            176                                   CONHECIMENTO

noscente e do conhecido" (Ibid., XIX, 12), pondo              que est escrito o livro da natureza so trin-
no mesmo plano o objeto conhecido e o sujeito                 gulos, crculos, etc. (Opere, VI, pg, 232).
cognoscente como condio do conhecimen-                          Na filosofia moderna, a doutrina de que co-
to. S. Toms, embora sancionando explicita-                   nhecer  uma operao de identificao assu-
mente o princpio de que todo C. ocorre per                   me trs formas principais, segundo se conside-
assimilationem (Contra      Gent.,   II,   77)    ou          re que essa operao  realizada mediante: d) a
perunionem (In Sent., I, 3,1) da coisa conheci-               criao que o sujeito faz do objeto; b) a cons-
da e do objeto cognoscente, afirma que "o                     cincia; c) a linguagem.
objeto conhecido est no cognoscente segun-                       a) O idealismo romntico e as suas ramifica-
do a natureza do prprio cognoscente" (De                     es contemporneas afirmaram a tese de que
ver., q. 2, a. 1; S. Th., I, q. 83, a. 1); e assim no         conhecer significa pr, isto , produzir ou criar,
conhecer o peso do sujeito vem contrabalanar                 o objeto: tese que permite reconhecer no pr-
o peso do objeto. Esse ponto de vista leva a                  prio objeto a manifestao ou a atividade do
atenuar a tese aristotlica, segundo a qual o C.              sujeito. Essa tese foi afirmada em primeiro lu-
em ato  o prprio objeto. S. Toms, comentan-                gar por Fichte. "A representao em geral", disse
do a afirmao aristotlica de que "a alma so                ele, " irreputavelmente um efeito do No-eu.
todas as coisas" (De an., III, 8.431 b 20) a ate-             Mas no Eu no pode haver absolutamente
nua no sentido de que a alma no so as coi-                  nada que seja um efeito; porque o Eu  aquilo
sas, mas as espcies das coisas. Mas a espcie                que ele se pe e nada h nele que no seja
outra coisa no  seno a forma das coisas. C,                posto por ele mesmo. Portanto, o prprio No-
portanto,  abstrao: a forma abstrada da ma-               eu deve ser efeito do Eu, alis do Eu absoluto,
tria individual, o universal abstrado do parti-             e assim no temos uma ao sobre o Eu vinda
cular. Assim, para S. Toms, a espcie estabele-              de fora, mas uma ao do eu sobre si mesmo"
ce o limite da identidade entre o cognoscente e               (Wissenschaftslehre, 1794, III,  5, 1). Desse
o conhecido; mas o conhecer permanece como                    ponto de vista, o No-eu, isto , o objeto, no  se-
identidade. Por sua vez, S. Boaventura, apesar                no o prprio Eu, isto , o sujeito: a identidade
de continuar fiel ao princpio agostiniano do                 com o objeto , assim, garantida pela prpria
lumen directivum que o homem haure direta-                    definio de conhecimento. Esta, obviamente,
mente de Deus e do qual derivam certeza e                      uma definio arbitrria que no tem efeitos
verdade, admite que o material do C.  consti-                sobre o xito ou o malogro dos atos efetivos de
tudo por espcies que so imagens, similitudes               C. e no servem, por isso, nem para dirigir nem
ou "quase-pinturas" das prprias coisas (In                   para esclarecer esses atos. Contudo, o princpio
Sent., I, p. 17, a. 1, q. 4). Se, em seu ltimo pe-           afirmado por Fichte foi um dos que constitu-
rodo, a Escolstica assinala o predomnio de                 ram os pilares do movimento romntico (v.
uma interpretao diferente do conhecer (v.                   ROMANTISMO); e a tem origem um dos lugares-
mais adiante), o Renascimento conserva, em                    comuns mais perniciosos e enfadonhos, o do
geral, a interpretao do C. como identidade ou               "poder criativo do esprito". Schelling s fazia
semelhana. Nicolau de Cusa diz explicitamen-                 esclarecer seu significado quando afirmava:
te que o intelecto no entende se no se assi-                "No prprio fato do saber -- quando eu sei --
mila ao que deve entender (De mente, 3-; De                   o objetivo e o subjetivo esto to unidos que
ludo globi, 1; De venatione sapientiae, 29) e                 no se pode dizer a qual dos dois cabe a priori-
Ficino diz que o C.  a unio espiritual com                  dade. No h a um primeiro e um segundo:
alguma forma espiritual (Theol.plat., III, 2). Os             ambos so contemporneos e constituem um
naturalistas no se exprimem de modo diferen-                 todo nico (System des transzendentalen
te: Bruno retoma o princpio pr-socrtico de                 Idealismus, Intr., 1). O conceito do conhecer
que todo semelhante se conhece pelo seme-                     como processo de unificao domina toda a fi-
lhante e Campanella afirma: "ns conhecemos o                 losofia de Hegel. A protagonista dessa filosofia,
que  porque nos tornamos semelhantes a ele"                  a Idia,  a conscincia que se realiza, gradual
(Met., I, 4, 1). O pitagorismo dos fundadores da              e necessariamente, como unidade com o obje-
nova cincia, Leonardo, Coprnico, Kepler, Ga-                to. Diz Hegel: "A Idia , em primeiro lugar,
lilei, tem pressuposto anlogo: o procedimento                um dos extremos de um silogismo, porquanto
matemtico da cincia justifica-se porque a pr-               o conceito que tem como fim, acima de tudo,
pria natureza tem estrutura matemtica: no sen-               a si mesmo como realidade subjetiva. O outro
tido de que, como diz Galilei, os caracteres em               extremo  o limite do subjetivo, o mundo obje-
CONHECIMENTO                                         177                                  CONHECIMENTO


tivo. Os dois extremos so idnticos no ser                tambm chamada de intuio,  interpretada
Idia. Sua unidade , em primeiro lugar, a do              como a revelao que Deus faz ao homem de
conceito, que num deles  somente por si e,                um atributo fundamental seu (p. ex., do ser,
no outro, somente em si; em segundo lugar, a               como afirma ROSMINI, NUOVO saggio,  473) ou
realidade  abstrata num deles, ao passo que               do seu prprio processo criativo, como faz
no outro est em sua exterioridade completa.               GIOBERTI (Intr. alio studio delia fil., II, p. 183).
Essa unidade coloca-se por meio do conhecer"               De modo anlogo, a intuio de que fala
(Wissenchft der Logik, III, cap. II; trad. it., p.         Bergson "como viso direta do esprito pelo es-
282). Assim, conhecer  o processo que unifi-              prito" (La pense et le mouvant, p. 37)  um
ca o mundo subjetivo com o mundo objetivo,                 procedimento privilegiado de C, no qual o ter-
ou melhor, que leva  conscincia a unida-                 mo objetivo  idntico a subjetivo. E quando
de necessria de ambos. Todas as formas do                 Husserl quis esclarecer o modo de ser privile-
idealismo contemporneo atm-se a essa dou-                giado da conscincia chamou de "percepo
trina. Croce a introduz chamando o conceito                imanente" a percepo que a conscincia tem
de "concreto": e por esse carter dever-se-ia              das prprias experincias vividas: porque o
excluir que ele seja "universal e vazio", "univer-         objeto dela pertence  mesma corrente de
 sal e inexistente" e admitir que ele compreen-            conscincia a que pertence a percepo ( Ldeen,
 de em si "o ato lgico universal" e o "pensa-             I,  38). Com base nisso, Husserl considera a
 mento da realidade", que  a prpria realidade            percepo imanente, isto , a conscincia
 (Lgica, 4 ed., 1920, p. 29). Gentile afirmava:          como absoluta e necessria: nela "no h lugar
 "Conhecer  identificar, superar a alteridade             para discordncia, aparncia, possibilidade de
 enquanto tal" (Teoria generale dello spirito, 2,          ser outra coisa. Ela  uma esfera de posio
 5 4). Por sua vez Bradley, mais criticamente,             absoluta" (Lbid.,  46). A exemplificao dada
 considerava essa identificao como um ideal-             at aqui pode bastar para esse ponto de vista,
 limite irrealizvel em ns, mas realizado na              que tem grande difuso na filosofia contempo-
 Conscincia absoluta, na qual C. e ser, verdade           rnea e, apesar da variedade das suas expres-
 e realidade, coincidem (Appearance and Rea-               ses,  muito uniforme.
 lity, p. 181).                                                c) Paradoxalmente o positivismo lgico
     b) O espiritualismo moderno, em todas as              transportou para a linguagem, em que v a
 suas manifestaes, considera o conhecer co-              operao cognitiva propriamente dita, a doutri-
 mo uma relao interna da conscincia consigo             na do carter identificador dessa operao.
 mesma. Essa interpretao garante a identidade            Wittgenstein afirma que "a proposio pode ser
 do conhecer com o objeto, j que desse ponto              verdadeira ou falsa enquanto  uma imagem
 de vista o objeto no  seno a prpria cons-             (Bild) da realidade" (Tractatus, 4.06). E prova
 cincia ou, pelo menos, um produto seu ou                 que a proposio  uma imagem da realidade
 uma manifestao sua. Schopenhauer assim ex-              do seguinte modo: "S conhecerei a situao
 primia essa doutrina: "Ningum nunca pode                 por ela representada se compreender a propo-
 sair de si para identificar-se imediatamente com          sio. E compreendo a proposio sem que o
 coisas diferentes de si: tudo aquilo de que               seu sentido me seja explicado" (Lbid., 4.021).
 algum tem C. seguro, portanto imediato, en-                  primeira vista, acrescenta ele, "no parece
 contra-se dentro da sua conscincia" (Die Welt,           que a proposio, p. ex. do modo como est
 II, cap. I). Conscincia, sentido ntimo, intros-         impressa no papel, seja uma imagem da reali-
 peco, intuio so os termos que, a partir do           dade de que trata. Mas,  primeira vista, nem a
 Romantismo, a filosofia moderna emprega para              notao musical parece ser imagem da msica,
 indicar o C. caracterizado pela identidade com            assim como nossa escrita fontica (com letras)
 seu objeto, por isso privilegiado na sua certeza.         no parece ser a imagem de nossa lngua fala-
 A considerao bsica  que, se o sujeito no             da. No entanto, esses smbolos demonstram
 pode conhecer o que  diferente dele, o nico             ser, at no sentido comum do termo, imagens
 C. verdadeiro e originrio  o que ele tem de si          do que representam" (Lbid., 4.011). A insistn-
 mesmo. Com base nisso, Maine de Biran via                 cia na noo da imagem indica claramente que
 no "sentido ntimo" o nico C. possvel e inter-          Wittgenstein compartilha a velha interpretao
 pretava os seus testemunhos como verdades                 do conhecer como operao de identificao. E
 metafsicas (Essais sur les fondements de Ia              de fato diz: "Deve haver algo de idntico na
 psychologie, 1812). Outras vezes, a conscincia,          imagem e no objeto representado para que
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aquela possa ser a imagem deste" (Ibid., 2.161).             do em princpios constitutivos de intelecto, h
Mas esse algo  "a forma de figurao" (Jbid.,               um C. representativo que consiste na seme-
2.17). E a forma de figurao  a "possibilidade             lhana entre as representaes e a coisa (Nouv.
de que as coisas estejam uma em relao                     ess., IV, 1, 1). Mas um e outro C. fazem da alma
outra assim como os elementos da imagem es-                  "um espelho vivo e perptuo do universo",
to entre si" {Ibid., 2.151). O que parece reme-             porque ambos se baseiam na ligao que todas
ter  interpretao B da relao identificadora.             as coisas criadas tm entre si, de tal modo que
    B) A segunda fase da doutrina do C. como                 "cada substncia simples tem relaes que
identificao nasce com a filosofia moderna,                 exprimem todas as outras relaes" (Monad.,
mais precisamente com Descartes. O princpio                 56). Em todas essas observaes, embora no
cartesiano de que a idia  o nico objeto ime-              se negue o carter de semelhana ou de ima-
diato do C, e que, por isso, a existncia da                 gem dos elementos cognitivos, o C.  entendi-
idia no pensamento nada diz sobre a existn-                do propriamente como identidade com a or-
cia do objeto representado, obviamente punha                 dem objetiva. Seu objeto  propriamente essa
em crise a doutrina do conhecer como identifi-               ordem e o conhecer  a operao que tende a
cao com o objeto: nesse caso, o objeto  cla-              identificar ou a identificar-se com ele, e no
ramente inalcanvel. Descartes continuara a                 com os elementos singulares entre os quais in-
conceber a idia como "quadro" ou "imagem"                   tercede. A propsito, a "revoluo coperni-
da coisa (Md., III, mas nele j aparece a ten-              cana" de Kant no consiste em inovar radi-
dncia (cf. Regulae, V) de ver no C, mais do                 calmente esse conceito de C, mas em admitir que
que a assimilao ou a identidade da idia com               a ordem objetiva das coisas tem como modelo
o objeto conhecido, a assimilao e a identida-              as condies do C, e no vice-versa. As cate-
de da ordem das idias com a ordem dos ob-                   gorias so, na verdade, consideradas por Kant
jetos conhecidos. Malebranche, que admite que                como "conceitos que prescrevem leis apriori
o homem v diretamente em Deus as idias                     aos fenmenos e, portanto,  natureza como
das coisas e, por isso, considera muito proble-              conjunto de todos os. fenmenos" (Crt. R.
mtica a realidade das coisas, admite, todavia,              Pura,  26). Os fenmenos, no sendo "coisas
essa realidade como fundamento da ordem e                    entre si mesmas", mas "representaes de coi-
da sucesso das idias no homem; ordem e su-                 sas", para tanto precisam, ser pensados e, assim,
cesso no teriam sentido, pensa ele, se no                 estar submetidos s condies do pensamento
coincidissem com a ordem e a sucesso das coi-               que so as categorias. Para Kant, a ordem obje-
sas a que se referem as idias (Entretien surla              tiva da natureza, portanto, outra coisa no  se-
mtaphysique, I, 6-7). Spinoza, que admite trs              no a ordem dos procedimentos formais do
gneros de C. (percepo sensvel e imagina-                 conhecer, na medida em que essa ordem se
o; razo com suas noes comuns e univer-                  incorporou em um contedo objetivo, que  o
sais; a cincia intuitiva), considera que s os dois         material sensvel da intuio. Desse ponto de
ltimos permitem distinguir o verdadeiro do                  vista, conhecer no  uma operao de assimi-
falso, porque tiram a idia do seu isolamento e              lao ou de identificao, mas de sntese; e
a vinculam s outras idias, situando-a na or-               como tal deve ser considerada sob outro aspec-
dem necessria que  a prpria Substncia di-                to, do C. como transcendncia. Pode-se con-
vina (Et., II, 44). Locke, que define o C. como              siderar que essa fase da doutrina do C. co-
"a percepo do acordo e da ligao, ou do de-               mo assimilao, segundo a qual o objeto da
sacordo e do contraste das idias entre si" (En-             assimilao  a ordem, situa-se entre a primeira
saio, IV, 1, 2), exige, para que ele seja real,              e a segunda interpretao principal do conhe-
que "as idias correspondam aos seus arquti-                cer, ou seja, entre a interpretao do conhecer
pos" (Ibid., IV, 4, 8) e por isso define a verda-            como assimilao e a interpretao do conhe-
de como "a unio ou a separao de signos,                   cer como transcendncia.
conforme as coisas significadas por elas con-
cordem ou discordem entre si" (Ibid., IV, 5,2).                  2- Para a segunda interpretao fundamen-
Locke considera que essa referncia a objetos                tal, o C.  uma operao de transcendncia.
reais no  indispensvel ao C. matemtico e                 Segundo essa doutrina, conhecer significa vir 
ao moral, mas que  indispensvel ao "C. real",              presena do objeto, apont-lo ou, com o termo
que tem por objeto substncias (Ibid., IV, 4,                preferido pela filosofia contempornea, trans-
12). Para Leibniz, ao lado do C. apriori, funda-             cender em sua direo. O C.  ento a opera-
                                                             o em virtude da qual o prprio objeto est
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presente: ou presente, por assim dizer, em pes-               em sua existncia atual", dando-lhe o nome de
soa, ou presente em um signo que o torne                      intuitivo (Op. Ox., II, d. 3, q. 9, n. 6). Ora, o
rastrevel, descritvel ou previsvel. Essa interpre-         C. intuitivo (que, por um lado,  conhecimento
tao no se funda em nenhum pressuposto de                   sensvel e, por outro,  conhecimento intelec-
carter assimilador ou identificador: para                    tual, que tem por objeto a substncia ou natu-
ela, os procedimentos do conhecer no visam                   reza comum, p. ex., a natureza humana) no
converter-se no prprio objeto do conhecer,                   tem necessidade de espcies, porque nele est
mas a tornar presente esse objeto como tal ou a               diretamente presente a coisa em pessoa. S o
estabelecer as condies que possibilitam sua                 C. abstrativo, isto , o C. intelectual do univer-
presena, isto , permitem prev-la. A presena               sal, tem necessidade de espcies (Ibid., I, d. 3,
do objeto ou a predio dessa presena cons-                  q. 7, n. 2).  a essa doutrina que a Escolstica
titui a funo efetiva do C, segundo essa inter-              do sc. XVI faz referncia. Durand de St.-
pretao.                                                     Pourains afirma que a espcie  intil porque
     nos esticos que essa interpretao apa-                o prprio objeto est presente ao sentido, e,
rece pela primeira vez. Eles chamavam de evi-                 atravs do sentido, tambm ao intelecto (In
dentes as coisas que "vm por si mesmas ao                    Sent., II, d. 3, q. 6, n. 10); portanto, o C. univer-
nosso C." como p. ex. ser dia; e chamavam de                  sal  somente C. confuso, pois quem tem o C.
"obscuras" as coisas que costumam escapar ao                  universal -- p. ex., da rosa -- conhece confu-
C. humano. Entre estas ltimas, distinguiram                  samente o que  intudo distintamente por
as obscuras por natureza, que nunca se nos                    quem v a rosa que lhe est presente (Ibid., IV,
tornam evidentes, e as obscuras momentanea-                   d. 49, q. 2, 8). Para Pedro Aurolo, o objeto do
mente, mas evidentes por natureza (p. ex., a                  C.  a prpria coisa externa que, graas ao
cidade de Atenas para quem mora nela).                        intelecto, assume um ser intencional ou objeti-
Estas duas ltimas espcies de coisas so com-                vo que no  diferente da realidade individual da
preendidas por meio de signos ou sinais: indi-                coisa (In Sent., I, d. 9, a. 1). Ockham, por sua
 cativos para as coisas obscuras por natureza                 vez, transforma a teoria scotista do C. intuitivo
(como, p. ex., o suor  assumido como sinal                   em teoria da experincia e afirma a presena
dos poros invisveis) e rememoratvos para as                 imediata da coisa ao C. intuitivo. "Em nenhum
coisas evidentes por natureza, mas momenta-                   C. intuitivo, sensvel ou intelectivo", diz ele, "a
neamente obscuras (assim como a fumaa                       coisa se constitui em ser intermedirio entre a
um sinal de fogo) (SEXTO EMPRICO, Adv. dogm.,                prpria coisa e o ato de conhecer; mas a coisa
II, 141; Pirr. hyp., II, 97-102). So reconhec-              mesma, imediatamente e sem intermedirio en-
veis, nessa empostao, duas teses fundamen-                  tre ela e o ato,  vista e apreendida" (In Sent, I,
tais: Ia o C. evidente consiste na presena da                d. 27. q. 3, I). O C. intuitivo perfeito, que tem
coisa, pela qual a coisa "se manifesta por si" ou             por objeto uma realidade atual ou presente, 
"se compreende por si", isto , compreende-se                 a experincia (Ibid., II, q. 15, H); o imperfeito,
como coisa, portanto como diferente daquele                   que concerne a um objeto passado, deriva
que a compreende; 2a o C. no evidente ocorre                 sempre de uma experincia (Ibid., IV, q. 12,
por meio de signos ou sinais que remetem                     Q). Por sua vez, o C. abstrativo, que prescin-
prpria coisa sem que tenham qualquer identi-                 de da realidade ou da irrealidade do objeto,
dade ou semelhana com ela.                                   deriva do intuitivo e  uma intentioou signum.
                                                              Ockham reproduz assim a interpretao dos
    Essa doutrina dos esticos ficou esquecida                esticos: quando a realidade no est presente
durante muitos sculos, negligenciada, como                   ao C. "em pessoa", anuncia-se ou manifesta-se
possibilidade pela histria da filosofia. Reapa-              no signo ou sinal. A validade do signo con-
rece somente na Escolstica do sc. XIV, com                  ceituai, que, ao contrrio do lingstico, no 
os pensadores que criticam a doutrina da spe-                 arbitrrio ou convencional, mas natural, pro-
 cies como intermediria do conhecimento. A                   vm do fato de ser produzido naturalmente,
 speces, como se viu,  uma tese tpica da dou-              isto , causalmente, pelo prprio objeto, de tal
trina da assimilao: na verdade , ao mesmo                  modo que sua capacidade de representar o
tempo, ato do C. e o ato do objeto (como forma                objeto nada mais  que essa conexo causai
 ou substncia deste ltimo). Mas Duns Scot dis-              com ele (Quodl, IV, q. 3). Para ilustrar a funo
 tinguiria um C. "que abstrai da existncia atual             lgica do signo, ou sinal, Ockham utiliza o con-
da coisa", dando-lhe o nome de "abstrativo", e                ceito da supositio, que fora elaborado pela lgi-
um "C. da coisa enquanto existente e presente
CONHECIMENTO                                        180                                 CONHECIMENTO


ca do sc. XIII (V. SIGNO, SUPOSIO). NO sc.            se pensar, esse pensamento nada conhecer,
XVII, os pontos bsicos dessa doutrina foram              mas s estar brincando com as representa-
reproduzidos por Hobbes, para quem a sensa-               es. Dar um objeto -- que no deva ser opi-
o, que  o fundamento de todo C,  o mani-              nado indiretamente, mas representado imedia-
festar-se da coisa atravs do movimento que               tamente na intuio -- nada mais  que ligar
ela imprime ao rgo do sentido (Leviath., I, 1;          sua representao com a experincia (seja esta
De corp., 25  2). Berkeley substitua a causali-         real ou possvel)" (Jbid., Analtica dos princ-
dade da coisa externa,  qual esses filsofos             pios, cap. II. se. II). Pensar um objeto e conhe-
atribuam o C, pela causalidade de Deus: teoria           cer um objeto no so, pois, a mesma coisa. "0
segundo a qual as coisas conhecidas so sinais            C. compreende dois pontos: em primeiro lugar,
pelos quais Deus fala aos sentidos ou  inteli-           um conceito pelo qual um objeto em geral 
gncia do homem para instru-lo sobre o que               pensado (a categoria) e, em segundo lugar, a
deve fazer (Principies of Knowledge,  108-09)           intuio com que ele  dado" (Jbid.,  22). A in-
 uma transio teolgica dessa doutrina do co-           tuio tem o privilgio de referir-se imediata-
nhecimento. Entrementes, com o cartesianismo              mente ao objeto e de, por meio dela, o objeto
e especialmente com Locke, iam-se formando                ser dado (Jbid.,  1). Por isso, no h dvida de
conceitos do C. como operao unificadora:                que a operao de conhecer tende a tornar o
unificadora de idias, isto , de estados inte-           objeto presente em sua realidade: um objeto,
riores  conscincia, mas cuja interligao cor-          entenda-se, que  fenmeno, j que a "coisa
responde ou deve corresponder  das coisas                em si", por definio,  estranha a qualquer re-
(v. Ia B). Eliminada por Berkeley a substncia            lao cognitiva.
material e por Hume toda espcie de substn-                  O conceito de C. -- isento da limitao
cia, a ligao entre as idias vinha exaurir a            relativista sugerida a Kant e a toda filosofia i
funo da atividade cognoscitiva. Assim, Hume             iluminista pela colocao de Descartes e \s> '
considera que toda operao cognoscitiva                 cke --, mas como operao de referir-se ou
uma operao de conexo entre as idias; ope-             relacionar-se com o objeto e, portanto, tam-
rao de conexo  o raciocnio pelo qual se              bm como processo pelo qual o objeto se ofe-
mostra a ligao que as idias tm entre si, in-          rece ou se apresenta em pessoa, foi adotado
dependentemente de sua existncia real; ope-              pela fenomenologia contempornea e pelas
rao de conexo entre as idias  o C. da                suas diversas correntes. "A cada cincia", diz
realidade de fato. No primeiro caso, a conexo            Husserl, "corresponde um campo objetivo como
 certa porque no depende de nenhuma con-                domnio das suas indagaes; a todos os seus
dio de fato; no segundo caso baseia-se na               C, isto , aos seus enunciados corretos, corres-
relao de causalidade. Mas essa mesma rela-              pondem determinadas intuies que consti-
o no tem outro fundamento alm da repe-                tuem o fundamento de sua legitimidade, por-
tio de certa sucesso de acontecimentos e o             quanto nelas os objetos do campo se do em
hbito que essa repetio determina no ho-                pessoa e, ao menos parcialmente, como origi-
mem (Inq. Cone. Underst., IV, 1).                         nrios" (Idem, I,  1). Assim, a experincia, que
    Esse conceito do C. como operao de co-              abrange todo o C. natural,  uma operao in-
nexo ou de interligao, que nada tem a ver              tuitiva atravs da qual um objeto especfico, a
com a identificao ou a assimilao com o ob-            coisa,  dada na sua realidade originria. Nesse
jeto,  chamado por Kant de operao de snte-            sentido, a experincia  um atofundante, no
se. A sntese , em geral, "o ato de reunir dife-         substituvel por um simples imaginar. Por outro
rentes representaes e compreender sua                   lado, o C. geomtrico, que no investiga reali-
multiplicidade em um C." (Crt. R. Pura,  10).           dades mas possibilidades ideais, tem como ato
Mas, para Kant, a sntese cognitiva no  so-             fundante a viso da essncia: essa viso, exata-
mente uma operao de ligao entre repre-                mente como a percepo emprica, torna atual
sentaes:  tambm uma operao de ligao               e apresenta um objeto em pessoa: este, porm,
dessas representaes com o objeto por meio               no  a coisa da experincia, mas a essncia
da intuio. "Se um C. deve ter uma realidade             (Jbid.,  8). Considerando o C. de um ponto de
objetiva", diz Kant, "isto , referir-se a um ob-         vista mais geral, pode-se dizer que "toda esp-
jeto e nele ter significado e sentido, o objeto           cie de ser tem por essncia seus modos de ciar-
deve poder ser dado de um modo qualquer.                  se e, portanto, seu mtodo de C." (Jbid.,  79); e
Sem isso, os conceitos so vazios e, se com eles          a pesquisa fenomenolgica , no projeto de
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Husserl, a anlise desse modos de ser como                 anulao do problema do conhecimento. O co-
"modos de dar-se". Analogamente, para N.                   nhecer no pode ser entendido como aquilo
Hartmann o conhecimento  um processo de                   pelo que o ser-a (isto , o homem) "vai de
transcendncia cujo termo  o ser "em si"                  dentro para fora de sua esfera interior, esfera
{MetaphysikderErkenntnis, 1921, 4a ed, 1949,               na qual estaria, anteriormente, encapsulado: ao
pp. 43 e ss.). Segundo essa anlise, deixou de             contrrio, o ser-a, em conformidade com seu
ter sentido contrapor atividade e passividade              modo de ser fundamental, j est sempre fora,
no conhecimento (contraposio que, nascida                junto ao ente que lhe vem ao encontro no
de Kant, fora assumida como motivo polmico                mundo j descoberto" (Sein undZeit,  13). Se-
pelo Romantismo a partir Fichte). No cabe                 gundo Heidegger, conhecer  um modo de ser
mais distinguir no conhecimento o aspecto ati-             do ser-no-mundo, isto , do transcender do su-
vo, que Kant chamava de "espontaneidade in-                jeito para o mundo. Ele nunca  apenas um ver
telectual", do aspecto passivo, que para Kant              ou um contemplar. Diz Heidegger: "O ser no
era a sensibilidade. No se trata nem mesmo de             mundo, enquanto ocupar-se,  tomado e obnu-
reduzir todo o C.  atividade do eu, como fize-            bilado pelo mundo com que se ocupa" (Ibid.,
ra Fichte e, com ele, toda a filosofia romntica,           13). O conhecer , em primeiro lugar, a absten-
que considerou essa atividade "infinita", isto ,          o do ocupar-se, isto , das atividades comuns
sem limites (e por isso criadora), e como tal a            da via cotidiana, como manusear, comerciar,
exaltou. Hoje, parece fictcio at mesmo a pers-           etc. Essa absteno possibilita o simples "obser-
pectiva histrica que prevaleceu no Romantis-              var, que , de quando em quando, o deter-se
mo e que opunha a concepo "clssica" (anti-              junto a um ente, cujo ser  caracterizado pelo
ga e medieval), para a qual a operao de                  fato de estar presente, de estar aqui". Nessa abs-
conhecer seria dominada pelo objeto diante do              teno de todo comrcio e utilizao, realiza-se
qual o sujeito  passivo, concepo moderna                a percepo da simples presena. O perceber
ou romntica, para a qual o C. seria atividade             concretiza-se nas formas de interpelar e discu-
do sujeito e manifestao de seu poder criador.            tir algo como algo. Com base nessa interpreta-
Trata-se, realmente, de uma perspectiva tpica             o, entendida em sentido amplo, a percep-
do Romantismo e de uma oposio terica,                   o se torna determinao. O percebido ou o
que serviu a fins polmicos. Nem a filosofia an-           determinado pode ser expresso em proposi-
tiga nem as modernas concepes objetivistas               es, bem como manter-se e preservar-se nes-
pretendem estabelecer ou pressupem a "pas-                sa qualidade de proposto. A reteno percep-
sividade" do sujeito cognoscente. Ao sujeito               tiva de uma proposio sobre... j , em si
cognoscente pertence com certeza a iniciativa do           mesma, uma maneira de ser no mundo e no
conhecer, alis,  justamente essa iniciativa que          pode ser interpretada como um processo em
define a sua subjetividade. Mas isso no impli-            virtude do qual um sujeito receberia imagens
ca nem atividade nem passividade no sentido                de algo, imagens que seriam, em conseqn-
 estabelecido por Fichte. A iniciativa do sujeito          cia, experimentadas como "internas", de tal sor-
visa tornar o objeto presente ou manifesto, para           te que suscitariam o problema de sua concor-
 tornar evidente a prpria realidade, para mani-           dncia com a realidade "externa" (Ibid.,  13).
 festar os fatos. Aquilo que se chama abre-                O "problema do C." e o "problema da realida-
 viadamente conhecer  um conjunto de opera-               de" (v. REALIDADE), do modo formulado pela
 es, s vezes muito diferentes entre si, que,            filosofia do sc. XIX, so, pois, eliminados por
 em campos diversos, visam a fazer emergir, em             Heidegger. Todas as manifestaes ou graus do
 suas caractersticas prprias, certos objetos es-         conhecer (observar, perceber, determinar,
 pecficos. Desse ponto de vista, o "problema              interpretar, discutir, negar e afirmar) pressu-
 do C", tal como se configurou na segunda me-              pem a relao do homem com o mundo e s
 tade do sc. XIX, como colocao romntica ou             so possveis com base nessa relao.
 polmica contra ela, como problema de ativi-
 dade ou passividade do esprito ou de sua "ca-               Essa convico hoje  compartilhada por fi-
 tegoria eterna", que seria a atividade teortica,         lsofos de procedncia diferente, ainda que
  um problema que se desfez sob a ao da                 muitas vezes sob terminologias diversas. O
 fenomenologia, por um lado, e da filosofia da             fundamento que a sugere  sempre o mesmo:
 cincia e do pragmatismo, por outro. No mbi-             o abandono do pressuposto de que os "estados
 to da fenomenologia, Heidegger fala de uma                internos" (idias, representaes, etc.) so os
                                                           objetos primrios de conhecimento, e que s a
CONHECIMENTO                                         182                                CONHECIMENTO

partir deles podem (se  que podem) ser inferi-            objeto do C.  um grupo de sensaes. "Uma
dos objetos de outra natureza. A renncia a                cor", diz Mach, " um objeto fsico enquanto
esse pressuposto est explcita, p. ex., no                consideramos, p. ex., sua dependncia das fon-
pragmatismo de Dewey, para quem o C.  sim-                tes de luz (outras cores, calor, espao, etc);
plesmente o resultado de uma operao de                   mas se a consideramos em sua dependncia da
investigao ou, mais precisamente,  a assero           retina,  um objeto psicolgico, uma sensao.
vlida em que tal operao desemboca. Desse                Nos dois campos, a diferena no est na subs-
ponto de vista, o objeto do C. no  uma en-               tncia, mas na direo da investigao" (Ana-
tidade externa a ser alcanada ou inferida, mas            lyse der Empfindungen, 1900; 9a ed., 1922, p.
 "o grupo de distines ou caractersticas co-            14). Sob esse prisma, no so os corpos que
nexas que emerge como constituinte definido                geram as sensaes, mas so os complexos de
de uma situao resolvida e  confirmado na                sensaes que formam os corpos; estes no
continuao da investigao" {Logic, cap. XXV,             so mais do que smbolos para indicar tais com-
II; trad. it., p. 666). Visto que, freqentemente,         plexos. Com isso, pode parecer que Mach se
so usados em certa investigao objetos cons-             inclina para a teoria representativa do conheci-
titudos em investigaes precedentes, estes               mento. Mas, na realidade em sua teoria do
ltimos s vezes so entendidos como objetos               conceito,  claramente reconhecido o carter
existentes ou reais, independentemente da pr-             operacional do C. O conceito cientfico, segun-
pria investigao. Na realidade, so indepen-              do Mach,  um signo que resume as reaes
dentes da investigao em que ora entram, mas              possveis do organismo humano a um comple-
so objetos s em virtude de uma outra investi-            xo de fatos. Uma lei natural, p. ex.,  uma res-
gao de que resultam. No entanto, segundo                 trio das possibilidades de expectao, isto ,
Dewey, esse simples equvoco  a base da con-              uma determinao da previso (Erkenntnss
cepo "representativa" do conhecimento. "O                undIrrtum, 1905, cap. XXIII). Os mesmos con-
ato de referir-se a um objeto, que  um objeto             ceitos haviam sido apresentados por Hertz em
conhecido s em virtude de operaes total-                Princpios da mecnica (1894), embora sem o
mente independentes do prprio ato de refe-                abandono total da concepo pictrica do co-
rncia,  considerado, para fins de uma teoria             nhecimento. "O problema mais direto e, em
do C, como constituinte por si mesmo de um                 certo sentido, o mais importante que o nosso
caso de C. representativo" {Logic, p. 667).                C. da natureza deve capacitar-nos a resolver",
    Essas idias influenciaram e continuaram               dizia Hertz, " a antecipao dos acontecimen-
influenciando poderosamente a filosofia con-               tos futuros, de tal modo que possamos dispor
tempornea e so a base da dissoluo do pro-              as nossas atividades presentes de acordo com
blema do C, que  uma de suas caractersticas.             essa antecipao. Como base para a soluo
A dissoluo desse problema favoreceu a lgi-              desse problema, utilizamos o C. dos aconteci-
ca por um lado, e a metodologia das cincias,              mentos j ocorridos, que foi obtido pela obser-
por outro. Esta ltima, especialmente,  a her-            vao causai e pelo experimento preordenado.
deira contempornea de tudo o que ficou de                 Ao fazermos inferncias a partir do passado
vlido em problemas que eram habitualmente                 para o futuro adotamos constantemente o se-
tratados pela teoria do conhecimento. A carac-             guinte procedimento: formamos imagens ou
terstica fundamental do objeto da metodologia             smbolos dos objetos externos e a forma que
das cincias hoje  o carter operacional e an-            damos a tais smbolos  tal que as conseqn-
tecipatrio dos seus procedimentos. Aqui alu-              cias necessrias da imagem pensada so sem-
diremos s primeiras identificaes histricas             pre as imagens das conseqncias na natureza
desses caracteres, remetendo seu estudo mais               das coisas representadas" (Prinzipien der Me-
detalhado ao verbete METODOLOGIA. So reco-                chanik, Intr.). O desenvolvimento posterior da
nhecidos pela cincia s na medida em que o                cincia eliminou os resduos de concepo re-
objetivo fundamental desta no  a descrio,              presentativa que ainda permaneciam nas dou-
mas a previso. Esse objetivo fora atribudo              trinas de Mach e de Hertz. Em 1930, um dos
cincia por F. Bacon; na filosofia moderna,               fundadores da mecnica quntica, Dirac, j po-
reafirmado por Auguste Comte. Mas s mais                  dia afirmar: "O nico objeto da fsica terica 
tarde os prprios cientistas o reconheceram e              calcular resultados que possam ser confronta-
o assumiram explicitamente. Isso comeou a                 dos com experimentos e  absolutamente su-
ocorrer quando Mach retomou a tese de que o                prfluo dar uma descrio satisfatria de todo o
CONHECIMENTO, TEORIA DO                               183                          CONHECIMENTO DE SI


desenvolvimento do fenmeno" {ThePrincipies                 va, existe alguma diferena, e qual, entre idias
of QuantumMechanics, 1930, p. 7). Nesse pon-                irreais ou fantsticas e idias reais. Esses so
to, a teoria do C. resolveu-se completamente                problemas j discutidos por Berkeley e retoma-
na metodologia das cincias. Isso significa que,            dos por Fichte em Doutrina da cincia (1794),
enquanto o problema do conhecimento como                    que constituem o tema dominante de uma rica
problema de um objeto "externo" a ser alcana-              literatura filosfica, especialmente alem, da
do a partir de algum dado "interno" foi desapa-             segunda metade do sculo passado aos primei-
recendo, props-se em seu lugar o problema                  ros decnios deste. Por origem e formulao, a
da validade dos procedimentos efetivos, volta-              teoria do C.  idealista. Mesmo as solues cha-
dos para a verificao e o controle dos objetos             madas "realistas" so formas de idealismo, na
nos diferentes campos de investigao.                      medida em que as entidades que reconhecem
  CONHECIMENTO, TEORIA DO (in Epis-                         como "reais" so, muito freqentemente, cons-
temology, rar. Gnoseology, fr. Gnosologie, rar.            cincias ou contedos de conscincia. A Escola
pistemologie, ai. Erkenntnistheorie, rar. Gno-             de Marburgo (H. Cohen, 1842-1918; P. Natorp,
sologie, it. Toeria delia conoscenza, gnoseo-              1854-1924) identificava a teoria do C. com a l-
logia [muito usado], epistemologia [menos                   gica e reduzia a trs as disciplinas filosficas
usado]). Em italiano, o termo mais usado                   fundamentais: lgica, tica e esttica. O Proble-
gnoseologa. Em alemo, o termo Gnosologie,                ma do conhecimento na filosofia e na cincia
cunhado pelo wolffiano Baumgarten, teve pou-                da poca moderna (4 vols., 1906-50) de Ernest
co sucesso, ao passo que o termo Erkennt-                   Cassirer (1874-1945)  a obra mais importan-
nistheorie, empregado pelo kantiano Reinhold                te dedicada ao problema do conhecimento
(Versuch einer neuen Theorie des mensch-                    nesse significado tradicional.
lichen Vorstellungsvermgens, 1789) foi comu-                   A teoria do C. comeou a perder o primado
mente aceito. Em ingls, o termo Epistemology               e tambm o significado quando se comeou a
foi introduzido por J. F. Ferrier (Institutes of            duvidar da validade de um de seus pressupos-
Metaphysics, 1854) e  o nico empregado co-                tos, isto , que o dado. primitivo do conheci-
mumente; Gnoseology  bem raro. Em fran-                    mento e "interior"  conscincia ou ao sujeito e
cs, emprega-se comumente Gnosologie e,                    que, portanto, a conscincia ou o sujeito de-
mais raramente, pistemologie. Todos esses no-              vem ir para fora de si mesmos (o que, em prin-
mes tm o mesmo significado: no indicam,                   cpio,  impossvel) para apreender o objeto.
como muitas vezes se cr ingenuamente, uma                  Kant, em "Refutao do Idealismo", acrescenta-
disciplina filosfica geral, como a lgica, a tica         da  2a ed., de Crtica da Razo Pura (1787),
ou a esttica, mas um modo de tratar um pro-                demonstrara a sua falta de fundamento. Os
blema nascido de um pressuposto filosfico                  analistas contemporneos tambm rejeitam o
especfico, no mbito de determinada corrente               primeiro pressuposto da teoria do C, isto ,
filosfica, que  o idealismo (no sentido lu, v.            que o conhecimento  uma forma ou categoria
IDEALISMO). O problema cujo tratamento  tema               universal que pode ser indagada como tal:
especfico da teoria do C.  a realidade das coi-           assumem como objeto de indagao os proce-
sas ou, em geral, do "mundo externo". A teoria              dimentos efetivos ou a linguagem cientfica, e
do C. apia-se em dois pressupostos: Ia o co-               "conhecimento" em geral. Portanto, a teoria do
nhecimento  uma "categoria" do esprito, uma               C. perdeu seu significado na filosofia contem-
"forma" da atividade humana ou do "sujeito",                pornea e foi substituda por outra disciplina, a
que pode ser indagada em universal e em abs-                metodologia (v.), que  a anlise das condi-
trato, isto , prescindindo dos procedimentos               es e dos limites de validade dos procedimen-
cognoscitivos particulares de que o homem                   tos de investigao e dos instrumentos lingsti-
dispe fora e dentro da cincia; 2g o objeto                cos do saber cientfico.
imediato do conhecimento , como acreditava
Descartes, apenas a idia ou a representao;                   CONHECIMENTO DE SI. O saber objetivo,
e a idia  uma entidade mental, exista apenas              isto , no imediato nem privilegiado, que o
"dentro" da conscincia ou do sujeito que a                 homem pode adquirir de si mesmo. Esse ter-
pensa. Trata-se, portanto, de verificar: s se a            mo tem, portanto, um significado diferente de
essa idia corresponde uma coisa qualquer, ou               autoconscincia(y.), que  a conscincia abso-
entidade "externa", isto , existente "fora" da             luta ou infinita, e tambm de conscincia (v.),
conscincia; 2Q no caso de uma resposta negati-             que sempre implica uma relao imediata e
                                                            privilegiada do homem consigo mesmo; logo,
CONJECTURA                                           184                                      CONOTAO


 um C. direto e infalvel, embora incomunicvel,               CONJUNTO (in. Set, Aggregate, fr. Ensemble,
 de si.  como convite ao C. de si mesmo (e no            ai. Menge, it. Insieme). G. Cantor, fundador
  conscincia) que Plato interpreta o lema               da teoria do conjunto, definiu o C. como "cole-
 socrtico "Conhece-te a ti mesmo"; em Car-                o, em um todo nico, de objetos definidos e
 mides,  interpretado como convite a "saber               distintos que se oferecem a nossa intuio ou a
 que se sabe", isto ,  determinao e ao inven-          nosso pensamento: objetos que so denomina-
 trio do que se sabe. Ns mesmos no nos po-              dos elementos do C." (Beitrge zur Begrn-
 mos a fazer o que no sabemos, mas procura-                dung der Transfinite Mengenlehre, 1895,  1).
 mos as pessoas competentes e nos confiamos a              Essa noo (j implcita nos trabalhos prece-
 elas; tampouco permitimos que quem depende                dentes de Cantor, a partir de 1878) atribui aos
 de ns faa o que no saiba fazer bem e de                conjuntos as seguintes caractersticas: Ia existe
 que no tenha cincia" (Carm., 171 c). Kant                C. toda vez que um mltiplo pode ser pensado
 afirmou que s podemos conhecer-nos a ns                 como uno, isto , toda vez que um mltiplo
 mesmos do mesmo modo como conhecemos                      pode ser agregado segundo uma regra. 2a O
 as outras coisas, isto , s como fenmeno; se-            C.  internamente determinado, no sentido de
 gundo Kant, o C. de si requer, como qualquer               que, em virtude da regra que o constitui e
 outra espcie de C, duas condies, a saber: ls           do princpio do terceiro excludo, sempre se
 um elemento unificador a priori que, nesse                pode decidir se um objeto qualquer pertence
 caso,  o eu penso ou apercepo pura (v.); 2-            ou no ao C. 3a O C.  uma multiplicidade coe-
 um dado emprico mltiplo que  o do sentido               rente no sentido de que seus elementos podem
                                                           estar juntos (Zusammensein) sem contradio.
 interno (Crt. R. Pura,  2A). Os que negam a
                                                           Nesse sentido, a "totalidade de todos os objetos
 realidade da conscincia reconhecem que o C.              pensveis" no  um C, porque contraditria.
 de si no se diversifica por modalidade e cer-            4a A existncia do C.  objetiva, isto , indepen-
teza do C. dos outros ou das outras coisas (RYLE,          dente do pensamento ou da lngua que o ex-
 Concept ofMind, cap. VI).                                 prime. 5a Como unidade o C. sempre pode
     CONJECTURA (gr. eimooc; lat. Conjec-                 constituir o elemento de um outro conjunto.
 tura; in. Conjecture, fr. Conjecture, ai. Konjek-
                                                               Baseado em tais caracteres, Cantor compa-
 tur, it. Congetturd). Segundo Plato, o menor
                                                           rava o C. com a idia de Plato, que tambm 
grau de conhecimento sensvel, aquele que                  a unidade objetiva de uma multiplicidade (v.
tem por objeto as sombras e as imagens das                 IDIA). Cantor utilizou a teoria dos C. como
coisas, assim como a opinio, no mesmo grau                fundamento do conceito de infinito atual (v.
sensvel, tem por objetos as prprias coisas               INFINITO); a partir dele, foi adotada como axio-
(Rep., VI, 510 a 511 e). Nicolau de Cusa reto-             matizao da matemtica.
mou essa palavra para indicar a natureza de
                                                               Enquanto os lgicos em geral no estabele-
todo o conhecimento humano, que, como C,                   ceram diferena entre C. e classe (v.), exceto
seria um conhecimento por alteridade, isto ,              para ressaltar o carter abstrato da classe em
que remete ao que  outro,  verdade como tal,             vista do carter concreto do C. (como faz, p.
e s por essa razo est em relao com a ver-             ex., QUINE, From a LogicalPoint ofView, VI, 3),
dade e dela participa. "A C.  uma assero po-            algumas correntes da axiomtica moderna (Von
sitiva que participa por alteridade da verdade             Neumann, Gdel) consideram que o conceito
enquanto tal" {De conjecturis, I, 13).                     de C.  mais restrito que o de classe, isto , que
     CONJUNO (lat. Conjunctio; in. Con-                  existem classes que no so C. Sob esse ponto
junction; fr. Conjonction; ai. Konjunktion; it.            de vista, enquanto os C. so entidades lgicas
 Congiunzione). Na Lgica escolstica,  uma               bem determinadas, as classes so extenses de
propositio hypothetica formada de duas catego-             predicados, isto , totalidades abertas que po-
 rias unidas pelo sinal "et" {"Scrates currit et          dem ser continuamente enriquecidas por ope-
P/ato sede/"). Na Lgica contempornea,  uma              raes abstrativas efetuadas no mundo dos C.
proposio molecular formada por duas (ou                  (Cf. BETH, Les fondements logiques des math-
 mais) proposies atmicas, unidas pelo sinal             matiques, 1955, V.).
 "v" ou "." ("p . q"). Em ambas as Lgicas, a con-             CONOTAO (lat. Connotatio; in. Conno-
dio necessria e suficiente para a verdade de            taton; fr. Connotation; it. Connotazion). O
uma C.  que ambas as proposies compo-                   adjetivo connotativus aparece na lgica da
 nentes sejam verdadeiras.                   G. P.         Escolstica tardia, a propsito de uma distino
CONOTAO                                           185                                 CONSCINCIA 2


dos nomes em absolutos e conotativos. Segun-            significados propostos para compreenso e
do Ockham, so absolutos os nomes que no               conotao.
significam algo de modo primrio e algo de                  CONSCINCIA1 (in. Awareness; it. Con-
modo secundrio, como, p. ex., o nome "ani-             sapevolezz). Em geral, a possibilidade de dar
mal". So, porm, conotativos, os nomes que             ateno aos prprios modos de ser e s pr-
significam algo de modo primrio e algo de              prias aes, bem como de exprimi-los com a
modo secundrio, como, p. ex.: os nomes rela-           linguagem. Essa possibilidade  a nica base
tivos, pertencentes ao gnero quantidade, e           "cTe fato sobre a qual foi edificada a noo filo-
tambm nomes como "um", "bem", "verdade",               sfica de CONSCINCIA2. Plato e Aristteles, que
"intelecto", "potncia", etc. (Summalog., 1,10).        no tiveram este segundo conceito, conhece-
Essa distino tornou-se habitual na lgica pos-        ram e descreveram o primeiro.
terior. Na Idade Moderna, foi retomada por                  CONSCINCIA2 (gr. ODvericH; lat. Cons-
James Mill, em Anlise dos fenmenos do es-              cientia; in. Conscioussness=C. terica, Conscience
prito humano (1829), que usava a palavra                = C. moral; fr. Conscience, ai. Bewusst-sein =
"conotar" todas as vezes em que o nome que              C. terica, Gewissen = C. moral; it. Coscienzd).
indica diretamente uma coisa (que constitui,            O uso filosfico desse termo tem pouco ou
por isso, o seu significado) tambm inclui refe-        nada a ver com o significado comum (v. CONS-
rncia a alguma outra coisa. O uso dessa pala-          CINCIA1), de estar ciente dos prprios estados,
vra foi radicalmente alterado por Stuart Mill,          percepes, idias, sentimentos, volies, etc,
que a empregou para exprimir "o modo pelo               quando se diz que um homem "est conscien-
qual um nome concreto geral serve para de-              te" ou "tem C", se no est dormindo, desmaia-
signar os atributos que esto implcitos no seu         do, nem afastado, por outros acontecimen-
significado". Conseqentemente, Mill distinguiu         tos, da ateno a seus modos de ser e a suas
C. de denotao: "Sempre que os nomes da-               aes. O significado que esse termo tem na
dos aos objetos veiculam alguma informao,             filosofia moderna e contempornea, embora
isto , sempre que tm um significado, o signi-         pressuponha genericamente essa acepo co-
ficado no reside naquilo que eles denotam,             mum,  muito mais complexo:  o de uma
mas naquilo que eles conotam. Os nicos no-             relao da alma consigo mesma, de uma rela-
mes de objetos que no conotam nada so os              o intrnseca ao homem, "interior" ou "espiri-
nomes prprios; estes, a rigor, no tm signifi-        tual", pela qual ele pode conhecer-se de modo
cado" {Logic, I, 2,  5). Nesse sentido, os no-         imediato e privilegiado e por isso julgar-se de
mes dos atributos so conotativos, porque a pa-         forma segura e infalvel. Trata-se, portanto, de
lavra "branco" no denota todos os objetos              uma noo em que o aspecto moral-- a pos-
brancos, mas conota o atributo da brancura.             sibilidade de autojulgar-se -- tem conexes
Nomes conotativos so tambm "o primeiro im-            estreitas com o aspecto terico, a possibilidade
perador de Roma" ou "o autor da Ilada", etc.           de conhecer-se de modo direto e infalvel.
    Esse conceito de C. correspondia quele             Mesmo do ponto de vista histrico, os dois
que a Lgica de Port-Royal designara com o ter-         aspectos desse significado foram-se determi-
mo compreenso (v.). Ao par compreenso-                nando paralelamente. Cristianismo e neoplato-
 extenso da lgica de Port-Royal corresponde,          nismo elaboraram paripassu a noo da rela-
portanto, o par conotao-denotao da Lgica           o puramente privada do homem consigo
de Stuart Mill e ao par intenso-extenso (v.) da       mesmo, na qual o homem se desliga das coi-
lgica leibniziana e contempornea. Algumas             sas e dos outros e "retorna para si mesmo",
vezes, porm, tentou-se distinguir C. de com-           testemunhando de si para si e criando uma
preenso, adotando ambos os termos. Assim, J.           indagao puramente "interior", na qual possa
N. Keynes {FormalLogic, I, 2) e Goblot ( Trait         conhecer-se com absoluta verdade e certeza. A
 delogique,  72) definiram "C." de forma mais          determinao histrica do conceito de C, por-
restrita, como aquilo que est compreendido             tanto,  correlativa  de esfera de interioridade,
na definio convencional de um termo, e                como um campo especfico no qual seja poss-
"compreenso" de modo mais amplo, como                  vel realizar indagaes ou buscas que digam
compreenso total que inclua todas as determi-          respeito  realidade ltima do homem e, com
naes no excludas pela prpria definio.            muita freqncia, ao que nela se revela, ou
Tal distino, porm, no foi seguida, e o ter-         seja, Deus mesmo ou um princpio divino. Por-
mo moderno "inteno" compreende ambos os               tanto, o termo C, nesse sentido, significa no
CONSCINCIA 2                                       186                                     CONSCINCIA2


s a qualidade de estar ciente de seus pr-               se encontra uma noo sequer de interioridade
prios contedos psquicos (percepes exter-              espiritual. Por um lado, ele atribui a C, como o
nas ou atos autnomos do esprito, cf. CONSCIN-          estar ciente das prprias percepes sensveis,
CIA1), mas a atitude de "retorno para si mesmo",          aos sentidos, de tal modo que, por ex., sentir
de indagao voltada para a esfera de interio-            que se v pertence ao sentido da viso, assim
ridade. O uso filosfico da noo de C. supe             como sentir que se ouve, ao sentido da audi-
o reconhecimento da realidade dessa esfera e              o. No  possvel que o estar cnscio de ver
da sua natureza privilegiada.  s por existir            pertena a outro sentido que no o da viso, j
uma esfera de interioridade, que  uma realida-           que, nesse caso, haveria uma srie infinita de
de privilegiada, de natureza superior ou, de              rgos sensveis: o sentir que se sente que se
qualquer forma, acessvel ou mais indubitvel             sente... que se v (Dean., III, 2, 425 b 12). Por
para o homem, que a C. constitui um instru-               outro lado, a noo de "pensamento do pensa-
mento importante de conhecimento e de orien-              mento", com que ele define a vida de Deus,
tao prtica.                                            nada tem a ver com a interioridade da cons-
   Ora, no parece que a filosofia clssica da            cincia: exprime somente a exigncia de que o
Grcia tenha reconhecido a realidade privile-             pensamento, que, para o homem, pode ter
giada da interioridade espiritual. A noo que,           como objeto at as piores coisas, em Deus s
na filosofia de Plato, mais se aproxima da rela-         tenha por objeto o que h de mais excelente,
o da alma consigo mesma  a definio de                isto , o prprio pensamento (Mel, XII, 9, 1074
opinio (ou pensamento em geral) como "di-               b 30 e ss.).
logo interior da alma consigo mesma" (Teet.,                  O reconhecimento de uma realidade interior
189 e; Sof., 263 e), mas o mais notvel nessa             privilegiada s existe nas filosofias que assu-
definio  o fato de utilizar a linguagem para           mem como tema a oposio entre "interio-
definir o pensamento, mais precisamente a lin-            ridade" e "exterioridade", ou seja, que se chamam
guagem para perguntar e responder, isto ,                a si a tarefa de afastar o homem das relaes
como dilogo ou comunicao. Portanto, o fato             com as coisas e com os outros homens (isto
originrio e privilegiado  a linguagem, no a            , com a natureza e com o mundo histrico-
interioridade da alma. Alm disso, quando em              social) para torn-lo um "sbio", para quem
Filebo, Plato quer refutar a tese de que o bem           essa relao seja indiferente. Isso ocorre na filo-
consiste no prazer, argumentando que isso re-             sofia ps-aristotlica, a partir do Estoicismo.
duziria a vida humana a uma vida de molusco               Sabemos que Crisipo j insistia na distino entre
fechado em sua casca, enumera os elementos                o pensamento e a C. (o\)veT|av) do pensa-
ou os aspectos da vida que, nesse caso, falta-            mento (GALENO, Hipp. et Plat. dogm., V, 215).
riam ao homem: lembrana do prazer frudo;                Essa distino, com a qual tambm comea o
opinio verdadeira, que  saber que se est               uso da palavra C. em sentido especfico, passa
sentindo prazer; e raciocnio, que permite a              a ser lugar-comum da pregao moral do
previso cio prazer futuro (Fil, 21 c). Assim,            Estoicismo e depois se torna tema dominante e
segundo Plato, o que constitui aquilo que cha-           central da filosofia neoplatnica; esta acentuou
mamos de C. (no sentido de conhecimento dos               a separao entre o homem e o mundo, elabo-
nossos estados) nada mais  que lembrana,                rando, portanto, como fazia o Cristianismo pa-
opinio e raciocnio, isto , o conjunto das ati-         ralelamente, a noo de testemunho interior
vidades cognitivas em geral. E  quase supr-             privilegiado. Flon utiliza a noo de C. (De
fluo observar que, quando Plato insiste no               virtutibus, 124; De special legibus, II, 49) com o
fato de que alguns processos (em primeiro lu-             mesmo sentido moral que se observa em
gar o juzo, na medida em que se vale do ""              Eclesiastes (10, 20) e nas Epstolas de So Pau-
ou do "no ") no podem ser atribudos a                 lo (Rom., 2, 15; 13, 15; II Cor, 4, 2; 5, 11). Nes-
outro rgo que no a alma, que indaga por si             tas, significa testemunho moral autnomo, ma-
s sobre o que h de comum nas sensaes                  nifestao direta da lei ou de alguma verdade
(Teet., 185 e ss.), no faz referncia a uma es-          ao homem. Mas a elaborao decisiva da no-
fera de interioridade, mas pretende insistir na           o de C.  obra de Plotino. Nele, aparece cla-
independncia dos processos racionais em re-              ramente a diferena e, s vezes, a oposio en-
lao aos dados sensveis. "A alma s, por si"           tre o estar cnscio (v. CONSCINCIA1), como certa
contraposta  alma que sofre as impresses                qualidade dos contedos psquicos, que Plotino
sensveis e depende delas. Em Aristteles, no            chama de co-sensao (cwmaQr\ai) ou co-
CONSCINCIA2                                         187                                    CONSCINCIA 2


seqncia (7tapaKoXoi30Tioi), e o "retorno                    Essa atitude de auto-ausculatao interior
para si mesmo" ou o "retorno para a interio-               que, para a filosofia paga, era privilgio do
ridade" ou a "reflexo sobre si mesmo", que                sbio, na filosofia crist  acessvel a qualquer
constituem a C. propriamente dita (Enn., V, 3,             homem como tal. S. Agostinho  quem traduz
1; IV, 7,10). Embora o mesmo termo (ovecn)               para termos cristos, isto , universalistas, a
s vezes seja empregado para as duas coisas                atitude aristocrtica do sbio. O homem espiri-
(Enn., V, 8, 11, 23), Plotino deixa evidente a             tual de que falava S. Paulo (I Cor., II, 16)  o
oposio entre os dois sentidos: um  a per-               verdadeiro protagonista de sua filosofia, cujo
cepo do que se sente ou se faz e o outro  o             tema fundamental foi expresso pelas clebres
acesso  realidade interior do homem. Afirma               palavras: "No saias de ti, retorna para ti mes-
que h muitas atividades, vises e aes bels-            mo, no interior do homem habita a verdade e,
simas que no so acompanhadas pelo "estar                 se achares mutvel a tua natureza, transcende-
cnscio"; p. ex., quem l no est necessaria-             te a ti mesmo" {De vera rei, 39). S. Agostinho
mente cnscio de que est lendo, sobretudo se              insiste justamente nessa transcendncia, que
l com ateno; quem age com coragem no                   no se dirige ao exterior (as coisas, os homens),
est cnscio de estar agindo corajosamente                 mas a Deus enquanto princpio, norma e me-
enquanto realiza a ao; e assim por diante.               dida da prpria realidade ntima do homem.
Alis, esse tipo de conscincia pode enfraquecer           Deus reflete-se no carter auto-reflexivo da alma
a atividade que acompanha: "Por si ss, essas              humana que, nas trs faculdades -- memria,
atividades tm mais pureza, mais fora e mais              inteligncia e vontade -- reflete a Trindade
                                                           divina. Agostinho diz (De Trin., X, 18): "Lem-
vida; de tal modo que  sem estarem cnscios
                                                           bro que tenho memria, inteligncia e vontade;
que aqueles que chegaram  sabedoria tm                   entendo que entendo, quero e lembro e quero
uma vida mais intensa, que no se dispersa                 querer, lembrar e entender". De tal modo que
em sensaes, mas recolhe-se inteiramente em               no s a alma em seu todo, mas cada aspecto
si mesma" (Ibid., I, 4, 10). Precisamente esse             ou faculdade da alma olha para si e define-se
"recolher-se em si mesmo"  a C. como atitude              em sua relao puramente intrnseca consigo.
ou condio do sbio que prescinde do exte-                "A mente no conhece nada to bem quanto
rior (das coisas e dos outros homens) e s olha            aquilo que lhe  mais acessvel (praesto) e nada
para o interior. Contra os esticos que aconse-            est to prximo da mente quanto ela de si
lham o recolhimento em si mesmos (EPICTETO,                mesma" (Ibid., XIV, 7). Este estava destinado a
Diss., III, 22, 38; I, 4, 18, etc), mas tomam as           ser um dos temas mais repetidos da filosofia
coisas exteriores como objeto de vontade,                  medieval e moderna: a certeza de sua prpria
Plotino diz que, depois de dirigir sua vontade             existncia que a alma, o pensamento, a razo
para si mesmo, o sbio no pode buscar a fe-               haurem na C. de si, dada a estrutura da C.
licidade nas manifestaes exteriores nem pro-             como relao intrnseca, direta e privilegiada
curar nas coisas exteriores o objeto de sua von-           que no pode ser perturbada, destruda ou
tade {Enn., I, 4, 11). O que ele deve fazer               falsificada por nada. Na Idade Mdia esse tema
"olhar para dentro", e o que  isso? Plotino diz           reaparece sobretudo na tradio agostiniana: 
o que  quando trata da procura do Belo inteli-            repetido por Scotus Erigena (De dvis. nat., IV,
gvel, atrs do qual est o prprio Bem, isto ,           9), S. Anselmo (Afore.,  33) e outros. Contu-
Deus.  preciso "retornar para si mesmo" e tor-            do, sua importncia  menor na corrente
nar-se aquilo que se quer olhar. "Jamais um                aristotlica, dado o seu carter objetivista. A
olho ver o sol sem tornar-se semelhante ao                anlise que S. Toms faz do termo C. visa a escla-
sol, nem uma alma ver o Belo sem ser bela.                recer sobretudo seu aspecto moral, em relao
Portanto, quem quer contemplar Deus e o Belo               com o conceito de sndrese (v.); fora desse
deve comear por tornar-se semelhante a Deus               significado, para S. Toms a C.  o simples
e belo" (Ibid., I, 6, 9). Nesse caso, a C. identi-         "estar cnscio". "O nome C", diz ele, "significa
fica-se com a prpria condio do sbio, "que              a aplicao da cincia a alguma coisa; da,
extrai de si mesmo o que revela aos outros e               conscire  como simul scire. Qualquer cincia
olha para si mesmo, pois no somente tende a               pode ser aplicada a alguma coisa, por isso a C.
unificar-se e a isolar-se das coisas externas,             no indica um hbito ou uma potncia espe-
como est voltado para si mesmo e encontra                 cial, mas o ato de aplicar um hbito ou uma
em si todas as coisas" (Ibid., III, 8, 6).                 noo a algum ato particular. Ora, uma noo
CONSCINCIA 2                                          188                                   CONSCINCIA2


pode ser aplicada a um ato de dois modos: em                 quais deveria ser universalmente aceita na filo-
primeiro lugar, para considerar se o ato  ou foi            sofia ocidental. O cogito ergo sum  a auto-
e, em segundo lugar, para considerar se o ato               evidncia existencial do pensamento, isto , a
lcito ou no o . No primeiro modo, dizemos                 garantia que o pensamento (como C.) tem de
ter C. de um ato quando sabemos que esse ato                 sua prpria existncia. Diz Descartes: "Com o
foi ou no realizado; assim, no uso lingstico              nome de pensamento entendo todas as coisas
comum se diz: 'Eu no tinha C. desse fato', no               que acontecem em ns com C, enquanto te-
sentido de que no sei se ele aconteceu ou                   mos conscincia delas. Assim no s entender,
no... No segundo modo, a cincia aplica-se a                querer e imaginar, mas tambm sentir  o mes-
um ato para dirigi-lo, como quando dizemos                   mo que pensar. Pois se digo: vejo ou ando, logo
que a C. nos induz, nos obriga, ou para exami-               sou, e pretendo falar da viso e do andar que
nar o ato realizado, como quando dizemos que                 se faz com o corpo, a concluso no  abso-
a C. nos acusa, nos atormenta ao julgarmos que               lutamente certa; porque, como muitas vezes
o ato realizado discorda da cincia com a qual               ocorre nos sonhos, posso achar que estou vendo
 examinado, ou ento, que a C. nos defende                  ou andando, mas no abri os olhos nem sa do
ou nos desculpa ao julgarmos que a ao se                   lugar e talvez nem tenha corpo algum. Mas se
conforma  cincia" {Dever., q. 17, a. 1). O que             falo do prprio sentido, isto , da C. de ver ou
h de notvel nessa anlise de S. Toms  que                de andar, a concluso  certa porque ento se
toda a noo de C, tanto no significado terico              refere  mente, que s sente ou pensa que v
de percepo de si quanto no significado prti-              ou anda" (Princ. phil, I, 9). As caractersticas
co de sindrese, ou C. moral, reduz-se quan-                 fundamentais da doutrina cartesiana podem ser
to  aplicao de conhecimentos objetivos                    recapituladas do seguinte modo: ls a C. no 
("cincia"). O carter privilegiado da relao               um evento ou um grupo de eventos parti-
intrnseca da mente consigo mesma, todavia,                  culares, nem um aspecto particular ou uma ati-
 reconhecido por S. Toms: "Nossa mente co-                 vidade particular da alma, mas  toda a vida
nhece-se a si mesma por si mesma enquanto                    espiritual do homem em todas as suas mani-
conhece sua prpria existncia: com efeito, en-              festaes, desde sentir at raciocinar e querer;
quanto percebe sua prpria atividade, percebe                22 sua esfera, portanto,  a mesma do eu como
sua prpria existncia" (Contra Gent., III, 46).             sujeito ou substncia pensante; 3e ela  auto-
Essa certeza privilegiada, no entanto, limita-se             evidncia existencial do eu ou, se preferir, o eu
ao simples fato da existncia da alma, ao passo              , para ela, a evidncia de sua prpria existn-
que a alma no tem nenhum conhecimento pri-                  cia; 4S a auto-evidncia existencial do eu  o
vilegiado de si mesma no que se refere  sua                 modelo e o fundamento de qualquer outra evi-
essncia e aos seus modos de ser.                            dncia, isto , de todo conhecimeto vlido; 5S
                                                             a auto-evidncia do eu torna problemtica
   A relao da alma consigo mesma como                      qualquer outra evidncia, ainda que, por fim,
condio da relao da alma com as coisas ou,                consiga fund-la. Esses pontos bsicos serviram
em outros termos, a C. imediata de si como                   como ponto de partida para a filosofia moder-
condio da C. das outras coisas,  doutrina de-             na; e, entre eles, aquele que, de certo modo,
fendida, nos primrdios da Idade Moderna, por                resume todos os outros, ou seja, o 2a, determi-
Telsio e Campanella. Diz Telsio: "O sentido               nou a corrente subjetivista dessa filosofia. Con-
a percepo das aes ou das coisas, dos im-                 tudo, no se deve esquecer que a fecundidade
pulsos do ar, tanto quanto das prprias afei-                da filosofia cartesiana no consistiu tanto na
es, das prprias modificaes e dos pr-                   nica certeza que dava, isto , no Cogito, mas
prios movimentos; sobretudo destes. O sentido                nas muitas certezas que destrua, ou seja, no
percebe essas aes s quando percebe que                   fato de que, do ponto de vista do Cogito, mui-
influenciado, modificado e comovido por elas"                tas realidades at ento no discutidas (e a pri-
(Derer. nat., VII, 3). Campanella chama de "co-              meira delas, a do "mundo externo") adquiriram
nhecimento inato de si mesmo" {Mel, VI, 8, a.                carter problemtico e deram incio a novos ti-
1) ou "sapincia inata" (Teol., 1,11, a. 1) o conhe-         pos ou correntes de indagao. De fato, mes-
cimento originrio de si que todas as coisas pos-            mo o conceito de experincia elaborado por
suem e que serve de intermedirio ou de con-                 Locke coincide grosso modo com o de C. (Uma
dio para os conhecimentos que adquirem das                 vez que todo homem est cnscio de que pen-
outras coisas. Mas s com Descartes a noo                  sa e uma vez que aquilo que se encontra em
de C.  esclarecida com os caracteres pelos
CONSCINCIA2                                            189                                     CONSCINCIA 2


seu esprito quando ele pensa so as idias                   6). Essa impossibilidade de ultrapassar o crcu-
que o ocupam naquele momento, no h dvi-                    lo da C.  a primeira e mais importante conse-
da de que os homens tm muitas idias em seu                  qncia do uso da noo de C. para delimitar
esprito, etc", Ensaio, II, 1, l.) verdade que Locke         a esfera de investigao filosfica.
restringe o uso da palavra C.  certeza absoluta                  As coisas no so diferentes para o racio-
que o homem tem de sua prpria existncia                     nalismo ps-cartesiano. Leibniz faz a distino
("Em todo ato de sensao, raciocnio e pensa-                entre a C, que ele identifica com a apercepo
mento, estamos cnscios, diante de ns mes-                   (v.), e percepo, de que se pode no estar cla-
mos, do nosso ser, e nesse ponto no deixa-                   ramente consciente (Monad., % 14); mas consi-
mos de haurir o mais alto grau de certeza",                   dera toda a vida da mnada, isto , da substn-
Ibid., IV, 9, 3), e que a relao entre a alma e as           cia espiritual, como puramente interior a ela e
suas prprias operaes  o que ele chama de                  acessvel s a partir do interior. As mnadas
"reflexo" (Ibid., II, 1, 4), mas tambm  verda-             no tm janelas atravs das quais possa entrar e
de que o que ele chama de experincia em ge-                  sair algo (Ibid.,  7); por isso "as mudanas na-
ral nada mais  que a C. no sentido cartesiano,               turais das mnadas vm de um princpio inter-
pois a mesma relao com o objeto externo in-                 no, pois uma causa externa no poderia influir
clui-se inteiramente na esfera da C, que, por                 em sua interioridade" (Ibid.,  11). Na vasta
isso, no atinge nada alm de "idias". Dessa                 esfera das percepes da mnada, a reflexo
colocao nasce o problema do IV livro do En-                 recorta a esfera mais restrita das apercepes,
saio-, justificar a "realidade" do conhecimento               que constituem o eu. "Com o conhecimento
depois de t-la definido como nada mais, nada                 das verdades necessrias e com as suas abstra-
menos que a percepo da concordncia ou                      es, somos elevados aos atos reflexos que
discordncia entre as idias. " evidente", diz               nos fazem pensar no que se chama eu, e a
Locke, "que o esprito no conhece as coisas                  considerar que isto ou aquilo est em ns; 
imediatamente, mas s mediante a interveno                  assim que, pensando em ns, pensamos no ser,
das idias que ele tem delas. Por isso, nosso                 na substncia, no simples, no composto, na imateria-
conhecimento s  real quando h conformi-                    lidade e em Deus mesmo, concebendo aquilo
dade entre nossas idias e a realidade das coi-               que  limitado em ns e sem limites nele. Es-
sas. Mas qual ser o critrio? Como poder a                  ses atos reflexivos fornecem os objetos princi-
mente, desde que no percebe nada alm de                     pais dos nossos raciocnios" (Ibid.,  31). essas
suas prprias idias, saber se estas concordam                palavras de Leibniz exprimem a tarefa que, a par-
com as coisas?" (Ibid., IV, 4, 3). O fato mesmo               tir dele, toda a filosofia espiritualista assumiu.
de esse problema se apresentar (independen-                       Kant distinguiu a C. discursiva e a C. intuiti-
te do modo como ser resolvido) revela com                    va, que so dois outros nomes para indicar, res-
toda clareza o fundamento consciencialista da                 pectivamente, a apercepo pura e a aper-
filosofia de Locke, fundamento para o qual a fi-              cepo emprica (v. APERCEPO). A C. discursiva
losofia nada mais  que a anlise da C, no                    "o eu da reflexo", que no contm em si ne-
podendo ir nenhum passo alm.  justamente                    nhum mltiplo e  sempre o mesmo em todos
essa expresso que Hume emprega para ne-                      os juzos porque implica s o lado formal da
gar qualquer "existncia externa". Diz Hume:                  conscincia. A C. intuitiva , ao contrrio, expe-
"Como nada est jamais presente na mente                      rincia interior, que inclui o material mltiplo
alm das percepes, e como as idias derivam                 da intuio emprica interior (Antr., I,  7, Ano-
daquilo que antes esteve presente na mente,                   tao). Mas, embora C. pura ou discursiva e C.
conclui-se que nos  impossvel representar ou                emprica compreendam tudo o que o homem 
formar a idia de algo que seja especificamente               ou pode atingir, Kant fez o esforo mais bem-
diferente das idias ou das impresses. No en-                sucedido para romper aquilo que, na filosofia
tanto, se fixarmos o mximo possvel nossa                    moderna, se pode chamar de crculo mgico da
ateno fora de ns, se elevamos nossa imagi-                 C. e para justificar a relao do homem com o
nao at os cus e at os limites extremos do                mundo. A observao de que "Tenho somente
universo, na verdade no daremos sequer um                    C. imediata do que est em mim, isto , da mi-
passo alm de ns mesmos, nem poderemos                       nha representao das coisas externas" e, por-
nunca imaginar espcie alguma de existncia                   tanto, "ainda  preciso demonstrar que h ou
que no seja a das percepes que se apresen-                 no algo de correspondente fora de mim", Kant
tam em nosso pequeno crculo" (Treatise, I, 2,                responde que "ter C. de minha representao"
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significa "ter C. emprica de minha existncia",           fias da C", por no terem transformado a C. em
e isso significa "poder ser determinado s em              cincia objetiva e absoluta. "A filosofia kantiana
relao a alguma coisa que, mesmo estando li-              pode ser considerada mais determinante, por
gada  minha existncia, est fora de mim".                ter concebido o esprito como C. e por conter
Logo, "a C. de minha existncia no tempo"  a              somente determinaes da fenomenologia, e
"C. de uma relao com alguma coisa fora de                no da filosofia do esprito. Considera o eu
mim" (Crt. R. Pura, Pref.  2- ed., Nota sobre            como em relao com algo que est alm,
a refutao do idealismo). Paradoxalmente, em              alguma coisa que, em sua determinao abstra-
Kant o termo C. indica uma relao no interior            ta, chama-se coisa-em-si e concebe tanto a inte-
ou ntima no homem, mas entre o homem e                    ligncia quanto a vontade segundo essa fini-
algo de exterior. A apercepo pura ou trans-              tude... Por isso, deve ser considerada justa a
cendental (o Eu penso) no  seno a possibili-            interpretao que Reinhold faz dessa filosofia,
dade da relao, constitutiva da C. emprica,              concebendo-a como teoria da C. sob o nome
entre o eu emprico e o objeto: possibilidade              de faculdade representativa. A filosofia fichtea-
que, como C, nada mais  que a inteligncia                na tem o mesmo ponto de vista e o no-eu 
como espontaneidade (Ibid.,  25, nota 1).                 determinado s como objeto do eu, s na
    claro que, para ser efetiva e operante, a             conscincia. Ambas as filosofias mostram assim
relao entre o eu e o que no  eu no deve               que no chegaram nem ao conceito nem ao
incidir exclusivamente no prprio eu, isto ,              esprito, da forma como ele  em si e por si,
na "C", porque nesse caso seria uma relao                mas s ao esprito como ele  em relao com
interior do eu ou da C, e no uma relao com              outra coisa" (Ene,  415). Hegel quer dizer que
uma realidade diferente. Em outros termos,                 a noo de C. implica a relao da C. com um
para que subsista tal relao, a C. no deve ser           objeto que, pelo menos  primeira vista, no 
considerada como uma relao interior a si                 C, mas alguma outra coisa; e que a noo de
mesma, como uma relao entre a C. e ela mes-              conceito ou de esprito (Autoconscincia) eli-
ma (ou algum de seus fatos, operaes ou fei-              mina essa alteridade. Mas erra ao equiparar o
es), mas como uma relao da C. com                      ponto de vista de Kant ao de Fichte. Para Fichte
algo que no  C: segundo a terminologia em                o no-eu incide no interior do eu, e por isso a
uso na filosofia contempornea, deve ser uma               relao com ele  intrnseca ao eu (isto ,  C).
relao de transcendncia (v.). Talvez isso                Para Kant, porm, a relao se estabelece entre
possa ser visto, pelo menos de modo implci-               o eu e algo diferente do eu. Mas Fichte e Hegel
to, na doutrina de Kant, mas s se torna expl-            tm em comum o conceito da Autoconscincia
cito em algumas correntes da filosofia contem-             (v.), isto , um Princpio absoluto que, auto-
pornea. A filosofia ps-kantiana, especialmente           criando-se, cria a prpria realidade em sua to-
o Idealismo romntico, centra-se na imanncia              talidade. O que Hegel entende por esprito
total da realidade da conscincia. Para Hegel, a           ou conceito  uma Autoconscincia infinita
C. constitui o ponto de partida da filosofia e             desse tipo.
fornece-lhe todo o contedo: a tarefa da filo-                A C. e a Autoconscincia tornam-se protago-
sofia  a elaborao conceituai desse conte-              nistas de boa parte da filosofia do sc. XIX e
do, graas  qual esse contedo adquire abso-              dos primeiros decnios deste sculo. A alter-
luta verdade e realidade, torna-se "Esprito" ou           nativa entre essas duas noes  a que existe
"Conceito". A Fenomenologia do esprito , com             entre Espiritualismo e Idealismo, isto , entre a
efeito, o percurso da C. ao esprito. "A expe-             corrente que procura e acredita encontrar na
rincia que a C. tem de si no pode, segundo               C, considerada como finita e prpria do ho-
o conceito da prpria experincia, compreen-               mem, a manifestao, a revelao ou pelo me-
der em si algo menos que todo o sistema da                 nos o sinal do Infinito, e a corrente que consi-
C, ou seja, o reino todo do esprito... Arreme-            dera infinita a C. porque idntica, mediata ou
tendo para sua existncia verdadeira, a C. che-            imediatamente, ao Infinito. Todo o movimento
gar a um ponto em que se libertar da aparn-             romntico da "volta  tradio" lana mo,
cia de estar invalidada por algo estranho, que             como nico texto e fundamento, da C. como
lhe  alheio, ponto em que a aparncia ser                manifestao ou revelao imediata e infalvel
igual  essncia (Phnomen. des Geistes, I, Intr.,         da Verdade ao homem. Maine de Biran e Lamen-
ao final). Hegel censura a filosofia de Kant e a           nais, Galluppi e Cousin, Martineau, Rosmini e
de Fichte por terem permanecido como "filoso-              Gioberti, todos consideram a C. como ponto de
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partida e fundamento da filosofia e concebem-          cartesiano, isto , da considerao das vivn-
na como a manifestao e revelao imediata            cias (Erlebniss) "em toda a plenitude concreta
da verdade e da vontade de Deus ao homem.              com que se apresentam em sua conexo con-
Esse princpio no se altera substancialmente          creta -- a corrente da C. --, na qual se unifi-
nas vrias formas do Espiritualismo contempo-          cam graas  sua prpria essncia" (Ideen, I, 
rneo, podendo, alis, ser considerado sua de-         34). Mas para esclarecer a natureza das vivn-
finio. Na mais importante dessas formas, a           cias, isto , da C. em geral, Husserl vale-se da
doutrina de Bergson, a C, como atitude de              noo de intencionalidade, j utilizada por
introspeco ou auscultao interior, de busca         Brentano para definir o carter dos fenme-
dos "dados imediatos",  a prpria filosofia; e       nos psquicos {Psychologie vom empirischen
tambm a realidade, a nica realidade. "Em             Standpunkt, 1874). A intencionalidade  o refe-
todo o reino animal", diz Bergson, "a C. mos-          rir-se ou o reportar-se do ato de C. a outra coi-
tra-se proporcional  possibilidade de opo de        sa, a alguma coisa que no  o prprio ato de
que o ser vivo dispe. Ela ilumina a zona de           conscincia. Para Husserl, essa noo (v. INTEN-
virtualidades que circundam o ato: mede o in-          CIONALIDADE) define a prpria natureza da C. em
tervalo entre o que se faz e o que se poderia          geral, que, por isso,  um transcender que
fazer. Olhando-a de fora, poder-se-ia tom-la          constitui uma relao com o objeto "em pes-
por um simples auxiliar da ao, por uma luz           soa" e no com uma imagem ou representao
que ilumina a ao, centelha fugidia que brota-        dele. Nesse sentido, a relao com o objeto no
ria do atrito entre ao real e aes possveis.        "psicolgica", no incide no crculo de uma
Mas  preciso observar que as coisas se passa-         realidade especfica, a alma, mas  de natureza
riam do mesmo modo se a C, em vez de efei-             lgico-transcendental,  uma possibilidade que
to, fosse causa" (vol. cratr, 11a ed., 1911,         define o modo de ser da conscincia. A C. nes-
pp. 194-195). E essa , na realidade, segundo          se sentido, para Husserl,  aquilo que era para
Bergson, a histria verdadeira. "A vida, ou seja,      Kant: uma relao com o objeto, mais precisa-
a C. lanada atravs da matra, fixa a ateno        mente, uma relao, na qual o objeto se d
em seu prprio movimento ou na matria que             como tal. Todavia, para Husserl, a intencio-
atravessa, orientando-se assim no sentido da           nalidade no exaure a essncia da conscincia,
intuio ou no sentido da inteligncia". Na pri-      que  uma "corrente de vivncias" {Erlebniss)
meira direo, a C. encontrou-se comprimida           e apreende-se a si mesma de forma direta e
por seu invlucro e limitou-se a ir da intuio       privilegiada, que nada mais tem a ver com a
ao instinto. Na segunda direo, determinando-        intencionalidade. Nesse aspecto, Husserl distin-
se como inteligncia, exterioriza-se de si mes-       gue a percepo imanente da percepo trans-
ma, mas justamente por se adotar aos objetos          cendente. A percepo transcendente  a per-
externos chega a circular entre eles, a contor-       cepo da coisa no espao, que nunca est
nar as barreiras que eles lhe opem e a esten-        presente  conscincia em sua plena atualida-
der indefinidamente seu domnio. "Uma vez li-         de. Da deriva o carter em si do objeto trans-
berta, pode dobrar-se sobre si mesma e                cendente, carter que exprime a possibilidade
despertar as virtualidades de intuio que ain-       da C. de retornar ao objeto e de identfc-lo.
da dormitam nela" (Ibid., p. 197). A C. , por-       Mas justamente por estar ligada a essa simples
tanto, o princpio criativo da realidade e ao         possibilidade a existncia da coisa nunca  ne-
mesmo tempo manifesta e revela imediatamen-           cessria, mas contingente; tudo o que da coisa
te essa realidade no interior do homem.                dado  percepo transcendente pode tam-
                                                      bm no ser; a percepo transcendente  sem-
   Observaes desse tipo so to freqentes          pre duvidosa (Ideen, I,  46). A percepo ima-
e repetidas na filosofia contempornea que seria      nente, ao contrrio,  a percepo do cogito
suprfluo reproduzi-las. Interessa aqui fixar as      cartesiano, que tem por objeto as mesmas
etapas relevantes do desenvolvimento dessa            vivncias (recordar, imaginar, desejar, etc.) Es-
noo; na filosofia contempornea, a etapa            tas no so dadas  C. do mesmo modo como a
mais importante  constituda pela fenome-            coisa  dada aos fenmenos subjetivos, isto ,
nologia de Husserl. O ponto de partida e o            atravs de aparies, sombreamentos, aproxi-
ponto de chegada dessa fenomenologia so os           maes, que acenam para a unidade transcen-
mesmos do espiritualismo, identficam-se com          dente do objeto: ao contrrio, caracteriza-se
a C. tradicionalmente entendida como atitude          pela imediao e pela absolutidade. "A percep-
de auto-auscultao. Husserl parte do cogito
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o da vivncia", diz Husserl (Ibid.,  44), " a           doutrinas de Jaspers e de Sartre. Para Jaspers,
viso direta de alguma coisa que se d ou que               anlise existencial  a analise da conscincia.
pode dar-se na percepo como absoluta e no                "Existir", diz Jaspers, " C: eu existo como C. e
mais como a identidade das aparncias que a                 s como objetos de C. as coisas existem para
sombreiam... Um sentimento no aparece por                  mim. Tudo o que existe para mim deve entrar
sombreamentos. Se lano o olhar sobre ele, te-              na C." (Phil., I, p. 7). Sobre a C, Jaspers tem o
nho algo de absoluto, desprovido de aspectos                conceito peculiar  fenomenologia: "A C. no 
que poderiam apresentar-se tanto de um modo                 um ser como o da coisa, mas  um ser cuja
como de outro". A percepo imanente , por-                essncia  estar voltado para significar o obje-
tanto, a esfera da posio absoluta: implica a              to, Esse fenmeno originrio, to miraculoso
impossibilidade de negar sua existncia. "Embo-             quanto em si mesmo compreensvel, foi cha-
ra a minha corrente de C. s seja apreendida de             mado intencionalidade". Mas a C. no est vol-
modo restrito, embora seja desconhecida                     tada s para o objeto, reflete-se sobre si mesma
nas partes j transatas ou ainda vindouras, se              e tambm , portanto, Autoconscincia. "O eu
lano o olhar sobre seu presente efetivo e se               penso e o eu penso que penso andam juntos,
me apreendo a mim mesmo como puro sujeito                   de tal modo que um no fica sem o outro. O
desta vida, afirmo necessariamente: sou, esse               que parece contraditrio do ponto de vista l-
viver , eu vivo: cogito" (Ibid.,  46). Da deriva         gico aqui  reai: um no  um, mas dois, e to-
que, enquanto o ser imanente (isto , o ser da              davia no se torna dois, mas, graas  sua sin-
C. reflexa)  absoluto no sentido de que, para              gularidade, permanece um. Esse  o conceito
existir, no tem necessidade de nada, o ser                 do eu formal em gerar (Ibid., p. 8) Jaspers res-
transcendente (isto , o mundo das coisas)                 saltou assim o carter no transcendvel e qua-
relativo  conscincia. "Todo o mundo espcio-              se mstico da C, que, por isso, constitui todo o
temporal ao qual o homem e o eu humano                      seu campo de especulao. De modo anlogo,
pertencem como realidades singulares subordi-               Sartre declara explicitamente que o estudo da
nadas , segundo o seu sentido, um ser pura-                realidade humana deve comear pelo cogito
mente intencional, na medida em que tem o                   (L'tre et le nant, p. 127). A C. , em primeiro
sentido meramente secundrio e relativo de                  lugar, C. de alguma coisa e de alguma coisa
um ser para uma conscincia.  um ser que a                 que no  conscincia. Sartre chama esse algu-
C. pe em suas experincias, que  visvel e                ma coisa de em si. O ser em si s pode ser de-
determinvel s enquanto permanece idntico                 signado analiticamete, como "o ser que  o
na multiplicidade das aparies, mas fora dis-              que ", expresso que designa sua opacidade,
so  nada" (Ibid.,  49). Da deriva o carter              seu carter macio e esttico, pelo que no 
absoluto ou "apodtico" da subjetividade, do                nem possvel nem necessrio: , simplesmente
eu transcendental, que  auto-suficiente no sen-            (Ibid., pp. 33-34). Diante desse ser em si, a C.
tido de que "pertence  sua essncia a possibi-              o para si, a presena para si mesma (Ibid., p.
lidade de auto-apreenso, de autopercepo"                 119). A presena para si mesma implica uma
(Ideen, II,  22); e da deriva tambm a superio-           fissura, uma separao interna. Uma crena, p.
ridade metafsica do esprito: "O esprito e s o           ex.,  como tal sempre C. da crena; mas para
esprito existe em si mesmo e por si mes-                   capt-la como crena  necessrio separ-la da
mo: o esprito  autnomo e s nessa autonomia              C. para a qual est presente. Mas nada h ou
pode ser tratado de forma verdadeiramente ra-               pode haver que separe o sujeito de si mesmo.
cional e radicalmente cientfica" (Krisis,  345).          "A fissura intraconsciencial  um nada fora da-
    As concepes da C. provenientes da feno-               quilo que ela nega e s pode ter ser na medida
menologia podem ordenar-se segundo duas                     em que no se a v. Esse negativo, que  nada
correntes opostas: a objetivsta e a espiritua-             de ser e poder nadificante ao mesmo tempo, 
lista. A espiritualista continua adotando como              o nada. Em nenhum lugar poderamos apreen-
tema o cogito cartesiano e acentua a imanncia              d-lo com semelhante pureza. Em todos os lu-
da conscincia. A corrente objetivista acentua o            gares, de um modo ou de outro,  preciso con-
carter objetivo da relao intencional e, por              ferir-lhe o ser-em-si enquanto nada" (Ibid., p.
isso, considera o objeto como autenticamente                120). Condicionando a estrutura da C, o nada 
transcendente: em ltima instncia, essa cor-               condio da totalidade do ser que  tal s para
rente tende a deixar de lado a noo de cons-               a C. e na conscincia. Mas ele define o ser da
cincia. Vinculam-se  corrente espiritualista as           C. que  expresso por Sartre desta forma: "O
CONSCINCIA2                                        193                                    CONSCINCIA 2


ser pelo qual o nada vem ao mundo deve ser o              da noo tradicional de C. deve-se ao uso que
seu prprio nada" Ubid., p. 59), o que significa          Heidegger fez da noo de transcendncia na
que a C.  o seu prprio nada na medida em                anlise da relao do homem com o mundo. A
que se determina a no ser o em-si a que se               transcendncia no  para o homem um com-
refere. Paradoxalmente, partindo da mesma                 portamento entre os outros possveis, mas a
premissa de Husserl, Sartre chega  concluso             prpria essncia de sua subjetividade; e o ter-
simetricamente oposta. Para ele, assim como               mo para o qual o homem transcende  o mun-
para Husserl, a C. em sua percepo imanente,             do, que nesse caso no designa a totalidade
isto , em seu ato de auto-reflexo,  tudo,  o          das coisas naturais ou a comunidade dos ho-
absoluto. Mas por sua fissura interna como ne-            mens, mas a estrutura relacionai que caracteri-
gao do em-si, ela  o prprio nada. Essa con-           za a existncia humana como transcendncia.
cluso  to pouco apta a exprimir ou a com-              Transcender para o mundo significa fazer do
preender os fenmenos relativos  C. quanto a             mundo o projeto das atitudes possveis ou das
de Husserl.                                               aes possveis do homem; mas enquanto
    Por outro lado, Hartmann e Heidegger apre-            projeto, o mundo recompreende em si o ho-
sentam a alternativa objetivista da interpretao         mem que se acha "lanado" nele e submetido
da C. como intencionalidade. Hartmann julga               s suas limitaes. "A transcendncia", diz Hei-
que a noo de "C. aberta", que penetre sem li-           degger, "exprime o projeto do mundo de tal
mites no mundo das coisas,  falsa. A C.  es-            modo que O-que-projeta  dominado pela rea-
sencialmente clausura e as coisas nunca entram            lidade que ele transcende e j est conciliado
nela, mas permanecem alm dela, ainda quan-               com ela" (Vom Wesen des Grandes, III). Si-
do conhecidas. "A C. no tem coisas, mas re-              multaneamente a transcendncia tambm constitui
presentaes, concepes, imagens das coisas;             o si mesmo do homem, isto , a identidade do
e estas podem coincidir ou no com as coi-                homem singular existente. "Na transcendncia
sas, isto , ser verdadeiras ou no verdadeiras.          e atravs dela  possvel distinguir no interior
Da resulta que o conhecimento no  simples              do existente e decidir quem  e como se  Si-
ato de C, como representar ou pensar, mas um              mesmo e o que no o " (Ibid., II). A relao
ato transcendente. Um ato semelhante pren-                do homem consigo mesmo e com o mundo,
de-se ao sujeito apenas por um de seus lados e            descrita em termos de transcendncia, deixa de
com o outro estende-se para fora dele; com                ter os caracteres tradicionais da C. (tranca-
este lado, prende-se ao existente que, por seu            mento em si mesma, imediao, auto-reflexo,
intermdio, passa a ser objeto. O conhecimento           etc), de sorte que Heidegger pode dispensar
relao entre um sujeito e um objeto existente.           at mesmo o termo conscincia. Em sentido
Nessa relao, o ato transcende a C." (Systema-           mais tradicional, porm,  utilizada a noo de
 tscbePhilosophie,  11). Desse modo, a C. per-          "voz da C". Esta  entendida como uma rela-
de a supremacia e o carter de crculo en-                o intrnseca do ser-a do homem, mais preci-
cantado, do qual no  possvel escapar. Para             samente uma relao pela qual o homem 
Hartmann, o conhecimento , para todos os                 revocado da exstncia annima e banal do
efeitos, a transcendncia da C. para um objeto            "diz-se", "faz-se", etc, para seu prprio e
que existe independentemente dela. A C. tam-              autntico "poder-ser", isto , para a sua possibi-
bm perde o carter de infalibilidade e perde-o           lidade constitutiva ltima, o ser-para-a-morte.
 a C. histrica, a C. coletiva. Esta nunca  ade-         "Para o que o ser  revocado? Para o seu pr-
 quada a si mesma, como seria se fosse de um              prio Si-mesmo. Portanto, no para alguma coi-
 Esprito Absoluto. O esprito histrico revela,          sa  qual o ser-a, na convivncia pblica, con-
 no mais das vezes, sua prpria natureza quan-            fira valor e urgncia de possibilidade ou de
 do j  passado. "No se mostra mais  sua pr-          fuga, nem mesmo quilo que ele tomou, a que
 pria C, mas a outra. Para a sua esconde-se               se dedicou, de que se assenhoreou. O ser-a,
 atrs daquilo ela sabe dele" (Ibid.,  19)- Na           relacionado consigo mesmo e com os outros
 mesma linha, porm mais radicalmente, Hei-               no quadro da mundanidade,  ultrapassado
 degger fez uma anlise da existncia humana              nessa conclamao" (Seind und Zeit,  56). Por-
 que prescinde completamente do termo e da                tanto, o ser-a que compreende essa concla-
 noo tradicional de C. (Bewusstsen), mas               mao "obedece  possibilidade mais prpria
 utilizou e interpretou a noo de C. moral               de sua existncia. Escolheu-se a si mesmo"
 (Gewisseri), isto , da "voz da C". A eliminao         (Ibid.,  58). Ainda aqui, portanto, onde deve-
CONSCINCIA 2                                         194                                    CONSCINCIA 2


ramos encontrar uma relao intra-consciencial,            interna ou, de algum modo, a uma atitude de
h uma relao de transcendncia.                           "retorno para si mesmo". Mas o destino da C.
    A anlise existencial de Heidegger foi um               na filosofia contempornea parece cumprir-se
duro golpe contra o primado metafsico da C,                com a anlise que Ryle fez dela, ou melhor, das
to tenazmente afirmada pela filosofia moder-               expresses lingsticas em que o conceito re-
na e contempornea. No s essa anlise deixa               corre (The Concept of Mind, 1949). Segundo a
de utilizar o termo C. ou a noo de C, como                tese de Ryle, nenhum dos usos que os termos
tambm a distino entre "interior" e "exterior",           "C." e "consciente" tm na linguagem comum
entre o que est na e o que est. fora da C. dei-           autoriza a considerar a C. como uma espcie de
xa de ter sentido. Todavia, o caso de Heidegger             autoluminosidade ou fosforescncia que acom-
no  o nico na filosofia contempornea. O                 panha certas operaes do homem: portanto, a
naturalismo instrumentalista e o positivismo l-            C. entendida nesse sentido  um mito. Tudo o
gico chegam  mesma negao do conceito tra-                que se pode dizer  que "habitualmente sabe-
dicional de conscincia. Dewey chega a ignorar              mos aquilo de que nos estamos ocupando, sem
esse significado, que, como se viu, no  de                que, porm, seja necessrio recorrer  histria
uma qualidade psquica, mas de uma atitude                  da fosforescncia para explicar como o sabe-
reflexiva, a atitude da volta para si mesmo ou              mos; que esse saber no implica um ato inces-
da reflexo sobre si. Entende por C. o simples              sante de censura ou exame do fazer e do sen-
estar cnscio de si: "o estar desperto, vigilante           tir, mas s uma propenso interalia a exprimi-los,
e atento ao significado dos acontecimentos pre-             se e quando nos ocorre faz-lo; que esse saber
sentes, passados ou futuros". Esse estar cnscio            no requer que devamos topar com algum
no , como quer o realismo, uma espcie de                 evento de natureza espectral" (Ibid., trad. it., p.
luz que ilumina ora uma ora outra parte de um               164), isto , com aquela realidade "alma" que
campo dado, nem, como quer o idealismo,                     se supe imanente ao mecanismo corpreo (v.
uma fora que modifica os acontecimentos.                  ALMA). A C. no  um acesso privilegiado ao co-
"aquela fase de um sistema de significados                  nhecimento da alma ou ao conhecimento de si".
que, em dado tempo, sofre uma retificao de                "De mim mesmo posso descobrir as mesmas
direo, uma transformao transitiva". O siste-            coisas que do prximo e com mtodos no
ma dos significados  o que Dewey chama de                  dessemelhantes. As diferenas existentes no
esprito (v.) e  uma formao social. A C. -6             fornecimento dos dados exigidos tornam dife-
ponto focai em que esse sistema entra em crise              rente o grau dos meus conhecimentos, mas
ou sofre uma transformao. "O esprito                    nem sempre em favor do conhecimento de si.
contextual porque existente; a C.  focai e tran-           Por alguns aspectos importantes,  mais fcil
sitiva. O esprito , por assim dizer, estrutural e         verificar as mesmas coisas de ti do que de mim
substancial,  o fundo ou o primeiro plano                  mesmo; por outros, ocorre o contrrio. Mas
constante; a C.  perceptiva,  um processo,                isso s na prtica, porque em princpio Fulano
uma srie de aqui e de agora. O esprito  uma              acaba sabendo tanto de si quanto de Beltrano.
constante luminosidade; a C.  intermitente,                Com a esperana em um acesso privilegiado,
uma srie de jorros de luz de vrias intensida-             vai embora tambm o isolacionismo terico-
des" (Experience and Nature, p. 260 e ss.). A               cognoscitivo, perdemos, ao mesmo tempo, a
condio da C.  a dvida, o sentido de situa-              doura e o amargor do solipsismo" (Jbid., trad.
o indeterminada, suspensa, que urge a de-                 it., pp. 157-58). O fato principal aduzido para
terminao e a readaptao. A idia, que cons-              sustentar essa tese  que os erros so freqen-
titui o objeto da C, que, alis,  a prpria C.             tes no juzo sobre os prprios estados mentais:
em sua clareza e vivacidade, nada mais  que                o que seria obviamente impossvel se a C. fosse
a previso e o anncio da direo em que a                  aquela relao imediata e infalvel consigo
mudana e a readaptao  possvel; por isso,               mesma que se pretende ser. A concluso , evi-
Dewey diz que num mundo que no tivesse                     dentemente, a negao da C. em favor de um
instabilidade e incerteza, a chama vacilante da             "conhecimento de si" to pouco privilegiado,
C. se apagaria para sempre (Jbid., pp. 351 ss.).            direto e infalvel quanto o conhecimento de
A C.  assim reduzida  funcionalidade, isto ,             qualquer outra coisa.
ao surto de idias e diretrizes que servem para
retificar determinada situao. Desse modo,                    O declnio da noo de C. na filosofia con-
no est ligada  introspeco,  auscultao               tempornea  um dos sinais mais evidentes de
                                                            uma nova colocao do problema do homem.
CONSCINCIA2                                         195                           CONSCINCIA INFELIZ


Elaborada pela filosofia alexandrina, essa no-             certezas que se pretendem infalveis e diretas,
o serviu de incio para expressar o orgulhoso            mas que so pessoais e incomunicveis e mui-
isolamento do sbio, que, como diz Plotino,                tas vezes apresentam oposies mtuas; 3a
extrai tudo de si mesmo e, assim, no tem ne-              abandono definitivo do ideal de isolamento do
cessidade das coisas nem dos outros homens                 homem em relao ao mundo, e da crena na
para conhecer e viver. Para o sbio da era                 estrutura solitria da realidade humana; portan-
alexandrina, as relaes com o mundo so                   to, renncia a compreender o homem em seus
acidentais e secundrias: ele encontra a verdade e         modos de ser e em seus comportamentos efe-
a realidade em si mesmo. O Cristianismo valeu-             tivos abstraindo suas relaes com as coisas
se do mesmo conceito para ressaltar a indepen-             naturais e com os outros homens e conside-
dncia do juzo moral em relao a toda cir-               rando-o fechado em si mesmo pelo crculo in-
cunstncia externa e sua dependncia s de                 transponvel da conscincia.
um princpio ou realidade que nada recebe das                  CONSCINCIA EM GERAL (ai. Bewuss-
coisas e dos homens, porque  Deus. A filoso-              tsein eberhaupi). Termo empregado pela pri-
fia moderna lanou mo do mesmo princpio a                meira vez por Kant para indicar o complexo
partir de Descartes, usando-o como instrumento             das "funes lgicas" comuns a todas as cons-
de dvida e de libertao. Dele extraiu tam-               cincias empricas, no obstante as diferenas
bm "testemunhos" de verdades primeiras,                   individuais de tais conscincias (Crt. R. Pura,
absolutas ou inderivveis, bem como de "da-                 20). A C. em geral, portanto,  idntica quilo
dos ltimos" ou originrios, usando-os para                que Kant chama de apercepo pura, ou sim-
erigir pesados edifcios dogmticos, cujo apoio            plesmente C, em Antropologia (I,  7, Anota-
era a fraglima base de uma noo histrica,               o), tambm "C. discursiva ou reflexa". Esse
mas assumida como estrutura real ou origin-               termo reaparece com mais freqncia em
ria. Esse, porm, foi s o lado mais visvel do            Prolegmenos. "Como fundamento do juzo de
uso da noo de C. No se deve esquecer que,               experincia est a intuio da qual tenho C,
a partir de Descartes, essa noo serviu para              isto , a percepo (percepti), que  toda
introduzir dvidas, levantar problemas, susci-             oriunda do sentido. Mas em segundo lugar
tar oposies ou rebelies a crenas ou a siste-           concorre tambm o juzo (que  s do intelec-
mas de crenas estabelecidos institucionalmente.           to). Ora, esse juzo pode ser de duas espcies,
O recurso  C. serviu com muita freqncia                 conforme eu confronte simplesmente as per-
para apresentar ideais ou regras morais ainda              cepes e as ligue em uma C, na C. de meu
no aceitos pela moral corrente e destinados a             estado, ou as una numa C. em geral" {Prol,
super-la, para sustentar a insurreio e a luta            20). Na filosofia contempornea esse termo 
contra a autoridade constituda, para mostrar o            usado para indicar a C. em seu significado mais
carter incerto e problemtico de muitas cren-             geral, distinto do significado restrito e especfi-
as e construes metafsicas. Em Descartes,               co de C. como C. clara e distinta, ou C. reflexa.
serviu para pr em discusso algumas certezas              Assim, para Husserl, a C. em geral  a vivncia
tradicionais, como p. ex. a da existncia de um            (Erlebnis) (Jeen, I,  42). Para Jaspers,  a sub-
"mundo externo", e para iniciar pesquisas cien-            jetividade como condio de todos os objetos
tficas e filosficas de grande importncia. O             possveis. "Como C. em geral, sou a subjetivi-
prprio ceticismo de Hume  um dos resulta-                dade, pela qual os objetos subsistem como rea-
dos a que conduziu a noo de C, j que nas-               lidade dos objetos e como universalmente vli-
ceu do pressuposto de que o homem no dis-                 dos" (PM., I, p. 13).
pe de nada alm de impresses e idias, ou
seja, de objetos imediatos de C, e que, por                    CONSCINCIA INFELIZ (ai. Unglckliches
mais que arremeta com o pensamento, "nunca                 Bewusstsein). Uma das mais famosas figuras
dar um passo alm de si mesmo" (Treatise, I,              da Fenomenologia do esprito de Hegel. Represen-
2, 6). Isso posto, o declnio da noo de C. na            ta a sua interpretao da filosofia medieval.
filosofia contempornea deve-se s seguintes               Nela, Hegel v o desembocar do Ceticismo e
condies: Ia formao, em vrios campos de                do Estoicismo, enredados na contradio de
pesquisa, de tcnica de verificao e controle,            afirmar e negar, que querem manter como dois
s quais, mais do que ao testemunho ntimo,                termos exteriores, conseguindo apenas criar
so confiadas as instncias negativas e limitati-          uma "briga de crianas teimosas, em que um
vas da crtica; 2a conseqente desconfiana de             diz a quando o outro diz b, para dizer b quando
                                                           o outro diz a". A contradio prpria do ceticis-
CONSCIENCIALISMO                                     196                                  CONSEQNCIA

mo torna-se dramtica na Idade Medieval,                   nunciar ao que  mais digno de f". Os esti-
como oposio entre duas C, uma imutvel,                  cos, por sua vez, insistiram no valor do C. uni-
que  a divina, e outra mutvel, que  a huma-             versal, donde a importncia que tiveram para
na. Esse contraste constitui a C. infeliz, que            eles as "noes comuns", pelo fato de se for-
"a C. de si como da essncia duplicada e ainda             marem igualmente em todos os homens, ou
totalmente enredada na contradio". A infeli-             naturalmente ou por efeito da educao (DIG.
cidade da C. consiste, pois, no fato de que a C.           L, VII, 51). Todavia, s os Eclticos fizeram do
no se reconhece como unidade dessas duas C.               C. comum o critrio da verdade; Ccero expri-
e, por isso, no se identifica com a C. imutvel.          mia o ponto de vista deles quando dizia: "Em
A devoo  a primeira tentativa de superar a              todos os assuntos, o C. de todas as gentes deve
contradio, subordinando a C. mutvel  imu-              ser considerado lei natural" (Tusc, I, 13, 30). A
tvel, da qual a primeira pretende receber tudo            filosofia moderna, que tem Descartes como pon-
de presente. O pice da devoo  o ascetismo,             to de partida, pretendeu instaurar uma crtica
em virtude do qual a C. reconhece a infelicida-            radical do saber comum e, por isso, no viu
de e a misria da carne e tende a libertar-se              mais no C. comum, que sustenta esse saber, ga-
dela, unificando-se com a C. imutvel (Deus).              rantia ou valor de verdade. Portanto, s rara-
Mas com essa unificao termina o ciclo da C.              mente recorre ao consensus gentium. Isso se
infeliz porque, reconhecendo-se como C. imut-             observa na escola escocesa do Senso Comum,
vel, a C. reconheceu-se por aquilo que ,                  encabeada por Toms Reid (1710-96). Ope-
isto , como Esprito ou "Sujeito Absoluto"                se sobretudo ao cetismo de Hume, e para
(Phnomen. des Geistes, I, IV, B; trad. it., pp.           super-lo recorre ao C. universal, que apoiaria
185 e ss.). Essa figura exprime bem o princpio            as idias, criticadas por Hume, de substncia,
da filosofia hegeliana, segundo o qual a reali-            causa, etc. (Indagao sobre o esprito huma-
dade  a C. como substncia racional infinita,             no segundo os princpios do senso comum, 1764)
donde C. "pacificada" ou "feliz"  s aquela que           (v. SENSO COMUM). O recurso ao C. comum mui-
se reconheceu como totalidade da realidade.                tas vezes constitui uma prova da existncia de
    CONSCIENCIALISMO (in. Conscientia-                     Deus (v. DEUS, PROVAS DE). Por outro lado tam-
lsm; fr. Conscientialisme, ai. Konscientialisms;          bm serviu de fundamento  noo de direito
it. Coscienzialsm). Esse termo provavelmente             natural (v. DIREITO). Mas estes e outros usos
foi criado por Klpe (Die Realserung, 1912)              eventuais no modificam a substncia da no-
para indicar a doutrina que reduz a realidade a            o, que  a tentativa de colocar ao abrigo da
objeto de conscincia. Nesse sentido, esse ter-            crtica conhecimentos ou preconceitos julgados
mo eqivaleria a idealismo.  mais comum fa-               absolutamente vlidos, mas cuja efetiva uni-
lar-se hoje de C. com referncia a doutrinas               versalidade seria muito difcil provar.
que tomem a conscincia como ponto de parti-                   CONSEQNCIA (gr. KO,O"U0oc; lat. Con-
da da filosofia, isto , que considerem como               sequentia; in. Consequence, fr. Consquence,
tarefa ou mtodo da filosofia a introspeco, a            ai. Konsequenz; it. Conseguenza). Embora
reflexo sobre si mesmo, a reflexo interna ou             Aristteles utilize o verbo correspondente a
a experincia interna: coisas estas que signifi-           esse substantivo para significar que a conclu-
cam toda conscincia.                                      so segue-se das premissas do silogismo (v.),
    CONSCIENTE (lat. Conscius; in. Conscious;              esse termo foi introduzido pelos esticos para
fr. Conscient; ai. Bewusst; it. Coscient). Esse           indicar a proposio condicional (v. CONDICIO-
adjetivo  comumente empregado no sentido de               NAL). O latim consequentia foi introduzido por
conscincia1 (v.); seu uso filosfico, porm,              Bocio como sinnimo de "proposio hipo-
correspondente ao do termo "conscincia2": da,            ttica" (condicional). Segundo ele, a C. pode
p. ex., "esprito consciente" significar a atitude         ser acidental, como quando se diz "Quando o
de auto-reflexo de busca interior.                        fogo  quente, o cu  redondo", ou natural,
    CONSENSO UNIVERSAL (lat. Consensus                     como quando se diz "Se a Terra ficar do lado
gentium). Na obra de Aristteles  comum a                 oposto, haver eclipse da Lua". Neste ltimo
referncia  "opinio de todos" como prova ou              exemplo, a C. apia-se na "posio dos ter-
contraprova da verdade; em tica a Nicmaco,               mos", no sentido de que o fato de a Terra
(X, 2, 1.172 b 36) diz explicitamente: "Aquilo             estar em oposio  a causa do eclipse da Lua
em que todos consentem, dizemos que assim                  (De Syllogismis Hypotheticis, P. L. 640, 835 B).
, j que rejeitar semelhante crena significa re-         Abelardo reserva o termo C. para as conexes
CONSEQENTE                                         197                                      CONSTITUTIVO


necessrias que so verdadeiras ab aeterno,               o singular da C, representa a possibilidade
como "Se  homem,  animal" (Dialectica, ed.              de diversos valores. Os limites nos quais esses
De Rijk, 19702, p. 160). Ockham fez a distin-             valores podem mudar chamam-se amplitude 
o entre C. nesse sentido, que ele chamava               varivel. Carnap observou que, para designar
de formal e que exprime uma conexo ne-                   as vrias espcies de C. e de varivel, pode-se
cessria ou intrnseca, e a C. material, que              fazer referncia a seu valor de expresso, como
liga extrinsecamente duas proposies, como               quando se diz "varivel enunciativa" ou "vari-
quando se diz "Um homem corre, portanto                   vel predicado", etc; ou, como ocorre mais fre-
Deus existe", que  vlida porque o antece-               qentemente, pode-se fazer referncia aos seus
dente  impossvel (Summa log., III, III, 1).             valores ou designados, como quando se diz
   Esse termo  usado com significados seme-              "varivel proposicional", "varivel individual", "va-
lhantes ou anlogos pelos lgicos nos sculos             rivel numrica", etc. {Introduction to Seman-
seguintes, mas, pelo modo como  tratado,                 tics,  37) (v. FUNO; NOTAO).
muitas vezes se intrica (ou confunde) com o                   CONSTITUIO. V. CONSTITUTIVO.
conceito de proposio hipottica (v.) ou de                  CONSTITUTIVO (gr. avaxaxiKq- lat.
condicional'(v.). Na lgica contempornea, foi             Constitutivus; in. Constitutive, fr. Constitutif, ai.
usado por Carnap (Logical Syntax ofLanguage,              Konstitutiv, it. Constitutivo). 1. Na lgica antiga e
 14) para indicar uma relao mais extensa do            medieval esse adjetivo referia-se  diferena
que a de derivabilidade, da qual, posteriormente,         (v.) chamada de constitutiva em relao  esp-
considerou sinnimo (Introduction to Se-                  cie e de divisiva em relao ao gnero: p. ex., a
mantics,  37). Mas, como "condicional", esse             diferana "racional", na definio do homem
termo confluiu para implicao (v.).                      como "animal racional", constitui a espcie hu-
   CONSEQENTE (in. Consequent; fr. Con-                  mana, mas divide o gnero animal em duas
squent; ai. Konsequent; it. Conseguente).                partes, a racional e a no racional (PORFRIO,
Em Lgica, o segundo termo de uma conse-                  Isag., 10; PEDRO HISPANO, Summ. log., 2.12;
qncia (v.).                               G. P.         JUNGIUS, Lgica, I, 2, 45, etc).
   CONSEQUENTIS (FALLACIA).  a falcia                       2. Kant empregou esse termo para designar
(v.), consistente em supor indevidamente que              o que condiciona a realidade dos objetos
uma consequentia (v.) ou implicao seja                  fenomnicos. As intuies puras (espao e
reciprocavel, o que normalmente no ocorre:               tempo) e as categorias so constitutivas, nesse
"se de A se segue B, ento de B se segue A"               sentido, porque condicionam todos os objetos
(ARISTTELES, El. sof, 5,167 b 1; PEDRO HISPANO,          possveis de experincia. As idias da razo
Summ. log., 7. 58; etc).                                  pura tm, ao contrrio, apenas um uso regu-
  CONSERVAO. V. CONAO.                                 lativo, de dirigir o intelecto para certo objeti-
   CONSIGNIFICANTE (lat. Consignificans).                 vo, em vista do qual as linhas diretivas de todas
0 mesmo que sincategoremtico (v.).                       as suas regras convergem num ponto que --
   CONSTANTE (in. Constant; fr. Constant; ai.             embora nada mais seja que uma idia (focus
Konstante, it. Costant). Termo derivado da                imaginarius), isto , um ponto do qual na re-
matemtica, na qual designa a varivel de-                alidade no partem os conceitos do intelecto,
pendente cujo valor no varia com a variao              j que est fora dos limites da experincia pos-
da varivel independente (v. FUNO). Em geral,           svel -- serve, porm, para conferir-lhes a maior
chama-se constante toda uniformidade, de im-              unidade com a maior extenso (Crt. R. Pura,
portncia relevante, que possa ser verificada             Apndice  Dialtica Transcendental) (v. IDIA).
em um campo qualquer. Em fsica, tais unifor-             Em sentido anlogo, Husserl utiliza a palavra
midades chamam-se C. quando podem ser ex-                 "constituio" quando fala, p. ex., dos "proble-
pressas por nmeros (cf. B. RUSSELL, Introduc-            mas da constituio da objetividade da cons-
tion to Mathematical Phil, 18; trad. it., p. 223          cincia". Esses problemas consistem em ver
ss.). Na lgica contempornea, o significa-               como "as modalidades fundamentais de uma
do desse termo tem como modelo o signifi-                 conscincia possvel" condicionam ou, como
cado matemtico: a C. , simplesmente, o                  diz Husserl, predeterminam "todas as possibili-
nome prprio de um nmero, assim tambm                   dades (e as impossibilidades) do ser que  ob-
em lgica esse termo  empregado para indicar             jeto da prpria conscincia" (Ideen, I,  86). Por
um nome prprio que tenha denotao. A vari-             sua vez, Carnap esclareceu o conceito de cons-
vel  um smbolo que, em vez de ter a denota-             tituio do ponto de vista lgico-lingstico
CONSTRUCIONISMO                                    198                           CONTEMPLATIVA, VIDA


com o conceito de reintegrabilidade. Diz-se                  CONSUBSTANCIAO (lat. Consubstan-
que um objeto ou conceito  reintegrvel num             tiatio-, in. Consubstantiation; fr. Consubstantia-
ou mais outros objetos se os enunciados que              tion; ai. Konsubstantiation; it. Consustanzia-
dizem respeito ao primeiro se deixam trans-              zione). Interpretao do sacramento do altar,
formar em enunciados que dizem respeito ao               segundo a qual a substncia do po e do vinho
segundo. Nesse caso, pode-se dizer que o                 se une  do corpo e do sangue de Cristo, como
primeiro objeto  "constitudo" pelos outros             sujeito de seus acidentes. Essa doutrina, sem-
(Der logische Aufbau der Welt,  2). Essa pala-          pre combatida pela Igreja, foi defendida no
vra passou a fazer parte da linguagem comum:             incio do sc. XIV por Ockham, nos dois escri-
diz-se que tem carter ou funo C. tudo o que           tos intitulados De sacramento altarise Decorpore
concorre para condicionar de algum modo um               Christi; era aceita por Lutero.
objeto qualquer.                                            CONTEMPLATIVA, VIDA (gr. 9ecopr|Tix
    CONSTRUCIONISMO (in. Constructiona-                  (3o; lat. Vita contemplativa; in. Theoretical life,
lisni). Produo e uso de constructos (v.). Esse         fr. Vie thortique, ai. Theoretisches Leben; it.
termo s vezes  empregado por escritores anglo-          Vita contemplativa). Ideal da vida dedicada ex-
saxes. (Cf. p. ex., M. DUMMETT, em The Phi-             clusivamente ao conhecimento. Segundo W.
losophical Review, 1957, p. 47).                         Jaeger (Genesi e ricorso deli'ideale filosfico
    CONSTRUCTO (in. Construci). C. ou cons-              delia vita, 1928, em Aristteles, trad. it., p. 363
truo lgica  termo usado freqentemente               ss.), a atribuio de uma vida puramente C. aos
por escritores anglo-saxnicos para indicar              filsofos pr-socrticos, por meio de anedotas
entidades cuja existncia se julga confirmada            (como a de Tales que, por andar olhando para
pela confirmao das hipteses ou dos siste-             as estrelas, cai num poo, enquanto a criadinha
mas lingsticos em que se encontram, mas que            de Trcias ri dele)  a projeo, no passado, do
nunca  observvel ou inferida diretamente de            ponto de vista platnico-aristotlico, que exal-
fatos observveis. Esse termo entrou em uso              tou a vida C. acima da prtica e a considerou a
desde que Husserl enunciou seu princpio-.               nica digna do filsofo e, em geral, do homem.
"Sempre que for possvel,  preciso substituir           Pode-se duvidar da exatido dessa tese no que
entidades inferidas por construes lgicas"             concerne  filosofia platnica, que dificilmente
(Mysticism and Logic, 1918, p. 155). Os C. so           poderia ser chamada de contemplativa, pois ti-
dotados pelo que se chamou de existncia                 nha deliberadas finalidades polticas. Mas certa-
sistmica, isto , pelo modo de existncia pr-          mente  exata no que diz respeito a Aristteles
prio de uma entidade cujas descries so ana-           (v. FILOSOFIA; SABEDORIA). Uma das conseqn-
lticas no mbito de um sistema de proposi-              cias do ideal contemplativo de vida foi o
es, ao passo que as entidades inferidas                desprezo pela "banausia" (v.), isto , pelo tra-
teriam existncia real, que  o modo de exis-            balho manual; outra conseqncia foi a reco-
tncia atribudo a uma entidade a que se pode            nhecida superioridade das cincias chamadas
referir uma proposio sinttica verdadeira (cf.         teorticas sobre as chamadas prticas e, em
L. W. BKCK, Constructions and Inferred Entities,         geral, da atividade teortica. "Essa atividade", diz
em Readings in the Philosophy of Science, 1953,          Aristteles, " por si mesma a mais elevada, j
p. 369). Os C. deveriam desempenhar todas as             que a inteligncia  o que h de mais elevado
funes das entidades inferidas: ls resumir os           em ns; entre as coisas cognoscveis, as mais
fatos observados; 2e constituir um objeto ideal          elevadas so aquelas de que se ocupa a inteli-
para a pesquisa, ou seja, promover o progresso           gncia". Portanto, a vida teortica  superior 
da obsevao; 3a constituir a base para a previ-         humana. "O homem no deve, como dizem
so e a explicao dos fatos (Ibid., p. 371).            alguns, conhecer as coisas humanas, como ho-
Contudo,  possvel a verificao emprica indi-         mem, conhecer as coisas mortais, como mortal,
reta dos C. "A definio de um C. emprico",             mas tornar-se o mais imortal possvel e fazer de
diz Bergmann, "p. ex., de um campo eltrico,             tudo para viver segundo o que nele h de mais
sempre fornece instrues para comprovar,                elevado: embora isso seja pouco em quantida-
para determinar a verdade ou a falsidade das             de, supera em potncia e calor todas as outras
asseres nas quais se encontra o C: p. ex., 'H         coisas" (Et. nic, X, 7, 1177 b 31). Aristteles
um campo eltrico nas vizinhanas do objeto              contrapunha explicitamente, no captulo citado
B'" (Outline of an Empiricist Phil. of Physics,          da tica, a vida teortica, a do poltico e a
em Readings, cit., p. 270).                              do guerreiro que, segundo os antigos, eram
CONTEMPLATIVA, VIDA                                  199                                       CONTEXTO

as mais elevadas. Sobre essa noo deveria                 filosofias da ao e o pragmatismo insistiram
basear-se toda a filosofia ps-aristotlica, dos           na subordinao do conhecimento  ao e s
epicuristas aos neoplatnicos, destinada a exal-           suas exigncias. Por fim, o existencialismo con-
tar a figura do "sbio", do homem cuja vida se             siderou as situaes chamadas de cognitivas
resume ou se esgota na contemplao. A filo-               como modos de ser do homem no mundo, tor-
sofia medieval continua essa tradio. Se o Mis-           nando sem sentido a distino entre vida C. e
ticismo (v.) v na vida C. a finalidade do ho-             vida prtica. O reconhecimento da ilegitimida-
mem e no caminho que leva a ela a nica                    de dessa distino talvez seja o trao mais ca-
atividade de valor, para a Escolstica, com S.             racterstico da filosofia contempornea. Por um
Toms (5. Th., II, 1, q. 3, a. 5), a vida C.  no         lado o conhecimento, em todos os seus graus e
s a bem-aventurana ltima e perfeita a ser               formas, implica a aplicao de mtodos, tcni-
obtida na outra vida, como tambm a bem-                   cas ou instrumentos inerentes  situao huma-
aventurana menor e imperfeita que se pode                 na no mundo, podendo ser considerados de
alcanar nesta. Uma das caractersticas do                 natureza prtica. Por outro, a prpria vida C.
Humanismo e do Renascimento  a ruptura                    no passa de delimitao dos interesses a certa
dessa tradio e o reconhecimento do valor da              esfera de problemas e no a outra; portanto 
vida prtica ou ativa, do trabalho e da atividade          uma diretriz de vida prtica, escolhida e delibe-
mundana. E a Reforma, ao menos nesse ponto,                rada. Desse ponto de vista, a exaltao da vida
coincide com o Renascimento. Bacon afirmava,               C. aparece sobretudo como distoro profissio-
nessa linha, o carter prtico e ativo do prprio          nal do filsofo, que privilegia sua atividade,
conhecimento iscire estposse, Nov. Org., I, 3),            considerando-a superior a todas as outras.
no sentido de que este visa a estabelecer o dom-              CONTEDO. V. COMPREENSO.
nio humano sobre a natureza. As anlises dos                   CONTEXTO (in. Context; fr. Contexte, ai.
empiristas ingleses nos scs. XVII e XVIII mos-            Kontext; it. Contesto). Conjunto dos elementos
travam a conexo entre o conhecimento e a ex-              que condicionam, de um modo qualquer, o
perincia vivida do homem e, com Hume, a                   significado de um enunciado. O C.  definido
subordinao da primeira  segunda. No sc.                por Ogden e Richards do seguinte modo:
XVIII, o Iluminismo v no conhecimento es-                 "C.  o conjunto de entidades (coisas ou
sencialmente um instrumento de ao, um                    eventos) correlacionadas de certo modo; cada
meio para agir sobre o mundo e melhor-lo: o               uma dessas entidades tem tal carter que
ideal da vida C. parece abandonado. Contudo,               outros conjuntos de entidades podem ter os
retorna e prevalece no Romantismo, para o                  mesmos caracteres e estar ligados pela mesma
qual o conhecimento  o ponto final de chega-              relao; recorrem quase uniformemente" (The
da; portanto, a vida C.  pice do processo                Meaning of theMeaning, 10- ed., 1952, p. 58).
csmico, aquele no qual esse processo alcana              Essa definio parece obscura, mas fica mais
a realidade ltima por meio da conscincia,                clara graas  explicao que se segue: "Um
(entendida no sentido de CONSCINCIA1 [ver]).              C. literrio  um grupo de palavras, inciden-
 Hegel assim conclua sua Enciclopdia. "A Idia,          tes, idias, etc. que em dada ocasio acompa-
 eterna em si e por si, atualiza-se, produz-se e           nha ou circunda aquilo que dizemos ter um
 compraz-se em si mesma eternamente, como                  C, enquanto C. determinante  um grupo
 Esprito Absoluto"; e acrescentava, como um               dessa espcie que no s ocorre repetidamen-
 selo de sua obra, o trecho de Aristteles (Met.,          te, mas  tal que pelo menos um de seus
 XI, 7), em que se fala da vida divina como "pen-          membros  determinado, quando os outros
 samento do pensamento". Esse renascimento                 so dados" (Jbid., p. 58, n. 1). Em outros
 do esprito C, que se manifestou em todas as              autores,  chamado de C. o conjunto de pres-
 direes nas quais o Romantismo agiu, come-               supostos que possibilitam apreender o sentido
 ou a ser duramente atacado a partir de mea-              de um enunciado. Diz S. K. Langer: "O nome
 dos do sc. XIX. Marx contraps  filosofia C. a          de uma pessoa, como todos sabem, traz 
 no-filosofia da prxis, empenhada em trans-              mente certo nmero de acontecimentos de
 formar, mais do que em conhecer, a realidade              que ela tomou parte. Em outros termos, uma
 (Teses sobre Feuerbach, 1845,  3, 11). Nietz-            palavra mnemnica estabelece um C. no qual
 sche insistiu no carter de renncia e de enfra-          ela se nos apresenta; e ns a usamos ingenua-
 quecimento vital da vida C. e do desinteresse             mente, esperando que seja compreendida
 terico (Die Froeliche Wissenschaft,  345). As           com seu C." (Philosophy in a New Key, ed.
CONTEXTUALISMO                                        200                                 CONTINGENTE

Penguin Books, cap. V, p. 110). Em todo caso,           o a si mesma", dizia Avicena, " preciso que
 o conjunto lingstico de que o enunciado             seja possvel em relao a si mesma, mas ne-
faz parte e que condiciona seu significado (de          cessria em relao a uma coisa diferente"
modos e em graus que podem ser muito                    (Met., II, 1, 2). O que  possvel permanece
diferentes).                                            sempre possvel em relao a si mesmo, mas
    CONTEXTUALISMO (in. Contextualism).                 pode ocorrer que seja de modo necessrio em
Corrente do pragmatismo que acentua a mobili-           virtude de uma coisa diferente de si (Ibid., II,
dade temporal dos eventos e os considera em             2, 3). Desse modo, tudo o que existe, de Deus
estreita relao com os outros eventos que per-          coisa natural mais nfima, existe necessaria-
tencem ao mesmo contexto. (Cf. S. C. PEPPER,            mente, segundo Avicena. Mas enquanto Deus
Aesthetic Quality: A contextualistic Theory of          e as realidades primeiras so necessrias em
Beauty, Nova York, 1938; L. E. HAHN, A Con-             si, as coisas finitas so necessrias "para outra
textualistic Theory of Perception, Berkeley-Los         coisa", j que em si mesmas so possveis; e
Angeles, 1942).                                         nesse sentido so contingentes. Essa noo no
    CONTIGIDADE, ASSOCIAO POR                        se alterou substancialmente em toda a filosofia
(in. Association by contiguity, fr. Association         escolstica nem na filosofia moderna, que, no
par contiguit, ai. Berhrungs-Association; it.         entanto, utiliza-a muito menos. S. Toms, que
Associazione per contiguit). Uma das formas            define o C. como possvel, isto , como "o que
de associao de idias, conhecidas j por Aris-        pode ser ou no ser", reconhece que nele j
tteles (De memria, 2, 451 b 20) (v. ASSOCIA-          podem ser encontrados elementos de necessi-
O DE IDIAS).                                         dade (S. Th., I, q. 86, a. 3). Duns Scot reproduz
    CONTINGENTE (lat. Contingens; in. Con-              a noo de Avicena, defendendo-a da acusao
tingent; fr. Contingent; ai. Kontingent; it.            de contradio (Op. Ox., 1, d. 8, q. 5, a. 2, n. 7).
 Contingente). 1. Os escolsticos latinos traduzi-      Essa noo reaparece com a clareza desejvel
ram por esse termo o aristotlico vSe%|J.evov         na doutrina de Spinoza: segundo ele uma coi-
(De int., 12, 20 b 35). Bocio, a quem se deve a        sa s pode ser considerada por um defeito de
determinao de boa parte da terminologia fi-           nosso conhecimento (Et., I, 33, scol. 1), j que
losfica latina, j observava quepossibe e con-        na realidade, nada h de C. e tudo  determina-
tingens significam a mesma coisa, salvo talvez          do pela natureza divina para ser e para atuar de
pelo fato de no existir o negativo de con-             certo modo (Ibid., I, 29). A Escolstica falava
 tingens, que deveria ser incontingens, assim           tambm de "verdades C", que so as que se
como existe o negativo de possibe, que                referem a eventos C. (p. ex., OCKHAM, In Sent.,
mpossbile(De interpretatione, [II], V; P. L, 64Q,     prol., q. 1. Z). Leibniz dizia que as verdades C.
col. 582-83). Todavia, na tradio escolstica, e       se distinguem das verdades necessrias assim
sobretudo por influncia da filosofia rabe, o          como os nmeros incomensurveis se distin-
termo C. passou a ter significado especfico, di-       guem dos comensurveis, isto , no sentido de
ferente do que se entende por "possvel"; pas-          que, assim como  possvel obter resoluo
sou a significar aquilo que, embora sendo pos-          dos nmeros incomensurveis  medida co-
svel "em si", isto , em seu conceito, pode ser        mum, tambm  possvel obter a reduo das
necessrio em relao a outra coisa, ou seja,           verdades necessrias a verdades idnticas. Isso,
quilo que o faz ser. P. ex., um acontecimento          porm, exigiria um progresso infinito para as
qualquer do mundo  C. no sentido de que: Ia            verdades C. (ou de fato), progresso que pode
considerado de per si, poderia verificar-se ou          ser efetuado somente por Deus (Op., ed.
no; 1 verifica-se necessariamente pela sua            Erdmann, p. 83). Em sentido anlogo, fala-se
causa. Desse ponto de vista, enquanto o poss-          hoje de "contingncia lgica", no sentido de
vel no s no  necessrio em si, mas tam-             que no se pode comprovar se as proposies
pouco  necessariamente determinado a ser, o            empricas so verdadeiras ou falsas a partir de
C.  o possvel que pode ser necessariamente            qualquer de seus caracteres lgicos:  o que faz
determinado e, portanto, pode ser necessrio.           C. I. Lewis (Analysis ofKnowledge and Valua-
Por isso, a noo de C.  ambgua e pouco coe-           tion, p. 340). Carnap no mesmo sentido usa
rente, mas seu uso na filosofia antiga e moder-         esse termo (Meaning and Necessity,  39) (v.
na  bem grande. Esse uso foi introduzido pelo
                                                            MODALIDADE; POSSVEL).
necessitarismo rabe, especialmente por Avi-
cena. "Se uma coisa no  necessria em rela-                  2. Na filosofia contempornea, sobretudo
                                                            na francesa a partir da obra de Boutroux, A
CONTINGENTIA                                           201                                       CONTINUO


contingncia das leis da natureza (1874), o                  tar de elementos indivisveis, de tomos (Lbid.,
termo C. passou a ser sinnimo de "no-de-                   VI, 1, 231 a 24). Em Aristteles, esse conceito
terminado", isto , de livre e imprevisvel; designa         alterna-se com outro, mais intuitivo e menos
especialmente o que de livre, nesse sentido, se              matemtico, segundo o qual C.  uma espcie
encontra ou age no mundo natural. Bergson                    de "contguo", no sentido de que so contnuas
adota esse termo no mesmo sentido: "O papel                  as coisas cujos limites se tocam e de cujo conta-
da contingncia  importante na evoluo. C,                 to surge certa unidade (Met., XI, 12, 1069 a 5
o mais das vezes, so as formas adotadas, ou                 ss.). Este ltimo conceito encontrava-se em
melhor, inventadas. C, relativamente a obst-                Parmnides (Fr. 8, 24, Diels) e no  utilizado
culos encontrados em tal lugar e em tal mo-                  pelo pensamento moderno. O nico a lembr-
mento,  a dissociao da tendncia primordial               lo  Peirce, que se reporta explicitamente a
em diversas tendncias complementares que                    Aristteles, declarando que no  totalmente
produzem linhas divergentes de evoluo. C.                  satisfatria a definio de C. dada por Can-
so as paradas e os retornos" (vol. cratr, 11a             tor (Chance, Love and Logic, II, 3; trad. it.,
ed., p. 277, 1911). Nesse sentido, contingncia              pp. 153 ss.).
identifica-se com liberdade e ambas se opem                    A primeira definio dominou a tradio da
a necessidade; ao passo que a possibilidade,                 matemtica at Leibniz. Este ressaltou a impor-
segundo Bergson,  s a imagem que a realida-                tncia filosfica da "lei de continuidade" e re-
de, em sua autocriao C, isto , "imprevisvel              definiu C. Segundo a lei de continuidade, o
e nova, projeta de si mesma em seu prprio                   repouso pode ser considerado um movimento
passado" (La pense et le mouvant, p. 128). O                que se desvanece depois de ser continuamente
uso do termo "contingncia" nesse significado                diminudo. De modo anlogo, a igualdade 
caracteriza as correntes do chamado indeter-                 uma desigualdade que se desvanece, assim
minsmo (v.) contemporneo: doutrinas filo-                  como aconteceria no caso da diminuio cont-
sficas que interpretam a natureza em termos                 nua do maior de dois corpos desiguais, dos
de liberdade e de finalidade, isto , em termos              quais o menor conservasse sua grandeza
de esprito. A esse significado tambm se re-                (Thod., II,  348). A lei de continuidade acon-
porta o uso desse termo por Sartre, para quem                selha admitir infinitos graus na constituio e
contingncia  o fato de a liberdade "no po-                na ao das substncias que compem o uni-
der no existir". Contingncia, portanto,  a                verso. "Cada uma dessas substncias", diz Leib-
liberdade na relao do homem com o mundo                    niz, "contm em sua natureza uma lei de con-
{1'tre et le nant, p. 567).                                tinuidade da srie de suas operaes" (Op.,
   CONTINGENTIA Uma das provas da exis-                      ed. Erdmann, p. 107). A lei de continuidade
tncia de Deus  conhecida como a contn-                    tambm vale para o mundo das representa-
gentia mundi (v. DEUS, PROVAS DE).                           es, no qual "as percepes notveis provm
    CONTINGENTISMO. Esta palavra no faz                     gradualmente daquelas que so pequenas de-
referncia ao significado tradicional ou clssico            mais para serem notadas" (Nouv. ess., Introd.).
de contingncia, mas ao significado contempo-                Leibniz definiu C. no sentido de que, nele, "a
rneo desse termo como sinnimo de liberda-                  diferena entre dois casos pode ser reduzida a
de (no sentido infinito ou incondicionado).                  menos de qualquer grandeza dada" (Mathe-
Portanto, refere-se sobretudo s vrias formas               matische Schriften, ed. Gerhardt, VI, p. 129). 
do espiritualismoiy.), que afirmam a presena                esse o conceito a que Kant alude: "A proprie-
e a ao, no prprio mundo da natureza, de                   dade das quantidades, pela qual nelas no h
um Princpio Livre (divino).                                 parte que seja a menor possvel (uma parte
    CONTINUO (gr. avvex, lat. Continuum,                   simples)  chamada de continuidade delas"
in. Continuous; fr. Continu; ai. Stelig; it. Conti-          (Crt. R. Pura, Antecipaes da percepo). Na
 nuo). A noo de C.  matemtica, embora os                 matemtica moderna, duas etapas importantes
filsofos tenham contribudo para a sua elabo-               na definio do C. so as constitudas pelos
rao e a tenham utilizado muitas vezes. A pri-              postulados de Dedekind (Continuidade e n-
meira definio explcita de C.  dada por Aris-             meros racionais, 1872) e de Cantor (nos Ma-
tteles (que talvez retome um conceito de                    thematische Annalen, de 1878 a 1883). O pos-
Anaxgoras, Fr. 3, Diels), segundo o qual C.                tulado de Dedekind diz: "Dividindo-se todos os
 "o divisvel em partes sempre divisveis" (Fs.,            pontos de uma reta em duas classes, de tal
VI, 2, 232 b 24), no podendo, portanto, resul-              modo que cada ponto da primeira preceda
CONTNUO                                             202                                      CONTRAO

cada ponto da segunda, existe um ponto, e s               ralista da lgica", determina a noo de conti-
um, que assinala a diviso de todos os pontos              nuidade mais negativamente e por imagens do
em duas classes e da reta em dois segmentos".              que de forma rigorosa. Diz que ela "significa
O postulado de Cantor  mais restrito: "Dadas              excluso da ruptura completa, por um lado, e
sobre uma reta r duas classes C e C de pontos,             da simples repetio ou identidade, por outro;
tais que: ls cada ponto de C esteja  esquerda             nega a redutibilidade do 'mais alto' ao 'mais
de cada ponto de C; 2S tomando-se um seg-                  baixo', como nega as separaes e os cortes n-
mento qualquer y, seja possvel achar um                   tidos. O crescimento e o desenvolvimento de
segmento menor que y do qual um extremo                    uma natureza viva, que vai da semente  ma-
seja um ponto de C e o outro um ponto de C;                turidade, ilustra bem o significado dessa palavra"
existe ento sobre a reta r um ponto de se-                (Logic, cap. II; trad. it., p. 59). Aqui, como se
parao das duas classes." Russell expressou               v, alm do recurso  imagem do organismo
o mesmo conceito a propsito do movimento,                 vivo s h duas determinaes negativas que
afirmando: "O intervalo entre dois instantes               so: Ia) excluso de diviso e 2e) excluso de
quaisquer ou duas posies quaisquer  sem-                unidade entre as partes do contnuo. Em senti-
pre finito, mas a continuidade do movimento                do ainda mais impreciso, essa palavra  usada
nasce do fato de que, por mais prximas que                quando se fala de continuidade da evoluo,
estejam as duas posies consideradas, ou os               cio desenvolvimento, do progresso, ou da hist-
dois instantes, h uma infinidade de posies              ria. A propsito desta ltima, a continuidade pa-
ainda mais prximas, ocupadas por instantes                rece significar, na maioria das vezes, a perma-
que so igualmente mais prximos" (Scientifc              nncia de certos elementos, motivos ou fatores,
Method in Philosophy, 1926, V; trad. fr., p. 111).         portanto certa unidade ou semelhana entre as
No entanto, essas definies de C. tm carter             vrias fases. A "continuidade da histria da filo-
paradoxal porquanto parecem querer inferir o               sofia", p. ex.,  entendida quase sempre como
C. da imagem do descontnuo, isto , de um                 a permanncia, atravs dela, de certas noes,
conjunto de instantes, de pontos ou de posi-               diretrizes ou princpio gerais. Por outro lado, se
es. Nos ltimos tempos, deu origem a discus-             refletirmos que aquilo que Dewey chama de
ses acaloradas entre os matemticos, alguns               "postulado naturalista da continuidade" entre
dos quais tendem a voltar  noo "intuitiva"              biologia e lgica  a ao condicionadora que
de C, assumido s vezes como conceito origi-               as situaes biolgicas exercem sobre a organi-
nrio. Brouwer, p. ex., v a estrutura do C. na            zao e o desenvolvimento das pesquisas, logo
"aproximao que progride mais ou menos li-                veremos que a noo de permanncia no 
vremente" (Cf. From Frege to Gdel, ed. J. von             apta a definir o conceito suficientemente gene-
Heijenoort, 1967, p. 342).                                 ralizado de continuidade. A esse respeito, limi-
                                                           tando-nos ao uso que essa palavra tem na lin-
   O uso filosfico da noo de C. tem, po-
                                                           guagem filosfica e comum de hoje, podemos
rm, pouco ou nada que ver com essas espe-
                                                           dizer que, em geral, se fala de continuidade
culaes matemticas. Entre os pensadores mo-
                                                           entre duas coisas sempre que  possvel reco-
dernos, um dos que mais utilizam essa noo 
                                                           nhecer entre essas duas coisas uma relao
Mach, que a esclarece do modo seguinte: "Se
                                                           qualquer. Portanto, relaes de causalidade ou
um intelecto investigante se habituou a reunir
                                                           de condicionamento, de contigidade ou de
no pensamento dois fatos, ae b, procurar, no
                                                           semelhana, podem ser consideradas sinais,
que for possvel, manter firme esse hbito mes-
                                                           provas ou manifestaes de continuidade;
mo em circunstncias diferentes: em geral,
                                                           assim como, por outro lado, podem ser assim
sempre que a se apresentar, b tambm ser
                                                           consideradas at mesmo relaes de oposio,
pensado. Esse princpio, que tem raiz na ten-
                                                           de contradio, de disparidade ou de conflito,
dncia  economia e que se se mostra bastante
                                                           visto que nem mesmo essas formas de relao
claro aos grandes pensadores, ns chamamos
                                                           implicam um corte ntido entre as coisas que
de princpio da continuidade" (Analyse der
                                                           opem, nem a falta de uma relao qualquer.
Empfindungen, IV,  1; trad. it., p. 71). Como se
                                                               CONTRAO (lat. Contractio; in. Contrac-
v, a continuidade aqui  revocada ao princpio
                                                           tion; fr. Contraction; ai. Kontraction; it. Contra-
do hbito, encontrado em Hume, mas no 
                                                           zione). Termo empregado por Duns Scot para
esclarecida conceitualmente. Por outro lado,
                                                           indicar o determinar-se e o restringir-se da "na-
Dewey, que considera a lei de continuidade
                                                           tureza comum" (p. ex., a natureza humana) a
como "o postulado fundamental da teoria natu-
CONTRADIO                                            203                  CONTRADIO, PRINCPIO DE

um indivduo determinado, ad esse hanc rem                   assim: "Nada pode ser e no ser simultanea-
(Op. Ox., II, d. 3, q. 5, n. 1). Utilizando essa ex-         mente" (Ibid., III, 2, 996 b 30; IV, 2, 1005 b 24);
presso escolstica no mesmo sentido (cf. De                 a outra poderia ser chamada de lgica e se ex-
docta gnor., II, 4: "A C. se diz em relao a               pressa assim: " impossvel que a mesma coisa,
algo, p. ex., a ser isto ou aquilo"), Nicolau de             ao mesmo tempo, seja inerente e no seja ine-
Cusa chamou o mundo de "Deus contrado",                     rente a uma mesma coisa sob o mesmo aspec-
no sentido de que ele, como Deus,  o mxi-                  to" (Ibid., IV, 2. 1005 b 20), ou ento: " neces-
mo, a unidade, a infinitude, mas contradas,                 srio que toda assero seja afirmativa ou
isto , determinadas e individualizadas numa                 negativa" (Ibid., III, 2, 996 b 29). Aristteles
multiplicidade de coisas singulares (Ibid., II, 4).          considera esse princpio indemonstrvel, mas
Na Escolstica tardia, certamente por influncia             acha que pode ser defendido de seus oposi-
do Escotismo, essa palavra s vezes foi empre-               tores, entre os quais os megricos, os cnicos,
gada para indicar o determinar-se do gnero                  os sofistas e os heraditistas, mostrando-se que, se
nas espcies e da espcies nos indivduos.                   eles afirmam algo de determinado, negam a
   CONTRADIO (gr. vTcpaca; lat. Con-                    negao desse algo e assim se valem desse
tradictio; in. Contradction; fr. Contradiction;             princpio (Ibid., IV, 4). Portanto, o valor desse
ai. Widersprucb; it. Contraddizione). Aristte-              princpio  estabelecido por Aristteles em re-
les (An.post., I, 2, 72 a 12-14) define-a como               lao ao que  determinado (te T). "Se a
"oposio que, por si s, exclui o caminho do                verdade", diz Aristteles, "tem um significado,
meio"; em An. pr., I, 5, 27 a 29, tal relao               necessariamente quem diz homem diz animal
explicada como relao entre proposio uni-                 bpede, j que isso significa homem. Mas se isso
versal negativa e particular afirmativa, universal           for necessrio no ser possvel que o homem
afirmativa e particular negativa. Esses so os               no seja animal bpede, pois a necessidade sig-
pares (AO, EI) das propositiones contradic-                  nifica justamente que  impossvel que o ser
toriae no chamado "quadrado de Psello" dos                   no seja" (Ibid., IV, 4, 1006 b 28). Assim, o prin-
textos medievais de Lgica. O essencial nos                  cpio de C, referindo-se ao ser determinado,
pares de proposies contraditrias  que                    permite abstrair desse ser o que h de neces-
ambas no podem ser verdadeiras (princpio                   srio: a substncia ou a essncia substancial:
de C.) nem falsas (princpio do terceiro ex-                 no exemplo do homem, o animal bpede 
cludo).                                      G. P.          precisamente a substncia, a essncia substan-
    CONTRADIO, PRINCPIO DE (gr.                           cial ou a definio do homem. Desse modo, o
^co^a xfj vTKpoeco; lat. Principiam con-               princpio de C. leva a considerar a filosofia pri-
tradictionis; in. Principie of contradiction; fr.            meira, que  a cincia do ser enquanto ser,
Prncipe de contradiction; ai. Satz der Widers-              como teoria da substncia. Diz Aristteles: "O
pruchs; it. Principio di contraddizione). Tendo              que h muito tempo, agora e sempre procura-
nascido como princpio ontolgico, o princpio               mos, o que sempre ser um problema para
de C. s passou para o campo da lgica no sc.               ns, ou seja, 'o que  o ser', significa 'o que 
XVIII, para tornar-se, nesse mesmo sculo,                   a substncia?'" (Ibid., VII, 1, 1028 b 2). O signi-
uma das "leis fundamentais do pensamento".                   ficado que o princpio de C. tem na metafsica
Como princpio ontolgico, foi admitido expli-               de Aristteles realiza-se, pois, nas noes fun-
citamente, pela primeira vez, por Aristteles,               damentais dessa metafsica, que so as de subs-
que o tomou como fundamento da "filosofia                    tncia (v.), de essncia necessria (v. ESSNCIA)
primeira", ou metafsica. Segundo Aristteles,               e de causa (v. CAUSALIDADE). Mas para Arist-
esse princpio serve, em primeiro lugar, para                teles, esse princpio tambm possui alcance l-
delimitar o domnio prprio dessa cincia, per-              gico. Ele diz que, embora o princpio de C. no
mitindo abstrair o seu objeto, o ser como tal,               seja assumido expressamente por nenhuma de-
de todas as determinaes s quais est ligado, do           monstrao,  a base do silogismo na medida
mesmo modo como os axiomas da matemtica                     em que, considerando-se a noo de homem
e da fsica permitem abstrair seus objetos (res-             ou a de no-homem, desde que se admita que
pectivamente a quantidade e o movimento)                     o homem  um animal, sempre resultar verda-
de outras determinaes s quais esto ligados               deiro afirmar que Clias  animal e no um
(Mel, IV, 3). Aristteles, porm, constantemen-              no-animal; diz que ele  o fundamento da re-
te formula esse princpio de duas maneiras.                  duo ao absurdo (An.post., I, 11, 77 a 10). A
Uma  estreitamente ontolgica, e se expressa                estrutura silogstica  assim sustentada, tanto na
CONTRADIO, PRINCPIO DE                            204                  CONTRADIO, PRINCPIO DE

sua forma positiva quanto na negativa, pelo                que distinguiu durante muito tempo os princ-
princpio de C: o que no causa espanto, dado              pios lgicos e que s vezes ainda  empregada.
que para Aristteles a estrutura silogstica re-               Um retorno ao uso metafsico do princpio
produz a estrutura substancial do ser (v. SILO-            de C. ocorreu com Fichte e com Hegel. Trata-
GISMO).                                                    va-se ento da metafsica subjetivista do idealis--
   Na forma dada por Aristteles, esse princ-             mo, para a qual nada existe fora da autocons-
pio permaneceu muito tempo como funda-                     cincia racional. Fichte chamava o princpio de
mento da metafsica clssica. As discusses do             C. "princpio da oposio", expressando-o com
sc. XIII sobre o modo de express-lo com                  a frmula "- A no = A" (que se l "no - A
mais simplicidade e economia redundaram na                 no igual a A"), que julgava exprimir o ato pelo
formulao daquilo que depois se chamou                    qual o Eu ope a si mesmo um no-Eu, isto ,
de princpio de identidade (v.), mas no aba-              uma realidade ou uma coisa (Wissenschafts-
laram a supremacia do princpio de C. Descar-              lehre, 1794,  2). Hegel considerava o princpio
tes (Princ.phil, I, 49) e Locke (Ensaio, I, 1, 4)          de C, e o de identidade, como "a lei do intelec-
ainda o admitiam como verdade indubitvel,                 to abstrato" (Ene,  115). E contrapunha-lhe a
mas j ignoravam completamente seu valor                   lei da "razo especulativa", que seria: "Todas as
ontolgico, que, para Aristteles, era primor-             coisas se contradizem em si mesmas". Essa lei
dial. Mas foi Leibniz quem levou o princpio de            seria a raiz de qualquer movimento e da vida,
C. de uma vez por todas para a esfera da lgi-             servindo de fundamento para a dialtica (Wis-
ca: considerou-o exclusivamente fundamento                 senschaft der Logik, ed. Glockner, I, pp. 545-
das verdades de razo, enquanto dizia que as               46). Por outro lado a dialtica (v.)  a identi-
                                                           dade dos opostos, de tal modo que a C,
verdades de fato baseavam-se no princpio de
                                                           conquanto seja a raiz da dialtica (do movi-
razo suficiente (Monad.,  11-32). Segundo               mento e da vida), no  a dialtica, que, alis,
Leibniz, esses dois princpios constituam a               procede continuamente, conciliando e resol-
base de todas as verdades e, portanto, de todo             vendo as C. e estabelecendo para alm delas o
o edifcio do conhecimento humano (Nouv.                   que o prprio Hegel chama de identidade ou
ess., IV, 2,1). Wolff ainda inclua o princpio de         unidade (d. Wissenschqft der Logik, I, p. 100).
C. na ontologia, mas considerava-o como um                 No mesmo sentido, Gentile falava do princpio
princpio natural da mente humana (Ont,  27).             de identidade como da "lei fundamental do
E Baumgarten encontrava a sua frmula clssi-              pensamento" no campo da "lgica do abstra-
ca: A + no-A = 0, chamando-o de princpio                 to" (Sistema di lgica, 1922, II, 1,  6), ao mes-
absolutamente primeiro e colocando-o  frente              mo tempo em que falava da unidade do Esp-
de sua ontologia (Met.,  7). Kant preferia expri-         rito consigo mesmo e com a realidade. Essas e
mi-lo num de seus primeiros textos com fr-                outras crticas semelhantes ao princpio de C.
mula: "Aquilo cujo oposto  falso  verdadeiro"            (assim como aos outros princpios lgicos) so
(Principiorum Primorum Cognitionis Metaphy-                inconcludentes. Por um lado, visam a um uso
sicae Nova Dilucidatio, 1755,1, prop. II, scol.).          muito mais dogmtico e metafsico desses prin-
Mais tarde, em Crtica da Razo Pura, dizia: "A            cpios, pois tendem a utiliz-los para explicar
coisa nenhuma convm um predicado que a                    "o movimento e a vida" da realidade inteira.
contradiga" e considerava-o "princpio geral               Por outro, o algo das crticas so moinhos de
plenamente suficiente de todo conhecimento                 vento, pois, quando Leibniz e Kant afirmavam
analtico", eliminando dele, porm, a deter-               que o princpio de C.  o fundamento das ver-
minao temporal contida na expresso aris-                dades idnticas ou analticas, no pretendiam
totlica; porque, dizia ele, "enquanto princpio           dizer que ele  o fundamento de verdades do
simplesmente lgico, no deve limitar suas                 tipo "um planeta  um planeta", "o magnetismo
expresses s relaes de tempo" (Crt. R.                  o magnetismo", "o esprito  o esprito",
Pura, Analtica dos Princpios, cap. II, sc. I).          como julgava Hegel (Ene,  115), mas aludiam
Esse era substancialmente o ponto de vista de              s verdades matemticas e lgicas redutveis
Leibniz. Depois de Kant, o princpio de C. foi             a tautologias.
considerado uma das "leis fundamentais do
pensamento" (KRUG, Logik, 1832, p. 45; FRIES,                  No entanto, coube  lgica matemtica mo-
System der Logik, 1837, p. 121; HAMILTON, Lec-             derna renunciar a considerar os princpios lgi-
tures on Logic, I, p. 72), qualificao honrosa            cos como princpios da lgica ou mesmo como
                                                           "leis fundamentais do pensamento". J na obra
CONTRAPOSIO                                        205                               CONTRATUALISMO


de G. Boole (Laws ofThought, 1854), os princ-             (ARISTTELES,  Cat., 6, 6 a 17). Esto em oposi-
pios lgicos desapareceram como axiomas da                 o contrria o verdadeiro e o falso, o bem e o
lgica e foram substitudos, nessa funo, pela            mal, o calor e o frio, etc. Aristteles observa
definio das operaes lgicas fundamentais,              que os contrrios se excluem absolutamente,
cujos modelos so as operaes da aritmtica.              que no existe entre eles noo intermediria
Boole considerava o princpio de C. como um                e que ao menos um deles deve pertencer ao
teorema derivado de uma expresso lgica                   objeto: p. ex., no h termo intermedirio en-
mais fundamental (Ibid, cap. III, IV, ed. Dover,           tre doena e sade, porque o organismo ani-
p. 49). A partir de Boole, os princpios assumi-           mal deve estar necessariamente sadio ou doente.
dos como fundamento da lgica so simples-                 H, porm, termo intermedirio entre branco
mente as definies de funes, constantes                 e preto, entre excelente e pssimo, etc, por-
lgicas, variveis lgicas, conectivos e opera-            que nenhum desses caracteres deve neces-
dores. Os chamados princpios lgicos que ain-             sariamente pertencer a um objeto {Ibid., 10, l l b
da so honrados s vezes com o nome de "leis"              32 ss.). (Cf. PEDRO HISPANO, Summ. log., 3. 32.)
 reduzem-se a tautologias no clculo das propo-                2. Como termo distinto de suhcontrariedade
sies (cf., p. ex., REICHENBACH, The Theory of            (v.), a C.  a relao entre a proposio univer-
Probability,  4), ou a teoremas do mesmo cl-             sal afirmativa ("todo homem corre") e a pro-
culo (cf., p. ex., A. CHURCH, Introduction to              posio universal negativa ("nenhum homem
Mathematical Logic,  26, 13).                             corre"). Cf. ARISTTELES, De Int., 7,17 b 4; PEDRO
   Isso no quer dizer que a consistncia for-             HISPANO, Summ. log., 1. 13.
mal de um discurso, ou seja, a compatibilidade                 CONTRATUALISMO (in. Contractualism;
recproca das asseres que o constituem, te-              fr. Contractualisme, ai. Kontraktualismus; it.
nha perdido importncia. Significa apenas que,             Contrattualism). Doutrina que reconhece
para cada sistema lingstico, essa compatibili-           como origem ou fundamento do Estado (ou,
dade  definida pelas regras de transformao              em geral, da comunidade civil) uma conveno
ou de inferncia, de implicao ou de sino-                ou estipulao (contrato) entre seus membros.
nmia explicitamente adotadas no prprio siste-            Essa doutrina  bastante antiga, e, muito prova-
ma ou s quais se faz referncia tcita. O prin-           velmente, os seus primeiros defensores foram
cpio de tolerncia (v.), na forma dada por                os sofistas. Aristteles atribui a Licofron (disc-
Carnap, afirma: "No nos cabe impor proibi-                pulo de Grgias) a doutrina de que "a lei 
es, mas s chegar a convenes". Isso signifi-           pura conveno (synthek) e garantia dos direi-
ca que "em lgica no h moral e que cada um               tos mtuos", ao que Aristteles ope que, nes-
est livre para construir sua prpria lgica, isto         se caso, ela "no seria capaz de tornar bons e
, sua forma de linguagem, como desejar. Tudo              justos os cidados" (Pol., III, 9, 1280 b 12). Essa
 o que deve fazer, se quiser discutir o assunto,          doutrina foi retomada por Epicuro, para quem
 declarar claramente seus mtodos e, em vez de             o Estado e a lei so resultado de um contrato
 argumentos filosficos, dar as regras sintticas          que tm como nico objetivo facilitar as rela-
 do seu discurso" (CARNAP, The Logical Syntax of           es entre os homens. "Tudo o que, na con-
 Language,  17).                                          veno da lei, mostra ser vantajoso para as ne-
   CONTRAPOSIO (gr. v%Q^Cl,; lat. Con-                cessidades criadas pelas relaes recprocas 
 trapositio-, in. Contraposition; fr. Contraposi-          justo por sua natureza, mesmo que no seja
 tion; ai. Kontraposition; it. Contrapposizione).          sempre o mesmo. No caso de se fazer uma lei
 Uma das formas da converso (v.) das propo-               que demonstre no corresponder s necessida-
 sies, que consiste em negar o contrrio da              des das relaes recprocas, ento essa lei no
 proposio convertida de forma tal que, p. ex.,            justa" (Mass. cap., 37). Carnades emitiu con-
 a partir de "todo homem  animal", se conclua             cepo semelhante no famoso discurso sobre a
 que todo no-animal  no-homem" (cf. ARIS-               justia que proferiu em Roma. "Por que razo
 TTELES, Top., II, 8, 113 b ss.).                         teriam sido constitudos tantos e diferentes di-
    CONTRARIEDADE (gr. vavxiTn; lat.                    reitos segundo cada povo, seno pelo fato de
 Contrarietas; in. Contrariety, fr. Contrarit, ai.       que cada nao sanciona para si o que julga
 Kontrarietat; it. Contrariet). 1. Uma das qua-           vantajoso para si?" (CCERO, De rep., III, 20).
 tro formas da oposio (v.), mais precisamente               Eclipsado na Idade Mdia pela doutrina da
 a que ocorre entre "os termos que, dentro do              origem divina do Estado e, em geral, pela comu-
 mesmo gnero, distam maximamente entre si"                nidade civil, o C. ressurge na Idade Moderna e,
CONTRATUAUSMO                                        206                              CONTRATUALISMO

com o jusnaturalismo, transforma-se em pode-               se obriga a participar da associao, seja qual
roso instrumento de luta pela reivindicao dos            for a forma de governo aprovada pela maioria;
direitos humanos. As Vindiciae contra tyran-               o segundo, quando se acrescenta a condio
 nos, publicadas pelos calvinistas em 1579, em             de que a forma de governo ser aprovada por
Genebra, retomam a doutrina do contrato para               ele mesmo" (De iure naturae, 1672, VII, 2, 6).
reivindicar o direito do povo a rebelar-se con-            Por sua vez, Locke fala do contrato como acor-
tra o rei sempre que ele descurar dos compro-              do entre os homens para "unirem-se numa so-
missos do contrato original. No mesmo esp-                ciedade poltica"; por isso, define-o como "o
rito, Joo Altsio generalizou a doutrina do               pacto que existe e deve necessariamente existir
contrato, utilizando-a para explicar todas as for-         entre indivduos que se associam ou fundam
mas de associao humana. O contrato no                  um Estado" (Two Treatses of Government,
s contrato de governo que rege as relaes                1960, II,  99). Criticado por Hume, o C. en-
entre o governante e seu povo, mas  tambm                controu em Rousseau uma interpretao que,
contrato social no sentido mais amplo, como                substancialmente, eqivaleu a sua negao. De
acordo tcito que fundamenta toda comunida-                fato, o C. pressupe que os indivduos como
de (consociatio) e que leva os indivduos a                tais tenham "direitos naturais" a que renun-
conviver, isto , a participar dos bens, dos ser-          ciam, para adquirir outros, com o contrato so-
vios e das leis vigentes na comunidade                    cial. Rousseau considera que os indivduos
(Poltica methodice digesta, 1603). Hobbes e               como tais so absolutamente desprovidos de
Spinoza puseram a doutrina do contrato a ser-              direitos e que s os tm como cidados de um
vio da defesa do poder absoluto. Assim                    Estado. Os homens, diz Rousseau, tornam-se
Hobbes enunciava a frmula bsica do contra-
                                                           iguais "por conveno e direito legal"; por isso,
to: "Transmito meu direito de governar-me a
este homem ou a esta assemblia, contanto                  "o direito de cada indivduo ao seu estado par-
que tu cedas o teu direito da mesma maneira"               ticular est sempre subordinado ao direito supre-
(Leviath., II, 17). Essa, diz Hobbes,  "a origem          mo da comunidade" (Contrato social, 1762,1,
do grande Leviat ou, com mais respeito, do                9)- Para Rousseau, o contrato originrio afigura-
Deus mortal a quem, depois de Deus imortal,                va-se mais como um meio de "legitimar" o vn-
devemos nossa paz e defesa, pois por essa                  culo social do que como realidade (Ibid., I, 1);
autoridade conferida pelos indivduos que o                a mesma coisa foi nitidamente afirmada por
compem, o Estado tem tanta fora e poder                  Kant: "O ato pelo qual o prprio povo se cons-
que pode disciplinar  vontade todos para a                titu em Estado, ou melhor, a simples idia desse
conquista da paz interna e para a ajuda mtua              ato, que por si s permite conceber sua legiti-
contra os inimigos externos" (Ibid., II, 17). Por          midade,  o contrato originrio segundo o
sua vez, Spinoza julga que o direito do Estado             qual todos (omnes et singuli) no povo re-
constitudo pelo consenso comum s  limita-               nunciam  liberdade externa para retom-la
do por sua fora, que  o "poder da multido"              imediatamente como membros de um corpo
(Tractatus politicus, 2, 17).                              comum" (Met. der Sitten, I,  47). Hoje, difi-
                                                           cilmente a idia fundamental de C, na forma
    Mais freqentemente, porm, o C.  empre-              elaborada pelos escritores do sc. XVIII, pode
gado para demonstrar a tese de que o poder                 ser considerada um instrumento vlido para
poltico  necessariamente limitado. Nesse                 compreender o fundamento do Estado e, em
sentido foi entendido por Grcio, Pufendorf                geral, da comunidade civil. Contudo, entre os
e especialmente por Locke, que o usou para                 sculos XVI e XVII, a idia contratualista teve
defender a revoluo liberal inglesa de 1688.              notvel fora libertadora em relao aos costu-
Dizia Pufendorf: "Se consideramos uma multi-
                                                           mes e tradies polticas. Hoje, com o uso que
do de indivduos que gozam de liberdade e
de igualdade natural, e querem proceder  ins-             as cincias e a filosofia fazem de conceitos
tituio de um Estado,  preciso antes de mais             como conveno, acordo, compromisso, a no-
nada que esses futuros cidados faam um pacto             o de contrato talvez pudesse ser retomada
no qual manifestem a vontade de unir-se em                 para a anlise da estrutura das comunidades
associao perptua e de prover, com delibera-             humanas, com base na noo da reciprocida-
es e ordens comuns, sua prpria salvao e               de de compromissos e do carter condicional
segurana. Esse pacto pode ser simples ou con-             dos acordos dos quais se originam direitos e
dicionado: tem-se o primeiro quando algum                 deveres.
CONVENO                                             207                           CONVENCIONA1ISMO

  CONVENO. V. CONVENCIONALISMO.                           convenes. Nossa escolha entre todas as con-
  CONVENCIONALISMO (in.              Conventiona-           venes possveis  guiada por fatos experi-
lsni; fr. Conventionalisme, ai. Konventionalis-            mentais, mas continua livre e  limitada apenas
mus; it. Convenzionalism). Qualquer doutrina               pela necessidade de evitar a contradio" (La
segundo a qual a verdade de algumas proposi-                science et Vhypothse, II, cap. III). O mesmo
es vlidas em um ou mais campos se deva                   Poincar recusava-se, porm, a atribuir carter
ao acordo comum ou ao entendimento (tcito                  convencional  cincia toda e contestou Le
ou expresso) daqueles que utilizam essas pro-               Roy, no que se refere a essa extenso do C.
posies. A anttese entre o que  vlido "por              (La valeur de Ia science, 1905).
conveno" e o que  vlido "por natureza" j                   Contudo, o desenvolvimento posterior da
era familiar para os gregos. Demcrito diz: "O              matemtica permitiu estender o ponto de vista
doce, o amargo, o quente, o frio, a cor so tais            de Poincar a toda essa disciplina. A obra de
por conveno; s os tomos e o vcuo so tais em           Hilbert induzia a ver na matemtica sistemas
verdade" (Fr. 125, Diels).  seu oposto, aplica-            hipottico-dedutivos nos quais se deduzem
do ao campo poltico, foi tema habitual dos                 conseqncias implcitas em certas proposi-
sofistas, sobretudo da ltima gerao, que en-              es originrias ou axiomas, segundo regras
contram eco nos Dilogos de Plato. Plos, em               que os prprios axiomas definem, implcita ou
Grgias, Trasmaco, na Repblica, sustentam                 explicitamente. A tese fundamental do C. mo-
que as leis humanas so pura conveno, cujo                derno podia ser assim formulada: as proposi-
objetivo  impedir que os mais fortes tirem pro-            es originrias, de que parte qualquer siste-
veito do direito natural que lhes d a fora.              ma dedutivo, so convenes. O que quer dizer:
da natureza que o mais forte domine o mais                   1Q no podem ser consideradas verdadeiras nem
fraco; e isso acontece de fato quando um ho-                falsas; 2a podem ser escolhidas com base em
mem dotado de natureza idnea rompe as ca-                  determinados critrios que deixam, entretan-
deias da conveno e de servo se torna senhor               to, certa liberdade de escolha. Graas ao Cr-
(Grg, 484 A). Para os cticos, a lei moral e ju-           culo de Viena (v.) e do empirismo lgico, o C.
rdica eram conveno (SEXTO EMPRICO, Pirr.                assumia a forma que tem, atualmente, de tese
 hyp., I, 146). O contratualismo dos scs. XVII e           geral sobre a estrutura lgica da linguagem. A
XVIII tornou familiar a idia de que o Estado e,             Viso lgica do mundo de Rudolf Carnap (1928)
em geral, a comunidade civil, bem como as                   constitui a primeira exposio dessa tese, que,
normas e os valores que dela se originam, so               no entanto, fora preparada pelo Tractatus
produtos de um contrato ou conveno origi-                 logico-philosophicus de Wittgenstein. "A lgi-
nria. Aludindo a essa doutrina. Hume notava                ca", diz Carnap, "incluindo-se nela a matemti-
que a conveno, nesse sentido, deve no ser                ca, consiste em estipulaes convencionadas
entendida como promessa formal, mas como                    sobre o uso de signos e tautologias que se ba-
"um sentimento de interesse comum que cada                  seiam nessas convenes" (Logische Aufbau
um encontra em seu corao" (Inq. Cone.                     der Welt,  107). A essa tese Carnap deu depois
Morais, Ap. 3); e acrescentava: "Assim, dois ho-            o nome de "princpio de tolerncia das sinta-
 mens movem as velas de um barco em comum                   xes", porque se trata de um princpio que, ao
 acordo para o interesse comum, sem qualquer                mesmo tempo em que torna inoperantes todas
 promessa ou contrato; assim, o ouro e a prata              as proibies, aconselha a estabelecer distin-
 foram adotados como medida para as trocas;                 es convencionais. "Em lgica", diz ele, "no
 assim, o discurso, as palavras, a lngua esto fi-         h moral. Cada um pode construir como quiser
 xados pelas convenes e pelo acordo huma-                 a sua lgica, isto , a sua forma de linguagem.
 no" (Ibid., Ap. 3). Com tais palavras, talvez              Se quiser discutir conosco, dever apenas indi-
 pela primeira vez, o conceito de conveno                 car como quer faz-lo, dar determinaes sint-
 era utilizado fora do campo* poltico.                     ticas em vez de argumentos filosficos" (Lo-
                                                            gische Syntax der Spracbe, 1934,  17). Hoje,
    Mas a extenso do C. para o domnio cog-                pode-se dizer que essa tese  amplamente
nitivo s ocorre na segunda metade do sc.                  aceita, mesmo fora do empirismo lgico. A se-
XIX, quando, com a descoberta das geometrias                gunda obra de Wittgenstein, Investigaes filo-
no euclidianas, o carter de verdade evidente              sficas (1953)', levou isso ao extremo, afirman-
dos axiomas geomtricos foi negado. Diz Poin-               do que qualquer linguagem  uma espcie de
car: "Os axiomas geomtricos no so juzos                "jogo" que parte de determinados pressupostos
sintticos apriori nem fatos experimentais; so
CONVENINCIA                                          208                COPERNICANA, REVOLUO

de natureza convencional, reconhecendo a                afirmativa ("alguns mortais so homens"); a
fundamental equivalncia dos jogos lings-             particular afirmativa e a universal negativa con-
ticos. Deixando de lado esta ltima tese e con-         vertem-se simpliciter, ou seja, mediante troca
siderando o C. dentro dos limites em que geral-         simples de termos; a particular negativa no
mente  mantido, ou seja, o campo da estrutura          pode ser convertida.
lgica da linguagem, cabe ressaltar o fato de               CONVICO (in. Conviction; fr. Convic-
que ele no implica absolutamente, como s              tion; ai. berzeugung; it. Convinzion). Ter-
vezes se acredita, a perfeita arbitrariedade das        mo de origem jurdica, que designa um conjun-
convenes lingsticas. Podem ser assim resu-          to de provas suficientes para "convencer" o
midos os pontos bsicos do C. contemporneo:            ru, isto , para faz-lo reconhecer-se como tal.
    le a escolha das proposies iniciais de um         No uso comum, esse termo significa uma cren-
sistema dedutivo (axiomas [v.] ou postulados            a que tem suficiente base objetiva para ser
[v.]) deve obedecer a critrios limitativos,            admitida por qualquer pessoa. Nesse sentido, 
cujo objetivo  garantir a possibilidade de re-         definida por Kant: "Quando uma crena  v-
propor a escolha com vistas ao desenvolvimento          lida para todos, seu fundamento, desde que
dedutivo;                                               dotado de razo,  objetivamente suficiente e
    2S a determinao das regras de deduo,            ela se chama C." (Crt. R. Pura, Cnon da R.
operaes e procedimentos tambm est su-               Pura, se. III). O carter objetivo da C. contras-
jeita a uma escolha limitada, sempre com vis-           ta com o carter subjetivo da persuaso (v.).
tas  possibilidade de repropor tais regras, pro-       Cf. PERFXMANN e OLBRECHTS-TYTECA, Trait de
cedimentos ou operaes;                                1'argumentation, 1958,  6.
    3Q as escolhas de que se fala nos nes Ia e 2-           COORDENAO (in. Coordination; fr. Co-
constituem: a) objetivamente, o campo de in-            ordination, ai. Koordination; it. Coordinazio-
vestigao comum em que os pesquisadores                n). Relao entre objetos situados na mesma
podem mover-se; b) subjetivamente, o compro-
                                                        ordem, num sistema de classificao; p. ex.,
misso dos pesquisadores.
                                                        dois gneros ou duas espcies esto entre si
    CONVENINCIA. V. ACORDO.
                                                        coordenados, mas um gnero e uma espcie
    CONVERGNCIA, LEI DE (in. Conver-
                                                        no esto coordenados.
gency law). Foi assim denominado por White-
head o critrio usado pelo senso comum e pela               Chama-se de coordenada o conjunto orde-
cincia para obter generalizaes fundadas na           nado de nmeros que serve para designar enti-
observao. "Se Ae Bso dois eventos e se A             dades geomtricas (pontos, linhas, etc), ou en-
 parte de A, B'  parte de B; ento, sob mui-          to as caractersticas utilizadas para distinguir
tos aspectos, as relaes entre as partes A e B'        ou ordenar vrias classes de objetos.
sero mais simples do que as relaes entre A e             COPERNICANA, REVOLUO (in Coper-
B. Esse princpio rege todos os esforos para se        nican revolution; fr. Rvolution copernicienne,
chegar  observao exata" (Organization of             ai. Kopernikanische Revolution; it. Rvoluzione
 Thought, 1917, pp. 146 ss.; The Concept of             copernicana). Costuma-se dar esse nome 
Nature, 1920; trad. it., p. 73).                        mudana de perspectiva realizada por Kant,
    CONVERSO (gr. vxiGTpcxpri; lat. Con-              que, em vez de supor que as estruturas mentais
 versio; in. Conversion; fr. Conversion-, ai. Umke-     do homem tm a natureza como modelo, su-
hrueng; it. Conversion). Em Aristteles (An.           ps que a ordem da natureza tem as estruturas
pr., I, 1, 2) e nos tratados posteriores de Lgica      mentais como modelo. A referncia a Copr-
clssica (aristotlica),  a operao com a qual        nico foi feita pelo prprio Kant, no Prefcio 
de um enunciado se extrai outro (considerado            segunda edio (1787) da Crtica da Razo
equivalente, o que  muito problemtico), me-           Pura. Dewey observou, a propsito, que a re-
diante a troca das respectivas posies dos ter-        voluo de Kant foi mais uma revoluo pto-
mos (sujeito e predicado). Naturalmente, nem            lomaica, porque fez do conhecimento humano
sempre isso  possvel, e s vezes s pode ser          a medida da realidade. A revoluo C. deveria
feito com a introduo de uma mudana no                consistir em reconhecer que o objetivo da filo-
quantificador ("tudo" e "alguns"). Mais precisa-        sofia no  ser ou descrever a totalidade do
mente: a proposio universal afirmativa (p.            real, porm, mais modestamente, buscar os va-
ex., "todos os homens so mortais") converte-           lores que podem ser assegurados e divididos
se, per accidens, em proposio particular              por todos, porque vinculados aos fundamentos
CPULA                                               209                                          CORAO


da vida social (The Questfor Certainty, 1930,              estar no C, na sensao" (Ene,  400). Por
p. 295).                                                   outro lado, ele viu na "lei do C." uma figura de
    CPUIA (in. Copula; fr. Copule, ai. Kopula-            sua Fenomenologia do esprito, mais precisa-
it. Copula). O uso predicativo de ser (v.).                mente a que representa a revolta romntica
    CORAO (gr. KaptX; lat. Cor, in. Heart;             contra a realidade em ato, contra a ordem
fr. Coeur, ai. Herz; it. Cuor). Entre os antigos,         estabelecida. A lei do C. no prope uma lei
s o pitagrico Alcmeo de Crton (sc. VI-V               determinada, mas s identifica a lei com as exi-
a.C.) considerou o crebro como sede do pensa-             gncias de cada C, entendendo que o conte-
mento ("Digo que  com o crebro que enten-                do particular do C. deve valer como tal univer-
demos", Fr. 17, Diels). Aristteles considerou             salmente. Nisso est a contradio da lei do C,
o C. como sede das sensaes e das emoes                 porque a pretenso de fazer valer universal-
(Depari. an., II, 10, 656 a; De anim. mot.,                mente o contedo de um C. particular choca-
11, 703 b), doutrina que, graas  autoridade de           se com a mesma pretenso de todos os outros
Aristteles, prevaleceu em toda a Antigidade e            C. "Assim como, antes, o indivduo achava a lei
na Idade Mdia, at o sc. XVI, quando os no-              abominvel e rgida, agora acha abominveis e
vos estudos de anatomia puderam mostrar que                avessos s suas excelentes intenes os C. dos
os nervos partem do crebro. Mas a importn-               homens". Na realidade, para Hegel, o que h
cia dessa noo em filosofia no est nessa he-            de rgido e torturante para o C. singular no  a
rana arcaica, mas, na realidade, permaneceu               realidade dos fatos, mas a lei dos outros C,
na histria da filosofia para indicar exigncias           contra a qual o recurso  realidade  uma liber-
diferentes. No Novo Testamento, significa a re-            tao (Phnomen. des Geistes, I, V, B, b). Na filo-
lao do homem consigo mesmo, tanto no de-                 sofia moderna, especialmente no espiritua-
sejo (Mat., V, 8, 28) quanto no pensamento e
                                                           lismo, que recorre com freqncia  noo de
na vontade (ICor, VII, 37), mas na medida em
que pensamento e vontade se consumam em si                 C, esta exprime substancialmente exigncias
mesmos ou pelo menos antes que se manifes-                 de carter moral e religioso. Foi Lotze quem,
tem exteriormente. Mas o uso moderno dessa                 em Microcosmo (1856), comeou a dar nfase
palavra sem dvida deriva de Pascal, que frisou            s "aspiraes do C", s necessidades da
 a importncia das "razes do C." (Penses, 277).          alma" ou "do sentimento", s "esperanas hu-
Ao C. Pascal atribuiu duas espcies de conheci-            manas" como exigncias que a filosofia deve
 mentos especficos: l2 o conhecimento das re-             impor contra o mecanicismo da cincia; obvia-
 laes humanas e de tudo o que delas nasce,               mente, tais necessidades e aspiraes nada
 de tal modo que o C.  o guia privilegiado do             mais so do que as exigncias metafsicas im-
 homem no domnio da moral, da religio, da fi-            plcitas nas crenas morais, assim como nas
 losofia e da eloqncia; 2- o conhecimento dos            crenas religiosas tradicionais. As necessida-
 primeiros princpios das cincias e especial-             des do C. foram includas na definio de filo-
 mente da matemtica. "O C. sente que h s                sofia por Wundt, que viu nela "a recapitulao
 trs dimenses no espao, que os nmeros so              dos conhecimentos particulares de uma intui-
 infinitos; em seguida, a razo demonstra que              o do mundo e da vida, que satisfaa s exi-
 no h dois nmeros quadrados dos quais um                gncias do intelecto e s necessidades do C."
 seja o dobro do outro, etc. Os princpios so             (System derPhil, 4- ed., 1919,1, p. 1; Enleitung
sentidos, as proposies so fruto da conclu-              in die Phil, 3a ed., 1904, p. 5). Nestas e em
so: uns e outras tm a mesma certeza, mas                 expresses semelhantes, que se repetem
obtida por vias diferentes" (Ibid., 282). S o             continuamente na filosofia da segunda metade
primeiro desses dois conhecimentos privilegi-              do sc. XIX e nos primeiros decnios deste, o
ados deveria continuar a ser atribudo ao C. na            C.  o smbolo das crenas tradicionais que
filosofia do sc. XIX. Entrementes, Kant viu no            podem ser resumidas no reconhecimento da or-
C. apenas a tendncia natural que nos torna                dem providencial do mundo, isto , de uma
mais ou menos capazes de acolher a lei moral               ordem destinada a salvaguardar os valores hu-
(Religion, I, 2). Hegel entendia por C. "o com-            manos e o destino do homem. Muitas vezes, na
plexo da sensao", isto , da experincia ime-            filosofia contempornea, o termo C. se alterna
diata e primordial do homem, como quando                   com conscincia (v.), para indicar a esfera pri-
 se diz que "no basta que os princpios morais            vilegiada em que o homem pode alcanar as
 e a religio, etc, estejam s na cabea: devem            "realidades ltimas com certeza absoluta".
CORAGEM                                               210                                             CORPO 1

   CORAGEM (gr. vpea; lat. Fortitudo; in.                tm C. e grandeza ou por princpios das coi-
Courage, fr. Courage, ai. Muth; it. Coraggio).              sas que os tm. A definio mais antiga e famosa
Uma das quatro virtudes enumeradas por Pla-                 de C.  a dada pelo prprio Aristteles: "C.  o
to, chamadas depois de cardeais (v.), e uma                que tem extenso em qualquer direo" (Pis.,
das virtudes ticas (v.) de Aristteles. Plato de-         III, 5, 204 b 20); e que " divisvel em qualquer
fine-a como "a opinio reta e conforme  lei so-            direo" (De cael, I, 1, 268 a 7). Por "qual-
bre o que se deve e sobre o que no se deve                 quer direo", Aristteles entende altura, lar-
temer" (Rep., IV, 430 b). Aristteles define-a              gura e profundidade: o C. que possui essas
como o justo meio entre o medo e a temerida-                trs dimenses  perfeito na ordem das gran-
de {Et. nic, III, 6, 1.115 a 4). Mas como virtude           dezas (Ibid., I, 1, 268 a 20).
que constitui a firmeza de propsitos, a C. , de               Tal definio permaneceu constante por
certo modo, privilegiada e considerada uma                  muitos sculos. Foi aceita pelos esticos (DiG.
das virtudes principais. Foi o que fez Aristteles          L, VII, 1, 135), que acrescentaram a solidez, e
(Ibid., III, 7). Ccero afirmava: ''Virtude deriva          por Epicuro, que acrescentava a impenetra-
de vir (homem), sendo a coragem sobretudo                   bilidade (SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp., III, 39 ss.).
viril, ou seja, prpria do homem; seus princi-              A tradio escolstica tambm a reproduz (p.
pais atributos so dois: desprezo pela morte e              ex., S. TOMS, S. Th., I, q. 18, a. 2). E Descartes
desprezo pela dor" (Tusc, II, 18, 43). O mesmo              s faz resumir essa tradio com sua definio
 dito por S. Toms (S. Th., II, II, q. 123, a. 2).         do C. como substncia extensa. Diz: "A nature-
Em sentido biolgico-filosfico, a coragem foi              za da matria ou do C. em geral no consiste
definida por K. Goldstein: "A C, em sua forma               em ser dura, pesada, colorida ou qualquer ou-
mais profunda,  um sim dito  lacerao da                 tra coisa que afete nossos sentidos, mas ape-
existncia aceita como necessidade, para que                nas em ser uma substncia extensa em com-
possamos realizar plenamente o ser que nos                 primento, largura e profundidade" (Princ.phil,
prprio". Nesse sentido, a C.  o contrrio da              II, 4). Essa definio no tem nada de novo em
angstia (v.), sendo uma atitude orientada para             relao  tradicional, assim como no tm nada
o possvel, ainda no realizada no presente                 de novo as definies de Spinoza, que a repro-
(Der Aufbau des Organismus, 1934, p. 198).                  duz (SPINOZA, Et., I, 15, schol.), e de Hobbes
   CORNUDO, ARGUMENTO (gr. Kepatvri;                      (Decorp., VIII,  1).
lat. Cornutus). Assim  chamado o sofisma de                    S Leibniz inova o conceito de C. Ele distin-
Eublides: "O que no perdeste, tens; no                   gue o "C. matemtico", que  o espao e con-
perdeste os cornos: logo, os tens" (DiG. L,                tm s as trs dimenses, do "C. fsico", que  a
VII, 187).                                                  matria e contm, alm de extenso, "resistn-
    COROLRIO (gr. TtptO(ia; lat. Corolla-                 cia, densidade, capacidade de encher o espao
rium; in. Corollary, fr. Corollaire, ai. Korollar,          e impenetrabilidade: devido a esta ltima, um
it. Corollario). O que se deduz de uma de-                  C.  forado a ceder ou a deter-se quando so-
monstrao precedente, como uma espcie de                  brevm outro corpo" (Op., ed. Erdmann, p. 53).
acrscimo ou ganho extraordinrio (EUCLIDES,                Por essa noo de C, Leibniz  levado a negar
EL, III, 1); tambm pode ser uma espcie de                 que o C. seja "substncia": o que nele h de
proposio intermediria entre o teorema e o                real  apenas a capacidade (vis) de agir e de
problema (PAPO, 648, 18 s.; PROCLO, In Eucl, p.             sofrer uma ao (Ibid., ed. Erdmann, p. 445).
301 F). Esse termo estendeu-se para a lingua-               Esta ltima definio talvez seja a retomada de
gem filosfica graas a Bocio (Phti. cons., III,           uma velha definio atribuda por Sexto Em-
10). No primeiro sentido, o C. s vezes foi                 prico a Pitgoras (Adv. math., IX, 366). Mas,
chamado de consectarium (JUNGIUS, Lgica                    com o significado que Leibniz lhe confere,
hamburgenss, IV, 11, 13). A diferena entre                abriu caminho para a elaborao do conceito
teorema e C.  desprezada pela lgica contem-               cientfico de C. como "massa", como ocorreu
pornea.                                                    na fsica newtoniana: por ser a relao entre
   CORPO1 (gr. 0WU.(X; lat. Corpus; in. Body, fr.           fora e acelerao, a massa pode ser expressa
Corps; ai. Koerper, it. Corpo). Objeto natural              em termos de "capacidade de agir e de sofrer
em geral, qualquer objeto possvel da cincia               uma ao", segundo a definio de Leibniz. Se-
natural. Como j notava Aristteles (De cael, I,            guindo essa linha de desenvolvimento, que vai
1, 268 a 1), tudo o que pertence  natureza                da fsica de Leibniz  fsica clssica e desta  f-
constitudo por C. e grandezas, por coisas que              sica da relatividade, atravs da noo de massa
CORPO2                                              211                                            CORPO 2


a noo de C. conduz  de campo (v.). Para a              pecado, a alma tem necessidade do C, cujos
fsica contempornea, um C.  somente "certa              servios lhe so indispensveis. Mas, obvia-
intensidade do campo" (EINSTEN-INFELD, The                mente, a mais completa e tpica formulao da
Evolution ofPhysics, III; trad. it., p. 253).             doutrina da instrumentalidade  a de Aristte-
    A filosofia, porm, no seguiu de perto essa          les, para quem o C.  "certo instrumento natu-
evoluo sofrida pela noo de C. no domnio              ral" da alma, assim como o machado  o
da fsica. No mundo moderno e contempor-                 instrumento de cortar, ainda que o C. no seja
neo, ela nos oferece as seguintes alternativas:           semelhante ao machado, pois "tem em si mes-
Ia A alternativa idealista, para a qual os C. so         mo o princpio do movimento e do repouso"
"representaes", "percepes", "idias", ou              (Dean., II, 1, 412 b 16). O materialismo, por
complexos de tais coisas. Essa alternativa,               no implicar necessariamente a negao da
introduzida por Berkeley e aceita por Hume,               substancialidade da alma(v), tampouco impli-
foi a mais difundida na filosofia moderna e               ca a negao da instrumentalidade do C; mes-
domina at hoje a filosofia contempornea. Por            mo que a alma seja corprea, o C. pode ter
maior que seja sua importncia nessas filoso-             funo instrumental em relao a ela. Assim
fias, essa alternativa no  importante do ponto          pensava Epicuro, que atribua ao C. a funo
de vista da prpria noo de C, por implicar,             de preparar a alma para ser causa da sensao
simplesmente, a inexistncia dos C, eliminan-             (Ep. a Herod., 63 ss.) e assim tambm pensa-
do assim o problema. 2a A alternativa que con-            vam os esticos, para os quais a alma  aquilo
siste em considerar os C. como utenslios, ins-           que domina ou, de vrios modos, utiliza o
trumentos ou meios que o homem utiliza no                 organismo fsico (Acio, Plac, IV, 21). No  di-
mundo, caracterizando-os, assim, em termos                ferente a concepo do C. no materialismo de
de possibilidades de ao e de reao que ofe-            Hobbes, que, afirmando que "o esprito nada
recem ao homem. Essa alternativa  prpria da             mais  que um movimento em certas partes do
filosofia contempornea, na qual foi introduzi-           C. orgnico" (/// Objections contre les md.
da pelo existencialismo e pelo instrumenta-                cartsiennes, 4), reconhece com isso a instru-
lismo americano. Com esse significado, porm,             mentalidade do C. em relao a esse "movi-
a noo de C. identifica-se com a de coisa,               mento", que  a alma. Nem mesmo o materia-
sendo mais comumente designada com esse                   lismo mais grosseiro do sculo XIX, para o qual a
termo. V. COISA.                                          alma seria um produto do crebro assim como
                                                          a bilis  produto do fgado e a urina o  dos
    CORPO2 (gr. owu.a; lat. Corpus; in. Body, fr.
                                                          rins, obedece a esquema interpretativo diferen-
Corps, ai. Leib, it. Corpo). A concepo mais an-
                                                          te: o crebro, como o fgado e os rins, continua
tiga e difundida de C.  a que o considera o
                                                          sendo um instrumento para a produo de
instrumento da alma. Ora, todo instrumento
                                                          alguma coisa. No extremo oposto, o espiritua-
pode receber apreo pela funo que exerce,
                                                          lismo, p. ex., dos neoplatnicos, tambm admi-
sendo por isso elogiado ou exaltado, ou ento
                                                          te a doutrina da instrumentalidade: "Se a alma 
pode ser criticado por no corresponder a seu
                                                          substncia", diz Plotino, "ser uma forma sepa-
objetivo ou por implicar limites e condies.
                                                          rada do C, ou melhor, aquilo que se serve do
Essas duas possibilidades se alternaram na his-
                                                          C." (Enn., I, 1, 4). A doutrina da instrumen-
tria da filosofia, que nos mostra tanto a conde-
                                                          talidade domina toda a filosofia medieval. Diz
nao total do C. como tmulo ou priso da
                                                          S. Toms: "A finalidade prxima do C. humano
alma, segundo a doutrina dos rficos e de
                                                           a alma racional e suas operaes. Mas a ma-
Plato (Fed, 66 b ss.), quanto a exaltao do C.
                                                          tria existe em vista da forma e os instrumentos
feita por Nietzsche ("Quem est desperto e cons-
                                                          existem em vista das aes do agente" (S. Th.,
ciente diz: sou todo C. e nada fora dele", Also
                                                          I. q. 91, a. 3). Exceo a essa doutrina  a teoria
sprach Zarathustra, I, Os odadores do C). Na
                                                          da "forma de corporeidade", tpica do agos-
primeira tendncia, o mito da queda da
                                                           tinismo (v.) medieval, que consistia em atri-
alma no C, exposto por Plato em Fedro,  re-
                                                          buir ao C. orgnico uma forma prpria ou subs-
tomado pela Patrstica oriental, especialmente
                                                          tncia independente. Mas o abandono definitivo
por Orgenes (Deprnc, II, 9, 2). Scotus Er-
                                                          do conceito da instrumentalidade do C. s
gena, nos primrdios da Escolstica, repro-
                                                          ocorreu com o dualismo cartesiano. Cr-se
 duzia-o (De dvis. nat., II, 25). Tambm essa
                                                          comumente que a conseqncia da separao
 concepo pressupe a noo de instrumenta-
                                                          instituda por Descartes entre alma e C, como
 lidade do C: no estado de queda, devido ao
CORPO 2                                               212                                            CORPO2

duas substncias diferentes, tenha sido o esta-             pornea elaborou quatro solues para esse
belecimento da independncia da alma em re-                 problema.
lao ao C. Na verdade, sua primeira conse-                     Ia A primeira delas consiste em negar a di-
qncia foi estabelecer a independncia do C.               versidade das substncias e em reduzir a subs-
em relao  alma: ponto de vista que, antes de             tncia corprea  substncia espiritual. Foi o
Descartes, nunca se apresentara. Com efeito, a              que fez Leibniz, ao conceber o C. vivo como
instrumentaldade do C. supe que este nada                 um conjunto de mnadas, isto , de substncias
possa fazer sem a alma, do mesmo modo como                  espirituais, agrupadas em torno de uma "ente-
o machado no serve para nada se no  em-                  lquia dominante", que  a alma do animal
punhado por algum. Mas o reconhecimento                    (Monad.,  70). Desse ponto de vista, "o C. 
de que a alma e o C. so duas substncias                   um agregado de substncias e no , ele pr-
independentes implica, como diz Descartes, que              prio, uma substncia" (Op., ed. Erdmann, p.
"todo o calor e todos os movimentos que exis-               107). S a alma  substncia. Essa soluo
tem em ns pertencem s ao C, porquanto                     de Leibniz serve de modelo para numerosas
no dependem absolutamente do pensamento"                   outras apresentadas pela filosofia moderna e
(Pass. de 1'me, I, 4). Desse novo ponto de                 contempornea, sobretudo pelas correntes do
vista, o C.  visto como uma mquina que se                 espiritualismo (v.). A expresso clssica desse
move por si. "O C. de um homem vivo", diz                   ponto de vista pode ser encontrada em Mi-
Descartes, "difere tanto do corpo de um morto               crocosmo, de Lotze.
quanto um relgio ou outro autmato (p. ex.,                    Podem ser consideradas variantes dessa
uma mquina que se mova sozinha) que est                   mesma soluo as doutrinas de Schopenhauer
carregado e contm em si o princpio corpreo               e de Bergson. Schopenhauer identifica o C.
dos movimentos para os quais foi projetado,                 com a vontade, ou seja, com o que ele julga
juntamente com todos os requisitos para agir,               ser o nmeno ou a substncia do mundo, cuja
difere do mesmo relgio ou da mesma mqui-                  representao  o fenmeno. Diz ele: "Meu C.
na quando estes esto avariados ou quando o                 e minha vontade so-uma coisa s. Ou: o que
princpio de seu movimento deixa de agir"                   chamo de meu C. como representao intuiti-
(Ibid.,  6). Essa afirmao da realidade inde-             va chamo-o minha vontade enquanto estou
pendente do C. como autmato no  tanto                    cnscio dela, de modo absolutamente diferen-
uma tese metafsica quanto uma tese meto-                   te, no comparvel a nenhum outro. Ou: meu
dolgica, que prescreve a direo e os instru-              C.  a objetividade de minha vontade. Ou: pres-
mentos das indagaes voltadas para a reali-                cindindo do fato de que meu C.  represen-
dade do "C". Foi exatamente nesse sentido                   tao, ele no  seno vontade" (Die Welt, I,
que agiu historicamente a tese cartesiana, for-              18). Bergson, por sua vez, retomando parcial-
necendo, durante muito tempo, o pressuposto                 mente a antiga tese, afirma que "nosso C.  um
terico das investigaes cientficas sobre os cor-         instrumento de ao e somente de ao"; no
pos vivos. Do ponto de vista filosfico, porm,             contribui diretamente para a representao e
o dualismo cartesiano tinha a desvantagem de                em geral para a vida da conscincia: serve ape-
criar um problema desconhecido da concepo                 nas para selecionar imagens com vistas  ao,
clssica de C. como instrumento: o problema                 para tornar possvel a percepo que consiste
da relao entre alma e corpo. A concepo                  nessa seleo. Mas a conscincia, que  mem-
clssica, na verdade, j com a definio do C.              ria, independe dele (Matire et mmoire, espec.
como instrumento da alma, e da alma como                    Rsum et Conclusion; ed. de Genebra, pp.
forma ou razo de ser do corpo, resolvia a seu              232 ss.). Naturalmente, o ltimo resultado
modo esse problema, j que, na realidade,                   dessa anlise de Bergson  a reduo do C. 
essas definies nada mais so que solues                 percepo (assim como da conscincia  me-
postuladas para o problema. Mas com o dua-                  mria), ou seja, a negao de qualquer realida-
lismo entre alma e C, o problema vinha  tona               de prpria do C.
com toda a sua crueza. Como e por que as
duas substncias independentes se combinam                     2a A segunda soluo, bem prxima da pri-
para formar o homem? E como o homem, que,                   meira, considera o C. como um sinal z. alma.
sob certo aspecto,  uma realidade nica, pode              Trata-se de doutrina bastante antiga, que Plato
resultar da combinao de duas realidades                   (rat., 400 b) atribui aos ofcios, mas cuja pre-
independentes? A filosofia moderna e contem-                dominncia s ocorre no Romantismo. Diz He-
                                                            gel: "A alma, em sua corporalidade, inteiramen-
CORPO2                                                  213                                            CORPO 2


te formada e constituda como sua, est para si               ao esprito, a hiptese de que ora nos ocupa-
mesma como sujeito singular; e a corporali-                   mos no tem significado idealista e evita tal re-
dade , desse modo, a exterioridade enquanto                  duo. Essa soluo encontrou forma tpica na
predicado no qual o sujeito se reconhece s a                 fenomenologia de Husserl, segundo a qual o C.
si. Essa exterioridade no se representa a si                  a experincia que se isola ou individua de-
mesma, mas  alma: e  o sinal desta" (Ene,                   pois de sucessivos atos de reduo fenome-
411). Desse ponto de vista, o C.  a "manifes-               nolgica. "Na esfera do que me pertence (da
tao externa" ou a "realizao externa" da alma:             qual se eliminou tudo o que remete a uma sub-
exprime a alma na forma de uma exterioridade                  jetividade alheia), o que chamamos natureza
que no  real como tal, mas to-somente "sim-                pura e simples no possui mais o carter de
blica". Podem-se encontrar resduos dessa                    ser objetivo e portanto no deve ser confundi-
concepo em todas as doutrinas que vem no                   do com um estrato abstrado do prprio mun-
C. um complexo de fenmenos expressivos.                      do ou do seu significado imanente. Entre os C.
     3a A terceira soluo consiste em negar a di-            dessa natureza reduzida a 'o que me pertence',
ferena das substncias, mas no a diferena                  encontro meu prprio C, que se distingue de
entre alma e C, e portanto em considerar a                    todos os outros por uma particularidade nica:
 alma e o C. duas manifestaes de uma mesma                   o nico C. que no  somente um C, mas o
 substncia. Spinoza deu forma tpica a essa so-              meu C;  o nico C, no interior do estrato
 luo, considerando a alma e o C. como modos                 abstrado, recortado por mim no mundo ao
 ou manifestaes dos dois atributos fundamen-                qual, de acordo com a experincia, eu coorde-
 tais da nica Substncia divina, o pensamento                no campos de sensao de modos diferentes;
 e a extenso. "Entendo por C", disse ele, "um                 o nico C. de que disponho de modo imedi-
 modo que, de certa forma determinada, expri-                 ato, assim como disponho de seus rgos" (Cart,
 me a essncia de Deus considerado como coisa                 Med.,  44). Desse modo, o C.  considerado
 extensa" (Et., II, def. 1). Portanto, a "idia de C.         experincia viva, vinculado a possibilidades
 e o C, ou seja, a mente e o C, formam um s e                humanas bem determinadas. De maneira an-
 mesmo indivduo que ora  concebido sob o                    loga, o fisilogo Kurt Goldstein distinguiu esp-
 atributo do pensamento, ora sob o atributo da                rito, alma e C. como processos diferentes mas
 extenso" (Ibid., II, 21, scol.). Essa doutrina              conexos, que ganham significado e relevncia
 obviamente implica que a ordem e a conexo                   somente em sua conexo. Tais processos so,
 dos fenmenos corpreos correspondem per-                    na verdade, comportamentos diferentes do
 feitamente  ordem e  conexo dos fenme-                   organismo vivo. Em particular, o C.  "uma
  nos mentais e que, portanto, reconstruindo a                imagem fsica determinada e multiforme" que
  ordem e a conexo de uns,  possvel conhecer               se pode descrever como um fenmeno de ex-
  a ordem e a conexo dos outros. Por essa van-               presso, como um conjunto de atitudes ou
 tagem que parece apresentar (sem contar o                    como fenmenos que vo dar em todos os
  fato de que ela exclui a possibilidade de mistu-            rgos possveis. Se o esprito  o ser do orga-
  rar e confundir as duas sries de fenmenos,                nismo, mais precisamente seu ser no mundo,
 tomando p. ex. como causa de um fenmeno                     o complexo das atitudes vividas, a alma  o
 corpreo um fenmeno mental ou vice-versa),                  seu ter, isto , a sua capacidade cognitiva; e o C.
  a doutrina de Spinoza foi um modelo para a                   o devir, que no temos nem somos, mas que
  doutrina do paralelismo psicofsico (v.) que                acontece em ns. Esse devir  substancialmen-
  presidiu  formao da psicologia cientfica                te um "debate com o mundo", atravs do qual
  moderna, servindo-lhe como hiptese de tra-                 o homem acumula suas experincias e forma
  balho at h alguns decnios.                               as suas capacidades (Der Aufbau des Organis-
                                                              mus, 1927, p. 206 ss.). Desse ponto de vista, o
  4- A quarta soluo consiste em considerar o                C. no  seno um comportamento, ou melhor,
C. como uma forma de experincia ou como                      um elemento ou uma condio do comporta-
um modo de ser vivido, que tenha um carter                   mento humano. Concepo afim  a doutrina
especfico ao lado de outras experincias ou                  de Sartre, segundo a qual o C.  a experincia
modos de ser. Os precedentes dessa soluo                    do que  "ultrapassado" e "passado". "Em cada
so as doutrinas a que aludimos ao tratarmos                  projeto do Para-si [isto , da conscincia], em
da 1- soluo de Schopenhauer e Bergson.                      cada percepo, o C. est l: ele  o passado
Mas, enquanto essas doutrinas ainda tm resso-                imediato porquanto aflora ainda no presente
nncias idealistas e implicam a reduo do C.
CORPOREIDADE, FORMA DE                                214                                      CORRUPO

que lhe foge. Isso significa que ele , ao mes-                 CORRELAO (gr. x Tip ti vxiKELieva;
mo tempo, ponto de vista e ponto de partida:                lat. Correlatio; in. Correlation, fr. Corrlation,
um ponto de vista, um ponto de partida que                  ai. Korrelation; it. Correlazione). Uma das qua-
sou e que, ao mesmo tempo, ultrapasso em di-                tro formas de oposio enumeradas por Aris-
reo do que hei de ser" {L'tre et le nant,               tteles, mais precisamente a que ocorre entre
1945, pp. 391-92). Merleau-Ponty elucidou as                termos correlativos, como a metade e o dobro.
teses implcitas nesse ponto de vista. O C. no             Os opostos correlativos no se excluem mutua-
 um objeto, uma coisa. "Quer se trate do C.                mente porque um evoca o outro, no sentido de
de ou trem, quer se trate do meu, no tenho                 que o dobro se diz da metade e a metade, do
outro modo de conhecer o C. humano seno                    dobro. So termos correlativos tambm o sab-
vivendo-o, isto , assumindo por minha conta                vel e a cincia, que se dizem um em relao ao
o drama que me atravessa e confundindo-me                   outro (Cat., 10, 11 b 23 ss.). Na lgica esco-
com ele". Mas essa vivncia do prprio C. nada              lstica, essa relao foi expressa dizendo-se
tem a ver com o "pensamento do C." ou com                   que, nela, o sujeito e o termo podem permu-
"a idia do C." que formamos por reflexo atra-             tar-se, de tal sorte que, p. ex., Davi o sujeito
vs da distino entre o sujeito e o objeto. Essa            da relao de paternidade enquanto  objeto da
experincia nos revela um modo de existncia                 relao de filiao, cujo sujeito  Salomo; reci-
 "ambguo": se procuramos pensar o C. como                   procamente, Salomo  o objeto da paternida-
um feixe de processos em terceira pessoa (p.                 de que est em Davi (cf., p. ex., JUNGIUS, Lgica,
ex., como "viso", "mobilidade", "sexualidade")              I, 8, 6). Hamelin pretendia substituir contradi-
perceberemos que essas funes no esto liga-               o pela C. na dialtica hegeliana: para ele, os
das entre si e com o mundo externo por uma                   opostos dessa dialtica so opostos corre-
 relao de causalidade, mas esto todas fundi-
                                                             lativos, no opostos contraditrios (Essai sur les
 das e confundidas num nico drama. Merleau-
 Ponty nota que Descartes j fizera a distino              lmentsprincipaux de Ia rprsentation, 1907,
 entre C. concebido para os usos da vida, e C.               p. 35).
 concebido pelo intelecto (Phnomnologie de                   CORRELATIVA, JUSTIA. V. COMUTATIVO.
laperception, p. 231; cf. DESCARTES, Opera, III, p.             CORRESPONDNCIA (lat. Adaequatio; in.
690). Deve-se observar que essa reduo do C.               Correspondence, fr. Correspondance, ai. be-
a comportamento ou a modo de ser vivido, to                reinstimmung ou Korrespondenz; it. Corrispon-
caracterstica da filosofia contempornea, no              denzd). Doutrina segundo a qual a verdade
tem sentido idealista: no implica a negao                consiste na adequao, no acordo ou na C. de
da realidade objetiva do C. ou sua reduo a                termo a termo entre o pensamento ou o conhe-
esprito, idia ou representao. Ao contrrio,             cimento ou entre as proposies lingsticas,
essa interpretao da noo de C. acentuou a                de um lado, e a realidade ou os fatos, de outro.
objetividade da esfera de fenmenos em que o                 esse o critrio de verdade pressuposto pela
C. consiste, ao mesmo tempo em que procu-                   filosofia clssica e expresso pela definio
rou definir essa mesma esfera de fenmenos                  escolstica de verdade como adequao do in-
em termos de possibilidades de experincia                  telecto e da coisa (v. VERDADE).
ou de verificao, segundo uma orientao                       CORRUPO (gr. (pBop; lat. Corruptio;
fundamental da filosofia contempornea em face              in. Corruptiort; fr. Corruption; ai. Vergehen,
da realidade em geral (v. REALIDADE).                       it. Corruzion). Segundo Aristteles, constitui,
    CORPOREIDADE, FORMA DE (lat. For-                       juntamente com o seu oposto, a gerao, a
ma corporeitatis). Segundo a tradio agos-                 atualidade de uma das quatro espcies de mo-
tiniana da Escolstica (v. AGOSTINLSMO),  a                vimento, mais especialmente do movimento
realidade que o corpo possui como corpo                     substancial, em virtude do qual a substncia se
orgnico, independentemente de sua unio                    gera ou se destri. "A corrupo", diz Arist-
com a alma, e que o predispe a tal unio. Essa             teles, " uma mudana que vai de algo ao no-
 a definio dada por Duns Scot (Op. Ox, IV,               ser desse algo;  absoluta quando vai da subs-
d. 11, q. 3; Rep. Par, IV, d. 11, q. 3). Trata-se           tncia ao no-ser da substncia, especfica
de uma noo caracterstica do agostinismo e                quando vai para a especificao oposta". (Fts.,
usada na polmica contra o aristotelismo, para              V, 225 a 17).
o qual o corpo, como matria,  potncia e                      Para a doutrina da C. do homem, v. QUEDA;
portanto no tem substancialidade ou forma.                 PECADO ORIGINAL.
CSMICO, CONCEITO                                      215                                     COSMOLOGIA


   CSMICO, CONCEITO (ai. Weltbegriff).                      11, 1957), quais sejam: Ia fase de transio do
Kant assim denominou "o conceito que versa                   mito para a especulao; 2- fase clssica da C.
sobre o que interessa necessariamente a to-                  geocntrica e finitista; 3a C. moderna helio-
dos", como, p. ex., o conceito de filosofia como             cntrica; 4a a fase contempornea, caracteriza-
guia da vida, em contraposio ao "conceito                  da por vrias alternativas de interpretao.
escolar" (Schulbegriff), que s interessa a                      Ia A primeira fase  caracterizada pelo aban-
quem aspira  aquisio de habilidades espe-                 dono do mito e pela tentativa de encontrar
ciais (Crt. R. Pura, Doutrina do mtodo, III,               uma explicao racional ou natural do mun-
nota).                                                       do.  a fase representada pela filosofia pr-
   COSMO (gr. KOLIO). O mundo enquanto                     socrtica. Os pitagricos tiveram maiores m-
ordem (cf. PLATO, Grg., 508 a; ARISTTELES,                ritos porque: a) entenderam o universo como
Met, I, 3, 984 b 16). Segundo Digenes Lar-                 um cosmo (v.), isto , como uma ordem obje-
cio, os pitagricos foram os primeiros a cha-                tiva, exprimvel na linguagem matemtica, em
marem o mundo de C; mas ele mesmo nota                       figuras e nmeros; b) com Filolau (sc. V a.C),
que isso era atribudo a Parmnides por                      foram os primeiros a rejeitar a concepo geo-
Teofrasto e a Hesodo por Zeno (DIG. L,                    cntrica, acreditando que a Terra e todos os
VIII, 48). Essa palavra  usada indiferentemen-              outros corpos celestes se movem em torno de
te em lugar de "mundo" e sua noo constitui                 um fogo central chamado Hestia e apresentan-
uma das interpretaes fundamentais da no-                   do, assim, a primeira doutrina heliocntrica,
o de mundo. Jaspers, porm, estabeleceu uma                defendida mais tarde por Herclides Pntico e
distino entre mundo e C: o C.  a imagem                   Aristarco de Samos (sc. III a.C).
do mundo que cada um forma, mas por isso                         2- A segunda fase  a da astronomia clssi-
mesmo no  o mundo como soma total de                       ca c da filosofia da natureza de Plato e Arist-
todas as coisas e os eus existentes, isto , co-             teles. Caracteriza-se pela consolidao da con-
mo totalidade omnicompreensiva (Phl, I, pp.                 cepo geocntrica do mundo atravs da obra
979-80) (v. MUNDO).                                          de Eudoxo (sc. IV a.C), Hiparco (sc. II a.C)
    COSMOGONIA (gr. Koouoyova; in. Cos-                     e Ptolomeu (sc. II d.C), bem como pela con-
mogony, fr. Cosmogonie, ai. Kosmogonie, it.                  cepo finitista e qualitativa da natureza, pr-
Cosmogonia). Mito ou doutrina referente  ori-               pria de Aristteles. Este, com efeito, julgava
gem do mundo (v. COSMOLOGIA; TKOGOMA).                       que o mundo era necessariamente finito por-
    COSMOLOGIA (lat. Cosmologia; in. Cos-                    que perfeito; e estabeleceu como sua caracte-
mology; fr. Cosmologie, ai. Kosmologie-, it.                 rstica fundamental a diviso em duas partes
Cosmologia). Foi assim que Wolff, e, com ele, a              qualitativamente diferentes: o cu, composto
filosofia alem do sc. XVIII, chamou a filosofia            por ter, substncia no engendrvel e incor-
da natureza. Wolff definiu a C. como "cincia                ruptvel, que se move apenas em movimento
do mundo e do universo em geral, que  um                    circular (v. CU); e os corpos sublunares, com-
ente composto e modificvel"; dividiu-a em                   postos pelos quatro elementos que se movem
uma parte cientfica e uma parte experimental                a partir do centro ou para o centro da Terra (v.
(C. generalis, 1731,  1, 4), chamadas por                   FSICA). Esta concepo prevaleceu na Idade
Baumgarten de C. racional de C. emprica (Met.,              Mdia.
5 351). Essa terminologia foi aceita por Kant,                   3a A terceira fase inicia-se no fim da Idade
que entendeu por "idia cosmolgica" a idia                 Mdia, quando a concepo clssica foi posta
do mundo como "totalidade absoluta das coisas                em dvida por Ockham, que reconhecia a pos-
existentes" (Crt. R. Pura, Dial., cap. II, se. I).         sibilidade da infinitude do mundo e da exis-
A partir de Kant, entendeu-se por C. no mais a              tncia de mais mundos (In Sent., I, d. 44, q. 1),
cincia da natureza, nem toda a filosofia da na-             ao mesmo tempo em que negava a diferena
tureza, mas s a parte da filosofia ou da cincia            entre a substncia celeste e a substncia sublunar
da natureza que tem por objeto a idia do                    (lbid., II, q. 22). As possibilidades que Ockham
mundo e que procura determinar as caracters-                deixou abertas transformaram-se em afirma-
ticas gerais do universo em sua totalidade. Po-              es categricas no sculo seguinte, por Nico-
dem-se distinguir quatro fases da C, a partir do             lau de Cusa (De docta ignor., 1440), unindo-se
momento em que foram abandonadas as tenta-                   (assim como o finitismo aristotlico se unira 
tivas nitidamente mticas das teogonias (cf. M.              astronomia geocntrica)  astronomia helio-
K. MUNITZ, Theories ofthe Universe, Glencoe, I               cntrica de Coprnico e de Kepler na nova
COSMOLOGIA                                         216                                    COSMOLOGIA


concepo do mundo que era exposta e                     que os espectros dessas galxias mostram um
defendida por Galilei (sc. XVII). Giordano              deslocamento para o vermelho, tanto maior
Bruno reiterava, do ponto de vista filosfico, a         quanto mais longnquas so as galxias. Esse
conexo mais estreita entre a infinitude do              segundo fato  comumente interpretado no
mundo e a nova astronomia heliocntrica. A f-           sentido de que as galxias se afastem de ns e,
sica de Newton representa a expresso da es-             ao mesmo tempo, umas das outras com uma
trutura matemtica de um mundo assim conce-              velocidade tanto maior quanto mais distantes
bido; e foi precisamente baseando-se nas leis            estiverem (EDWIN HUBBLE, The Realm ofthe
da fsica de Newton que Kant tentou, pela pri-           Nebulae, 1936). Esse fato, ou melhor, essa
meira vez, em Teoria dos cus (1755), uma                interpretao do fato do deslocamento do
cosmogonia cientfica que apresentava a hip-            espectro das galxias para o vermelho levou a
tese da formao de todo o universo a partir             abandonar os modelos estticos do universo,
de uma nebulosa primitiva. Mais tarde, Laplace           como o de Einstein, a que nos referimos, e de
apresentava a mesma hiptese com mais rigor;             De Sitter (cf. deste, Kosmos, 1932), em favor de
limitando-se ao sistema solar {Exposio do sis-         modelos dinmicos, fundados na noo de "ex-
tema do mundo, 1796), julgava ter demonstra-             panso" do espao. Eddington e Lemaitre con-
do que o mundo no passa de gigantesca m-               triburam de forma eminente para o desenvol-
quina dirigida por rigorosas leis matemticas.           vimento e a difuso do modelo do universo
Essa fase cosmolgica culmina, pois, com o               em expanso(A. S. EDDINGTON, TheExpanding
triunfo do mecanicismo, cujo exemplo mais                 Universe, 1933; G. LEMAITRE, ThePrimevalAtom.
conspcuo parece estar nos cus.                         An Essay on Cosmogony, trad. in., 1950). A di-
    4a A quarta fase da C. comeou na segunda            ferena entre os vrios modelos de universo 
dcada deste sculo e deveu-se ao uso dos no-            expressa por Eddington nestes termos-. "Num
vos instrumentos pticos e conceituais de que            extremo temos o universo de Einstein, sem
se comea a dispor nesse perodo. O uso dos              movimento e, portanto, em equilbrio. Depois,
grandes telescpios e a teoria da relatividade            medida que prosseguimos ao longo da srie,
de Einstein foram os fatores fundamentais des-           temos modelos de universo que mostram uma
sa transformao. Num texto de 1917, Conside-            expanso cada vez mais rpida, at que, no
raes sobre o universo como um todo, Eins-              outro extremo da srie, tenhamos o universo
tein propunha pela primeira vez uma reforma              de De Sitter. A proposio da expanso cresce
radical da concepo do mundo que viera se               ao longo da srie, ao passo que a densidade di-
formando a partir do Renascimento e que pare-            minui; o universo de De Sitter  o limite em
cia j estabelecida: propunha considerar o uni-          que a densidade mdia da matria celeste se
verso no mais como infinito, mas como finito            aproxima de zero. A srie dos universos em
e todavia no limitado (assim como no  limi-           expanso acaba a, no porque a expanso se
tado um anel sem engaste, que se pode fazer              torne demasiado rpida, mas porque j no h
girar ilimitadamente). Einstein considerava,             nada que possa expandir-se" (The Expanding
portanto, que o espao do universo era curvo,             Universe, 2,  4). Mas o modelo de Einstein no
mais precisamente elptico, no qual uma linha            se encaixava totalmente nas observaes astro-
reta, suficientemente prolongada, voltaria so-           nmicas: era pequeno demais para represen-
bre si mesma e acabaria por fechar-se. As pro-           tar o universo real. O modelo de De Sitter sa-
priedades geomtricas do espao seriam, nesse            tisfazia s equaes s a partir do pressuposto
caso, determinadas pela matria, j que o grau           de que o espao fosse vazio e que nele no
de curvatura do espao dependeria da densi-              houvesse matria nenhuma. Por isso, o mode-
dade da matria. Por outro lado, as observa-             lo de Lemaitre ficou, durante alguns decnios,
es de Hubble, possibilitadas pelo uso do te-           como o mais freqentemente adotado.
lescpio de cem polegadas, permitiam resolver                Depois da Segunda Guerra Mundial, a C. so-
o problema da natureza das nebulosas e re-               freu nova guinada. Em 1949, os matemticos
conhec-las como sistemas galcticos indepen-            ingleses Herman Bondi e Thomas Gold propu-
dentes, e no como partes de nossa prpria ga-           seram um novo modelo do universo partindo
lxia. Hubble estabeleceu dois fatos de grande           do paradoxo em que se detivera, mais de um
importncia. O primeiro  que as nebulosas               sculo antes, o astrnomo alemo Olbers: se as
extragalcticas esto distribudas pelo espao           estrelas esto distribudas uniformemente no
de modo uniforme e homogneo. O segundo                 espao e se o espao  infinito, por que a luz
COSMOLOGIA                                         217                                COSMOPOLITISMO


delas no nos cega? No deveria cada ponto do                Embora essas concepes pretendam ser
universo infinito receber uma soma infinita de           puramente cientficas, no tenham o intuito de
luz? Ao formular esse paradoxo, Olbers partia            retornar  velha C. finalista e tratem a criao
do pressuposto de que o carter geral do uni-            como um simples "fato" cuja idade mdia se
verso  o mesmo no s em todos os lugares               pode estabelecer matematicamente, est claro
mas tambm em todos os tempos.  exatamen-               que se fundamentam em alguns pressupostos
te desse pressuposto que partem Bondi e Gold.            pouco justificveis. Sem levar em conta que
Ele implica que a aparncia de uma regio                a expanso do universo  admitida atravs
qualquer do universo foi no passado e ser               da interpretao do deslocamento do espectro
sempre no futuro a mesma do presente. Ora, o             das galxias para o vermelho como recesso das
nico modo de conciliar esse postulado com o             galxias (no se deve esquecer que o fato pode
movimento de recesso das galxias (demons-              ter outras interpretaes), o postulado da uni-
trado pelo deslocamento de seu espectro para             formidade do universo no tempo e no espao
o vermelho)  admitir que novas galxias se              no passa de expresso camuflada da antiga
formam continuamente para compensar a dis-               idia do mundo como totalidade absoluta dos
perso das velhas. Mas se novas galxias se              fenmenos. Esse postulado, com efeito, no 
formam continuamente, isso quer dizer que                verificvel nem falsevel, e no pode ser tra-
continuamente se cria matria nova no espao.            duzido em enunciados controlveis: no faz
Bondi e Gold calcularam que a criao de nova            mais do que exprimir a idia do mundo como
matria deve ocorrer na proporo de um to-             "totalidade absolutamente homognea", que
mo de hidrogneo para cada litro do espao               no  menos metafsica do que a "incorrup-
intergalctico a cada bilho de anos (de BONDI,          tibilidade dos cus" de aristotlica memria (cf.
v. "Theories of Cosmology", em The Advance-
                                                         as importantes observaes de M. K. MUNITZ,
 ment of Science, 1955, n. 45). Essas idias fo-
ram logo retomadas pelo astrnomo ingls                 Space, Time and Creation, Glencoe, III, 1957).
Fred Hoyle, que modificou as equaes da re-                COSMOLGICA, PROVA (in. Cosmolo-
latividade geral de Einstein, de modo que elas           gcal argument; fr. Pruve cosmologique, ai.
permitissem a contnua criao da matria no             KosmologischerBeweis; it. Prova cosmologica).
espao (The A'ature ofthe Universe, 1950).               Assim foi chamada pela filosofia alem do sc.
                                                         XVIII a prova da existncia de Deus, que S. To-
    No momento em que foi formulada, essa
                                                         ms chamava exparte motus (S. Th., I, q. 2, a.
 doutrina tinha a vantagem de anular a impor-
tncia do desacordo entre os astrnomos sobre            3) e que a tradio escolstica extrara da Fsica
 a idade do universo, eliminando o prprio pro-          (VII, 1) e da Metafsica (XII, 7) de Aristteles (v.
                                                         DEUS, PROVAS DE).
 blema da determinao da idade. De fato, se a
 criao  contnua e se novas galxias nascem              COSMOPOIJTISMO (in. Cosmopolitism; fr.
 continuamente no universo, este deve ser po-            Cosmopolitisme, ai. Kosmopolitismus; it. Cosmo-
voado de galxias de todas as idades. O uso de           politism). Doutrina que tende a negar a impor-
 telescpios ainda mais poderosos nos ltimos            tncia das divises polticas e a ver no homem,
 anos eliminou as discrepncias sobre a avalia-          ou ao menos no sbio, um "cidado do mun-
 o da idade do universo, que foi fixada em             do". "Cosmopolita" respondeu Digenes, o C-
 cerca de cinco bilhes de anos. Isso persuadiu          nico, a quem lhe perguntou de onde era (DIG.
 alguns astrnomos a admitir um modelo no               L, VI, 63). O C. tambm foi defendido pelos
 esttico do universo, como o de Bondi e de              esticos. "Consideramos todos os homens", di-
 Hoyle, mas "evolucionista", pelo qual se admi-          zia Zeno, "compatriotas e concidados; que a
 te que o universo evoluiu do estado primitivo           vida e o mundo sejam unos como uma grei
 de gs altamente comprimido e quentssimo ao            unida, criada com uma lei comum" (PLAUT., De
 estado atual que apresenta estrelas, galxias           Alex. virt., I, 6, 329). O C. como ideal diferente
 e matria. Essa teoria admite na origem do              do universalismo eclesistico foi compartilhado
 universo um acontecimento catastrfico, ni-            por Leibniz (Escritos polticos; seleo e trad. it.
 co pelas condies em que se desenvolveu (G.            de V. Mathieu, pp. 141-42) e retomado pelo
 GAMOW, "Modem Cosmology", em Scientific                 Iluminismo. Kant considera-o um princpio
 American, 1954, n. 3; D. W. SCIAMA, "Evolutio-          regulador do progresso da sociedade huma-
 nary Processes in Cosmology", em The Advan-             na para a integrao universal e, portanto,
cement of Science, 1955, n. 54.                          como "o destino do gnero humano, justifica-
COSTUME                                              218                                            CRENA

do por uma tendncia natural nesse sentido"                sentido, pode-se dizer que uma C. pode per-
(Antr, II e).                                              tencer ao domnio da fly). De per si, a C. im-
   COSTUME (in. Custom, fr. Coutume, ai. Ge-               plica apenas a adeso, a qualquer ttulo dado e
wohnbeit; it. Consuetudin). 1. O mesmo que                para todos os efeitos possveis, a uma noo
habito (v.).                                               qualquer. Portanto, podem ser chamadas de C.
   2. No sentido sociolgico, qualquer atitude,            as convices cientficas tanto quanto as confis-
esquema ou projeto de comportamento que seja               ses religiosas, o reconhecimento de um prin-
compartilhado por vrios membros de um gru-                cpio evidente ou de uma demonstrao, bem
po. Vio j aplicava essa palavra nesse sentido:           como a aceitao de um preconceito ou de
" frase digna de considerao a de Dion Cssio-,          uma superstio. Mas no se pode chamar
que o C. se assemelha ao rei e a lei ao tirano; o          de C. a dvida, que suspende a adeso  vali-
que deve ser entendido do costume razovel e               dade de uma noo, nem a opinio, no caso de
da lei no animada pela razo natural" (Scienza            excluir as condies necessrias para uma ade-
nuova, 1744, dignidade 104). Na linguagem                  so desse gnero.
contempornea, com o termo C. designam-se                      Plato chamou de C. a forma ou o grau de
os usos (folkways), as convenes e comporta-              conhecimento que tem por objeto as coisas
mentos moralmente prescritos (mores-, V. COSTU-            sensveis, j que ela contm uma adeso  rea-
MES), que se distinguem pelas diferentes intensi-          lidade dessas coisas, ao contrrio da conjetu-
dades das sanes que os reforam.                         ra, que, tendo por objeto as imagens, as som-
   COSTUMES (lat. Mores; in. Mores). Atitudes              bras, etc, no contm essa adeso (Rep., VI,
institucionalizadas de um grupo social, s quais           510 a). Aristteles julga que a C. no  eliminvel
se aplicam eminentemente os qualificativos                 da opinio: "No  possvel", diz ele, "que quem
"boas" e "ms" e que so reforadas pelas san-             tenha uma opinio no creia no que pensa"
es mais enrgicas porque consideradas con-               (Dean., III, 428 a 20). Em sentido anlogo, mas
dies indispensveis de qualquer relaciona-               com referncia  f, S. Agostinho definiu a
mento humano (v. TICA).                                   crena como "pensar com assentimento" (De
   CREDO QUIA ABSURDUM. Frase atribu-                     Predest. Sanct., 2), definio que S. Toms usa
da a Tertualino (sc. II) e que, embora no se             como fundamento de sua anlise da f. "Esse
encontre em suas obras, exprime bem o an-                  ato que  crer", diz S. Toms, "contm a firme
tagonismo que ele estabeleceu entre cincia e              adeso a um dos lados e nisso  semelhante ao
f. Seu significado  igualmente expresso pe-              ato de quem conhece e entende; todavia, o co-
las seguintes palavras: "O Filho de Deus foi               nhecimento de quem cr no  perfeito pela
crucificado; no  vergonhoso porque poderia               sua evidncia, e nisso a crena est prxima da
s-lo. O Filho de Deus morreu;  crvel porque             dvida, da suspeita e da opinio" (S. Th., II, 2,
inconcebvel. Sepultado, ressuscitou;  certo por-         q. 2, a. 1). Na filosofia moderna, a partir de
que impossvel" (De carne Christi, 5).                     Locke, a limitao crtica do conhecimento le-
   CREDO UT INTELLIGAM.  o lema de                        vou a distinguir o conhecimento certo do pro-
S. Anselmo (sc. XI) e de grande parte da                  vvel, e no provvel vrios graus de adeso,
Escolstica. A f  o ponto de partida da inda-            dos quais a C.  o maior (Ensaio, IV, 16, 9). Mas
gao filosfica e nada se pode entender se                foi o ceticismo de Hume que generalizou a no-
no se tem f. Entretanto,  prprio do pregui-            o de C, vendo nela a atitude que consiste em
oso no procurar entender e demonstrar aqui-              reconhecer a realidade de um objeto. "A C",
lo em que cr (Proslogion, 1).                             disse Hume, " s uma concepo mais vivida,
    CRENA (gr. moti-, lat. Credere, in. Belief;          viva, eficaz, firme e slida daquilo que a imagi-
fr. Croyance, ai. Fuerwahrhalten, Glaube, it.              nao por si s nunca  capaz de obter." E "o
Credenz). No significado mais geral, atitude              ato da mente que nos torna a realidade, ou o
de quem reconhece como verdadeira uma pro-                 que  tomado por realidade, mais presente
posio: portanto, a adeso  validade de uma              do que as fices, fazendo-a pesar mais sobre
noo qualquer. A C. no implica, por si s, a             o pensamento e aumentando sua influncia so-
validade objetiva da noo  qual adere nem                bre as emoes e a imaginao" (Inq. Cone.
exclui essa validade. Tampouco tem, necessa-               Underst., V, 2). Hume considerava a C. inex-
riamente, alcance religioso, nem , necessaria-            plicvel, entendendo-a simplesmente como
mente, a verdade revelada, a f; por outro lado,           experincia ou sentimento (feeling ou senti-
tambm no exclui essa determinao e, nesse               ment) natural e irredutvel. "No podemos", disse
CRENA                                                 219                                            CRENA

ele, "ir alm da assero de que a C.  uma                  afirmou que todo objeto julgado existe na
experincia do esprito que faz a distino en-              conscincia em forma dupla: como objeto
tre idias do juzo e fices da imaginao".                representado e como objeto reconhecido ou
Mas um dos resultados dessa anlise foi pr em               negado, ou seja, "crido". "Afirmamos", disse
evidncia o carter especfico de adeso que o               Brentano, "que, quando o objeto de uma re-
reconhecimento de uma realidade qualquer                     presentao se torna objeto de um juzo afirma-
possui. Kant no fez mais do que aceitar e con-              tivo ou negativo, a conscincia refere-se a ele
validar a generalizao de Hume com os escla-                numa espcie de relao completamente nova.
recimentos metodolgicos que aduziu na seo                 O objeto est, ento, duplamente presente para
do Cnon da Razo Pura (Crt. R. Pura, mas                   a conscincia, como representado e como acei-
cf. tambm a Crt. do Juzo,  90) que dedi-                 to ou negado, assim como, quando o desejo
cou  opinio,  cincia e  f. Entendeu por C.             recai sobre um objeto, esse objeto est presen-
''a validade subjetiva do juzo", ou seja, a va-             te na conscincia, ao mesmo tempo como re-
lidade que o juzo possui "na alma de quem                   presentado e como desejado" (Von derKlassifi-
julga". E reconheceu trs graus de C: opinio,               cation der psychischen Phnomene, 1911, II,
que  uma C. insuficiente tanto subjetiva quan-              1). Brentano, portanto, fazia a distino entre
to objetivamente; f, que  uma C. insuficiente              juzo e representao como faculdades psqui-
objetivamente, mas considerada subjetivamente                cas diferentes e considerava que o juzo era
suficiente; e cincia, que  uma C. suficiente               marcado pelo carter de adeso da crena.
tanto subjetiva quanto objetivamente. Mas                    Husserl chama esse mesmo carter de "ttico";
 esses reparos e distines, apesar do sucesso               para ele, a C.  um ato que "pe" o ser: ao
 que tiveram, so um tanto confusos. Com efei-               carter "ttico" da C. corresponde o carter "real"
 to, Kant considera a opinio como uma espcie               de seu objeto (Ideen, I,  103). As mesmas ca-
de C, reconhecendo que carece de carter de                  ractersticas so atribudas  C. nas anlises de
 adeso. Alm disso, julga que s a f tem ou                Charles S. Peirce, que, ademais, ressaltou na C.
 pode ter influncia sobre a ao, ao passo que,             o carter de compromisso com a ao. Os
 como vira Hume, essa  a caracterstica pr-                caracteres da C, segundo Peirce, so os seguin-
 pria da crena. O carter especfico da C. foi              tes: Ia  algo de que tomamos conscincia; 2a
 ressaltado pelos empiristas ingleses do sc. XIX,           aquieta a irritao da dvida; 3a implica estabe-
 por Brentano e pelos pragmatistas. Stuart Mill              lecimento de uma regra de ao, de um hbito.
 identificou "juzo" e "C". " necessrio fazer a            Desse conceito de C, Peirce extraa a regra que
 distino", disse ele, "entre a simples sugesto            foi depois assumida como princpio fundamen-
 ao esprito de certa ordem entre as sensaes               tal do pragmatismo: "Para desenvolver o signi-
 ou idias -- como, p. ex., a do alfabeto e a da             ficado de uma coisa no devemos fazer mais
 tbua pitagrica -- e a indicao de que essa               do que determinar os hbitos que ela produz,
 ordem  um fato real que est acontecendo,                  pois aquilo que uma coisa significa  simples-
 que aconteceu uma ou mais vezes ou que                      mente o hbito que ela implica. A identidade
 acontece sempre em certas circunstncias: que               de um hbito depende de como ele nos levar
 so as coisas indicadas como verdadeiras por                a agir, no s nas circunstncias que provavel-
 uma predicao afirmativa ou como falsas pela               mente surgiro, mas nas circunstncias que,
 negativa" (Analysis of the Phenomena of the                 embora improvveis, possam surgir" (Chance,
 HumanMind [de JAMES MILL], cap. IV,  4, nota               Love and Logic, II, 2; Coll. Pap., 5. 397).
 48; tambm System ofLog., I, 5, 2). De resto, a
 tese de que o juzo importa C. j fora defendida               Santayana elucidou a conexo da C. com a
  por Hobbes (De corp., 3,  8), para quem, no               parte ativa e prtica do homem, ou seja, com
  entanto, a C. consistia somente em considerar              a fome, o amor, a luta ou, de modo geral, a
  que sujeito e predicado so dois nomes de uma              espera do futuro. Aquilo em que se cr no 
  s coisa. Stuart Mill, criticando Hobbes nesse             essncia pura (que, como tal,  s objeto de
  aspecto, pretende mostrar que a adeso impl-              intuio), mas uma coisa existente, e as coisas
  cita no juzo no  s verbal ou lingstica, mas          existentes se do somente na "experincia ani-
  diz respeito ao objeto do prprio juzo, isto ,          mal", isto , na relao de ao e reao do
  realidade (Logic, I, 5, 4). Tese anloga foi sus-          organismo com o mundo. Logo, segundo San-
  tentada por Franz Brentano do ponto de vista               tayana, a C. na existncia  uma "f animal"
  da intencionalidade da conscincia. Brentano               (Scepticism and Animal Faith, 1923, cap. 15-
                                                             16). Enfim, outro carter da crena foi eviden-
CRIAO                                              220                                           CRIAO

ciado por James: a capacidade de provocar, s              ou negativa com doutrinas prprias da filosofia
vezes, sua prpria confirmao. James enun-                grega. Assim, na Bblia, diz-se claramente que
ciou essa tese a propsito de C. metafsicas,              Deus criou o cu e a terra (Geri., I, 1; Ps. 32, 6;
como, p. ex., das C. na ordem e na bondade fi-              135, 5; Eci, 18; Act., 14, 14; 17, 24; etc), mas
nal do mundo {The Will to Believe, 1897). Ele              no fica to claro que essa C.  do nada; alis,
entendia que a vida pode adquirir sentido e va-            o livro da Sabedoria (XI, 18) fala da C. do orbe
lor para quem acredita que ela os tem. Mas fora            da terra a partir de "uma matria invisvel". Por
dessa esfera metafsica o fenmeno da C. que               outro lado, na filosofia grega encontrava-se cer-
se realiza a si mesma hoje  amplamente reco-              to conceito de C. que no se mostrou compa-
nhecido e estudado nas cincias sociais, assim             tvel com o conceito de Deus peculiar aos cris-
como se reconhece e estuda nessas mesmas                   tos. O conceito de C. dado por Plato em
cincias o fenmeno da "C. suicida", ou seja,               Timeu ajusta-se s condies Ia e 3a, mas con-
da C. que se destri a si mesma.                           tradiz a 2a. A C, para o Deus-artfice,  um ato
    Na filosofia contempornea, a noo de C.             voluntrio de bondade que quer a multiplica-
marcada pelas seguintes caractersticas: Ia a C.           o do bem (Tim., 29 E), o que significa que o
 a atitude da adeso a uma noo qualquer; 2a             mundo no  necessrio em relao  sua cau-
essa adeso pode ser mais ou menos justificada             sa. Mas a ao criadora do Demiurgo  limita-
pela validade objetiva da noo, ou no se jus-            da: ls pelas estruturas do ser, isto , pelas
tificar de modo algum; 3a a prpria adeso                 idias ou substncias que ele assume da sua
transforma a noo em regra de comportamen-                obra como modelos; 2S pela matriz material
to (o que Peirce chamava de "hbito de ao");             que, com sua necessidade, limita a prpria
4a como regra de comportamento, em alguns                  obra. Por isso, sua C. no  ex nihilo. Por sua
campos a C. pode produzir sua prpria reali-               vez o Deus de Aristteles, como primeiro mo-
zao ou seu prprio desmentido.                           tor imvel do mundo,  causa do movimento,
    CRIAO (gr. Tiovnai; lat. Creatio; in.               ou seja, do devir e da ordem do mundo, mas
Creation-, fr. Cration; ai. Schoepfung; it. Crea-         no de seu ser substancial, que  to eterno
zion). Em todas as lnguas, essa palavra tem              quanto o prprio Deus (Met., XII, 6, 1071 b 3
sentido muito genrico, indicando qualquer                 ss.). Quanto ao Deus dos neoplatnicos e de
forma de causalidade produtiva: do artfice, do            Plotino, sua ao criadora  a da emanao,
artista ou de Deus. Seu significado especfico,            caracterizada pela necessidade do processo
porm, como forma particular de causao,                 criativo (v. EMANAO). Nesses modelos clssi-
caracterizado: l9 pela ausncia de necessidade             cos, o conceito de C. choca-se com os atributos
do efeito em relao  causa que o produz;                 do Deus judaico e cristo, que no  causa ne-
2a pela ausncia de realidade pressuposta no               cessria, mas cria o mundo por um ato livre e
efeito criado, alm da realidade da causa cria-            gratuito, e  infinito e onipotente, no poden-
dora (e nesse sentido diz-se que a C.  "do                do, portanto, encontrar limites  sua ao cria-
nada"); 3U pelo menor valor do efeito em rela-             dora numa estrutura substancial ou numa ma-
o  causa; e eventualmente 4B pela possibili-            tria que seja independente dele.
dade de que um dos termos da relao, ou                       Em vista dessas exigncias, a primeira ela-
ambos, estejam fora do tempo. A Ia e a 2a ca-              borao da noo de C. foi feita por Flon de
ractersticas diferenciam a C. da emanao (v.)            Alexandria (sc. I). Embora Flon continue cha-
alm de diferenci-la das formas ordinrias de             mando Deus de "Demiurgo" ou de "Alma do
causao. A 3a caracterstica  comum  C. e               mundo", anuncia (se bem que com certa incer-
 emanao e diferencia ambas das formas                   teza) a noo de C. afirmando que "Deus,
ordinrias da causao. A 4a caracterstica,               criando todas as coisas, no s as trouxe  luz,
quando se verifica, aproxima a C. da emana-                mas criou o que antes no havia: no s cons-
o (que  eterna porque necessria), mas                  trutor, mas na verdade fundador" (KTaTn,
nem sempre se verifica.                                    Desomniis, I, 13). No mesmo sentido, a noo
    Considera-se, em geral, que a C.  uma no-             de C. foi elaborada pela Patrstica e pela Escols-
o de origem bblica, mas na realidade no               tica. A elaborao patrstica tem mais afinida-
possvel colher na Bblia as determinaes aci-            des com os modelos clssicos. Irineu reivin-
ma expostas, que a definem e que so fruto da              dicava contra os gnsticos o carter total (ex
elaborao a que o pensamento cristo sub-                 nihilo) da C, sem o qual se atribuiria a Deus a
meteu esse conceito, pondo-o em relao positiva           impotncia de realizar seus projetos (Adv.
CRIAO                                              221                                            CRIAO

haeres, II, 1, 1). Mas  sobretudo nos padres              pura matria de f (S. Th., I, q. 46, a. 2). Essa
da igreja oriental que se sente a influncia do            doutrina seria reproduzida, sem variantes
modelo emanacionista, evidente em Orgenes                 notveis, por Duns Scot (Rep. Par., II, d. 1, q.
(Deprinc, I, 2,10) e, nos primrdios da Escols-           3, n s 8).
tica, em Scotus Erigena (De divis. nat., IV, 7);                esse o paradigma do uso dessa noo pela
este julga insolvel a conciliao entre a eterni-         filosofia moderna e contempornea. Freqen-
dade do mundo e a C. deste por parte de Deus.              temente, os filsofos que se serviram dessa no-
A Escolstica rabe, com Avicena e Averris,               o deram maior nfase a uma ou a outra de
insistira na necessidade e na eternidade do                suas caractersticas, ou acrescentaram alguma
mundo, negando (Averris) a C, ou reduzin-                 caracterstica que eqivale  sua negao. Descar-
do-a (Avicena)  mera anterioridade do ser ne-             tes insistiu na continuidade da C, observando
cessrio ao ser contingente (Met., VI, 2). E nes-          que, se Deus parasse de criar, o mundo dei-
se aspecto foram de pouca serventia as crticas            xaria de existir (Discours, IV; Princ.phil, I,  21):
de Maimnides, que defendera a "novidade"                  observao que no  nova (acha-se em FLON,
do mundo, insistindo nos seus caracteres arbi-             AH. leg., I, 5) e reaparece com freqncia na
trrios (Guide des gars, II, 19). A primeira             Idade Moderna. Outros, porm, como Hegel,
exposio lcida do conceito de C. deveu-se a              insistem na necessidade da C, com o que, po-
S. Anselmo. "As coisas feitas pela substncia              rm, o conceito  implicitamente negado (Phi-
criadora", diz ele, "foram feitas do nada, assim            losophie der Religion, ed. Glockner, II, p. 51
como si dizer-se que algum que era pobre fi-             ss.). Mas Hegel e, em geral, o idealismo romn-
cou rico, e outro, que era doente ficou so"               tico substituram a noo de C. por outro concei-
(Monologion, 8). Logo, nada antecede  obra                to elaborado por Spinoza: a derivao racional
criadora, exceto Deus: "Aquilo que antes no               e necessria das coisas, como momentos lgi-
era agora " (Ibid., 8). Com igual lucidez, S. To-         cos, de seu princpio, derivao que Spinoza
ms recapitulava as caractersticas que essa no-           identificara com a inferncia pela qual "da natu-
o viera adquirindo na Escolstica latina. A C.           reza do tringulo segue-se que os trs ngulos
 "a emanao de todo ente a partir da causa               so iguais a dois ngulos retos", ou seja, com a
universal, que  Deus". Ela no pressupe ne-              necessidade geomtrica (Et., I, 17, scol.). Desde
nhuma realidade, pois ento haveria uma reali-             o incio do sc. XIX, atravs do idealismo ro-
dade no causada por Deus; e nesse sentido                mntico e, depois, do positivismo evolucio-
ex nihilo. Ex no significa a causa material,              nista, desenvolve-se outra hiptese a respeito
como se o nada fosse a matria de que o mun-               da origem do mundo, muito diferente da hip-
do  composto, mas somente a ordem de su-                  tese da C. Seu pressuposto  a noo de pro-
cesso, pela qual o ser criado do mundo segue-             gresso que o Iluminismo setecentista elaborara
se ao no ser do prprio mundo (S. Th., I, q.              em relao ao mundo humano e que o sc. XTX
45, a. 1-2). Com isso e com o reconhecimento               estende ao mundo natural. Essa noo deu en-
de que "no  necessrio que Deus queira algo              sejo  noo de desenvolvimento dialtico, por
que no ele mesmo" (Ibid., q. 46, a. 1), que im-           um lado, e  de evoluo ou desenvolvimento
plica o carter voluntrio e gratuito da C, esta-          natural, por outro. A primeira foi utilizada pelo
vam fixadas as caractersticas do conceito. S.             idealismo romntico; a segunda, pelo positivis-
Toms, porm, no julgava que o conceito im-               mo. Ambas substituem o fiat criador instan-
plicasse necessariamente o incio do mundo no              tneo pela formao gradual e progressiva.
tempo. A C , como causao do mundo por                    Ambas levam a considerar como "mtica" a pr-
parte de Deus, poderia muito bem ser eterna,               pria noo de criao. Na realidade, esto em
no sentido atribudo por S. Agostinho ao dizer:            anttese direta com as caractersticas fundamen-
"Se um p sempre existiu no p, desde a eter-              tais dessa noo. Desenvolvimento (dialtico) e
nidade, sob ele sempre ter existido a pegada,             evoluo significam causao necessria, me-
indubitavelmente produzida pelo p que calca-              diata, progressiva e, se no temporal, pelo
va; do mesmo modo, o mundo sempre existiu                  menos coincidente com a sucesso temporal.
porque sempre existiu quem o criou" (De civ.               A C. continuou constituindo a alternativa "m-
Dei, X, 31). Nesse caso, obviamente, permane-              tica", "metafsica" ou "religiosa" da explicao
ceriam inalteradas as caractersticas fundamen-            do mundo, embora muitas vezes a hiptese de
tais Ia, 2a e 3a da noo: S. Toms, portanto,             evoluo e de desenvolvimento se mostrasse
admite que o incio do mundo no tempo                     to "mtica" ou "metafsica" quanto a da criao.
CRIAO                                                   222                                              CRISE

    Apesar de tudo, a noo de C. no foi aban-                 Embora S. Toms exclusse a C. dos processos
donada. Reaparece sempre que se apresenta                       da natureza e da arte (S. Th., I, q. 45, a. 8), o
uma concepo testa ou desta do mundo,                        uso desse termo para qualificar esses processos
como muitas vezes acontece, por obra do espi-                   tornou-se comum tanto em linguagem filosfi-
ritualismo moderno (p. ex., com Whitehead,                      ca quanto corrente. Mas tudo o que esse uso
que insiste no carter finalista da vida [Nature                implica , precisamente, a acentuao do ca-
and Life, 1934, II]. Tambm na cincia, nestes                  rter de novidade imprevisvel que tm alguns
ltimos tempos, s vezes  apresentada como                     produtos das atividades humanas ou mesmo
"fato", independentemente de qualquer cren-                     dos processos naturais, sem que, obviamen-
a metafsica ou religiosa. Alguns astrnomos                   te, com esse uso o termo faa qualquer refern-
modernos julgam que a expanso do universo                      cia  significao precisa elaborada pela filoso-
(cujo sinal  o deslocamento do espectro das                    fia medieval.
galxias para o vermelho) exige, para que o                         CRIACIONISMO. V. TRADUCIANISMO.
estado do universo permanea uniforme, a C.                         CRISE (in. Crisis; fr. Crise-, ai. Krisis; it.
contnua de nova matria. Chegou-se a calcular                  Crisi). Termo de origem mdica que, na medi-
que a proporo de matria criada  grosso                      cina hipocrtica, indicava a transformao deci-
modo equivalente  massa de um tomo de hi-                     siva que ocorre no ponto culminante de uma
drognio para cada litro de volume e para cada                  doena e orienta o seu curso em sentido fa-
bilho de anos (BONDI, Cosmology, 1952; cf. M.                  vorvel ou no (HIPCRATES, Prognosticon, 6,
K. MUNITZ, Space, Time and Creation, 1957, pp.                  23-24; Epidemias, I, 8, 22). Em poca recente,
154 ss.).  certo que se pode pr em dvida a                   esse termo foi estendido, passando a significar
oportunidade cientfica do uso desse conceito                   transformaes decisivas em qualquer aspecto
nesse caso (v. COSMOLOGIA): de qualquer forma,                  da vida social. Na Introduo aos trabalhos
est claro que o significado dele no tem aqui                  cientficos do sculo XIX'(1807), St.-Simon afir-
as caractersticas especficas que o identificam                mava que o progresso necessrio da histria 
como forma de causao, pois no faz re-                        dominado por uma lei geral que determina a
ferncia a uma causa, isto , a um criador.                     sucesso de pocas orgnicas e de pocas cr-
Pela forma como esse termo  usado por esses                    ticas. A poca orgnica  a que repousa num
cosmlogos, significa apenas "apario sem                      sistema de crenas bem estabelecido, desen-
causa".                                                         volve-se em conformidade com ele e progride
    Em sentido igualmente genrico, emprega-                    dentro dos limites por ele estabelecidos. Mas a
se essa palavra muito mais freqentemente                       certa altura, esse mesmo progresso provoca a
para corrigir ou retificar o conceito de evoluo               mudana da idia central sobre a qual essa
e para introduzir nesta os caracteres da impre-                 poca est apoiada e determina, assim, o in-
visibilidade, liberdade e novidade. Nesse sen-                  cio de uma poca crtica. Desse modo, p. ex.,
tido, Bergson falou de "evoluo criadora", para                a idade orgnica medieval foi posta em C. pela
ressaltar a diferena e a complexidade das li-                  Reforma e, sobretudo, pelo nascimento da
nhas evolutivas e das formas orgnicas, bem                     cincia moderna. Comte repetiu essa distino
como "a multiplicidade quase infinita de anli-                 (Discours sur Vesprit positif  32). Para St.-
ses e snteses entrelaadas" que pressupem:                    Simon, assim como para Comte e muitos positi-
diferena e multiplicidade que o homem pode                     vistas, toda a poca moderna  de C, no senti-
captar diretamente em si mesmo, na experin-                    do de no ter ainda atingido sua organizao
cia da ao. "Que a ao cresce avanando,                      definitiva em torno de um princpio nico, que
que ela cria  medida que progride, cada um                     deveria ser dado pela cincia moderna, mas,
de ns pode constatar quando se v agindo"                      inevitavelmente, encaminha-se para a realiza-
(vol. cratr, 11a ed, 1911, pp. 270-71). Outros                o dessa organizao. Esse diagnstico depois
falaram, em sentido anlogo, de "evoluo                       foi compartilhado por todos os filsofos e pol-
emergente" (p. ex., C. LLOYD MORGAN em Emer-                    ticos que se portaram como profetas de nosso
gent Evolution, 1923). Esse sentido da palavra,                 tempo. Tanto os que acham que a nova e
que d nfase s novidades e  imprevisibili-                   indefectvel era orgnica ser o comunismo
dade do resultado de um processo, est impl-                   quanto os que acham que essa poca ser ca-
cito nos usos dessa palavra que a relacionam                    racterizada pelo misticismo esto de acordo em
com atividades humanas, como quando se fala,                    diagnosticar a "C." da poca presente e em indi-
p. ex., de C. "artstica", "literria" ou "cientfica".         car seu carter na falta de "organicidade", ou
CRITRIO                                                223                                       CRITICISMO


seja, de uniformidade nos valores e nos modos                 temas filosficos, mas a C. da faculdade da ra-
de vida. A crena de que essa uniformidade                    zo, em geral, com respeito a todos os conheci-
existiu e de que dever inevitavelmenbte re-                  mentos aos quais ela pode aspirar indepen-
tornar  o pressuposto do sucesso alcanado                   dentemente da experincia"; portanto, tambm
pela noo de C, como se v num dos textos                     "a deciso sobre a possibilidade ou impossibili-
em que ela foi analisada com mais brilhan-                    dade de uma metafsica em geral e a determi-
tismo, O esquema das crises (1933), de Ortega                 nao tanto de suas fontes quanto de seu mbi-
y Gasset. Mas o ideal de uma poca orgnica,                  to e de seus limites" (Crt. R. Pura, Pref.  X-
em que no haja incerteza nem luta, , por sua                ed.). A tarefa da C, portanto,  ao mesmo tem-
vez, um mito consolador que serve de escape                   po negativa e positiva: negativa enquanto res-
para as geraes que perderam o sentido de                    tringe o uso da razo; positiva porcjue, nesses
segurana, visto que nenhuma poca chamada                    limites, a C. garante  razo o uso legtimo de
orgnica, nem mesmo a Idade Mdia, foi isen-                  seus direitos (Ibid., Pref.  2- ed.). A C. assim
ta de conflitos polticos e sociais insolveis, de            entendida afigurava-se a Kant como uma das
lutas ideolgicas, de antagonismos filosficos                tarefas de sua poca ou, como diz ele habitual-
e religiosos, que testemunham a fundamental                   mente, da "Idade Moderna"; de fato, constitua a
incerteza ou ambigidade dos valores da po-                  aspirao fundamental do Iluminismo, que,
ca. Quando, de resto, o diagnstico da C.                    decidido a submeter todas as coisas  C. da ra-
acompanhado pelo anncio cio inevitvel ad-                   zo, no se recusava a submeter a prpria
vento de uma poca orgnica qualquer, essa                    razo  C, para determinar seus limites e eli-
noo revela claramente seu carter de mito                   minar de seu mbito os problemas fictcios (v.
pragmtico, ideolgico ou poltico.                           ILUMINISMO). Pode-se dizer que quem abriu esse
    CRITRIO (gr. Kputpiov; lat. Criterium; in.              caminho ao Iluminismo foi um de seus maiores
Criterion; fr. Critre, ai. Kriterium; it. Critrio).         inspiradores, Locke; este, segundo palavras
Uma regra para decidir o que  verdadeiro ou                  contidas na Epstola ao leitor, a qual antecede
falso, o que se deve fazer ou no, etc. O pro-                o Ensaio sobre o entendimento humano, con-
blema de um C. capaz de dirigir o homem                       cebeu o Ensaio com a finalidade de "examinar
apresentou-se s no perodo ps-aristotlico da               as capacidades prprias do homem e verificar
filosofia grega, quando a filosofia assumiu car-             quais objetos seu intelecto  capaz ou no de
ter predominantemente prtico. Assim, para                    considerar". O Iluminismo adotou esse ponto
Epicuro a sensao era o C. da verdade e o pra-               de vista (v. COISA-F.M-SI). O ttulo que Kant pen-
zer sensvel, o C. do bem (DIG. L, X, 31). Para              sara dar  Crtica da Razo Pura, ou seja, Os limi-
os esticos, a representao catalptica era o C.             tes da sensibilidade e da razo (carta a Marcos
da verdade (Ibid., VII, 54) e o viver segundo a               Herz, de 7-VI-1771) exprime bem o significado
natureza era o C. da conduta (Ibid., VII, 87).                que ficou ligado  palavra "C". Contra esse sig-
Por sua vez, os cpticos, negando a validade                  nificado, Hegel objetou que "querer conhecer
desses C. estabeleceram como seu prprio                      antes de conhecer  absurdo, tanto quanto o 
C. a adeso aos fenmenos e a vida segundo                    o prudente propsito de quem quer aprender a
os costumes, as leis e as instituies tradicio-              nadar antes de se arriscar a entrar na gua"
nais, bem como segundo suas prprias afei-                    (Ene,  10). Mas essa objeo  infundada, pois
es (SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp., 21-24). Est                a C. kantiana no age no vazio nem precede o
claro que toda filosofia, ainda quando no ela-               conhecimento, mas atua sobre os conhecimen-
bora uma doutrina especfica a respeito, tende                tos de que o homem efetivamente dispe, com
sempre a apresentar ao homem um critrio para                 o fim de determinar as condies de sua vali-
dirigir suas opes, especialmente as que tm                 dade. No se trata, portanto, de aprender a na-
importncia decisiva em sua vida. Kant usou,                  dar fora da gua, mas de analisar os movimen-
em vez de C, a palavra cnon (v.).                            tos do nado para determinar as possibilidades
                                                              efetivas que ele oferece, comparando-as s
    CRTICA (in. Critique, fr. Critique, ai. Kritik,          outras, fictcias, que levariam ao afogamento.
it. Critica). Termo introduzido por Kant para
designar o processo atravs do qual a razo                      CRTICA, HISTRIA. V. ARQUEOLGICA,
empreende o conhecimento de si: "o tribunal                   HISTRIA.
que garanta a razo em suas pretenses legti-                   CRTICA, PSICOLOGIA. V. PSICOLOGIA, B.
mas, mas condene as que no tm fundamen-                        CRITICISMO (in. Criticism, fr. Criticisme,
to". A C. no , pois, "a C. dos livros e dos sis-            ai. Kritzsmus; it. Criticism). Doutrina de
CROCODILO, DILEMA DO                                    224                                         CULPA

 Kant, nos pontos bsicos pelos quais agiu na fi-          das) aos experimentos que permitem escolher
losofia moderna e contempornea, e que po-                a hiptese verdadeira entre as vrias possveis
dem ser assim resumidos: Ia Formulao cr-               para a explicao de um fenmeno.
tica (v.) do problema filosfico e, portanto,                 CUIDADO (lat. Cura; ai. Sorge, it. Cura). A
condenao da metafsica como esfera de pro-              preocupao, que, segundo Heidegger,  o
blemas que esto alm das possibilidades da               prprio ser do ser-a, isto , da existncia. O C.
razo humana. 2- Determinao da tarefa da                 a totalidade das estruturas ontolgicas do ser-
filosofia como reflexo sobre a cincia e, em             a enquanto ser-no-mundo: em outros termos,
geral, sobre as atividades humanas, a fim de              compreende todas as possibilidades da existn-
determinar as condies que garantem (e limi-             cia que estejam vinculadas s coisas e aos
tam) a validade da cincia e, em geral, das               outros homens e dominadas pela situao.
atividades humanas. 3e Distino fundamental,             Heidegger lembra a fbula 220 de Higino como
no domnio do conhecimento, entre os proble-              "um testemunho pr-ontolgico" da sua doutri-
mas relativos  origem e ao desenvolvimento               na do cuidado. Essa fbula termina com estas
do conhecimento no homem e o problema da                  palavras: "Como foi cuidado quem primeiro
validade do prprio conhecimento, isto , dis-            imaginou o homem, que fique com ele en-
tino entre o domnio da psicologia (Kant dis-           quanto ele viver" (Sein undZeit,  42). Todavia,
se "fisiologia", Crt. R. Pura,  10) e o domnio l-     Heidegger adverte: "Essa expresso nada tem
gico-transcendental ou lgico-objetivo, onde              a ver com 'aflio', 'tristeza', 'preocupaes' da
tem lugar a questo de iure da validade do                vida como se revelam onticamente em cada
conhecimento, insolvel no terreno de facto.              ser-a. Ao contrrio,  onticamente possvel algo
Essa distino eqivale  descoberta da dimen-            como 'despreocupao' e 'alegria', justamente
so lgico-objetiva do conhecimento que de-               porque o ser-a, ontologicamente entendido, 
veria inspirar a filosofia dos valores, a Escola          cuidado (.cura); como ao ser-a pertence de
de Marburgo, o logicismo de Frege e, atravs de           modo essencial o ser-no-mundo, seu ser em
Bolzano, a fenomenologia de Husserl. Em ge-               relao com o mundo  essencialmente ocu-
ral, pode-se dizer que a polmica da matem-              pao" (Ibid.,  12).
tica e da lgica moderna contra o psicologismo                CULPA (lat. Culpa; in. Guilt; fr. Culpabilit,
(v.) tem origem histrica no C. kantiano; 4B              ai. Schuld; it. Colpa). Originariamente, termo
Conceito de moralidade fundada no imperati-               jurdico para indicar a infrao de uma norma
vo categrico e conceito de imperativo categ-            cometida "involutariamente", sem premedita-
rico como forma da razo em seu uso prtico.              o, em contraposio a delito (dolus), que  a
    Esses pontos constituem as caractersticas            transgresso premeditada. Eis como Kant ex-
comuns de todas as formas de C. e de neo-                 prime a questo: "Uma transgresso involun-
criticismo. No constituem, porm, traos                 tria mas imputvel chama-se culpa; uma trans-
caractersticos ou dominantes do C. os funda-             gresso voluntria (unida  conscincia de que
mentos da doutrina kantiana de arte, teleologia           se trata realmente de uma transgresso) chama-
e religio; sobre eles, v. verbetes correspon-            se delito" (Met. der Sitten, I, Intr.  4). Para
dentes.                                                   Heidegger, a culpa  "um modo de ser do ser-
   CROCODILO, DILEMA DO. V DILEMA                         a", uma determinao essencial da existncia
   CRONTOPO. Foi esse o nome dado por                    humana enquanto tal. Distingue dois significa-
Gioberti, em Protologia (I, p. 453-54),  unida-          dos de ser culpado (correspondentes aos dois
de de espao e tempo puros, isto , intudos              significados do ai. Schuld, que significa dvida
pelo Pensamento Divino. O C.  Deus mesmo,                e culpa): estar em dbito com algum e ser
porque  a prpria possibilidade infinita da              causa, autor ou responsvel por alguma coisa.
criao; no pensamento divino,  uma espcie              "Nessa forma de 'ter culpa' de alguma coisa, po-
de modelo eterno do tempo e do espao.                    de-se 'ser culpado' sem 'estar em dbito' com
   CRUCIAL (lat. Instantia crucis). O uso co-             algum ou ser-lhe devedor. E, vice-versa, pode-
mum que se faz desse adjetivo em expresses               se dever algo a algum sem ter C. disso (ser
como "experincia C", "exemplo C", "perodo               sua causa)" (Sein und Zeit,  58). Em sentido
C", no sentido genrico de decisivo, remonta a            anlogo, Jaspers colocou a C. entre as situa-
Bacon (Nov. Org., II, 36), que deu o nome de              es-limite da existncia humana, isto , entre
instncias C. (das cruzes que se erigiam nas en-          as situaes a que o homem no pode fugir
cruzilhadas para indicar a separao das estra-           (PM., II, pp. 246 ss.).
CULTURA                                               225                                       CULTURA


     CULTURA (in. Culture, fr. Culture, ai. Kul-         gundo lugar, o homem s podia realizar-se
 tur, it. Cultura)./Esse termo tem dois significa-       como tal na vida em comunidade, na polis- a Re-
dos bsicos. No primeiro e mais antigo, signifi-        pblica de Plato  a expresso mxima da es-
ca a formao do homem, sua melhoria e seu               treita ligao que os gregos estabeleciam entre a
refinamento. F. Bacon considerava a C. nesse             formao dos indivduos e a vida da comunida-
sentido como "a gergica do esprito" {De                de; e a afirmao de Aristteles de que o ho-
 augm. scient., VII, 1), esclarecendo assim a ori-       mem  por natureza um animal poltico tem o
gem metafrica desse termo. No segundo signi-           mesmo significado. Mas num e noutro aspecto,
ficado, indica o produto dessa formao, ou             a natureza humana de que se fala no  um
seja, o conjunto dos modos de viver e de pen-           dado, um fato, uma realidade emprica ou mate-
sar cultivados, civilizados, polidos, que tam-          rial j existente, independentemente do esforo
bm costumam ser indicados pelo nome de ci-             de realizao que  a cultura. S existe como
vlzao (v.). A passagem do primeiro para o           fim ou termo do processo de formao cultural;
segundo significado ocorreu no sc. XVIII por           , em outros termos, uma realidade superior s
obra da filosofia iluminista, o que se nota bem         coisas ou aos fatos,  uma idia no sentido
neste trecho de Kant: "Num ser racional, cultu-         platnico, um ideal, uma forma que os ho-
ra  a capacidade de escolher seus fins em ge-          mens devem procurar realizar e encarnar em
ral (e portanto de ser livre).; Por isso, s a C.       si mesmos.
pode ser o fim ltimo que a~natureza tem con-               Esse conceito clssico de C. como processo
dies de apresentar ao gnero humano" (Crt.           de formao especificamente humana eviden-
do Juzo,  83)- Como "fim", a C.  produto             temente exclua qualquer atividade infra-hu-
(mais que produzir-se) da "gergica da alma".            mana ou ultra-humana. Exclua, em primeiro
No mesmo sentido, Hegel dizia: "Um povo faz             lugar, as atividades utilitrias: artes, ofcios e,
progressos em si, tem seu desenvolvimento e             em geral, o trabalho manual que se indicava
seu crepsculo. O que se encontra aqui, sobre-          depreciativamente pelo termo banausia (v.),
tudo,  a categoria da C, de sua exagerao e           que cabia ao escravo ("instrumento animado")
de sua degenerao: para um povo, esta ltima           porque no distinguia o homem do animal,
 produto ou fonte de runa" (Pbil. der Ges-            que tambm age no sentido de obter seu ali-
 chichte, ed. Lasson, p. 43).                           mento e satisfazer s outras necessidades. Ex-
    1. No significado referente  formao da           clua tambm qualquer atividade ultra-huma-
pessoa humana individual, essa palavra cor-              na, que no estivesse voltada para a realizao
responde ainda hoje ao que os gregos chama-             do homem no mundo, mas para um destino
vam paidia e que os latinos, na poca de               ultraterreno. Pelo primeiro aspecto, o ideal
Ccero e Varro, indicavam com a palavra hu-            clssico de C. foi aristocrtico; pelo segundo,
 manitas: educao do homem como tal, ou                foi naturalista-, por ambos, foi contemplativo
seja, educao devida s "boas artes" peculiares        e viu na "vida terica", inteiramente dedicada
do homem, que o distinguem de todos os                   busca da sabedoria superior, o fim ltimo da
outros animais (AULO GLIO, Noct. Att., XIII,           cultura. Na Idade Mdia esse conceito foi par-
 17). As boas artes eram a poesia, a eloqncia,        cialmente conservado e modificado: manteve-
a filosofia etc, s quais se atribua valor essen-      se o carter aristocrtico e contemplativo, mas
 cial para aquilo que o homem  e deve ser, por-        transformou-se radicalmente seu carter natu-
tanto para a capacidade de formar o homem               ralista. As artes do Trvo (gramtica, retrica,
verdadeiro, o homem na sua forma genuna e              dialtica) e do Quadrvio (aritmtica, geome-
 perfeita. Para os gregos, a C. nesse sentido foi a     tria, astronomia, msica), que ainda eram cha-
 busca e a realizao que o homem faz de si, isto       madas de "liberais" (segundo o conceito grego,
 , da verdadeira natureza humana. E teve dois          as nicas dignas dos homens livres), consti-
 caracteres constitutivos: Ia estreita conexo com      tuam a base e o prembulo da C. medieval,
 a filosofia, na qual se incluam todas as formas       cujo objetivo foi, porm, a preparao do ho-
 da investigao; 2e estreita conexo com a vida        mem para os deveres religiosos e para a vida
 social. Em primeiro lugar, para os gregos, o ho-       ultraterrena. O instrumento principal dessa pre-
 mem s podia realizar-se como tal atravs do           parao foi a filosofia,  qual se atribuiu a fun-
 conhecimento de si mesmo e de seu mundo,               o especfica de tornar acessveis ao homem
 portanto mediante a busca da verdade em todos          as verdades reveladas pela religio, de faz-lo
 os domnios que lhe dissessem respeito. Em se-         compreender essas verdades na medida de
CULTURA                                               226                                          CULTURA

suas possibilidades intelectuais, de fornecer-lhe           prprio status metafsico e moral, diferente dos
as armas para a defesa dessas verdades contra               outros homens.
as tentaes da heresia e da descrena. Assim,                  A primeira tentativa de eliminar o carter
a filosofia acabou exercendo funo eminente                aristocrtico da C. coube ao Iluminismo. Este
na C. medieval, mas bem diferente da que                    teve dois aspectos essenciais: em primeiro lu-
exercera no mundo grego: deixou de ser o                    gar, procurou estender a crtica racional a todos
complexo de investigaes autnomas que o                   os objetos possveis de investigao e conside-
homem organiza e disciplina com os instru-                  rou, portanto, como erro ou preconceito tudo o
mentos naturais de que dispe (sentidos e inte-             que no passasse pelo crivo dessa crtica. Em
ligncia) para ter valor subalterno e instrumental          segundo lugar, props-se a difuso mxima da
(Philosophia ancilla theologiae), para a com-               C, que deixou de ser considerada patrimnio
preenso, a defesa e, sempre que possvel, a                dos doutos para ser instrumento de renovao
demonstrao da verdade religiosa. S mais                  da vida social e individual. A Enciclopdia fran-
tarde, a partir do sc. XII, comeou a rei-                 cesa foi a maior expresso dessa segunda ten-
vindicar, ao lado dessa funo instrumental, um             dncia, mas foi somente um dos meios pelos
campo prprio e especfico de investigao, se              quais o Iluminismo procurou difundir a C. en-
bem que, tambm este, submetido s regras da                tre todos os homens e torn-la universal. Esse
f. Contudo permaneceram na Idade Mdia                     ideal de universalidade da C. permaneceu, ca-
o carter aristocrtico e o carter contem-                 racterizando, at nossos dias, um aspecto
plativo, tpicos do ideal clssico: este ltimo,            essencial da C, no obstante a poderosa in-
alis, acentuou-se e estendeu-se como prepara-              fluncia do Romantismo; este, por seu carter
o e prenuncio da contemplao beatfica da                reacionrio e antiliberal, procurou de vrias for-
alma que se alou  ptria celeste. O Renas-                mas retornar ao conceito aristocrtico de cul-
cimento, na tentativa de redescobrir o significa-           tura. Entretanto, domnio da C. alargava-se:
do genuno do ideal clssico de C, quis res-                as novas disciplinas cientficas que se forma-
tabelecer seu carter naturalista: concebeu a               vam e adquiriam autonomia mostravam-se ipso
C. como formao do homem em seu mundo,                     fado como novos elementos constitutivos do
como a formao que permite ao homem viver                  ideal de cultura, elementos indispensveis para
da forma melhor e mais perfeita no mundo que                a formao de uma vida humana equilibrada e
 seu. A prpria religio, segundo esse ponto               rica. "Ser culto" j no significava dominar ape-
de vista,  elemento integrante da C. no por-              nas as artes liberais da tradio clssica, mas
que prepare para outra vida, mas porque ensi-               conhecer em certa medida a matemtica, a fsi-
na a viver bem nesta. O Renascimento, alm                  ca, as cincias naturais, alm das disciplinas
disso, modificou o carter contemplativo do                 histricas e filolgicas que haviam formado.
ideal clssico, insistindo no carter ativo da "sa-         O conceito de C. comeou ento a significar
bedoria" humana. Pico delia Mirandola e Carlos              "enciclopedismo", isto , conhecimento geral
Bovillo insistiram no conceito de que  atravs             e sumrio de todos os domnios do saber.
da sabedoria que o homem chega  realizao
completa e torna-se um microcosmo no qual o                    A partir do incio deste sculo percebeu-
prprio macrocosmo encontra a perfeio. "O                 se a insuficincia desse ideal enciclopedista,
sapiente", diz Bovillo {De sapiente, 8), "con-              que, no entanto, era fruto da multiplicao e da
quista-se, toma posse e continua na posse de si             especifio dos campos de pesquisa e de
mesmo, ao passo que o insipiente permanece                  suas respectivas disciplinas. Em 1908, Croce
devedor da natureza, oprimido pelo homem                    lamentava que nos cinqenta anos anteriores
substancial [isto , pelo homem que  simples               houvesse prevalecido "o tipo do homem que
coisa ou natureza] e jamais pertence a si mes-              tem no poucos conhecimentos, mas no tem o
mo." Desse ponto de vista, a vida ativa j no             conhecimento, que fica limitado a pequeno cr-
estranha ao ideal de C; com a vida ativa, o tra-            culo de fatos ou se perde em meio a fatos dos
balho passa a fazer parte desse ideal, sendo,               mais variados tipos, e que, assim limitado ou
pois, resgatado de seu carter puramente utili-             perdido, continua privado de uma diretriz ou,
trio e servil. O Renascimento, contudo, mante-             como se diz, de uma f". Croce porm, achava
ve o carter aristocrtico da C: ela  "sapin-             que esse mal no era devido  especificao
cia" e, como tal, reservada a poucos.- o sapiente           das disciplinas, mas ao predomnio do positi-
destaca-se do restante da humanidade, tem seu               vismo, que privilegiara a C. "naturalista e mate-
                                                            mtica". E propunha como soluo uma C. que
CULTURA                                                227                                           CULTURA

fosse "harmoniosa cooperao entre Filosofia e               os dias os inconvenientes gravssimos da edu-
Histria, entendidas no seu significado am-                  cao incompleta e especializada, sobretudo
plo e verdadeiro". Mas essa soluo era suge-                nos pases onde, por fortes exigncias sociais,
rida pelo esprito polmico antpositivsta e                ela foi levada mais a fundo. O primeiro incon-
pela orientao tpica da filosofia crociana, na             veniente  o permanente desequilbrio da per-
qual a C. cientfica e o prprio esprito cientfi-          sonalidade, que pende para uma nica direo
co no encontram lugar. Na realidade, o pro-                 e fica centrada em torno de poucos interesses,
blema da C. agravou-se ainda mais nos cin-                   tornando-se incapaz de enfrentar situaes ou
qenta anos transcorridos aps o diagnstico                 problemas que se situem um pouco alm des-
de Croce. No s o processo de multiplicao e               ses interesses. Esse desequilbrio, j gravssimo
especificao das correntes de pesquisa e,                   do ponto de vista individual (pode produzir,
portanto, das disciplinas (naturalistas e no-               como de fato muitas vezes produz, em certos
naturalistas) ampliou-se at assumir propor-                 limites, diversas formas de neuroses), tambm
es gigantescas, como tambm a crescente                     grave do ponto de vista social, pois impede
industrializao do mundo contemporneo tor-                 ou limita muito a comunicao entre os ho-
na indispensvel a formao de competncias                  mens, fecha cada um em seu prprio mundo
especficas, possveis apenas por meio de trei-              restrito, sem interesse nem tolerncia por aque-
namento especializado, que confina o indiv-                 les que esto fora dele. O segundo inconve-
duo num campo extremamente restrito de ati-                  niente  que ele no d armas para enfrentar
vidade e estudo. O que a sociedade mais exige                as exigncias que nascem da prpria especia-
 de cada um dos seus membros  o desempe-                    lizao das disciplinas. De fato, quanto mais a
 nho na tarefa ou na funo que lhe foi confia-              fundo  levada essa especializao, tanto mais
 da; e o desempenho no depende tanto da                     numerosos se tornam os problemas que sur-
 posse de uma C. geral desinteressada quanto                 gem nos pontos de contato ou de interseco
 de conhecimentos especficos e aprofunda-                   entre disciplinas diferentes; e esses problemas
 dos em algum ramo particularssimo de deter-                no podem ser enfrentados no domnio de uma
 minada disciplina. Ora, essa situao, determina-           s delas e apenas com os instrumentos que ela
 da por condies histrico-sociais cuja mudan-              oferece. Em outros termos, a prpria especia-
 a ou cujo fim no  possvel prever, no po-               lizao, que  por certo uma exigncia impres-
 de ser ignorada ou minimizada por aqueles                   cindvel do mundo moderno, requer, em certa
 que se ocupam do problema da cultura. Por-                  altura de seu desenvolvimento, encontros e co-
 tanto,  perfeitamente intil erigir-se, com esp-          laborao entre disciplinas especializadas di-
 rito proftico, contra ela, contrapondo-lhe o               versas: encontros e colaborao que vo mui-
 ideal clssico de C. em sua pureza e perfeio,             to alm das competncias especficas e exigem
 como formao desinteressada do homem aris-                 capacidade de comparao e de sntese, que a
 tocrtico para a vida contemplativa. Por outro              especializao no oferece.
 lado, tambm seria intil ignorar ou minimizar
                                                                 Certamente, esses inconvenientes e proble-
 os defeitos gravssimos de uma C. reduzida a
                                                             mas no tm a mesma gravidade em todos os
 puro treinamento tcnico em determinado
                                                             pases. Em geral, pode-se dizer que onde o de-
 campo e restringida ao uso profissional de co-
                                                             senvolvimento industrial e econmico foi mais
 nhecimentos utilitrios.  bvio que dificilmen-
                                                             rpido esses problemas so mais agudos. Mas
 te uma coisa dessas poderia ser chamada de
                                                             mesmo onde isso no ocorreu, esses problemas
  "C", porque esta palavra designa, como se viu,
                                                             acabam surgindo mais cedo ou mais tarde (pre-
 um ideal de formao humana completa, a rea-
                                                             visivelmente, mais cedo do que tarde) com a
  lizao do homem em sua forma autntica ou
                                                             mesma gravidade, no momento em que, devi-
  em sua natureza humana. Competncias espe-
                                                             do s crescentes exigncias do desenvolvimen-
  cficas, habilidades particulares, destreza e pre-
                                                             to cientfico e industrial, a especializao alcan-
  ciso no uso dos instrumentos, materiais ou
                                                             ar um estgio adiantado. De qualquer forma,
  conceituais, so coisas teis, alis indispens-
                                                             o problema fundamental da C. contempornea
  veis,  vida do homem em sociedade e da so-
                                                              sempre o mesmo: conciliar as exigncias da
  ciedade no seu conjunto, mas no podem, nem
                                                             especializao (inseparveis do desenvolvi-
  de longe, substituir a C. entendida como for-
                                                             mento maduro das atividades culturais) com a
  mao equilibrada e harmnica do homem
                                                             exigncia de formao humana, total ou, pelo
   como tal. E, de fato, a experincia revela todos
                                                             menos, suficientemente equilibrada.  para
CULTURA                                               228                                           CULTURA

tentar solucionar esse problema que hoje se                 rios o enfoque histrico-humanstico do passa-
discute a noo de "C. geral", que deveria                  do e o esprito crtico e experimental da pes-
acompanhar todos os graus e formas de educa-                quisa cientfica, assim como  necessrio o uso
o, at a mais especializada. Mas est claro               disciplinado e rigoroso das abstraes, prprio
que a soluo do problema ser apenas apa-                  da filosofia, alm da capacidade de formar pro-
rente enquanto no se tiver uma idia clara do              jetos de vida a longo prazo, que tambm 
que  "C. geral". No se trata, obviamente, de              fruto do esprito filosfico. Desse ponto de vista,
contrapor um grupo de disciplinas a outro e                 o problema da C. geral no se coloca como
de impor, p. ex., as disciplinas histricas ou              formulao de um curriculum de estudos ni-
humansticas como "C. geral", em oposio                  co para todos, que compreenda disciplinas de
especializao das disciplinas "naturalistas". Isso         informao genrica, mas como o problema
seria imprprio principalmente porque mesmo                 de encontrar, para cada grupo ou classe de
as disciplinas chamadas "humanistas" no esca-              atividades especializadas, e a partir delas, um
pam  premncia da especializao e tambm                  projeto de trabalho e de estudo coordenado
exigem treinamento especializado para serem                 com essas disciplinas ou que as complemente,
entendidas e proficuamente cultivadas. Tam-                 que enriquea os horizontes do indivduo e
bm  bvio que a C. geral no pode ser cons-               mantenha ou reintegre o equilbrio de sua per-
tituda por noes vazias e superficiais, que               sonalidade.
no suscitariam interesse e, portanto, no con-
tribuiriam para enriquecer a personalidade                      2. No segundo significado, essa palavra hoje
do indivduo e sua capacidade de comunicar-se                especialmente usada por socilogos e antro-
com os outros. Contudo,  possvel indicar de               plogos para indicar o conjunto dos modos de
maneira aproximada as caractersticas de uma                vida criados, adquiridos e transmitidos de uma
C. geral que, como a clssica paidia, esteja               gerao para a outra, entre os membros de de-
preocupada com a formao total e autntica                 terminada sociedade. Nesse significado, C. no
do homem. Em primeiro lugar,  uma C. "aber-                 a formao do indivduo em sua humanida-
ta", ou seja, no fecha o homem num mbito                  de, nem sua maturidade espiritual, mas  a
estreito e circunscrito de idias e crenas. O              formao coletiva e annima de um grupo so-
homem "culto" , em primeiro lugar, o homem                 cial nas instituies que o definem. Nesse sen-
de esprito aberto e livre, que sabe entender as            tido, esse termo talvez tenha sido usado pela
idias e as crenas alheias ainda que no possa             primeira vez por Spengler, que com ele enten-
aceit-las ou reconhecer sua validade. Em se-               deu "conscincia pessoal de uma nao intei-
gundo lugar, e por conseqncia, uma C. viva                ra"; conscincia que, em sua totalidade, ele
e formativa deve estar aberta para o futuro,                entendeu organismo vivo; e, como todos os
mas ancorada no passado. Nesse sentido, o ho-               organismos, nasce, cresce e morre. "Cada C,
mem culto  aquele que no se desarvora dian-               cada surgimento, cada progresso e cada decl-
te do novo nem foge dele, mas sabe consider-               nio, cada um de seus graus e de seus perodos
lo em seu justo valor, vinculando-o ao passado              internamente necessrios, tem durao deter-
e elucidando suas semelhanas e disparidades.               minada, sempre igual, sempre recorrente com
Em terceiro lugar, a C. se funda na possibilida-            forma de smbolo" (Untergang des Abendlan-
de de abstraes operacionais, isto , na capa-             des, I, p. 147). Do conceito da C. assim entendi-
cidade de efetuar escolhas ou abstraes que                da, Spengler distinguia o conceito de civiliza-
permitam confrontos, avaliaes globais e, por-             o, que  o aperfeioamento e o fim de uma
tanto, orientaes de natureza relativamente                C, a realizao e, portanto, o esgotamento de
estvel. Em outros termos: no h C. sem as                 suas possibilidades constitutivas. "A civiliza-
idias que comumente chamamos "idias ge-                   o", diz Spengler, " o destino inevitvel da
rais", mas estas no devem nem podem ser                    cultura. Nela se atinge o pice a partir do qual
impostas ou aceitas, arbitrria ou passivamen-              podem ser resolvidos os problemas ltimos e
te, pelo homem culto na forma de ideologias                 mais difceis da morfologia histrica. As civili-
institucionalizadas; devem poder formar-se de               zaes so os estados extremos e mais refina-
modo autnomo, sendo continuamente co-                      dos aos quais pode chegar uma espcie huma-
mensuradas com as situaes reais.  claro                  na superior. So um fim: so o devindo que
que, para a formao de uma C. com essas ca-                sucede ao devir, a morte que sucede  vida, a
ractersticas formais, so igualmente necess-              cristalizao que sucede  evoluo. So um
CULTURA                                               229                        CURSO DAS NAES


 termo irrevogvel ao qual se chega por neces-           Science ofMan in the World Crisis, 1945). Para
 sidade interna" (Ibid., Intr.,  12).                   Coon,  "a soma total das coisas que as pessoas
     Essas observaes, cuja validade  compro-          fazem como resultado do fato de terem sido
 metida pela falacidade da analogia entre orga-          assim ensinadas" (TheStoryo/Man, 1954). Para
 nismo humano e grupo humano, sugerida a                 Linton,  "um grupo organizado de respostas
 Spengler por seu biologismo explcito, s tive-         aprendidas, caractersticas de determinada so-
 ram sucesso entre os representantes do pro-             ciedade" (The Tree of Culture, 1955). O carter
 fetismo contemporneo. Mostraram, porm, a              global (mas nem por isso sistemtico) de uma
 utilidade de um termo como C. para indicar o            C, na medida em que corresponde s necessi-
 conjunto dos modos cie vida de um grupo hu-             dades fundamentais de um grupo humano, a
 mano determinado, sem referncia ao sistema             diversidade dos modos como as vrias C. cor-
 de valores para os quais esto orientados esses         respondem a essas necessidades e o carter de
 modos de vida. C, em outras palavras,  um              aprendizado ou transmisso da C, todos esses
 termo com que se pode designar tanto a civili-          so traos caractersticos expressos por essas
 zao mais progressista quanto as formas de             definies e que se repetem em quase todas
 vida social mais rsticas e primitivas. Nesse sig-      as definies que hoje podem ser considera-
 nificado neutro, esse termo  empregado por             das vlidas.
 filsofos, socilogos e antroplogos contempo-             CURIOSIDADE (ai. Neugierde). Juntamente
 rneos. Tem ainda a vantagem de no privile-           com a tagarelice e o equvoco, , segundo
 giar um modo de vida em relao a outro na             Heidegger, uma das caractersticas essenciais
descrio de um todo cultural. De fato, para            da existncia cotidiana: caracteriza-se pelo de-
 um antroplogo, um modo rstico de cozer um            sejo contnuo e sempre renovado de ver. A C.
alimento  um produto cultural tanto quanto             nada tem a ver com a admirao de quem
uma sonata de Beethoven. As muitas definies           inicia a busca nem com a perplexidade de
de C. hoje em dia s fazem dar expresses               quem no compreende. Caracteriza-se pela im-
diversas a esses pontos bsicos. Segundo Mali-          permanncia no mundo circundante e pela
nowski, a C.  "um composto integral de insti-          disperso em possibilidades sempre novas,
tuies parcialmente autnomas e coorde-                pelo que a curiosidade nunca est parada (Sein
nadas" que, em seu conjunto, tende a satisfazer         und Zeit,  36).
toda a amplitude de necessidades fundamen-                  CURSO DAS NAES. Esse  o nome dado
tais, instrumentais e integrativas do grupo so-         por Vio  "constante uniformidade" demons-
cial (A Scientific Theory of Culture, 1944). Se-        trada, apesar da variedade dos costumes, pela
gundo Kluckhohn e Kelly, a C.  "um sistema             histria dos diversos povos; a histria dos po-
histrico de projetos de vida explcitos e impl-       vos pode ser dividida nas "trs idades que, se-
citos que tendem a ser compartilhados por to-           gundo os egpcios, haviam antes transcorrido
dos os membros de um grupo ou por membros               em seu mundo: dos deuses, dos heris e dos
especialmente designados" (R. LINTON, The               homens" (Scienza nuova, IV) (v. RETORNOS).
                                               D

   D. 1. Na lgica medieval, todos os silo-         (embora ele no lhes d esse nome) as condi-
gismos indicados por palavras mnemnicas            es da percepo, do conhecimento racional
que comeam com D so redutveis ao terceiro        e do conhecimento sensorial; estas limitam a
modo da primeira figura (Darii). Cf. PEDRO HIS-     extenso do conhecimento, que acaba sendo
PANO, Summ. log., 4.20.                             menor do que o das idias (Ibid., IV, III, 6).
   2. No algoritmo de Lukasiewicz, indica a         Para Kant, o D.  a presena do objeto na intui-
no-conjuno (cf. CHURCH, Introduction to Ma-      o sensvel (Crt. R. Pura,  1): presena que
thematical Logic, n. 91).                           torna a intuio uma faculdade passiva, no
   DABITIS. Palavra mnemnica usada pelos           criadora, como poderia ser a intuio intelec-
escolsticos para indicar o stimo modo da pri-     tual de Deus (Ibid., IV,  8). Como  bvio, nes-
meira figura do silogismo, mais precisamente o      se sentido o D.  eliminado das filosofias que
que consiste em uma premissa universal afir-        negam o carter condicionado e limitado do
mativa, uma premissa particular afirmativa e        conhecimento humano e o transformam em
uma concluso particular afirmativa, como p.        atividade criadora. Assim, Fichte de certo modo
ex.: "Todo animal  substncia; alguns homens       contrape o conceito de posio ao conceito
so animais: logo, algumas substncias so ho-      de D.: "Fonte da realidade  o Eu. S atravs do
mens" (PEDRO HISPANO, Summ. log., 4.08).            Eu e com ele  D. o conceito da realidade. Mas
   DADO (in. Given; fr. Donn, ai. Gegebeti; it.    o Eu  porque se pe e pe-se porque . Por-
Dato). Em geral, o ponto de partida ou a base       tanto, pr-se e ser so uma e a mesma coisa'1
de uma indagao qualquer, o elemento, o an-        (Wissenschaftslehre, 1794,  4, C). Por outro
tecedente, a situao da qual se parte ou que       lado, no  s o idealismo romntico que elimi-
serve de respaldo para formular um problema,        na a noo e a funo do dado. O prprio neo-
fazer uma inferncia, aventar uma hiptese. O       criticismo, que interpreta a doutrina de Kant
D. tem, portanto, carter funcional: o que se       como idealismo gnosiolgico, nega a funo
assume como D. para certo tipo ou ordem de          do dado. Diz Cohen: "O pensamento no  sn-
indagao pode ser, por sua vez, tomado como        tese, mas produo, e o princpio do pensa-
problema para outro tipo ou ordem de pes-           mento no  um D., de algum modo indepen-
quisa.                                              dente dele, mas  a origem (Ursprung). A
   A palavra moderna tem provavelmente ori-         lgica do conhecimento puro  uma lgica da
gem matemtica ("um segmento D.", "um n-           origem" (Logik der reinen Erkenntnis, 1902, p.
mero D.", etc). Na filosofia moderna, a exis-       36). E, para Natorp, o D. no est no incio do
tncia de D. ltimos, irredutveis, foi utilizada   processo do conhecimento, como a sua matria
como a existncia de um limite ao conheci-          bruta, mas no fim do processo como determi-
mento, ou seja, de uma condio que ao mes-         nao final. Considera-se como D. o objeto que
mo tempo restringe e garante a validade do          se conseguiu determinar completamente (Phi-
prprio conhecimento. Foi desse modo que            losophie, 1911, p. 60).
Locke utilizou as idias: sem idias no  poss-       Na filosofia contempornea, interessada em
vel o conhecimento, que  percepo de uma          estabelecer as condies limitativas do conhe-
relao entre as prprias idias (Ensaio, IV, 3,    cimento, a noo de D. volta a ter seus direitos.
1). Para ele, alm das idias, tambm so ciadas    O espiritualismo francs, de Maine de Biran a
DADO-A-SI-MESMO ou AUTOPRESENTAAO 231                                                          DATISI

Bergson, considerou o D. como um privilgio da         o objeto  dado de modo claro e visual: "Para
experincia interior, isto , da conscincia. O        cada essncia, assim como para cada momen-
Ensaio sobre os dados imediatos da conscin-           to individual a ela correspondente, h uma
cia, de Bergson (1889), apresenta-se como a ten-       proximidade absoluta (por assim dizer) em que
tativa de rastrear o D. originrio da conscincia      o seu dar-se, em relao a uma srie de graus
em sua pureza, libertando-o das superestruturas        de clareza,  absoluta, ou seja,  pura autopre-
intelectuais. Tal D. originrio , para Bergson, a     sentao" (ibid.,  67). Em outros termos, a
duraod\ conscincia, ou seja, a vida da cons-       essncia tornou-se to transparente na repre-
cincia como autocriao e liberdade. Para gran-       sentao que no h mais nenhum anteparo
de parte da filosofia contempornea, o D. ,           entre ela e ela mesma.
como para Bergson, um D. da conscincia, que               DARAPTI. Palavra mnemnica usada pelos
s pode ser descoberto e reconhecido na busca          escolsticos para indicar o primeiro dos seis mo-
da prpria interioridade. Para Husserl, porm, o       dos do silogismo de terceira figura, mais precisa-
D. assume significado mais geral. Segundo ele.         mente o que consiste em uma premissa universal
qualquer procedimento rigoroso, seja ele cient-       afirmativa, uma premissa universal afirmativa e
fico ou filosfico, tem o dever de voltar-se para o    uma concluso particular afirmativa, como no
"dar-se originrio" das coisas e fazer as coisas fa-   exemplo: "Todo homem  substncia; todo ho-
lar. "Julgar as coisas racional ou cientificamente",   mem  animal: logo, alguns animais so substn-
diz ele, "significa voltar-se para elas, remontar      cias" (PEDRO HISPANO, Summ. log., 4. 14).
dos discursos e das opinies s prprias coisas,           DARII. Palavra mnemnica usada pelos
interrog-las em seu dar-se (Selbstgegebenheit) e      escolsticos para indicar o terceiro dos nove
eliminar todos os precondeitos alheios a elas"         modos do silogismo de primeira figura, mais
 (Ideen, I,  19). A pesquisa fenomenolgica, da       precisamente o que consiste em uma premissa
forma como  concebida por Husserl, consiste           universal afirmativa, uma premissa particular
em pr-se na condio em que as coisas se do,         afirmativa e uma concluso particular afirmati-
em que se revelam na sua essncia. Dewey en-           va, como no exemplo: "Todo homem  animal;
tende o dado como situao total de onde so           alguns seres capazes de rir so homens: lo-
 extrados os elementos para as solues de um         go, alguns seres capazes de rir so animais"
 problema. "O que  D., no sentido estrito da pa-      (PEDRO HISPANO, Summ. log., 4.07).
lavra,  o campo ou a situao total. O D., no             DARWINISMOUn. Darwinism, fr. Darwinis-
 sentido de singular, seja objeto ou qualidade,  o    me. ai. Danvinismus; it. Darwinismo). Doutri-
 aspecto, o momento ou o elemento especial da          na da evoluo biolgica, segundo os funda-
 presente situao real. e  abstrado desta a fim     mentos enunciados por Darwin: Ia existncia
 de localizar e identificar seus traos problemti-    de pequenas variaes orgnicas, que se veri-
 cos, com referncia  indagao que se deve           ficariam nos seres vivos sob a influncia das
 efetuar naquele momento e naquele lugar. Para         condies ambientais, das quais algumas (pela
 ser mais exato, o D. singular  mais uma assun-       lei da probabilidade) seriam biologicamente
 o do que um D." (Logic, cap. VII; trad. it., p.     vantajosas; 2- seleo natural, graas  qual so-
 181). O uso filosfico estabelece, portanto, dois     breviveriam, na luta pela vida, os indivduos
 conceitos diferentes da noo de D.: Ia o D.  o      nos quais se manifestassem as variaes org-
 ponto de partida da anlise, isto , a situao de    nicas favorveis (Origem das espcies, 1859).
 que se parte para resolver um problema ou as          Tambm so partes integrantes do D. a hipte-
 assunes ou os antecedentes de uma inferncia        se de que o homem descende de animais infe-
 ou de um discurso qualquer; 2- o D.  o ponto         riores (Descendncia do homem, 1871) e o
 de chegada da busca porque  o que se obtm           agnostcismo diante dos problemas metafsicos
 quando se retiram do campo de indagao pre-
 conceitos, opinies ou superestruturas falsifica-     (V. AGNOSTCISMO; EVOLUO).
 doras, permitindo que se mostre e manifeste a             DATISI. Palavra mnemnica usada pelos
 realidade enquanto tal. O primeiro sentido foi        escolsticos para indicar o quarto dos seis
 assumido por Locke, Kant e Dewey; o segundo           modos do silogismo de terceira figura, mais
 sentido, por Natorp, Bergson e Husserl.               precisamente o que consiste em uma pre-
                                                       missa universal afirmativa, uma premissa parti-
   DADO-A-SI-MESMO ou AUTOPRESENTA-                    cular afirmativa e uma concluso particular
AO (ai. Selbstgegebenheit). Assim chamou              afirmativa, como no exemplo: "Todo homem
Husserl (Ideen, I,  67) a representao em que         substncia; alguns homens so animais:
 DEBITO                                              232                                       DEDUO

 logo, alguns animais so substncia" (PEDRO            portanto, um ato antecipatrio e projetante, no
 HISPANO, Summ. log., 4.14).                            qual o futuro  de certo modo determinado.
     DBITO (in. Debt- fr. Dette, ai. Schuld; it.       Esses caracteres so elucidados por Heidegger,
  Debito). Segundo Kant, o D. originrio  o pe-        para quem a D.  "o projeto e a determinao
 cado original ou mal radical: o homem, por ter         clara que, cada vez, abrem as possibilidades
  comeado com o mal, contraiu um D. que j             efetivas". Mas, para Heidegger, h uma s D.
  no lhe cabe liqidar e que  intransmissvel         autntica: a que orienta, no para as possibili-
  por ser a mais pessoal de todas as obrigaes         dades da existncia cotidiana (que, em ltima
  (Religion, II, 2 C). Heidegger tirou essa noo       anlise, so mpossibilidades), mas para a pos-
  da esfera moral e estudou-a na esfera onto-           sibilidade prpria e certa da existncia, isto ,
  lgica. Considerou o "estar em D." como uma           a possibilidade da morte. Essa D. autntica no
  das manifestaes do "estar em falta" (Schuld          seno "o tcito e angustiante autoprojetar-se
  significa tanto culpa quanto D.). Nesse sentido,      sobre o mais prprio ser culpado"; ou ainda
  estar em D.  uma das formas da coexistncia          "aquilo de que o cuidado se acusa e, enquanto
  "no quadro das ocupaes, providenciando,             cuidado, a possvel autenticidade de si mesmo"
 produzindo, etc. Outros modos dessa ocupa-             (Sein und Zeit,  60). Isso significa que a D.
 o so subtrair, plagiar, defraudar, tomar, rou-     autntica coincide com a compreenso da exis-
bar, isto , no satisfazer o direito de posse de      tncia humana como possibilidade da morte,
algum". Mas essas so apenas manifestaes            isto , como impossibilidade (v. EXISTENCIALISMO;
de uma culpabilidade essencial e originria da         POSSIBILIDADE).
existncia, que  a de no ser seu prprio fun-           2. Na lgica contempornea, um problema
damento, de no ter em si o ser, mas de incluir        de D.  o problema de encontrar um proce-
o nada como sua prpria determinao. So              dimento efetivo ou algoritmo (isto , um pro-
manifestaes dessa culpabilidade ontolgica a         cedimento de D) graas ao qual se possa de-
culpa e o D. (Sein und Zeit,  58).                    terminar, para uma frmula qualquer de
    DECADNCIA (ai. das Verfaller). Estado            dado sistema, se essa frmula  um teorema
de queda da existncia humana no nvel da              ou no, ou seja, se pode ser provada ou no
banalidade cotidiana, segundo Heidegger. Isso,         (cf. CHURCH, Introduction to Mathematical Lo-
porm, no supe um estado original superior           gic,  15).
nem  um estado negativo e provisrio que                  DECLINAO(gr. Kai). No latim, clinamen,
possa ser um dia eliminado. O estado de D.            desvio dos tomos da queda retilnea, admitido
aquele em que a existncia se alheia de si,            por Epicuro para possibilitar o choque entre os
esconde de si mesma sua possibilidade prpria          tomos, a partir do qual os corpos so gerados.
(que  a da morte) e entrega-se ao modo de ser         Com efeito, os tomos que, no vcuo, se movem
impessoal que  caracterizado pela tagarelice,         todos com a mesma velocidade nunca se encon-
pela curiosidade e pelo equvoco (Sein und             trariam sem o clinamen (EPICURO, Ep. a Herod.,
Zeit,  38X                                            61; CCERO, Defin., 1,6,18; LUCRCIO, De rer. nat,
   DECISO (gr. mpoapeai; in. Decision, fr. D-      II, 252). Gassendi, que, no sc. XVI, retomou a
cision, ai. Entscheidung ou Entschlossenheit; it.      fsica epicurista, negou o desvio dos tomos.
Decision). 1. Esse termo corresponde ao que               DEDUO (gr. <n)O"yiaM.; lat. Deductio, in.
Aristteles e os escolsticos chamavam de es-          Deduction; fr. Deduction; ai. Deduction, it.
colha, ou seja, o momento conclusivo da deli-          Deduzione). Relao pela qual uma concluso
berao no qual se adere a uma das alternati-          deriva de uma ou mais premissas. Na histria
vas possveis. Aristteles definiu a escolha           da filosofia, essa relao foi interpretada e fun-
como "uma apetio deliberada referente a coisas       damentada de vrias manieras. Podem-se dis-
que dependem de ns" (Et. nic, III, 5, 1113 a          tinguir trs interpretaes principais: Ia a que a
10); em sentido determinista, Spinoza identifi-        considera fundada na essncia necessria ou
cou a D. com o desejo ou "determinao do              substncia dos objetos a que se referem as
corpo", que pode ser deduzida por meio das             proposies; 2a a que a considera fundada na
leis do movimento e do repouso {Et., III, 2,           evidncia sensvel que tais objetos apresentam;
scol.). Mas, livre ou determinada, a deciso           3a a que nega que essa relao tenha um nico
 constantemente entendida pelos filsofos             fundamento e a considera decorrente de regras
como o ato de discriminao dos possveis ou           cujo uso pode ser objeto de acordo. A interpre-
de adeso a uma das alternativas possveis. ,         tao tradicional de D. como "o fato de o parti-
DEDUO                                              233                                          DEDUO

cular derivar do universal" ou como "um racio-             contemplar a totalidade da coisa, no a parte,
cnio que vai do universal ao particular", etc,            p. ex., no o que se segue "de alguns homens",
refere-se apenas  primeira dessas interpreta-             isto , da essncia ou substncia "homem"
es e por isso  restrita demais para poder               como resulta da definio. E  por isso que
abranger todas as alternativas a que essa noo            Aristteles introduz uma limitao importante-,
deu origem.                                                o silogismo deve ter premissas universais
     Ia A definio aristotlica de silogismo              (Ibid., I, 27, 43 b 14). A estrutura substancial da
coincide com a definio geral de deduo.                 realidade, tal como  esclarecida na metafsica,
Diz Aristteles: "O silogismo  um raciocnio              , portanto, o fundamento da teoria aristotlica
em que, postas algumas coisas, seguem-se ne-               da deduo. As caractersticas fundamentais da
cessariamente algumas outras, pelo simples                 teoria aristotlica da deduo so as seguintes:
fato de aquelas existirem. Quando digo 'pelo               d) multiplicidade das premissas derivadas da
simples fato de aquelas existirem', pretendo di-           funo indispensvel do termo mdio; b) uni-
zer que delas deriva alguma coisa, e, por outro            versalidade das premissas. Ambas essas carac-
lado, quando digo 'delas deriva alguma coisa',             tersticas dependem do fundamento substancial
pretendo dizer que no  preciso acrescentar               da relao dedutiva. Com efeito: Ia o termo
nada de exterior para que a D. se siga necessa-            mdio  indispensvel porque a atribuio de
riamente" (An.pr., I, 1, 24 b 17 ss.). Definido            um predicado a uma coisa s pode ser feita
nesses termos, o silogismo nada mais  que a               com referncia  substncia da prpria coisa, e
derivao de uma proposio de outra, tendo,               s em virtude dessa referncia podem ser de-
pois, o significado generalssimo que ainda                terminadas a qualidade (afirmao ou nega-
hoje se atribui  palavra deduo. Mas Aris-               o), a quantidade (universal ou particular) e a
tteles acrescenta que o silogismo perfeito  a            modalidade (essencial ou acidental) da atribui-
D. perfeita, aquela na qual as premissas con-              o deduzida. 2a A universalidade das premis-
tm tudo o que  necessrio  D. da concluso              sas deriva do fato de elas deverem referir-se ao
(Ibid, 24 b 23). Aristteles faz a distino entre         objeto em sua totalidade, ou seja,  substncia
D. e demonstrao e entre D. e induo. A D.               ou  essncia necessria do objeto. Essa teoria
se distingue da demonstrao porque a de-                  da D. dominou a filosofia e a lgica antiga, me-
monstrao  uma D. particular (Ibid., 25 b 26),           dieval e moderna (salvo os reflexos da concep-
mais precisamente a D. que tem "premissas                  o estica de que falaremos em seguida), e,
verdadeiras, primeiras, imediatas, mais conhe-             como identifica a D. com o silogismo, pode ser
 cidas do que a concluso, anteriores a ela e              estudada com este ltimo termo.
 causas dela" (An.post, I, 2, 71 b 18 ss.). E dis-             2- Pode-se presumir que,  medida que os
 tingue-se de induo porque esta se contra-               pressupostos substancialistas usados por Aris-
 pe quela por sua estrutura esquemtica (An.             tteles como fundamentos da teoria da D. fos-
pr, II, 23, 68 b 30 ss.). Como fundamento da               sem perdendo prestgio, o mesmo aconteceria
 relao entre as premissas e a concluso, est            com as caractersticas da sua teoria, quais se-
 a relao entre os trs termos do silogismo, que          jam, a multiplicidade e a universalidade das
 Aristteles exprime com o verbo vnpxziv                  premissas. E  exatamente isso o que ocorre na
 (inesse = inerir): o significado deste  expli-           lgica dos esticos, que, diferentemente de
 citado por Aristteles, ao determinar o modo              Aristteles, so sensistas. Os esticos dividiam
 como  possvel formular silogismos e adquirir            os raciocnios em demonstrativos ou apod-
 "a capacidade de produzi-los". A esse propsi-            ticos, que concluem por algo de novo, e no
 to, ele diz que, em primeiro lugar,  necessrio          demonstrativos ou anapodticos (v. ANAPOD-
 considerar o prprio objeto como tal e sua defi-          Tico), que no concluem por nada de novo.
 nio, bem como as caractersticas que lhe so            Mas privilegiavam estes ltimos porque "no
 prprias; depois,  preciso considerar as no-             tm necessidade de demonstrao para serem
 es que se seguem do objeto, as noes de                encontrados, mas so demonstrativos na medi-
 que o objeto se segue e, enfim, as que ele ex-            da em que concluem tambm os outros racioc-
 clui. Em outros termos,  preciso contemplar a            nios" (SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp., II, 140,156; Av.
  essncia ou substncia do objeto, que  preci-           dogm., II, 224 ss.). Ora, nos raciocnios ana-
 samente expressa pela definio, e tudo o que             podticos (do tipo "Se  dia, h luz;  dia, logo,
  ela implica ou pelo que  implicada. Aristteles         h luz"), a conexo que constitui a premissa
  ainda se expressa dizendo que  necessrio               "Se  dia, h luz"  clara por si mesmo e no
DEDUO                                               234                                        DEDUO

precisa de demonstrao; e  clara, entenda-se,             no se baseiam na substncia dos objetos a que
com base em critrios esticos, pela presena               se refere a D. nem na evidncia sensvel de tais
do fato que ela exprime para os sentidos ou,                objetos, mas so escolhidas arbitrria mas
pelo menos, pela sua possvel presena. Nessa               oportunamente.  esse o ponto de vista intro-
teoria, portanto, muda-se o fundamento da re-               duzido por Carnap na obra A viso lgica do
lao dedutiva, que j no , como para Arist-             mundo (928). Essa tese admite "a possibilida-
teles, a estrutura substancial dos objetos, mas o           de de livre escolha das regras de D.", isto , o
fato sensvel ou sensivelmente verificvel, ou              carter convencional de toda a lgica. Diz
seja, a evidncia da representao catalptica              Carnap: "A lgica, ou seja, as regras da D. (na
(DiG. L, VII, 45). Portanto, na teoria estica             nossa terminologia, as regras sintticas de
no h vestgios das caractersticas que tornam             transformao) podem ser escolhidas arbitraria-
a teoria da D. de Aristteles uma teoria do                 mente e so convencionais sempre que assu-
silogismo, ou seja, da necessria multiplicidade            midas como base para a construo do sistema
universalidade das premissas. O fato de os                  lingstico e sempre que a interpretao do
esticos haverem assumido como fundamen-                    sistema for imposta num segundo momento"
tais os raciocnios anapoditicos e considerado              (Foundations of Logic and Mathematics, 1939,
que os raciocnios demonstrativos so redut-                12).  claro que, desse ponto de vista, a rela-
veis a eles significa que o fundamento explcito            o em virtude da qual uma proposio se se-
de sua teoria da D.  o dado sensvel. O ponto              gue de outra no  dada de uma vez por todas,
de vista do fato substituiu o ponto de vista                mas pode ser determinada de vrias formas
racional da teoria aristotlica. Mas, apesar da             por regras ou convenes oportunas. Carnap
impossibilidade de conciliar esses dois pontos              distinguiu duas formas diferentes de D.: deri-
de vista, a teoria estica no nos chegou atra-             vao, que  mais restrita, e conseqencialdade,
vs da histria em toda a sua pureza, mas con-              que  mais ampla. A derivao  uma srie
fundida e unida com a teoria de Aristteles. Os             finita de enunciados na qual cada passo  de-
peripatticos (Teofrasto, Eudemo) acolheram                 finido sem que se defina a.relao "derivvel",
ecleticamente a doutrina estica da D., pondo-a             que  definida pela cadeia inteira das deriva-
ao lado da aristotlica. Assim, falaram paralela-           es. Numa srie de conseqncias, at mesmo
mente em "silogismo categrico" e "silogismo                cada passo da srie (isto , a relao "conse-
hipottico", e sob essa denominao, desco-                 qncia direta")  indefinido. A derivao  a
nhecida de Aristteles, entenderam os silogis-              relao de D. usada em lgica e corresponde
mos fundados nos raciocnios anapoditicos dos               ao que comumente se entende quando se diz
esticos. Bocio, que nos transmite esses fatos             "este enunciado se segue quele" (TheLogical
(De syllogismus hypotheticis, I, P. L, 64B col.             Syntax of Language,  14).
83D, transcreveu da mesma forma, ou seja,
                                                               As vrias formas de implicao (v.) reco-
paralelamente e no mesmo plano, as duas dou-
                                                            nhecidas pela lgica contempornea podem
trinas dspares. Na idade moderna, Locke ba-
                                                            ser consideradas outros tantos modos poss-
seou a D. na relao de concordncia ou de
                                                            veis de relao de dedutibilidade. Alguns lgi-
discordncia entre as idias, percebida imedia-
                                                            cos restringem hoje a relao de dedutibilidade
tamente na experincia: "Inferir significa ape-
                                                            a certo tipo de implicao, mais precisamente
nas deduzir, em virtude de uma proposio
                                                             relao "estrita" ou semntica:  o que faz, p.
posta como verdadeira, uma outra como ver-
                                                            ex., Lewis (Knowledge and Valuation, 1946, p.
dadeira; ou seja, ver ou supor que exista uma
                                                            212). Outros, ao contrrio, julgam que, para es-
ligao entre as duas idias da proposio
                                                            tabelecer a dedutibilidade, basta a implicao
inferida" (Ensaio, IV, 17, 4). Stuart Mill inter-
                                                            material cujo conceito foi esclarecido em Prin-
pretou a D. de modo anlogo, como a aplica-
                                                            cipia mathematica-.  o que faz Russell (Intr. to
o de regras gerais obtidas por induo a ca-
                                                            Mathematical Phii, cap. XIV; trad. it., p. 173).
 sos particulares. E admitiu, por isso, a possi-
                                                            Na verdade, a menos que no se assuma ex-
bilidade de raciocinar mesmo sem o uso de
                                                            plicitamente como fundamento da D. a subs-
 proposies gerais (Logic, II, 3, 5 ss.).
                                                            tncia das coisas ou sua evidncia sensvel,
   3a A terceira fase, ou melhor, a terceira alter-         segundo a Ia ou a 2a das alternativas considera-
nativa que, ao longo da histria, se apresentou             das, todo e qualquer tipo de implicao pode
 teoria da D.,  a convencionalista, formulada             ser considerado relao dedutiva. Do ponto de
pela lgica contempornea. As regras da D.                  vista da convencionalidade da lgica, o con-
    DEDUO TRANSCENDENTAL                               235                                        DEFINIO

    ceito de D. no pode sofrer restries e portan-           pequeno nmero de regras assumidas como
    to deve estender-se a todas as formas que a re-            premissas, e que sempre pode assumir co-
    lao de derivao ou de conseqencialidade                mo regra qualquer proposio deduzida da-
    de uma proposio em relao a outra possa                 quelas premissas e em conformidade com as
    assumir.                                                   regras que elas prescrevem (v. AXIOMATIZAO;
      DEDUO TRANSCENDENTAL (in. Trans-                       CONVENCIONALISMO). MTODO: entende-se hoje
    cendental deduction; fr. Dduction transcen-               por esse termo o mtodo que consiste em pro-
    dentais, ai. Transzendentale Deduction; it.                curar a confirmao de uma hiptese atravs
    Deduzione trascendental). Kant extraiu o ter-             da verificao das conseqncias previsveis
    mo D. da linguagem jurdica, na qual significa a           nessa mesma hiptese. Reichenbach mostrou
    demonstrao da legitimidade da pretenso                  o carter complexo desse mtodo e sua irreduti-
    que se formula. Nesse sentido, falou da "D. da             bilidade  deduo propriamene dita. Admitir
    diviso de um sistema" como "prova de sua                  que existe uma relao D. entre uma hiptese
    completitude e da sua continuidade" (Met. der              e os dados observados significaria admitir que
    Sitten, I, intr.,  III, nota). Analogamente, para         a implicao az> b nos autoriza a considera a
    a justificao do uso dos conceitos puros, ou              como provvel quando b  dado (Theory of
    categorias, Kant julgou indispensvel uma D.               Probability, 1949,  84).
    (que, justamente por referir-se a conceitos pu-               DEFINIO (gr. po, puju ; lat. Definitio;
    ros, chamou de transcendental [v.]), que tivesse           in. Definiton; fr. Dfintion; ai. Definition; it.
    por fim demonstrar "o modo pelo qual os con-               Definizione). Declarao da essncia. Distin-
    ceitos a priori podem referir-se a objetos", e             guem-se diversos conceitos de D., que corres-
    que, por isso, se distinguisse da "D. emprica",           pondem aos diversos conceitos de essncia
    que mostra "de que modo um conceito                       (v.), mais precisamente: 1Q conceito de D.
    adquirido por meio da experincia e da refle-              como declarao da essncia substancial; 2
    xo sobre ela". Desse modo, a D. emprica diz              conceito de D. como declarao da essncia
    respeito  posse de fato de um conceito, e a D.            nominal; 3Q conceito de D. como declarao da
     transcendental, ao seu uso legtimo (Crt. R.             essncia-significado.
     Pura,  13). A D. transcendental consiste em                  Ia A doutrina aristotlica da D. diz respeito 
     mostrar como os objetos da experincia no                essncia substancial. Aristteles afirma explici-
      seriam tais, ou seja, no seriam dados como              tamente que a D. concerne  essncia e  subs-
      objetos  experincia, se no fossem pensados            tncia (An.post, II, 3, 90 b 30). E os vrios sig-
      segundo as categorias; e que o ato ou a funo           nificados de D. que ele enumera referem-se
      pela qual podem ser originariamente pensados             todos  essncia substancial. "A D. pode ser,
     nas categorias  o "eu penso", ou percepo               em um primeiro sentido, a declarao no
    pura(v.). Diferente da D. transcendental  a D.            demonstrvel da essncia; num segundo senti-
     metafsica, que Fichte entendeu como demons-              do, pode ser a deduo da essncia e diferir da
    trao sistemtica de todas as proposies da              demonstrao s pela disposio das palavras;
    filosofia. "Todo o demonstrvel deve ser de-               num terceiro sentido, pode ser a concluso da
    monstrado, todas as proposies devem ser                  demonstrao da essncia" (Ibid., II, 10, 94 a
    deduzidas, com exceo do princpio primeiro,              11). No primeiro significado, a D. refere-se a
    supremo e fundamental, que  o Eu = Eu"                    objetos que so substncias, como por ex. ao ho-
    (Wissenschaftslehre, 1794,  7). Hegel atribua            mem; no segundo e no terceiro caso, refere-se
    o mrito dessa exigncia a Fichte: " filosofia            a objetos que no so substncias, mas fatos,
    fichteana cabe o profundo mrito de haver                  como p. ex. o trovo, dos quais dizer essncia
    advertido para que as determinaes do pensa-              significa dizer causa (Ibid., 94 a 1 ss.). Em todos
    mento devem ser demonstradas em sua necessida-             os casos, a D. declara a essncia substancial de
    de, que so essencialmente dedutveis" {Ene,               seu objeto. Diz Aristteles: "A essncia substan-
    5 42). Nesse sentido, a D.  a demonstrao da             cial pertence s coisas das quais h definio.
    necessidade de uma determinao; e toda a                  E no h D. quando h um termo que se refere
    doutrina de Hegel se organiza em conformida-               a alguma coisa: nesse caso todas as palavras
    de com essa exigncia.                                     seriam definies porque as palavras indicam
      DEDUTIVO (in. Deductive, fr. Dductif, ai.               sempre alguma coisa e at mesmo 'Ilada' seria
    Deductiv-, it. Deduttivo). SISTEMA: indica-se hoje         uma definio. Mas s h D. quando o termo
    com esse nome o discurso que se inicia com                 significa algo de primrio, o que ocorre quan-



1
DEFINIO                                             236                                        DEFINIO

do se fala de coisas que no podem ser pre-                 nhuma D. do homem, a no ser para exem-
dicados de outras coisas" (Met., VII, 4, 1030 a             plificar; nesse caso a D. dada como exemplo
6).  essa a D. constituda pelo gnero prximo             deve ser natural ou metafsica" (Ibid., I, 26).
e pela diferena especfica: entendendo-se por              Esse ponto de vista foi adotado pela lgica pos-
gnero prximo o predicado essencial comum                  terior. Jungius distinguia trs espcies de D.:
a coisas que diferem em espcie (p. ex., o                  nominal, essencial e cientfica, que correspon-
predicado animal comum a todas as espcies                  dem aos trs significados do termo estabeleci-
animais) e por diferena o que distingue uma                dos por Aristteles (Lgica, 1638, IV, II, 6-8; II,
espcie da outra (Top., I, 8, 103 b 15).                    15). Leibniz reivindicava, contra Locke, a distin-
    Esse conceito aristotlico de D. tornou-se              o entre D. nominal e D. real, dizendo que "a
clssico, ficando sistematicamente ligado ao                essncia do ouro  aquilo que o constitui e lhe
conceito de essncia substancial e de ser como              confere as qualidades sensveis que lhe permi-
necessidade. Spinoza s fazia expressar isso                tem ser reconhecido como tal e tornam nomi-
com outras palavras quando dizia: "A verdadei-              nal a sua definio, ao passo que teramos a D.
                                                            real e causai se pudssemos explicar sua estru-
ra D. de uma coisa qualquer no implica nem                 tura ou constituio interior" (Nouv. ess., III, 3,
exprime nada alm da natureza da coisa defi-                19). Mas anteriormente (num ensaio de 1684),
nida" (Et., I, 8, schol. II). Depois de Aristteles         distinguira entre "D. nominais, que contm
e por influncia da Lgica estica, o conceito              apenas as notas para discernir uma coisa das
de D. tornou-se muito mais extenso e flexvel;              outras, e D. reais, das quais consta que a coisa
Bocio podia enumerar 15 espcies de D. (v.                  possvel" (Op., ed. Erdmann, p. 80). Wolff va-
adiante). A D. substancial, todavia, continuou              leu-se dessas observaes para dizer que "a D.
sendo vista como a nica verdadeira e autnti-              da qual no resulta que a coisa definida  pos-
ca, como se afigurou ao prprio Bocio (De                  svel se diz nominal; e aquela de que resulta
diffinitione, em P. L, 64S, col. 898). Esse foi o           ser possvel a coisa definida, se diz real" (Log.,
ponto de vista compartilhado por todos os                   S 191); e, para dividir as D. nominais em essen-
escolsticos e at pelos nominalistas ou termi-             ciais e acidentais, acomodava a seu modo --
nistas que, porm, insistiram na importncia da             como dizia explicitamente -- as noes esco-
definio nominal. Ockham dizia: "A D. tem                  lsticas (Ibid.,  192). Kant, por sua vez, enten-
dois significados, j que uma  a D. que expri-             dia que definir era "expor originariamente o
me o que  o objeto (quid rei) e a outra  a D.             conceito explcito de uma coisa dentro de seus
que exprime o que  o nome (quid nominis).                  limites", entendendo por explcito a. clareza e a
A D. que exprime o que  o objeto pode ser                  suficincia das notas, por limites a preciso e
assumida em dois sentidos: num sentido lato,                por originariamente o carter primitivo da de-
caso em que compreende a D. propriamente                    terminao, que no deve precisar de demons-
dita, e a D. descritiva, e em sentido estrito, caso         trao (Crt. R. Pura, Doutrina do mtodo, I,
em que  um discurso breve que exprime a                    se. I,  1).
natureza toda da coisa e nada contm que seja
extrnseco a essa coisa" (Summa log., I, 26).                   2- A possibilidade da D. nominal foi admiti-
Por outro lado, a D. que exprime o que  o                  da por Aristteles como via subordinada e pre-
nome  "um discurso que declara explicita-                  paratria  D. real: "E como a D.  a declarao
mente a que se refere implicitamente com um                 da essncia haver tambm a declarao daqui-
enunciado" (Ibid., I, 26). Ockham exclui da                 lo que o nome significa ou outra declarao
lgica as D. reais porque "o lgico no trata de            nominal: p. ex., o que significa o nome tringu-
coisas que no sejam signos" (Ibid., I, 26), mas            lo" (An.post, II, 10, 93 b 28). A distino entre
no nega a legitimidade dessas D. fora da lgi-             D. real e D. nominal no despertava o interesse
                                                            da lgica estica, que no atribua  D. a tarefa
ca. Por outro lado, parece-lhe um embuste                   de declarar a essncia substancial, portanto no
(trufaticuni) admitir que de um mesmo objeto                se encontra nos escritores de inspirao predo-
(p. ex., do homem) haja uma D. lgica, uma D.               minantemente estica, como Ccero (Top., 5,
natural, uma D. metafsica. "O lgico, que no              26 ss.) e Bocio (De diffinitione, P. L, 64a col.
trata do homem porque no trata das coisas                  901-02). Pedro Hispano tambm a ignora. 
que no so signos, no tem de definir o ho-                utilizada pelos lgicos terministas medievais por-
mem, mas s ensinar de que modo as outras                   que lhes fornece o modo de definir o objeto
cincias, que tratam do homem, devem defini-                especfico da lgica, como cincia dos signos
lo. Por isso, o lgico no deve consignar ne-               (v. os trechos de Ockham acima citados).
DEFINIO                                             237                                         DEFINIO

    Mas s se tem uma teoria da D. propriamen-              entre o rei e o tirano; 6a D. por metfora, como
te dita, como declarao da essncia nominal,               p. ex. quando se diz que a juventude  a flor da
quando a essncia nominal  considerada a                   idade; 7a a D. por privao do contrrio, como
nica possvel, podendo-se, portanto, dizer o               p. ex. quando se diz que o bem  o que no 
mesmo de sua D. Nesse sentido Hobbes dizia:                 mal; 8a D. por hipotipose, que  a elaborada
"A D. no pode ser outra coisa seno a expli-               pela fantasia; 9a D. por comparao com um
cao de um nome mediante um discurso".                     tipo, como quando se diz que o animal  como
Quando o nome se refere a um conceito com-                  o homem; 10a D. por falta de plenitude no mes-
posto, a D.  a resoluo do nome em suas par-              mo gnero, como quando se diz que o plano 
tes mais gerais, de sorte que se pode dizer que             aquilo a que falta a profundidade; IP D.
a D.  "a proposio cujo predicado  reso-                 laudativa; 12a D. por analogia; p. ex.: "o ho-
lutivo do sujeito onde isso  possvel; e onde              mem  um microcosmo"; 13a D. relativa; p. ex.:
no  possvel, exemplificativo deste" (De                  "pai  quem tem filho"; 14a D. causai, p. ex.:
corp., 6,  14). Do mesmo modo, Locke diz que               "dia  o sol sobre a terra" (De diffinitione, P. L.,
"D. outra coisa no  seno dar a conhecer o                54a, col. 901-07). A disparidade dessa relao
significado de uma palavra mediante vrios                  de Bocio  tal que qualquer resposta  per-
outros termos no sinnimos" (Ensaio, III, 4,               gunta "o qu?" pode ser considerada definio.
6); e julga que "o melhor modo de dar uma D.                Desse ponto de vista, a herana da teoria
 enumerar as idias simples que se combinam                estica da D.  o conceito moderno de que D.
no significado do termo definido" (Ibid., III, 3,            a declarao do significado de um termo, ou
10). Nessa tradio, Stuart Mill afirmava que D.            seja, do uso que o termo pode terem dado cam-
" uma proposio declaratria do significado               po de investigao. Desse ponto de vista, no
de uma palavra" (Logic, I, 8, 1). Expresses                existe uma essncia privilegiada do termo
semelhantes recorrem em filsofos e lgicos                 (nem nominal nem real), mas existem possibili-
mesmo recentes, que no admitem a doutrina                  dades diferentes de defini-lo para fins diferen-
da substncia e se inclinam para um ponto de                tes; todas as possibilidades podem, embora em
vista nominalista. O mais das vezes, todavia, a             graus diferentes, ser declaradas essenciais aos
teoria da D. nominal apia-se no pressuposto                seus fins. Assim, pode-se considerar D. qual-
de que um nome no tem nem pode ter mais                    quer restrio ou limitao do uso de um termo
de uma D.; esse pressuposto distingue a teo-                em determinado contexto. E em todos os ca-
ria da D. daquela que chamamos teoria da es-                sos a D. supe o contexto, ou, como disse M.
sncia-significado.                                         Black, um conjunto de pressuposies que
    3B Pode-se dizer que esta ltima teoria foi             constituem um prembulo  D., de sorte que
proposta pelos esticos. Crisipo afirmava que a             sua forma  "Toda vez que as condies fo-
D.  uma resposta (OTooi, DIG. L, VII, 1,              rem assim e assim, o termo ser usado assim
60), entendendo com isso que qualquer res-                  e assim" (cf. M. BLACK, Problems of Analyss,
posta dada  pergunta "o qu?'' pode ser consi-             1954, p. 34). Segundo a natureza do prem-
derada uma D. da coisa. Foi provavelmente                   bulo, a D. poder ter carter diferente. Se o
com base nessa noo extremamente genera-                   prembulo faz referncia a linguagens artifi-
lizada da D. que comearam a surgir numero-                 ciais (como a lgica e a matemtica), a D. ser
sas espcies de D., como em Ccero (Top., 5, 26             simplesmente uma conveno (proposta ou
ss.) e, na sua esteira, em Bocio. Este enume-              aceita) sobre o uso da palavra em tal lingua-
 rou 15 espcies de D., privilegiando, como se              gem (D. estipulativd). Se o prembulo fizer
 disse, a primeira, que  a D. substancial. As              referncia a linguagens no artificiais ou s em
outras 14 espcies so as seguintes: Ia D.                  parte artificiais (como a linguagem comum e
 nocional, que d certa concepo do objeto,                as das cincias empricas), a D. ser a declara-
 dizendo mais o que o objeto faz do que o que               o do uso corrente do termo em questo (D.
 ; 2a D. qualitativa, que se vale de uma quali-            lexical) ou a proposta ou aceitao de uma
 dade do objeto; 3a a D. descritiva, feita com              modificao oportuna desse uso (redefinio)
 caracteres que ilustram a natureza de uma coi-             (cf. R. ROBINSON, Definition, 1954). A essa ter-
 sa;  peculiar ao orador; 4a D. verbal, que con-           ceira espcie pertencem as D. dos termos conti-
 siste em esclarecer uma palavra com outra pa-              dos neste dicionrio, que utilizam, simplificam
 lavra; 5a D. por diferena, que consiste em                ou retificam os usos de um termo em lingua-
 esclarecer a diferena entre dois objetos, p. ex.,         gem filosfica, cientfica ou corrente.
DEIDADE                                               238                                    DELIBERAO

    DEIDADE (lat. Deitas; in. Deity, fr. Dit, ai.         John Toland, Mathew Tindal, Anthony Collins,
Gotthe; it. Deita). Em geral, a essncia ou na-            Anthony Shaftesbury. A obra principal do D.
tureza divina; e esse  o sentido encontrado em             ingls foi Cristianismo sem mistrios (1696) de
S. Agostinho (De Trin., IV, 20) e S. Toms (S.              John Toland (1670-1722). O D. difundiu-se fora
 Th., I, q. 39, a. 5 ad 6fi). No sc. XII, porm,           da Inglaterra como elemento do Iluminismo:
Gilbert de Ia Porre identificou Deus com a D.,             so destas quase todos os iluministas franceses,
distinguindo de D., que seria a forma ou a                  alemes e italianos. Nem todos, porm, usam a
essncia comum, as trs pessoas da Trindade.                palavra D. para designar suas crenas religiosas:
Essa doutrina, que era uma espcie de trites-              Voltaire, p. ex., usa a palavra "tesmo" (Dic-
mo, porque estabelecia entre as trs pessoas                tionnairephilosophique, \1(A, art. Athe, This-
divinas e a D. a mesma relao que h entre os              te). Mas foi Kant que estabeleceu claramente a
indivduos humanos e a humanidade, foi con-                 distino.
denada por S. Bernardo no Concilio de Paris de                  As teses fundamentais do D. podem ser re-
1147 e no de Reims de 1148. Desde ento os                  capituladas assim: Ia a religio no contm e
escolsticos evitaram o termo deitas (que apa-              no pode conter nada de irracional (tomando
rece raramente) e em seu lugar usaram sim-                  por critrio de racionalidade a razo lockiana e
plesmente Deus. Esse termo foi empregado por                no a cartesiana); 2 a verdade da religio reve-
Alexander para indicar "a qualidade emprica                la-se, portanto,  prpria razo, e a revelao
proximamente superior ao esprito, em cujo                  histrica  suprflua; 3a as crenas da religio
nascimento o universo est empenhado", ou                   natural so poucas e simples: existncia de
seja, que ser a prxima realizao, e sobre                Deus, criao e governo divino do mundo, re-
cuja evoluo emergente nada se sabe (Space,                tribuio do mal e do bem em vida futura.
 Time and Deity, 1920, II, p. 346).                             Note-se, porm, que em relao ao conceito
    DEIFICAO (gr. Gcoai; lat. Deificatio; in.           de Deus nem todos os destas estavam de acor-
Deification; fr. Deification; ai. Vergoettung, it.          do. Enquanto os destas ingleses atribuem a
Deificazione). Identificao do homem com                   Deus no s o governo do mundo fsico (a ga-
Deus como termo e realizao da ascenso                    rantia da ordem do mundo), mas tambm o do
mstica. Esse termo acha-se em Dionsio Areo-               mundo moral, os destas franceses, a comear
pagita (De eccl. hyer., 2) e foi retomado por               por Voltaire, negam que Deus se ocupe dos ho-
Scotus Erigena (Dediv. nat., V, 31) e pela ms-             mens e lhe atribuem a mais radical indiferena
tica medieval. Bernardo de Claraval diz, a res-             quanto ao seu destino ( Trait de mtaphysique,
peito do xtase ou excessus mentis, na qual                 9). Todavia, a "religio natural" de Rousseau 
Deus desce  alma humana e esta se une a                    uma forma de D. mais prxima da inglesa por-
Deus: "De que modo Deus poder estar em to-                 que atribui a Deus tambm a tarefa de garantir
das as coisas, se algo de humano permanecer                 a ordem moral do mundo. Em todo caso, o que
no homem? Permanecer certamente a subs-                    h de peculiar ao D., em relao ao tesmo (v.),
tncia, mas em outra forma, com outra glria,                a negao da revelao e a reduo do con-
com outra potncia. Isto significa deificar-se"             ceito de Deus s caractersticas que lhe podem
(De dil. Deo, 11, 20). E Nicolau de Cusa: "A eli-           ser atribudas pela razo. Essa  a distino
minao de toda alteridade e diversidade, a                 estabelecida entre D. e tesmo por Kant (Crt.
resoluo de todas as coisas na Unidade, que                R. Pura, Dialtica, cap. III, se. VII) (v. DEUS).
tambm  a transfuso da Unidade em todas as                    DELIBERAO (gr. Potewt; lat. Consilium;
coisas, isso  tbeoss" (Defiliatione Dei, 67, 1).          in. Deliberation; fr. Dlibration; ai. berle-
    DESMO (in. Deism; fr. Disme, ai. Deismus; it.         gung; it. Deliberazion). Considerao das al-
Desm). Doutrina de uma religio natural ou                ternativas possveis que certa situao oferece
 racional no fundada na revelao histrica,                escolha.  o que Aristteles quer dizer ao
mas na manifestao natural da divindade  ra-              falar dos limites da D., excluindo do mbito
 zo do homem. O D.  um aspecto do Ilumi-                  dela no s o necessrio (que no pode no
 nsmo (v.), de que faz parte integrante. Mas as            ser), mas tambm o fim. Com efeito, Aristteles
 discusses em torno do D. foram iniciadas                  observa que o mdico no se pergunta se quer
 pelos chamados platnicos de Cambridge,                    ou no curar o doente, o orador no se pergun-
especialmente por Herbert de Cherbury em sua                ta se quer ou no persuadir, nem o poltico se
obra De Veritate (1624). Entre os outros destas            quer ou no instituir boa legislao. Ao contr-
 ingleses devem ser lembrados os nomes de                   rio, uma vez posto o fim, examina-se como e
DEMAGOGIA                                          239                                  DEMONSTRAO


por quais meios se poder atingi-lo; sobre               alcance de todos, ou seja, do ensinamento de
esses meios, portanto, versar a deliberao. A          que no h salvao para os homens a no ser
D. conclui-se e culmina na escolha. O objeto             na aceitao dos princpios morais, e que a
de ambas  o mesmo, salvo pelo fato de que o             essa aceitao no se ope a sensibilidade, que
objeto da escolha j est definido pelo proces-           disso acusada muitas vezes, mas certa per-
so deliberativo a que a escolha pe termo (Et.           versidade ou falsidade simbolizada pela ast-
nc, III, 3, 1112 a 21 ss.). Essas definies de         cia de Sat, graas  qual o mal entrou no mundo
Aristteles tornaram-se clssicas.                       (Ibid, II, 2).
  DEMAGOGIA. V. GOVERNO, FORMAS DE.                                            O UO ;
                                                             DEMNIO (gr.   C V lat. Daemon; in. De-
    DEMIURGO (gr. r|u.iot>py;; lat. Demiur-           mon, fr. Dmon; ai. Daemon, it. Demone). Ser di-
gus; in. Demiurge, fr. Demiurge, ai. Demiurg;            vino em geral, que no o supremo, ao qual  ha-
it. Demiurgo). O artfice do mundo. Essa pala-           bitualmente reservada a funo de mediao.
vra tem origem em Timeu, de Plato; nessa                Scrates atribua  voz que o chamava para sua
obra, a causa criadora do mundo  atribuda a            tarefa e para o que devia ou no fazer ''algo de
uma divindade artfice que cria o mundo  se-            divino" (Soa|i()viov Ti, Ap., 31 D), expresso
melhana da realidade ideal, utilizando uma              que significa simplesmente o carter divino ou
matria informe e resistente que Plato chama            transcendente do chamamento. Depois, foram
de "matriz do mundo" (Tim., 51 a). A obra                freqentemente chamadas de D. as divindades
criadora do D. (analogamente  de um arteso             inferiores ou subordinadas, que muitas vezes os
humano) no investe mas pressupe os princ-             filsofos identificaram com as admitidas pela re-
pios constitutivos da prpria natureza, que so:         ligio tradicional. J Plato admitira essas divin-
le as formas ideais eternas; 2B a matria com            dades como criadas pelo Demiurgo (Tim., 41 a).
sua necessidade; 3S o espao que no admite              Os esticos pensavam do mesmo modo (DiG.
gerao e destruio e que  a sede de tudo o            L, VII, 147). Plotino diz que um D.  uma "ima-
que  gerado (Ibid., 52 b). Para Plato o D.             gem de Deus" (Enn., VI, 7, 6) e que os D. esto
tambm  o criador das outras divindades, que            na segunda ordem, logo depois dos deuses, ao
receberam a funo de gerar os seres vivos               passo que depois deles vm os homens e os ani-
(Jbid., 41 c). A noo de D. foi retomada vrias         mais (Ibid., III, 2,11). O neoplatonismo siraco,
vezes na histria da filosofia. No sc. I,               como Plutarco, multiplica os D., considerando-
Numnio de Apamia distinguiu o D. da Inte-              os todos emanaes, mais ou menos remotas,
ligncia como um Deus que atua sobre a ma-               da divindade suprema. O cristianismo adotou
tria e forma o mundo. O mundo seria o tercei-           a seu modo a doutrina dos D., chamando de an-
ro Deus (EUSBIO, Praep. Ev., XIV, 5). No sc.           jos os bons D. e reservando o nome de D. aos
II, foi retomada pelos gnsticos: Valentino con-         anjos maus (v. ANJOS).
siderou o D. como o ltimo dos eons ou divinda-             DEMONSTRAO (in. Demonstration; fr.
des emanadas (CLEMENTE, Strom., IV, 13, 89). Na
                                                         Demonstration; ai. Demonstration; it. Di-
idade moderna a concepo do D. foi retoma-              mostrazione). O termo D. e seu conceito
da por Stuart Mill, que considerou o poder divi-         (Tiei^i, lat. demonstratio) foram introduzi-
no limitado pela qualidade da matria empre-             dos na Lgica por Aristteles (Top., I, 100 a
gada, pela substncia ou pelas foras de que se          27; An. post., I, 2 e passirr) como silogismo
compe o universo e pela incapacidade de rea-            que deduz uma concluso de princpios pri-
lizar da melhor forma os fins estabelecidos              meiros e verdadeiros ou de outras proposi-
(Three Essays on Relig., 3a ed., 1885, p. 194).          es deduzidas silogisticamente de princpios
   DEMOCRACIA. V. GOVERNO, FORMAS DE.                    primeiros e evidentes. Sua estrutura formal  a
   DEMONACO (lat. Daemoniacus; in. Demo-                do silogismo; distingue-se, porm, do silo-
niac, fr. Dmoniaque-, ai. Teuflisch; it. Demo-          gismo dialtico porque, como diro os lgicos
naco). No uso corrente, esse adjetivo faz refe-         medievais, facit scire,  demonstrativa da es-
rncia exclusivamente aos demnios maus,                 sncia das coisas atravs do conhecimento
logo significa o mesmo que diablico. Segundo            das suas "causas". Substancialmente  esse o
Kant, o diabolismo caracteriza-se pela malcia,          conceito de D. que passou para a filosofia
pela inteno de acatar como motivo das aes            moderna. Mas, enquanto do ponto de vista
o mal enquanto mal (Religion, I, 3). Quanto ao           gnosiolgico se acentuaram os caracteres de
prprio diabo, Kant v nele a personificao de          necessidade e evidncia intuitiva da D. (Des-
um ensinamento moral que era assim posto ao              cartes, Kant), do ponto de vista lgico eviden-
DEMONSTRAO POR ABSURDO                             240                                         DESCRIO

ciou-se o carter de deduo formal a partir               deve ser o ente para ser perfeito" (Psicol., Pref,
cie premissas (Descartes, Leibniz), o que dis-              19)- O pice das cincias deontolgicas seria a
tingue a D. (cujo tipo ou ideal continua sendo             tica (doutrina da justia).
a D. matemtica) de outros gneros de prova.                   DERIVAES. V. RESDUOS.
Na Lgica contempornea, o termo D. no                       DESCOBERTA (ai. Entdeckbeit). Segundo
muito usado: em geral designa uma seqncia                Heidegger, "a possibilidade do ser de todos os
de enunciados tais que cada um deles  um                  entes no dotados do carter do ser-a" [isto ,
enunciado primitivo ou ento  diretamente                 de todas as coisas do mundo] de ser procurado
derivvel de um ou mais enunciados que o                   e determinado "atravs de um processo parti-
precedem na seqncia (CARNAP, Logical Syn-                cular que o descobre partindo do ente que pela
tax of Language,  10). Durante muito tempo a              primeira vez se encontra no mundo". , segun-
D. foi considerada a prpria essncia da cin-             do Heidegger, um dos caracteres fundamentais
cia (v.).                                                  das coisas, enquanto utilizveis, e portanto, da
   DEMONSTRAO POR ABSURDO. V. AB                         mundanidade em geral (Sein und Zeit,  18).
SURDO.                                                        DESCRIO (gr. 7iOYpopi; lat. Descriptio;
    DENOMINAO (lat. Denominatio; in. De-                 in. Description; fr. Description; ai. Beschrei-
nomination; fr. Dnomination; ai. Benennung;               bung; it. Descrizione). Esse termo foi introdu-
it. Denominazione). Em relao aos denomi-                 zido pelos esticos, pois a sua noo perma-
nativos ou parnimos (v.), distinguidos por                necera estranha a Aristteles. Segundo os
Aristteles dos equvocos e dos unvocos (v.),             esticos, a D.  "um discurso que conduz  coi-
os nominalistas do sc. XIV empregaram esse                sa atravs de suas marcas" (DIG. L, VII, 1, 60).
termo para indicar a funo das "segundas                  Isso estabelece a diferea entre D. e definio,
intenes", isto , dos conceitos lgicos (como            pois enquanto esta declara a essncia, que 
"conceito", "categoria", etc.) que no se refe-            universal, a D. conduz  coisa singular, faz refe-
rem a coisas, mas servem s para denomin-                 rncia  individualidade da coisa, quilo que a
las. Diz Pedro Aurolo: "A lgica, que conside-            distingue das outras. A partir de Bocio (De
ra as intenes segundas, trata das inteleces            differentiis topicis, II, P. L, 643, col. 1187), a D.
no enquanto coisas verdadeiras, mas enquan-               comeou a ser caracterizada, em relao  defi-
to semelhanas que denominam as coisas" (In                nio, pelo uso de caracteres acidentais, muito
Sent., I, d. 23, a. 1). Nesse sentido as intenes         comum nela. Os lgicos medievais extraram
segundas so objetos s "denominativamente",               seu conceito de Dialectica (cap. 14) de Joo
do mesmo modo como se pode chamar de                       Damasceno (sc. VIII): "A D. compe-se de
"Csar" um retrato de Csar. A Lgica de Port-             acidentes, de caracteres prprios e acidentais,
Royal usou a expresso "modos externos" ou                 como p. ex.: o homem  capaz de rir, anda ere-
"D. extrnseca" para indicar os modos em que a             to e tem unhas largas. Esse  o conceito que
substncia deriva da ao de outra coisa; p. ex.:          tambm se repete em Lgica de Pedro Hispano:
ser amado, ser visto, ser desejado, etc. (ARNAULD,         "A D.  o discurso que significa o que  o ser
Logique, I, 2).                                            de uma coisa mediante caracteres acidentais"
   DENOTAO. CONOTAO.                                   (Summ. log., 5. 12). Ockham dizia no mesmo
   DEONTOLOGIA (in. Deontology, fr. Don-                  sentido: "A D.  um discurso sucinto composto
tologie, ai. Deontologie, it. Deontologid). Termo          de caracteres acidentais e prprios" (Summa
criado por Jeremy Bentham (D. ou Cincia da                log., I, 27); definio quase idntica era aceita e
Moralidade, publicao pstuma de 1834) para               difundida pela Lgica de Port-Royal (II, 16) e
designar uma cincia do "conveniente", ou seja,            por Jungius (Lgica hamburgensis, I, 1, 48).
uma moral fundada na tendncia a perseguir o               Dessa doutrina tradicional a lgica contem-
prazer e fugir da dor e que, portanto, no lance           pornea aceita s o significado geral, isto , o
mo de apelos  conscincia, ao dever etc. "A              reconhecimento do carter individualizante da
tarefa do deontlogo", diz Bentham, " ensinar             descrio. Mas choca-se com a dificuldade re-
ao homem como dirigir suas emoes de tal                  presentada pelo fato de a D. ser constituda por
modo que as subordine na medida do possvel,               proposies que tm sentido (no sentido de
a seu prprio bem-estar" (Deont., I, 2). Muito di-         Frege), conotao, mas no significado, de-
ferente desse uso  o proposto por Rosmini,                notao, que consiste na referncia a um objeto
que entendeu por "deontolgicas" as cincias               existente. Frases como "O autor da Divina
normativas, ou seja, as que indagam "como                  Comdia era italiano", "O atual rei da Frana 
DESCRITIVO                                           241                              DESENVOLVIMENTO

careca", "Pgaso era o cavalo alado capturado              contrape a persuasivo como qualificao de
por Belerofonte" no parecem fazer nenhuma                 significado fazendo-se a distino entre signifi-
referncia a qualquer objeto ou entidade, ou               cado descritivo de um signo, que consiste em
seja, no denotam nada; as duas ltimas, alis,            sua disposio a produzir conhecimento, de
descrevem objetos inexistentes, quais sejam,               significado persuasivo, que consistiria em pro-
"o atual rei da Frana" e "Pgaso". Para evitar            duzir uma resposta de natureza emotiva (cf. C.
esse inconveniente, Russell (OnDenoting, 1905,             L. STEVENSON, EthicsandLanguage, 5a ed., 1950,
agora em Logic andKnowledge, 1956, p. 39 ss.;              cap. III, especialmente, p. 59) (v. SIGNIFICADO).
Principia mathematica, I, p. 36) props in-                    DESEJO (gr. jn0"U|iia; lat. Cupiditas; in. De-
terpretar essas frases descritivas como se dis-            sire, fr. Dsir, ai. Begehren; it. Desideri). Esse
sessem: "H uma entidade x que  o autor da                termo pode ter dois significados: le geral, de
Divina Comdia e  italiano", "H uma entida-              apetite, de princpio que impele um ser vivo 
de xque agora  rei da Frana e  careca", "H             ao; para tal significado, v. APETTTF.; 2 S mais
uma entidade x que  um cavalo alado e foi                 restrito, de apetite sensvel, pelo qual correspon-
capturado por Belerofonte". Desse ponto de                 de ao grego nv0V)|a.a e ao latim cupiditas. Nesse
vista, para ser verdadeira a negao de uma                sentido, segundo Aristteles, o D.  "o apetite
das frases descritivas acima Cp. ex., "O atual rei         do que  agradvel" (De an., II, 3, 414 b 6).
da Frana no  careca") deveria significar "             Analogamente, Descartes o definiu como "a
falso que h uma entidade que agora  rei da               agitao da alma causada pelos espritos que a
Frana e  careca", o que parece nada ter a ver            dispem a querer no futuro as coisas que a ela
com o sentido da frase.                                    se afiguram convenientes" (Pass. de Vme, 
    Frege admitira que toda expresso acabada              86). Equivalente a esta  a definio de Spi-
deve pressupor a referncia a um objeto, ou                noza: "Tristeza ligada  falta da coisa que ama-
seja, um denotado, mas considerara possvel                mos" (Et., III, 36, scol). Esses significados re-
que na linguagem comum, assim como na lin-                 petem-se ao longo da histria da filosofia.
guagem matemtica, existam expresses que                      Na literatura contempornea essa palavra
tm apenas sentido e no significado, que so              assumiu alguns significados novos. Dewey de-
indeterminadas em termos de significado ( ber             finiu o D. como "atividade que procura agir no
Sinn und Bedeutung, 1892, em Aritmtica e                  sentido de romper o dique que a retm. O
lgica, p. 327), e Carnap aceitou substancial-             objeto que se apresenta no pensamento como
mente esse ponto de vista (Meaning and Ne-                 meta do D.  o objeto do ambiente que, se es-
cessity, 1957,  7-8). Quine, por outro lado,             tivesse presente, garantiria a reunificao da
aceitou a interpretao de Russel, mesmo ad-               atividade e a restaurao de sua unidade" (Hu-
mitindo que o compromisso ontolgico expresso              man Nature and Conduct, pp. 249 ss.). Hei-
pela frase "H alguma coisa que..." no faz re-            degger vinculou o D.  natureza do homem
ferncia necessria ao mundo da experincia,               como ser projetante: "O ser para as possibilida-
mas pode tambm referir-se a formas de exis-               des manifesta-se em geral como puro desejo.
tncia mental ou mtica (From a Logical Point              No D., o ser-a projeta seu ser para possibilida-
ofView, cap. I).                                           des que no somente no so captadas na ocu-
    Nesses termos, o problema da D. tem co-                pao, como tambm no se examina seria-
nexes estreitas com o da natureza do signifi-             mente nem se espera a sua realizao (Sein
 cado (v.).                                                und Zeit,  41).
  DESCRITIVO (in. Descriptive, fr. Descriptif, ai.            DESENVOLVIMENTO (in. Development; fr.
Beschreibende, it. Descrittivo). Alm do signifi-          Dveloppement; ai. Entwicklung; it. Sviluppo,
cado genrico, correspondente ao do subs-                  Svolgiment). Movimento em direo ao me-
tantivo, esse adjetivo tem dois significados               lhor. Embora essa noo tenha precedentes no
controversos, quais sejam: 1Q o de cincia D.,             conceito aristotlico de movimento (v.) como
que, a partir do sc. XVIII, foi contraposta              passagem da potncia ao ato ou explicao do
cincia explicativa e ao "esprito de sistema",            que est implcito (CCERO, Top., 9), seu signifi-
que pretendia explicar os fenmenos recor-                 cado otimista  peculiar  filosofia do sc. XIX
rendo s causas da metafsica tradicional (cf.             e est estreitamente ligado ao conceito de pro-
p. ex., D'ALEMBERT, Discoursde 1'Encyclopdie,             gresso (v.). Seu sinnimo mais prximo  evolu-
(Euvres, ed. Condorcet, p. 156-157); 2Q o da               o (v.), mas este ltimo termo  mais fre-
terminologia contempornea, em que D. se                   qentemente usado para indicar o D. biolgico
  DESESPERANA                                       242                                     DESORDEM

  ou um D. csmico, cujas razes e analogias esto      eu na v tentativa de torn-lo auto-suficiente
  no D. biolgico. Sem referncia a esse aspecto        ou destru-lo em sua natureza (A doena
  particular, esse termo foi usado por Hegel, que       mortal, 1849, esp. parte I, C). Tambm para
  o transformou numa das categorias fundamen-          Jaspers a D.  um dos aspectos fundamentais
  tais de sua filosofia e o exemplificou sobretudo      da existncia (Phil, II, 266 ss.; II, 225 ss.).
 na histria. Ao lado do carter progressista do          DESIGNADO (kit. Designatum; in. Designate).
D., Hegel destacou outro carter fundamental:         Na lgica contempornea entende-se por essa
o D. pressupe aquilo de que  D., isto , o fim      palavra o objeto qualquer, existente ou inexis-
para o qual se move e o princpio ou a causa          tente, que o signo pode denotar. O denotado,
de si mesmo. "O esprito", disse Hegel, ''que         ao contrrio,  algo de existente. Entre "desig-
tem como teatro, domnio e campo de realiza-          nao" e "denotao" estabelece-se distino
o a histria do mundo, no vagueia nas osci-        anloga, mas ambas significam a referncia de
laes extrnsecas do acaso, mas  em si              um signo ao seu objeto (cf. DEWEY, Logic, cap.
determinante absoluto... O que quer  alcanar        XVIII; trad. it., p. 473; MORRIS, Foundations of
seu prprio conceito, mas ele mesmo o obscu-          lhe Theory of Signs,  7; trad. it., p. 69) (v.
rece para si, tem orgulho e prazer nesse alhear-       SEMITICA).
se de si mesmo" (Philosophe der Geschchte,              DESIGNADOR (in. Desgnator). Termo
ed. Lasson, pp. f 31-32). Nesse sentido, o Abso-      empregado por Morris para indicar uma esp-
luto  D. "O verdadeiro  o integral. Mas o           cie de signo, mais precisamente aquela pela
integral  somente a substncia que se comple-        qual "o intrprete dispe-se a seqncias de
ta atravs de seu desenvolvimento. Do Abso-           respostas determinadas por um objeto que tem
luto deve-se dizer que  essencialmente resul-        certas caractersticas" (Signs, Language and
tado, que s no fim  o que  na verdade;             Behauior, 1946, III, 3). Carnap empregou esse
e justamente nisso consiste sua natureza, em          termo para indicar "todas as expresses s quais
ser efetividade, sujeito ou D. de si mesmo" (Ph-     se aplica uma anlise semntica do significado,
nomen. des Geistes, Pref., II, 1). O que esse         de tal modo que a classe dos D. seja mais vasta
conceito tem de novo em relao ao conceito           ou mais restrita conforme o mtodo de anlise
aristotlico do movimento  a aplicao ao            empregado" (Meaning and Necessity,  1).
mundo da histria e a extenso a todos os as-             DESMITIFIAO (ai. Entmythologisierung,
pectos da realidade. Mas o carter finalista,         fr. Dmythisation, it. Demtizzazione). Corrente
providencialista e substancialista do D. ilustra-     teolgica de Rudolf Bultmann que tende a li-
do por Hegel tem correspondncia com                  bertar a mensagem crist (ketygma) do mito
a doutrina aristotlica do movimento, que tam-        cosmolgico com que est unida no Novo Tes-
bm  finalista e providencialista, exigindo          tamento. Libertada das imagens e dos smbolos
tambm que aquilo que se desenvolve seja              do mito, a mensagem crist  um diagnstico
pressuposto pelo prprio D.: no  outro o            da existncia humana no mundo, ou seja, do
significado da superioridade do ato sobre a po-       homem existente historicamente nas ocupa-
tncia, a que  dedicado um clebre estudo de         es, na angstia, no instante de deciso en-
Aristteles {Mel, IX, 8) (cf. Aro).                   tre passado e futuro. A uma existncia assim
   DESESPERANA (in. Desperation; fr. Dses-          entendida a salvao apresenta-se como
poir, ai. Verzweiflung; it. Disperazione). Segun-     acontecimento que deve ocorrer no futuro e
do Kierkegaard,  "a doena mortal", a doena         com o qual Deus pe fim ao mundo e  sua
prpria da personalidade humana e que a tor-          histria (R. BULTMANN, Offenbarung undHeils-
na incapaz de realizar-se. Enquanto a angstia        geschehen, 1941; Geschichte und Escatologie,
se refere  relao do homem com o mundo, a           1958; Kerygma undMythos (de vrios autores),
D. refere-se  relao do homem consigo mes-          5 vols., 1948-55].
mo, em que consiste propriamente o eu. Nessa              DESORDEM (in. Disorder, fr. Dsordre, ai.
relao, se o eu quiser ser ele mesmo, pois          Unordnung; it. Disordine). Numa anlise cle-
finito, logo insuficiente a si mesmo, no chega-      bre (vol. cratr, cap. III), Bergson mostrou o ca-
r jamais ao equilbrio e ao repouso. E se no        rter e a funo positiva da noo de desor-
quiser ser ele mesmo chocar-se- tambm con-          dem. Ela no exprime a ausncia absoluta de
tra uma impossibilidade fundamental. Em um e          ordem, mas s a ausncia da ordem procurada
outro caso tropear na D., que  "viver a mor-       e a presena de uma ordem diferente (do mes-
te do eu", isto , a negao da possibilidade do      mo modo como se diz "No h versos" quando
DESSEMELHANA                                            243                                           DESTINO


se procuram versos e se encontra prosa).                       a providncia  a ordem do mundo vista pela
Bergson reduz a dois os tipos fundamentais de                  inteligncia divina e o D.  essa mesma ordem
ordem, que, substituindo-se um ao outro, le-                   desdobrada no tempo. Mas no fundo a ordem
vam a falar de D.; so eles o geomtrico e o                   do D. depende da providncia (Phil. cons., IV,
vital: "Dos fenmenos astronmicos dir-se- que                6,10). O livre-arbtrio humano subtrai-se da pro-
manifestam uma ordem admirvel, entenden-                      vidncia e do D. s porque as aes a que d
do com isso que podemos prev-los matema-                      origem se incluem, exatamente em sua liberda-
ticamente. E encontrar-se- ordem no menos                    de, na ordem do D. (Ibid., V, 6). Essa soluo
admirvel numa sinfonia de Beethoven, que                     deveria inspirar todas as solues anlogas da
genialidade, originalidade e, conseqentemen-                  Escolstica, que conserva o mesmo conceito
te, a prpria imprevisibilidade" (Ibid., 8- ed.,               de D. e de providncia (cf., p. ex., S. TOMS, S.
1911, p. 244) (v. ORDEM).                                      Th., I, q. 116, a. 2). Em sua Teodicia, Leibniz
 DESSEMELHANAgr. Uocooi; lat. Dissi-                      repropunha a mesma soluo (Thod., I,  62).
militudo; in. Dissimilitude, fr. Dissimilitude, ai.                Na filosofia do Romantismo, enquanto Scho-
Unglechheit; it. Dissimiglianz). A falta ou a                penhauer considera o D. como ao deter-
imperfeio da semelhana (v. SEMELHANTE).                     minante, no homem e na histria, da Vontade
   DESTINO (gr. LiapLivr|; lat. Fatum; in. Des-             de vida na sua natureza dilacerante e dolorosa
 tiny, fr. Destin; ai. Geschick, Schicksal; it. Desti-         (Die Welt, II, cap. 38), Hegel limita o D.  ne-
 no). Ao necessitante que a ordem do mundo                   cessidade mecnica. " potncia", diz ele,
exerce sobre cada um de seus seres singula-                    "como universalidade objetiva e violncia con-
res. Na sua formulao tradicional, esse conei-                tra o objeto, d-se o nome de D.: conceito que
to implica: Ia necessidade, quase sempre des-                  se inclui no mecanicismo porquanto o D. 
 conhecida e por isso cega, que domina cada                    chamado de cego, ou seja, sua universalidade
 indivduo do mundo enquanto parte da ordem                    objetiva no  conhecida pelo sujeito em sua
 total; 2a adaptao perfeita de cada in-                      propriedade ou particularidade especfica"
 divduo ao seu lugar, ao seu papel ou  sua                   (WissenschqftderLogik, III, II, 1, B, b; trad. it.,
funo no mundo, visto que, como engrena-                      III, p. 199). Nesse sentido, o D.  a prpria ne-
 gem da ordem total, cada ser efeito para aquilo               cessidade racional do mundo, mas enquanto
 que faz.                                                      ignorante de si mesma e, portanto, "cega". Mas
     0 conceito de D.  antiqussimo e bastante                durante esse mesmo perodo, do ponto de vis-
 difundido, porque compartilhado por todas as                  ta de necessidade "puramente racional", tanto
 filosofias que, de algum modo, admitem uma                    interpretada como dialtica, quanto como de-
 ordem necessria do mundo. Aqui s faremos                    terminismo causai, a palavra D. comeou a pa-
 aluso s que designam explicitamente essa                    recer fantstica ou mtica demais para desig-
 ordem com o termo em questo. O D.  noo                    nar essa necessidade. Foi ento abandonada e
 dominante na filosofia estica. Crisipo, Posid-              substituda por termos que exprimem a nature-
 nio, Zeno, Boeto o reconheceram como a                       za objetiva e causai da necessidade, como p.
 "causa necessria" de tudo ou a "razo" pela                  ex. necessidade, dialtica, determinismo, cau-
 qual o mundo  dirigido. Identificavam-no com                 salidade; no domnio da cincia,  regida pelas
 a providncia (DiG. L., VII, 149). Os esticos               "leis eternas e imutveis da natureza".
 latinos retomam essa noo e apontam seus re-                  Quando a palavra D. volta, em Nietzsche e
 flexos morais (SNECA, Natur. quaest., II, 36, 45;          no existencialismo alemo, tem novo significa-
 MARCO AURLIO, Memrias, IX, 15). Segundo                  do: exprime a aceitao e a volio da necessi-
  Plotino, ao D. que domina todas as coisas ex-             dade, o amorfati. Nietzsche foi o primeiro a
  teriores s escapa a alma que toma como guia              expressar esse conceito to caracterstico de
  "a razo pura e impassvel que lhe pertence de            certa tendncia da filosofia contempornea. Ele
 pleno direito", que haure em si, e no no exte-            interpreta a necessidade do devir csmico
 rior, o princpio de sua prpria ao (Enn., III,         como vontade de reafirmao: desde a eterni-
 1,9). Para Plotino, a providncia  uma s: nas           dade o mundo aceita-se e quer-se a si mesmo,
 coisas inferiores chama-se D.; nas superiores,            por isso repete-se eternamente. Mas o homem
providncia {ibid., III, 3, 5). De modo anlogo,           deve fazer ago mais que aceitar esse pensa-
para Bocio (que com a Consolao da filoso-               mento: deve ele prprio prometer-se ao anel
fia transmitia esses problemas  Escolstica lati-         dos anis: " preciso fazer o voto do retorno de
na), D. e providncia s se distinguem porque              si mesmo com o anel da eterna bno de si e
DETERMINAO                                        244                                  DETERMINAO


da eterna afirmao de si;  preciso atingir a            dotada de posio: essa passagem deriva de
vontade de querer retrospectivamente tudo                 uma D." (An. post, I, 27, 87 a 34 ss.). Essa
o que aconteceu, de querer para a frente tu-              palavra foi entendida do mesmo modo na lgi-
do o que acontecer" (Wille zurMacht, ed. 1901,           ca medieval. Pedro Hispano diz que "a D. res-
 385). Esse  o amorfati, no qual Nietzsche v           tringe o conceito daquilo a que se une, assim
a "frmula da grandeza do homem". Heidegger               como a palavra 'morto' restringe o conceito de
no fez seno exprimir o mesmo conceito ao                homem quando se diz 'homem morto'" (Summ.
falar do D. como deciso autntica do homem.              log., 7.46). Wolff demorou-se nessa noo, en-
D.  a deciso de retornar a si mesmo, de trans-          tendendo por determinado "aquilo sobre o que
mitir-se a si mesmo e de assumir a herana das            se deve afirmar alguma coisa" (Ont,  112) e
possibilidades passadas. "A repetio  a trans-          por indeterminado "aquilo sobre o que ainda
misso explcita, ou seja, o retorno a possibili-         no se pode afirmar alguma coisa, embora no
dades do ser-a que j foram" (Sen und Zeit,             se possa tampouco afirmar que alguma coisa
 74). Nesse sentido, o D.  "a historicidade             se lhe oponha" (Jbid.,  105). Alm disso, ligava
autntica": consiste em escolher o que j foi             essa noo  noo de razo suficiente, que o
escolhido, em projetar o que j foi projetado,            prprio Leibniz chamara, nesse sentido, de ra-
em reapresentar para o futuro possibilidades              zo determinante (Jbid.,  117).
que j foram apresentadas. , em outros ter-                  Spinoza expressou uma implicao impor-
mos, a vontade da repetio, o reconhecimento             tante dessa noo quando disse " Omnis deter-
e a aceitao da necessidade. Esse conceito               minatio est negatio" (Epist., 59), entendendo
volta em Jaspers, que, no entanto, expressa-o             que qualquer acrscimo de uma nova nota a
com referncia  identidade estabelecida entre            um conceito faz que esse conceito seja negado
o eu e sua situao no mundo. O D.  a aceita-            em alguns dos objetos que antes podiam ser
o dessa identidade: "Amo-o como me amo                  seus predicados. Nessa vinculao da D. com a
porque s nele estou cnscio de meu existir".             negao, Hegel insistiu em sua doutrina da dia-
Aqui tambm o D. nada mais  que a aceitao              ltica (v.). Para ele, porm, a D. ocorre por de-
e o reconhecimento da prpria natureza da                 senvolvimento interno e autnomo do conceito,
necessidade, que, para Jaspers,  a identidade do         e no por acrscimos. Diz Hegel: "Determina-
homem com sua situao (Phil, II, p. 218 ss.).            se o universal e, assim, ele  o particular. A D.
    Essa ltima noo de D. exprime bem certas             sua diferena. Assim, ele  a totalidade e o
tendncias da filosofia contempornea. Na ori-            princpio de sua diversidade, que  determina-
gem de sua longa tradio, essa noo implica-            da somente por ele mesmo" (Wissenschaft der
va: l9 uma ordem total que age sobre o indiv-            Logik, III, 1, 1, B). Na linguagem filosfica con-
duo, determinando-o; 2- o indivduo no se                tempornea essa palavra  usada predominan-
apercebe necessariamente da ordem total nem               temente no sentido tradicional, como delimita-
de sua fora necessitante: o D.  cego. O con-            o do significado. Peirce distingue assim D.
ceito contemporneo eliminou ambas as carac-              de definio: "Um sujeito  determinado em
tersticas. Para ele: ls a determinao neces-            relao a cada carter inerente a ele ou que 
sitante no  a de uma ordem (nem mesmo                   (universal e afirmativamente) predicado dele,
para Nietzsche), mas a de uma situao, a repe-           e  determinado tambm em relao aos nega-
tio; e 2S o D. no  cego porque  o reconhe-           tivos desses caracteres, no mesmo aspecto. Em
cimento e a aceitao deliberada da situao              todos os outros aspectos, o sujeito  indeter-
necessitante.                                             minado. O definido deve estar realmente defi-
    DETERMINAO (gr. 7tpo6eoi; lat. De-                nido" (Issues ofPragmaticism, 1905, em Values
terminatio; in. Determination; fr. Determi-               in a Universe of Chance, p. 210). Por outro
 nation, ai. Bestimmung ou Bestmmtheit; it.              lado, o uso desse termo em Carnap refere-se
Determinazion). Limitao da extenso de                 ao valor de verdade dos enunciados: "Um enun-
uma noo com o enriquecimento da sua in-                 ciado  logicamente determinado se o seu va-
tenso, ou o resutado dessa limitao. Aristte-          lor de verdade, que  sua extenso,  determi-
les j usava esse termo para indicar o novo               nado por regras semnticas" (Meaning and
acrscimo de notas ou caractersticas ao objeto           Necessity,  2); isso significa que um enunciado
considerado. "Falando de D., refiro-me, p. ex.,            logicamente determinado se  analtico ou
 passagem da unidade, que  substncia des-              tautolgico, e nesse caso sua verdade inde-
provida de posio, ao ponto que  substncia             pende dos fatos; mas  logicamente indeter-
DETERMINANTE, JUZO                                    245                                  DETERMINISMO


minado se  sinttico e se, portanto, sua verda-             (1755), destinada a defender a dimenso uni-
de depende dos fatos.                                        versal do princpio de causalidade, pode ser
   DETERMINANTE, JUZO. V. REFLEXIVO,                        considerada uma das primeiras defesas do D.
Juzo.                                                       (cf. especialmente Prop. IX, Confutatio du-
  DETERMINISMO (in. Determinism; fr. D-                     biorum). Mas talvez muito mais eficaz tenha
terminisme, ai. Determinismus; it. Determinis-               sido a defesa feita por Priestley no segundo vo-
mo). Esse termo relativamente recente (Kant                 lume de suas Inquiries sobre a matria e
um dos primeiros a empreg-lo em Religion, I,                sobre o esprito (1777), intitulado Doutrina da
Obs. ger., nota) compreende dois significados:               necessidade filosfica. Nessa obra, Priestley
ls ao condicionante ou necessitante de uma                 afirmava claramente que os motivos influen-
causa ou de um grupo de causas; 2- a doutrina                ciam a vontade com a mesma certeza e neces-
que reconhece a universalidade do princpio                  sidade com que a fora da gravidade age sobre
causai e portanto admite tambm a determina-                 uma pedra, e que, embora o homem freqen-
o necessria das aes humanas a partir de                 temente se censure por no ter agido de outro
seus motivos. No primeiro sentido, fala-se, p.               modo, o exame de sua conduta demonstra que
ex., de "D. das leis", "D. sociais", etc, para indi-         isso era impossvel e que ele s poderia ter agi-
car conexes de natureza causai ou condicio-                 do daquele modo {The Doctrne of Phlo-
nal. No segundo sentido, fala-se da disputa en-              sophical Necessity, 2a ed., 1782, pp. 37, 90 ss.).
tre D. e indeterminismo, entre quem admite e                 Essas so teses repetidas com freqncia na fi-
quem nega a necessitao causai no mundo                     losofia positivista do sc. XIX. O D. cientfico
em geral e, em particular, no homem. O estudo                foi formulado de modo clssico por Claude
dos problemas referentes ao Ia significado de                Bernard, em sua Introduo ao estudo da me-
D. deve ser visto nos verbetes CAUSA, CONDIO               dicina experimental (1865). "O princpio ab-
e NECESSIDADE. NO 2Q sentido, a palavra D. foi               soluto das cincias experimentais", dizia ele, "
utilizada para designar o reconhecimento e o                 um D. necessrio e consiste nas condies dos
alcance universal da necessidade causai, que                 fenmenos. Se um fenmeno natural qualquer
constitui uma ordem racional, mas no fi-                     dado, um experimentador nunca poder
nalista, e portanto no se presta a ser designa-             admitir que houve uma variao na expresso
da pelo velho nome de destino (v.). O D. vin-                do fenmeno sem que, ao mesmo tempo, te-
cula-se, por isso, ao mecanicismo, que  a ten-              nham sobrevindo condies novas em sua ma-
dncia dominante da cincia do sc. XIX, assim               nifestao. Alm disso, ele tem certeza apriori
como da filosofia correspondente a essa fase                 de que essas variaes so determinadas por
da cincia. D.  a crena na extenso universal              relaes rigorosas e matemticas. A experincia
do mecanicismo, ou seja, na extenso do me-                  mostra-nos apenas a forma dos fenmenos,
canicismo ao homem. Como Kant j viu (na                     mas a relao de um fenmeno com uma causa
nota citada), o D. autntico  na verdade um                 determinada  necessria e independente da
predeterminismo, a crena de que o motivo                    experincia,  forosamente matemtica e ab-
determinante da ao humana est no momen-                   soluta. Ns chegamos assim a ver que o prin-
to precedente, de tal modo que no est em                   cpio do criterium das cincias experimentais
poder do homem no momento em que se                          no fundo  idntico ao das cincias matemti-
efetua. O D., enquanto mecanicismo,  na                     cas porque, de um lado e de outro, esse prin-
realidade predeterminao da ao em seus                    cpio  expresso por uma relao de causalida-
antecedentes.                                                de necessria e absoluta" (Jntroduction  1'tude
                                                             de Ia mdecine exprimentale, I, 2, 7). Explici-
    A partir da segunda metade do sc. XVIII, a              tamente, Bernard estendia esse princpio tam-
polmica entre D. e indeterminismo deu-se                    bm aos seres vivos {Ibid., II, 1, 5), e as pr-
entre os filsofos da cincia, por um lado, e os             prias palavras com que se exprimia mostram,
filsofos da conscincia, por outro, parecendo               de um lado, o carter de axioma racional (mais
que a cincia no podia deixar de reconhecer a               que de exigncia emprica) que ele via no prin-
validade do princpio de causa (v. CAUSALIDADE)              cpio do "D. absoluto", e, de outro lado, o rigor
e que, por outro lado, a conscincia era teste-              com que esse princpio era aplicado ao campo
munho irrefutvel da liberdade do homem (v.                  da pesquisa experimental. Entretanto, foram
INDETERMINISMO). Uma das primeiras dissertaes              precisamente os progressos experimentais da
de Kant, Novos esclarecimentos sobre os pri-                 cincia -- em particular os da cincia experi-
meiros princpios do conhecimento metafsico
DETERMINISMO                                       246                                  DETERMINISMO


mental mais adiantada e amadurecida, a fsica            Neumann (v. CAUSALIDADE) provaram que: "As
-- que levaram a abandonar aquilo que Claude             leis de probabilidade enunciadas pela mecni-
Bernard chamava de "princpio do criterium               ca ondulatria e quntica sobre os fenmenos
experimental". Primeiro a teoria da relativa-            elementares, leis bem provadas pela experin-
de e depois a mecnica quntica puseram em               cia, no tm a forma que deveriam ter se fos-
crise a noo de causalidade necessria e, por           sem devidas  nossa ignorncia dos valores
conseguinte, a de "D. absoluto". Em 1930,                exatos de certas variveis ocultas. O nico ca-
Heisenberg, descobridor do princpio de in-              minho que ainda estava aberto ao restabe-
determinao (v.) e um dos fundadores da mo-             lecimento do D. em escala atmica parece, por-
derna fsica quntica, escrevia: "O conceito de          tanto, fechar-se diante de ns" (Physique et
universo que deriva da experincia quotidiana            Microphysique, X; trad. it., p. 209).
foi abandonado pela primeira vez na teoria da                Desse modo, o abandono da causalidade
relatividade de Einstein. Por ela, v-se que os          necessria e da doutrina do D. absoluto, que
conceitos usuais s podem ser aplicados a                transformara a causalidade necessria em prin-
acontecimentos nos quais a velocidacie de pro-           cpio universal do conhecimento cientfico, pa-
pagao da luz pode ser considerada pratica-             rece sancionado pelas maiores autoridades
mente infinita... As experincias com o mundo            cientficas do nosso tempo. Todavia, esse aban-
atmico obrigam-nos a uma renncia ainda                 dono no , automaticamente, a aceitao do
mais profunda dos conceitos at agora habi-              indeterminismo, ou seja, do reconhecimento
tuais. Com efeito, nossa descrio usual da na-          do acaso e do arbtrio absoluto nos fenmenos
tureza e, em especial, a idia de causalidade            naturais. Assim como o abandono da noo de
rigorosa nos eventos da natureza repousam na             causa coincide com o uso cada vez mais amplo         j
admisso de que  possvel observar um fen-             e consciente da noo de condio (v.), tam-         i
meno sem influenci-lo de modo perceptvel...            bm o abandono da noo de D. absoluto, pa-         i
Na fsica atmica, porm, a cada observao              ralela  primeira, coincide com a aceitao de      i
geralmente est ligada uma perturbao finita            uma forma de D. que se vai esclarecendo pa-          j
e at certo ponto incontrolvel, o que era de se         ralelamente ao esclarecimento do conceito de        [
esperar desde o princpio na fsica das menores          condio. Ao declarar inutilizvel o conceito       j
unidades existentes. Como, por outro lado,               de causa, a fsica contempornea insistiu na pos-   [
toda descrio espcio-temporal de um evento             sibilidade de previso provvel; e ao declarar,     I
fsico est ligada  observao do evento, se-           por isso mesmo, a queda do D. absoluto, tende
gue-se que a descrio espcio-temporal dos              a adotar um D. restrito ou, como diz o prprio
eventos e a lei causai clssica representam dois         De Broglie, "fraco" ou "imperfeito", fundado
aspectos causais que se excluem mutuamente               no reconhecimento de que "nem todas as pos-
nos acontecimentos fsicos" (Diephysikalischen           sibilidades so igualmente provveis" e de que
Prinzipen der Quantentheorie, 1930, IV,  3).           "todo estado de um sistema microscpico com-
Quase ao mesmo tempo, Max Planck, desco-                 porta certas tendncias que se expressam pelas
bridor do quantum de ao, escrevia que, para            diferentes probabilidades das diversas possibi-
poder salvar a hiptese do D. rigoroso, era              lidades nele contidas" (Ibd., p. 212). Em senti-
necessrio pensar num Esprito Ideal, capaz de           do anlogo, no domnio das cincias sociais,
abranger todos os processos fsicos que se de-           Gurvitch falou do D. como de uma simples
senvolvem simultaneamente e, portanto, de                "contingncia coerente" ou "coerncia contin-
predizer com certeza e em todos os detalhes              gente", que nunca  unvoca, mas sempre se
qualquer processo fsico. Naturalmente, do               caracteriza por constituir uma situao interme-
ponto de vista de um esprito desses, o princ-          diria entre os opostos do contnuo e do des-
pio de indeterminao, do fato de o homem                contnuo, do quantitativo e do qualitativo, do
precisar intervir nos processos naturais para            heterogneo e do homogneo, etc. (D-
poder observ-los, no valeria, visto ser ele,           terminismes sociaux, 1955, pp. 28 ss.). Portan-
por hiptese, independente da natureza (Der              to, a palavra D. no foi abandonada, mas so-
Kausalbegriff in der Physik, 1932, pp. 24-25).           freu uma transformao radical na linguagem
Mas essa hiptese, como  bvio, no tem ne-             cientfica e filosfica contempornea. No de-
nhum fundamento cientfico ou filosfico. De             signa mais o ideal de causalidade necessria e
Broglie, outro protagonista da fsica contempo-          de previso infalvel, mas o mtodo de cone-
rnea, afirmava que os argumentos de Von                 xo condicional e de previso provvel.
    DETERMINISMO ECONMICO                                  247                                                DEUS

       DETERMINISMO ECONMICO. V                 MATE             afirma Alexandre {Defato, 2), a existncia de
    RIALISMO DIALTICO.                                           um destino necessitante; isso significa que con-
        DEUS (gr. 0e; lat. Deus- in. God; fr. Dieu; al.         siderava o Intelecto como causa livre, portanto
     Gott; it. Dio). So duas as qualificaes funda-             criadora (v. CRIAO). Mas no se tratava certa-
    mentais que os filsofos (e no s elas) atribu-             mente de uma criao a partir do nada, assim
    ram e atribuem a D..- a de Causa e a de Bem.                  como no se tratou de criao a partir do nada
    Na primeira, D.  o princpio que torna poss-                na doutrina de Plato e de Aristteles. Para
    vel o mundo ou o ser em geral. Na segunda,                   Plato, D.  o Artfice ou Demiurgo do mundo,
    a fonte ou a garantia de tudo o que h de                     cujo poder criador  limitado (1) pelo modelo
    excelente no mundo, sobretudo no mundo hu-                    que ele imita e que  o mundo das substncias
    mano. Trata-se, como  bvio, de qualificaes                ou realidades eternas (Tim., 29 a) e (2) pela
    bastante genricas que s tm sentido preciso                 matriz material que, com sua necessidade, re-
    no mbito das filosofias que as empregam. Po-                 siste  obra inteligente do Demiurgo (Ibid., 50
    demos, por isso, distinguir as vrias concep-                 d ss.). As caractersticas da divindade platnica
    es de D. partindo dos significados especfi-                so, alm do poder superior (mas, pelos moti-
    cos que essas qualificaes adquirem; portanto:               vos acima, no ilimitado), a inteligncia e a
    ls quanto  relao de D. com o mundo, pela                   bondade. Graas a esta ltima, criao  um
    qual D.  Causa; e 2 quanto  relao de D.                  ato livre, que tem em vista a multiplicao do
    com a ordem moral, pela qual D.  Bem.                        bem (Ibid., 29 e). A doutrina de Aristteles no
    Como, ademais,  possvel conceber que da                     difere substancialmente da platnica. Sobretu-
    divindade podem participar vrios entes ou que                do nos ltimos dilogos (p. ex., Pol, 269 e),
    ela  prpria de um s ente, e como, por outro                Plato insistira no conceito de D. como primei-
    lado,  possvel admitir vrias vias de acesso do             ro motor ou "guia de todas as coisas que se
    homem a D., tambm  possvel admitir outros                  movem" e  precisamente esse conceito que se
    dois modos de distinguir as concepes de D.;                 torna ponto de partida da teologia aristotlica.
    3S quanto  relao de D. consigo mesmo, ou                   Para Aristteles, D.  o primeiro motor ao qual
    seja, com sua divindade; 4" quanto aos acessos                necessariamente se filia a cadeia dos movimen-
    possveis do homem a D. Esses quatro modos                    tos (Fs., VIII, 7; Met., XII, 6); ou a primeira
    de distinguir as concepes de D., que podem                  causa de que decorrem sries causais, inclu-
    ser encontrados ao longo da histria da filoso-               sive a das causas finais (Met., II, 2). Mas  justa-
    fia ocidental, tm a vantagem de seguir com                   mente no sentido de causa final que D.  cria-
    suficiente fidelidade as interaes histricas                dor da ordem do universo, que Aristteles
    da noo em exame, ou seja, os pontos que                     compara a uma famlia ou a um exrcito. "To-
    serviram de base para as principais disputas fi-              das as coisas esto ordenadas uma em relao
    losficas.                                                     outra, mas nem todas do mesmo modo: os
                                                                  peixes, os pssaros, as plantas tm ordens di-
      1. DEUS E O MUNDO.
                                                                  ferentes. Todavia, uma coisa no est para outra
       Concepo para a qual D. como causa  o                    como se nada tivesse a ver com outras, mas
    aspecto fundamental de D.: as formas do ates-                tudo est coordenado com um nico ser. Isso
    mo(v.) so negaes da causalidade de D. Mas                  , p. ex., o que ocorre numa casa onde os
    na histria da filosofia essa causalidade foi en-             homens livres no podem fazer o que lhes apraz,
    tendida de maneiras diferentes e segundo es-                  mas onde todas as coisas, ou pelo menos a
    sas diferenas  possvel distinguir as trs con-             maior parte delas, acontece segundo uma or-
    cepes seguintes: A) D. como criador da ordem                dem, ao passo que os escravos e os animais
    do mundo, como causa ordenadora; B) D.                        contribuem com pouco para o bem-estar co-
    como natureza do mundo, como causa neces-                     mum e fazem muito por acaso" (Ibid., XII, 10,
    sitante, C) D. como criador do mundo, como                    1075 a 12). Do mesmo modo, o bem de um
    causa criadora.                                               exrcito consiste "ao mesmo tempo em sua
       ) Deus como criador da ordem do mundo.                    ordem e em seu comandante, mas especialmen-
    Essa concepo  provavelmente a mais antiga                  te neste ltimo, pois ele no  o resultado da
    da histria da filosofia; o primeiro a enunci-la             ordem, mas  a ordem que depende dele"
    claramente foi Anaxgoras, que considerou o                   (Ibid., 1075 a 13). D., portanto,  como o co-
    Intelecto como divindade que ordena o mundo                   mandante de um exrcito ou o chefe de uma
    (ACIO, I, 7, 14). O carter criador do Intelecto             casa:  quem produz e mantm a ordem que
    decorre do fato de Anaxgoras negar, como



J
DEUS                                                  248                                                DEUS

constitui a bondade do conjunto. Essa  tam-                substancial do universo  eterna, ou seja, no
bm a doutrina de Plato; exposta de forma                  suscetvel de princpio ou de fim. De fato, s a
menos mtica, ou seja, fora do mito teognico.              coisa individual composta de matria e forma
Aristteles no atribui novas caractersticas  di-         tem nascimento e morte, segundo Aristteles,
vindade, mas esclarece e determina as que                   ao passo que a substncia que  forma ou ra-
Plato j lhe atribura. Assim, D.  no s o pri-          zo de ser, ou a que  matria, no nasce nem
meiro motor:  motor imvel e, como tal, eter-              perece (Met., VIII, 1,1042 a 30). D. mesmo par-
no e afastado das coisas sensveis; no tem                 ticipa dessa eternidade da substncia, pois ele
grandeza (logo,  indivisvel, e sem partes) e              substncia (Ibid., XII, 7, 1073 a 3) e substn-
dotado da potncia necessria para mover o                  cia no mesmo sentido em que o so as subs-
mundo por tempo infinito (Ibid., VIII, 7, 1073              tncias finitas (Et. nic, I, 6, 1096 a 24). A supe-
a, 3). No  s intelecto, como j dissera Plato:          rioridade de D. consiste apenas na perfeio
 inteligncia sempre em ato, cujo objeto  o               de sua vida, no em sua realidade ou em seu
objeto mais alto e excelente, ou seja, ela mes-             ser, pois, como diz Aristteles, "nenhuma subs-
ma;  intelecto do intelecto ou pensamento do               tncia  mais ou menos substncia do que outra"
pensamento (Ibid., XII, 9, 1074 b 30 ss.). O in-            (Cat, V, 2 b 25).
telecto na verdade tambm pode cochilar e ter                   A noo de D. como criador da ordem do
por objeto coisas inferiores a si mesmo: o inte-            mundo, que chegou  plenitude em Aristteles,
lecto divino deve ficar acima dessas eventuali-             no foi reproposta nos mesmos termos ao lon-
dades. Alm disso, a distino entre a potncia             go da histria da filosofia. O pantesmo estico
e o ato e a reconhecida superioridade do ato                e neoplatnico, antes, e o criaconismo cristo,
em relao  potncia permitem que Aristteles              depois, impem outras concepes de D. que
defina D. como ato puro, atualidade absoluta-               se alternam com mais freqncia na histria do
mente desprovida de matria ou de poten-                    pensamento. A ela, porm, podem filiar-se as
cialidade, dando assim um significado mais                  concepes de D. que, no mundo moderno,
rigoroso e filosfico  "incorporeidade" da in-             tendem a reconhecer limitaes nos poderes
teligncia divina, j reconhecida a partir de Ana-          da divindade e a excluir dela os caracteres infi-
xgoras (Ibid, XII, 6,1071 b, 12 ss.). Aristteles          nitos e absolutos. Essa , p. ex., a concepo
esclareceu tambm o conceito da bem-aven-                   de muitos iluministas e que foi bem expressa
turana divina: "D.", diz ele, "experimenta sem-            por Voltaire: "Toda obra que nos mostra os
pre uma felicidade simples e nica porque a                 meios e um fim revela um artfice: logo, este
atividade (que  acompanhado pelo prazer)                   universo composto de meios, cada um com
no consiste s no movimento, mas tambm na                 seu fim, revela um artfice poderosssimo e in-
imobilidade, e a felicidade est mais no repou-             teligentssimo" (Dictionnairephilosophique, art.
so que no movimento" (Et. nic, VII, 1154 b                  D.; Trat de mtaphysique, 2). Mas a qualifica-
26). Enfim, a perfeio de D. torna-o auto-su-              o de artfice  tambm a nica que Voltaire
ficiente: ao contrrio do homem, no tem ne-                considera atribuvel a D. De fato, ele se recusa
cessidade de amigos: "A causa disso  que para              a admitir qualquer interveno de D. no ho-
ns o bem vem de algo que no somos ns,                    mem e no mundo moral. D.  somente o autor
mas ele  o bem para si mesmo" (Et. eud., VII,              da ordem do mundo; o bem e o mal no so
12, 1245 b 17). Embora muitas dessas determi-               mandamentos divinos, mas atributos do que 
naes tenham sido adotadas e utilizadas por                til ou prejudicial  sociedade (Trait, 9). No
doutrinas diferentes,  fcil perceber que esto            sc. XIX uma concepo anloga foi defendida
estreitamente vinculadas ao conceito platnico-             por Stuart Mill: para este, um D. finito, limitado
aristotlico de criador da ordem do mundo.                  em seu poder pela matria e pela forma que
Tanto para Aristteles quanto para Plato, a                utilizou,  tudo o que a experincia do mundo
estrutura substancial do universo est alm dos             permite concluir acerca de um criador do mun-
limites da criao divina. Certamente, a ima-               do (Three Essays on Religion, 1874). Peirce e
 gem da divindade que assume como modelo                    James repropuseram, mais recentemente, um
 de sua ao criadora o mundo das substncias               conceito anlogo de D. Peirce recusa-se a
 eternas no tem mais sentido para Aristteles              consider-lo em sentido prprio onisciente e
 (e para o prprio Plato era um "mito", um dis-            onipotente (Coll. Pap., 6. 508-09). James, por
 curso simplesmente "verossmil"). Mas para                 sua vez, afirma que "D. no  o absoluto, mas 
 Plato, assim como para Aristteles, a estrutura           ele mesmo parte de um sistema, e que sua fun-
DEUS                                               249                                              DEUS

o no  inteiramente diferente da funo das           revelao de D.; 3a o mundo  a realizao de
outras partes menores, portanto da nossa. Ten-           D. O primeiro e o segundo desses modos via
do um ambiente, existindo no tempo e operan-             de regra se unem, o mesmo ocorrendo com o
do na histria como ns, ele deixa de ser dife-          segundo e o terceiro; no se acham, porm,
rente de tudo o que  humano, escapa                    explicitamente vinculados o primeiro e o
esttica intemporalidade do perfeito absoluto"           terceiro.
(A Pluralistic Universe, 1909, p. 318). Embora               O pantesmo assumiu pela primeira vez for-
desse modo D. seja investido de mais carac-              ma acabada no estoicismo. Os esticos "cha-
teres humanos do que nas doutrinas de Plato             mavam Deus de mundo, sendo D. a qualidade
ou Aristteles, o conceito clssico do D. orde-          prpria de toda substncia, imortal e no gera-
nador, cujo poder  limitado por certas estrutu-         do, criador da ordem universal, o qual, segun-
ras substanciais, ainda  o trao caracterstico         do os ciclos dos tempos, consuma em si toda a
dessas concepes.                                       realidade e novamente a gera de si" (DIG. L,
    B) Deus como natureza do mundo. Sob                  VII, 137). E diziam que "D. impregna todo o
este ttulo podem ser agrupadas todas as con-            universo e toma vrios nomes conforme as ma-
cepes de D. que de algum modo admitam                  trias diferentes em que penetra" (ACIO, Plac,
uma relao intrnseca, substancial ou essen-            I, 7, 33). Os esticos tambm afirmavam que D.
cial dele com o mundo, de tal maneira que o               corpo (Stoicorum fragm., ed. Arnim, II, pp.
mundo seja entendido como continuao ou                 306-11), porque s o corpo pode ser causa,
prolongamento da vida de D. Deve-se notar                pode agir (DIG. L., VII, 56): doutrina que
que a prpria concepo de D. como criador               retorna em Tertuliano (De carne Christi, 11; De
da ordem do mundo, mesmo demarcando                      anima, 18) e em Hobbes (Leviath., I, 12). O
uma separao entre o mundo e D., estabelece             reconhecimento da causalidade de D. no mun-
a semelhana entre eles. Plato chama o mun-             do torna-o partcipe da condio geral da
do de "D. gerado" (Tirn., 34 b), e Aristteles           causalidade mundana, ou seja, da corporei-
relata com aprovao a crena comum de que               dade. Os precedentes dessa doutrina foram vistos
os corpos celestes so deuses e de que "o divi-          tanto na doutrina de Herclito, do Logos ou
no abrange toda a natureza" (Met., XII, 8, 1074          Fogo divino que tudo penetra (Fr. 30, 50,
b 2). Mas essa conexo torna-se mais estreita e          Diels), quanto na identificao feita por Xen-
essencial na concepo de que ora nos ocupa-             fanes de Colofo entre D. e o Uno e o Todo
mos e que pode ser designada genericamente               (SIMPLCIO, Fs., 22). Mas a expresso mais madu-
pelo nome de pantesmo. Nesta, um lao ne-               ra do pantesmo deve ser vista no neopla-
cessrio ata o mundo a D. e D. ao mundo: D.              tonismo, particularmente em Plotino. Este ela-
no seria D. sem o mundo, assim como o                   bora, ainda que em forma de imagens, a noo
mundo no seria mundo sem D. Isso no im-                de emanao (v.) que se tornaria indispensvel
plica, porm, a perfeita identidade e coinci-            ao pantesmo, permitindo entender o modo
dncia entre D. e o mundo; ou melhor, essa               como de D. deriva um mundo que no se se-
identidade ou coincidncia s se verifica no             para dele. A relao entre D. e o mundo 
sentido que vai do mundo para D. e no no                assim esclarecida: ls o mundo deriva, necessa-
que vai de D. para o mundo. Em outros ter-               riamente, de D. assim como o perfume emana
mos, o mundo no  inteiramente D.: est                 necessariamente do corpo perfumado, e a luz,
includo na vida divina como seu elemento                de sua fonte; 2a por esse lao de necessidade, o
necessrio, mas no a esgota. A exigncia                mundo  parte ou aspecto de D., ainda que
apresentada pelo chamado panentesmo (v.)                parte diminuda ou inferior, pois o perfume ou
na realidade  tpica de todas as formas do              a luz que se afasta de sua fonte  inferior  pr-
pantesmo histrico, como se poder facilmen-            pria fonte; 3e D.  superior ao mundo, embora
te verificar pela digresso que segue. A carac-          idntico a ele, na medida em que possui or-
terstica do pantesmo pode ser expressa di-             dem, perfeio e beleza. Esses so os carac-
 zendo que ele no estabelece nenhuma                    teres que Plotino atribui a D. D.  o Uno em
 diferena entre causalidade divina e causalida-         face dos muitos que dele emanam (Enn., III, 8,
 de natural. No interior do pantesmo, podem-            9). "Ele  a potncia de tudo; est acima da
 se distinguir trs modos principais de vincular         vida e  causa da vida; a atividade da vida, que
 mundo e D., quais sejam: 1Q o mundo  a ema-             tudo, no  a realidade primeira, mas deriva
 nao de D.; 2a o mundo  a manifestao ou             do Uno como de uma fonte" (Ibid., III, 8, 10).




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DEUS                                                  250                                              DEUS

 Do Uno emana, em primeiro lugar, a Intelign-           conceito pantesta de D. que compreende em
cia na qual residem as estruturas substanciais           si o mundo e  idntico  sua natureza ltima.
do ser e que, por isso, Plotino identifica com o         Qualquer dessas determinaes, ao aparecer
prprio Ser, e, em segundo lugar, a Alma, que           na histria da filosofia, tende a reproduzir as
penetra e governa o mundo (Ibid., V, 1, 6). O           outras. Teologia negativa e misticismo foram,
mundo, emanado da Inteligncia e governado              ao que sabemos, as caractersticas do pan-
pela Alma,  cpia perfeita da divindade                tesmo de Amalric de Bne e de Davi de Dinant
emanadora, sendo eterno e incorruptvel como            no sc. XII: o primeiro via em D. a essncia ou
o modelo (Ibid., V, 81, 12); ele " um D. bem-          forma das coisas; o segundo, a matria das pr-
aventurado que se basta a si mesmo" (Ibid., III,        prias coisas (S. TOMS, In Sent., II, d. 17, q. 1, a.
5,5). A noo de emanao, para a qual ''o ser           1). Essas mesmas caractersticas reparecem na
gerado existe necessariamente junto com o seu           mstica do Mestre Eckhart (sc. XIV), para
gerador e s  separado dele por sua prpria            quem D.  "uma Essncia supra-essencial e um
alteridade" (Ibid., V, 1, 6), v o mundo como           Nada supra-ente" (Deutsche Mystiker, edio
parte integrante de D., e D. como origem nica          Pfeiffer, II, pp. 318-19), de tal modo que dele
do processo emanativo, algo superior ao mun-            nada se pode dizer seno que  uma "quietude
do e inexprimvel nos termos do mundo. D.               erma", ao mesmo tempo em que  preciso
propriamente no  nem ser ou substncia,               reconhec-lo como a verdadeira essncia das
nem vida, ou inteligncia, por ser superior a           criaturas. "Se D. por um momento se retirasse
essas coisas: elas, porm como emanaes                delas, diz Eckhart, "elas se reduziriam ao
suas, fazem parte dele. Proclo cunha as pala-           nada" (Ibid., p. 136). No sc. XV, Nicolau de
vras adequadas: "D.  supersubstancial, super-          Cusa retoma a mesma concepo: D.  a essn-
vital e superinteligente" (Inst. theol, 115); essas     cia ou a substncia do mundo e o mundo  um
palavras se tornam nos primrdios da Escols-           D. contrado, no sentido de que  um D. que
tica crist com Scotus Erigena: para ele, D. no        se determina e se individualiza numa multipli-
 substncia, mas Supersubstncia; no  ver-           cidade de coisas singulares (Dedocta ignor., II,
dade, mas Superverdade, etc. (Dedivis. nat., I,         4). D.  tudo em todas as coisas e todas as coi-
14). Mas, ao mesmo tempo, o mundo  D., ou              sas esto em D., j que ele  "a essncia de to-
melhor, como diz Scotus Erigena, manifestao           das as essncias" e portanto a complicao e a
de D., teofania. O processo da teofania vai de          explicao da multiplicidade csmica: o ponto
D. ao Verbo, do Verbo ao mundo e do mundo               no qual a multiplicidade se unifica e do qual
retorna a D. Desse modo, "D. est acima de to-          comea a diversificar-se (Ibid., II, 5; I, 2).
das as coisas e em todas elas;  a substncia de        Giordano Bruno, por sua vez, utiliza a tese
todas as coisas porque s ele ; e conquanto            neoplatnica e mstica da transcendncia e da
seja tudo em tocias as coisas, no deixa de ser         incognoscibilidade de D. para limitar-se a consi-
tudo fora de todas as coisas" (Ibid., IV, 5).           derar D. como natureza. Como tal, D.  a causa
                                                        e o princpio do mundo: causa no sentido de
   A caracterstica da divindade nessa concep-          determinar as coisas que constituem o mundo,
o  sua "supersubstancialidade", seu ser aci-         permanecendo distinto delas; princpio no sen-
ma do ser (de qualquer espcie de realidade).           tido de constituir o prprio ser das coisas natu-
Por essa caracterstica, j em Plotino, D. s pa-       rais (De Ia causa, II, em Op. ital, I, 177). Em
rece acessvel a um arrebatamento excepcional           nenhum dos casos se distingue da natureza: "A
ou sobrenatural, ou seja, ao xtase mstico             natureza  D. mesmo ou  a virtude divina que
(Enn., VI, 7, 35). Por esse mesmo carter, D.           se manifesta nas coisas" (Summa ter. met., em
no pode ser objeto de uma cincia positiva,             Op. lat. IV, 101). Quase simultaneamente,
que determine sua natureza, mas s de uma               Jacob Boehme considerava D. como "um nada
"teologia negativa" que ajude a compreend-lo           eterno" (Mysterium magnum, I, 2) e como raiz
determinando o que ele no . O conceito de             do mundo natural, que no foi criado do nada,
teologia negativa, que est em Proclo (Theol.           mas de D., e nada mais  que a revelao ou a
plat., II, 10-11) difundiu-se na filosofia crist       explicao da essncia divina (De tribus
por obra do pseudo-Dionsio, o Areopagita,              principiis, 7, 23). No tm um significado muito
com a sua Tbeologia mystica. O conceito de D.           diferente as frmulas com que, no sc. XIX,
como Supersubstncia emanante, da ascenso              Scheing expressou o conceito de D. do ponto
mstica que culmina no xtase e da teologia ne-         de vista de sua filosofia da natureza. D.  uni-
gativa so os trs aspectos fundamentais do
DEUS                                                 251                                               DEUS

dade, identidade ou indiferena do esprito e              restar outro contedo a atribuir-lhe seno a
da natureza, da liberdade e da necessidade, da             inveja. Mas se a palavra esprito deve ter um
conscincia e da inconscincia (Werke, I, III,             sentido, ela significa a revelao de si" (Ene,
pp. 578 ss.). Essa identidade ou indiferena                564). Ora, essa revelao no  s revelao, 
nada mais  que a identidade pantesta entre o             a realizao de D. como autoconscincia de si
mundo e D. "D e o universo", diz Schelling,                que ele alcana no homem. "D.  D. s en-
"so uma coisa s ou so aspectos distintos de             quanto se sabe: seu saber-se  sua autocons-
uma nica e mesma coisa. D.  o universo                   cincia no homem e o saber que o homem tem
considerado pelo lado da identidade e  o todo             de D., que progride at o saber-se do homem
porque  todo o real, fora do qual nada existe"            em D." (Ibid.,  564). Desse ponto de vista, a
(Md, I, IV, 128).                                          distino entre "Essncia eterna" e sua mani-
   Mas a doutrina de Schelling implica a noo             festao  um estgio provisrio, superado pelo
de que o mundo  no s a revelao de D.,                 retorno da manifestao  essncia eterna e
mas tambm sua realizao. Essa noo tem                  pela realizao da unidade de ambas. Hegel
origem em Spinoza, embora no se encontre                  distingue trs momentos do conceito de D.:
nele: deriva do racionalismo geometrizante de              "em cada um deles o contedo absoluto  re-
Spinoza, pelo qual D. no mais se identifica               presentado a) como contedo eterno que per-
com o mundo, mas com a ordem do mundo,                     manece na posse de si em sua manifestao; b)
mais precisamente com a ordem racional, geo-               como distino entre essncia eterna e sua
metricamente explicvel, do mundo. Diz Spi-                manifestao que, mediante essa distino, tor-
noza: "Nada h de contingente nas coisas, mas              na-se o mundo da aparncia onde est o con-
tudo  determinado a existir e a atuar de certo            tedo; c) como infinito retorno e conciliao
modo pela necessidade da natureza divina"                  do mundo alheado da essncia, assim como
(Et., I, 29). Embora se possa distinguir entre na-         esta retorna do mundo da aparncia para a
tureza naturante que  D., e natureza "na-                 unidade de sua plenitude" (Ibid.,  566). A rea-
turada", que so as coisas derivadas de D.                 lidade plena de D. consiste em reconhecer-se
(Md., scol.), na realidade a natureza nada                 realizado no mundo e atravs do mundo.
mais  que a ordem necessria das coisas, e                    Essa concepo de que ao mundo est con-
essa ordem  D. "De qualquer modo que con-                 fiada a realizao de D. ou pelo menos sua rea-
cebermos a natureza, sob o atributo da exten-              lizao ltima e total, constitui a inspirao (e a
so, do pensamento ou de qualquer outro,                   caracterstica) dominante do pantesmo con-
sempre encontraremos uma s e mesma or-                    temporneo. Bergson exprime esse pensamento
dem, uma s e mesma conexo de causas, isto                quando identifica D. com o esforo criador da
, uma s e mesma realidade" (Ibid., II, 7,                vida (Deux sources, p. 235), ou seja, com o
scol.). Assim, para Spinoza D. no  a Unidade             movimento pelo qual a vida vai alm de suas
inefvel da qual as coisas brotam por emana-               formas estticas e definidas, encaminando-se
o, nem a Causa criadora da ordem, mas essa               para a criao de novas formas mais perfeitas.
mesma ordem em sua necessidade. Isso impli-                Do amor mstico pela humanidade que  a
ca que a derivao necessria e recproca das              ponta avanada do mpeto vital, Bergson espe-
coisas, segundo o ideal da racionalidade geo-              ra a renovao da humanidade e a retomada
mtrica,  a realizao de D., pensamento este             "da funo essencial do universo, que  uma
que foi explicitado no Romantismo justamente               mquina de fazer deuses" (Ibid., p. 234). A
como referncia  doutrina de Spinoza. A con-              expresso "mquina de fazer deuses"  muito
cepo de que D. se revela e ao mesmo tempo                significativa; expressa bem a crena de que o
se realiza no mundo, mais precisamente na                  mundo deve ser a realizao de D. Em outros
necessidade racional do mundo, fundamental                 filsofos retornam velhas frmulas, como a do
no Romantismo. Sua melhor expresso est em                mundo enquanto "corpo de D.", mas com novo
Hegel. Este comea insistindo na necessidade               significado: s se incorporando, D. realiza-se
da revelao de D.: se D. no se revelasse, se-            como tal. Alexander diz: "D.  o mundo inteiro
ria um D. invejoso. "Quando, na religio, se               porquanto possui a qualidade da deidade. O
toma a srio a palavra D.,  tambm por ele,               mundo inteiro  o corpo desse ser; a deidade 
que  contedo e princpio da religio, que                seu esprito. Mas o possuidor da deidade no 
pode e deve comear a determinao do pen-                 real,  ideal: como existente real, D.  o mundo
samento; e se a D. for negada a revelao, no             infinito no seu nisus para a deidade, ou, para
DEUS                                               252                                              DEUS

adotar uma frase de Leibniz, enquanto est               casos, o pantesmo contemporneo inverteu
grvido de deidade" (Space, Time andDeity, II,           o ponto de vista tradicional: no  D. que d
p. 535). Portanto, cabe ao mundo parir D., ou            corpo, substncia ou realidade ao mundo,
sem metforas,  na via de evoluo natural              mas o mundo que d corpo, substncia ou rea-
que vai aparecer, em certo momento, a quali-             lidade a D.
dade de deidade que encontrar substncia em                 O Deus como criador. Segundo a concep-
certo nmero de seres (Ibid, p. 365). Essa mes-          o de causa criadora, D. no  somente o
ma relao entre D. e o mundo foi expressa               primeiro motor e a causa primeira do devir e
por Whitehead com as seguintes antteses: "E             da ordem do mundo, mas tambm o autor da
verdade que D.  permanente e que o mundo                estrutura substancial do prprio mundo. Essa es-
 fluente, assim como  verdade que o mun-               trutura, constituda pelas substncias, formas
do  permanente e D.  fluente.  verdade que            ou razes ltimas das coisas, no  coeterna
D.  uno e que o mundo  mltiplo, assim                 com ele (como na concepo clssica), mas
como  verdade que o mundo  uno e D.                   produzida por ele. Produzida no por um pro-
mltiplo.  verdade que o mundo, em face de              cesso necessrio, mas com causalidade livre,
D.,  eminentemente real, e que D., em face do           graas  qual o mundo se separa de D. no pr-
mundo,  eminentemente real.  verdade que               prio ato de nascimento de seu ser. Por outro
o mundo  imanente em D. e que D.                       lado, nessa concepo, D. no  mais o super-
imanente no mundo.  verdade que D. trans-               ser, mas o ser do qual provm outros seres. Se-
cende o mundo, e que o mundo transcende D.               gundo essa concepo, as caractersticas da di-
 verdade que D. cria o mundo, e que o mun-              vindade derivam da noo de criao, em seu
do cria D." (Process and Reality, pp. 527-28).           significado prprio e especfico (v. CRIAO).
Essas antteses significam que, se D. espera do          Deve-se notar que esse significado s foi ela-
mundo a sua realizao, o mundo espera de D.             borado com o intuito de distingui-lo por opo-
a sua unidade. "O mundo", diz Whitehead, " a            sio  ordenao e  emanao. Em hebraico,
multiplicidade das atualidades finitas que bus-          grego e latim, assim como nas lnguas moder-
cam unidade perfeita. Nem D. nem o mundo                 nas, o verbo "criar" tem sentido genrico,
atingem completitude esttica. Ambos esto na            referindo-se, indiferentemente,  obra de um
forja do ltimo fundamento metafsico, o avan-           arteso ou  de um criador;  s atravs da
o criativo para o novo. Cada um deles, tanto            elaborao filosfica que essa noo chega a
D. quanto o mundo,  instrumento da novida-              configurar-se em suas caractersticas.
de do outro" {Ibid., p. 529). Mesmo para o velho             Essa elaborao comea com Flon de Ale-
pantesmo, o mundo como emanao ou re-                  xandria (sc. I), que por meio da interpretao
velao de D. condicionava, de certo modo, a             alegrica do Velho Testamento definiu o con-
realidade de D. "D. no existia antes de criar           ceito de D. ora em oposio s doutrinas da fi-
todas as coisas", dizia Scotus Erigena (Dedivis.         losofia grega, ora em consonncia com elas.
 nat., I, 72), defendendo a coeternidade do              Foi o primeiro a afirmar que D. tirou o mundo
mundo e de D. E, de fato, o que seria um cor-            "do no-ser para o ser" (De vita Mosis, II, 8) e
po perfumado que no emanasse perfume, ou                que ele no s foi Demiurgo como tambm o
uma luz que no expandisse raios em torno de             verdadeiro fundador do mundo (De somniis, I,
si? A prpria noo de emanao torna o mun-             13). Mas nem mesmo Flon entendeu esse con-
do e, em geral, tudo o que de D. dimana, parte           ceito, em todo o seu rigor, pois s vezes assimi-
integrante de D. e condio de sua realidade.            la criao e imposio de ordem  matria
Todavia,  s no mundo moderno -- a partir               desordenada e amorfa (Quis rer. div. heres.,
do Romantismo (que teve em grande apreo a               32). A noo de D. criador vai-se determinando
lio de Spinoza), -- que se passa a afirmar ex-         com mais clareza na polmica crist contra os
plicitamente que D. , de algum modo, criao            gnsticos: Irineu, p. ex., afirma que D. no tem
do mundo. s vezes, como em Hegel, D. j                necessidade de intermedirios para a criao
 real no mundo, em todas as determinaes do             (Adv. haer, II, 1,1). Lactncio, por sua vez, ne-
 mundo, porque  o prprio esprito, ou seja, a          gava que, para a criao, D. tivesse necessida-
 racionalidade autoconsciente, que se realiza            de de matria preexistente (Inst. div., II, 9).
 nele como tal. Outras vezes, D.  o termo do            Contra o emanatismo, Orgenes afirmava que
 processo evolutivo, a fase na qual esse proces-         D. no pode ser considerado nem como o todo
 so atinge unidade ou perfeio. Em todos os             nem como uma parte do todo, porque seu ser
    DEUS                                                253                                                 DEUS

     homogneo, absoluto e indivisvel {Contra               se  determinao de um atributo que depois
    Cels., I, 23), sendo tambm superior  prpria            passaria a ser o primeiro e fundamental atributo
    substncia j que no participa dela: participa-          dessa doutrina: o da necessidade do ser divino.
    se de D., mas D. no participa de nada (De                De fato, se as coisas do mundo extraem seu ser
    Princ, VI, 64). Alm disso, a unicidade de D.,            de D., este s pode extra-lo de si mesmo, ou
    na qual os filsofos cristos insistem tanto para         seja, D.  o ser por natureza ou por essncia, ao
    opor-se ao politesmo pago quanto para eli-              passo que as coisas tm o ser por participao
    minar da noo de Trindade qualquer resduo               ou por derivao de D. Desse modo, determi-
    de multiplicidade de divindades, leva-os a acen-          na-se uma ciso no ser: de um lado o ser de D.,
    tuar a separao entre D. e o mundo, pois se D.,          do outro o das criaturas; de um lado o ser por si,
    de algum modo, participasse do mundo, parti-              do outro o ser por participao; de um lado o
    ciparia tambm da multiplicidade e da diver-              ser necessrio, do outro o ser possvel. Essa
    sidade que o constituem (GREGRIO DE NISSA, Or.           distino foi introduzida por Al Farabi (sc. IX),
    catech., 1). Pelo mesmo motivo,  acentuada a             e graas a Avicena (sc. XI) prevaleceu na Esco-
    eternidade, ou seja, a imutabilidade de D. em             lstica rabe e crist, tornando-se um de seus
    face da mutabilidade e da temporalidade do                princpios fundamentais. Avicena interpreta a
    mundo. Para S. Agostinho, D., enquanto Ser,               relao entre necessidade e possibilidade nos
     o fundamento de tudo o que , o criador                 termos da relao aristotlica entre forma e ma-
    de tudo.                                                  tria. A forma, como existncia em ato,  ne-
       Com efeito, a mutabilidade do mundo que                cessidade; a matria  possibilidade. O que no
    est ao nosso redor demonstra que ele no  o              necessrio por si mesmo  necessariamente
    ser e que, portanto, precisou ser criado por um           composto de potncia e ato, portanto no 
    Ser eterno (Conf., XI, 4). Antes da criao no           simples. Tal  o ser das criaturas. Mas o ser que
    havia tempo e no havia nem mesmo um                       necessrio por si  absolutamente simples,
    "antes": no tem sentido, pois, perguntar o que           desprovido de possibilidade e de matria:  D.
    D. fazia "ento". A eternidade est acima de              (Met, II, 1, 3). A distino entre ser necessrio e
    todo tempo e em D. o passado e o futuro nada              ser possvel e a definio de D. como ser ne-
    so. O tempo foi criado juntamente com o                  cessrio foram introduzidas na Escolstica crist
    mundo (Ibid, XI, 13). No sc. XI Anselmo re-              por Guilherme de Alvrnia (De Trinitate, 7) e
    sumia em Monologon os resultados de um tra-              tornaram-se fundamento da teologia de Alberto
    balho j secular, esclarecendo os caracteres da           Magno e de Toms de Aquino. Este ltimo ex-
    criao a partir do nada como "um salto do                prime a necessidade do ser divino como identi-
    nada para alguma coisa" (Mon., 8) e insistindo            dade entre essncia e existncia em D.: D.  o
    na impossibilidade de admitir que a matria ou            ser cuja essncia implica existncia. De fato,
    outra realidade qualquer preexistisse  obra de           tudo aquilo que se acha em alguma coisa por
    criao divina. As coisas so to-somente por             participao deve ser necessariamente causado
    participao no ser; isso significa que sua exis-         por aquilo em que se acha por essncia; por
    tncia provm unicamente de D. (Ibid., 7).                isso, o ser de todas as coisas  criado ou produ-
    Anselmo admitia que na mente divina estivesse             zido por aquilo que possui o ser por essncia
    o modelo ou a idia das coisas produzidas, mas            prpria, isto , por ser necessrio (S. Th., I, q. 2,
    este tambm, apesar de preceder  criao do              a. 3; q. 44, a. 1). A necessidade , em outros ter-
    mundo, foi criado por D. (Ibid., 11). Contrarian-         mos a definio da prpria natureza de D. Pois
    do, porm, um dos caracteres de D. criador (a             embora a proposio "D. existe", que expressa
    liberdade de criar), a doutrina de Abelardo di-           essa definio, no seja de per si conhecida no
    zia que a criao  um ato necessrio de D., ou           que se refere a ns (que podemos no entender
    seja, um ato que no pode no ocorrer, visto              o significado do nome D. e interpret-lo, p. ex.,
    que D. no pode no querer o bem e que a                  como corpo),  todavia conhecida por si,
    criao  um bem (Theol. christ., V, P. L., 178,          secundum se, ou seja, em si mesma necessria
    col. 1325).                                               (Ibid., I, q. 2, a. 1).
       A caracterstica fundamental da doutrina da                A caracterstica de necessidade,  qual o
    causa criadora  que D.  o ser do qual depen-            pensamento filosfico chegou relativamente
    dem todos os outros seres. Mas foi s atravs do          tarde, torna-se fundamental para todas as dou-
    neoplatonismo rabe que se desenvolveu o                  trinas de D. que surgem depois. Nicolau de
    corolrio implcito nessa concepo, chegando-            Cusa define D. como "necessidade absoluta"



1
DEUS                                                 254                                              DEUS


(De docta ignor, I, 22). s vezes essa caracte-            anular a distncia entre a transcendncia e o
rstica  tomada como ponto de partida da pro-             homem, ou seja, anular a transcendncia como
va ontolgica, como faz Descartes, para quem               tal. A nica cifra ou sinal da transcendncia  o   !
"a existncia necessria est contida na nature-           fracasso que o homem sofre quando tenta             |
za ou no conceito de D., de tal modo que                  alcanar a transcendncia. Esse fracasso  o        j
verdade dizer que a existncia necessria est             nico e autntico sinal da transcendncia,          i
em D. ou que D. existe" (Secondes Rponses,                que  negada por todas as tentativas de             j
prop. I, Dmonstration). Outras vezes nega-se              torn-la prxima e acessvel, pensando-a            j
a legitimidade cie semelhante prova, mas assu-             com os termos tradicionais da divindade (PM.,       i
me-se igualmente a necessidade como defini-                III, 3, pp. 166 ss.).                                |
o de D.;  o que faz p. ex. Leibniz. " preci-              2. DEUS E O MUNDO MORAL.                         j
so", diz ele, "procurar a razo da existncia do               A relao entre D. e o mundo moral (ou I
mundo, que  a totalidade das coisas contin-               mundo dos valores)  o segundo aspecto de I
gentes, e  preciso procur-la na substncia               distino das vrias concepes de D. Sob esse !
que traz consigo a razo de sua existncia e               aspecto  possvel isolar, em primeiro lugar, as ;
que , portanto, necessria e eterna" ( Tbod., I,         doutrinas que no atribuem a D. nenhuma fun- '
 7). Portanto, substncia necessria, para                o de ordem moral. Essas doutrinas, porm, j
Leibniz,  D. (Monad., 38). Nesse aspecto, so             so rarssimas, pois constituem formas de um [
poucas as novidades apresentadas pelas con-                quase-atesmo; pode-se mencionar Voltaire. Pa- \
cepes de D. como causa criadora na filosofia             radoxalmente, Voltaire disse que a divindade se j
moderna e contempornea. Limitam-se a repe-                desinteressa completamente pela conduta dos \
tir as caractersticas tradicionais, a comear da          homens. Azar dos cordeiros que se deixam de- >
necessidade, que na maioria das vezes  assu-              vorar pelos lobos. "Mas se um cordeiro fosse di- 
mida como ponto de partida para uma de-                    zer a um lobo-. 'Faltas ao bem moral, D. te puni-
monstrao ontolgica.  o que fazem, p. ex.               r', o lobo responderia: 'Fao o meu bem fsico i
Lotze (Microkosmus, III, p. 457) e, na sua estei-          e parece que D. no est muito preocupado em i
ra, muitos representantes do espiritualismo                saber se te como ou no'" (Trait de mt., 9). ;
contemporneo. A nica exceo a essa ten-                 Contudo, esse ponto de vista, que  comparti- \
dncia  constituda por Kierkegaard e por to-             lhado por outros iluministas, aparece raramente i
dos os que se inspiram diretamente em sua                  na histria da filosofia, em que a relao entre 
concepo de D. Segundo Kierkegaard, a rela-               D. e a ordem moral tende a tomar como mode- :
o entre D. e o mundo  incompreensvel e s              Io a relao entre D. e o mundo fsico. Nesse ;
pode ser esclarecida negativamente com a no-               aspecto, podem ser distinguidas trs concep-
o de diferena absoluta, de "salto" entre o              es fundamentais: a) a que considera D. como \
mundo e D. (Dirio, VIII, A, 414). Portanto,               garante da ordem moral do mundo; b) a que o ;
Kierkegaard no utiliza a noo de causa para              identifica com a ordem moral; c) a que o consi-
determinar a relao entre o mundo e D., evi-              dera criador da ordem moral.
tando atribuir a D. a categoria de necessidade.
D.  "aquele para o qual tudo  possvel" (Die                 a) Deus como garante da ordem moral. j
Krankheit zum Tode, I, c; trad. it., Fabro, p.             Por essa concepo, a ordem moral, do mes- !
247); essa definio de D. torna a f possvel             mo modo que a ordem substancial do mun-
por ser o fundamento da confiana naquele                  do,  independente de D.; mas D. concorre de
que pode sempre encontrar uma possibilida-                 modo mais ou menos eficaz para mant-la ou
de de salvao para o homem mas exclui a                   para realiz-la, acrescentando-lhe sua garantia.
certeza fundada na necessidade da natureza                  essa a concepo de Plato e Aristteles, se-
divina.  bvio que, desse ponto de vista, a               gundo os quais D., apesar de criador da ordem
prpria qualificao de D. como criador do                 natural, no tem nenhuma responsabilidade
mundo torna-se imcompreensvel, sendo indife-              sobre a ordem moral que  confiada aos ho-
rente afirm-la ou neg-la. O mesmo vale para              mens, limitando-se a apoi-la e a encoraj-la
a doutrina contempornea que, nesse aspecto,               com sanes prprias. No mito de Er, Plato
mais se aproxima da inspirao de Kierke-                  atribui  parca Lquesis as seguintes palavras,
gaard: a de Jaspers. Qualificar a transcendncia           dirigidas s almas que esto prestes a escolher
do ser com os atributos tradicionalmente dados             um novo ciclo de vida: "A virtude no tolera se-
a D. ou como D. mesmo , segundo Jaspers,                  nhores; cada um participar dela mais ou me-
                                                           nos, conforme a honre mais ou menos. Cada
DEUS                                                 255                                            DEUS


um  imputvel por sua escolha: a divindade             ordem moral  o nico motivo razovel para
no  imputvel" (Rep., X, 617 e). E na realida-        crer na imortalidade da alma (Emlio, IV). Do
de o Demiurgo predispe todas as coisas "para           mesmo modo, para Kant, a existncia de D. 
no ser causa da maldade futura dos seres indi-         um postulado da razo prtica pois s Deus
viduais" (Tim., 42 d). Para Plato, a virtude, as-      torna possvel a unio de virtude e felicidade
sim como o vcio (logo, a totalidade da ordem           em que consiste o sumo bem, que  o objeto
moral), faz parte da esfera de causalidade dos          da lei moral (Crt. R. Pratica, I, cap. 2,  5).
seres criados. Todavia, ser virtuoso significa          "Desse modo", diz Kant, "mediante o conceito
tambm "ser amigo da divindade'', e isso signi-         do sumo bem, a lei moral conduz  religio, ao
fica "ser semelhante"  divindade. "A divindade         conhecimento de todos os deveres na forma de
 para ns a medida de todas as coisas, muito           mandamentos divinos; no como sanes, ou
mais do que pode s-lo um homem, como di-               seja, como decretos arbitrrios e por si mesmo
zem hoje" (Leis, IV, 716 c). Analogamente, se-          acidentais de uma vontade alheia, mas como
gundo Aristteles, a divindade exerce sua fun-          leis essenciais de toda vontade livre por si mes-
o apenas no mundo natural e s por essa               ma, que, porm, devem ser consideradas man-
funo  possvel determinar seus atributos             damentos do Ser supremo, porque s de uma
fundamentais (Motor imvel, Causa primeira,             vontade moralmente perfeita (santa e boa) e ao
Pensamento do pensamento, etc). Contudo,                mesmo tempo onipotente podemos esperar o
 at Aristteles admite, conforme as crenas po-        sumo bem, que a lei moral nos obriga a ter
 pulares, que, "se os deuses se preocupam de            como objeto de nossos esforos; portanto, po-
 algum modo com as obras humanas, como pa-              demos esperar alcan-lo mediante o acordo
 rece,  verossmil que lhes agrade ver nos            com essa vontade perfeita". Conseqentemen-
homens algo de excelente e que com estes               te, para Kant D.  "1 B criador onipotente do cu
tenham a maior afinidade, o que s pode ser            e da terra, e, do ponto de vista moral, legisla-
inteligncia" {Et. nic, X, 9, 1179 a 24). A carac-     dor santo; 2S conservador do gnero humano
terstica negativa dessa concepo  a ausncia        como seu benvolo governante e curador mo-
 da noo de providncia, ou seja, de uma              ral; 3S guarda de suas prprias leis, ou seja, justo
 ordem racional criada por D. ou que seja D.,          juiz" (Religion, III, II, Obs. ger.). Essa soluo
em que os homens e seus comportamentos                 de Kant ficou sendo tpica da concepo em
encontrem lugar. Sua caracterstica positiva          exame, que limita o poder moral de D. a uma
 ser D. garante da ordem moral, conquanto no          garantia que no determina de modo algum a
estabelea seus caminhos e seus modos de rea-          ao dos homens, mas, ao contrrio, de certo
lizao. No mundo moderno essas caractersti-          modo  solicitada pela prpria autonomia des-
cas so encontradas nos defensores da religio         sa ao.
 natural (v.), a religio sem revelao por parte          b) Deus como ordem moral do mundo. Essa
de D., confiada unicamente s foras da razo.         concepo, como a outra de D. criador da or-
Grcio, p. ex., afirma que os enunciados da re-        dem moral, apia-se no conceito de providn-
ligio natural so quatro: "Primeiro: D. existe e       cia, de ordem racional cjue compreende no s
 uno; segundo: D. no  coisa nenhuma que             os eventos do mundo mas tambm as aes
se veja, mas  muito superior a elas; terceiro: as     humanas, ordem que  D. mesmo ou que vem
coisas humanas so cuidadas por D. e julgadas          de D. Os primeiros a formular o conceito de
com perfeita eqidade; quarto: D.  o artfice         providncia foram os esticos, que deram esse
de todas as coisas exteriores" (De iure belli, II,     nome ou o nome de destino (v.) ao governo ra-
 20, 45). Crenas semelhantes, que excluem das         cional do mundo, ou seja, "a razo pela qual as
 coisas humanas o plano providencial, embora           coisas passadas aconteceram, as presentes
reconhecendo a ajuda e a garantia divina, so          acontecem e as futuras acontecero" (STOBF.O,
freqentes nos filsofos dos scs. XVII e XVIII.       Ecl, I, 79). Os esticos identificaram essa ra-
Talvez sua melhor expresso esteja em Rous-            zo, destino ou natureza com D., "presente nas
seau e em Kant. Segundo Rousseau, D. inter-            coisas e nos fatos todos, e que assim utiliza
vm para pr em ao "as leis da ordem uni-            todas as coisas segundo sua natureza, para a
versal", agindo de tal modo que, nesta vida,           economia do todo" (ALEXANDRE, De fato, 22,
quem se comportar corretamente e for infeliz           pp. 191, 30).
 ser recompensado na outra. Alis, para Rous-
 seau, a exigncia de ver assim garantida a                Do ponto de vista dessa identificao no
                                                       deveria nascer o problema da liberdade huma-
DEUS                                                 256                                                DEUS


na: essa liberdade deveria ser identificada com            correr celeremente para seu destino" (Op. cit,
a necessidade do desgnio providencial ou ser              I, 31). Por sua vez, Espinosa nega que D. seja
negada como coisa impossvel. A ao do ho-                causa livre no sentido de poder agir diferente
mem s pode adequar-se  ordem racional do                 do modo como age: ele  livre apenas no senti-
todo porque o homem  uma parte desse todo.                do de que age "s pelas leis de sua natureza"
E com efeito sabemos que os esticos reconhe-              (Et., I, 17).
ciam a necessidade do agir humano; s para                     Assim, em Spinoza, a noo de providncia
Crisipo o assentimento voluntrio do homem                 identifica-se com a noo de necessidade: ne-
intervinha como fator concomitante, sendo                  cessidade segundo a qual todas as coisas deri-
comparvel  forma do cilindro, que contribui              vam da natureza de D., como nica Causa per-
para que ele gire sobre o plano inclinado (CCERO,         feita e onipotente (Et., I, 33, scol. 22). Fichte s
De fato, 41-43). Plotino retoma o mesmo con-               fazia repropor a tese de Spinoza quando, num
ceito de providncia: "De todas as coisas for-             texto que lhe valeu a acusao de atesmo (Do
ma-se um ser nico e uma s providncia; se                fundamento da nossa f no governo divino do
comeamos pelas coisas inferiores ela  desti-              mundo, 1798), identificava D. com a "ordena-
no; no alto,  s providncia. Tudo no mundo               o moral viva e atuante", negando que D. fos-
inteligvel  ou razo ou, acima da razo, Inteli-         se "uma substncia particular", diferente dessa
gncia e Alma pura. Tudo o que desce de l                ordenao. Essa identificao ficou como funda-
providncia, ou seja, tudo o que est na Alma              mento do Romantismo. Hegel diz: "O ver-
pura e tudo o que vem da Alma para os seres                dadeiro bem, a razo divina e universal,  tam-
animados" (Enn., III, 3, 5). A ao que emana              bm potncia de realizao de si mesmo. Em
de D. coincide, em outros termos, com sua                  sua representao mais concreta, esse bem, essa
ao providencial: os seres haurem de D. no               razo,  D. O que a filosofia v e ensina  que
s o ser e a vida, mas tambm a ordem das                  nenhuma fora prevalece sobre a fora do bem,
aes em que seu ser e sua vida so exercidos.             ou seja, de D., de tal modo que a impea de
Plotino procura no buscar na ordem provi-                 atuar: D. prevalece, e a histria do mundo no
dencial a origem do mal, mas o atribui a uma               representa outra coisa seno o plano da provi-
espcie de acrscimo acidental que alguns se-              dncia. D. governa o mundo: o contedo de
res fazem  ordem da providncia (Ibid., III, 3,           seu governo, a execuo de seu plano, e a
5). Mas, para ele, a providncia e D. identifi-            histria universal" (Phil. der Geschichte, ed.
cam-se, pois "do Princpio que permanece im-              Lasson, p. 55). No obstante a ambigidade de
vel em si mesmo provm os seres individuais,               certas expresses, o sentido da doutrina he-
assim como de uma raiz, que permanece fixa                 geliana aqui recapitulada  evidente: D.  a ra-
em si mesma, provm a planta:  uma florao               zo que habita o mundo, e a razo que habita
mltipla que redunda na diviso dos seres, mas             o mundo  a prpria realidade histrica. De um
na qual cada um carrega a imagem do Princ-                sculo a esta parte essa doutrina foi repetida com
pio" ilbid., III, 3, 7).                                   freqncia, sendo s vezes designada "doutrina
    Sem dvida, muitas dessas expresses e                 da providncia imanente". Ainda serve de base
imagens podero ser empregadas, como de                    para algumas correntes que visam renovar a
fato sero, pelas doutrinas que reconhecem em              teologia crist e a empenhar o cristianismo numa
D. o criador da ordem moral, mas no o identi-             ao mais direta e eficaz no mundo. Assim, p.
ficam com essa ordem, embora s encontrem                  ex., Bonhoeffer identifica a realidade com o
seu significado literal nessa identificao. A ne-         bem e ambos com Deus. Por um lado, o bem
gao da liberdade humana, ou melhor, a inter-              a realidade porque no  uma frmula geral:
pretao dessa liberdade como necessidade,                o real  impossvel sem o bem. Por outro lado,
um de seus corolrios. Giordano Bruno ex-                  D.  a "realidade ltima" no no sentido de ser
pressou esse corolrio com a doutrina de que,              uma idia ou a meta final da realidade, mas no
embora as oraes no possam influir nos de-               sentido de que "todas as coisas se mostram
cretos do destino, que  inexorvel, o prprio             distorcidas se no so vistas nem reconhecidas
destino deseja que lhe supliquem para fazer o              em D.". Desse ponto de vista, a tica crist  "a
que estabelecera fazer. "Quer ainda o fado que,            realizao, entre as criaturas de D., da realida-
conquanto at Jpiter saiba ser ele imutvel, e            de reveladora de D. em Cristo" (Ethik, 1949, II;
que outra coisa no pode ser seno aquilo que              trad. in., pp. 55 ss.). A novidade de doutrinas
deve ser e ser, no deixe de, por tais meios,             desse tipo consiste, por um lado, no abandono
DEUS                                                257                                              DEUS

das tradicionais especulaes teolgicas e, por           dade com a condio das causas prximas".
outro, na nfase na funo do Cristo; "D. e o             Por isso, "acontece infalvel e necessariamente
mundo esto compreendidos em seu nome;                    aquilo que a providncia divina dispe que
portanto, no se pode falar de D. e do mundo              acontea assim, mas acontece de forma contin-
sem falar de Cristo" {Jbid., p. 6l). Mas o pres-          gente aquilo que a providncia divina quer fa-
suposto terico  sempre o mesmo: a identida-             zer assim acontecer" (S. Th., I, q. 22, a. 2). No
de de D. com o mundo moral.                               se trata, obviamente, de uma soluo isenta de
    c) Deus como criador da ordem moral. Essa             dificuldades, pois no  fcil entender como a
terceira concepo  caracterizada: le pela dis-          realizao de um desgnio perfeito e minucioso
tino entre D. e sua ao providencial, sendo            pode ser confiada, mesmo que em parte, ou
D. causa livreda ordem moral; 2" pela tentativa           em parte mnima, ao comportamento impre-
de salvar a liberdade do homem. O ponto de                visvel de um fator arbitrrio. Mas essa  a so-
partida dessa concepo continua sendo a no-              luo repetida constantemente no mbito des-
o de providncia, da forma elaborada por es-            sa concepo, que tende a ressaltar a liberdade
ticos e neoplatnicos. Bocio assim a distin-            da causalidade divina com vistas  soluo do
gue da concepo de destino: "A providncia              outro problema fundamental da teodicia, o do
a prpria razo divina constituda como princ-           mal, expresso pela velha frmula: "SiDeusest,
pio soberano de tudo, que ordena todas as coi-            unde malum? Si non est, unde bonum?" Os
sas, ao passo que o destino  a ordem que rege            escritores dos scs. XVII e XVIII (especialmen-
as coisas em seu movimento e por meio do                  te Bayle, os destas e Leibniz) discutiram lon-
qual a providncia as liga, dando a cada uma o            gamente esses problemas, sem encontrar novas
lugar que lhe compete" (Phil. cons., IV, 6, 10).          solues (v. MAL). De um lado, Bayle dava des-
Essa distino no eqivale, obviamente, a                taque  insuficincia das solues tradicionais e
uma separao: providncia e destino em lti-             julgava esses problemas insolveis; de outro,
ma anlise coincidem, j que o primeiro  a               Leibniz repropunha as solues tradicionais in-
unidade da ordem vista pela inteligncia divi-            serindo-as no seu conceito de mundo como or-
na, e o segundo  essa mesma ordem enquan-                dem que se organiza espontaneamente e de D.
to realizada no tempo. O problema a que uma               como princpio dessa organizao. Em virtude
e outro do origem  o do livre-arbtrio, carac-          desse conceito, Leibniz podia admitir um de-
terstico dessa concepo de D. Bocio anteci-            terminismo no necessitante, no que diz res-
pa o esquema de todas as solues que depois              peito  vontade humana na ordem providencial
lhe sero dadas, afirmando que as aes huma-             (Disc. de mt.,  30), e reapresentar, com mais
nas esto includas, justamente em sua liberda-           plausibilidade, a antiga tese de que o mal no
de, na ordem providencial {ibd., V, 6). Com              existe, no tem realidade prpria, mas  um
forma mais precisa e circunstanciada, a mesma             ingrediente indispensvel, embora incmodo,
soluo ( qual, em geral, se ativeram os filso-         do melhor dos mundos possveis ( Thod., I,  21).
fos medievais) foi reproposta por S. Toms.-              Todavia, o conceito de D. como "substncia
este afirma, por um lado, o carter integral ou           necessria" continuava em Leibniz (Monad.,
totalitrio da ao providencial, e por outro              38), e esse conceito  dificilmente compatvel
julga a providncia concilivel com a liberdade           com a causalidade livre de D. Como afirmava
humana, que se insere, como tal, no quadro da             Avicena, que foi o primeiro a enunciar esse
providncia. Diz S. Toms: " prprio da provi-           conceito, uma substncia s pode ter uma cau-
dncia ordenar as coisas para um fim. Depois              salidade necessria e comunicar sua necessida-
da bondade divina, que  um fim separado das              de a tudo o que dela provm. Em sua formula-
coisas, o bem principal, existindo nas prprias           o tradicional, essa concepo de D. revela-se
coisas,  a perfeio do universo; esta no exis-         uma composio sincrtica, cujos elementos
tiria se no se encontrassem nas coisas todos             no so todos compatveis uns com os outros.
os graus do ser. Da se segue que  da di-                Com efeito, extrai da concepo (b) o conceito
vina providncia produzir todos os graus do               de plano providencial, que, na histria da filo-
ser e, por isso e para certos efeitos, ela prepa-         sofia, nasceu da identificao de D. com o mundo
rou causas necessrias, a fim de que aconteces-           ou com sua ordem. E combina essa doutrina
sem necessariamente, mas para outros efeitos              com outra, de origem rabe, para a qual D. 
preparou causas contingentes a fim de que                 substncia necessria, bem como com o ele-
acontecessem contingentemente em conformi-                mento greco-cristo-judaico, de Deus como
DEUS                                                258                                               DEUS

causa livre. No  de estranhar que da compo-             de tantos motores quantos so os movimentos
sio de elementos conceituais to heterog-              das esferas celestes; e como o nmero das esfe-
neos tenham nascido conflitos e problemas de              ras era 47, segundo Eudxio, e 55, segundo
extrema dificuldade. Na prpria filosofia con-            Calipo (os dois astrnomos a quem Aristteles
tempornea, as solues oferecidas para tais              se referia), esse filsofo admite 47 ou 55 divin-
problemas no so diferentes das citadas; s              dades que, conquanto subordinadas ao primei-
vezes, tornam-se ainda menos convincentes                 ro motor, tm o mesmo nvel dele. Alm disso,
devido  nfase dada ao carter necessrio da             ele fala constantemente de "deuses" (Et. nic,
realidade divina pela influncia do imanentismo           X, 9, 1179 a 24; Met., I, 2, 983 a 11; III, 2, 907
romntico.                                                b 10, etc), e, aludindo  convico popular de
   3. DEUS F. A DIVINDADE.                                que o divino abrange toda a natureza, acha que
    O terceiro modo de distinguir as concep-              esse ponto essencial, ou seja, "que as substn-
es de D. consiste em consider-las quanto              cias primeiras so tradicionalmente considera-
relao entre D. e ele mesmo, ou, mais preci-             das deuses", foi "divinamente dito" e  um dos
samente, entre D. e a divindade. Na distino             ensinamentos preciosos que a tradio salvou
ou na identificao entre D. e a divindade esto          (Met.. XII, 8, 1074 a 38). Em outros termos, da
as duas alternativas, politesmo ou monotesmo.           substncia divina participam muitas divinda-
Se D. se distingue da divindade, tem-se uma               des; nisso coincidem crena popular e filosofia.
relao semelhante  que existe entre a huma-                 Por outro lado. no se deve confundir a
nidade e o homem, podendo haver muitos deu-               insistncia de Plotino e dos neoplatnicos em
ses, assim como h muitos homens. Se, porm,              geral na unidade de Deus com o reconheci-
D.  identificado com a divindade, h um s               mento da unicidade de D. D.  uno, alis  o
D., assim como h uma s divindade. A prop-              Uno porque  a unidade do mundo e a fonte
sito,  oportuno dar pouca importncia ou aceitar         de onde brotam ou emanam todas as ordens
com muita cautela as qualificaes com que os             da realidade. Mas justamente por isso no 
filsofos so comumente caracterizados. Na                nico: a unidade no elimina a multiplicidade,
verdade, muitos fisofos so qualificados de              mas a contm em si mesma. Alis, para Plotino,
monotestas, quando no o so (p. ex., Plato,            a multiplicidade dos deuses  a manifestao
Aristteles, Plotino, Bergson, etc), e, como se           da potncia divina; "No restringir a divindade
ver a seguir, o politesmo tem mais difuso              a um nico ser. mostr-la to mltipla quanto 
entre os filsofos do que o monotesmo. Em                em sua manifestao, eis o que significa conhe-
todo caso, para uma distino rigorosa, cum-              cer a potncia da divindade, que  capaz de,
pre ter em mente apenas o critrio indicado               mesmo permanecendo o que , criar uma mul-
(qual seja, a relao entre D. e a divindade),            tiplicidade de deuses que se ligam a ela, exis-
que  o nico que no se presta a equvocos.              tem para ela e vm dela" (Enn., II, 9, 9). Obvia-
    a) Politesmo. Como vimos, devem ser con-             mente, a multiplicidade de deuses em que a
sideradas politestas todas as doutrinas que ad-          divindade se multiplica e se expande, sem real-
mitem de algum modo a distino entre divin-              mente se dividir, no exlui uma hierarquia e a
dade e D., porque, para essas doutrinas, a                funo preeminente de um deles (o Demiurgo
divindade pode ser compartilhada por um n-               ou o Motor de Plato, o Primeiro Motor de
mero indefinido de entes. Foi essa, sem dvi-             Aristteles, o Bem de Plotino); mas o reco-
da, a doutrina de Plato. Em Timeu, o Demiur-             nhecimento de uma hierarquia e de um chefe
go delega a outros deuses, criados por ele                da hierarquia no significa absolutamente a
prprio, parte de suas funes criadoras (Tim.,           coincidncia entre divindade e D., no sendo,
40 d), e em Leis a expresso "Deus" (o thes)             pois, monotesmo.
designa a divindade em geral, que encontra                    Por outro lado, no seria exato supor que o
realidade numa multiplicidade de deuses. Ade-             politesmo, entendido na forma exposta acima,
mais, alm dos deuses, so reconhecidos ou-               seja uma alternativa exclusiva da filosofia paga
tros seres divinos, os demnios. "Depois dos              e que, portanto, no se apresente mais, depois
deuses, o homem inteligente honra os de-                  da elaborao crist do monotesmo. Essa ela-
mnios; depois destes, os heris" (Leis, 717              borao no consegue eliminar os repetidos
b). Aristteles, por sua vez, julga que a mes-            ressurgimentos do politesmo, seja em doutri-
ma demonstrao vlida para a existncia do               nas que, como a das quatro naturezas de Scotus
primeiro motor vale tambm para a existncia              Erigena, reproduzem o esquema neoplatnico,
DEUS                                                259                                                    DEUS

seja nas interpretaes trinitrias menos feli-           Alexandria, que afirma que "D.  solitrio, 
zes, que s vezes se inclinam para o politesmo.          um em si mesmo e nada  semelhante a D.";
Foi o que aconteceu, p. ex., com Gilbert de Ia            portanto, "ele est na ordem do uno e da
Porre (sc. XII), que tomava por base a distin-          mnada, ou melhor,  a mnada na ordem do
o entre detas e Deusiv. DEIDADK). Por outro            D. uno, j que todo nmero  mais recente que
lado, toda forma de pantesmo, antigo ou mo-              o mundo, e assim o tempo, mas D.  mais
derno, tende a ser politesta, j que tende a di-         velho que o mundo e seu Demiurgo" {Ali. leg.,
fundir o carter da divindade por certo nmero            II, 1- 3). Nas discusses trinitrias da fase patrstica
de entes, debilitando ao mesmo tempo a sepa-              e da Escolstica, a identidade de D. com a di-
rao entre esses entes e mantendo a distino            vindade foi o critrio dirimente para reconhe-
entre divindade e D. Assim, para Hegel, as insti-         cer e combater as interpretaes que se incli-
tuies histricas nas quais se realiza a razo           navam para o tritesmo. Por certo, a Trindade 
autoconsciente, em primeiro lugar o Estado,               constantemente apresentada como um mist-
so verdadeiras divindades: "O Estado", diz He-           rio que a razo mal pode aflorar. Mas o que
gel, " a vontade divina enquanto esprito atual          importa ressaltar  que a unidade divina s 
que se explicita coma forma reale como orga-              considerada cindida quando, com a distino
nizao de um mundo" (Fil. do dir,  270). So            entre D. e a divindade, se admite, implcita ou
ainda mais claramente politestas as formas do            explicitamente, que dela participam dois ou mais
pantesmo moderno. Bergson, Alexandre, Whi-               seres individualmente distintos. A melhor ex-
tehead (d. os trechos citados em 1 B), confe-             posio desse ponto de vista pode ser vista em
rindo ao mundo o poder de realizar a divinda-             S. Toms, que assim resume uma longa tradi-
de, reconhecem explicitamente que esta, no                o (v. tambm, p. ex., RICARDO DE SO VTOR,
momento da realizao, concretizar-se- numa              De Trin., I, 17). "E evidente", diz S. Toms, "que
multiplicidade de seres divinos. De outro pon-            aquilo pelo que algo singular  este singular de
to de vista, Hume conferira valor positivo ao             modo nenhum  comunicvel a outras coisas.
politesmo, quer porque este, ao admitir que os           P. ex., aquilo pelo que Scrates  homem pode
deuses de outras seitas ou naes tambm parti-           ser comunicado a muitos outros seres, mas aquilo
cipam da divindade, torna as vrias deidades              pelo que ele  este homem pode ser comunica-
compatveis e obsta  intolerncia, quer por-             do a este apenas. Se, portanto, Scrates fosse
que ele  mais racional, pois consiste "apenas            homem com fundamento naquilo pelo que 
numa coleo de histrias que, apesar de no              este homem, assim como no pode haver mais
terem fundamento, no implicam nenhum ab-                 de um Scrates, tampouco poderia haver mais de
surdo expresso nem contradio demonstrati-               um homem. Mas esse  precisamente o caso de
va" (The Natural History ofReligion, se. XI e            D., j pois D.  a prpria natureza, de tal forma
XII, em Essays, II, pp. 336 e 352). Renouvier             que ele, sob o mesmo aspecto,  D. e esteD.; 
defendia explicitamente o politesmo como nico           impossvel, portanto, que haja mais de um D."
corretivo do fanatismo religioso e do absolutis-          (5. Th., I, q. 11 a 3). Esse  o motivo pelo qual
mo filosfico. Dizia: "O progresso da vida e da           os telogos medievais insistem na simplicida-
virtude povoa o universo de pessoas divinas e             de da natureza divina, que na realidade nada mais
estaremos sendo fiis a um sentimento religio-            significa do que a incomunicabilidade dessa natu-
so antigo e espontneo quando chamarmos de                reza e, portanto, a impossibilidade de que ela
deuses aqueles que acreditarmos capazes de                seja compartilhada por mais de um D. A partir
honrar a natureza e abenoar as obras" (Psy-              de S. Toms, a histria da filosofia pouco acres-
chologie rationelle, 1859, cap. XXV, ed. 1912,            centou a esses conceitos. A decadncia da es-
p. 306). Esse politesmo no  inconcilivel com          peculao teolgica tornou, alis, os filsofos
a unidade de D. porque o D. uno seria, ento,             menos sensveis  preciso desses conceitos,
a primeira das pessoas super-humanas.                     de tal modo que, com muita freqncia, as qua-
                                                          lificaes do monotesmo e politesmo so em-
    b) Monotesmo. Como se disse, o mono-                 pregadas aleatoriamente, limitando-se o po-
tesmo no se caracteriza pela presena de uma            litesmo a uma manifestao da mentalidade
hierarquia de seres e por um cabea dessa hie-            primitiva, conquanto ele seja, como se viu, uma
rarquia, mas pelo reconhecimento de que s                alternativa filosfica em cujo favor est toda a
D. possui a divindade e que D. e divindade                tradio clssica e muitas das tentativas moder-
coincidem. Nesse sentido, na histria da filoso-          nas de inovar o conceito de D.
fia, o monotesmo comparece em Flon de
DEUS                                                260                                 DEUS, MORTE DE

   4. A REVELAO DE DFAJS.                                   O desmo do sc. XVIII, assim como o seu
   O quarto e ltimo modo de distinguir as                precedente histrico, a doutrina da religio na-
concepes de D. consiste em considerar a via             tural dos scs. XVI e XVII ( Thomas Morus, Herbert
de acesso a D. que essas concepes conce-                de Cherbury, Locke), contrape  revelao
dem, ou no, ao homem. A esse ponto de vista              histrica a revelao natural, que ocorre atra-
dizem respeito, especialmente, a distino e a            vs da razo, chegando a ver no Evangelho
oposio entre desmo e tesmo, que consis-               (como Matteo Tindall) apenas "uma republicao
tem, grosso modo, em considerar a manifesta-              da lei da natureza" (O cristianismo antigo como
o de D. como iniciativa do homem (desmo)               criao, 1730). Obviamente, uma divindade que
ou de D. (tesmo). Portanto,  possvel distin-           se revela  razo s tem e s pode ter caracteres
guir duas concepes principais: i) a que atri-           racionais; por isso, o desmo restringe os atri-
bui  iniciativa do homem e ao uso das capaci-            butos da divindade aos que podem ser deter-
dades naturais de que dispe o conhecimento               minados pela razo a partir da relao entre D.
que o homem tem de D.; ii) a que atribui                 e o mundo. Em face disso, o tesmo, como diz
iniciativa de D. e  sua revelao o conheci-             Kant, "cr num D. vivo, num D. cujos atributos
mento que o homem tem de D. Obviamente,                   podem ser determinados por analogia com a natu-
essas duas concepes podem combinar e dar                reza e com fundamento na revelao" (Crt. R.
lugar a iii), para a qual a revelao s faz con-         Pura, dialtica, captulo III, se. 7).  preciso,
cluir e levar a cabo o esforo natural do ho-             porm, ressaltar que, na terminologia filosfica
mem para conhecer D.                                      predominante depois do Romantismo, utiliza-
                                                          da sobretudo pelo pantesmo, a "revelao de
    Desses trs pontos de vista, o primeiro  o           D." no  um fato histrico, mas manifestao
mais estritamente filosfico; os outros dois so          progressiva de D. na realidade natural e hist-
predominantemente religiosos. A filosofia gre-            rica do mundo. Alm de predominar nas filoso-
ga s conheceu o primeiro. O segundo ponto                fias de Hegel e Schelling, esse significado 
de vista pode ser visto com toda a clareza em             importante em filosofias do sc. XIX que obe-
Pascal: " o corao que sente D., no a razo.           decem  mesma inspirao. Rosmini apresenta
Eis o que  a f: D. sensvel ao corao, no            como fundamento da filosofia e, em geral, do
razo" (Penses, 278). E Pascal acrescenta logo:          saber humano, a idia do ser, que  revelao
"A f  um dom de D." (Jbid., 279). Por isso, a           direta do atributo fundamental de D.  mente
revelao autntica de D. ao corao do ho-               do homem {Novo ensaio,  1055); de modo
mem  uma iniciativa exclusivamente divina,               anlogo, Gioberti considera como base do co-
iniciativa que o homem pode facilitar,  verda-           nhecimento a intuio, que  a revelao imedi-
de, dominando suas paixes, mas no solicitar             ata de D. ao homem (Introduo, II, p. 46, 1).
ou provocar. O terceiro ponto de vista foi ins-
taurado pela Patrstica, que considerou a reve-              Essa idia tem trnsito em doutrinas ds-
                                                          pares e tambm pode ser vista nas que acen-
lao crist como o cumprimento da filosofia
                                                          tuam ao mximo a transcendncia de D. e,
grega. Esta  produto da razo, do Logos, que             portanto, vem sua nica revelao possvel na
 o primognito de D., e contm verdades ou               inatingibilidade. Essa  a doutrina de Jaspers,
germes de verdade que o cristianismo leva ao              para quem o fracasso inevitvel do homem em
desenvolvimento pleno (JUSTINO, Apol. sc, 13).           sua tentativa de alcanar a Transcendncia  a
O princpio de que a revelao no anula e                nica revelao possvel, a cifra da prpria
nem inutiliza a razo dominou toda a filosofia            Transcendncia (Phil., III, p. 134).
escolstica e foi posto em dvida s pelas lti-
                                                             DEUS, MORTE DE (in. Death of God; fr.
mas manifestaes desta, no sc. XIV. No                  Mort de Dieu; ai. Gottertod; it. Morte di Dio).
Renascimento, inverte-se: a revelao no che-            O anncio de que "Deus morreu" foi feito
ga no fim, para cumprir a obra da razo, mas a            por Nietzsche, no sentido de que "a f no D.
inspira e a sustenta desde o incio. A razo s           cristo tornou-se inaceitvel" 04 gaia cincia,
faz transmitir e ilustrar a verdade que D. reve-          1882,  108, 125, 343), mas hoje  considerado
lou em tempos remotos. Esse foi, p. ex., o pon-           smbolo da renovao do cristianismo, que
to de vista de Pico delia Mirandola e de Gior-            precisava libertar-se das estruturas mitolgicas
dano Bruno. Em ambos os casos, porm, a                   e sobrenaturalistas de que se revestira nos s-
obra da razo e a da revelao colaboram, e               culos anteriores, reencontrando a pureza de
no so antitticas.                                      sua mensagem. Essa "nova teologia" inspira-se
DEUS, PROVAS DE                                     261                               DEUS, PROVAS DE

substancialmente na obra de Bultman (v. DES-               todos os homens  a nica base presumida
MITIFICAO)  e de Bonhoeffer (v. DEUS, 2, b):             para admitir o seu carter inato.
contrape a f  religio, nega a transcen-                    2S O argumento mais antigo e respeitvel, e
dncia de D. (sendo, pois, quase um pan-                   tambm o mais simples e convincente,  o da
tesmo) e transfere para o mundo histrico a               ordem ou desgnio do mundo, que, em termos
esperana escatolgica dos primrdios do cris-             modernos, se chama argumento teleolgico ou
tianismo ao afirmar que "D. no , mas ser",             fsico-teolgico. Foi ele que convencera Ana-
no sentido de que se realizar como amor no                xgoras a admitir a Inteligncia como causa
seio de uma comunidade humana ajustada ao                  ordenadora do mundo. Plato e Aristteles fa-
exemplo de Cristo (G. VARTANIAN, Death ofGod,              zem-lhe referncia freqente. O primeiro diz,
1961; T. AmzER, The GospelofChristianAtheism,              p. ex.: "Que a Inteligncia ordena todas as coi-
1967).                                                     sas  afirmao digna do espetculo que nos
    DEUS, PROVAS DE (in. Arguments for God;                oferecem o mundo, a lua, os astros e todas as
fr. Preuves de Deu; ai. Gottesbeweise, it. Prove          revolues celestes" (Fil, 28 e). E Aristteles,
diDi). Entenderemos por essa expresso no                que repetira esse argumento em seu dilogo
                                                           juvenil Sobre a filosofia, adaptando-lhe o mito
s as "demonstraes", mas tambm os indcios
                                                           platnico da caverna (os homens reconhece-
ou as indicaes que foram consideradas pro-               riam a existncia de D. assim que sassem da
vas da existncia de D. Cada uma dessas                    caverna, s com olhar a natureza) (Fr. 12",
provas nasceu de determinada concepo de                  Rose), o pressupe quando compara D. ao
D. e recorre a certo tipo de causalidade, mas              chefe de uma casa bem organizada ou de um
cada concepo tambm se vale de provas                    exrcito (Met., XII, 10, 1075 a 14). Podemos ler
extradas de concepes diferentes, de modo                esse argumento na formulao de Flon: "Se
que, via de regra, h certo sincretismo nesse              virmos uma casa construda com cuidado, com
ramo do pensamento filosfico. No entanto,                 vestbulos, prticos, apartamentos para ho-
existe um argumento que no se refere a ne-                mens, mulheres e para outras pessoas, teremos
nhuma concepo de D. em especial, que                     uma idia do artista: no acharemos que foi
enunciaremos em primeiro lugar.                            feita sem arte e sem artesos. E o mesmo dire-
    le O recurso ao consenso comum  uma                   mos de uma cidade, de um navio, ou de um
prova que vez por outra aparece na histria da             objeto qualquer construdo, seja ele pequeno
filosofia. Dele se valeu Aristteles para de-              ou grande. Do mesmo modo, aquele que en-
monstrar que a divindade reside no primeiro                trou nesse mundo como uma casa ou numa
cu, e no tanto que ela existe (De cael., I, 3,           enorme cidade e viu o cu que gira em crculo
270 b 17). Mas esse argumento foi muito de-                e tudo contm, os planetas e as estrelas fixas
senvolvido pelos platnicos eclticos do sc. I            movidos por movimento idntico ao do cu,
a.C, e  provvel que Ccero o tenha extrado              simtrico, harmonioso e til ao todo, e a terra
deles. "Para demonstrar a existncia dos deu-              que recebeu o lugar central... esse homem con-
ses, o argumento mais forte que podem aduzir               cluir que tudo isso no foi feito sem uma arte
 que nenhum povo  to brbaro, que ne-                   perfeita e que o artfice desse universo foi e 
nhum homem  em absoluto to selvagem, a                   D." (Ali. leg., III, 98-99). Obviamente, como
ponto de no ter em sua mente indcio da cren-             notava Kant, esse argumento conclui pela exis-
a nos deuses" (Tusc, I, 30). Pode-se conside-             tncia de um Demiurgo, isto , do criador da
rar equivalente a esse argumento a crena de               ordem do mundo, e no do criador do mundo.
que a idia de D.  uma das idias inatas ou              Todavia, foi tambm utilizado por aqueles que
constitutivas da natureza racional humana. Tal             admitem a causalidade criadora de D. Sua fora
foi a tese dos neoplatnicos de Cambridge no               probante reside na noo de ordem, mais pre-
sc. XVII (Herbert de Cherbury, Cudworth,                  cisamente no carter absoluto dessa noo (v.
                                                           ORDEM). Esse foi,  e continua sendo o argu-
Moore), que Locke teve presente em sua crtica
do inatismo do Livro I do Ensaio. E foi essa a             mento mais simples e popular, mas nem por
tese defendida no sculo seguinte pela escola              isso o mais frgil. Stuart Mill procurou expres-
escocesa do senso comum (Thomas Reid e                     s-lo de forma mais rigorosa em quatro partes,
                                                           em conformidade com os quatros mtodos
 Dougald Stwart). A afirmao do carter inato
                                                           indutivos: concordncia, diferena, resduos e
da idia de D. eqivale ao recurso ao consensus           variaes concomitantes (Three Essays on
gentium, porque a presena da idia de D. em
DEUS, PROVAS DE                                      262                                DEUS, PROVAS DE

Religion, 1875, com o ttulo Theism, 1957, p.              tendem D." (5". Th., I, q. 2, a. 3). Esse argumen-
27). C. S. Peirce deu-lhe uma forma no muito              to foi criticado j no fim da Escolstica:
diferente da tradicional, ao considerar D. como            Ockham nega a validade dos dois princpios
Ens necessarium, criador dos trs universos de             em que ele se funda. Na verdade, observa ele,
experincia (das idias puras, das coisas reais            pode-se racionalmente afirmar que alguma coi-
e dos signos), cuja existncia pode ser demons-            sa se move por si, como a alma, o anjo ou o
trada pela ordem desses trs mundos e por sua              peso que tende para baixo; e que o processo
concordncia (Coll. Pap., 6, 452 ss.; o texto  de         ao infinito se d freqentemente na experin-
1908). Contudo, no se deve esquecer que o                 cia, p. ex. quando bate numa das extremi-'
conceito de ordem (v.)  relativo; como                    dades de um comprimento contnuo: a parte
observava Peirce, "um mundo aleatrio  sim-               atingida movimentar a parte mais prxima,
plesmente o nosso mundo real do ponto de                   esta movimentar outra, e assim por diante infi-
vista de um animal com o mnimo absoluto de                nitamente (Cent. theol., Concl. I, D). Essa prova
inteligncia"; portanto, a noo de ordem difi-            tambm conclui apenas pela existncia de um
cilmente se presta a remontar a noo de Esp-             primeiro motor, e no de uma causa criadora,
rito Ordenador (Chance, Love and Logic, I, 5,              sendo utilizada com esse fim por Plato e por
2; trad. it., p. 83).                                      Aristteles. Kant considerou essa prova idnti-
    3a Uma variante ou determinao desse                  ca s duas precedentes e observou que  difcil
argumento  a prova causai que pode ser                    estabelecer uma proporo precisa entre movi-
encontrada em Aristteles (Mel., II, 2) e depois           mento e motor, ou seja, induzir da ordem e do
 retomada pelos autores rabes (Avicena) e                movimento a existncia e os caracteres de uma
por S. Toms. Funda-se no princpio de que                causa infinita. "Espera", disse ele, "que nin-
impossvel remontar ao infinito na srie das               gum jamais tenha a presuno de conhecer a
causas materiais e das causas eficientes, ou               relao entre a grandeza do mundo por ele
das causas finais ou das conseqncias, e que,             observada (por extenso e contedo) e a oni-
portanto, deve haver, em cada srie um pri-                potncia, entre a ordem csmica e a suma sa-
meiro princpio do qual depende a srie toda.              pincia, entre a unidade csmica e a unidade
Como a argumentao tambm vale para as                    absoluta do criador, etc." (Crt. R. Pura, Dia-
causas finais, leva a ver em D. o fim ltimo, o            ltica, c. III, se. 6).
bem supremo segundo o qual se ordenam to-                      5e O chamado argumento do graus fora ex-
das as coisas do mundo (Jbid., XII, 7, 1072 b 2).          posto por Aristteles em seu maior dilogo ju-
Essa prova pode ser considerada uma transi-                venil, Sobre a filosofia-. "Em geral, nas coisas
o entre a prova teolgica e a do movimento;              em que h o melhor, h tambm o timo; e
na verdade, s vezes  interpretada como uma,              como h o timo nas coisas que existem de um
s vezes como outra.                                       modo ou de outro, haver nelas tambm o
    4a A prova considerada mais slida no mun-             timo, que poderia ser divino" (Fr. 16, Rose). Era
do clssico e medieval  a do movimento.                   reproduzido por Ccero da seguinte forma:
Foi exposta pela primeira vez por Plato ( Leis,           "No se pode afirmar que em cada ordem de
X, 894-95) e reexposta por Aristteles (Fs.,              coisas no haja algum termo extremo, uma per-
VIII, 1; Mel, XII, 7). Na Escolstica latina foi           feio absoluta, pois vemos que para uma
introduzida por Adelardo de Bath no sc. XI                planta, para um animal, a natureza se no se
(Quaest. nat., 60). Podemos encontr-la na ex-             lhe ope fora alguma, segue seu caminho e
posio de S. Toms, que  a mais clara e su-              chega ao termo ltimo, e que a pintura, a
cinta. Parte do princpio de que "tudo o que se            arquitetura e as outras artes alcanam tambm
move  movido por outra coisa". Ora, "se aqui-             resultado perfeito em suas obras. O mesmo
lo pelo qual  movido por sua vez se move                 deve ser dito para toda natureza e com muito
preciso que tambm ele seja movido por outra               maior razo: deve-se necessariamente produzir
coisa e esta por outra. Mas no  possvel conti-          e realizar uma forma absolutamente perfeita"
nuar ao infinito; seno, no haveria um primei-            (De nat. deor, II, 13, 35). Essa prova foi reex-
ro motor e nem mesmo os outros motores mo-                 posta por S. Agostinho (De civ. Dei, VIII, 6) e
veriam assim como, p. ex., o basto no move               encontrou forma clssica em Monologion de
se no for movido pela mo. Portanto,  preci-             Anselmo. Diz este: "Se no pode negar que
so chegar a um primeiro motor que no seja                 algumas naturezas so melhores do que outras,
movido por nenhum outro, e por ele todos en-               a razo nos convence de que h uma to ex-
DEUS, PROVAS DE                                       263                                 DEUS, PROVAS DE

celente que nenhuma outra haver que lhe seja               assim esquematizada: "Se algo existe, deve
superior. De fato, se essa distino de graus               existir um ser necessrio. Mas algo existe (p.
presseguisse ao infinito, de modo que no                   ex., eu mesmo), logo existe o ser necessrio".
houvesse um grau superior a todos, a razo                  Em conformidade com esse esquema, essa prova
seria levada a admitir que o nmero dessas                   exposta por Descartes (Secondes Rponses,
naturezas  infinita. Mas como isso  conside-              prop. 3), por Locke (Ensaio, IV, 10), por Leibniz
rado absurdo por qualquer um que no seja                   (Thod., I,  7; Monad.,  45) e por Clarke
carente de razo, deve haver necessariamente                (Demonstration of the Being and Attributes of
uma natureza superior, que no possa ser su-                 God, 1705). A prpria prova que Berkeley ex-
bordinada a nenhuma outra como inferior"                    traiu do princpio esse estpercipi  uma variante
(Mon., 4). O fundamento dessa prova  o prin-               da prova cosmolgica: "As coisas sensveis
cpio platnico de que tudo o que possui certa              realmente existem; se realmente existem, so
qualidade possui-a por participao naquilo a               necessariamente percebidas por um esprito in-
que essa qualidade inere de modo essencial e                finito; logo, h um Esprito infinito, ou D." (Dia-
eminente; p. ex., tudo o que  quente  quente              logues Between Hylas and Philonous, II,
por participao no fogo, que  quente por                   Works, ed. Jessoup, II, p. 212). Kant considerou
essncia (Fed., 101 d e ss.). Esse princpio fora           a prova cosmolgica como "uma prova onto-
admitido tambm por Aristteles (Met., II, 1,               lgica mascarada", uma prova que passa da
993 b 25), ao qual freqentemente remetem os                conexo puramente conceituai entre as noes
escritores medievais.                                       de possvel e necessrio  afirmao da realida-
     6" A prova chamada por S. Toms de ex                  de necessria (Crt. K. Pura, Dialtica, cap. III,
possbili et necessrio, por Leibniz de contn-             se. 5). G. Boole, fundador da lgica, transcre-
gentia mundi, e por Kant, de prova cosmol-                 vendo em smbolos o argumento de Clarke,
gica,  uma das mais felizes; foi exposta pela              mostrava que no h concluso derivvel das
primeira vez por Avicena e est intimamente                 premissas que afirmam a verdade ou a falsida-
 ligada  concepo de D. tpica do neopla-                 de da proposio "algo. que  existe pela ne-
 tonismo rabe. Avicena (Met., II, 1, 2) distingui-         cessidade de sua natureza", ou da proposio
 ra o ser em necessrio e possvel, definindo o             "algo que  existe pela vontade de outro ser",
 possvel como o que no existe por si, mas tem             nem da combinao das duas proposies
 necessidacie de alguma coisa para existir. Por-            (Laws of Thought, 1854, cap. 13). A essa prova
 tanto, se existe um possvel, existe algo que o            se deve a definio de D. como ser necessrio,
 faz existir; mas se esse algo , por sua vez,              que  das mais comuns, sendo usada mesmo
 possvel, remete ainda a um outro que seja                 por quem no se vale da prova relativa ou
 causa de sua existncia; e assim por diante, at           desconhece sua validade.
 se chegar ao ser necessrio, que  o que existe                1- A prova ontolgica foi formulada no sc.
 por si. Dessa prova resulta a definio de D.              XI por Anselmo de Aosta. Sua caracterstica 
 como ser necessrio, cujo antecedente pode                 passar do simples conceito de D.  existncia
 ser encontrado em Aristteles (Met., XII, 7,1072           de D. Eis a formulao de Anselmo: "Certa-
 b 10). Mas seu sentido  diferente na filosofia            mente aquilo de que no se pode pensar nada
 rabe, em que visa afirmar a necessidade de                de maior no pode estar s no intelecto. Por-
 tudo o que existe, portanto tambm do poss-               que, se estivesse s no intelecto, poder-se-ia
 vel, que, se existe, existe necessariamente pela           pensar que estivesse tambm na realidade, ou
 ao de uma causa necessria. Apesar de seus               seja, que fosse maior. Se, portanto, aquilo de
 vnculos com o necessitarismo rabe, essa pro-             que no se pode pensar nada de maior est s
 va foi aceita por Maimnides (Guide des gars,            no intelecto, aquilo de que no se pode pensar
  II, 1) e pela Escolstica latina, na qual foi             nada de maior , ao contrrio, aquilo de que se
  introduzida por Guilherme de Alvrnia (De                 pode pensar algo de maior. Mas certamente
  Trinitate, 7), na primeira metade do sc. XIII.           isso  impossvel. Portanto, no h dvida de
  Desde ento, passou a ser uma das provas                  que aquilo de que no se pode pensar nada de
  mais freqentemente repetidas na histria da              maior existe tanto no intelecto quanto na rea-
  filosofia, sendo de fato a nica aduzida nos              lidade" (Prost., 2). Esse argumento consta de
  scs. XVII e XVIII, ou seja, ainda no perodo             dois pontos: le o que existe na realidade 
  em que muitos conceitos teolgicos e meta-                "maior" ou mais perfeito do que o que existe
  fsicos so criticados e abandonados. Pode ser            s no intelecto; 2- negar que aquilo de que no
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se pode pensar nada de maior existe na reali-               e ser constitui justamente o conceito de D."
dade significa contradizer-se. A esse argumento             {Ene,  51). Por a se pode ver que a prova
o monge Gaunilo, em seu Liberpro insipiente                ontolgica, mais que prova,  a explicitao do
(Anselmo dirigira seu argumento contra o ns-               prprio conceito de D. como ser necessrio:
cio do Salmo 13, que disse "em seu corao,                 com efeito, o ser necessrio existe por essncia
no h D."), aduziu, em primeiro lugar, que se              ou por natureza, isto , por definio. Contudo,
pode duvidar de que o homem tenha um con-                   essa prova  repetida com freqncia na filoso-
ceito de D., e, em segundo lugar, que no se                fia moderna: Lotze, p. ex., repete-a nos mes-
pode deduzir do conceito de um ser perfei-                  mos termos de Anselmo (Mikrokosmus, III, 2-
tssimo a existncia desse ser tanto quanto no             ed, p. 557).
se pode deduzir do conceito de uma ilha                         82 Muito semelhante  precedente, porm
perfeitssima a realidade dessa ilha. Em Liber              mais antiga,  a prova extrada da simples pre-
apologeticus Anselmo respondeu que se pode                  sena da idia de D. no homem. Consiste em
pensar D., como demonstra a prpria f que                  julgar impossvel explicar essa presena de
Anselmo e Gaunilo professam, e que, se                    outro modo que no pela produo de D. mes-
possvel pens-lo, deve-se admiti-lo como exis-             mo, que por isso deve ser considerado existen-
tente, sem que isso valha para qualquer ou-                 te. Assim raciocinavam Justino (Apologia sec,
tro ser, que, embora perfeito, nunca ser aqui-             6), Tertuliano (De testimonio animae, 5) e Joo
lo de que no se pode pensar nada de mais                   Damasceno (Defide orth., I, 1). E a essa tradi-
perfeito. Rejeitado pela maior parte dos esco-              o pertence uma das provas cartesianas da
lsticos (inclusive S. Toms, S. Th., I, q. 2, a. 1         existncia de D., mais precisamente a de que o
ad. 2S), que em geral preferem os argumentos                autor da idia de D. deve possuir pelo menos
aposterori, ou seja, extrados da relao de D.            a mesma perfeio que  representada nessa
com o mundo, o argumento ontolgico teve                    idia, e assim no pode ser outro seno D.
sucesso na filosofia moderna. Foi repetido por              mesmo (Discours, IV, Md., II; Secondes R-
Descartes, para quem a existncia de D. est                ponses, pro. 3)- Uma forma abreviada dessa
implcita no conceito de D., do mesmo modo                  prova (ou da anterior) consiste em julgar a pro-
que est implcito no conceito de tringulo que             posio "D. existe" como conhecida de per si,
seus ngulos internos so iguais a dois ngulos             ou seja, conhecida com base nos prprios ter-
retos (Princ.phil., I, 14). Leibniz, por sua vez,           mos que a compem.  o que faz, p. ex., Duns
aceitou essa prova e formulou-a como identi-                Scot (Op. Ox., I, d. 2, q. 2, n. 3) em polmica
dade de possibilidade e realidade em D. S D.,              com S. Toms. Stuart Mill, que chama essa pro-
disse ele, ou seja, o ser necessrio, tem o pri-            va de "argumento da conscincia", julga-a ina-
vilgio de precisar existir, se ele  possvel. E           ceitvel por "negar ao homem um de seus
como nada pode impedir a possibilidade da-                  atributos mais familiares e preciosos, o de idea-
quilo que no encerra nenhum limite, nenhu-                 lizar ou, como se diz, de construir com os ma-
ma negao e, em conseqncia, nenhuma                      teriais da experincia uma concepo mais
contradio, s isso basta para conhecer a                  perfeita que a contida na experincia" (Three
existncia de D. apriori(Monad.,  45). Segun-              Essays on Religion, 1875, com ttulo Thesm,
do Kant, a prpria prova  contraditria ou                 1957, p. 24).
impossvel: ser contraditria se, j no conceito
de D., se considerar implcita a sua existncia,               9Q A prova moral  acompanhada, via de
por nesse caso no se tratar de simples concei-             regra, por certo ceticismo quanto  validade das
to; e ser impossvel se ela for considerada                demonstraes racionais. Consiste em mostrar
 implcita, pois nesse caso a existncia dever             que a existncia de D.  uma exigncia da vida
 ser acrescida ao conceito sinteticamente, ou               moral, no sentido de que  conveniente ou
 seja, por via da experincia, ao passo que D.              necessrio ao homem crer em D. Mas o adjeti-
 est alm de toda experincia possvel (Crit. R.           vo "moral" aqui no indica s a esfera  qual
 Pura, Dial, cap. III, se. 4). Hegel, porm, de-           pertence a prova, mas tambm uma limitao
 fendeu essa prova afirmando que s no que                 da validade da prova para essa esfera. Uma
 finito a existncia  diferente do conceito, e que         prova moral de D.  a Aposta de Pascal. Segun-
 "D. deve expressamente ser aquilo que pode                 do Pascal, no se pode adiar o problema de D.
 ser pensado s como existente, cujo concei-                e permanecer neutro diante de suas solues.
 to implica a existncia. Essa unidade de conceito          O homem deve escolher entre viver comoseD.
                                                            existisse ou viver comoseD. no existisse; se a
DEUS, PROVAS DE                                           265                                             DEVER

razo no pode ajud-lo nessa escolha, que ele                  vida moral ativa e confiante. Nesse aspecto, D.
considere qual  a escolha mais conveniente                      "objeto mais adequado do nosso esprito".
como se estivesse diante de um jogo ou de                       Num universo sem D., a ao moral parece
uma aposta em que  preciso considerar, por                     destinada ao insucesso; por outro lado, a
um lado, o lance e, por outro, a perda ou a                     ao moral e a f em D. podem contribuir
vitria eventual. Ora, quem aposta na existn-                  para reforar a existncia do mundo invis-
cia de D., se ganhar, ganhar tudo; se perder,                  vel. "D. pode tirar fora vital e acrscimo de
nada perder: portanto,  preciso apostar sem                   ser da nossa fidelidade" (Essays on Faith and
hesitao. A aposta j  razovel quando se                     Morais, p. 30).
trata de um ganho finito e pouco superior ao                         1CF H, por fim, uma prova formulada de
lance, quanto mais se o ganho  infinitamente                   vrios modos, que parte de alguns tipos de
superior ao lance. Nem  preciso dizer que a                    experincia imediata e privilegiada, interpreta-
distncia infinita entre a certeza daquilo que se               dos como relao direta com D. Diz Filon: "Mas
aposta e a incerteza daquilo que se pode ganhar                 h uma inteligncia mais perfeita e mais puri-
equipara o bem finito, que certamente se arris-                 ficada, iniciada nos grandes mistrios, que co-
ca, ao infinito, que  incerto. Todo jogador                    nhece a Causa, no a partir de seus efeitos,
arrisca a certeza para ganhar a incerteza e arris-              assim como se conhece o objeto imvel a partir
ca o finito certo para ganhar o infinito incerto                de sua sombra, mas que transcendeu o efeito e
sem pecar contra a razo. Num jogo em que                       recebe a apario clara do ser no gerado de
houver iguais probabilidades de vencer ou de                    tal modo que o compreende em si mesmo e
perder, arriscar o finito para ganhar o infinito ,             por si mesmo e no em sua sombra, que  a
obviamente, da maior convenincia (Penses,                       izo e o mundo" {Ali. leg., III, 100). Plotino e
 233). Essa aposta parece falar mais a lngua das               i i.s msticos admitem essa forma de experincia
 mesas de jogo que a da vida moral, mas                        direta de D.; segundo Bergson, ela  a nica
 preciso observar que Pascal a utiliza unicamen-                prova possvel da existncia de D. A concor-
te para combater a impotncia de crer produ-                    dncia entre os msticos, no s cristos mas
 zida pelas paixes, e que o resultado dessa                    tambm pertencentes a outras religies,  "o
 prova deveria ser o de "concorrer para conven-                 sinal da identidade de intuio que pode ser
 cer, no por aumentar as provas da existncia                  explicada do modo mais simples como a exis-
 de D., mas por diminuir as paixes". De qual-                  tncia real do ser com o qual acreditam estar
 quer forma,  bvio que semelhante prova s                    em comunicao" (Deux sources, p. 265). De
 tem validade moral em face do comportamen-                     forma atenuada, esse argumento pode ser re-
 to humano: no tem validade terica. Esse mes-                 petido no que se refere  busca pura e simples
 mo carter  absorvido na prova moral da exis-                 de D.: a prpria busca, na variedade dos seus
 tncia de D. formulada por Kant: para ele, D.                 procedimentos e resultados, pode ser uma prova
 um postulado da vida moral: sua existncia                    intrnseca da existncia, sem que seja, porm,
 requisito para a realizao do bem supremo,                    definvel ou determinvel de modo acabado
 da unio de virtude e felicidade, que no se                   aquilo que se busca (PAUL WEISS, em Science,
 verifica na atuao das leis naturais. "O bem                  Philosophy and Religion, Nova York, 1941, I,
 supremo no mundo s  possvel se admitir-                     pp. 413 ss.).  o que j Pascal dizia: " prova de
  mos um Ser Supremo cuja causalidade se con-                   D. no s o desvelo dos que o procuram como
  forma  inteno moral... Logo, a causa supre-                tambm a cegueira dos que no o procuram"
  ma da natureza, porquanto pressuposta para o                  {Penses, 200).
  bem supremo,  um Ser que, mediante o inte-
  lecto e a vontade,  causa (portanto, autor) da                  DEVER (gr. x KaGfjKOV; lat. Officium, in.
  natureza, ou seja,  D." (Crt. R. Pratica, I, 1. II,         Duty; fr. Devoir, ai. Pflicht; it. Dover). Ao
  cap. 2, se. 5). Essa prova, que Kant extraiu das             segundo uma ordem racional ou uma norma.
  famosas consideraes do vigrio saboiano, no                 Em seu primeiro significado, essa noo teve
  IV livro de mile de Rousseau, foi muitas vezes               origem com os esticos, para os quais  D.
  retomada na filosofia contempornea. Outra                    qualquer ao ou comportamento, do homem
  forma da prova moral  a apresentada por James,               ou das plantas e animais, que se conforme 
  que reformulou a aposta de Pascal (The Will to                ordem racional do todo. "Chamam de dever",
   Believe, cap. I), reafirmando a utilidade e a con-           diz Digenes Larcio (VII, 107-09), "aquilo cuja
  venincia da crena em D. com vistas a uma                    escolha pode ser racionalmente justificada...
                                                                Entre as aes realizadas por instinto, algumas
DEVER                                                266                                             DEVER

o so de D., outras contrrias ao D., algumas              rais (Grundlegung zurMet. derSitten, 2). Nes-
no esto ligadas a ele nem dele desligadas. De            se sentido, Kant chama de D. a ao "objetiva-
dever so as aes que a razo aconselha a                 mente prtica", ou seja, a ao na qual coinci-
cumprir, como honrar os pais, os irmos, a                 dem a mxima segundo a qual a vontade se
ptria e estar de acordo com os amigos. Contra             determina e a lei moral. "Nisso consiste a dife-
o D. so as que a razo aconselha a no fazer,             rena entre a conscincia de ter agido em con-
como negligenciar os pais, no cuidar dos ir-              formidade com o D. e a de ter agido por D., ou
mos, no estar de acordo com os amigos                    seja, por respeito  lei." A ao conforme  lei
etc. No so de dever nem a ele contrrias as              mas no realizada por respeito  lei  a ao le-
aes que a razo no aconselha nem probe,                gal; a realizada por respeito  lei  a ao mo-
como levantar um graveto, segurar uma pena,                ral Portanto, moralidade e D. coincidem (Crt.
uma escova, etc." A conformidade com a or-                 R. Prtica, I, 1, cap. 3). A doutrina kantiana do
dem racional (que , de resto, o destino, a pro-           D. foi transformada por Fichte numa verdadei-
vidncia ou Deus)  aquilo que, segundo os                 ra metafsica. "A nica base slida de todo o
estticos, constitu o carter prprio do dever.           meu conhecimento", disse ele, " o meu de-
Os esticos distinguiam, como relata Ccero, o             ver.  ele o inteligvel em si que, mediante as
D. "reto", que  perfeito e absoluto, e no pode           leis da representao sensvel, transforma-se
encontrar-se em ningum seno no sbio, e os               em mundo sensvel" (Sttenlebre,  15, em Werke,
D. "intermedirios", que so comus a todos e               IV, p. 172). Isso no sentido de que o prprio
muitas vezes realizados graas apenas  boa                muncio sensvel outra funo no teria que a de
ndole e a certa instruo (De off., III, 14).             fornecer  atividade moral os limites ou os obst-
    A doutrina do D., como se v, na origem                culos, na luta contra os quais tal atividade
pertence a uma tica fundada na norma do "vi-              teria meios de desempenhar sua funo de li-
ver segundo a natureza", que , de resto, a nor-           bertao.
ma de conformar-se  ordem racional do todo.                   Na tica contempornea, a doutrina do D.
Portanto, no surgiu da tica aristotlica, que           continua ligada  da ordem racional necessria,
inteiramente fundada no desejo natural de fe-              ou norma (ou conjunto de normas) apta a diri-
licidade e faz referncia  ordem racional do              gir o comportamento humano. Isso significa que
todo. A tica medieval, que, por sua vez, toma             sempre que o fundamento da tica for a feli-
como modelo a tica aristotlica, tambm igno-             cidade, individual ou coletiva, a perfeio ou o
ra a teoria do D. e concentra-se na teoria das             progresso da vida individual ou coletiva, no
virtudes, dos hbitos racionais adequados                 haver lugar para a noo de D. No sculo pas-
consecuo da felicidade e da bem-aven-                    sado Bentham opunha-se ao D. em nome de
turana ultraterrena. O conceito de D. volta a             uma tica fundada exclusivamente no interes-
predominar s na tica kantiana, que  uma                 se, julgando intil e sem sentido o apelo ao D.
tica da normatividade. Ela modifica o conceito            (Deontology, 1834,1,1). No nosso sculo, Bergson
estico de D. como conformidade  ordem ra-                tambm se ops ao D. em nome de uma tica
cional do todo, transformando-o em conformi-               do amor. Para Bergson, o D., ou "obrigao
dade com a lei da razo. Para Kant, D.  a ao            moral", no passa de hbito de comportamen-
cumprida unicamente em vista da lei e por res-             to dos membros de um grupo social. Esses
peito  lei: por isso,  a nica ao racional au-         hbitos podem variar, mas seu conjunto, ou
tntica, determinada exclusivamente pela for-              seja, o hbito de adquirir hbitos, tem a mesma
ma universal da razo. Diz Kant: "Uma ao                 intensidade e regularidade de um instinto (Deux
realizada por D. tem seu valor moral no no                sources, p. 21). Essa  a tica da sociedade
fim que deve ser alcanado por ela, mas na                 fechada, mas tambm h a tica "absoluta" da
mxima que a determina; ela no depende,                   sociedade aberta, que diz respeito a toda a hu-
portanto, da realidade do objeto da ao, mas              manidade e  a que d continuidade e faz pro-
somente do princpio da vontade segundo o                  gredir o esforo criador da vida, tendendo a
qual essa ao foi determinada, sem relao                uma forma de sociedade aperfeioada pelo
com nenhum objeto da faculdade de desejar."                amor. -- Entre a persistncia com novas rou-
Em outros termos, "o D.  a necessidade de rea-            pagens da tica clssica da felicidade, o ressur-
lizar uma ao unicamente por respeito  lei",             gimento de ticas misticizantes como a de Berg-
indicando a palavra "respeito" a atitude que               son, e as tentativas de reduzir a tica a um
no leva em conta quaisquer inclinaes natu-              conjunto de desejos no elaborados ou de pre-
DEVERSER                                              267                                        DEVERSER

ferncias sem motivo, a doutrina do D., que                 qualquer funo ao D.-ser e considera-o mero
transformava Kant em poeta ("Dever! Nome                    fantasma. " realidade do racional", diz ele,
sublime e grande que nada contm de agrad-                 "contrape-se, de um lado, a viso de que as
vel que possa adular, mas desejas a submisso;              idias e os ideais so apenas quimeras e que a
que todavia no ameaas nada etc", Crt. R.                 filosofia  um sistema desses fantasmas cere-
Pratica, I, 1, cap. 3), perdeu quase todo o pres-           brais, e, de outro, a viso de que as idias e os
tgio, sem todavia ser substituda por algo de              ideais so algo excelente demais para ter rea-
mais racional.                                              lidade ou impotente demais para atingi-la. Mas a
    DEVER-SER (gr. x ov; in. Oughtness; fr.              separao entre realidade e idia  muito apre-
Devoirtre, ai. Sollen; it. Dover esser). O poss-         ciada pelo intelecto, que considera verazes os
vel normativo: aquilo que  bom que acontea                sonhos de suas abstraes e tem muito orgulho
ou que se pode prever ou exigir com base em                 de seu D.-ser, que apregoa de bom-grado at
uma norma. Plato dizia que, se  verdadeira a              mesmo no campo poltico, como se o mundo
doutrina de Anaxgoras, de uma Inteligncia                 houvesse esperado esses ditames para apren-
que ordena o mundo do melhor modo, ento                    der como deve ser e no : pois se fosse como
"o bem e o dever-ser sustentam e agregam to-                deve ser, aonde iria parar o pedantismo desse
das as coisas" (Fed., 99c). Na filosofia moderna,           D.-ser?" (Ene,  6). As obras de Hegel demoram-
essa noo foi ilustrada por Kant, que diz: "O              se muitas vezes em observaes irnicas e sar-
D.-ser exprime uma espcie de necessidade e                 csticas sobre o dever-ser que no , sobre o
uma relao com princpios que no se verifi-               ideal que no  real, sobre a razo que se su-
cam absolutamente na natureza. Nesta, o inte-               pe impotente para realizar-se no mundo.
lecto pode conhecer s o que , foi ou ser.               Segundo ele, a filosofia no tem a tarefa de
impossvel que alguma coisa deva ser diferente              considerar o que deve ser, mas o que  "real
do que foi de fato em suas relaes temporais.              e presente" (Ibid.,  38).  como a coruja de
Quando se observa o curso da natureza, o D.-                Minerva, que comea a voar no crepsculo, ou
ser no tem o menor significado. No podemos                seja, chega sempre tarde demais, quando a rea-
perguntar o que deve acontecer na natureza,                 lidade j cumpriu o seu processo de formao
assim como no podemos procurar saber que                   e est pronta (Fil. do dir., Pref.). Em outras
propriedades deve ter o crculo, mas apenas o               palavras, no cabe  filosofia outra tarefa seno
que acontece nela, ou quais propriedades este               reconhecer, justificar e exaltar como "racionali-
possui. O D.-ser exprime uma ao possvel,                 dade absoluta" o fato consumado. Trata-se, em
cujo princpio  apenas um conceito, ao passo               substncia, de uma recusa da filosofia de inse-
que o princpio de uma ao natural s pode                 rir-se na realidade e de valer como sua fora
ser um fenmeno.  verdade que a ao deve                  modificadora e diretiva. Essa recusa foi tpica
ser possvel nas condies naturais se o D.-ser             da filosofia romntica, que, segundo expres-
visar a elas; mas tais condies no atingem a              so do prprio Hegel, quis "estar em paz com
determinao do arbtrio, mas apenas o efeito               a realidade" e abdicou da tarefa assumida pela
e a conseqncia dela no fenmeno" (Crt. R.                filosofia do lluminismo, de transformar a reali-
Pura, Dial., cap. II, se. 9,  3). Essas determi-          dade.
 naes de Kant deixam claro que a esfera do                   A atitude em face do D.-ser , portanto, a
 D.-ser  a ao humana: o D.-ser, que no tem              pedra de toque das filosofias contemporneas,
 sentido no mundo natural,  o princpio do                 porque revela se elas se orientam segundo a tra-
 mundo humano. Mas esse reconhecimento                      dio iluminista, clssica e renascentista, ou se-
 eqivale a admitir que, no mundo humano, a                 gundo a tradio romntica, helenstica e
 distino entre o que acontece de fato e o que             medieval. Mas  necessrio lembrar que nem
 se poderia esperar que acontecesse, a partir               sempre a importncia predominante atribuda
 das normas que o regulam, deve manter-se                    noo de D.-ser  sinal do carter clssico-
 constante. Onde  reconhecido ou introduzido               iluminista de uma filosofia. A chamada filosofia
 o D.-ser obviamente  reconhecida e intro-                 dos valores do sculo passado, que conta entre
 duzida a sua diferena possvel em relao ao              seus representantes principais com Windelband
 ser de fato, bem como a possibilidade de julgar            e Rickert, fez do dever-ser o centro da sua espe-
 este em relao quele. Assim se explica por               culao, mas o transformou em uma realidade
 que Hegel, que pe como princpio de sua                   suigeneris, o valor (v.) ou sua conscincia, con-
 filosofia a identidade entre real e racional, nega         siderada independente de suas manifestaes
DEVIR ou VIR-A-SER                                     268                      DIACRNICO/SINCRNICO

empricas; por isso, foi substancialmente infiel                Conceito no muito diferente foi expresso
noo kantiana do dever-ser, em que declarava                por Hegel ao dizer que o D.  a unidade do ser
inspirar-se. De modo anlogo, a interpretao                e do nada. "O D.", disse Hegel, " a verdadeira
que Nicolau Hartmann faz do D.-ser eqivale                 expresso do resultado de ser e nada, como
sua negao. O D.-ser, segundo Hartmann, s                  unidade destes: no  s a unidade do ser e do
prescreve a realizao daquilo que pode e deve               nada, mas  a inquietao em si" (Ene,  88).
necessariamente realizar-se, quando nada falta               Na grande Lgica, Hegel ilustrou e defendeu
s condies de sua realizao; por isso,  a                longamente o significado dessa definio: "A
prpria possibilidade real, que  sempre uma                 verdadeira importncia da proposio: 'nada
efetividade, ainda que no parea. (Mglichkeit              vem do nada, o nada  nada', est em sua oposi-
 und Wirklichkeit, p. 266). Por outro lado, a noo          o ao devir em geral e, portanto, tambm 
de D.-ser foi posta como base do positivismo                 criao do mundo a partir do nada. Aqueles que
jurdico, por Hans Kelsen. Diz Kelsen: "O D.-                se acaloram defendendo a proposio de que o
ser exprime o sentido especfico no qual o com-              nada  o nada, no se apercebem de que nisso
portamento humano  determinado por uma                      coincidem com o pantesmo abstrato dos eleatas
norma. Tudo o que podemos fazer para descre-                 e substancialmente tambm com o spinozismo.
ver tal sentido  declarar que ele difere do sen-            A viso filosfica para a qual vale o princpio de
tido pelo qual dizemos que um indivduo se                   que o ser  somente ser e o nada somente nada
comporta efetivamente de certa forma e que                   merece o nome de sistemas de identidade. Essa
algo acontece ou existe efetivamente" {General               identidade abstrata  a essncia do pantesmo"
 Theory of Laiv and State, 1945,1, 1, C, a, 5; trad.         (Wissenschaft derLogik, I, livro I, se. I, cap. I,
it., p. 36). Kelsen, todavia, reconhece que a                C; trad. it., p. 76). Na verdade, o "nada" de Aris-
tenso entre norma e existncia no deve ser                 tteles , com efeito, um nada privativo que,
superior a certo mximo, nem inferior a certo                assim como a privao aristotlica, est na cons-
mnimo: a conduta efetiva no deve coincidir                 tituio do devir. Portanto, todas as discusses
completamente com a norma que a regula nem                   a que a definio hegeliana do D. deu origem
discrepar completamente dela (Ibid., Apndi-                 entre os hegelianos (e tambm entre os no he-
ce, IV, B, c; p. 444) (v. NORMA).                            gelianos) parecem hoje completamente ociosas.
   DEVIR ou VIR-A-SER (gr. yYvea6oa; lat.                       DEVOO (in. Devotion, fr. Dvotion; ai.
Fieri; in. Becoming; fr. Devenir, ai. Werdent; it.           Andacht, it. Devozion). Segundo Kant, "a dis-
Divenir). 1. O mesmo que mudana (v. MOVI-                  posio de espritos que nos torna capazes de
MENTO).                                                      sentimentos de dedicao para com Deus", e
    2. Uma forma particular de mudana, a mu-                que se obtm mediante as prticas do culto
dana absoluta ou substancial que vai do nada                (expiaes, mortificaes, peregrinaes, etc).
ao ser ou do ser ao nada. Esse  o conceito de               Atribuir a essa disposio o mesmo valor de
Aristteles e Hegel. Aristteles afirmava; "Diz-se           sentimento de dedicao a Deus , segundo
D. em muitos sentidos: ao lado daquilo que vem               Kant, a iluso religiosa, que confunde os meios
a ser absolutamente (nk&), h aquilo que vem a             com o fim e d ao meio um valor final (Re-
ser isto ou aquilo. O D. absoluto  s das                   ligon, IV, 2,  1). Essa iluso por sua vez  a
substncias: as outras coisas que vm a ser pre-             base do falso culto a Deus, visto que o nico
cisam necessariamente de um sujeito, j que a                culto verdadeiro  a boa conduta moral. O con-
quantidade, a qualidade, a relao, o tempo e o              ceito de D. como atitude que, embora vincula-
lugar vm a ser s em referncia a certo sujeito;            da  religio, no  a autenticamente religiosa,
e enquanto a substncia no pode ser atribuda               foi fixado pelas observaes de Kant. Hegel
como predicado a nenhuma outra coisa, todas                  viu na D. uma das manifestaes da conscin-
as outras coisas podem ser atribudas como                   cia infeliz. "O seu pensar, como D., permanece
predicado a uma substncia" (Fs., I, 7, 190 a               como um vago tilintar de sinos ou como nebu-
30). Portanto, para Aristteles, os princpios do            losidade clida, um pensar musical que no
D. so os opostos, entre os quais est o D., e a             chega ao conceito, nico e imanente modo ob-
privao de um deles, j visto que "pode dizer               jetivo" (Phnomen. des Geistes, I, IV, 1).
que nada vem absolutamente do nada, mas                          DIACRNICO/SINCRNICO (fr Diachro-
aquilo que vem a ser, vem a ser do no-ser aci-              nique, synchronique, in. Diachronic, synchro-
dental ou relativo, ou seja, da privao daquilo             nic, ai. Diachronik, synchronik, it. Diacronico,
que  o termo do D." {Ibid., I, 8, 191, b 12).               sincronic). Termos introduzidos porFerdinand
T
    DIADE                                                269                                           DIALTICA

    de Saussure na lingstica, usados depois em               correspondente. Uma relao D.  um fato rela-
    outros campos, especialmente na antropolo-                 tivo a dois indivduos. P. ex., o fato de a ser
    gia cultural. Designam o eixo da smultanei-               semelhante a b, de a ser amante de b, ou de a e
    dade [sincrnico], do qual se exclui qualquer               b serem ambos homens constitui uma relao,
    interveno de tempo, e o eixo das sucesses               ao passo que o fato de a dar bc constitui uma
    [diacrnico], no qual  possvel considerar ape-           relao tridica (cf. PEIRCE, Coll. Pap., 3, 625).
    nas uma coisa por vez, mas onde esto situadas                  DIALELO. V. CRCULO.
    todas as coisas do primeiro eixo com suas                      DIALTICA (gr. va^eKTiKii x^vn; lat. Dia-
    mudanas (Cours de linguistique gnrale, 1922,            lectica; in. Dialectic; fr. Dialectique, ai. Dialektik;
    p. 115). A dimenso S. constitui o sistema ou              it. Dialettica). Esse termo, que deriva de dilo-
    estrutura (v.) de uma lngua, sistema este com-            go, no foi empregado, na histria da filosofia,
    posto por elementos lexicais, gramaticais e                com significado unvoco, que possa ser deter-
    fonolgicos que tm entre si relaes defini-              minado e esclarecido uma vez por todas; rece-
    das. A dimenso D.  o conjunto de variaes               beu significados diferentes, com diversas inter-
    sofridas por um sistema lingstico sob a ao             relaes, no sendo redutveis uns aos outros
    de eventos que no s lhe so estranhos como               ou a um significado comum. Todavia,  poss-
    tambm no constituem um sistema.                          vel distinguir quatro significados fundamentais:
        Essa distino foi aceita pela lingstica es-         Ia D. como mtodo da diviso; 2e D. como
    truturalista (Trubetzkoy, Jakobson, v. ESTRUTU-            lgica do provvel; 39 D. como lgica; 4e D.
    RALISMO) e por Lvy-Strauss, que fez a distino           como sntese dos opostos. Esses quatro concei-
    entre dimenso D. e histria, considerando o               tos tm origem nas quatro doutrinas que mais
    tempo de que fala esta ltima irreversvel ou              influenciaram a histria desse termb, mais pre-
    "estatstico", enquanto a dimenso D. conside-             cisamente a doutrina platnica, a aristotlica, a
    ra o tempo como reversvel e no cumulativo                estica e a hegeliana. Com base na documenta-
    {Anthropologie structurale, 1958, p. 314).                 o histrica correspondente,  possvel che-
        DADE (gr. 5i); lat. Dualitas; in. Dyad;             gar a uma caracterizao bastante genrica da
    fr. Dyade, ai. Dyas; it. Diade). Segundo os pita-          D., que de algum modo resuma todas as outras.
    gricos,  "o princpio da diversidade e da desi-          Pode-se dizer, p. ex., que a D.  o processo em
    gualdade, de tudo o que  divisvel e mutvel              que h um adversrio a ser combatido ou uma
    e ora est de um modo, ora de outro" (PORFRIO,            tese a ser refutada, e que supe, portanto, dois
     Vita Pith., 52). Contrape-se  mnada, que              protagonistas ou duas teses em conflito; ou en-
    o princpio da unidade, do ser idntico e igual.           to que  um processo resultante do conflito ou
    Nesse sentido, Aristteles diz que "o nmero              da oposio entre dois princpios, dois momentos
    derivado da mnada e da D. indefinida" (Met.,              ou duas atividades quaisquer. Mas trata-se, como
    XIII, 7, 1081 a 14): frase citada por Plotino e            se v, de uma caracterizao to genrica que
    interpretada no sentido de que a D.  a Inteli-            no teria nenhum significado histrico ou
    gncia (Nous) porque esta manifesta uma                    orientador. O problema histrico  mais de iden-
    composio na multiplicidade dos seus objetos              tificar claramente os significados fundamentais
    e na ciso entre o que pensa e o que  pensado             e as mltiplas e dspares relaes que ocorrem
    (Enn., V, 4, 2). Em sentido anlogo, Flon dis-            entre eles (cf. Studi sulla Dialettica, de vrios
    sera que "a D.  a imagem da matria, dividida             autores, em Rivista di Filosofia, 1958, n. 2).
    e fracionada como ela" (AH. leg., I, 3; cf. DIG.              1Q D. como mtodo de diviso. Este foi o
    L, VII, 25). No Renascimento essa noo foi                conceito de Plato. Para ele, a D.  a tcnica da
    retomada em sentido mais genrico. Em De                   investigao conjunta, feita atravs da colabora-
     monadeGiovda.no Bruno diz que do Uno brota                o de duas ou mais pessoas, segundo o pro-
    a D. assim como do fluxo do ponto brota a                  cedimento socrtico de perguntar e responder.
    linha; a D. constitui a estrutura de aspectos              De fato, para Plato, a filosofia era tarefa indivi-
    fundamentais do universo (essncia e ser, ma-              dual e privada, mas obra de homens que "vi-
    tria e forma, potncia e ato, etc). Com signi-            vem juntamente" e "discutem com benevoln-
    ficado anlogo, esse termo foi usado por                   cia";  a atividade prpria de "uma comunidade
    Schelling (Werke, I, X, p. 263).                           da educao livre" (Leis, VII, 344 b). A D.  o
        DIDICO (in. Dyadic). Esse adjetivo  usa-             ponto mais alto a que pode chegar a investiga-
    do comumente na lgica contempornea, mas                  o conjunta e compe-se de dois momentos:
     sem referncia ao significado do substantivo              a) O primeiro consiste em remeter as coisas
DIALTICA                                               270                                          DIALTICA


dispersas para uma idia nica e em definir                   procedimento que Plato utiliza em Pedro para
essa idia de tal modo que possa ser comu-                    definir o amor como "mania", dividindo depois
nicada a todos (Fed., 265 c). Em Repblica,                   a mania em m (esquerda) e boa (direita) e
Plato diz que, ao remontar  idia, a D. situa-              procurando ainda as determinaes da boa ma-
se alm das cincias particulares porque consi-               nia. Em O Sofista, esse mesmo procedimento
dera as hipteses das cincias (que sempre fa-                serve para definir a figura sofista. A caractersti-
zem referncia ao mltiplo sensvel) como                     ca desse procedimento  a possibilidade de
simples ponto de partida para chegar aos prin-                escolha (em cada passo) da caracterstica capaz
cpios, dos quais depois se pode chegar s con-               de determinar a diviso oportuna em direita e
cluses ltimas (Rep., VI, 511 b-c). Mas esse                 esquerda, ou seja, de tal modo que a linha de
segundo procedimento que vai dos princpios                   articulao do conceito seja seguida, e no "cor-
(por meio das idias) s concluses ltimas,                  tada". Logo, a D. platnica no  um mtodo
nos dilogos posteriores,  analisado, explicita-             dedutivo ou analtico, mas indutivo e sinttico,
mente, como o mtodo da diviso, b) O proce-                  mais semelhante aos procedimentos da pes-
dimento da diviso consiste "em poder dividir                 quisa emprica (no obstante a pretenso pla-
de novo a idia em suas espcies, seguindo                    tnica de que ele prescinda dos "sentidos") do
suas interaes naturais e evitando fragmentar                que aos procedimentos do raciocnio a priori
suas partes como faria um trinchador canhes-                  ou do silogismo. O que Aristteles reprova no
tro" (Fed., 265 d). Nesse aspecto  prprio da                mtodo da diviso, ou seja, o fato de no ter a
D. "dividir segundo gneros e no assumir co-                 capacidade dedutiva do silogismo (An.pr, I,
mo diferente a mesma forma, ou como idntica                  31,46 a 31 ss.), no  propriamente uma crtica,
uma forma diferente" (Sof, 253 d). Num trecho                 porque o mtodo de Plato no tem essa pre-
famoso de O Sofista, Plato enumera as trs                   tenso. Certamente, a partir de "o homem  um
alternativas fundamentais que o procedimento                  animal" e da diviso seguinte "o animal  mor-
D. pode deparar: le que uma nica idia per-                  tal ou imortal" no se segue que "o homem 
meie e abarque muitas outras, que no entanto                  mortal", mas s que "o homem  mortal ou
permanecem separadas dela e exteriores umas                   imortal", mas o objetivo da diviso D. no  essa
s outras; 2- que uma nica idia reduza  uni-               deduo, mas a busca, a escolha e o uso das
dade muitas outras idias, na sua totalidade; 3e              caractesticas efetivas de um objeto, com o fim
que muitas idias permaneam inteiramente                     de esclarecer a natureza, ou melhor, as possi-
distintas entre si (Sof., 253 d). Essas trs alterna-         bilidades (8t>v|J.ei) desse objeto. O conceito
tivas apresentam dois casos extremos, o da                    platnico de D. no teve seguidores diretos,
unidade de muitas idias em uma delas e o de                  embora sejam evidentes as conexes entre ele
sua heterogeneidade radical, e um caso inter-                 e as noes de D. elaboradas por Aristteles,
medirio, em que uma idia que abrange ou-                    pelos esticos e pelos neoplatnicos. Entre
tras sem fundi-las numa unidade.                              estas, Plotino marca a passagem da concepo
                                                              platnica da D.  metafsica tridica de Proclo.
   A D. consiste em reconhecer, nas situaes                 Diz ele que a D. "utiliza o mtodo platnico da
que se apresentam, qual dessas possibilidades                 diviso para distinguir as espcies de um gne-
 a apropriada em proceder coerentemente. Se                  ro, para defini-las e para chegar aos gneros
observarmos o modo como Plato aplicou o                      primeiros; com o pensamento faz combinaes
procedimento em Pedro, O Sofista e O Poltico,                complexas desses gneros, at percorrer todo
chegaremos a outros esclarecimentos. Uma vez                  o domnio do inteligvel; depois, por caminho
definida a idia, Plato divide-a em duas partes              inverso, da anlise, volta ao princpio" (Fnn., I,
que chama, respectivamente, de lado esquer-                   3, 4). Aqui o mtodo platnico da diviso, que
do e lado direito, caracterizadas pela presena               para Plato  o segundo momento da D., tor-
e pela ausncia de certo carter; depois, divide              nou-se o primeiro e a ele foi acrescentado,
o lado direito da diviso, em duas outras par-                como segundo momento, "o retorno ao princ-
tes, que tambm sero chamadas de esquerda e                  pio", ou seja,  Unidade, acenando assim para
direita, utilizando um novo carter; e assim por              aquele que ser o esquema de Proclo.
diante (Fed., 266 a-b). Esse procedimento
pode deter-se em certo ponto ou ser retomado                     2- D. como lgica do provvel. Para Aris-
a partir de outra idia. Enfim, ser possvel reu-            tteles, a D.  simplesmente o procedimento
nir ou recapitular as determinaes assim obti-               racional no demonstrativo; dialtico  o silo-
das do princpio ao fim (Sof, 268 c). Esse  o                gismo que, em vez de partir de premissas ver-
DIALTICA                                            271                                          DIALTICA

dadeiras, parte de premissas provveis, geral-             (Convvio, II, 14).  concepo da D. como
mente admitidas. "Provvel", diz Aristteles, "            "arte da discusso" reportam-se, via de regra,
o que parece aceitvel a todos,  maioria ou               os humanistas a partir de Lorenzo Valia (Dia-
aos sbios, e, entre estes, a todos,  maioria ou           lecticae disputatones, II, Prol. 693): aproximam-
aos mais notveis e ilustres" (Top., 1,1,100 b 23          se, pois, da retrica, com a qual Nizolio a iden-
ss.). Por extenso, Aristteles chama de dialtico         tifica explicitamente (De verisprincips, II, 5).
tambm o silogismo erstico, que parte de pre-             Por outro lado, Pedro Ramus acentuava na D. o
missas que parecem provveis, mas no so                  aspecto inventivo que os antigos j tinham re-
Ubid., 100 b 23 ss.). Por esse conceito, Arist-           conhecido na Tpica e nela via a arte da inven-
teles atribua a inveno da D. a Zeno de Elia           o e, portanto, "a prpria luz da razo" (Dialecti-
(DIG. L, VIII, 57), que, em refutao do mo-               que, 1555, p. 1, 69-119). Mas oscilando entre a
vimento, parte da tese provvel, ou seja, aceita           retrica e a doutrina da inveno, a D. manti-
pela maioria, de que o movimento existe. O                 nha-se no mbito da noo aristotlica.
motivo do uso do termo "D." nesse sentido                     Todavia, a mais notvel recorrncia histrica
explicado pelo prprio Aristteles, dizendo que,           dessa noo s deveria ocorrer com Kant; este
"enquanto a premissa demonstrativa  a assuno            partia, exatamente como Aristteles, da desva-
de uma das duas partes da contradio, a pre-              lorizao preliminar da D. como instrumento
missa D.  a pergunta que apresenta a contra-              de conhecimento. Para Kant, a D.  uma "lgi-
dio como alternativa" (An. pr., I, 1, 24 a 20            ca da aparncia". Isso significa que ela  "uma
ss.), e assim faz certa referncia ao dilogo.             iluso natural e inevitvel, que se funda em
Essa noo de D., que permanece secundria e               princpios subjetivos e os toma por objetivos",
s vezes esquecida no primeiro perodo da                  mas que est "inseparavelmente ligada  razo
Escolstica (na qual prevalece o conceito es-              humana, permanecendo mesmo depois de
tico da D. como lgica),  retomada, embora               descoberta a sua raiz" (Crt. K. Pura, Dialtica
sem eliminar a outra, a partir do sc. XII, quan-          transcendental, Intr., I). Objeto da D. so as trs
do um conhecimento mais completo do Organon                idias de Alma, Mundo e Deus: delas, a primei-
de Aristteles, mais especialmente dos Tpicos             ra  fruto de um paralogismo, a segunda mos-
e dos Elencos sofsticos, chama a ateno para             tra sua ilegitimidade ao dar lugar a antinomias
a D., entendida como arte da discusso e da                insolveis, a terceira  indemonstrvel. Obvia-
exercitao lgica: arte que se vale de premis-            mente, o significado kantiano de D. identifica-
sas provveis e , portanto, D. no sentido                 se com o segundo dos dois significados do
aristotlico do termo. Esse significado, portan-           termo distinguidos por Aristteles, ou seja, com
to,  admitido e ilustrado mesmo por aqueles               aquele segundo o qual a D.  o procedimento
que continuam a considerar a D. como lgica                sofistico. O prprio Kant estabelece essa cone-
geral ou cincia das cincias (como p. ex. PEDRO           xo: "Embora tenham sido vrios os significa-
HISPANO, Summ. log., 7, 41). Foi somente Joo              dos com que os antigos usaram essa denomi-
de Salisbury que tendeu a restringir o significa-          nao de cincia ou de arte, pode-se deduzir
do de D.  "cincia das coisas provveis". Mas             com segurana do uso que dela fizeram que a
justamente nesse significado ele descobre no-              D. para eles nada mais era que a lgica da
vas aplicaes da D. (para ele intil se no se            aparncia, a arte sofistica de dar  ignorn-
unir a outras disciplinas), pois, dada a dificul-          cia, alis, s iluses voluntrias, laivos de ver-
dade de obter conhecimentos necessrios no                 dade, imitando o mtodo da fundao que a
domnio das coisas naturais, as premissas prov-           lgica geral prescreve e servindo-se de sua
veis sero as nicas a que se poder recorrer: e           tpica para colorir qualquer procedimento va-
elas so prprias da D. (Metalogicon, II, 13).             zio" (Ibid., Lgica transcendental, Intr., III; cf.
Dante parece referir-se a uma concepo an-               Grundlegung zur Met. derSitten, I). Por outro
loga quando compara a D. a Mercrio, o menor               lado, a esse mesmo conceito de D. liga-se a no-
e o mais oculto dos planetas; com efeito, "a D.            o propriamente kantiana de D. transcen-
tem corpo menor do que qualquer outra cin-                dental como "crtica do intelecto e da razo ao
cia;  perfeitamente compilada e acabada no                seu uso hiperfsico, a fim de tirar os vus da
que de texto se encontra na Arte velha e na                aparncia falaz de suas infundada presunes"
 nova;  mais velada do que qualquer outra cin-           (Crt. R. Pura, Lgica transcendental, Intr.,  IV)
cia porquanto procede com argumentos mais                  ou, em outros termos, como um kathartikon
sofsticos e provveis do que qualquer outra"              do intelecto (Logik, Intr.,  II).
 DIALTICA                                             272                                      DIALTICA


      3S D. como lgica. O terceiro conceito de D.         conseqncias derivam das premissas assumi-
  deve-se aos esticos, que a identificaram com            das" (Brut., 41, 152; cf. tambm De or., II, 38,
  a lgica em geral ou, pelo menos, com a parte da         157; Tusc, V, 25, 72; Acad, II, 28,91; Top., 2, 6).
  lgica que no  retrica. Considerando a ret-          Quintiliano (Inst. or., XII, 2, 13) e Sneca (Ep.,
  rica como a cincia do bem falar nos discursos           1,1) aceitam esse conceito da D., que se encontra
  que dizem respeito s "vias de sada", ao passo          igualmente na patrstica oriental, p. ex. em
  que a D.  a cincia do discutir corretamente            Orgenes e Gregrio de Nissa (De homnis opificio,
  nos discursos que consistem em perguntas e               16), bem como na patrstica latina, p. ex. em S.
  respostas ( DIG. L, VII, 1, 42). Essa identifica-       Agostinho (De ordine, 13, 38). Atravs da tra-
  o da D. com a lgica geral foi possibilitada          dio desses escritores e da obra de Bocio
 pela transformao radical a que os esticos             (AdCic. Top., I, P. L, 64a, col. 1047) a noo da
 submeteram a teoria aristotlica do raciocnio.          D. como lgica geral, segundo o conceito es-
 Como, para eles, a demonstrao era "utilizar            tico, persiste por toda a Idade Mdia, coexis-
 as coisas mais compreensveis para explicar as           tindo com o conceito mais restrito de D. como
 menos compreensveis" (Ibid., VII, 1, 45), e             arte da discusso ou do raciocnio provvel,
 como as coisas mais compreensveis eram as               mesmo quando esse conceito se difunde nas
 evidentes para os sentidos (Ibid, VII, 1, 46), as        escolas a partir do sc. XII como efeito do melhor
 bases de qualquer demonstrao eram os ra-               conhecimento dos Tpicos e dos Elencos sqftstcos.
 ciocnios anapodticosiy.), que se apoiam dire-          Isidoro de Sevilha retomara o conceito estico
 tamente na evidncia sensvel. De resto, para            (Etymol, II, 22-24); o mesmo fez Rbano Mauro,
 eles, o raciocnio em geral constava de premis-          que repete as palavras de Agostinho: "A D.  a
 sa e concluso; isso tambm  o silogismo                disciplina das disciplinas: ensina a ensinar, ensina
 (Ibid., VII, 1, 45). Sua teoria do raciocnio no        a aprender, e nela a prpria razo manifesta o
 permitia, pois, a distino entre premissas ne-          que , o que quer, o que v" (De clericorum
 cessariamente verdadeiras e premissas prov-             institutione, III, 20). Abelardo, por sua vez,
 veis em que, segundo Aristteles, se fundava a           defende a D. com as mesmas palavras de Agos-
distino entre silogismo demonstrativo e silo-          tinho (Ep., 13), e Hugo de So Vtor considera-
gismo dialtico. A D. identificou-se assim com           as segundo o modelo estico, parte da lgica
a lgica, que, para eles, era uma teoria dos             racional ao lado da retrica (Didascalion, I,
signos e das coisas significadas e se definia            12). Ainda no sc. XIII, Pedro Hispano dizia em
como "cincia do verdadeiro e do falso, e do             Sumtnulae logicales: "A D.  a arte das artes
que no  nem verdadeiro nem falso" (Ibid.,              e a cincia das cincias porque detm o cami-
VII, 1, 42). Por "aquilo que no  nem verda-            nho para chegar aos princpios de todos os
deiro nem falso" entendiam (como resulta do              mtodos. S a D. pode discutir com probabili-
trecho de Ccero citado mais abaixo) a conexo           dade os princpios de todas as outras artes; por
da concluso com a premissa, cujas condies             isso, no aprendizado das cincias, a D. deve vir
de verdade a D. estabelece.                              antes" (1.01).
   Essa interpretao da lgica toda como D.                 Encontra-se analogia no conceito de San-
no  um simples retorno  concepo platni-            tayana, de D. como "cincia ideal" ou formal,
ca de D. Na verdade, a lgica estica, to centrada      que compreende a matemtica e procura
nas dedues anapodticas (do tipo "Se  dia,            "esclarecer e desenvolver a essncia do que
h luz"), no conhece raciocnios que no par-           descobrimos, com o foco nas harmonias inter-
tam de premissas hipotticas, e as premissas             nas e nas implicaes das formas que nossa
hipotticas so as que, mesmo para Aristteles,          ateno ou nossas metas definiram inicialmen-
do carter dialtico ao raciocnio. A doutrina          te" (The Life of Reason, 19542, p. 436).
estica da D. foi a mais difundida na Antigida-             4e D. como sntese dos opostos. O quarto con-
de e na Idade Mdia. Foi adotada por Ccero,             ceito de D.  formulado pelo Idealismo romn-
que entendia por D. "a arte que ensina a dividir         tico, em particular por Hegel; seu princpio foi
uma coisa inteira em suas partes, a explicar uma         apresentado pela primeira vez por Fichte em
coisa oculta com uma definio, a esclarecer             Doutrina da cincia, de 1794, como "sntese
uma coisa obscura com uma interpretao, a               dos opostos por meio da determinao recpro-
entrever primeiro e a distinguir depois o que           ca". Os opostos de que falava Fichte eram o Eu
ambguo e, finalmente, a obter uma regra com             e o No-eu, e a conciliao era dada pela posi-
a qual se julgue o verdadeiro e o falso e se as          o do No-eu por parte do Eu e pela determi-
r   DIALTICA                                             273                                        DIALTICA


    nao que do No-eu se reflete sobre o Eu,                  sophie, ed. Glockner, I, p. 343). Por outro lado,
    produzindo neste a representao (Wissens-                  Proclo foi quem descobriu o carter tridico do
    chaftslehre,  4, E). Mas para Hegel a D.  "a              procedimento dialtico, considerando-o como
    prpria natureza do pensamento" {Ene,  11),                o derivar as coisas do Uno e seu retorno ao
    visto ser a resoluo das contradies em que               Uno. Segundo Proclo, esse movimento duplo
    se enreda a realidade finita, que como tal  ob-            consta de trs momentos: ls a permanncia
    jeto do intelecto. A D.  "a resoluo imanente             imutvel da Causa em si mesma; 2- o provir do
    na qual a unilateralidade e a limitao das de-             ser derivado que, pela sua semelhana com a
    terminaes intelectuais se expressam como                  causa, fica ligada a ela ao mesmo tempo em
    so, ou seja, como sua negao. Todo finito                 que dela se afasta; 3Q o retorno ou a converso
    tem a caracterstica de suprimir-se a si mesmo.             do ser derivado  sua causa originria (Inst.
    A D. constitui, pois, a alma do progresso cient-            theol, 29-3D- Desse modo, diz Hegel, Proclo
    fico e  o nico princpio atravs do qual a co-            "no se limita aos momentos abstratos da
    nexo imanente e a necessidade entram no                    trade, mas considera as trs determinaes
    contedo da cincia; nela tambm est, sobre-               abstratas do absoluto, cada uma por si, como
    tudo, a elevao verdadeira e no extrnseca                totalidade da trade, obtendo assim uma trade
    acima do finito" (Jbid,  81). A D. coniste: ls             real" (Geschichte der Philosophie, ed. Glockner,
    na colocao de um conceito "abstrato e limi-               III, pp. 73 ss. ).
    tado"; 2- no suprimir-se desse conceito algo                    Na filosofia moderna e contempornea a
     "finito" e na passagem para o seu oposto; 3e na            palavra D. tem, na maioria das vezes, o signi-
    sntese das duas determinaes precedentes,                 ficado helegiano. Por um lado, esse significado
    que conserva "o que h de afirmativo na sua                  conservado pelas numerosas ramificaes do
     soluo e na sua transposio". Hegel d a es-             Idealismo romntico e por outro  adotado por
     ses trs momentos os nomes, respectivamente,               pontos de vista diferentes, mas que utilizam a
     de intelectual, dialtico e especulativo ou posi-          noo em que este se baseia. Na primeira dire-
     tivo racional. Mas a D. no  s o segundo                 o, pode-se observar que a chamada "refor-
     desses momentos:  mais o conjunto do movi-                ma" da D. hegeliana, de cuja autoria Gentile se
     mento, especialmente em seu resultado positi-              vangloriou, foi simplesmente a distino entre
     vo e em sua realidade substancial. De fato, pela           a D. do "pensado", do objeto do pensamento,
     identidade entre racional e real, a D.  no s            e a D. do "ato pensante" da conscincia ou do
     a lei do pensamento, mas a lei da realidade, e             Esprito absoluto. Mas cada uma dessas D. dis-
     seus resultados no so conceitos puros ou                 tinguidas por Gentile configura-se como snte-
     conceitos abstratos, mas "pensamentos concre-              se dos opostos: sntese de opostas objetivi-
     tos", ou seja, realidades propriamente ditas, ne-          dades objetivamente tais (D. do pensador),
     cessrias, determinaes ou categorias eternas.            sntese do eu e do no-eu (D. do pensante)
     Toda a realidade move-se dialeticamente e,                 (Spirito come atto puro, VIII, 6). Mas com
     portanto, a filosofia hegeliana v em toda parte           isso no se inova o conceito de D. Como tam-
     trades de teses, anttese e snteses, nas quais a         bm no se inova com a distino, estabele-
     anttese representa a "negao", "o oposto" ou             cida por Croce, entre o "nexo dos distintos"
     "outro" da tese, e a sntese constitui a unidade           (isto , entre as vrias categorias do pensar, do
     e, ao mesmo tempo, a certificao de ambas.                agir e das suas formas) e a "D. dos opostos", que
     Hegel viu os precedentes remotos dessa D. em               seria a unidade e a oposio entre belo e feio,
     Herclito e Proclo. De fato, Herclito no s              verdadeiro e falso, bem e mal, til e intil, no
      concebeu o absoluto como "unidade dos opos-               seio de cada forma espiritual (Lgica, I, cap. 6).
      tos" como tambm concebeu essa unidade                    Por outro lado, a noo de D. foi utilizada por
      como objetiva ou imanente ao objeto", ao con-             Marx, Engels e seus discpulos no mesmo senti-
      trrio de Zeno, que considerou puramente                 do atribudo por Hegel, mas sem o significado
      subjetivas as contradies, sendo por isso uma            idealista que recebera no sistema de Hegel. O
      espcie de Kant da antigidade. "Em Her-                 que Marx censurava no conceito hegeliano era
      clito", diz Hegel, "encontramos pela primeira             que a D., para Hegel,  conscincia e permane-
      vez a idia filosfica em sua forma especu-               ce na conscincia, no alcanando nunca o
      lativa... Aqui finalmente vemos terra: no h             objeto, a realidade, a natureza, a no ser no
      proposio de Herclito que eu no tenha aco-             pensamento e como pensamento. Segundo
      lhido na minha lgica" (Geschichte der Philo-             Marx toda a filosofia hegeliana vive na "abstra-
DIALTICA                                              274                                          DIALOGO


o" e por isso no descreve a realidade ou a                passagem necessria para a conciliao ou pa-
histria, mas s uma imagem abstrata desta                   ra a sntese, mas permanece estaticamente na
que, por fim,  colocada como suprema verda-                 prpria oposio. Kierkegaard diz: "Estamos
de no "Esprito absoluto" (Manuscritos econ-                ss e termos todos contra ns , em sentido
mico-filosficos, III; trad. it., pp. 168 ss.). Marx         dialtico, ter todos por ns, pois o fato de que
afirmava, portanto, a exigncia de fazer a D.                todos esto contra ns ajuda a evidenciar que
passar da abstrao  realidade, do mundo fe-                estamos ss" (Ibid., VIII, A, 124). E muitas ve-
chado da "conscincia" ao mundo aberto da                    zes ele d a essa D. sem conciliaes o nome
natureza e da histria. "A mistificao", escre-             de "D. da inverso" ou "D. dupla" (Ibid.,VIU, A
veu ele, "que a D. sofre nas mos de Hegel no               84; VIII, A 91). Esse uso de Kierkegaard, embo-
impede, de modo algum, o fato de ter sido ele                ra no se possa dizer em conformidade com o
o primeiro a descrever suas formas gerais de                 conceito hegeliano de D., tem estreito paren-
movimento de modo abrangente e claro. Em                     tesco com um de seus elementos e, em todo
Hegel, a dialtica est na cabea.  preciso vir-           caso, no prope novo significado do termo.
la de pernas para o ar, para descobrir o cerne               Para indicar a relao de oposio no concilia-
racional no envoltrio mstico" (O capital, I, 1,            da, o termo mais adequado  tenso (v.). Por
Post-scriptum  2- ed.). Retomando a tentiva                 outro lado, o carter oposto da D. hegeliana, o
de Marx, Engels concebia a D. como a sntese                 da unidade, foi assumido por Sartre como defi-
das oposies (todavia relativas e parciais) que             nio de toda a D.: "A D.  atividade totali-
a natureza realiza em seu devir. "O reconheci-               zadora; ela no tem outras leis que no as re-
mento de que essas oposies e diferenas                    gras produzidas pela totalizao em curso e
esto realmente presentes na natureza, mas                   estas se referem evidentemente s relaes da
com validade relativa, e de que a rigidez e a va-            unificao com o unificado, ou seja, aos modos
lidade absoluta com que so apresentadas so                 da presena eficaz do devir totalizante nas par-
introduzidas na natureza s pela nossa refle-                tes totalizadas" (Critique de Ia raison dialecti-
xo constitui o ponto central da concepo D.                que, 1960, pp. 139-40). .
da natureza" (Antidhring, Pref.  23 ed.). Se-                  Portanto, ao longo de sua histria, a noo
gundo Engels, pode-se chegar s leis da D. por               de D. assumiu quatro significados fundamen-
abstrao, tanto da histria da natureza quanto              tais aparentados mas diferentes. Embora o l-
da histria da sociedade humana. "Elas nada                  timo seja o mais difundido hoje em filosofia, e
mais so do que as leis mais gerais de ambas                 a ele sejam feitas as referncias mais freqen-
essas fases da evoluo e do prprio pensa-                  tes em linguagem comum ("D. da histria", "D.
mento" (Dialtica da natureza, Dialtica; trad.              da vida poltica", "D. espiritual", "D. dos parti-
it., p. 56). Apesar disso, a noo de D. perma-              dos", etc), tambm  o significado mais desa-
necia substancialmente inalterada como ocorre                creditado por haver servido como uma espcie
em geral nos escritores modernos que fazem                   de fmiula mgica, capaz de justificar tudo o
uso dela. Assim, pode-se dizer que o conceito                que aconteceu no passado e que se prev ou
4Q de D.  marcado pelas seguintes caractersti-             se espera que acontea no futuro. Se no futuro
cas: 1Q a D.  a passagem de um oposto ao                    couber a essa palavra um uso cientificamente
outro; 2S essa passagem  a conciliao dos                  fecundo, certamente no ser esse quarto signi-
dois opostos; 3a essa passagem (portanto a                   ficado que ditar as regras desse uso.
conciliao)  necessria. Essa ltima caracte-
rstica  a que ope mais radicalmente a D.                      DILOGO (gr. i^OYO; lat. Dialogus; in.
hegeliana aos outros trs conceitos de D., cuja              Dialogue, fr. Dialogue, ai. Dalog; it. Dialogo).
caracterstica comum  a ausncia da neces-                  Para grande parte do pensamento antigo at
sidade.                                                      Aristteles, o D. no  somente uma das for-
                                                             mas pelas quais se pode exprimir o discurso
   A maior parte dos filsofos modernos e de                 filosfico, mas a sua forma tpica e privilegiada,
todos os que usam essa palavra fazem refern-                isso porque no se trata de discurso feito pelo
cia a essas trs teses. Uma excesso  constitu-            filsofo para si mesmo, que o isole em si mes-
da por Kierkegaard, que s aceita a primeira.                mo, mas de uma conversa, uma discusso, um
Para ele, a D. , em geral, a possibilidade de re-           perguntar e responder entre pessoas unidas
conhecer o positivo no negativo (Dirio, X', A,              pelo interesse comum da busca. O carter con-
456): conexo entre os opostos que no elimi-                junto dessa busca da forma como os gregos a
na nem anula a oposio e no determina uma                  conceberam no perodo clssico tem expres-
DIANOETICO                                              275                     DICTUM DE OMNI ET NULLO


so natural no dilogo. A falta de confiana de               ao que entendemos por razo, em sentido
Plato nos discursos escritos, porquanto no                  objetivo, e, no uso de Plato e de Aristteles,
respondem a quem interroga e no escolhem                     implica certa discrepncia com o sentido espe-
seus interlocutores (Fed., 275 c) (o que talvez               cfico de nous ou intelecto, porquanto este
tenha levado Scrates a no escrever nada e a                 designa a faculdade -- considerada superior
concentrar toda a sua atividade na conversao                -- de intuir os princpios de que partem os
com amigos e discpulos), tambm consolida a                  procedimentos racionais (v. DISCURSIVO).
superioridade do dilogo como forma literria,                    DIANOIOLOGIA (ai. Dianoiologie).  as-
que procura reproduzir o ritmo da conversao                 sim que Lambert denominou a primeira das quatro
e, em geral, da investigao conjunta. Foi por                partes do seu Novo Organon (1764), mais pre-
certo esse o motivo que induziu Plato a man-                 cisamente a que estuda as leis formais do pen-
ter-se fiel  forma dialgica em seus escritos e              samento. S faz reproduzir a lgica formal de
a esquivar-se  pretenso do tirano Dionsio de               Wolff.
reduzir sua filosofia  forma de sumrio {Let.,                   DISTEMA (gr. voTr)u.a). Propriamente,
VII, 341 b). A exigncia do D. est presente, de              intervalo. Na lgica aristotlica, chama-se de D.
modo mais ou menos claro, em todas as for-                    a conjuno do sujeito com o predicado, ou
mas da dialtica (v.), e no se pode dizer que                seja, a proposio (An. pr., I, 4, 26 b 21; An.
esteja totalmente ausente da indagao filos-                post., I, 21, 82 b 7; etc).
fica, que, mais do que qualquer outra, proce-                     DIATRIBE (gr. KXTpiPrj; lat. Diatriba; in.
de atravs da discusso das teses alheias e                   Diatribe; fr. Diatribe, it. Diatriba). Breve trata-
da polmica incessante entre as vrias diretri-               do tico. Esse termo tambm aparece como
zes de pesquisa. Alm disso, o princpio do D.                ttulo de obras atribudas aos esticos Zeno e
implica a tolerncia filosfica e religiosa (v. TO-           Cleantes, bem como a outros filsofos antigos.
LERNCIA), em sentido positivo e ativo, ou seja,                  DIBATIS. Palavra mnemnica usada pela
no como resignao pela existncia de outros                 Lgica de Port-Royal para indicar o sexto modo
pontos de vista, mas como reconhecimento                      do silogismo de primeira figura (Dabitis), com
de sua legitimidade e com boa vontade de                      a diferena de assumir como premissa maior a
entend-los em suas razes. Nesse sentido, o                  proposio em que se encontra o predicado da
princpio do D. permaneceu como aquisio                     concluso. O exemplo  o seguinte: "Alguns
fundamental transmitida do pensamento gre-                    loucos dizem a verdade. Quem diz a verdade
go ao moderno e que, na atualidade, conserva                  merece ser imitado. Logo, merecem ser imita-
valor eminentemente normativo (cf. G. CALO-                   das algumas pessoas que no deixam de ser
GERO, Logo e dialogo, 1950).                                  loucas" (ARNAULD, Log., III, 8).
   DIANOETICO (gr. vavoTittK; in. Dianoe-                      DICOTOMIA (gr. I%OTOUJOC,- in. Dichotomy,
tic, fr. Dianotique, ai. Dianotik, it. Dianoetico).         fr. Dichotome, ai. Dichotomie, it. Dicotomia).
Intelectual. A palavra grega, adaptada s lnguas             1. Diviso de um conceito em duas partes se-
modernas, permaneceu quase exclusivamente                     gundo o mtodo diairtico da dialtica platni-
na expresso "virtudes dianoticas", que, para                ca (PLATO, Grg., 500 d; Pol, 302 e ; cf. LEIBNIZ,
Aristteles, indica as virtudes prprias da parte             Nouv. ess., III, 3, 10). (V. DIALTICA.)
intelectual da alma, ao contrrio das virtudes                   2. Denominao clssica (cf. ARISTTELES, FS.,
ticas ou morais, pertencentes  parte da alma                VI, 9, 239 b 18) do primeiro argumento contra
que, embora desprovida de razo, pode em uma                  o movimento, de Zeno de Elia, que pode ser
certa medida obedecer  razo (Et. nic, I, 13,                assim exposto: para ir de A a B, um mvel deve
1102 b). Para Aristteles, as virtudes dianoticas            antes percorrer a metade do trajeto A-B; e an-
so cinco: arte, cincia, sabedoria, sapincia,               tes ainda a metade dessa metade; e assim su-
 intelecto (Md., VI, 3, 1139 b 15); sobre elas, v.            cessivamente, de modo que no chegar nun-
os verbetes correspondentes.                                  ca a B(ARISTTELES, Fs, VI, 9, 239 b 10; Ibid.,
    DIANIA (gr. tvoioc). Conhecimento dis-                 VI, 2, 233 a 2). V. AQUILES; FLECHA; ESTDIO.
cursivo que procede pela inferncia de conclu-                   DICTUM. V. SIGNIFICADO.
ses a partir de premissas. Essa  a definio                   DICTUM DE OMNI ET NULLO.  o princ-
dada por Plato (Rep., VI, 510 b) e por Aristte-             pio fundamental do silogismo: o que se diz de
 les, que nela v o conhecimento cientfico "refe-            todos, diz-se tambm de alguns e de cada um;
 rente a 'causas e princpios'" (Met., V, 1, 1025 b           e o que no se diz de nenhum, tampouco se
 25). Essa palavra eqivale, aproximadamente,                 diz de alguns nem de cada um. P. ex., se todo
DIDTICA MORAL                                        276                                        DIGNIDADE1

homem  mortal, alguns homens so mortais e                 gra: "Se um caso no qual ocorre o fenmeno
Scrates tambm, como indivduo, etc. (ARIS-                investigado e um caso no qual ele no ocorre
TTELES, An.pr., I, 1, 24 b 26; PEDRO HISPANO,              apresentam todas as circunstncias em comum,
Summ. log., 4.01; JUNGIUS, Lgica, III, 11, 4-5;            exceto uma nica que ocorre s no primeiro, a
WOLFF, Log.,  346; KANT, Logik,  63; HAMILTON,            circunstncia na qual os dois casos diferem  o
Lectures on Logic, I, p. 303, etc). (V. SILOGISMO.)         efeito, a causa ou uma parte indispensvel da
    DIDTICA MORAL (in. Ethical didactics;                  causa do fenmeno" (Logic, III, 8,  2) (v.
fr. Didactique morale, ai. Ethische Didaktk, it.           CONCOMITNCIA; CONCORDNCIA; RESDUOS).
Didattica moral). Segundo Kant,  uma parte                     DIFERENA ONTOLGICA (in Ontolo-
da doutrina moral do mtodo; diz respeito ao                gical difference, fr. Diffrence ontologique, ai.
aprendizado das virtudes. A exigncia de uma                Ontologische Differenz; it. Differenza ontologi-
D. moral provm do fato de a virtude no ser                cd). Seguindo Heidegger,  a diferena entre o
inata, podendo e devendo ser ensinada {Met.                 ser e o ente; consiste na transcendncia do ser-
derSitten, II,  49).                                       a, ou seja, no seu confronto com o ser me-
    DIFERENA (gr. ioccpop; lat. Differentia;             diante a compreenso deste (Vom Wesen des
in. Difference, fr. Diffrence, ai. Differenz; it.          Grandes, I; trad. it., p. 24).
Differenzd). Determinao da alteridade. A                      DIFERENCIAO (in. Differentiation; fr.
alteridade no implica, em si, nenhuma deter-               Diffrentiaton; ai. Differenzierung; it. Diffe-
minao; p. ex., "a outra coisa que no b". A              renziazion). Passagem do homogneo para o
D. implica uma determinao: a diferente de                heterogneo, que, segundo Spencer,  a natu-
b na cor ou na forma, etc. Isso significa: as               reza fundamental da evoluo (First Principies,
coisas s podem diferir se tm em comum a                   cap. XV). (V. EVOLUO.)
coisa em que diferem: p. ex., a cor, a configura-               DIFERENCIAL, PSICOLOGIA (in Diffe-
o, a forma, etc. Segundo Aristteles, que                 rential psychologie; fr. Psychologie diffren-
estabeleceu claramente essas distines, as coisas          tielle, ai. Differentrelle Psychologie, it. Psicolo-
diferem em gnero se tm a matria em comum                 gia differenzial). Por esse nome indica-se o
e no se transformam uma na outra (p. ex., se               conjunto das tcnicas psicolgicas que servem
so coisas que pertencem a diferentes catego-               para verificar os modos e as capacidades de
rias); diferem em espcie se pertencem ao                   reao de um indivduo; dizem respeito, por-
mesmo gnero (Met, X, 3, 1054 a 23).                        tanto,  parte da psicologia que cuida da perso-
    A D. foi includa por Porfirio entre as quin-           nalidade e s aplicaes dessa psicologia, a
que vocs (lit., cinco palavras) (v.), ou seja, en-         psicotcnica (v.).
tre os cinco predicveis maiores. Porfirio cha-                 DIGNIDADE1 (in. Dignity, fr. Dignit, ai.
mou de constitutiva a D. quanto  espcie, e                 Wrde, it. Dignit). Como "princpio da digni-
de divisiva a diferena quanto ao gnero: p.                dade humana" entende-se a exigncia enunciada
ex., a racionalidade  a diferena que constitui            por Kant como segunda frmula do imperativo
a espcie humana e separa a espcie humana                  categrico: "Age de tal forma que trates a hu-
das outras do mesmo gnero. Distinguiu tam-                 manidade, tanto na tua pessoa como na pessoa
bm: D. comum, que consiste em um acidente                  de qualquer outro, sempre tambm como um
separvel e existe, p. ex., entre Scrates senta-           fim e nunca unicamente com um meio"
do e Scrates no sentado; D. prpria, que                  (GrundlegungzurMet. derSitten, II). Esse im-
existe quando uma coisa difere da outra por                 perativo estabelece que todo homem, alis,
um acidente inseparvel, como, p. ex., a ra-                todo ser racional, como fim em si mesmo, pos-
cionalidade (Lsag., 9-10). Essas distines fo-             sui um valor no relativo (como , p. ex., um
ram reproduzidas na lgica medieval (PEDRO                  preo), mas intrnseco, ou seja, a dignidade. "O
HISPANO, Summ. log., 2.11, 2.12). So at hoje              que tem preo pode ser substitudo por algu-
aceitas comumente, tanto em filosofia quanto                ma outra coisa equivalente, o que  superior a
fora dela.                                                  qualquer preo, e por isso no permite nenhu-
    DIFERENA, MTODO DA (in. Method of                     ma equivalncia, tem D." Substancialmente, a
 difference; fr. Mthode de Ia diffrence; ai.              D. de um ser racional consiste no fato de ele
DifferenzMethode, it. Mtodo delia differenzd).             "no obedecer a nenhuma lei que no seja tam-
Um dos quatro mtodos da pesquisa experi-                   bm instituda por ele mesmo". A mortalidade,
mental enumerados por Stuart Mill, mais preci-              como condio dessa autonomia legislativa ,
samente o mtodo expresso pela seguinte re-                 portanto, a condio da D. do homem, e
DIGNIDADE2                                             277                                        DIORISMA

moralidade e humanidade so as nicas coisas                 veria receber honorrios quando vencesse a
que no tm preo. Esses conceitos kantianos                 primeira causa. Protgoras achava que Evatlos
voltamemF.SCHILLER, GraaseD. (1793): "Ado-                   deveria pagar-lhe em qualquer caso: se vences-
minao dos instintos pela fora moral  a li-               se, por causa do pacto, e se perdesse por causa
berdade do esprito e a expresso da liberdade               da sentena, que o obrigaria a pagar. Mas Evatlos
do esprito no fenmeno chama-se D". (Werke,                 pde responder-lhe: "No te pagarei em caso
ed. Karpeles, XI, p. 207). Na incerteza das                  algum: se perder, por causa do pacto; se vencer,
valoraes morais do mundo contemporneo,                    por causa da sentena". O D., nesse caso, era
que aumentou com as duas guerras mundiais,                   do juiz (AULO GLIO, Noct. Att., V, 10).
pode-se dizer que a exigncia da D. do ser hu-                   Na lgica medieval, preferia-se dar a argu-
mano venceu uma prova, revelando-se como                     mentos desse genro as denominaes Insolu-
pedra de toque para a aceitao dos ideais ou                 biliaou Obligationes (y. ANTINOMIA). Esse ter-
das formas de vida instauradas ou propostas;                 mo reaparece na lgica renascentista (cf., p.
isso porque as ideologias, os partidos e os re-              ex., L. VALLA, Dialect. Disput., III, 13) e desta
gimes que, implcita ou explicitamente, se opu-              passa  lgica dejungius (Lgica Humburgensis,
seram a essa tese mostraram-se desastrosos para               1638, III, 29, D e  Lgica de Arnauld (III, 16).
si e para os outros.                                         Nesse sentido, o D. foi chamado por Hamilton
    DIGNIDADE2 (lat. Dignitas; it. Degnit). Foi             de sophisma heterozeteseos ou sofisma de con-
assim que os escolsticos, na esteira de Bocio,             tra-interrogao (Lectures on Logic, I, p. 466).
traduziram a palavra axioma(c., p. ex., TOMS,                  2. Mais tarde, deu-se o nome de D. a certa
InMet., III, 5, 390). Vio conservou essa pala-              forma de interferncia do seguinte tipo: "Toda
vra em italiano e suas "D.", expostas na parte               coisa  P ou M; S no  M; logo S  P" (cf.
da Scienza Nuova intitulada "Dos elementos",                 PEIRCE, Coll. Pap., 3.404). Esse segundo sig-
constituem os fundamentos de sua obra. "Pro-                 nificado de D. j  distinguido do precedente
pomos agora aqui os seguintes axiomas ou D.                  por Jungius (Log. hambiirg., III, 29, 10) e 
filosficas e filolgicas, algumas poucas per-               descrito como "silogismo hipottico-disjuntivo"
guntas racionais e discretas, com outras tantas              por Kant (Logik,  79), por Hamiltom (Lectures
definies esclarecidas; estas, assim como o                 on Logic, I, pp. 350 ss.) e por outros escritores
sangue pelo corpo animado, devem fluir por                   posteriores.
dentro desta cincia e anim-la em tudo o que                    DIMENSO (in. Dimension; fr. Dimension;
ela razoa sobre a natureza comum das naes".                ai. Ausdehruung; it. Dimensione). Entende-se
    DILEMA (gr. 5&r|H.ua; lat. Dilemmas; in.                 por esse termo todo plano, grau ou direo no
Dilemma; fr. Dilemme; ai. Dilemma; it. D-                   qual se possa efetuar uma investigao ou rea-
lemma). Esse termo (que significa "premissa                  lizar uma ao. Fala-se, assim, de "D. de liber-
dupla") comea a ser empregado por gram-                    dade" para designar os graus da liberdade ou
ticos e lgicos do sc. II (cf. HERMGENES, De               as direes em que ela pode manifestar-se;
inv., IV, 6; GALENO, Inst. log., VI, 5) para indicar         ou de "D. de uma pesquisa" para designar os
os raciocnios insolveis ou conversveis (coropoi,          vrios planos ou nveis nos quais ela pode ser
vnOTp(povTa) que, segundo Digenes Lar-                   conduzida.
cio (VII, 82-83), apareciam com freqncia nos                   DIONISACO, ESPRITO (ai. Dionysisch Geist).
livros dos esticos. Um desses D. se chamava                 Inicialmente contraposto ao esprito apolneo(v.),
"do crocodilo": um crocodilo que rapta um                    foi depois entendido por Nietzsche como atitu-
menino e promete ao pai que vai restitu-lo se               de prpria do super-homem e como o funda-
adivinhar o que o crocodilo vai fazer, ou seja,              mento da "inverso de valores" que Nietzsche
se vai restituir o menino ou no. Se o pai res-              propunha. Para Nietzsche, Dionsio  "a afirma-
ponder que o crocodilo no vai restituir, o cro-             o religiosa da vida total, no renegada nem
codilo estar diante de um D.: se no restituir,             estilhaada". Em outros termos,  o smbolo da
a resposta do pai ser verdadeira e, de acor-                aceitao integral e entusiasta da vida em todos
do com o pacto, ele dever devolver o menino;                os seus aspectos e da vontade de afirm-la e
mas se o devolver, a resposta do pai estar er-              repeti-la (Wille zur Macht, ed. 1901,  479).
rada e este perder o direito  restituio (Schol.              DIORISMA (gr. 8vopiou.-, in. Diorism; fr.
adHermog., ed. Walz, IV, p. 170). D. semelhan-               Diorisme, ai. Diorismus; it. Diorisma). Enunciao
te contava-se a respeito de Protgoras, que le-              de um problema ou delimitao da sua probabili-
vou a juzo seu discpulo Evatlos, de quem de-               dade. Termo usado pelos matemticos gregos.
DIREITA HEGELIANA                                      278                                          DIREITO


   DIREITA HEGELIANA (in. Hegelian right-                    fundamento ou princpio de todo D. positivo
fr. Droite hglienne, ai. Hegelsche Rechte, it.             possvel, ou seja, como condio de sua valida-
Destrahegeliana). As denominaes "D." e "es-                de. O D. natural  a norma constante e invari-
querda" hegeliana foram empregadas pela pri-                 vel que garante infdivelmente a realizao da
meira vez por Davi Strauss (Stretschriften, III,            melhor ordenao da sociedade humana: o D.
Tbingen, 1837); esses dois termos extrados                 positivo ajusta-se em mior ou menor grau,
dos costumes do Parlamento francs designam                  mas nunca completamente, ao D. natural por-
as duas grandes correntes antagonistas em que                que contm elementos variveis e acidentais
estava cindida a numerosa ala dos discpu-                   que no so redutveis a este. O D. natural  a
los de Hegel. A ciso era devida, predominan-                perfeita racionalidade da norma, a perfeita ade-
temente, s posies que tomavam diante da                   quao da norma ao seu fim de garantir a pos-
religio. A D. hegeliana tendia a vincular a dou-            sibilidade da coexistncia. Os D. positivos so
trina do mestre  religio tradicional; a esquerda           realizaes imperfeitas ou aproximativas dessa
hegeliana tendia a contrap-la a qualquer for-               normatividade perfeita. Esse pensamento re-
ma de religio.                                              geu, por mais de dois mil anos, a histria da
    A D. hegeliana pode ser considerada a                    noo de D. Podemos distinguir duas fases fun-
escolstica do hegelianismo: utiliza a razo                 damentais dessa longa histria: a) Fase antiga,
hegeliana (ou seja, a sistemtica de especula-               na qual o D. natural  a participao da comu-
o de Hegel) para justificar as verdades reli-              nidade humana na ordem racional do univer-
giosas. Esse , de fato, o principal intuito dos             so. Como, segundo os esticos (aos quais se
maiores representantes dessa D. como C. F.                   deve a primeira formulao dessa doutrina), a
Gschel, Bruno Bauer (na primeira fase de sua                participao dos seres vivos na ordem univer-
atividade) e o historiador da filosofia J. E. Erd-           sal se d por meio do instinto, nos animais, e
mann. No centro, Strauss punha C. F. Rosen-                  por meio da razo, nos homens (DOG. L, VII,
kranz, que foi o bigrafo entusiasta de Hegel                85-87), o D. de natureza  s vezes interpretado
(Vida de Hegel, 1844; Apologia de Hegel, 1858).              como instinto e s vezes como razo ou como
(Cf. MRIO Rossi, Intr. alia storia delle inter-             inclinao racional. Mas em todos os casos, 
pretazioni di Hegel, I, Messina, 1953.)                      entendido como participao na ordem uni-
    DIREITO (gr. x icmov; lat. Jus; in. Lata, fr.         versal que  Deus mesmo ou vem de Deus. b)
Droit; ai. Recht; it. Diritt). Em sentido geral e           Fase moderna, na qual o D. natural  a discipli-
fundamental, a tcnica da coexistncia huma-                 na racional indispensvel s relaes humanas,
na, isto , a tcnica que visa a possibilitar a coe-         mas independe da ordem csmica e de Deus.
xistncia dos homens. Como tcnica, o D. se                  O conceito de tcnica que pode e deve regula-
concretiza em conjunto de regras (nesse caso                 mentar da forma mais conveniente as relaes
leis ou normas), que tm por objeto o compor-                humanas apresenta-se com toda clareza nessa
tamento inter-subjetivo, ou seja, o comporta-                fase da doutrina.
mento dos homens entre si. Na histria do pen-                   a) Fase antiga -- O recurso  natureza e 
samento filosfico e jurdico, sucederam-se ou               ordenao que ela prescreve s relaes hu-
entrecruzaram-se quatro concepes funda-                    manas  inicialmente uma instncia polmica
mentais sobre a validade do D. Ia a que consi-               contra as leis "convencionais", aquelas que "a
dera que o D. positivo (conjunto dos D. que as               maioria" chama de justia ou que  justia para
vrias sociedades humanas reconhecem) ba-                    "a maioria". Essa instncia foi freqente nos so-
seia-se num D. natural eterno, imutvel e ne-                fistas. Antifontes afirmava que todas as leis so
cessrio; 2- a que julga o D. fundado na moral               puramente convencionais e por isso contrrias
e o considera, portanto, uma forma diminuda                  natureza, e que o melhor modo de viver  se-
ou imperfeita de moralidade; 3a a que reduz o                guir a natureza, ou seja, pensar no prprio pro-
D.  fora, ou seja, a uma realidade histrica               veito reservando deferncia aparente ou for-
politicamente organizada; 4a a que considera o               mal s leis dos homens (OxirhinchusPapyri, ne
D. como uma tcnica social.                                  1364, IX, p. 92). Idias semelhantes a estas so
   1. DIREITO NATURAL.                                       expressas por algumas personagens dos dilo-
   ls A observao da disparidade e da discre-               gos de Plato, como Clicies em Grgias (484
pncia entre os D. vigentes nas sociedades hu-               a) e Trasmaco e Glauco em Repblica (338, 3,
manas, bem como do carter imperfeito de tais                367 c). Mas mesmo nesse caso o D. natural
D. logo conduziu  noo de D. natural como                  constitui um tribunal de apelao contra as
DIREITO                                               279                                             DIREITO

convenes sociais e no fundo  sempre con-                 " a ordem da comunidade poltica, e a sano
cebido como justia mais superior e verdadeira.             do D.  a determinao do que  justo". Mas
Nessa concepo, acentua-se o carter utilitrio            um D. assim entendido  s o D. natural, que
do D. natural, graas ao qual o D. natural no               o melhor e em toda parte o mesmo (Et. nic,
visar  realizao de uma ordem, mas  con-                V, 16, 1135 a 1). O D. fundado na conveno e
secuo de uma vantagem, tendo por isso ca-                 na utilidade  anlogo s unidades de medida
rter prtico mais que especulativo. Portanto,              que variam de um lugar para outro; o D. natu-
nem sempre essa concepo tem o carter anti-               ral, ao contrrio,  '"aquilo que tem a mesma
social de que se reveste em Antifontes e nos                fora em toda parte e independe da diversida-
outros sofistas. Tampouco teria esse carter na-            de das opinies" (Ibid., V, 6, 1135 a 17). Os
queles que a retomaram alguns sculos depois,               esticos s fizeram explicitar o fundamento dessa
epicuristas e cticos. Epicuro dizia que o D. na-           doutrina, identificando o D. natural com a jus-
tural  uma conveno excogitada pelos ho-                  tia e a justia com a razo Q. STOBKO, Ecl., II,
mens para seu prprio proveito, a fim de no                184; PLUTARCO, De Stoic. Rep., 9); sua melhor
se prejudicarem uns aos outros (DlG. L, X,                 expresso est num famoso trecho de Ccero
150). Os cticos, com Carnades, sustentavam                conservado por Lactncio: "H certamente uma
que "os homens sancionaram o D. para seu                    lei verdadeira, a reta razo conforme  nature-
prprio proveito, j que ele  mudado de acor-              za, difundida entre todos, constante, eterna, que,
do com os costumes e dentro de uma mesma                    comandando, incita ao dever e, proibindo,
sociedade, de acordo com os tempos: logo,                   afasta da fraude... Nessa lei no  lcito fazer
no existe D. natural algum; todos, sejam ho-               alteraes, nem  lcito retirar dela qualquer
mens, sejam outros seres vivos, so guiados                 coisa ou anul-la como um todo... Ela no ser
pelo proveito prprio, sob a direo da nature-             diferente em Roma, em Atenas, hoje ou ama-
za; conseqentemente, ou a justia no existe               nh, mas, como lei nica, eterna e imutvel,
em absoluto ou, se existe de algum modo,  o                governar todos os povos e em todos os tem-
cmulo da estultice, porque ao defender as                  pos, e uma s divindade ser guia e chefe de
vantagens alheias estaria agindo em seu pr-                todos: a que encontrou, elaborou e sancionou
prio prejuzo (LACTNCIO, Div. Inst., V, 16, 2-3;           essa lei; e quem no lhe obedecer estar fugin-
CCERO, De rep., III, 21). Nessas doutrinas a po-           do de si mesmo, e, por haver renegado a pr-
lmica no se volta diretamente contra o D.                 pria natureza humana, sofrer as mais graves
natural, mas contra sua interpretao racionalista          penas, mesmo que tenha conseguido escapar
e otimista, segundo a qual ele  a garantia infa-           daquilo que em geral  considerado suplcio"
lvel de uma ordem perfeita.                                (LACTNCIO, Div. Inst., VI, 8, 6-9; CCERO, De rep.,
    Mas era justamente essa garantia infalvel              III, 33). Esse conceito de D., entre outras coisas,
que a outra corrente fundamental, que vai de                induzia a reconhecer a igualdade de todos os
Plato e Aristteles aos esticos, aos juristas ro-         homens visto que em todos eles, pela sua na-
manos e aos escritores medievais, via no D.                 tureza racional, revela-se a lei eterna da razo.
natural. Na verdade, Plato definiu o D. ao de-             Em Ccero, encontra-se esse reconhecimento
finir a justia como aquilo que possibilita que             (De leg., I, 28) e tambm um dos corolrios
um grupo qualquer de homens, mesmo que                      mais importantes da doutrina do D natural: o
bandidos ou ladres, conviva e aja com vistas               princpio e o fundamento de qualquer D. de-
a um fim comum {Rep,, 351 c). Ao que parece,                vem ser procurados na lei natural dimanada
essa seria uma funo puramente formal do D.,               antes que existisse qualquer Estado; portanto,
graas  qual ele  simplesmente a tcnica da               se o povo ou o prncipe podem fazer leis, estas
coexistncia. Mas Aristteles j qualifica o D.             no tero verdadeiro carter de D. se no deri-
tomando como referncia a coexistncia justa,               varem da lei primeira (Ibid., I, 19-20, 28, 42,
racionalmente perfeita. O D., diz ele,  "o que             45). Essas afirmaes foram reiteradas por
pode criar e conservar, no todo ou em parte, a              Sneca, em que tambm se encontra a teoria
felicidade da comunidade poltica" (Et. nic, V,             do "Estado de natureza", que deveria dominar
1, 1129 b 11), devendo-se recordar que a felici-            o pesnamento poltico por muitos sculos. Segun-
dade, como fim prprio do homem,  a realiza-               do essa teoria, antes das instituies criadas por
o ou a perfeio da atividade prpria do ho-              conveno pela sociedade, existiu uma idade
mem, ou seja, a razo Ubid, I, 6, 1098 a 3). "A             em que os homens viveram sem lei, unicamen-
sano do D.", diz ele em Poltica (I, 2, 1254 a),          te  merc da inocncia da natureza original.
DIREITO                                              280                                               DIREITO


Viviam felizes, fruindo sua convivncia. No               da Igreja que, nesse aspecto, continuam a tra-
eram virtuosos, porque a sua inocncia era fei-            dio dos juristas romanos, a lei natural est
ta mais de ignorncia, ao passo que a virtude             escrita no "corao" dos homens como uma es-
prpria da alma doutrinada e experiente. Mas               pcie de fora inata ou instinto. Diz S. Agosti-
a ordem em que viviam era a melhor possvel                nho: "O D. natural no foi gerado por uma opi-
porque ditada pela prpria natureza, nela at              nio, mas inserido em ns por uma fora
os chefes se inspiravam, em sua sabedoria (Ep.,             inata, do mesmo modo como, na religio,
90). Assim, o mito da idade de ouro transfor-              esto a piedade, a graa, a observncia, a ver-
ma-se em mito filosfico porque se une  no-               dade" (Dediv. quaest., 31; cf. S. AMBRSIO, De
o de D. natural e  caracterizado por ela.               off, 3). E foi justamente esse o conceito legado
Mas, afora esse mito, os juristas romanos elabo-            filosofia escoltica atravs das Etimologias de
raram uma doutrina do D. bastante semelhante               Isidoro de Sevilha (sc. VII). Diz Isidoro: "O D.
 dos esticos. Em meados do sc. II, Gaio, nas            natural  comum a todas as naes, sendo que
primeiras palavras das suas Instituies, que              em todos os lugares deriva do instinto natural,
so citadas inclusive no Digesto, afirmava: Ia             e no de uma constituio; p. ex., a unio do
existe um D. das gentes (Jus gentium) univer-              macho e da fmea, a sucesso e a educao
sal, que compreende princpios reconhecidos                dos filhos, a posse comum de todas as coisas e
por toda a humanidade; 2- tais princpios fo-              a liberdade de todos, a aquisio das coisas
ram ensinados aos homens pela razo natural                que esto no cu, na terra e no mar, etc."
e, por isso, so coevos do gnero humano (Inst.,           (Etym., V, 4). No causa estranheza, portanto,
I, 1; Dig., I, 1, 9; Ibid, XLI, 1, 1). O que Gaio          que os juristas medievais tenham considerado
chamava de jus gentium era chamado de D.                   o D. natural exatamente como um instinto ou
natural por Paulo, mas a definio era a mesma             uma tendncia inata, que eles interpretam
(Dig., I, 1, 11). Mais tarde, no sc. III, distin-         como sinal ou marca posta no homem por
guiu-se o D. das gentes do D. natural. Segundo             Deus (PIACENTINO, Summa instit., I, 2). No sc.
Ulpiano, o D. natural  o que a natureza ensi-             XII Graciano dividia todas as leis em duas par-
nou a todos os animais e por isso no  prprio            tes, atribuindo a Deus as leis naturais e aos cos-
apenas do gnero humano, mas  comum a to-                 tumes, as leis humanas (Decretum, d. I). A iden-
dos os animais que vivem na terra, no mar e no             tificao da lei natural com a lei divina constitui
cu. Desse D. provm a unio do macho e da                 o fundamento do D. cannico. O D. natural,
fmea, que ns chamamos de matrimnio, a                   notava Rufino, comendador de Graciano, 
procriao e a educao dos filhos, coisas essas           "uma fora (vis) que a natureza imprime na
de que tambm os animais tm experincia. O                criatura humana para lev-la a fazer o bem e a
D. das gentes, ao contrrio,  aquele de que se            evitar o mal". Ela ordena o que  til, como p.
valem todas as raas humanas, sendo prprio                ex. "ama o Senhor teu Deus"; probe o que 
somente dos homens (Dig., I, 1, 1-4). Essa dis-            nocivo, como p. ex. "no matars"; demonstra
tino representa o produto de outra instncia             o que convm, como p. ex. "tende tudo em
crtica, qual seja, o reconhecimento de que                comum", ou "seja uma s a liberdade de to-
nem todas as leis universalmente reconhecidas              dos", etc. (Summa decr., d. I, Dictat. Grat., ad
como tais pelos homens se fundam no D. na-                 I). A distino de Graciano entre lei divina e lei
tural; p. ex.: a escravido, como nota o prprio           humana  assumida como fundamento da dou-
Ulpiano (Ibid., I, 1, 4), embora universalmente            trina tomista do direito. Segundo S. Toms, h
admitida, no se funda no D. natural porque o              uma lei eterna, uma razo que governa todo o
homem  originalmente livre.                               universo e que existe na mente divina; a lei na-
                                                           tural que est nos homens  reflexo ou "par-
   Mas com essa distino, o conceito de D.                ticipao" dessa lei eterna (S. Th., II, 1, q. 91, a,
natural mudava, perdia-se o vnculo entre D.               1,2). Alm dessa lei eterna, que para o homem
natural e razo. Por ser comum a todos os ani-              natural, h duas outras espcies de leis: a "in-
mais, portanto tambm aos desprovidos de ra-               ventada pelos homens e segundo a qual se dis-
zo, o D. natural no podia mais ser considera-            pe de determinado modo das coisas a que a
do como ditado pela razo e coincidente com a              lei natural j se refere" (Ibid., II, 1, q. 91, a. 3) e
racionalidade. Por isso, ele foi remetido seguin-          a divina, necessria para encaminhar o homem
do-se o esquema estico, quilo que, nesse                 ao seu fim sobrenatural (Ibid., a. 4). No que diz
esquema, constitua o equivalente da razo nos             respeito ao fundamento de todas as leis feitas
animais, ou seja, o instinto. Segundo os Padres
DIREITO                                                281                                           DIREITO


pelos homens, S. Toms repete a doutrina tra-                mao radical: essa funo coube ao jusnatu-
dicional, de que no  lei aquela que no  jus-             ralismo moderno.
ta, e, portanto, "qualquer lei humana deve deri-                 b) Jusnaturalismo moderno -- Para o jus-
var da lei natural, que  a primeira regra da                naturalismo (v.) moderno, o D. natural no 
razo" (Jbid., q. 95, a. 2). Em geral, pertence             mais o caminho atravs do qual as comunida-
lei natural tudo aquilo a que o homem se inclina             des humanas podem participar da ordem cs-
naturalmente; S. Toms distingue trs inclina-               mica ou contribuir para ela, e passa a ser uma
es fundamentais por natureza: Ia para o                    tcnica racional de coexistncia. Conquanto
bem natural, compartilhada com qualquer                      Alberico Gentile -- que, antes de Grcio, ainda
substncia que, como tal, deseja a prpria con-              procurou extrair as noes normativas do D.
servao; 2a para determinados atos, que fo-                 natural da considerao do estado de guerra
ram ensinados pela natureza a todos os ani-                  (De jure belli, 1588) -- utilizasse o conceito de
mais, como a unio do macho e da fmea, a                    instinto natural imutvel que manteria os ho-
educao dos filhos e outros semelhantes; 3a                 mens unidos como membros de um nico cor-
para o bem, segundo a natureza racional pr-                 po, todos os conceitos desse gnero foram des-
pria do homem, como a inclinao para conhe-                 cartados por Grcio. A teoria do D. natural foi
cer a verdade, viver em sociedade, etc. (5. Th.,             levada por Grcio ao mesmo plano racional da
 II, 1, q. 94, a. 2). Assim, S. Toms considera o D.         matemtica, para o qual o prprio Descartes
 natural, ao mesmo tempo, instinto e razo visto             quis levar a filosofia e todas as outras pesquisas
 que inclui nele tanto a inclinao que o homem              cientficas. Como fundamento da obra de Gr-
 tem em comum com todos os seres da natureza                 cio, h o recurso  razo, que  o recurso 
 e com os animais, quanto a inclinao especfi-             razo matemtica,  qual os filsofos do sc. XVII
 ca do homem. Quanto a esta ltima, ele estabe-              julgam estar confiadas as verdades da cincia.
 lece entre os preceitos do D. natural e a razo             Segundo Grcio, a matriz do D. natural  a pr-
 prtica a mesma relao que h entre os pri-                pria natureza humana, que conduziria os ho-
 meiros princpios das demonstraes e a razo               mens s relaes sociais mesmo que eles no
 especulativa: tanto os preceitos quanto os pri-             tivessem necessidade uns dos outros. Por isso,
 meiros princpios so "conhecidos de per si",               o D. que se funda na natureza humana "teria
 ou seja, evidentes. Mas em todas as suas determi-           lugar mesmo que se admitisse aquilo que no
 naes, tanto instintivas quanto racionais, o D.            pode ser admitido sem cometer um delito: que
 natural  sempre a participao na "lei eterna",            Deus no existe ou que no se preocupa com
 na ordem providencial ou divina do mundo.                   as coisas humanas" (De jure belli ac pacis,
     Durante toda a Antigidade e a Idade M-                1625, Prol.,  11). Porquanto procede por legti-
 dia, o D. natural conservou a funo de funda-              ma deduo dos princpios da natureza, o D.
 mento e, s vezes platonicamente, de arquti-               natural distingue-se do D. das gentes (jus
 po ou modelo de todo D. positivo. J nessa                  gentiuni), que no nasce da natureza, mas do
 fase de sua histria, a noo de D. natural                 consenso de todos os povos ou de alguns deles
 constituiu um limite e uma disciplina para toda             e visa ao proveito de todas as naes. Pela sua
 forma de autoridade estatal ou poltica, servin-            prpria origem, o D. natural  prprio do ho-
 do ao mesmo tempo para justific-la. Mas ca-                mem, nico ser racional, ainda que se refira a
 beriam outras funes  teoria do D. natural a              atos comuns a todos os animais, como a cria-
 partir do incio do sc. XVII. Por um lado, ele             o da prole (Ibid., I, 1, 11).  definido por
 viria a ser utilizado na justificao e na reivin-          Grcio como "o mandamento da reta razo que
 dicao prtica de novos princpios normativos,             indica a lealdade moral ou a necessidade moral
 como os da tolerncia religiosa e da limitao              inerente a uma ao qualquer, mediante o
 do poder do Estado. Por outro, seria utilizado              acordo ou o desacordo desta com a natureza
 para fundar um novo ramo do D., o D. interna-               racional" (Jbid., I, 1, 10). As aes sobre as
 cional, exatamente no momento em que o sur-                 quais versa o mandamento so obrigatrias ou
 gimento das monarquias absolutas e a aceita-                ilcitas de per si, e portanto so entendidas
  o mais ou menos explcita do maquiavelismo               como necessariamente prescritas ou vetadas
  como condutor de suas polticas pareciam fazer             por Deus. Nisso o D. natural distingue-se no
  da fora o nico rbitro das relaes internacio-          s do D. humano, mas tambm do D. volunt-
  nais. Mas para cumprir essas novas tarefas, a              rio divino, que no prescreve nem probe as
  teoria do D. natural devia sofrer uma transfor-            aes que pela prpria natureza so obrigat-
DIREITO                                               282                                           DIREITO


rias ou ilcitas, mas torna ilcitas algumas aes,              Contudo, o jusnaturalsmo nem sempre per-
vetando-as, e obrigatrias outras, prescreven-              maneceu fiel s formulaes de Grcio. Locke,
do-as. O D. natural , portanto, to imutvel               no Ensaio sobre a lei natural, negava que essa
que no pode ser mudado nem por Deus.                       lei fosse um ditame da razo, e considerava-a
"Assim como Deus no pode fazer que dois                    como sancionada e imprimida nos coraes
mais dois no sejam quatro, tampouco pode fa-               humanos por uma potncia superior; desse
zer que deixe de ser mal aquilo que, por razo              modo, a razo s faz descobri-la, no sendo
intrnseca,  mal" (Ibid., I, 1, 10). Logo, a ver-          sua autora, mas sua intrprete (Law ofNature,
dadeira prova do D. natural  prova a priori,                Ia ed., 1954, p. 110). Nisso, adotava a doutrina
que se obtm mostrando a concordncia ou                    de Hooker (Thelaws ofthe Ecclesiastic Politycs,
discordncia necessria de uma ao com a na-                1594-97,1, 8), que, por sua vez, adotava a dou-
tureza racional e social. A prova a posteriori,             trina tomista. O segundo passo decisivo do
obtida a partir daquilo que, em todos os povos              jusnaturalismo moderno foi dado por Hobbes,
ou nos mais civilizados,  tido como legti-                graas a quem so eliminados da noo de D.
mo,  apenas provvel e funda-se na pre-                    natural alguns vestgios dogmticos que ainda
suno de que um efeito universal exige                     persistiam na doutrina de Grcio. Para Hobbes,
uma causa universal (Ibid., I, 1, 12). Distin-              a lei natural , sem dvida, "um ditame da reta
gue-se do D. natural o D. voluntrio, que no               razo", mas a razo de que ele fala  a razo
se origina da natureza, mas da vontade, e pode              humana falvel. "Por reta razo no estado natu-
ser humano ou divino (Ibid., I, 1, 13-15). Mas              ral da humanidade entendo, ao contrrio da
s o D. natural fornece o critrio da justia e da          maior parte dos escritores que a consideram
injustia: "Por injusto entende-se o que repug-             uma faculdade infalvel, o ato de raciocinar, o
na necessariamente  natureza racional e so-                raciocnio prprio de cada indivduo, verdadei-
cial" (Ibid., I, 2, 1).                                     ro em termos de aes que podem gerar van-
    A doutrina do D. natural teve de Grcio a               tagens ou prejuzos aos outros homens. Digo
formulao mais madura e perfeita de sua lon-               'prpria de cada indivduo' porque, ainda que
ga histria. Certamente essa formulao  con-              no Estado a razo (ou seja, a lei civil) do Estado
dicionada pelo racionalismo geometrizante do                deva ser observada por todos os cidados, fora
tempo. Tcnica racional, nos tempos de Grcio               do Estado, porm, onde ningum pode distin-
e Descartes,  tcnica geomtrica; nela, uma                guir a razo correta da falsa, a no ser confron-
proposio s se justifica quando pode derivar,             tando-a com sua prpria razo, cada um deve
por deduo necessria, de um ou mais princ-               considerar sua prpria razo no s como re-
pios evidentes. Mas j ao mostrar que as nor-               gra de suas aes, realizadas por sua conta e
mas do D. natural podem ser deduzidas da                    risco, mas tambm como medida das razes
exigncia de existncia de uma sociedade                    alheias em relao s coisas. Digo 'verdadeiro',
ordenada, Grcio estabelece, entre essa exi-                ou seja, derivado de princpios verdadeiros cor-
gncia e as normas, uma relao condicional                 retamente elaborados, porque toda violao das
que exprime bem o carter de tcnica. A con-                leis naturais resume-se na falsidade dos racio-
cordncia necessria entre a norma e a "natu-               cnios, na estupidez dos homens que no jul-
reza racional e social", que ele assume como                gam necessrio  sua prpria conservao cum-
critrio para decidir da validade da norma, isto            prir seu dever para com os outros" (De eive,
, de sua naturalidade, significa de fato o juzo           1642, II, 1, nota). Nesse importantssimo trecho
sobre o carter indispensvel da norma para a               de Hobbes, alm da reafirmao do carter ra-
possibilidade de relaes entre os homens. As-              cional do D. natural, comum a todo o jusnaturalis-
sim, para ele, o respeito  propriedade, o respeito         mo moderno, encontra-se o primeiro e deci-
aos pactos, o ressarcimento dos danos e a                   sivo reconhecimento do carter falvel, finito
cominao de penalidades so condies indis-               ou humano da razo que funda o D. natural.
pensveis de qualquer coexistncia humana,                  Grcio transferira o D. natural da esfera da ra-
constituindo, por isso mesmo, as normas fun-                zo divina (na qual os escritores antigos e me-
damentais do D. natural. Ademais, o reconheci-              dievais a situavam) para a esfera da razo huma-
mento da independncia desse D. em relao                  na, mas continuara atribuindo a essa razo o
ao arbtrio humano e divino transformou-o em                carter de infalibidade. Hobbes d mais um
poderosssima alavanca na luta pela liberdade               passo ao negar esse carter. Por fim, a razo
do mundo moderno.                                           "prpria de cada indivduo", ou seja, prpria de
DIREITO                                              283                                           DIREITO


cada um e de todos os indivduos humanos,                 com um exemplo que nos parece muito evi-
tribunal que julga da legitimidade ou naturali-            dente, o das normas de trfego. "As regras so
dade de uma lei; e faz esse julgamento em                  necessrias sempre que entre os homens haja
termos de possibilidade de ser inferida ou dedu-           uma relao qualquer. Sem elas, nem mesmo
zida de princpios verdadeiros que, de resto,              podem passar uns ao lado dos outros na rua.
derivam todos de um princpio nico, qual                  Os carreteiros, os cocheiros, os postilhes obe-
seja, "deve-se buscar a paz sempre que ela for             decem a princpios para dar passagem, e esses
possvel; quando no,  preciso buscar socorro             princpios baseiam-se principalmente na como-
para a guerra" (Ibid., II, 2). Em De jure naturae          didade e na convenincia recprocas. Algumas
etgentium (1672), Samuel Pufendorf fazia uma               vezes, so arbitrrios ou pelo menos depen-
sntese feliz das doutrinas de Grcio e de                 dentes de alguma espcie de analogia capri-
Hobbes ao dizer que "a lei natural deriva dos              chosa, assim como muitos raciocnios dos
ditames da reta razo, no sentido de que o                 advogados" (Inq. Cone. Morais, IV, ao final).
intelecto humano  capaz de compreender com                Assim, Hume certamente no admite o carter
clareza, a partir da observao de nossa condi-            de racionalidade necessria que Grcio atri-
o, que  preciso viver necessariamente do                bua s normas que regulam as relaes huma-
acordo com as normas do D. natural e investi-              nas, mas compartilha da noo fundamental do
gar, ao mesmo tempo, o princpio de onde tais              jusnaturalismo moderno, de que tais normas
normas recebem sua slida e clara demonstra-               constituem uma tcnica razovel, ainda que
o" (De jure nat., II, 3, 8). Para Pufendorf,             nem sempre racional, das relaes humanas.
assim como para Hobbes, o princpio supremo                   2. DIREITO COMO MORAL.
do D. natural exprime a exigncia da coexis-                   A segunda concepo de D., fundado na
tncia pacfica entre os homens (Jbid., II, 3, 8,          moral, prenuncia-se quando se comea a atri-
10). Graas a Grcio, Hobbes e Pufendorf, a                buir  moral caracteres que os autores at aqui
doutrina tradicional do D. natural transformou-            examinados atribuam ao D. Em todas as doutri-
se em tcnica racional das relaes humanas,               nas do D. natural, nem chega a nascer o proble-
que, embora estritamente dependente do con-                ma da distino entre moral e direito. O D.
ceito de racionalidade geomtrica predominan-              natural  constantemente identificado com o
te na poca, constitui uma noo que ainda                 que  bem ou justo na ordem das relaes hu-
hoje poderia ser recuperada com vistas a uma               manas, portanto com a verdadeira moralidade;
"teoria geral do D." (v. mais abaixo). A teoria            por outro lado, a sua diferena em relao ao
de Hume no  mais que a reelaborao em                   que Graciano e Toms chamavam de lei huma-
linguagem diferente e a retificao empirista              na e que Grcio chamava de lei voluntria 
dessa doutrina, enquanto a teoria de Spinoza,              a distino entre o que  justo e bom em si
comparada a ela, representa um retorno  fase              mesmo (verdadeiramente moral) e o que  jus-
clssica da teoria do D. natural.                          to ou bom s por participao, podendo, pois,
    Quando Spinoza diz: "Cada um existe por                no ser justo e bom, como de fato s vezes no
supremo D. natural e faz o que decorre da                  . No h dvida, portanto, de que nos autores
necessidade de sua natureza" (Et., IV, 37, scol.           at aqui examinados a esfera do D. natural
2), est apenas retornando  concepo dos                 coincidiu com a esfera que denominamos mo-
esticos, segundo a qual o D. natural nada mais            ral, porm talvez fosse mais exato dizer que
 que a necessidade de todo ser de adequar-se              eles simplesmente no faziam distino entre
 ordem racional do todo. Por outro lado, Hume             D. natural e moral. O primeiro sinal dessa dis-
nega o estado natural, qualificando-o de "fico           tino pode ser visto na tentativa de Leibniz de
filosfica", mas dificilmente sua crtica pode ser         fazer o D. natural derivar da moral, o que pare-
entendida como crtica ao D. natural. Quando               ce supor certa distino entre as duas esferas.
ele insiste na subordinao de todas as normas,            Leibniz diz que o D.  uma "potncia moral" e
concernentes ao estado de paz ou ao estado de              que a obrigao  uma "necessidade moral",
guerra,  utilidade humana, s faz repetir uma             entendendo por moral o que  natural no ho-
tese apreciada pelos jusnaturalistas modernos,             mem bom, ou seja, o amor ao prximo no
em particular Hobbes. O carter utilitrio, efi-           sentido da alegria pela felicidade alheia. "Des-
ciente, das regras que regem todos os tipos de             sa fonte", acrescenta, "flui o D. natural, que tem
relaes humanas, enquanto destinadas a pos-               trs graus: o D. estrito, que  a justia comu-
sibilitar essas relaes,  ilustrado por Hume             tativa; a eqidade ou caridade, que  a justia
DIREITO                                              284                                            DIREITO


distributiva; a piedade ou a probidade, que  a            cpio da justia (Ibid., II, 2,  2); o mesmo
justia universal. Esses graus correspondem aos            princpio do D. natural, do qual todas as nor-
trs preceitos seguintes: 'no prejudicar nin-             mas de tal D. devem ser dedutveis,  formu-
gum', 'atribuir a cada um o que lhe  devido' e           lado por Thomasius principalmente em termos
'viver honestamente' (ou piamente)" (De notio-             de vida moral: " preciso fazer tudo o que 
nibus jris etjustitiae, 1693, Op., ed. Erdmann,           possvel para tornar a vida dos homens mais
p. 119)- J nessas formulaes de Leibniz a                longa e feliz e evitar tudo o que torna a vida
esfera da moral  entendida como originria e              infeliz e apressa a morte" (Ibid., I, 6,  21).
primria em relao  do D. natural. Mas foi                   Depois de Thomasius, a distino entre a
Cristiano Thomasius (1655-1728) o primeiro a               esfera do D. e a esfera moral tornou-se lugar-
expressar com clareza e impor na filosofia ju-             comum da filosofia. Wolff deduzia o primeiro
rdica a distino entre esfera jurdica e esfera          corolrio dessa distino ao identificar o direito
moral, marcando assim a passagem da teoria                 natural com a teoria da filosofia prtica, ou seja,
do D. natural  teoria do D. fundado na mo-                com a tica, a poltica e a economia (Log.,
ralidade. Thomasius distinguiu trs "fontes" do            Discursus prel.,  68). E Kant, que a reexps a
bem: a honestidade (bonestum), o decoro                    seu modo, transformou-a num dos fundamen-
(decoram) e a justia (justum). A honestidade             tos da filosofia moral e jurdica moderna. Mas
o bem mais alto e o seu oposto  a torpeza. A              com a predominncia dessa distino, a teoria
justia ope-se ao mal extremo, que  a injusti-           do D. natural tornava-se til; o fundamento do
a. E o decoro  um bem intermedirio e por                D. era colocado ou reconhecido na moral e o
isso imperfeito, sendo um mal imperfeito a fal-            prprio D. era entendido como uma forma re-
ta de decoro (Fundamenta jris naturae et                  duzida ou imperfeita de moralidade. Um dos
gentium exsensu communi deducta, 1705,1, 4,                pontos bsicos da doutrina de Kant  a distin-
 89). Correspondentemente, "a honestidade di-             o entre legalidade e moralidade. "A pura
rige as aes internas dos ignorantes; o decoro,           concordncia e discordncia de uma ao com
as aes externas que visam a angariar a benevo-           a lei", diz ele, "sem considerar o mvel da
lncia alheia; a justia, as aes externas, para          ao, chama-se legalidade (conformidade com
que no perturbem a paz ou a restituam quan-               a lei), ao passo que se tem a moralidade quan-
do for perturbada" (Ibid., I, 4,  90).  norma            do a idia do dever, derivada da lei,  ao mes-
da honestidade pertence uma obrigao inter-               mo tempo mvel da ao (doutrina moral). Os
na que  a mais perfeita e no obriga em face              deveres impostos pela legislao jurdica po-
dos outros homens, mas em face de si mesmo.                dem ser apenas deveres externos porque essa
Pertence  norma da justia uma obrigao ex-              legislao no exige que a idia do dever, que
terna, segundo a qual "ningum tem o D. em                  totalmente interna, seja de per si motivo
si mesmo", visto que "todo D.  externo, no               determinante da vontade do agente e, como
interno" (Ibid., I, 5,  16, 17, 24). "Do que se           tem necessidade de mveis apropriados s
disse", acrescenta Thomasius, "infere-se que               suas leis, s pode admitir mveis externos. A
tudo o que o homem faz por obrigao interna               legislao moral, ao contrrio, embora erija em
e em conformidade com as regras da honesti-                deveres tambm aes internas, nem por isso
dade e do decoro  regido pela virtude em                  exclui as aes externas, mas refere-se em ge-
geral, e por isso o homem  dito virtuoso, e no           ral a tudo o que  dever" (Met. der Stten, I,
justo; ao passo que o que ele faz segundo as               Intr.,  3). Portanto, o D.  "o conjunto de con-
regras da justia, ou por obrigao externa,              dies por meio das quais o arbtrio de um
regido pela justia e faz que possa ser chamado            pode ajustar-se ao arbtrio de outro, segundo
de justo" (Ibid., I, 5,  25). Com essas palavras,         uma lei universal da liberdade", e pode ser
a esfera da moralidade e a esfera do D. so cla-           representado como "uma coao geral e rec-
ramente distinguidas e contrapostas: a primei-             proca", de tal modo que "D. e faculdade de
ra  a esfera privada da interioridade ou, como            coagir significam a mesma coisa" (Ibid., Intr. 
Thomasius s vezes tambm diz, do "cora-                   doutrina do dir.,  E). Sob esse aspecto, no h
o" (Ibid., I, 6,  15, 18 etc); a segunda  a            diferena entre D. natural e D. positivo, que
esfera da exterioridade e das obrigaes para              so distintos s na medida em que o D. natural
com os outros. Por isso, os deveres para con-              repousa exclusivamente em princpios apriori,
sigo mesmo so extrados por Thomasius do                  ao passo que o D. positivo deriva da vontade
princpio da honestidade mais do que do prin-              do legislador (Ibid., Div. da doutr. do dir.,  B).
DIREITO                                              285                                            DIREITO


   Nessa doutrina de Kant h trs pontos im-                  3. DIREITO COMO FORA.
portantes: ls o carter primrio e fundamental                 Da negao do D. natural e da ligao da
da norma moral, que  a nica lei racional, e              noo de D. com a de coero externa ou san-
portanto d origem  norma de D.; 2- o carter             o nasce a terceira concepo fundamental de
"externo", logo imperfeito, da norma de D. e,              D., que o identifica com a fora. A caracterstica
por conseguinte, o carter imperfeito e incom-             essencial da fora  garantir a realizao da
pleto da ao legal em relao  ao moral; 3S            norma, de tal modo que o D. como fora  o D.
o carter necessariamente coercitivo do D. Es-              realizado, ou seja, D. que ganha corpo e subs-
ses trs pontos tiveram grande importncia no              tncia em instituies historicamente existen-
desenvolvimento sucessivo da doutrina do D.;               tes. O pressuposto dessa corrente , portanto,
o primeiro deles , obviamente, resultado da               a negao do D. como dever-ser, alis, do pr-
doutrina do D, natural.                                    prio dever-ser:  a identificao entre norma e
   E tambm inspira grande nmero de cor-                  realidade, entre dever-ser e ser. Este ltimo
rentes da moderna filosofia do D., mais preci-             aspecto exclui Hobbes dessa corrente dou-
samente aquelas que partem da distino entre              trinai, pois, uma vez que ele no identificou o
a esfera externa da ao, como pertencente ao              dever-ser com o ser, admitiu um D. natural que
D., e a esfera interna da inteno ou da cons-              a sada razovel do homem de uma situao
cincia, como pertencente  moralidade. As-                hostil que ameaa destru-lo, e no considerou
sim, a teoria do D. como "o minimum tico",                que essa sada era infalivelmente garantida e
proposta por Jellinek (Die sozial-ethische Be-             plenamente realizada. A concepo do D.
deutungvon Recht, Unrecht, undStrafe, 1878),               como fora, com base na identificao entre
implica, ao mesmo tempo, que o D. deriva da                dever-ser e ser, nasce com Hegel. Segundo ele,
moral e que o D. se reduz a uma esfera moral               o D.  "uma existncia em geral que seja exis-
restrita ou diminuta. Concepo anloga foi                tncia da vontade livre" (Fil. do dir., % 29). Isso
sustentada por Croce, que a exprimia com a                 significa que o D.  uma liberdade realizada
frmula da identidade entre atividade jurdica e           em instituies historicamente determinadas,
atividade econmica, identidade que servia                 que como tais nada tm mais a ver com a liber-
para fazer a distino entre D. e moral, ao mes-           dade entendida como arbtrio individual. He-
mo tempo em que vinculava os dois, de acordo               gel, como todo o Romantismo reacionrio do
com a soluo geral apresentada por Kant (Fi-              sc. XIX, via na liberdade do indivduo o con-
losofia da prtica, 1909, pp. 370 ss.).                    ceito e a inspirao fundamental do Iluminismo
   Outro modo de exprimir a mesma noo de                 e da Revoluo Francesa, contra os quais enten-
D. pode ser visto na doutrina de R. Stammler,              dia assestar sua doutrina. Citando a definio
de D. como tendncia imanente em todo D.                   kantiana de D. (v. acima), ele observava: "A ci-
positivo e da moralidade como perfeio do                 tada definio de D. contm a opinio, corren-
D. correto, isto , como perfeio ltima deste            te sobretudo depois de Rousseau, segundo a
{Lebre von richtigen Recht, 1902, p. 87). Ainda            qual o querer deve ser fundamento substancial
na mesma linha situa-se o russo Leon Pe-                   e primeiro princpio, no enquanto racional em
trazycki (Introduo ao estudo do direito e da             si e para si, no enquanto esprito e esprito
moral, 1905; Teoria do direito, 1907), que fez a           verdadeiro, mas enquanto individualidade par-
distino entre as normas morais que estabe-               ticular, enquanto vontade do indivduo em seu
lecem "obrigaes livres", ou seja, no confe-             arbtrio particular. Uma vez acolhido esse prin-
rem aos outros nenhum D. ou pretenso, e as                cpio, o racional certamente s pode aparecer
normas morais que garantem tais obrigaes                 como limitador dessa liberdade; logo, no co-
em relao aos outros, ou seja, do aos outros o           mo racionalidade imanente, mas s como uni-
D. de pretender o que a norma garante (Low                 versal externo, formal. Esse ponto de vista 
andMorality, trad. in., 1955, pp. 46-47). E recen-         desprovido de qualquer pensamento espe-
temente A. L. Goodhart reafirmava, ao me-                  culativo, e  rejeitado pelo conceito filosfico,
nos em relao  Common Law anglo-saxnica,                visto ter produzido, nas mentes e na realidade,
o fundamento moral do D., entendendo-o como                fenmenos cuja horribilidade s tem paralelo
obrigao ou dever-ser (oughtness), que no                na superficialidade do pensamento em que se
pode ser reduzido  coero externa ou                    fundavam" (Ibid.,  29). Assim, os "horrores" da
sano (English Law and the Moral Law, 1953,               Revoluo Francesa constituem um paralelo 
pp. 18 ss.).                                               "superficialidade" de entender a liberdade no
DIREITO                                               286                                              DIREITO


como realidade histrica, mas como o dever-                 imperfeio do D. positivo, na doutrina de
ser de uma norma. Conseqentemente, Hegel                   Hegel no existe nenhum tribunal de apelao
acha que o D.  algo sagrado, s por ser "a                 e, alis, a prpria doutrina no passa de nega-
existncia do conceito absoluto, da liberdade               o desse tribunal, que  entendido como fon-
autoconsciente", e que um D. superior, ou seja,             te de pensamentos "superficiais" e de aconteci-
mais real, subordina um D. mais abstrato, ou                mentos "horrveis". O indivduo no tem defesa
seja, menos real ou imperfeitamente real. As-               contra o Estado ou o D. positivo; no pode de-
sim, a esfera do "D. abstrato" subordina-se  da            sobedecer-lhes e nem mesmo discuti-los; e de
"moralidade", e ambas se subordinam  da                    fato, discutindo-os, estaria apenas contrapondo
"eticidade", que  a prpria liberdade ''trans-             as exigncias de seu intelecto "finito"  racio-
formada em mundo existente" (Ibid.,  142). E               nalidade "infinita" da histria. O Estado tem
a eticidade culmina no Estado, que  a realida-             sempre razo. Desse ponto de vista, ao D. s
de histrica mxima e, portanto, a mais eleva-              resta a fora.
da, a nica verdadeira e definitiva realizao                  Algumas dessas caractersticas da doutrina
do direito. "O ingresso de Deus no mundo", diz              hegeliana do D., especialmente a reduo do
Hegel, " o Estado; seu fundamento  a potn-               dever-ser ao ser, que , de resto, o achata-
cia da razo que se realiza como vontade.                   mento da norma no fato, so compartilhadas
Como idia de Estado no se devem ter em men-               tambm por escolas que no se inspiram na
te estados particulares, instituies particulares,         concepo geral de Hegel. Assim, a escola his-
mas considerar a Idia por si, esse Deus real"              trica do D., cujo representante principal  F.
{Ibid.,  258, Zusatz). Embora fale assim do                von Savigny (1779-1861), ao considerar o Esta-
Estado "em si", que conserva carter divino                 do como "manifestao orgnica do povo", v
ainda que, em suas manifestaes particulares,              no D. um produto do "esprito do povo", algo
se mostre imperfeito, assim como um homem                   que encontra realidade na vontade comum do
conserva carter humano mesmo quando                       povo (ber den Beruf unserer Zeit, 1814).
aleijado ou deficiente, Hegel julga que todos os            Como ltima justificao do carter histrico,
Estados so encarnaes do "Esprito do povo",              portanto nacional, do D., os seguidores dessa
a autoconscincia que um povo tem de sua                    escola aduzem a considerao de que o D., vi-
prpria verdade e de seu ser, ou a "cultura" de             sando conservar a ordem nacional, contribui
uma nao (Phil. derGeschichte, ed. Lasson, p.              no campo da histria para conservar e garantir
93)- O D. no  seno a realizao da liberdade             a ordem csmica desejada por Deus. J. Stahl
no Estado: existe s como lei do Estado. Cor-               diz que o D.  "a ordem vital do povo, espe-
respondentemente, a liberdade existe s como                cialmente da comunidade dos povos, com vis-
obedincia s leis do Estado. "Ao Estado per-               tas  conservao da ordem csmica estabeleci-
tencem as leis, e isso significa que o costume              da por Deus. Ele  uma ordem humana, mas a
no subsiste s na forma imediata, mas na for-              servio da ordem divina determinada por um
ma do universal, como objeto de um saber. O                 mandamento divino e fundada na permisso
fato de esse universal ser conhecido constitui a            divina" (Phil. desRechts, 1830, II, l e , p. 194). Ao
espiritualidade do Estado. O Indivduo obede-               contrio de Hegel e da escola hegeliana, a es-
ce s leis, e sabe que nessa obedincia est a              cola histrica no identifica o D. realizado (ou
sua liberdade; nela, portanto, entra em relao             Estado) com Deus, mas v no D. algo que pro-
com seu prprio querer" (Ibid., p. 99).                     vm de Deus e cuja justificao consiste em
   Durante muito tempo a doutrina do D. na-                 subordinar-se  ordem csmica estabelecida
tural afirmara que a norma natural  a prpria              por Deus.
vontade de Deus, ou vice-versa. Hegel afirma                    Pode-se ver a mesma orientao fundamen-
que Deus apareceu ou realizou-se na histria:               tal (cuja melhor expresso ainda  a doutrina
 o prprio Estado. A lei positiva  assim imbu-           de Hegel) em todas as doutrinas do D. que de
da do valor e do prestgio que a tradio atri-             algum modo relacionem a origem e o funda-
bua ao D. natural. Ao passo que, ao longo de               mento do D. com o "Esprito do povo", com a
toda a tradio, sobretudo no mundo moderno,                "Nao" ou com o "Estado", reduzindo, portan-
esse D., entendido como lei divina ou como                  to, a obrigatoriedade do D.  fora coercitiva
princpio humano de razo, era um tribunal de               de uma instituio histrica qualquer, conside-
apelao ao qual o homem podia recorrer,                    rada como instrumento providencial da ordem
como de fato recorria, contra a injustia ou a              csmica ou como essa mesma ordem em sua
DIREITO                                             287                                          DIREITO


manifestao. De fato,  de se observar que a                 Nessa concepo, confluem vrios elemen-
nfase ou mesmo a exaltao do carter "ti-              tos historicamente reconhecveis: a velha idia
co", "racional", "providencial" ou de qualquer            do D. como utilidade, que sofistas, epicuristas
forma necessrio e necessitante do D. positivo            e cticos j haviam defendido na Antigidade e
tm como conseqncia simetricamente oposta               que no mundo moderno foi retomada por
a atribuio de caracteres idnticos ao D. natu-          Hobbes e Hume; e, em especial, a idia central
ral. Se esses caracteres so atribudos ao D.             do jusnaturalismo moderno de que o D.  a ra-
natural, reconhece-se ao mesmo tempo e com                cionalidade das relaes humanas (pacficas ou
base nisso a possibilidade de discutir, avaliar e         no) e que, portanto, em sua esfera inclui-se
julgar o D. positivo, reconhecendo-se, portan-            qualquer regulamentao racional de tais rela-
to, implcita ou explicitamente, a possibilidade          es. Este ltimo tambm  o conceito de D.
e a autonomia desse juzo. Mas quando esses               aceito pela teoria formal, se bem que a polmi-
caracteres so atribudos apenas ao D. positi-            ca tradicional de ordem ideal e perfeita da co-
vo, nega-se qualquer possibilidade de discutir,           munidade at agora impediu que essa teoria se
avaliar e julgar tal D., negando-se portanto a            identificasse em seu precedente histrico mais
autonomia e a prpria possibilidade de qual-              ilustre e significativo. No h dvida de que a
quer juzo e at mesmo da mais incua discus-             idia de D. como tcnica ou instrumento para
so sobre o D.  essa negao que muitas ve-              possibilitar as relaes humanas, tanto na paz
zes as teorias desse gnero pretendem garantir            quanto na guerra -- idia exprimvel na forma
e justificar.                                             de imperativos hipotticos ou de proposies
  4. DIREITO COMO TCNICA SOCIAL.
                                                          condicionais do tipo se... ento--,  comum ao
   A concepo de D. como fora nega o D.                 jusnaturalismo clssico de Grcio, Hobbes,
natural por negar qualquer dever-ser, e nega              Pufendorf e a outros defensores hodiernos da
qualquer dever-ser por considerar o D. apenas             "teoria geral do D."
como fora necessariamente realizadora. No                   Pode-se ver um precedente dessa teoria na
prescinde de consideraes de valor e, particu-           doutrina de John Austin que definiu o D. como
larmente, da idia de justia, ou seja, de um             "regra formulada para que um ser inteligente
tipo de coexistncia perfeita entre os homens,            guie outro ser inteligente e tenha poder sobre
mas considera o valor ou a justia j desde               ele'1. D. seria, portanto, mando: expresso da
sempre realizados: como dizia Hegel, a razo              vontade de um indivduo, injuntiva para o indi-
no  to impotente que no possa realizar-               vduo a quem  dirigida, no sentido de obrig-
se no mundo. As correntes formalistas da                  lo a fazer o que o mandante requer (Lectures
moderna filosofia do D. tendem, ao contr-                onJurisprudence, 1861, 5- ed., 1885, I, pp. 88
rio, a prescindir de qualquer ideal valorativo,           ss.J. As caractersticas fundamentais da doutrina
ou seja, da prpria noo de justia, que                de Austin so duas: Ia reduo do D. a uma
entregue  esfera poltica e moral, mas con-              norma injuntiva, enquanto mando; 2a carter
siderada estranha  do D. O D. natural, como              racional, ou pelo menos razovel, desse co-
delineamento normativo de condies per-                  mando, visto emanar de um ser inteligente e
feitas, desse ponto de vista  mera fico: o             dirigir-se a outro ser inteligente. Essas ca-
nico D. de que se pode legitimamente falar,              ractersticas tambm se encontram em doutri-
que pode ser objeto de considerao cient-               nas aparentemente diferentes da de Austin,
fica, e no de desejos ou de aspiraes                   como p. ex. na doutrina sociolgica de Eugen
idealizadoras,  o D. positivo. Mas o D. posi-            Ehrlich, para quem "o D.  uma organizao,
tivo nada tem de perfeito ou de transcenden-              vale dizer uma norma que atribui a cada mem-
te, no inclui nenhum valor ltimo e absolu-              bro da associao sua posio na comunidade,
to.  simplesmente um instrumento para                    seja ela de preeminncia ou de sujeio, bem
alcanar certos fins; e, como todo instrumen-             como seus deveres" (Grundlegung der Sozio-
to, pode ser julgado em termos da eficincia,             logie desRechts, 1913, p. 18). Nessa doutrina, o
da capacidade de garantir uma ordenao                   conceito de ordenao prevalece sobre o de
(qualquer) da sociedade humana. Sob esse                  mando, mas a ordenao, assim como o man-
aspecto, o D. deve ser reconhecido como um                do de Austin,  uma norma apta a realizar certa
 dever-ser, como uma regulamentao do                    forma de convivncia. Kelsen, hoje o maior
comportamento humano, com a qual esse com-                defensor e representante da teoria formal do
portamento pode at no se ajustar.                       direito, remete-se a esses predecessores. Dis-
DIREITO                                               288                             DIREITO SUBJETIVO


tingue-se de Ehrlich por no julgar que o con-              eficiente no objetivo de possibilitar as relaes
ceito de ordenao baste para constituir o D.,              humanas. Nessa exigncia, como se viu, Grcio
porquanto nem sempre a ordenao tem fora                  e Hume esto de acordo embora possam dis-
injuntiva; e distingue-se de Austin por julgar              sentir quanto ao carter "necessariamente ra-
que tal fora injuntiva no consiste no mando,              cional" ou simplesmente "til", logo razovel,
mas no dever-ser do D., ou seja, na estrutura               do direito. Ora, o que se espera de uma tcni-
normativa do prprio D. Mais precisamente,                  ca, qualquer que seja ela,  a eficincia. E o
para Kelsen o D.  "a tcnica social especfica             juzo sobre a eficincia de uma tcnica no
de uma ordenao coercitiva", sendo, pois, ca-              pode fundar-se exclusivamente em sua coe-
racterizado pela "organizao da fora" (Gene-              rncia interna, como pretende Kelsen.  claro
 ral Theory of Law and State, 1945, I, A, d; trad.          que h uma condio fundamental para que a
it., pp. 19 ss.). A eficincia dessa tcnica               uma tcnica qualquer conserve sua eficincia e
condicionada, segundo Kelsen, por sua coern-               a aumente:  a retificabilidade da prpria tc-
cia, que pode ser medida a partir de uma "nor-              nica. De fato, quando uma tcnica qualquer
ma fundamental", que serviu de base para a                  pode ser oportunamente modificada e adapta-
criao das vrias normas de determinada                    da s circunstncias, sem mudar substancial-
 ordem jurdica. "O sistema do positivismo jur-            mente, conclui-se que  capaz de conservar e
 dico, diz Kelsen, "exclui a tentativa de deduzir           de incrementar a sua eficincia. Portanto, toda
 da natureza ou da razo normas substanciais,               tcnica eficaz deve ser auto-retificvel; essa ,
 que, estando alm do D. positivo, possam ser-              na verdade, a nica vantagem que a tcnica da
vir-lhe de modelo, tentativa cujo xito  sem-              cincia experimental, desde Galileu at hoje,
 pre aparente, e que termina com frmulas que               possui sobre as outras. Desse ponto de vista, o
 s tm a pretenso de possuir contedo. Ao                 juzo tcnico sobre determinado sistema de D.
 contrrio, examina com senso de responsabili-               o juzo sobre a sua capacidade de corrigir ou
 dade os pressupostos hipotticos de cada D.                eliminar suas prprias imperfeies, de tornar-
 positivo, ou seja, suas condies meramente                se mais gil e, ao mesmo-tempo, mais rigoroso.
formai? (ibid., Ap., IV, B, c, p. 443). Kelsen              No  um juzo que se refira  mera coerncia
 est cnscio do parentesco que, sob esse as-               do sistema, nem um juzo de valor resultante
 pecto, seu "positivismo jurdico" tem com o                do confronto do sistema com um ideal prvio
jusnaturalismo clssico, especialmente com a                de justia.  um juzo concreto e diretivo, capaz
forma assumida na filosofia kantiana Qbid., pp.             de influir na evoluo histrica do direito.
445, 453), embora continue dizendo que o                       O quadro acima, sobre as teorias filosficas
positivismo rejeita "a ideologia de que a teoria            do D., mostra definitivamente que no tem
jusnaturalista se vale para justificar o D. positi-         sentido qualquer tentativa de definir as rela-
vo" (Ibid., Apndice, IV, B, h, p. 453). Na reali-          es entre D. e moral, entendendo tanto o D.
dade, no jusnaturalimo ele no distingue sufi-              quanto a moral como duas categorias "eternas"
cientemente a fase moderna da fase antiga e                 do esprito. De fato, D. e moral devem ser con-
assim atribui  sua fase moderna a noo da                 siderados idnticos tanto do ponto de vista da
ordem perfeita e providencial da justia, que               teoria do D. natural quanto do ponto de vista
caracterizava a fase antiga e entrou em crise               da teoria do D. como fora. Obviamente, a
com Grcio. Na realidade, a filosofia poltica e            teoria segundo a qual o D. se apoia na moral
jurdica contempornea ainda no conseguiu                  faz uma distino entre ambas e, na realidade,
recuperar os ensinamentos fundamentais da                    a teoria de tal distino. Quanto  teoria for-
teoria do D. natural, especialmente em sua for-             mal do D., provavelmente permite tanto uma
mulao jusnaturalista de Grcio a Hume. O                  quanto outra soluo (v. TICA).
que impediu ou obstou essa recuperao foi a
 crena de que aquela teoria se fundava num                    DIREITO SUBJETIVO (gr. t SKOUOV; lat.
 conceito "metafsico" ou "platnico" de justia,           Jus; in. Right; fr. Droit; ai. Recht; it. Diritto
 alm da exigncia de eliminar da considerao              soggettiv).  o significado que a palavra D.
 "cientfica" do D. qualquer ideal valorativo. Mas          assume em expresses como estas: "Declara-
 na realidade o jusnaturalismo moderno no se               o dos D. do homem", "A lei garante ao ru o
 apoiou em determinado ideal de justia, mas                D. de defender-se", "O D. ao ressarcimento
 na exigncia de que o D., sejam quais forem as             dos danos". Pufendorf foi um dos primeiros a
 normas particulares em que se concretize, seja             expressar com clareza a distino entre D. em
                                                            sentido objetivo, como "complexo de leis", e
DISAMIS                                                  289                                              DSPAR


D. em sentido subjetivo, como "faculdade de                    Esse adjetivo corresponde ao sentido da pa-
fazer algo, concedida ou permitida pelas leis".                 lavra grega diania (v.) porque designa o pro-
Assim como o homem tem o poder de fazer                        cedimento racional que avana inferindo
tudo o que promane de suas faculdades natu-                    concluses de premissas, ou seja, atravs de
rais, contanto que no seja proibido expressa-                 enunciados negativos ou afirmativos sucessivos
mente por uma lei, costuma-se dizer que a lei                  e concatenados. S. Toms contrape esse pro-
atribui o D. de fazer tudo o que no  proibido                cesso, considerado prprio da razo humana, 
por nenhum tipo de lei. Nesse sentido, o D.                    cincia intuitiva de Deus, que entende tudo si-
concerne  nossa liberdade; a lei, ao contrrio,               multaneamente em si mesmo, com um ato sim-
implica a obrigao pela qual a liberdade natu-                ples e perfeito da inteligncia (S. Th., I, q. 14, a.
ral  limitada" (De jure naturae, 1672, I, 6, 3).              7 ss.; Contra Gent., I, 57-58). Essa  a con-
Essa distino manteve-se at hoje nos mes-                    traposio que se acha em Plato e em Arist-
mos termos.                                                    teles entre razo (diania) e intelecto (nous).
    DISAMIS. Palavra mnemnica usada pelos                     Os modernos utilizaram essa palavra com o mes-
escolsticos para indicar o terceiro dos seis mo-              mo significado (HOBBES, Leviath., I, 3; WOLFF,
dos do silogismo de terceira figura, mais pre-                 Log.,  51). Kant acompanhou esse uso. "O co-
cisamente o que consiste em uma premissa                        nhecimento qualquer intelecto", disse ele, "ao
particular afirmativa, uma premissa universal                  menos do intelecto humano,  um conheci-
afirmativa e uma concluso particular afirmati-                 mento por conceitos: no intuitivo, mas D."
va, como no exemplo: "Alguns homens so                         (Crt. R. Pura, Analtica, I, cap. I, se. 1). Em
substncia; todo homem  animal; logo, alguns                  toda a sua obra Kant contrape constantemen-
animais so substncia" (PEDRO HISPANO, Summ.                   te o intelecto D. ou humano ao hipottico "in-
log., 4.14).                                                    telecto intuitivo" de Deus, que  criador dos
    DISCIPLINA (gr. u.0rma; lat. Disciplina;                   seus objetos (Ibid.,  21) (v. INTELECTO).
in. Discipline, fr. Discipline, ai. Diszipln, it.                 DISJUNO (in. Disjunction, fr. Disjonc-
Disciplina). 1. Uma cincia, enquanto objeto                    tion; ai. Disjunktion; it. Dsgiunzione). Na L-
de aprendizado ou de ensino (v. MATHEMA).                      gica escolstica,  uma propositio hypothetica
    2. Funo negativa ou coercitiva de uma                     formada por duas categorias unidas pelo sinal
regra ou de um conjunto de regras, que impe-                    "vel" ("Scrates currit vel Plato sedef). Na L-
de a transgresso  regra. Foi assim que Kant a                gica contempornea,  uma proposio mole-
entendeu ao defini-la como "a coero graas                   cular formada por duas (ou mais) proposies
 qual a tendncia constante a transgredir cer-                 atmicas unidas pelo sinal "v" ("pvq"). Em
tas regras  limitada e, por fim, destruda". Dis-              ambas as Lgicas, a condio necessria e su-
tinguiu-a da cultura, "que s deve conferir uma                ficiente para a verdade de uma D.  que pelo
habilidade, sem abolir outra preexistente". A                  menos uma das duas proposies componen-
D. da razo pura  parte importante da doutri-                 tes seja verdadeira.                           G. P.
na transcendental do mtodo, visto que a ra-                       DISJUNTIVO (gr. 8ieet>YUvo; lat. Disiunc-
 zo, em seu uso filosfico, no  limitada ou                  tvus, in. Disjunctive, fr. Disjonctif; ai. Dis-
sustentada pela experincia (como ocorre na                    junktive, it. Disgiuntivo).  o enunciado que
fsica) nem pela intuio pura (como ocorre                    contm uma alternativa, tanto em sentido in-
 na matemtica) (Crt. R. Pura, Doutr. transe, do               clusivo, como p. ex. "uma estrada ou outra
mt., cap. I).                                                 conduz a Roma", quanto em sentido exclusivo,
   DISCRETIVA, PROPOSIO (fr. Proposition                     como p. ex. "ou  noite ou  dia". Os esticos,
discrtiv). A Lgica de Port-Royal assim cha-                 que foram os primeiros a atentar para esses
mou a proposio composta de juzos diferentes,                enunciados, entenderam-nos em sentido ex-
interligados por partculas como "mas", "toda-                 clusivo (DiG. L, VII, 1, 72).
via", etc, tanto expressas quanto subentendi-                      Silogismo D.  o que tem como premissa
das; p. ex., "O destino pode tirar as riquezas                 maior uma proposio disjuntiva (v. SILOGISMO).
mas no a coragem" (ARNAULD, Log., II, 9).                         DSPAR (lat. Diparatus; in. Disparate, fr. Dis-
    DISCRETO (gr. Sicopiouivo; lat. Discretus;                parate, ai. Disparai; it. Disparato). Foi assim
in. Discrete, fr. Discret; ai. Diskret; it. Discreto).         que Ccero chamou o que est em oposio
Descontnuo (v. CONTNUO).                                     contraditria com outra coisa, como p. ex. no
  DISCURSIVO (lat. Discursivus; in. Discursi-                  saber em relao a saber (De Invent., 28, 42).
ve, fr. Discoursif; ai. Discursiv-, it. Dscorsiv).           Bocio restringiu esse termo aos opostos con-
DISPOSIO                                            290                                        DISTINO

traditrios que, por serem muito diferentes,                PANO, Summ. log., 12.08); os lgicos modernos
no tm entre si nenhuma contrariedade, como                repetem essa doutrina, afirmando s vezes que
terra e roupa (De syll. hipot., I. P. L, 64e, col.          so D. tambm qualidades que, como quebrado
834). O significado proposto por Bocio preva-              ou dissolvido, parecem exprimir um fato. Popper
leceu no uso filosfico e comum: D. so as                  observa a propsito que um qumico no diria
coisas inconfrontveis por sua diversidade. O               que o acar ou o sal se dissolveram na gua
conceito foi reintroduzido na lgica por Rodol-             se no esperasse poder recuperar o acar ou
fo Agrcola e elaborado pelos lgicos do sc.               o sal mediante a evaporao da gua (The Logic
XVII, que consideraram os disparata e os                    of Scientific Discovery, 1959, p. 424).
opposita como as duas espcies dos dissen-                      DISPOSICIONAL." V. POSSIBILIDADE.
tanea. Por estes ltimos entendiam-se as coi-                   DISPUTATIO. Foi um dos mtodos fundamen-
sas diferentes entre si, a ponto de no poderem             tais do ensino universitrio na Idade Mdia.
ser atribudas reciprocamente, e por D. as "real-           Suas origens provavelmente remontam  filoso-
mente diferentes ou tais que uma pudesse existir            fia grega, em particular a Aristteles, mas foi s
simplesmente sem a outra" (JUNGIUS, Log., V,                no sc. XI que esse mtodo comeou a ser re-
33, 1-3). Leibniz chamou de D. "as proposies              gulamentado por uma tcnica adhoc, segundo
que dizem que o objeto de uma idia no  o                 o modelo do Sic et non de Abelardo. A dialti-
objeto de uma outra idia"; p. ex., o calor no            ca, ou seja, a lgica, era habitualmente conside-
a mesma coisa que a cor (Nouv. ess., IV, 2,  1).           rada a tcnica desse mtodo, assim definido
    DISPOSIO (gr. ieecn; lat. Dispositio-,             por Joo de Salisbury: "A disputatio se d em
in. Dispositon; fr. Disposition; ai. Disposition;          torno das coisas que sejam duvidosas, apresen-
it. Disposizione). 1. Distribuio das partes em            tadas de forma contraditria ou que nos propo-
um todo, devida  ordem do todo. Foi assim                  nhamos demonstrar ou refutar de um modo ou
que Aristteles entendeu essa palavra (Met., V,             de outro" (Metalogicus, II, 4).
19, 1022 b 1) (v. ORDEM, 2).                                   DISSENTNEO. V. DSPAR.
    2. Tendncia, inclinao ou atitude. Nesse                 DISTELEOLOGIA (in. Dysteleology, fr. Dys-
sentido, essa palavra foi entendida tambm por              tlologie, ai. Dysteleologie, it. Disteleologia).
Aristteles (Met., V, 20, 1022 b 10), que s ve-            Termo criado pelo bilogo materialista Ernesto
zes a utilizou para indicar a virtude (Et. nic, II,         Haeckel para indicar a parte da biologia que
7, 1107 b 16, 30, etc). Os esticos emprega-                estuda os fatos biolgicos (monstruosidade,
ram-na constantemente para definir a virtude-,              abortos, atrofias, etc.) que contradizem a exis-
"uma D. de alma coerente e concorde" (STOBEO,               tncia de uma finalidade na formao dos orga-
Ecl., II, 7, 60; CCERO, Tusc, IV, 34). Esse sig-           nismos vivos (Weltrtsel, 1899, cap. 14).
nificado persiste na filosofia medieval. s ve-                 DISTINO (lat. Distinctio; in. Distinction,
zes, distingue-se D. de hbito. Pedro Hispano               fr. Distinction; ai. Unterscheidung; it. Distin-
diz: "O hbito difere da D. por ser mais perma-             zione). 1. A relao ou o aspecto segundo o
nente e duradouro, assim como so, p. ex., as               qual pode ser reconhecida uma alteridade en-
virtudes e as cincias... As D., ao contrrio,              tre objetos quaisquer que sejam. A doutrina da
mudam facilmente, como p. ex. o frio, o calor,              D. foi elaborada pela Escolstica com objetivos
a sade, a doena, etc. Os hbitos podem ser                metafsicos e teolgicos. S. Toms conhece so-
chamados de D., mas a recproca no ocorre.                 mente a D. formal ou especfica, que ocorre
Por isso, pode-se definir hbito como uma qua-              entre duas espcies diferentes, e a material ou
lidade dificilmente movvel, e a D. como uma                numrica, que ocorre entre duas coisas perten-
qualidade facilmente movvel" (Sumrn. log.,                 centes  mesma espcie (S. Th., I, q. 47, a. 2).
3.23). O significado dessa palavra no mudou                Mas no sculo seguinte Francisco Mayron podia
at hoje. Segundo Dewey, "a palavra D. signifi-             enunciar nada menos do que sete espcies de
ca predisposio, prontido para agir aberta-               D.: 1Q D. de razo (ratiane), como p. ex. entre
mente de determinado modo sempre que se                     Scrates como sujeito e Scrates como pre-
apresentar a oportunidade: essa oportunidade                dicado da proposio ''Scrates  Scrates"; 2a
consiste na supresso da presso exercida pelo              D. ex natura rei, que  independente da ao
domnio de algum hbito patente" (Human                     do intelecto, como a que existe entre o todo e
Nature and Conduct, 1922, p. 41).                           as partes, o efeito e a causa, o alto e o baixo,
   J na lgica medieval as qualidades das coi-             etc.; 3Q D. formal, que ocorre entre as coisas
sas s vezes eram chamadas de D. (PEDRO HIS-                que no podem servir de predicado uma  outra,
DISTRAO                                               291                                       DIVERSIDADE

como p. ex. entre o homem e o asno; nesta                     (Antr., I, 47). Nesse sentido a palavra eqivale
distino Duns Scot j insistira longamente,                  a divertimento (v.).
utilizando-a para exprimir a diferena entre o                     2. O contrrio da ateno (v.): atividade se-
indivduo e a natureza comum (Op. Ox., II, d. 3,              letiva malograda ou deficiente em relao aos
q. 6, n. 15) e entre os atributos divinos (Jbid., I,          objetos de um campo.
d. 8, q. 4, n. 17); segundo Mayron, esse tipo de                  DISTRIBUIO (lat. Ditributio; in. Distribu-
D. pode ser formulado por definio, diviso                  tion; fr. Distribution, ai. Auftelung; it. Distri-
(ou classificao), descrio e demonstrao,                 buzion). Uma das doutrinas tpicas da lgica
pois o que  individualizado por qualquer um                  terminista medieval, que entendeu por esse ter-
desses processos distingue-se formalmente das                 mo "a multiplicao de um termo comum feita
outras coisas; 4S D. real, que ocorre entre as                por meio de um signo universal: p. ex., na fra-
"coisas positivas" que so reciprocamente in-                 se 'todo homem corre', o termo corre  distri-
dependentes, tais que a existncia de uma pode                budo para qualquer termo inferior pelo signo
prescindir da existncia da outra; 5e D. essencial,           todo" (PEDRO HISPANO, Summ. log., 12.01). Ao
entre as coisas que podem ser separadas ainda                 conceito de D. deve-se a grande importncia
que hipoteticamente (p. ex., da ao de Deus),                que os lgicos terministas atribuam ao opera-
como matria e forma, acidente e substrato,                   dor todo(v.). Embora a importncia desse ope-
precedente e conseqente; 6e D. total substan-                rador seja por vezes reconhecida na lgica con-
cial (subjectiva), entre as coisas que no coin-              tempornea, falta a esta uma doutrina da
cidem em nenhuma realidade substancial; 1-                    distribuio.
D. total representativa (objectiva), entre as coi-                DISTRIBUTIVO (gr. tavejiriTtK; in. Dis-
sas que no podem ter o mesmo predicado                       trbutive, fr. Dstributif, ai. Distributiv-, it. Dis-
essencial (quiditativum) (Formalitates, ed.                   tributivo). 1. Segundo Aristteles, justia D.  a
Venetiis, 1517, pp. 23-24). Descartes simplifi-               que preside  diviso dos recursos e bens co-
cou muito essa tbua complicada, reduzindo as                 muns, devendo essa diviso ser feita segundo
D. a trs: real, modal e de razo. A D. real                  a contribuio de cada. um para a produo
ocorre entre duas ou mais substncias, quando                 desses bens {Et. nic, V, 4, 1131 b 25). Esse tipo
se pode pensar numa substncia clara e distin-                de justia , portanto, semelhante a uma propor-
tamente sem pensar na outra. A D. modal ocor-                 o geomtrica de pelo menos quatro termos,
re ou entre a substncia e o seu modo (ou                     na qual as recompensas dadas a duas pessoas
manifestao) ou entre dois modos diferentes                  estejam entre si como os mritos respectivos
da mesma substncia. A D. de razo  a que se                 (Jbid., V, 3,1131 a 15) (v. JUSTIA).
estabelece s vezes entre a substncia e um de                     2. Lei D.  o nome dado a certo nmero de
seus atributos, sem o qual, porm, a substncia               leis habitualmente admitidas em aritmtica e
no poderia subsistir, ou entre dois atributos,               em lgica. Na aritmtica, a lei D. para a multi-
igualmente inseparveis, da mesma substncia                  plicao e para a adio tem a forma seguinte:
(Princ. phii, I, 60-62). A doutrina das D. no                          x x (y + z) = (x x y) + (x x z)
teve continuidade na filosofia moderna e con-
tempornea.                                                       No clculo das proposies e no clculo das
                                                              classes h leis distributivas anlogas.
    2. Grau da evidncia (v. CLAREZA).                            DIVERSIDADE (in. Diversity, fr. Diversit,
    DISTRAO (lat. Distractie, in. Distraction;              ai. Verschiedenbeit;it.Diversit).Todaalteridade,
fr. Distraction; ai. Zerstreutheit; it. Distrazione).         diferena ou dessemelhana. Esse termo  mais
1. Condio em que a ateno  distanciada das                genrico que os trs acima e pode indicar qual-
idias ou das ocupaes dominantes e voltada                  quer um deles ou todos juntos. Pode outrossim
para outras coisas. J Kant, com muito bom-                   indicar a simples distino numrica quando
senso, notava que  fraqueza, mais do que for-                duas coisas no diferem em nada, exceto por
a do esprito, no poder separar-se de alguma                serem numericamente distintas. Nesse sentido,
coisa a que se deu grande ateno durante muito               a D.  a negao pura e simples da identidade;
tempo: fraqueza que, se habitual e voltada para               Wolff a definia dizendo que "so diversas as
o mesmo objeto, pode degenerar em loucura.                    coisas que no podem ser substitudas uma
Portanto, a D., como divertimento do esprito,                pela outra, permanecendo constantes os pre-
 condio da sade mental. Por outro lado, a                 dicados que se atribuem a uma delas, seja
distrao constante confere ao homem a apa-                   absolutamente, seja em dada condio" (Ont.,
rncia de sonhador e o torna intil  sociedade                183).
DIVERTIMENTO                                           292                                                 DOGMA


   DIVERTIMENTO (in. Diversion; fr. Diver-                   em ltimo lugar por Hamilton, que ilustrou
 tissement; ai. Abwendung; it. Divertimento).                amplamente seus fundamentos tradicionais.
Qualquer atividade que afaste o homem das                        Em primeiro lugar, a D., como D. lgica, dis-
ocupaes ou preocupaes habituais. Pascal                  tingue-se da participao, que  a decomposi-
entendeu o D. como o meio de que o homem                     o de um todo em suas partes, porquanto  a
dispe para escapar  conscincia de sua pr-                distino de objetos diferentes que podem ser
pria misria, e portanto tambm incluiu no D.                significados pelo mesmo nome. A D. s pode
os trabalhos e as ocupaes habituais. "Como                 ser feita com base num princpio que exprima
no puderam curar a morte, a misria, a igno-                um carter essencial do objeto. Se os membros
rncia, os homens julgaram que, para serem                   que resultam de uma D. so tambm divididos,
felizes, melhor seria no pensar nelas" iPen-                tem-se uma subdiviso; se um mesmo grupo
ses, 168, 131, 139, etc). Segundo Pascal, a                 pode ser dividido com base em princpios dife-
busca de ocupaes tanto mais agradveis                     rentes, tm-se co-divises. Enfim, se uma D.
quanto mais absorventes, de espetculos, de                  tem s dois membros chama-se dicotomia; se
entretenimentos, etc,  conseqncia dessa ati-              trs, tricotomia, etc.; se muitos, politomia. Ha-
tude, que significa fraqueza e infelicidade por-             milton tambm enunciou as seguintes regras
que torna o homem dependente e passvel de                   da D.: Ia toda D. deve ter um princpio; 2- deve
ser perturbado por mil acidentes (Jbid., 170).               ter s um; 3a deve ser um carter real e essen-
Opondo-se a Pascal, Voltaire observava: "Nossa               cial da noo dividida; 4a nenhum membro
condio  precisamente pensar nos objetos                   divisor do predicado deve, por si mesmo, exaurir
externos com os quais temos relaes necess-                o sujeito; 5a os membros dividendos, tomados
rias.  falso achar que se pode levar um ho-                 conjuntamente, devem exaurir o sujeito; 6- os
mem a deixar de pensar na condio humana,                   membros divisivos devem ser mutuamente
                                                             excludentes; 7a a D. deve proceder continua-
porque, seja qual for a coisa a que ele aplique
                                                             mente de diferenas imediatas a diferenas
seu esprito, est-lo- aplicando a alguma coisa             mediatas (Lectures on Logic, II, 2- ed., pp. 22
que se vincula a tal condio. Pensar em si, fa-             ss.). O estudo da D. desapareceu da lgica con-
zendo abstrao das coisas naturais,  pensar                tempornea. Esse conceito foi substitudo pelo
em nada: digo, atente-se bem, absolutamente                  de disjuno, que  um dos conectivos lgicos
nada" (Annotations sur les penses de Pascal,                (v. CONECTIVO).
 38). Hume, por sua vez, reconhecia como jus-
tas essas consideraes porque "o esprito no                    DIVISIBILIDADE (gr. iapecn lat. Divisibi-
pode proporcionar sozinho seu prprio D. e                    litas; in. Divisibility, fr. Divisibilit, ai. Teilbar-
naturalmente procura fora de si objetos que lhe               keit; it. Divisibilit). Propriedade de um todo,
possam dar sensao vivida e ponham suas                     de poder ser decomposto em suas partes; se o
capacidades em ao" (Treatise, II, 1, 4). Ponto             todo  contnuo, essas partes so, por sua vez,
de vista aceito tambm pela psicologia moderna.              divisveis (ARISTTELES, FS., VI, 1, 231 b 11).
                                                             Segundo Kant, uma das antinomias cosmolgicas
   DVIDA. V. DBITO.                                         consiste em julgar possvel e impossvel a divi-
   DIVISO (gr. SmpecR; lat. Divisio; in. Di-              so ao infinito, portanto impossvel e possvel
vison; fr. Division; ai. Einteilug; it. Division).         a existncia de partes simples, ou seja,
O processo da D., que Plato considerou como                 indivisveis. Segundo ele, a antinomia resolve-
segunda fase da dialtica (v.) e Aristteles ne-             se reconhecendo que, embora o todo possa ser
gligenciou como "silogismo fraco" (An. pr., I,               dado  intuio, o mesmo no ocorre com a
31, 46 a 31), foi reintroduzido na lgica dos                diviso inteira, que consiste s na decomposi-
esticos que foram os primeiros a distinguir a               o progressiva ou no retrocesso (Crtt. R. Pura,
D. da partio, a definira subdiviso como "uma              Dialtica, cap. II, se. 9).
D. depois da D." e a distinguir a D. por espcie                 DOGMA (gr. 5YU,CC; lat. Dogma; in. Dogma;
da D. por contrrio ou por negao (DIG. L,                 fr. Dogme, ai. Dogma; it. Dogma). 1. Opinio
VII, 61). Essa doutrina, que se encontra repro-              ou crena. Nesse sentido, essa palavra  usada
duzida sem variaes na lgica do sc XIII (cf.,             por Plato (Rep., 538 c; Leis, 644 d) e contra-
p. ex., PEDRO HISPANO, Summ. log., 5.45), foi                posta pelos cticos  epocb, ou suspenso do
notavelmente enriquecida nos sculos seguin-                 assentimento, que consiste em no definir a
tes (OCKHAM, Summa logicae, I, 34; JUNGIUS,                  prpria opinio em um sentido ou em outro
Lgica hamburgensis, 1638, IV, 5-7) e exposta                (DIG. L, IX, 74). Kant entendeu por D. "uma
DOGMATISMO                                         293                             DOUTA IGNORNCIA

proposio diretamente sinttica que deriva de           es que chamamos de dogmtico, em sentido
conceitos" e como tal distinta de "uma proposi-          positivo, ou seja, pr-filosfico, e ao qual per-
o do mesmo gnero, derivada da construo              tencem as cincias empricas (mas no s es-
dos conceitos", que  um materna. Em outros              tas),  deixar honestamente de lado, com toda
termos, os D. so "proposies sintticas a              'filosofia da natureza' e toda 'teoria do conheci-
prior' de natureza filosfica, ao passo que no         mento', qualquer ceticismo e assumir os dados
poderiam ser chamadas de D. as proposies               cognitivos onde eles efetivamente se encon-
do clculo e da geometria (Crt. R. Pura, II,            tram" (Jdeen, I,  26). O D. se contraporia assim
Disciplina da Razo Pura, se. I).                        epoch fenomenolgica, prpria da filosofia
    2. Deciso, juzo e, portanto, decreto ou            (v. EPOCH).
ordem. Nesse sentido, essa palavra foi entendi-             DOMINANTE. V. RELAO, C, 5e.
da na Antigidade (CCERO, Acad., IV, 9; SNECA,            DOMINANTE, ARGUMENTO. V.             VITORIO-
Ep., 94) para indicar as crenas fundamentais            SO, ARGUMENTO.
das escolas filosficas, e depois usada para                DOMINANTES (ai. Dominanten). O fisi-
indicar as decises dos conclios e das autori-          logo J. Reinke usou esse termo para denomi-
dades eclesisticas sobre as matrias funda-             nar as foras de natureza espiritual, incons-
mentais da f.                                           cientes mas que agem de modo finalista, que
    DOGMATISMO (in. Dogmatism-, fr. Dogmatis-            presidem s funes dos organismos e  vida
tne, ai. Dogmatismus; it. Dogmatism). O signi-          em geral. Essas foras seriam conhecidas s
ficado desse termo foi fixado pela contrapo-             indiretamente, atravs de seus efeitos (Die Welt
sio que os cticos estabeleceram entre os              ais Tat, 1899,1957, T ed., pp. 273 ss.; Einleitung
filsofos dogmticos, que definem sua opinio            in die theoretische Biologe, 1902, pp. 168 ss.)
sobre todos os assuntos, e os filsofos cticos,         (v. VIDA, VITALISMO).
que no a definem (DIG. L, IX, 74). Desse                  DONATISMO (lat. Donatismus; in. Dona-
ponto de vista, so dogmticos todos os filso-          tism; fr. Donatisme, ai. Donatismus). A doutri-
fos que no so cticos. Um novo significado             na de Donato de Casas Negras (sc. III), que foi
de D. foi o que Kant atribuiu a essa palavra, ao         um dos alvos da polmica de S. Agostinho.
identificar D. com metafsica tradicional, enten-        Essa doutrina afirmava a absoluta intransign-
dendo por ele "o preconceito de poder progre-            cia da Igreja diante do Estado. Como comuni-
dir na metafsica sem uma crtica da razo"              dade de perfeitos, a Igreja no deve ter contato
(Crt. R. Pura, Pref.  2a ed.). Esse D. filosfico,     com a autoridade civil; as autoridades religiosas
que consiste em aventurar-se a razo em pes-             que toleram tais contatos cometem traio e
quisas que esto fora de sua alada, por esta-           perdem a capacidade de administrar os sacra-
rem alm da esfera da experincia possvel,             mentos. O D. teria tornado impossvel a forma-
incentivado pelo "D. comum", que consiste em             o da hierarquia religiosa e, subordinando a
"raciocinar levianamente sobre coisas das quais          validade dos sacramentos  pureza de vida do
no se compreende nada e das quais nunca                 ministro, teria exposto essa validade  dvida
ningum no mundo entender nada" {Ibid").                constante (cf. S. AGOSTINHO, De baptismo con-
Essa palavra foi usada por Fichte, para indicar          tra donatistas, 401; Contra litteras Petiliani
o ponto de vista do realismo, segundo o qual a           donatistae, 401; Contra donatistas epstola de
representao  produzida por uma realidade              unitate ecclesiae, 405, etc).
externa, e no pelo eu (Wissenschaftslehre,                 DOR (gr. 7U|; lat. Dolon; in. Pain; fr. Dou-
 1794,1, Teorema IV), e por Hegel, para desig-           leur, ai. Schmerz; it. Dolore). Uma das tonalida-
nar o ponto de vista oposto ao da dialtica, se-         des fundamentais da vida emotiva, mais preci-
gundo o qual "de duas afirmaes opostas uma             samente a negativa, que costuma ser assumida
 deve ser verdadeira e outra, falsa" {Ene,  32).        como sinal ou indicao do carter hostil ou
Esses dois filsofos deram assim incio ao ps-          desfavorvel da situao em que se encontra o
simo costume de chamar de D. os pontos de                ser vivo (v. EMOO).
vista diferentes dos seus prprios, empregando              DOUTA IGNORNCIA (lat. Docta ignoran-
 a palavra sem nenhuma referncia ao seu uso             tid). Conscincia dos limites do saber, como prin-
 histrico. Mais conforme a esse uso  o signifi-        cpio ou fundamento de um saber positivo. Es-
 cado que Husserl lhe atribuiu, que no implica          sa expresso encontra-se, talvez pela primeira
 nenhuma condenao da atitude correspon-                vez, em S. Agostinho (Ep. ad Probam, 130, 15,
 dente. "A justa atitude no campo das indaga-             28). Repete-se algumas vezes na filosofia me-
DOXICO                                                294                                  DUPLA VERDADE

dieval, sendo usada p. ex. por S. Boaventura,               empregam essa palavra no mesmo sentido, mas
para caracterizar o xtase: "Como por uma                   Christian Wolff d-lhe significado diferente, ao
douta ignorncia, nosso esprito  arrebatado               dizer que so "dualistas aqueles que admitem
acima de si, na obscuridade e no xtase"                    a existncia de substncias materiais e de subs-
(Breviloquium, V, 6). Mas sua difuso deve-se               tncias espirituais" (Psychol. rat.,  39). Esse foi
a Nicolau de Cusa, que deu esse ttulo a uma                o significado que se tornou mais comum e di-
de suas maiores obras (De docta ignorantia,                 fundido na tradio filosfica. Segundo ele, o
1440). Nicolau de Cusa, como os outros, usou                fundador do dualismo seria Descartes, que re-
a expresso com referncia a Deus: a D.                     conheceu a existncia de duas espcies dife-
ignorncia consiste em saber que nada se pode               rentes de substncias: a corprea e a espiritual.
saber de Deus. Deus  infinito, logo est alm              Essa palavra, todavia, muitas vezes foi estendi-
de qualquer proporo com o finito, ou seja,                da para indicar outras oposies reais que os
com o homem: o que faz dele algo de inco-                   filsofos descobriram no universo: p. ex., a opo-
mensurvel em relao aos poderes humanos,                  sio aristotlica entre matria e forma, a me-
podendo ser entendido somente por via de                    dieval entre existncia e essncia e uma oposio
alteridade, ou seja, negando ou levando ao                  que ocorre em todos os tempos, entre aparn-
extremo os caracteres conhecidos pelo homem                 cia e realidade. Arthur O. Lovejoy examinou
(De docta ignor., I, 3; De coniecturis, I, 13;              historicamente a revolta contra o D. (TheRevolt
Apologia, p. 13) (v. IGNORNCIA).                           Against Dualism, 1930), insistindo na necessi-
    DOXICO (ai. Doxisch). De doxa (opinio).                dade de certa forma de D. ou pelo menos de
Husserl indica com esse adjetivo todos os                   "bifurcao da experincia" que justifique a dis-
caracteres prprios da crena (ou doxa) (Ideen,             tino entre a aparncia ilusria e a realidade
I,  103).                                                  (v. MONISMO).
    DOXOLOGIAouPRATICOLOGIA(fr Do-                             DUCTIO PER IMPOSSIBILE. Ou ainda: per
xologe ou practicologie). Foi esse o nome                  contradictoriampropositionem. Reduo da tese
dado por Leibniz a certas formas de expresso               adversria ao absurdo por meio da demonstrao
que se coadunam com o uso popular ou cor-                   da contradio que ela implica. Assume a for-
rente, ainda que no sejam rigorosamente                    ma dos silogismos Baroco (v.) e Bocardo (v.)
exatos; por exemplo, continua-se dizendo                    (JUNGIUS, Lgica, III, 14; cf. ARISTTELES, An.
que o sol nasce e se pe, mesmo depois de                   pr, I, 5, 27 a 36 ss.).
aceita a teoria de Coprnico (Disc. de Mt.,                   DUPLA VERDADE (in. Double truth; fr.
 27).                                                      Double vrit, ai. Doppelte Wahrheit; it. Doppia
   DUALIDADE (lat. Dualitas; in. Duality, fr.               verit). Foi assim que os escolsticos latinos
Dualit, ai. Dualitt; it. Dualit). Relao que            designaram a doutrina de Averris sobre as
une dois objetos quaisquer, de tal modo                     relaes entre religio e filosofia, sendo assim
que um pode transformar-se no outro median-                 designadas depois todas as doutrinas seme-
te operaes oportunas. Esse pelo menos  o                 lhantes. Segundo Averris "a religio dos fil-
conceito definido em geometria, em que so                  sofos consiste em aprofundar o estudo de tudo
chamadas de duais duas figuras que podem ser                o que ; no se poderia render a Deus culto
obtidas uma da outra, assim como a reta e o                 melhor do que conhecer suas obras, que leva
ponto, porque traar uma reta passando por                  a conhec-lo em toda a sua realidade" (MUNK,
um ponto e marcar um ponto sobre uma reta                   Mlanges de pbil. juve et rabe, p. 456). Por
so ambas operaes duais. Em filosofia, a palavra          outro lado, a pesquisa filosfica no pode ser
no tem significado to preciso: indica em geral            de todos e a religio do filsofo no pode
um par de termos entre os quais haja uma re-                ser a religio do vulgo. A religio feita para a
lao essencial: p. ex., matria e forma, etc.              maioria segue e deve seguir um caminho "sim-
   DUALISMO (in. Dualism; fr. Dualisme, ai.                 ples e narrativo", que ilumine e dirija a ao.
Dualismus. it. Dualismo). Esse termo foi cunhado            Segundo Averris, cabe  filosofia o mundo da
no sc. XVIII (aparece pela primeira vez, prova-            especulao;  religio, o mundo da ao (Des-
velmente, em THOMAS HYDE, Historia religionis               tructio destruitionum, disp. 6, pp. 56, 79).
veterumpersarum, 1700, cap. IX, p. 164), para               Como se v, o ponto de vista de Averris nada
indicar a doutrina de Zoroastro, que admite dois            tem em comum com o fidesmo grosseiro que
princpios ou divindades, um do bem e outro                 contrape a verdade da razo  verdade da f
do mal, em luta constante entre si. Bayle e Leibniz         e se decida por esta num ato de arbtrio ou de
DUPLA VERDADE                                           295                                           DURAO

deferncia  autoridade. Mas depois a expres-                 do, ainda hoje, seus defensores tcitos, tanto
so dupla verdade serviu justamente para                      em filosofia quanto em religio e poltica.
designar esse fidesmo, fosse ele sincero ou                  Quando se acha que nem todas as verdades
insincero. Assim, no ltimo perodo da Escols-               devem ser ditas e proclamadas, que algumas
tica, muitas proposies, consideradas de-                    verdades podem ser perigosas para a "maioria",
monstrao impossvel, so admitidas por f; e                sendo, pois, necessrio calar sobre elas ou
Duns Scot delimita nitidamente a esfera da                    ignor-las oficialmente, est-se encarnando,
f, que diz respeito  ao, e a esfera da filosofia,         ainda que inconscientemente, a atitude que a
que diz respeito  especulao (Op. Ox., Prol.,               tradio filosfica chamou de dupla verdade.
q. 3). Com Ockham e seus seguidores, essa                     Essa atitude pode caracterizar-se como crena
posio torna-se ainda mais radical, visto re-                no carter aristocrtico da verdade, ou seja, de
conhecer-se a impossibilidade de demonstrar                   que a verdade realmente se destina a uns pou-
todas as proposies fundamentais da f.                      cos e a "maioria"  incapaz de suport-la.
Ockham afirmava peremptoriamente que "os                          DURAO (gr. atcv; lat. Aevum; in. Du-
artigos de f no so princpios de demonstra-                 ration; fr. Dure, ai. Dawer, it. Durata). Perodo
o, nem concluses, nem probabilidades"                      de vida de uma coisa ou de um acontecimento,
(Summa log., III, 1), querendo dizer que no                  limites de sua existncia no tempo. Era assim
so verdades evidentes, nem verdades de-                      que Aristteles definia a D.: "Termo que abran-
monstradas, nem proposies provveis. Mas                    ge o tempo de cada coisa viva e fora do qual
nem mesmo em Ockham se observa a atitude                      nada dessa coisa incide naturalmente" (De
desconcertante que foi tpica de muitos aver-                 cael., I, 9, 279 a 23). A durao abrange, por-
rostas dos scs. XIV e XV, consistente em de-                tanto, todo o perodo de vida de uma coisa,
clarar friamente, sem a mnima justificao, que              mas se a coisa de que se trata  o mundo, que
se acredita no contrrio daquilo que se de-                   abrange a totalidade do tempo, a D.  a prpria
monstrou, pois assim quer a f ou a religio.                 eternidade, no sentido de um permanecer
Dizia, p. ex., Joo de Jandun (sc. XIV): "Con-               indefinido da existncia no tempo (Ibid., I,
quanto essa opinio de Averris no possa ser                 9, 279 a 25). Entre os antigos, portanto, o con-
refutada com razes demonstrativas, eu digo o                 ceito de D. tem dois significados: 1". os termos
contrrio e afirmo que o intelecto no  nume-                temporais que circunscrevem a existncia de
ricamente uno em todos os lugares... Mas isso                 uma coisa qualquer; 2". o prolongamento inde-
no demonstro com nenhuma razo necessria                    finido do tempo, ou seja, a eternidade. Aqui
porque no julgo possvel; e se algum sonhar                 consideraremos s o primeiro desses significa-
faz-lo, que se alegre (gaudeat). Essa conclu-                dos, j que o outro est includo no verbete
so, afirmo que  verdadeira e julgo indubit-                ETERNIDADE (V.).
vel unicamente pela f" (De an., III, q. 7). E                    Descartes distinguiu o tempo, como nmero
tambm a propsito de outros pontos funda-                    do movimento, da D. em geral, vendo nele "cer-
mentais da f crist Joo de Jandun repete seu                to modo de pensar essa D., de compreender numa
convite irnico: "alegre-se quem souber de-                   medida comum a D. de todas as coisas" (Princ.
monstr-lo".  difcil crer na sinceridade de se-             phil., I, 57). Spinoza s fez repetir o mesmo
melhante atitude, assim como  difcil acreditar              conceito de Descartes ao definir a D. como "a
na sincericiade de um Pomponazzi, que, depois                 existncia das coisas criadas, enquanto perse-
de demonstrar a inconciliabilidade entre o des-               vera em sua realidade" (Cogitada metaphysica,
tino e o livre-arbtrio, declara explicitamente               I, 5) ou como "a continuao indefinida do exis-
que  preciso crer na Igreja e portanto negar o               tir" (Et., II, def. 5). Com Locke a noo de D. 
destino (De fato, Perorat.): escapatria a que                explicada a partir da experincia interior. D.
muitos recorreram entre os scs. XVI e XVII. Na               seria a generalizao dessa experincia, como
realidade, s esse ponto de vista (se assim se                a extenso  uma generalizao da experincia
pode cham-lo) deveria ser chamado de "du-                    da distncia obtida pela viso ou pelo tato. Locke
pla verdade", ao passo que para o outro, represen-            diz "obtemos a idia de sucesso ou de D. da
tado por Averris, a verdade  uma s e a reli-               reflexo em torno da sucesso das idias que
gio e a filosofia simplesmente a expressam de                vemos aparecer, uma aps a outra, em nosso
modos diferentes, uma para a especulao e                    esprito" (Ensaio, II, 14, 4). Diante disso, Leibniz
outra para a ao. Numa forma ou noutra, po-                  observava que "uma srie de percepes des-
rm, a atitude da dupla verdade continua ten-                 perta em ns a idia da D., mas no a substitui.
DURAO                                             296                                            DUVIDA

Nossas percepes nunca tm uma sucesso                  sources de Ia morale et de Ia religion, para ex-
to constante e regular que possa corresponder            plicar o desenvolvimento das sociedades hu-
 do tempo, que  contnuo, uniforme e sim-               manas e seu encaminhamento para uma socie-
ples, como uma linha reta". Portanto, pode-se             dade mstica. Finalmente,  o objeto prprio da
dizer que se conhece "a D. atravs do nmero              intuio, que  o rgo especfico da filosofia,
dos movimentos peridicos iguais, dos quais               destinada a apreender a espiritualidade como
um comea quando acaba o outro, como p. ex.               tal, da mesma forma como o intelecto destina-
o nmero de revolues da terra ou dos astros"            se a apreender a matria, ou seja, a imobilidade
(Nouv. ess., II, 14,  16, 22). Em outros termos,         do mecanicismo. Como j se disse, essa noo
para Leibniz a noo de D. est ligada  de               de D., no obstante apresentar-se caracteriza-
medida do tempo e esta ltima est ligada aos             da como mudana incessante, est mais prxi-
movimentos peridicos uniformes. E Kant ex-               ma da noo de eternidade que da noo de
primia substancialmente o mesmo conceito de               tempo, visto que, na verdade, conserva tudo, 
durao ao observar que "s por meio do per-              tudo e nada tem fora de si, precisamente como
manente a existncia adquire, nas vrias partes           o ain de Aristteles.
da srie temporal, uma quantidade que se cha-                 DVIDA (gr. TTopot; lat. Dubium, in. Doubt;
ma durao" (Crt. R. Pura, Anal. d. Princ, I.            fr. Doute, ai. Zweifel; it. Dubbio). Esse termo
Analogia). A D. , portanto, uma quantidade               costuma designar duas coisas diferentes, po-
mensurvel com fundamento na permanncia:                 rm mais ou menos ligadas: ls um estado
 um atributo da substncia porquanto  o pr-            subjetivo de incerteza, ou seja, uma crena ou
prio objeto que permanece no tempo (Jbid.).               opinio no suficientemente determinadas, ou
Donde se conclui que, enquanto os antigos                 a hesitao em escolher entre a assero da
remetiam a idia de D.  de eternidade, os                afirmao e a assero da negao; 2S uma
modernos, ao contrrio, remetem-na  idia de             situao objetiva de indeterminao ou a pro-
tempo, identificando-as.                                  blematicidade de uma situao: seu carter
    Bergson procura separar D. de tempo, pelo             de indeciso em relao ao possvel xito ou 
menos do tempo mensurvel pela cincia, e                 possvel soluo. Aristteles foi o primeiro a re-
acaba por transform-la numa espcie de eter-             conhecer (pelo menos implicitamente) essa
nidade. Para Bergson, o tempo da cincia                 distino de significados quando negou que a
espacializado, ou seja, reduzido  sucesso de            dvida pudesse reduzir-se  "equivalncia dos
instantes idnticos. O tempo real ou D.  dado            raciocnios contrrios", porque  essa equiva-
pela conscincia, despojado de qualquer supe-             lncia que pode produzir a dvida. E disse:
restrutura intelectual ou simblica, ou reco-             "Quando raciocinamos em ambas as direes e
nhecido em sua fluidez original. Nessa fluidez            todos os elementos do discurso parecem de-
no existem estados de conscincia relativa-              senvolver-se com igual validade em cada um
mente uniformes que se sucedam uns aos                    dos dois sentidos, ficamos em D. sobre o que
outros, como os instantes do tempo espacia-               fazer" (Top., VI, 7, 145 b 15). A "equivalncia
lizado da cincia. Existe uma nica corrente              de raciocnios opostos"  a situao objetiva de
fluida, onde no existem cortes ntidos nem               indeterminao; a D.  a incerteza subjetiva, a
separaes, e na qual, a cada instante, tudo             incapacidade de deciso que ela comporta. Es-
novo e tudo  ao mesmo tempo conservado.                  ses dois aspectos encontram-se, de forma mais
Bergson diz: "Meu estado d'alma, avanando                ou menos explcita, na histria da filosofia, mas
no caminho do tempo, vai-se dilatando conti-              com predominncia do aspecto subjetivo, que
nuamente com a D. que recolhe: pode-se dizer               considerado peculiar ou constitutivo da dvi-
que faz uma avalanche consigo mesmo" (vol.               da.  isso o que se conclui de um comentrio
cratr., p. 2). O conceito de D. assim entendido          de Sexto Emprico (Pirr. hyp., I, 7) para quem
 o princpio de toda a filosofia de Bergson:            a D.  "a hesitao entre afirmar e negar", con-
invocado como memria, ou seja, conservao               quanto os cticos no neguem os bons funda-
integral, em Matire et mmoire, para explicar            mentos objetivos dessa hesitao. E mesmo no
a relao entre alma e corpo (v. ALMA); como              negando seu fundamento objetivo, S. Toms
mpeto vital em Evoluo criadora, para expli-            insiste no carter subjetivo da D. como igno-
car a evoluo da vida e sua diviso nas duas             rncia ou falta de informao, no a conside-
direes fundamentais que so instinto e inteli-          rando, portanto, essencial  escolha voluntria
gncia; e tambm como mpeto vital em Deux                (S. Th., III, 2. 18, a. 4). Aparentemente, o car-
DUVIDA                                              297                          DVIDA HIPERBLICA

ter subjetivo da D. tambm prevalece em Descar-           ou implicasse uma certeza originria superior a
tes: o cunho autobiogrfico da busca cartesiana           toda dvida. Essa  a corrente de pensamento
parece fazer da D. uma fase subjetiva dessa               que Descartes difundiu pelo mundo moderno
busca. Mas, na verdade, a D. cartesiana no              e no qual baseou a evidncia da conscincia.
um elemento da histria pessoal de Descartes,             Tem origem em S. Agostinho: "Quem sabe que
mas a fase crtica do tipo de saber prprio do            duvida sabe a verdade, e est certo disso que
tempo em que Descartes vivia, e que atravs               sabe: logo, est certo da verdade. Portanto,
dele chega a reconhecer a insuficincia e a fra-          quem duvidar de que exista a verdade, j tem
gilidade de seus fundamentos.  o que o pr-              em si mesmo uma verdade, a verdade de que
prio Descartes reconhecia: "No concluiremos              no pode duvidar, j que nenhuma coisa ver-
mal, dizendo que a fsica, a astronomia, a medi-          dadeira  verdadeira sem a verdade. Portanto,
cina e todas as outras cincias que dependem              no deve duvidar da verdade quem pde por
do estudo das coisas compostas so dbias e               uma s vez duvidar" (De vera religione, 39)  E
incertas; mas que a aritmtica, a geometria e as          todos recordam a D. total de Descartes, que re-
outras cincias dessa natureza, que tratam de             dunda no cogito: "Enquanto assim rejeitamos
coisas bastante simples e gerais, sem se preo-            tudo aquilo de que podemos duvidar e imagi-
cuparem com sua existncia ou inexistncia na             namos at mesmo que seja falso, supomos fa-
natureza, contm algo de certo e de indubitvel"          cilmente que no h Deus, nem cu, nem terra,
(Md., I). Embora a D. possa ser estendida s             e que no temos corpo; mas no somos capa-
cincias matemticas (aventando-se a hiptese             zes de supor que no existimos enquanto duvi-
de que um gnio malfico se divertisse enga-              damos da verdade de todas as coisas, pois cau-
nando os homens), o certo  que, para Descar-             sa-nos tanta repugnncia conceber que aquilo
tes, estas escapam, por motivos objetivos,               que pensa no existe realmente enquanto est
incerteza subjetiva e permitem que ele extraia            pensando que, apesar de todas as suposies
justamente delas as regras fundamentais do                mais extravagantes, no poderamos impedir-
mtodo (Discours, II). O carter objetivo da D.           nos de crer que essa concluso, penso, logo
tem sido freqentemente evidenciado pela fi-              existo, seria verdadeira e que, por conseguinte,
losofia contempornea. Por um lado, em Husserl            seja a primeira e mais certa concluso que se
a D., como estado subjetivo, corresponde a um             apresenta quele que conduz seus pensamentos
modo de dar-se ou de ser da coisa (Ideen, I,             com ordem" (Princ.phil, I, 7). A certeza ligada
 103). Por outro, para Dewey, a raiz da D. est            D.  a prpria certeza do cogito e deve ser
na "situao problemtica", que estimula ou               submetida s mesmas objees (v. COGITO).
determina a pesquisa, e a prpria pesquisa deve              A filosofia contempornea, conquanto insis-
levar a uma nova colocao. "Ao sistematizar a            ta no aspecto objetivo da D. e, portanto, na
relao perturbada entre organismo e ambien-              extenso desse aspecto a todas as situaes
te [que determina a D.], a investigao no se            que podem constituir o ponto de partida para
limita a afastar a D. restabelecendo a integrao         a pesquisa, tende a utilizar a D. "hiperblica"
primitiva, de boa adaptao. Provoca novas con-           (como se chamou a D. cartesiana) e a conside-
dies ambientais, que so ocasies de novos              rar a D. circunscrita a uma situao ou proble-
problemas" (Logic, cap. 2; trad. it., p. 73).             ma determinado. Em outros termos, a D. no 
    O valor da D. para a pesquisa filosfica foi          vista hoje como incio absoluto ou o primeiro
admitido por todas as doutrinas que vem na               princpio da pesquisa filosfica, mas como con-
filosofia a procura e a aquisio da verdade,             dio pela qual uma situao suscita ou exige
mais que a posse e a revelao desta. s vezes,           investigao.
tambm se acreditou que a D. trouxesse em si                 DVIDA HIPERBLICA. V. DVIDA
                                                         E

   E. 1. Na Lgica formal aristotlica, essa letra           vivo e seu ambiente, que constitui parte fun-
 usada como smbolo da proposio universal                 damental da biologia; ou estudo das relaes
negativa (PEDRO HISPANO, Summ. log., 1.21).                  entre o homem como pessoa e seu ambiente
   2. Na lgica modal tradicional, a proposio              social, que constitui parte da sociologia. Essa
modal que afirma o modo e nega a proposio:                 palavra  moderna e foi introduzida pelos anglo-
p. ex., " possvel que no p", onde p uma                  saxes.
proposio qualquer (ARNAULD, Log., II, 8).                      ECONOMIA (gr. OKOVOUOC; lat. Oeconomia-,
   3. Na notao de Lukasiewicz, E usado para               in. Economy, fr. Economie, ai. Oekonomie, ital.
indicar a equivalncia das proposies (A.                   Economia). Ordem ou regularidade de uma
CHURCH, Introduction to Mathematical Logic, nL>              totalidade qualquer, seja esta uma casa, uma
91).                                        G. P.-N. A.      cidade, um Estado ou o mundo. No Novo Tes-
   ECLETISMO (gr. K^eKTiKii ocipeoi; in.                   tamento essa palavra, s vezes,  usada para
Eclecticism, fr. clectisme, ai. Eklektizismus, it. Eclet-   indicar o plano providencial (S. PAULO, Eph., I,
tsmo). A diretriz filosfica que consiste em                10). Orgenes chamou de "E." a encarnao do
escolher, dentre as doutrinas de diferentes fi-              Verbo, pois ela restituiu providencialmente ao
lsofos, as teses mais apreciadas, sem se preo-              mundo a ordem e a sua verdadeira regra
cupar em demasia com a coerncia dessas te-                  (Contra Cels., 11, 9).
ses entre si e com sua conexo aos sistemas de                   Mas, ao menos no que diz respeito s tota-
origem. Esse termo acha-se em Digenes Lar-                 lidades finitas, a melhor ordem  a que produz
cio (Proem., 21), que o usa com referncia a                 o resultado mximo com o esforo mnimo, de
um obscuro filsofo de Alexandria, Potmon,                  tal modo que mesmo a lei do menor esforo foi
e foi adotado por Brucker (Historia critica                  entendida, na histria da filosofia, como "prin-
philosophiae, II, p. 193).  comumente empre-                cpio da E.". Esse princpio, como regra meto-
gado para indicar as seguintes tendncias filo-              dolgica, no deve ser confundido com o prin-
sficas: 1- a adotada pela escola estica a partir           cpio da ao mnima(v.), que, num primeiro
de Boeto de Sndon (morto em 119 a.C), da                    momento,  um princpio fsico e metafsico e,
Academia Platnica a partir de Flon de Arixa                num segundo momento, uma lei da mecnica.
(sc. I a.C.) e pela escola aristotlica a partir            Pode-se dizer que o princpio da E. foi formu-
de Andronico de Rodes (sc. I a.C), bem                      lado pela primeira vez por Ockham, no sc.
como por seus seguidores, dos quais o mais                   XIV, com a frmula "Pluralitas non estponen-
importante foi Ccero; o critrio adotado pe-                da sine necessitate" e "Frustra fit per plura
los eclticos dessa linha foi o acordo comum                 quod potestfieri perpauciora". Ockham utili-
dos homens (consensus gentium); 2a o espi-                   zou constantemente esse princpio para elimi-
ritualismo romntico de Cousin, que adotou                   nar muitas das entidades admitidas pela es-
 pessoalmente o termo "ecletismo" para indicar               colstica tradicional: p. ex., a specie, sensvel
seu mtodo que visava levar ao nvel da cons-                ou inteligvel, como intermediria do conheci-
 cincia as verdades implicitamente contidas nela            mento (Ln Sent., II, q. 14, P). Mais tarde, com o
(Du vrai, du beau et du bien, 1853, Pref.).                  nome de navalha de Ockham, esse princpio
   ECOLOGIA (in. Ecology, fr. cologie, it. Eco-             foi expresso com a frmula "Entia non sunt
logia). Estudo das relaes entre o organismo                multiplicanda praeter necessitatem", forma
ECONOMIA POLTICA                                   299                             ECONOMIA POLTICA

que se encontra a partir da Lgica vetus et nova           o autntico objeto da economia poltica, que
(1654) de Clauberg. Kant refere-se a esse prin-            muitas vezes reivindica para si um carter des-
cpio como expresso da exigncia de buscar                critivo, visto situar-se diante desse comporta-
na natureza (ou melhor, de realizar atravs de             mento como qualquer outra cincia diante do
seu conhecimento) a mxima unidade e simpli-              seu objeto especfico (cf. MEKGER, Grundstze
cidade possveis. E diz: "A existncia dessa uni-          der Volkswirtschaftslehre, 1871; trad. it., pp. 51-
dade na natureza  pressuposta pelos filsofos            70; MISES, Die Gemeinwirtschaft, pp. 98 ss.;
na conhecida regra da escola, segundo a qual              FF.TTER, Economic Principies, 1915, cap. 1;
os princpios no devem ser multiplicados sem              STRIGL, Die konomischen Kategorien und die
necessidade. Com isso se diz que a natureza                Organisation der Wirtschaft, 1923, passim-,
das coisas d azo  racionalidade e que a apa-            ROBBINS, An Essay on theNat. and Significance
rente diversidade infinita no deve impedir-               ofEc. Sc, 1935, cap. 1).  possvel distinguir
nos de supor que, por trs dela, haja uma uni-            trs fases da E. poltica, que correspondem aos
dade das propriedades fundamentais, da qual               trs diferentes fundamentos adotados como
pode ser extrada a multiplicidade por meio de            base ou diretriz da tcnica econmica. 1- O
mltiplas determinaes" (CrtR. Pura, Dialtica,         comportamento racional do homem nas situa-
livro II, se. III, Do uso regulativo das idias;         es de escassez  assegurado por uma ordem
Crt. do Juzo, Intr., I).                                 natural que age automaticamente e que, desde
    A filosofia contempornea insistiu e ainda            que no perturbada, garante a cada homem e
hoje insiste muito na importncia dessa regra             a todos o mximo de utilidade possvel. Cha-
metodolgica. Para isso contriburam sobretu-              maremos essa concepo de teoria da ordem
do Avenarius (Die Phil. ais Denken der Welt                natural. 2- No existe uma ordem natural que
gemss dem Princip des kleinsten Kraftmasses,             garanta o comportamento econmico dos indi-
1876) e Mach, que disse: "Os mtodos pelos                vduos, mas existe e pode ser determinada em
quais se constitui o saber so de natureza eco-           todos os casos uma distribuio dos meios eco-
nmica" (Die Principien der Wrmenlehre, 2-               nmicos que realize a satisfao mxima dos
ed., 1900, p. 39). Segundo Mach,  esse prin-              indivduos interessados, constituindo, portanto,
cpio que preside, p. ex.,  formao dos con-            um estado de equilbrio. Chamaremos essa se-
ceitos, que nascem da situao de desequilbrio           gunda fase de teoria do equilbrio; 3a No tem
entre o nmero das reaes biologicamente                 sentido procurar determinar um estado de equi-
importantes, que  bastante limitado, e a varie-          lbrio no compatvel com a realidade econ-
dade, quase ilimitada, das coisas existentes.             mica. O comportamento racional do homem
Permitindo classificar adequadamente essa va-             nas situaes de escassez s pode ser determi-
riedade, o conceito permite enfrent-la do modo           nado a partir da condio de ignorncia e de
mais econmico, ou seja, com o mnimo esfor-              falibilidade com que ele entra nessas situaes.
o (Erkenntniss und Irrtum, 1905, cap. 8). Essa           Essa terceira fase ainda est no incio e se en-
exigncia ainda hoje  considerada vlida na              contra delineada apenas na chamada teoria dos
construo das hipteses ou teorias cientficas           jogos. Indic-la-emos, portanto, por esse nome.
(v. TEORIA).                                                   P Teoria da ordem natural. -- Foi com base
                                                          nessa teoria que a E. surgiu e se constituiu no
   ECONOMIA POLTICA (in. Political eco-                  mundo moderno. Embora desde a Antigidade
nomy, economics; fr. conomie politique, ai.              numerosas observaes sobre os fenmenos
Politische Oekonomie, it. Economia poltica).             econmicos tenham sido coligidas e expressas
Como nome de uma cincia, esse termo em ge-               em forma de teorias, leis ou conselhos, a E. po-
ral designa a tcnica de enfrentar situaes de           ltica  uma cincia recente que s teve origem
escassez. Por situaes de escassez so entendi-          quando as uniformidades observveis na esfera
das as situaes em que, para realizar objetivos          dos fenmenos econmicos e exprimiveis
mltiplos e dotados de importncia diferente, o           como "leis" passaram a ser consideradas exem-
homem dispe de tempo e de meios limitados                plos ou casos de uma ordem total e abrangente
e passveis de usos alternativos. A tcnica ado-          desses fenmenos. Isso aconteceu no sc.
tada para enfrentar tais situaes tem em vista           XVIII, quando, com os fisiocratas, reconheceu-
a maior satisfao possvel que elas permitem;            se a existncia de uma "ordem natural" nos fe-
e as regras que constituem tal tcnica definem            nmenos econmicos. A primeira definio da
o comportamento racional do homem nas                     E. poltica foi feita por Dupont de Nemours,
situaes de escassez. Esse comportamento 
ECONOMIA POLTICA                                   300                            ECONOMIA POLTICA

 como "cincia da ordem natural", e a doutrina            j acreditavam os fisiocratas, a ordem natural
 dessa ordem era ilustrada no Tableau cono-              age como ordem providencial: a harmonia en-
 mique (1758) de Franois Quesnay e em Re-                tre o interesse individual e o interesse pblico
flxions sur Ia formation et Ia distribution des          est previamente garantida, e Smith no acha
 richesses(1776) de Turgot. Essa doutrina  an-          possvel o conflito entre os dois interesses. Foi
loga e correspondente  do jusnaturalismo (v.):           esse o princpio clssico do liberalismo econ-
a ordem natural  racional, portanto uma                  mico, cujas exigncias bsicas Smith enuncia:
ordem segundo a qual todo indivduo pode al-              a negao de qualquer funo econmica do
canar o maior proveito possvel com o mni-              Estado e a concepo de que a concorrncia 
mo esforo. Graas a esse carter, essa ordem             a grande fora reguladora dos valores econ-
garante a coincidncia entre interesse particular         micos. As anlises subseqentes dos economis-
e o interesse geral, de tal modo que "o mundo             tas mostraram, todavia, que a ordem econmi-
caminha por si mesmo", e o desejo de bem-                 ca no anda sozinha em todos os seus aspec-
estar confere  sociedade uma tendncia cont-            tos e que nem sempre a ao das foras que a
nua ao progresso. Mas est claro que, se a or-            regem  benfica. Em An Essay on the Principies
dem natural dos fenmenos econmicos  a                  ofPopulation (1798), Malthus mostrava que o
nica possvel, qualquer tentativa de intervir            desequilbrio que tende a ocorrer entre a enti-
nela para modific-la , alm de intil, prejudi-         dade populao e a entidade meios de subsis-
cial, e portanto a mxima fundamental da po-              tncia (que crescem em propores muito dife-
ltica econmica deve ser a de deix-la caminhar          rentes, a primeira superando de muito a se-
por sua prpria conta. Laisser faire, laisser             gunda) s  restabelecido  custa de grandes
passer foi o lema que os fisiocratas opuseram             males, como epidemias, guerras e flagelos so-
aos obstculos que a ordenao, ainda parcial-            ciais. E David Ricardo, em seus Principies of
mente medieval, das atividades econmicas e               Political Economy (1817), evidenciava alguns
as doutrinas mercantilistas haviam multiplica-            conflitos essenciais entre o interesse geral e o
do. Adam Smith s fez aceitar o princpio fisio-          interesse privado. Assim, o fenmeno da renda
crtico em An Inquiry into theNature and Cau-             fundiria mostra que o proprietrio de terras
ses of the Wealth ofNations (177'6), que costuma          tem interesse no crescimento rpido das ne-
ser considerado o incio da fase cientfica da            cessidades e na manuteno de preos altos,
economia. Segundo Adam Smith, existe uma                  para os produtos agrcolas (condies que ele-
ordem harmoniosa e benfica das coisas, que               vam a renda fundiria): assim, o que  til para
se manifesta sempre que a natureza fica entre-            ele empobrece os outros cidados. A anlise
gue a si mesma. As instituies humanas mui-              do salrio dos operrios evidenciava o antago-
tas vezes alteraram ou perturbaram a ordem                nismo entre salrio e lucro, em virtude do qual
natural, mas esta ainda pode ser encontrada               um s pode crescer em detrimento do outro.
sob as superestruturas histricas que a ocul-             Na mesma linha esto as crticas de Sismondi,
tam. Deve ser tarefa da cincia descobrir as              em Nouveaux prncipes d'economie politique
leis determinantes dessa ordem e prescrever               (1819). Explica-se assim o surgimento das pri-
os meios pelos quais ela pode ser integralmente           meiras doutrinas socialistas, que, embora reco-
realizada nas sociedades humanas. Abolidos                nhecendo a realidade da ordem econmica,
os sistemas de proteo ou de restrio, "o sis-          pretendem intervir nela e dirigi-la para resulta-
tema simples e fcil da liberdade natural ins-            do melhor. Assim, St.-Simon {Vindustrie, 1817;
taura-se por si mesmo". A nica regra que esse            UOrganisateur, 1819-20) delineava os princ-
sistema comporta  a liberdade ilimitada dos              pios de uma ordem econmica ideal, que se
sujeitos econmicos. De fato, em virtude dessa            baseava no industrialismo, mas era isenta dos
liberdade, permite-se a ao da fora natural             defeitos da ordem natural. Na sociedade nova,
prpria da natureza humana, que, com sua                  organizada segundo esse ideal, no deveria ha-
ao constante em todos os homens, garante a              ver classes, s trabalhadores, e todas as naes
realizao da ordem econmica: a tendncia                se transformariam numa nica associao pro-
egosta. Smith acredita que em todas as circuns-          dutiva cujo fim seria alcanar, atravs de traba-
tncias os homens tendem a agir no sentido de             lhos pacficos, a prosperidade mxima. Outros
seu verdadeiro interesse e que, assim agindo,             socialistas como Owen, Fourier e Blanc, distin-
no s realizam o seu bem pessoal, mas tam-               guem-se de St.-Simon por preconizarem uma
bm o bem coletivo. Em outros termos, como                organizao social em que os indivduos, reuni-
ECONOMIA POLTICA                                      301                            ECONOMIA POLTICA

dos em grupos autnomos {associao coope-                   constatao de Stuart Mill -- de que a distribui-
rativa, de Owen,falanstriode Fourier, oficina               o da riqueza no  determinada necessaria-
socialde Blanc), conservem certa independn-                 mente pelo mecanismo da ordem econmica
cia e no percam o poder de iniciativa, como                 -- j  uma infrao grave ao princpio da or-
ocorre na associao nica de que fala St.-Si-               dem mecnica. Todavia, esse princpio e a con-
mon. Mas o verdadeiro ataque ao fundamento                   cepo da E. poltica que nele se funda resisti-
da ordem liberal, a propriedade privada dos                  ram aos dois ataques ferozes lanados contra a
meios de produo, foi feito por Proudhon.                   E. clssica na segunda metade do sc. XIX pela
No texto Qu'est-ce que Ia proprit? (1840),                 escola histrica e pelo marxismo. A primeira,
Proudhon afirmava que "a propriedade  rou-                  fundada por Wilhelm Roscher {Grundriss zu
bo", no no sentido de que ela tenha como ori-                Vorlesungen ber die Staatswissenschaft nach
gem o fruto da apropriao violenta, mas na                  geschichtlicherMethode, 1843), partia do prin-
medida em que d a quem a detm o direito de                 cpio de que a ordem natural no  um meca-
fruir e dispor a seu bel-prazer do fruto do tra-             nismo, mas um organismo que carrega em si
balho e da capacidade alheia. No entanto, em                 uma lei de sucesso graas  qual passa por
meados do sc. XIX, a doutrina da ordem na-                  diversos graus de desenvolvimento. A cincia
tural tinha como expoentes mximos Bastiat e                 econmica deve, portanto, levar em conta esse
Stuart Mill. O primeiro a interpretava em senti-             desenvolvimento e ser a descrio da natureza
do finalista, dizendo que a ordem natural se or-             econmica e das necessidades de um povo, ou
ganiza com vista  perfeita autonomia social                 seja, "a anatomia e a fisiologia da ordem eco-
e reafirmando, assim, o princpio da bondade                 nmica". A escola histrica, que  o reflexo
essencial das foras que agem nessa ordem                    mais importante do romantismo no domnio da
(Harmonies conomiques, 1849)- O segundo,                    E., por vezes acentuou (como fez Hildebrand)
em Principies ofPolitical Economy (1848), afir-              a diversidade dos organismos econmicos na-
mava o carter mecnico da ordem natural e                   cionais, negando que a E. clssica tivesse des-
via a garantia da mecanicidade dessa ordem na                coberto as leis econmicas naturais vlidas em
natureza da fora que a produz: a tendncia ao               qualquer tempo e pas. Contudo, na prpria
bem-estar individual. Portanto, as leis da E., em            histria dos organismos econmicos, a escola
particular as da produo dos bens, conser-                  procurou justamente encontrar a ordem nica
vam o carter de necessidade, e em face delas a              ou, como dizia outro representante seu, Karl
nica atitude possvel por parte do Estado  o               Knies, a "nica lei geral do desenvolvimento da
laisserfaire. Com efeito, tudo o que  produ-                humanidade", que determina a histria de cada
zido pelo homem deve obedecer s condies                   nao. Portanto, embora o conceito de organis-
impostas pela natureza. Mesmo que o homem                    mo permitisse acentuar alguns caracteres aos
no queira, os produtos que ele cria sero limi-             quais o conceito de mecanismo dava pouca im-
tados pela soma dos produtos acumulados an-                  portncia -- o desenvolvimento e a individuali-
teriormente (o capital) e, em vista dessa soma,              dade histrica dos sistemas econmicos -- e
sero proporcionais  energia e  habilidade do              enfatizasse, assim, a dificuldade de se chegar a
homem,  perfeio das mquinas empregadas                   delinear uma ordem econmica universal, a
e ao uso judicioso da diviso do trabalho (lei               exigncia dessa ordem e sua descoberta ainda
do capital). Mesmo que o homem no queira,                   eram, para a escola histrica, o fundamento da
uma quantidade dupla de trabalho no produ-                  E. poltica. Teve esse significado tambm para
zir, no mesmo terreno, uma quantidade du-                   a doutrina que, sob certo aspecto, representou
pla de produtos (lei das compensaes decres-                uma guinada na E. clssica: o marxismo. Com
centes). Por outro lado, a distribuio z riqueza           efeito, a passagem da sociedade capitalista para
 uma instituio exclusivamente humana, de-                 a sociedade comunista, que Marx previa como
pendente das leis e dos costumes civis, que va-              inevitvel e necessria, seria produzida precisa-
riam segundo o tempo e o lugar, podendo va-                  mente pelo funcionamento do mecanismo eco-
riar sempre que os homens queiram. Por isso                  nmico: sua necessidade  a necessidade pr-
Stuart Mill, assim como toda a corrente do                   pria das leis desse mecanismo. Assim como o
 utilitarismo (v.),  partidrio de reformas at ra-         capital (no sentido exato da palavra, ou seja, o
dicais nesse campo, desde que visem unir o                   meio de proporcionar a mais-valia a partir da
mximo da liberdade individual  maior justia               fora de trabalho do operrio) nasceu da des-
na distribuio das riquezas naturais. Essa                  truio do artesanato e do trabalho livre, que
ECONOMIA POLTICA                                    302                             ECONOMIA POLTICA

obrigou as grandes massas proletrias a vender             justamente por ser a melhor, manter-se- inde-
sua fora de trabalho, determinando a concen-              finidamente se no for alterada por nenhum
trao e o poder do capital, esse mesmo pro-               motivo, ou tender restabelecer-se se for alte-
cesso de concentrao e de fortalecimento do               rada, sendo por isso um estado de equilbrio
capital, levado ao extremo, transformar-se-ia              (cf. PARETO, Man. diE.pol, III,  22). Ora, a
em sua negao. A concentrao industrial                  melhor combinao possvel no  a nica pos-
afastar o proprietrio cada vez mais da empre-            svel, mas uma entre muitas. Os pressupostos
sa e far que a empresa, portanto sua direo,             dessa teoria so dois: a) existem possibilida-
sua iniciativa e seu trabalho, acabem passando             des ou alternativas diferentes na realidade eco-
para as mos dos trabalhadores assalariados.               nmica; b) entre as vrias alternativas poss-
Desse modo, a funo social da classe capitalis-           veis, uma s  a mais conveniente, a econmica;
ta ter enfraquecido e sua expropriao poder             e esta ltima  necessariamente determinada
ser feita sem que o organismo produtivo se res-            pelas leis econmicas.
sinta. Paralelamente, o proletrio ter sido trei-             O pressuposto a) exprime a mudana deci-
nado pela prpria organizao das grandes em-              siva que a E. poltica sofreu por volta de 1870,
presas para geri-las e dirigi-las, estando pronto          em vista do abandono de um dos fundamen-
a assumir plenamente sua posse. Desse modo,                tos da teoria clssica, a da doutrina do valor-
a socializao dos meios de produo, sua trans-           trabalho. A teoria clssica, baseada no princ-
ferncia da classe capitalista para a operria,            pio de que existe uma ordem econmica natural
ocorrer com a mesma fatalidade que rege as                e necessria, no deixava alternativa  escolha
metamorfoses da natureza (Das Kapital, 1867,               individual; a rigor, no reconhecia nenhuma
1, 24,  7).                                               possibilidade de escolha. Os indivduos s po-
    Num primeiro momento, o carter mecni-                dem seguir seu instinto econmico, e a ordem
co da ordem natural pareceu ser confirmado                 econmica  o efeito natural e inevitvel desse
pela introduo da linguagem matemtica na                 instinto. Numa ordem assim, o fundamento das
cincia econmica, devido a Augustin Cournot               relaes econmicas, das trocas, ou seja, o va-
em Recherches sur les principes mathmatiques              lor, deve ser to natural e necessrio quanto a
de Ia thorie des richesses (1838), mas que s             prpria ordem: por isso a E. clssica, de Smith
se tornou definitiva e frutfera alguns decnios           a Marx, v a origem ou o princpio do valor no
mais tarde graas a Jevons e de Walras. A rou-             trabalho. O trabalho, como notava Marx (Das
pagem matemtica da E. poltica ressaltava a               Kapital, I, 1,  1), possibilita ter a medida exa-
analogia dela com a fsica, que Jevons foi um              ta do valor porque ele mesmo  exatamen-
dos primeiros a enfatizar. "A teoria econmi-              te mensurvel em sua durao temporal. Esse
ca", dizia ele, "tem grande analogia com a cincia         era, entenda-se, o valor de troca, j que o va-
da mecnica esttica: as leis de troca so seme-           lor de wsofora constantemente identificado com
lhantes s do equilbrio de uma alavanca, de-              a utilidade, ou seja, com a capacidade de um
terminadas pelo princpio das velocidades vir-             objeto de satisfazer a uma necessidade. Essa teoria
tuais. A natureza da riqueza e do valor mostra-se          do valor chocara-se com vrias dificuldades,
com clareza sempre que se considerem aportes               mas s graas a Jevons, Menger e Walras foi
infinitamente pequenos de prazer e de dor,                 superada por uma nova doutrina, da utilidade
precisamente como a teoria da esttica foi ba-             marginal. A caracterstica dessa teoria  que,
seada na igualdade de aportes de energia in-               para ela, o valor  "a importncia que ns atri-
finitamente pequenos. Acredito que certos                  bumos a determinados bens concretos ou quan-
ramos dinmicos da cincia da E. podem                     tidades de bens, pelo fato de sabermos que
prestar-se a desenvolvimentos prprios" (The               a satisfao de nossas necessidades depen-
 Theory of Poltica! Economy, 1871, Pref.  \-             de da possibilidade de dispor desses bens"
ed.). Mas com Jevons e com Walras j estamos               (MENGER, Grundstze der Volkswrtschafts-
num campo diferente de formulao da teoria                lehre, 1871). O valor, portanto, nasce da limita-
econmica.                                                 o dos bens em relao s necessidades e s
                                                           essa limitao confere aos bens carter econ-
    2a Teoria do equilbrio. -- Segundo essa               mico. Os bens que existem em quantidade ili-
teoria, que constitui a segunda concepo funda-           mitada (p. ex., o ar) no tm valor econmico,
mental da E. poltica, o objetivo dessa cincia           pois a disponibilidade de uma frao desses
determinar qual a melhor combinao possvel               tais bens no tem nenhuma utilidade. Com
dos elementos econmicos: essa combinao,
ECONOMIA POLTICA                                  303                           ECONOMIA POLTICA

essas consideraes, estabelece-se a condio             corrente "realista", da escola histrica, que,
fundamental para a existncia do valor econ-            tomando como objeto de consideraes "os
mico: a raridade ou escassez dos bens dispo-             fenmenos reais da E. humana", podia chegar
nveis. E estabelece-se tambm uma relao               a "leis exatas", Menger contrape a corrente
entre escassez e valor, em virtude da qual,             "exata", "que examina os fenmenos da eco-
medida que aumenta o nmero das fraes                  nomicidade, rigorosamente determinados, e
disponveis de uma mercadoria, diminui o va-             assim consegue estabelecer algo que no so
lor de cada uma de suas fraes. Nesse senti-            as leis exatas dos fenmenos reais -- que em
do, o valor de uma mercadoria consiste no que            parte so absolutamente no-econmicas --
Jevons chamava de "grau final de utilidade"              mas as leis exatas da economicidade" (Ibid). A
(Theory ofPoliticalEconomy, 1871, cap. 3), que           E. exata cie que falava Menger foi chamada "E.
Walras chamava de "raridade" (Elements of                pura" por Walras, por Maffeo Pantaleoni (Prin-
Pur Political Economy,   1874; trad.    it., p.          cipi di E. pura, 1889) e por Vilfredo Pareto.
103) e que Marshall chamar de "utilidade                Este ltimo, assim como Menger, insiste na ne-
marginal" {Principies ofE., 1890): consiste, em          cessidade de fazer determinadas abstraes
resumo, na utilidade da ltima frao da                 para tornar possvel a cincia econmica: abs-
mercadoria que satisfaz a uma necessidade.               traes que so da mesma natureza das realiza-
Walras definia em termos matemticos a utili-            das pelas outras cincias. "No conhecemos",
dade marginal como "a utilidade derivada da              diz Pareto, "e no conheceremos jamais ne-
utilidade efetiva em relao  quantidade pos-           nhum fenmeno concreto em todos os seus
suda" (Elements, trad. cit., p. 103), e Pareto,         detalhes; s podemos conhecer fenmenos
em seu Curso de E. poltica (1896,  26), dava           ideais que se aproximem cada vez mais do fe-
ao mesmo conceito o nome de "ofelimidade                 nmeno concreto" (Corso,  35). Assim como a
elementar". Os pressupostos dessa teoria eram            astronomia limita suas pesquisas  forma gen-
claramente enunciados por Menger em Unter-               rica da terra, e a geografia e a topografia pos-
suchungen ber die Methoden der Sozial-                  sibilitam aproximaes progressivamente maio-
wissenschaften und derpolitschen Oekonomie              res, mas nenhuma descrio da terra conseguir
insbesondere (1883), que foi uma crtica de-             dar conta dos mnimos detalhes, tambm a "E.
cisiva  escola histrica da economia. Menger            pura indica-nos a forma geral do fenmeno e a
observou que o ponto de partida e o ponto de             E. aplicada propicia uma aproximao maior,
chegada de toda atividade econmica so ri-              indicando as perturbaes produzidas por cau-
gorosamente determinados pela situao eco-              sas que tinham passado despercebidas na pri-
nmica do momento. As necessidades econ-                meira aproximao, mas nenhuma teoria jamais
micas imediatas de qualquer sujeito econmico            nos dir de que modo ser regulada a vida
so determinadas por sua natureza e pela                 econmica de cada indivduo" (Ibid.,  35). Logo,
evoluo que esta sofreu: os bens que esse                preciso distinguir os "fenmenos principais"
sujeito tem a sua disposio so igualmente              dos "fenmenos secundrios"; e no se deve
determinados pela situao econmica. Entre              confundir "o estado de equilbrio com o esta-
esses dois plos desenvolve-se a atividade eco-          do de transio de um equilbrio a outro" (Ibid.,
nmica do indivduo. Ora, mesmo que sejam                 36). Desse modo, o estado de equilbrio tor-
dados os pontos de partida e de chegada da               na-se o verdadeiro objeto da cincia econmi-
atividade econmica, nem por isso est rigoro-           ca. Supe-se que esta tenha o objetivo de de-
samente determinado apriorio caminho que,                terminar, em cada caso, o optimum da situao
na realidade, o indivduo seguir para chegar           econmica. Por vezes, distinguiram-se dois m-
satisfao das necessidades. "O arbtrio, o erro         todos fundamentais da teoria econmica do
e outras causas podem fazer (como de fato o              equilbrio: o geomtrico ou mtodo de Marshall,
fazem) que o homem tenha a liberdade de se-              dos equilbrios parciais, o algbrico ou mto-
guir rumos diferentes. Contudo, o certo  que,           do de Losanna, do equilbrio geral (cf. U. Rica,
dadas aquelas premissas, um s  o caminho               Giornale degli economisti, 1906). Mas tanto os
mais conveniente" (Ibid., Ap. 6). Portanto, se           equilbrios parciais quanto o equilbrio geral
em qualquer E. so possveis inmeras dire-              constituem construes ideais ou solues-li-
es da atividade do sujeito econmico, uma              mite de problemas cujos dados so, estes sim,
s  a direo mais conveniente, ou seja, a eco-         extrados da experincia, mas que, em conjun-
nmica; e s ela  rigorosamente determinavel.           to, s reproduzem de modo idealizado e retifi-
ECONOMIA POLTICA                                    304                           ECONOMIA POLTICA


cado a marcha dos fenmenos empricos. Sob                 sar do tempo reduziu consideravelmente o
esse ponto de vista, Menger expressara com                 prestgio de seus seguidores. Pois os economis-
toda a clareza o pressuposto fundamental da                tas de profisso, depois de Malthus, ficaram im-
teoria do equilbrio ao observar que "premissa             passveis diante da falta de correspondncia
da regularidade dos fenmenos econmicos e,                entre os resultados de sua teoria e os fatos da
portanto, de uma E. terica no  s o dogma               observao; discordncia essa que o homem
do interesse individual sempre idntico, mas               comum no deixou de observar e que provo-
tambm o da infalibilidade e da oniscincia do             cou nele uma relutncia crescente em dispen-
homem nas a coisas econmicas" (Methode, 1,                sar aos economistas o mesmo respeito que se
cap. 7). Como teoria do equilbrio, ou seja, como          manifesta em relao a outras categorias de
determinao do optimum econmico median-                  cientistas, cujos resultados tericos so confir-
te leis necessrias, a E. poltica deve, portanto,         mados pela observao, quando aplicados aos
pressupor a infalibilidade e a oniscincia do              fatos". Em particular, quanto ao problema do
sujeito econmico.                                         emprego, Keynes observava que "a teoria cls-
    Nesse ponto, mostra-se clara a analogia en-            sica representa o modo como gostaramos
tre esta fase da cincia econmica e a mecnica            que a nossa E. se comportasse, mas na reali-
clssica (anterior  revoluo provocada por               dade ignora as verdadeiras dificuldades e  in-
Einstein). Esta pressupunha a existncia de                capaz de enfrent-las" {The General Theory of
uma ordem necessria da natureza, determi-                 Employment, Interest and Money, 1936, cap. 3,
nada por leis imutveis, e com ela a existncia             3). O prprio Keynes, porm, utilizava ampla-
de um sujeito fsico, infalvel e onisciente,              mente os procedimentos da teoria clssica, que
que pudesse obter todas as informaes pos-                ele julgava verificveis em determinadas condi-
sveis sobre essa ordem sem nela interferir                es (Ibid., cap. 24,  3). Na realidade, s nos
minimamente. A E. do equilbrio pressupe,                 ltimos anos comeou a delinear-se no campo
analogamente, a existncia de um equilbrio                da E. uma nova tendncia que pe de lado de-
econmico determinado por leis necessrias,                finitivamente o pressuposto da teoria do equil-
e com ele a existncia de um sujeito econmi-              brio: a infalibilidade e oniscincia do sujeito
co, infalvel e onisciente, capaz de obter todas           econmico. A chamada "teoria dos jogos" parte
as informaes possveis sobre esse equilbrio             do pressuposto de que o indivduo no con-
sem interferir nele. Mas, exatamente como                  trola todas as variveis de que depende o re-
ocorreu com a fsica, esses pressupostos choca-            sultado de seu comportamento. Ele nunca est
ram-se com dificuldades de ordem emprica.                 na situao de Robinson Cruso, que conhece
Os resultados obtidos pela teoria do equilbrio            perfeitamente suas necessidades e os elemen-
muitas vezes se mostraram em conflito com a                tos que devem servir para satisfaz-las, contro-
realidade econmica ou, na melhor das hipte-              lando, portanto, tudo aquilo de que depende a
ses, aplicveis s a casos-limite muito circuns-           sua utilidade total. Na realidade econmica a
critos. A teoria do equilbrio vangloriou-se da            situao  completamente diferente, porque nela
"pureza" ou "exatido", do "rigor" e da "neces-            vrios indivduos esto em relao uns com os
sidade" de suas concluses, mas, ao mesmo                  outros e o resultado do comportamento de
tempo, mostrou-se incapaz de descrever os                  cada um deles depende de variveis diversas,
fenmenos econmicos mais complicados e                    das quais ele controla s uma parte, enquanto
de prev-los com aproximao suficiente.                   as outras dependem de outros indivduos. O
Essa  uma situao paradoxal numa poca                   resultado geral, porm, depende simultanea-
como a nossa em que se mede a validade da                  mente de todas as variveis. Ora, "essa situa-
cincia por sua capacidade de previso, que,               o", nota Morgenstern, "no pode ser de ne-
de resto,  a capacidade de agir no respectivo             nhum modo definida como um problema de
campo de fenmenos.                                        princpio, quaisquer que sejam as limitaes e
                                                           as condies acessrias em que se possa pen-
   3a Teoria dos jogos-- A primeira investida              sar. Encontramo-nos diante de uma situao
contra a teoria clssica do equilbrio foi de              lgico-matemtica, que a matemtica no soube
autoria de Keynes. Em 1936 ele escrevia: "Em-              representar de algum modo at agora, para no
bora a doutrina clssica em si mesma nunca                 falar da E. terica. Ela nada tem em comum
tenha sido posta em dvida por economistas                 com o clculo das variaes, com a teoria das
ortodoxos at tempos recentes, a sua patente               funes, etc, mas constitui uma novidade de
incapacidade de previso cientfica com o pas-
ECONMICA                                              305                                           EDUCAO

natureza efetivamente conceituai. Portanto                  1909). Mas essa acepo do termo no teve
preciso examinar se  possvel resolver o pro-               fortuna (v. ECONOMIA).
blema de como deveria comportar-se um indi-                     ECPIROSE. V. CONFLAGRAO.
vduo ou uma empresa para que seu comporta-                     ECTESE (gr. eKeai; fr. Ectbse, ai. Ekthesis, it.
mento possa ser considerado 'racional'. Por                  Ectesi). Exposio do significado de um termo
enquanto, a palavra 'racional' no tem nenhum                (ARISTTELES, An.pr, 1, 34, 48 a 25) ou exibio
significado nessa construo: s poder ter sig-             de um exemplo (Ibid., I, 6, 28 b 14; CRISIPO, em
nificado se for encontrada uma teoria que pos-               Stoic. Fragm., II, 7). Leibniz designou com
sa ser empregada em todas essas situaes eco-               esse termo o enunciado de um teorema geomtri-
nmicas" ("Teoria dos jogos", em A Indstria,                co e o traado da figura, que preparam a demons-
1951, pg. 319). Em vista dessa situao, a teoria           trao (Nouv. ess., IV, 17. 3).
dos jogos rejeita qualquer analogia com os sis-                  CTIPO (ingl. Ectype, fr. Ectype, ai. Ektypus;
temas fsicos porque julga no haver nada na f-             ital. Ectipo). Termo introduzido pelos platnicos
sica que corresponda s situaes tipicamente                de Cambridge para indicar a natureza como
econmicas, e para elaborar seus procedimen-                 algo diferente e dependente de Deus e co-
tos de clculo utiliza um modelo completamen-                mo princpio da ordem e da regularidade do
te diferente, o dos jogos estratgicos. Nesses jo-           mundo. Como Deus no faz tudo diretamente
gos, a vitria do indivduo depende no s dos               e como nada acontece por acaso, deve haver
seus movimentos, mas tambm dos movimen-                     um princpio (Plastic Nature, Nature, Spiritus
tos dos outros e de um componente aleatrio.                 natura) que execute a parte da providncia
Cada jogador pode escolher entre vrias es-                  divina referente  regularidade dos fenmenos.
tratgias, ou seja, entre vrios modos de jogar              "A natureza", diz Cudworth, "no  o Arqutipo
a partida. Diremos que ele se comporta "ra-                  da arte divina, mas s o .;  a marca ou a assi-
cionalmente" quando, entre todas as estrat-                 natura viva da sabedoria divina, que, atravs
gias, escolhe "a melhor". A determinao des-                dela, age exatamente segundo seu arqutipo
sa estratgia ocorre atravs de procedimen-                  apesar de no compreender a razo do que
tos matemticos especiais de base estatstica                faz" (The True Intellectual System of the Uni-
(NEUMANN e MORGENSTERN, Theoty of Games
                                                             verse, I, 1, 3). Essa palavra foi empregada com
                                                             o mesmo significado por Berkeley: "Reconheo
 and Economic Behavior, 1944). Para tanto,
                                                             um duplo estado de coisas: um, . e natural; o
esses procedimentos exigem um complexo de                    outro, arqutipo e eterno. O primeiro foi criado
observaes econmicas extraordinariamente                   no tempo; o segundo existia na eternidade no
rico com base nos quais  possvel realizar ge-              esprito de Deus" (Dial, Between Hylas and
neralizaes indutivas. Seja qual for o juzo so-            Philonous, ed. Jessop. III, p. 254). E Kant distin-
bre os detalhes tcnicos dessa doutrina,  certo             gue um intelecto arqutipo, que  o divino,
que, na economia contempornea, ela represen-                que cria os objetos pensando-os, do intelecto
ta a primeira ruptura decisiva com os pressu-                E., que  o humano ou finito, no criativo, mas
postos dogmticos da teoria do equilbrio e o                discursivo (Crt. dofuzo, 11,  77).
encaminhamento para a determinao de uma
tcnica de comportamento racional nas situa-                     EDENTULI. V. PURPREA.
es de escassez que permite a previso dos                      EDUCAO (gr. 7iO.5eoe; lat. Educatio, in.
comportamentos efetivos.                                     Education; fr. ducation. ai. Erziehung; it.
                                                             Educazion). Em geral, designa-se com esse
    ECONMICA (in. Economics- fr. cono-                     termo a transmisso e o aprendizado das tc-
mique; ai. Oekonomik, it. Econmica). 1. Com                 nicas culturais, que so as tcnicas de uso,
esse nome muitos autores contemporneos de-                  produo e comportamento, mediante as quais
signam a cincia da economia; esse nome evita                um grupo de homens  capaz de satisfazer suas
a ambigidade do termo "economia", que pode                  necessidades, proteger-se contra a hostilidade
indicar tanto a cincia quanto o seu objeto.                 do ambiente fsico e biolgico e trabalhar em
    2. Foi assim que Croce chamou a parte da                 conjunto, de modo mais ou menos ordenado e
filosofia da prtica que tem por objeto as aes             pacfico. Como o conjunto dessas tcnicas se
utilitrias e econmicas entre as quais Croce                chama cultura (v. CULTURA, 2), uma sociedade
coloca no s as aes assim chamadas comu-                  humana no pode sobreviver se sua cultura
mente, mas tambm o direito, a poltica, a                   no  transmitida de gerao para gerao; as
cincia, etc. (Filosofia delia pratica, E. ed tica,         modalidades ou formas de realizar ou garantir
EDUCAO                                             306                                            EFETIVO

essa transmisso chamam-se educao. Esse                 o contedo, mas como figuras j depositadas
o conceito generalizado de E., que se tornou               pelo Esprito (...). Do ponto de vista do indiv-
indispensvel graas  considerao do fen-               duo, sua formao consiste na conquista do
meno no s nas sociedades chamadas civiliza-              que ele encontra diante de si, consiste em con-
das, mas tambm nas sociedades primitivas.                 sumar sua natureza inorgnica e em apropriar-
As formas de E. nesses dois tipos de sociedade             se dela" (Pbnomen. des Geistes, Pref., II, 3).
no apresentam diferenas de desenvolvimen-                Hegel hipostasia aqui, como "Esprito univer-
to ou grau (como comumente se cr), mas de                 sal", o sistema cultural da sociedade civilizada,
atitude ou orientao. A sociedade primitiva ca-           mas o seu conceito de E.  tpico da sociedade
racteriza-se pelo fato de que nela a E. visa ga-           primitiva.
rantir a imutabilidade das tcnicas de que dis-                2a No segundo conceito de E., a transmisso
pe; por isso tende a atribuir carter sacro a             das tcnicas j adquiridas tem sobretudo a fina-
tais tcnicas, o que leva a proibir como sacrle-          lidade de possibilitar o aperfeioamento dessas
ga qualquer inovao ou correo. Uma so-                  tcnicas atravs da iniciativa dos indivduos.
ciedade civilizada est, acima de tudo, apa-               Nesse aspecto, a E.  definida no do ponto de
relhada para enfrentar situaes novas ou                  vista da sociedade, mas do ponto de vista do
em mudana; logo, tende a tornar flexveis e               indivduo: a formao (v.) do indivduo, sua
corrigveis as tcnicas de que dispe e a confiar          cultura, tornam-se o fim da educao. A defini-
 E. a tarefa no s de transmiti-las, mas tam-            o de E. na tradio pedaggica do Ocidente
bm de corrigi-las e aperfeio-las. Sem dvi-             obedece inteiramente a essa exigncia. A E. 
da, essas duas orientaes nunca se acham em               definida como formao do homem, amadu-
estado puro: no existem sociedades absoluta-              recimentodo indivduo, consecuo da sua/or-
mente primitivas, que no permitam -- ainda                ma completa ou perfeita, etc.: portanto, como
que sub-repticiamente -- correes ou modifi-              passagem gradual -- semelhante  de uma
caes lenta em suas tcnicas, assim como no              planta, mas livre -- da potncia ao ato dessa
existem sociedades absolutamente civilizadas               forma realizada. Esses conceitos repetem-se
que permitam a rpida e incessante correo                com tal uniformidade na tradio pedaggica
das tcnicas mais delicadas, que no so as                que no chegam a constituir novidade do pon-
tcnicas de uso e produo de objetos, mas as              to de vista filosfico. Segundo esse ponto de
que controlam a conduta dos indivduos e seus              vista, a E.  cultura, no segundo dos dois sig-
comportamentos recprocos.                                 nificados fundamentais deste termo; os pro-
    Podem-se, portanto, distinguir duas formas             blemas gerais correspondentes podem ser es-
fundamentais de E.: \- a que simplesmente se               tudados nesse verbete.
prope transmitir as tcnicas de trabalho e de                EDUO (lat. Eductio; in. Eduction; fr.
comportamento que j esto em poder do gru-                Eduction; ai. Eduction; it. Eduzion). Termo
po social e garantir a sua relativa imutabilidade;         usado na Escolstica para indicar a emergncia
2- a que, atravs da transmisso das tcnicas j           da forma a partir da matria, ou seja, a passa-
em poder da sociedade, se prope formar nos                gem da potncia ao ato (S. TOMS, S. Th., I, q.
indivduos a capacidade de corrigir e aperfei-             90, a. 2). Leibniz emprega esse termo com o
oar essas mesmas tcnicas.                                mesmo sentido (Thod., I,  88).
    Ia O primeiro conceito de E., como se dis-                 EFEITO (in. Effect; fr. Effet; ai. Wirkung;
se,  posto em prtica pelas sociedades primi-             it. Effetto). Termo ou o resultado de qualquer
tivas e tambm, parcialmente, nas sociedades               tipo ou espcie de causao (v. CAUSALI-
secundrias, sobretudo no que tange  E. mo-               DADE).
ral e religiosa. Consiste na transmisso pura e                EFTTCO (gr. cpeKTiK). Aquele que pra-
simples das tcnicas consideradas vlidas e na             tica a suspenso do juzo, isto , o ctico pir-
transmisso simultnea da crena no carter                roniano (v. EPOCH; CETICISMO).
sagrado, portanto imutvel, de tais tcnicas. Na              EFETIVO (in. Actual; fr. Effectif ai. Wir^
tradio pedaggica do Ocidente, esse concei-              klich; it. Effettivo ou Effetuale). O mesmo que
to de E., por motivos bvios, foi formulado e              real (v. REALIDADE). Em italiano e francs, esse
defendido poucas vezes. Entre os que o defen-              termo ressalta o carter que a realidade possui
 deram com maior deciso e nitidez est Hegel:             diante do que s  imaginado ou desejado; em
 "O indivduo deve recapitular os graus de for-            ingls e alemo, ressalta o carter que a reali-
mao do Esprito universal, tambm segundo                dade possui diante do que  somente possvel.
EFICINCIA                                           307                                         EGOLOGIA

    EFICINCIA (in. Efficiency, fr. Efficience,            mentos morais (1759) e os moralistas franceses
ai. Wirksamkeit; it. Efficienza).Em sentido pr-           tinham visto no E. uma das emoes funda-
prio, a ao da causa eficiente. Mas hoje, em              mentais do homem. Vauvenargues, que chama
todas as lnguas, esse termo  empregado com               o E. de "amor prprio", distingue-o do amor de
significado diferente, como correspondncia                si(y), que  a filucia de Aristteles (De 1'esprit
ou adequao de um instrumento  sua funo                humain, 24). Kant distingue trs formas de E.:
ou de uma pessoa  sua tarefa. Diz-se tambm               E. lgico, de quem no acha necessrio subme-
"E. de uma organizao" para indicar a adequa-             ter seu prprio juzo ao juzo alheio; E. esttico,
o de uma organizao s suas funes, e,                 que se satisfaz com seu prprio gosto; E. mo-
correspondentemente, fala-se de "ineficincia".            ral, de quem restringe todos os fins a si mesmo
Nesse sentido os filsofos tambm utilizam                 e no v utilidade no que no lhe traz proveito.
esse termo com freqncia, embora no se tra-              Alm dessas trs espcies de E., Kant distingue
te de termo especificamente filosfico.                    o E. metafsico, que responde negativamente 
    EFLVIOS (gr. rtOppoa). Empdocles (sc.             pergunta: "eu, como ser pensante, tenho razo
V a.C.) explicava o conhecimento com a hip-               de admitir, alm da minha existncia, tambm
tese dos E., que emanam das coisas e pene-                 a de um todo de outros seres que esto em
tram nos sentidos por meio dos poros exis-                 comunho comigo?" (Antr., I  2).
tentes em todos os rgos e que so apropriados                A anttese entre E. e altrusmo e a predio
 espcie de E. que devem recolher (TEOERASTO,             do futuro triunfo do altrusmo so tpicas da
De sensu, 7; Fr. 89, Diels).                               tica positivista. O positivismo cunhou a pala-
    EGOCENTRISMO (in. Egocentrismo fr. go-                vra altrusmo(v.) e, ao lado dos instintos egosti-
 centrisme, ai. Egozentrismus; it. Egocentrismo).          cos, admitiu a existncia de instintos altrustas
Scheler designou com esse termo a atitude que              destinados a prevalecer com o progresso moral
consiste em confundir o mundo que nos cir-                 da humanidade (COMTE, Catchismepositiviste,
cunda imediatamente com o "mundo" no senti-                pp. 48 e ss.; SPENCER, Data ofEthics,  46). Por
do prprio do termo, ou seja, em atribuir ao               outro lado, Stirner e Nietzsche sustentaram a
ambiente imediato uma funo universal ou                  moral do egosmo. Stirner chamou seu anar-
csmica. Com o E. assim entendido Scheler                  qusmo(v.) de E. absoluto, que consiste na afir-
refracionou o solipsismo, o egosmo e o auto-              mao de que o indivduo  a nica realidade
erotismo. O solipsismo  a atitude egocntrica             e o nico valor (DerEinzige undsen Eigentum,
que preside  concepo dos objetos do mun-                1845). Nietzsche por sua vez dizia: "O E.  par-
 do real; o egosmo  o E. em seu aspecto pr-             te essencial da alma aristocrtica e por egosmo
tico ou volitivo; o auto-erotismo  a atitude              entendo a f inquebrantvel em que outros
 egocntrica na vida amorosa (Sympathie, I, cap.           seres devem sujeitar-se e sacrificar-se pelo ser
 4,  2).                                                  que ns somos" (Jenseit von Gut und Bse,
    EGO e SUPEREGO. V. PSICANLISE.                        1886,  265). Scheler deu a melhor caracteriza-
    EGOSMO (in. Egoism; fr. goisme; ai.                  o do E., distinguindo-o do amor de si ou
 Egoismus; ital. Egosmo). 1. Termo criado no sc.         filucia. O E., segundo diz, no se dirige ao eu
XVIII para indicar a atitude de quem d impor-             individual como objeto de amor desvinculado
 tncia predominante a si mesmo ou aos seus                de todas as relaes sociais. O egosta no se
 prprios juzos, sentimentos ou necessidades,             comporta como se estivesse s no mundo, mas
 e pouco ou nada se preocupa com os outros.                est to absorvido por seu eu social que se
 Plato j achava que o "amor desmesurado por              apega somente aos seus prprios valores ou
 si mesmo" (que nada tem a ver com a filucia              queles que podem tornar-se seus. Essa atitude
de que falava ARISTTELES, V. AMOR DE SI)  a               o contrrio do amor de si, dirigido principal-
causa de todas as culpas dos homens (Leis, V,              mente aos valores por si mesmos (Sympathie,
731e).Muitas vezes o E. foi considerado atitude            II. cap. I,  1).
natural do homem. Diz Kant: "A partir do dia                   2. O mesmo que solipsismo (v.).
em que o homem comea a falar em primeira                     EGOLOGIA (In. Egology fr. gologie; ai.
pessoa, ele passa a pr seu querido eu na fren-            Egologie, it. Egologia). Segundo Husserl, a es-
te de tudo, e o E. progride incessantemente,               fera prpria do ego obtida mediante a epoch
sub-reptcia ou abertamente (por sofrer a opo-             egolgica, com a qual, no campo da experin-
sio do E. dos outros)" (Antr, I,  2). Alis,            cia fenomenolgica, se abstrai de tudo o que
antes de Kant, Adam Smith (Teoria dos senti-               pertence aos outros eus (Cart. Med.,  44).
EGOTISMO                                             308                                        ELEMENTO


   EGOTISMO (In. Egotism; fr. gotisme, ai.                   EL VITAL (fr. lan vital). Segundo Berg-
Egotismus; it. Egotismo). Termo de origem                  son,  a conscincia que penetra a matria e a
inglesa, difundido no resto da Europa por                  organiza, realizando nela o mundo orgnico.
Stendhal, que o empregou tambm no ttulo                  O E. vital passa "de uma gerao de germes
das suas memrias autobiogrficas (Souvenirs               para a gerao seguinte, por intermdio dos
d'gotisme, 1892, mas escritas em 1832). Essa              organismos desenvolvidos, que funcionam
palavra significa a excessiva importncia con-             como trao de unio entre os germes. Con-
cedida a si mesmo e s vicissitudes da vida                serva-se nas linhas evolutivas entre as quais se
pessoal, bem como a tendncia a falar demais               divide e  a causa profunda das variaes, pelo
de si mesmo (cf. sobre a histria da palavra, o            menos daquelas que se transmitem regular-
prefcio de H. Martineau  edio dos Souvenirs            mente, que se adicionam e que criam espcies
de Stendhal, Paris, 1950). No sentido de sub-              novas" (vol. cratr, 8a ed., 1911, p. 95). A
jetivismo ou culto do eu, essa palavra foi usada           formao da sociedade, antes fechada e de-
por G. Santayana (Egotism in German Phi-                   pois aberta, a religio fabuladora e a religio
losophy, 1915).                                            dinmica, segundo Bergson, so os produtos
    EIDTICO (in. Eidetic; fr. Eidtique; ai.              ulteriores do mesmo E. vital, ou seja, da
Eidetisch; it. Eidetic). Termo introduzido na             conscincia (Deuxsources, IV, trad. it., p. 295)
filosofia contempornea por Husserl a partir               (v. DURAO).
de Investigaes lgicas (1900-01) para indicar               ELEATISMO (in. Eleaticism; fr. latisme,
tudo o que se refere s essncias, que so ob-             ai. Eleatismus; it. Eleatism). Doutrina da escola
jeto da investigao fenomenolgica (v. FENO-              que floresceu em Elia (Magna Grcia) entre
MENOLOGIA).
                                                           os scs.VI e V a.C, formulada por Xenfanes
   EIDOS. Este, que  um dos termos com que                de Colofo, elaborada por Parmnides e se-
Plato indicava a idia e Aristteles a forma,            guida e defendida por Zeno e Melisso. Os
usado na filosofia contempornea especial-                 fundamentos dessa doutrina so os seguintes:
mente por Husserl para indicar a essncia que              1Q unidade, imutabilidade e necessidade do ser,
se torna evidente mediante a reduo fenome-               expressa pela frase: "S o ser  e no pode no
nolgica (v. FENOMENOLOGIA). Para os signifi-
cados clssicos dessa palavra, v. FORMA; IDIA;            ser" (Fr. 4, Diels); 2- acessibilidade do ser s
ESPCIE.
                                                           para o pensamento racional e condenao do
                                                           mundo sensvel e do conhecimento sensvel
   EJEO (in. Ejection; fr. jection; it. Eie-            como aparncia. Esses dois princpios do E.
zione). Termo criado por G. Clifford (Lectures             foram um componente importante da filosofia
and Essays, 1879) para indicar as sensaes                grega posterior, especialmente de Plato e Aris-
dos seres diferentes de ns, que nunca podem               tteles, e constituram uma das alternativas que
ser diretamente objeto de nossa conscincia,               se repetiram com mais freqncia na histria
sendo portanto projees da conscincia. O
termo foi empregado tambm por Romanes                     da filosofia.
(The World as an Eject, 1895) e por alguns outros.             ELECTRA (gr.'HXiapa). Nome de um so-
   EK-STASE. Heidegger e Sartre chamaram                   fisma atribudo a Eublides (DIG. L, II, 108)
de E. (no sentido literal do termo xtase, "estar          e citado por Luciano (Vitarum auctio, 22); se-
fora" ou "sair") as trs determinaes do tem-             gundo ele, Electra conhece e ao mesmo tem-
po, passado, presente, futuro, porquanto cada              po no conhece Orestes: quando Orestes vai
uma delas se move ou caminha para a outra, o               ao seu encontro, ela sabe que  Orestes, seu
presente para o passado, o presente para o fu-             irmo, mas no o reconhece como Orestes por-
turo, o futuro para o presente. Heidegger diz:             que no o conhece.  uma verso do sofisma
"A temporalidade  o originrio fora de si em              chamado "velado", que tambm  atribudo a
si e para si. Ns chamamos de E. da tempo-                 Eublides e comentado por Aristteles (El. sof,
ralidade os fenmenos caracterizados como fu-              24, 179 a 33).
turo, passado e presente" (Sein undZeit,  65).                ELEIO. V. ESCOLHA.
Em seguida, Heidegger viu nos E. temporais as                  ELEMENTO (gr.OTOi%eiov; lat. Elemen-
manifestaes do Ser (Was ist Metaphysik?, 6a              tum; in. Element; fr. lment; ai. Element; it.
ed., 1951, p. 14). Analogamente Sartre fala da             Elemento). Este conceito recebeu dois signifi-
"relao exttica interna" como da "fonte da               cados principais: le o de componente pri-
temporalidade" (Utre et le nant, p. 256) (v.             meiro de um todo composto; 2 o de termo
TEMPO, 3).                                                 ou resultado de um processo de anlise ou
ELEMENTO                                               309                                       EMANAO


diviso. O primeiro desses conceitos  o                     num campo pode no ser "E." em outro campo
mais antigo.                                                 e o conceito  definido em cada caso s em
    Ia Embora Plato (cf., p. ex.: Teet., 210 e)             relao aos instrumentos de anlise e ao seu
tenha sido o primeiro a falar em filosofia dos E.            alcance.
(como nos diz DIGF.NES LARCIO, III, 24), Arist-               Do ponto de vista lgico, a noo de E. foi
teles  o primeiro a fazer uma anlise exaustiva             definida por Wittgenstein: " claro que, ao ana-
desse conceito. "Por elemento", diz ele, "en-                lisar uma proposio, deve-se chegar a propo-
tende-se o componente primeiro de uma coisa                  sies elementares, que constam de nomes em
qualquer, que seja de uma espcie irredutvel a              unio imediata" (Tractatus, 4, 221). Nesse sen-
uma espcie diferente: nesse sentido, p. ex., os             tido, a proposio elementar  o resultado da
E. das palavras [isto , as letras] so os elemen-           decomposio das proposies. Segundo
tos de que consistem as palavras, nos quais se               Wittgenstein, ela "afirma a existncia de um
dividem em ltima anlise porque no podem                   fato atmico" (Ibid., 4. 21); sua marca caracte-
dividir-se em partes de espcie diferente. Se                rstica  que "nenhuma proposio elementar
um E. for dividido, suas partes sero da mesma               pode estar em contradio com ela" (Ibid., 4.
espcie; p. ex: uma parte de gua  gua, ao                 211).
passo que a parte de uma slaba no  uma                        ELEMENTOS (ai. Elemente). R. Avenarius
slaba" (Met., V, 3,1014 a 30). Aristteles esclare-         deu um significado especial a essa palavra,
ce tambm o sentido em que essa palavra foi                  que, para ele, indica as qualidades sensveis
usada (como o  ainda) para indicar as partes                que formam os "complexos de E." que so as
principais de uma doutrina, no sentido, p. ex.,              coisas (Kritik der reine Erfahrung, I, 16).
em que se diz "E. de Euclides". Diz ele que os                   ELENCO (gr. yx; lat- Elenchus). Refuta-
E. das provas geomtricas e das demonstraes                o. E. Sofstcos de Aristteles: as refutaes
em geral so aquelas demonstraes primeiras                 falsas.
que reaparecem em outras demonstraes dife-                     ELEUTERONOMIA (ai. Eleutheronomie).
rentes Ubid, V, 3, 1014 a 35). Aristteles nota              Palavra usada por Kant para indicar "o princ-
tambm que podem ser metaforicamente cha-                    pio da liberdade em que se apoia a legislao
mados de E. as entidades mais universais por-                interna", isto , a legislao moral (Met. der
que so simples e indivisveis e podem repetir-              Sitten, II, Pref.).
se em um nmero indefinido de casos. E talvez                   EICITA, AO. V. AO.
tenha sido justamente contra essa extenso do                   ELITE. A teoria da  ou classe eleita foi ela-
termo que os esticos estabeleceram sua pr-                 borada por Vilfredo Pareto em Trattato di so-
 pria distino entre princpios, que no podem              ciologia generale (1916), e consiste na tese de
 ser gerados nem se corrompem, e os E., que                  que  uma pequena minoria de pessoas que
 podem ser destrudos pelas conflagraes pe-                conta em qualquer ramo ou campo de ati-
ridicas a que o mundo est sujeito (DlG. L.,               vidade e que, mesmo em poltica,  essa
VII, 134). No sc. XII, Guilherme de Conches                 minoria que decide sobre os problemas do go-
 dava o nome de E. aos tomos e de elementata                verno. Pareto entendia por E. o conjunto "da-
  gua, ao ar,  terra e ao fogo, que seriam                queles que tm os padres mais elevados em
 compostos de tomos (Phlosophia, I, 21).                   seu ramo de atividade" (Trattato,  203D e cha-
    2a O segundo conceito de E. foi elaborado                mava de "classe governante eleita" aqueles
no sc. XVII por Robert Boyle, um dos funda-                 que, direta ou indiretamente, tm participao
dores da qumica moderna. Em Chymista Scep-                  importante no governo. Fala tambm de "circu-
ticus (1661), Boyle definiu como E. qumico o                lao da classe eleita" (Ibid.,  2042) para indi-
corpo no composto que no se  possvel                     car o fenmeno da passagem de grupos hu-
decompor com os meios qumicos de que se                     manos da classe eleita para a classe no eleita
dispe. Essa definio tinha a vantagem de no               e vice-versa. O prprio Pareto indicava como
fixar antecipadamente quais so os corpos que                fonte dessa teoria a tese de doutoramento de
devem ser considerados elementos. Pode ser                   M. KOLABINSKA, La circulation des elites en
facilmente generalizada para um campo qual-                  France, Lausanne, 1912. Essa teoria foi um dos
quer, podendo-se definir como E., nesse cam-                 pontos fundamentais da doutrina poltica do
po, aquilo que no  possvel dividir com os                 fascismo e do nazismo.
instrumentos de anlise disponveis nesse mes-                  EMANAO (gr. 7rpoevoa, Ttoppev; lat.
mo campo. Desse ponto de vista, o que  "E."                 Emanatio; in. Emanation-, ir. manation; ai.
EMANATISMO                                              310                                        EMINNCIA


Emanation; it. Emanazione). Uma forma de                      Toda doutrina que reconhea como vlida a teo-
causao com as seguintes caractersticas: Ia                  ria da emanao. Devem ser considerados co-
necessidade do efeito em relao  causa ou                    mo formas de E. o neoplatonismo antigo, o
fora que o produz; 2a continuidade entre cau-                naturalismo de Giordano Bruno, o pantesmo de
sa e efeito, pela qual o efeito continua a ser                Schelling e outras formas de pantesmo con-
parte de sua causa; 3a inferioridade de valor do              temporneo.
efeito em relao  causa; 4a eternidade da rela-                 EMERGNCIA (in. Emergence, fr. mer-
o entre causa emanente e efeito emanado. As                 gence; ai. Emergenz, it. Emergenza). Termo
caractersticas Ia, 2a e 4a diferenciam a E. da cria-         empregado pelos anglo-saxes para indicar
o, ao passo que a caracterstica 3a  comum                o carter criativo da evoluo (v. CRIAO).
E. e  criao. As caractersticas 2a, 3a e 4a dife-              EMINNCIA (lat. Eminentia; in. Eminence,
renciam a E. das formas comuns da causao.                   fr. Eminence, ai. Eminenz-, it. Eminenza). Prio-
    O conceito de E. foi elaborado pela primeira              ridade ontolgica, ou seja, a perfeio. Eminen-
vez por Plotino: "Todos os seres, enquanto per-               te significa "mais perfeito"; e eminentementesig-
manecem, produzem necessariamente em tor-                     nifica "de modo mais perfeito". Essa noo tem
no de si e de sua substncia uma realidade que                origem na hierarquia dos seres, estabelecida
tende para o exterior e provm de sua atualida-               em Instituies teolgicas de Proclo e repeti-
de presente. Essa realidade  como uma ima-                   da nos escritos do Pseudo-Dionsio (cf. espe-
gem dos arqutipos dos quais nasceu:  assim                  cialmente De div. nom., VII). S. Toms dizia:
que do fogo nasce o calor e que a neve no                    "Quando se diz 'Deus  bom' ou 'sbio', en-
retm em si o frio. Mas so principalmente os                 tende-se no s que ele  causa da sabedoria
objetos perfumados que provam isso, pois, en-                 ou da bondade, mas que essas coisas preexistem
quanto existem, algo emana deles e em torno                   nele de modo mais perfeito (eminentius)" {S.
deles, uma realidade de que usufruem todos os
                                                               Th., I, q. 13, a. 6). Na escolstica tardia, come-
que esto prximos. Alm disso, todos os se-
res que chegaram  perfeio geram; por isso,                 ou-se a designar via Eminentiae a prova da
o ser que  sempre perfeito gera sempre: gera                 existncia de Deus que, da existncia de graus
um ser eterno, mas inferior a ele" {Enn., V, 1,               diversos de perfeio no mundo, interfere a exis-
6). Esse trecho de Plotino contm a noo cls-               tncia do grau eminente ou mais perfeito de
sica de E., que permaneceu inalterada na his-                 todos (v. DEUS, PROVAS DE): sua expresso se
tria da filosofia. De fato, apresenta-se com as              encontra, p. ex., em Duns Scot {Op. Ox, 1, d.
mesmas caractersticas em Proclo {Instituies                2, q. 2, a. 1, n. 17), que se preocupa, em outro
teol., pp. 27 ss.), em Scotus Erigena {De divis.              passo, em definir essa palavra no sentido de
nat., III, 17) e em todos os que utilizam essa                "aquilo que  mais perfeito e mais nobre se-
noo. Em geral, caracteriza a relao que o                  gundo sua essncia e, nesse sentido, prece-
pantesmo antigo (antes de Spinoza) estabelece                dente" {Deprimo principio, ed. Roche, p. 4).
entre Deus como fora ou princpio animador                       Descartes emprega esse termo com o mes-
do mundo e as coisas ou os seres do mundo.                    mo sentido: "A pedra que ainda no existe no
Emanatista , p. ex., a relao entre o artfice              pode comear a existir agora, se no for produ-
interno, de que fala G. Bruno, e as coisas natu-              zida por uma coisa que possui em si, formal
rais, que so manifestaes suas, necessrias e               ou eminentemente, tudo aquilo que entra na
eternas {De Ia causa, I). Mas no  emanatista,               composio da pedra, isto , que contm em si
embora conserve algumas caractersticas da E.                 as mesmas coisas ou outras mais excelentes,
(a Ia, a 2a e a 4a), a relao que Spinoza esta-              que esto contidas na pedra" {Md., III, 2; II
belece entre Deus ou a Natureza e as coisas do                Rp., def. IV). Por sua vez, Spinoza diz.- "Enten-
mundo: relaes por ele identificadas como                    do por 'eminentemente' que a causa contm
aquelas graas s quais "da natureza do trin-                toda a realidade do efeito mais perfeitamente
gulo resulta que a soma dos ngulos de um                     do que o prprio efeito" {Ren. Cart. Princ.
tringulo  igual a dois retos", ou seja, com                 Phil, I, ax. 8). Generalizando essa noo e
necessidade geomtrica {Et., I, 17. scol); que                expressando-a em termos negativos, Wolff di-
, de resto, uma forma de causao ordinria                  zia: "Por E. entende-se o ente que, a rigor, no
(v. CAUSALIDADE).
                                                              existe, ao passo que existe algo que faz as ve-
  EMANATISMO (in. Emanationism; fr. Ema-                      zes dele e que propriamente no lhe pode ser
natisme, ai. Emanatsmus; it. Emanatism).                    atribudo" {Ont.,  845).
EMOO                                                311                                           EMOO

    EMOO (gr. rGo; lat. Affectus ou Passio;             veis ou os fazem parecer inexistentes. Por isso,
in. Emotion; fr. Emotion; ai. Affekt; it. Emo-              muitas vezes a riqueza, a fora, o poder e a
zione). Em geral, entende-se por esse nome                  abundncia de amigos fazem que os homens
qualquer estado, movimento ou condio que                  descuidem-se dos males, tornando-se audazes
provoque no animal ou no homem a percep-                    e desdenhosos. Dessa anlise emerge clara-
o do valor (alcance ou importncia) que de-               mente o conceito de E. como "ndice" de uma
terminada situao tem para sua vida, suas ne-              situao, ou melhor, do valor que ela tem para
cessidades, seus interesses. Nesse sentido, no              a existncia do homem.
dizer de Aristteles (Et. nic, II, 4. 1105 b 21), a             Para Plato e Aristteles, as E. tm significa-
E.  toda afeio da alma, acompanhada pelo                 do porque tm uma funo na economia da
prazer ou pela dor: sendo o prazer e a dor a                existncia humana no mundo. Para os esticos,
percepo do valor que o fato ou a situao a               porm, elas no tm significado nem funo.
que se refere a afeio tem para a vida ou para             Sob esse aspecto, a doutrina estica  a mais t-
as necessidades do animal. Desse modo, as E.                pica e radical entre as que negam o significado
podem ser consideradas reaes imediatas do                 das emoes. Seu fundamento  que a nature-
ser vivo a uma situao favorvel ou desfavor-             za proveu de modo perfeito  conservao e
vel: imediata, porque condensada e, por assim               ao bem dos seres vivos, dando aos animais o
dizer, resumida no tom do sentimento, (agrad-               instinto e ao homem a razo. As E., porm,
vel ou dolorosa), que basta para pr o ser vivo             no so provocadas por nenhuma fora natu-
em estado de alarme e para disp-lo a enfren-               ral: so opinies ou juzos ditados por levian-
tar a situao com os meios de que dispe.                  dade, portanto fenmenos de estupidez e de
   A primeira teoria das E. nesse sentido talvez            ignorncia que consistem em "achar que se
tenha sido a enunciada por Plato em Filebo:                sabe o que no se sabe" (CCERO, Tusc, IV, 26).
ocorre a dor quando a proporo ou a harmo-                 Os esticos distinguiam quatro E. fundamen-
nia dos elementos que compem o ser vivo                   tais, duas das quais tinham origem em bens
ameaada ou comprometida; tem-se o prazer                   presumidos (desejo de bens futuros e alegria
quando essa proporo ou harmonia se resta-                 pelos bens presentes); e duas, em males pre-
belece (17, 31 d, 32 a). Aristteles, por sua vez,          sumidos (temor de males futuros e aflio pe-
ao considerar o prazer vinculado  atuao de               los males presentes). A trs dessas E., mais
um hbito ou de um desejo natural (Et. nic,                 precisamente ao desejo,  alegria e ao temor,
VII, 13, 1153 a 14), atribuiu-lhe a mesma fun-              correspondiam trs estados normais, prprios
o de restituio ou restabelecimento de uma               do sbio, que so, respectivamente, vontade,
condio natural e, conseqentemente, consi-                alegria e precauo, trs estados de calma e de
derou doloroso o que afasta violentamente da                equilbrio racional. Mas, no sbio, nenhum es-
condio natural e , por isso, contrrio  ne-             tado corresponde  aflio do nscio, que 
cessidade e aos desejos do ser vivo (Ret., I, 11,           sentida por males presumidos e deve-se  falta
1369 b 33). Foi precisamente desse ponto de                 de obedincia  razo. A essas quatro E. fun-
vista que no II livro da Retrica, Aristteles fez          damentais os esticos reduziam as outras, con-
uma das anlises mais interessantes da histria             sideradas igualmente doenas ou enfermida-
da filosofia sobre a E. Veja-se, p. ex., o que ele          des (ou seja, doenas crnicas) e capazes de
diz sobre o medo (Ret., II, 5, 1382 a 20 ss.): "O           gerar outras E. de averso e de desejo (Ibid.,
medo  uma dor ou uma agitao produzida                    IV, 24). O pressuposto dessa anlise  a tese
pela perspectiva de um mal futuro, que seja ca-             da perfeita racionalidade do mundo. O homem
paz de produzir morte ou dor". De fato, obser-              sbio s pode tomar conscincia dela e viver
va Aristteles, nem todos os males so temidos,             de acordo com ela, "viver segundo a razo". O
mas s os que podem produzir grandes dores e                mundo, como ordenao racional perfeita, nada
destruies e mesmo estes s no caso de no                 tem que pos-sa afligir ou ameaar o sbio, que
estarem distantes demais, mas de parecerem                   o ser racionalmente perfeito: portanto, a afli-
prximos e iminentes. De fato, os homens no                o ou o temor, assim como o desejo e o pra-
temem as coisas muito distantes: todos sabem                zer, provm simplesmente de ver no mundo
que devem morrer, mas enquanto a morte no                  algo que no existe e que no pode existir: um
se aproxima no se preocupam com ela. O                     bem que esteja alm da razo ou um mal que
medo tambm  reduzido ou eliminado por                     possa ameaar a razo. Portanto, as E. no pas-
condies que tornam os males menos tem-                   sam de juzos errados, opinies vazias e des-
EMOO                                                 312                                            EMOO

providas de sentido. O sbio est imune a elas                to de um mal; as pertencentes  parte irascvel
pelo fato mesmo de ser sbio, de viver segun-                 servem de mediadoras  consecuo das emo-
do a razo; e entre o sbio e o estulto, que                 es concupiscveis, ou seja, condicionam sua
vtima dessas falsas opinies, no h meio ter-               realizao (Ibid., q. 25, a. 1). O significado des-
mo nem transio (CCERO, Definibus, III, 48).                sa distino  que, em um mundo sub ratione
    Para S. Agostinho, o ideal estico da apatia              ardui, em que  difcil conseguir o bem e evi-
parece desumano e irrealizvel. "No experi-                  tar o mal, a previso do bem ou do mal e o es-
mentar a menor perturbao enquanto se vive                   foro para obter o primeiro e evitar o segundo
neste lugar de misria", diz ele, "s pode ser                servem de trmite s outras emoes.
fruto de grande dureza de alma e de grande                        Esses reparos tm o objetivo de garantir o
entorpecimento do corpo" (De civ. Dei, XIV, 9).               significado e a "seriedade" das E. humanas, evi-
S. Agostinho frisa o carter ativo e responsvel              denciando sua funo na economia da vida hu-
das emoes: "A vontade est em todos os                      mana no mundo.  significativo que o mesmo
movimentos da alma, ou melhor, todos os mo-                   intuito se encontre nas anlises naturalistas das
vimentos da alma no so mais que vontade.                    E., feitas nos scs. XVI e XVII, que, como 
O que , de fato, a cupidez ou o contentamen-                 bvio, partem de formulaes metafsicas e
to seno vontade consciente com as coisas de-                 metodolgicas completamente diferentes. As-
sejadas? E o que  o medo e a tristeza seno                  sim, Telsio reconhece claramente a funo
vontade que repudia coisas no desejadas? Se-                 biolgica do prazer e da dor, os dois plos da
gundo a diversidade das coisas desejadas ou                  experincia emotiva. Causam dor ao corpo e
evitadas, a vontade humana, ao permanecer                    ao esprito vital as coisas que, dotadas de for-
atrada por elas, ou ao rejeit-las, transforma-             as prepotentes e contrrias, afastam-nos de
se nesta ou naquela E." (Ibid., XIV, 6).                     sua disposio e os corrompem; ao contrrio,
    S. Toms restabelece o conceito de E. como               causam prazer as coisas que, dotadas de foras
afeio, como modificao sofrida, relacionan-               semelhantes e afins, os favorecem, os vivificam
do-a com o aspecto da alma no qual ela                      e lhes restituem a sua prpria disposio, se
potencialidade e pode receber ou sofrer uma                  estiverem afastados dela (De rer. nat., VII, 3).
ao (S. Th., II, I, q. 22, a. 1). Em particular, as         Assim, as E. nascem da difcil situao em que
E. pertencem mais  parte apetitiva da alma do               o esprito vital e o corpo se encontram no mun-
que  apreensiva (embora se achem tambm                     do. O esprito, na verdade, est situado em
nesta); especificamente, mais ao apetite sens-              lugar estranho e em meio a acontecimentos
vel do que ao apetite espiritual, j que costu-              adversos, dos quais o corpo no chega a pro-
mam estar unidas a mudanas fsicas (Ibid., q.               teg-lo a ponto de evitar que se canse ou enfra-
22, a. 2-3). Importante  a distino que S. To-             quea; e o prprio corpo, que lhe serve de re-
ms introduz entre as E. referentes  parte                  vestimento e de proteo,  continuamente
concupiscvel e as que se referem  parte irasc-            modificado e corrompido no s por foras
vel. A faculdade concupiscvel tem por objeto o              ambientais, mas tambm por seu prprio calor,
bem ou o mal sensvel enquanto agradvel ou                  de tal modo que em pouco tempo pereceria se
doloroso. Mas, assim como s vezes depara-                   no se restaurasse com o alimento. Nessa situa-
mos com dificuldades ou conflitos ao buscar-                 o, para poder sobreviver, o esprito vital pre-
mos o bem ou evitarmos o mal, tambm o                       cisa perceber e entender as foras de todas as
bem ou o mal, quando difceis de conseguir                   outras coisas, desejar e perseguir as coisas que
ou de evitar, so objeto da faculdade irascvel.             lhe dem o meio e a faculdade de proteger-se
Portanto, as E. que concernem ao bem e ao                    do calor e do frio demasiados, bem como de
mal tomados em si pertencem  faculdade con-                 nutrir-se e refazer-se, e que o comovam e o le-
cupiscvel (p. ex., alegria, tristeza, amor, dio,           vem  sua nova atuao. Tambm  preciso
etc), enquanto as E. que se referem ao bem                   que sinta prazer quando essas coisas esto 
ou ao mal enquanto difceis de conseguir ou                  sua disposio e que ame e venere as coisas
de evitar pertencem  faculdade irascvel (p.                que as proporcionam, ao mesmo tempo que se
ex., audcia, temor, esperana, desespero,                   entristea quando elas lhe faltem e odeie e dese-
etc.) (Ibid., q. 23, a. 1). As E. que pertencem             je destruir aqueles que procurem priv-lo de-
parte concupiscvel referem-se  ordo executio-              las (Ibid., IX, 3). Desse modo, so geradas as
nis, ou seja, ao movimento com que se reali-                 E. fundamentais, amor e dio, que tm ori-
za a consecuo de um bem ou o afastamen-                    gem, portanto, na situao em que o esprito
EMOO                                               313                                          EMOO

do homem se encontra no mundo natural. Essa                prazer ou deleite, portanto,  o sentido do
situao explica tambm as outras E., em virtu-            bem: o enfado ou desprazer, o sentido do mal.
de das quais o homem est ligado aos seus                  E todo apetite, desejo ou amor  acompanha
semelhantes. Com efeito, o homem  levado                 do por um prazer maior ou menor, como todo
convivncia no s para atender s necessida-              dio ou averso  acompanhado por uma dor
des que no poderia satisfazer sozinho, mas                maior ou menor. Assim entendidas, as E. con-
tambm pela tendncia a gozar da companhia                 trolam toda a conduta do homem: a prpria
de seus semelhantes; essa tendncia impele-o               vontade, para Hobbes, no passa de "ltimo
para as relaes sociais e para o desejo de                apetite ou ltima averso aderente  ao ou 
familiaridade e benevolncia. Tais relaes de-            omisso", e a deliberao que precede a vonta-
terminam, portanto, outro grupo de E., como                de no passa de "soma de desejos, verses,
temor, dor, prazer e satisfao, inerentes ao              esperanas ou temores". Essa  a primeira vez
comportamento recproco dos homens. Enfim,                 que se reconhece a funo determinante das E.
um terceiro grupo de E. nasce da sensao de               sobre a totalidade da conduta humana.
orgulho e satisfao que o esprito experimen-                 Embora Descartes compartilhe do ponto de
ta ao sentir-se ntegro e puro, e ao reconhe-              vista estico, de que a fora da alma consiste
cer nos outros a integridade e a pureza que                em vencer as E. e deter os movimentos do cor-
deseja para si mesmo. Determina-se assim o                 po que a acompanham, enquanto a sua fra-
sentimento de honra e o seu contrrio, o des-              queza consiste em deixar-se dominar por elas,
prezo, bem como outros semelhantes: todos                  de tal modo que  puxada para todos os lados,
referentes  situao natural do esprito huma-            sendo levada a lutar contra si mesma, a teoria
no no mundo (Ibid., IX, 3).                                das E. que ele expe em Paixes da alma tem
     Muito prxima dessa anlise de Telsio est           as mesmas caractersticas fundamentais das teo-
a de Hobbes, que situava as E. entre as quatro             rias de Telsio e de Hobbes. Segundo Descar-
faculdades humanas fundamentais, ao lado da                tes, as E. so as afeies, ou seja, as modifica-
fora fsica, da experincia e da razo (De eive,          es passivas causadas na alma pelo movimento
1,1). Hobbes relaciona as E. com os "princpios            dos espritos vitais, das foras mecnicas que
invisveis do movimento do corpo humano"                   agem no corpo (Pass. de 1'me, I, 27). Essa
que precedem as aes visveis e cosaimam ser              ao dos espritos sobre o corpo  mediada
chamados de tendncias (conatus). As tendn-               pela glndula pineal, onde, segundo Descar-
 cias chamam-se desejos, apetites ou averses,             tes, reside a alma, sendo, portanto, tambm a
 em relao aos objetos que as produzem, e                 sede das E. (Ibid., 34). A funo natural das E.
 como tais so os constituintes de todas as E.              incitar a alma a permitir as aes que servem
 humanas. De fato, o que os homens desejam                 para conservar o corpo ou para torn-lo mais
 tambm se diz que amam, e o que evitam se                 perfeito, contribuindo com elas. Por isso, a tris-
 diz que odeiam; de tal modo que desejo e amor,            teza e a alegria so as duas E. fundamentais.
 averso e dio so a mesma coisa com a dife-              Graas  primeira, a alma adverte das coisas
 rena de que as palavras "desejo" e "averso"             que prejudicam o corpo e por isso sente dio
 implicam a ausncia do objeto, ao passo que as            pelo que lhe causa tristeza e desejo de livrar-
 palavras "dio" e "amor" implicam sua presen-             se, Graas  alegria, ao contrrio, a alma adver-
 a. Aquilo, porm, que no se deseja nem se               te das coisas teis ao corpo e, assim, sente amor
 odeia, diz-se que se desdenha; assim, o des-              por elas e desejo de adquiri-las e de conserv-
 dm  uma espcie de imobilidade do corao,              las (Ibid., 137). Obviamente tudo isso supe a
 uma refratariedade a sofrer a ao de certas              separao entre alma e corpo, ou seja, a noo
 coisas. O tom agradvel ou doloroso de uma E.             de alma como "substncia" independente, vis-
 garante sua funo vital. "O movimento chama-             to que reduz a E. a uma preocupao da alma
 do apetite", diz Hobbes, "e, em sua aparncia,            em relao ao corpo,  vida e  conservao
  deleite ou prazer, parece um reforo e um aux-          deste. Segundo Descartes, a diferena entre as
  lio ao movimento vital; portanto no  com im-           E. no provm da diferena entre os objetos,
  propriedade que se chamam de jucunda (de                 mas dos diferentes modos pelos quais os obje-
 juvando) as coisas que do prazer, porque aju-            tos nos prejudicam, nos ajudam ou, em geral,
  dam e fortificam; ao passo que chamamos de               tm importncia para ns. O modo de ao
  molestas as coisas nocivas porque impedem e              habitual das E. consiste em dispor a alma a
  perturbam o movimento vital" (leviath., I, 6). O         desejar as coisas que a natureza nos faz sentir
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teis e a persistir nesse desejo, alm de produ-             Spinoza. Ambas as E. so relacionadas com o
zir a excitao dos espritos vitais que facilita os         amor e dio (Ibid., III, 18, scol. 2) e atribudas a
movimentos corpreos teis  consecuo des-                 "causas acidentais" (Ibid., III, 50). De resto, todas
sas coisas (Ibid., 52). Para Descartes, h s seis           as E., enquanto afeies ou modificaes pas-
E. simples e primitivas: admirao, amor, dio,              sivas (passiones), esto destinadas a desapare-
desejo, alegria e tristeza; todas as outras so              cer como tais, pois so idias confusas destina-
compostas por essas seis ou so espcies delas.              das a tornar-se idias distintas; uma vez idias
Ele rejeita a distino tomista entre paixes per-           distintas, deixam de ser afeies (Ibid., V, 3)
tencentes  parte concupiscvel e paixes no                para tornar-se idias sub specie aeternitatis, na
pertencentes  parte concupiscvel (Ibid., 68); o            ordem geomtrica da Substncia divina. So,
estranho  que nem o temor nem a esperana                   ento, determinaes da natureza divina e dela
so admitidos no rol das E. fundamentais. En-                derivam (Ibid., V, 29, scol.).
tretanto, nele est includa a admirao, que                   Esse ponto de vista coincide substancial-
"a sbita surpresa da alma, que a impele a con-              mente com o dos esticos, visto resolver-se
siderar com ateno os objetos que lhe pare-                 em negar a funo das E. na economia da vida
am raros e extraordinrios" (Ibid., 70). Essa              humana no mundo. E a mesma negao est
a nica E. no acompanhada de movimentos                     implcita na doutrina de Leibniz, que v nas E.
corpreos, porque no tem como objeto o bem                  somente sinais de imperfeio que impedem a
e o mal, mas s o conhecimento da coisa que                  alma de ser um Deus: "Tem-se razo em cha-
causa admirao. O que no significa que                    mar, como os antigos, de perturbaes ou
desprovida de fora, pois a surpresa da novida-              paixes aquilo que consiste em pensamentos
de, tpica dessa E., refora enormemente todas               confusos que tm algo de involuntrio e de
as outras (Ibid., 72).                                       incgnito; o que, na linguagem comum, atri-
    Se para Descartes a E. diz respeito  alma s            bui-se no sem razo  luta do corpo e do
em termos de sua relao com o corpo, para                   esprito, porque os nossos pensamentos confu-
Spinoza ela  um modo de ser total que envol-                sos representam o corpo- ou a carne e fazem
ve alma e corpo, que so dois aspectos de uma                nossa imperfeio" (Op., ed. Erdmann, 1, p.
nica realidade. Segundo Spinoza, as E. deri-                188). Essa noo das E. como "pensamentos
vam do esforo (conatus) da mente em perse-                  confusos" que, para a alma, derivam de sua re-
verar no prprio ser por um perodo indefi-                  lao com o corpo, constituindo, portanto, a im-
nido. Esse esforo chama-se vontade quando                   perfeio do esprito criado finito, foi adotada
se refere s  mente: chama-se desejo (appeti-               por toda a escola de Leibniz e Wolff. Essa no-
tus) quando se refere  mente e ao corpo (Et.,               o obviamente implica que as E. no tm ca-
III, 9 e, scol.). O desejo  assim a E. fundamen-            rter prprio e especfico se comparadas com
tal. A ele esto ligadas as outras duas E. prim-            as representaes cognitivas: portanto, no tm
rias, alegria e dor; a alegria  a E. graas  qual          sequer significado, a no ser representar a im-
a mente, sozinha ou unida ao corpo, eleva-se                 perfeio da alma humana.
para uma perfeio maior; e a dor  a E. graas                 Uma linha de pensamento que vai de Pascal
 qual a mente desce para uma perfeio me-                  aos moralistas franceses e ingleses (La Roche-
nor (Ibid., III, 11, scol.). O amor e o dio so,            foucauld, Vauvenargues, Shaftesbury, Butler),
apenas a alegria e a dor acompanhadas da idia               at Rousseau e Kant, levou ao reconhecimento
de suas causas externas; assim, quem ama                     da categoria "sentimento" como princpio aut-
esfora-se necessariamente por manter consi-                 nomo de E. e  elaborao da noo moderna
go e conservar a coisa amada, e quem odeia                   de "paixo" como E. dominante, capaz de pe-
esfora-se por afastar e destair a coisa odiada             netrar e controlar toda a personalidade huma-
(Ibid., III, 13, schol.). Nessas observaes, as             na. J se viu que para Hobbes todas as formas
E. so vinculadas ao esforo da mente e do                   da ao voluntria passam pelas E. e so deter-
corpo para a perfeio; na verdade, para Spino-              minadas por elas: a prpria vontade  apenas
za corpo e mente so duas manifestaes da                   uma E. que consegue prevalecer. Essa tese 
Substncia, so eternas como a Substncia; por-              compartilhada por toda a corrente a que aludi-
tanto, no podem ser realmente ameaados por                 mos. Pascal foi o primeiro a dar primazia "s ra-
nada, de tal sorte que as E. no podem ser a                 zes do corao, que a razo no conhece"
advertncia dessa ameaa. Donde o pouco peso                 (Penses, 277); insistiu no valor e na funo do
que o medo e a esperana tm na anlise de                   "sentimento" como um princpio em si, que
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tambm  fonte de conhecimentos especficos                do Shaftesbury a presena das E.  o que
(v. SENTIMENTO); e julgou impossvel eliminar              distingue um animal de um puro e simples
o conflito entre razo e E., sendo em todo caso            mecanismo de tipo cartesiano. A classificao
impossvel solucionar esse conflito eliminando             que Shaftesbury d das emoes (no trecho
uma das partes dele {Jbid., 412-13). Vauve-                ora citado)  caracterstica do seu moralismo
nargues delineou assim a natureza das E.: "Ex-             otimista. Em primeiro lugar, h as afeies
tramos da experincia do nosso ser a idia de             naturais, que conduzem ao bem pblico-, em
grandeza, prazer e poder, que gostaramos de               segundo lugar, as auto-afeies, que condu-
aumentar sempre: e haurimos na imperfeio                 zem ao bem pessoal; em terceiro lugar, as que
de nosso ser a idia de pequenez, sujeio e               no tendem nem ao bem pblico nem ao pes-
misria que procuramos reprimir: a esto to-              soal, mas aos seus contrrios, e, portanto, de-
das as nossas paixes... Desses dois sentimen-             vem ser chamadas de afeies inaturais. O con-
tos unidos, ou seja, o de nossa fora e o de               ceito em que ele insiste  o da balana ou do
nossa misria, nascem as maiores paixes, pois             equilbrio das E., em virtude do qual fala de
o sentimento das nossas misrias impele-nos a              uma "economia das E." com vistas  conserva-
sair de ns mesmos e o sentimento dos nossos               o das criaturas; assim, p. ex., uma criatura que
recursos encoraja-nos a isso e arrebata-nos de             no possua fortes meios de ataque e de defesa
esperana. Mas aqueles que sentem apenas sua               est sujeita a alto grau de temor, que  a E. que
prpria misria sem a fora nunca se apaixo-               lhe possibilita salvar-se fugindo do perigo.
nam bastante, porque nada ousam esperar;                      Kant, que foi o primeiro a introduzir explici-
tampouco se apaixonam aqueles que sentem                   tamente a categoria do sentimento como aut-
sua fora sem a impotncia, pois tm muito                 noma e mediadora entre as admitidas tradi-
pouco a desejar:  preciso, assim, que haja es-            cionalmente (razo e vontade), reconheceu
perana de coragem, de fraqueza, de tristeza e             claramente o significado e a funo biolgica
de presuno" (De Vesprit human, 22). O pres-             das E., embora fosse levado por sua doutrina
suposto dessas observaes  que no s                   moral, a simpatizar com a tese dos esticos, de
impossvel c o m p r e e n d e r a natureza e o            que elas so doenas da alma. "A E.", disse ele,
comportamento do homem sem levar em con-                   " tal predomnio das sensaes que se produz
ta as E., mas tambm que as prprias E. tm                a supresso do controle da alma (animus sui
funo diretiva sobre a totalidade da conduta              comps); portanto,  precipitada, ou seja, cres-
humana, ou seja, tendem a transformar-se, se-              ce rapidamente at tornar impossvel a refle-
gundo a expresso de Pascal (Penses, 106),                xo (Antr.,  74). Nisso  diferente da paixo,
em "E. dominantes". Shaftesbury foi provavel-              que, ao contrrio,  lenta e reflexiva (v. PAI-
mente quem mais contribuiu para difundir esse              XO). Para Kant o ideal de apatia  "justo e no-
ponto de vista em filosofia: "A rigor, no se              bre"; mas a natureza foi sbia quando deu ao
pode dizer que um animal age, a no ser atra-              homem a disposio  simpatia como guia tem-
vs das afeies ou das E. prprias dos ani-               porrio, antes que a razo adquira todas as
mais. De fato, nas convulses em que uma                   suas foras, pois assim, ao impulso moral para
criatura se fere ou fere outra, o que age  um             o bem, acrescentou um estmulo patolgico
simples mecanismo, uma mquina, uma pea                   (sensvel) como sucedneo temporrio da ra-
de relojoaria, no o animal. Tudo o que  feito            zo.Portanto, at do ponto de vista moral a E.
pelo animal como tal  feito s atravs de certa           tem certa funo, ainda que subordinada e pro-
afeio ou E., como p. ex. o temor, o amor e o             visria. Do ponto de vista biolgico, no pai-
dio que o movem. E assim como  impossvel                ram dvidas quanto a importncia da emoo.
 que uma afeio mais fraca prevalea sobre                A alegria e a tristeza esto respectivamente li-
outra mais forte, tambm  impossvel que,                 gadas ao prazer e  dor: estes tm a funo de
sempre que as afeies ou E. forem mais fortes             impelir o sujeito a permanecer na condio em
 e formarem, graas a sua fora e a seu nmero,            que est ou a deix-la. A alegria excessiva (no
 o lado mais poderoso, o animal no se incline             atenuada pela preocupao da dor) e a tristeza
 nesse mesmo sentido. Segundo essa balana                 extrema (no aliviada por nenhuma esperan-
 das E., ele deve ser governado e conduzido               a), a angstia, so E. que ameaam a existn-
 ao" (Characteristicks, 1749, Treatise IV, livro         cia. Mas na maioria da vezes as E. ajudam e
 II, parte I, seo 3). Em outros termos, segun-           sustentam a existncia, e algumas, como o riso
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e o pranto, ajudam mecanicamente a sade. A                 e pior, em que j no est livre, como universa-
utilidade das E. decorre da funo exercida em              lidade infinita, mas seu contedo est como
face da vida por seu tom fundamental, prazer                acidental, subjetivo, particular" (Ibid., 447).
ou dor. "O prazer", diz Kant (Antr.,  60), " o            Obviamente, com essas expresses, Hegel pre-
sentido do crescimento da vida; a dor, do im-               tende referir-se s E., das quais o sentimento
pedimento  vida: a vida do animal, como j                 constitui a forma ou categoria universal; e s E.
notaram os mdicos,  o antagonismo contnuo                cabem portanto as qualificaes de "particulari-
entre prazer e dor." Nesse jogo de antagonis-               dade acidental" e "contedo acidental, subjeti-
mo, a dor tem a primazia. De fato, aquilo que               vo, particular": expresses todas que, na lin-
de modo imediato, ou seja, por via do sentido,              guagem de Hegel, designam determinaes
me impele a abandonar meu modo de ser,  de-                provisrias ou aparentes, que s tm realidade
sagradvel para mim, aflige-me; o que, ao con-              na substncia racional. Quanto aos "sentimen-
trrio, me impele a conserv-lo (a permanecer               tos prticos", s podem ser considerados como
nele)  agradvel para mim, apraz-me. Mas                   tais egosticos e maus, pois s estes perten-
como o tempo nos foge, indo sempre do pre-                  cem  individualidade que se mantm contra a
sente para o futuro e no vice-versa, somos                 universalidade; o contedo desses sentimentos,
obrigados a sair do estado presente sem saber               portanto, s  determinado em anttese com o
em qual entraremos, sabendo apenas que  um                 dos direitos e dos deveres (Ibid., 471). As
estado diferente. Ora, essa perspectiva  a causa           expresses que Hegel emprega a propsito e
do sentimento agradvel, o que significa que                que parecem referir-se ao contedo da forma
ele  precedido e condicionado pelo sentimen-               do sentimento, ou seja,  esfera das E., so o
to de dor vinculado  necessidade de sair do                equivalente exato da "v opinio" dos esti-
prprio modo de ser. "A dor", nota tambm                   cos e do "pensamento confuso" de Spinoza e
Kant, " o aguilho da atividade e  nela que               Leibniz: indicam estados ou momentos que
sentimos a vida; sem dor, cessaria a vida".                no tm significado prprio, mas s o signifi-
estranho que essas observaes de Kant, que                 cado negativo de no serem perfeitamente
outra pretenso no tinham seno caracterizar               redutveis ao juzo, ou, em geral, s determina-
uma situao de fato, tenham sido amplificadas              es racionais.
por Schopenhauer, fundamentando seu pessi-                      A partir da segunda metade do sc. XIX, as E.
mismo romntico. Viver, para Schopenhauer,                  tornam-se objeto de indagao cientfica e so
significa querer; querer significa desejar; e o             consideradas em estreita conexo com os movi-
desejo implica a ausncia do que se deseja, ou              mentos e os estados corpreos que as acom-
seja, deficincia e dor. Por isso, a vida  dor e a         panham. A primeira tentativa importante nes-
vontade de viver  o princpio da dor. Da satis-            se sentido foi de Charles Darwin, em Expresso
fao do desejo ou da necessidade, surge um                 das E. no homem e nos animais, de 1872, que
novo desejo, outra necessidade ou o tdio da                tambm utilizou pesquisas anteriores e assumiu
satisfao prolongada. Nessa oscilao, cont-              como ponto de partida a distino de Spencer
nua, o prazer representa s um momento de                   entre sensaes e emoes. Segundo Spen-
trnsito, negativo e instvel:  a simples cessa-           cer {Principies of Psichology, 1855,  66), to-
o da dor (Die Welt, I,  57).                             das as experincias vividas (feelings) dividem-se
    A distino e a especificao dos conceitos             em duas classes: sensaes, produzidas por um
de "E.", "sentimento" e "paixo" podem ser vistas           estmulo perifrico, e E, produzidas por um es-
no fato de que, na doutrina de Hegel, a paixo              tmulo central. Sensaes e E. distinguem-se
recebe tratamento privilegiado, enquanto o                  sobretudo porque as primeiras so relativamen-
sentimento e, sobretudo, a emoo so re-                   te simples e as segundas so extremamente
duzidos ao nvel da "v opinio" dos esticos.              complexas. Ambas, porm, so mecanismos de
Hegel fala das E. a propsito da forma do senti-            adaptao ou de resposta a conjuntos uniformes
mento, que faz parte do espirito subjetivo, mais            de circunstncias externas (Ibid,  216). Darwin
precisamente do momento dele que  a "psi-                  preocupou-se principalmente em estudar os
cologia"; esta "indica em forma de narrao o               movimentos ou as modificaes somticas que
que  esprito ou alma, o que lhe aconte-                   constituem a expresso das emoes. E julgou
ce, o que faz" (Ene, 387). O sentimento, diz                poder explic-las mediante trs princpios. ls
Hegel, tem forma de "particularidade aciden-                Princpio dos hbitos teis e associados, que ex-
tal"; nele o esprito encontra sua "forma ntima            primiu assim: "Quando uma sensao, um de-
EMOO                                                  317                                          EMOO

sejo, tiver produzido, ao longo de toda uma                   nitiva, plida, descorada e desprovida de calor
srie de geraes, alguns movimentos volun-                   emocional. Poderamos ento ver o urso e julgar
trios teis a dar satisfao ou alvio, ter-se- uma         oportuno fugir, receber o insulto e decidir rea-
tendncia a realizar movimentos semelhantes                   gir, mas no sentiramos realmente medo nem
sempre que essa sensao ou desejo voltar a                   clera" (The Theory of Emotions, 1884; trad. fr.,
apresentar-se, mesmo que de forma dbil e                     p. 6l). A fora dessa teoria est na observao
mesmo que o movimento expressivo no tenha                    de que, se em caso de alguma E. violenta, se
mais nenhuma utilidade. Movimentos dessa                      prescindir de todas as sensaes de sintomas
espcie so, em geral, herdados e pouco dife-                 fsicos, no ficar nenhum resduo, nenhuma
rem de aes reflexas (v.)". 2a Princpio da ant-            "substncia mental" emotiva, mas simplesmente
tese, segundo o qual se tem a tendncia a reali-              um estado de percepo intelectual. "No consi-
zar movimentos opostos no caso de E. opostas,                 go imaginar", dizia James, "o que sobraria da E.
ainda que tais movimentos no tenham nenhu-                   do medo, se no estivesse presente o sentido da
ma utilidade. 3e Princpio da ao direta do sis-             pulsao apressado do corao, da respirao
tema nervoso: quando a sensibilidade  forte-                 ofegante, do tremor dos lbios, do enfraqueci-
mente excitada, o excesso de fora nervosa                   mento das pernas, do arrepio e dos estreme-
transmitido em direes definidas que depen-                  cimentos viscerais. Poderia algum imaginar
dem da conexo das clulas nervosas e, em par-                um estado de raiva sem calor no peito, enrubes-
te, do hbito, produzindo assim efeitos que re-               cimento das faces, dilatao das narinas, aperto
conhecemos como expresses emotivas. Os                       dos dentes, impulso para a ao violenta, ou
dois primeiros princpios apelam para a ao do               seja, um estado de raiva que deixasse os mscu-
hbito e da associao,  qual recorreu constan-              los imveis e relaxados, a respirao tranqila e
temente a psicologia do sc. XIX. Mas a mesma                 o rosto plcido? Nesse caso no restaria da E.
corrente de investigao psicolgica, levada a                mais que um juzo trio e desapaixonado, segun-
considerar os fatos psquicos em conexo                      do o qual cada pessoa ou certas pessoas mere-
estreitssima com os corpreos, logo levou a ver              cem castigo por seus delitos." Por dois ou trs
nos estados somticos muito mais que a simples                decnios sucessivos, pode-se dizer que os estu-
"expresso" das emoes. Em 1884 e 1885, Ja-                  dos experimentais sobre as E. foram inspira-
mes e Lange, independentemente um do outro,                   dos nessa teoria. Mas foi precisamente no do-
propunham a chamada "teoria somtica das E.",                 mnio dos fatos experimentais que ela encontrou
que, apesar das crticas logo suscitadas, prevale-            as primeiras objees decisivas. Sherrington de-
ceu durante muitos decnios e serviu, como                    monstrou que a expresso visceral da E.  pos-
ainda serve em parte, de til ponto de refern-               terior  ao cerebral, que ocorre juntamente
cia para teorias ulteriores. Eis como James exps             com o estado psquico (1908), e Cannon
essa teoria: "Minha teoria sustenta que as mu-                (Feelings and Emotions, 1928) observou que as
danas corpreas seguem-se imediatamente                     E. viscerais ocorrem em muitos estados org-
percepo do fato excitante e que o sentimento                nicos sem que tenham qualquer significado
que temos dessas mudanas, enquanto elas se                   emocional. A febre e a exposio ao ar frio pro-
produzem,  a emoo. O senso comum diz:                      duzem muitas vezes acelerao do corao,
Perdemos a nossa fortuna, ficamos aflitos e cho-              aumento do acar no sangue, descarga de
ramos; encontramos um urso, temos medo e fu-                  adrenalina, ereo dos pelos. A asfixia age do
gimos; um rival nos insulta, ficamos encoleriza-              mesmo modo no estgio da excitao. A redu-
dos e batemos. A hiptese que defendemos                     o do sangue atravs da insulina provoca uma
que essa ordem de sucesso  inexata: que um                  reao hipoglicmica caracterizada por palidez,
estado mental no  imediatamente induzido                    acelerao do corao, acrscimo de acar no
pelo outro, que as manifestaes corpreas de-                sangue e suores profusos. Por isso  difcil com-
vem interpor-se, entre um e outro, e que a fr-               preender como reaes que em si mesma no
mula mais racional consiste em dizer: ficamos                 tm nenhum valor emotivo na maior parte dos
aflitos porque choramos, irritados porque bate-               casos em que ocorrem adquiririam, em outros
mos, assustados porque trememos, e no que                    casos, carter de emoes propriamente ditas.
choramos, batemos e trememos porque esta-                     Mas o defeito principal dessa teoria, justamente
mos aflitos, irritados ou assustados conforme o               como "teoria",  que ela no explica absoluta-
caso. Sem os estados corpreos que se seguem                  mente a funo das emoes. No explica, p.
 percepo, esta teria forma puramente cog-                  ex., por que a viso do urso e a constatao de
EMOO                                               318                                          EMOO

que ele no est empalhado nem acorrentado                 exaltao da ateno sensorial e da tenso
fazem tremer e empalidecer.                                motora. Esse estado de expectativa ou de pre-
    No explica, em outros termos, o carter               parao  biologicamente til, pois sem ele o
biolgico das E., seu finalismo, parcial ou rela-          indivduo estaria exposto a conseqncias gra-
tivo embora, mas bastante evidente em certo                ves. Dele derivam, por um lado, a ao motora,
nmero de casos. Precisamente por esse pris-               a fuga e, em grau superior, a defesa ativa; por
ma, Dewey e a escola psicolgica de Chicago                outro lado, o que se sente como estado de an-
(especialmente Stanley Hall), retomando a ten-             gstia. Se o desenvolvimento da angstia for
tativa de Darwin, consideraram a E. como a                 contido em limites estreitos, ele no passar de
recorrncia alterada de certos movimentos                  apndice, de simples sinal de perigo, e todo o
teleolgicos e a atriburam a manifestaes re-            processo de transformao do estado de pre-
siduais de instintos ancestrais. Assim, p. ex., os         parao angustioso em ao ocorre rpida e
movimentos de agarrar, morder e arranhar, nos              racionalmente. Quando, ao contrrio, o desen-
estados de clera, seriam resqucios de atos               volvimento do estado de angstia ultrapassa
prprios de animais selvagens, de que descen-              certos limites, torna-se contrrio ao objetivo
demos. O movimento de pr a cabea para a                  biolgico e d lugar s formas patolgicas.
frente tambm seria uma recordao ancestral:              Freud tambm julga que a situao cujo sinal 
encontra-se, com efeito, nos animais com chi-              a angstia e, em geral, um estado afetivo pode
fres e nos primeiros vertebrados aquticos ou              no ser um acontecimento presente: pode tra-
terrestres que utilizaram a cabea para afastar            tar-se de uma impresso profunda ou oculta,
obstculos. Sem dvidas essas teorias reinte-              pertencente  pr-histria, no do indivduo,
gram a E. em sua natureza biolgica, mas le-               mas da espcie. Assim, pode-se dizer que o
vam a ver nela nada alm do resduo atual-                 estado afetivo apresenta a mesma estrutura de
mente no significante de um movimento ins-                uma crise de histeria, visto ser, como esta lti-
tintivo originariamente significante. Esse res-           ma, constitudo por uma reminiscncia incons-
duo seria constitudo por aquilo que a here-               ciente. A crise de histeria pode ser comparada
ditariedade deixou sobreviver de movimentos                a um estado afetivo individual recm-formado,
instintivos que tinham significado de ataque ou            e o estado afetivo normal pode ser considerado
defesa nos animais que em geral os possuram,              a expresso de uma histeria genrica, que se
mas que depois deixaram de t-los. Toda essa               tornou hereditria (Einfhrung in die Psycho-
teoria est, pois, fundada na hiptese da trans-           analyse, 1917, cap. 24; trad. fr., pp. 422-23).
misso hereditria de movimentos instintivos               Em outros termos, tem-se conduta emotiva
e no postulado de que as E. derivam mais des-              sempre que a E., em vez de transformar-se
ses movimentos do que da situao em face da               rapidamente de preparao em ao, na ao
qual assumem significado de reaes ou res-                efetiva, desenvolve-se como E., agindo como
postas.                                                    inibio, recusa ou censura da prpria ao.
                                                           Nesse sentido explica-se a sua analogia com a
    A referncia a essa situao constitui, no
                                                           histeria, que , freqentemente a recusa de
entanto, o trao caracterstico das mais impor-
                                                           reviver uma recordao desagradvel. Assim
tantes teorias contemporneas. Para elas, a E.
                                                           como o sonho s vezes  uma fuga diante da
no se esgota na subjetividade como simples
                                                           deciso a tomar, assim como a doena de cer-
"estado de esprito" ou complexo de estados
                                                           tas moas s vezes  uma fuga diante do casa-
de esprito, mas sempre inclui uma relao com
                                                           mento, tambm a clera  habitualmente a fuga
circunstncias objetivas, que lhe conferem o
                                                           diante de uma situao desagradvel e o des-
seu significado especfico. Desse ponto de vis-
                                                           maio por medo  a fuga diante de uma pers-
ta, a E.  um comportamento ou o elemento de
                                                           pectiva desfavorvel, a procura de um refgio
um comportamento que visa a enfrentar a situa-
                                                           ilusrio.
o ou a fugir dela, resolver o problema que ela
apresenta ou a eludi-lo. Pode-se considerar que               Em sentido anlogo, Janet caracterizou a E.
a psicanlise  o primeiro passo para a inter-             como a "reao do fracasso". Para Janet, a E. 
pretao da E. nesse sentido: ela evidenciou o             a regresso brutal para uma forma de conduta
significado dos fatos psquicos em relao s              inferior, menos adaptada  situao e incapaz
situaes que os determinaram. Na angstia,                de enfrent-la. Como o comportamento ps-
p. ex., Freud v em primeiro lugar a preparao            quico mais elementar  a agitao convulsiva
para enfrentar o perigo, que se manifesta pela             acompanhada por modificaes das funes
EMOO                                               319                                          EMOO

respiratria e circulatria, quando suficiente-            comportamentos reflexos, as simples convul-
mente profunda, a E. d incio a convulses ou              ses desordenadas, serviram a geraes intei-
simples modificaes viscerais. No se trata,              ras de seres para afastar os contatos nocivos e
porm, de uma regresso simplesmente mec-                  para conseguir alimento. No ser natural que,
nica: um idiota no experimentaria nenhuma                  em certa poca, os seres em vias de aperfeioa-
E. ao deparar com o urso de que falava james,               mento, mas ainda incapazes de utilizar de
e muitos doentes em "estado de apatia" dei-                 modo constante os procedimentos aperfeioa-
xam de sentir as E. que teriam sentido outrora             dos, voltem instintivamente a esses atos primi-
nas mesmas circunstncias. Trata-se, portanto,             tivos?" (Ibid., p. 471). Mas se a E. propriamente
de uma reao ativa, de uma forma de regula-               dita, ou seja, o choque emocional,  a regres-
 mento da ao cujo ponto de partida  a rea-              so a uma forma grosseira e primitiva de rea-
o do indivduo. Mas trata-se tambm de uma               o, o sentimento  a forma de E. mais bem
reao inferior e desordenada que denuncia a               organizada e menos violenta que acompanha
 recusa e a incapacidade de enfrentar uma situa-           todo o desenvolvimento da ao sob forma de
o: eqivale, por isso,  conscincia do fracas-          esforo, fadiga, tristeza, alegria. O sentimento
so diante de tal situao. Exemplo disso  a jo-            parte essencial da reao bem organizada. A
vem que ouve o pai dizer que tem dor no                    E. contm confusamente elementos que per-
brao e que teme uma paralisia, e comea a                 tencem aos sentimentos, mas os contm em
chorar, a gritar, e a agitar-se, entrando em con-          desordem, no se identificando por isso com
vulses, que se repetem alguns dias depois.                nenhum dos comportamentos sentimentais.
Durante o tratamento mdico, confessa que a                "So os incidentes insignificantes, as pequenas
idia de cuidar do pai e de levar vida de enfer-           discordncias, que conduzem s grandes per-
meira domstica parecera-lhe insuportvel.                 turbaes emocionais. provvel que o perigo
Nesse caso, a E. representa efetivamente uma               real desperte o instinto vital, o amor pelos se-
conduta de fracasso, derivada da incapacidade              res caros, o amor pela propriedade, e que essas
de enfrentar a situao em perspectiva {De                 tendncias poderosas venham em socorro do
1'angoisse  1'extase, 1928, pp. 450 ss.). Por ou-         ato falho, produzindo a reao do esforo: a
tro lado, os estados afetivos de elao e alegria          presena dessa reao elimina a da E., que no
constituem, segundo Janet, reaes de xito,                do mesmo gnero" (Les obsessions et Ia psy-
ainda que no justificadas. A alegria nem sem-             chastnie, I, pg. 5, 578). Todavia, entre as
pre  correta e nem sempre corresponde a um                emoes e os sentimentos, que so as suas
aumento real das faculdades, a uma criao                 formas superiores, elevem ser admitidos todos
real, como os filsofos consideraram. Ela pode             os graus intermedirios; no fundo, trata-se de
ser equivocada e aparece simplesmente quan-                uma questo de palavras: j que "empregamos
do o homem se comporta como se fosse vito-                 a palavra E. sempre que h uma mudana brusca
rioso e quando esse comportamento de triunfo,              da conduta aps uma circunstncia imprevista,
verdadeiro ou falso, liberta foras que so bem            mas todos os sentimentos podem nascer nes-
ou mal utilizadas. Portanto,  principalmente              sas condies" (De 1'angoisse, p. 474).
um comportamento de esbanjamento, no qual
as foras que tinham sido utilizadas na ao,                 A psicologia da forma tornou mais precisa e
ou pelo menos seus resduos, expandem-se                   aperfeioada, principalmente com Lewin e
pelo organismo e so empregadas em outras                  Dembo, a teoria das E. nesse sentido. A E. 
aes no solicitadas por estmulos urgentes ou            interpretada como a "ruptura de uma forma" e
que j se desenvolviam em limites restritos                a reconstituio de uma outra forma que valha
(Md., p. 408).                                             como sucedneo da primeira. A forma  certa
                                                           situao que oferece um problema, cuja solu-
   Desse ponto de vista, a E. mostra-se nociva             o pode ser encontrada to-somente em de-
porque suprime a ao eficaz e a substitui por             terminada direo. Quando a procura e o
convulses absurdas. Contudo, segundo Janet,               esforo voltados para essa soluo se inter-
tem certa utilidade ou pelo menos certa fun-               rompem, o indivduo refugia-se em atos suced-
o, porquanto seu sujeito, na impossibilidade             neos ou ento procura evadir-se ou encerrar-se
de responder  situao com uma reao de                  em si mesmo, estabelecendo entre si e o cam-
ordem superior, entrega-se a uma reao infe-              po hostil uma barreira de proteo. Atos suce-
rior e primitiva, muito mais grosseira, porm              dneos, evases, fechamento em si mesmo,
capaz de dar-lhe certa proteo imediata. "Os              esses so os comportamentos emotivos. Des-
EMOO                                                320                                         EMOO

troem a estrutura diferencial do problema ine-              que me encontro (humor, tristeza, alegria, etc),
rente ao campo situacional e, por isso, produ-              mas por um ato diferente e independente, no
zem o enfraquecimento da distino entre real               qual vinculo, com base na experincia ou no
e irreal, com a conseqncia de que os objetos              raciocnio, a E. com objetos ou situaes co-
do campo perdem o seu valor prprio e ad-                   nhecidas. Em certos casos, o estado emotivo
quirem carter uniformemente negativo. P. ex.,              pode tornar-se um signo do objeto ou da situa-
a clera  um modo de fugir de um problema                  o, como quando certas dores anunciam o
que no se sabe resolver, recorrendo a uma                  incio de uma doena. Mas a relao simblica
ao de natureza inferior: aquele que est en-              entre o estado emotivo e seus objetos  sem-
colerizado assemelha-se ao homem que, no                   pre mediada pela experincia e pelo pensa-
podendo desfazer os ns das cordas que o                    mento. O estado emotivo, em outros termos,
atam, agita-se convulsamente em seus laos.                 pode estar ligado a uma situao de fato ou
Na falta de uma soluo adequada para o                     simboliz-la, mas no contm em si a refern-
problema que a situao apresenta, a clera                 cia intencional a um objeto seu (Der Forma-
procura um sucedneo, uma evaso, em movi-                  lismus in der Ethik, pp. 262 ss.). A diversidade
mentos desordenados que mascaram a falta da                 entre estados emotivos e funes emotivas no
resposta adequada (GUILLAUME, Psych. dela for-              impede que eles possam coexistir no mesmo
me, pp. 138 ss.).                                           ato ou momento de conscincia. Um homem
    As teorias que acabamos de examinar so                 pode ser feliz e, no entanto, sofrer de um mal
"psicolgicas", no sentido de que se apresen-               fsico; poderia at acontecer, p. ex., que para
tam como generalizaes cientficas fundadas                um verdadeiro mrtir da f este sofrimento se
em uma rica messe de observaes de casos                   tomasse um sofrimento feliz; pode at aconte-
normais e patolgicos (servindo estes ainda                 cer que, desesperados no fundo da alma, sinta-
melhor do que os primeiros para ilustrar o fe-              mos de um prazer sensvel, que, alis, o goze-
nmeno em questo). Todavia, hoje as teorias                mos em nosso ntimo. Estados e funes, porm,
filosficas no se afastam muito das psicolgi-             no se misturam porque so dados e vividos
cas, pois umas e outras so levadas a conside-              de maneira diferente. Essa  a diferena que
rar os fenmenos emotivos (como tambm os                   muitos psiclogos contemporneos estabele-
outros fenmenos mentais) no como a resultan-              cem entre emoes e sentimentos, entendendo
te de elementos atomisticamente considerados,               por estes ltimos os comportamentos emotivos
mas na sua totalidade, na forma complexa e                  superiores, que acompanham a ao em vez
concreta, portanto, na situao global em que               de bloque-la e que portanto se diferenciam
tm origem. Ademais, as teorias psicolgicas                do choque emocional (que d lugar s neuro-
e filosficas concordam em considerar as E.                 ses). Para Scheler, trata-se sobretudo de uma
como formas de comportamento especfico,                    diferena de profundidade, desse ponto de vis-
que exprimem um modo de ser fundamental                     ta, podem distinguir-se quatro graus de E., que
do homem. Scheler, que  o filsofo contem-                 correspondem  estrutura da existncia huma-
porneo mais interessado na vida emotiva e                  na. So: Ia E. sensveis; 2- E. corpreas (esta-
que procurou fundar, numa anlise apropriada                dos) e sentimentos vitais (funes); 3B senti-
desta, toda a sua filosofia, parte da distino en-         mentos psquicos (sentimentos do eu); 4 9
tre estados emotivos e funes emotivas; essa               sentimentos espirituais (sentimentos da perso-
distino pode ser expressa dizendo que os                  nalidade). Todas essas E. fazem referncia 
estados so afeies (modificaes de natureza              vivncia do eu ou da pessoa; mas a referncia
passiva) e as funes, ao contrrio, so ativida-            diferente para cada uma das quatro espcies
des, reaes aos estados emotivos. Segundo                  mencionadas, tornando-se mais intrnseca 
Scheler, os estados emotivos no tm, por si                medida que se consideram sentimentos supe-
mesmos, carter intencional, ou seja, no se re-            riores. As E. sensveis e as vitais tornam-se
ferem imediatamente a objetos ou situaes.                 estados ou funes do eu s quando penetra-
Essa referncia  sempre indireta, mediada por              mos os dados corpreos e apreendemos o
uma associao perceptiva ou representativa.                corpo como nosso, ou seja, como pertencente
P. ex., se me pergunto: "Por que hoje estou                 ao seu eu psquico. Os sentimentos psquicos,
com este humor? O que causou em mim esta                    ao contrrio, j so, originariamente, uma qua-
tristeza ou esta alegria?", a resposta a tal per-           lidade do eu. "Sentir-se triste" ou, mais ainda,
gunta no  dada pelo estado emocional em                   "ser triste"  algo de muito mais intrnseco ao
EMOO                                               321                                         EMOO

eu do que o sentimento vital de bem-estar ou               da existncia autntica, que no se entrega ao
de mal-estar. Enfim, os sentimentos espirituais            mundo e s suas vicissitudes, mas procura
identificam-se com o eu no sentido de que no              compreend-lo na totalidade,  a outra situao
podem constituir estados distintos dele. Na bem-           afetiva fundamental, a angstia. Tem-se medo
aventurana e no desespero, alis, j na sere-             de algo que est dentro do mundo, que se apro-
nidade e na paz de esprito, qualquer estado               xima ameaadoramente e que pode ser removi-
particular do eu  como que anulado, pois                  do, ao passo que a angstia s pode ser sentida
esses sentimentos parecem brotar da prpria                diante do mundo como tal. Ela no  provo-
fonte do ato espiritual e penetrar tudo o que              cada, como o medo, por um fato particular ou
nesses dados  dado do mundo interno e                     por um acontecimento ameaador, mas pelo
externo (Ibid., pp. 355 ss.). Scheler considera o          simples estar no mundo, pela situao originria
sentimento assim entendido como um ato                     e fundamental da existncia humana. E, como,
intencional (v. INTENO) cujo objeto espec-              justamente devido a essa situao, o homem
fico  o valor, e distingue, portanto, quatro es-          tem de lidar com fatos ou acontecimentos que
pcies de valores correspondentes aos quatro               a qualquer momento podem revelar-se amea-
graus do sentimento (v. VALOR). O importante               adores, o medo pode ser considerado "uma
na doutrina de Scheler  que o valor constitui o           angstia cada no mundo, inautntica e oculta
objeto prprio da E., ou pelo menos das fun-               a si mesma". A angstia , por isso, a situao
es emotivas, e  considerado uma realidade               emotiva fundamental, a que "abre primariamen-
especfica, irredutvel s realidades percebidas           te o mundo enquanto mundo". Como situao
ou conhecidas e de natureza absoluta. Doutri-              emotiva, a angstia no  s angstia em face
na anloga  exposta por Nicolai Hartmann,                 de... mas  tambm angstia por... E assim como
segundo a qual os valores se do a priori no               o em face de... tambm o por... refere-se ao ser
sentimento axiolgico (Wertgefht), que  o                no mundo como tal. Em outros termos, a angs-
fenmeno autntico da moralidade (Ethik, 1926,             tia no  tal em face de determinado modo de
3- ed., 1949, pp. 118 ss.) (v. SENTIMENTO). Mas            ser ou de determinada possibilidade humana. A
seja qual for a apreciao que se faa de tais             ameaa que ela anuncia  indeterminada e no
lucubraes metafsicas pode-se admitir que a              pode penetrar, ameaando, nesta ou naquela
E. consiste na percepo de um valor, ou seja,             possibilidade concreta e efetiva. Ao contrrio, 
da forma especfica que uma situao apre-                 a libertao das possibilidades determinadas e
senta em relao s necessidades, aos interes-             efetivas, porque  compreenso da possibilida-
ses e aos fins do homem, sem lanar mo de                 de ltima e prpria que compreende todas as
qualquer metafsica, visto que isso exprime bem            possibilidades, que  a possibilidade do estar
os resultados das pesquisas psicolgicas a                 lanado no mundo. Por isso, ao mesmo tempo
respeito.                                                  que a angstia isola o homem como solus ipse,
                                                           esse isolamento no  o de um ente ou o de
   A importncia do sentimento como caracte-
                                                           um objeto sem mundo, mas, ao contrrio, pe o
rstica essencial da existncia humana no
                                                           homem perante seu mundo e, com isso, pe
mundo, como parte da prpria substncia do
                                                           o homem diante de si mesmo como ser-no-
homem,  ressaltada por Heidegger. Ele no v
                                                           mundo (Ibid.,  40). Heidegger pode afirmar,
as E. como simples fenmenos que acompa-
                                                           com base nessas anlises, que "toda compreen-
nham os atos de conhecimento e de vontade,
                                                           so  emotiva", e ver no tom emotivo da angs-
mas como modos de ser fundamentais da exis-
                                                           tia a compreenso ltima, decisiva, que a exis-
tncia na medida em que  uma existncia no
                                                           tncia pode ter de si mesma (Ibid.,  53).
mundo, ou, como ele diz, um Dasein. Analisa
                                                           Heidegger concentrou a ateno na angstia e
a propsito o fenmeno do medo, que julga
                                                           considerou-a como a nica "E. autntica" do ho-
constitutivo da existncia inautntica, isto , da
                                                           mem, porque  a nica E. que faz o homem
existncia "lanada no mundo" e abandonada
                                                           compreender sua existncia, ou seja, seu estar
s vicissitudes deste. Como tal, o medo no 
                                                           no mundo. No negou, porm, as outras emo-
um fenmeno temporal parcial, mas um modo
                                                           es. Est bem claro que, para ele, as outras E.
de ser essencial e permanente. "S um ente no
                                                           humanas pertencem ao nvel da existncia
qual, em sendo, est em jogo seu prprio ser
                                                           "inautntica" ou "impessoal", da existncia que
pode ter medo. O temer abre esse ente ao risco,
                                                           no visa a compreender-se e possuir-se nessa
ao estar entregue a si mesmo" (Sein und Zeit,
                                                           compreenso, mas viver quotidianamente no cui-
 30). Correspondente ao medo, mas no plano
EMOO                                              322                                          EMOO


dado, ou seja, na preocupao sugerida pelas              denou uma conduta mgica. E, de fato, eu ani-
necessidades prprias e alheias.  utilizao das         quilei o perigo da forma como podia. No se
coisas e ao preocupar-se com o mundo, que so             trata, porm, de brincadeira, mas de crena,
os dois aspectos essenciais do ser-no-mundo,              de uma coisa sria, como demonstram as ex-
esto obviamente ligadas todas as E. e os afetos          presses orgnicas das emoes." Na E. a cons-
humanos, que, portanto, so rejeitados para o             cincia visa combater os perigos ou modificar
plano inautntico da banalidade quotidiana.               os objetos, sem distncia e sem instrumentos,
Embora Heidegger no trate desses afetos ou               atravs de modificaes absolutas e macias
E. (nem sequer do amor, donde Sartre ter                  do mundo. Esse aspecto do mundo  inteira-
observado que, para ele, o Dasein, a realidade            mente coerente, diz Sartre; trata-se do mundo
humana, no tem sexo), no se deve esquecer               mgico. "Chamaremos de E. a queda brusca
que, para Heidegger, a existncia inautntica             da conscincia no mgico. Ou, se preferirem,
no  aparncia, iluso ou realidade diminuda            h E. quando o mundo dos instrumentos se
ou empobrecida, mas um modo de ser neces-                 esvai bruscamente e o mundo mgico lhe toma
srio da prpria existncia.                              o lugar. Portanto no se deve ver na E. uma
    Na mesma linha da anlise de Heidegger                desordem passageira do esprito, que viria per-
situa-se a de Sartre, que, porm, utiliza mais as         turbar de fora a vida psquica. Ao contrrio,
anlises e as teorias da psicologia contempor-           trata-se do retorno da conscincia  atitude m-
nea. Para Sartre, a E.  "certa maneira de apre-          gica, uma das grandes atitudes que lhe so
ender o mundo"; ela , portanto, em primeiro              essenciais, com a apario do mundo correla-
lugar, "conscincia do mundo", embora se trate            tivo, o mundo mgico. A E. no  um acidente,
de conscincia imediata e no reflexa. "O sujei-           um modo de existncia da conscincia, uma
to que procura a soluo de um problema pr-              das maneiras pelas quais ela compreende (no
tico est no mundo, toca o mundo a cada ins-              sentido heideggeriano de verstehen) o seu ser
tante, atravs de todos os seus atos. Se falha            no mundo" (Jbid., p. 49).
em todas as suas tentativas, se se irrita, sua                 significativo o fato -^ resultante das ex-
irritao  um modo como o mundo lhe apare-               posies anteriores -- de as teorias das E. apre-
ce. E no  preciso que o sujeito, entre a ao           sentadas pelos cientistas no diferirem radical-
que falha e a clera, realize um retorno para si          mente das apresentadas pelos filsofos, mas
mesmo e intercale a conscincia reflexa. Pode             apresentarem muitas caractersticas substan-
haver uma passagem contnua da conscincia                ciais em comum.  tambm verdade que os
irreflexa 'mundo-agido' (ao) para a conscin-           filsofos utilizam essas teorias para extrair ila-
cia reflexa 'mundo odioso' (clera). A segunda            es ou generalizaes de natureza ontolgico-
 uma transformao da outra" (Esquissed'une              metafsica; mas, de certo modo, isso  um direi-
thorie des motions, 1947, p. 30). Mas o mun-            to deles. A concordncia entre as teorias tem
do a que a E. faz referncia  um mundo dif-             grande significado porque demonstra que, no
cil. A dificuldade  uma qualidade objetiva cio           terreno da analise interpretativa dos modos fun-
mundo que se oferece  percepo;  ela que               damentais de experincia,  possvel que o
determina a natureza das emoes. Esta, para              acordo entre cientista e filsofo no seja me
Sartre,  uma transformao do mundo, mais                nor que o existente entre dois cientistas. Outro
precisamente uma transformao pela magia.                exemplo desse acordo  a teoria das E. apre-
"Quando os caminhos traados se tornam dif-              sentada por Kurt Goldstein, mdico e fisilogo
ceis demais ou quando no vemos absoluta-                 especialista em leses cerebrais (cf. DerAufbau
mente o caminho, no podemos mais ficar                   des Organismus, 1934; trad. fr. com o ttulo La
num mundo to urgente e difcil. Todas as vias            structure de 1'organisme, Paris, 1951). Goldstein
esto barradas e, no entanto,  preciso agir. En-         acredita que a adaptao do organismo ao am-
to procuramos mudar o mundo, viver como                  biente acontece atravs de pequenas "reaes
se as relaes das coisas com as suas proprie-            de catstrofe" que no podem ser evitadas no
dades no fossem controladas por processos                embate do organismo com o mundo. Quando
deterministas, mas pela magia" (Jbid., p. 33).            essas catstrofes ou choques ultrapassam deter-
P. ex., o desmaio diante de um perigo iminen-             minada medida, passam a ter significado de
te no  mais que negao do perigo, vontade              comportamento anmalo do organismo, de pe-
de anul-lo. "A urgncia do perigo serviu de              rigo para a sua capacidade de agir, para a sua
motivo para uma inteno aniquilante que or-              existncia. Est-se ento diante de reaes gra-
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ves de catstrofe que, do ponto de vista subjeti-          o possvel ainda no realizado. Alm disso su-
vo, assumem a forma emotiva de angstia. A                 pe a liberdade de decidir-se por esses poss-
angstia distingue-se do medo pela falta de                veis. Justamente por isso,  uma caracterstica
objeto determinado.- ela no tem objeto. No                do homem; pode-se, pois, compreender que
medo, encontramo-nos diante de um objeto                   quem sofre uma leso cerebral, que  preci-
ao qual nos opomos, do qual podemos procu-                 samente uma perda da categoria do possvel,
rar desembaraar-nos ou do qual podemos fugir;             ou seja, uma perda de liberdade, fique comple-
temos conscincia tanto desse objeto como de               tamente desarmado diante da situao da an-
ns mesmos e podemos examinar o modo co-                   gstia; est condenado a essa situao na me-
mo devemos comportar diante do objeto,                     dida em que no est protegido contra ela por
fixar o olhar sobre a causa do medo, que real-             um empobrecimento enorme do seu mundo,
mente se encontra no espao diante de ns.                 que reduz seu ser humano s formas mais sim-
Mas na angstia o doente "vive a impossibili-              ples" (Ibid., pp. 260-61). Assim, a descida do
dade de relacionar-se com o mundo sem saber                paciente ao nvel humano mais baixo  a lti-
por qu.  um sentimento de estremecimento                 ma defesa do organismo que vive a impossibi-
que diz respeito  existncia do mundo e  sua             lidade de relacionar-se com o mundo. Alm
prpria existncia. No pode tomar conscincia             disso, a coragem no  a certeza de que os
do seu eu tanto quanto no pode faz-lo do                 possveis se realizaro, no  a garantia de que
objeto, j que a conscincia do eu  apenas o              se destinam ao xito, mas s o sentido do poss-
correlato da conscincia do objeto... A angstia           vel como tal, como possibilidade de xito ou
aparece, portanto, quando a realizao de uma              insucesso, como procura, esforo, tentativa, tra-
tarefa correspondente  essncia do organismo              balho, criao, orientados para as possveis vias
foi impossvel. Esse  o perigo da angstia"               de sucesso.
(Ibid., trad. fr., pp. 250-51). Em outros termos,              O exame do conjunto das teorias da E. que
a angstia  o sentido de ruptura entre o orga-            se sucederam ao longo da histria do pensa-
nismo e o mundo, ou melhor, a perda da possi-              mento mostra que elas podem ser divididas
bilidade de relao entre o organismo e o mun-             em duas grandes classes, segundo o modo de
do. Desse ponto de vista, o que conduz ao                  considerar as E., como dotadas de significado
medo  "o sentimento da possibilidade de sur-              ou como desprovidas de significado.
gimento da angstia". Assim, pode-se com-                      Ia As teorias que atribuem significados s E.
preender o medo a partir da angstia, e no                consideram-nas manifestaes, indicaes ou
vice-versa. Quem tem medo compreende, por                  signos de situaes objetivas em que o ho-
certas indicaes, que um objeto  capaz de                mem se encontra, seja por suas relaes com as
coloc-lo em situao de angstia. Ora, a an-              coisas do mundo, seja por suas relaes com
gstia no  s um estado normal. Muitos esta-             os outros homens. Por esse prisma, aparecem
dos angustiosos de indivduos normais s no               como os valores das situaes, no que se refe-
so reconhecidos como tais porque so relati-              re s possibilidades de vida, conservao, de-
vamente insignificantes para a personalidade               senvolvimento, realizao de interesses e tare-
global e para a sua existncia; mas s vezes               fas que elas oferecem ao homem. Obviamente,
basta um insucesso, insignificante em si mes-              o pressuposto desse reconhecimento do signi-
mo, mas que ocorra numa situao importante                ficado objetivo das E.  que nem todas as si-
para o indivduo, para transform-lo em an-                tuaes so igualmente favorveis, que muitas
gstia verdadeira, como acontece, p. ex., com              delas apresentam caractersticas que podem
a angstia dos exames. A capacidade de su-                 ameaar a existncia e as realizaes do ho-
portar a angstia varia de um indivduo para               mem, ou que, em outros termos, na maioria
outro: o doente de leses cerebrais suporta me-            das vezes o mundo se apresenta sub ratione
nos, a criana suporta mais, e o adulto ativo ain-         ardui (como diz S. Toms), ou  um mundo
da mais. "Nesse ltimo mostra-se a coragem ver-            difcil (como diz Sartre). Mas um mundo difcil,
dadeira, a coragem, que  o meio de sair da                um mundo onde o que favorece o homem
angstia. Ela  um sim dito ao estremecimento              pode apresentar-se sub ratione ardui, no 
da existncia, aceito como uma necessidade para            uma totalidade racional perfeita, no  caracte-
a realizao do ser que nos  prprio. Implica a           rizado pela plena correspondncia de todos os
capacidade de ordenar uma situao particular              seus aspectos com um princpio nico e sim-
num conjunto maior, uma atitude orientada para             ples que garanta a vida e os interesses da exis-
EMOO                                               324                                          EMOO


tncia humana. Portanto, o reconhecimento do               justamente essa racionalidade perfeita e a im-
significado das E. est sistematicamente ligado            perturbabilidade necessria que deveria acom-
 negao implcita ou explicita da natureza ne-           panh-la.
cessariamente racional do mundo em que o                       Portanto, no  de surpreender que na inda-
homem vive.                                                gao contempornea, bem mais atenta aos da-
    2- Por outro lado, tem-se a negao do signi-          dos e aos elementos de fato da condio hu-
ficado das E. em todas as teorias que as consi-            mana, as teorias das E. sejam concordes em
deram "vs opinies", entre as quais  tpica a            atribuir-lhes significado prprio e objetivo. Es-
teoria estica. Esse ponto de vista implica que            sas teorias, e especialmente as apresentadas
o mundo  uma totalidade perfeita que assegu-              por mdicos e psiclogos, tambm levam em
ra de modo absoluto a existncia do homem e                conta os fenmenos patolgicos, o que signifi-
a realizao dos seus interesses legtimos, ou             ca o abandono do preconceito de que s os
seja, da parte racional e dos interesses racionais         chamados fenmenos normais permitem en-
do homem. Nesse caso, prazer e afeio, temor              tender a condio humana, e de que subsiste
e esperana, etc. so absolutamente isentos de             uma separao precisa e radical entre fenme-
sentido, pois qualquer situao em que o ho-               nos normais e fenmenos patolgicos, de tal
mem venha a achar-se ser exatamente aquilo                modo que estes ltimos possam ser circunscri-
que deve ser em relao  entidade racional                tos num domnio  parte e declarados sem inte-
"homem" e portanto nada haver nela de que                 resse para a investigao cientfica e filosfica
as E. possam servir de advertncia ou sinal. A             do homem. As teorias cientficas e filosficas
teoria que considera as E. como "pensamentos               contemporneas partem da convico de que
confusos" (Spinoza, Leibniz, Wolff, etc.) no se           no  possvel compreender a existncia do
distingue substancialmente da dos esticos e               homem, seja como organismo, seja como eu ou
tem as mesmas conexes sistemticas. Um                    pessoa, sem levar em conta a experincia emo-
pensamento confuso no  um verdadei-                      cional. Tambm concordam quando conside-
ro pensamento (no seria claro e distinto) e               ram essa experincia como reao normal e
portanto est destinado a desaparecer, assim               global do homem s situaes em que se en-
como uma opinio falaz ou um erro tempor-                 contra, ou seja, como um comportamento ou
rio diante da verdade. O pensamento confuso                conduta. Parece, todavia, haver uma distino
 o equivalente da "opinio v" dos esticos, e            que nem todas fazem explicitamente e que,
o pressuposto da teoria relativa  o mesmo                 por isso, convm evidenciar: a distino entre
dos esticos, ou seja, a racionalidade absoluta            conduta emotiva e emoo-controle. Ocor-
e perfeita do mundo, que, no contendo ne-                 re conduta emotiva quando a E. constitui a
nhuma ameaa para o homem, no justifica a                 totalidade da reao do homem  situao;  a
percepo dessa ameaa, nem a satisfao ou                chamada "reao de fracasso", "reao mgi-
a alegria de super-la, nem a coragem ou as                ca" ou "reao de desastre". Por isso,  sempre
outras manifestaes emotivas que levam a                  patolgica ou semipatolgica porquanto im-
essa superao. O mesmo valor negativo                    pede ou diminui a resposta correta do homem
observado nas teorias que reduzem as E. a                   situao, sua adaptao a ela. Mas  lgico
acidentalidades empricas, a particularidades              que a conduta emotiva assim entendida no
insignificantes (Hegel e os hegelianos): expres-           esgota o domnio das emoes. A E. tambm 
ses equivalente a "vs opinies" ou "pensa-               parte integrante da conduta no emotiva, que
mentos confusos", que partem da mesma no-                  constitui uma resposta adequada e normal 
o de mundo desprovido de ameaas reais                   situao, e que pode ser definida como "racio-
para o homem. O defeito dessas teorias no                 nal". As E. da coragem, do esforo, da fadiga,
consiste tanto em deixar de justificar as E., mas          da esperana ou do temor, da satisfao ou da
em no poder explicar essas "vs opinies",                insatisfao, etc. condicionam e controlam as
esses "pensamentos confusos" ou essas "aci-                formas de conduta mais eficazes, livres e cria-
dentalidades insignificantes" a que as E. so              tivas. Foi justamente por isso que Pierre Janet
reduzidas. E de fato no se compreende como,               distinguiu a E.-choque, que define a reao de
num mundo racionalmente perfeito, possam                   fracasso, da E.-sentimento, que controla a rea-
nascer no homem, que  a parte mais racional-              o adequada, e Goldstein viu na coragem,
mente perfeita dele, erros, preconceitos ou de-            como "sentimento do possvel", o meio de sair
terminaes capazes de perturbar e ameaar                 da angstia, que  o sentimento da inadequao
EMOTIVO/EMOCIONAL                                    325                                          EMPRICO

do organismo  sua funo vital,  sua relao             p. 49). Foi retomado por Robert Vischer (Das
com o mundo. Nesse outro aspecto ou funo,                optiscbe Formgefbl. Ein Beitrag zur stbetik,
a E. pode ser considerada uma modalidade de                1873; reimpresso em Drei Abhandlungen zum
controle do comportamento, um ndice ou con-               sthetischen Formproblem, 1927, pp. 1-44), mas
dio da eficcia do comportamento ajustado                sua difuso se deve especialmente a Lipps, que
e normal. Certamente a distino entre condu-              o empregou para esclarecer a natureza da
ta emotiva e E.-controle no eqivale a uma                experincia esttica (sthetik, 2 vols., 1903, 2a
separao entre esferas diferentes, pois sem-              ed., 1914). Segundo Lipps, essa experincia,
pre existe a possibilidade de que, a qualquer              assim como o conhecimento dos outros eus,
momento, uma se transforme na outra: contu-                ocorreria mediante um ato de imitao e de
do, suas respectivas funes so diferentes e              projeo. A reproduo das manifestaes cor-
sua diferenciao  a mesma que existe entre doen-         preas alheias (devida ao instinto de imitao)
a e normalidade.                                          reproduziria em ns mesmos as emoes que
  EMOTIVO/EMOCIONAL (in. Emotive; fr.
                                                           costumam acompanh-las, colocando-nos
                                                           assim no estado emotivo da pessoa a quem
motif, ai. Affektif; it. Emotivo). Em geral, o
                                                           essas manifestaes pertencem.  justamente
mesmo que afetivo (v.). Stevenson (Ethics and              essa projeo em outro ser de um estado
Language, 1945) chamou de "significado E." a               emotivo despertado em ns pela reproduo
disposio que um signo lingstico tem para               imitativa da expresso corprea dos outros (p.
produzir uma atitude (v.), uma disposio a                ex., quadro somtico do medo ou do dio,
agir, a desejar, etc, e no uma crena, um co-             etc.) que seria o modo de comunicao entre
nhecimento em geral. Por isso, especialmente               as pessoas. Analogamente, a experincia estti-
na filosofia contempornea anglo-americana,                ca consistiria em projetar no objeto esttico
prevaleceu o uso de dar o nome "proposies                emoes propriamente humanas, ou seja, em
E." s proposies que no descrevem um esta-              dar "s coisas insensatas sentido e paixo", como
do de fato (v. DESCRIO), mas contm uma                  dizia Vio.
prescrio, uma ordem, etc, como p. ex. as
proposies morais. Esse uso, porm,  extre-                  O conceito de E. foi abandonado por estar
mamente imprprio e nos ltimos anos foi                   em conflito com certo nmero de fatos, sobre-
quase totalmente abandonado.                               tudo com o fato evidenciado por Scheler de
                                                           que os fenmenos de compreenso ou de sim-
   Na linguagem comum e na filosfica,  fre-              patia nada tm a ver com a E. ou fuso emotiva
qente atribuir  palavra E./Emocional um sig-             (cf. SCHELER, Sympathe, I, cap. I). Quanto 
nificado puramente negativo, indicando-se com              funo esttica atribuda  E., v. ESTTICA.
ela as coisas s quais no se saberia nem poderia              EMPIRIA. V. EXPERINCIA.
atribuir um motivo suficiente e que, portanto,                 EMPRICO (gr. uneipuc; in. Empirical; fr.
no parecem suficientemente "razoveis". Nesse             Empirique, ai. Empirisch; it. Emprico). Esse
sentido, acaba-se qualificando de emocionais               adjetivo tem os seguintes significados princi-
todas as escolhas (ou deliberaes) que no                pais, nem todos redutveis aos significados do
obedeam ao critrio vigente no campo em                   substantivo correspondente, experincia (v.).
que incidem. P. ex., dizemos que tem valor E.                  le Designa, em primeiro lugar, a espcie de
ou emocional um objeto que no  til nem                  saber que se adquire atravs da prtica, atravs
bonito, mas preferimos conservar; ou que                   da repetio e da memria. Nesse sentido, cor-
somos "emocionalmente apegados" a certas                   responde ao significado ls de experincia e
crenas que, subentendemos, no so racio-                 ope-se a racional, assim como a experincia
nalmente sustentveis. Aqui tambm o uso                   se ope  arte e  cincia.
desse termo no faz nenhuma referncia a qual-                 2Q E. significa intuitivo ou sensvel e so cha-
quer teoria positiva da emoo.                            mados de E. os elementos sensveis de que 
   EMPATIA (in. Empathy, fr. Empathie; ai.                 constitudo o conhecimento intuitivo ou sens-
Einfhlung; it. Empatia). Unio ou Fuso emo-              vel. Esse significado corresponde ao significa-
tiva com outros seres ou objetos (considera-               do 2, a) de experincia e seu oposto  intelec-
dos animados). O termo alemo encontra-se                  tual. Nesse sentido Kant chama de E. o material
em Herder ( Vom Erkennenn und Empfinden,                   da experincia constitudo pelas sensaes, ao
Werke, ed. Suphan, VIII, p. 165) e em Novalis,             passo que chama a priori ou intelectuais as
Discpulos em Sais (Werke, ed. Friedemann, II,             formas ou condies da experincia.
EMPIRIOCRITICISMO                                    326                                     EMPIRISMO


    3S E.  o atributo do conhecimento vlido,             ser posta  prova, logo eventualmente modifi-
do conhecimento que pode ser posto  prova                 cada, corrigida ou abandonada. Portanto, o E.
ou verificado, e ope-se a metafsico, enquanto            no se ope  razo ou no a nega, a no ser
atributo de uma pretenso cognitiva infundada,             quando a razo pretende estabelecer verdades
no verificvel. Nesse sentido, esse adjetivo              necessrias, que valham em absoluto, de tal for-
corresponde ao significado 2B, b) da palavra               ma que seria intil ou contraditrio submet-
"experincia".                                             las a controle. Foi desse modo que Sexto Em-
    4e E. contrape-se a experimental quando               prico caracterizou o E., e, com base nessas
indica a experincia bruta ou a observao no             caractersticas, reconhecia o seu parentesco com
controlada, confrontada ao experimento, que                o ceticismo; essas caractersticas continuaram
 a observao controlada e provocada.                     sendo fundamentais em todas as doutrinas pos-
    5S E. significa factual, e "enunciado E."             teriormente denominadas empricas, quaisquer
um enunciado que diz respeito a estados de                 que fossem suas determinaes peculiares.
fato. Nesse sentido, esse adjetivo contrape-se            Sexto Emprico diz que o mdico emprico,
a analtico, que qualifica os enunciados que               ou melhor, metdico, "nada afirma temeraria-
exprimem simples relaes conceituais ou lin-              mente acerca dos fatos obscuros, mas, sem pre-
gsticas.                                                 tender dizer se so compreensveis ou no,
    EMPIRIOCRITICISMO (ai. Empiriokriti-                   acompanha os fenmenos e destes toma aquele
cismus). Foi assim que R. Avenarius chamou sua             que lhe parece til, assim como fazem os cti-
"filosofia da experincia pura", que ele conce-            cos". E acrescenta: o que a medicina metdica
beu como cincia rigorosa, anloga s cincias             e o ceticismo tm em comum  a falta de
naturais positivas, portanto excludente de qual-           dogmas e a indiferena no uso das palavras,
quer metafsica. A tese fundamental do E.  que            sendo comum tambm a regra de seguir as
a experincia pura precede a distino entre fsi-         indicaes da natureza e as fornecidas pelas
co e psquico e, portanto, no pode ser interpre-          necessidades do corpo (Pirr. hyp., I, 236-41).
tada em bases materialistas nem idealistas. Os             Depois de vrios sculos, Leibniz dava o mes-
elementos da experincia pura so as sensaes,            mo conceito de E., mas contrapondo nitida-
que so acompanhadas pelos caracteres, quali-              mente o procedimento emprico ao racional:
ficaes vrias que as sensaes recebem em                "Os homens agem como os animais na medida
suas diversas relaes: p. ex., prazer e dor, apa-         em que o concatenamento de suas percepes
rncia e realidade, certo e incerto, conhecido             s  realizado pela memria, assemelhando-se
e desconhecido, etc. O que chamamos de                     assim aos mdicos empricos, que s tm pr-
"coisa" e de "pensamento" no passam de diver-             tica e nenhuma teoria. Em trs quartos de nos-
sas formas de posio dos mesmos conjuntos                 sas aes ns somos apenas empricos: p. ex.,
de elementos, no sentido de que a sua diferen-             quando prevemos que vai amanhecer, estamos
a s depende de uma diversidade de "caracte-              agindo empiricamente, pois estamos esperan-
res" e que essa diversidade depende da rela-               do que acontea o que sempre aconteceu. S
o biolgica com o ambiente circundante                   o astrnomo julga esse fenmeno com a ra-
(Kritik der reinen Erfahrung, 1888-1890, 2                 zo. Mas  o conhecimento das verdades ne-
vols.). Algumas dessas teses, e especialmente              cessrias e eternas que nos distingue dos sim-
a de que todas as coisas ou pensamentos se                 ples animais e nos faz ter razo e cincia,
compem de um complexo de sensaes que                    elevando-nos ao conhecimento de ns mes-
no so entidades fsicas nem entidades ps-               mos e de Deus" (Monad.,  28-29). A razo,
quicas, so aceitas e defendidas por Mach                  nesse sentido,  infalvel. Se como faculdade
(Analyse der Empfindungen, 1900).                          humana pocie enganar-se, como "concatenao
                                                           das verdades e das objees em boa forma, 
    EMPIRISMO (in. Empiricism; fr. Empiris-                impossvel que a razo nos engane" (Thod.,
 me, ai. Empirismus; it. Empirismo). Corrente fi-          Disc,  65).  muito provvel que dessas ob-
losfica para a qual a experincia  critrio ou           servaes de Leibniz nos tenha chegado o con-
norma da verdade, considerando-se a palavra                ceito de E., de racionalismo e da oposio en-
"experincia" no significado 2B. Em geral, essa            tre ambos. O racionalismo (v.) defende a tese
corrente caracteriza-se pelo seguinte: Ia nega-            da necessidade da razo como "concatenao
o do carter absoluto da verdade ou, ao me-              das verdades", e no como faculdade, no sen-
nos, da verdade acessvel ao homem; 2S reco-               tido de que ela no pode ser diferente do que
nhecimento de que toda verdade pode e deve
EMPIRISMO                                             327                                       EMPIRISMO

 e, portanto, no pode sofrer desmentidos e                    Ar Reconhecimento do carter bumanolimi-
no exige confirmaes. A tese do E.  de que               tado, parcial ou imperfeito dos instrumentos de
essa necessidade no existe e que, portanto,                que o homem dispe para verificar e compro-
toda e qualquer "concatenao de verdades"                  var a verdade, alm da aplicao e do uso des-
deve poder ser posta  prova, controlada e                  ses instrumentos em todos os campos de pes-
eventualmente modificada ou abandonada.                     quisa acessveis ao homem e s neles. Essa  a
    A essa caracterstica fundamental do E. e               caracterstica limitativa ou crtica do E., que 
com base nela acrescentam-se outras, com                    tradicionalmente associado ao reconhecimento
as quais ele foi associado em cada fase de                  da limitao das possibilidades humanas, e,
sua histria:                                               portanto, da restrio da investigao aos limi-
    lg Negao de qualqiier_conhecimento ou                 tes impostos por essas possibilidades, ao mes-
princpiQ Jnato, que 3evjrsernecess~rmente               mo tempo em que  associado  deciso de
reconhecido como vlido, sem qualquer atesta-               prosseguir as investigaes at onde tais possi-
o ou verificao. Essa caracterstica, estabe-            bilidades o permitam e em qualquer campo
lecida por Locke no primeiro livro de Ensaio,               que o permitam. Sob esse aspecto, o E.  subs-
foi das que mais sobressaram no sc. XVIII e               tancialmente uma instncia ctica, que de dvida
s vezes serviu para definir o E., embora no               geral transformou-se em dvida organizada e
passe de conseqncia derivada dele.                        metdica para experimentar, em todos os
    2a Negao do "supra-sensvel", entendido co-           campos, o alcance da verdade que o homem
mo qualquer realidade no passvel de verificao           pode obter. O E. alija da filosofia, e de qual-
e controle de qualquer tipo. Ora, os melhores e             quer pesquisa legtima, os problemas referen-
mais diretos instrumentos de que o homem dis-               tes a coisas que no sejam acessveis aos
pe para a verificao de si mesmo e das realida-           instrumentos de que o homem dispe. Hume
des em que est mais diretamente interessado                entendia o E. nesse sentido. Donde a constante
so os rgos dos sentidos; desse modo, o E.                polmica do E. moderno contra a "metafsica",
apresenta-se na maioria das vezes como o recur-             que  precisamente o campo desses problemas
so  evidncia sensvel enquanto mtodo para                ou ao menos  assim considerada pelas corren-
decidir o que deve ser considerado real. Essa               tes empricas. Mas no prprio domnio das rea-
caracterstica foi quase sempre usada para defi-            lidades acessveis ao homem, o E. freqen-
nir a natureza do E., sendo considerada funda-              temente encontra limites que lhe parecem
mental. Na verdade, por mais importante que                 intransponveis, como p. ex. a "substncia" de
seja, no  fundamental, mas secundria e deri-             que fala Locke ou a "coisa em si" de que falam
vada de outra, segundo a qual o E.  a exigncia            os empiristas do sc. XVIII e o prprio Kant.
de que qualquer verdade s seja aceita se puder                 Essas caractersticas so tpicas do E. moder-
ser devidamente verificada e confirmada.                    no que se inicia com Locke. No incluem, co-
    3a nfase naJnipQancia.da realidadeMual                mo se v, nenhuma renncia ao uso de instru-
ou imediatamente presente aos rgos de veri-               mentos racionais ou lgicos, se adequados s
ficao e comprovao, ou seja, no fato: essa               possibilidades humanas. No incluem sequer a
nfase  conseqncia do recurso  evidncia                renncia a qualquer tipo de generalizao, hi-
sensvel. Essa  a caracterstica que Hegel reco-           ptese ou teorizao, em qualquer escala ou
nhecia como mrito do E.: o princpio de que                grau, implicando s a exigncia de que qual-
"o que  verdade deve estar na realidade e                  quer generalizao, hiptese ou teorizao
estar l para a percepo", e portanto "aquilo              possa ser posta  prova e, portanto, confirmada
que o homem quiser admitir em seu saber de-                 ou refutada. A mais recente forma de E., qual
ver ir ver pessoalmente, confirmar pessoal-                seja, o E. lgico do Crculo de Viena (v.) e de
mente sua presena" (Ene,  38). Desse ponto                algumas correntes inglesas e americanas, ajus-
de vista, a atitude emprica consiste em ressal-            ta-se s caractersticas acima expostas. Com
tar a importncia dos fatos, dos dados, das con-            efeito, "a exigncia fundamental do E. lgico 
diesque tornam possvel a verificao de uma              que qualquer enunciado, para ter sentido, deve
verdade qualquer, pois a verdade s  verdade               ser de certo modo verificado, confirmado ou
quando verificada como tal, e o nico meio de               submetido  prova" (CARNAP, Testabilty and
verific-la, se ela se refere a coisas reais,              Meaning, em Phil. of Science, 1953, p. 73), e
confront-la com os fatos nos quais essas coisas se         esse princpio leva a restringir a investigao
apresentam, por assim dizer, em pessoa.                     apenas ao domnio dos significados lingsticos
EMPIRISMO                                           328                             EMPIRISMO LGICO

que satisfaam  tradicional exigncia empirista          ficao nem comprovao, salta dos casos parti-
de verificao e comprovao e a declarar                 culares para os axiomas generalssimos, e a in-
"desprovidos de sentido" todos os outros. No              terpretao a. natureza, que consiste em ir, "sem
que concerne ao pensamento antigo e medie-                saltos e por graus", das coisas particulares aos
val, no se pode dizer que apresente formas               axiomas (Nov. Org., I, 24), representa a certido
completas de empirismo. Nele podem ser fa-                de nascimento do E. moderno e de sua oposio
cilmente encontrados aspectos ou tendncias               a qualquer forma de racionalismo dogmtico.
de E., mas no se observa o conhecimento                      EMPIMSMO LGICO (in. Logical empiri-
nem a aceitao da exigncia fundamental de               cism; fr. Empirisme logique, ai. Logischer Em-
que qualquer verdade seja verificada ou com-              pirismus; it. Empirismo lgico). Com esse no-
provada por um mtodo adequado. Mas en-                   me ou com o nome de positivismo lgico in-
contra-se freqentemente a caracterstica 2-, o           dica-se a orientao instaurada pelo Crculo de
sensacionismo, que foi de fato compartilhado               Viena (v.) e depois seguida e desenvolvida
por cirenaicos, esticos e epicuristas. Entre             por outros pensadores, especialmente na Am-
Plato e Aristteles, o mais prximo do E.                rica do Norte e na Inglaterra. A caracterstica
 Plato, apesar do interesse que Aristteles             fundamental dessa corrente  a reduo da fi-
demonstrou pelo mundo natural e da extenso               losofia  anlise da linguagem. Nela, porm,
de suas pesquisas nesse campo. De fato, o que             podem ser distinguidas duas tendncias fun-
Aristteles considerava como objeto de investi-           damentais, segundo se entenda linguagem co-
gao em qualquer campo  a substncia, a ra-             mo linguagem cientfica ou linguagem comum.
zo de ser das coisas, da qual so dedutveis,            Essas duas tendncias tm em comum um ar-
por via silogstica, todas as propriedades da             senal negativo e polmico (a negao de qual-
coisa, e a substncia, embora empiricamente               quer "metafsica") que elas compartilham com
seja aquilo que se apresenta sempre do mesmo              todo o E. moderno e que justificam com a tese
modo, no  suscetvel de verificao ou com-             de que todos os enunciados metafsicos so des-
provao pela experincia, mas a ela se chega             providos de sentido, porque no verificveis
por meio da deduo dos princpios evidentes              empiricamente. Tm tambm em comum as
comuns a todas as cincias e dos princpios               duas teses propostas pela primeira vez por
prprios de cada cincia (v. SUBSTNCIA). O m-           Ludwig Wittgenstein, em seu Tratado lgico-
todo dialtico de Plato (v. DIALTICA), no en-           filosfico (1922): 1- os enunciados factuais, isto
tanto, parece consistir justamente na verificao         , que se referem a coisas existentes, s tm
e na comprovao das determinaes atribu-               significado se forem empiricamente verificveis;
das a determinada realidade; assim, essas de-             2- existem enunciados no verificveis, mas
terminaes podem ser abandonadas, corrigidas             verdadeiros com base nos prprios termos
ou modificadas pelos empregos sucessivos do               que os compem; tais enunciados so tautolo-
mtodo. Mas o E. de Plato s pode ser reco-              gias, ou seja, no afirmam nada a respeito da
nhecido pelos modernos, j que Plato contra-             realidade; a matemtica e a lgica so conjun-
punha o seu mtodo precisamente  experin-               tos de tautologias.
cia e nele evidenciava as caractersticas
contrrias: como aparece claramente no tre-                   A) A tendncia que atribui  filosofia a fun-
cho de Leis (citado no verbete EXPERINCIA) em            o de analisar a linguagem cientfica conta so-
que  experincia do mdico de escravos con-              bretudo com os nomes de Rudolf Carnap e
trape o procedimento racional do mdico de               Hans Reichenbach. As obras deste ltimo per-
homens livres (Leis, IV, 720 c-d). Na Idade M-           tencem  metodologia da cincia. Ele estu-
dia, a tendncia empirista manifesta-se na nega-          dou os Fundamentos filosficos da mecnica
o freqente da realidade do universal, que              quntica (1944) e a Teoria da probabilidade
sempre implica o recurso  experincia, e no              (1949) como fundamento da induo, conside-
reconhecimento da experincia como processo               rando que a prpria probabilidade baseia-se ex-
que permite verificar e comprovar a realidade             clusivamente na freqncia estatstica. Por sua
atual das coisas; p. ex., como conhecimento               vez, Rudolf Carnap deu mais ateno  matem-
 intuitivo. Nesse sentido, a doutrina de Ockham           tica e  fsica (A viso lgica do mundo, 1928; A
 a principal manifestao do E. medieval. Final-         sintaxe lgica da linguagem, 1934; Funda-
mente, a anttese estabelecida por Francis Bacon          mentos da lgica e da matemtica, 1939; Intro-
entre a antecipao da natureza, que, sem veri-           duo  semntica, 1942; Formalizao da l-
                                                          gica, 1943; Significado e necessidade, 1947;
EMPIRISMO LGICO                                    329                                                      EM SI

Fundamentos lgicos da probabilidade, 1950;               mal falante". Sob esse aspecto, o E. lgico 
O contnuo dos mtodos indutivos, 1952). Para             autenticamente uma forma de E. que identifica
a filosofia de Carnap, assim como para a de               o mundo da experincia com o mundo dos
Reichenbach, conflui a corrente matemtica da             significados prprios da linguagem comum.
lgica contempornea, especialmente o forma-              Contudo nem sempre e para nem todos os
lismo de Hilbert, segundo o qual o trabalho da            seus seguidores, essa tendncia apresenta esse
matemtica consiste em fazer dedues, segun-             carter: s vezes se perde em discusses est-
do regras determinadas, a partir de outras pro-           reis e enfadonhas sobre a interpretao de ex-
pores assumidas como fundamentais por                   presses lingsticas retiradas do contexto, logo
conveno e chamadas de axiomas (v.). Carnap              desprovidas do significado e do alcance que
estendeu esse princpio a toda a lgica conside-          tm em tal contexto e, por isso, das autnticas
rando-a um conjunto de convenes sobre o                 possibilidades interpretativas que s o contex-
uso dos signos, bem como de tautologias que se            to fornece. A esse respeito, Bertrand Russell (que
fundam nessas convenes (Logische Aufbau                  considerado um dos fundadores da escola)
der Welt,  107), e dando lugar assim ao con-             condenou claramente essa tendncia verbalista,
vencionalismo (v.) tpico da filosofia contem-            que torna a pesquisa filosfica intil e enfado-
pornea. Sobre as contribuies que essa cor-             nha, e ressaltou a exigncia de que a filosofia es-
rente filosfica tem dado a noes filosficas e          tude no s a linguagem, mas a realidade, e se
cientficas fundamentais, como conceito, cau-             funde portanto no saber positivo dado pela cin-
sa, nmero, probabilidade, assim como  meto-             cia (cf. Hilbert Journal, julho de 1956).
dologia das cincias e  lgica, ver os verbetes             EM SI (gr. OCITO; lat. In se, in. In itself fr. En
correspondentes, alm do verbete ENCICLOPDIA.            soi; ai. An sich; it. In s). O que se considera
    B) A tendncia que atribui  filosofia a fun-         sem referncia a outra coisa, ou seja: 1Q inde-
o de analisar a linguagem comum tem incio              pentemente das relaes com outros obje-
com a segunda obra de Wittgenstein, Investiga-            tos; 29 independentemente da relao com o
es filosficas, que, antes de ser publicada             sujeito considerante.
0953), circulara pela Inglaterra e comeara a                 l s ) Plato e Aristteles utilizam essa expres-
inspirar o trabalho filosfico de um grupo de             so no primeiro sentido. Plato fala do "belo
pensadores. A tese dessa obra  que toda lin-             mesmo", da "semelhana mesma", etc. (ex-
guagem  uma espcie de jogo que segue de-                presses que, em geral, foram traduzidas nas
terminadas regras, e que todos os jogos lin-              lnguas modernas como "belo em si", "seme-
gsticos tm o mesmo valor. Por isso, segundo            lhana em si", etc), para indicar o belo, a se-
Wittgenstein, a nica regra para a interpretao          melhana, etc, sem as relaes com as coisas
de um desses jogos  o uso que dele se faz; e,            que deles participam (Fed., 65d, 75c; Parm.,
como a filosofia no tem outra funo seno a             130b, 150e, etc). Aristteles emprega essa ex-
de analisar a linguagem, cabe-lhe esclarecer              presso no mesmo sentido, para indicar uma
as expresses lingsticas em seu uso corren-             qualidade ou uma substncia, como p, ex. "ani-
te. Essa corrente recebeu grande contribuio             mal", que se considere independentemente das
de Alfred Ayer, que j em 1936, no livro Lingua-          relaes com sua espcie (cf., p. ex., Met. VII,
gem, verdade e lgica, apresentava ao pblico             14, 1039 b 9). Esse significado tambm explica
ingls as teses fundamentais do Crculo de Vie-           a acepo dada por Hegel a essa expresso, ao
na, e de Gilbert Ryle, que, em Conceito do esp-          us-la para designar o que  abstrato e imedia-
rito (1949), analisou com esse critrio a noo           to, desprovido de desenvolvimento, reflexo,
de esprito, mostrando que, para entender e               relao. "Em si", portanto,  o conceito em
esclarecer as expresses da linguagem comum               sua imediao, da forma como  considerado
em que essa noo aparece, no h necessida-              pela primeira parte da lgica, a Doutrina do Ser
de de afirmar a realidade substancial da alma             {Ene,  83), no sentido de no ser para si (v.),
nem de admitir que a conscincia constitui um             de no ser resolvido na conscincia. Nesse sen-
acesso privilegiado a essa realidade. A im-               tido Hegel diz: "As coisas so chamadas de ser
portncia dessa tendncia consiste no fato de             em si quando se abstrai do ser para outro, o
que, por meio de anlises da linguagem comum,             que geralmente significa: quando so pensa-
procura esclarecer as situaes mais comuns e             das sem nenhuma determinao, ou como na-
recorrentes em que o homem pode encon-                    das" (WissenschaftderLogik, I, I, se. I, cap. II,
trar-se, ainda que s considerado como "ani-              B, a; trad. it., p. 124).
ENCARNAO                                          330                                     ENCICLOPDIA


    Com referncia a esse significado, Hegel uti-         em Cristo a coexistncia de duas pessoas, sen-
lizou a expresso para designar o que est em             do a pessoa humana instrumento ou revesti-
potncia, que ainda no se desenvolveu e que              mento da divina. A distino real entre essncia
s por isso pode ser considerado independen-              e existncia nas criaturas e a sua unidade em
temente das relaes com as outras coisas. O              Deus oferecem a S. Toms a chave da interpre-
contrrio de em si, neste sentido,  para si, que         tao. Em Deus, a essncia ou natureza divina
 a atualidade ou a efetividade de uma coisa, o            idntica ao ser; logo, Cristo, que tem natureza
enriquecer-se da coisa em seu desenvolvimen-              divina, subsiste como Deus, como pessoa divi-
to, graas s suas relaes com as outras (cf.            na, e  uma s pessoa, a divina. Por outro lado,
Geschichte der Philosophie, I, Intr. A, 2).               a possibilidade de separar a natureza humana
    2e) Na idade moderna, a partir de Descartes,          da existncia faz que Cristo possa assumir a na-
essa expresso passou a ter com mais freqn-             tureza humana (que  alma racional e corpo),
cia o significado de "independentemente da                sem ser pessoa humana (Contra Gent., IV, 49;
relao com o sujeito cognoscente", sobretudo na          S. Th., III. 2. II, a. 6). Essa interpretao tomista
expresso coisa em si (v).                                constitui a doutrina oficial da Igreja catlica.
    De modo anlogo, Sartre entendeu por "ser                 ENCICLOPDIA (in. Encyclopedia; fr. En-
em si"o ser objetivo, externo e independente               cyclopdie, ai. Enzyklopdie, it. Enciclopdia).
da conscincia, chamando a conscincia de ser             Esse termo, que significa propriamente ciclo
para si (L'tre et le nant, pp. 30, 115 ss.). Em         educativo, educao completa em suas fases,
sentido mais restrito, N. Hartmann entendeu o             portanto nas disciplinas que lhe servem de fun-
ser em si dos valores como sua "independncia             damento, agora  usado para designar o siste-
da opinio do sujeito" (Ethik, 2- ed., 1935, p.           ma das cincias, o conjunto total das cincias
149). Esse significado  bastante freqente no            em suas relaes imutveis de coordenao e
uso filosfico: Bolzano falara de uma "proposi-           subordinao (na sua hierarquia), tais como
o em si", entendendo "em si" nessas expres-             podem ser reconhecidas ou estabelecidas pela
ses como o significado lgico-objetivo puro               metafsica (v.) ou por outra cincia predomi-
da proposio, da representao ou da ver-                nante. Como investigao racional autnoma, a
dade, independentemente de serem pensa-                   filosofia foi a matriz da qual as disciplinas isola-
das ou expressas (Wissenschaftslehre, 1837,               das foram-se separando pouco a pouco, at
 19, 25, 48).                                            alcanar autonomia; como metafsica, ou "cin-
    ENCARNAO (lat. Incarnatio; in. Incar-               cia primeira", muitas vezes se reservou o direi-
nation; fr. Incarnation; ai. Menschuerdung; it.           to de julgar essas disciplinas em termos de
Incarnazion). A unidade da natureza divina               alcance ou importncia e de prescrever-lhes li-
e da natureza humana na pessoa de Cristo.                 mites e condies. Portanto, a tendncia a ser
Esse  um dos dois dogmas fundamentais do                 ou a valer como E., ou pelo menos a estabele-
cristianismo, sendo o outro o da Trindade.                cer ou reconhecer uma E., foi um dos aspectos
Depois das discusses patrsticas que, no sc.            fundamentais do pensamento filosfico. O pri-
V, levaram a algumas interpretaes que a Igreja          meiro projeto de E. pode ser visto nos quatro
condenou como herticas, na Escolstica esse              graus do conhecimento, estabelecidos por
dogma foi uma das pedras de toque da capaci-              Plato no VII livro de A Repblica. Aos dois
dade das filosofias de servir  interpretao e          graus da opinio (conjectura e crena) perten-
defesa das crenas religiosas. Desse ponto de             cem as artes e os ofcios que lidam com as coi-
vista, no h dvida de que a maior capacidade            sas sensveis e com as suas imagens, portanto
nesse sentido foi do tomismo, que deu a mais              tambm a poesia e a arte imitativa. Ao primeiro
simples e elegante interpretao do dogma. S.             dos dois graus racionais, a razo discursiva ou
Toms toma como motivo justamente as duas                 diania, pertencem a geometria, a aritmtica, a
heresias simetricamente opostas do sc. V. A              msica e a astronomia, ou seja, as disciplinas
interpretao de Eutquio, que insistia na uni-           que partem de hipteses e utilizam imagens,
dade da pessoa de Cristo, tambm reduzia as               ainda que tenham por objeto conceitos puros.
duas naturezas a uma s, mais precisamente               Ao quarto e ltimo grau pertence to-somente
divina, considerando simplesmente aparente a              a dialtica, que  a cincia do filsofo (Rep., VI
natureza humana revestida por Cristo. A inter-            510). Aristteles baseava sua E. na distino en-
pretao de Nestrio, ao contrrio, que insistia          tre necessrio e possvel. O necessrio (o que
na dualidade das naturezas, tambm admitia                no pode ser diferente do que )  objeto das
ENCICLOPDIA                                          331                                    ENCICLOPDIA

cincias tericas: filosofia, fsica e matemtica.          propriamente dita, e qumica. Diviso anlo-
O possvel  objeto das cincias prticas (tica            ga ser feita para a fsica orgnica: haver uma
e poltica) e das disciplinas poticas (ou produ-           fsica orgnica ou fisiolgica, que concerne ao
tivas), as artes (Et. nic, VI, 3-4). Enquanto es-           indivduo, e uma fsica social (ou sociologia),
ticos e epicuristas concordaram em reduzir a               que diz respeito  espcie. A E. das cincias ser,
sua E. a trs cincias fundamentais, lgica, fsi-          portanto, constituda por cinco disciplinas fun-
ca e tica, a Idade Mdia permaneceu substan-               damentais: astronomia, fsica, qumica, biolo-
cialmente fiel ao sistema enciclopdico de Aris-            gia e sociologia. De tal E. no fazem parte nem
tteles, que culminou na teologia, a que todas              a matemtica nem a psicologia: a matemtica
as outras cincias se subordinavam (S. Toms,               porque  a base de todas as cincias e portan-
5. Th., I, q. 1, a. 5). No sc. XVII, Francis Bacon         to no pode ocupar um lugar  parte; a psico-
apresentou o projeto de uma E. fundada na                   logia porque no  uma cincia, j que se fun-
tripartio entre cincias da memria, cincias             da numa pretensa "observao interior", que 
da fantasia e cincias da razo (De augm.                   impossvel, pois pressuporia o indivduo divi-
scient., II, 1). Essa distino foi aceita por              dido em duas partes, uma observadora, a ou-
D'Alembert e serviu de base para a Ency-                    tra observada (Cours de Phil. Positive, I, pp. 75
clopdie. Diz D'Alembert: "A memria, a razo               ss.). Essa E. de Comte foi amplamente aceita
e a imaginao so as trs maneiras diferentes              pela cultura moderna e contempornea mes-
pelas quais nossa alma atua sobre os objetos                mo fora do positivismo, porque levava em conta
dos seus pensamentos... Essas trs faculdades               a situao e as funes reais das cincias, ain-
constituem as trs divises gerais do nosso
                                                            da que Comte s vezes tenha pretendido im-
sistema e os trs objetos gerais dos conheci-
mentos humanos: a histria, relacionada com a               por restries ou limitaes insustentveis a
memria, a filosofia, que  o fruto da razo, as            tais cincias. A ela foi contraposta a E. das cin-
belas-artes, que nascem da imaginao" (Dis-                cias de Hegel, que  a maior expresso do
cours prliminaire de VEncyclopdie, em CEuvres,            romantismo idealista. Para Hegel s existem
ed. Condorcet, p. 112). Todavia, a E. francesa,             trs disciplinas fundamentais, que so a lgica,
cujo esprito iluminista se inspirava predomi-              a filosofia da natureza e a. filosofia do esprito.
nantemente no empirismo, no insistiu no ca-                As trs cincias tm por objeto a Idia, ou seja,
rter total e definitivo do sistema das cincias,           a Autoconscincia infinita: a primeira conside-
mas entendeu a E. sobretudo como a tentativa                ra a Idia em si e por si, antes de seu desenvol-
de abranger, numa sntese rpida e completa,                vimento no mundo; a segunda considera a Idia
os resultados do saber positivo. E foi essa jus-            no seu "ser outro", no seu exteriorizar-se e
tamente a principal funo da E.  qual se de-              alienar-se no mundo da natureza; a terceira,
veu a enorme difuso, no sc. XVIII, por toda               enfim, considera a Idia que "retorna a si mes-
a Europa, dos resultados das cincias e da cr-             ma", que toma conscincia de si como princ-
tica racionalista da tradio. Esse mesmo con-              pio criador de tudo (Ene,  18). Mas nessa E.
ceito foi assumido no sculo seguinte pelo                  no havia lugar para as cincias positivas, que
positivismo como fundamento para a definio                se vinham constituindo autonomamente. Para
da filosofia; com Comte, porm, foi reduzido a              Hegel, essas cincias no tinham valor de ver-
sistema, com base naquilo que ele julgava ser               dade, porque fundadas em elementos que ele
sua descoberta fundamental, a lei dos trs esta-            chama de "acidentais", no pertencentes  subs-
dos. Comte atribuiu graus s cincias segundo               tncia racional do mundo, que  a Idia (Ihid.,
sua ordem cronolgica de entrada na fase posi-               16). Hegel utiliza-as somente para extrair um
tiva, mostrando que essa ordem  tambm a                   material que depois elabora a seu modo no
que vai do grau mximo ao grau mnimo de                    esquema enciclopdico descrito, mas sem ne-
simplicidade e generalidade. Comea dividindo               nhuma considerao pelos mtodos de pes-
a fsica em inorgnica e orgnica e observa que a           quisa e verificao de que cada disciplina se
primeira estuda fenmenos muito mais simples,               serviu para elabor-lo.
pois, enquanto os fenmenos orgnicos depen-
dem dos inorgnicos, estes ltimos no de-                      Na segunda metade do sc. XIX e nos pri-
pendem dos primeiros. A fsica inorgnica, por              meiros anos do sc. XX, a E. positivista de
sua vez, ser primeiro fsica celeste (ou astro-            Comte e a E. idealista de Hegel constituram os
nomia) e depois fsica terrestre, ou seja, fsica           dois modelos fundamentais a que os filsofos
                                                            fizeram referncia. Deve-se observar, porm,
ENCICLOPDIA                                         332                                           ENERGIA


que enquanto a E. de Comte procura abranger                modo definitivo, como sempre fez a metafsica,
as cincias e as disciplinas efetivas, que haviam          a unidade das cincias, visto que as prprias
se constitudo com autonomia de mtodos,                   cincias no toleram durante muito tempo uma
complexidade e riqueza de resultados, a E. de              disciplina determinada, e cada uma se reserva
Hegel alija esse conjunto de cincias e o rebai-           ampla liberdade de pesquisa, organizao e
xa a simples fase preparatria ou temporria,              linguagem. Portanto, hoje parece claro que a
substituindo-o por um conjunto de especula-                exigncia enciclopdica da filosofia  mais exe-
es metafsicas que s tm sentido a partir de            qvel na forma livre e descompromissada de
determinados pressupostos. A esse segundo                  reconhecimento da possibilidade de mltiplas
tipo de E. pertence tambm a E. enunciada por              relaes entre as cincias e de pesquisa e de-
Croce, fundamentada na distino de duas for-              terminao dessas relaes em campo do que
mas de esprito, a terica e a prtica, e na sub-          na forma tradicional de "unificao" das cin-
diviso de cada uma delas em dois graus, co-               cias. E esse reconhecimento, essa pesquisa e
nhecimento do individual e conhecimento do                 essa determinao ainda constituem tarefas
universal, volio do individual e volio do uni-         fundamentais da filosofia (v. METAFSICA; CIN-
versal. Croce distingue a esttica, que tem por            CIAS, CLASSIFICAO DAS).
objeto o conhecimento individual, ou seja,                    ENERGIA (in. Energy, fr. Energie, ai. Ener-
a arte; a lgica, que tem por objeto o conheci-            gie, it. Energia). 1. Qualquer capacidade ou
mento do universal, ou seja, a filosofia; a cin-          fora capaz de produzir um efeito ou de reali-
cia econmica, que tem por objeto a volio do             zar um trabalho. Nesse sentido E.  sinnimo
individual e por isso compreende o estudo de               de atividade (v.) e de fora (v.); fala-se de "E.
tudo o que  til, logo do direito, da economia,           espiritual", "E. material", "E. nervosa", "E. fsi-
etc; e a tica, que tem por objeto a volio do            ca", etc.
universal (Fil. daprtica, 1909, II, cap. 1). Essa            2. Como conceito fsico, entende-se por E. a
E. tambm alija as cincias da natureza e as re-           capacidade de realizar um trabalho; por traba-
duz a simples instrumentos prticos que, me-               lho, entende-se o deslocamento do ponto de
diante "pseudoconceitos", fornecem meios de                aplicao de uma fora. Esses conceitos s fo-
economizar energia para a ao {Lgica, II,                ram claramente formulados na primeira metade
cap. 6). A E. de Hegel e a de Croce foram sim-             do sc. XIX. No entanto, a distino entre E.
plesmente iniciativas filosficas unilaterais, que         potencial (ou de posio) e E. cintica (ou de
os filsofos de certas tendncias aproveitaram.            movimento) deve-se a Leibniz, que em 1686 a
No foram verdadeiras E. no sentido de exercer             exprimia numa dissertao intitulada Demons-
alguma ao de coordenao efetiva entre as                tratio erroris memorabilis Cartesii, como a dis-
pesquisas de cada cincia e da integrao de               tino entre fora viva e fora morta. Leibniz
seus resultados em um sistema de conhecimen-               considerava a fora viva igual ao produto do
to.  justamente essa a tendncia de alguns fil-          "corpo" (massa) pelo quadrado da velocidade-,
sofos e cientistas contemporneos de orienta-              frmula que depois foi corrigida, passando-se a
o neopositivista e neo-empirista que, para               considerar a fora viva igual ao semiproduto da
isso, trabalharam e trabalham numa E. interna-             massa pelo quadrado da velocidade.
 cional da cincia unificada, cujos primeiros
volumes comearam a ser publicados em 1938;                   A segunda guinada conceituai importante na
cada um deles era dedicado aos fundamentos                 evoluo da noo de E. ocorre em meados do
de determinada disciplina.  preciso, porm,               sc. XIX, com a descoberta do princpio de
observar que essa tentativa no demonstra                  conservao da E. (ou primeiro princpio da
acordo suficiente no modo de entender a uni-               termodinmica) por Mayer (1842) e Joule
dade da cincia: alguns, como p. ex. Neurath,              (1843), que estabelece a equivalncia entre E.
 entendem-na como combinao dos resultados                mecnica e calor. Essa equivalncia demonstra-
 das vrias cincias e tentam axiomatiz-los               va que o calor  uma forma de E., por conse-
 num sistema nico; outros, como unificao no             guinte, o conceito de E. extrapolava o dom-
 campo da lgica ou no campo da semitica                  nio mecnico. A generalizao foi feita por
 (Morris) ou do ponto de vista do prprio mto-            Helmholtz na sua famosa dissertao Sobre a
 do da cincia (Dewey) (cf. Encyclopedia of                conservao da fora (1847). A ele se deve o
 Unified Science, I, 1, 1938). Na verdade, hoje            uso do termo E., que antes se confundia com
 parece utpico querer reencontrar e expor de              fora; considerou tambm como E. qualquer
                                                           entidade que possa ser convertida em outra
ENERGISMO                                           333                                    ENSOMATOSE

forma e caracterizou a E. como indestrutvel,             na razo, a tpica como arte que disciplina e
 pois comporta-se como qualquer outra subs-               dirige o procedimento inventivo do E. O E.
tncia: no pode ser criada nem destruda. Deste          tem tanta fora produtiva quanto a razo, po-
ponto de vista, os cientistas comearam a falar           rm menor capacidade demonstrativa (De nostri
de numerosas formas de E.: magntica, eltri-              temporis studiorum ratione,  5). Kant, por sua
ca, qumica, acstica, etc, e a E. passou a ser a         vez, entendia por E. o talento, ou seja, "a supe-
segunda substncia da fsica, j que a primeira           rioridade do poder cognitivo proveniente da
 a matria. Todavia, tanto em cincia quanto             disposio natural do indivduo, e no do ensi-
em filosofia tentou-se reduzir tambm a mat-             no", e o distinguia em E. comparativo e E.
ria  E. constituindo-se o energismo (v.).                logicizante (Antr., I,  54).
    A terceira guinada conceituai importante                  ENIGMAS (in. Riddles; fr. Enigme; ai. Rdtsel;
dessa noo ocorreu com a teoria da relativi-             it. Enigmi) Na literatura filosfica dos ltimos
dade e com a mecnica quntica. Com a redu-               decnios do sc. XIX deu-se o nome de E. do
o da matria (v.)  densidade de campo (v.),            mundo aos problemas que, no tendo sido re-
o dualismo entre as duas substncias tradicio-            solvidos pela cincia, eram considerados inso-
nais da fsica clssica perdeu sentido. Por um            lveis. Em 1880, o fisiologista alemo E. Du
lado, portanto, parece que a cincia acolheu o            Bois-Reymond enumerava Sete E. do mundo-.
princpio do energismo, pois a matria deixou             V- a origem da matria e da fora; 2S a origem
de ser uma substncia em si mesma, mas, por               do movimento; 3a o surgimento da vida; 4Q a
outro lado, pode-se dizer que o prprio ener-             ordem finalista da natureza; 5Q o surgimento
gismo foi descartado, pois o conceito funda-              da sensibilidade e da conscincia; 6e a origem
mental j no  de E., mas de campo (v.), e               do pensamento racional e da linguagem; 1 a
qualquer distino qualitativa entre matria e            liberdade da vontade. Diante desses E., Du Bois-
E. ou matria e campo perdeu importncia (cf.             Reymond achava que se devesse dizer no s
A. EINSTEIN-L. INFELD, The Evolution of 'Physics,         ignoramus[ignoramos], mas tambm um igno-
III; trad. ir, pp. 251 ss.).                              rabimus [ignoraremos]. Alguns anos depois, o
    ENERGISMO (in. Energetism; fr. nergtis-             bilogo Ernst Haeckel, numa obra de enorme
me\ ai. Energetik, it. Energetism). Monismo da           difuso, intitulada OsE. do mundo (1899), pro-
energia, ou seja, reduo de toda substncia a            clamava que aqueles E. tinham sido resolvidos
energia. O E. foi defendido pelo prprio                  pelo materialismo evolucionista (v. MATERIA-
Helmholtz, que o apresentava como um ideal                LISMO). Embora essa palavra at hoje seja empre-
da cincia (v. ENERGIA), mas difundiu-se sobre-           gada com fins retricos, tornou-se imprpria
tudo na Inglaterra, graas a William Rankine              para exprimir a atitude do homem moderno
(1820-72). Entre o fim do sculo passado e o              em face das limitaes ou da imperfeio do
incio do sc. XX, foi defendido pelo fundador            seu conhecimento do mundo. E. significa pro-
da qumico-fsica, Wilhelm Ostwald (1853-1932),           priamente "adivinhao", e a expresso E. do
cujas obras principais so: A energia e suas              mundo parece indicar que o mundo, como
transformaes, 1888; A crise do materialismo             uma gigantesco jogo de adivinha, s tem uma
cientfico, 1895; As energias, 1908; O imperativo         soluo que, uma vez encontrada, eliminaria
energtico, 1912. Ostwald considerava como                todos os problemas. O que, por certo,  uma
especificao do conceito de energia o pr-               viso bastante pueril, pois o mundo no tem
prio conceito de vida; para ele, no campo das             E., nem no plural nem no singular, mas s
cincias formais, o conceito de energia corres-           problemas para os quais existem solues mais
pondia ao conceito de funo (Grundriss der               ou menos adequadas, nunca definitivas e sem-
Naturphilosophie, 1908) (v. CINCIAS, CLASSIFI-           pre sujeitas a revises.
CAO DAS).                                               ENOEMTICA (in. Ennoematic). Termo
   ENGAJAMENTO. V. COMPROMISSO.                       empregado por Hamilton para indicar a dou-
  ENGENHO (lat. Ingenium; in. Ingenuity;              trina do conceito (Lectures on Logic, I, 1886,
Wit; fr. Gnie, ai. Witz; it. Ingegno). Retoman-      p. 130).
do um dos significados tradicionais desse ter-            ENSOMATOSE (gr. vocoucrcoxn). Doutri-
mo, Giambattista Vio chamou de E. a facul-           na segundo a qual a alma  infundida no cor-
dade inventiva da mente humana. Contraps,            po diretamente por Deus; Orgenes a contra-
portanto, o E.  razo cartesiana; analogamente,      pe  metensomatose ou metempscose (v.) (In
contraps  arte cartesiana da critica, fundada       Joan, VI, 14 [86]).
ENTE                                                    334                                        ENTROPIA

     ENTE (in. Reing; fr. tre, ai. Selentes; it.             primeiras obras, De principio individui (1663),
 Ente). O que , em qualquer dos significados                 na qual usa o termo com o mesmo objetivo.
 existenciais de ser. s vezes, mas raramente,                    Na lgica contempornea esse termo 
 essa palavra  usada para designar somente                   empregado para indicar todo objeto cujo status
Deus:  o que faz Gioberti, em sua frmula                    existencial possa ser definido, ou ento, como
ideal: "o E. cria o existente" (Introduzione alio             tambm se diz, todo objeto a respeito do qual
 studio delia f., II, p. 183): onde "E." eqivale            o uso lingstico comporte um "compromisso
a Deus, como ser necessrio, e "existente" eqi-              ontolgico". Carnap defendeu o uso desse ter-
vale s coisas criadas. Habitualmente essa pala-              mo, insistindo ao mesmo tempo no fato de que
vra  usada em sentido mais geral. Diz Hei-                   as E. de que se fala na lgica no so redut-
degger: "Chamamos de E. muitas coisas, em                     veis a dados sensveis, portanto no so enti-
sentidos diferentes. E.  tudo aquilo de que fa-              dades reais (Meaning and Necessity, A. 4).
lamos, aquilo a que, de um modo ou de outro,                      ENTTMEMA (gr. v8ur|na; lat. Enthymema;
nos referimos; E.  tambm o que e como ns                   in. Enthymeme, fr. Enthymme, ai. Entbymem;
mesmos somos" (Sein und Zeit,  2). Mas nes-                  it. Entimemd). Segundo Aristteles, silogismo
se sentido generalssimo prefere-se hoje a pa-                fundado em premissas provveis ou em signos
lavra entidade (v.).                                          (An. pr., 70 a 10);  o silogismo da retrica. O
     ENTELQUIA (gr. vTe^%eicx; lat. Ente-                  E. fundado em premissas provveis nunca con-
 lechia; in Entelechy fr. Entlchie, ai. Enteleckie,         clui necessariamente, pois as premissas prov-
 it. Entelechid). Termo criado por Aristteles pa-            veis valem na maioria das vezes, mas nem sem-
ra indicar o ato final ou perfeito, isto , a rea-            pre. O E. fundado em signos s vezes conclui
lizao acabada da potncia {Met., IX, 8, 1050                necessariamente. Assim, quando se diz que al-
 a 23). Nesse sentido Aristteles definiu a alma              gum est doente porque tem febre, ou que
como "a E. de um corpo orgnico" (De an.,                     uma mulher deu  luz porque tem leite, cria-se
II, 1, 412 a 27). O termo que Ermolau Brba-                  um silogismo do qual simplesmente se omite a
ro traduzia para o latim como perfectihabia                   premissa maior, ou seja, que quem tem febre
(LEIBNIZ, Thod., I,  87) foi retomado por Leibniz           est doente, ou que toda mulher que deu  luz
para indicar as substncias simples ou manadas                tem leite (Ret., I, 1357 a, pp. 33 ss.). Quando o
criadas, pois elas tm certa perfeio ou auto-               signo  uma prova segura, vale como termo
suficincia que as torna origens das suas aes               mdio de um silogismo demonstrativo do qual
internas e, por assim dizer, "autmatos incor-                se omitiu uma premissa considerada j conhe-
preos" (Monad.,  18). Na filosofia contempo-                cida (An. pr., 70 b 1 ss.). Este segundo signifi-
rnea, esse termo foi retomado pelo bilogo                   cado de E. foi acolhido pela lgica medieval,
Hans Driesch, que nele centrou o seu vtalsmo                que o considerou um "silogismo imperfeito",
(v.). Para Hans Driesch, a E.  o princpio da                em que se deixa de expor uma premissa, como
vida nos seres animados: fator espiritual, irre-              quando se diz "Todo animal corre, logo todo
dutvel a agentes fsico-qumicos (A alma como                homem corre, omitindo a premisssa 'todo ho-
fator elementar da natureza, 1903; O vitalis-                 mem  animal'" (PEDRO HISPANO, Summ. log.,
 mo, 1906).                                                   5.04; ABELARDO, Dialectica, edio de Rijk, p.
     ENTIDADE (lat. Entitas; in. Entity, fr. Entit,          463).
 ai. Entitt; it. Entit). Objeto existente no sen-              ENTROPIA (in. Entropy, fr. Entropie; ai.
tido 1". da palavra existncia, provido de um                 Entropie, it. Entropia). A noo de E. est vin-
 modo de ser especificamente definvel. Esse                  culada ao segundo princpio da termodin-
 termo foi introduzido por Duns Scot, que o                   mica, formulada por Sadi Carnot em 1824 e
 utilizou para distinguir o modo de ser do indi-              enunciada em termos matemticos por Clau-
 vduo, que ele chama de entitas positiva (o                  sius (1850). Esse princpio afirma que o calor
 mesmo que baecceitas), do modo de ser da na-                 s passa do corpo mais quente para o corpo
 tureza ou da espcie, que ele chama de entitas               mais frio, e que em toda transformao de
  quiddtativa(Op. Ox., II, d. 3, q. 6). E. positiva          energia num sistema fechado ocorre a degrada-
 seria, p. ex., Scrates; E. quiditativa, a espcie           o da energia, ou seja, a perda da energia total
 homem. Essa terminologia foi incorporada pela                disponvel no sistema. Chama-se degradao a
 escola scotista, sendo comumente empregada                   passagem de uma forma de energia para outra
 nas discusses sobre individuao, no sc. XIV.              forma que no possa ser acompanhada pela
 Leibniz aludiu a essas discusses numa de suas               transformao inversa completa. Assim,  sem-
ENTROPIA                                             335                                     ENTUSIASMO

pre possvel a transformao completa de ener-             tureza de um sistema. Como a E.  constituda
gia mecnica em calor, mas a transformao in-             pela equivalncia entre as possibilidades de
versa nunca  completa porque s uma parte                 desenvolvimento de um sistema, a informao,
do calor pode ser transformada em energia me-              ao eliminar algumas dessas possibilidades, 
cnica. O calor, portanto,  considerado uma               uma E. negativa. Estabelece-se, assim, a equi-
forma inferior ou "degradada" de energia; por              valncia entre E. e falta de informao e entre
isso, o segundo princpio da termodinmica                 informao e E. negativa. Mas como, na trans-
chamado de "princpio de degradao da ener-               misso de qualquer informao, tem-se uma
gia". E.  a funo matemtica que exprime                 perda de informao, admite-se que, assim
a degradao da energia que infalivelmente                 como nos sistemas fsicos, a E. tende a crescer
ocorre em toda transformao. O princpio                  tambm no campo da informao; por isso, a
da E. chamou sempre a ateno dos filso-                  medida da informao pode ser definida pelo
fos, porque estabeleceu, em nvel cientfico, a            crescimento correspondente da E. negativa.
irreversibilidade dos fenmenos naturais. De                   ENTUSIASMO (gr. v9o"ucnaa|i,; in. En-
fato, para a mecnica clssica ou newtoniana,               thusiasm; fr. Enthousiasme, ai. Enthusiasmus;
todos os fenmenos so reversveis: para eles,             it. Entusiasmo). Em sentido prprio a inspira-
o tempo pode transcorrer indiferentemente em               o divina, donde o estado de exaltao que
uma ou outra direo, do passado para o futu-              ela produz, com a certeza de possuir a verda-
ro ou do futuro para o passado. O t das equa-              de e o bem. A primeira crtica do E. do ponto
es que exprimem o comportamento dos fe-                  de vista da filosofia  de Plato, em Ion. este
nmenos mecnicos  uma varivel contnua,                 pretende ciemonstrar que a arte do rapsodo,
que no tem sentido determinado. O princpio               assim como qualquer outra atividade que de-
da E., ao contrrio, estabelece um sentido para            penda exclusivamente de inspirao divina, no
os fenmenos, qual seja, a sua irreversibilidade            realmente uma arte, porque no d nada a
no tempo. Cientistas e filsofos do fim do sc.            conhecer (Ion, 538; cf. Men., 99 c). Com o predo-
XIX algumas vezes se dedicaram  previso da               mnio da concepo religiosa em filosofia, ou
morte do universo pela degradao total da                 seja, com o Neoplatonismo, o juzo sobre o E.
energia, ou seja, pelo alcance do mximo de E.,            muda: para Plotino,  o meio de alcanar o es-
ou a excogitar possveis meios de salvar o uni-            tado final da viso perfeita, o xtase (Enn., VI,
verso dessa morte (cf., p. ex., S. ARRHENIUS,              9, 11, 13). Os neoplatnicos do Renascimento
Vvolution des mondes; trad. fr., Seyrig, 1910).           (Ficino e Pico) retomaram o conceito de E. no
Outros deram uso mais filosfico  noo, en-              mesmo sentido.  um dos conceitos centrais da
trevendo nela a estrutura fundamental do tem-              filosofia de G. Baino, que concebeu a filosofia
po, ou seja, a sua irreversibilidade. Reichen-             como religio da natureza, cujo instrumento
bach utilizou a E. para a determinao da                  principal  o E , que ele designava com v-
direo do tempo. "A direo do tempo ex-                  rios nomes ("furor herico", raptus ments,
pressa-se para ns nas direes dos processos              contractio mentis, etc). A Bruno deve-se tam-
dados pelos sistemas parciais, que so numero-             bm a distino entre E. intelectual ou natural
sos no nosso ambiente. Todos esses processos               e E. religioso: este  prprio daqueles que "por
vo na mesma direo, a direo da E. crescen-             se terem feito habitao de deuses ou espritos
te. Esse fato est estreitamente ligado ao cresci-         divinos, dizem e operam coisas maravilhosas
mento geral da E. do universo, e  atravs da              sem que destas eles ou outros entendam a ra-
reiterao desse fato nos sistemas parciais que            zo". Graas ao E. intelectual, ao contrrio,
o desenvolvimento da E. no universo nos indi-              ocorre que alguns homens "com terem inato
ca a direo do tempo" (TbeDirection o/Time,               esprito lcido e intelectual, por um estmulo
1956, p. 131). Na verdade, a cincia hoje no              interno e fervor natural, suscitado pelo amor 
parece autorizar a transposio dos sistemas fe-           divindade,  justia,  verdade,  glria, pelo
chados ou parciais, nos quais vale a E., para o            fogo do desejo e pelo sopro da inteno, agu-
sistema geral do universo. Assim, no  fcil              am os sentidos, e no enxofre da faculdade
dizer qual o valor das especulaes filosficas            cogitativa acendem o lume racional com que
em torno dessa noo. Na teoria da informa-                vem mais que de ordinrio; estes, ao fim,
o (v.), a partir das obras de Shannon e                  no falam nem operam como vasos e instru-
Wiener, utilizou-se o conceito de E. para medir            mentos, mas como artfices principais e eficien-
a falta de informao sobre os detalhes da na-             tes" (Degli eroici furori, III). Mas esse E. natu-
ENTUSIASMO                                            336                                    ENUMERAO


ral e intelectual, como se v, tem o mesmo ca-              entendida" e s concedia aos poetas o "entu-
rter do outro: d aos sentidos e ao pensamen-              siasmo razovel" (Dictionnaire philosophique,
to um poder sobre-humano, elimina os limi-                  art. Enthousiasme, 1765). As Cartas Persas de
tes em que o homem se acha "ordinariamente"                 Montesquieu so outra manifestao da mesma
encerrado e  assumido como justificao da                 tendncia. Em Kant a crtica do E. era crtica do
infalibilidade ou da impecabilidade do homem.               fanatismo, e a luta contra o fanatismo era o obje-
Quando, a partir da segunda metade do sc.                  tivo fundamental de sua atividade filosfica (v.
XVII, com o Empirismo e o Iluminismo, esses                 FANATISMO). Mas, por uma das no raras ironias
limites so claramente reconhecidos, o E. tam-              da histria, essa luta deveria prenunciar uma
bm  reconhecido pelo que : uma justifica-                das maiores exploses de E. fantico conhe-
o do dogmatismo e da intolerncia;  o que                cidas pela filosofia: o Romantismo. Por isso, no
faz Locke, em famoso captulo de Ensaio (IV,                 de surpreender a defesa do E. num dos mani-
19). O E., que no se funda nem na razo nem                festos do Romantismo europeu, De VAllemagne,
na revelao divina, no  seno uma presun-                de Madame de Stal (ed. de 1813, p. 603).
o de infalibilidade: a luz a que os entusiastas               Na filosofia contempornea, Jaspers definiu
fazem meno  "um ignisfatuus que os far                  o E. de acordo com o conceito tradicional e
girar continuamente dentro desse crculo:  uma             apreciou-o positivamente. "Na atitude entusis-
revelao, porque eles acreditam nisso firme-               tica", disse ele, "o homem se sente tocado em
mente; e acreditam firmemente porque  uma                  sua substncia mais ntima, em sua essencia-
revelao" Qbid., IV, 19, 10). Segundo Locke,               lidade ou -- o que d no mesmo -- sente-se
esse crculo  tudo o que o E. consegue en-                 arrebatado e comovido pela totalidade, pela
contrar como apoio. Leibniz concordava com
                                                            substancialidade, pela essencialidade do mun-
Locke aduzindo certo nmero de exemplos de
E. fantico e observava: "As dissenses dessas              do" (Psychologie der Weltanschauungen, I, C;
pessoas entre si deveriam convenc-las de                   trad. it., pp. 138 ss.). Contudo, Jaspers distin-
que seu pretenso testemunho interno no                    guiu o E. do fanatismo, no sentido de que,
absolutamente divino e que precisa de outros                enquanto o entusiasta "se obstina em manter
sinais para justificar-se" (Nouv. ess., IV, 29,             firmes suas idias, mas tem vivacidade e vitali-
 16). Mais tarde, Leibniz aderia s idias expres-         dade para aperceber-se do novo", o fantico
sas por Shaftesbury (Recueil de diverses pices             "fica fechado em determinada frmula ou
surlapbilosophie, Ia religon naturelle, Vhistoire,         numa idia fixa" (Ibid., p. 162).
les mathmatiques, etc, de Leibniz, Clarke,                     ENUMERAO (in. Enumeration; fr. nu-
Newton, etc, Lausanne, 3a- ed., 1759, II, pp.               mration; ai. Aufzhlung; it. Enumerazione).
311-34).                                                    A quarta regra do mtodo enunciada por Des-
                                                            cartes na segunda parte do Discurso-. "Fazer
    A Carta sobre o E. (1708) de Shaftesbury esta-          em tudo E. to completas e revises to gerais
belece pela primeira vez a oposio entre E. e              que se esteja seguro de nada omitir". Assim
ironia, que foi um dos temas preferidos do ilu-
                                                            expressa, essa regra refere-se mais ao controle
minismo setecentista e  um dos temas do ilumi-
nismo de todos os tempos. Shaftesbury insistiu              dos resultados do procedimento racional do
na capacidade liberadora do riso: "Estou seguro             que  descoberta desses resultados. Tem maior
de que s existe um caminho para salvaguardar               alcance a regra correspondente (a VII) de
os homens e preservar o tino do mundo: a                    Regulae ad directionem ingenii, em que a E. 
liberdade espiritual. Ora, o esprito nunca ser            identificada com a induo: "Essa E. ou indu-
livre se no houver ironia livre, porque contra             o , portanto, a investigao de tudo o que
as grandes extravagncias e os humores bilio-               se refere a dada questo, to diligente e cuida-
sos outro remdio no h alm desse" {A Letter              dosa que a partir dela conclumos com certeza
 concerningEnthusiasm, 2; trad. it., Garin, p. 44).         e evidncia que nada negligenciamos... Por
A razo e o que nela se apoia nada tm a temer              enumerao suficiente ou induo entendemos
do ridculo, mas o ridculo  uma arma podero-              somente aquela da qual se conclui uma verda-
sa contra a aparncia que no  substncia, logo            de com mais certeza do que com qualquer
contra o saber ilusrio e a virtude hipcrita. A            outro gnero de prova, salvo pela simples in-
obra de Voltaire inspirou-se nessa concepo                tuio". Com isso parece que Descartes faz re-
fundamental. O prprio Voltaire afirmava que o              ferncia ao procedimento que Bacon chamara
E. " sobretudo a herana da devoo mal-                   de "E. simples", em que via uma forma imper-
ENUNCIADO                                            337                                       EPICURISMO


feita de induo. Com efeito, para Bacon, essa             cia, se distingue E. de proposio, diz-se que o
induo  "um expediente pueril, que leva a                E.  verdadeiro quando exprime uma proposi-
concluses precrias, expe ao perigo dos ca-              o verdadeira (KNEALE AND KNEALE, The
sos contrrios e conclui como pode de um n-               Development of Logic, 1962, p. 53). Sobre a
mero menor de provas do que as necessrias".               relao entre E. e proposio, v. PROPOSIO.
A essa induo Bacon contrape a verdadeira,                   2. Qualquer expresso lingstica de sentido
que precede por eliminao e excluso e                   completo. Neste sentido, mais estritamente gra-
semelhante ao procedimento diairtico de Plato            matical, o termo indica no s a expresso de-
(Nov. Org., I, 105). A crtica da induo por E.           clarativa (assero ou proposio), como tam-
simples foi depois repetida por Stuart Mill                bm as dvidas, os comandos, as exortaes,
(Logic, III, 3,  2). A E. simples, nesse sentido,         as apstrofes, etc, frases que no podem ser
parece ser a induo de que falava Aristteles             declaradas verdadeiras ou falsas.
(v. INDUO).
                                                              3. Mais raramente, quaisquer expresses lin-
    ENUNCIADO (gr. cQLioc; lat. Enuntiatum,             gsticas, tambm de sentido no completo;
Enuntiatio-, in. Sentence, fr. Enonce, ai. Aus-            p. ex., uma palavra isolada como "vermelho"
sage, it. Enunciat). 1. Expresso lingstica de          ou "quadrado". QUINE tambm considera E. uma
sentido completo, que  verdadeira ou falsa.               interjeio como "ai" (Word and Object, 1960,
Neste sentido, tambm se costuma falar de E.               3).
indicativo ou declarativo, ou de assero (v.).               ENVOLVER (lat. Lnvolvere, in. involu; ai.
    Conquanto corresponda ao logos apophan-                Lnvolvieren; it. Lnvolgere). Implicar, conter. Spi-
tikse Aristteles (De interpr., 4, 17 a 2), essa         noza dizia, com referncia  Causa Primeira,
noo foi formulada claramente pelos esti-                que "sua essncia envolve a existncia" (Et., I,
cos, que definiram o E. (axiom) como aquilo               Def. 1). Esse termo corresponde ao ingls to
que pode ser verdadeiro ou falso e o distingui-            enta.il, usado para indicar a implicao estrita
ram da interrogao, do comando, do juramen-
                                                           ou forma. V. IMPLICAO.
to, da apstrofe e da expresso dubitativa (DIG.
                                                               EONS (gr. ociwve). Termo empregado pelos
L. VII, 65-68). Nos gramticos latinos ao termo
                                                           gnsticos (sc. II), especialmente por Valenti-
estico corresponde o termo effatum ou pro-
loquium (AULO GLIO, Noct. ti, XVI, 18, 2-8;
                                                           no, para designar Deus e os seres "eternos"
APULEIO, De interpr, p. 205), e Ccero preferiu            que dele emanam (CLEMENTE, Strorn., IV, 13.89).
enunciatum (De fato, I, 1). Na lgica medie-                   EPAGGICO (gr. TraYWyiK; in. Epagogic,
val, esse termo foi usado alternadamente com               fr. pagogique; ai. Epagogik, it. Epagogico).
proposio. Pedro Hispano diz que "proposio",            Indutivo (v, INDUO).
"questo", "concluso" e "enunciao" so ter-                 EPICURISMO (in. Epicureanism; fr. picu-
mos substancialmente idnticos que s se dis-              risme, ai. Epikureismus; it. Epicureismo). Escola
tinguem porque a questo  aquilo de que se                filosfica fundada por Epicuro de Samos no
duvida, a concluso aquilo que se demonstra                ano 306 a.C. em Atenas. Suas caractersticas,
com um argumento, a proposio  aquilo que                que tm em comum com as demais correntes
se pe na premissa e a enunciao  aquilo                 filosficas do perodo alexandrino a preocupa-
que se pronuncia sem condies (absolute)                  o de subordinar a investigao filosfica  exi-
(Summ. log., 5.06). Esta identificao continua            gncia de garantir a tranqilidade do esprito ao
na lgica posterior (cf. p. ex. JUNGIUS, Lgica            homem, so as seguintes: 1B sensacionsmo,
hamburgensis, 1638, II, I, 2).                             princpio segundo o qual a sensao  o critrio
   Freqentemente esse termo  usado com o                 da verdade e do bem (este ltimo identificado,
significado acima definindo na lgica contem-              portanto, com o prazer); 29 atomismo, com que
pornea (cf. CARNAP, Lntroduction to Semantics,            Epicuro explicava a formao e a transformao
 37; CHURCH, lntroduction to Mathematical                 das coisas por meio da unio e da separao
Logic,  04). Na lgica, E. no eqivale  sim-            dos tomos, e o nascimento das sensaes co-
ples emisso de voz (utteranc), mas a uma                 mo ao dos estratos de tomos provenien-
frmula ou esquema repetvel, uma norma                    tes das coisas sobre os tomos da alma; 3S sem-
aproximavel. QUINE considera-o uma seqn-                 atesmo, pelo qual Epicuro acreditava na exis-
cia (em sentido matemtico) dos seus sucessi-              tncia dos deuses, que, no entanto, no desem-
vos caracteres ou fonemas ( Word and Object,               penham papel nenhum na formao e no
 40). Quando, conforme ocorre com freqn-                governo do mundo.
EPIFENMENO                                           338                                               POCA

   EPIFENMENO (in. Epipbenomenon; fr.                      car, numa cadeia polissilogstica, o sentido em
piphnomne, ai. Epiphnomenon; it. Epife-                 direo ao condicionado, e a expresso perpro-
nomeno). Em alguns positivistas ingleses do                 svllogismos para indicar o sentido em direo
sc. XIX (Huxley, Clifford, etc), essa palavra              s condies. As duas expresses so usadas
designou a conscincia, considerada fenmeno                na dialtica transcendental para esclarecer o pro-
secundrio ou acessrio que acompanha os fe-                cedimento mediante o qual a razo chega s
nmenos corpreos, mas  incapaz de reagir                  idias transcendentais, obtidas procedendo per
sobre eles (V. MATERIALISMO).                               prosyllogisnios, quando se considera como dada
   EPIGNESE (in. Epigenesis; fr. pignse, ai.            e completa a srie de condies, ou seja, a totali-
Epigenese, it. Epigenes). Com esse nome G.                 dade das premissas (Crt. R. Pura, Dialtica, 1,
F. Wolff designou sua teoria sobre a gerao                se. 2) (v. POLISSILOGISMO).
dos organismos animais, segundo a qual os                      EPISTEMOLOGIA. V. CONHECIMENTO, TEO-
rgos de um ser vivo no esto preformados                 RIA DO.
no vulo ou no embrio, mas se originam ex                     POCA (gr. inoyr\\ in. Epoch; fr. poque, ai.
novo de uma matria indiferenciada (Teoria da               Epoche, it. poca). Tendo como referncia o an-
gerao, 1759). Essa teoria, que Wolff baseava              tigo significado astronmico de . como ponto
em observao microscpica dos rgos das                   do tempo em relao ao qual so definidas as
plantas e do embrio do pintainho, foi um golpe             posies dos astros e contados seus movimen-
rude na teoria do preformismo, que tinha sido               tos (cf. PTOLOMEU, Alm., III, 9), essa palavra s
defendida no mesmo sculo por Malpighi e                    vezes  usada para indicar um acontecimento
Bonnet. Kant observava, a propsito dessa teo-              de especial importncia, que estabelece ou per-
ria, que ela tem a vantagem de atribuir  natu-             mite reconhecer o carter de um perodo hist-
reza uma ao prpria que difere do simples                 rico. Nesse sentido, diz-se que certo aconteci-
desenvolvimento; desse modo, ''lanando mo                 mento "faz .". Essa palavra passa a significar
o menos possvel do sobrenatural, deixa por                 o perodo histrico caracterizado pelo aconteci-
conta da natureza tudo o que se segue ao pri-               mento. Essa noo distingue-se de idade (v.)
meiro comeo" (Crt. do Juzo,  81). Kant cha-             porque, enquanto esta ltima  o conceito de
mou a sua prpria doutrina de "E. da razo                  uma lei de sucesso dos perodos histricos, a
pura", ao admitir que as categorias do intelecto            .  o conceito do carter central e determinante
so o fundamento da possibilidade de expe-                  de certo acontecimento histrico. Nesse sentido,
rincia, ao contrrio da doutrina tradicional,              no incio do sc. XIX, Saint-Simon distinguia as
segundo a qual  a experincia que torna poss-             . "crticas" e as "orgnicas" (v. CRISE). Hegel fa-
veis as categorias (Crt. R. Pura,  27) (v. PRE-           lava das . da histria do mundo como de vrios
FORMAO).                                                  graus (Stufen) do desenvolvimento unitrio
   EPIQUIA. V. EQIDADE.                                   dessa histria, distinguindo a . caracterizada
   EPIQUIREMA (gr. 7UXepr||Lioc; lat. Epichi-             pela unidade do esprito com a natureza, que 
rema; in. Epicheirema; fr. pichrm; ai.                   o Mundo oriental, a . caracterizada pela separa-
Epicheirem; it. Epicherema). Esse termo, que                o dos dois termos, que se realizou no mundo
significa empresa ou "tentativa", foi definido por          grego como ideal de liberdade individual e no
Aristteles como "raciocnio dialtico" (Top., VIII,        mundo romano como subordinao do indiv-
11, 162 a 16) (v. DIALTICA). Na realidade, esse            duo ao Estado, e . germnica, que se realizou
termo tambm  usado por Aristteles para in-               no mundo cristo, na qual "o esprito divino
dicar o artifcio que consiste em esconder ou               veio ao mundo e assumiu seu lugar no indiv-
expor s imperfeitamente algumas premissas                  duo, que agora est completamente livre, tendo
da argumentao. Por isso, na Lgica moderna,               em si a liberdade substancial" (Phlosophie der
o termo E. passou a indicar um prossilogismo                Geschichte, ed. Lasson, pp. 136-37).
(v.) cujas premissas so expressas de forma in-                Mas foi Dilthey quem introduziu a noo de
completa.                                     G. P.         . na. metodologia historiogrfica. Segundo
    EPISSILOGISMOn. Episyllogisni; fr. pisyl-             ele, .  uma estrutura que tem centro em si
 logism; ai. Episyllogismus; it. Episillo-gismo). Silo-     mesma e por isso interliga num todo nico
gismo que assume como uma das suas premis-                  todas as suas manifestaes. Cada pessoa que
sas a concluso de outro silogismo. Este ltimo             nela vive tem em comum a medida das suas
ser ento chamado de prossilogismo (v.). Kant              aes, de seus sentimentos e sua compreen-
usou a expresso per episyllogismos para indi-              so. A tarefa da anlise histrica  rastrear a
EPOCHE                                               339                                           EQIDADE

coincidncia de objetivos, valores e modos de              sada, ou seja, uma atitude desvinculada de
pensar que constituem ., pois  s em rela-               qualquer interesse natural ou psicolgico na
o com a estrutura total da . que se pode                existncia das coisas do mundo ou do prprio
calcular a importncia da contribuio de um               mundo na sua totalidade. Com a E., diz Husserl,
indivduo (DerAufbau dergeschichtlichen Welt,              ''pomos fora de ao a tese geral prpria da
em Gesammelte Schriften, VII, p. 155). Ado-                atitude natural e pomos entre parnteses tudo
tando esses conceitos, Spengler acrescentava               o que ela compreende; por isso, a totalidade do
o carter de necessidade: "Um acontecimento                mundo natural que est sempre 'aqui para ns',
faz . quando marca uma virada necessria,                 'ao alcance da mo' e que continuar a perma-
uma guinada do destino no desenvolvimento                  necer como 'realidade' para a conscincia, ain-
 de uma cultura. Um acontecimento fortuito, que            da que nos agrade coloc-la entre parnteses.
 a imagem cristalizada da superfcie histri-             Fazendo isso, como  de minha plena liberda-
ca, poderia ser representado por outros casos              de faz-lo, no nego o mundo, como se fosse
 correspondentes; a .  necessria e prede-               um sofista, no ponho em dvida o seu existir,
terminada" (Der Untergang des Abendlandes,                 como se fosse um ctico, mas exero a E.
 I, 2, 17). A esse uso est ligado o significado           fenomenolgica, que me veta absolutamente
que Heidegger d a esse termo: "Toda E. da                 qualquer juzo sobre o existente espcio-tem-
histria universal  uma . do ser. A essncia             poral" (Ideen, I,  32). A E. fenomenolgica dis-
epocal do Ser entra no carter temporal ntimo             tingue nitidamente a filosofia de todas as ou-
e oculto do Ser e caracteriza a essncia do tempo          tras cincias que esto interessadas na existncia
pensada no Ser" (Holzwege, p. 311; cf. Chiodi,             do mundo e dos objetos nele compreendidos;
Vltimo Heidegger, 1952, p. 29; ID., Lvsisten-             por isso, faz do filosofar uma atitude puramen-
zialismo di Heidegger, 2a ed., 1955, pp. 191-              te contemplativa,  qual pode revelar-se, em
92): Jaspers fala de uma . axial, que correspon-          sua genuinidade, a prpria essncia das coisas
deria  idade histrica que vai do sc. VIII ao            (Ibid.,  90; Cart. Med.,  8). Husserl vale-se da
sc. II a.C, na qual ocorreram alguns acon-                E. em vrios nveis da sua investigao: para
tecimentos de relevo na histria do mundo (pe-             efetuar a reduo da experincia  "esfera de
rodo clssico da Grcia; Confcio e Lao-ts na            propriedade" que pertence ao meu eu e da
China; Upanishad e Buda na ndia; Zaratus-                 qual  eliminada qualquer remisso s outras
tra na Prsia; os profetas na Palestina, etc). A           subjetividades (Cart. Med.,  44); para atingir o
 novidade dessa .  que nela "o homem to-                 chamado "mundo da vida" com a suspenso
 mou conscincia do ser em geral, de si mes-               da validade de todas as cincias objetivas (Krisis,
mo e dos seus limites; tomou conscincia de                 35); para alcanar "o eu constitutivamente
que o mundo  temvel, de sua prpria fraque-              operante na intersubjetividade" (Ibid.,  50);
za. Fez perguntas fundamentais, partiu do abis-            enfim, para alcanar "o ego absoluto, o ego
mo para a libertao e para a redeno" (Ein-              enquanto centro funcional ltimo de qualquer
fhrung in die Philosophie, 1950, cap. IX; trad.           constituio" (Ibid.,  55). Com este ltimo ato
                                                           ruma-se para o ponto final da E., pois com o
                                                           ego absoluto se est "na esfera da evidncia
    EPOCH (gr. ino%\\). Suspenso do juzo,               apocltica" (Ibid.,  55).
que caracteriza a atitude dos cticos antigos,
particularmente de Pirro; consiste em no aceitar              EQUAO LGICA (in. Logical equation;
nem refutar, em no afirmar nem negar. O                   fr. Equation logque, ai. Logische Gleichung; it.
contrrio dessa atitude  o dogmatismo, em que             Equazione lgica). Na lgebra da lgica (v.)
se d assentimento a alguma coisa obscura,                 designa-se com esse termo uma frmula que
que constitui objeto de pesquisa cientfica (SEXTO         contm o sinal "=",  esquerda do qual situam-
EMPRICO, Pirr. hyp., I, 10, 13). Segundo o ceti-          se letras (termos) ligadas por operaes lgi-
cismo, essa atitude era a nica possvel para se           cas,  direita o smbolo "O" ou ento "1". A
atingir a imperturbabilidade. Com efeito, "quem            soluo consiste em eliminar incgnitas, se-
duvida de que algo seja bom ou mau por natu-               gundo tcnicas elaboradas por vrios alge-
reza no evita nem persegue coisa alguma com               bristas lgicos.                                 G. P.
desejo: por isso,  imperturbvel" (Ibid., I, 28).             EQIDADE (gr. juemot; lat. Aequitas- in.
Na filosofia contempornea, com Husserl e a                Equity, fr. quit; ai. Blgkeit; it. Equit). Apelo
filosofia fenomenolgica em geral, a E. tem fi-             justia voltado  correo da lei em que a justia
nalidade diferente: a contemplao desinteres-             se exprime. Esse  o conceito clssico de E.,
EQIPOLNCIA                                          340                                           ERTICA


esclarecido por Aristteles e reconhecido pelos                EQUIVOCAO (in. Equivocation; fr. Equi-
juristas romanos. Diz Aristteles: "A prpria na-           vocation; ai. Aequivokation; it. Equivocazione).
tureza da E.  a retificao da lei no que esta se          No latim medieval, usava-se aequvocatio para
revele insuficiente pelo seu carter universal"             traduzir a u.(0V\)U.a de Aristteles (v. HOMO-
{Et. nic, V, 14,1137 b 26). A lei tem necessaria-           NMIA).
mente carter geral; por isso s vezes sua aplica-              EQUVOCO1 (in. Equivocation; fr. Equivo-
o  imperfeita ou difcil, em certos casos. Nes-          que, ai. Aequivok, it. Equivoco). Segundo Hei-
ses casos, a E. intervm para julgar, no com               degger, uma das manifestaes essenciais, jun-
base na lei, mas com base na justia que a pr-             tamente com a tagarelice (v.) e a curiosidade
pria lei deve realizar. Portanto, nota Aristteles,         (v.) da existncia impessoal cotidiana. No E.
o justo e o eqitativo so a mesma coisa; o eqi-           "tudo parece ser compreendido, apreendido e
tativo  superior, no ao justo em si, mas ao jus-          expresso com pureza, e no entanto no ; ou
to formulado em uma lei que, em virtude da sua              ento no parece, mas ". Ele "oferece  curio-
universalidade, est sujeita ao erro. Fundamen-             sidade o que ela est procurando e  tagarelice
tando-se em conceito anlogo, Kant considera-               a iluso de que com ela tudo se resolve" (Sein
va, porm, que a E. no se presta a uma autnti-            undZeit,  37).
ca reivindicao jurdica e que, portanto, no
                                                               EQUVOCO2. Adj. V. UNVOCO.
cabe aos tribunais, mas ao tribunal da conscin-
cia {Met. der Sitten, Ap.  Intr., 1).                         ERETRACOS (gr.'EpexpiKO). Assim foram
                                                            chamados, devido  origem de um dos funda-
    EQIPOLNCIA (gr. iaowaua; lat. Ae-                   dores, Menedemos de Ertria, os seguidores
quipollentia; in. Equipollence, fr. quipollence,           da escola socrtica fundada por Fdon, o disc-
ai. Aequipollenz; it. Equipollenza). Relao en-            pulo de Scrates que d nome a um dilogo de
tre enunciados diversos que tem o mesmo va-                 Plato (DiG. L, II, 17, 126). Mas das doutrinas
lor de verdade. A doutrina da E. foi exposta
                                                            dessa escola nada se sabe.
pela primeira vez por Galeno na obra Sobre as
                                                               ERSTICA (gr. piOTVKri T^vri; in. Eristic; fr.
Proposies Eqipolentes, reexposta em latim
                                                            ristique, ai. Eristik, it. Eristica). Arte de com-
por Apuleio (no seu comentrio a De inter-
pretatione), do qual passou  lgica medieval               bater com palavras, ou seja, vencer nas discus-
(cf. PEDRO HISPANO, Summ. log., 1.24-1.27).
                                                            ses. Foi cultivada na Antigidade pelos sofis-
Jungius distinguia a E. gramatical, que existe              tas e pela escola megrica, cujos membros
entre frases de igual significado, embora com-              foram chamados, por antonomsia, de "ers-
postas de palavras diferentes, da E. lgica, que            ticos" (DiG. L, II, 106). Em Eutidemos, Plato
ocorre entre enunciados simultaneamente ver-                d um exemplo vivo do modo como essa arte
dadeiros ou falsos que correspondam ao mes-                 era exercida em seu tempo. Os interlocutores
mo objeto extramental: como no caso dos dois                do dilogo, os irmos Eutidemos e Dioniso-
enunciados: "Alguns homens no so amantes                  doro, divertem-se em demonstrar, p. ex., que
da sabedoria" e " falso que todos os homens                s o ignorante pode aprender, e logo depois
sejam amantes da sabedoria" {Log., II, 10, 2-3).            que s o sbio aprende; que se aprende s o
                                                            que no se sabe e depois que se aprende s o que
   No lgica contempornea a E. (que se
                                                            se sabe, etc. O fundamento de semelhantes
chama tambm equivalncia)  simbolizada
pelo signo = e definida, de acordo com a                    exerccios  a doutrina compartilhada por me-
tradio, como coincidncia de dois enun-                   gricos, sofistas e cnicos, de que o erro no 
ciados em seu valor de verdade (W. V. O.                    possvel porque, no se podendo dizer o que
QUINE, Methods of Logic,  9; CARNP, Mea-                  no  (que eqivale a no dizer), sempre se diz
ning and Necessity, 3).                                     o que , logo a verdade.
   EQIPROBABLISMO. V. INDIFERENA, PRIN-                     ERLEBNIS. V. VIVNCIA.
CPIO DE.                                                      EROS. V. AMOR.
   EQUIVALNCIA (in. Equivalency, fr. qui-                    EROTTICO. V. CATECISMO.
valence, ai. Aequivalenz; it. Equivalenza). 1.                 ERTICA (fr. rotique, ai. Erotik, it. Er-
Relao entre dois objetos que tenham o mes-                tica). Algumas vezes, utilizou-se esse termo
mo valor: p. ex., entre duas figuras planas que             para designar uma desejada (mas no realiza-
tenham a mesma rea ou duas figuras slidas                 da) cincia do amor, da felicidade (RICKERT,
que tenham o mesmo volume.                                  System der Philosophie, 1921) ou da vida emo-
   2. O mesmo que eqipolncia (v.).                        cional em geral.
ERRO                                                 341                                               ERRO

    ERRO (gr. i|/5o; lat. Error, in. Error, fr.         nesto, no haver nenhuma diferena e a pr-
Erreur, ai. Irrtum; it. Error). O E. no perten-          pria investigao ser intil. A possibilidade do
ce  esfera das proposies (ou dos enuncia-               E. condiciona, em outros termos, a investiga-
dos), mas  do juzo (v.), das atitudes va-                o da verdade e no se pode negar sem negar
lorativas. Com efeito, no consiste em uma                 a prpria verdade. Por isso, Plato abandona a
proposio falsa, embora uma proposio falsa              tese eletica da necessidade do ser e define o
seja um elemento do E. consistente em acre-                ser como possibilidade (dynamis, Sof., 247 e).
dit-la ou julg-la verdadeira. Elemento do E.             Como possibilidade, o ser no  nem um nem
tambm podem ser uma proposio verdadei-                  muitos, nem movimento nem repouso, etc, mas
ra, se considerada falsa, e qualquer declarao            pode ser uma coisa ou outra, e tudo est em
de valor -- moral, esttica, poltica, econmica,          ver quais so as determinaes dele que po-
etc. -- se acreditada ou assumida como exata e             dem unir-se e permanecer juntas, e quais, ao
desmentida por critrios ou regras reconheci-              contrrio, so as no suscetveis disso. A cin-
damente vlidos. P. ex.,  um E. acreditar que             cia que estuda as combinaes possveis das
pode haver duas moedas correntes simultanea-               formas (ou gneros) do ser -- cincia anloga
mente no mesmo mercado, pois sabe-se que "a                 gramtica, que estuda as combinaes poss-
moeda ruim expulsa a boa". O erro pode con-                veis das letras, e  msica, que estuda as com-
sistir tambm em julgar um objeto com base                 binaes possveis dos sons --  a dialtica
num critrio estranho ao prprio objeto, ou                (v.). Em vista disso, o E.  simplesmente uma
melhor, ao campo de objetos a que ele perten-              combinao de determinaes do ser e de pa-
ce, ou ento em julgar com base num critrio               lavras que exprimem tais determinaes, a qual
apropriado um objeto no discriminvel por tal             no se conforme s regras da dialtica; em outros
critrio. Tem-se um E. da primeira espcie                 termos, uma combinao que combine ou una
quando se quer decidir da realidade de um fato             o que, com base em tais regras, no pode ser
com base num critrio moral ("no deve, no                combinado ou unido. Portanto, quem diz o falso
pode, ter acontecido assim"). Tem-se um E. da              no diz "o que no " (o que seria impossvel),
segunda espcie quando se quer decidir das                 mas diz algo diferente do que : exprime uma
verdades ou falsidades dos postulados ou pro-              combinao de formas (gneros e espcies) no
posies iniciais das cincias ou de enunciados            conforme s possibilidades objetivas de relao
no significativos. Em geral, pode-se chamar de            entre essas formas. O E.  como um conjunto
E. todo juzo ou valorao que contrarie critrio          de letras sem sentido ou um conjunto de sons
reconhecido como vlido no campo a que se                  sem harmonia (Sof, 263). Essa doutrina plat-
refere o juzo, ou aos limites de aplicabilidade           nica do E.  adaptada por Aristteles aos prin-
do prprio critrio. Portanto, o contrrio de um           cpios da sua filosofia. Aristteles parte de uma
juzo errado no  um juzo "verdadeiro", como             definio do E. que repete a definio encon-
comumente se cr, mas um juzo "correto",                  trada em O Sofista: 'O E.  a negao do que 
"exato" ou "regular"; o oposto de E. poderia ser           ou a afirmao do que no " (Met., IV, 7,1011
a correo. A possibilidade de E. supe duas               b 26). Mas "o que " no  o mesmo para Aris-
condies: d) que haja um critrio vlido de               tteles e para Plato: para este,  a "possibilida-
juzo aplicvel na situao dada; b) que tal cri-          de"; para Aristteles,  a "substncia" ou reali-
trio no seja necessrio e infalvel. Sem a con-          dade necessria. Aristteles procura, portanto,
dio d) no haveria a possibilidade de distin-            definir a possibilidade do E. justamente em re-
guir o E. do que no  E. Sem a condio b) o              lao  substncia, neste caso em seu aspecto
E. seria impossvel em princpio.                          de essncia necessria (Quod quid erat esse).
                                                           Aristteles reafirma a tese platnica de que o E.
    Plato procurou satisfazer essas condies              possvel s onde h "combinao", "sntese"
com a doutrina do E. exposta em O Sofista.                 de elementos diferentes. Onde h inteleco
Plato observou corretamente que o E.  im-                de indivisveis no h possibilidade de E.; este
possvel do ponto de vista dos eleatas e seus              sempre se verifica na sntese (u, o que d na
discpulos, segundo os quais "o ser " e que o             mesma, numa diviso), e o princpio que reali-
no-ser no pode ser nem pensado nem ex-                   za essa sntese  o intelecto (De an., III, 6, 430
presso. Nesse caso, efetivamente, qualquer coisa           b 2). Ora, nessas snteses o intelecto est na
que se diga diz-se o que , por isso diz-se a              verdade "se enuncia a essncia segundo a
verdade. Mas se assim , entre o sofista e o               essncia substancial", mas no est na verdade
filsofo, entre o charlato e o investigador ho-
ERRO                                                    342                                                 ERRO

"se enuncia uma coisa qualquer segundo uma                    do e da hierarquia dos valores que ela implica.
coisa qualquer". Com efeito, para o intelecto                 Mas qual  a causa dessa vontade malfica e
a essncia substancial ou necessria  o que o                como ela  possvel na ordem divina do mun-
branco  para o olho: assim como ningum se                   do? S. Agostinho nega que possa tratar-se de
engana ao perceber o branco, mas algum se                    uma causa positiva e eficiente; trata-se de uma
pode enganar ao achar que o branco percebido                  causa defeituosa ou deficiente. E querer encon-
 um homem, ningum se pode enganar ao                        trar a causa dessas defeces seria como que-
pensar o homem "segundo a sua essncia ne-                    rer ver as trevas ou ouvir o silncio. "As coisas
cessria", ou seja, como "animal racional", mas               que ficam sendo conhecidas no em sua forma
algum se pode enganar afirmando que "este                    positiva, mas como privao de algo, so de
 um homem" ou que "este homem  msico",                     algum modo apreendidas, por assim dizer, exa-
ou seja, realizando snteses ou divises que                  tamente ao no serem conhecidas, tanto que,
no so guiadas pela essncia necessria do                   se as conhecssemos, no as ficaramos conhe-
objeto (Ibid, 430 b 26 ss.)- Com isso, Aristte-              cendo. Quando a acuidade da viso sensvel
les restringe a possibilidade do E.  esfera das              percorre as espcies corpreas, no v trevas
inteleces que no se referem  estrutura                    em lugar algum, a no ser no lugar onde comea
substancial do ser, j que essa estrutura  apreen-           a no ver as coisas. Assim, no cabe a nenhum
dida nos seus princpios com um ato anlogo                  outro sentido perceber o silncio; a no ser ao
percepo das qualidades corpreas, ato que,                  ouvido, que, todavia, adverte-o quando no
como "inteleco do indivisvel", subtrai-se                 ouve nada. Assim, nossa mente v com o inte-
possibilidade de erro. Em outros termos, a es-                lecto as espcies inteligveis, mas onde elas se
trutura necessria do ser exclui a possibilidade              acham em forma negativa conhece-as no as
de E. no que diz respeito ao pensamento do                    conhecendo" (De civ. Dei, XII, 7). Assim, para
ser. O E. fica ento circunscrito  esfera das                S. Agostinho E.  o conhecimento de um
afirmaes acidentais, ou seja, que no tm lu-               no-conhecimento: como ouvir o silncio. Em
gar na cincia. Mas, na realidade, mesmo na                   sentido prprio e rigoroso,  um no conheci-
esfera das afirmaes acidentais  difcil enten-             mento e um no ser: ele no existe. Essa redu-
der, do ponto de vista aristotlico, a possibi-               o do E. ao nada  caracterstica de grande
lidade do E., visto que a necessidade da cincia              parte das doutrinas filosficas tradicionais. Spi-
silogstica, constituindo a medida e o controle               noza expressa-o com a costumeira nitidez: "A
tambm da parte do conhecimento que no                       falsidade consiste na privao de conscincia
tem tal necessidade, elimina, mesmo dessa par-                que est implcita nas idias inadequadas, fa-
te, a possibilidade de erro. Na verdade, a partir             lhas ou confusas". P. ex., os homens erram ao
de Aristteles, o problema que a filosofia deve               se acreditarem livres, porque esto cnscios
enfrentar no  o da verdade, mas o do E., no                 de suas aes, mas desconhecem as causas que
sentido de que os princpios a que habitual-                  as determinam. Assim tambm erram quando
mente a filosofia recorre implicam que o ho-                  acham que o Sol est prximo, porque so
mem est "necessariamente" em verdade e ex-                   ativados pela ao do Sol, mas ignoram sua dis-
cluem, assim, a possibilidade de erro. Portanto,              tncia real (Et., II, 35, scol.). O E., portanto, no
as solues mais comuns do problema do E.                     consiste na simples imaginao (que  a facul-
so as seguintes: Ia) o E. no existe; 23) o E. deve-         dade das idias inadequadas e confusas), mas
se a uma fora que intervm para perturbar o                  na falta de conhecimento, na falta da idia que
funcionamento normal do intelecto, precisa-                   excluiria a existncia dos objetos que a imagi-
mente A) na vontade ou B) na sensibilidade.                   nao cr presentes (Ibid, II, 17, scol.). Com
    1- Ambas essas solues do problema do E.                 outra terminologia, tradicional, Leibniz afirma-
esto em S. Agostinho, mas a primeira acaba                   va a mesma coisa, reconhecendo como causa
predominando. Para S. Agostinho o E. consiste                 do E. uma causa "deficiente", ou seja, a limita-
 "em julgar e acatar como supremo o que, de                   o ou a imperfeio da natureza humana
 per si,  nfimo" (De vera rei, 21), ou seja, em             (Thod., I,  20). Para o idealismo romntico, o
 afastar-se "da ordem estabelecida por Deus,                  E.  o "finito", o "negativo", o "acidental": o que
 apesar de iludir-se achando que a conserva                   se destina a ser eliminado e a encontrar sua
 intacta" (Ibid., 20). O E. , portanto, devido              "verdade" no Infinito, no Necessrio e no Posi-
 "vontade malfica", ou seja, ao propsito deli-              tivo da Autoconscincia absoluta. Assim, a ri-
 berado de prescindir da ordem divina do mun-                 gor, no existe erro. Como dizia Gentile, expri-
ERRO                                                  343                                              ERRO

mindo bem a posio do idealismo romntico,                 uma falha do nosso conhecimento, mas um en-
"o E.  o superado: aquilo que, em outros ter-              gano do nosso juzo, que d assentimento ao
mos, est em face do nosso conceito, como                   que no  verdadeiro". E enunciava quatro ra-
seu no ser. Portanto, assim como a dor, no                zes do assentimento errado: ls falta de provas;
 uma realidade que se oponha  realidade es-               2S falta de capacidade de us-las; 3a falta de
prito (Conceptus Su), mas  a prpria realida-            vontade de v-las; 4Q clculo errado de proba-
de aqum de sua realizao, num momento                     bilidades (Ensaio, IV, 20,  1). Rosmini tambm
ideal" (Teoria do esprito, cap. 16,  8). Essa  a         atribui o E.  vontade, considerando-o decor-
soluo tipicamente dialtica (no sentido hege-             rente da ausncia do elemento ideal (Idia do
liano do termo) do problema do E.: o E.  o mo-             ser) ou do elemento real (sentimento ou sensa-
mento negativo, destinado a ser "superado" ou               o) da percepo intelectiva (Novo ensaio,
a "ser transformado em verdade" pelo momento                 1356-59). Mas, dada a formulao geral da
positivo e concreto: como E., no existe.                   teoria de Rosmini, que identifica a idia do ser
    23 A segunda soluo tpica do problema do              com a "forma da razo", a primeira espcie de
E. consiste em atribu-lo a uma faculdade dife-             E. pareceria implicar o poder da vontade de
rente do intelecto, mas capaz de agir sobre ele             dissociar a razo da "forma". Finalmente, o pr-
e de desvi-lo do seu funcionamento correto.                prio Croce aceitou essa teoria do E.: "Quem
    A) A primeira alternativa nesse sentido  a             comete um erro no tem nenhum poder de
que o atribui  vontade. J se viu que S.                   distorcer, desvirtuar ou macular a verdade,
Agostinho comeou julgando o E. como o afas-                que  seu prprio pensamento, o pensamen-
tamento voluntrio da ordem das coisas estabe-              to que opera nele como em todos; alis, assim
lecida por Deus. A idia do carter voluntrio              que toca o pensamento,  tocado por ele:
do E. acaba prevalecendo na ltima fase da                  pensa e no erra. Tem apenas o poder pratico
Escolstica:  defendida por Duns Scot e                    de passar do pensamento ao fazer; e o fazer, e
Ockham. De fato, ambos entendem a vontade                   no o pensar,  abrir a boca e emitir sons aos
como a faculdade de executar atos opostos                   quais no corresponda o pensamento, ou, o que
porquanto  absolutamente livre. A ela se deve              d no mesmo, um pensamento que tenha va-
o assentimento dado a uma proposio e, por-                lor, preciso, coerncia, verdade" (Lgica, 4-
tanto, tambm a faculdade de dar assentimento               ed., 1920, pp. 254-55).
a proposies falsas ou de dissentir de proposi-                B) A outra alternativa dessa soluo  que o
es verdadeiras (OCKHAM, In Sent., II, q. 25,              E. se deve  sensibilidade ou, pelo menos, 
L). Para Ockham, o assentimento da vontade                  ao da sensibilidade do intelecto. Essa  a
deve necessariamente seguir-se  evidncia in-              doutrina de Kant a respeito. Um juzo errneo
tuitiva dos primeiros princpios da demonstra-              -- e o E., assim como a verdade, s pode exis-
o, ou das verdades empricas ou concluses                tir no juzo --  o que confunde a aparncia
das demonstraes; por outro lado, pode se                  da verdade com a verdade. Essa confuso
dar assentimento ao que  desprovido de qual-               no seria possvel se o homem no tivesse
quer evidncia (Jbid., II, q. 25, Y); nesses casos,         outra faculdade alm do intelecto. Mas como o
determina-se a possibilidade de erro. Essa dou-             homem, alm do intelecto, tem sensibilidade,
trina foi substancialmente reproduzida por                  no pode evitar a influncia oculta da sensibili-
Descartes, em sua tese de que "a vontade                   dade sobre o intelecto, e dessa influncia nasce
maior que o intelecto, podendo, pois, dar as-               a possibilidade de confundir o subjetivo com o
sentimento ao que no tem clareza e distino               objetivo, ou seja, a aparncia da realidade com
suficientes para o intelecto. A vontade", diz               a prpria realidade (Logik, Einleitung, VII). Essa
Descartes, "pode parecer de certo modo infini-              teoria kantiana retorna em alguns filsofos con-
ta porque nada percebemos que possa ser o                   temporneos. P. ex., para C. I. Lewis o E. 
objeto de outra vontade, nem mesmo da vonta-                devido  combinao dos dados mediados
de imensa de Deus, at a qual a nossa no                   pela experincia com as suas interpretaes
pode estender-se. Essa  a causa de ordinaria-              ou integraes habituais, de natureza inte-
mente levarmos a vontade alm daquilo que                   lectual (Analysis ofKnowledge and Valuation,
conhecemos clara e distintamente; e quando                  p. 26).
assim abusamos dela no  de surpreender que
acontea enganar-nos" (Princ. phil, I, 35). De                  Em geral, a teoria do E. no  alvo de muita
modo anlogo, Locke dizia que "o E. no                    ateno por parte da filosofia contempornea.
                                                            Algumas correntes no elaboram uma teoria
ESCNDALO                                                344                                     ESCOLASTICA


do E. pelo mesmo motivo pelo qual Hegel no a                  la do convento ou da catedral, depois na Univer-
elaborou: porque no admitem a possibilidade                   sidade. Portanto, literalmente, E. significa filo-
do erro. Para outras correntes, porm, o motivo                sofia da escola. Como as formas de ensino me-
 diferente: elas reconheceram a intrnseca fali-              dieval eram duas (Jectio, que consistia no
bilidade (v.) dos procedimentos cognoscitivos                  comentrio de um texto, e disputatio, que
de que o homem dispe e, portanto, a possibi-                  consistia no exame de um problema atravs
lidade do E. no se distingue da possibilidade                 da discusso dos argumentos favorveis e
do conhecimento. Em certo sentido, esse ponto                  contrrios), na E. a atividade literria assumiu
de vista significa um retorno  teoria platnica               predominantemente a forma de Comentrios
do E. ou, pelo menos, ao seu pressuposto de                    ou de coletneas de questes (v. QUESTO).
que as determinaes do conhecimento, assim                        O problema fundamental da E.  levar o ho-
como as do ser, no devem ser consideradas                     mem a compreender a verdade revelada. A E.
necessidades, mas possibilidades (v.).                          o exerccio da atividade racional (ou, na prti-
    ESCNDALO (in. Scandal; fr. Scandale, ai.                  ca, o uso de alguma filosofia determinada,
Skandal; it. Scandal). Kierkegaard transfor-                  neoplatnica ou aristotlica) com vistas ao
mou o E. numa categoria religiosa, definindo-o                 acesso  verdade religiosa,  sua demonstra-
como "o pecado de desesperar da remisso                       o ou ao seu esclarecimento nos limites em
dos pecados". Para o intelecto humano, o per-                  que isso  possvel, aprestando um arsenal
do do pecado  a mais impossvel de todas as                  defensivo contra a incredulidade e as heresias.
coisas: desse ponto de vista, a religio  a "pos-             A E., portanto, no  uma filosofia autnoma,
sibilidade do escndalo" {Die Krankheit zum                    como, p. ex., a filosofia grega: seu dado ou sua
 Tode, II, B, B; trad. it., Fabro, p. 347; cf. Dirio,         limitao  o ensinamento religioso, o dogma.
XJA, 133).                                                     Para exercer essa tarefa, no confia apenas nas
    ESCATOLOGIA (in. Eschatology, fr. Escha-                   foras da razo, mas chama em seu socorro a
tologie; Eschatologie, it. Escatologia). Termo                 tradio religiosa ou filosfica, recorrendo s
moderno que indica a parte da teologia que                     chamadas auctoritates. Auctoritas  a deciso
considera as fases "finais" ou "extremas" da                   de um concilio, uma mxima bblica, a sententia
vida humana ou do mundo: morte, juzo uni-                     de um padre da Igreja ou mesmo de um gran-
versal, pena ou castigo extraterrenos e fim do                 de filsofo pago, rabe ou judaico. O recurso
mundo. Os filsofos usam s vezes esse termo                    autoridade  a manifestao tpica do carter
para indicar a considerao dos estgios finais                comum e supra-individual da investigao E.,
do mundo ou do gnero humano (cf. RENOU-                       em que cada pensador quer sentir-se apoiado
VIER, Nouvelle monadologie, 1899, VII, 139-40).                pela responsabilidade coletiva da tradio ecle-
    ESCOCESA, ESCOLA (in. Scottish school; fr.                 sistica.
colecossaise, ai. SchottischeScbule, it. Scuola                  A E. medieval costuma ser distinguida em
scozzes). Grupo de filsofos escoceses que                    trs grandes perodos: 1B a alta E., que vai do
compreende Thomas Reid (1710-96), Dugald                       sc. IX ao fim do sc. XII, caracterizada pela
Stewart (1753-1828), Thomas Brown (1778-                       confiana na harmonia intrnseca e substancial
 1820), William Hamilton (1788-1856) e Henri                   entre f e razo e na coincidncia de seus re-
Mansel (1820-71), cujas doutrinas fundamentais                 sultados; 2a o florescimento da E., que vai de
so: 1- recurso ao senso comum para garantir                   1200 aos primeiros anos do sc. XTV, poca dos
algumas verdades tericas e morais considera-                  grandes sistemas, em que a harmonia entre f e
das fundamentais para o homem (v. SENSO                        razo  considerada parcial, apesar de no se
COMUM); 2- realismo natural, teoria de que o                   considerar possvel a oposio entre ambas; 39
objeto imediato do conhecimento no  a idia                  dissoluo da E., que vai dos primeiros dec-
(como se julgara desde Descartes at Hume),                    nios do sc. XIV at o Renascimento, perodo
 mas a coisa externa (v. REALISMO).                            em que o tema bsico  a oposio entre f e
    ESCOLASTICA (in. Scholasticism, fr. Sco-                   razo.
 lastique, ai. Scholastik, it. Scolasticd). 1. Em                  Esse conceito da E. foi extrado da obra fun-
 sentido prprio, a filosofia crist da Idade M-              damental de M. Grabman, Die Geschicbte der
 dia. Nos primeiros sculos da Idade Mdia, era                scholastichen Methode (1909, reimpr. 1956).
 chamado de scholasticus o professor de artes                  No faltaram tentativas de considerar a E. como
 liberais e, depois, o docente de filosofia ou                 uma sntese doutrinria completa, na qual con-
 teologia que lecionava primeiramente na esco-                 fluam e fundiam-se contribuies individuais
ESCOLHA                                                   345                                           ESCOLHA


(p. ex., por parte de De Wulf, Histoire de Ia                   s coisas impossveis (p. ex., as eternas) que
philosophie mdvale, 1900, e ed. seguintes),                  no dependem de ns (Ibid., 1111 b 30). A
mas essas tentativas no tm base histrica e                   essas determinaes negativas Aristteles
reduzem-se a alijar da E. grande nmero de                      acrescentou a determinao positiva de que a
autores e a estabelecer concordncias e unifor-                 E. " sempre acompanhada por razo e pensa-
midades fictcias entre os outros (cf. Abbag-                   mento" (Ibid., 1112 a 15). A essa determinao
nano, Storia dellafil, 2a ed., 1958, 1,  171, e a              pode-se acrescentar outra, fundamental, ex-
bibliografia correspondente).                                   trada das determinaes negativas: a E. diz
    2. Por extenso, pode-se chamar de E. qual-                 respeito s s coisas possveis. Essa ltima de-
quer filosofia que assuma a tarefa de ilustrar e                terminao, que  a fundamental, era explicita-
defender racionalmente determinada tradio                     mente ressaltada por S. Toms, que repetia
ou revelao religiosa. Para isso, via de regra,                substancialmente a anlise aristotlica (S. Th.,
essa E. lana mo de uma filosofia j estabele-                 II, 1, q. 13, a. 5).
cida e famosa; de tal sorte que, nesse sentido, a                   A noo de E. sempre foi amplamente utili-
E.  a utilizao de determinada filosofia para a               zada pelos filsofos, em especial na discusso
defesa e a ilustrao de determinada tradio                   do problema da liberdade (v.), mas no foi
religiosa (v. FILOSOFIA). Nesse sentido genrico                analisada com freqncia. A partir de Kier-
so muitas as E., tanto na Antigidade quanto                   kegaard, a filosofia da existncia enfatizou o
no mundo moderno: na Antigidade o neo-                         valor da E. no que concerne  prpria persona-
platonismo, o neopitagorismo, etc.; na Idade                    lidade do homem ou  sua existncia, conside-
Mdia, a filosofia dos rabes e dos judeus;                     rando a E. sobretudo sob o ngulo da sua pr-
no mundo moderno, so escolsticas as filo-                     pria possibilidade, ou seja, como E. da escolha.
sofias de Malebranche, de Berkeley, da di-                      Diz Kierkegaard: "A E.  decisiva para o con-
reita hegeliana, de Rosmini, de muitos espi-                    tedo da personalidade: com a E. ela apro-
ritualistas, etc.                                               funda-se na coisa escolhida, mas se no esco-
     ESCOLHA (gr. ocipem, 7ipoocpem; lat.                    lhe definha" (Werke, II, p. 1.48). Desse ponto de
 Electio; in. Choice, fr. Choix, ai. Wahl; it. Scelt).         vista, a E. importante no  entre o bem e o
 Procedimento pelo qual determinada possibili-                  mal, mas entre escolher e no escolher. "Com
 dade  assumida, adotada, decidida ou realizada                essa E., no escolho entre o bem e o mal, mas
 de um modo qualquer, preferentemente a ou-                     escolho o bem; mas, porquanto escolho o
 tras. O conceito de E. est estreitamente vin-                 bem, escolho com isso a escolha entre o bem
 culado ao de possibilidade'(v.), de tal modo que               e o mal. A E. original est sempre presente em
 no s no h E. onde no h possibilidade (vis-               toda E. ulterior" (Ibid., II, p. 196). Esse conceito
 to ser justamente a possibilidade o que se ofere-              foi freqentemente repetido no existencialismo
 ce  E.), como tampouco h possibilidade onde                  contemporneo. Segundo Heidegger, a E.
 no h E., j que a antecipao, a projeo ou a               autntica  a E. do que j foi escolhido, a E. das
 simples previso das possibilidades so esco-                  possibilidades que j so do homem. "Repeti-
 lhas. Por outro lado, o conceito de E.  uma das               o da E. significa escolhimento dessa E.,
 determinaes fundamentais do conceito de li-                  opo por uma possibilidade que tem raiz no
  berdade (v.).                                                 si-mesmo. Ao escolher a E., o ser-a possibilita
     O conceito de E.  constante em Plato, que,               pela primeira vez o seu autntico poder-ser"
 usando o mito de Er, mostra que o destino do                   (Sein undZeit,  54). Mas nesse sentido a "E. da
  homem depende da E. que ele faz do modelo                     E."  simplesmente a aceitao ou o reconheci-
 de vida: "No havia nada de necessariamente                    mento daquilo que se , renunciando-se a
  preestabelecido para a alma porque cada uma                   qualquer pretenso de mudana ou libertao.
  devia mudar segundo a E. que fizesse" (Rep., X,               No mesmo sentido, Jaspers diz: "No posso re-
  618 b). Mas foi Aristteles quem fez a primeira               comear e escolher entre ser eu mesmo e no
  anlise exaustiva da E., distinguindo-a: ls do                ser eu mesmo, como se a liberdade fosse ape-
  desejo, que  comum tambm aos seres irra-                    nas um instrumento. Mas, quando escolho, sou,
  cionais, ao passo que a E. no  (Et. nic, III, 2,            e, se no sou, no escolho" (Phil, II, p. 182).
  1111 b 3); 2S da vontade, porque tambm se                    Quer dizer: o que posso escolher  apenas
  podem querer as coisas impossveis (p. ex., a                 meu eu-mesmo: o eu-mesmo que  idntico 
  imortalidade), mas no escolher (Ibid., 1111b                 situao, ao lugar z realidade em que me en-
  19); 3S da opinio, que tambm pode referir-se                contro (Ibid., I, p. 245). A E. da E. na verdade 
ESCOLHA                                             346                        ESCOLHAS, AXIOMA DAS


a E. do que j se  e no se pode no ser. Esse           ses feitas pelos filsofos nem sempre do con-
conceito de E. da E. acaba eliminando a pr-              ta dos caracteres fundamentais da E. Bergson,
pria E., que, como Aristteles reconhecera, es-           p. ex., considerou as alternativas diante das
t sempre ligada ao possvel. Por outro lado,             quais se encontra situada toda E. como falsas
Sartre insistiu na perfeita arbitrariedade da E.,         "espacializaes" dos estados interiores de he-
identificou E. e conscincia e viu, por isso, um          sitao; portanto, concebeu a E. como algo
ato de E. em todo ato de conscincia (Z 'tre et          que, " maneira de um fruto maduro, separa-
le nant, pp. 539 ss.). Isso pode ser verdade,            se dos estados consecutivos do eu" (Les donnes
mas de certo modo  oportuno sair em busca                immdiates de Ia conscience, 1889, p. 134).
de um sentido mais especfico de E., segundo o            Mas est claro que, se as alternativas so fict-
qual nem todos os atos sejam escolhas. Esse               cias, fictcia  a prpria E. que vive s no poss-
sentido pode ser precisamente o de E. da E.,              vel, que  constitudo por alternativas. Ca-
no como E. do que j foi escolhido, mas como             racterstica mais autntica da E. humana foi
E. do que pode ainda ser escolhido. Nesse sen-            evidenciada por Dewey: "A E. no  uma pre-
tido, a "E. possvel"  no s a E. que se ofere-         ferncia que emerge da indiferena:  a emer-
ce como possibilidade, mas a E. que, uma vez              gncia de uma preferncia unificada a partir
feita, afigura-se ainda possvel. Entendido nes-          de um conjunto de preferncias competitivas".
se sentido, o conceito de E. torna-se suscetvel          Portanto, a E. racional  apenas aquela que
de tratamento objetivo e capaz de orientar a              unifica e harmoniza diferentes tendncias con-
anlise das tcnicas de E. Desse ponto de vista,          correntes {Human Nature and Conduct, 1929,
 indispensvel determinar, em primeiro lugar             p. 193). Assim, Dewey alija da E. o critrio de
o contexto das E., ou seja, o campo depossibili-          racionalidade, pondo-se num plano em que 
dadesiw) objetivas em que a E. deve atuar. P.             possvel sugerir inmeros critrios. Tem, contu-
ex., para o homem que sofreu uma afronta, as              do, o mrito de ter ressaltado a importncia da
opes de vingana pela fora ou pela violn-             E. e sua onipresena. "A operao de E.", disse
cia so diferentes das que lhe so oferecidas             ele, " inevitvel em qualquer empreendimento
pelo sistema jurdico em que vive. Alm disso,            que exija a reflexo. Em si mesma, no  fal-
sempre com referncia a um contexto determi-              sificadora. A iluso reside no fato de que a sua
nado, pode-se fazer a distino entre grau de             presena  oculta, camuflada, negada. Um m-
E., que  o nmero de possibilidades ofereci-             todo emprico descobre e pe a nu a operao
das por determinado contexto, e extenso da               de E., como faz com qualquer outro aconteci-
E., que  o nmero de indivduos que tm                  mento" (Experience and Nature, 1926, p. 35).
acesso a determinada E. em dado contexto.                    ESCOLHAS, AXIOMA DAS (in. Axiom of
Entre extenso e grau pode haver todas as rela-           choice, fr. Axiome des choix, ai. Auswahlprin-
es possveis, pois o aumento no grau pode               zip, it. Assoma delle scelte). Tem esse nome um
influir na extenso e vice-versa. O critrio da           princpio enunciado por Zermelo em 1904, se-
repetibilidade das E., com base nas considera-            gundo o qual, dada uma classe K cujos mem-
es acima, especialmente com base nas nor-               bros so classes no vazias a, b, c,... existe uma
mas tcnicas do contexto,  adotado por todas             funo/que estabelece a correspondncia en-
as disciplinas (conquanto implicitamente): p.             tre cada classe a, b, c, e um elemento e um s
ex., um axioma matemtico ou lgico continua-             da classe fia), fib),fic)... Esse postulado, na
r sendo admitido (ou seja, sua E. se repete)             forma de um axioma multiplicativo, foi reex-
enquanto no levar a uma contradio; uma                 posto por Russell da seguinte forma: dada uma
tcnica cientfica ou produtiva continuar em             classe K, cujos membros so classes no vazias,
uso (ou seja, ser sempre escolhida) en-                  que no tm nenhum membro em comum,
quanto no der ensejo a inconvenientes ou                 existe uma classe A, cujos membros so todos
no for encontrada outra melhor; e assim                  membros dos membros de K e que tem s
por diante.                                               um membro em comum com cada membro de
                                                          K. Zermelo demonstrou que os dois axiomas
   Hoje, em todas as cincias, especialmente              so equivalentes. Os matemticos utilizavam com
na matemtica, na lgica, na psicologia e na              freqncia uma assuno desse gnero, mas a
sociologia,  grande o uso da noo de E.                 sua enunciao explcita suscitou dvidas e
Mas, como se disse, raramente ela  analisa-              discusses, substancialmente quanto ao conceito
da por essas cincias, que pressupem seu                 de "existncia" dos membros de um conjunto.
significado corrente. Por outro lado, as anli-
ESCOTISMO                                             347                                       ESCRAVIDO

0 postulado de Zermelo, se aplicado aos con-                to, A E.  "vantajosa tanto para o senhor quanto
juntos infinitos, significa simplesmente que se             para o escravo" (Pol., I, 2, 1552 a). Citando
pode falar da existncia de um membro do                    Aristteles, S. Toms dizia: "Que um homem
conjunto, mesmo no apresentando uma regra                  seja escravo e no outro  coisa que, de um
precisa que permita construir ou reconhecer                 ponto de vista absoluto, no tem razo natural,
esse membro (cf. K. GDEL, The Consistency of               mas s razo de utilidade, porquanto  til ao
 tbe Axiom of Choice and of the Generalized                 escravo ser governado por um homem mais
 Continuum Hypothesis with the Axoms ofSet                 prudente, e  til a este ltimo ser ajudado
 Theoty, 1940; L. GEYMONAT, Storia e filosofia              pelo escravo" (S. Th., II, 2, q. 57, a. 3, ad 2Q). O
deWanalisi infinitesimale, 1948).                           modo como Hegel comenta a figura servo-
    ESCOTISMO (in. Scotism- fr. Scotisme, ai.               senhor em Fenomenologa do esprito obedece
 Scotsmus; it. Scotism) Doutrina de John Duns             ao mesmo esprito de justificao. O senhor  a
Scot (1266-1308) e de seus discpulos, que tem              autoconscincia do escravo e o escravo  o ins-
                                                            trumento que elabora os objetos, a fim de que
as caractersticas abaixo enumeradas.                       o senhor os usufrua e, desse modo, ele prprio
    V Doutrina do carter prtico da cincia                participe, por mediao, da fruio do objeto,
teolgica: esta no conteria verdades tericas,             assim como, por mediao, o senhor participa
mas s regras para a conduta humana em vista                da produo dele (Phnomen. des Geistes, I. IV,
 da salvao eterna.                                        A; trad. it., pp. 168 ss.).
    2a Afirmao da indemonstrabilidade de um
nmero relevante de proposies filosficas e                   Por outro lado, o cristianismo tornara insig-
teolgicas. Duns Scot acreditava ser impossvel             nificante a E. e, em um certo sentido, a sua
demonstrar, p. ex., todos os atributos de Deus              condenao. Uma vez que tanto o judeu quan-
 ou a imortalidade da alma. Na obra a ele atri-             to o grego, tanto o servo quanto o homem
 buda (cuja autenticidade  duvidosa), Theore-             livre, tanto o homem quanto a mulher "fazem
                                                            uma s coisa em Jesus Cristo" (GaL, III, 28),
 mata, numerosas outras proposies teolgicas              no  importante ser escravo ou livre, mas ser
so declaradas indemonstrveis.                             "liberto do Senhor" (/ Cor., VII, 21-22). No
    3- Doutrina da univocidadedo ser, em opo-               mundo antigo, s os esticos condenaram sem
 sio ao tomismo: a metafsica  a cincia su-             reservas a E.: "S o sbio  livre, os maus so
prema, que tem por objeto o ser em geral,                   escravos: j que a liberdade no  seno auto-
tanto o das criaturas quanto o de Deus.                     determinao e a E.  a ausncia de autodeter-
    4a Doutrina da individuao: a individuao             minao. H, ento, outra E., que consiste na
  a ltima determinao da forma, da matria               sujeio ou na compra e na sujeio,  qual se
 e do seu composto, ou seja,  a haecceitas (v.             contrape a senhoria, que  tambm malfica"
INDIVIDUAO). Essa doutrina foi interpretada               (DIOG. L, VII, 121). Ao lado da negao da E.
 pela escola de Scot em oposio  tomista, se-             como instituio social, os esticos fizeram pre-
 gundo a qual a individuao depende da ma-                 valecer o conceito da E. como estado ou situa-
 tria signata, no sentido de que a individuao            o moral. Dizia Sneca: '"So escravos'. Sim,
 depende das formas, mais precisamente da                   mas tambm homens. 'So escravos'. Sim, mas
 superposio de um nmero indefinido de for-               tambm companheiros de habitao. 'So
 mas no mesmo composto.                                     escravos'. Sim, mas tambm amigos humildes.
    5- Voluntarismo: doutrina do primado da                 'So escravos'. Sim, mas tambm companheiros
 vontade, que Duns Scot compartilha com Hen-                de escravido, se refletires que uns e outros es-
 rique de Gand (v. VOLUNTARISMO).                           to sujeitos aos caprichos da sorte" (Ep., 47):
    ESCRAVIDO (gr. ouXea; lat. Servitus; in.             conceitos que se repetiram de vrias formas na
 Slavert; fr. Esdavage, ai. Sklaverei; it. Schiavi-         literatura romana, embora nada tivessem de
 t). Entre os filsofos, a justificao da E. sem-         correspondente no direito romano codificado,
 pre teve a mesma forma: a E.  til no s ao              para o qual o escravo era a "coisa" do patro.
 senhor como tambm ao escravo. Por esse mo-                No mundo moderno, foi a filosofia iluminista
                                                            que mostrou a noo de E. como absurda e
 tivo, Aristteles considera a E. uma das divises          repugnante: sua defesa da noo de igualda-
 naturais da sociedade, semelhante  diviso en-            de significa a condenao da E. em todas as
 tre homem e mulher: como h "quem  natu-                  suas formas e graus (cf., p. ex., VOLTAIRE,
 ralmente disposto ao comando" e "quem  na-                Dictionnare Philosophique, 1764, artigo "ga-
 turalmente disposto a ser mandado",  graas               lit").
  unio que "ambos podem sobreviver". Portan-
ESCRPULO                                               348                                            ESPAO

    ESCRPULO (in. Scruple, fr. Scrupule, ai.                  Esotrico, ssoterico). O primeiro destes termos
Skrupel; it. Scrupol). Hesitao em agir, por                encontra-se nos ltimos escritores gregos para
incerteza na avaliao da situao, por no se                indicar doutrinas ou ensinamentos reservados
saber se a ao projetada  correta ou no. Esse              aos discpulos de uma escola, que no podiam
 o significado dessa palavra em frases como                  ser comunicados a estranhos (GALENO, 5, 513;
"Ter E." ou "Agir sem E.".                                    JMBLICO, Comm. math., 18). O segundo termo
    Escrupulosida.de  a atitude de quem proce-                muitas vezes empregado por Aristteles (Pol.,
de com E., a fim de executar melhor um traba-                  1278 b 31; Met., 1076 a 28; Et. nic, 1102 a 26,
lho ou de desenvolver com mais preciso uma                   etc.) para designar suas obras populares, desti-
atividade qualquer.                                           nadas ao pblico (em forma de dilogos, dos
    ESFERA (gr. ccpapa, otpalpo; lat. Gobus;                quais s temos fragmentos), em contraposio
in. Globe, fr. Globe, ai. Sphare, it. Sfera). Segun-          aos escritos acroamticos, destinados aos
do os antigos, a figura perfeita, que compreen-               ouvintes, que eram os apontamentos das li-
de em si todas as outras figuras e  a imagem                 es que chegaram at ns (v. ACROAMTICO).
da homogeneidade e da perfeio (cf. PLATO,                      O adjetivo esotrico  usado na linguagem
Tim., 33 b). Parmnides comparava o ser a                     comum para designar obras que tratam de
uma "E. perfeitamente redonda", porquanto ele                 cincias ocultas, como magia, astrologia, etc.
 definido por todos os aspectos, sendo igual a                   ESPAO (gr. xipoc, trco; lat. Spatium; in.
si mesmo, de tal modo que em nenhum de                         Space, fr. Espace, ai. Raum; it. Spazi). A no-
seus aspectos  maior ou menor que ele mes-                   o de E. deu origem a trs problemas diferen-
mo (Fr. 8, 41, Diels). Empdocles chamava de                  tes, ou melhor, a trs ordens de problemas: Ia
esfero a fase perfeita do ser, em que predomina               a respeito da natureza do E.; 2a a respeito da
a amizade: "Mas em todos os aspectos era igual                realidade do E.; 3a a respeito da estrutura m-
e inteiramente infinito, o esfero redondo que                 trica do E. A resposta a este ltimo problema
goza da sua solido envolvente" (Fr. 28, Diels).              s pode ser uma geometria, e as diversas respos-
No Renascimento, Nicolau de Cusa retomou                      tas a ele dadas constituem as diferentes geome-
essas especulaes, insistindo na perfeio da                trias. Para tais respostas, cf. GEOMETRIA.
figura circular (De docta ignor, I, 21) e                         Ia O primeiro problema concerne ao verda-
atribuindo  alma a forma esfrica (De ludo                   deiro conceito de E. e  o problema da nature-
globi, I).                                                    za da exterioridade em geral, ou seja, daquilo
    ESFORO (in. Effort; fr. Effort; ai. Streben;             que torna possvel a relao extrnseca entre os
it. Sforzo). Atividade tendente a vencer um                   objetos. Einstein, no prefcio a um livro histri-
obstculo ou uma resistncia qualquer. Essa                   co sobre o conceito de E. (MAX JAMMER, Con-
noo foi introduzida em filosofia por Fichte,                 cepts of Space, 1954), distinguiu duas teorias
que a utilizou para mostrar que a realidade de-               fundamentais de E.: a) E. como qualidade
riva do Eu: "A atividade pura do eu, reentrando               posicionai dos objetos materiais no mundo; b)
em si mesma, em relao a um objeto possvel                  E. como continente de todos os objetos mate-
 um E.; alis, um E. infinito. Esse E. infinito             riais. A esses dois conceitos pode-se acrescen-
ao infinito a possibilidade de todo objeto: sem               tar outro, fundado pelo prprio Einstein: c) E.
E., no h objeto" (Wissenschaftslehre, 1794,  5,            como campo.
II; trad. it., pp. 213-14). Maine de Biran valeu-se               a) A primeira concepo  de E. como lugar
dessa noo e identificou com a experincia                   (v.), como posio de um corpo entre outros
imediata do E. tanto o princpio metafsico de                corpos. Nesse sentido, o E.  definido por Aris-
causalidade quanto a liberdade do eu. Toma-                   tteles como "o limite imvel que abraa um
do na origem, E.  liberdade, ou seja, o eu                   corpo" (Fs., IV, 4, 212 a 20), definio que
como liberdade; em face da resistncia que se                 Aristteles reconhece idntica ao conceito
lhe ope,  necessidade (Fondements de lapsy-                 platnico que identificava E. e matria (Tim.,
 chologie, em CEuvres, ed. Naville, II, p. 284).              52 b, 51 a). Segundo esse conceito, no haver
Pode-se considerar esse conceito como uma                     E. onde no houver objeto material; por isso, a
 continuao do conceito mais antigo de co-                   tese principal dessa teoria do E.  a inexistncia
 nao (v.).                                                  do vazio (cf. ARISTTELES, FS., IV, 8, 214 b 11).
     ESOTRICO, EXOTRICO (gr acote                              Essa  a teoria que prevalece na Antigi-
 piK; coxepiK; in. Esoteric, exoteric; fr. so-         dade e  aceita durante toda a Idade Mdia
 trique, xotrique, ai. Esoterisch, exoterisch; it.         at mesmo pelos adversrios de Aristteles
ESPAO                                                 349                                           ESPAO

(cf. OCKHAM, Summulae physicorum, IV, 20;                    es com o E. csmico absoluto". Todavia, a
Quodl., I, 4). No Renascimento era defendida                 concepo posicionai do E. nunca  de todo
por Campanella (Desensu rerum, I, 12), sendo                 abandonada pelo pensamento filosfico poste-
aceita e reexposta por Descartes nos termos                  rior: parece pressuposta nas teorias idealistas
da sua geometria. Entre lugar e E. Descartes                 do E. (v. mais abaixo), pelo que se pode extra-
estabelecia uma diferena apenas nominal, por-               ir do carter genrico e confuso dos conceitos
quanto "o lugar assinala mais expressamente a                empregados, e foi defendida com energia e
situao do que a grandeza ou a figura e pen-                lucidez por Heidegger. Este afirmou que "nem
samos mais nestas quando falamos do E.". Mas                 o E. est no sujeito nem o mundo est nt E.",
as duas coisas so idnticas: "Se dizemos que                mas que o prprio sujeito, ou seja, a realidade
uma coisa est em tal lugar, entendemos so-                  humana, o ser-a,  espacial em sua natureza.
mente que est situada de tal modo em relao                E  espacial porque, como ser-no-mundo, em
a outras coisas; mas se acrescentamos que ocu-               sua relao com as coisas,  dominado pela
pa tal E. ou tal lugar, entendemos ademais que               proximidade ou pela distncia das coisas utili-
ela  de tal grandeza e de tal forma que pode                zveis, por um conjunto de relaes possveis
preench-lo exatamente" (Princ. phil, II, 14).               que "a intuio formal" do E. s faz evidenciar
Descartes negava, portanto, a existncia do va-              nas vrias disciplinas geomtricas (Sein und
zio (Ibid., II, 16); assim como a negava Spi-                Zeit,  23-24).
noza, que compartilhava da mesma concep-                         t) A segunda concepo de E. considera-o
o de E. (Et., I, 15, scol.). Leibniz, por sua vez,         como o recipiente que contm os objetos mate-
defendia essa concepo contra Newton e seus                 riais. Essa concepo nasceu com o atomismo
seguidores. "Se o E.  uma propriedade ou um                 antigo, e sua tese fundamental  a existncia
atributo, deve ser a propriedade de alguma                   do E. vazio e de sua infinidade. Demcrito j
substncia. O E. vazio e limitado, que seus de-              expressara essas idias; afirmava que os to-
fensores supem entre os dois corpos, seria                  mos se movem no E. vazio e que esse E.  infi-
propriedade ou afeco de que substncia?"                   nito (Fr, 38-40, Diels). Epicuro herdou essa
(IVe Lettre  Clarke, 8; Op., ed. Erdmann, p.                concepo (Carta a Herdoto; cf. Dig. L., X,
756). Mas a velha concepo encontrava em                    67), que era defendida por Lucrcio Caro (De
Leibniz expresso nova e feliz, em termos de                 rer. nat., I, pp. 950 ss.). A mesma concepo
noo de ordem, que deveria tornar-se clssica:              de E. era compartilhada pelos esticos, em par-
"Considero o E. (opondo-se a Newton e seus                   ticular por Zeno (DIG. L, VII, 140). ^
seguidores) como algo puramente relativo, do                     Obliterada durante muito tempo pela con-
mesmo modo que o tempo, ou seja, como uma                    cepo aristotlica, essa doutrina volta a apre-
 ordem de coexistncias, assim como o tempo                  sentar-se no Renascimento. Telsio afirma que
 uma ordem das sucesses. Isso porque o E.                  o E. deve poder ser receptculo de qualquer
caracteriza, em termos de possibilidade, uma                 coisa, de tal modo que, estejam as coisas den-
ordem de coisas que existem ao mesmo tem-                    tro dele ou distantes dele, ele permanea idn-
po, porquanto existem juntamente, sem entrar                 tico e acolha prontamente todas as coisas que
em seus modos de existir" (IIPLettre  Clarke,               se sucedem nele, sendo ao mesmo tempo to
4; Op., ed. Erdmann, p. 752). A definio de                 grande quanto as coisas que nele acham lugar.
Leibniz foi retomada por Wolff (Ont.,  389) e               O E., portanto,  infinito e incorpreo: a exis-
por Baumgarten (Mel,  239). O prprio Kant                  tncia do vazio  um fato de experincia (De
 defende-a nas primeiras obras e s resolve                  rer. nat, I, 25). A infinidade do E. era definida
abandon-la em 1768, em Sobre o primeiro                     por Giordano Bruno no mesmo sentido (De
fundamento da distino das regies no espa-                 1'infinito, universo e mondi, I).
 o. Nessa obra ele declara insuficiente a con-
 cepo do E. como ordem de coexistncias:                       Essa concepo de E. prevaleceu na cincia
 "As posies das partes do E. em relao entre              graas a Newton, que dizia: "O E. absoluto, por
 si pressupem a regio segundo a qual elas es-              sua prpria natureza, sem relao com algo ex-
to ordenadas nessa relao; entendida do                    terior,  sempre semelhante e imvel. O E.
 modo mais abstrato, a regio no consiste na                relativo  a dimenso mvel ou a medida do E.
 relao que uma coisa tem com outra no E. (o                absoluto; nossos sentidos o determinam por
 que, propriamente, constitui o conceito de po-              sua posio em relao aos corpos, sendo mui-
 sio), mas na relao do sistema dessas posi-              tas vezes confundido com o E. imvel; essa  a
                                                             dimenso de um subterrneo, de um E. areo
ESPAO                                                350                                             ESPAO


celeste, determinado pela sua posio em rela-               The Evolution of Physics, III; trad. it., p. 217).
o  terra. O E. absoluto e o relativo so idn-           Nesse conceito de E., a novidade parece ser cons-
ticos em forma e grandeza, mas no perma-                   tituda exclusivamente pelo acrscimo da coorde-
necem sempre numericamente os mesmos.                       nada temporal s coordenadas com que Des-
Porque, p. ex., se a terra se move, um E. do                cartes definia o E. Mas na relatividade geral, o
nosso ar, que, relativamente  terra, continua              afastamento dos conceitos tradicionais  mais
o mesmo, em certo momento far parte do                     radical. A no tem mais sentido falar de E.
E. absoluto que o ar atravessa e, em um ou-                 sem considerar o campo, que  usado para
tro, ser uma outra parte do mesmo E." (Phi-                representar os fenmenos fsicos. Tanto os
losophiae naturalis principia mathematica,                  fenmenos inerciais quanto os gravitacionais
1687, I, def. 8 scol.). A polmica de Leibniz               so explicados por mudanas na estrutura
contra essa doutrina no conseguiu impedir                  mtrica do campo: "Em vez de um sistema de
seu xito. Quase um sculo depois, Euler di-                referncia rgido e fixo (observou-se com jus-
zia: "Suponhamos que todos os corpos que se                 teza), agora se tem a oportunidade de consta-
acham agora no meu quarto, inclusive o ar,                  tar as variaes na curvatura do E. ou, o que
sejam aniquilados pela onipotncia divina. Obte-            d no mesmo, o uso de critrios no euclidianos
remos ento um E. que, apesar de ter o mes-                 de medida e de clculo em diferentes partes
mo comprimento, a mesma largura e a mesma                   do campo como um todo, segundo as varia-
profundidade de antes, j no contm nenhum                 es na densidade da matria e da energia.
corpo. Portanto, a est, no mnimo, a possibili-           Portanto, sem levar em conta o campo, no h
dade de uma extenso que no  um corpo.                    nada e, contrariando at mesmo a relatividade
Semelhante E. sem corpo  denominado v-                    restrita, nem sequer o E. vazio. Nesse sentido,
cuo; o vcuo, portanto,  uma extenso sem                  o campo, segundo Einstein, substitui como
corpo" (Lettres  une princesse d'Allemagne,                concepo unitria tanto a matria (pondervel
69, de 21-X-1760; trad. it., p. 228). J se viu que         ou impondervel) quanto o E." (M. K. MUNITZ,
a noo newtoniana de E. acabou prevalecen-                 Space, Time and Creation, 1957, VII, I; trad. it.,
do (talvez por influncia do prprio Euler) na              pp. 112-13). Paradoxalmente, portanto, a con-
doutrina de Kant. Tambm prevaleceu em toda                 cepo mais atualizada do E. no  seno a
a fsica do sc. XIX, apesar das freqentes crti-          renncia implcita ao conceito de E. e o en-
cas  parte referente ao E. absoluto. Clerk                 caminhamento para o uso de outros concei-
Maxwell afirmava que "todo o nosso conheci-                 tos, menos vinculados a abstraes tradicio-
mento tanto do tempo quanto do E.  essen-                  nais e mais capazes de descrever os resultados
cialmente relativo" {Matter and Motion, Dover               da observao.
publ., p. 12). Mach falava da "monstruosidade                   2Q O problema da realidade do E. deu lugar
conceituai do E. absoluto" (Die Mechanik in                 a trs diferentes teses: a) da realidade fsica ou
 ihrer Entwicklung, 1883; T ed., 1921, p. X).               teolgica do E.; b) da subjetividade do E.; c) de
Essa teoria do E. foi, porm, assumida ou pres-             que o E.  indiferente ao problema da realida-
suposta pela fsica at Einstein.                           de ou irrealidade.
    c) A terceira concepo fundamental do E.                  ) A tese da realidade fsica ou teolgica do
a de Einstein, que prevalece na fsica contem-              E.  tpica da filosofia antiga. Concebendo o E.
pornea.  primeira vista, principalmente ao se             como lugar ou posio ou como recipiente, os
considerar s a relatividade restrita, a concep-            antigos acreditavam na realidade do E. e consi-
o de Einstein constitui um retorno  teoria               deravam-no um elemento ou uma condio do
clssica do E. como posio ou lugar. Diz Eins-             mundo ou mesmo um atributo de Deus. En-
tein a respeito: "Nosso E. fsico, do modo como             quanto para Plato, para Aristteles e para os
o concebemos por meio dos objetos e de seu                  epicuristas o E.  constituinte do mundo, para
movimento, tem trs dimenses e as posies                 os neoplatnicos  Deus. Essa concepo 
so caracterizadas por trs nmeros. O instan-              atribuda por Sexto Emprico aos peripatticos:
te em que se verifica o evento  o quarto nmero.           "Parece que, para os peripatticos, o primeiro
A cada evento correspondem quatro nme-                     Deus  o lugar de todas as coisas. De fato, se-
ros determinados e um grupo de quatro n-                   gundo Aristteles, o primeiro Deus  o limite
meros corresponde a um evento determinado.                  dos cus... E uma vez que o limite dos cus 
Portanto, o mundo dos eventos constitui um                  o lugar de todas as coisas dentro dos cus, Deus
contnuo quadridimensionar (EINSTEIN-INFELD,                ser o lugar de todas as coisas" (Adv. math.,
ESPAO                                                351                                           ESPAO

II, 33). A filosofia judaico-alexandrina adota              cias", faziam a mesma reduo subjetivista, mas
essa concepo, que reaparece nos livros da                 chegavam a considerar o E. como um conceito
Cabala. No sc. XVII, foi aceita por Campanella             discursivo, universal, que exprime as relaes
(De sensu rerum, I, 12), p o r Henry More                   das coisas entre si. A essas duas formas de
(Enchiridion metaphysicum, I, 8) e por Spi-                 subjetividade, Kant contraps a subjetividade
noza, que concebeu a extenso como um atri-                  transcendental do E., segundo a qual ele  a
buto de Deus e afirmou, portanto, que "tudo o               condio da percepo sensvel. "O E.  uma
que ,  em Deus" (Et., I, 15). O prprio New-              representao necessria apriori, que serve de
ton falou do E. como sensorium, rgo me-                   fundamento para todas as intuies externas.
diante o qual Deus move as coisas (Opticks,                 Nunca se pode formar a representao da
III, q. 31; Dover publ., p. 403), conceito critica-         inexistncia do E., ainda que se possa perfeita-
do longamente por Leibniz em suas cartas a                  mente pensar que no E. no h objeto algum.
Clarke, mas aceito no sc. XVIII por vrios                 O E. deve ser, portanto, considerado como a
escritores, inclusive o prprio Clarke. Como                condio da possibilidade dos fenmenos, e
ltima manifestao desse ponto de vista pode-              no como uma determinao dependente de-
se considerar a doutrina de S. Alexander, se-               les;  uma representao apriori que est ne-
gundo a qual o E. e o tempo so a substncia                cessariamente no fundamento dos fenmenos
do universo e de Deus, estando entre si na                  externos" (Crt. R. Pura,  2). Nesse sentido, o
mesma relao em que o corpo est com o                     E. no  nem conceito nem percepo, mas
esprito. Desse ponto de vista, o E. seria o "cor-          "intuio apriori" ou "intuio pura", ou seja,
po" da realidade, logo de Deus, que est no                 condio de qualquer intuio externa pos-
pice da realidade (Space, Time and Deity,                  svel. Assim entendido, corresponde exata-
1920).                                                      mente ao "E. absoluto" de Newton, que este
    ti) A tese da subjetividade do E. foi apresen-          entendia como sensorium de Deus; para Kant 
tada pela primeira vez por Hobbes, que definiu              como o sensorium do sujeito cognoscente, isto
o E. como "a imagem da coisa existente en-                  , a condio absoluta da possibilidade dos
quanto existente, ou seja, no se considerando              objetos externos.
dela outro acidente que no seu aparecer fora                   Na filosofia moderna e contempornea a
do sujeito imaginante" (De corp., VII,  2). A              tese da subjetividade do E. assume a forma do
anlise que Locke fez do E. como idia com-                 carter aparente ou ilusrio do E. Idealismo e
plexa de modo tambm tem como pressupos-                    espiritualismo insistem nessa tese. Hegel afir-
to a reduo do E. a uma idia (Ensaio, II, 13, 2);         mava que "o E.  mera forma, uma abstrao,
essa reduo  ainda mais radical em Berkeley,              uma abstrao da exterioridade imediata"
pela sua oposio ao conceito newtoniano de                 (Ene,  254): o que, todavia, no o impedia de
E.: "A considerao filosfica do movimento                 procurar uma demonstrao racional da neces-
no implica a existncia de um E. absoluto dis-             sidade das trs dimenses do E. (Ibd.,  255). O
tinto do que  percebido pelos sentidos e rela-             idealismo de inspirao hegeliana considera o
tivo aos corpos: est claro que tal coisa no               E. simples, aparncia (cf. BRADLEY, Appearance
pode existir sem o esprito, considerando os                and Realty, 1893; GKNTILE, Teoria generale
mesmos princpios que demonstram tese se-                   dello spirito, 1916, cap. IX). E o espiritualismo
melhante sobre todos os outros objetos dos                  segue o mesmo caminho quando, com Berg-
sentidos" (Principies ofHuman Knowledge, I,                 son, v o E. como a decadncia, a disperso ou
116). Com base no mesmo pressuposto, Hume                   a exteriorizao da durao real da conscincia
afirmava que "a idia de E. ou extenso no                (Essai sur les donnes immdiates de Ia cons-
mais que a idia de pontos visveis ou tang-               cience, 1889; vol. cratr, 3a ed., 1934, pp. 219
veis, distribudos em certa ordem", e que por-              ss.). Teses anlogas a essas foram e so fre-
tanto "no podemos fazer idia do E. ou do v-              qentemente repetidas na filosofia contem-
cuo onde nada haja de visvel ou tangvel"                  pornea.
{Treatise, I, II, 5, ed. Selby-Bigge, p. 53).                   c) A terceira alternativa que o problema da
    O empirismo havia, assim, afirmado a subje-             realidade do E. deixou aberta  a rejeio do
tividade do E., reduzindo-o a um conceito                   problema e a afirmao de que o E. no  real
emprico, a uma idia derivada de sensaes.                nem irreal, embora possa, em alguma das suas
Leibniz e seus seguidores, por outro lado, con-             determinaes mtricas, ser empregado na des-
siderando o E. como "a ordem das coexistn-                 crio da realidade. Esse ponto de vista come-
ESPAO VITAL                                          352                                            ESPCIE


ou a amadurecer com a descoberta das geo-                     No domnio da biologia, durante algum tem-
metrias no euclidianas, quando se percebeu a               po esse termo teve um significado correspon-
dificuldade de saber se uma dessas geometrias               dente ao descrito, entendendo-se por E. um
est incorporada na estrutura fsica do mundo.              tipo biolgico bem definido por caractersticas
Embora os matemticos se tenham pronuncia-                  hereditrias e subordinado a um outro tipo
do algumas vezes em favor da resposta positiva              mais amplo {gnero). Mas na biologia contem-
a essa questo, optando em sua maioria pela                 pornea os conceitos de gnero e espcie dei-
geometria euclidiana, o carter provisrio e                xaram de referir-se aos significados tradicio-
parcial dessas respostas mostra, mais do que                nais, e por E. entende-se simplesmente uma
qualquer outra coisa, a impossibilidade de re-              classe de indivduos cujos acasalamentos pro-
solver a questo e induz  adoo do ponto de               duzem indivduos frteis, o que no ocorre
vista que prescinde dela. Pode-se ento afirmar             com hbridos nascidos de acasalamentos entre
que s motivos de oportunidade cientfica su-               indivduos pertencentes a E. diferentes (C. PIN-
gerem o uso de um esquema geomtrico parti-                 CHER, Evolution, 1950, p. 21; KALMUS, Variation
cular para a descrio de determinado campo                 and Heredity, 1957, p. 29).
de fenmenos. A esse respeito M. K. Munitz diz
o seguinte: "Poder ser mais conveniente e fe-                 2. O mesmo que idia no sentido platnico
cundo usar um esquema mtrico e no outro,                  (v. IDIA).
mas no podemos dizer que so os fatos que                     3. O mesmo que forma no sentido aris-
nos levam a fazer isso. O problema  o seguin-              totlico (v. FORMA).
te: a adoo de um valor particular para a cur-                 4. Em relao ao significado 3 e na lingua-
vatura, tomado em conjuno com o resto da                  gem da escolstica medieval, a E.  intermedi-
teoria, permite-nos fazer inferncias corretas a            ria do conhecimento, ou seja, o objeto prprio
partir de dados fatos para outros fatos? Se a               da sensibilidade ou do intelecto, enquanto for-
exatido dos fatos observveis inferidos for                ma que a sensibilidade ou o intelecto abstrai
maior quando estabelecidos por uma teoria                   das coisas. Essa doutrina foi expressa com toda
com sua mtrica prpria e no por outra, pode-              a clareza por S. Toms, que, comentando o tre-
remos dizer que 'a mtrica do universo  assim              cho do De anima (III, 8, 431 b 21), em que
e assim'. Esta ltima expresso no passa de                Aristteles diz que "a alma  de certo modo
um modo sumrio de aludir  superioridade                   todas as coisas", observa: "Se a alma  todas as
relativa de dada teoria ou modelo do univer-                coisas,  necessrio que ela seja as prprias coi-
so" (Space, Time and Creation, VII,  4; trad.              sas, sensveis ou inteligveis -- no sentido da
it, p. 133).                                                afirmao de Empdocles, de que conhecemos a
                                                            terra com a terra, a gua com a gua, etc. -- ou
   ESPAO VITAL. V. CAMPO.
                                                            ento que ela seja as espcies. Mas por certo a
   ESPCIE (gr. eio; lat. Species; in. Kind,              alma no  a coisa, pois, p. ex., na alma no h
Species; fr. Espce, ai. Ari, Species; it. Speci).
1. Conceito que  parte ou elemento de outro                as pedras, mas a E. da pedra". Ora, a E.  a
conceito. Nesse sentido, essa palavra foi co-               forma da coisa. Logo, "o intelecto  a potncia
mumente empregada por Plato (cf. Sof, 235 d,               receptiva de todas as formas inteligveis e o
Teet., 178 a etc), por Aristteles (Met., X, 7,             sentido  a potncia receptiva de todas as for-
1057 b 7; Cat. 2 b 7, etc.) e ilustrada em Isagoge          mas sensveis" (cf. tambm S. Th., I, 2. 84 a, 2).
de Porfrio, que lhe d a seguinte definio: "A            A doutrina da E. ou, como tambm se diz, da
E.  o que se situa sob o gnero e a que o                  similitude, como intermediria entre o objeto
gnero  atribudo essencialmente". E acres-                e a potncia cognoscitiva humana, predomina
centa: "A E.  o atributo que se aplica essen-              durante o perodo clssico da escolstica: 
cialmente a uma pluralidade de termos que                   aceita por Boaventura (In Sent., II, d. 39, a. 1,
diferem especificamente entre si", observan-                q. 2) e por Duns Scot (Op. Ox., I, d. 3, q. 7, n.
do-se, porm, que esta ltima definio s se               2, 3, 20), mas posta de lado pela escolstica do
aplica  "E. especialssima", que precede ime-              sc. XIV. Durand de Pourain (In Sent., II, d. 3,
diatamente o indivduo, como p. ex. o concei-               q. 6, n. 10) e Pedro Aureolo (In Sent., 1, d. 9, a.
to de homem (Isag., 4, 10 ss.). Nesse sentido o             1) negam peremptoriamente a existncia da E.
conceito de E. permaneceu inalterado em toda                e afirmam que o objeto do conhecimento  a
a lgica tradicional, at que, com a afirmao              prpria coisa. Essa doutrina  veementemente
da lgica matemtica, foi substitudo pelo con-             ratificada por Ockham com o argumento de
ceito de classe (v.).                                       que, se a E. fosse o objeto imediato do conheci-
r   ESPECIFICAO                                         353                                     ESPECULAO

    mento, o conhecimento no seria conhecimen-                  do movimento e do repouso". Com efeito, uma
    to do objeto, mas da sua imagem, assim como                  cincia desse gnero no  prtica nem produ-
    a esttua de Hrcules no levaria a conhecer                 tiva. A atividade produtiva tem princpio na
    Hrcules, nem permitiria julgar da sua seme-                 mente ou na habilidade do artista, e a ativida-
    lhana com ele se no se conhecesse o prprio                de prtica na deciso de quem age. "Logo, se
    Hrcules {In Sent., II, q. 14, T). O ponto de vista          todo pensamento  prtico, produtivo ou te-
    que permitiu que esses escolsticos abando-                  rico as cincias naturais so especulativas e
    nassem a noo de E. foi o da intenciona-                    consideram o que tem em si capacidade de
    lidade (v.) do conhecimento, segundo a qual o                mover-se" (Met., VI, I, 1025 b 18). O objeto das
    ato de conhecer  uma relao com o objeto                   cincias especulativas  o necessrio, j que s
    em pessoa. Todavia, a doutrina cartesiana da                 o necessrio, que no pode ser diferente do que
    idia como objeto imediato do conhecimento                   , no d o que fazer ao homem. E s na E. o
    pode ser considerada, sob certos aspectos, a                 homem encontra felicidade. "Quanto maior a
    retomada da noo escolstica da E. (v. IDIA).              E., maior tambm a felicidade, e encontra-se
       ESPECIFICAO (in. Specification; fr. Sp-                mais felicidade naquilo em que h maior espe-
    cfication; ai. Spezifikation, it. Specificazion).          culao. Isso no acontece por acaso, mas pela
    Kant chamou de "lei transcendental de E." a re-              prpria natureza da E., que tem valor em si
    gra que "impe ao intelecto procurar sob to-                 mesma, de sorte que a felicidade  uma esp-
    das as espcies que se nos deparam certo n-                 cie de E." {Et. nic, X, 8, 1178 b 28).
    mero de subespcies e, para cada diferena,                      Essa exaltao da E., que constitui um dos
    certo nmero de diferenas menores" {Crt. R.                modos fundamentais de entender a funo da
    Pura, Apndice  Dialtica transcendental). Essa            filosofia (v.), foi herdada sobretudo pelo misti-
    lei tem o seu correspondente simtrico na lei                cismo neoplatnico. Plotino reduziu todas as
    da homogeneidade(v.), segundo a qual o ml-                  atividades  E. e afirmou que a prpria gera-
    tiplo deve ser continuamente posto sob gne-                 o das coisas naturais  E.: E. de Deus {Enn.,
    ros superiores; ambas as leis confluem na lei                III, 8, 5). O misticismo. medieval identifica E.
    da afinidade (v.) de todos os conceitos, que                 com contemplao, que  o grau mais alto
    permite a passagem de um conceito para o                    da ascenso mstica antes do xtase (cf.
    outro (Ibid.). O princpio da E. foi chamado                RICARDO de S. VTOR, De contemplatione, I, 3),
    por Hamilton de "Lei de heterogeneidade"                    mas S. Toms a identifica com a meditao,
    (v. HOMOGENEIDADE).                                         que  o grau anterior {S. Tb., II, 2, q. 180, a. 3,
        Kant falou tambm de uma "lei da E. da na-              ad 2a). Em todos esses usos, todavia, o signifi-
    tureza", segundo a qual a natureza especifica               cado de contemplao desinteressada  predo-
    suas leis gerais segundo o princpio de finalida-           minante e fundamental.
    de relativa  nossa faculdade de conhecer. Mas                  2e Kant introduziu um novo significado do
    essa lei pertence  esfera do juzo reflexivo, ou           termo, que  o predominante no uso moderno:
    seja, no faz parte da natureza, mas simples-               "O conhecimento terico  especulativo quan-
    mente prescreve uma regra para a sua interpre-              do se refere a um objeto ou ao conceito de um
    tao (Crt. do Juzo, Intr.,  V).                         objeto a que no se pode chegar com nenhu-
        ESPECULAO (gr. ecopot; lat. Speculatio;             ma experincia. A E. contrape-se, por isso,
    in. Speculation; fr. Spculation; ai. Spekulation;          ao conhecimento natural, que s se refere a
    it. Speculazion). O termo tem dois significa-              objetos ou predicados que podem ser dados
    dos: 1Q contemplao ou conhecimento desin-                 em uma experincia possvel" {Crt. R. Pura,
    teressado; 2Q conhecimento ultra-emprico ou                O ideal da razo pura, se. VII). Esse significa-
    sem base na experincia. No primeiro significa-             do permaneceu inalterado na tradio, mesmo
    do, a E. se contrape  ao; no segundo,                  porque Hegel adotou-o, modificando seu sinal,
    experincia, ou ao conhecimento "natural".                  ou seja, considerando autntico apenas o co-
        Ia Os antigos entenderam por E. a atividade             nhecimento especulativo. Chamou de especu-
    cognoscitiva no utilizada para um fim qual-                lativo ou positivo racional o terceiro momento
    quer, mas como fim em si mesma. O conceito                  da dialtica, o da sntese, em que se tem "a uni-
    de E., nesse sentido, foi fixado por Aristteles,           dade das determinaes na sua oposio". Essa
    que qualificou de especulativas (ou teorticas)             unidade significa que "a filosofia nada tem a
    as cincias naturais, porquanto "consideram a               ver com meras abstraes ou pensamentos for-
    substncia que tem em si mesma o princpio                  mais, mas apenas com pensamentos concre-
ESPERANA                                             354                                          ESPIRITO


tos", ou seja, com pensamentos que so ao                   ca as faculciades de que resulta" {Crt. do Juzo,
mesmo tempo realidades (Ibid.,  82). Alm                   49; Antr.,  71 b). Foi com esse sentido que a
disso,  da filosofia especulativa a demonstra-             palavra E. permaneceu no uso corrente, em
o da necessidade de seus objetos {Ene,  9).              que s vezes se contrape a "letra", para indi-
Assim, em Hegel, o adjetivo especulativo indica             car o que vivifica ou, sem metfora, o signifi-
o ponto de vista que considera a realidade                  cado autntico de alguma coisa. Nesse sentido,
como racionalidade, a racionalidade como real,              foi tambm empregada por Montesquieu no t-
e ambas como necessidade. O adjetivo que                    tulo da sua obra, O E. das leis.
Kant empregava para designar o que est alm                    3Q Substncias incorpreas, ou seja, anjos,
da experincia possvel, portanto do conheci-               demnios e almas dos mortos. Era nesse senti-
mento efetivo,  usado por Hegel para designar              do que Locke empregava a palavra spirit (re-
o conhecimento efetivo que, como tal, est                  servando mind a E. no significado l s ) e dizia:
alm da experincia e das separaes que nes-               "Com exceo de algumas pouqussimas idias
ta aparecem.                                                que obtemos mediante a reflexo e tudo o que,
    Os significados de E. e de especulativo fixa-           a partir delas, podemos reunir a respeito do Pai
ram-se nessa alternativa. Entende-se por E. um              de todos os E,, o eterno e independente autor
conhecimento que no encontra fundamento                    deles, de ns e de todas as coisas, at mesmo
ou justificao na experincia ou na observa-               da existncia de outros E., no temos informa-
o; por um lado, esse  um motivo para decla-              o segura a no ser por via de revelao" (En-
rar ilusrio ou quimrico tal conhecimento, por             saio, IV, 3, 27). E Kant, em Sonhos de um visio-
outro (mas cada vez menos), motivo para julg-              nrio esclarecidos por sonhos da metafsica
lo superior.                                                (1766), entendia Geist no mesmo sentido: "E. 
   ESPERANA (in. Hope, fr. Esperance, ai.                  um ser dotado de razo. No , pois, um dom
Hoffnung; it. Speranza). 1. Uma cias emoes                maravilhoso ver E., j que quem v homens v
fundamentais (v. EMOO).                                   seres dotados de razo. Mas prossigamos: esse
    2. Uma das virtudes teologais (v. VIRTUDE).             ser que no homem  dotado de razo  apenas
   ESPIRITISMO (in. Spiritism; fr. Spiritisme,              uma parte do homem; e essa parte, que o vivi-
ai. Spiritismus; it. Spiritismo). Crena em fe-             fica,  um E." (Trumeeines Geistersehers, I, 1).
nmenos mentais ou naturais no explic-                    Como Locke, Kant  ctico sobre a existncia
veis por mtodos comuns ou cientficos e                    do E. nesse sentido e, em todo caso, julga im-
que devem ser atribudos  ao de espritos,               possvel demonstr-la. Tambm com esse sen-
sejam estes almas de pessoas mortas ou po-                  tido, a palavra E. permaneceu no uso corrente
tncias anglicas ou demonacas (v. META-                   (V. ANJOS; DEMNIO; ESPIRITISIVIO).
PSQUICA).                                                     4- Matria sutil ou impalpvel que  a fora
   ESPRITO (in. Mind, Spirit; fr. Esprit; ai.              animadora das coisas. Esse significado, deriva-
Geist; it. Spirito). Podem-se distinguir os se-             do do estoicismo, encontra-se com freqncia
guintes significados:                                       nos magos do Renascimento, sobretudo em
    ls Alma racional ou intelecto (v.) em geral;            Agripa (De oceulta philosophia, I, 14) e em
esse  o significado predominante na filosofia              Paracelso (Meteor, pp. 79 ss.).
moderna e contempornea, bem como na lin-                       59 Em relao mais estreita com o significa-
guagem comum.                                               do l s , esse termo s vezes significa disposio
    2Q Pneuma (v.) ou sopro animador, admiti-               (v.) ou atitude (y), como nas clebres expres-
do pela fsica estica, passando desta a vrias             ses de Pascal "E. de geometria" e "E. de finu-
doutrinas antigas e modernas.  o significado               ra" e em expresses correntes como "E. religio-
originrio do termo, do qual derivaram todos                so", "E. esportivo", etc.
os outros. Esse significado ainda permanece                    Desses cinco significados, o nico estrita-
nas expresses em que E. significa "aquilo que              mente vinculado  problemtica da filosofia
vivifica". Kant usou o termo nesse sentido em               moderna  o primeiro. Foi Descartes quem
sua teoria esttica: "No significado esttico, E.          introduziu e imps esse significado. "Portanto,
o princpio vivificante do sentimento. Mas aqui-            a rigor, no sou mais que uma coisa que pen-
lo com que esse princpio vivifica a alma, a ma-            sa, um E., um intelecto ou uma razo, termos
tria de que se serve,  o que confere impulso              cujo significado antes me era desconhecido"
finalista  faculdade do sentimento e a insere              (Md., II). E na resposta s segundas objees
num jogo que se alimenta de si mesmo e fortifi-             ele esclarece, em forma de definio, o signifi-
ESPIRITO                                           355                                           ESPRITO

cado do termo: "A substncia na qual reside                  Foi s com Hegel que se teve uma espe-
imediatamente o pensamento aqui  chama-                 cificao diferente da noo de E., com as no-
da de esprito. Embora esse nome seja equvo-            es de E. objetivo e E. absoluto. Se por E.
co, porque s vezes  atribudo tambm ao                subjetivo ele entende o E. finito, ou seja, alma,
vento e aos liquores sutilssimos, no conheo           intelecto ou razo (E. no significado cartesiano
nenhum outro mais apropriado" (// Rp., def.             do termo) {Ene,  386), por E. objetivo ele
VI). Embora nessa expresso de Descartes a               entende as instituies fundamentais do mun-
noo de substncia sirva de intermediria               do humano, quais sejam, direito, moralidade e
entre o significado novo e o antigo (substncia          eticidade, e por E. absoluto entende o mundo
incorprea) do termo, seu uso em Descartes               da arte, da religio e da filosofia. Nessas duas
acaba por torn-la equivalente a conscincia.            concepes, o E. deixou de ser atividade subje-
Substncia pensante, conscincia, intelecto ou           tiva para tornar-se realidade histrica, mundo
razo so, portanto, sinnimos de esprito.              de valores. Enquanto E. objetivo  o mun-
Locke, como se disse, usava o termo mind no              do das instituies jurdicas, sociais e histricas
mesmo sentido (cf., p. ex., Ensaio, II, 1, 5).           que culmina na eticidade (que compreende as
Leibniz dizia: "O conhecimento das verdades              trs principais instituies histricas: famlia,
necessrias e eternas  o que nos distingue              sociedade civil e Estado), E. absoluto  o mun-
dos simples animais e nos dota de razo e                do da Autoconscincia, que se revela a si mes-
cincia, elevando-nos ao conhecimento de ns             ma nas produes superiores, que so a arte, a
mesmos e de Deus.  isso o que em ns se                 religio e a filosofia {Ibid.,  486, 553). Para
chama alma racional ou E." (Monad.,  29).
Berkeley, por sua vez, adotou esse termo e               Hegel, as trs formas de E. so manifestaes
estabeleceu suas equivalncias: "Esse ser ativo          da Idia, da Razo infinita, mas  s no E. ob-
e perceptivo  o que chamo de mind, spirit,              jetivo e no E. absoluto que a Idia ou Razo se
soul (alma) ou myself (eu)" {Principies of               realiza plenamente ou chega  manifestao
Human Knowledge, I,  2). Hume entendia esse             acabada ou adequada. Essas noes caracteri-
termo como alma, intelecto ou eu {Treatise, I,           zam o idealismo romntico de inspirao he-
4, 2, ed. Selby-Bigge, p. 207). Essas equivaln-         geliana, que identificou E. com sujeito absolu-
cias mantm-se constantes no uso posterior do            to ou eu universal, como o fez Gentile {Teoria
termo: assim, os problemas a que ele d ori-             generale dello S., 1920), ou com Conceito, em
gem so os vinculados s noes de alma,                 sua universalidade ou concretude, que  a Ra-
conscincia, intelecto, razo e eu. Nesses ver-          zo absoluta, como o fez Croce {Lgica, 1920,
betes, encontrar-se- a indicao dos proble-            pp. 26 ss.).
mas que tiveram origem na noo de E. em                     Mesmo fora do idealismo, todavia, a noo
suas diversas especificaes. Aqui basta re-             do E. objetivo, como mundo de instituies his-
cordar que alguns dos empregos paradoxais                trico-sociais, de valores institucionalizados ou
s vezes encontrados na filosofia contempor-            de formas de vida, foi acolhida e estudada. De
nea se referem na realidade ao significado tra-          fato, foi aceita por Dilthey, que por ela enten-
dicional institudo por Descartes. Assim, quan-          deu "a conexo estrutural das unidades vivas,
do L. Klages contraps E. a alma, entendeu               que continua nas comunidades" e criticou o
por E. o conjunto de atividades racionais, con-          carter absoluto e dogmtico dessa noo em
frontadas com as tendncias instintivas repre-           Hegel (Gesammelte Schriften, VII, p. 150; cf. P.
sentadas pela alma {Der Geist ais Widersacher            ROSSE, Lo storicismo tedesco contemporneo
der Seele, 1929). Por outro lado, G. Santayana
entendeu E. no sentido -- tambm cartesiano              1956, pp. 104-105). Nesse sentido limitado, a
-- de conscincia: "Por E. entendo no s a              noo foi aceita por E. Spranger, que entendeu
intuio passiva implcita em ser dado de es-            como cincia do E. a disciplina que cuida das
sncia, mas tambm o entendimento e a cren-              formaes ultrapessoais ou coletivas da vida
a que pode acompanhar a presena da essn-              histrica {Lebensformen, 1914, p. 7). Foi aceita
cia" {Scepticism and Animal Faith, cap. 26,              igualmente por N. Hartmann, que considerou o
Dover Publ., p. 272). De resto, chega a ser              E. objetivo como uma superestrutura que se
suprfluo advertir que, na expresso "cincias           eleva acima do mundo orgnico. Ao E. objetivo
do E.", difundida por Dilthey, entende-se por            pertenceriam todas as produes espirituais:
E. a atividade racional do homem (v. CINCIAS,           letras, artes, tcnicas, religies, mitos, cincias,
CLASSIFICAO DAS).                                      filosofias, etc. Ele  o verdadeiro protagonista
                                                         da histria, segundo Hartmann {Das Problem
ESPIRITO NACIONAL                                       356                                 ESPIRITUALISMO


des geistigen Seins, 1931, p- 262). Acima do E.               muito repetida e em geral se encontra em to-
Objetivo, Hartmann situa o E. vivo, que seria a               das as concepes providencialistas de his-
unidade do E. objetivo e da conscincia pes-                  tria (v.).
soal (Ibid, p. 259). Por certo Hartmann ainda                     ESPIRITUALISMO (in. Spiritualism, Perso-
est muito prximo da inspirao hegeliana.                   nalism; fr. Spiritualisme, ai. Spiritualismus; it.
Mas o carter impessoal e objetivo do E. tam-                 Spiritualismo). 1. Entende-se por esse termo
bm  ressaltado por Dewey, que parte de                      toda doutrina que pratique a filosofia como
pressupostos filosficos diferentes: "Toda a his-             anlise da conscincia (v.) ou que, em geral,
tria da cincia, da arte e da moral demonstra                pretenda extrair da conscincia os dados da
que o E. que aparece nos indivduos no ,                    pesquisa filosfica ou cientfica. Essa palavra
como tal, E. individual.  em si mesmo um                     comeou a ser utilizada no sculo passado por
sistema de crenas, de reconhecimentos e de                   V. Cousin, que, no prefcio  edio de 1853
ignorncias, de aceitaes e de recusas, de                   de sua obra Du vrai, du beau et du bien, assim
expectativas e de apreciaes de significados, e              escrevia: "Nossa verdadeira doutrina, nossa
foi institudo sob a influncia do costume e                  verdadeira bandeira  o E., essa filosofia to s-
da tradio" (Experience and Nature, 1926, p.                 lida quanto generosa, que comea em Scrates
218).                                                         e Plato, que o Evangelho difundiu pelo mun-
   ESPRITO NACIONAL (in. National spirit;                    do, que Descartes colocou nas formas severas
fr. Esprit d'une nation; ai. Volksgeist; it. Spirito          do pensamento moderno, que no sc. XVII foi
nazional). Conceito introduzido por Mon-                     uma das glrias e das foras da ptria, que
tesquieu, que exprime o carter fundamental                   pereceu com a grandeza nacional no sc.
da nao enquanto resultante de uma multi-                    XVIII e que no incio deste sculo Royer CoUard
plicidade de fatores. Diz Montesquieu: "Muitas                reabilitou no ensino pblico, enquanto Cha-
coisas conduzem os homens: o clima, a reli-                   teaubriand e Madame de Stal a transportavam
gio, as leis, os princpios de governo, as tradi-            para a literatura e para a arte... Essa filosofia
es, os costumes, os usos; a partir da se for-              ensina a espiritualidade da alma, a liberdade e
ma o E. geral, que  seu resultado" (Esprit des               a responsabilidade das aes humanas, as obri-
lois, 1748, XIX, 4). Em outro trecho, Mon-                    gaes morais, a virtude desinteressada, a dig-
tesquieu chama o E. nacional de "alma univer-                 nidade da justia, a beleza da caridade; e alm
sal" (Mlanges indits, p. 160), mas, em todo                 dos limites deste mundo mostra um Deus,
caso, estava bem longe de transformar esse                    autor e modelo da humanidade, que, depois de
conceito numa realidade em si. Esse passo foi                 t-la criado evidentemente para um propsito
dado por Hegel, que concebeu o E. nacional                    excelente, no a abandonar no desenrolar
como o verdadeiro sujeito da histria: "O E. da               misterioso de seu destino. Essa filosofia  a
histria  um indivduo de natureza universal                 aliada natural de todas as causas justas. Susten-
mas determinado: em geral, uma nao; o E. de                 ta o sentimento religioso, favorece a verdadeira
que tratamos  o E. da nao. Os E. das na-                   arte, a poesia digna desse nome, a grande lite-
es distinguem-se conforme a idia que fazem                 ratura;  o apoio do direito; rejeita igualmente a
de si mesmos, conforme a superficialidade ou                  demagogia e a tirania, etc". Esse programa do
a profundidade com que compreenderam e                        E., magistralmente delineado por Cousin, foi
aprofundaram o que  o E." (Philosophie der                   adotado por todas as numerosssimas formas
 Geschichte, ed. Lasson, p. 36; trad. it., I, p. 43).         assumidas por essa corrente filosfica na filoso-
Periodicamente, determinado E. nacional assu-                 fia moderna e contempornea. O apoio s
me o papel de "E. do mundo" (Weltgeisi), de                   "boas causas", isto , aos valores morais, polti-
guia e sujeito nico da histria. "O Weltgeist               cos, sociais e religiosos da tradio, continuou
o E. do mundo, tal como ocorre na conscincia                 sendo preocupao constante do E., que, sob
humana; os homens esto para ele como as                      esse aspecto, tem o comportamento e a nature-
realidades singulares esto para a totalidade                 za de uma escolstica (v.). O meio de realizar
que as consubstancia. E esse E. do mundo                      seu programa foi tambm indicado por Cousin:
conforma-se ao E. divino, que  o E. abso-                    o recurso  conscincia,  reflexo interior ou
 luto. Assim como Deus  onipresente, est em                 introspeco para o inventrio dos dados indis-
todos os homens, aparece na conscincia de                    pensveis  especulao. O recurso  conscin-
 cada um, isso  o E. do mundo" (Ibid., p. 37;                cia, como o prprio Cousin observava, vincula
trad. it., p. 44). A noo de E. do mundo foi                 o E. ao idealismo romntico, mas este no
ESPIRITUALISMO                                       357                                ESPONTANEIDADE


compartilha com o idealismo romntico a iden-              divino em alguma de suas especificaes
tificao entre conscincia finita (humana) e              que se ajustasse  tradio teolgica do cris-
Conscincia infinita (divina). Como defensor da            tianismo.
teologia crist tradicional (a principal das suas              5a Defesa da tradio e das instituies em
"boas causas"), o E. no admite essa identifica-           que a tradio se encarna, porquanto a tradio
o, que lembra pantesmo ou atesmo (v.).                  interpretada como manifestao no mundo
    A figura principal do E. do sculo passado            humano do mesmo princpio divino que se re-
Maine de Biran (1766-1824); a figura principal             vela na conscincia. A defesa das "boas cau-
do E. do sc. XX  Henri Bergson (1859-1941).              sas", de que falava Cousin, na maioria das ve-
O E. tem congenialidade com a filosofia france-            zes se traduz em conservadorismo poltico.
sa, que hauriu em Montaigne e Pascal a prtica                2. O mesmo que espiritismo. Esse uso 
de filosofar como interrogao da conscincia.             mais comum em ingls, mas pode ser encon-
Mas em todos os pases suas manifestaes so              trado tambm em italiano e em alemo (cf., p.
numerosas, conquanto no muito diferentes.                 ex., a obra de I. H. FICHTE, Der neue Spiritua-
As grandes figuras da filosofia do risorgimento            lismus, 1878).
italiano, Galluppi, Rosmini, Gioberti e Mazzini,              ESPONTANEIDADE (lat. Spontaneitas; in.
inspiraram-se na tradio espiritualista. Na Ale-          Spontaneity, fr. Spontanit, ai. Spontaneitt;
manha, a obra de Hermann Lotze inspirou e                  it. Spontaneit). O adjetivo spontaneus no passa
conduziu a retomada do E., e a obra Micro-                 da traduo latina de SKOOTO, que significa
cosmo, desse autor, pode-se dizer que constitui            livre. Leibniz, que introduziu esse termo na lin-
o eptome do E. oitocentista, defendido de for-            guagem filosfica moderna, indica corretamen-
ma inteligente contra o cientificismo positivista.         te sua origem e significado: "Aristteles defi-
No mundo contemporneo, a obra de Bergson                  niu bem a espontaneidade ao dizer que uma
renovou o E. ao ir ao encontro, na medida do               ao  espontnea quando seu princpio est
possvel, das exigncias da cincia e ao re-               no agente. Spontaneum est, cuius princpium
propor suas teses fundamentais sobre proble-               estin agente' {Et. nic, III, l,1110al7). assim
mas especficos, como liberdade, alma, vida,               que nossas aes e nossas vontades dependem
moralidade, religio, etc. Em todas as suas for-           inteiramente de ns" (Teod., III,  301). Em
mas, porm, o E. tem em comum algumas                      certo trecho, ele distingue liberdade de E., di-
teses fundamentais, que derivam do seu                     zendo que "a liberdade  a E. de quem  inteli-
conceito da filosofia como anlise da cons-                gente, de tal modo que o espontneo no ani-
cincia e que podem ser assim resumidas:                   mal ou em outra substncia desprovida de
    Ia Negao da realidade do mundo exter-                inteligncia eleva-se no homem ou em outra
no, ou seja, o idealismo gnosiolgico. Essa nega-          substncia inteligente e chama-se livre" (Op., ed.
o pode ser mais ou menos condicionada ou                 Erdmann, p. 669). Mas, levando em conta ou
indireta, mas em ltima anlise  inevitvel,              no essa distino, a E. no  mais que o con-
porque uma realidade exterior  conscincia                ceito clssico da liberdade como causa sui: o
seria, por definio, inacessvel a esta e contra-         que tambm deixa clara a definio de Wolff,
diria o compromisso metodolgico do espiri-                segundo a qual ela  "o princpio intrnseco
tualismo. Logo, direta ou indiretamente, essa              para determinar-se a agir" (Psychol. emprica,
doutrina reduz a realidade a objeto imediato da             933). No mesmo significado, Kant falou do
conscincia;                                               intelecto como "E. do conhecimento" enquanto
                                                           "faculdade de produzir por si representaes"
    2- Conseqente reduo da cincia a conhe-
                                                           (Crt. R. Pura, Lgica transcendental, Introd., I).
cimento falso, imperfeito ou preparatrio. Os
                                                           Nesse sentido, ope-se a receptividade (v.) ou
espiritualistas mais avisados, como Lotze e
                                                           passividade (v.) sendo sinnimo de atividade,
Bergson, reduziram a cincia a conhecimento
                                                           termo hoje mais freqentemente empregado
preparatrio.
                                                           para indicar um processo ou uma mudana
    3 Inventrio, na conscincia, de dados                que  causa sui, ou seja, que no tem causa
aptos a construir o mundo da natureza e o                  fora de si. Tambm Heidegger entendeu a E.
mundo da histria em seu carter finalista ou              como liberdade; para isso, identificou-a com a
providencial.                                              transcendncia em que consiste a liberdade
    4a Inventrio, na conscincia -- e, portanto,          finita do homem: "A essncia do si-mesmo (a
no mundo da natureza e da histria --, de da-              ipseidad), a essncia daquele si-mesmo que
dos que remontariam a Deus ou a um princpio
ESQUEMA                                               358                                          ESSNCIA


jaz j no fundo de toda E., consiste na transcen-           pectos fundamentais dos fenmenos naturais
dncia... S porque constitui a transcendncia,             (o outro  o processo latente ou processo para a
a liberdade pode revelar-se, no Dasein existen-             forma). Por latente Bacon entendeu a configu-
te, como modo particular de causalidade, isto               rao ou estrutura dos corpos considerados es-
, como autocausalidade" (Vom Wesen des                     taticamente (De augm. scent., II, 1), de sorte
Grundes, 1929, III; trad. it., p. 65).                      que o estudo do E. foi comparado por ele ao
    ESQUEMA (gr. O5cn|i.a; in. Scheme, fr. Sch-            que  a anatomia para os corpos orgnicos
ma-, ai. Schema; it. Schem). No significado                (Nov. org., 11, 7).
simples de forma ou figura, essa palavra                       2. Kant entendeu por E. "comportamento
empregada comumente pelos filsofos. Foi                    intelectual por esquemas" (Crt. R. Pura, Anal.
Kant quem deu sentido especfico a esse ter-                dos Princ, cap. I), e Schelling usava essa pala-
mo, entendendo com ele o intermedirio entre                vra em sentido anlogo (System des trans-
as categorias e o dado sensvel; esse interme-              zendentalen Idealismus, III, cap. II, 3a poca).
dirio teria a funo de eliminar a hetero-                 Sobre a doutrina kantiana do E., cf. E. PACI,
geneidade dos dois elementos da sntese, sen-               "Critica dello schematismo trascendentale" em
do geral como a categoria e temporal como o                 Rivista di Filosofia, 1955, n. 4; 1956, n. 1.
contedo da experincia. Nesse sentido o E.                     ESQUERDA HEGELIANA (in. Hegelian
ou, mais precisamente, o E. transcendental,                left; fr. Gache heglienne, ai. Hegelsche Linke,
"a representao de um procedimento geral                   it. Sinistra hegeliand). Enquanto a direita hege-
graas ao qual a imaginao oferece sua ima-                liana(y.)  a escolstica do hegelianismo, a E.
gem a um conceito" (Crt. R. Pura, Anal. dos                hegeliana tende a contrapor  doutrina de Hegel
Princ, cap. I). Kant distingue vrios tipos de              os traos ou caractersticas do homem que nela
E., segundo os quatro gaipos de categorias, e               no foram adequadamente reconhecidos. No
inclui neles o nmero (E. da quantidade) e a                plano religioso, essa tendncia abre caminho
coisalidade (E. da qualidade). Em geral, os E.              para a crtica radical dos textos bblicos e para a
so determinaes do tempo e constituem, por                tentativa de reduzir a mito toda a doutrina da
isso, fenmenos ou conceitos sensveis de                   religio (David Strauss, 1808-74). A religio era
objetos de acordo com uma categoria determi-                considerada por Ludwig Feuerbach (1804-72)
nada (Ibid., Anal. dos Princ, cap. I). O E. foi             como "a autoconscincia do homem, ou se-
entendido por Schelling de modo semelhante,                 ja, como a projeo na divindade do que o ho-
distinguindo-se de imagem (em relao  qual                mem quer ser". No plano histrico-poltico, a
 mais geral) e de smbolo; para Schelling, E.              E. hegeliana contraps  concepo hegeliana
era a "a intuio da regra segundo a qual o                 da histria como racionalidade absoluta a
objeto pode ser produzido", esclarecendo-se                 interpretao materialista, que considera a his-
essa noo com o exemplo do artfice que                    tria em funo das necessidades humanas (K.
deve criar um objeto de forma determinada e                 MARX, 1818-83; F. ENGELS, 1820-95) (v. MATERIA-
em conformidade com um conceito (.System                    LISMO HISTRICO).
des transzendentalen Idealismus, 1800, III, cap.                ESSNCIA (gr. x eoiiV; lat. Essenta; in.
II, 3a poca; trad. it., p. 183). Esse significado          Essence, fr. Essence, ai. Wesen; it. Essenza). Por
atribudo por Kant e Schelling  o nico significa-         este termo, entende-se Em geral qualquer res-
do tcnico dessa palavra, que s vezes ainda                posta  pergunta: o qu? P. ex., nas expresses
reaparece (cf., p. ex., LEWIS, An Analysis of               "Quem foi Scrates? Um filsofo", "O que  o
Knowledge and Valuation, p. 134). Fora dele;                acar? Uma coisa branca e doce", "O que  o ho-
esse termo significa simplesmente modelo,                   mem? Um animal racional", as palavras "um
imagem geral, forma (como ocorre, p. ex., em                filsofo", "uma coisa branca e doce", "um ani-
BERGSON, Matire et mmoire, pp. 130 ss.; nergie
                                                            mal racional" exprimem a E. das coisas a que
spirituelle, p. 161; La pense et le mouvant, p.            se faz referncia nas respectivas perguntas.
216) ou projeto geral.                                      Algumas dessas respostas limitam-se a indicar
    ESQUEMATISMO (gr. axriU-OCTia|i; in.                  uma qualidade do objeto (p. ex., a de ser bran-
Schematism; fr. Schmatisme, ai. Schematis-                 co e doce), ou um carter (como o de ser fil-
mus; it. Schematismo). 1. Configurao ou                   sofo) que o objeto tambm poderia no ter.
estrutura. Esse  o significado comum do                    Outras, como p. ex. a que afirma que o homem
termo grego, a que Bacon se referiu quando                   um animal racional, parecem indicar algo a
falou do E. latente como de um dos dois as-                 mais, um carter que qualquer coisa chamada
ESSNCIA                                            359                                    ESSNCIA


"homem" no pode no possuir e que, por               (De an., III, 6, 430 b 26). Com isso, ele no
isso,  um carter necessrio do objeto defini-       pe no mesmo plano todas as respostas que
do. Nesse ltimo caso, a resposta  pergunta o        podem ser dadas  pergunta "o qu?" Se  per-
qu? no enunciou simplesmente a E. da coi-           gunta "O que s?" um homem responcie "msi-
sa, mas sua E. necessria ou sua substncia, e        co", sua resposta no exprime realmente o que
pode ser assumida como sua definio. Portan-         ele  por si mesmo, sempre e necessariamente,
to, deve-se distinguir: ls a E. de uma coisa, que     ou seja, na sua substncia. De fato, ele poderia
 qualquer resposta que se possa dar  pergunta       muitssimo bem no ser msico, e, havendo
o qu? 2") a E. necessria ou substncia, que        comeado a s-lo, pode deixar de s-lo. Mas,
a resposta ( mesma pergunta) que enuncia o           se responder que  "um animal racional", ento
que a coisa no pode no ser e que  o porqu         estar expressando o que no pode no ser ou
da coisa, como quando se diz que o homem             o que  necessariamente como homem. Expri-
um animal racional, pretendendo-se dizer que          me, portanto, o que Aristteles chama de to ti
o homem  homem porque  racional.                     en einai(quodquideratesse), que  a substn-
   Os fundamentos que expusemos foram                 cia considerada  parte de seu aspecto mate-
estabelecidos pela primeira vez por Aristteles,      rial (Mel, VII, 7, 1032 b 14). Esta segunda res-
que  o fundador da teoria da E., assim como          posta  a nica que pode valer como definio
 fundador da teoria da substncia.  verdade         da E. do homem, ao passo que todas as outras
que Aristteles encontrava os precedentes dessa       possveis determinaes de E. no valem como
teoria em Plato, que por sua vez a atribua a        definio porque no dizem o que o homem 
Scrates. "Enquanto eu te pedia que me defi-          de per si ou necessariamente (Ibid., VII, 4,1029
nisses a virtude inteira", censura Scrates a         b 13). Tambm por isso s a E. necessria ou
Mnon, "tu evitas dizer-me o queela  e afirmas       substncia  o verdadeiro objeto do saber ou
que toda ao  virtude, se realizada com uma         da cincia. Sobre estes fundamentos Aristteles
parte de virtude, como se tu j houvesses dito o      assenta a estrutura necessria da realidade,
que  a virtude na sua inteireza e eu devesse         que  o objeto especfico da teoria da subs-
reconhec-la mesmo depois de a reduzires a            tncia (v.).
cacos" (Men., 79 b). Nessas palavras, exigir que          As consideraes precedentes mostram que
Mnon diga o que  a virtude em sua inteireza         a teoria da E., embora diferente da teoria da
 exigir que ele enuncie a E. necessria, ou o        substncia, pode conduzir a ela e ser conside-
que a virtude no pode no ser em qualquer            rada uma propedutica dela. Portanto, no  de
circunstncia.  a isso, exatamente, que Arist-      estranhar que, na evoluo histrica do termo,
teles dar o nome de substncia. Mas nem toda         seu significado muitas vezes tenha sido idntico
E., ou seja, nem toda resposta  pergunta o           ao de E. substancial ou substncia. Mesmo a
qu? uma definio desse tipo. Diz Aristte-         linguagem comum, na qual freqentemente se
les: "Quem indica a E. ora indica a substncia,       sedimenta o significado filosfico de uma longa
ora uma qualidade, ora uma de outras cate-            tradio, emprega esse termo quase exclusi-
gorias. Quando, referindo-se a um homem, se           vamente no sentido de E. necessria. Devere-
diz que ele  um homem ou um animal, enten-           mos ento ter em mente a distino entre os
de-se sua E. como substncia. Mas quando, re-         dois significados j enunciados, que Aristteles
ferindo-se  cor branca, diz-se que  branca ou       ilustrou perfeitamente: ls a E. como resposta 
 uma cor, entende-se a E. como qualidade.            pergunta "o qu?"; 2 a E. como substncia.
Igualmente, quando se faz referncia  grandeza           ls O significado geral e fundamental desse
de um cvado, afirmando que ela  a grande-           termo pode ser admitido tambm por filsofos
za de um cvado, entende-se que sua E.  quan-        que no compartilham a teoria da substncia.
tidade. O mesmo se diga nos outros casos"             Mas os esticos, que no admitiram a teoria da
(Jop., I, 9, 103 b 27). Em outro trecho, Arist-      substncia, evitaram (ao que saibamos) o ter-
teles contrape nitidamente a E. substancial         mo "essncia". Para eles, a definio no mani-
E.: "O enunciado sempre se refere a alguma            festa a E. de uma coisa, mas foi definida (por
coisa, assim como a afirmao, e  sempre ver-        Crisipo) como "resposta" (apdosis). Com isso,
 dadeiro ou falso; mas o intelecto no  as-          deram a entender que qualquer resposta  per-
sim, sendo verdadeiro quando enuncia a E. se-         gunta "o qu?" pode ser considerada definio
gundo a E. substancial, e no verdadeiro quan-        da coisa sobre a qual se faz a pergunta. Com
 do a enuncia relativamente a alguma coisa"           efeito, diziam que a descrio " um discurso
ESSNCIA                                              360                                         ESSNCIA


que conduz  coisa atravs de suas pegadas"                 realidade um homem e  na realidade animal,
(DIG. L, VII, 1, 60), vendo assim nos enun-                no no sentido de que Scrates  esse pre-
ciados lingsticos um modo de orientar-se em               dicado 'homem' e esse predicado 'animal', mas
relao s coisas, e no a expresso da subs-               no sentido de que existe alguma coisa pela
tncia das coisas. Desse ponto de vista, nem                qual esto o predicado homem e o predicado
sequer se apresenta a possibilidade de passar               animal: como quando acontece que esses dois
da teoria da E. para a teoria da substncia. Uma            predicados esto por Scrates" (Summa log.,
proposio ou um enunciado qualquer nada                    II, 2). Essa contraposio da teoria da suposi-
exprime que possa referir-se  substncia e,                o  teoria da inerncia  apenas um aspecto
portanto, declarar-se essencial ou acidental em             da contraposio da teoria da E.  teoria da
relao a ela, dedutvel ou no dedutvel dela,             substncia. E tal contraposio na realidade  a
mas exprime simplesmente um estado de fato,                 mesma entre a formulao da lgica estica e
que, se  como se diz, verifica a proposio ou,            a da lgica aristotlica: a primeira fundada na
se no , torna-a falsa. P. ex., a proposio "            enunciabilidade das situaes de fato (" dia" 
dia"  verdadeira se  dia; falsa, se no  dia             verdadeiro se for dia); a segunda fundada na
(DIG. L., VII, 65). Em outros termos, a relao            enunciabilidade da substncia ("O homem 
predicativa (ou o significado predicativo de ser            animal racional" porque a racionalidade  a
[v.]) deve ser entendida, desse ponto de vista,             essncia necessria do homem).
como uma relao de fato que remete  identi-                   Depois disso,  fcil seguir as etapas princi-
dade verificvel entre o objeto significado pelo            pais dessa linha de interpretao da noo de
sujeito e o objeto significado pelo predicado, e            E. na filosofia moderna e contempornea. O
no como uma relao de inerncia ou per-                   problema criado pela desvinculao entre teo-
tinncia, ou como uma relao qualquer que                  ria da E. e teoria da substncia  o da possibili-
implique conexo substancial ou necessria.                 dade de certa hierarquia entre as determina-
Quando, a partir do sc. XIII, comeou a pre-               es se atribudas a uma entidade qualquer,
valecer a orientao estica da lgica, at ento           visto que nenhuma dessas determinaes pode
quase obliterada pela orientao aristotlica,              ser considerada necessria. Parece, p. ex., que
aparecendo o que se chamou de via moderna,                  no significado da palavra "homem" est muito
ou terminista (em oposio  via antiga, aristo-            mais implcita a "racionalidade" do que a deter-
tlica), o significado da cpula foi explicita-             minao de "bpede". Mas como pode isso
mente definido em oposio ao significado que               acontecer se no existem determinaes ne-
fora atribudo  cpula com base na teoria da               cessrias ou substanciais, se no se pode dizer
substncia. Assim, Alberto da Saxnia, depois               que a racionalidade  "inerente" ao homem? A
de distinguir o significado existencial do signifi-         resposta que a teoria da E. d a este problema
cado predicativo do verbo , diz a propsito                est contida na noo de E. nominal. Hobbes,
deste ltimo: "Quando o verbo aparece como                  p. ex., diz que a E.  simplesmente "o carter
terceiro constituinte [da proposio, isto ,               (accidens) graas ao qual damos nome ao
como cpula dos outros dois], significa certa               objeto" (De corp., 8,  23). Essa doutrina  ex-
composio do predicado em relao ao sujei-                posta e defendida por Locke, graas a quem se
to, graas  qual sujeito e predicado esto pelo            torna predominante na filosofia do iluminismo.
mesmo objeto" (Log., I, 6). Essa doutrina ser              Locke diz que a E. "nada mais  que a idia
repetida com freqncia durante o sc. XIV                  abstrata  qual  associado o nome de uma
(cf., p. ex., BURIDAN, Sophismata, cap. 2, concl.           espcie; por isso, tudo o que est contido nes-
10), mas  Ockham que mostra claramente seu                 sa idia  essencial  espcie". E acrescenta:
significado, ao mesmo tempo polmico e posi-                "Embora esta seja toda a E. das substncias
tivo: "Proposies como 'Scrates  homem' ou               naturais que conhecemos ou com a qual as
'Scrates  animal' no significam que Scrates             distinguimos em tantas espcies eu lhe darei o
tem humanidade ou animalidade, nem signifi-                 nome particular de E. nominal, para distingui-
cam que a humanidade ou a animalidade est                  la da constituio real das substncias, de que
em Scrates, nem que Scrates  homem ou                    depende essa E. nominal juntamente com to-
animal, nem que o homem ou o animal  uma                   das as propriedades da espcie dada; por isso
parte da substncia ou da essncia de Scrates,             [a constituio das substncias] poder ser
ou uma parte do conceito ou da substncia de                chamada de E. real" (Ensaio, III, 6, 2). A E. real
Scrates. Significam apenas que Scrates  na                a substncia no genuno sentido aristotlico,
ESSNCIA                                             361                                         ESSNCIA

como constituio ou forma que deveria expli-              so os objetos da atividade cognoscitiva: consti-
cariodas as qualidades ou caracteres de uma                tuem um reino infinito de que faz parte tudo o
realidade e mostr-los em suas interconexes               que pode ser percebido, imaginado, pensado
necessrias (Ibid., 4, 9), mas, segundo Locke,             ou, de algum modo, experimentado; no
tal E. real  inacessvel ao homem. A doutrina             existem em nenhum espao ou tempo, no
da E. nominal foi a base da lgica moderna.                tm substncia nem lados ocultos, mas seu
Stuart Mill repete-a dizendo: "Proposio essen-           ser resolve-se em seu aparecer (The Realm
cial  a proposio puramente verbal que afir-             of Essences, 1927). As E. constituem um dos
ma de uma coisa, sob um nome particular, s o              termos do dualismo metafsico de Santaya-
que  afirmado sobre ela pelo prprio fato de              na: o outro  a existncia, que ele identifica
cham-lo por esse nome, e que, por isso, no               com a matria. Mas justamente por se distin-
d nenhuma informao ou s a d em relao                guirem da existncia, e portanto de qualquer
ao nome, no  coisa" Log., I, VI,  4). Com              forma de ao ou de energia, as E. no se
poucas variantes, essa doutrina  repetida na              concatenam entre si e no implicam nenhuma
lgica contempornea. C. I. Lewis diz: "Tradi-             necessidade nem nenhuma forma de ser, mas
cionalmente, diz-se que todo atributo exigido              permanecem puros objetos de intuio. Esta
para a aplicao de um termo pertence  E. da              doutrina das E. de Santayana pode ser conside-
coisa nomeada. Sem dvida, no tem significa-              rada a ltima utilizao metafsica da teoria da
do falar da E. de uma coisa, a no ser relativa-           essncia.
mente ao fato de ela ser denominada por um                     2- A teoria da E. como substncia pode ser
termo particular" (Anafysis of Knowledge and               caracterizada como a que restringe o uso da
 Valuation, p. 41). E Quine, sublinhando a dife-           palavra E. para indicar a E. necessria ou subs-
rena entre a doutrina aristotlica da E. como             tancial. Aristteles, como se viu, no identifica-
substncia e a "doutrina do significado", observa:         ra as duas coisas, embora se possa dizer que
"Deste ltimo ponto de vista, pode-se concor-              para ele a "verdadeira" E. de uma coisa, que a
dar (ainda que s para discutir) que no signifi-           define em seu modo de ser,  a E. necessria.
cado da palavra 'homem' est implcita a racio-            A identificao de E. com substncia encontra-
nalidade, mas no o fato de ter duas pernas;               se j em Plotino, que a relaciona com o estado
contudo, pode-se considerar que ter duas per-              das coisas no mundo inteligvel, ou seja, no
nas est implcito no significado de 'bpede',             Nous divino, mas no s com esse estado. Diz:
ao passo que a racionalidade no. Do ponto de              "Aqui, tudo est na unidade, de tal modo que
vista da doutrina do significado, no faz sentido          so idnticos a coisa e o porqu da coisa... Na
dizer de um indivduo real, que  ao mesmo                 verdade, o que poderia impedir esta identidade
tempo homem e bpede, que sua racionalidade                e impedir que ela constitua a substncia de
 essencial e que o fato de ter duas pernas               cada ser? Assim  necessariamente, como v
acidental ou vice-versa. Para Aristteles, as coi-         quem procura compreender a E. necessria"
sas tm E., mas s as formas lingsticas tm              (Enn., VI, 7, 2). No sc. XIII, ao procurar escla-
significado. Significado  aquilo que a E. se tor-         recer a confusa terminologia com que a filoso-
 na quando se divorcia do objeto de referncia             fia medieval at aquele momento traduzira os
 e se casa com a palavra" (From a Logical Point            termos aristotlicos, S. Toms fixava os signifi-
 ofVietv, II, 1). Por outro lado, mesmo utilizan-          cados seguintes, que implicam a reduo da
 do amplamente a noo de essncia em sua                  doutrina da E.  da substncia: "E. significa algo
 obra A viso lgica do mundo (onde, alis, fala           que  comum a todas as naturezas em virtude
 em "E. constitutivas"), Carnap reduz o significa-         das quais entes diferentes so colocados em di-
 do de E. de um objeto ao critrio de verdade              ferentes gneros e espcies, assim como a hu-
 das proposies das quais os signos desse                 manidade  a E. do homem, e assim por diante.
 objeto possam fazer parte (Aufbau,  161).                Mas, como aquilo em virtude do que a coisa se
 Pode-se dizer, portanto, que a teoria da E. se            constitui no gnero e na espcie  o que se
 resolve inteiramente na teoria do significado             entende como a definio que indica o que a
 (v.). Por E. hoje no se entende nada mais do             coisa , os filsofos substituram a palavra E.
 que a regra do uso correto de um termo.                   por qididade, esse  o motivo pelo qual o Fil-
                                                           sofo, no VII da Metafsica, freqentemente fala
   Embora no tenha em mira uma teoria do                  do quod quid erat esse, vale dizer, aquilo em
significado, o uso que Santayana fez desse ter-            virtude do que alguma coisa  o que ." A
mo E. vincula-se a este seu significado. As E.
ESSNCIA e EXISTNCIA                                   362                         ESSNCIA e EXISTNCIA

qididade, acrescenta S. Toms, tambm  cha-                 ao significado que recebera de Avicena, negan-
mada de forma ou natureza, entendendo-se                      do que a existncia seja um simples acidente
por este ltimo termo "a E. da coisa segundo a                (Quodl., q. 12, a. 5). Por isso,  oportuno expor
ordem ou a ordenao que ela tem para a sua                   a doutrina na forma emprestada por S. Toms.
prpria atuao, porquanto coisa nenhuma h                       S. Toms entende a essncia no significado
desprovida de uma atuao prpria. O termo                    2-, como E. necessria ou substancial. Ela  a
qididade, porm,  assumido como aquilo                      "qididade" ou "natureza" que compreende
que  significado pela definio; o termo E. sig-             tudo o que est expresso na definio da coi-
nifica que por ela e nela a coisa tem ser" (De                sa; logo, no s a forma, mas tambm a matria.
ente et essentia, 1). Esta ltima distino no se            P. ex., a E. do homem, definido como "animal
mantm inalterada em S. Toms, que, em outro                  racional", compreende no s a racionalidade
trecho, entende por E. "propriamente o que                   (que  forma), mas tambm a animalidade
significado pela definio" (5. Th., I, q. 29, a. 2).         (que  matria). Da E. assim entendida distin-
Mas durante muitos sculos essas determina-                   gue-se o ser ou a existncia da coisa definida:
es tomistas serviram de fundamento para to-                 ser ou existncia que  algo diferente da E. por-
das as teorias da substncia, que devem ser                   que se pode, p. ex., saber o que (quid)  o ho-
estudadas em seu lugar prprio, o verbete                     mem ou a fnix sem saber se existe homem ou
SUBSTNCIA.                                                   fnix, ou seja, sem saber nada acerca do ser
   Embora no conduza para uma teoria da                      ou da existncia da coisa definida (De ente et
substncia, a acepo que Husserl atribui ao                  essentia, 3). Portanto, substncias como o ho-
termo E. tem conexo com este seu segundo                     mem ou a fnix so compostas de E. (matria e
significado: "E. caracterizou sobretudo o que se              forma) e existncia, separveis entre si; nelas,
encontra no ser prprio de um indivduo como                  E. e existncia esto entre si assim como potn-
seu quid. Mas cada quid pode ser 'posto em                    cia e ato: a E.  potncia em relao  existn-
idia'. Uma viso emprica ou individual pode                 cia; a existncia  o ato da essncia. Somente
ser transformada em viso da E. (ideao),                    em Deus, porm, a E.  a prpria existncia,
possibilidade que, esta sim, no deve ser en-                 porque Deus "no s  a sua E. como tambm
tendida como emprica, mas como essencial. O                  o seu prprio ser"; se assim no fosse, ele exis-
objeto intudo consistir, portanto, na corres-               tiria por participao, como as coisas finitas, e
pondente E. pura ou eidos, que pode ser tanto                 no seria o ser primeiro e a causa primeira (S.
uma categoria superior quanto uma particula-                   Th., I, q. 3, a. 4).
rizao, at  concretude completa" (Ideen,                       Esta doutrina da distino real foi muitas ve-
I,  3)- Para Husserl, E.  a E. necessria ou                zes considerada de origem aristotlica. Na reali-
substancial de Aristteles;  captada por um                  dade, nada tem de aristotlico; alis contradiz
ato de intuio, anlogo  percepo sensvel                 um dos cnones fundamentais da filosofia de
(Ibid.,  23). Esta talvez seja a utilizao mais             Aristteles, o que identifica o ser ou a existn-
moderna do antigo conceito aristotlico de E.                 cia com o ato e o ato com a forma; de sorte
substancial (v. DEFINIO; SER).                              que no h forma que no seja ato, isto , que
   ESSNCIA e EXISTNCIA (lat. Essentia et                    no exista (a forma  a existncia: v. ATO; FOR-
esse, essentia et existentia; in. Essence and exis-           MA). Na realidade, a doutrina foi introduzida e
tence, fr. Essence et existence, ai. Wesen und                utilizada com propsitos diferentes, que nada
Existenz; it. Essenza ed esistenza). A distino              tm a ver com o aristotelismo. Avicena introdu-
real entre E. e existncia  uma das doutrinas                ziu-a como elemento da doutrina da necessida-
tpicas da Escolstica do sc. XIII. Foi exposta              de universal. Deus  necessrio "em si mes-
pela primeira vez por Guilherme de Alvrnia,                  mo" porque nele E. implica existncia; as coisas
em De trinitate(composto entre 1223 e 1228).                  finitas so necessrias "por outra coisa", por-
Seus criadores foram os neoplatnicos rabes,                 que, como sua E. no implica existncia, elas
especialmente Avicena (sc. XI), que a expuse-                existem apenas em virtude da necessidade di-
ra em Metafsica (II, 5, 1). Foi adotada por                  vina. Assim, tudo  necessrio (cf. A. M. GOL-
Maimnides, que a modificou no sentido de                     CHON, La distinction de Vessence et de 1'existence
reduzir a existncia a um simples acidente da                 d'aprs Ibn-Sina, 1937). S. Toms, porm, lan-
essncia (Guide des gars, trad. fr., Munk, pp.              a mo da mesma distino para ressaltar a
230-33). Mas quem deu  doutrina sua melhor                   diferena entre o ser de Deus e o ser das criatu-
expresso foi S. Toms, que tambm a remeteu                  ras, diferena que ele expressou com o princ-
ESSNCIA e EXISTNCIA                                 363                                          ESTDIO

pio da analogicidade do ser (v. ANALOGIA), e                essentia, esse significado coincide com o que a
para fazer que o prprio ser das criaturas, por             tradio escolstica e especialmente o tomismo
resultar estranho  sua E., exija a interveno             atribua  qididade (quod quid erat esse) ex-
criadora de Deus. Em outros termos, Avicena                 pressa pela definio. Hartmann tambm admi-
viu na distino entre E. e existncia um instru-           te a distino real entre E. e existncia e con-
mento para a defesa do principio de que "tudo               sidera a E. como possibilidade e a existncia
o que existe, existe por necessidade, e essa ne-            como a atualidade dela (Ibid., p. 95). Com um
cessidade  Deus". S. Toms utiliza a mesma                 sentido que nada tem a ver com a distino
distino para defender o princpio de que                  real do neoplatonismo rabe e do tomismo, a
"tudo o que existe, existe por participao no              relao E.-existncia foi utilizada na filosofia
ser, e esse ser  Deus". A doutrina da distino            contempornea para definir a natureza do ho-
real inclui duas teses diferentes, mas conexas:             mem. Diz Heidegger: "A natureza desse ente
d) ser e E. esto separados nas criaturas; b) ser           (do ser-a [Dasein], do homem) consiste no
e E. so idnticos em Deus. Ora, mesmo aque-                seu ser-para. A E. (essentia) deste ente, no que
les que no aceitam a distino real e, portanto,           em geral  possvel falar dela, deve ser entendi-
negam a proposio d), admitem a proposio                 da a partir do seu ser (existentia)" (Sein und
b) como definio de Deus. Foi o que fez                    Zeit,  9). Esse "primado da existncia sobre a
Averris contra Avicena (Met., IV, 3); o que                E." no significa, para Heidegger, nem a sepa-
fez Duns Scot contra S. Toms (Rep. Par., IV, d. 7,         rao real dos dois elementos, que para a
q. 2, n. 7). Ockham, ao contrrio, negou ambas              Escolstica era prpria das criaturas, nem sua
as proposies. Sobre a primeira afirma: "A E.              identidade real, que para a Escolstica era pr-
no  indiferente ao ser ou ao no-ser, assim               pria de Deus; significa apenas que o modo de
como no o  a existncia; pois assim como                  ser do homem, ou seja, a existncia, s pode
a E. pode ser ou no ser, tambm a existn-                 ser esclarecida e compreendida a partir do fato
cia pode ser ou no ser. Os dois termos signi-              de que o homem est a (existe), ou seja,
ficam, portanto, absolutamente, a mesma coi-                existe no mundo e entre os outros entes (v.
sa" (Quodl., II, 7). Sobre a segunda, afirma que            EXISTNCIA).
a existncia no pode ser contida analiti-                      ESSENCIAL (in. Essential; fr. Essentiel; ai.
camente na E. de Deus porque seu predicado                   Wesentlich; it. Essenziale). Alm dos significa-
est no s em Deus, mas tambm em todas                    dos relativos  essncia, este adjetivo tem o sig-
as outras coisas reais; portanto,  muito mais              nificado mais comum e genrico de "importan-
ampla do que a E. de Deus e no pode ser-lhe                te". Esse  o significado desse termo em
intrnseca (In Sent., I, d. 3, q. 4, G).                    expresses como "carter E.", "qualidade E.",
    A distino entre E. e existncia  peculiar           etc, que na maioria das vezes no fazem refe-
doutrina escolstica tradicional, e mesmo na fi-            rncia aos significados especficos de "essn-
losofia moderna e contempornea s  retoma-                cia", mas s pretendem ressaltar a importncia
da por doutrinas a ela ligadas, sobretudo na                de um carter, uma quantidade, etc, a partir de
elaborao dos conceitos teolgicos. Fora do                certo ponto de vista.
uso teolgico, essa distino foi retomada na                   ESSENCIALISMO (in. Essentialism, fr. Es-
filosofia contempornea por Hartmann, como                  sentialisme, ai. Essentialismus-, it. Essenzialis-
um dos fundamentos da sua ontologia. "Em                    mo). K. Popper chamou de E. metodolgico "a
cada ente", diz ele, "h um momento de exis-                corrente de pensamento introduzida e defendi-
tncia (Dasein). Com isso deve-se entender o                da por Aristteles, segundo a qual a pesquisa
fato puro e simples de que, em geral, ele est              cientfica deve penetrar at a essncia das coi-
a. E em cada ente h tambm um momento                     sas para poder explic-las" (The Poverty of
de E. (Soseiri). A este pertence tudo o que consti-         Hstoricism, 1944,  10).
tui a determinao especfica ou a particulari-                ESSNIOS. V. JUDAICA, FILOSOFIA.
dade do ente, tudo o que este ltimo possui                    ESTDIO (gr. CTtSiov; lat. Stadium, in. Sta-
em comum com um outro ou em virtude do                      dium; fr. Stade-, ai. Stadium; it. Stadio) O lti-
que se distingue do outro, em resumo, tudo                  mo dos quatro argumentos de Zeno de Elia
'aquilo que ele '" (Zur Grundlegung der                    contra o movimento. Pode ser expresso da se-
 Ontologie, 23 ed, 1941, p. 92). Embora Hart-               guinte forma: duas massas iguais, dotadas de
mann pretenda distinguir o significado do ter-              velocidades iguais, deveriam percorrer espa-
mo que ele emprega, Sosein, do tradicional,                 os iguais em tempos iguais. Mas, se duas mas-
ESTADO1                                               364                                          ESTADO1

sas se movem, uma de encontro  outra, a par-               Deus" (Pol., I, 2, 1253 a 18). Essas considera-
tir das extremidades opostas do E., cada uma                es foram repetidas muitas vezes na histria
delas gasta, para percorrer a extenso da ou-               da filosofia (cf., p. ex., S. TOMS, De regimine
tra, a metade do tempo que elas gastariam se                principium, I; DANTE, De tnonarchia, I, 3),
uma delas estivesse parada: disso Zeno con-                mas no mundo moderno s foram revigoradas
clua que a metade do tempo  igual ao dobro                pelo romantismo, que insistiu no carter su-
(ARISTTELES, FS., VI, 9, 239 b 33). O argu-               perior e divino do E. Fichte dizia: "Na nossa
mento volta a dizer que, ao se admitir a reali-             poca, mais do que em qualquer outra que a
dade do movimento, admite-se a equivalncia                 precedeu, todo cidado, com todas as suas
entre metade do tempo e dobro do tempo.                     foras, est submetido  finalidade do E., est
    ESTADO1 (gr. noXuea; lat. Respublica; in.              completamente compenetrado dele e tornou-se
State, fr. tat\ ai. Staat; it. Stat). Em geral, a         seu instrumento" (Grundzge des gegenwr-
organizao jurdica coercitiva de determinada              tigen Zeitalters, 1806, X). Mas esta concepo
                                                            foi formulada de modo mais simples e extremo
comunidade. O uso da palavra E. deve-se a                   por Hegel, que identificou o E. com Deus: "O
Maquiavel (Oprncipe, 1513,  1). Podem ser                 ingresso de Deus no mundo  o E.: seu funda-
distinguidas trs concepes fundamentais: Ia a             mento  a potncia da razo que se realiza
concepo organicista, segundo a qual o E.                 como vontade. Na idia do E. no se devem
independente dos indivduos e anterior a eles;              ter em mente estados particulares, instituies
2a a concepo atomista ou contratualista, se-              particulares, mas considerar a idia por si mes-
gundo a qual o E.  criao dos indivduos; 3a a            ma, este Deus real" iFil. do dir.,  258, Zusatz).
concepo formalista, segundo a qual o E.                  O E.  um "Deus no mundo", ou seja, um Deus
uma formao jurdica. As duas primeiras con-               imanente: constitui a existncia racional do ho-
cepes alternaram-se na histria do pensa-                 mem. "S no E. o homem tem existncia racio-
mento ocidental; a terceira  moderna e, na                 nal. A educao tende a fazer que o indivduo
sua forma pura, foi formulada s nos ltimos                no permanea como algo de subjetivo, mas se
tempos.                                                     torne objetivo de si mesmo no Estado... Tudo
    Ia A concepo organicista funda-se na ana-             o que o homem , deve-o ao E.: s nele tem
logia entre o E. e um organismo vivo. O E.                 sua essncia. O homem s tem valor e realida-
um homem em grandes dimenses; suas partes                  de espiritual por meio do E." {Philosophie der
ou membros no podem ser separados da tota-                 Geschichte, ed. Lasson, p. 90). Na realidade, os
lidade. A totalidade precede portanto as partes             caracteres que a concepo organicista sempre
(os indivduos ou grupos de indivduos) de                  atribuiu ao E. -- racionalidade perfeita, auto-
que resulta; a unidade, a dignidade e o carter             suficincia e supremacia absoluta -- tm sua
que possui no podem derivar de nenhuma de                  melhor expresso na tese de Hegel, de que o
suas partes nem do seu conjunto. Essa concep-               E.  Deus. Nem sempre, porm, a tese orga-
o do E. foi elaborada pelos gregos. Plato                nicista foi formulada de modo to rigoroso e
considera que no E. as partes e os caracteres               extremo: o primado atribudo ao E. em relao
que constituem o indivduo esto "escritos em               aos indivduos e a auto-suficincia do E. nem
tamanho maior" e, portanto, so mais visveis               sempre convenceram de que o E.  Deus, mas
(Rep., II, 368 d); assim, comea a determinar               sempre levaram a consider-lo como algo divi-
quais so as partes e as funes do E. para pro-            no, que justificasse a sujeio dos indivduos. O
ceder depois  determinao das partes e das                fim que as concepes organicistas sempre
funes do indivduo (Jbid., IV, 434 e). Este              propuseram foi bem expresso por O. Gierke:
um modo de exprimir a prioridade do E.: a                   "Somente do valor superior do todo em con-
estrutura do E.  a mesma estrutura do homem,               fronto com o das partes  que pode derivar a
                                                            obrigao do cidado de viver e, se necess-
porm  mais evidente. Aristteles, por sua                 rio, morrer pelo todo. Se o povo fosse apenas
vez, afirmava: "O E. existe por natureza e  an-            a soma de seus membros e se o E. fosse ape-
terior ao indivduo, porque, se o indivduo de              nas uma instituio para o bem-estar dos cida-
per si no  auto-suficiente, estar, em relao            dos, nascidos e nascituros, ento realmente o
ao todo, na mesma relao em que esto as                   indivduo poderia ser coagido a dar sua ener-
outras partes. Por isso, quem no pode fazer                gia e sua vida pelo E., mas no teria nenhuma
parte de uma comunidade ou quem no tem                     obrigao moral de faz-lo" {Das Wesen der
necessidade de nada porquanto se basta a si                 menschlichen Verhnden, 1902, pp. 34 ss.).
mesmo no  membro de um E., mas fera ou
ESTADO1                                                365                                         ESTADO 1


     2- Para a concepo atomista ou contra-                 elementos ou propriedades caractersticas: so-
tualista, o E.  obra humana: no tem dignida-               berania ou poder preponderante ou supremo,
de nem caracteres que no lhe tenham sido                    povo e territrio. Desses trs aspectos ou ele-
conferidos pelos indivduos que o produziram.                mentos eram feitas descries estanques e in-
Foi essa a concepo dos esticos, que consi-                dependentes do conceito filosfico de E. a que
deravam o E. como respopuli. Diz CCERO: "O                  se fazia referncia implcita ou explicitamente.
E. {respublica)  coisa do povo, e o povo no                A melhor definio, nesse aspecto, foi dada
 qualquer aglomerado de homens reunido de                   porjellinek (Allgemeine Staatslehre, 1900), sen-
uma forma qualquer, mas uma reunio de pes-                  do repetida e exemplificada inmeras vezes
soas associadas pelo acordo em observar a jus-               (cf., p. ex., W. W. WILLOUGHBY, The Funda-
tia e por comunidade de interesses" (De rep.,               mental Concepts of Public Law, 1924). O as-
I, 25, 39). Na histria medieval e moderna essa              pecto sociolgico do E., porm,  negado por
concepo mesclou-se com a precedente. A                     Kelsen, e essa negao  a caracterstica bsica
partir do sc. IX constituiu o princpio terico a           de seu formalismo. Para Kelsen, o E.  simples-
que se recorreu freqentemente nas lutas pol-               mente a ordenao jurdica em seu carter
ticas (cf. R. e A. CARLYLE, History of Mediaeval             normativo ou coercitivo: "H um nico concei-
Political Theory, I, se. I, parte IV, cap. V; trad.         to jurdico de E., que  o de ordenao jurdica
it., I, pp. 269 ss.). Suas principais manifestaes          (centralizada). O conceito sociolgico de mo-
podem ser vistas no verbete CONTRATUALISMO.                  delo efetivo de comportamento orientado para
Em geral, essa concepo  simetricamente                    a ordenao jurdica no  um conceito de E.,
oposta  anterior: para ela, o E. no tem digni-             mas pressupe o conceito de E., que  o con-
dade ou poderes que os indivduos no te-                    ceito jurdico" (General Theory of Law and State,
nham conferido ou reconhecido, e sua unidade                 1945; trad. it., p. 192). Em outros termos, o E.
no  substancial ou orgnica, no precede                   " uma sociedade politicamente organizada
nem domina seus membros ou suas partes,                      porque  uma comunidade constituda por
mas  unidade de pacto ou de conveno e s                  uma ordenao coercitiva, e essa ordenao
vale nos limites de validade do pacto ou da                  coercitiva  o direito" (Ibid., p. 194). Kelsen
conveno. s vezes, porm, no prprio tronco                no nega, naturalmente, que existam fatos,
do contratualismo enxertam-se as exigncias                  aes ou comportamentos mais ou menos liga-
peculiares ao organicismo:  o que acontece, p.              dos  ordenao jurdica estatal, mas afirma
ex., em Rousseau, quando ele afirma que "a                   que tais fatos, aes ou comportamentos so
vontade geral no pode errar". Rousseau, com                 manifestaes do E. s enquanto interpretados
efeito, distingue entre a vontade de todos e a               "segundo uma ordenao normativa, cuja vali-
vontade geral: "Aquela visa somente ao interes-              dade deve ser pressuposta" (Ibid., p. 193). Essa
se comum; esta visa ao interesse pessoal e  a               doutrina presta-se a definir de modo simples e
soma das vontades particulares; mas retire-se                elegante os elementos tradicionalmente reco-
dessa vontade o mais e o menos que se des-                   nhecidos como prprios do Estado. O territrio
 troem mutuamente e ficar, como soma das di-                nada mais  que "a esfera territorial de validade
ferenas, a vontade geral" (Contrat social, II,              da ordenao jurdica chamada E." (Ibid., p.
 3). Embora justificada como simples soma al-                212). O povo nada mais  que a "esfera pessoal
 gbrica das vontades particulafes, a "vontade               de validade da ordenao", ou seja, os limites
 geral" de Rousseau, com sua infalibilidade,                 do grupo de indivduos aos quais se estende a
 assemelha-se  racionalidade perfeita do E.                 validade da ordenao jurdica (Ibid., pp. 237
 orgnico.                                                   ss.). Quanto  soberania, Kelsen afirma que
                                                             atribu-la ao E. depende da escolha que se faz
    3a As duas concepes precedentes de E.                  quanto s hipteses de primado do direito esta-
tm em comum o reconhecimento do que os                      tal ou do direito internacional. Na primeira hi-
juristas hoje chamam de aspecto sociolgico do               ptese, o E.  soberano s em sentido relativo,
E., ou seja, sua realidade social; o E.  conside-           pois nenhuma outra ordenao, que no a in-
rado, em primeiro lugar, como comunidade,                    ternacional,  superior  sua ordenao jurdi-
como um grupo social residente em determina-                 ca. Na segunda hiptese, o E.  soberano no
do territrio. Essa concepo fundamentou a                  sentido absoluto e original do termo (Ibid., p.
descrio de E. formulada por juristas e fil-               391). Essa doutrina representa uma notvel
sofos do sc. XIX (qualquer que fosse seu                    simplificao do conceito descritivo tradicional
conceito filosfico de E.), de que o E. tem trs
ESTADO 2                                                366                                              ESTATUA


 de E., reunindo todos os elementos deste na                  coisas)" (Tractatus, 2).  essa expresso que
 noo fundamental de ordenao jurdica. Por                 s vezes se traduz por "fato atmico". Mas,
 outro lado, porm, estabelece a equivalncia                 embora o E. de coisas de que fala Wittgenstein
de todas as ordenaes jurdicas enquanto tais,               seja um elemento inseparvel do mundo, a
ou seja, de todas as formas de Estado. O forma-               expresso "fato atmico" no traduz literalmente
lismo de Kelsen no permite, com efeito, esta-                a expresso original.
belecer qualquer diferena entre E. absolutista                  A crtica de Bergson  concepo que a psi-
e E. liberal, entre E. democrtico e E. totalitrio,          cologia do sc. XIX fazia da vida psquica em
entre E. coletivista e E. liberalista, etc. Inclusive         seu conjunto repousa no conceito de E., consi-
a expresso E. de direito, com que se designa                 derado por Bergson como uma forma ou um
o E. que respeita ou garante os chamados "direi-              instantneo imvel tomado do vir-a-ser (cf.
tos inalienveis" do indivduo, do ponto de vista             especialmente vol. cratr., cap. IV, e a anlise
de Kelsen  desprovida de sentido, j que, para               do "mecanismo cinematogrfico do pensamen-
ele, E. e direito coincidem. Contudo, justamen-               to"). Na verdade, a noo de E. no inclui
te por seu carter formalista, a doutrina de Kel-             absolutamente a de repouso ou imobilidade,
sen sobre o E., assim como a sua doutrina do                  mas a de relao de objetos entre si no conjun-
direito (v.), abre caminho para a considera-                  to de uma situao. Por Estado de natureza, v.
o da eficcia (e portanto dos limites) da                   NATUREZA, ESTADO DE.
tcnica coercitiva em cada uma de suas fases                    ESTTICA. V. MECANICISMO,             I, a.
ou manifestaes, ou seja, das ordenaes em                      ESTATISMO (fr. tatism). Em sentido pr-
que se concretiza. Quando Humboldt falava                     prio, a doutrina que considera o Estado como
dos "limites da ao do E." (Die Grenzen der                  nica fonte do direito. Em sentido genrico,
 Wirksamkeit des Staates, 1851) explicava esses               toda orientao poltica que atribua ao Estado
limites justamente pela impossibilidade de o E.               funes ou poderes preponderantes em qual-
atingir certos fins com o nico meio de que dis-              quer campo da atividade humana.
pe, ou seja, a tcnica coercitiva. Por esse moti-                ESTATSTICA (in. Statistics; fr. Statistique,
vo, Humboldt colocava alm dos limites da                     ai. Statistik, it. Statistica). Coleta e interpretao
ao do E. a religio, o aperfeioamento dos                  de dados numricos em determinado campo;
costumes e a educao moral, coisas que de-                   ou ento, em geral, a cincia que tem por objeto
pendem de uma disposio no controlvel                      os mtodos para a coleta e a interpretao dos
pelos instrumentos de que o E. dispe. Por                    dados numricos. Nascida no terreno da ob-
outro lado, o E. como ordenao jurdica difi-                servao dos fatos sociais, a E. estendeu-se j a
cilmente poderia evitar o juzo (propriamente                 numerosos campos de investigao e, em pri-
jurdico) sobre a compatibilidade recproca das               meiro lugar, ao domnio da fsica, inicialmente
normas que constituem tal ordenao, o juzo                  para a formulao de teorias especiais (a teoria
(este tambm jurdico) sobre a eficcia de tais               cintica dos gases), depois para a formulao
normas em alcanar seus objetivos, que  o                    das leis da mecnica quntica. O conceito de
juzo dado pela chamada cincia da legislao,                lei E., ou seja, da uniformidade relativa da fre-
nem o juzo (poltico) sobre a oportunidade de                qncia de certo acontecimento, considerado
incluir, excluir ou modificar normas ou grupos                numa escala numrica suficientemente extensa,
de normas da ordenao em que ele consiste                    foi formulado pela primeira vez pelo astrno-
(v. POLTICA).                                                mo e matemtico belga A. J. Quetelet (Physique
   ESTADO2 (Jat. Status; in. State, fr. tat; ai.             sociale, 1869). A corrente probbilista da cin-
Zustand; it. Stat). Condio, modo de ser ou                 cia moderna levou esse conceito a muitos cam-
situao. Desta ltima noo aproxima-se espe-                pos de indagao (v. CAUSALIDADE; CONDIO;
cialmente o significado desse termo na expres-                FSICA; CINCIA).
so E. de coisas, pela qual se pode traduzir o                    ESTTUA (in. Statue, fr. Statue, ai. Statue,
alemo Sachverhalto e o ingls state ofaffairs. A             it. Statud). Hiptese imaginada por Condillac
expresso alem foi introduzida por Husserl                   para demonstrar que todas as atividades psico-
em Logische Untersuchungen (1901, II, 1, pp.                  lgicas derivam da sensao. "Imaginemos",
472 ss.) e por ele definida como o correlato                  diz Condillac, "uma esttua organizada inteira-
objetivo de juzo (cf. Ideen, I,  6). Essa noo             mente como ns e animada por um esprito
foi aceita por Wittgenstein, que por ela enten-               desprovido de qualquer espcie de idia. Su-
dia "uma combinao de objetos (entidades,                    ponhamos tambm que o exterior, todo de
ESTATUTO                                             367                                         ESTTICA


mrmore, no lhe permitisse o uso dos senti-               o belo consiste na ordem, na simetria e numa
dos, cabendo-nos a liberdade de abri-los,                 grandeza que se preste a ser facilmente abarcada
nossa escolha, s diversas impresses de                   pela viso em seu conjunto (Poet., 7, 1450 b 35
que so capazes" (Trait des sensations, 1754,             ss.; Met., XIII, 3, 1078 b 1), ao mesmo tempo
Pref.).                                                    que retoma e adota a teoria da arte como imi-
    ESTATUTO (in. Statute, fr. Statut; ai. Statut;         tao, apesar de, com a noo de catarse, retir-
it. Statut). Conjunto de normas que definem               la daquela espcie de confinamento  esfera
o estado, ou seja, a condio ou o modo de ser             sensvel a que fora condenada por Plato (v.
de um grupo social.                                        mais abaixo).
    ESTTICA (in. Aesthetics; fr. Esthtique, ai.              A partir do sc. XVIII, as noes de arte e
Aesthetik; it. Esttica). Com esse termo designa-          belo mostram-se vinculadas, como objetos de
se a cincia (filosfica) da arte e do belo. O             uma nica investigao; essa conexo foi fruto
substantivo foi introduzido por Baumgarten,                do conceito de gosto, entendido como faculda-
por volta de 1750, num livro (Aestheticd) em               de de discernir o belo, tanto dentro quanto
que defendia a tese de que so objeto da arte              fora da arte. A investigao de Hume Sobre a
as representaes confusas, mas claras, isto ,             norma do gosto (1741) j supe essa identifica-
sensveis mas "perfeitas", enquanto so objeto             o, assim como a de Burke, Sobre a origem
do conhecimento racional as representaes                 das idias do sublime e do belo (1756; cf. V, I),
distintas (os conceitos). Esse substantivo signi-          e o ensaio cie G. SPALLETTI, Sopra labellezza
fica propriamente "doutrina do conhecimento                (1765; cf.  19-20). Mas foi sobretudo Kant quem
sensvel". Kant, que tambm fala (Crtica do               estabeleceu a identidade entre artstico e belo,
Juzo) de um juzo esttico, que  o juzo so-             ao afirmar que "a natureza  bela quando tem
bre a arte e sobre o belo, chama de "E. trans-             a aparncia da arte"; e que "a arte s pode ser
cendental" (Crtica da Razo Pura) a doutrina              chamada de bela quando ns, conquanto cons-
das formas apriori do conhecimento sensvel.               cientes de que  arte, a consideramos como na-
Mas em Kant o substantivo E., alusivo  arte e             tureza" (Crt. dojuzo,  45). Finalmente, Schel-
ao belo, j no se referia  doutrina de Baum-             ling invertia a relao tradicional entre arte e
garten; hoje, esse substantivo designa qualquer            natureza, fazendo da arte a norma da natureza
anlise, investigao ou especulao que tenha             e no o contrrio. Para Schelling, a arte  a rea-
por objeto a arte e o belo, independentemente              lizao necessria e perfeita da beleza a que a
de doutrinas ou escolas.                                   natureza s chega de modo parcial e casual
    Dissemos "arte e belo" porque as investiga-            (System des transzendentalen Idealsmus, 1800,
es em torno desses dois objetos coincidem                VI,  2; cf. "As artes figurativas e a natureza",
ou, pelo menos, esto estreitamente mescla-                1807, em Werke, VII, pp. 289 ss.).
das na filosofia moderna e contempornea. Isso                 Todavia, a tentativa de separar a cincia da
no ocorria, porm, na filosofia antiga, em que as         arte da doutrina do belo ocorreu mais recente-
noes de arte e de belo eram consideradas di-             mente na Alemanha, com vistas a instituir uma
ferentes e reciprocamente independentes. A                 "cincia geral da arte" em bases positivas (E.
doutrina da arte era chamada pelos antigos                 UTITZ, Grundlegung der allgemeinen Kunst-
com o nome de seu prprio objeto, potica,                 wissenschaft, 2 vols., Stuttgan. 1914 e 1920; M.
ou seja, arte produtiva, produtiva de imagens              DESSOIR, sthetik und allgcmeine Kunst-
(PLATO, Sof., 265 a; ARISTTELES, Ret., 1,11,1371         wissenschaft, Stuttgart, 1923). Essa cincia de-
b 7), enquanto o belo (no includo no nme-               veria ter como objeto a arte em seus aspectos
ro dos objetos produzveis) no se inclua na              tcnicos, psicolgicos, morais e sociais, caben-
potica e era considerado  parte (v. BELO).               do  E. a considerao do belo, que para ela 
Assim, para Plato, o belo  a manifestao                tradicional e insuficiente para explicar todos
evidente das Idias (isto , dos valores), sendo,          os fenmenos artsticos, porquanto a arte dos
por isso, a via de acesso mais fcil e bvia a             primitivos, p. ex., e grande parte da arte mo-
tais valores (Fed., 250 e), ao passo que a arte            derna parecem fugir  categoria do belo. Essas
 a imitao das coisas sensveis ou dos acon-             consideraes, porm, no parecem decisivas.
tecimentos que se desenrolam no mundo sen-                 No uso comum e mesmo no erudito (prprio
svel, constituindo, antes, a recusa de ultrapas-          dos crticos de arte e dos filsofos), a noo de
sar a aparncia sensvel em direo  realidade            "belo"  suficientemente ampla para qualificar
e aos valores (Rep., X, 598 c). Para Aristteles,          qualquer obra de arte bem realizada, ainda que
ESTTICA                                            368                                           ESTTICA


represente coisas ou pessoas que, por si mes-                 Ia Muitas definies de arte so determina-
mas, no poderiam ser chamadas de "belas"                 es da relao entre a arte e a natureza (ou,
com base nos cnones correntes. Portanto, no             em geral, a realidade). Como se pode enten-
se afigurou oportuno separar a E., como cin-             der a arte como algo dependente da natureza,
cia filosfica do belo, da cincia da arte en-            independente dela ou condicionada por ela,
quanto tal (cf. B. C. HEYL, New Bearings in                possvel distinguir trs diferentes concep-
Esthetics and Ari Criticism, 1943, pp. 20 ss.).           es de arte, sob esta perspectiva: a) arte co-
Por outro lado, no prprio domnio da E. so              mo imitao, b) arte como criao; c) arte como
cada vez mais discutidos problemas de ordem               construo.
psicolgica, social, moral, etc, o que no pare-              d) A definio mais antiga de arte na filoso-
ce exigir um lugar  parte. A proposta em ques-           fia ocidental, a de imitao, pretende subordi-
to, portanto, s serviu para ressaltar a exign-         nar a arte  natureza ou  realidade em geral.
cia de que esses problemas sejam cada vez                 Plato insiste na passividade da imitao artsti-
mais debatidos no mbito da E. Teve mais su-              ca: o pintor s faz reproduzir a aparncia do
cesso a proposta de Paul Valry de distinguir             objeto construdo pelo arteso (Rep., 598 b); o
da E. uma potica que deveria consistir "na               poeta s faz copiar a aparncia dos homens e
anlise comparada do mecanismo do ato do                  de suas atividades, sem aperceber-se realmente
escritor e das outras condies menos defini-             das coisas que imita e sem a capacidade de
das que esse ato parece exigir" (Varite, 1944,           realiz-las (Jbid., 599 b). Para Aristteles, o va-
V, p. 292). Pelo nome de potica, hoje se indica          lor da arte deriva do valor do objeto imitado:
freqentemente o conjunto de reflexes que                p. ex., devem pertencer ao objeto que a trag-
um artista faz sobre sua prpria atividade ou             dia imita, ou seja, ao mito, os caracteres que
sobre a arte em geral; e se, com o uso dessa              asseguram a produo da boa tragdia. "Assim
palavra, no se pretender aludir a uma forma              como para serem belos os corpos dos seres.vi-
de E. menor, debilitada ou provisria, seu uso            vos devem ter uma grandeza que, em seu con-
no suscita objees.                                     junto, possa ser facilmente abarcada pelo olhar,
    A histria da E. apresenta uma grande varie-          tambm o mito deve ter uma extenso que
dade de definies da arte e do belo. Embora              possa ser facilmente abarcada, em seu conjun-
cada uma dessas definies tenha, via de regra,           to, pela mente" (Poet., VII, 1451 a 2). Desse
a pretenso de expressar de forma absoluta a              ponto de vista, ao artista cabe, quando muito, o
essncia da arte, hoje vai ganhando corpo a               mrito da escolha oportuna do objeto imitado,
idia de que a maioria delas s expressa tal              mas, uma vez escolhido o objeto, no pode fa-
essncia do ponto de vista de um problema                 zer mais do que reproduzi-lo em suas caracte-
particular ou de um grupo de problemas. P.                rsticas prprias. Pouco importa se o objeto
ex., est bastante claro que a definio de arte          imitado  uma coisa natural ou uma entidade
como imitao  a soluo de um problema to-              transcendente ou inteligvel: a passividade da
talmente diferente do problema cuja soluo              imitao permanece. Assim Sneca diz que,
a definio da arte como prazer: de fato, a pri-          quando o artista mantm o olhar voltado para
meira refere-se  relao entre arte e natureza;          um exemplar concebido por ele mesmo, esse
a segunda,  relao entre arte e homem. Por              exemplar na realidade est contido na mente
isso, as teorias E. s podem ser apresentadas             divina (Ep., 65), isto , no  criado. Do mesmo
com referncia aos problemas fundamentais                 modo, observa Plotino: "Se algum despreza as
cuja soluo constituem (ou pretendem consti-             artes porque s fazem imitar as coisas naturais,
tuir), sendo necessrio, preliminarmente, expor            preciso dizer, em primeiro lugar, que as mes-
tais problemas para poder apontar, a propsi-             mas coisas naturais imitam outras coisas e, em
to de cada um, as solues mais importantes               segundo lugar,  preciso saber que as artes
que j foram ou esto sendo propostas. Ora,               no imitam diretamente os objetos visveis, mas
os problemas fundamentais em tomo dos quais               contemplam as regies de que estes provm e,
podem ser agrupados todos os problemas                    assim, so capazes de fazer muitas coisas por
discutidos no domnio da E., permitindo orien-            sua prpria conta e de acrescentar o que falta
tar-se em meio  variedade de tendncias des-             s coisas naturais" (Enn., V, 8, 2). Assim, se-
sa cincia, so trs: Ia a relao entre a arte e         gundo Plotino, o que a arte acrescenta  natu-
a natureza; 2 a relao entre a arte e o ho-             reza  por ela haurida da realidade superior
mem; 3a a funo da arte.                                 (inteligvel) para a qual tem voltado o olhar.
ESTTICA                                               369                                         ESTTICA


Hoje a teoria da imitao  defendida e prati-               viva, deve formar e exprimir o significado
cada pelos partidrios do realismo na arte, so-              que o inspira de modo espontneo e com m-
bretudo nos pases comunistas e em quem se                   peto" (Vorlesungen ber die sthetik, ed.
inspira na ideologia comunista. Mas muitas                   Glockner, I, p. 240). Por outro lado, justamente
vezes a interpretao que se faz da imitao                 por esse seu carter de criao, a arte pertence
elimina exatamente o carter passivo que a                    esfera do Esprito absoluto e, ao lado da reli-
caracterizava na formulao clssica. Assim,                 gio e da filosofia,  uma das suas manifesta-
Lukcs, que define a arte como "reflexo da                   es ou realizaes no mundo. "A arte", diz
realidade", entende que essa realidade  resul-              Hegel, "por ocupar-se do verdadeiro como ob-
tado da interao entre natureza e homem,                    jeto absoluto da conscincia, pertence  esfera
interao mediada pelo trabalho e pela socie-                absoluta do esprito e graas a seu contedo
dade, em seu momento histrico. Por isso, v                 situa-se no mesmo plano da religio e da filoso-
na arte "o modo de expresso mais adequado                   fia. Pois tambm a filosofia no tem outro objeto
e mais elevado da autoconscincia da humani-                 a no ser Deus e  assim essencialmente uma
dade" (sthetik l, 1963, cap. VII,  III, trad. it.,         teologia racional e um perptuo culto divino a
p. 575). Desse ponto de vista, a imitao no                servio da verdade" (Ibid., I, pp. 147-48). Nes-
se distingue da criao.                                     se aspecto, Croce praticamente s fez repetir
     b) O conceito de arte como criao  pecu-              a doutrina de Hegel. "Como posio e reso-
liar ao romantismo e foi posto em prtica por                luo de problemas (da fantasia ou estticos), a
Schelling. " fcil entender no que o produto E.             arte no reproduz nada de existente, mas pro-
se distingue do produto de artesanato comum,                 duz sempre algo de novo, forma uma nova si-
porque toda criao E. , em princpio, abso-                tuao espiritual e, portanto, no  imitao,
tamente livre, porquanto o artista s pode ser               mas criao. Do mesmo modo, criao  pen-
impelido a ela por uma contradio que se                    samento que tambm consiste em posio e
ache na parte mais elevada da sua natureza, ao               resoluo de problemas (lgicos, filosficos ou
passo que qualquer outra criao  ocasionada                especulativos, como se preferir cham-los), e
por uma contradio exterior a quem cria e                   nunca em reproduo de objetos ou de idias"
tem, por isso, objetivo fora de si" {System, cit.,           (Nuovi saggi di E., 1920, p. 156). No mesmo
VI,  2). Para Schelling, a arte  a mesma ativi-            sentido, Gentile escreveu: " difcil renunciar a
dade criadora do Absoluto porque o mundo                    ver no artista um esprito criador livre. O pen-
um "poema" (Ibid., VI,  3) e a arte humana                 samento comum encontra dificuldade em aper-
uma continuao, especialmente atravs do g-                ceber-se claramente dessa criatividade do ho-
nio, da atividade criadora de Deus. Esse con-                mem, mas, embora obscura, essa idia do
ceito foi retomado por Fichte nas obras do se-               artista que cria um mundo seu est profunda-
gundo perodo, Caracteres do tempo presente                  mente arraigada em todo homem que se apro-
(1806), Essncia do sbio (1805) e Destinao                xima da obra de arte" (Fil. delVarte, 1931, 11, 
 do sbio (1811) (cf. PAREYSOL, L'E. delVidea-               4). No mbito da concepo romntica de
 lismo tedesco, 1950, pp. 388 ss.). Como se v, a            arte, o princpio de arte como criao aparece
 tese romntica da arte como criao compe-se               como verdade evidente.
 de duas teses diferentes: I, a arte  originali                 O corolrio principal dessa concepo  a
 dade absoluta e os seus produtos no so refe-              pouca importncia atribuda aos meios tcnicos
 rveis  realidade natural; II, como originalida-           de expresso e a insistncia na natureza "espi-
 de absoluta, a arte  parte (continuao ou ma-             ritual", consciencial da arte. A esse respeito
 nifestao) da atividade criadora de Deus. Fo               Hegel dizia: "A obra de arte s superficialmente
 ram essas as teses fundamentais de Hegel em                 tem a aparncia da vida, pois no fundo  pe-
 Lies de esttica: "Poder-se-ia imaginar que o             dra, madeira, tela ou, no caso da poesia, letras
 artista recolhe no mundo exterior as melhores               e palavras. Mas esse aspecto da existncia ex-
 formas e as rene, ou que faz uma escolha de                terna no  o que constitui a obra de arte; esta
 fisionomias, situaes, etc, para encontrar as              tem origem no esprito, pertence ao domnio
 formas mais adaptadas ao seu contedo. Mas                  do esprito, recebeu o batismo do esprito e
 quando assim recolhe e escolhe ainda no fez                exprime to-somente o que se formou sob a
 nada, pois o artista deve ser criadore, em sua              inspirao do esprito" {Vorlesungen ber die
 fantasia, com o conhecimento das formas ver-                sthetik, ed. Glockner, I, p. 55). Croce, por sua
 dadeiras, com sentido profundo e sensibilidade              vez, confinou a tcnica expressiva da arte ao
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domnio da "prtica" e considerou-a como sim-                uma necessidade aplacada. O conceito pelo
ples expediente de comunicao: "O artista,                  qual Kant exprimiu com mais freqncia o car-
que deixamos a vibrar em imagens expressas                   ter construtivo (nem imitativo nem criativo) da
que prorrompem, por infinitos canais, de todo                arte foi a atividade ldica. Como atividade liberal
o seu ser,  homem integral e, portanto, tam-                ou no mercenria, a arte  "um simples di-
bm homem prtico; como tal, est atento aos                 vertimento, ou seja, uma ocupao de per si
meios que evitem a disperso dos resultados                  agradvel, que no necessita de outro objetivo"
de seu trabalho espiritual, ao mesmo tempo                   (Ibid.,  43). Depois, a noo de atividade ldica
que possibilitam e facilitam a reproduo de                 foi empregada para definir algumas artes em
suas imagens para ele e para os outros; por                  particular, especialmente a eloqncia, a poesia
isso, realiza atos prticos que servem  obra de             e a msica (Ibid.,  51). Tem esse mesmo signifi-
reproduo. Esses atos, como todo ato prtico,               cado o conceito de atividade ldica na doutrina
so guiados por conhecimentos e por isso so                 de Schiller. O homem, sendo ao mesmo tempo
chamados de tcnicos; e, por serem prticos,                 natureza e razo,  dominado por duas tendn-
distinguem-se da intuio, que  terica, e pa-              cias contrastantes: a tendncia materiale a ten-
recem exteriores a esta, sendo ento chamados                dncia formal; essas tendncias so conciliadas
de fsicos, e, quanto mais so fixados e abstra-            pela tendncia ao divertimento, que visa reali-
dos pelo intelecto, mais facilmente so assim                zar a forma viva, isto , a beleza (ber die
 designados" (Breviario di E., em Nuovi saggi di             sthetische Erziehung des Menschen, 1793-95,
 E., II, pp. 39-40). E Gentile confirmava: "Admi-            XV; trad. it., p. 71). A tendncia  atividade
tindo-se que o elemento esttico consiste na                 ldica harmoniza a liberdade humana com a ne-
subjetividade sentimental que conforma um                    cessidade natural. "Com liberdade ilimitada", diz
pensamento, a representao na qual esse pen-                Schiller, "o homem pode reunir as coisas que a
samento se desenvolve e atua refere-se unica-                natureza separou e pode separar as que a natu-
mente aos meios tcnicos de expresso. Alfieri               reza uniu... Mas s tem esse direito de soberania
 o mesmo poeta nos sonetos e nas tragdias,                 no mundo das aparncias, no reino irreal da
 etc." (Fil. deWarte, VII,  8).                             imaginao e s enquanto se abstm escrupu-
     c) Tem-se o conceito de arte como constru-              losamente de afirmar sua existncia no cam-
o quando no se considera a atividade E.                   po da teoria e de querer produzir sua exis-
 como receptividade ou criatividade puras, mas co-           tncia efetiva" (Ibid., XXVI, p. 134).
mo um encontro entre a natureza e o homem                        Portanto, a aparncia E. (ou atividade ldica)
ou como um produto complexo em que a obra                     o domnio em que o homem e a natureza
do homem se acrescenta  da natureza sem des-                colaboram, a natureza limitando e condicionando
tru-la. Esse foi o conceito de arte de Kant, que            a liberdade humana e esta, por sua vez, compon-
 concebeu a atividade E. como uma forma de                   do e unificando os dados naturais. Esse  o
juzo reflexivo, ou seja, uma das formas da                  conceito construtivo, que no deixou de apare-
faculdade que leva a ver a subordinao das leis             cer esporadicamente mesmo na E. romntica
 naturais  liberdade humana ou o finalismo da               do sc. XIX. O mais volumoso (seno o maior)
 natureza em relao ao homem. Para Kant, o                  tratado sobre essa E., E. ou cincia do belo
finalismo da natureza no  "um conceito da na-              (1846-57) de F. T. Vischer, apesar de aceitar a
tureza" nem "um conceito da liberdade", ou                   Idia hegeliana, isto , a Razo autoconsciente
seja, no pertence s  natureza nem s ao ho-               como princpio do mundo da arte, dizia que a
 mem, mas ao encontro entre a natureza e o                   Idia estava em luta incessante contra obstcu-
homem, pelo fato de que  na natureza que                    los e influncias que Vischer chamava de "rei-
 o homem deve realizar seus fins, experimentando             no do acaso". Segundo Vischer, toda a vida do
 um sentimento de prazer (libertao de uma ne-              esprito  "a histria da anulao e da assimila-
 cessidade) quando essa realizao lhe aparece               o do acaso" (sthetik oder Wissenschaft des
 possvel, quando a natureza se mostra capaz de              Schnen,  41), mas  s na beleza que o acaso
 servir aos fins humanos (Crt. do Juzo, Intr., V).         no  destrudo, mas assimilado e organizado.
 No mesmo conceito de atividade E., Kant inclua             Isso eqivalia a ver na arte no uma obra de
 assim o de encontro entre o mecanismo natural               criao, como a concebera Hegel, mas de cons-
 e a liberdade humana: encontro no qual a arte               truo condicionada.
 no prescinde da natureza, mas a subordina a si,                Na E. contempornea, predomina o concei-
 e o homem frui dessa subordinao como de                   to de arte como construo. Foi explicitamente
ESTTICA                                              371                                         ESTTICA


defendido por Valry, que, com base nele, afir-             faculdades ou categorias espirituais. Podem-se
mou a excelncia da arquitetura sobre todas as              distinguir a respeito trs concepes funda-
outras artes. "Aquele que constri ou cria",                mentais:
escreveu Valry, "comprometido que est com                    A) a que considera a arte como conheci-
o restante do mundo e com o movimento da                    mento;
natureza, que tendem perpetuamente a dissol-                    B) a que a considera como atividade prtica;
ver, a corromper ou a derrubar o que ele faz,                   O a que a considera como sensibilidade.
deve entrever um terceiro princpio que ele                    A) A concepo da arte como conhecimento
tenta comunicar s suas obras, e que exprime a              parece ser sugerida pela doutrina de Aristte-
resistncia que ele deseja opor, por meio dele,             les, ainda que este tenha explicitamente atri-
ao seu destino de ser mortal. Cria, em suma, a              budo a arte  esfera da atividade prtica, como
solidez e a durao" (Eupalinos, trad. it., p.              veremos. Mas ele observa que a arte tem ori-
142). O mesmo conceito encontra-se repetido                 gem na tendncia  imitao, que  um aspecto
de vrias formas nas consideraes estticas de             do desejo de conhecer (Poet., IV, 1448b 5), afir-
muitos poetas contemporneos (v. POESIA) e                 mando sobre a poesia, em uma passagem cle-
expresso por Dewey na forma mais apropriada                 bre, que ela  mais filosfica do que a histria
de colaborao ou oposio entre fazer e rece-              (Ibid., 9, 1451 b 5), o que parece querer dizer
ber: "A arte, em sua forma, associa numa mes-               que ela tem maior valor teortico do que a
ma relao o fazer e o receber, a energia que               histria por estar mais prxima da primeira cin-
sai e entra, que faz com que uma experincia                cia teortica. Mas foi sobretudo o romantismo
seja experincia. O produto  a obra de arte E.,            que insistiu no valor cognitivo da arte, vendo
graas  eliminao de tudo o que no contri-               nela (Schelling) "o rgo geral da filosofia",
 bui para a organizao mtua dos fatores da                porquanto a arte permite apreender a "identi-
 ao e da recepo e graas  seleo dos                  dade entre a atividade consciente e a incons-
 aspectos e das caractersticas que contribuem              ciente", que  Deus ou o Absoluto (System, cit.,
 para a sua interpretao" (Art as Experience,              VI, 1). Hegel atribua  arte um grau a menos,
 1934, cap. III; trad. it., p. 60). L. Pareyson, ao         situando-a abaixo da filosofia e da religio, mas
 estudar a formao da obra de arte e ao pro-               reafirmava seu valor terico ao inclu-la na
 por a sua teoria, delineou os caracteres da                esfera do "Esprito absoluto", que  o mais alto
 construo artstica. "Fazer, inventando ao                conhecimento (ou "autoconscincia") que o
 mesmo tempo o modo de fazer; considerar a                  Absoluto pode alcanar de si mesmo (Ene, 
 realizao bem-sucedida como critrio em si                556). A E. de Croce e todas as que a tomam
 mesma; produzir a obra inventando suas pr-                por modelo adotam essa incluso. Desde a
 prias normas; fazer que a inveno coincida                primeira formulao de sua doutrina, Croce
 com a produo, a ideao com a realizao, a              insistiu na definio da arte como primeiro grau
 concepo com a execuo; agir de tal modo                 do conhecimento, ou seja, como "conhecimento
 que a obra de arte seja ao mesmo tempo a                   intuitivo ou do particular" (, 1902, cap. I). E
 lei e o resultado de sua prpria formao,                 sempre insistiu na tese de que a arte  "uma
 so essas as muitas expresses equivalentes                teorese, um conhecer", que religa o particular
 para designar o processo de formao da                    ao universal e portanto tem sempre a marca
 arte e para indicar a coincidncia entre en-               da universalidade e da totalidade (La poesia,
 saio e organizao no processo artstico"                  1936). Essa mesma tese tambm  o pressupos-
 {Esttica, 1954, p. 126). A tese fundamental               to da E. de Gentile, em que a definio da arte
 dessa concepo de arte  a identidade en-                 como sentimento significa apenas a reduo da
 tre produo artstica e tcnica, assim como a             arte a pensamento "inatual", ou seja, que ainda
 distino radical entre tcnica e produo  a             no se realizou em um objeto (La filosofia
 tese caracterstica da concepo de arte como              deWarte, 1931, cap. IV). Mesmo a doutrina
 criao. A chamada arte abstrata, que, mais do             bergsoniana da arte, formulada a propsito da
 que as outras, insiste na identidade entre tcni-          funo da comicidade, reduz a arte  intuio,
 ca e produo , em seu conjunto, uma mani-                que  o rgo do conhecimento filosfico (Le
 festao desse modo de entender a arte.                    rire, 1908, p. 160). Finalmente, a corrente crti-
                                                            ca que, em artes plsticas, foi chamada de cor-
  2a O segundo problema fundamental da E.                  rente da "visibilidade pura", por ver nas formas
o da relao entre a arte e o homem, ou seja,               e nos graus das artes plsticas formas e graus
da situao ou posio da arte no sistema de
ESTTICA                                            372                                            ESTTICA


da viso, algumas vezes adotou essa noo da              existncia. O estado apolneo (v.) nada mais 
arte como conhecimento. Assim, p. ex., K.                 que a resultante extrema da embriaguez dio-
Fiedler disse: "S a verdade e o conhecimento             nisaca:  o repouso de certas sensaes extre-
parecem ser ocupaes dignas do homem, e                  mas de embriaguez.
se quisermos dar  arte um lugar entre as mais                O A incluso da arte na esfera da sensibili-
elevadas tendncias do esprito ser preciso              dade  uma tese platnica que reaparece no
indicar como objetivo seu apenas o impulso                sc. XVIII com inverso de sinal. Plato confi-
para a verdade, o impulso para o conhecimen-              nara a arte  esfera da aparncia sensvel e a
to" (Aphorismen, em Schriften berKunst, 1914,            caracterizara pela recusa de sair dessa esfera
II, 8, pp. 147 ss.).                                      com o uso do clculo e da medida (Rep. X, 602
    E) A incluso da arte na esfera da atividade          c-d). Mas no sc. XVIII, a noo de arte como
prtica  a tese explcita de Aristteles. Dada a         sensibilidade no  mais diminuio ou conde-
grande diviso entre cincias teorticas ou               nao: a arte aparece como a perfeio da sen-
cognoscitivas, que tm por objeto o necessrio,           sibilidade. O nascimento e a elaborao do
e cincias praticas, que tm por objeto o poss-          conceito de gosto (v.), paralelamente ao nasci-
vel, para Aristteles a arte pertence ao domnio          mento e  elaborao da categoria sentimento
prtico e constitui o objeto da potica, ou seja,         (v.) condiciona a nova apreciao da esfera da
da cincia da produo, enquanto a outra sub-             sensibilidade, prpria da filosofia dos setecen-
diviso da prtica  a cincia da ao (Et. nic,          tistas, e a incluso das artes nessa esfera.
VI, 4, 1140 a 1). No obstante a forte influncia         Baumgarten achava que "o objetivo da E.  a
de Aristteles (ou talvez porque essa influn-            perfeio do conhecimento sensvel enquanto
cia tenha sido anulada pela outra a que j nos            tal" e que essa perfeio  a beleza (Aesthetica,
referimos), a concepo da arte como ativi-               1750-58,  14).  bem verdade que ele conside-
dade prtica raramente voltou na histria da es-          rava as representaes E. como representa-
ttica. Pode ser includa nesse tpico a concep-          es claras, mas confusas, e assim estabele-
o da arte como atividade ldica, exposta pela           cia uma diferena s de grau entre estas e as
primeira vez por H. Spencer, que considerou a             representaes racionais (que so claras t dis-
arte como uma atividade que se desvinculou                tintas): o que, como Kant deveria observar
de sua finalidade de adestramento biolgico               freqentemente, no  uma distino suficiente
e tornou-se fim em si mesmo (Principies of                entre sensibilidade e inteligncia (Crt. R. Pura,
Psychology, 1855,  535-36). Com algumas va-              8; cf. Crt. do Juzo, Intr.,  III). Mas  tambm
riantes, essa teoria foi retomada por K. Groos,           verdade que, muito embora com conceitos im-
que associou a arte  "experincia sensorial              perfeitos, Baumgarten tinha em mira reivindi-
ldica" (Spiele des Menschen, 1889), mas foi so-          car a autonomia da esfera sensvel. Vio inclua
bretudo Nietzsche quem insistiu no carter pr-           a poesia nessa esfera, em oposio a tudo o
tico da arte, vendo nela uma manifestao da              que "sobre a origem da poesia se disse, primeiro
vontade de potncia. Segundo Nietzsche, a arte            por Plato, depois por Aristteles, at os nos-
est condicionada por um sentimento de fora              sos Patrizi, Scaligeri, Castelvetri" (Sc. nuova,
e de plenitude como o que se verifica na em-              1744, II, Delia metafsica potica). Segundo
briaguez. A beleza  a expresso de uma von-              Vio, a tese desses autores era da poesia como
tade vitoriosa, de uma coordenao mais inten-            "sabedoria oculta", ou seja, "metafsica raciocii
sa, de uma harmonia de todas as vontades                  nada e abstrada", ao passo que a tese de Vio
violentas, de um equilbrio perpendicular infa-           era de que a poesia fora metafsica "sentida e
lvel: "A arte corresponde aos estados de vigor           imaginada", tal como podia ocorrer em ho-
animal. , por um lado, um excesso de consti-             mens "que eram de nulo raciocnio, mas de
tuio vigorosa que transborda para o mundo               sentidos robustos e vigorosssimas fantasias"
das imagens e dos desejos; por outro,  a exci-           (Ibid., 1744, II, Delia metafsica potica). Ora,
tao das funes animais, por meio das ima-              segundo Vio, metafsica (isto , conhecimen-
gens e dos desejos de uma vida intensa;  a               to) e poesia opem-se totalmente: aquela puri-
exaltao do sentimento da vida e um estimu-              fica a mente dos preconceitos da infncia, esta
lante  vida" (WillezurMacht, ed. 1901,  361).           neles imerge e derrama a mente; aquela resis-
 essencial  arte a perfeio do ser, o encami-          te ao juzo dos sentidos, esta faz deles a sua
nhamento do ser para a plenitude; a arte                 norma principal; aquela debilita a fantasia, esta
essencialmente a afirmao, a divinizao da              a requer robusta; enfim, aquela s confere pen-




                                                                                                                 L
ESTTICA                                               373                                         ESTTICA


samentos abstratos e isentos de paixo, esta s              poesia deve realizar, quais sejam, encontrar f-
confere pensamentos concretos e corpulentos,                 bulas sublimes condizentes com o entendimen-
que movem com extraordinria violncia os                    to popular e que o perturbe ao extremo, para
espritos humanos (Sc. nuovaprima, 1725, III,                atingir o fim a que se prope, que  ensinar o
26, em Opere, ed. Ferrari, IV, p. 227). A fanta-             vulgo a agir virtuosamente, assim como eles [os
sia, que  o rgo da poesia,  definida por                 poetas] ensinaram a si mesmos" (Sc. nuova, II,
Vio como a faculdade que "altera e contrafaz"               Delia metafisica potica). Esse  ainda o ponto
as coisas (5c. nuova, 1744, III, Dell' inarrivabile          de vista tradicional, para o qual a arte  um ins-
facolt potica d'Omero); em geral, a fantasia               trumento de aperfeioamento moral. Mas a
 tanto mais robusta quanto mais dbil o racioc-            prpria teoria da arte como conhecimento per-
nio (Ibid., I, Elementi, 36). Com Kant, oficia-              tence ao mbito da concepo instrumental ou
lizava-se o nascimento da "faculdade do senti-               educativa da arte. Hegel expressou-a com toda
mento" e a tal faculdade atribua-se o juzo E.,             a clareza possvel. Procurando determinar o ob-
procurando-se determinar, por conseguinte, os                jetivo da arte na introduo de Lies de E., ele
seus caracteres (Crt. do Juzo, Intr.,  III). Na           elimina as teorias para as quais a finalidade da
E. contempornea, foi a essa faculdade que se                arte  a imitao, a expresso (neste caso, se-
atribuiu arte com mais freqncia. Segundo                   ria verdadeira a frmula da arte pela arte) ou o
Santayana, "a beleza  um prazer considerado                 aperfeioamento moral, para insistir no seguin-
como a qualidade de uma coisa", sendo por                    te: a finalidade da arte  a educao para a ver-
isso sempre "uma emoo, um afeto da nossa                   dade atravs da forma sensvel que esta reveste
natureza volitiva e valorativa" (The Sense of                na arte, e o aperfeioamento moral  uma con-
Beauty, 1896,  11). Para Dewey, igualmente, a               seqncia inevitvel da educao terica. "
arte  "uma forma de sentimento" (Art as                     preciso admitir", diz Hegel, "que a arte deve
Experience, 1934, cap. IV).                                  revelar a verdade na forma da representao
     3S O terceiro ponto de vista do qual se po-             sensvel, que deve representar a oposio
dem considerar as teorias estticas  o da fun-              reconciliada [entre forma sensvel e contedo
 o atribuda  arte. Todas as teorias incidem              de verdade] e que, portanto, tem objetivo em
em dois grupos fundamentais, que conside-                    si mesma, nessa representao e manifestao"
ram a arte a) como educao ou (3) como                      (Vorlesungen ber sthetik, ed. Glockner, I, p.
expresso. Como educao, a arte  instrumen-                89). Mas a educao na verdade nada mais 
 tal; como expresso,  final.                               que educao moral, e para Hegel a tarefa da
                                                             arte  produzir a morte da arte, ou seja, passar
     a) A teoria da arte como educao  mui-
                                                             para as formas superiores de revelao da Ver-
 tssimo mais antiga e mais difundida. Plato
                                                             dade absoluta, que so a religio e a filosofia
 condenou a arte imitativa por reput-la no-
                                                             (Ibid.. III, pp. 579 ss.). Com certa atenuao ou
 educativa e, mais, antieducativa (Rep., X, 605
                                                             confuso, esse ponto de vista foi repetido por
 a-c), mas aceitou e defendeu as formas artsti-
                                                             Croce, que reconhece que o conhecimento E.
 cas nas quais entreviu instrumentos educacio-
                                                             se conserva no conhecimento filosfico assim
 nais teis (Ibid., III, 395 c). Aristteles afirma-
                                                             como na arte se conserva a exigncia moral ou
 va que "a msica no deve ser praticada s por
                                                             a conscincia do dever (Breviario diE., III). s
 um tipo de benefcio que dela possa derivar,
                                                             teorias que vem na arte um instrumento
 mas por usos mltiplos, j que pode servir 
                                                             educativo com vistas  moral e ao conhecimen-
 educao,  catarse e, em terceiro lugar, ao re-
                                                             to ultimamente se somaram as que nela vem
 pouso, ao soerguimento da alma e  suspenso
                                                             um instrumento de educao poltica. Essas
 dos afazeres" (Pol, VIII, 7, 1341 b, 35). O que
                                                             so as doutrinas que falam do engajamento po-
 ele diz sobre a msica obviamente vale para
                                                             ltico em arte e que exigem do artista uma
 todas as artes; igualmente, a catarse (v.) e o
                                                             orientao poltica precisa, uma obra harmoni-
 divertimento so procedimentos educativos. O
                                                             zada com as classes ou os grupos sociais majo-
 conceito da arte como educao persistiu por
                                                             ritrios menos favorecidos (ou com os partidos
 toda a Idade Mdia e no foi sensivelmente
                                                             que os representam ou pretendem represen-
 alterado ou inovado pelas discusses estticas
                                                             t-los), que os ajude no esforo de libertao
 do Renascimento. A tnica no carter catrtico
                                                             e, portanto, de conquista e de conservao do
 da arte nada mais  que a nfase em sua instai-
                                                             poder poltico. Do ponto de vista filosfico
  mentalidade educativa. Disso nem Vio duvida-
                                                             essa tese, prpria das doutrinas estticas inspi-
 va, ao insistir nos "trs trabalhos que a grande
ESTTICA                                             374                                      ESTETISMO


radas na ideologia comunista, no  mais ab-               Breviario di E., III) se ironiza ao mesmo tem-
surda que as doutrinas tradicionais que estabe-            po sobre a frmula da arte pela arte, que  a
lecem como tarefa da arte a educao moral ou              melhor definio do carter expressivo da arte.
cognoscitiva.  verdade que a poltica tem exi-            Nessa frmula insistiram poetas e artistas mo-
gncias mais mutveis e mais arbitrrias que a             dernos, que dela se valeram para defender a
moral ou o conhecimento: desse modo, o en-                 arte das tentativas de escravizao ou manipu-
gajamento poltico apresenta o risco de limitar            lao para fins que acarretariam a sua completa
de modo muito mais drstico que o enga-                    subordinao e lhe tolheriam toda liberdade de
jamento moral ou cognoscitivo as direes em               movimento. Os textos correspondentes esto
que podem ser realizadas ou desenvolvidas as               citados no verbete POESIA. A frmula que de-
experincias artsticas e, portanto, bloquear              fendem deve ser considerada ainda hoje a me-
antecipadamente experincias que poderiam                  lhor, a mais eficiente defesa da atividade E. e
mostrar-se fecundas. Mas a autonomia, ou seja,             das condies da sua fecundidade. De fato,
o carter final e no instrumental da arte, tam-           porque essa atividade, como qualquer outra,
pouco  garantida pela doutrina que v na arte             ocorre por tentativa, e bem pouco se pode di-
um engajamento cognoscitivo ou moral.                      zer antecipadamente sobre o valor de uma ten-
     p) A teoria da expresso consiste em ver na           tativa, prescrever algumas e proscrever outras,
 arte uma forma final das vivncias, das ativida-          em nome de uma funo moral, cognoscitiva
 des ou, em geral, das atitudes humanas (v. EX-            ou poltica da arte, significaria aumentar enor-
PRESSO). O que caracteriza a atitude expressiva           memente o risco de insucesso, j que nada
  apresentar como fim aquilo que para outras              garante que a tentativa mais promissora no
 atitudes vale como meio. P. ex., ver, que  um            esteja entre as eliminadas ou condenadas ante-
 meio para orientar-se no mundo e para utilizar            cipadamente. O carter expressivo da arte tam-
 as coisas, torna-se um fim em arte, de tal modo           bm significa que as possibilidades de ver, con-
 que o pintor outra coisa no quer seno ver e             templar e fruir que a arte realiza, as novas
fazer ver. Por isso, tambm se diz que a expres-           aberturas para o mundo que ela revela, quando
 so aclara e transporta para outro plano o mun-           expressas na obra, esto  disposio de qual-
 do comum da vida: as emoes, as necessida-               quer um que tenha condies de entender a
 des e tambm as idias ou os conceitos que                obra. A expresso , por natureza, sua comuni-
 dirigem a existncia humana. Dewey disse: "A              cao. A capacidade de julgar as obras de
 emoo que foi elaborada por Tennyson, na                 arte de certo estilo chama-se gosto, e o gosto
 composio In memoram, no era idntica ao               tende a difundir-se e a tornar-se uniforme
 sentimento de dor que se manifesta no pranto              em determinados perodos ou em determina-
 e no abatimento: a primeira  um ato de ex-               dos grupos de indivduos. Mas, sem dvida, as
 presso, a segunda de desabafo. Todavia,                 possibilidades comunicativas de uma obra de
 evidente a continuidade das duas noes, ou               arte bem realizada so praticamente ilimitadas
 seja, o fato de a emoo esttica ser a emoo            e tambm relativamente independentes do
 originria, transformada atravs do material              gosto dominante. Isso significa que nem todos
 objetivo ao qual foi confiado o seu desenvolvi-           vero a mesma coisa numa obra de arte, ou
 mento e a sua realizao" (Art as Experience,             que nem todos vo fru-la do mesmo modo.
 1934, cap. IV; trad. it., pp. 94-95). Deste ponto         As respostas individuais diante dela podem ser
 de vista, a arte no  natureza, mas, como diz            inumerveis e apresentar ou no uniformida-
 Dewey, "natureza transformada pelo seu in-                de de gostos. Mas o importante no  essa
 gresso em novas relaes" (Ibid, 1934, cap. IV;           uniformidade, mas a possibilidade que se abre
 trad. it., pp. 94-95), ou, como ainda se poderia          a novas interpretaes, a novos modos de fruir
 dizer, retorno  natureza. E no causa estra-             a obra. Aqueles que fruem uma mesma obra
 nheza se, freqentemente, do Renascimento ao              de arte (p. ex., os ouvintes de Beethoven) no
 impressionismo, o retorno  natureza serviu               so como os membros de uma seita ou os adep-
 para renovar profundamente e com xito o                  tos de uma mesma crena. Constituem, toda-
 estilo e o gosto da arte.                                 via, uma comunidade vinculada por um inte-
                                                           resse comum e aberta no tempo e no espao.
   A concepo da arte como expresso talvez                   ESTETISMO (in. Aestheticism; fr. Esthtis-
se disfarce nas afirmaes de quem insiste no              me, ai. sthetizismus; it. Estetism). Qualquer
carter terico ou contemplativo da arte, mas             doutrina ou atitude que considere fundamen-
mal disfarada quando (como faz CROCE,
ESTILO                                                   375                                       ESTOICISMO

tais e primordiais os valores estticos e reduza               num organismo vivo (v. AO REFLEXA; PERCEP-
ou subordine a eles todos os outros (mesmo e                   O; RESPOSTA).
sobretudo os morais). Neste sentido, pode-se                       ESTDPULAO (in. Stipulation; fr. Stipula-
chamar de E. tanto uma doutrina como a de                      tion; ai. bereinhunft; it. Stipulazion). O ato
Novalis ou de Schelling, que v na arte a reve-                de estabelecer uma conveno, ou a prpria
lao do Absoluto, quanto a de Oscar Wilde                     conveno.
ou de D'Annunzio, para quem prevalecem                             ESTOICISMO (in. Stoicism; fr. Stoicisme, ai.
os valores estticos na literatura e na vida.                  Stoizismus; it. Stoicism). Uma das grandes
    O E. foi caracterizado por Kierkegaard como                escolas filosficas do perodo helenista, assim
a atitude de quem vive no instante, ou seja,                   chamada pelo prtico pintado (Sto poikl)
vive para colher o que h de interessante na                   onde foi fundada, por volta de 300 a.C, por
vida, desprezando tudo o que  banal, insigni-                 Zeno de Ccio. Os principais mestres dessa
ficante e mesquinho. O homem estetizante, por                  escola foram, alm de Zeno, Cleante de Axo
isso, evita a repetio, que sempre implica mo-                e Crisipo de Soles. Com as escolas da mesma
notonia e anula o atrativo das experincias                    poca, epicurismo e ceticismo, o E. comparti-
mais promissoras. O smbolo ou a encarnao                    lhou a afirmao do primado da questo moral
do E. , portanto, Don Juan, o sedutor. Para                   sobre as teorias e o conceito de filosofia co-
Kierkegaard, a vida estetizante desemboca no                   mo vida contemplativa acima das ocupaes,
tdio e, portanto, no desespero (Werke, II, p.                 das preocupaes e das emoes da vida co-
                                                               mum. Seu ideal, portanto,  de ataraxia ou
162).                                                          apatia (v.). Os fundamentos do ensinamen-
   ESTILO (in. Style, fr. Style, ai. Stil; it. Stil).         to estico podem ser resumidos da seguinte
Conjunto de caractersticas que distinguem de-                 forma:
terminada forma de expresso. Em sua ori-
gem, no sc. XVIII, a noo de estilo foi ex-                      ls diviso da filosofia em trs partes: lgica,
pressa pelo lema francs lestyle c'est Vhomme                  fsica e tica (v. FILOSOFIA);
mme e considerada a manifestao na forma                         2- concepo da lgica como dialtica, ou
expressiva das caractersticas do sujeito em sua               seja, como cincia de raciocnios hipotticos
                                                               cuja premissa expressa um estado de fato,
relao com o material empregado. Hegel con-                   imediatamente percebido (v. ANAPODTICO; DIA-
siderou demasiado restrita essa concepo e                    LTICA);
incluiu no E. tambm as determinaes que
as condies da arte em questo produzem                          3Q teoria dos signos, que constituiria o mo-
na forma expressiva; nesse sentido, pode-se                    delo da lgica terminista medieval e o antece-
                                                               dente da semitica moderna (v. SEMITICA; SIG-
distinguir, p. ex., na msica o E. gregoriano                  NIFICADO);
do E. operstico; na pintura, o E. histrico do
E. genrico, etc. (Vorlesungen ber die sthe-                   4a conceito de uma Razo divina que rege o
                                                               mundo e todas as coisas no mundo, segundo
ttk, ed. Glockner, I, pp. 394-95). Neste sentido,              uma ordem necessria e perfeita (v. DESTINO;
o E. no seria o homem, mas a prpria coisa.
                                                               LIBERDADE; NECESSITARISMO);
Em todo caso, porm, o E. seria uma certa uni-
                                                                  5Q doutrina segundo a qual, assim como o
formidade de caracteres, encontravel em deter-
                                                               animal  guiado infalivelmente pelo instinto,
minado domnio do mundo expressivo. "O E.
                                                               o homem  guiado infalivelmente pela ra-
se nos revela como uma unidade de formas,
                                                               zo, e a razo lhe fornece normas infalveis de
de tnicas e de atitudes dominantes, numa com-
                                                               ao que constituem o direito natural (v. DIREI-
plexa variedade de formas e contedos", es-
                                                               TO; INSTINTO);
creveu Lucian Blaga, que insistiu em estender
o fenmeno E. a todo o mundo da cultura                           6Q condenao total de todas as emoes e
(Orizzonte e stile, 1936; trad. it., 1946, p. 45). s          exaltao da apatia como ideal do sbio (v.
                                                               APATIA-, EMOO);
vezes, porm, viu-se no E. "o momento de in-
veno, que no  inveno formalista de pala-                    7B cosmopolitistno (v.), ou seja, doutrina de
vras ou de signos, mas de idias" (G. MOR-                     que o homem no  cidado de um pas, mas
PURGO TAGLIABUE, // conceito dello stile, 1951, p.
                                                               do mundo;
352).                                                             Sr exaltao da figura do sbio e de seu iso-
                                                               lamento dos outros, com a distino entre lou-
   ESTMULO (in. Stimulus; fr. Stimulus, ai.                   cos e sbios (v. SBIO; SABEDORIA).
Reiz-, it. Stimol). Qualquer objeto capaz de ex-                Ao lado do aristotelismo, o estoicismo foi a
citar um receptor, ou seja, de provocar resposta               doutrina que maior influncia exerceu na hist-
ESTOIQUIOLOGIA                                        376                                      ESTRUTURA

ria do pensamento ocidental. Muitos dos fun-                passo que superestrutura (v.)  a constituio
damentos enunciados ainda integram doutrinas                jurdica, estatal, ideolgica da prpria socieda-
modernas e contemporneas.                                  de (MARX, Zur Kritik der politischen kono-
    ESTOIQUIOLOGIA (in. Stoicheiology). Foi                 mie, 1859, Pref.; Deutsche Ideologie, I).
esse o nome dado por Hamilton  parte da l-                    Nesse sentido, a palavra E. , por um lado,
gica que estuda os aspectos elementares ou                  sinnimo de forma, no sentido presente no
constitutivos dos processos do pensamento.                  gestaltismo, que, alis,  tambm chamado
Dividiu a E. em notica, enoemtica, apofn-                estruturalismo ou psicologia estrutural (v. PSI-
tica e doutrina do raciocnio (Lectures on Logic,           COLOGIA); por outro lado,  sinnimo de sis-
I, p- 72).                                                  tema (no significado 2) como conjunto ou
   ESTRITO (in. Strict; fr. Strict; ai. Streng; it.         totalidade de relaes. Foi nesse ltimo sen-
Strett). Esse adjetivo s vezes se aplica ao di-           tido que essa palavra passou para a lingsti-
reito ou ao dever, para indicar seu carter mais            ca, para a esttica e para os outros campos
rigorosamente obrigatrio. Kant diz: "H aes              em que  hoje comumente usada. O prprio
de tal modo conformadas que seu princpio b-               Saussure falara de sistema: "A lngua  um
sico no pode sequer ser concebido sem con-                 sistema cujas partes todas devem ser consi-
tradies como lei universal da natureza...                 deradas em sua solidariedade sincrnica"
Outras h em que no se encontra essa impos-                (Cours de linguistique gnrale, III,  3).
sibilidade interna, mas que so tais que  im-              Esse termo, enfim, tem o significado genri-
possvel querer que seu princpio bsico seja               co de sistema e poderia ser substitudo por
elevado  universalidade de uma lei da nature-              ele sempre que se fala de estrutura como
za, porque semelhante vontade se contradiria                "um conjunto de elementos quaisquer, por-
em si mesma. V-se facilmente que o princpio               tanto abstratos, entre os quais (ou entre alguns
bsico das primeiras  contrrio ao dever E. ou             de seus subconjuntos) tiverem sido definidas
rgido (rigoroso), ao passo que o das segundas              relaes igualmente abstratas" (Granger), ou
 contrrio apenas ao dever em sentido lato                 como "um conjunto de .elementos submetidos
(meritrio)" (Grundlegung zurMetaphysik der                 a determinadas relaes" (Mouloud) ("La no-
Sitten, II). Em outro techo, Kant chama de di-              tion de structure" na Revue Intern. de Phil,
reito E. o que "tambm pode ser representado                1965, pp. 254, 315) ou de modos anlogos
como uma possibilidade de coao geral rec-                {Sens et usage du terme Structure dans les
proca, de acordo com a liberdade de cada um                 sciences humaines et sociales, aos cuidados de
e segundo leis universais" (Met. der Sitten, In-            R. Bastide, 1962, passim; The Structure ofLan-
troduo  doutrina do direito,  E). Essas con-            guage, org. por Fodor e Katz, 1964, pp. 33
sideraes kantianas esto entre as mais preci-             passim).
sas nessa matria e, todavia, esto bem longe                   O mesmo se pode dizer do uso desse termo
de ser convincentes.                                        em antropologia, sobretudo por Lvi-Strauss;
    ESTRUTURA (in. Structure, fr. Structure, ai.            este define a E. explicitamente como um siste-
Strukture, it. Struttura). 1. Em sentido lgico, o          ma de elementos tal que uma modificao
mapa ou o plano de uma relao: assim, diz-se               qualquer de um implica uma modificao de
que duas relaes tm a mesma E. quando o                   todos os outros, considerando-a como um mo-
mesmo plano vale para ambas, ou seja, quando                delo conceituai que deve dar conta dos fatos
so anlogas tanto quanto uma carta geogrfica              observados e permitir que se preveja de que
tem analogia com a regio que representa. Nes-              modo reagir o conjunto no caso da modifi-
se sentido, a E.  o "nmero-relao", conceito             cao de um dos elementos (Anthropologie
generalssimo que eqivale a plano, constru-                structurale, 1958, XV, I, pp.306 ss.).
 o, constituio, etc. (RUSSELL, Introduction to              2. Em sentido restrito e especfico, a E. no
MathematicalPhilosophy, VI; trad. it., pp. 74-75;            um plano qualquer ou qualquer sistema de
Human Knowledge, IV, 3; trad. it., pp. 362 ss.).            relaes, mas um plano hierarquicamente
A descrio formal de Russell molda-se ao uso               ordenado, ou seja, uma ordem finalista intrn-
corrente do termo, p. ex., ao uso encontra-                 seca destinada a conservar o mximo possvel
do na terminologia de Marx e dos marxistas.                 seu plano. Neste sentido especfico, essa pala-
Nessa terminologia, E.  a constituio econ-              vra foi usada por Dilthey, que com ela desig-
mica da sociedade em que se incluem as rela-                nou o instrumento explicativo fundamental do
es de produo e as relaes de trabalho, ao              mundo humano e histrico. Ele falou de uma
ESTRUTURA                                               377                              ESTRUTURALISMO


"E. psquica", entendida como "a ordem segun-                 ciberntica ou a um organismo no sentido pr-
do a qual, na vida psquica desenvolvida, os                  evolucionista, mas  um plano articulado de
fatos psquicos de qualidade diferente esto                  elementos que, dentro de certos limites, so
interligados por uma relao interna que pode                 suscetveis de variaes mais ou menos aut-
ser imediatamente vivida" (Gesammelte Schrif-                 nomas. Tanto no significado 1 quanto no 2, a E.
ten, VII, pp. 3 ss.; cf. Critica delia ragione                pode ser concebida de dois modos: I) Como
storica, trad. it., p. 63). E utilizou esse termo so-         algo que constitui a ordem ou a substncia da
bretudo para indicar as unidades elementares                  realidade em exame e, portanto, determina ne-
do mundo histrico, quais sejam indivduos,                   cessariamente todas as suas determinaes, de
pocas, comunidades, instituies, sistemas                   tal modo que as torna infalivelmente previs-
culturais, entendendo por ele, nesse sentido,                 veis (Lvi-Strauss, Sapir. V. verbete seguinte);
uma conexo dinmica centrada em si mesma,                    II) como modelo (v.) ou constructoiy.) hipot-
"vale dizer, que tem finalidade e seus critrios              tico, passvel de interpretaes diversas, que
de avaliao em si mesma" (Der Aufbau der                     exera condicionamentos no necessitantes e
geschichtlichen Weil in den Geisteswissenschaf-               possibilite apenas previses provveis (estru-
ten, 1910, VI, 2; trad. it., em Critica delia ra-             turalistas russos, cibernticos).
gione storica, VI, 1, 2, pp. 243 ss.). A conexo                  ESTRUTURALISMO (in. Structuralism; fr.
dinmica ou vital em que Dilthey viu o carter                Structuralisme, ai. Struktumlismus; it. Struttu-
bsico da E. foi traduzida por Spengler pelo                  ralismo). Entende-se por este termo todo mto-
conceito de organismo, do qual se serviu para                 do ou processo de pesquisa que, em qualquer
descrever as pocas histricas que nascem, de-                campo, faa uso do conceito de Estrutura em
clinam e morrem (v. POCA). Nesse sentido,                    um dos sentidos esclarecidos. Esse termo nas-
esse termo  usualmente empregado em biolo-                   ceu na Gestalt e na lingstica, em que o E. foi
gia. Segundo explicitao recente de um                       defendido pelos russos R. Jakobson, N. Tru-
bilogo, E. seria "a forma relativa  funo",                betzkoy e inmeros outros. Em antropologia,
 assim como funo seria a "E. que muda no                    o ponto de vista estrutura.lista foi introduzido
 tempo" (A. C. MOULYN, Structure, Function                    por Radcliffe-Brown, no prefcio  obra African
 and Purpose, 1957, pp. 22-23). No behavio-                   Systems ofKinship and Mariage (1950), tendo
 rismo, que hoje procura utilizar, com as devidas             sido difundido na antropologia moderna por
 correes, a experincia da ciberntica, fala-se             Lvi-Strauss (Anthropologie Structurale, 1958,
 de "E. hierrquica", ou de "plano", como de                  espec. cap. XV). Tambm houve tentativas de
 'processo hierrquico do organismo, que pode                 estend-lo a todas as cincias humanas. Em sua
 controlar a ordem na qual uma seqncia de                   exigncia mais geral, o E. no s tende a inter-
 operaes deve ser executada (MILLER, GALAN-                 pretar um campo especfico de indagao em
 TER, PRIBRAM, Plans and the Structure of Be-                 termos de sistema, como tambm a mostrar
 havior, 1967, p. 16). Nesse sentido, a E. no               que os diversos sistemas especficos, verifi-
 constituda simplesmente por um conjunto de                  cados em diversos campos (p. ex., antropolo-
 elementos em relao, mas por uma ordem                      gia, economia, lingstica), correspondem-se
 hierrquica que tem o objetivo de garantir o                 ou tm caractersticas anlogas. Lvi-Strauss,
 xito de sua funo e sua prpria conservao.               p. ex., julga possvel que uma mesma estrutura
 Pode-se dizer que a E.  caracterizada pelo fato             possa ser encontrada em trs nveis da socieda-
 de propor como fim sua prpria possibilidade de              de: no sentido de que as normas de parentes-
 ser (cf. ABBAGNANO, La struttura deWesisten-                 co e de casamento servem para assegurar a
 za, 1939).                                                   comunicao das mulheres entre os grupos,
                                                              assim como as normas econmicas servem para
   Este significado, que parece o mais sutil, ,
                                                              assegurar a comunicao dos bens e dos ser-
no entanto, o que mais corresponde ao uso
                                                              vios, e as normas lingsticas, a comunicao
desse termo na linguagem comum. A E. de um
                                                              das mensagens (Anthropologiestructurale, cap.
edifcio  a correlao entre suas partes, que
                                                              III, p. 95).
assegura a estabilidade do edifcio e lhe permi-
te corresponder ao uso a que  destinado. Em                     O E. manifestou sua oposio a trs frentes:
uma organizao qualquer, E.  o plano de                     historicismo, idealismo e humanismo. Contra
atividades ou de rgos que mantm em p a                    o historicismo, que  substancialmente uma con-
organizao e lhe permite realizar seus objeti-               siderao longitudinal da realidade, vale di-
vos. No  semelhante a uma mquina pr-                      zer, uma interpretao da realidade em termos
TER                                                  378                                        ETERNIDADE


de devir, desenvolvimento e progresso, afirma               incorruptvel e inaltervel, distingue-se dos
o primado da concepo transversal (cross-                  quatro elementos que constituem as coisas sub-
sectior), ou seja, da concepo que considera a            lunares. Aristteles atribui o uso desse termo,
realidade como um sistema relativamente cons-               que considera o mais adequado para indicar os
tante e uniforme de relaes. O sistema no ,              cus como sede da divindade, a uma tradio
por certo, considerado esttico ou imvel pelo              muito antiga: "Os homens, querendo indicar
E., porque se admite o estudo diacrnico, alm              que o primeiro corpo  algo diferente da terra,
de sincrnico, do sistema, mas o estudo dia-                do fogo, do ar e da gua, chamaram a regio
crnico est subordinado ao sincrnico, con-                superior pelo nome de ., pelo fato de 'sem-
siderando as mudanas temporais como trans-                 pre correr' para a eternidade do tempo. Anax-
formaes nas relaes constitutivas de um                  goras, porm, entendeu mal o nome, confun-
sistema ou como oscilaes dessas transforma-               dindo o . com o fogo" (De cael, I, 3, 270 b
es em torno do limite constitudo pelo pr-               20). Posteriormente o E. foi chamado de "quinto
prio sistema.                                               corpo", "quinta substncia" ou "quinto elemento"
    Contra o idealismo, o E. afirma a objetivida-           (Placit., I, 3, 22; 2, 25, 7; 2, 6, 2). Com o mesmo
de dos sistemas de relaes, que, mesmo quan-               sentido atribudo por Aristteles, essa palavra
do concebidos como modelos conceituais, ou                   mencionada em Epinmides, atribudo a Plato
seja, como construes cientficas, no se re-              (981 c, 984 b). Os esticos identificaram o .
duzem a um ato ou a uma funo subjetiva,                   com o fogo de Herclito, dando-lhe, porm, a
mas tm como funo fundamental explicar o                  mesma funo e a mesma dignidade atribuda
maior nmero de fatos constatados.                          por Aristteles. "Acima de todos est o fogo,
    Enfim, contra o humanismo o E. afirma a                 que chamam de ., que constitui tanto a pri-
prioridade do sistema em relao ao homem,                  meira esfera imvel dos cus como as outras
das estruturas sociais em relao s escolhas in-           esferas mveis" (DIG. L, VII, 137). Ccero ilus-
dividuais, da lngua em relao ao falante indi-            trava da seguinte maneira essa teoria estica:
vidual e, em geral, da organizao econmica                "Do . surgem inumerveis astros chamejantes
ou poltica em relao s atitudes individuais.             dos quais o primeiro  o Sol, que tudo ilumina
Sapir escreveu: "Para ns, as lnguas so mais              com sua luz esplendorosa e  muitas vezes
que sistemas de comunicao intelectual. So                maior e mais extenso do que a Terra inteira, e
hbitos invisveis que envolvem nosso esprito              depois os outros astros de incomensurvel
e predeterminam a forma de todas as suas                    grandeza" (De nat. deor., II, 36, 92; Acad., I,
expresses simblicas (Language, 1922, cap.                 7, 25). Essa noo no foi alterada na tradi-
XI, trad. it., p. 218). Segundo Althusser, a estru-         o medieval, enquanto se acreditou na diferen-
tura global da sociedade determina todas as                 a de natureza entre substncia celeste e subs-
suas manifestaes do mesmo modo que a                      tncia sublunar, o que foi negado, pela primeira
Substncia de Spinoza determina todos os seus               vez, por Nicolau de Cusa (De docta ignor.,
modos (Lire Le Capital, 1965, IX, trad. it., pp.            II, 12).
196 ss.). Esse determinismo  uma conseqncia                  No incio do sc. XIX, Fresnel restaurou o
da interpretao realista do conceito de estru-             uso desse substantivo para designar um hipo-
tura, no se encontrando em sua interpretao               ttico meio elstico que daria sustentao s
como modelo (v.) ou constructo hipottico, pass-           ondas luminosas. A hiptese do . foi mantida
vel de interpretaes diferentes. Contudo, como             em fsica at ser superada pela teoria da relati-
historicismo, idealismo e humanismo indeter-                vidade geral.
minista foram os traos caractersticos do clima                ETERNIDADE (gr. i8ixr|, odv; lat.
idealista da primeira metade do sc. XX, o E.,              Aeternitas; in. Etemity, fr. ternit, ai. Ewigheit;
em suas vrias formas, denuncia o dissolver-se              it. Eternita). Esse termo tem dois significados
desse clima na cultura contempornea.                       fundamentais: 1Q durao indefinida no tempo;
    TER (gr. ai8ip; lat. Aether, in. Ether, fr.           2- intemporalidade como contemporaneidade.
tber, ai. Ether, it. Eter). Este termo, que Em-           A filosofia grega conheceu ambos os significa-
pdocles usou {Fr., 100.5, Diels) como equiva-              dos. Herclito expressou o primeiro ao afirmar
lente a ar e Anaxgoras (Fr., 15, Diels) como               que o mundo "foi desde sempre,  e ser fogo
equivalente a fogo, foi empregado por Aris-                 sempre vivo que se acende a intervalos e a
tteles para indicar a substncia que compe                intervalos se apaga" (Fr. 30, Diels). Parm-
os cus e que, por no ser gerada, por ser                  nides, por sua vez, exprimiu o segundo: "O ser
ETERNIDADE                                            379                                       ETERNIDADE

no foi, nem ser, mas  no presente simulta-               cessariamente por inteiro no presente e possui
neamente uno, contnuo" (Fr. 8, Diels). Plato              no presente a infinidade do tempo" (Phil.
contraps explicitamente os dois significados:              cons., V, 6, 6-8). Depois de Bocio essa distin-
"Da substncia eterna dizemos erroneamente                  o tornou-se lugar-comum em filosofia. S.
que era, que  e que ser, mas na verdade s                Toms fixou com preciso a terminologia cor-
lhe cabe o , ao passo que o era e o ser de-               respondente. A E., como "posse total, simult-
vem ser predicados apenas da gerao que                    nea e perfeita de uma vida sem limites", carac-
procede no tempo" (Tim., 37 e). Aristteles                 teriza-se por: 1Q ausncia de princpio e fim; 2
utilizou ambos os conceitos. Por um lado o                  ausncia de sucesso, porquanto  um presen-
mundo fora do qual no h espao vazio, nem                 te eterno. A durao (aevurn), porm,  pecu-
tempo, abrange toda a extenso do tempo e                  liar s coisas que esto sujeitas ao movimento
eterno (Decaelo, I, 9, 279 a 25). Nesse sentido,            local e para o resto so imutveis, como ocorre
E.  durao (ociov). Por outro lado, as subs-             com o cu, que , por isso, algo de intermedi-
tncias imveis, motores dos cus, so eternas              rio entre a E. e o tempo (S. Th., I, q. 10, a. 1, 5).
em outro sentido: no sentido de estarem fora                Esse conceito de E. tambm foi adotado pelo
do tempo. "Os entes eternos (x aei vca), por-             racionalismo moderno. Spinoza identifica a E.
quanto eternos", diz Aristteles, "no esto no             com a existncia da Substncia, porque implci-
tempo: no so abarcados pelo tempo nem                     ta em sua essncia e, portanto, necessria.
por ele so medidos; o sinal disso  que eles               Esclarece: "Tal existncia, enquanto verdade
no sofrem a ao do tempo, no estando no                  eterna,  concebida como a essncia da coisa;
tempo" (Fs., IV, 12, 221, b 3).                            no entanto, no pode ser explicada por meio
    Essa distino aristotlica tornou-se clssica.         da durao ou do tempo, mesmo que se conce-
Plotino identificou a E. (oatcv) com o modo de              ba a durao sem princpio e sem fim" {Et., I,
ser do mundo inteligvel, ou seja, com "o que               def. 8, ciar.). Portanto, conceber as coisas sob o
persiste na sua identidade, que est sempre                 aspecto da E. (sub specie aeternitatis) significa
presente para si mesmo em sua totalidade, que               conceb-las como manifestaes da essncia
no  ora um, ora outro, mas , simultanea-                 divina e necessariamente derivadas de sua na-
mente, perfeio indivisvel, assim como a do               tureza (Ibid., V, 30). Leibniz afirma, contra
ponto onde se unem todas as linhas sem se                   Locke, a precedncia de uma "idia do abso-
expandirem, ponto que persiste em si mesmo                  luto", que serviria de fundamento  noo da E.
na sua identidade e no sofre modificaes,                 (Nouv. ess., II, 14, 27). Toda a filosofia hege-
que existe sempre no presente, sem passado                  liana  concebida do ponto de vista da E. assim
nem futuro, mas  o que  e  sempre" (Enn.,                entendida. Hegel nega que a E. possa ser en-
III, 7, 3). A esse respeito, Plotino repete a con-          tendida negativamente como abstrao ou
cepo de Parmnides e de Plato: eterno  o                negao do tempo, ou como se viesse depois
que no era nem ser, mas apenas . S. Agos-                do tempo (Ene,  258). Para ele, a E.  o totum
tinho analisou o tempo com base na contra-                  simul das determinaes da Idia. "A Idia,
posio entre tempo e E. (Conf., XI, 11; De civ.            eterna em si e por si, atualiza-se, produz-se e
Dei, XI, 4, 6), e Bocio exprimia corretamente              frui-se a si mesma eternamente como esprito
a distino entre os dois conceitos de E.: "No             absoluto" (Ibid.,  577).
se pode legitimamente considerar eterno o que                   "Intemporalidade" e "presente eterno" so
  condicionado pelo tempo, ainda que, como                 as expresses mais repetidas tambm na filoso-
Aristteles pensou do mundo, no tenha prin-                fia contempornea, sempre que se utiliza a no-
cpio nem fim, e ainda que sua vida se pro-                 o de eternidade.  a ltima expresso que
 longue na infinidade do tempo. Pois, mesmo                 aparece, p. ex., na obra de Lavelle, O tempo e
 sendo infinita, sua vida no compreende nem                a E. (1945), assim como em muitos outros idea-
abrange sua prpria durao inteira, visto que              listas e espiritualistas contemporneos. McTag-
 ainda no compreende nem abrange o futuro e                gart, porm, observara que conceber a E. como
j no abrange o passado. Portanto, s o que                "eterno presente"  uma metfora no de todo
 abrange e possui igualmente, em sua totalida-              apropriada porque com ela se faz referncia ao
 de, a plenitude de uma vida sem limites, de tal            tempo, j que o presente  uma parte do tem-
 sorte que nada lhe falte do futuro e nada lhe              po e supe passado e futuro; props conside-
 haja escapado do passado, s esse  o ser que              rar o eterno situado no futuro, no fim ou na
 deve ser considerado eterno: ele se possui ne-             consumao dos tempos (em Mind, 1909, p.
TICA                                                   380                                                TICA


355). Hoje, de fato, est bem claro que a con-                ms), significa: "a felicidade  o fim da conduta
cepo 2 de E., tal como foi expressa, com uma                humana, dedutvel da natureza racional do ho-
uniformidade impressionante, de Parmnides                    mem", ao passo que a segunda assero signifi-
at ns, no passa de imagem reduzida do tem-                 ca "o prazer  o mvel habitual e constante da
po:  o tempo reduzido a uma de suas determi-                 conduta humana". Como o significado e o
naes, a simultaneidade (o totumsimut), que,                 alcance das duas asseres so, portanto, com-
como hoje todos sabem,  no s tempora-                      pletamente diferentes, sempre se deve ter em
lidade, mas temporalidade mensurvel. Quanto                  mente a distino entre tica do fim e tica do
 concepo da E. como aevum, ou seja, como                   mvel, nas discusses sobre tica. Tal distin-
durao temporal indefinida, choca-se com as                  o, ao mesmo tempo que divide a histria da
objees j expostas por Kant em sua crtica                  E., permite ver como so irrelevantes muitas
 cosmologia racional do sc. XVIII (v. COSMO-                das discusses a que deu ensejo e que outra
LOGIA).                                                       causa no tm seno a confuso entre os dois
    TICA (gr. x rjGiK; lat. Ethica; in. Ethics;            significados propostos.
fr. thique, ai. Ethik, it. Etic). Em geral, cincia             l2 Ambas as doutrinas ticas elaboradas por
da conduta. Existem duas concepes funda-                    Plato, quais sejam, a que se encontra expressa
mentais dessa cincia: 1- a que a considera                   em A Repblica e a que est expressa em Fi-
como cincia do /zm para o qual a conduta dos                 lebo, pertencem  primeira das concepes que
homens deve ser orientada e dos meios para                    distinguimos. A . exposta em A Repblica 
atingir tal fim, deduzindo tanto o fim quanto os              uma E. das virtudes, e as virtudes so funes
meios da natureza do homem; 2- a que a con-                   da alma (Rep., I, 353 b) determinadas pela natu-
sidera como a cincia do mvel da conduta hu-                 reza da alma e pela diviso das suas partes
mana e procura determinar tal mvel com vis-                  (Jbid., IV, 434 e). O paralelismo entre as partes do
tas a dirigir ou disciplinar essa conduta. Essas              Estado e as partes da alma permite a Plato
duas concepes, que se entremesclaram de                     determinar e definir as virtudes particulares,
vrias maneiras na Antigidade e no mundo                     bem como a virtude que compreende todas
moderno, so profundamente diferentes e fa-                   elas: a justia como cumprimento de cada parte
lam duas lnguas diversas. A primeira fala a ln-              sua funo (Jbid, 443 d). Analogamente, a .
gua do ideal para o qual o homem se dirige por                de Filebo comea definindo o bem como forma
sua natureza e, por conseguinte, da "nature-                  de vida que mescla inteligncia e prazer e sabe
za", "essncia" ou "substncia" do homem. J a                determinar a medida dessa mistura (Fil., 27 d).
segunda fala dos "motivos" ou "causas" da con-                A . de Aristteles , alis, o prottipo dessa
duta humana, ou das "foras" que a determi-                   concepo. Aristteles determina o propsito
nam, pretendendo ater-se ao conhecimento                      da conduta humana (a felicidade), a partir da
dos fatos. A confuso entre ambos os pontos                   natureza racional do homem (Et. nic, I, 7), e
de vista heterogneos foi possibilitada pelo                  depois determina as virtudes que so condio
fato de que ambas costumam apresentar-se                      da felicidade. Por sua vez, a . dos esticos,
com definies aparentemente idnticas do                     com a sua mxima fundamental de "viver se-
bem. Mas a anlise da noo de bem (v.) lo-                   gundo a razo", deduz as normas de conduta
go mostra a ambigidade que ela oculta, j                    da natureza racional e perfeita da realidade (J,
que bem pode significar ou o que  (pelo fato                 STOBEO, Ecl., II, 76, 3; DIG. L, VII, 87). 0
de que ) ou o que  objeto de desejo, de                     misticismo neoplatnico colocou como prop-
aspirao, etc, e estes dois significados corres-             sito da conduta humana o retorno do homem
pondem exatamente s duas concepes de .                    ao seu princpio criador e sua integrao com
acima distintas. De fato,  caracterstica da con-            ele. Segundo Plotino, esse retorno  "o fim da
cepo Ia a noo de bem como realidade                       viagem" do homem,  o afastamento de todas
perfeita ou perfeio real, ao passo que na con-              as coisas exteriores, "a fuga de um s para um
cepo 2- encontra-se a noo de bem como                     s", ou seja, do homem em seu isolamento
objeto de apetio. Por isso, quando se afirma                para a Unidade divina (Enn., VI, 9,11).
que "o bem  a felicidade", a palavra "bem"
tem um significado completamente diferente                       Por mais diferentes que sejam as doutrinas
daquele que se encontra na afirmao "o bem                   mencionadas, em suas articulaes internas
 o prazer". A primeira assero (no sentido em               as formulaes so idnticas, pois: a) determi-
que  feita, p. ex., por Aristteles e por S. To-             nam a natureza necessria do homem, b) de-
                                                              duzem de tal natureza o fim para o qual sua
TICA                                                  381                                             TICA


conduta deve orientar-se. Toda a . medieval                 Hegel, a moralidade  a inteno ou a vontade
mantm-se fiel a esse esquema. Assim, p. ex.,                subjetiva de realizar o que se acha realizado no
toda a . de S. Toms  deduzida do princpio                Estado. O conceito de Estado  o ponto de par-
de que "Deus  o ltimo fim do homem" (S.                    tida e o ponto de chegada da . de Hegel. A .
Th., II, 2, q. 1, a. 8), do qual se infere a doutri-         de Rosmini conforma-se  . tradicional; segun-
na da felicidade e a da virtude. Pode-se entre-              do ele o bem identifica-se com o ser, de tal
ver uma crtica contra essa formulao em Duns               modo que a mxima fundamental da conduta
Scot e em muitos escolsticos do sc. XIV: as                pode ser assim formulada: "Querer ou amar o
normas morais fundam-se pura e simplesmente                  ser onde quer que seja este conhecido, segun-
no mandamento divino, com exceo da nor-                    do a ordem que ele apresenta  inteligncia"
ma que impe obedecer a Deus, que seria a                    (Princ. delia scienza morale, ed. nacional, p.
nica "natural" (Op. Ox., III, d. 37, q. 1; cf.              78). Mas, quer se defina a realidade como Ser,
OCKHAM, In Sent., II, q. 5 H). Com efeito, esse              quer se defina como Esprito ou Conscincia, a
recurso ao arbtrio divino  resultado do reco-              estrutura das doutrinas morais que enten-
nhecimento da impossibilidade de deduzir                     dem inferir a moral de seu objetivo mostram
da natureza do homem o fim ltimo de sua                     grande uniformidade de procedimentos e con-
conduta (Op. Ox., IV, d. 43, q. 2, n. 27, 32).               cluses. Consideremos, p. ex., na filosofia
Mas nem por isso se abriu uma alternativa                   contempornea, a . de Green e a de Croce.
indagao tica.                                             Segundo Green, a Conscincia infinita, Deus, ,
     Na filosofia moderna, os neoplatnicos de               ab aetemo, tudo o que o homem tem a possi-
Cambridge retomam a concepo estica de                     bilidade de vir a ser, ou seja, o Bem ou Fim su-
ordem do universo que tambm vale para diri-                 premo, que  o objeto da boa vontade huma-
gir a conduta do homem; portanto, insistem                   na;  razo cabe a tarefa de conceb-lo e de
no carter inato das idias morais, bem como,                coloc-lo como fundamento de sua lei (Prole-
 em geral, de todas as idias gerais ou diretivas            gomena to Ethics, 3a ed., 1890, pp. 198, 214).
 de que o homem dispe (CUDWORTH, The True                   Querer o bem significa, .portanto, querer a
 Intell. System, 1678, I, 4; MORE, Enchiridion,              Conscincia absoluta, procurar realizar o que
 1679, III). A filosofia romntica deu forma mais            est presente nela. Do mesmo modo, para
 radical a essa concepo tica. Fichte exige que            Croce a atividade tica  "volio do universal",
 toda a doutrina moral seja deduzida da "auto-               mas o universal " o Esprito,  a Realidade en-
 determinao do Eu" (Sittenlehre, Intr.,  9). Por          quanto verdadeiramente real, enquanto unida-
 isso, v como objetivo da moral a adequao                 de de pensamento e vontade;  a Vida apreen-
 do eu emprico ao Eu infinito; essa adequao               dida em sua profundidade como unidade;  a
 nunca  completa e por isso provoca um pro-                 Liberdade, se uma realidade assim concebida
 gresso ad infinitum, a liberao progressiva                for perptuo desenvolvimento, criao, pro-
 do eu emprico de suas limitaes (Ibid., em                gresso" (Filosofia delia pratica, 1909, p- 310).
  Werke, II, p. 149). Segundo Hegel, o objetivo da           Agir moralmente significa, portanto, querer o
 conduta humana, que  ao mesmo tempo a rea-                 Esprito infinito, assumi-lo como um Fim: for-
 lidade em que tal conduta encontra integrao               mulao essa que (assim como a de Fichte,
 e perfeio,  o Estado. Por isso, para Hegel, a            Hegel, Green) no se distingue da . tradicio-
 .  filosofia do direito. O Estado  "a totalida-          nal que (como a de Plato, Aristteles, S. To-
 de tica", Deus que se realizou no mundo (Fil.              ms e Rosmini) recorre  Realidade ou ao Ser.
 dodir.,  258, Zusatz). O Estado  o pice da-                  Uma forma mais complexa e moderna da .
 quilo que Hegel chama de "eticidade" (Sitt-                 do fim pode ser vista na doutrina de Bergson,
  lichkeii), isto , a moralidade que ganha corpo            que distinguiu a moral fechada da moral aber-
 e substncia nas instituies histricas que a              ta. Moral fechada  aquilo que se entende co-
 garantem; ao passo que a "moralidade" (Mo-                  mumente por esse termo. No mundo humano,
  raltt) por si mesma  simplesmente inteno              corresponde ao que  o instinto em certas so-
 ou vontade subjetiva do bem. Mas, por sua                   ciedades animais, pois seu propsito  conser-
 vez, o bem  "a essncia da vontade em sua                  var a sociedade. "Suponhamos por um instan-
 substancialidade e universalidade", ou ento,               te", diz Bergson, "que, na outra ponta da linha
  "a liberdade realizada, o objetivo final e absolu-         [na ponta da linha evolutiva da inteligncia, di-
 to do mundo" (Ibid.,  139-42), ou seja, o pr-            ferente da linha do instinto], a natureza tenha
  prio Estado. Assim, pode-se dizer que, para                desejado obter sociedades em que fosse permi-
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tida certa amplitude  opo individual: nessas           jetividade, tpica da noo de bem. Ora, as
sociedades, agiria de tal modo que, em termos             doutrinas que reconhecem a necessidade do
de regularidade, a inteligncia obteria resul-            valor, ou seja, sua absolutidade, sua eternidade,
tados comparveis aos do instinto na outra                etc, tm estreito parentesco com as doutrinas
ponta da linha: teria recorrido a hbitos. Cada           ticas tradicionais do fim, ao passo que as dou-
um desses hbitos, que podem ser chamados                 trinas que reconhecem a problematicidade do
de 'morais', ser contingente, mas seu conjun-            valor so estreitamente aparentadas com as
to, ou seja, o hbito de contrair hbitos, por            doutrinas ticas da motivao. As doutrinas de
estar na base das sociedades, ter uma fora              Scheler e Hartmann esto entre as que afir-
comparvel  do instinto tanto em intensidade             mam a necessidade do valor. Scheler elaborou
quanto em regularidade" (Deux sources, I; trad.           sua ". material dos valores" justamente com o
it., p. 23). Do outro lado, porm, est a moral           fim de imunizar a . contra o relativismo a que
dos profetas e dos inovadores, dos msticos e             conduz a . material do bem, que v no bem
dos santos. Essa  a moral em movimento, fun-             simples objeto de apetio. Segundo Scheler,
dada na emoo, no instinto, no entusiasmo:               as apeties (aspiraes, impulsos ou desejos)
moral que  impulso de renovao coinciden-               tm seus fins em si mesmas, ou seja, "no senti-
te com o prprio impulso criador da vida. Segun-          mento, contemporneo ou anterior, dos seus
do Bergson, essa dualidade de foras funda-               componentes axiolgicos". Os fins da apetio
menta a moral: "Presso social e impulso de               podem tornar-se propsitos da vontade quando
amorso duas manifestaes complementares                 representados e escolhidos, tornando-se assim
da vida, normalmente dedicadas  conserva-                um dever-ser real, vale dizer, termos de uma
o, em linhas gerais, da forma social caracte-           experincia objetiva. Mas os valores so dados
rstica da espcie humana desde a origem, mas             anterior e independentemente tanto em relao
excepcionalmente capazes de transfigur-la                aos fins quanto em relao aos propsitos, sen-
graas a indivduos que, assim como o surgi-              do tambm dadas independentemente de tais
mento de uma nova espcie, representam                    fins e propsitos as preferncias dos valores,
um esforo de evoluo criadora" (Ibid., p.               isto , sua hierarquia. Scheler diz: "De fato,
101). Assim, do ideal de renovao moral,                 podemos sentir os valores, mesmo os morais, na
Bergson deduziu a existncia de uma fora                 compreenso dos outros, sem que eles se
destinada a promover essa renovao, assim                transformem em objeto de aspirao ou sejam
como do conceito de "sociedade fechada"                   imanentes a uma aspirao. De modo seme-
deduziu a noo de moral corrente. Sua .,                lhante, podemos preferir ou pospor um valor a
portanto, obedece  clssica formulao da .             outro, sem com isso optar entre aspiraes vol-
do fim.                                                   tadas para esses valores. Todos os valores po-
                                                          dem ser dados e preferidos sem nenhuma aspi-
   Quando, na filosofia contempornea, a no-              rao" (Formalismus, p. 32). Em outros termos,
o de valor (v.) comeou a substituir a de               a . no se funda na noo de bem nem na de
bem, a antiga alternativa entre . do fim e . da         fins imediatamente presentes  aspirao ou
motivao assumiu nova forma. Com efeito, o               em propsitos deliberadamente almejados,
valor subtrai-se  alternativa prpria da noo           mas na intuio emotiva, imediata e infalvel
de bem, que pode ser interpretada ou em sen-              dos valores e das suas relaes hierrquicas; in-
tido objetivo (como realidade) ou em sentido              tuio  base de qualquer aspirao, desejo e
subjetivo (como termo de apetio). O valor               deliberao voluntria. Hartmann expressou de
possui modo de ser objetivo, no sentido de que            forma mais didtica, clara e eficaz essa mesma
pode ser entendido ou apreendido indepen-                 concepo de tica: "Existe um reino de valo-
dentemente da apetio; mas, ao mesmo tem-                res subsistente em si mesmo, um autntico
po,  dado em certa forma de experincia                  'mundo inteligvel' que est alm da realidade e
especfica. O valor, portanto,  constantemente           alm da conscincia, uma esfera ideal tica,
reconhecido como dotado de trs caracteres: d)            no construda, inventada ou sonhada, mas
objetividade; b) simplicidade, graas  qual             efetivamente existente e apreensvel no fen-
indefinvel e indescritvel, do mesmo modo                meno do sentimento axiolgico, subsistindo ao
que uma qualidade sensvel elementar; c) ne-              lado da esfera ntica real e da esfera gno-
cessidade ou problematicidade. Esta ltima  a            siolgica atual" (Ethik, 1926, p. 156). O "serem
alternativa que, no mbito da noo de valor,             si" dos valores ressalta que eles no dependem
substitui a alternativa entre subjetividade e ob-
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da mesma intuio axiolgica em que so da-                       2 A segunda concepo fundamental da .
dos e, portanto, so necessrios e absolutos, o                a que se configura como uma doutrina do
que, como pretendia Hartmann, deveria con-                    mvel da conduta. A caracterstica dessa con-
ter o avano do "relativismo axiolgico de                    cepo  que nela o bem no  definido com
Nietzsche" (Ibid., p. 139).                                   base na sua realidade ou perfeio, mas s
    No entanto, o "relativismo axiolgico de                  como objeto da vontade humana ou das regras
Nietzsche" tem a mesma estrutura formal, ou                   que a dirigem. Assim, enquanto na primeira
seja, a mesma elaborao da E. de Hartmann e,                 concepo as normas derivam do ideal que se
em geral, da . tradicional do fim, porque tam-               assume como prprio do homem (a perfeio
bm se funda em uma hierarquia absoluta de                    da vida racional, segundo Aristteles, o Esta-
valores. Para Scheler e Hartmann, essa hierar-                do, segundo Hegel, a sociedade fechada ou aber-
quia, assim como os prprios valores,  de                    ta, segundo Bergson, etc); na segunda concep-
todo independente da escolha humana; alis,                   o procura-se em primeiro lugar determinar
toda escolha  pressuposta pela escolha, quer                 o mvel Ao homem, ou seja, a normas que ele
esta se conforme ou no a ela. Essa tambm                   de fato obedece; portanto, define-se como bem
a crena de Nietzsche. S que, para Nietzsche,                aquilo a que se tende em virtude desse mvel,
essa hierarquia  diferente:  a hierarquia                   ou aquilo que se conforma  norma em que ele
dos valores vitais, dos valores em que se en-                 se exprime. Assim, quando Prdico formulava
carna a Vontade de Poder: "At hoje os valo-                  sua moral em proposies condicionais ou im-
 res morais ocuparam posio superior; quem                   perativos hipotticos, estava criando uma das
 poderia duvidar deles? Mas retiremos esses                   primeiras . do mvel. Dizia: "Se quiseres que
valores de sua posio e mudaremos todos os                   os deuses te sejam benvolos, deves venerar os
valores: inverteremos o princpio da sua hie-                 deuses. Se quiseres ser amado pelos amigos,
 rarquia precedente" (Wille zur Macht; trad. fr.              deves beneficiar os amigos. Se desejares ser
 Bianquis, III, 503). O imoralismo de Nietzsche,              honrado por uma cidade deves ser til  ci-
 seu "relativismo axiolgico", que o leva a criti-            dade. Se aspiras a ser admirado por toda a
 car a moral corrente e ver nela formas camufla-              Grcia, deves esforar-te por fazer bem  Gr-
 das de egosmo e hipocrisia,  simplesmente a                cia", etc. (XENOF., Memor.. II, i, 28). Do mesmo
 proposta de uma nova tbua de valores, funda-                modo, Protgoras aspira a uma E. do mvel
 da no princpio de aceitao entusistica da                 quando reconhece que o respeito mtuo e a
 vida, na preeminncia do esprito dionisaco.               justia so as condies para a sobrevivncia
 por esse motivo que Nietzsche pretende substi-               do homem. Esse  o sentido do mito de Prome-
 tuir as virtudes da moral tradicional pelas novas            teu, que Protgoras expe no dilogo homni-
 virtudes em que se exprime a vontade de po-                  mo de Plato (Prot., 322 c). E a obra conhecida
 tncia.  virtude toda paixo que diz sim  vida             com o nome de Annimo de Jmblico reafir-
 e ao mundo: "a altivez, a alegria e a sade; o               ma esse ponto de vista. "Mesmo que houvesse
 amor sexual, a inimizade e a guerra; a vene-                 (mas no h) um homem invulnervel, insens-
 rao, as belas aptides, as boas maneiras, a                vel, com corpo e alma de ao, s aliando-se s
 vontade forte, a disciplina da intelectualidade              leis e ao direito, fortalecendo-os e utilizando
 superior, a vontade de potncia, o reconhe-                  sua fora por eles e em favor deles, poderia
 cimento para com a terra e para com a vida:                  salvar-se, pois de outro modo no poderia resis-
 tudo o que  rico e quer dar, quer recompensar               tir" (Ann.Jmbi, 6, 3). Nessas formulaes, o
 a vida, dour-la, eterniz-la e diviniz-la" (Ibid.,         que se costuma evidenciar  o mecanismo dos
 5 479). Assim, daquilo que considerou a na-                  mveis que fundam as normas do direito e da
 tureza do homem, a vontade de potncia,                      moral: para sobreviver, o homem conforma-se
Nietzsche deduziu a tbua de valores morais                   a tais regras e no pode agir de outro modo.
 que deveriam dirigir o homem para a realiza-                 Em tais formulaes, o mvel da conduta hu-
 o da vontade de potncia num mundo de                      mana  o desejo ou a vontade de sobreviver.
 super-homens. A estrutura de sua doutrina no                Em outras formulaes do mesmo gnero, esse
 , portanto, diferente da estrutura de muitas                mvel  o prazer. Aristipo afirmava que s o
 outras que, utilizando o mesmo processo, ten-                prazer  desejado por si mesmo, e via a confir-
 dem a conservar e justificar as tbuas de valo-              mao disso no fato de que, desde a infncia,
 res tradicionais, deduzindo-as da natureza do                os homens procuram o prazer sem vontade de-
 homem ou da estrutura do ser.                                liberada e, quando o alcanam, no procuram
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outra coisa, ao passo que evitam a dor, que             outros, j que esto convencidos de que, se as
o seu oposto (DIG. L, II, 88). O princpio da           observarem, auferiro vantagens para si mes-
. de Epicuro tem o mesmo significado de reco-           mos" (Ensaio, I, 2, 6). E Leibniz, por sua vez,
nhecimento daquilo que, de fato,  o mvel da            reconhecia como fundamento da moral o prin-
conduta humana: "Prazer e dor so as duas                cpio de "adotar a alegria e evitar a tristeza",
afeies que se encontram em todo animal,                considerando-o, porm, mais relacionado com
uma favorvel e outra contrria, atravs das             o instinto do que com a razo (Nouv. ess., I, 2,
quais se julga o que se deve escolher e o que            1). Como se v, a . dos scs. XVII e XVIII tem
se deve evitar" (DIG. L, X, 34).                        alto grau de uniformidade: no s ela  uma
    Essa concepo de . esteve ausente duran-           doutrina do mvel como tambm a oscilao
te toda a Idade Mdia e s  retomada no                 que apresenta entre "tendncia  conservao"
Renascimento. Lorenzo Valia foi o primeiro a             e "tendncia ao prazer" como base da moral
reapresent-la em De voluptate, afirmando que            no implica uma diferena radical, j que o
o prazer  o nico fim da atividade humana e             prprio prazer no passa de indicador emocio-
que a virtude consiste em escolher o prazer              nal das situaes favorveis  conservao (v.
(De vol, II, 40). Telsio reapresenta a outra            EMOO). Semelhante . ope-se radicalmente
alternativa tradicional da mesma concepo                . do fim, ou seja,  . em sua formulao
(De rer. nat, IX, 2), extraindo as normas da             tradicional que se encontra em Plato, em Aris-
. do desejo de conservao que existe em                tteles e na Escolstica. A caracterstica funda-
cada ser. Com rigor e sistemazao, Hobbes              mental da filosofia moral inglesa do sc. XVTII,
via nesse mesmo princpio o fundamento da                que tem importncia particular na histria da
moral e do direito: "O principal dos bens  a            E., consiste em evidenciar e assumir como
autoconservao. Com efeito, a natureza pro-             tema principal de discusso precisamente a
veu a que todos desejem o prprio bem, mas               oposio entre a . do mvel e a . do fim, que
para que possam ser capazes disso  necess-             pareceu idntica  oposio existente entre ra-
rio que desejem a vida, a sade e a maior segu-          zo e sentimento. Hume diz: "H uma contro-
rana possvel dessas coisas para o futuro. De           vrsia surgida recentemente, que  muito mais
todos os males, porm, o primeiro  a mor-               digna de exame e que gira em torno dos funda-
te, especialmente se acompanhada de sofri-               mentos gerais da moral: se eles derivam da
mento; mas, como os males da vida podem                  razo ou do sentimento, se chegamos ao conhe-
ser tantos, se no for previsto seu fim prximo,         cimento deles por meio de uma seqncia de
levaro a incluir a morte entre os bens" {De             argumentos e de indues ou por meio de um
bom., XI, 6). Nessa tendncia  autoconserva-            sentimento imediato e de um sutil sentido in-
o e, em geral,  consecuo de tudo o que             terno" (Inq. Cone. Morais, I). Hume afirma que
til, Spinoza viu a ao necessitante da Subs-           o primeiro a aperceber-se dessa distino foi
tncia divina: "A razo nada exige contra a na-          Lord Shaftesbury; na verdade, Shaftesbury fa-
tureza, mas exige por si mesma, acima de tudo,           lou de um sentido moral, que  uma espcie
que cada um ame a si mesmo, que procure                  de instinto natural ou divino, especificao no
aquilo que seja realmente til para si, que de-          homem do princpio de harmonia que regula
seje tudo o que conduz o homem  perfeio               o universo (Caractersticas de homens, manei-
maior e, de modo absoluto, que cada um se                ras, opinies e tempos, 1711). J Hutchinson
esforce, no que estiver a seu alcance, para con-         interpretava o sentido moral como tendncia a
servar o prprio ser. O que  necessariamente            realizar "a maior felicidade possvel do maior
to verdadeiro quanto  verdadeiro que o todo            nmero possvel de homens" (Indagao sobre
 maior que a parte" (Et., IV, 18, scol.). Locke         as idias de beleza e de virtude, 1725, III, 8),
e Leibniz concordavam quanto ao fundamento               frmula que ser adotada por Beccaria e por
 da tica. Locke dizia: "Uma vez que Deus esta-          Bentham. Foi Hume quem encontrou a pala-
beleceu um lao entre a virtude e a felicidade           vra que exprimia essa nova tendncia: o funda-
 pblica, tomando a prtica da virtude necess-          mento da moral  a utilidade. Em outros ter-
ria  conservao da sociedade humana e visi-            mos,  boa a ao que proporciona "felicidade
velmente vantajosa para todos os que precisam            e satisfao"  sociedade, e a utilidade agrada
 tratar com as pessoas de bem, no  de sur-             porque corresponde a uma necessidade ou
 preender que todos no s queiram aprovar               tendncia natural: a que inclina o homem a
essas normas, mas tambm recomend-las aos               promover a felicidade dos seus semelhantes
TICA                                                 385                                             TICA


(lnq. Cone. Morais, V, 2). Portanto, razo e sen-           qual Kant recorre,  a exigncia de agir segun-
timento constituem igualmente a moral; segun-               do princpios que os outros podem adotar.
do Hume, "a razo nos instrui sobre as diver-               Conquanto essa frmula possa parecer mais
sas direes da ao, a humanidade nos faz                  rigorosa e mais abstrata que as empregadas
estabelecer a distino em favor daquelas que               pelos filsofos ingleses, seu significado  o mes-
so teis e benficas" (Ibid., Ap. I). Para Hume,           mo. O que ambas pretendem sugerir como
o sentimento de humanidade, ou seja, a tendn-              princpio ou mvel da conduta  o reconheci-
cia a ter prazer pela felicidade do prximo,  o            mento da existncia de outros homens (ou,
fundamento da moral, o mvel fundamental da                 como queria Kant, de outros seres racionais")
conduta humana. Alguns anos mais tarde,                     e a exigncia de comportar-se em face deles
Adam Smith chamar de simpatia esse senti-                  com base nesse reconhecimento. O imperativo
mento do espectador imparcial que olha e julga              kantiano de tratar a humanidade, tanto na pri-
a sua conduta e a dos outros (lhe Theory of                 meira pessoa quanto na pessoa do prximo,
Moral Sentiments, 1759, III, 1).                            sempre como fim e nunca como meio, no
    Pelo fato de a concepo moral de Kant                  passa de outra expresso dessa mesma exign-
corresponder s caractersticas fundamentais da             cia, que os moralistas ingleses chamavam de
doutrina do mvel, est claro que deve ser                  "sentido moral" ou "sentido de humanidade".
inserida nessa tradio. Em primeiro lugar,                 Infelizmente, a evoluo sofrida pela filosofia
Kant julga que "o conceito do bem e do mal                  moral de Kant a partir de Fichte teve como
no deve ser determinado antes da lei moral                 ponto de partida mais freqente o seu arsenal
(cujo fundamento aparentemente deveria ser),                dogmtico e absolutista do que suas coloca-
mas depois dela e atravs dela" (Crt. R. Prti-            es fundamentais e a substncia de seus en-
ca, I, 1, 3). Isto quer dizer que Kant compartilha          sinamentos morais. Tanto esses ensinamentos
a concepo (2) do bem, que corresponde  .                quanto a postura de que dependem esto de
do mvel. Em segundo lugar,  justamente com                acordo com a . setecentista, com a diretriz
base nos mveis (Bestimmungsgrnd) que                     moral do iluminismo, mas com esta no se coa-
Kant classifica as diferentes concepes funda-             duna a contraposio estabelecida por Kant en-
mentais do princpio da moralidade (Ibid., I, 1,            tre o mundo moral e o mundo natural e, por-
 8, nota 2). Em terceiro lugar, Kant considera a           tanto, entre a . e a cincia da natureza. Essa
lei moral como um fato (Factum), porque "no                oposio ingressa na doutrina de Kant a partir
pode ser deduzida de dados precedentes da ra-               do arsenal absolutista de sua ., ou seja, a par-
zo, como p. ex. da conscincia da liberdade",              tir do aspecto que a transformou em menina
mas se impe por si mesma como um sic volo,                 dos olhos dos metafsicos moralistas do sc.
sic iubeo (Ibid.,  7). Desse modo, Kant transferiu         XIX, em pretexto para inumerveis (e ino-
o mvel da conduta do "sentimento" para a                   perantes) perquiries a respeito do carter
"razo", utilizando o outro lado do dilema pro-             absoluto do dever, bem como do acesso que
posto pelos moralistas ingleses. Com isso, quis             ele permitiria a uma Realidade superior e in-
garantir a categoricidade da norma moral, ou                condicionada (a do "nmeno"), sem nenhuma
seja, o carter absoluto de comando graas ao               relao com a realidade fenomnica e condi-
qual ela se distingue dos imperativos hipotti-             cionada da natureza. Ainda hoje, muitas vezes
cos de tcnicas e prudncia. Em vista dessa exi-            amigos e adversrios da . de Kant vem nela
gncia, a . kantiana sem dvida compartilha                exclusivamente esse aspecto; os primeiros para
com a concepo (1) da . a preocupao bsi-               exalt-la como ancoradouro seguro de todas as
ca de ancorar a norma de conduta na substn-                certezas referentes  vida moral, os ltimos
cia racional do homem. Mas, deixando de lado                para conden-la como baluarte das iluses me-
essa preocupao absolutista (que deve ser                  tafsicas no campo moral. Mas uma considera-
explicada pelo "rigorismo" kantiano), a . de               o dessa . que se subtraia a tais alternativas
Kant tem grande afinidade com a . dos mora-                e a veja no quadro da . setecentista, cuja pos-
listas ingleses do sc. XVIII (pelos quais, alis,          tura compartilhou, ao mesmo tempo em que
nas obras iniciais Kant no escondeu sua sim-               pretendeu fundament-la com necessidade ri-
patia), no s na formulao fundamental                    gorosa, talvez permita apreci-la mais adequa-
como tambm nos resultados. Se o sentimento,                damente. Pode, efetivamente, abrir caminho
ao qual recorriam os moralistas ingleses, era a             para a utilizao das anlises kantianas com
tendncia  felicidade do prximo, a razo,                vistas  formulao da . como tcnica da con-
TICA                                                386                                             TICA


duta, independente de pressupostos metaf-                 inferiores a que somos impelidos pelo desejo;
sicos.                                                     nessa fase, portanto, a anttese entre egosmo
    Nesse nterim, em clima positivista, a . do           e altrusmo no ter mais sentido {Data ofEthics,
mvel tinha a pretenso de valer como cincia               46). Pode-se dizer que a . do evolucionismo
exata da conduta. Helvtius dizia: "Acredito               no passa da expresso, em termos de otimis-
que se deve tratar a moral como todas as outras            mo positivista, da . fundada no princpio da
cincias e fazer uma moral como se faz uma f-             autoconservao que Telsio e Hobbes reintro-
sica experimental" {De Vesprit, 1758, 1, p. 4).            duziram no mundo moderno.
Mas essa pretenso caracteriza sobretudo o                     Na filosofia contempornea, essa concep-
utilitarismo do sc. XIX, encabeado por Ben-              o de . no sofreu mudanas nem apresentou
tham. Segundo ele, os nicos fatos de que se               progressos substanciais. Bertrand Russell limi-
pode partir no domnio moral so os prazeres e             tou-se a reprop-la na forma mais simples e
as dores. A conduta do homem  determinada                 grosseira, afirmando que "a . no contm afir-
pela expectativa de prazer ou de dor, e esse  o           maes verdadeiras ou falsas, mas consiste em
nico motivo possvel de ao. Com estes fun-              desejos de certa espcie geral" (Religion and
damentos a cincia da moral torna-se to exata             Science, 1936). Dizer que alguma coisa  um
quanto a matemtica, embora seja muito mais                bem ou um valor positivo  outro modo de di-
intricada e ampla (Jntroduction to the Princi-             zer "agrada-me" e dizer que algo  mau signifi-
pies of Morais and Legslation, 1789, em Works,            ca exprimir igualmente uma atitude pessoal e
I, p. V). Desse ponto de vista, conscincia, sen-          subjetiva. Contudo, Russell acha que  poss-
tido moral, obrigao moral, so conceitos fict-          vel influir nos prprios desejos, reforando
cios ou "no-entidades". A realidade que tais              alguns e reprimindo ou destruindo outros. E
conceitos ocultam  o calculo dos prazeres e               julga tambm que isso deve ser feito por
das dores em que repousa o comportamento                   quem almejar a felicidade ou o equilbrio da
moral do homem, clculo cujos princpios                   vida. Mas est claro que essa posio  contra-
Bentham quis estabelecer fornecendo a tbua                ditria: se a . nada tem a ver com desejos, fal-
completa dos mveis de ao, que deveria ser-              tam motivos ou critrios para que um deles
vir de guia para as legislaes futuras. Na reali-         prevalea sobre os outros. Na E. de Russell,
dade, a obra de Bentham inspirou a ao                    perdeu-se um dos aspectos fundamentais da
reformadora do liberalismo ingls e ainda hoje             . inglesa tradicional: a exigncia do clculo
seus princpios esto incorporados na doutrina             de tipo benthamiano, ou seja, da disciplina na
do liberalismo poltico. O utilitarismo de James           escolha dos desejos, ou melhor, das alternati-
Mill e de John Stuart Mill no passa de defesa             vas possveis de conduta. No entanto, foi justa-
e ilustrao das teses fundamentais de Bentham.            mente a esse ponto de vista to mutilado que
O positivismo inspirou-se no mesmo ponto de                se filiou a concepo de . predominante no
vista: a realizao da moral do altrusmo, cujo            positivismo lgico, segundo a qual os juzos
arauto  Comte e cujo princpio : "viver para             ticos expressam to-somente "os sentimentos
os outros", tambm fica por conta de instintos             de quem fala, sendo portanto impossvel en-
simpticos que, segundo Comte, podem ser                   contrar um critrio para determinar a sua va-
gradualmente desenvolvidos pela educao,                  lidade" (AYER, Language, Truth and Logic, p.
at que dominem os instintos egostas (Cat-               108; cf. STEVENSON, Ethics and Language, p.
 chismepositviste, 1852, p. 48). A . biolgica           20). O que, obviamente,  o ponto de vista de
de Spencer adota essas teses. Spencer v na                Russell, para quem a . trata de desejos e no
moral a adaptao progressiva do homem s                  de asseres verdadeiras ou falsas;  um ponto
suas condies de vida. O que o indivduo en-              de vista que marca a renncia  compreenso
xerga como dever ou obrigao moral  resul-               dos fenmenos morais, e no um avano em
tado de experincias repetidas e acumuladas                sua compreenso. Mostra-se mais frutfero o
atravs de inmeras geraes:  o ensinamento              ponto de vista de Dewey, cuja . se vincula 
que essas experincias propiciaram ao homem                noo de valor. Dewey tem em comum com
 em sua tentativa de adaptar-se cada vez mais s           boa parte da filosofia do valor(y.) a crena de
 suas condies vitais. Spencer prev ainda uma            que os valores so no s objetivos, mas tam-
fase em que as aes mais elevadas, necess-               bm simples e, portanto, indefinveis, mas no
rias ao desenvolvimento harmnico da vida,                 a crena de que eles so absolutos ou necess-
 sero to comuns quanto hoje o so as aes               rios. Para Dewey, os valores so qualidades
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imediatas sobre as quais, portanto, nada h a              coexistncia, mas se refletirmos que toda es-
dizer; s em virtude de um procedimento crti-             pcie ou forma de conduta  uma forma ou
co e reflexivo  que podem ser preferidos ou               espcie de coexistncia, ou vice-versa, logo ve-
preteridos (Theory ofValuation, 1939, p 13).               remos que a distino dos dois campos  ape-
Mas eles so fugazes e precrios, negativos e              nas circunstancial, com vistas a delimitar pro-
positivos, alm de infinitamente diferentes em             blemas particulares, grupos de problemas ou
suas qualidades. Da a importncia da filosofia,           campos especficos de considerao e estudo.
que, como "crtica das crticas", em primeiro lu-              TICAS, VIRTUDES (gr. ii0iKai; pera; lat.
gar tem o objetivo de interpretar acontecimen-              Virtutes morales; in. Ethical Virtues; fr. Vertus
tos para deles fazer instrumentos e meios da               morales; ai. Ethsche Tugenden-, t. Virt eti-
realizao dos valores, e em segundo lugar, o              cb). Segundo Aristteles, so as virtudes que
de renovar o significado dos valores (Experien-            correspondem  parte apetitiva da alma, na
ce andNature, pp. 394 ss.). Essa tarefa da filo-           medida em que esta  moderada ou guiada
sofia  condicionada pela renncia  crena                pela razo (Et. nic., I, 13, 1102 b 16), e que
na realidade necessria e no valor absoluto.               consistem no justo meio (v. MEIO) entre dois
"Abandonar a busca da realidade e do valor                 extremos, dos quais um  vicioso por exces-
absoluto e imutvel pode parecer um sacrifcio.            so, o outro por deficincia (Ibid., II, 6, 1107 a
Mas essa renncia  a condio para o empe-                1). As virtudes . so: coragem, temperana, li-
nho numa vocao mais vital. Na busca dos valo-            beralidade, magnanimidade, mansido, fran-
res que podem ser garantidos e compartilhados              queza e justia; esta ltima  a maior de todas
por todos, porque vinculados aos fundamentos               (Ibid., III-V); cf. os verbetes respectivos.
da vida social, a filosofia no encontrar rivais,             ETICIDADE (ai. Sittlichkeit). Hegel fez uma
mas coadjutores, nos homens de boa vontade"                distino entre moralidade, que  a vontade
(The Questfor Certainty, p. 295). Essas conside-           subjetiva, individual ou pessoal, do bem, e a E.,
raes de Dewey certamente circunscrevem o                 que  a realizao do bem em realidades hist-
quadro em que a investigao tica contempo-               ricas ou institucionais, que so a famlia, a so-
rnea deve mover-se, mas no lhe oferecem                  ciedade civil e o Estado. "A E.", diz Hegel, " o
instrumentos eficazes. Ainda falta na . con-              conceito de liberdade, que se tornou mundo
tempornea uma teoria geral da moral que                   existente e natureza da autoconscincia" (EU.
corresponda  teoria geral do direito (v.), ou             do dir.,  142). As instituies ticas tm uma
seja, uma teoria que considere a moral como                realidade superior  da natureza, porque cons-
tcnica de conduta e se dedique a considerar               tituem uma realidade "necessria e interna"
as caractersticas dessa tcnica e as modalida-            (Ibid.,  146). A mais elevada manifestao da
des com que ela se realiza em grupos sociais               E., o Estado,  Deus, que ingressou no mundo,
diferentes. Obviamente, uma teoria geral da                um "Deus real" (Ibid.,  258, Zusatz). Essa dis-
moral no partiria de compromisso prvio com               tino entre moralidade e E. s foi repetida
determinada tbua de valores; seu compromisso              entre os seguidores da escola hegeliana.
seria simplesmente com a considerao da
constituio das tbuas dos valores que se ofe-               TICO-RELIGIOSAS, ANTINOMIAS (ai.
recem ao estudo histrico e sociolgico da vida            Etisch-religiose Antinomien). Antteses em
moral, com a descoberta, se possvel, das con-             que se expressa o conflito entre o ponto de
dies formais ou gerais de tal constituio.              vista tico e o ponto de vista religioso. Foram
Mas poderia (e deveria) utilizar amplamente a              enunciadas por Nicolai Hartmann do seguinte
. do sc. XVIII e, em geral, a . da motivao,           modo: ls a tica est radicada nesta existncia,
apresentando-se como a continuao dessa                   enquanto a religio tende a uma existncia ra-
concepo.                                                 dicada alm desta; 2S a tica est voltada para o
                                                           homem, a religio para Deus; 39 a tica afirma a
   A propsito das relaes entre moral e direi-           autonomia dos valores, a religio os subordina
to, cabe aqui reafirmar o que se disse a pro-               vontade de Deus; 4a a tica funda-se na liber-
psito do direito, ou seja, que tais relaes po-          dade humana, a religio transfere toda ini-
dem configurar-se de varias maneiras, mas                  ciativa a Deus (Ethik, 1926, 3a ed., 1949, pp.
nunca se especificam como relaes de hetero-              811-17).
geneidade ou independncia recprocas. A .                   ETTOLOGIA (in. Etiology, fr. tiologies; ai.
como tcnica de conduta  primeira vista pare-             Aetiologie, it. Etiologid). Pesquisa ou deter-
ce mais ampla que o direito como tcnica de                minao das causas de um fenmeno. Esse
    ETNOGRAFIA                                                  388                                                   EU

1
     termo  usado quase exclusivamente em me-                        finio do homem. Foi isso que aconteceu com
    dicina.                                                           Descartes, que foi o primeiro a formular em ter-
        ETNOGRAFIA (in. Ethnograph; fr. Etbno-                        mos explcitos o problema do eu. "O que sou
    grafie, ai. Ethnographie, it. Etnografi). O mes-                 eu ento?", perguntava Descartes. "Uma coisa que
    mo que ETNOLOGIA. S vezes, o primeiro est-                      pensa. Mas o que  uma coisa que pensa?  uma
    gio da pesquisa antropolgica: observao e                       coisa que duvida, concebe, afirma, nega, quer
    descrio, trabalho de campo (LVI-STRAUSS, An-                   ou no quer, imagina e sente. Certamente no
    thropologie structumle, 1958, cap. XVII).                          pouco que todas essas coisas pertenam  mi-
        ETNOLOGIA (in. Etbnology, fr. Ethnologie,                     nha natureza. Mas por que no lhe pertenceriam?...
    ai. Ethnologie, it. Etnologia). Uma das discipli-                  de per si evidente que sou eu quem duvida,
    nas do tronco sociolgico. Tem por objeto os                      entende e deseja, e que no  preciso acrescen-
    modos de vida de grupos sociais ainda existen-                    tar nada para explic-lo" (Md., II). Como se v,
    tes ou dos quais ainda se conserve abundante                      aqui o problema do eu  imediatamente acom-
    documentao. A E. se interessa sobretudo                         panhado pela sua soluo: o eu  conscincia,
    pelo estudo da cultura dos povos "primitivos".                    relao consigo mesmo, subjetividade. Esta  a
    Distingue-se da sociologia apenas pela forte                      primeira das interpretaes historicamente da-
    tendncia, observada em seus cultores, a insis-                   das do eu. Podem ser enumeradas as outras
                                                                      interpretaes seguintes: eu como autocons-
    tir nas caractersticas individuais dos grupos
                                                                      cincia; eu como unidade; eu como relao.
    estudados e, portanto, a no levar em conta os
    problemas sociolgicos gerais. Lvi-Strauss                           PA definio cartesiana do eu como cons-
    considera a E. como o primeiro passo, depois                      cincia foi imediatamente acolhida e incorpora-
    da descrio etnogrfica, para a sntese antro-                   da  tradio filosfica. Locke adotou-a e a
    polgica: a sntese etnolgica pode ser geogr-                   reelaborou com o fim de justificar uma caracte-
    fica, histrica ou sistemtica (Anthropologie                     rstica formal do eu: unidade ou identidade. Di-
    structurale, 1958, cap. XVII).                                    zia: "Quando vemos, ouvimos, cheiramos, pro-
                                                                      vamos, tocamos, meditamos ou queremos uma
        ETOLOGIA1 (do gr. e6o; in. Ethology, fr.                     coisa, percebemos que a fazemos. O mesmo
    Ethologie, ai. Ethologie-, it. Etologia). Termo                   ocorre com nossas sensaes e percepes
    cunhado por Wundt para designar o estudo                          atuais, e nesse caso cada um  para si mesmo o
    histrico descritivo dos costumes e das repre-                    que ele chama de si mesmo, no se levando
    sentaes morais (Logik, II, 2, 369). Esse termo                  aqui em conta o fato de que o mesmo eu conti-
    no teve muita repercusso e raramente  em-                      nue nas mesmas substncias ou em substncias
    pregado. O estudo descritivo dos costumes                        diferentes. E como o pensamento  sempre
    parte integrante da sociologia.                                   acompanhado pela conscincia do pensamen-
        ETOLOGIA2 (do gr. ^O; in Ethology, fr.                       to, sendo ela que faz que cada um seja aquilo
    Ethologie; ai. Ethologie; it. Etologia). Termo                    que cada um chama de si-mesmo, distinguin-
    cunhado por Stuart Mill para designar a cin-                     do-se assim de todas as outras coisas pen-
    cia que estuda as leis da formao do carter.                    santes, nisso apenas consiste a identidade pes-
    Essas leis derivariam das leis gerais da psicolo-                 soal" {Ensaio, II, 27, 11). Em outros termos,
    gia, aplicadas s influncias que as circunstn-                  segundo Locke, a identidade do eu no se fun-
    cias ambientais exercem sobre a formao do                       da na unidade ou na simplicidade da substn-
    carter. A E. se distinguiria da sociologia por-                  cia-alma, mas unicamente na conscincia, e ,
    quanto a primeira seria a cincia do carter                      alis, essa conscincia que se reconhece na
    individual, e a segunda a cincia do carter social               diversidade das suas manifestaes. Leibniz, em-
    ou coletivo {Logic, VI, 5,  3). Essa palavra no                 bora insistisse na importncia daquilo que ele
    teve repercusso, tendo sido quase universal-                     chamava de conscincia ou sentimento do eu,
    mente aceita para designar a mesma cincia a                      no acreditava que ela apenas constitusse a
    palavra caracterologia (v.) .                                     identidade pessoal, e lhe acrescentava "a iden-
        EU (lat. Ego; in. /, Self; fr. Moi; ai. Ich; it. Io).         tidade fsica e real" {Nouv. ess., II, 27, 10). Este
     Este pronome, com que o homem se designa a                       ponto de vista encontra-se freqentemente ex-
     si mesmo, passou a ser objeto de investigao                    presso na filosofia moderna e contempornea,
    filosfica a partir do momento em que a refe-                     que s vezes acentuou o carter ativo ou
                                                                      volitivo da conscincia. Foi o que fez, p. ex.,
     rncia do homem a si mesmo, como reflexo
                                                                      Maine de Biran: "A causalidade ou a fora (ou
    sobre si ou conscincia, foi assumida como de-
EU                                                    389                                                      EU

seja, o eu), que se manifesta para si mesma s              de infinita e ilimitada" (Wissenschaftslehre,
por meio de seu efeito ou do sentimento ime-                1794, III,  5, II; trad. it., p. 207). Essas teses fo-
diato do esforo que acompanha todo movi-                   ram adotadas e ampliadas por Schelling, graas
mento ou ato voluntrio,  precisamente como                a quem se tornaram expresses caractersticas
0 primeiro raio, a primeira luz captada pela vi-            do romantismo. Na obra O eu como princpio
so interior da mente" (Nouv. ess. d'anthro-                da filosofia ou o incondicionado no saber hu-
pologie, II, 1). Assim, para Maine de Biran, o              mano (1795), ele identifica o Eu de Fichte com
eu  a conscincia originria do esforo. Mas a             a Substncia de Spinoza. "Nessa poca", Schel-
melhor expresso da doutrina do eu como                     ling escreveu a Hegel, "tornei-me adepto de
conscincia foi dada por Kant, que dizia: "Eu,              Spinoza. Quer saber como? Para Spinoza o
como pensante, sou um objeto do sentido                     mundo  tudo, para mim tudo  o Eu." E embo-
interno, e me chamo alma. O que  objeto do                 ra Hegel negasse essa tese, considerando como
sentido externo se chama corpo. Portanto, a                 saber absoluto (e, portanto, tambm como rea-
expresso eu, como ser pensante, designa j o               lidade absoluta) o saber em que desapareceu a
objeto da psicologia que se pode chamar de                  distino entre Eu e no-Eu, entre subjetivo e
doutrina racional da alma, quando eu no que-               objetivo, tambm ele compartilha da tese do
ro saber mais da alma do que aquilo que, inde-              carter infinito do Eu. Disse: "O Eu, essa cons-
pendentemente da experincia (que me deter-                 cincia imediata de si, aparece em primeiro
mina mais de perto e concretamente), se pode                lugar, por um lado, como imediato, por outro
concluir a partir desse conceito do eu, presente            como conhecido em sentido muito mais eleva-
em cada pensamento" (Crt. R. Pura, Dialtica,              do do que qualquer outra representao. Todas
II, cap. 1). Ao lado desse eu como "objeto do               as outras coisas conhecidas pertencem de fato
sentido interno", ou seja, conscincia (cf. Prol.,          e certamente ao Eu, mas ao mesmo tempo so
 1 46), Kant admite uma outra espcie de eu,                diferentes dele e, portanto, ganharam contedo
 que marca a transio para uma segunda inter-              acidental; o Eu, porm,  a simples certeza de
 pretao desse conceito. A interpretao do eu             si. Mas o Eu em geral  tambm, ao mesmo
 como conscincia foi freqente na filosofia                tempo, um concreto, ou melhor, o Eu  o
 moderna e contempornea. Rosmini dizia:                    concretssimo, a conscincia de si como de um
 "A palavra eu une ao conceito geral de alma a              mundo infinitamente mltiplo" (Wissenschaft
 relao da alma consigo mesma, relao de                  derLogik, I, livro I; trad. it., I, pp. 65-66). Gen-
 identidade; contm, portanto, um segundo ele-              tile apenas repetia a colocao fichtiana e ro-
 mento, distinto do conceito de alma:  uma                 mntica quando dizia: "O eu  certamente o
 alma que se apercebe de si mesma, se pronun-               indivduo, mas o indivduo como sujeito que
 cia, se exprime" (Psicoi,  6).                            nada tem a contrapor a si mesmo e que en-
                                                            contra tudo em si; por isso,  o concreto atual
    2a A interpretao do eu como Autocons-                 e universal. Ora, esse Eu, que  o prprio abso-
 cincia nasce da distino que Kant fizera entre           luto,  enquanto se pe;  causa sui" (Teoria
 o eu como objeto da percepo ou do sentido                generale dello spirito, XVII,  7).
 interno e o eu como sujeito do pensamento ou
 da apercepo pura, isto , o eu da reflexo                  3a J na interpretao do eu como conscin-
 (Antr, I,  4, nota; cf. AUTOCONSCINCIA). Esta            cia e como autoconscincia insiste-se s vezes
 distino, que, em Kant, jamais teria conduzido            no carter formal do eu, ou seja, em sua uni-
  substancializao metafsica do eu, dada a               dade ou identidade. Viu-se que, para Locke, o
 funcionalidade que Kant atribui ao eu, deveria             eu  a conscincia que funda a identidade pes-
 ser assumida por Fichte como ponto de partida              soal, e para Kant o eu da reflexo  "a unidade
 para a doutrina do Eu absoluto. Segundo Kant,              da apercepo pura" (Crt. R. Pura,  16; v.
 o eu da reflexo ou da apercepo pura  a                 APERCEPO). O prprio Hume vira em certa
 condio ltima do conhecer; Fichte faz dele o             forma de unidade, ainda que fictcia, o carter
 criador da realidade. "Por ser absoluto", diz ele,         fundamental do eu, que ele comparara a uma
 "o Eu  infinito e ilimitado. Ele dispe tudo o            repblica em que podem ocorrer mudanas
 que ; e o que ele no dispe no  (para ele;             nos homens que a governam, em sua constitui-
 mas fora dele nada existe). Mas tudo o que dis-            o e em suas leis, sem que por isso ela perca a
 pe, ele dispe como Eu; e dispe o eu como                identidade. O homem, do mesmo modo, pode
 tudo o que dispe. Portanto, nesse aspecto, o              mudar suas impresses e suas idias, permane-
 Eu abarca em si toda a realidade, uma realida-             cendo o mesmo eu (Treatise, I, 4, 6). Todavia
EU                                                  390                                          EUBULIA

para Hume, como se v por essa mesma ima-                 tituio do ser do eu, quando pelo menos ele
gem, a unidade no  absoluta nem rigorosa:              deve poder ser algo, como em 'Eu penso algu-
formal e aproximativa, fundada na constncia              ma coisa'. Dizer eu refere-se ao ente que eu
relativa de certas relaes entre as partes ou            sou enquanto sou-no-mundo" (Sein undZeit,
momentos do eu. Esse ponto de vista, talvez                64). De forma s aparentemente paradoxal,
mais do que o outro que afirma a rigorosa                 Sartre afirmava, num ensaio de 1937, que "o
unidade do eu, evidencia os limites e os pe-              eu no est, nem formal nem materialmente,
rigos aos quais o eu est sujeito na experincia          na conscincia; est fora, no mundo.  um ser
efetiva.                                                  do mundo, assim como o eu de um outro"
   4a o conceito do eu como inter-relao nasce           (Rechercbes Philosophiques, 1936-37; trad in.,
do reconhecimento do carter mais evidente com             The Transcendence of the Ego, Nova York,
que o eu se apresenta nessa experincia: o                1958, p. 32). No mesmo sentido, afirma Mer-
carter de problematicidade, em virtude do qual           leau-Ponty: "A primeira verdade , sem dvida,
ele  uma formao instvel que pode estar                'eu penso', mas sob a condio de que com
sujeita  doena e  morte. A noo de inter-             isso se entenda 'eu sou para mim mesmo' sen-
relao , de fato, mais genrica e menos com-            do no mundo" (Phenomnologie de Ia per-
prometedora do que a noo de unidade. A                  ception, 1945, p. 466). Considerado em sua
unidade  uma forma de inter-relao neces-               relao com o mundo, o eu s vezes  deter-
sria, imutvel e absoluta, uma inter-relao             minado a partir do seu carter ativo, da sua ca-
pode ser mais ou menos firme e romper-se. Foi             pacidade de iniciativa, do seu poder projetante
sob o ngulo da "doena mortal" do eu, a                  ou antecipador. Dewey diz: "Dizer de modo
desesperao, que Kierkegaard definiu o eu                significante 'Eu penso, creio, desejo', em vez
como "relao que se relaciona consigo mes-               de dizer somente 'Pensa-se, cr-se, deseja-se',
ma". O homem  uma sntese de alma e corpo,               significa aceitar e afirmar responsabilidades e
de infinito e finito, de liberdade e necessidade,         expressar pretenses. No significa que o eu 
etc. Sntese  inter-relao, e a reverso dessa
                                                          a origem ou o autor do pensamento ou da afir-
inter-relao, ou seja, a relao da relao con-
                                                          mao nem que  sua sede exclusiva. Significa
sigo mesma,  o eu do homem (Die Kmnkheit
                                                          que o eu, como organizao concentrada de
zum Tode, 1849, cap. I). Kierkegaard acrescen-
                                                          energias, identifica-se (no sentido de aceitar as
tava que precisamente por relacionar-se consi-
                                                          conseqncias) com uma crena ou sentimen-
go mesmo, o eu  relacionar-se com outro:
com o mundo, com os outros homens e com                   to de origem exterior e independente" (Expe-
Deus.  nesta segunda inter-relao que por               rience and Nature, p. 233). So exatamente
vezes os filsofos contemporneos insistem.               esses caracteres que constituem hoje o esquema
Santayana dizia: "Quando digo eu, esse termo              geral para o estudo experimental da personali-
sugere um homem, um entre os muitos que vi-               dade, que  um dos principais objetos da psi-
vem em um mundo que est em conflito com                  cologia. O eu s se distingue da personalidade
o seu pensamento, mas que o domina" (Scepti-              (que  a organizao dos modos como o indiv-
cism and Animal Faith, 1923, ed. 1955, p.22).             duo inteligente projeta seus comportamentos
De um ponto de vista diferente, Scheler chega             no mundo) por ser a parte da personalidade
a um conceito anlogo do eu: " palavra eu                conhecida pelo indivduo interessado e  qual,
est associada a aluso ao tu, por um lado, e a           portanto, ele faz referncia ao dizer "eu". A
um mundo externo, por outro. Deus, p. ex.,                personalidade, por outro lado,  mais vasta: in-
pode ser uma pessoa, mas no um eu, j que                clui tambm as zonas escuras ou de penumbra,
para ele no h tu nem mundo externo"                     as esferas de ignorncia mais ou menos volun-
(Formalismus, etc, p. 405).  precisamente da             tria ou involuntria, que caracterizam o proje-
inter-relao que Heidegger lana mo para                to total das relaes do indivduo com o mun-
definir o eu. "A assuno 'Eu penso alguma                do (v. PERSONALIDADE).
coisa' no pode ser adequadamente determina-
da se o 'alguma coisa' ficar indeterminado. Se,              EUBULIA (gr. e)|kn)A,a; lat. Eubulid). Se-
porm, o 'alguma coisa' for entendido como                gundo Aristteles,  a boa deliberao, o juzo
ente intramundano, ento trar em si, no ex-             correto sobre a correspondncia entre meios e
pressa, a pressuposio do mundo. E  justa-              fim. O bem deliberar  dos sbios, e sabedoria
mente esse o fenmeno que determina a cons-               consiste no juzo verdadeiro sobre a correspon-
                                                          dncia entre meios e fim (Et. nic, VI, 9, 1142 b
  EUCOSMIA                                          391                                     EVENTO

   5). No mesmo sentido, esse termo  definido           dentales Ich; it. Io trascendentale). O mesmo
                                                        veEu 3bso)uto (v. Eu).
    EUCOSMLV (gr. eKoaua). Comportamen-                EVANGELHO ETERNO (faC. /ange'um
 to regrado, boa conduta (cf. ARISTTELES, Pol.       aeternum). Orgenes empregou essa expresso
IV, 1299 b 16).                                      para designar a reveao cias verdades supe-
    EUCRASIA (gr. eKpaooc). Temperamento.          riores que Deus faz aos sbios em todas as
Propriamente, justa mescla dos elementos que         pocas do mundo, capaz de integrar e corrigir
compem o corpo (ARISTTELES, Depart. an.,           a revelao contida no E. histrico (Deprinc,
673 b 25; GALENO, VI, 31, etc).
                                                     IV, 1; Injohann., I, 7).
   EUDEMONIA. V. FELICIDADE.                             EVEMERISMO (in. Euhemerism; fr. vh-
    EUDEMONISMO (in. Eudemonism, fr. Eud-           mrisme, ai. Evhemerismus; it, Evemerism).
monism; ai. Eudmonismus; it. Eudemonism).          Doutrina de Euevmero ou Evmero de Mes-
Qualquer doutrina que assuma a felicidade            sina (scs. IV-III a.C), autor de uma Sagrada
como princpio e fundamento da vida moral.           Escritura traduzida para o latim por nio, na
So eudemonistas, nesse sentido, a tica de          qual se queria demonstrar que os deuses so
Aristteles, a tica dos esticos e dos neopla-      homens corajosos, ilustres ou poderosos, divi-
tnicos, a tica do empirismo ingls e do Ilu-      nizados depois da morte (CCERO), De nat. deor.,
minismo. Kant acredita que o E. seja o ponto de     I, 119).
vista do egosmo (v.) moral, ou seja, da dou-            EVENTO (in. Event; fr. vnement; ai. Ges-
trina "de quem restringe todos os fins a si mes-     chehen, it. Evento). Na fsica contempornea,
mo e nada v de til fora do que lhe interessa"     uma poro do contnuo espcio-temporal.
(Antr., I,  2). Mas esse conceito de E.  dema-    Nesse sentido, uma coisa, p. ex., um corpo, 
siado restrito, pois no mundo moderno, a partir     um evento. Esse conceito foi esclarecido por
de Hume, a noo de felicidade tem significado      Einstein em 1916 (Teoria restrita egeral da re-
social, no coincidindo portanto com egosmo         latividade,  27). Desde ento,  conceito fun-
ou egocentrismo (v. FELICIDADE).
                                                    damental da fsica: o E. ,- propriamente dito, o
                                                    objeto especfico da fsica, aquele a que se re-
   EUNOMIA (gr. evoLia). A "boa ordem hu-         ferem os seus meios de observao: caracteri-
mana" contraposta  hybris, que  a atitude de      za-se pelas trs coordenadas espaciais e pela
quem desconhece os limites dos homens e a si-       temporal. "O mundo dos E. pode ser descrito
tuao de subordinao que eles tm no mun-         dinamicamente por uma imagem que mude
do (PLATO, Sof., 216 b).                           com o tempo, observada sobre o fundo do
  EU PENSO. V. COGITO.                              espao tridimensional. Mas tambm pode ser
    EUPRAXIA (gr. etOTpava). Bom comporta-         descrito por meio de uma imagem esttica,
mento, ou seja, comportamento regrado, ou           projetada sobre o fundo do contnuo espcio-
segundo as leis. Xenofonte designa com essa         temporal ern quatro dimenses. Do ponto de
palavra o ideal moral de Scrates (Mem., III, 9,    vista da fsica clssica, as duas imagens, a din-
14). Aristteles emprega a mesma palavra em         mica e a esttica, so equivalentes. Mas do
oposio a dispraxia, que indica a conduta          ponto de vista da relatividade, a imagem esttica
desregrada; Et. nic, VI, 5, 1140 b 7).               mais conveniente e mais objetiva (EINSTEIN-
    EUTAXIA (gr. eTOt^oc). A conduta bem          INFELD, Evolution of Physics, III; trad. it., p.
regrada ou conforme  ordem csmica.  um           218). Generalizando o conceito de Einstein,
conceito estico (Stoicorum fragmenta, III,         Whitehead falou de "E. puntiformes", que pos-
64), que Ccero se deteve a ilustrar (De officis,   suem posio, um em relao ao outro. Tais E.
I, 40, 142).                                        constituiriam os pontos de um sistema espcio-
    EUTIMIA (gr. eGuLtoc; lat. Tranquillitas).    temporal. Todo sistema teria um grupo particu-
Era o ttulo de uma das obras de Demcrito;         lar de pontos, ou seja, uma definio prpria
significava a satisfao tranqila, diferente do    da "posio absoluta" (Concept ofNature, 1920,
prazer, que consiste na ausncia de temores,        cap. 5). Essas notas constituem uma tentativa
supersties e emoes (DIG. L, IX, 45). Os        de Whitehead de traduzir a fsica contempor-
latinos traduziram o termo por tranquillitas        nea para uma metafsica evolucionista. Por sua
                                                    vez, P. W. Bridgmann ps em dvida a impor-
(SNECA, De tranquillitate animi, II, 3).
                                                    tncia da noo de E., por no achar que todos
    EU TRANSCENDENTAL (in. Transcendental           os resultados das medidas fsicas pudessem ser
Ego; fr. Moi transcendental; ai. Transzen-
EVIDENCIA                                               392                                     EVOLUO


 expressos em termos de coincidncias espcio-             segura que a deduo" (Regulae ad directionem
 temporais. Nesse sentido observa, p. ex., que              ingenii, III). A E. seria, assim, o carter da in-
 a diferena entre um eltron negativo e um                tuio e constituiria a certeza prpria desta l-
 positivo no  contemplada na especificao               tima, assim como a necessidade racional cons-
 das coordenadas {Logic of Modem Physics, 1927,            titui a certeza da deduo. Esses conceitos
 cap. III; trad. it., p. 153). Mas, apesar dessas re-      dominaram grande parte da filosofia moderna,
 servas, o conceito de evento continua tendo                mesmo porque foram aceitos tanto por Locke,
 uma importncia fundamental na fsica con-                 para quem "a certeza e a E. do nosso conheci-
 tempornea e continua sendo considerado                   mento provm da intuio da concordncia ou
pelos fsicos como a melhor caracterizao do              da discordncia entre as idias" (Ensaio, IV, 2,
seu objeto.                                                1), quanto por Leibniz (Nouv. ess., IV, 11, 10).
    EVIDNCIA (gr. vpTEia, lat. Evidentia-,              O carter subjetivo da E. e sua conexo com
in. Evidence-, fr. Evidence, ai. Evidenz; it. Evi-         uma faculdade humana mais ou menos miste-
denzd). Apresentao ou manifestao de um                 riosa chamada intuio permaneceram em toda
objeto qualquer como tal. Era assim que os                 a filosofia moderna; s a filosofia contempor-
antigos entendiam a E., especialmente epi-                nea entendeu retornar ao antigo conceito de E.
curistas e esticos, que a assumiam como cri-             objetiva.
trio de verdade. Os epicuristas identificavam                A crtica da E. como "uma voz mstica que
a E. com a prpria ao dos objetos sobre os              de um mundo melhor nos grite: aqui est a ver-
rgos dos sentidos (DIG. L, X, 52). Os esti-           dade!" foi feita por Husserl, que encontrou para
cos entendiam por E. o apresentar-se ou dar-              a E. a definio de "preenchimento da inten-
se das coisas aos sentidos ou  inteligncia, de          o". Significa que h E. quando a inteno da
tal modo que estas resultem "compreendidas"               conscincia, voltada para um objeto,  preen-
(SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp., II, 7). A represen-          chida pelas determinaes graas s quais o
tao catalptica (v.)  justamente a represen-           objeto se individualiza, se define e finalmente
tao evidente. Desse ponto de vista, a E. no            se apresenta  conscincia em carne e osso
 um fato subjetivo, mas objetivo: no est li-           (Logische Untersuchungen, II,  39; Ideen, I, 
gada  clareza e distino das idias, mas ao              145; Erfahrung und Urteil, p. 12). Portanto, em
apresentar-se e manifestar-se do objeto (qual-            toda a filosofia contempornea que se inspira
quer que seja). Assim, nem mesmo os cticos               na fenomenologia, a E. readquiriu carter obje-
recusam o que se apresenta como evidente,                 tivo, voltando a designar a apresentao ou
embora evitem a assero correspondente (SEX-             manifestao de um objeto como tal, qualquer
TO EMPRICO, Pirr. hyp., II, 10).                         que seja o objeto e quaisquer que sejam os
   Descartes, porm, deu um conceito subjetivo            mtodos com os quais se pretende certificar
de evidncia. A "norma da E.", que ele expe              ou garantir sua presena ou manifestao. Nes-
no Discurso, prescreve "nunca aceitar alguma              se sentido, Scheler falou de "E. preferencial"
coisa como verdadeira a menos que seja reco-              para indicar as inter-relaes hierrquicas e
nhecida evidentemente como tal; isso significa            objetivas dos valores que guiam e sugerem as
evitar diligentemente a precipitao e a preven-          escolhas humanas (Formalismus, p. 87). No
o e s incluir nos juzos o que se apresenta            mesmo sentido, s vezes so qualificadas de
to clara e distintamente ao esprito, que no            evidentes as proposies analticas ou tauto-
haja motivo algum para ser posto em dvida"               lgicas cuja verdade resulta dos seus pr-
(Discours, II). Nessa regra a E. foi reduzida            prios termos, como, p. ex., "O tringulo tem
clareza e distino (v.) das idias, e os proble-         trs lados".
mas correlativos se deslocaram do domnio do                  EVOLUO (in. Evolution- fr. volution, ai.
objeto para o da idia, reapresentando-se nes-            Evolution; it. Evoluzion). Essa palavra ainda
te ltimo como problemas objetivos. O pr-                conserva o sentido genrico de desenvolvimen-
prio Descartes (sobretudo em Regras para a                to(v.), mas, com mais freqncia,  usada para
direo do esprito) vinculara a E.  faculdade           designar uma doutrina particular que se chama
da intuio, no entendendo com essa palavra              "teoria da E.". Ora, por essa expresso podem
o testemunho dos sentidos ou o juzo da imagi-            ser entendidas duas coisas diferentes: Ia teoria
nao, mas "a concepo firme de um esprito              biolgica da transformao das espcies vivas
puro e atento que nasce apenas da luz da ra-              umas nas outras, que  a hiptese fundamental
zo e que, sendo mais simples,  tambm mais              das disciplinas biolgicas de um sculo a esta par-



                                                                                                                 k
EVOLUO                                              393                                       EVOLUO

 te; 2a teoria metafsica do desenvolvimento pro-           formismo biolgico foi Jean-Baptiste Lamarck,
 gressivo do universo em sua totalidade, que               em Philosophie zoologique (1809), para quem
 uma hiptese admitida ou pressuposta por                   todavia a E. dos organismos devia-se s dife-
 muitas doutrinas filosficas modernas e con-               renas neles produzidas pelo maior ou menor
  temporneas. Embora esses dois significados               uso dos rgos, e que depois teriam sido fixa-
 tenham interagido ao longo da histria da filo-            das pela hereditariedade. Sabe-se hoje que as
 sofia,  oportuno mant-los separados. (Para o             mudanas nascidas dos hbitos no podem ser
 segundo v. EVOLUCIONISMO.)                                 herdadas; portanto, o mrito de Lamarck no 
     O termo E. foi introduzido provavelmente               o de ter descoberto o princpio da E., mas o de
  por Spencer no seu ensaio sobre o Progresso,              ter insistido na doutrina geral e em alguns
  de 1857, mas essa palavra, assim como o con-              aspectos importantes dela, como o da adapta-
  ceito, no teriam gozado de tanto sucesso sem             o ao ambiente. Foi s com Origem das esp-
  o xito do transformismo biolgico, que teve              cies (1859), de Charles Darwin, que se iniciou
  incio com Origem das espcies, de Charles                a moderna teoria da E. biolgica. A teoria de
  Darwin (1859). A obra de Darwin era, de um                Darwin admite duas ordens de fatos: l existn-
  certo ponto de vista, mais uma concluso que              cia de pequenas variaes orgnicas que se
  um princpio (o que  demonstrado pelo xito              verificam nos seres vivos em intervalos irregula-
 sem precedente): concluso de um longo tra-                res de tempo e que, pela lei da probabilidade,
 balho de pesquisas e de vrias tentativas de ge-           podem ser vantajosas para os indivduos que as
  neralizao. A doutrina tradicional da imuta-             apresentam; 2- luta pela vida entre os indiv-
  bilidade (ou fixidez) das espcies vivas fora             duos vivos, que se deve  tendncia de cada
  reflexo, no domnio biolgico, da doutrina da             espcie a multiplicar-se segundo uma progres-
  substncia (v.), ou seja, da necessidade da               so geomtrica. Este ltimo pressuposto foi
  estrutura ontolgica do mundo, que prevale-               sugerido a Darwin pela doutrina de Malthus
  cera graas a Aristteles na filosofia e na cin-         (Essay on Population, 1798). Dessas duas or-
  cia antiga e medieval; isso explica por que a             dens de fatos resulta que s indivduos nos
  hiptese de transformao das espcies apre-              quais se manifestem mudanas orgnicas van-
  sentada por Anaximandro (Ps. PLUT., Strom., 2)            tajosas tm maiores probabilidades de sobrevi-
 e por Empdocles (Fr. 56-61, Diels), ainda que             ver na luta pela vida, e, em virtude do princpio
 de forma fantstica, no deixou vestgios. Se-             de hereditariedade, haver neles acentuada
 gundo a metafsica aristotlica, todas as formas           tendncia a deixar os caracteres acidentais
 substanciais so imutveis porque necessrias;             como herana aos seus descendentes. Essa  a
 isso significa que no podem ser criadas nem               lei da seleo natural, que Darwin conside-
destrudas. Como formas substanciais, as esp-              rou o esteio da doutrina da E. (Or. das espcies,
cies vivas compartilham de tais caractersticas.            IV, 18).
Esse princpio aristotlico, cuja nica exceo                Enquanto a doutrina de Darwin sofria, por
a criao de Deus, durante muitos sculos cons-             um lado, os ataques dos partidrios da velha
tituiu o arcabouo da pesquisa filosfica e                 metafsica e, por outro, era estendida e genera-
cientfica. Foi s a partir do incio do sc. XVIII         lizada como teoria da E. csmica, eram apre-
que alguns naturalistas comearam a conside-                sentadas novas hipteses, em conflito com o
rar a possibilidade da transformao das esp-              princpio da seleo natural, que procuravam
cies biolgicas. Buffon admitia essa hiptese,              esclarecer como ocorreria a E. Por um lado, os
mas declarava-se explicitamente partidrio da               neolamarckianos (entre os quais, especialmen-
fixidez das espcies (Histoire naturelle, 1749-             te, o francs Giard [1846-1908] e o americano
1804).  provvel que Kant se tenha inspirado               Cope [1840-97]) insistiam na relao do orga-
nele quando, em 1790, levantou a hiptese de                nismo com o ambiente, atribuindo a essa rela-
"parentesco real" entre as formas vivas, que                o a capacidade de produzir as novidades or-
proviriam de uma "me comum", e de desen-                   gnicas que depois seriam transmitidas por
volvimento contnuo da natureza desde a ne-                 herana. Por outro lado, os neodarwinianos,
bulosa primitiva at os homens (Crt. do Juzo,             que se agruparam especialmente em torno do
 80). Mas essas eram apenas intuies genri-              bilogo alemo Weissmann (1834-1914), insis-
cas, no confirmadas por nenhum sistema                     tiam na importncia da seleo natural como
coordenado de observaes. O primeiro a apre-               nico princpio da evoluo. Ambas essas cor-
sentar cientificamente a doutrina do trans-                 rentes, no esforo de demonstrar suas prprias
EVOLUO                                             394                                      EVOLUO


 teses, produziram fatos e observaes novos            bm  evidente nas outras formas de vita-
 em favor da teoria geral da E., mas pode-se di-        lismo contemporneo. Assim, Driesch recorre
 zer que nenhuma delas logrou demonstrar a               entelquia, velho conceito aristotlico,  qual
 falsidade das teses da outra. Hoje se sabe que         atribui a funo diretiva na construo do orga-
tanto a adaptao ao ambiente (tese dos                 nismo (Philosopbie des Organischen, 1908-09).
 lamarckianos) quanto a seleo natural (tese               Os estudos de gentica (v.) encaminharam a
dos darwinianos) exercem funes importan-              teoria da E. para um terreno positivo de pesqui-
tssimas na E. da vida e que uma coisa no              sas, transformando-a num quadro que abran-
exclui a outra. Nessa incerteza, inseriram-se as       ge os instrumentos e as possveis direes da
novas formas do vitalismo (v.), doutrina que,          pesquisa biolgica e evitando a dogmatizao
considerando que a vida no  explicvel, em           de princpios parcialmente provados, que fora a
princpio, por fatores fsico-qumicos, reconhe-       caracterstica da fase precedente. Os fundamen-
ce como fundamento dela um princpio espiri-           tos da moderna teoria da E. podem ser assim
tual que age de modo finalista. O vitalismo d         resumidos:
nfase quilo que parece ser um dos caracteres              ls Separao da idia de E. da idia de pro-
fundamentais da E. biolgica: o finalismo. Este,       gresso. E. no  necessariamente progresso, e
que est estreitamente vinculado  doutrina da         muito menos progresso unilinear, necessrio e
estrutura substancial do mundo, ou seja,  me-         constante. Seja qual for o critrio escolhido
tafsica aristotlica,  a parte dessa metafsica      para julgar o curso da E., ver-se- que a histria
que mais resiste  morte. Como j notava Kant,         da vida oferece exemplos no s de progres-
seu campo privilegiado  o dos fenmenos vi-           sos, em relao a esse critrio, mas tambm de
tais. Esses fenmenos no parecem ocorrer por          retrocessos e degeneraes. Huxley sugeriu
acaso. Ainda que De Vries tenha observado              como critrio objetivo de progresso o da domi-
o sbito e casual surgimento de novas varie-           nao sucessiva de um grupo biolgico: critrio
dades de plantas e tenha assumido esse fato            que levaria a constituir uma sucesso de ida-
como base real da E. {Teoria das mutaes,             des: "Idade dos invertebrados", "Idade dos pei-
1901), sempre pareceu difcil defender o ca-           xes", "Idade dos anfbios", "Idade dos rpteis",
rter casual e arbitrrio de todo o processo           "Idade dos mamferos" e "Idade do homem"
evolutivo. Foi graas a essa dificuldade que as        (E., The Modem Synthesis, 1942). Mas tambm
teorias vitalistas ganharam fora. A mais famosa       essa sucesso de idades tampouco  objetiva,
delas, no mundo contemporneo,  a de Berg-            porque obviamente  sugerida pelo critrio de
son, que atribui a E. ao lan vital, isto , a uma     aproximao ao homem. Podem ser definidas
grande corrente de conscincia que  lanada           outras linhas de progresso com base na expan-
na matria e tende a domin-la, tendo mais su-         so vital ou na adaptao ao ambiente, critrios
cesso numa direo, menos em outra, e pro-             que sugerem a organizao das espcies ani-
gredindo sobretudo nas duas direes fun-              mais segundo o grau de sucesso na realizao
damentais: do instinto nos artrpodes e da in-         de alguma dessas duas coisas. Outro critrio
teligncia no homem (vol. cratr., 1907).             que os bilogos utilizam com freqncia  a
Mas, mesmo rejeitando a idia de um plano to-          chamada lei de Willinston, segundo a qual "o
tal previamente disposto ou predeterminado             nmero de partes de um organismo tende a
(que, segundo Bergson, seria "um mecanicis-            reduzir-se e sua funo tende a especializar-
mo s avessas"), a teoria bergsoniana da E.            se", ou seja, h uma tendncia  simplificao
ainda  finalista e passvel das mesmas obje-          mais do que  complicao. Outros indicam
es que Bergson faz ao vitalismo: assumir             como critrio a energia geral do organismo ou
como princpio de explicao a ignorncia da           o nvel do processo vital (SEWERTZOFF, Mor-
explicao. Como observou Huxley, atribuir a           phologische Gesetzmassigleeiten der E., 1931).
E. a um lan vital explica a histria da vida tan-     Cada um desses critrios leva a organizar as
to quanto atribuir o movimento de uma mquina          espcies vivas ou seus maiores grupos de um
a vapor a um lan locomotif explica o fun-             modo que coincide apenas parcial e ocasional-
cionamento dessa mquina. O recurso a um               mente com a organizao resultante dos ou-
termo metafsico, que s faz cobrir uma zona           tros critrios.
de ignorncia, mascarando-a como saber e,
portanto, afastando ou desencorajando a                       2Q Exigncia de que os fatores invocados pa-
pesquisa positiva tendente a diminu-la, tam-              ra explicar a E. no s expliquem o que ocorre
                                                           segundo um plano na organizao da vida, mas
EVOLUO                                              395                                EVOLUCIONISMO

tambm o que ocorre por acaso; no s a                     no parece que todos tenham sido ainda ocu-
adaptao, mas tambm a falta de adaptao;                 pados. Os ictiossauros foram extintos muitos
no s os aspectos favorveis e progressistas               milhes de anos antes que os delfins e seus
das transformaes vitais, mas tambm os des-               parentes aproveitassem essa oportunidade.
favorveis e negativos. A primeira conseqn-               No h razo evidente para que o modo de
cia desse ponto de vista  o reconhecimento de              vida dos amonites, outrora to numerosos, no
que  intil e cientificamente ilegtimo privile-           possa ser agora adotado por grupos igualmen-
giar um fator evolutivo (p. ex., a seleo natu-            te abundantes, mas que seriam procurados em
ral) e consider-lo nico e fundamental, como               vo nos mares de hoje. Extinguiram-se muitos
fizeram os neodarwinistas. A segunda conse-                 tipos que deixaram aberto um modo de vida,
qncia  o abandono completo do ponto de                   uma oportunidade que no foi imediatamente
vista finalista, que exige a presena de um ob-             aproveitada porque nenhum outro grupo tem
jetivo final na E. (cf., p. ex., B. S. HALDANE, The         base estrutural ou reserva de mutaes apro-
Causes ofE., 1932).                                         priadas para a mudana" (Ibd., pp. 185-86).
    3a Eliminao de qualquer preconceito ne-               Todavia, o nmero altssimo das possibilidades
cessitarista na considerao do ciclo vital das             utilizadas explica os produtos mais felizes e
espcies biolgicas: nascimento, desenvolvi-                complexos da E.: p. ex., entre as inmeras so-
mento e morte no obedecem a esquemas                       lues para o problema da fotorrecepo, so
preestabelecidos e muito menos tm como mo-                 duas as melhores: o olho do polvo (que  um
delo o ciclo de cada organismo. Normalmente,                molusco) e o do homem. Mas os outros tam-
um tipo de organizao persiste enquanto as                 bm funcionam muito bem em seu prprio
suas relaes de adaptao ao ambiente conti-               nvel. Isso demonstra que a complexidade
nuam sendo possveis. s vezes, a prpria es-               de um rgo no foi projetada antecipada-
pecificidade da adaptao produz a extino,                mente como um plano a ser realizado, mas 
pois torna o organismo incapaz de enfrentar as              produto da explorao de possibilidades favo-
mudanas de maior magnitude no ambien-                      rveis que se apresentaram.
te. Nesse caso, obviamente, a extino do gru-                  5S As caractersticas especficas dos fenme-
po  provocada pela prpria tendncia  adap-               nos vitais no so ignoradas nem negligencia-
tao, que  um fator de sobrevivncia.                     das pela teoria da E., mas no so assumidas
    4e Finalmente -- e  a caracterstica mais              como fundamento para afirmar a tese da
importante da teoria geral da E. --, o uso da               "irredutibilidade" ou da "originalidade" da vida.
noo de possibilidade permite evitar as dog-               Tal tese, com efeito, desaconselharia a conti-
matizaes apresentadas pelas alternativas:                 nuar submetendo os fenmenos da vida aos
ordem-desordem, fim-acaso e assim por dian-                 instrumentos objetivos de investigao de que
te. A vida tende a explorar as possibilidades               a cincia dispe e, por conseguinte, deteria a
que lhe so oferecidas. Alguns cientistas consi-            pesquisa biolgica. Esta, para tanto, utiliza os
deraram o aumento da soma total de matria                  instrumentos  sua disposio e s considera
viva no mundo como a principal lei da E. (A. J.             "explicado" aquilo a que pode chegar com a
LOTKA, em Human Biology, 1945, pp. 167 ss.).                ajuda desses instrumentos. Trata-se de um ma-
Isso quer dizer que a vida parece apegar-se a               terialismo metdico que pouco ou nada tem a
todas as possibilidades disponveis. Quanto a               ver com o materialismo doutrinai do sc. XIX
esse aspecto, Simpson fala da "natureza essen-              (v. VIDA; VlTALISMO).
cialmente oportunista do processo da E." {The                  EVOLUCIONISMO (in. Evolutionism; fr.
Meaning ofEvolution, 1949, cap. 12). Todavia,               volutionnisme, ai. Evolutionismus; it. Evolu-
nem na explorao das oportunidades que se                  zionism). Por esse termo no se deve enten-
lhe oferecem esse processo aparece perfeita-                der a teoria geral da evoluo, como quadro
mente sistemtico. Oportunidades evidentes                  fundamental das pesquisas biolgicas (v. Evo-
no foram aproveitadas e os intervalos entre                LUO), mas o conjunto de doutrinas filosficas
as espcies vivas nem sempre foram preen-                   que vem na evoluo a caracterstica funda-
chidos. "A regra de que todas as oportunidades              mental de todos tipos ou formas de realidade
da vida tendem a ser utilizadas no deixa de                e, por isso, o princpio adequado para explicar
ter excees. A extino dos dinossauros pre-               a realidade em seu conjunto. Em outros termos,
cedeu de muito  preocupao de muitos dos                  o E.  uma doutrina metafsica que se refere 
seus modos de vida por parte dos mamferos e                realidade como um todo e que, embora se va-
EVOLUCIONISMO                                         396                                  EVOLUCIONISMO


lha das hipteses e dos resultados da teoria                 o desenvolvimento psquico e no o biolgi-
biolgica da evoluo, sua tese vai muito alm               co, as caractersticas formais da evoluo
de tudo o que qualquer possvel teoria cientfi-             no mudam: ela continua sendo apenas pro-
ca possa legitimamente atestar. Nesse sentido,               gresso universal necessrio. O maior repre-
o E. foi assumido como esquema fundamental                  sentante do E. materialista foi o bilogo ale-
de muitas metafsicas, tanto materialistas quan-            mo Ernst Haeckel. Sua obra Enigmas do
to espiritualistas. A caracterstica fundamen-               mundo (1899), nos primeiros decnios do
tal que essas metafsicas distinguem na evolu-              sc. XX, foi o catecismo desse materialismo,
o  o progresso. Para elas, evoluo significa            que via em todas as formas da realidade graus
essencialmente progresso. Certamente essa foi                de evoluo da matria, organizados de modo
a viso de Spencer, que deu incio  srie de                progressista. Por outro lado, o E. espiritualista,
metafsicas evolucionistas com um ensaio pu-                 que v nas vrias formas da realidade graus de
blicado em 1857 e intitulado Progresso. Se-                  desenvolvimento de um princpio espiritual, teve
gundo Spencer, o progresso reveste todos os                  incio com Wilhelm Wundt, que reconheceu
aspectos da realidade. No ensaio citado, escre-              esse princpio espiritual na vontade (System der
ve "Quer se trate do desenvolvimento da Ter-                 Phil, 1889). Pensamento anlogo inspirava a
ra, quer se trate do desenvolvimento da vida                 obra do francs Alfred Fouille, que via na idia-
sobre sua superfcie, do desenvolvimento da                 fora o substrato da evoluo (L'. des ides-
sociedade, do governo, da indstria, do comr-              forces, 1890). Mas sem dvida a mais notvel
cio, da lngua, da literatura, da cincia, da arte,          manifestao do E. espiritualista  a doutrina
no fundo de todo progresso est sempre a                     de Bergson, que viu na evoluo o produto de
mesma evoluo que vai do simples ao com-                    um el vital, que  conscincia, liberdade e
plexo, atravs de diferenciaes sucessivas."                criao (vol. cratr., 1907). Em sentido anlo-
Nos Primeiros princpios, Spencer definia as-                go, C. Lloyd Morgan falou de Evoluo emer-
sim a evoluo: " uma integrao de matria                gente (1923), entendendo que as fases da evo-
e a dissipao concomitante de movimento,                    luo no so simples resultantes mecnicas
durante a qual a matria passa da homo-                      das fases precedentes, mas contm um ele-
geneidade indefinida e incoerente  heteroge-                mento novo que denuncia o carter progres-
neidade definida e coerente, e o movimento                   sista e criativo da evoluo.
conservado sofre transformao paralela" (First                  Mas o conceito de evoluo como progresso
Principies,  145). Essa determinao da evolu-              constitui ainda o fundo ou o pressuposto de
o como passagem do homogneo indi-                         outras doutrinas que, no entanto, no tomam a
ferenciado para o heterogneo diferenciado                   evoluo por tema fundamental das suas elabo-
sem dvida era sugerida a Spencer pela evolu-                raes. Assim a noo de evoluo emergente 
o biolgica, que parece ir da ameba aos                    assumida por Alexander em seu livro Espao,
organismos superiores. Segundo Spencer, o                    tempo e deidade (1920) para explicar o desen-
sentido geral da evoluo  otimista. A evolu-              volvimento global da realidade, cuja substncia
 o  progresso e, ademais, progresso necess-              seriam espao e tempo (que esto entre si como
 rio, que, no que se refere ao homem, s ter-                matria e esprito). Outrossim, o conceito de
 minar com "a mxima perfeio e a mais com-                processo, considerado fundamental por White-
 pleta felicidade" (Ibid,  176). Ao contrrio do            head (Process and Reality, 1929), outra coisa
 que ocorreu na teoria da evoluo biolgi-                  no  seno o mesmo conceito de evoluo
 ca, que logo desvinculou a noo de evolu-                  contaminado pelo conceito hegeliano de de-
 o da de progresso, no E. filosfico o senti-             vir, ao mesmo tempo que a evoluo em sen-
 do otimista e necessarista da noo de progres-             tido naturalista fundamenta toda a obra de
 so continua constituindo por muito tempo a                  Santayana (cf. especialmente o Realm ofMind,
 caracterstica fundamental da evoluo. O E.                1940). Essas citaes devem ser consideradas
 materialista e o E. espiritualista tm isso em              apenas exemplos da vastssima difuso do E. na
 comum.                                                      filosofia contempornea, e portanto em todas as
   Nenhuma dessas correntes chega a reela-                   formas da vida intelectual. A crena de que a
borar o conceito em exame. Quando Ardig                     realidade  um processo nico, contnuo e ne-
define a evoluo como "a passagem do in-                    cessariamente progressista est nas entrelinhas
distinto ao distinto" (Opere, 1884, II, p. 350),             de doutrinas filosficas dspares e influenciou
assumindo portanto como modelo evolutivo                     poderosamente a postura de certas pesquisas
EXATO                                                 397                               EXEMPUFICAO

histricas, sociolgicas, morais, etc. Essa crena,         Esse foi um tema introduzido por Kierkegaard
porm, no  corroborada por nada, e no nico               e por Nietzsche; em Temor e tremor, o primei-
domnio em que a teoria da evoluo  corrobo-              ro insistiu no carter de "E. justificada" que o
rada por provas de fato, o biolgico, a evoluo            eleito de Deus representa em relao  lei mo-
perdeu justamente os caracteres que os filsofos            ral (como  o caso de Abrao); o segundo
mais demonstraram apreciar: unidade, continui-              insistiu no carter de excepcionalidade do
dade, necessidade e progresso. Nenhum desses                super-homem, a quem a "vontade de potncia"
caracteres  hoje aceito no contexto da evolu-              confere um destino que foge a qualquer regra.
o biolgica. Portanto, a hiptese de que a rea-           Dos existencialistas, foi Jaspers quem insistiu
lidade constitui um processo integrado por                  na "excepcionalidade da existncia", que  sem-
esses caracteres no  confirmada pelos conhe-              pre individual, singular, inconfundvel e, por
cimentos cientficos e deve ser considerada sim-            isso, no pode tornar-se objetiva e submeter-
ples hiptese metafsica, no possvel de verifi-           se a limites ou normas (PM., II, 1932, p. 360).
cao, ainda que indireta. No entanto, essa                    2. Em significado lgico, v. QUANTIFICAO
hiptese continua a gozar de certo prestgio jun-           DO PREDICADO.
to a cientistas-filsofos. Assim, Teilhard de Char-
din reconheceu na evoluo o postulado geral                    EXCEPTIVA, PROPOSIO (fr Propo-
ao qual devem adequar-se teorias, hipteses ou              sition exceptive, it. Proposizione eccettuativa).
sistemas; conseqentemente, considerou a evo-               A Lgica de Port-Royal deu esse nome  propo-
luo da substncia viva espalhada pela terra               sio "que afirma uma coisa sobre um sujeito,
como a de um nico organismo gigantesco. O                  salvo de uma parte dele"; p. ex.: "Segundo os
termo final da evoluo seria um "Ponto Ome-                esticos, todos os homens so loucos, salvo os
ga", uma "Superconscincia Universal" formada               sbios" (ARNAULD, Log,, II, 10, 2).
pela pluralidade unificada de pensamentos                       EXCLUSIVA, PROPOSIO (fr Proposi-
individuais que se combinam e reforam no                   tion exclusive). A Lgica de Port-Royal deu esse
ato do Pensamento unnime (Le phenomne                     nome  proposio que afirma que um atri-
humain, 1955). Em especulaes semelhantes                 buto convm a um e a um s sujeito; p. ex. "A
evidente o carter metafsico da evoluo                   virtude  a nica nobreza" (ARNAULD, Log., II,
                                                            10, 1).
    EXATO (in. Exact; fr. Exact; ai. Exakt; it.
Esatt). Assim  qualificado o procedimento                     EXEMPLAR (in. Exemplary, fr. Exemplaire,
(ou operao) no qual se reduza ao mnimo a                 ai. Exemplarisch; it. Esemplar). O que funcio-
probabilidade ou margem de erro que a situa-                na como modelo ou arqutipo, no sentido de
o comporta. Nesse sentido, diz-se que  E.                ser objeto de imitao e, portanto, causa formal
a medida que tem um grau suficiente de                      ou ideal daquilo que a imitao produz. Algu-
aproximao (isto , um mnimo de erro) ou                  mas vezes as idias de Plato foram chamadas
uma previso que tenha sido suficientemente                 de causas exemplares, pela forma de causalida-
verificada pelos fatos. Em geral, a exatido nes-           de que lhes  atribuda enquanto modelos.
 se sentido  garantida pela observncia das                Kant observou que alguns produtos do gosto
 normas tcnicas que orientam o uso dos proce-              valem como exemplares. "Por a se v que o
 dimentos vlidos em dado campo: assim, diz-se              modelo supremo, o prottipo do gosto,  uma
 que  E. todo procedimento realizado em                    simples idia que cada um deve extrair de si
 conformidade com sua prpria tcnica. As                   mesmo e segundo a qual deve julgar tudo o
 cincias "E." so as que se valem exclusiva-               que  objeto de gosto" (Crit. do Juzo, % 17).
 mente de tais procedimentos.                                   EXEMPLARISMO (in. Exemplarism- fr.
    EXCEO (in. Exception; fr. Exception; ai.              Exemplarisme, ai. Exemplarismus; it. Esem-
 Ausnahme, it. Eccezion). 1. Apesar de se en-              plarism). Doutrina segundo a qual as coisas e
 contrarem na Antigidade alguns vestgios de               os seres do mundo so imagens ou cpias de
 uma tica da E., como a expressa por Clicles              exemplares ou arqutipos que constituem o
 em Grgas e por Trasmaco em A Repblica                  "mundo inteligvel" ou que subsistem na mente
 de Plato, ou seja, de uma tica que no vale              divina.  uma doutrina que se acha no pla-
 para "a maioria" (oi polloi),  s na filosofia            tonismo, no neoplatonismo, em S. Agostinho e
 contempornea que o carter da "excepcio-                  na Escolstica.
 nalidade" assume no s importncia moral ou                   EXEMPLIFICAO (in. Exemplification;
 religiosa, mas tambm ontolgica e metafsica.             ai. Exemplifizierung; it. Esemplificazion). Em
EXEMPLO                                                 398                                       EXISTNCIA


geral, a referncia de um objeto qualquer a um                construdos. Em um sentido ou em outro, po-
conceito (significado, essncia, classe, etc).                rm, o conceito de E.  definido com preciso
   EXEMPLO (in. Example, fr. Exemple, ai                      em matemtica e no se fala de E. em sentido
Beispiel; it. Esempi). Em Aristteles, o Tiocp-             diferente, nessa disciplina. Por outro lado,  f-
Seryjia  uma induo aparente ou retrica, que               cil ver que esse mesmo conceito de E. no tem
parte de um enunciado particular e passa por                  sentido fora da matemtica e, portanto, no
um enunciado geral em que a primeira premissa                 pode ser estendido a campos diferentes. Se
 generalizada. Na Lgica medieval, por simetria              passarmos da matemtica  fsica logo veremos
com o entimema (v.), "E." foi usado para de-                  que a E. dos entes de que ela fala  sempre im-
signar uma generalizao indutiva que parte                   plicitamente definida pelas operaes de medi-
do particular e termina no particular, omitindo               da ou verificao que servem para estabelecer
a premissa universal.                                         a observao desses entes. Analogamente, ain-
   EXISTNCIA (gr. T vnp%iv; lat. Existen-                 da, a E. de que se pode falar no domnio da l-
tia; in. Existence-, fr. Existence, ai. Existenz; it.         gica  a definida pelas operaes a que o
Esistenzd). Em geral, qualquer delimitao ou                 objeto lgico pode ser submetido e se reduz,
definio do ser, ou seja, um modo de ser de                  em ltima anlise,  ausncia de contradio.
algum modo delimitado e definido. Este, que                  As chamadas cincias "morais" tambm se fun-
o significado mais geral, tambm pode ser con-                dam em definies implcitas ou explcitas da
siderado um dos significados particulares do                  E. Em direito, uma lei "existe" se foi formulada,
termo, do qual  possvel, ento, enunciar trs               aprovada e promulgada nos modos e nas for-
significados: 1Q o modo de ser determinado ou                 mas previstos na Constituio do Estado. E um
determinvel; 2S o modo de ser real ou de fato;               fato existe do ponto de vista jurdico se pode
39 o modo de ser prprio do homem.                            ser "provado" nas formas ou nos modos de lei,
    1Q Como modo de ser determinado ou defi-                  e qualificado em conformidade com as prprias
nido de certo modo, esse termo costuma ser                    leis. De forma semelhante, em economia, a E.
usado na linguagem comum e nas diversas lin-                  de um evento consiste na possibilidade de ele
guagens cientficas. Fala-se, com efeito, da E.               ser observado como uniformidade estatstica
de entes matemticos e h, em matemtica,                     ou quase estatstica. Em geral, toda cincia ou
um "teorema de E.". Analogamente, fala-se de                  disciplina define de algum modo, explcita ou
E. "lgica" ou "conceituai" ou ainda de E. "fants-           implicitamente, o significado a ser dado  pala-
tica", do mesmo modo que os escolsticos                      vra "existncia" em seu mbito.
falavam da E. "no intelecto" ou da E. "na rea-                    Carnap distinguiu o problema interno da E.
lidade"; fala-se tambm de E. "em si" (da subs-               (interno a determinado campo, p. ex.,  mate-
tncia) ou de E. "em outra coisa" (das qualida-               mtica,  fsica ou  lgica) e o problema exter-
des ou acidentes da substncia). Todos esses                  no da mesma E. O problema interno sempre
casos s no tm em comum certa delimitao                   pode ser resolvido empiricamente (quando se
do significado de ser que, nas cincias exatas,               refere  realidade de fato) ou logicamente,
baseia-se em definies precisas. Assim, no                   quando se refere a proposies analticas. O
campo da matemtica, a partir de Hilbert, E.                 problema externo , ao contrrio, o que se
entendida como ausncia de contradio;                       refere  "E. ou realidade do sistema total das
quando se afirma que a soluo de um proble-                  entidades". Assim, p. ex., existir ou no dado
ma existe, pretende-se dizer simplesmente que                 nmero primo  um problema interno da arit-
nenhuma contradio impede admitir a E. da                    mtica. Mas se existe ou no o sistema dos n-
soluo. Um teorema de E.  a prova rigorosa                  meros ou qual  a realidade dos nmeros em
de que a soluo existe (nesse sentido), mes-                 seu conjunto so problemas externos que
mo que ainda no tenha sido descoberta.                       no tm resposta, sendo, por isso, pseudo-
Esse , pelo menos, o critrio ao qual conti-                 problemas, semelhantes ao da realidade do
nua ligada certa escola de matemticos con-                   mundo externo ou  disputa entre nomina-
temporneos, a dos formalistas, encabeados                   lismo e realismo, que o Crculo de Viena j de-
por Hilbert. A outra escola, a dos intuicionistas,            clarara desprovidos de sentido (Meaning and
que tem  frente Brouwer e Heyting, assume                    Necessity, A 3). O carter inevitvel do compro-
como critrio de E. em matemtica a possibili-                misso ontolgico, ou seja, da deciso acerca do
dade da construo e julga que no se pode fa-                significado ou dos significados que devem ser
lar de entes matemticos que no possam ser                   atribudos  E. nos diferentes campos de inda-
EXISTNCIA                                             399                                       EXISTNCIA

gao, foi evidenciado por Quine, que tambm                 que introduz a distino entre esse essentiae e
ressaltou o fato de esse compromisso ontol-                 esse existentiae. O ser da essncia  o grau ou
gico no ser meramente lingstico, mas se                   modo de ser que cabe  essncia como tal,
assemelhar  aceitao de uma teoria cientfica              independentemente do ser da E.; o ser da E. 
(Fmm a Logical Point ofView, 1). A exigncia                 a realidade efetiva que pode sobrevir ou no
desse compromisso obviamente  maior no do-                  ao ser da essncia. Uso anlogo dessa palavra
mnio da pesquisa cientfica. A linguagem co-                encontra-se em Spinoza {Et., 1,7), e em Leibniz
mum  muito menos precisa ao definir o modo                  (Nouv. ess., II, 7), alm de Locke, que, para
de ser dos objetos aos quais atribui alguma                  evitar equvocos, fala de "E. real" {Ensaio, II, 3,
espcie de existncia. Seria por certo embara-               21). E. tambm  realidade para Berkeley
oso explicar com preciso o que se pretende                 (.Principies of Knowledge, 3) e Hume ( Treatise,
dizer quando se afirma, p. ex., que o objeto x               I, 3, 7). Justamente por considerar a E. como
tem E. "puramente fantstica" ou "puramente                  realidade de fato, Kant nega que ela possa ser
ideal", assim como  difcil dizer que tipo de E.            reduzida a um predicado conceituai (Crt. R.
cabe a um valor qualquer, como, p. ex.,  bele-              Pura, Analtica, II, cap. 2, se. 3, 4). Na filoso-
za. Mas o que interessa aqui destacar  que,                 fia contempornea, a palavra  usada no mes-
mesmo quando falta determinao precisa, co-                 mo sentido. Quando Dewey define a metafsica
mo muitas vezes ocorre na linguagem comum,                   como "conhecimento das caractersticas gen-
sempre est presente no uso da palavra "E." a                ricas da E." e fala da pretenso dos filsofos "de
referncia a uma esfera limitada do ser ou                  lidar com o conhecimento da E. e no com a
possibilidade de delimit-la. Em geral, pode-                imaginao", entende por esse termo a realidade
mos dizer: d) a palavra "E." possui significado              de fato, independentemente do embelezamento
prprio no mbito de cada disciplina, que  ex-              e da deformao que ela sofre na descrio
plicitamente expresso ou implicitamente defini-              dos filsofos {Experience and Nature, cap. II).
do pelas operaes ou pelos procedimentos                    Para mais detalhes sobre esse significado, v.
peculiares  disciplina; b) tal significado em               SER; FATO; REALIDADE.     .
geral s  vlido no mbito a que se estendem                    3Q O terceiro significado especfico desse
os instrumentos ou procedimentos da discipli-                termo  o que restringe ao modo de ser do
na, ou seja, no campo especfico dos objetos                 homem no mundo. Esse significado encontra-
dessa disciplina, mas no tem significado fora               se no existencialismo (v.) como filosofia, cujo
desse campo e no pode ser estendido a cam-                  tema  a anlise desse modo de ser. J nos s-
pos diferentes, que no tenham relaes defi-                culos XVIII e XIX a alguns filsofos ocorreu
nveis com o campo em questo.                               insistir no significado especfico da E. como
    2a O significado de E. como E. de fato, vale             modo de ser das criaturas finitas, dos entes
dizer, aquilo que na realidade  ou subsiste,  o            criados. Vio observou que Descartes no de-
mais freqente na histria da filosofia. Aristteles         veria ter dito "Penso, logo sou", mas "Penso,
usava essa palavra com esse sentido ao dizer:                logo existo"; a E.  o modo de ser prprio da
"A cincia d a razo de ser tanto de uma coisa              criatura, porquanto significa estar embaixo ou
quanto da sua privao, embora de modo dife-                 em cima, e supe substncia, ou seja, o Ser di-
rente; a razo de ser  de ambas as coisas, mas              vino que a sustem e a cria (Prima Risp. ai
especialmente daquilo que existe" (Met., IX, 2,              Giorn. dei Lett.,  3). Essa distino foi aceita e
1046 b 6; cf. De cael., II, 14, 247 b 22).                   adotada por Gioberti (Intr. allostudio delia fil.,
Do mesmo modo, a palavra  usada por S. To-                  1840, II, cap. 4), mas no era suficiente para
ms com o fim de definir a subsistncia (subsis-             fazer da E. o tema de uma nova especulao.
tenti) prpria da substncia, porquanto esta                Outro passo nessa direo pode ser visto na
"existe no em outra coisa, mas em si mesma"                 chamada "filosofia da f" de Hamann e Jacobi,
(5. Th., I, q. 29, a. 2), ou de definir "o que              que insistiu na irredutibilidade da E.  razo.
existente por si", quer dizer, o que  real sem              Para Jacobi, a filosofia de Spinoza era o protti-
ser qualidade ou acidente de outro real (Ibid.,              po de toda filosofia que identifica E. com razo
I, q. 75, a. 2), Obviamente, para S. Toms, mes-             e, portanto, no deixa lugar  f. Contra Spi-
mo aquilo que no  "por si" pode ser conside-               noza, recorre a Hume, que identificou a E. com
rado existente, como p. ex. um acidente real.                a f, ou melhor, com a crena (Hume, berden
A esfera da E. como realidade de fato  defini-              Glauben, 1787). Schelling aderiu a essa tese na
da mais explicitamente por Henrique de Gand,                 ltima fase de sua filosofia, que ele chamou de
EXISTNCIA                                               400                                       EXISTNCIA


filosofia positiva e exps nas obras intituladas               E., que so a angstia, como relacionamento
Filosofia da mitologia e Filosofia da revelao.               do homem com o mundo, desesperao, como
Para Schelling, a razo s consegue determinar                 relacionamento do homem consigo mesmo, e
as condies negativas da E., as condies que                 paradoxo, como relacionamento do homem
determinam o modo em que a E. deve ser pen-                    com Deus (v. EXISTENCIALISMO).
sada, dado que o seja. Mas a condio positiva,                    Com isso, so estabelecidas as caractersticas
graas  qual o ser existe, extrapola a filosofia              da noo de E., no significado em que geral-
negativa ou racional porque  criao, vontade                 mente  empregada pela corrente existen-
de Deus de revelar-se; s essa diz respeito ao                 cialista da filosofia contempornea. A E. : 1Q) o
quodsit,  E. ( Werke, II, III, pp. 57 ss.). A polmi-         modo de ser prprio do homem; 2e) o relacio-
ca de Schelling dirigia-se contra Hegel, assim                 namento do homem consigo mesmo e com o
como a de Jacobi visava a Spinoza. Mas mesmo                   outro (mundo e Deus); 3S) relacionamento que
nessas polmicas a E., conquanto no fosse                     se resolve em termos de possibilidade. Essas
considerada solvel pela razo ou pelo conceito,               caractersticas constituem a inspirao funda-
no  identificada com o modo de ser espe-                     mental e comum das teorias da E. na filosofia
cfico do homem e prpria dele apenas. Esse                    contempornea. Em virtude da segunda delas,
passo foi dado por Kierkegaard, que tambm                     diz-se que a E.  um modo de ser em situao,
preparou o instrumento fundamental para a                      entendendo-se por situao o conjunto de rela-
anlise da E.: o conceito de possibilidade. Kier-              es analisveis que vinculam o homem s coi-
kegaard remete-se explicitamente  polmica,                   sas do mundo e aos outros homens. Na filosofia
a que j aludimos, contra a reduo de E. a                    contempornea, foi Heidegger o primeiro a for-
conceito: "A E. corresponde  realidade indi-                  mular uma anlise da E. com bases nessas ca-
vidual, ao indivduo (o que Aristteles j ensi-               ractersticas. Em primeiro lugar, ele restringiu
nou); est fora do conceito, que, de qualquer                  rigorosamente o significado de E. ao modo de
forma, no coincide com ela. Para um animal,                   ser do homem, empregando, para indicar o ser
uma planta, um homem, a E. (ser ou no ser)                    dos outros entes finitos, o termo "presena"
 algo de muito decisivo; o indivduo por certo                (Vorbandenheif): "A natureza do Ser-a con-
no tem uma E. conceituai" {Dirio, X2, A                      siste na sua E. As caractersticas que podem
328). Mas a E. como individualidade  apenas a                 ser extradas desse ente nada tm a ver por-
E. humana. No mundo animal,  mais impor-                      tanto com as 'propriedades' de um ente pre-
tante a espcie do que o indivduo; no mundo                   sente 'que tem este ou aquele aspecto', mas
humano o indivduo no pode ser sacrificado                    so sempre e somente possveis modos de ser.
 espcie. Nesse sentido, a singularidade da E.                Toda modalidade de ser desse ente  primor-
torna-a o modo de ser fundamental do homem.                    dialmente ser. Por isso, o termo Ser-a [Dasein],
Tal modo de ser foi analisado por Kierkegaard                  pelo qual indicamos tal ente, exprime o ser, e
no seu trplice aspecto de relacionar-se com o                 no a qididade, como ocorre quando se diz
mundo, consigo mesmo e com Deus. Mas nes-                      po, casa, rvore" (Sein und Zeit,  9). Heidegger
ses trs aspectos o relacionar-se nada tem de                  afirmava com igual clareza a resolubilidade da
necessrio:  instvel e precrio. Em todo caso,               E., assim entendida em suas possibilidades. "O
no  constitudo por laos fortes e imutveis,                Ser-a", diz ele, " sempre a sua possibilidade,
mas por simples possibilidades que at podem                   e ele no a tem' do mesmo modo como um
ser perdidas. Aos olhos de Kierkegaard, portan-                ente presente [isto , uma coisa] possui uma
to, a E. como modo de ser constitudo pelas                    propriedade. Por ser essencialmente possibili-
relaes do homem consigo mesmo, com o                         dade, o Ser-a pode, em sendo, 'escolher-se' e
mundo e com Deus  analisvel em um con-                       conquistar-se, ou ento perder-se, ou seja, no
junto de possibilidades cujo carter  justa-                  se conquistar, ou s se conquistar aparente-
mente no possuir, por si mesmo, nenhuma                       mente. Ele s pode perder-se ou no se ter
garantia de realizao. Certamente Deus pode                   ainda conquistado porque, em seu modo de
conferir segurana e infalibilidade a tais possibi-            ser, comporta uma possibilidade de autentici-
lidades (porque para Ele "tudo  possvel"),                   dade, ou seja, de apropriar-se de si mesmo"
mas at mesmo o relacionar-se do homem com                     (Ibid.,  9). Da natureza possvel da E. deriva,
Deus  apenas possvel, e no necessrio. Des-                 portanto, para a E. a alternativa entre o modo
sa interpretao da E. em termos de possibili-                 de ser inautntico, que  o da E. cotidiana e
dade nascem as caractersticas fundamentais da                 impessoal, dominada pela tagarelice, pela
    EXISTNCIA                                          401                                        EXISTNCIA

    curiosidade e pelo equvoco (v.), e a E. autnti-         las relaes consigo mesma e com a Transcen-
    ca, que  a de quem reconhece e escolhe a                 dncia (Phil., I, p. 13). Mas so as relaes
    possibilidade mais prpria do seu ser. Essa pos-          com a Transcendncia que dominam a E. na
    sibilidade prpria  a da morte: essa concluso           filosofia de Jaspers: as relaes do homem con-
    constitui a caracterstica da filosofia de Hei-           sigo mesmo e com o mundo so consideradas
    degger (v. EXISTENCIALISMO). Mas as anlises de           apenas formas imperfeitas, aproximadas e, em
    Heidegger evidenciaram algumas caracters-                ltima anlise, ilusrias e desastrosas do relacio-
    ticas da E. que se mostraram vlidas para                 namento do homem com a Transcendncia.
    compreend-la e interpret-la, mesmo fora dos             Mas o relacionamento com a Transcendncia no
    compromissos ontolgicos ou metafsicos de                se inclui entre as possibilidades humanas: des-
    que partiam aquelas anlises. A E. como possi-            se modo, essas possibilidades so examinadas
    bilidade  transcendncia para o mundo e,                 e avaliadas com base naquilo que, para o ho-
    como tal,  ato de projetar. Mas o ato de proje-          mem,  uma impossibilidade efetiva e supre-
    tar , ao mesmo tempo, incluso do ser-a pro-            ma (Jbid., III, pp, 4 ss.). Possibilidade, transcen-
    jetante no mundo e sua submisso s condi-                dncia, projeto so tambm os termos com que
    es do mundo. "O projeto de possibilidades,              a E.  analisada por Sartre, que, romanticamen-
    em conformidade com sua essncia, vai fican-              te, v nela a aspirao para o infinito, definindo
    do cada vez mais rico do que a posse em que o             o homem como 'o ser que projeta ser Deus"
    projetante se achava anteriormente. Mas seme-             (.Etreetlenant, 1943, p. 653). Embora a possibili-
    lhante posse s pode pertencer ao ser-a por-             dade existencial tenha sido o tema dominante
    que este, enquanto projetante, sente-se imerso            do existencialismo contemporneo, com muita
    no meio do ente. Mas, com isso, e em conse-               freqncia suas caractersticas especficas foram
    qncia de sua efetividade, o ser-a j perde             esquecidas ou negadas. Tais caractersticas po-
    outras possibilidades. Mas  justamente essa              dem ser assim expostas: Y- Uma possibilidade
    perda de determinadas possibilidades do po-               sempre tem dois aspectos inseparveis, em vir-
    der-ser-no-mundo, implcita na incluso no                tude dos quais , simultaneamente, possibilida-
    ente, que pe adiante do ser-a com seu mun-              de-de-sim e possibidade-de-no. Nada garante
    do as possibilidades realmente alcanveis no             a realizao infalvel de uma possibilidade, mas
    projeto do mundo" (Wesen des Grandes, III;                tampouco nada exclui infalivelmente a sua reali-
    trad. it., p. 68). Para quem observa no s               zao. Reduzir uma possibilidade ao seu aspec-
    outras formas de existencialismo, mas tambm              to positivo significa transform-la em determina-
    outras doutrinas contemporneas (instrumen-               o necessitante, em alguma coisa que no
    talismo, naturalismo, neo-empirismo) e a pos-             pode no ser. Reduzir a possibilidade ao seu as-
    tura das cincias modernas em suas pesquisas              pecto negativo significa transform-la em uma
    sobre o homem (biologia, psicologia, sociolo-             determinao negativa igualmente necessitante,
    gia), parece extremamente importante e fecunda            ou seja, em alguma coisa que no pode ser. Em
    essa interpretao da E. como ato de projetar,            ambos os casos, abandona-se o terreno da pos-
    em que o projetante j est condicionado pe-              sibilidade para entrar no da necessidade (v.).
    las coisas ou pelos entes de cujas relaes               2- A possibilidade  uma determinao finita,
    parte seu projeto, encontrando-se por isso di-            sujeita a limites e condies que, ao mesmo tem-
    ante de possibilidades limitadas. Essa inter-             po em que a efetivam e validam, delimitam seu
    pretao tambm serve de base para entender               mbito. Portanto, a frase "possibilidade infinita"
    a liberdade finita do homem. Heidegger diz:               deve ser considerada contraditria: uma possi-
    "prova transcendental da finitude da liberdade            bilidade infinita , na verdade, possibilidade de
    do ser-a  que o projeto concreto do mundo,              nada porque no comporta definio nem deli-
     em seu impulso, ganha fora e s se torna pos-           mitao. Analogamente, a frase "todas as possi-
    se com a perda [de possibilidades determina-              bilidades" deve ser considerada sem sentido, se
     das]. Ser que nisso no se mostra com clareza           tomada sem outras determinaes (do tipo, p.
    a essncia finita da liberdade em geral?" (Ibd.,         ex., "de que ;c dispe" ou "que a situao y com-
     III; trad. it., p. 69).                                  porta"), visto que a totalidade absoluta das pos-
                                                              sibilidades constituiria a garantia infalvel da
       Essas caractersticas da E. so reconhecidas,          realizao de cada uma delas, privando-as pre-
    ainda que com tnicas diferentes, pelas outras            cisamente do carter de possibilidade. 3a Com
    formas do existencialismo contemporneo. Para             os procedimentos disponveis identifica-se um
    Jaspers, tambm a E.  E. possvel, definida pe-



1
EXISTENCIAL e EXISTENCIARIO                            402                               EXISTENCIA1ISMO


campo de possibilidades para estabelecer a dis-              to, pensamento, etc, que servem para interio-
tino entre as possibilidades efetivas ou autn-            rizar ou, como se diz, tornar "imanente" no
ticas e as fictcias. Os domnios da indagao               homem a realidade ou o mundo em sua to-
cientfica e da atividade humana em geral po-                talidade. Existir significa relacionar-se com o
dem ser considerados campos de possibilidades                mundo, ou seja, com as coisas e com os ou-
nesse sentido (cf. ABBAGNANO, Struttura delVE.,              tros homens, e como se trata de relaes
1939; IntroduzionealVesistenzialismo, 1942, A-               no-necessrias em suas vrias modalidades,
ed., 1956; Possibilita e liberta, 1957).                     as situaes em que elas se configuram s po-
   EXISTENCIAL e EXISTENCIRIO (ai. Exis-                    dem ser analisadas em termos de possibilida-
tential, existentiell). A diferena entre esses dois         des (v.). Esse tipo de anlise foi possibilitada
termos foi estabelecida por Heidegger, no sen-               pela fenomenologiaiy?) de Husserl, que elabo-
tido de que o primeiro significa uma deter-                  rou o conceito de transcendncia (v.). Se-
minao constitutiva da existncia, uma ca-                  gundo esse conceito, nas relaes entre su-
racterstica ou um carter essencial dela (cor-              jeito cognoscente e objeto conhecido ou, em
respondente  categoria para as coisas), cuja                geral, entre sujeito e objeto (no s no co-
determinao cabe  ontologia, ao passo que                  nhecimento, mas tambm no desejo, na vo-
o segundo designa a compreenso que cada                     lio, etc), o objeto no est dentro do sujei-
homem tem de sua prpria existncia ao deci-                 to, mas permanece fora, e d-se a ele "em
dir sobre as possibilidades que a constituem                 carne e osso" (Jdeen, I,  43). Esse conceito
ou escolh-las (Sein undZeit,  4, 9). A anli-             manteve-se rigoroso na filosofia de Husserl,
se de Heidegger  existencial porque tende a                 mas exerceu grande influncia no E., para o
rastrear as caractersticas essenciais e peculia-            qual as relaes entre o ser-a (isto , o ente
res  existncia, ou seja, a construir uma                   que existe, o homem) e o mundo sempre se
ontologia cujo objeto  o ser da existncia. A               configuraram como transcendncia.
anlise de Jaspers, ao contrrio, mantm-se, e                   Essa formulao do problema filosfico
quer manter-se, no plano existencirio. Jaspers,             ope o E. a todas as formas, positivistas ou idea-
com efeito, repudia a ontologia no sentido de                listas, do romantismo oitocentista. O romantis-
cincia objetiva que considera os caracteres                 mo afirma que no homem age uma fora infi-
essenciais da existncia (Phil., I, 24) e julga              nita (Humanidade, Razo, Absoluto, Esprito,
que a nica anlise possvel da existncia  ao              etc.) de que ele  apenas manifestao. O E.
mesmo tempo escolha e deciso, ou seja, pen-                 afirma que o homem  uma realidade finita,
samento existencirio (Ibid., I, 13 ss.; II, 1 ss.,          que existe e age por sua prpria conta e risco.
etc).                                                        O romantismo afirma que o mundo em que o
    EXISTENCIAIISMO (in. Existentialism; fr.                 homem se encontra, como manifestao da
Exstentialsme, ai. Existentialismus; it. Esisten-          fora infinita que age no homem, tem uma
zialism). Costuma-se indicar por esse termo,                ordem que garante necessariamente o xito
desde 1930 aproximadamente, um conjunto de                   final das aes humanas. O E. afirma que o
filosofias ou de correntes filosficas cuja mar-             homem est "lanado no mundo", ou seja, entre-
ca comum no so os pressupostos e as conclu-                gue ao determinismo do mundo, que pode tor-
ses (que so diferentes), mas o instrumento                 nar vs ou impossveis as suas iniciativas. O
de que se valem: a anlise da existncia. Essas              romantismo afirma que a liberdade, como ao
correntes entendem a palavra existncia (v.)                 do princpio infinito,  infinita, absoluta, cria-
no significado 3B, vale dizer, como o modo de                dora e capaz de produes novas e originais a
ser prprio do homem enquanto  um modo                      cada momento. O E. afirma que a liberdade do
de ser no mundo, em determinada situao,                    homem  condicionada, finita e obstada por
analisvel em termos de possibilidade. A anli-              muitas limitaes que a todo momento podem
se existencial , portanto, a anlise das situa-             torn-la estril e faz-la reincidir no que j foi
es mais comuns ou fundamentais em que o                    ou j foi feito. O romantismo afirma o progres-
homem vem a encontrar-se. Nessas situaes,                  so contnuo e fatal da humanidade. O E. desco-
obviamente, o homem nunca  e nunca encer-                   nhece ou ignora a noo de progresso porque
ra em si a totalidade infinita, o mundo, o ser ou            no pode entrever nenhuma garantia dele. O
a natureza. Portanto, para o E., o termo exis-               romantismo tem sempre certa tendncia espiri-
tncia tem significado completamente diferente               tualista, tende a exaltar a importncia da inte-
do de outros termos como conscincia, espri-                rioridade, da espiritualidade e dos valores ditos
EXISTENCIAUSMO                                        403                              EXISTENCIALISMO

espirituais, em detrimento do que  terrestre,              (uma casa, uma mquina) possa ser construdo
material, mundano, etc. O E. reconhece, sem                 ou produzido de modo a satisfazer determina-
pudores, a importncia e o peso que tm para                da necessidade; as normas morais servem para
o homem a exterioridade, a materialidade, a                 garantir que as relaes humanas possam
"mundanidade" em geral, donde as condies                  desenrolar-se da forma mais pacfica e orde-
da realidade humana que esto compreendidas                 nada possvel, etc. As expectativas ou proje-
sob esses termos: necessidades, uso e produ-                tos, porm, continuam sendo o que so:
o das coisas, sexo, etc. O romantismo consi-              possibilidades cuja realizao  mais ou me-
dera insignificantes certos aspectos negativos              nos segura, mas nunca infalvel (uma casa
da experincia humana, como a dor, o fracas-                pode cair, sua comodidade pode ser maior ou
so, a doena, a morte, porque no dizem res-                menor; uma mquina pode sair com defeito ou
peito ao princpio infinito que se manifesta no             intil; as relaes humanas podem passar da
homem e, portanto, "no existem" para ele. O                ordem  desordem, da paz  hostilidade, etc).
E. considera tais aspectos particularmente sig-             Por isso, a categoria descritiva e interpretativa
nificativos para a realidade humana e insiste               fundamental de que o E. se vale  a da possibi-
neles ao interpret-la.                                     lidade.
    A anttese entre os temas fundamentais do                  As vrias tendncias do E. podem ser reco-
E. e os do romantismo  ndice das diferentes               nhecidas e distinguidas a partir do significado
categorias de que as duas correntes lanam                  que do  categoria da possibilidade e do uso
mo para interpretar a realidade, entendendo-               que dela fazem. Assim,  possvel distinguir
se por categoria um instrumento de anlise, ou              trs tendncias principais, cujos fundamentos
seja, um instrumento de descrio e interpreta-             so, respectivamente: 1Q impossibilidade do
o da realidade. Dissemos que a anlise exis-              possvel; 2a necessidade do possvel; 3a possibi-
tencial  anlise de relaes: estas se acentuam            lidade do possvel.
em torno do homem, mas imediatamente vo                        Ia J em meados do sc. XIX, Kierkegaard
para alm dele, porque o vinculam (de diver-                insistira na importncia da categoria da possibi-
sos modos, que  preciso determinar)  reali-               lidade, e por isso  a ele que os filsofos da
dade e ao mundo de que faz parte ou, em                     existncia costumam reportar-se. Mas Kierke-
outras palavras, aos outros homens ou s coi-               gaard tambm insistira no aspecto nadificante
sas. Ora, essas relaes no tm natureza est-             do possvel, que torna problemticas e negati-
tica, no so, p. ex., apenas relaes de identi-           vas tanto as relaes do homem com o mundo
dade, semelhana, etc. As relaes do homem                 quanto as relaes do homem consigo mesmo
com as coisas so constitudas pelas possibi-               e com Deus. De fato, segundo Kierkegaard, as
 lidades de que o homem dispe (em maior                    relaes do homem com o mundo so domina-
medida ou menor grau, conforme as diversas                  das pela angstia, que leva o homem a perce-
situaes naturais e histricas) para usar as coi-          ber que a possibilidade corri e destri as ex-
sas e manipul-las (com o trabalho), a fim de               pectativas ou capacidades humanas alm de
 prover as suas necessidades. E as relaes com             destroar clculos e habilidades com a ao do
 os outros homens consistem em possibilidades               acaso e das possibilidades insuspeitas (Concei-
 de colaborao, solidariedade, comunicao, ami-           to da angstia, 1844). A relao do homem
 zade, etc, que tm tambm graus e formas                   consigo mesmo, que constitui o eu,  domina-
 diferentes, conforme as diversas condies na-             da pela desesperao, ou seja, pela condio na
 turais, sociais e histricas. Ora, dizer que algu-         qual o homem se encontra porque percorreu
 ma coisa  possvel significa prever e projetar            uma possibilidade aps outra sem deter-se ou
 ativamente. Portanto as possibilidades huma-               porque esgotou suas limitadas possibilidades, e
 nas geralmente tm mesmo um carter de an-                 o futuro se fecha diante dele (A doena mortal,
 tecipao (porque voltado para o futuro) das               1849). A prpria relao com Deus -- que pa-
 expectativas ou dos projetos, e as normas que              rece oferecer ao homem um caminho de salva-
 as disciplinam -- desde as normas da cincia e             o da angstia e do desespero (porque "para
 da tcnica at as dos costumes, da moral, do di-           Deus tudo  possvel") --, por no ter garantias
 reito, da religio, etc. -- servem para dar certo          absolutas e por ser dominada pelo paradoxo,
 fundamento e certa garantia de xito s expec-             no pode oferecer certeza nem repouso (Te-
 tativas e aos projetos. Assim, p. ex., as normas           mor e tremor, 1843; Dirio, passim). Desse
 tcnicas servem para garantir que certo objeto             modo, ao analisar a existncia humana com
EXISTENCIALISMO                                    404                                 EXISTENCIALISMO


base na categoria do possvel, Kierkegaard               ses "eu escolho", "eu quero" significam na
entendia o possvel exclusivamente em seu                realidade "eu devo" (Jch muss; Phil, II, p. 186),
aspecto ameaador e negativo, vendo nele                 o que significa que a possibilidade de ser, de
"aquilo que  impossvel realizar-se", mais do           agir, de querer, de escolher, na realidade  a
que "aquilo que pode no se realizar". A filoso-         impossibilidade de agir, escolher e querer de
fia de Heidegger adota essa mesma interpreta-            modo diferente daquilo que se , isto , das
o. No h dvida de que, em anlises que se            condies de fato implcitas na situao que
tornaram clssicas, Heidegger deixou claro que           nos constitui.
a existncia  transcendncia e projeto, mas                 O mesmo predomnio do conceito de possi-
tambm mostrou que transcendncia e projeto              bilidade e a mesma transformao final em im-
so, afinal, impossveis, porque a transcen-             possibilidade podem ser encontrados no E. de
dncia fica aqum do que deveria transcender             Sartre. Para esse E., a possibilidade ltima da
e o projeto  dominado e anulado por aquilo              realidade humana, a sua escolha originria,  o
que j  ou j no  mais. O carter da existn-         projeto fundamental em que se inserem todos
cia que acaba prevalecendo na filosofia de Hei-          os atos e as volies de um ser humano. Tal
degger  a efetividade ou factualidade do ser-a         projeto  fruto de uma liberdade sem limites,
lanado no mundo, em meio aos outros entes,              absoluta e incondicionada: de uma liberdade
no mesmo nvel deles e por isso  merc de ser           que faz do homem uma espcie de Deus cria-
o que de fato . Desse modo, a existncia s             dor do seu mundo e o torna responsvel pelo
pode ser aquilo que j passou. Suas possibili-           mundo. O homem , de fato, definido por
dades no so aberturas para o futuro, mas               Sartre como "o ser que projeta ser Deus" (L'tre
reincidncia no passado e s fazem reapre-               et le nant, p. 653), mas trata-se de um Deus
sentar o passado como futuro. Por isso, o                falido, seu projeto resolve-se em fracasso. Aquilo
transcender, o projetar,  uma impossibilida-            que na doutrina de Heidegger e de Jaspers 
de radical, um nada nadificante. No resta ou-           obra da necessidade factual que limita e destri
tra alternativa autntica a no ser antecipar ou         qualquer possibilidade de. transcender o fato,
projetar esse mesmo nada. Isso  o "viver-pa-            na doutrina de Sartre  obra da infinidade de
ra-a-morte", ou seja, para "a possibilidade da           possibilidades que se eliminam e se destroem
impossibilidade da existncia" (Sein und Zeit,           reciprocamente, num jogo ftil e vo que pro-
 53). A "possibilidade da impossibilidade" se-          voca nusea: pois nenhuma delas possui mai-
ria uma contradio em termos, se possibilida-           or validade ou solidez que a outra, sendo, pois,
de no significasse aqui "compreenso". A                impossvel escolher uma ou outra, a no ser ce-
existncia  essencial e radicalmente imposs-           gamente. Uma escolha absoluta ou "absoluta-
vel; o que  possvel  a compreenso dessa              mente livre", como a que Sartre atribui ao ho-
impossibilidade. Viver para a morte , precisa-          mem,  perfeitamente idntica  "no-escolha"
mente, tal compreenso.                                  ou  "escolha da escolha" de Heidegger e
   Como se viu, a caracterstica da filosofia de         Jaspers, no sentido de que no  uma escolha,
Heidegger (ao menos na sua primeira fase, a              mas a prpria impossibilidade de escolher.
nica que pode ser chamada de existencialista)           Mais uma vez, o conceito do possvel se trans-
 a transformao do conceito de possibilida-            formou sub-repticiamente no do impossvel.
de, como instrumento de anlise da existncia,              Dessa tendncia deriva a noo de existen-
no de impossibilidade. O mesmo fato verifica-            cialismo como "filosofia negativa", "filosofia da
se na filosofia de Jaspers. De um extremo a              angstia" ou "do fracasso", o que no  de todo
outro de sua Filosofia, Jaspers fala da existn-         exato, pois refere-se a apenas uma das corren-
cia possvel e sua anlise , explicitamente,            tes existencialistas e, ainda assim, apenas a
anlise das possibilidades da existncia. Mas,           alguns de seus aspectos. Dessa noo comum
assim como para Heidegger, no fundo tais                 derivou o uso generalizado desse termo no s
possibilidades no so mais do que outras tan-           para designar certas correntes literrias e artsti-
tas impossibilidades. Eu no posso ser seno o           cas, mas tambm certos costumes, atitudes e
que sou {Phil, II, p. 182), no posso tornar-            at modos de vestir. Esse uso generalizado,
me seno o que sou; no posso querer seno o             apesar de ser ainda mais imprprio do que a
que sou; e o que sou  a situao em que me              noo comum que lhe deu origem, pode ser
encontro e sobre a qual nada posso (Ibid. I, p.          explicado observando que, na maior parte dos
145). Jaspers diz explicitamente que as expres-          casos, serve para chamar a ateno sobre os as-
EXISTENCIAIISMO                                     405                                EXISTENCIALISMO

pectos mais desfavorveis, negativos e des-                s se revela no mistrio de que se circunda e
concertantes da vida humana, ou seja, sobre                que, por isso, a nica atitude possvel do ho-
os aspectos da vida humana enquanto  um                   mem diante dele  a de amor e fidelidade
simples poder ser, completamente desprovido                {Journal Mtaphysique, 1927; tre et avor,
de qualquer garantia de estabilidade e certeza.            1935; Du refus  Vinvocation, 1940). Mas,
A chamada literatura existencialista tende, de             qualquer que seja o modo de entender a reali-
fato, a dar destaque s vcisstudes humanas me-           dade absoluta, por se fundarem nela as possi-
nos respeitveis e mais tristes, pecaminosas e            bilidades existenciais transformam-se em r-
dolorosas, bem como  incerteza dos empreen-               seas perspectivas de sucesso, e assim nada do
dimentos bons ou maus e  ambigidade do                   que o homem realmente  e nenhum dos seus
bem, que pode dar origem ao seu contrrio. De             valores fundamentais podem perder-se, j
modo semelhante, atitudes, costumes e modas                que elas tm garantia absoluta e transcenden-
eram qualificados de "existencialistas" quando             te. Essa corrente do E., que tem carter e finali-
pretendiam ser formas de protesto contra o oti-            dade religiosa, do ponto de vista filosfico tem
mismo superficial e a respeitabilidade burguesa            o defeito de constituir um panegrico da reali-
da sociedade contempornea. Seja qual for o                dade humana, e no uma tentativa de com-
julgamento que se faa sobre essas manifesta-              preend-la e de propiciar uma justificao post
es, cujo carter superficial e grotesco muitas          factum da experincia humana, muito seme-
vezes  evidente, mas cuja responsabilidade               lhante  tentada pelas filosofias romnticas. A
no deve recair sobre a corrente filosfica de             se admitir que todas as possibilidades existen-
que estamos falando, est claro que, dessa for-            ciais esto destinadas a realizar-se, porquanto
ma, o E. representou uma poderosa fora de                fundadas no Ser ou no Valor, s se estaro
destruio do dogmatismo absolutista do sc.               encobrindo os insucessos e as misrias do ho-
XIX, dos seus mitos otimistas e do seu falso              mem com um manto verbal. A se admitir, ao
sentimento de segurana, alis to duramente              contrrio, que nem todas as possibilidades hu-
desmentidos pelas vicissitudes dos ltimos                 manas esto fundadas no Ser e no Valor, e que
decnios. No pairam dvidas, pois, quanto               nem todas esto destinadas a realizar-se, pro-
funo resolutiva e libertadora que essa forma             por-se- o embaraoso problema de fornecer
de E. exerceu nos ltimos vinte anos, mas                  um critrio para reconhecer quais so as possi-
tampouco pairam dvidas quanto  sua inca-                bilidades realmente fundadas: problemas para
pacidade de preparar instrumentos vlidos que             cuja soluo o pressuposto do fundamento
contribuam para a soluo positiva dos proble-            transcendente dessas possibilidades em nada
mas humanos.                                              contribui.
   2- Se a primeira interpretao reduz as pos-               3e Enfim, para uma terceira interpretao,
sibilidades humanas a reais mpossibilidades, a           prpria do E. italiano, as possibilidades existen-
segunda interpretao as considera, no extre-             ciais devem ser assumidas e mantidas como tais,
mo oposto, como potencialidades, no sentido               sem serem transformadas em mpossibilidades
aristotlico do termo. Assim entendido, o poss-          nem em potencialidades. Nesse caso, a perspec-
vel perde seu aspecto negativo e preocupante,             tiva aberta por uma possibilidade no  nem a
j que uma potencialidade est sempre "desti-             realizao infalvel nem a impossibilidade ra-
nada a realizar-se" (LAVEIXE, DU temps et de              dical, mas a busca tendente a estabelecer os
1'temit, 1945, p. 261). Essa transformao do           limites e as condies da prpria possibilida-
possvel, de categoria de instabilidade e incer-          de e, portanto, o grau de garantia relativa ou
teza problemtica para categoria de estabilida-           parcial que ela pode oferecer. Essa corrente
de e certeza,  obtida graas  vinculao das            do E. acentua a tendncia naturalista e empirista
possibilidades existenciais a uma Realidade               j presente -- ainda que de forma disfarada ou
absoluta da qual elas aufeririam garantia de rea-         imperfeita -- nas outras correntes (N. ABBAG-
lizao infalvel. Para Lavelle, essa realidade           NANO, Struttura delVesistenza, 1939; Introdu-
absoluta  o Ser (De 1'fre, 1928; De Vacte,              zone alVesistenzialismo, 1942; Filosofia, reli-
1937; Du temps et de Vternit, 1945), para Le            gione, scienza, 1948; Possibilita e liberta, 1956;
Senne (Obstacle et valeur, 1934), a realidade             E PACI, Principi di una filosofia delVessere,
absoluta  entendida como valor infinito. A               1939; Pensiero, esistenza, valore, 1940; Tempo e
realidade absoluta tambm como Ser  enten-               relazione, 1954). Segundo essa tendncia, a in-
dida por Mareei, que porm acredita que o ser             vestigao dos limites e das condies a que as
EXOTERICO                                             406                                      EXPERINCIA


possibilidades humanas esto submetidas s                  primeiro desses dois significados, a E. tem sem-
pode ser feita com a utilizao de tcnicas de              pre carter pessoal e no h E. onde falta a par-
verificao e controle de que a indagao positi-           ticipao da pessoa que fala nas situaes de
va ou cientfica dispe em todos os campos. Se              que se fala. No segundo significado, a E. tem
uma hiptese, uma teoria ou uma proposio                  carter objetivo ou impessoal: o fato de a pro-
no passam de um "poder ser" que abre pers-                 posio/ ser verificvel no implica que todos
pectiva para o futuro, sua validade consiste no            os que fazem tal afirmao devam participar
s em poderem ser postas  prova, mas tambm                pessoalmente da situao que permite confir-
em poderem ser repropostas depois da prova,                 mar a proposio p. O elemento comum dos
ainda como um "poder ser" para o futuro. Por                dois significados  a possibilidade de repetir as
isso, os critrios utilizados pelas cincias em ge-         situaes, e isso deve ser considerado funda-
ral e disciplinas em particular, com o fim de de-           mental na significao geral do termo. Essa de-
cidir sobre a validade das suas proposies e da            terminao implica que: ) esse termo no 
realidade dos seus objetos, podem ser assumi-               usado com propriedade quando se fala de uma
dos como determinaes ou especificaes do                 E. "excepcional" ou at mesmo "nica", a me-
critrio da possibilidade; ou, reciprocamente,              nos que esses adjetivos sejam (como de fato
este ltimo pode ser assumido como a generali-              muitas vezes so na linguagem comum) exage-
zao de critrios especficos. Desse ponto de              ros retricos para indicar a pouca freqncia
vista, o homem nem  lanado sem defesas con-               com que certa situao se repete ou a impro-
tra a falncia e o fracasso, nem est destinado ao          babilidade de que ela se repita para o mesmo
triunfo final; contudo, possui as garantias par-            indivduo; h) esse termo no se restringe ne-
ciais e limitadas que lhe so oferecidas por suas           cessariamente a indicar situaes "sensveis",
tcnicas, por seus modos de vida experimen-                 mas pode indicar situaes de qualquer nature-
tados e pelas possibilidades, que elas lhe                  za em que se possa contar com suficiente
abrem, de encontrar e experimentar novas                    repetibilidade. Alm disso, o uso desse termo
possibilidades. Cf. A. SANTUCCI, E. e filosofia             no significado 2e supe uma condio funda-
italiana, 1959.                                             mental, sem a qual a E. no pode exercer ne-
   EXOTERICO. V. ESOTRICO.
                                                            nhuma ao de averiguao; qual seja: c) a E.
    EXPECTATIVA (in. Expectation, fr. Attente,              a que se recorre para a averiguao deve ser
ai. Erwartung; it. Aspettazion). Antecipao               independente das crenas que  chamada a
de um acontecimento futuro (v. FUTURO). Uma                 averiguar, de tal modo que as crenas no aca-
das formas da ateno ou ateno expectante,                bem por determinar a averiguao. Sem essa
que  o preparo para a ao e a disposio das              importante limitao, uma iluso repetida ou
condies mentais capazes de enfrent-la (v.                repetvel poderia ser assumida como prova de
ATENO). Quando a E.  mantida no estgio de
                                                            validade. Portanto, pode-se falar (como muitas
excitao, com inibio das disposies  reali-            vezes se faz na linguagem contempornea) de
zao da ao, torna-se um estado semipato-                 "E. religiosa" ou "E. mstica", etc, s no signifi-
lgico ou patolgico, devido  exaltao das                cado le do termo, mas essas formas de E. no
emoes. (P. JANET, De langoisse  1'extase,                podem ser utilizadas para verificar as crenas
pp. 168 ss.X
                                                            de que partem, pelo fato de que so inteira-
                                                            mente dependentes de tais crenas e no po-
   EXPERINCIA (gr. ujieipa; lat. Experien-               dem ocorrer sem elas. Dos dois significados
tia; in. Experience, fr. Experience, ai. Erfah-             enunciados, o 2e  o comum a todas as corren-
rung; it. Esperienza). Este termo tem dois                  tes do empirismo (v.), ao passo que o f 
significados fundamentais: ls a participao                historicamente anterior e ainda hoje  compar-
pessoal em situaes repetveis, como quando                tilhado por algumas correntes da filosofia.
se diz: "x tem E. de S", em que S  entendido
como uma situao ou estado de coisas qual-                    ls A primeira e mais evidente caracterstica
quer que se repita com suficiente uniformi-                 da primeira noo de E.  constituda pela
dade para dar a x a capacidade de resolver                  oposio entre, por um lado, arte, e cincia
alguns problemas; 2- recurso  possibilidade                ou conhecimento racional, por outro. Essa con-
de repetir certas situaes como meio de verifi-            traposio foi claramente enunciada por Plato
car as solues que elas permitem: como quan-               a propsito da medicina. Plato diz que os m-
do se diz "a E. confirmou x", ou ento: "a                  dicos dos escravos "no averiguam as doenas"
proposio p pode ser confirmada pela E.". No               e "prescrevem o que lhes parece melhor pela
EXPERINCIA                                            407                                   EXPERINCIA

E. como se tivessem uma cincia perfeita",               j  um conceito (p. ex., homem), e a parada
comportando-se "como um tirano soberbo". O               do princpio da fileira corresponde aos concei-
mdico cios homens livres, ao contrrio, "estu-          tos ltimos e simples, que so os princpios da
da as doenas, mantm os doentes desde o                 arte e da cincia e intuies pelo intelecto
princpio em observao, procura a natureza              (Ibid., II, 19, 100 a 9). Note-se que o prprio
do mal, estabelece relaes estreitas com o              uso do verbo "parar" com que Aristteles ex-
doente e com seus familiares e, ao mesmo tem-            pressa a persistncia ou a estabilidade da lem-
po, aprende com os doentes e ensina-lhes o               brana -- que constitui a E. e por fim leva  in-
que  possvel" (Leis, IV, 720 c-d). O empirismo         teligncia dos princpios -- corresponde quilo
moderno consideraria compatvel com a E. pre-            que  a caracterstica objetiva da E.: a possibili-
cisamente o comportamento que, nesse trecho,             dade de repetir as situaes. Pela ao condi-
Plato contrape  prpria E. Mas essa observa-          cionante que a E. exerce sobre a inteligncia
o mostra a diferena que separa os dois sig-           dos princpios, Aristteles chega a dizer que
nificados de E. aqui enunciados. Aristteles             "conseguimos reconhecer os princpios primei-
deu forma clssica a essa doutrina no primeiro           ros com a induo; e, com efeito, a sensao
captulo de Metafsica e no ltimo de Analti-           produz desse modo o universal" (Ibid., 100 b 3
cos posteriores. Sua tese fundamental  a redu-          ss.). Mas  claro que entre um soldado qual-
o da E.  memria. Aristteles diz que todos           quer parar e a primeira fila de soldados parar
os animais tm "uma capacidade seletiva ina-             h uma diferena radical: a parada da primeira
ta", que  a sensao. Em alguns deles, a sensa-         fila  a inteligncia dos primeiros princpios,
o no persiste; para estes, no h conheci-            que so necessariamente verdadeiros, indepen-
mento fora da sensao. Outros, porm, finda a           dentemente de qualquer confirmao que a E.
sensao, podem conservar alguns vestgios               possa dar. Eles so, alis, indiferentes  confir-
dela na alma. Nesse caso, depois de muitas               mao ou  refutao e justamente por isso
sensaes dessa natureza, determina-se em                so objeto de um rgo especfico, que  o
alguns animais uma espcie diferente de co-              intelecto. O reconhecimento desse rgo obvia-
nhecimento, que  o conhecimento racional.               mente  sugerido a Aristteles pela exigncia
De fato, "a partir da sensao desenvolve-se             de fundar a validade necessria dos primeiros
aquilo que chamamos de lembrana, e da lem-              princpios, ou seja, de tornar esses princpios
brana repetida de um mesmo objeto nasce a               independentes de qualquer confirmao ou re-
E., assim, lembranas que so numericamente              futao emprica. Esta estabelece o quase sem-
mltiplas constituem uma experincia. Dessa              pre, no o sempre. Portanto, em face da inteli-
E. ou do conceito universal que se fixou na              gncia, que apreende os princpios, o processo
alma como uma unidade que, estando alm da               preparatrio que vai das sensaes  E.  pura-
multiplicidade,  una e idntica em todas as             mente acidental e s apresenta a vantagem de
coisas mltiplas, nasce o princpio da arte e da         ser o mais cmodo e bvio para o homem. Mas
cincia: da arte, em relao ao devir; da cin-          para Aristteles a E. permanece o que era para
cia, em relao ao ser" (An. post., II, 19, 100 a        Plato: consiste em conhecer o fato que ocorre
4). Assim entendida, a E. contrape-se  arte e          repetidamente, mas no a razo pela qual ocor-
 cincia, ao mesmo tempo em que  condio              re: assim,  conhecimento do particular e no
delas.  condio delas porquanto  ela que              do universal, de tal modo que saber e conhecer
suscita a inteligncia dos primeiros princpios          cabem  arte e  cincia, no  E. (Met., I, 1,
da arte, da cincia. "Esses hbitos", diz Aristte-      981 a 24). Portanto, em Aristteles est total-
les, "no subsistem em ns separadamente,                mente ausente a noo (prpria do significado
nem so produzidos por outros hbitos mais               2-, de E. como possibilidade de verificao e
cognoscitivos, mas pela prpria sensao, do             de averiguao das verdades alcanveis pelo
mesmo modo como, p. ex., se um exrcito est             homem. Aristteles no pode, portanto, ser
fugindo e um soldado pra, pra tambm o sol-            chamado empirista. Para ele, a E. se reduz 
dado que o segue e depois o outro, e assim por           repetio freqente, mas no absolutamente
diante, at o princpio da fila" (An. post., II, 19,     constante de certas situaes memorizveis.
 100 a 9). Nessa comparao, a parada do pri-
meiro soldado  a permanncia de certa sensa-                   Ao longo da histria da filosofia, esse con-
o na memria (p. ex., do homem Clias), a                  ceito de E. permanece como uma das alternati-
parada de outro soldado depois de vrias filas               vas possveis, cujas caractersticas s vezes
                                                             tambm influenciam o outro conceito. Os
EXPERINCIA                                          408                                      EXPERINCIA


escritores medievais, em geral, o repetem (S.              da  iluminao divina e que  a fonte das vir-
TOMS, S. Th., I, q. 54, a. 5; II, I, q. 40, a. 5,         tudes sobrenaturais. Mas o carter intuitivo da
etc); como o repetem Spinoza (Et., II, 40,                 E. permaneceria mesmo depois que a E. so-
scol. 2) e Leibniz (Thod., Disc,  65; Monad.,            brenatural foi posta de lado pelo desenvolvi-
 28-29).                                                 mento ulterior do empirismo. Segundo Ock-
    2- O recurso  E. como critrio ou cnone              ham, a E., que  "o princpio da arte e da
da validade do conhecimento  caracterstico               cincia",  o conhecimento intuitivo perfeito,
do empirismo, distinguindo-o do sensacions-               que tem por objeto as coisas presentes, dife-
mo (v.). Este consiste simplesmente em asserir             renciando-se por isso do imperfeito, que tem
a natureza intuitiva, portanto privilegiada, do            por objeto as coisas passadas (In Sent., II, q. 15,
conhecimento sensvel, mas sem que tal co-                 H; Prol, q. 1, Z). Intuitivo  o conhecimento
nhecimento se constitua em guia e controle do              "em virtude do qual se pode saber se uma coisa
conhecimento em geral. Os esticos, p. ex., fo-            existe ou no. Se existe, imediatamente o inte-
ram sensacionistas, mas no empiristas; os                 lecto julga que existe. Alm disso, intuitivo  o
epicuristas, que, ao contrrio, elaboraram e               conhecimento mediante o qual se sabe que
defenderam uma teoria da induo, foram                    uma coisa inere em outra, que um lugar dista
tambm empiristas. No mbito desse significa-              de outro, que uma coisa tem certa relao com
do da palavra,  possvel distinguir duas inter-           a outra ou, em geral, uma verdade contingente
pretaes fundamentais, quais sejam: a) teo-               qualquer, especialmente a respeito do que est
ria da E. como intuio; b) teoria da E. como              presente" (Ibd., Prol., q. 1, Z). Ockham consi-
mtodo.                                                    dera que se pode ter conhecimento intuitivo
    a) A teoria da E. como intuio considera a            no s das coisas exteriores, mas tambm dos
E. como o relacionar-se imediato com o objeto              estados internos do homem, como as 'inte-
individual, usando como modelo de E. o senti-              leces, as volies, a alegria, a tristeza e seme-
do da viso. Desse ponto de vista um objeto                lhantes, de que o homem pode ter E. em si
"conhecido por E."  um objeto presente em                 mesmo, mas que no so sensveis para ns"
pessoa e na sua individualidade. A tese funda-             (Ibid., Prol. q. 1, HH). Essa segunda espcie de
mental dessa concepo  a seguinte: existem               conhecimento intuitivo corresponde exatamen-
unidades empricas elementares. A concepo                te  reflexo de Locke. No esprito do ockha-
leva a admitir que existem dados elementares               mismo, Jean Buridan declarava imperfeita a
originrios aos quais  confiada em ltima an-            arte "doutrinai", ou seja, a que despreza a E.;
lise a funo de verificao do conhecimento.              essa arte, notava ele, no conhece o significado
Por sua vez, a existncia das unidades em-                 dos seus princpios, nem das suas concluses,
pricas elementares permite estabelecer uma                sendo perfeita apenas a arte que conhece pela
classe privilegiada de proposies, que so as             E. tanto os princpios, que a arte doutrinai se li-
que exprimem diretamente essas unidades.                   mita a pressupor, quanto as concluses particu-
                                                           lares a que eles conduzem (In Met., I, q. 8). A
    O recurso  E., quando formulado pela pri-             limitao da E.  intuio sensvel foi reforada,
meira vez no plano filosfico, no sc. XIII, foi           a partir do Renascimento, pelo anti-racionalis-
um recurso  intuio. "Sem a E.", dizia Roger             rao. Como as verdades pretensamente vlidas,
Bacon, "nada se pode conhecer suficiente-                  sem verificao ou averiguao, eram atribu-
mente. Os modos de conhecer so dois: a argu-              das  "razo", a exigncia de averiguao impl-
mentao (argumentum) e a experincia. A                   cita no recurso  E. parecia s poder voltar-se
demonstrao conclui e nos faz concluir a                  para a intuio sensvel. Esta aparecia como
questo, mas no d certezas e no remove a                fonte de verdades ou de procedimentos inde-
dvida, j que a alma no se aquieta na intui-             pendentes da razo, logo capaz de exercer uma
o da verdade se no a encontrar por via da               ao de freio ou limite sobre as pretenses da
E." (Opus maius, VI, 1). Essas palavras de                 razo. A partir do sc. XVI, o recurso  E. pas-
Bacon j incluem o recurso  E. como averigua-             sa a ter significado claro de limite ou negao
 o e norma da verdade humana. Mas tambm                 das pretenses da razo. Telsio justificava o
 incluem o conceito intuitivo da experincia.             sensacionismo identificando "o que a natureza
verdade que, para Bacon, a intuio no  so-              revela" com "o que os sentidos testemunham"
 mente sensvel: ao lado da E. sensvel, que              (De rer. nat., promio), argumentando que a
fonte ou critrio das verdades naturais, Bacon             natureza se revela  parte do homem que  na-
admite uma E. "interna" ou sobrenatural, devi-
T
    EXPERINCIA                                           409                                      EXPERINCIA

    tureza, ou seja,  sensibilidade. E Leonardo da             como totalidade do mundo humano, ou se-
    Vinci afirmava que "a sabedoria  filha da E." e            ja, como conjunto de sistemas de averiguao
    que a E. nunca engana, apesar de poder enga-                instituveis nele, que  a caracterstica da con-
    nar-se o juzo sobre ela (Cod. Atl., foi. 154 r).           cepo metdica da experincia. Mas est claro
    Mas tanto em Leonardo da Vinci quanto em                    que em Locke tambm se encontra, pela pri-
    Galilei, ao lado da E. sensvel aparece outro               meira vez, a definio das unidades empricas
    fundamento ou cnon do conhecimento huma-                   elementares, que so as idias e as relaes
    no: o raciocnio matemtico. Ao lado da "sensa-             imediatas entre as idias. A mesma assuno,
    ta E.", Galilei colocava explicitamente as "de-             com outras palavras, encontra-se na teoria de
    monstraes necessrias" da matemtica como                 Hume. O ponto de vista deste filsofo est
    outra via atravs da qual a natureza se revela              expresso com toda clareza nas ltimas frases
    ao homem (Carta  Grand. Cristina, em Op.,                  de Investigao sobre o intelecto humano: "Se
    V, p. 316). Essa j era uma limitao importante            tomarmos um volume qualquer, como p. ex. de
     interpretao da E. como intuio sensvel,               teologia ou de metafsica escolstica, pergunta-
    pois as demonstraes matemticas no trans-                remos: contm algum raciocnio abstrato sobre
    cendem o domnio da natureza (que, segundo                  quantidades ou nmeros? No. Contm algum
    Galilei e Kepler, est escrita inteiramente em              raciocnio experimental sobre questes de fato
    caracteres matemticos), sendo portanto cons-               ou de existncia? No. Ento, ponha-o no fogo,
    titutivas da E. natural. Alis,  significativo que         pois s contm sofismas e iluses." De fato,
    o verdadeiro fundador do empirismo moder-                   para Hume, todos os objetos da investigao
    no, Francis Bacon, no seja de modo algum                   humana dividem-se em duas grandes classes:
    sensacionista e que, para ele, o guia do conhe-             as relaes entre as idias e as coisas de fato.
    cimento humano no  a simples E., que pro-                 As relaes entre idias "podem ser descober-
    cede ao acaso e sem diretrizes, mas o expe-                 tas com uma operao pura do pensamento,
     rimento, que  a E. guiada e disciplinada pelo             sem depender de coisas que existem em algum
    intelecto (Nov. Org., 1,82). A interpretao intui-         lugar do universo. Ainda que no existisse nem
    tiva da E. deveria, porm, prevalecer no em-                sequer um crculo ou um tringulo na natureza,
    pirismo setecentista graas a Locke e Hume. A               as verdades demonstradas por Euclides conser-
    teoria da E. de Locke pode ser resumida nos                 variam certeza e evidncia" (Inq. Cone. Un-
    seguintes pontos: le reduo da E.  intuio               derst., IV, 1). Portanto, as verdades dessa natu-
     das coisas externas (sensao) ou dos atos                 reza (que constituem a geometria, a lgebra, a
     internos (reflexo); 2- resoluo da sensao e            aritmtica e, em geral, a matemtica) no preci-
     da intuio em elementos simples, entendidos               sam de averiguao, mas sua verificao est 
     cartesianamente como idias, 3Q uso da noo               disposio do homem a qualquer momento e
     de E. como critrio ao mesmo tempo limitativo              sem recurso a confirmaes experimentais. No
     e fundamentador do conhecimento humano, j                 que concerne aos conhecimentos da realidade
     que este no pode ir alm da E. que lhe forne-             de fato, ao contrrio, o seu nico fundamento 
     ce as idias e, ao mesmo tempo, recebe da E.,              a relao entre causa e efeito. Mas, por sua vez,
     com o material indispensvel e com os nexos                o fundamento dessa relao  a E., e se per-
     que esse material apresenta, o critrio da sua             guntarmos qual  o fundamento das conclu-
     validade (Ensaio, IV, cap. 3-4). Esse ltimo               ses tiradas da E., a resposta a ser dada, segun-
     aspecto  enfatizado por Locke inclusive como              do Hume,  que esse fundamento nada tem de
     norma limitativa das pretenses cognoscitivas              racional, mas  simples instinto. De fato, "todas
     do homem porque assumido como limite da                    as nossas concluses experimentais fundam-se
     possvel extenso do conhecimento humano.                  na suposio de que o futuro ser conforme ao
     Na realidade, se considerarmos o fato de Locke             passado. Mas buscar a prova desta ltima supo-
     ter imposto esse limite no s ao domnio do               sio com argumentos provveis ou referentes
     conhecimento, mas tambm ao da poltica, da                 existncia deve ser, evidentemente, um crcu-
     moral e da religio, campos em que o conceito              lo vicioso, e tomar por admitido o que  duvi-
     de relao direta com o objeto no tem senti-              doso" (Inq., cit., IV, 2). Portanto, o que nos resta
     do, deveremos concluir que, no conjunto de                  o instinto, a aconselhar-nos a aceitar como
     sua filosofia, ele realizou uma atitude empirista          boa uma inferncia -- a do passado para o fu-
     que vai alm de sua teoria da experincia.                 turo -- que no pode ter justificao racional
     Com Locke, delineou-se a concepo de E.                   nem emprica. O fundamento dessa crtica  a
EXPERINCIA                                           410                                     EXPERINCIA


 reduo da E. s impresses e  relao entre              samente como a de Hume (que, no fundo, era
 as impresses, relao que tambm  intuda,               idntica), impossibilitava a cincia ao impossi-
 ou seja, percebida aqui e agora, portanto, des-            bilitar a formulao de regras para a previso
 provida de qualquer significado ou referncia              dos fenmenos. Foi essa, justamente, a crtica
 que transcenda a instantaneidade das impres-               dirigida a Carnap pelo prprio Crculo de Viena
 ses. Hume operou a mais radical reduo da                (cf. K. Popper, Logik der Forschung, 1934; cf.
 E.  intuio, porque reduziu a intuio a intui-          a nova edio inglesa, The Logic of Scientific
 o instantnea, que nada significa fora de si.             Discovery, 1959). Conseqentemente, Carnap
 Desse ponto de vista, a construo de procedi-             modificou seu conceito de verificabilidade
 mentos ou de esquemas de previso  imposs-               emprica. No texto Testabity and Meaning
vel: como censurou Kant, Hume tornava im-                   (1936), diz ele: "Os positivistas acreditavam
 possvel a formao de uma cincia qualquer.               que todo termo descritivo da cincia podia ser
    Todavia, foi justamente a teoria da E. de               definido por termos de percepo e, portanto,
 Hume que, atravs de Mach, tornou-se o pres-               que todo enunciado da linguagem pudesse ser
suposto do neo-empirismo contemporneo.                     traduzido em um enunciado sobre as percep-
Mach resolvera o fato emprico em elementos                 es. Essa opinio foi expressa nas primeiras
 considerados ltimos e originrios: as sensa-              publicaes do Crculo de Viena, inclusive na
 es. Um fato fsico ou um fato psquico no               minha, de 1928, mas hoje penso que no era
 passa de um conjunto relativamente constante               de todo adequada: a redutibilidade pode ser
 de elementos simples: cores, sons, calor, pres-            afirmada, mas no a ilimitada possibilidade de
 so, espao, tempo, etc. Desse ponto de vista,             eliminao e retraduo" ("Testabity and
 a diferena substancial entre o fsico e o psqui-         Meaning", em Readings in thePhil. of Science,
 co desaparece. "Uma cor", diz Mach, " um                   1953, p. 67). Esse reconhecimento eqivale a
 objeto fsico enquanto considerarmos, p. ex.,              uma restrio da tese da verificabilidade em-
 sua dependncia das fontes luminosas (outras               prica dos enunciados cientficos, tese que Car-
 cores, calor, espao, etc), mas se a considerar-           nap exprime dizendo:  "Todo predicado des-
 mos em sua dependncia da retina  um objeto               critivo da linguagem da cincia  confirmvel
psquico, uma sensao" (Die Analyse der Emp-               com base em predicados-coisa observveis"
findungen, 9a ed., 1922, p. 14). Essa doutrina              (Ibid., p. 70). A confirmabilidade, com efeito, 
 conferia  noo de unidade emprica elemen-               uma exigncia mais fraca e menos rigorosa do
 tar a forma com a qual ela exerceu e ainda                 que a experimentablidade: um enunciado
 exerce funo central no neo-empirismo con-                pode ser confirmvel sem ser experimentvel:
 temporneo. Wittgenstein valeu-se dela em                  isso ocorre, por exemplo, quando sabemos
 Tractatus logco-philosophicus (1922). Nessa               que uma observao x nos daria condies de
 obra, aceitava-se a distino de Hume entre                confirmar ou invalidar o enunciado, mas no
 verdades de razo e verdades de fato, expri-               estamos em condies de efetuar a observa-
 mindo-a na forma da oposio entre as pro-                 o x Mas essa restrio, que sem dvida amplia
 posies da matemtica e da lgica, que so                o domnio dos enunciados significativos e d 
 "analticas", "tautolgicas", "no dizem nada"             cincia o direito de empregar enunciados que
 (Tractatus, 6,1; 6,11), e as proposies elementa-         no tem condies de pr  prova, no consti-
 res das cincias naturais que representam os               tui uma retificao do conceito de experincia.
 "estados de coisas" {Sachverhalte) ou "fatos               O complexo aparato que Carnap prope como
 atmicos" (Ibid., 4, 1), os quais nada mais so            instrumento de reduo de qualquer enuncia-
 do que as impresses de Hume ou as sensa-                  do cientfico a enunciado experimentvel ou,
 es de Mach: unidades empricas elementa-                 pelo menos, confirmvel, apia-se na crena
 res. Por sua vez, em Viso lgica do mundo                 de que existe correspondncia estreita entre
 (1928), Carnap tentava reduzir todo o conheci-             um enunciado verdadeiro e determinada E. in-
 mento cientfico aos termos da E. intuitiva, e a           tuitiva. O modo como ele define o predicado
 unidade emprica elementar a que recorria era              observvel realmente faz referncia  E. ime-
 a "Vivncia elementar" (Elementarerlebnis),                diata, visto que Carnap declara, p. ex., que um
 considerada como um elemento neutro, ante-                 campo eltrico no  absolutamente observ-
 rior  distino entre objetivo e subjetivo                vel (Ibid., pp. 63-64). Em outros termos, nessa
 (Aufbau,  67), segundo o modelo da "sensa-                segunda fase do pensamento de Carnap, os
 o" de Mach. Mas essa concepo de E., preci-             "predicados observveis" constituem as unida-
EXPERINCIA                                           411                                   EXPERINCIA

des empricas elementares que servem de fun-                vermelho (como Carnap parece crer), mas a
damento aos enunciados sintticos. Portanto,                coisa vermelha, como p. ex. o livro ou a luz
nessa segunda fase, com a distino entre                   cuja presena pode ser confirmada nesta sala,
enunciados analticos e enunciados sintticos,              seja com operaes perceptivas normais (que
permanece ainda a noo intuitiva de E. e, com              podem ser praticadas por qualquer pessoa que
isso, a crena na existncia de unidades emp-              tenha viso normal), seja com instrumentos (p.
ricas elementares. O que mudou foi apenas a                 ex., um espectroscpio, etc). A sensao "ver-
qualificao de tais unidades elementares, que              melho" no  levada em conta; isso porque,
deixam de ser experincias subjetivas ou per-               mesmo no sendo diretamente acessvel a
cepes, mas determinaes objetivas ou quali-              alguns indivduos (os daltnicos), um objeto
dades sensveis. Essa fase do pensamento de                 vermelho no deixa de ser um objeto emprico
Carnap pode ser considerada como o desen-                   para todos, inclusive para os daltnicos. A
volvimento mximo da noo de E. como intui-                emp.iricidade de um objeto consiste no fato de
o. De fato, o reconhecimento, por parte de                ele poder ser verificado ou averiguado por
Quine, dos "dois dogmas do empirismo" (natu-                quem quer que esteja na posse dos meios
reza intuitiva da E. e distino entre enuncia-             adequados; e o fato de existirem certos meios
dos analticos e enunciados sintticos) constitui           capazes de propiciar essa averiguao significa
a passagem para uma concepo diferente da                  que eles podem ser utilizados tanto por quem
experincia. Entrementes,  significativo o fato            cr quanto por quem no cr na existncia do
de a teoria da E. como intuio ser comparti-               objeto, e que a eficcia dos meios no depende
lhada no s por empiristas, mas tambm por                 de uma ou de outra crena. Em sentido negati-
seus adversrios, como p. ex. Husserl, que cen-             vo, essa noo de E.  caracterizada por: lg
sura no empirismo a ignorncia ou o desco-                  ausncia de distino entre verdades de razo
nhecimento das "essncias" e julga, portanto,               e verdades de fato, ou entre enunciados
que o verdadeiro procedimento cognoscitivo                  analticos e enunciados sintticos, 2- pela
 a "viso essencial" do matemtico. Segundo                ausncia de postulao de uma unidade em-
Husserl, a E. do naturalista, que, para ele,  "um          prica elementar.
ato fundamentador, que no pode ser substitu-                  Pode-se dizer que essa noo de E. foi
do pela simples imaginao",  apenas viso,                delineada pela prpria prtica da pesquisa
intuio do individual (ldeen, I,  7, 20). Esse           cientfica desde seus primrdios. A "sensata E."
conceito  confirmado por ele nas obras ps-                de Galilei, que nunca estava separada do racio-
tumas, onde se l que a E., "no seu signi-                  cnio matemtico, tem esse carter prtico de
ficado primeiro e mais pregnante", deve ser                 averiguao e no pode ser interpretada como
considerada "relao direta com o individual"               recurso  intuio imediata. O prprio funda-
(Erfahrung und Urteil, 1954,  6).                          dor do empirismo moderno, Francis Bacon,
    b) A teoria da E. como mtodo considera-a               entendeu a E. como campo das verificaes e
operao (mais ou menos complexa, nunca                     das averiguaes intencionalmente executadas.
elementarmente simples) capaz de pr  pro-                 Dizia Bacon.- "Quando a E. vem ao nosso en-
va um conhecimento e capaz de orientar sua                  contro espontaneamente, chama-se acaso; se
retificao. Uma operao que atinge esse obje-             procurada deliberadamente, tem o nome de
tivo  repetvel ou recorre a situaes repetveis,         experimento. Mas a E. vulgar outra coisa no ,
portanto nunca : Ia uma atividade pessoal ou               seno um proceder s apalpadelas como quem
incomunicvel (p. ex., subjetiva ou mental),                vaga  noite de l para c na esperana de to-
que no possa ser repetida por qualquer pes-                par com o caminho certo, quando seria muito
soa; 2- inteno, imaginao ou anncio de                  mais til e prudente esperar o dia ou acender
operao, mas a operao efetiva. Nesse senti-              um candeeiro para achar o caminho. A ordem
do, "perceber" no  operao emprica quan-                verdadeira da E. comea com acender o can-
do se refere  sensao que x tem do verme-                 deeiro, com o que se ilumina o caminho, co-
lho, mas sim quando  operao tendente a                   meando-se com a E. organizada e madura, e
confirmar ou averiguar se, p. ex., h um objeto             no com uma E. irregular e s avessas; primei-
vermelho nesta sala, desde que essa operao                ro, deduz os axiomas, depois procede a novos
possa ser realizada por qualquer pessoa nas                 experimentos" (Nov. Org., I, 82). Em outros
condies adequadas. Portanto, o objeto em-                 termos, para valer como fonte de aferio dos
prico no  a "sensao" ou a "impresso" de               conhecimentos, a E. deve incluir uma ordem,
EXPERINCIA                                           412                                       EXPERINCIA

que, para Bacon,  de natureza intelectual, em-              uma E. possvel no  um conhecimento
bora depois deva servir de freio e norma ao                 objetivo, ou seja, autntico (Ibid., Analtica, II,
prprio intelecto (Ibid., I, 101). A caracterstica         2, se. 2). Mas se esse  o conceito de E. que
fundamental dessa concepo  a ausncia de                 Kant elabora nem sempre  o que utiliza ao
distino entre verdades de razo e verdades                longo de sua obra. Se, de fato, esse significado
de fato, ou seja, entre verdades que se fundam              fosse rigorosamente observado, Kant no po-
unicamente nas inter-relaes de idias e ver-              deria dizer, como diz bem no incio da Razo
dades que derivam da experincia. A cincia                 Pura (Intr., 1): "Se bem que todos os nossos
moderna, a partir de Galilei, ignora essa dis-              conhecimentos comecem com a E., nem por
tino, que tampouco  reproduzida pela                     isso derivam todos da E." O conhecimento no
distino kantiana entre juzos analticos e sin-           pode derivar nem deixar de derivar da E., se
tticos, porque tal distino no concerne                 ele a experincia. Donde resulta que todo o
validade dos juzos, mas  diferena entre juzos           conceito kantiano do a priori como o que 
explicativos e juzos extensivos, entre juzos que          "independente da E." deriva do uso ambguo
nada acrescentam ao conhecimento do sujeito                 desse termo, que, ao contrrio da definio
e juzos que lhe acrescentam novas notas (Crt.             explcita que Kant lhe d, s vezes se limita a
R. Pura, Intr., 4). De fato, Kant elabora um                indicar a intuio sensvel, de tal modo que a
conceito de E. segundo o qual a E.  irredutvel            ordem, a regularidade, as categorias e os prin-
 simples intuio sensvel. Para Kant, a E.  o            cpios no se incluem em seu mbito e devem
conhecimento efetivo e, por isso, inclui a totali-          ser considerados apriori. Est bem claro que,
dade das suas condies. Kant diz: "Toda E. en-             se a E. inclui ordem, regularidade, etc, os prin-
cerra, alm da intuio dos sentidos para a                 cpios que garantem tal ordem, ou seja, a for-
qual algo  dado, o conceito de um objeto                   ma da E., no podem ser chamados de a
que  dado ou aparece na intuio, por isso, na             priori, "independentes da E.", tampouco sendo
base de todo conhecimento experimental h                   possvel assim designar o contedo da E., isto
conceitos de objetos em geral como condies                , o seu material sensvel.
apriori; por conseguinte, a validade objetiva                   O significado dessa doutrina est na tese de
das categorias, como conceitos apriori, dever-              que o conhecimento efetivo  o que se organiza
se- ao fato de que s graas a elas  possvel a           segundo o princpio de causalidade, ou seja, se-
E. (segundo a forma do pensamento)" (Ibid.,                 gundo uma ordem necessria. Fichte exprimia
Analtica,  14). E ainda: "A E. apia-se na uni-           com exatido essa tese kantiana ao dizer: "O sis-
dade sinttica dos fenmenos, numa sntese,                 tema das representaes acompanhadas pelo
segundo conceitos, do objeto dos fenmenos                  sentimento da necessidade chama-se tambm
em geral, sem a qual nunca seria um conheci-                E., seja ela interna ou externa. Por isso, a filoso-
mento, mas uma rapsdia de percepes que                   fia tem a funo de explicar toda E." (Erste
nunca poderiam adaptar-se umas s outras, no                Einleitung in die Wssenschaftslehre, 1797,  1,
contexto regular de uma (possvel) conscincia              em Werke, I, 1, pp. 419 ss.). Desse ponto de
inteiramente unificada, portanto, nem  unida-              vista, o mtodo de explicao causai , por ex-
de transcendental necessria da percepo. A                celncia, o mtodo emprico. Por isso, a con-
E. tem, pois, como fundamento os princpios                 cepo da E. como mtodo tem sentido restrito
da sua forma a priori, ou seja, as normas uni-              em Kant: a E. como mtodo identifica-se com a
versais da unidade da sntese dos fenmenos,                explicao causai. Na filosofia contempornea,
normas cuja realidade objetiva sempre pode                  o conceito de E. como mtodo foi defendido
ser encontrada na E., como aquela das condi-                pelo pragmatismo e pelo instrumentalismo. Peirce
es necessrias dela, alis, da sua prpria pos-           dizia: "cuidamos somente da E. possvel, E. na
sibilidade" (Ibid., Analtica, II, 2, se. 2). A E.         plena acepo do termo, como algo que no s
no , portanto, a "rapsdia" de percepes                 afete os sentidos, mas seja tambm o sujeito do
 sensveis, mas a ordem e a regularidade do                 pensamento" (Chance, Love and logic, 11, 2;
 conhecimento que constituem a contraparte                  trad. it., p. 131). Dewey, por sua vez, nega que
 subjetiva (ou "formal") da ordem e da regulari-            a E. seja "um contedo objetivo" ou que se identi-
 dade da natureza. Justamente como tal, a E., ou            fique com um objeto singular. "Na E. efetiva,
 melhor, a possibilidade da E.,  o critrio ltimo         nunca se d tal objeto singular ou evento isola-
 da legitimidade de qualquer conhecimento                   do; um objeto ou evento  sempre uma parte,
 possvel. Para Kant um conhecimento que no                um momento ou um aspecto especial de um
EXPERINCIA                                            413                                        EXPERINCIA

mundo ambiental experimentado, isto , de                    de 'criatura com um corao' e 'criatura com
uma situao. O objeto singular tem grande des-              rins'" (From a Logical Point of View, II, 3). A
taque devido  posio focai e crucial que ocu-              intercambiabilidacle pressupe a sinonmia, mas
pa em dado momento, quando se visa determi-                  no a funda, assim como a analiticidade no
nar alguns problemas de uso e fruio que o                  pode fundar-se nas regras semnticas de uma
ambiente global apresenta.  sempre em certo                 linguagem artificial, j que tais regras definem o
campo que se verifica a observao deste ou                  que  analtico para a linguagem em questo,
daquele objeto." Por conseguinte, "os juzos                 mas no o significado de analiticidade, que est
de E. e os juzos formais acerca de objetos ou               pressuposto. A concluso de Quine  que no
de eventos no se do para ns quando isola-                 foi demarcado "um limite entre enunciados ana-
dos, mas s quando vinculados a um contexto                  lticos e enunciados sintticos. Que tal distino
abrangente, que se chama situao" (Logic, III;              deva ser feita  dogma no emprico dos empi-
trad. it., p. 111). As caractersticas que Dewey             ristas, artigo metafsico de f" (Ibid., II, 5). O se-
atribui  E. podem ser assim resumidas: Ia a E.              gundo dogma dos empiristas  a reduo dos
no  conscincia, logo no pode ser reduzida               enunciados empricos a termos de E. imediata,
intuio (Experience andNature, 1925, cap. I);               ou seja, a dados sensveis. Quine mostra a rela-
2a a E. no  somente conhecimento, embora                   o dessa tese, tanto na forma mais ampla quan-
inclua o conhecimento, mas compreende tudo                   to na mais restrita, correspondentes s duas
o que, a qualquer ttulo, pode ser experimenta-              fases do pensamento de Carnap, com a distino
do pelo homem (essa extenso j fora feita por               entre analtico e sinttico. "Os dois dogmas", diz
Peirce, que entendera por E. "o curso da vida"               ele, "so idnticos na raiz. Vemos que, em geral,
[Coll. Pap., 3, 435] ou "a histria pessoal" [Ibid.,         a verdade dos enunciados depende obviamente
4,911); 3a a E.  o campo de toda pesquisa poss-            tanto da linguagem quanto do fato extralin-
vel e da projeo racional do futuro: nela, por              gstico e notamos que essa circunstncia bvia
isso, "a razo tem necessariamente funo cons-              acaba produzindo, no lgica mas natural-
trutiva" (PM. and Civilization, 1931, pp. 24-25).            mente, o sentimento de que a verdade de um
Por importantes que sejam esses pontos, que                  enunciado  analisvel em um componente
exprimem algumas das exigncias para uma teo-                lingstico e um componente factual. Se formos
ria metodolgica, constituem uma abordagem                   empiristas, o componente factual dever
genrica demais dessa teoria. Para isso, por                 conduzir-nos a um conjunto de E. verficadoras.
outro lado, constitui condio preliminar a crti-           No outro extremo, onde o componente lin-
ca feita por Quine aos dois "dogmas" funda-                  gstico  o nico que interessa, ser verdadeiro
mentais do empirismo, quais sejam,  distino               o enunciado analtico. Minha opinio  que
entre enunciados analticos e enunciados sintti-            isso  uma tolice e que a raiz dessa tolice con-
cos e reducionismo sensacionista. Quanto ao                  siste em falar de um componente lingstico e
primeiro, Quine distinguiu os enunciados lgi-               de um componente factual na verdade de todos
 cos (p. ex., "Nenhum homem no casado                      os enunciados individuais. Tomada coletiva-
casado"), cuja verdade permanece inalterada                  mente, a cincia tem dupla dependncia, da lin-
enquanto permanecer inalterado o uso das par-                guagem e da E., mas essa dualidade no pode
tculas lgicas (no, se, ento, etc), e as outras           ser estendida aos enunciados isolados da cin-
verdades chamadas analticas (p. ex., "Nenhum                cia" (Ibid., II, 5). Desse ponto de vista, o saber
solteiro  casado"), que tm esse nome porque                pode ser comparado a um tecido cinzento, que
certas palavras so assumidas como sinnimos                  preto para os fatos e branco para as conven-
(nesse caso: "solteiro" e "no casado"). Ora, os             es lingsticas nele entrelaadas, mas no qual
procedimentos para estabelecer a sinonmia so               no h fios totalmente brancos nem fios total-
dois.- Ia definio: mas esta, salvo no caso de no-          mente pretos (Carnap e a verdade lgica, em
vas notaes introduzidas com convenes                     "Riv. di Fil.", 1957, na 1); ou ento a um campo
explcitas, no faz mais que esclarecer relaes             de fora cujas condies limtrofes so a expe-
precedentes de sinonmia; 2a intercambialidade               rincia. "Um conflito com a E. na periferia", diz
salva veritate (que  o critrio proposto por                Quine, "ocasiona uma reacomodao no inte-
Leibniz): mas "nada garante que a coincidncia               rior do campo. Os valores de verdade devem ser
extensiva entre 'solteiro' e 'no casado' se baseie          redistribudos sobre algumas das nossas asser-
no significado e no em um estado de fato aci-               es. A reavaliao de umas asseres implica a
dental, como ocorre na coincidncia extensiva                reavaliao de outras, em virtude das suas cone-
EXPERINCIA                                           414                                   EXPERIMENTO


xes lgicas, ao mesmo tempo que as leis lgi-              mentares; lgica centro-E. periferia). Uma teo-
cas so outras tantas asseres do sistema, ou-             ria metodolgica da E. deveria, ao contrrio,
tros tantos elementos do campo... Mas o cam-                prescindir de qualquer classificao preliminar
po total  to subdeterminado pelas condies               e, em todo caso, de qualquer rigidez classifica-
limtrofes, ou seja, pela E., que h grande ampli-          tria das atividades humanas em seu conjunto.
tude na escolha das asseres a serem rea-                  Suas anlises deveriam ser aplicadas aos pro-
valiadas  luz de uma E. contrria isolada"                 cedimentos efetivos de verificao e averigua-
(From a Logical Point of Vietv, II, 6). Portanto,           o de que o homem dispe, seja como orga-
mesmo uma afirmao muito prxima da perife-                nismo, seja como cientista. A anlise desses
ria pode ser considerada verdadeira se compa-               procedimentos deveria determinar as condies
rada a uma E. recalcitrante, considerando esta              e os limites de validade de cada um. S desse
como ilusria ou reformando algumas das                     modo, o exame dos componentes lgico-
asseres chamadas de leis lgicas (como ocor-              lingsticos nunca se separaria do exame dos
reu, p. ex., com o princpio do terceiro exclu-            componentes factuais, segundo a exigncia de
do). Mas nenhuma assero est imune  revi-                Quine. A prpria distino entre tais compo-
so.  significativo que justamente um dos                  nentes deveria ser suprflua em qualquer n-
maiores lgicos contemporneos tenha liquida-               vel. Infelizmente, embora a psicologia contem-
do o pressuposto lgico da doutrina da E. como              pornea esteja bem  frente na anlise dos
intuio, e que um dos maiores expoentes do                 procedimentos de verificao e confirmao
neo-empirismo contemporneo tenha procura-                  de que o homem dispe como organismo (pen-
do liqidar esse mesmo conceito de experin-                se-se sobretudo nas contribuies que a psico-
cia. Na realidade, este segundo intento no foi             logia funcional tem dado  anlise da percep-
levado a cabo por Quine. Admitir para o campo               o), a metodologia cientfica, ou seja, o exame
total do saber a composio de conceito e sen-              dos procedimentos de verificao e confirma-
sao que se nega aos componentes individuais               o de que o homem dispe na cincia, ainda
do saber s pode ser considerada uma posio                no passa de inteno. Est claro que, do pon-
provisria. Quine fala ainda do "fluxo de E."               to de vista de uma tal metodologia, a E. seria
(Jbid, II, 6) no mesmo sentido em que Hume                  somente o conjunto dos campos em que as
podia falar do fluxo das impresses, e afirma               tcnicas de verificao ou averiguao de que
que os objetos fsicos, destacados desse fluxo,             o homem dispe se revelassem eficazes.
por seu carter mtico, no so diferentes dos                  EXPERINCIA PURA. V. EMPIRIOCRITICISMO.
deuses de Homero. Nesse aspecto, ele sofre a                    EXPERIMENTO (lat. Experimentam; in.
influncia da obra de Duhem (La thorie phy-                Experiment; fr. Expriment; ai. Experiment;
sique, 1906). Mas pelas mesmas observaes                  it. Esperimento). Embora essa palavra s ve-
feitas por Quine o fluxo da E. deve ser conside-            zes seja usada para indicar a experincia em
rado um conceito mtico, pois seria uma su-                 geral, seu valor especfico  o de experin-
cesso ou corrente de intuies instantneas,               cia controlada ou dirigida, ou seja, de obser-
um suceder-se de unidades empricas elementa-               vao (v.). J na Idade Mdia esse termo foi
res, e suporia, portanto, a existncia de tais uni-         usado com esse sentido (cf., p. ex., OCKHAM,
dades elementares que a crtica de Quine contri-            In Sent., Prol., q. 2, G), mas esse significado s
buiu para eliminar.                                         foi fixado por Bacon, que contraps o E.
   Em concluso, hoje se entrev a exigncia                como experientia litterata, ou seja, guiada e
de passar da teoria gnosiolgica da E. para uma             sustentada por uma hiptese,  experincia
teoria metodolgica. Para a teoria gnosiolgica,            que vai espontaneamente ao encontro do
a E., como forma, elemento ou categoria em si,              homem e  casual (Nov. Org., I, 83, 110).
 formada por elementos prprios, caractersti-             Wolff, por sua vez, dizia: "O E.  uma expe-
cos e irredutveis, aos quais, portanto, deve ser           rincia que diz respeito a fatos naturais que
reduzido, direta ou indiretamente, todo enun-               s acontecem quando intervm nossa ao"
ciado emprico. Uma teoria desse gnero tem                 (Psychol. Empir.,  456). Kant falava no mesmo
como pressuposto uma classificao preliminar               sentido de um "E. da razo pura", que consistia
e rgida das formas de conhecimento e tam-                  em ver se a hiptese da existncia do incon-
bm, portanto, das formas de atividade huma-                dicionado conduz ou no a contradio; se
na (teoria-prtica; lgica/linguagem/razo-E.;              conduz a contradio, o E. demonstra que a ra-
enunciados empricos-unidades empricas ele-                zo no pode superar os limites da experincia
EXPERIMENTO CRUCIAL                                  415                                     EXPLICAO2


(Crt. R. Pura, Prefcio  2a edio). Ainda               E. As vrias doutrinas que a filosofia e a meto-
aqui se trata de uma experincia controlada.               dologia da cincia apresentaram sobre a natu-
Claude Bernard, porm, s vezes chamava o                  reza da E. versam todas sobre o significado do
E. de experincia, entendendo com isso                     porqu e sobre as possveis respostas que ele
"uma observao provocada com o fim de dar                 pode ter. Desse ponto de vista, podem ser
origem a uma idia" (Introduction  Vtude                 distinguidas duas espcies fundamentais de
de Ia mdecine exprimentale, 1865, I,  6).               tcnicas explicativas: A) tcnica explicativa cau-
  EXPERIMENTO CRUCIAL. V. CRUCIAL                          sai; B) tcnicas explicativas condicionais.
   EXPIAO (gr. SKti; lat. Expiatio; in.                     A) Existem dois tipos de E. causai, corres-
Atonement; fr. Expiation; ai. Shne, it. Espa-            pondentes aos dois conceitos fundamentais de
zione). Efeito salutar da pena. Plato consi-              causalidade que se alternaram na tradio filo-
derou a E. como o meio de curar as doenas                 sfica e cientfica (v. CAUSALIDADE): a) o conceito
da alma e acreditou que, assim como a eco-                 de causalidade como dedutibilidade, b) o con-
nomia liberta da pobreza e a medicina liberta              ceito de causalidade como uniformidade. Como
da doena, tambm a justia liberta da intem-              esses dois conceitos de causalidade tm a pre-
perana e da injustia (Grg., 478 a) (v. PENA).           tenso de possibilitar uma previso infalvel,
   EXPLICAO1 (lat. Explicatio; in. Expli-                por E. causai pode-se entender, em geral, toda
cation; fr. Explication; ai. Auslegung; it. Espli-         tcnica que permita a previso infalvel de um
cazione). O contrrio de complicao (v.).                 objeto. Mas como a previso infalvel s  pos-
   EXPLICAO2 (in. Explanation, Explica-                  svel quando se trata de objetos necessrios, ou
tion; fr. Explication, ai. Erklrung; it. Spiega-          seja, que no podem no ser ou no podem
zione). Em geral, todo processo tendente a                 ser diferentemente do que so, a E. causai ,
determinar o porqu de um objeto, a tornar                 em todos os casos, a demonstrao da necessi-
um discurso ou uma situao clara e acessvel              dade <\o seu objeto. Desse ponto de vista, afir-
ao entendimento ou a eliminar dificuldades e               mar que "x foi explicado" significa afirmar "x
conflitos de uma situao. Esse termo, j usado            foi demonstrado em sua.necessidade" e por-
por Ccero nesse sentido (Definbus, III, 4, 14;           tanto "x era infalivelmente previsvel". Sobre
De nat. deor, III, 24, 62, etc), foi retomado              essa base comum,  possvel distinguir: a) tc-
por Nicolau de Cusa no sentido de manifesta-               nica explicativa causai que recorre  dedu-
o: "Deus  a complicao de todas as coisas,             tibilidade; b) tcnica explicativa causai que re-
porque todas as coisas esto nele; e  a expli-            corre  uniformidade.
cao de todas as coisas porquanto ele est                    a) A tcnica explicativa que recorre  de-
em todas as coisas" (De docta ignor., II, 3). Sob          dutibilidade  a da metafsica clssica, sobre-
a metfora do "aplainar", "entender", "tornar              tudo de Aristteles. Embora tenha distinguido
explcito", esse termo oculta uma multiplicidade           quatro espcies de causas, Aristteles reconhe-
de significados que podem ser distinguidos se-             ce, para efeito de E., o primado da causa final
gundo as situaes a que fazem referncia.                 como razo de ser, substncia ou forma do
Temos, ento, que:                                         objeto (Depart. an., I, 1, 639 b, 14; 642 a, 17;
   le em face de um termo, explicar significa              cf. CAUSALIDADE) Desse ponto de vista, a E.
determinar seu significado, interpret-lo (v. IN-          finalista  primordial e fundamental, coincidin-
TERPRETAO);                                              do com aquela que, em termos modernos, se
   2a em face de um enunciado analtico, expli-            chama E. gentica, por recorrer  causa efici-
car significa substituir o enunciado em questo            ente, que, em ltima anlise, coincide com a
por um enunciado menos vago, mais exato                    causa final. Nesse sentido, a E. causai identifi-
ou, se possvel, prprio de uma linguagem for-             ca-se com a demonstrao (v.), porquanto 
mal (CARNAP, Meaning and Necessity,  2).                  demonstrao da necessidade. Nesse aspecto,
    3a em face de uma situao humana de con-              Hegel s fazia repetir o ensinamento de Aristte-
flito, explicar significa eliminar as causas ou os         les, quando afirmava ser tarefa da filosofia
motivos do conflito;                                       especulativa "a demonstrao da necessidade",
    4e em face de um objeto em geral, seja ele             vendo s nela a satisfao da necessiciade pr-
coisa, evento ou pessoa, explicar significa for-           pria da razo. Mas esse conceito de E. no se
necer o porqu de ele ser ou acontecer.                    encontra apenas na metafsica: foi freqente-
    Desses quatro significados,  ao quarto que            mente estendido para a cincia. Quando, con-
se refere o problema especfico da natureza da             tra a anlise positivista da cincia, E. Meyerson
EXPLICAO2                                          416                                     EXPLICAO2

afirmava que a cincia no procura s a previ-             cpios ou elementos familiares,  qual recor-
so, mas a E. dos fenmenos, estava reduzindo              rem os adeptos do segundo tipo de E. causai
a E.  identificao, porque s a identificao            (Jbid,, p. 330). Essa mesma doutrina foi esten-
permite a deduo do fenmeno. E diz: "Em                  dida por Hempel ao campo da histria ("The
virtude da causa ou da razo e com a ajuda de              Function of General La ws in History", era Jour-
operao pura de raciocnio, devemos poder                 nal of Philosophy, 1942, pp. 35-48), com a exi-
concluir no fenmeno.  o que se chama uma                 gncia de que a E. causai seja acompanhada
deduo. A causa, ento, pode ser definida                 pelo prognstico infalvel do fenmeno expli-
como ponto de partida de uma deduo de                    cado ilbid., p. 38). Observou-se com justia
que o fenmeno  o ponto de chegada" {De                   que toda a sua teoria da E. pode ser adaptada 
Vexplication dans les sciences, 1927, p. 66; cf.           fsica newtoniana, mas  completamente inca-
Identit et ralit, 1908). Por outro lado, o pr-         paz de dar conta daquilo que se deve entender
prio positivismo remetera a E. ao domnio da               por E. na fsica quntica (N. R. HANSON, "On the
deduo. Stuart Mill escreve: "Diz-se que deter-           Symmetry between Explanation and Predic-
minado fato est explicado quando se indica a              tion", em The Philosophical Review, 1959, pp-
sua causa, ou seja, a lei ou as leis de causao           349-58). Com maior razo, esse tipo de E. no
cujo exemplo  sua produo... De modo se-                 pode ser considerado adequado no domnio
melhante, diz-se que uma lei ou uniformidade               da histria e, em geral, das cincias (v. mais
de natureza est explicada quando se indica                adiante).
outra lei, ou outras leis, de que aquela lei  um              b) O segundo tipo de E. causai  o que re-
caso e das quais ela pode ser deduzida" {Logic,            corre ao conceito de causa como uniformida-
III, 12, 1). Alm disso, uma das tentativas mais           de de interconexo dos fenmenos. Esse  o
conhecidas da "lgica da E.", no mbito do                 conceito introduzido por Hume e utilizado por
positivismo lgico, que  a de C. G. Hempel e              Comte como fundamento da E. "positiva" dos
P. Oppenheim, obedece  mesma inspirao.                  fenmenos. Comte contraps  tentativa meta-
Dando o nome de explanandum ao enunciado                   fsica de descobrir "os modos essenciais de
que descreve o fenmeno a ser explicado e de               produo" dos fenmenos a tarefa puramente
explanans  classe dos enunciados aduzidos                 descritiva da cincia positiva, que se limita a
na considerao do fenmeno (a preferncia                 descobrir as leis dos fenmenos, ou seja, suas
dada ao termo explanation e seus derivados,                relaes constantes (Cours deph. positive, 4-
na literatura anglo-saxnica atual,  determi-             ed., 1887, II, pp. 169, 268, 312, etc). No estgio
nada pela exigncia de reservar o termo expli-             positivo, dizia Comte, "a E. dos fatos, reduzida
cation  anlise dos enunciados), Hempel e                 aos seus termos reais, no  mais do que o
Oppenheim assim descrevem as "condies l-                nexo estabelecido entre os diversos fenmenos
gicas da adequao": "(R 1) O explanandum                  particulares e alguns fatos gerais cujo nmero o
deve ser conseqncia lgica do explanans,                 progresso da cincia tende cada vez mais a di-
em outras palavras, deve ser logicamente de-               minuir" {Jbid., I, p. 5). Esse ponto de vista her-
dutvel da informao contida no explanans,                dava a contraposio estabelecida pelos ilu-
seno este no constituir o fundamento ade-               ministas, especialmente D'Alembert, entre o
quado para o explanandum. (R 2) O expla-                   esprito de sistema e a descrio cientfica da
nans deve conter leis gerais, e estas devem                natureza. Este  muito menos ambicioso do
ser realmente necessrias  derivao do expla-            que o outro, pois no lana mo da dedu-
nandum. (R 3) O explanans deve ter um con-                 tibilidade de um fenmeno (ou da sua descri-
tedo emprico, ou seja, pelo menos em prin-               o) a partir de sua causa (ou de um conjunto
cpio, deve ser suscetvel de comprovao                  de leis gerais), mas recorre  uniformidade ou
por experimento ou observao". A essas con-               constncia das relaes entre fenmenos e,
dies lgicas Hempel e Oppenheim acres-                   portanto,  reduo do fenmeno a ser explica-
centam uma "condio emprica", que  a se-                do a tais relaes constantes.  esse o valor
guinte: "(R 4) Os enunciados que constituem o              dado, p. ex.,  tcnica explicativa causai porP.
explanans devem ser verdadeiros" ("The Logic               W. Bridgman: "A essncia de uma E. causai
of Explanation", 1948, em Readings in the                  consiste em reduzir uma situao a elementos
Philosophy of Science, ed. Feigl e Brodbek,                de tal modo familiares que possamos aceit-los
 1953, pp. 321-22). Essa doutrina da E. est em            como coisa bvia e satisfazer a nossa curiosida-
oposio  concepo que reduz a E. a prin-                de. Reduzir uma situao a elementos significa,
EXPLICAO 2                                           417                                      EXPLICAO 2


do ponto de vista operacional, descobrir corre-              como condicionantes, ou mudando-o em de-
laes familiares entre os fenmenos de que a                terminado sentido, o curso dos acontecimentos,
situao se compe" (The Logic of Modem                      tomando como base as regras gerais da ex-
Pbysics, 1927, cap. II; trad. it., p. 50). Em senti-         perincia, poderia ter tomado uma direo de al-
do anlogo, R. B. Braithwaite disse: "Quando                 gum modo diferente, nos pontos decisivos para
se pergunta a causa de determinado evento, o                 o nosso interesse?" Se pudermos responder afir-
que se quer  a especificao do evento prece-               mativamente, o fato em questo dever ser con-
dente ou simultneo que, conjugado a alguns                  siderado um dos fatores condicionantes do pro-
fatores causais que tm natureza de condies                cesso histrico; se a resposta for negativa, dever
permanentes, seja suficiente para determinar a               ser excludo de tais fatores (Kritische Studien
ocorrncia do evento a ser explicado, de acor-               auf dem Gebiet der kulturwissenschaftlichen
do com uma lei causai, num dos significados                  Logik, 1906, II; trad. it., em //mtododellescienze
habituais de lei causai" (Scentific Explanation,            storico-sociali, p. 223). A moderna metodologia
1953, P- 320). Como, por leis causais, Braith-               da histria  unnime em abandonar os esque-
waite entende as generalizaes empricas que                mas de E. causai e em aceitar um esquema
afirmam concomitncias de sucesso ou simul-                 condicional que se configura de maneiras dife-
taneidade (Jbid,, cap. IX), uma E. que "esteja               rentes, segundo o metodologista. Quando, na
de acordo com uma lei causai"  uma E. que                   doutrina de S. Mill sobre a natureza da E., K.
faz referncia a uma uniformidade empiri-                    Popper observa que "Mill e seus companhei-
camente constatada. Esse ponto de vista  re-                ros historicistas no consideram que as ten-
petido de vrias formas na filosofia contempo-               dncias gerais dependem das condies ini-
rnea, ainda que nem sempre nitidamente                      ciais e tratam tais tendncias como se fossem
separado do precedente.                                      leis absolutas", ao passo que a explicao deve
    B) As tcnicas explicativas causais, tanto a             dar conta, se possvel, das "condies nas quais
fundada na deduo quanto a fundada na co-                   elas persistem" (ThePoverty ofHistoricism, 1944,
nexo uniforme, pretendem conferir  E. causai                28), est procurando transformar o esquema
um carter infalvel e global que corresponde                causai em um esquema condicional. Mas tal-
ao carter de previso certa atribudo ao nexo               vez a melhor formulao do esquema condici-
causai. A tcnica explicativa que pode ser cha-              onal, no que se refere ao seu possvel uso nas
mada de condicional elimina do esquema                       disciplinas histricas, seja a de W. Dray. "Em
explicativo justamente essas caractersticas. Os             alguns contextos, a exigncia de E. estar sufi-
primrdios desse conceito podem ser encontra-                cientemente satisfeita se mostrarmos que o
dos na doutrina de Kant, que tambm empre-                   ocorrido foi possvel, no havendo necessidade
gou em sentido prprio o conceito de condi-                  de mostrar, alm disso, que era necessrio.
o (v.). Kant contrape a E. cientfica dos                 Embora explicar uma coisa, como diz o pro-
fenmenos  "hiptese transcendental" da me-                 fessor Toulmin, significa muitas vezes 'mostrar
tafsica. Diz: "Para a E. dos fenmenos dados,               que ela podia ser esperada' [The Place ofReason
no podem aduzir coisas e princpios que no                 in Ethics, 1950, p. 96], o critrio apropriado
se relacionem com os fenmenos dados, se-                    para um importante domnio de casos  mais
gundo as j conhecidas leis dos fenmenos.                   amplo do que este; para explicar uma coisa s
Uma hiptese transcendental em que, para a E.                vezes basta mostrar que ela no devia causar
das coisas naturais, se empregasse uma simples               surpresa" (Laws and Explanation in History,
idia da razo no seria absolutamente uma E.,               1957, p. 157). Dray contrape esse esquema
porque aquilo que no  suficientemente en-                  explicativo, que ele chama de como-possivel-
tendido com princpios empricos seria explica-              mente (hotv-possibly) ao causai, do por que-
do com algo de que no se entende coisa algu-                necessariamente (why-necessarily), porquan-
ma" (Crt. R. Pura, Doutr. do mtodo, cap. I,                to os dois esquemas so logicamente diferentes
se. 3). Mas foi sobretudo no campo da me-                   e respondem a duas espcies diferentes de per-
todologia histrica que esse tipo de E. foi                  guntas, de sorte que, "no caso da explicao
elaborado; quem o introduziu de modo explci-                como-possivelmente, exigir um conjunto de
to foi Max Weber: "A considerao do significa-              condies suficientes seria mudar a questo"
do causai de um fato histrico comear, antes               (Ibid., p. 169). Esse ponto de vista, apesar de
de mais nada, com a seguinte questo: excluin-               elaborado para as disciplinas histricas, est
do esse fato do conjunto de fatores assumidos                igualmente apto a entender a natureza da E.
EXPLICITO                                           418                                         EXPRESSO


que se verifica agora no mbito das cincias                  EXPOSIO (lat. Expositio; in. Exposition;
naturais, especialmente da mais avanada de-              fr. Exposition; ai. Errterung; it. Esposizione). 1.
las, que  a fsica quntica. Uma vez que nela            Anlise de um conceito ou seu esclarecimento.
tambm falta, alm da condio de previsibi-              Kant chama de E. transcendental "a definio
lidade infalvel, a conexo causai necessitante,          de um conceito como princpio a partir do qual
o nico esquema possvel de E.  a E. condi-              se possa ver a possibilidade de conhecimen-
cional, que se limita a determinar a possibilida-         tos sintticos a priori" (Crt. R. Pura,  3).
de do explanandum. Nesse sentido, pode-se                 Nesse sentido, a E. transcendental do concei-
dizer que a E.  a determinao da possibilida-           to de espao mostrar a possibilidade dos co-
de determinada e verificvel do objeto; onde              nhecimentos a priori que podem provir desse
determinada significa individualizada e reco-             conceito, isto , a possibilidade da geometria.
nhecvel com um mtodo ou procedimento                        2. Na lgica terminista medieval,  a prova
apropriado e, s vezes, mensurvel segundo                de um silogismo de terceira figura por meio de
um esquema de probabilidade, e verificvel                um silogismo da mesma figura, no qual um ter-
significa repetvel em condies adequadas                mo mdio singular exerce a funo que, no pri-
(ABBAGNANO, Possibilita e liberta, 1957, VI,            meiro, era exercida por um termo mdio co-
4-5; Problemi di sociologia, 1959, VIII,  1-5).         mum. P. ex., o silogismo "Alguns homens so
    Deve-se observar, por fim, que o prprio              dotados de virtudes, Todo homem  animal, Al-
procedimento da E. lgica, na forma descrita              guns animais so dotados de virtudes" pode
por Carnap e Reichenbach, inclui-se na catego-            ser exposto assim: "Scrates  dotado de virtu-
ria de E. condicional. Segundo Carnap, a E.               de, Scrates  animal, Alguns animais so dota-
consiste em substituir um termo originrio cha-           dos de virtude" (OCKHAM, Summa log., III, 1,
mado explicandum, que  um conceito vago                  13; JUNGIUS, Log., III, 15).
ou familiar, por um novo conceito exato, que                  EX PRAECOGNITIS ET PRAECONCES
Carnap chama de explicatum e Reichenbach                  SIS. Frmula com que se abrevia o princpio
de explicans. Isso posto, a E. consiste, segun-           exposto por Aristteles no incio de Analticos
do Reichenbach, em determinar o significado               posteriores: "Toda doutrina e toda disciplina dis-
do termo, e o significado se reduz a uma                  cursiva nascem de um conhecimento pre-
possibilidade lgica, fsica ou tcnica, mas, em          existente" (An.post, I, 1, 71 a 1). Bocio ressal-
todo caso, a uma possibilidade (REICHENBACH,              tava a importncia dessa mxima (P. L, 64a col.
"Verifiability Theory of Meaning", em Pro-
                                                          741), que se tornara lugar-comum da esco-
ceedings of the American Academy ofArts and
Sciences, 1951, pp. 46 ss.; CARNAP, Meaning               lstica. Locke julgava-a falaz, pois estava con-
and Necessity,  2) (v. POSSVEL; SIGNIFICADO;            victo de que o fundamento do conhecimento 
VERIFICAO).
                                                          o conhecimento intuitivo (Ensaio, IV, 2, 8).
                                                          Mas Leibniz reivindicava, contra Locke, a valida-
   EXPLCITO (in. Explicit; fr. Explicite; ai.            de da mxima, porquanto expressa o procedi-
Explicit; it. Esplicto). Expresso ou claramente          mento da matemtica (Nouv. ess., IV, 2, 8).
expresso. "Tornar E." ou "explicitar" o signifi-
cado de um termo ou de uma proposio  ex-                   EXPRESSO (lat. Expressio; in. Expression;
press-lo ou reexpress-lo com mais clareza. O            fr. Expression; ai. Ausdruck; it. Espression),
termo oposto, "implcito", significa portanto o           Em sentido geral e moderno, manifestao por
que no  expresso, mas somente sugerido ou               meio de smbolos ou comportamentos simbli-
no expresso claramente.                                  cos. Esse termo foi introduzido no uso filosfi-
   EXPONVEL (in. Exponible, fr. Exponible,               co na segunda metade do sc. XVII, quando
ai. Exponibel; it. Esponibile). Na Lgica me-             comeou a substituir o termo aparncia para
dieval exponibilia eram proposies obscuras              indicar a relao entre Deus e mundo, graas 
porque, embora tivessem forma gramatical de               qual o mundo  "manifestao" de Deus. Spi-
proposies simples, na realidade ocultavam               noza e Leibniz usam o termo nesse sentido.
uma composio cuja anlise (expositio) resol-            Spinoza diz que um modo da extenso e a
via sua obscuridade. Em Kant, "E." tem sentido            idia desse modo so "uma s e mesma coisa
anlogo, porm mais especfico, de proposio             expressa de duas maneiras; o que parece ter
constituda por uma afirmao com uma nega-               sido vagamente entrevisto, por alguns hebreus,
o disfarada, que a exposio evidencia (Lo-            que apresentam Deus, o intelecto divino e as
gik,  31).                                G. P.          coisas por ele percebidas como uma e mesma




                                                                                                                 L
                                                     419                                         EXPRESSO


 coisa" {Et., II, 7, scol.). Leibniz, por sua vez,         que os homens utilizam para falar, para comu-
 considera as substncias espirituais ou mna-             nicar do melhor modo possvel no s seus
das como "E. ou manifestaes" de Deus (Disc.              conceitos, mas tambm suas sensaes". E co-
de mt.,  9, 14; Monad.,  60). Mas com Leibniz           mo essa espcie de E. consiste na palavra, no
comea tambm a histria moderna desse ter-                gesto e no tom, Kant distingue as artes da pala-
mo, que do domnio metafsico passa para o                 vra, as artes figurativas e as artes musicais. E
domnio antropolgico, onde  empregado                    acrescenta: "Poder-se-ia tambm conduzir essa
para designar o comportamento tipicamente                  diviso dicotomicamente, distinguindo as be-
humano de falar por smbolos ou utiliz-los.               las-artes nas que exprimem o pensamento e
Leibniz diz: "O modelo de uma mquina ex-                  nas que exprimem a intuio; e estas ltimas,
pressa a mquina e, assim, um desenho plano                segundo a forma ou a matria" (Crt. do Juzo,
em perspectiva expressa um corpo com trs di-               51). Desse modo, a noo de E. servia a Kant
menses, uma proposio exprime um pensa-                  para interligar arte e linguagem, o que se man-
mento, um sinal expressa um nmero e uma                   teria e reforaria na esttica contempornea.
equao algbrica expressa um crculo ou                       Por outro lado, o conceito de E. era cada
outra figura geomtrica: todas essas E. tm em             vez mais empregado para designar a relao
comum o fato de que da simples considerao                entre as manifestaes corpreas das emoes
das relaes da E. pode-se chegar ao conheci-              e as prprias emoes: relao que, a partir da
mento das propriedades correspondentes da                  obra de Darwin (A E. das emoes no homem e
coisa que se quer expressar. Disso resulta que             nos animais, 1872), mostrou-se essencial 
no  necessrio pensar numa semelhana re-                teoria das emoes (v. EMOO). Mas nem esse
cproca entre E. e coisa, contanto que seja                uso do termo, nem o uso ainda mais amplo
mantida uma certa analogia de todas as rela-               que dele se fez em esttica contriburam muito
es" (Quid sil Idea, Op., ed. Gerhardt, VII, p.           para determinar o seu significado, que na
263). Essas consideraes de Leibniz marcam a              maioria das vezes  pressuposto pelas investi-
extenso do termo E. a toda espcie ou forma               gaes estticas ou psicolgicas, mas no 
da relao entre o smbolo e o que ele designa             questionado nem esclarecido em suas possibili-
e constituem, portanto, tambm o incio do uso             dades constitutivas. P. ex., no esclarece muito
desse termo para significar "frase", "enunciado",          o significado de E. a identidade estabelecida
"frmula", etc. No trecho citado, Leibniz conti-           por Benedetto Croce, como fundamento da sua
nua observando que "algumas E. possuem fun-                esttica, entre intuio e E. (Esttica, cap. I). Ve-
damento natural, ao passo que outras, como as              remos, alis, que a tendncia a identificar essas
palavras da linguagem e os sinais de qualquer              duas coisas constitui a fase primitiva do com-
gnero, dependem, ao menos em parte, de                    portamento expressivo. Tampouco so escla-
uma conveno arbitrria". E acrescenta que a              recedoras as determinaes de Dewey, segun-
idia  uma E. nesse sentido: "Embora a idia              do as quais a E.  "o aclaramento de uma emoo
da circunferncia no seja semelhante  circun-            turva", sendo, pois, a "objetivao da emo-
ferncia tal como esta , na natureza da primei-           o" (Art as Experience, 1934, cap. IV).  prov-
ra podem ser deduzidas verdades que sero,                 vel que essas caractersticas possam ser
sem dvida, confirmadas pela experincia refe-             atribudas legitimamente  E. esttica, mas
rente  circunferncia real" (Ibid., p. 263). Co-          ainda no a descrevem suficientemente. Sem
meava a histria moderna desse termo; com                 dvida,  fonte de confuso a observao de
Kant ele entraria no domnio da esttica. Com              Wlfflin de que "a arte  E., a histria da arte
efeito, Kant utilizou o conceito de E. para clas-           histria da alma" (Das Erklaren von Kunst-
sificar as belas-artes. "Em geral, pode-se dizer           werken, 1921,  3). Mais profcua foi a investi-
que a beleza (da natureza ou da arte)  a E. das           gao sobre o conceito de E. feita em campo
idias estticas; a diferena entre natureza e             estritamente filosfico. Dilthey j ressaltava em
arte  que na arte a idia pode ser ocasionada             Construo do mundo histrico (1910) a fun-
por um conceito, ao passo que na bela nature-              o da E. e, em primeiro lugar, da linguagem
za basta a reflexo sobre uma intuio dada,               em relao ao pensamento discursivo do juzo
sem o conceito do que deve ser o objeto, para              (Aufbau, III, 1). E Husserl via na E. a consecu-
suscitar e comunicar a idia, cuja E. o objeto            o perfeita dos atos significativos prprios da
considerado." Portanto, para classificar as belas-         conscincia terica. Como tal, a E. no  meio
artes, podemos utilizar "a mesma espcie de E.             nem instrumento, mas um estado final, uma
EXPRESSO                                              420                                             XTASE


concluso. "O estrato da E.", diz Husserl, "sem                  Podemos ento resumir do seguinte modo
considerar que fornece E. a todos os outros ele-             as caractersticas fundamentais da E., tais como
mentos intencionais  -- e isso constitui a sua              esclarecidas pela investigao moderna:
peculiaridade -- improdutivo. Ou, se se quiser,                  Ia a E.  uma consecuo, um termo final,
sua produtividade, sua ao normativa, esgota-se             mais do que um instrumento ou um meio;
na expresso e na forma do conceituai, que                       2a a E. consiste em manifestar-se por meio
sobrevm nova com ele" (Ideen, I,  124). Des-               de smbolos, sendo, por isso, um comporta-
se modo, Husserl acolhia em sua filosofia uma                mento caracterstico e prprio do homem;
das caractersticas que hoje so consideradas                    3a a E., ao menos em sua forma madura,
prprias da E.: ela no se limita a provir daqui-            implica diversidade, "distncia", ou seja, alteri-
lo que expressa, mas, de certo modo, realiza-o               dade entre smbolo e contedo simblico (ou,
e aperfeioa-o. Heidegger insistiu nesse carter             como tambm se diz, entre smbolo e intuio
afirmando que "ao falar, o ser-a se expressa,               correspondente) .
mas no porque esteja antes de tudo envolto                      Pela primeira caracterstica, a E. se diferen-
num dentro oposto a um fora, mas porque,                     cia da comunicao, que tem valor instrumen-
enquanto ser-no-mundo, j est fora, na sua                  tal: a linguagem como E. no  um simples
compreenso". Isso eqivale a definir o ho-                  meio de comunicao, mas um modo de ser ou
mem com base em sua possibilidade de ex-                     de realizar-se do homem. Nesse sentido, diz-
pressar-se, o que os gregos entreviram ao de-                se que a arte  E.: nela, com efeito, os instrumen-
finir o homem como "animal racional" (em                     tos de comunicao assumem Valor final. Nes-
que razo eqivale a "discurso") (Sein und                   se sentido, Scheler afirma que o ato sexual 
Zeit,  34). Mas os esclarecimentos mais im-                 "um movimento de E., no um movimento
portantes sobre o conceito de E. foram feitos                com vistas a um objetivo". De fato, no se quer,
por Cassirer. Ele mostrou a funo constitutiva              no amor, o ato sexual (quer-lo significa inibi-
que as formas simblicas exercem na constru-                 lo), mas  o ato que exprime o amor, que  o
o da vida espiritual, de que no so aspectos              seu modo de realizao (Sympathie, I, cap. 7;
acidentais e derivados, mas fatores condicionan-             trad. fr., p. 182). Pela segunda caracterstica,
tes. Cassirer tambm foi quem mais contribuiu                a E.  prpria de qualquer espcie de com-
para esclarecer os caracteres e as condies da              portamento que consista na produo ou no
expresso. Distinguiu no desenvolvimento das                 uso dos smbolos, estando, pois, ligada ao con-
formas lingsticas trs estgios, que designou,             ceito geral de linguagem (v.). Pela terceira ca-
respectivamente, E. mimtica, E. analgica e E.              racterstica, a E.  diferente da intuio e de to-
simblica. Na E. mimtica ainda no h tenso                das as relaes de identificao.
entre o signo lingstico e o contedo intuitivo
ao qual se refere: as duas coisas tendem a re-                   XTASE (gr. eiccrraai; lat. Extasis-, in. Ecs-
solver-se uma na outra e a coincidir. "S gra-               tasy, fr. xtase, ai. Ekstase, it. Estasi). Fase su-
dualmente encontramos uma distncia, uma                     pra-intelectual da ascenso mstica para Deus,
diferenciao crescente entre signo e contedo,              fase em que a busca intelectual de Deus cede
e s ento se realiza o fenmeno caractersti-               lugar a um sentimento de estreita comunho
co e fundamental da linguagem, a separao                   ou mesmo de identificao com ele. Essa pa-
entre som e significado. S quando essa sepa-                lavra (que na linguagem comum significa,
rao ocorre, a esfera do significado lingstico            alm de arrebatamento, pasmo ou exalta-
constitui-se como tal. No incio, a palavra per-             o) foi empregada no sentido acima enunci-
tence  esfera da mera existncia: o que se                  ado por vrias correntes religiosas da filosofia
aprende no  um significado, mas um ser                     alexandrina e especialmente pelos neopla-
substancial ou uma fora sua" (Ph. der sym-                 tnicos. Flon caracterizava o . como "transfor-
 bolischen Formen; trad. in., I, pp. 186 ss.; II, p.         mao da inteligncia", uma transformao que
237). Do mesmo modo, o mito no aparece, no                  no  realizada pela prpria inteligncia, mas
incio, como imagem ou "E. espiritual", mas                  diretamente por Deus (Ali. leg., II, 31-32). Ploti-
como uma realidade objetiva ou arte essencial                no caracteriza o . como a supresso da alterida-
dessa realidade. Essa caracterstica da E. certa-            de entre aquele que v e a coisa vista, e como
mente  fundamental e constitui a confirmao,               identificao total e entusistica da alma com
no plano antropolgico, da diversidade entre a               Deus. "No  mais uma viso", diz ele, "mas um
E. e seu contedo, j evidenciada por Leibniz.               modo diferente de ver: .  simplificao e
                                                             doao de si mesmo, desejo de contato, repou-
EXTENSO                                            421                                        EXTENSO


so e compreenso de conjuno" (Enn., VI, 9,              Estension). Carter fundamental dos corpos
11). A linguagem do amor, especialmente do                fsicos dotados das trs dimenses do espao.
amor entendido como unidade (v. AMOR),                   Com base nesse carter, Aristteles definiu o
freqentemente empregada pelos msticos para              corpo (Fs., III, 5, 204 b 20). Descartes nada
descrever o estado de xtase,  o que muitas              mais fez do que exprimir esse mesmo conceito
vezes faz Plotino (p. ex., Enn., VI, 7, 34), e o          quando viu na E. "a natureza da substncia ma-
que faro os msticos medievais, para quem                terial, assim como o pensamento constitui a na-
essa noo foi transmitida sobretudo graas s            tureza da substncia pensante" (Princ. phii, I,
obras do pseudo Dionsio Areopagita. Para ele,            53) Para Spinoza, E. era um dos atributos fun-
o grau mais elevado da ascenso mstica  a               damentais de Deus, da Natureza (Et., II, 2). Mas
deificaoiy.}, ou seja, a transformao do ho-           Ockham, no sc. XIV, evidenciava o carter
mem em Deus (De mystica theol., I, 1).  desse            fundamental da E. como atributo dos corpos:
modo que Bernardo de Claraval (sc. XI) en-               " impossvel que a matria no tenha E.: no
tende o ., chamando-o tambm de excessus                 h matria que no tenha uma parte distante da
mentis e considerando-o supremo grau da con-              outra, donde resulta que, embora as partes da
templao, em que a alma se une a Deus assim              matria possam interligar-se como as da gua
como uma gota d'gua que cai no vinho dissol-             ou do ar, nunca podero existir no mesmo lu-
ve-se e adquire o sabor e a cor do vinho (De              gar. Ora, a distncia recproca das partes da
diligencio Deo, 11, 28).  tambm dessa manei-            matria  a E." (Summulaephysicorum, I, 19).
ra que os msticos de S. Vtor consideram o .            Precisamente como caracterstica do corpo,
Segundo Ricardo de S. Vtor, .  o pice do              para Hobbes a E.  o espao real, ou seja, a
ltimo grau da ascenso a Deus, ou seja, da               grandeza do corpo, diferente do espao ima-
alienao da mente de si mesma (De prae-                  ginrio, que  o espao puro e simples, ou
paratione ad contemplationem, V, 2). E S.                 espao vazio (De corp., 8, 4). As consideraes
Boaventura, por sua vez, v no . a elevao              de Leibniz no so muito diferentes. Ao lado
acima de si mesmo, at a fonte do amor supra-             da antitipia(y), a E.  urna das caractersticas
intelectual.  um estado de douta ignorn-                fundamentais da matria.  a continuidade no
 cia, no qual a obscuridade dos poderes cog-              espao, graas  qual suas modificaes cons-
 noscitivos transforma-se em luz sobrenatural             tituem a variedade das dimenses e das confi-
 (Breviloquium, V, 6). Essa noo passou sem              guraes (Op., ed. Erdmann, p . 463). Locke iden-
 mudanas para os msticos alemes do sc.                tificava, como j Descartes, a E. com o espao
 XIV (Eckhart, Suso, Tauler). Giordano Bruno              (Ensaio, II, 13, 3).
 utilizou a terminologia mstica do . (raptus
 mentis, excessus mentis) no seu dilogo Degli                Com Berkeley, a E. comea a reduzir-se a
 eroicifurori para indicar a conjuno do inte-           fenmeno subjetivo.  definida por ele como
 lecto "herico" com "o seu objeto, que  a pri-          uma idia, que existe enquanto  percebida
 meira verdade ou a verdade absoluta" (I, 4),             (Principies of Knowledge, I,  9): afirmao que
 alis, a prpria natureza.                               Hume reforou dizendo que a E. nada mais 
                                                          que uma cpia de alguma impresso (Treatise,
   Na Idade Moderna, o . nesse sentido atraiu            I, 2, 3). Essa subjetivao da E., realizada pelo
sobretudo a ateno dos psiclogos e dos psi-             empirismo setecentista do ponto de vista da
quiatras, que no conseguiram perceber ne-                intuio sensvel, no idealismo romntico par-
nhuma diferena, a no ser no contedo inte-              te do ponto de vista da razo especulativa. Schel-
lectual, entre o . religioso e o . produzido            ling pretende demonstrar a priori por que "se
por condies anormais da vida psquica ou                deve considerar necessariamente que a matria
por drogas (cf. J. H. LEUBA, The Psychology of            se estende segundo trs dimenses", e faz essa
Religous Mysticism, 1925, especialmente cap.             suposta demonstrao deduzindo as trs di-
IX). Segundo Pierre Janet, em todos os casos o            menses do espao do modo de operar da for-
. caracteriza-se por: 1Q supresso quase com-            a de atrao e de repulso (System des trans-
pleta da atividade motora e disposio  imobi-           zendentale Idealismus, 1800, III, 2, Deduo da
lidade; 2fi atividade mais ou menos intensa do            matria, Cor.). De modo anlogo, Maine de
pensamento interno; 3a grande sentimento de               Biran julgava poder deduzir "necessariamente"
alegria (De 1'angoisse  Vextase, 1928, p. 497).          a idia de E. da idia de esforo e resistncia
   EXTENSO (gr. CTiTOCGi; lat. Extensio;              que ele implica, no sentido de que a E. seria
in. Extension; fr. Extension; ai. Ausdehnung; it.         uma "continuidade de resistncia" (Fond. dela
EXTENSO e INTENSAO                                    422              EXTERIORIDADE, INTERIORIDADE

Psychologie, Giivres, ed. Naville, II, p. 272). Ten-         foi feita por Kant, para quem E.  "a quanti-
tativa semelhante  a de Bergson, que procura                dade na qual a representao das partes possi-
entender a E. como o movimento oposto ao da                  bilita a representao do todo (portanto, pre-
vida, ou seja, como o movimento em que o eu,                 cede-a necessariamente)"; p. ex., as partes do
entregando-se  fantasia caprichosa, espalha-se              espao ou do tempo so quantidades E. nesse
numa multiplicidade de sensaes externas                    sentido, porque as quantidades espaciais ou
umas s outras. A E. seria a distensoo esfor-              temporais so sempre intudas como agrega-
o do eu vol. cratr., 8a ed., 1911, p. 220). Con-         dos ou multiplicidade de partes dadas previa-
ceitos semelhantes aos expostos por Schelling,               mente. A quantidade intensiva, ao contrrio, 
Maine de Biran e Bergson so muito comuns                    a "que se apreende somente como unidade e
na filosofia da segunda metade do sculo pas-                em que a multiplicidade s pode ser represen-
sado e dos primeiros decnios do sc. XX. Mas                tada por aproximao  negao = O". Quer
esse tipo de especulao perdeu interesse filo-              dizer: a quantidade intensiva  a que sempre
sfico ou cientfico nos ltimos decnios, devi-             tem graus; p. ex., o vermelho tem um grau
do s mudanas na noo de corpo (v.) produ-                 que, por pequeno que seja, nunca  mnimo, o
zidas pela fsica relativista. A noo de corpo              mesmo ocorrendo com o calor, o peso, etc.
como intensidade particular de um campo de                   Essas so as qualidades contnuas ou, como
energia no precisa mais ser definida em ter-                diz Kant com termo newtoniano, fluentes (Crt.
mos de E.; em outras palavras, a E. pode ser                 R. Pura, II, 2, se. 3, Axiomas da intuio).
entendida s como possibilidade de medir a                      EXTERIORIDADE, INTERIORIDADE (in.
intensidade de energia em dado campo.                        Exteriority, interiority, fr. Exteriorit, intriorit,
   EXTENSO e INTENSAO. V. INTENSO e                        ai. Aeusserlichkeit, Innerlichkeit; it. Esteriorit,
EXTENSO.                                                    interiorit). O tema filosfico da oposio en-
   EXTENSIONALIDADE, TESE DA (in The-                        tre interioridade e E. nasce juntamente com a
sis of extensionality, fr. Thse d'extensional,            noo de conscincia (v.) e expressa a oposi-
it. Tesi delia estensionalit). Assim foi chama-             o entre o que  alheio  conscincia e o que
da por Russell {Principia mathematica, I2, XIV,              lhe  prprio. Foi a pregao popular estica
pp. 659 ss.) e por Carnap (Logische Syntax der               que explorou pela primeira vez esse tema, o
Sprache, 1937,  67, trad. in., pp. 245 ss.) a tese          que se repete com freqncia nas pginas de
segundo a qual "para cada sistema no ex-                    Epicteto, Marco Aurlio e Sneca. Epicteto diz: "
tensional h um sistema extensional no qual o                estado e marca do homem comum nunca espe-
primeiro pode ser traduzido". Como os enun-                  rar benefcio ou prejuzo de si mesmo, mas das
ciados intensionais mais importantes so os                  coisas de fora. Estado e marca do filsofo 
modais, a tese em questo afirma a tradutibi-                esperar ou temer de si mesmo toda e qualquer
lidade dos enunciados modais em enunciados                   utilidade ou dano" (Manual, 48). E Marco Au-
no-modais. P. ex., os enunciados "A  poss-                rlio: "As coisas por si mesmas no chegam a
vel", "A = no A  impossvel", "A ou no A                 tocar a alma, a ela no tm acesso nem podem
necessrio", "A  contingente" eqivaleriam                  mud-la ou remov-la. Mas  a alma que por si
respectivamente aos seguintes enunciados: "'A'               muda e modifica-se, e sejam quais forem os
no  contraditrio", '"A = no A'  contradit-             juzos que ela se julgar digna de fazer sobre as
rio", "'A ou no A:  analtico", "'A'  sinttico"          coisas que a rodeiam, do mesmo modo ela far
(Logische Syntax der Sprache,  69; trad. in.,               que para ela sejam as ditas coisas" (Memrias,,
pp. 250 ss.) O prprio Carnap, todavia, apre-                V, 19). Sneca contrape "a alegria que nasce
sentava a tese da E. como simples suposio,                 do interior"  que deriva das coisas exteriores
embora plausvel, e a exprimia paradoxalmen-                 (Ep., 23). Neoplatonismo e cristianismo so res-
te, com um enunciado modal: "Uma lingua-                     ponsveis pela identificao da interioridade
gem universal da cincia pode ser extensional                com a esfera da conscincia e da E. com a
(Ibid.,  67; trad. in., p. 245). Mesmo depois               esfera do mundo a que pertencem as coisas
Carnap no se pronunciou sobre a validade da                 naturais e os outros seres. O tema da oposio
tese (Meaning and Necessity, 1957,  32).                    entre interioridade e E. tornou-se, assim, um
   EXTENSIVO e INTENSIVO (in. Extensive
                                                             tema clssico de toda filosofia que recorre 
and intensve, fr. Extensifet intensif, ai. Exten-           conscincia como esfera de realidade privile-
siv und intensiv, it. Estensivo ed intensivo). A             giada tanto pela sua certeza quanto pelo seu
distino entre grandeza E. e grandeza intensiva             valor. A linguagem comum acolheu os signifi-
EXTRAPOLAO                                         423                       EXTRINSECO, INTRNSECO


cados filosficos das duas palavras, com a                     2. O mesmo que analogia (v.).
significao de contraposio entre o que                     EXTREMO (gr. t eaxortOV; lat. Extremum;
conscincia e o que no . A metafsica do                 in. Extreme, fr. Extreme, ai. Aeusserste, it. Es-
espirualismo (v.) e o mtodo da ntrospeco              tremo). O que  primeiro ou ltimo em qual-
(v.) utilizam igualmente esse lema tradicional.            quer srie. Foi assim que Aristteles entendeu
Seria muito fcil mostrar o carter puramente              esse termo, notando que os E. no so substn-
metafrico (portanto, a ausncia de significado            cias, mas limites (Met., XIV, 3, 1090 b 9). Nesse
preciso) das expresses em que aparecem                    sentido, diz-se que o ponto  o E. da linha, a li-
esses termos ou os adjetivos corresponden-                 nha  o E. do plano e o plano  o E. do slido.
tes. "Realidade interna" e "realidade externa",            No mesmo sentido, fala-se de uma espcie E.
"mundo interior" e "mundo exterior", "objetos              (ltima), que  a mais prxima do indivduo
internos" e "objetos externos" so expresses              (Jbid., III, 3, 998 b 15). E. (ltimo)  tambm o
que, a rigor, no tm sentido, seja porque no             motor imvel, porque  o primeiro na srie dos
se faz referncia ao mbito fechado em rela-               movimentos (Fs., VIII, 2, 244 b 4). E. so tam-
o ao qual um "externo" e um "interno" pos-               bm os dois termos do silogismo que apare-
sam ser determinados, seja porque tal mbito               cem na concluso e cuja relao  estabelecida
fechado, quando determinado, no  espacial,               pelo termo mdio (An.pr., I, 4, 25 b 30). Pode-
pois  a prpria conscincia. Hegel utilizou               se dizer que essa palavra conserva o mesmo
abundantemente esses termos que, justamente                significado at hoje (v. LTIMO).
por meio de sua obra, penetraram na termino-                   EXTRINSECO, INTRNSECO (in. Extrin-
logia filosfica. Ele identificava o interior com          sical, intrinsical; fr. Extrinsque, intrinsque,
a "razo de ser" e o exterior, com sua manifes-            ai. Aeusserlich, innerlich; it. Estrinseco, intrn-
tao (Ene,  138-39). Mas tinha o bom senso              seco) . Em geral, diz-se que  intrnseco o que
de acrescentar: "Assim como o homem  ex-                  pertence  essncia ou  natureza de uma coi-
ternamente, ou seja, em suas aes (por certo              sa e E. o que lhe  estranho. Segundo a lgica
 no na sua E. somente corprea), tambm                  tradicional,  intrnseco a .um objeto o carter
 interno; e quando ele  s interno -- virtuoso,           que entra na definio desse objeto; p. ex., a
 moral, s em intenes, disposies, etc. -- e            racionalidade, se o homem  definido como
 o seu exterior no  idntico a tudo isso, ento          "animal racional". Do ponto de vista de uma
 um  to vazio quanto o outro" (Jbid.,  140).            lgica que no se funde na noo de essn-
    EXTRAPOLAO (in. Extrapolation; fr.                   cia necessria ou de substncia (v.), as de-
 Extrapolation; ai. Extrapolation-, it. Estrapola-         terminaes E. ou intrnseco tm um signifi-
 zione). 1. Clculo dos valores de uma funo              cado muito mais flexvel, porque relativas aos
 com argumentos que esto alm daqueles para               vrios significados de um objeto qualquer (v.
 os quais j se conhecem os valores da funo.             SIGNIFICADO).
                                                  F

    F. Na lgica medieval, os silogismos cujos        compromissos ou o capricho; assim, com o
nomes mnemnicos comeam com essa letra               auxlio das suas alegorias eruditas supuseram-
so redutveis ao quarto modo da primeira fi-         nas como fbulas. Mas os primeiros autores
gura (cf. PEDRO HISPANO, Summ. log., 4. 20).          dessas F. no entenderam tais sentidos doutos,
    FABRICAO (fr. Fabricatiori). A atividade        nem, pela sua natureza rstica e ignorante,
prpria da inteligncia, segundo Bergson. Essa        podiam entend-los: antes, por essa mesma
, com efeito, "a faculdade de fabricar objetos       natureza, conceberam as F. como narraes
artificiais, especialmente utenslios para fazer      verdadeiras... das suas coisas divinas e huma-
outros utenslios, e de variar indefinidamen-         nas" (5c. nuova, II, Delia metafsica potica).
te sua F.". Desse ponto de vista, a verdadeira de-    Essa idia de VIO ficou como fundamento da
finio do homem no  Homo sapiens, mas              moderna filosofia das formas simblicas (v. MITO).
Homofaberivol. cratr, 11a ed., 1911, P- 151;            FABULAO (fr. Fabulatior). Bergson de-
Lapense et le mouvant, 3a ed., 1934, p. 97).         signou desse modo a faculdade ou o ato cria-
    FBULA (lat. Fbula- in. Fable, fr. Fable, ai.    dor de fices ou supersties, em que con-
Fabel; it. Favol). A partir do Renascimento, a       siste essencialmente a religio esttica, que,
convico de que as "F. antigas" tinham valor de      mediante fices mais ou menos consoladoras,
sintoma ou revelao indireta da verdade levou a      procura defender a vida contra o poder desa-
reinterpretar os mitos antigos, emprestando-lhes      gregador da inteligncia (Deux sources, cap. II).
por vezes (como se v nas obras de Bruno) signi-          FACTICIDADE (in. Facticity, fr. Facticit,
ficados filosficos. Quanto ao valor das F., Bacon    ai. Faktizitt; it. Effettivita). Segundo Heideg-
e Vio representam atitudes fundamentais. Ba-         ger, o que caracteriza a existncia como lan-
con achava que as F. esto entre o silncio e o es-   ada no mundo, ou seja,  merc dos fatos, ou
quecimento das idades perdidas e a memria e          no nvel dos fatos e entregue ao determinismo
a evidncia das idades mais prximas, de que          dos fatos. O "fato", que  simplesmente a pre-
possumos documentos escritos. "As F.", escre-        sena das coisas utilizveis,  objeto de "cons-
veu ele, "no so produto das suas pocas nem         tatao intuitiva". A F. da existncia, ao contr-
fruto da inveno potica, mas uma espcie de         rio, s  acessvel atravs da "compreenso
relquia sagrada e tnue aura de tempos melho-        emotiva" (Sen undZeit,  29). Nesse sentido,
res, que da tradio das naes mais antigas che-     a F.  um modo de ser prprio do homem e
garam at as trompas e as flautas dos gregos" {De     diferente da factualidade (v.), que  o modo
sapientia veterum, 1609, Pref.). Portanto, Bacon      de ser das coisas. De modo anlogo, Sartre
propendia a entrever nas F. um significado aleg-     deu o nome de F. ao fato da liberdade, ou seja,
rico intencional. Essa tese  negada e combatida,     ao fato de que a liberdade no pode no ser
um sculo depois, por Vio, para quem as F. so       livre e no pode no existir: nesse caso, li-
tais s do ponto de vista dos doutos, ao passo        berdade identifica-se com necessidade do fra-
que para os povos primitivos que as criaram           casso (L'tre et le nant, p. 567).
eram narraes verdadeiras. "Os filsofos", diz           FACTCIO (in. Factitious; fr. Factice, ai.
Vio, "atriburam s F. interpretaes fsicas,       Gemacht; it. Fattizi). Termo que se emprega
morais, metafsicas ou de outras cincias, se-        quase exclusivamente com referncia  classifi-
gundo lhes animassem a fantasia o ouro, os            cao cartesiana das idias em inatas, advent-
FACTUALIDADE                                           425                                           FACULDADE

cias e factcias; as ltimas so as idias "feitas e         permtico; d) linguagem (DIG. L, VII, 157;
inventadas" por ns {Md., III).                             SEXTO EMPRICO, Adv. math., IX, 102). Na filo-
    FACTUALIDADE (in. Factuality, ai. Tatsch-               sofia medieval, a partio aristotlica, que acaba
lichkeit; it. Fatticita). Husserl deu esse nome              por prevalecer no fim da Escolstica e  repe-
ao modo de ser do fato, enquanto essencial-                  tida por muitos pensadores (p. ex., Alberto
mente "casual", ou seja, porquanto pode ser di-              Magno, S. Toms, Duns Scot, Ockham), entre-
ferente do que  {Ideen, I,  2). Heidegger fez              laa-se com o tipo de partio que fora inaugu-
a distino entre a "F. do factum brutum de                  rado por S. Agostinho e que consiste em julgar
uma simples presena", de uma coisa, e afacti-               que as partes da alma tm como modelo a Trin-
cidade{v.) da existncia {Sein undZeit, % 29).               dade divina. S. Agostinho distinguira, com efei-
    FACULDADE (gr. yuxn eiSo ou upiov;                    to, trs faculdades da alma: memria, intelign-
lat. Facultas, in. Faculty, fr. Faculte, ai. Ver-            cia e vontade, correspondentes s trs pessoas
 mgen; it. Facolt). 1. Entendem-se por esse                da Trindade, definidas respectivamente como
nome os poderes da alma, ou seja, as esp-                   Ser, Verdade e Amor {De Trin., X, 18). Esta divi-
cies ou partes em que  possvel classificar e               so e outras anlogas encontram-se freqente-
dividir suas atividades ou princpios aos quais              mente na Escolstica ( repetida, p. ex., por S.
so atribudas tais atividades. A distino entre            ANSELMO, Monol., 67). A partir de Descartes, a
os poderes da alma, bem como a prpria no-                   nica diviso admitida foi a que Aristteles
o de um poder que se refere  alma, nascem                 considerara prpria da alma intelectiva ou dia-
da bvia considerao da diferena entre as                  notica, entre vontade (apetio ou desejo) e
operaes atribudas  alma e do fato de que                 intelecto propriamente dito, ou seja, a diviso
essas operaes podem opor-se entre si. Com                  fundada no uso prtico e no uso terico da
esse fundamento, Plato distinguiu trs pode-                razo. Para Descartes, a alma  apenas a alma
res, que ele chamava de espcies (e5r|, Rep.,               "racional", j que as funes vegetativa e sensi-
IV, 440 e) da alma: poder racional, graas ao                tiva no pertencem  alma racional nem a ou-
qual a alma raciocina e domina os impulsos                   tra espcie de alma, porquanto so funes
corpreos; poder concupiscvel ou irracional,                mecnicas, explicadas pelo mecanismo corpreo
que preside aos impulsos, aos desejos, s ne-                {Discours, V). A diviso entre intelecto e vonta-
cessidades e concerne ao corpo; poder irasc-                de  enunciada por Descartes {Pass. de 1'me, I,
 vel, que  auxiliar do princpio racional e in-             17) como entre as aes da alma, que com-
digna-se e luta por aquilo que a razo julga                 preendem todos os desejos, entre os quais Des-
justo {Rep., IV, 439-40). J Aristteles distinguiu:         cartes inclui a vontade {Ibid., 18), e as paixes,
 a) parte ((Xpiov) vegetativa, que  a potncia             que compreendem "todas as espcies de per-
nutritiva e reprodutiva prpria dos seres vivos,             cepes ou formas de conhecimento". Essa
a comear pelo homem; b) parte sensitiva, que                diviso  elucidada pelo modo como Descar-
compreende a sensibilidade e o movimento, e                  tes a utiliza na sua teoria do erro: este depende
  prpria do animal; c) parte intelectiva {dia-             do concurso de duas causas, do intelecto e da
 noticd), que  prpria do homem. O princ-                 vontade. Com o intelecto o homem no afirma
 pio mais elevado pode fazer as vezes dos inferio-           nem nega nada, mas concebe to-somente as
 res, mas no vice-versa. Assim, no homem a                  idias que pode afirmar ou negar. O ato de
 alma intelectiva tambm cumpre as funes que               afirmar ou negar  prprio da vontade. Ora, a
 nos animais so realizadas pela alma sensitiva e            vontade  livre e como tal  muito mais ampla
 nas plantas pela vegetativa {Dean., II, 2, 413 a            que o intelecto e pode, portanto, afirmar ou
 30 ss.). Por sua vez, o princpio dianotico                negar at o que o intelecto no consegue per-
 ou alma intelectiva divide-se em duas partes                ceber clara e distintamente {Md., IV; Princ.
 que so, respectivamente, a parte apetitiva ou              phil., I, 34). Com isso estabelecia-se a distino
 prtica (a vontade) e a parte intelectiva ou                entre intelecto e vontade, o que seria aceito at
 contemplativa (o intelecto) {Ibid., III, X, 433 a           Kant.  bem verdade que Spinoza negou a
 14; Et. nic. VI, 1, 1139 a 3; Poi, 1133 a). Essa            existncia de F. separadas na alma, aduzindo
 diviso seria aceita e difundida durante muitos             que elas "so fictcias, entidades metafsicas ou
 sculos. Os esticos, todavia, haviam pro-                  universais que formamos a partir das coisas
 posto outra, consistente em quatro princpios:              particulares" {Et., II, 48). Mas isso significa que para
 ) princpio diretivo ou hegemnico, que  a                ele "vontade e intelecto so a mesma coisa"
 razo; b) sentidos; c) princpio seminal ou es-             {Ibid., 49, corol.), sendo a distino pressups-
                                                                                                                      T
FACULDADE                                                426                                       FALIBILISMO

ta com fins polmicos. O prprio Locke a reco-                 cia ou do organismo, de tal modo que tais dis-
nhece quando, a propsito da idia de fora,                   tines deixam de ter interesse e fala-se de
afirma que a vontade e o intelecto so as duas                 "comportamento racional" ou "comportamento
foras que explicam as transformaes que                      emocional", num sentido em que essa distino
ocorrem no nosso esprito (Ensaio, II, 21,  5-               no tem mais razo de ser (v. BEHAVIORISMO;
6). Leibniz diz que os dois princpios agentes                 COMPORTAMENTO).
na mnada so a percepo e a apetio                             2. No significado mais geral, o mesmo que
(Monad.,  14-15). Wolff, por sua vez, reco-                  Poder (v.).
nhecia no conhecimento e na apetio as duas                       FALCIA (gr. o(piO(J.a; lat. Fallacia; in.
funes fundamentais do esprito humano e,                     Fallacy, fr. Sophisme, ai. Fallacie, it. Fallacia).
com base nessa diviso, modelava a diviso da                  Termo com que os escolsticos indicaram o
filosofia nos dois ramos fundamentais, filosofia               "silogismo sofistico" de Aristteles. Pedro His-
terica ou metafsica e filosofia prtica (Log.,               pano disse: "F.  a idoneidade fazendo crer
Disc. Prael.,  60-62).                                       que  aquilo que no , mediante alguma viso
    Kant, somando as anlises dos empiristas in-               fantstica, ou seja, aparncia sem existncia"
gleses, interpunha entre o intelecto e a vontade               (Summ. log., 7.03). Aristteles dividira os racioc-
uma terceira F., que chamava de "sentimento                    nios sofsticos em duas grandes classes: os
de prazer e desprazer". Com isso, as F. da alma                atinentes ao modo de expressar-se, ou, como
elevaram-se a trs (F. de conhecer, F. de sentir,              dizem os escolsticos, in dictione, e os in-
F. de desejar) (Crt. do Juzo, Introd., IX), numa             dependentes do modo de expressar-se, ou ex-
diviso que se tornaria clssica e freqente-                  tra dictionem. Os primeiros so seis, a saber:
mente seria apoiada por um suposto testemu-                    equivocao, anfibologia, composio, diviso,
nho da conscincia (v. EMOO; SENTIMENTO).                    acentuao, figura dictonis. Os outros so
    Entretanto, nenhuma dessas doutrinas impli-                sete: acidente, secundum quid, ignorantia
cava que as F. da alma fossem poderes distin-                  elenchit, petio de princpio, non causa pro
tos e independentes. Como j os antigos, tanto                 causa, conseqente, interrogao mltipla (El.
Descartes (Regulae, XII, 79) quanto Locke (En-                 sof., 4). A doutrina das F. foi uma das partes
saio, II, 21, 6) e Leibniz (Nouv. ess., II, 21, 6) re-         mais cultivadas da lgica medieval, mas perdeu
conhecem explicitamente que a diviso das F.                  quase toda importncia na lgica moderna.
uma abstrao que no destri a unidade da                     Cerca de metade das Summulae logicales (sc.
atividade mental. Assim, no representam gran-                 XIII) de Pedro Hispano  dedicada  refutao
des novidades a crtica de Herbart  doutrina                  das falcias. Mas j na Lgica de Port-Royal a
das F. e a sua tese de que essas F. (intelecto,                ela  dedicado um nico captulo (o XIX da
sentimento e vontade) so simples "conceitos                   parte III), que constitui cerca da vigsima par-
de classe" mediante os quais se ordenam os fe-                 te do tratado. Na lgica contempornea esse
nmenos psquicos (Einleitung in die Phil,                     assunto desapareceu de todo, j que no po-
 159). A psicologia associacionista compar-                   dem ser reduzidas a sofismas as antinomias
tilhava esse ponto de vista, mas mantinha a mes-               (v.) de que ela trata. Nos verbetes referentes a
ma tripartio (p. ex., BAIN, Mental and Moral                 cada um dos sofismas encontrar-se- o que a
 Science, 1868, p. 2; Logic, II, 275), e o Neocri-             lgica antiga e medieval entendia por eles.
ticismo da Escola de Marburgo (Cohen, Natorp)                                                           G. P.-N. A.
reconhecia s trs cincias filosficas (lgica,                   FALANSTRIO (in. Phalanstery, fr. Pha-
esttica e tica), correspondentes s trs ativi-              lanstre, it. Falansterio).Termo empregado por
dades do esprito.                                             Charles Fourier para designar a organizao
    Foi s na psicologia e na filosofia contem-                social utpica por ele prevista: um grupo de
 porneas, especialmente por influncia do beha-               cerca de 1.600 pessoas vivendo em regime
 viorismo e da Gestalt, que a doutrina das par-                comunista, com liberdade de relaes sexuais
 tes da alma, qualquer que fosse o modo de                     e regulamentao da produo e do consumo
 entend-la, perdeu importncia, deixando de                   dos bens (Tratado de associao domstica e
 constituir tema de investigao e debates. Co-                agrcola ou teoria da unidade universal,
 mo objeto de indagaes, de fato, o comporta-                 1822).
 mento implica a prtica e a fuso simultneas                     FALfflILISMO (in. Fallibilism). Termo cria-
 de todos os princpios ou partes distintas ou                 do por Peirce para indicar a atitude do pesqui-
 distinguveis da atividade da alma, da conscin-              sador que julga possvel o erro a cada instante
FALSEABILIDADE                                          427                                         FANATISMO

da sua pesquisa e, portanto, procura melhorar                 erro e ao mal. No uso moderno e contempor-
os seus instrumentos de investigao e de veri-               neo, "F." acabou prevalecendo sobre "entusias-
ficao (CM. Pap., 1.13; 1.141-52). Dewey res-                mo" para indicar a certeza de quem fala em
saltou a importncia dessa atitude (Logic, cap.               nome de um princpio absoluto e, portanto,
II; trad. it., p. 79). Esse termo agora  emprega-            pretende que suas palavras tambm sejam ab-
do com freqncia por escritores americanos.                  solutas. J Shaftesbury dizia: "E  esse [entusias-
    FALSEABILIDADE (in. Falsiflability, fr. Fal-              mo] que d origem  denominao F. no senti-
sificabilit, ai. Flschungsmglichkeit; it. Falsifi-         do inicial, usado pelos antigos, cie apario que
cabilit).  o critrio sugerido por Karl Popper              arrebata o esprito" (Letter on Enthusiasm, 7;
para acolher as generalizaes empricas. O                   trad. it., Garin, pp. 78-79). Na verdade, Ccero
mtodo emprico, segundo Popper,  o que                      j fala de "filsofos supersticiosos e quase fan-
"exclui os modos logicamente admissveis de                   ticos" (De divin., 2, 57, 118). Leibniz chamava
fugir  falseao". Desse ponto de vista, as                  de fantica a filosofia que atribui todos os fen-
asseres empricas s podem ser decididas em                 menos a Deus "imediatamente, por milagre"
um sentido, o da falseao, e s podem ser                    (Nouv. ess., Avant-propos, Op., ed. Erdmann, p.
verificadas por tentativas sistemticas de colh-             204). Mas certamente a melhor definio filos-
las em erro. Desse modo desaparece todo o                     fica do F. foi dada por Kant. No sentido mais
problema da induo e da validade das leis na-                geral, F. " uma transgresso, em nome de prin-
turais (Logic ofScientific Discovery,  6). Cf. EX-           cpios, dos limites da razo humana". H, alm
PERINCIA; VERIFICAO).                                      disso, o F. moral, que  "o ultrapassar dos limi-
   FALSO (gr. vj/e\)l; lat. Falsum; in. False,             tes que a razo pura e prtica impe  humanida-
fr. Faux, ai. Falsch; it. Falso). V. FALIBILISMO;             de, que impede de atribuir o motivo deter-
VERDADE.                                                      minante e subjetivo das aes ditadas pelo de-
    FAMHIA (in. Family, fr. Famille, ai. Fam-                ver, ou seja, o mvel moral delas, em qualquer
lie, it. Famiglia) Aqui s nos interessa registrar            outra coisa que no seja a prpria lei". O F.
o uso lgico e metodolgico desse conceito,                   mo-ral consiste na pretenso de fazer o bem
que  recentssimo. Uma "F. de conceitos"  um                por inspirao, por entusiasmo, por um impul-
conjunto de conceitos entre os quais se estabe-               so benfico da prpria natureza, portanto
lecem relaes diversas que no sejam redut-                 em substituir a virtude, que  "a inteno mo-
veis a um s conceito ou princpio.  precisa-                ral em luta", pela "pretensa santidade de
mente o que ocorre entre os membros de uma                    quem acredita possuir perfeita pureza de inten-
F. humana, os quais nem sempre tm uma ni-                   es da vontade" (Crt. R. Prtica, I, 1, 3). O fana-
ca propriedade comum, e, mesmo quando tm,                    tismo, nesse sentido, sempre foi objeto de pol-
ela no resume nem esgota toda a semelhana                   mica na obra de Kant, que identificou e combateu
familiar. O uso dessa noo implica, portanto,                suas principais manifestaes no esforo de
o esforo de procurar sempre novas relaes                   determinar os limites dos poderes humanos e
entre os conceitos, sem que seja necessrio                   a validade desses poderes nos seus limites. Num
reduzir essas relaes a um s tipo. O primeiro               texto de 1786, O que significa orientar-se no
a propor e a empregar essa noo foi WITTGEN-                 pensar, Kant advertia contra a pretenso de
STEIN (PhilosophicalLnvestigations,  110). Essa              superar os limites da razo recorrendo a facul-
obra foi publicada em 1953, mas alguns anos                   dades ou poderes supostamente "superiores".
antes seus conceitos fundamentais j eram co-                 Sua polmica referia-se a Jacobi e a Mendelssohn,
nhecidos; o conceito de F. foi utilizado por                  mas ele via a mesma pretenso no spinozismo,
Weismann em Introduo ao pensamento ma-                      e, contra este e o fanatismo, reafirmava a exign-
 temtico (Einfhrung in das mathematische                    cia de determinar com preciso os limites da
 Denken, 1936; trad. it., 1939). Cf. sobre o mes-             razo. Essas observaes de Kant, para quem
 mo conceito: ABBAGNANO, Possibilita e liberta,               as considere hoje, parecem uma crtica anteci-
 1956, passim.                                                pada ao romantismo, que, nesse aspecto, foi
                                                              o grande retorno ao spinozismo. Todavia, o
    FANATISMO (in. Fanaticism, fr. Fanatis-                   prprio Hegel falou de F., restringindo-o, po-
 me, ai. Fanatismus; it. Fanatismo). Esta palavra             rm, ao campo poltico e religioso. No cam-
 (efanum = templo) foi empregada a partir do                 po poltico, "o F. quer uma coisa abstrata, no
 sc. XVIII com o mesmo valor de entusiasmo                   uma organizao": seu exemplo  a Revoluo
 (v.) para indicar o estado de exaltao de quem              Francesa (Fil. do dir.,  5, Zusatz). No campo
 se cr possudo por Deus e, portanto, imune ao
FANTASIA                                            428                                         FAPESMO

religioso, o F. consiste em subordinar o Estado           imaginao desregrada e desenfreada. Este 
 religio, de tal modo que seu lema : "Aos re-          um dos significados dessa palavra at hoje, so-
ligiosos no se imponha nenhuma lei" {Jbid.,              bretudo na linguagem comum.
 270, Zusatz). Mas Hegel no se d conta de                  3. Ao lado desse significado, o romantismo
que a onipotncia do Estado, que ele teorizou,            elaborou um outro, segundo o qual a F.  en-
 um fanatismo.                                           tendida como imaginao criadora, diferente,
    A palavra F. conserva hoje o significado de           em qualidade mais do que em grau, da imagi-
atitude, ponto de vista ou doutrina que, em               nao reprodutora comum. Nesse sentido, He-
qualquer campo ou domnio, despreze ou ig-                gel via a F. como "imaginao simbolizadora,
nore as limitaes humanas. Nossa poca co-               alegorizadora e poetante", logo "criadora" (Ene,
nheceu outra forma de F. mais sinistra: o F. po-           456-57). Os romnticos exaltaram a F. assim
ltico, que, embora no sendo uma novidade                entendida. Para Novalis, ela  "o mximo bem"
do ponto de vista doutrinai, aboliu os limites            (Fragmente, 535). "A F.", dizia ele, " o sentido
humanos em poltica e, conseqentemente,                  maravilhoso que em ns pode substituir todos
exaltou ou divinizou certas concepes pol-              os sentidos. Se os sentidos externos parecem
ticas e os indivduos que as encarnavam. A                submeter-se a leis mecnicas, a F. evidente-
prpria palavra F., na terminologia de alguns             mente no est ligada ao presente nem ao con-
movimentos polticos, perdeu a conotao ne-              tato de estmulos anteriores" (Jbid., 537). Desse
gativa que recebera desde a Antigidade, pas-             modo, o carter desordenado ou rebelde da
sando a ter o valor de fidelidade a toda prova,           imaginao fantasiosa, em virtude do qual essa
que ignora objees ou limites. A experin-               forma de imaginao parecia inferior s outras
cia mostrou que essa fidelidade  a mais frgil           no sc. XVIII, no sc. XIX passa a ser elemento
de todas e, na primeira oportunidade, transfor-           positivo, um mrito, uma caracterstica da liber-
ma-se em seu contrrio. Como j dizia Kant, a             dade criadora. A esttica romntica ateve-se a
razoabilidade, com o reconhecimento dos li-               essa valorizao da fantasia. Croce diz: "A est-
mites que ela implica,  a nica garantia de              tica do sc. XIX forjou a distino, encontrada
compromisso autntico, seja ele terico ou                em no poucos dos seus filsofos, entre F. (que
prtico.                                                  seria a faculdade artstica peculiar) e imagina-
    FANTASIA (in. Fancy, fr. Fantaisie, ai.               o (que seria faculdade extra-artstica). Acu-
Phantasie, it. Fantasia). 1. O mesmo que ima-             mular imagens, selecion-las, esmiu-las, com-
ginao.                                                  bin-las, pressupe a produo e a posse de
    2. A partir do sc. XVIII o uso simultneo            cada uma das imagens pelo esprito; a F. 
dos termos F. e imaginao favoreceu a distin-            produtora, enquanto a imaginao  estril, apta
o dos significados, e F. comeou a indicar a            a combinaes extrnsecas, mas no a gerar o
imaginao desregrada ou desenfreada. J na               organismo e a vida" (Breviario di esttica, 1913,
Lgica de Port-Royal diz-se que a imaginao              PP- 35-36). Em sentido anlogo, Gentile cha-
 "a maneira de conceber as coisas mediante a             mava de F. a atividade artstica como puro sen-
aplicao do nosso esprito s imagens que es-            timento ou "forma subjetiva inatual" do esprito
to pintadas no nosso crebro" (o que  um                (Fil. deWarte,  5). Mas, nesse significado ro-
conceito cartesiano exposto na Regula XII), e             mntico, a F. deixa de ser uma atividade ou
essas imagens, que so as idias das coisas,              uma operao humana, definvel ou descritvel
distinguem-se das imagens "pintadas na fanta-             nas suas possibilidades e nos seus limites, para,
sia" (I, 1). Em outros termos, contrapem-se as           como manifestao de atividade infinita, tornar-
imagens que so idias, prprias da imagina-              se ela tambm infinita, situando-se portanto
o, s imagens fictcias, prprias da fantasia.          alm de qualquer possibilidade de anlise e de
Analogamente, Kant dizia que a F.  "a imagi-             verificao. Trata-se, em outros termos, de con-
nao que produz imagens sem querer", donde               ceito mgico-metafsico que no pode ser utili-
"fantasista"  a pessoa que se habituou a julgar          zado fora do clima romntico que o criou ou
tais imagens como experincias internas ou ex-            privilegiou.
ternas (Antr., I,  28). E observava: "Muitas ve-            FANTASMA. V. IMAGEM.
zes gostamos de brincar com a imaginao,                    FAPESMO. Palavra mnemnica usada pelos
mas a imaginao, que  F., freqentemente                escolsticos para indicar o oitavo dos nove mo-
tambm brinca conosco, e s vezes com mau                 dos do silogismo de primeira figura, mais preci-
gosto" (Ibid., % 31, a). Nesse sentido, a F.  a          samente o que tem como premissa uma propo-
FATALIDADE ou FATUM                                   429                                                 FATO

sio universal afirmativa e uma proposio                 das pelos filsofos admitem que dela fazem
universal negativa e como concluso uma par-                parte outras causas determinantes, mas que estas
ticular negativa, como no exemplo: "Todo ani-               so, por sua vez, determinadas pelas ante-
mal  substncia; nenhuma pedra  animal;                   cedentes, que so as prprias aes humanas,
logo, algumas substncias no so pedras"                   voltadas a evitar ou a alcanar certos resulta-
(PEDRO HISPANO, Summ. log., 4.09; ARNAULD,                  dos. E , portanto, um termo polmico com o
Log. III, 8)                                                qual os filsofos em geral designam a forma
    FATALIDADE ou FATUM (in. Fate, fr. Fata-                de necessitarismo de que no compartilham.
lit, ai. Fatum; it. Fato). Destino, no significado         Com mais rigor, esse termo pode ser adotado
1Q do termo, como necessidade desconhecida,                 no para designar uma doutrina filosfica, mas
portanto cega, que domina os seres do mundo                 a atitude de quem se entrega aos acontecimen-
enquanto partes da ordem total. A noo de fa-              tos sem procurar alter-los nem reagir.
talidade foi distinguida da noo de destino                   FATO (in. Fact; fr. Fait; ai. Talsache, it. Fatto).
quando, entre as causas que constituem este                 Em geral, uma possibilidade objetiva de verifi-
ltimo, se quis incluir a vontade e a ao hu-              cao, constatao ou averiguao, portanto
mana. Nesse sentido, Leibniz contraps fatum                tambm de descrio ou previso - objetiva
 mahometanum, que considera os aconteci-                    no sentido de que todos podem faz-la nas
mentos futuros que no dependem do que o                    condies adequadas. " F. que oi' significa que
homem pode querer ou fazer,  noo de desti-               x pode ser verificado ou confirmado por qual-
no (ou de providncia), segundo a qual o que                quer um que disponha dos meios adequados, e
acontecer no futuro tambm  determinado,                  que pode ser descrito ou previsto de forma
pelo menos em parte, pela ao humana                       passvel de aferio. A noo de F.  moderna,
(Thod., I,  55). Em sentido anlogo, Kant con-            sendo mais restrita e especfica que a de reali-
trape a F.  necessidade condicional, logo in-             dade; nasceu sobretudo para indicar os objetos
teligvel, da natureza (Crt. R. Pura, Postulados           da pesquisa cientfica, que devem poder ser re-
do pensamento emprico). Na filosofia moder-                conhecidos por qualquer pesquisador compe-
na, a noo de F.  polmica, pois quem a em-               tente. Portanto, no que se refere  sua validade,
prega no a considera vlida; por isso, pode-se             o F.  independente de opinies, preconceitos
dizer que  espria em filosofia. Mas no tem               e mesmo de juzos e valoraes que no sejam
esse significado pejorativo na expresso amor               inerentes ao uso dos instrumentos capazes de
fati, que  a definio moderna de destino (v.).            confirm-lo. Assim, tem duas caractersticas
 Peirce tambm procurou isent-la do significa-             fundamentais: d) referncia a um mtodo apro-
 do pejorativo dizendo: "F. significa simplesmen-           priado de confirmao ou verificao; b) inde-
 te aquilo que com certeza acontecer e que                 pendncia em relao a crenas subjetivas ou
 no pode ser absolutamente evitado.  supers-              pessoais de quem emprega o mtodo. Precisa-
 tio supor que certa espcie de acontecimen-              mente em vista dessas duas caractersticas, a
 tos est submetida  F., assim como  supers-              capacidade de "olhar os fatos", de "considerar
 tio supor que a palavra F. nunca possa                   os fatos" ou de "aceitar os fatos" hoje  consi-
 livrar-se do carter supersticioso.  F. que todos         derada um dos requisitos fundamentais no s
 ns morreremos" (Chance, Love and Logic, I,                do cientista e do pesquisador em geral, mas de
 cap. 2,  4, nota; trad. it., p. 41).                      qualquer cidado.
    FATALISMO (in. Fatalism- fr. Fatalisme, ai.                 No obstante a importncia que assumiu na
Fatalismus; it. Fatalsmo). Leibniz j distinguira          cultura moderna, essa noo raramente foi alvo
do fatum estico e cristo o "fatum maho-                   da ateno dos filsofos. A histria de suas
 metanum" ou "fatalidade maometana", segun-                 anlises dessa noo  parca, podendo-se dizer
do a qual "os efeitos aconteceriam mesmo se a               que comea no sc. XVII, quando, com a dis-
causa fosse evitada, pois so dotados de neces-             tino entre "verdade de razo" e "verdade de
sidade absoluta" (Op., ed. Erdmann, pp. 660,                F.", tambm se comea a distinguir -- ao me-
764). Wolff empregava, para indicar essa dou-               nos implicitamente -- a esfera prpria do fato.
trina, por ele atribuda a Spinoza, o termo F. no           O primeiro a fazer essa distino foi Hobbes:
texto De differentia nexus rerum sapientis et               "H duas espcies de conhecimento, das quais
fatalis necessitais(1723), que  justamente diri-           uma  o conhecimento de F. e outra  o conhe-
 gido contra Spinoza. Na verdade, porm, todas              cimento da conseqncia de uma afirmao re-
 as concepes de fatalidade (destino) elabora-             lativamente a outra. A primeira  apenas senti-
FATO                                                430                                              FATO

do e memria, sendo conhecimento absoluto,                particular de F., mais precisamente um F. natu-
como quando vemos um F. acontecer ou o                    ral; ti) permite reconhecer o carter emprico
lembramos; esse  o conhecimento exigido de               do F. como algo diferente do seu confinamento
uma testemunha. A outra tem o nome de cin-                esfera da sensibilidade: a prpria razo deve
cia e  condicional..." (Leviath., I, 9)- Assim           tratar com fatos que no so externos a ela
como Hobbes, Leibniz e Hume concordam em                  nem impostos do exterior, mas que encontra
considerar que essa esfera  a experincia.               em si mesma, como condies do seu funcio-
Segundo Leibniz, as verdades de F. so con-               namento.
tingentes, ao passo que as de razo so ne-                   A partir da, a noo de F. s vezes se apro-
cessrias porque baseadas no princpio de con-            xima da noo de fenmeno e outras vezes de
tradio, de tal modo que seu contrrio                  um elemento ou condio da razo. Aproxima-
impossvel (Nouv. ess., IV, 2, 1). Para Hume,            se do fenmeno quando se fala de "F. puro",
sempre possvel o contrrio das verdades de F.,           "cru" ou de "simples F.", pois nesse caso alude-
pois nunca implica contradio, sendo conce-              se ao dado imediato,  aparncia simples ou
bido pelo esprito com a mesma facilidade e               grosseira, da forma como ela se apresenta 
clareza que h na conformidade  realidade                primeira vista. Mas est claro que no se pode
(Inq. Cone. Underst., IV, 1). Tanto Leibniz               ir muito longe nessa identificao. F. no 
quanto Hume concordam em julgar que o fun-                fenmeno: p. ex., o desvio da imagem de um
damento da verdade de F.  o princpio da cau-            basto na gua  um fenmeno, mas no um
salidade. Dessa anlise resulta portanto que o            fato. Tambm  fenmeno o movimento apa-
fato : d) uma realidade contingente, atingida            rente dos cus, que desde o princpio a astro-
ou testemunhada pela experincia; b) uma rea-             nomia procurou, de vrios modos, reduzir a
lidade fundada em certa conexo causai. Uma               "F". O F. implica uma disposio ou uma inter-
noo de fato assim configurada  a que hoje              pretao do fenmeno que provoque uma mu-
se chamaria de noo de acontecimento, ou                 dana capaz de tornar o fenmeno descritvel,
seja, de realidade contingente que pertence              previsvel e verificvel. O prprio Comte, que
ordem da natureza. Essa ltima qualificao              na maioria das vezes emprega as duas palavras
a que se expressa quando se julga que a verda-            indiferentemente, parece aludir a uma distin-
de de F. baseia-se no princpio causai. Portan-           o, como no seguinte trecho: "Esse F. geral (a
to, essa ainda no  uma noo de F. suficiente-          gravitao) nos  apresentado como simples
mente ampla, que possa valer em toda a extenso           extenso de um fenmeno eminentemente fa-
da pesquisa cientfica: para ela, as verdades ma-         miliar, que portanto consideramos perfeitamen-
temticas no seriam verdades de fato. A ex-              te conhecido, o peso dos corpos na superfcie
tenso dessa noo foi realizada por Kant, para           da terra" (Phil. Pos., I,  4). Mas no prprio m-
quem "os fatos so os objetos dos conceitos               bito do positivismo Claude Bernard acentuou a
cuja realidade objetiva pode ser provada tanto            subordinao dos fatos  razo: "Sem dvida,
pela razo quanto pela experincia: no primei-            admito que os fatos so as nicas realidades
ro caso, com base em dados tericos ou prti-             que podem dar a frmula  idia experimental
cos; em qualquer caso, por meio de uma in-                e, ao mesmo tempo, servir para aferi-la, mas
tuio correspondente" (Crtt. do Juzo,  91).            isso sob a condio de que a razo os aceite...
Nesse sentido, segundo Kant, so fatos: as pro-           No mtodo experimental, como em tudo, o
priedades geomtricas das grandezas, porquan-             nico critrio real  a razo. Um F. no  nada
to podem ser demonstradas a priori; as coisas             por si mesmo, mas vale apenas pela idia a ele
ou as qualidades das coisas que possam ser                ligada ou pela prova que fornece" (Intr. 
 provadas pela experincia ou por testemunhas;            1'tude de Ia mdecine experimental, I, 2, 7).
 a idia da liberdade, cuja realidade, como uma           Essa interpretao do fato pareceu confirmada
 espcie particular de causalidade, pode ser              quando se notou o papel preponderante de-
 mostrada a partir da experincia moral {Ibid.,           sempenhado pela teoria na construo do "F.
  91). Essa anlise de Kant  importante porque:         cientfico" (P. DUHEM, La thoriephysique: son
 d) permite distinguir nitidamente a noo de F.          objet e sa strueture, 1906).
 da noo de acontecimento como noo mais
 geral, correlativa  possibilidade de uso de                A estreita conexo entre F. e atividade racio-
 qualquer instrumento de verificao; desse               nal, expressa de vrios modos, em geral  reco-
 ponto de vista, o acontecimento  uma espcie            nhecida pela filosofia contempornea. A feno-
                                                          menologia elaborou a noo de estado de
FATO                                                    431                                                     FE

coisas (Sachverhalf) como objeto correspon-                   sentir na elaborao do conceito de razo (v.).
dente de cada juzo vlido e considerou como                  No que tange  noo de F. em relao  noo
fato o estado de coisas em que est envolvida                 de razo, o F. configura-se como condio li-
uma existncia individual. Nesse sentido, uma                  mitativa das escolhas racionais. Por exemplo,
coisa no  um F., mas  F. que essa coisa existe             em fsica F.  todo objeto passvel de observa-
e que tem este ou aquele carter, etc. (HUSSERL,              o, ou seja, todo estado ou situao que pode
Ideen, I,  6). A noo de estado de coisas foi re-           ser verificada e examinada com os instrumen-
tomada por Wittgenstein em Tractatus logico-                  tos de que a fsica dispe. Mas os fatos fsicos,
pbilosophicus, mas com uma concepo dife-                    nesse sentido, so os limites ou as condies
rente sobre a relao deste com o fato, porque                da atividade racional no campo da fsica, ou
viu no "estado de coisas" o elemento simples                  seja, de qualquer construo terica ou hiptese.
que entra na composio do fato. O estado de                  Do mesmo modo, no campo da lgica, as
coisas seria, portanto, o "F. atmico", o compo-              implicaes analticas ou tautolgicas valem
nente elementar dos fatos ( Tractatus, 2). O que h           como fatos, ou seja, como condies ou limites
de caracterstico nessas concepes  a defini-               da investigao lgica (ABBAGNANO, Possibilita
o de fato (ou dos seus componentes) como                     e liberta, VI, 7). Em geral, pode-se dizer que,
objeto do juzo ou da proposio vlida. Segun-               enquanto  uma "possibilidade de verificao"
do Wittgenstein, o estado de coisas ou F. atmi-              que em cada campo assume o aspecto espe-
co no  seno o objeto de uma proposio ele-                cfico ditado pelos instrumentos de investiga-
mentar (Ibid., 4, 21). Entende-se ento por que,              o disponveis, em relao  razo o F. tam-
na linha de desenvolvimento dessa concepo,                  bm  condio de outras possibilidades, ou
os fatos chegaram a ser identificados com pro-                seja, de escolhas ou operaes que, por sua
posies. A identificao foi proposta por                    vez, so determinadas ou especificadas segun-
Ducasse (em "Journal of Philosophy", 1940, pp.                do a natureza de cada campo de indagao.
701-11) e aceita por Carnap, no sentido de que                    FAUSTISMO (ai. Faustismus). Segundo
F. seria uma proposio: l9 verdadeira, 2S dotada             Spengler, o carter da cultura ocidental, em
de certo grau de completitude, ou seja, de de-                contraposio ao apolinismo da cultura antiga.
terminao (Meaning and Necessity,  6, 1).                  A alma fustca tem como smbolo o espao
 preciso notar que, para Carnap, o termo propo-               puro ilimitado. Fusticos so, segundo Spen-
 sio no significa expresso lingstica nem                gler, a dinmica de Galilei, a dogmtica catlica
 acontecimento mental ou subjetivo, mas algo de               e a protestante, as grandes dinastias com sua
 objetivo que pode ou no encontrar exemplo                   poltica de gabinete, o destino de Lear e o ideal
 na natureza, sendo portanto comparvel a "pro-               de Nossa Senhora, que vai desde a Beatriz de
 priedade" (Ibid.,  6). Portanto, a "proposio              Dante at o fim do segundo Fausto de Goethe
 verdadeira", que Carnap identifica com o F., sig-            (Untergang desAbendlandes, I, 3, 2,  6). Trata-
 nifica simplesmente "objeto vlido" ou um "es-               se obviamente de uma caracterizao arbitrria
 tado de F." real. O esclarecimento que deriva                e fantasiosa.
 dessas redues lingsticas  puramente verbal
 e, se chega a ter alguma utilidade num tratamen-                 F (gr. mcra; lat. Fides; in. Faith; fr. Foi; ai.
 to lgico, pouco ou nada diz sobre a natureza                 Glaube, it. Fede). Crena religiosa, como con-
 ou os caracteres do fato. Denuncia, no mximo,               fiana na palavra revelada. Enquanto a crena,
 a tendncia a reportar o F. a condies concei-              em geral,  o compromisso com uma noo
 tuais ou lingsticas. Por outro lado, com De-               qualquer, a F.  o compromisso com uma no-
 wey, o pragmatismo insistiu no carter "ope-                 o que se considera revelada ou testemunha-
 racional" do F., no sentido de que os F. "so apenas         da pela divindade. Nesse sentido, essa palavra
 resultados de operaes e de observaes                     j era utilizada por Sexto Emprico, ao falar dos
 efetuadas com a ajuda dos rgos sensoriais e                raciocnios que parecem provir "da F. e da me-
 de instrumentos auxiliares produzidos pela tc-              mria", tais como o seguinte: "Se um Deus te
 nica, sendo portanto escolhidos e organizados                disse que esse homem ficar rico, ele ficar
 no intuito expresso de utiliz-los como dados para           rico. Mas este Deus aqui (e indico, suponha-
 uma pesquisa ordenada" (Logic, VI, 5,  4).                  mos, Zeus) te disse que esse homem ficar
                                                              rico. Logo, ficar rico." Nesses casos, nota Sex-
   Portanto, a anlise que hoje se faz dessa no-              to, damos assentimento  concluso no pela
o ignora a anttese entre fato e razo. A elimi-            necessidade das premissas, mas porquanto te-
nao dessa anttese sem dvida tambm se faz                 mos F. na declarao da divindade (Pirr. hyp.,
FE                                                   432                                                  FE

II, 141). S. Paulo resumiu as caractersticas fun-         da vontade, mas na sua capacidade de dirigir a
damentais da F. religiosa nas clebres palavras:           ao. Duns Scot foi o primeiro a insistir nesse
"F.  a garantia das coisas esperadas e a prova            carter: "A F. no  um hbito especulativo, as-
das que no se vem" (Hebr, II, I). S. Toms               sim como crer no  um ato especulativo e a
esclareceu da seguinte forma as palavras de S.             viso que segue a crena no  uma viso
Paulo: "Quando se fala de prova, distingue-se a            especulativa, mas prtica" (Op. Ox., prol., q. 3).
F. da opinio, da suspeita e da dvida, coisas             Por "prtico" Duns Scot entende o que serve
em que falta a firme adeso do intelecto ao seu            para dirigir a conduta; portanto para ele a teo-
objeto. Quando se fala de coisas que no se                logia  prtica, pois as verdades que ela ensi-
vem, distingue-se a f da cincia e do intelec-           na no so tericas, ou seja, necessrias e de-
to, nos quais alguma coisa se faz aparente. E              monstrveis, mas servem unicamente para diri-
quando se diz garantia das coisas esperadas                gir o homem para a bem-aventurana (Ibid.,
faz-se a distino entre a virtude da F. e a F. no         prol., q. 4, n. 42). A mesma anttese entre o
significado comum [isto , crena em geral],               habitus F. e o habitus da cincia era admitida
que visa  bem-aventurana esperada" (S. Th,               por Ockham, que reputava os dois hbitos in-
II, 2, q. 4, a. 1). Os escolsticos ativeram-se,           compatveis entre si, observando que no se
com poucas variantes, a essa descrio da f.              pode dizer que quem cr em alguma coisa cuja
Com o misticismo alemo do sc. XIV, comeou               demonstrao esqueceu realmente tem "F.",
a tomar corpo a doutrina do carter privilegia-            porque o objeto de sua crena continua sendo
do da F. como via de acesso original, direta e             a demonstrao (In Sent., III, q. 8 R). No mun-
imediata s realidades supremas, especialmente             do moderno, o carter prtico da F. foi defendido
a Deus. Mestre Eckhart v na F. o meio pelo                por Spinoza: "A F. consiste em ter, em relao
qual o homem atinge a realidade ltima de si e             a Deus, os sentimentos que so eliminados
de Deus: a F., diz ele,  o nascimento de Deus             quando se elimina a obedincia a Deus, e que
no homem. Esse tema retomou na chamada                     esto presentes necessariamente quando est
"filosofia da F." do sc. XVIII: Hamann e Jacobi           presente tal obedincia". (Tract. theol.-pol,
atribuem  F. o mesmo status privilegiado, a               14). Portanto, a F.  o conjunto de crenas que
mesma capacidade de colocar o homem direta-                condicionam a obedincia  divindade, segun-
mente em contato com as realidades ltimas e               do Spinoza. Esse conceito seria retomado por
especialmente com Deus, transpondo os limi-                Kant, para quem a crena teoricamente insufi-
tes e as incertezas da razo. Embora Jacobi                ciente pode, sobretudo em seu aspecto prtico,
inclua na f religiosa tambm a parte que mais             ser chamada de F. Kant generaliza o conceito
propriamente diz respeito  crena ("Ns cre-              prtico da F., reconhecendo nela a atitude
mos que temos corpo; cremos na existncia                  compromissada que pode dirigir tanto a habili-
das coisas sensveis", Werke, IV, 211; III, 411),          dade, ou seja, a atividade que tem em vista fins
para ele  no carter religioso que se funda a             arbitrrios e acidentais, quanto a moralidade,
certeza da F.: toda F.  necessariamente F. da             que visa a fins absolutamente necessrios. A F.
revelao e esta  necessariamente F. em Deus,             que dirige a habilidade  a F. pragmtica, cujo
religio (Ibid., II, 274, 284, ss.). Os romnticos         interesse raramente enfrenta desafios. Ao con-
reafirmaram amide esse status privilegiado da             trrio, a F. doutrinai  mais compromissada,
f. Foi o que fez Fichte, que exaltou a F. nas             mas tampouco chega  certeza da F. moral.
obras populares do segundo perodo, como p.                Esta ltima espcie de f d uma certeza que
ex. em Misso do homem (1800), em que afir-                no pode ser comunicada; no , pois, de natu-
ma que "a F., dando realidade s coisas, impe-             reza lgica, mas constitui uma "certeza moral"
de-as de ser vs iluses:  a sano da cincia",          que se baseia em fundamentos subjetivos. "As-
repetindo as palavras de Jacobi: "Todos nasce-             sim, nunca devo dizer:  moralmente certo que
mos na F." {Werke, II, pp. 254-55). Nos textos             Deus existe, etc, mas: estou moralmente certo,
de Schelling muitas vezes o tom  anlogo                  etc. Ou seja, a f em Deus e em outro mundo
(Werke, I, 10, 183), enquanto Novalis diz que a            est to profundamente entrelaada com meu
cincia  somente uma das metades e que a F.               sentimento moral que, assim como no corro o
 a outra metade (Fragmente, 391).                         risco de perder este, tampouco temo que aquela
                                                           me seja retirada" (Crt. R. Pura, Cnone da Ra-
   No ltimo perodo da Escolstica comeou                zo Pura, se. 3). Segundo Kant, a F. religiosa
a acentuar-se outro aspecto da F.: seu carter             pode ser "F. religiosa pura", que  a prpria F.
prtico, que no consiste na sua dependncia
FE                                                     433                                         FELAPTO

moral, ou "F, histrica", que  f nas leis                  nalmente aparece unida, procedendo  sua
estatutrias, que so as que indicam o modo                  desmitificao (v.). Indo mais longe, Dietrich
como Deus quer ser honrado e obedecido.                      Bonhoeffer contraps a F.  religio (v.), consi-
(Religion, III, I,  6).                                     derada como expresso mtica e contingente da
    Aquilo que os escolsticos chamavam de                   F., inaceitvel nesta poca dominada pelo ra-
carter prtico da F., para Kant (e para os moder-           cionalismo, pela cincia e pela tecnologia. Des-
nos) tornou-se o carter compromissivo da F.,                se ponto de vista, acentua-se o carter prtico
ou seja, o carter graas ao qual a F.  antes de            da F., que se transforma em moral natural e
mais nada um ato existencial, uma orientao                 humana, fundada na unidade entre mundo e
dada  vida do indivduo, capaz de transform-               Deus, entre humanidade e Cristo (tica, 1949;
la e no isenta de riscos. Estes traos aparecem             Resistncia e rendio, 1951).  nesse conceito
claros na ltima grande teoria da f que a filo-             de F., entendida como ao renovadora do
sofia elaborou: a de Kierkegaard. Para ele, o                mundo humano, que se inspira o pantesmo
cristianismo inverteu a relao entre F. e cin-             humanista dos chamados "novos telogos" (v.
cia. Na Antigidade clssica, a F.  algo inferior           DEUS e DEUS, MORTE DE). Karl Jaspers insis-
 cincia porque se refere ao verossmil; no                 tiu na identidade entre existncia e f sob o
cristianismo, a F.  superior  cincia porque in-           aspecto filosfico, mas, na esteira de Kierke-
dica a certeza mais elevada, certeza que se re-              gaard, continuou reconhecendo na F. uma re-
fere ao paradoxo, portanto ao inverossmil: ela              lao direta com a Transcendncia (Der phi-
 "a conscincia da eternidade, a certeza mais               losophische Glaube, 1948).
apaixonada que impele o homem a sacrificar                       F, FILOSOFIA DA (ai. Glaubensphiloso-
tudo, mesmo a vida" (Dirio, X4, A 635). O ca-               phi). Com este nome ou com o de "filosofia
rter compromissivo da F. consiste em seus                   do conhecimento imediato" indica-se a filoso-
laos com a existncia: ter f significa existir de          fia de um grupo de filsofos alemes da se-
certo modo: "Para ter F.,  preciso que haja                 gunda metade do sc. XVIII, que fizeram parte
uma situao que deve ser produzida com um                   do Sturm undDrang(v.). As principais figuras
passo existencial do indivduo" (Ibid., X4, A                desta filosofia foram J. J. Hamann (1730-88),
 114). "Esse passo marca a ruptura com o mun-                chamado "o mago do Norte", J. G. Herder
do e com seu ideal de inteligibilidade. O que               (1744-1803) e F. E. Jacobi (1743-1819), a quem
crer?  querer (o que se deve e por que se                   se deve a expresso "filosofia da F.". De Kant,
deve), em obedincia reverente e absoluta, de                essa filosofia aceitava a doutrina dos limites da
fender-se do vo pensamento de querer com-                   razo somente para afirmar a superioridade da
preender e da v imaginao de poder compreen-               f sobre a razo. Considerava a F. como uma
der" (Ibid., X1, A 368). Sob este ponto de vista,            relao imediata -- portanto no sujeita a
a F. no  feita de certezas, mas de deciso e               incertezas ou dvidas -- com as realidades su-
 risco. A F., diz Kierkegaard em Temor e tre-                periores e especialmente com Deus. Jacobi
 mor,  a certeza angustiante, a angstia que se             expressou essas idias em Cartas sobre a
 torna segura de si e de uma relao oculta com              doutrina de Spinoza a Moiss Mendelssohn
 Deus. O homem pode rogar a Deus que lhe                     (1785), e no ensaio David Hume eaF. (1787).
 conceda a F., mas a possibilidade de rogar no              Na lgica da Enciclopdia, Hegel considerou a
  em si mesma um dom divino? Assim, h na f                doutrina de Jacobi como "Terceira posio do
 uma inegvel contradio, que a torna parado-               pensamento sobre a objetividade", e criticou
 xal. O homem  colocado num dilema: crer ou                 o imediatismo, que considerou o carter fun-
 no crer. Por um lado, a ele cabe escolher, e               damental da F. de que falava Jacobi (Ene,
 por outro qualquer iniciativa  impossvel, por-             61-74).
 que Deus  tudo, e dele deriva inclusive a f.
 Esse conceito foi substancialmente retomado                     F ANIMAL (in. Animal faitb). Assim San-
 por Karl Barth, que interpretou a F. como in-               tayana chamou a crena na realidade produzi-
 sero da Eternidade no tempo, da Transcen-                 da no homem pelas experincias animais: fo-
 dncia na existncia (Comentrio  Epstola                 me, sexo, luta, etc. (Scepticism and Animal
  aos romanos, 1919). Rudolf Bultmann tambm                 Faitb, 1923) (v. CRENA).
 atribui a f  iniciativa divina, apesar de afirmar             F E CINCIA. V. ESCOLSTICA.
 a exigncia de libertar a F., sobretudo crist,                 FELAPTO. Palavra mnemnica usada pelos
 dos mitos cosmolgicos com que ela tradicio-                escolsticos para indicar o segundo dos seis
                                                             modos do silogismo de terceira figura, mais
FELICIDADE                                             434                                        FELICIDADE


precisamente o que consiste em uma premissa                  e a virtude outra coisa no , segundo Plato,
universal negativa, uma premissa universal afir-             seno a capacidade da alma de cumprir seu
mativa e uma concluso parcial negativa, como                prprio dever, ou seja, de dirigir o homem da
no exemplo: "Nenhum homem  pedra; todo                      melhor maneira (Kep., I, 353 d. ss.). Portanto,
homem  animal; logo algum animal no                       tambm a noo platnica de F.  relativa  si-
pedra" (PEDRO HISPANO, Summ. log. 4. 14).                    tuao do homem no mundo e aos deveres
    FELICIDADE (gr. e5oau,ov(X; lat. Felicitas;            que aqui lhe cabem. Quanto a Aristteles, insis-
in. Happiness; fr. Bonheur, ai. Glckseligkeit; it.          tiu no carter contemplativo da F. em seu grau
Felicita). Em geral, estado de satisfao devido             superior, a bem-aventurana (v.), mas apre-
 situao no mundo. Por esta relao com a si-              sentou uma noo mais ampla de F., definin-
tuao, a noo de F. difere de bem-aventu-                  do-a como "certa atividade da alma, realizada
ranaiy.), que  o ideal de satisfao indepen-              em conformidade com a virtude" (Et. nic, I,
dente da relao do homem com o mundo, por                   13, 1102 b); ela no exclui, mas inclui a satisfa-
isso limitada  esfera contemplativa ou religio-             o das necessidades e das aspiraes munda-
sa. O conceito de F.  humano e mundano.                     nas. As pessoas felizes, segundo Aristteles,
Nasceu na Grcia antiga, onde Tales julgava                  devem possuir as trs espcies de bens que se
feliz "quem tem corpo so e forte, boa sorte e               podem distinguir, quais sejam, os exteriores, os
alma bem formada" (DiG. L, I, 1, 37). A boa                 do corpo e os da alma (Ibid., 1153 b, 17 ss.;
sade, a boa sorte na vida e o sucesso da for-               Pol., VII, 1, 1323 a 22).  verdade que "os bens
mao individual, que constituem os elementos                exteriores, assim como qualquer instrumento,
da F., so inerentes  situao do homem no                  tm um limite dentro do qual desempenham
mundo e entre os outros homens. Demcrito,                   sua funo utilitria de instrumentos, mas alm
de maneira quase anloga, definia a F. como "a               do qual se tornam prejudiciais ou inteis para
medida do prazer e a proporo da vida", que                 quem os possui. Os bens espirituais, ao contr-
era manter-se afastado dos defeitos e dos ex-                rio, quanto mais abundantes, mais teis". Mas
cessos (Fr. 191, Diels). De qualquer maneira,                em geral pode-se dizer que "cada qual merece
F. e infelicidade pertencem  alma (Fr., 170,                a F., na medida da virtude, do tino e da capaci-
Diels), uma vez que somente a alma " morada                 dade de bem agir que possui, podendo se to-
do nosso destino" (Fr. 171, Diels). A relao                mar como exemplo a divindade, que  feliz e
que muitas vezes se estabeleceu entre F. e pra-              bem-aventurada no graas aos bens exterio-
zer tem o mesmo significado, ou seja,  a cone-              res, mas por si mesma, por aquilo que ela
xo entre o estado definido como F. e a relao              , por natureza" (Pol., VII, 1, 1323 b 8). A F. 
com o prprio corpo, com as coisas e com os                  portanto mais acessvel ao sbio que mais facil-
homens. A tese segundo a qual a F.  o sistema               mente se basta a si mesmo (Et. nic, X, 7, 1777,
dos prazeres foi expressa com toda a clareza                 a 25), mas  a isso que devem tender todos os
por Aristipo, que fez a distino entre prazer e             homens e as cidades.
felicidade. Somente o prazer  bem, porque s                   A tica ps-aristotlica, ao contrrio, ocupa-
ele  desejado por si mesmo, sendo portanto                  se exclusivamente da F. do sbio; a ntida dis-
fim em si. "O fim  o prazer particular, a F.  o            tino feita pelos esticos entre sbios e loucos
sistema dos prazeres particulares, em que se                 torna obviamente intil preocupar-se com
somam tambm os passados e os futuros"                       estes ltimos. O sbio  aquele que basta a si
(DiG. L, II, 8, 87). Egesias, que negava a pos-             mesmo e que acha a F. em si mesmo, o que
sibilidade de F., negava-a justamente pelo fato              melhor se chamaria bem-aventurana. Plotino
de que os prazeres so demasiado raros e pas-                censura na noo aristotlica de F. o fato de ela
sageiros (Ibicl., II, 8, 94). Por outro lado, Plato         consistir em que cada ser desempenhe sua fun-
negava que a felicidade consistisse no prazer e              o e atinja seus prprios objetivos, podendo
a julgava, ao contrrio, relacionada com a virtu-            ser perfeitamente aplicada no s aos homens,
 de. "Os felizes so felizes por possurem a justia         mas tambm aos animais e s plantas (Enn., I,
 e a temperana; os infelizes so infelizes por              4, 1 ss.). Nos esticos Plotino critica a incoern-
 possurem a maldade", diz ele em Grgias(508                cia que consiste em considerar a F. indepen-
 b); no Banquete (202 c) so chamados de feli-               dente das coisas externas ao mesmo tempo
 zes "aqueles que possuem bondade e beleza".                 que aponta essas mesmas coisas como obje-
 Mas justia e temperana so virtudes; "possuir             to da razo. Para Plotino, a F.  a prpria vida;
 bondade e beleza" significa ainda ser virtuoso;             por isso, enquanto pertence a todos os seres vi-
FELICIDADE                                             435                                       FELICIDADE

vos, pertence eminentemente  vida mais com-                 que a F.  parte integrante do bem supremo,
pleta e perfeita, que  a da inteligncia pura. O            que para o homem  a sntese de virtude e feli-
sbio, em quem tal vida se realiza,  um bem                 cidade. Mas como tal o bem supremo no 
para si mesmo: s tem necessidade de si para                 realizvel no mundo natural, seja porque nada
ser feliz e no busca as outras coisas ou ento              garante neste mundo a perfeita proporo en-
as busca somente porque so indispensveis                   tre moralidade e F., em que consiste o bem su-
s coisas que lhe pertencem (por exemplo, ao                 premo, seja porque nada garante a satisfao
corpo), e no a ele mesmo. A F. do sbio no                 plena de todos os desejos e tendncias do ser
pode ser destruda pela m sorte, pelas doen-                racional, em que consiste a F. Portanto, para
as fsicas ou mentais, nem por qualquer cir-                Kant, a F.  impossvel no mundo natural, sen-
cunstncia desfavorvel, assim como no pode                 do transferida para um mundo inteligvel, que
ser aumentada pelas circunstncias favorveis                 "o reino da graa" (Crt. R. Pura, Doutrina do
(Ibid., I, 4, 5 ss.): por isso,  a prpria bem-             Mtodo, cap. II, se. 2). Em primeiro lugar,
aventurana de que gozam os deuses. A filosofia              Kant teve o mrito de enunciar com rigor a no-
medieval adotou e enfatizou esses conceitos,                 o de F. e, em segundo lugar, de mostrar que
adaptando a eles por vezes (como fez S. To-                  essa noo  empiricamente impossvel, irrea-
ms) a prpria doutrina aristotca, mas es-                 lizvel. De fato, no  possvel que sejam satis-
tendendo-os  totalidade dos homens.                         feitas todas as tendncias, inclinaes e voli-
     A partir do humanismo, a noo de F. comea             es do homem, porque de um lado a natureza
a ser estritamente ligada  de prazer, como j               no se preocupa em vir ao encontro do ho-
havia ocorrido com os cirenaicos e com os                    mem, com vistas a essa satisfao total, e de
epicuristas. A obra De voluptate de Loureno                 outro porque as prprias necessidades e incli-
Valia gira em torno dessa conexo, que se                    naes nunca se aquietam no repouso da satis-
acentua no mundo moderno. Locke e Leibniz                    fao (Crt. do Juzo,  83). Associada ao con-
concordam nesse aspecto. Locke diz que a F. "               ceito de satisfao absoluta e total -- em que
o maior prazer de que somos capazes, e a infe-               Hegel tambm insiste (Ene,  479-480) --, a F.
 licidade o maior sofrimento; o grau nfimo da-              torna-se o ideal de um estado ou condio ina-
 quilo que pode ser chamado de F.  estar to                tingvel, a no ser no mundo sobrenatural e por
 livre de sofrimentos e ter tanto prazer presente            interveno de um princpio onipotente. No 
 que no  possvel contentar-se com menos"                  de admirar, portanto, que toda a parte da filo-
 (Ensaio, II, 21, 43). E Leibniz: "Creio que a F.           sofia moderna que passou pelo filtro do kan-
 um prazer durvel, o que no poderia aconte-                tismo tenha desprezado a noo de F. e no a
 cer sem o progresso contnuo em direo a no-               tenha utilizado na anlise daquilo que a exis-
 vos prazeres" (Nouv. ess., II, 21, 42). A noo             tncia humana  ou deve ser. Todavia, com
 de F. como prazer ou como soma, ou melhor,                  Hume, o empirismo ingls havia iniciado (co-
 "sistema" de prazeres, segundo a expresso                  mo j foi dito) um novo desenvolvimento des-
 do velho Aristipo, comea a adquirir signifi-               sa noo em sentido social, o que  prprio do
 cado social com Hume: a F. torna-se um prazer               utilitarismo. Hume observara que, "quando se
 que pode ser difundido, o prazer do maior                   elogia alguma pessoa bondosa e humana",
 nmero, e dessa forma a noo de F. torna-se                nunca se deixa de dar destaque " F. e satisfa-
 a base do movimento reformador ingls do                    o da sociedade humana em poder contar
  sc. XIX. Entrementes, Kant, que julgava impos-            com sua ao e com seus bons servios" (Inc.
  svel considerar a F. como fundamento da vida              Cone. Morais, II, 2). Portanto, identificara o que
  moral, esclarecia eficazmente a noo de F.                 moralmente bom com o que  til e benfi-
  sem recorrer  de prazer: "A F.  a condio do            co. Depois dele, Bentham retomava como fun-
  ser racional no mundo, para quem, ao longo                 damento da moral a frmula de Beccaria: "A
  da vida, tudo acontece de acordo com seu desejo            maior felicidade possvel, no maior nmero de
  e vontade" (Crt. R. Prtica, Dialtica, se. 5).          pessoas", frmula em que tambm se inspira-
 Trata-se, portanto, de um conceito que o ho-                ram James Mill e Stuart Mill, acentuando cada
  mem no haure dos instintos e que no deriva               vez mais o seu carter social. Nesses autores
  daquilo que nele  animalidade, mas que ele                no se encontra um conceito rigoroso de F.,
  constri para si de maneiras diferentes, que               mas tampouco se encontra neles a rigidez e o
  ele pode alterar com freqncia, muitas vezes              absolutismo que essa noo sofrer com Kant,
  arbitrariamente {Crt. do Juzo,  83). Kant julga         o que a tornara impraticvel. Eles sabem que a
FELICIDADE                                           436                                        FENMENO


F., por depender de condies e circunstncias             gica. Estas noes e outras anlogas indicam,
objetivas alm das atitudes do homem, no                  pois, a ausncia mais ou menos grave da con-
pode pertencer ao homem em sua individua-                  dio de satisfao pelo menos relativa que a
lidade, mas s ao homem enquanto membro                    palavra F. tradicionalmente designa. A impor-
de um mundo social. E embora relacionem F.                 tncia destas para a anlise de estados ou con-
com prazer, distinguem os vrios tipos de pra-             dies mais ou menos patolgicos evidencia a
zer, admitindo a identificao apenas com os               importncia que a noo positiva correspon-
prazeres socialmente partilhveis. Na tradio             dente tem para as condies normais da vida
cultural inglesa e americana, a noo de F. per-           humana.
maneceu viva com essa forma e, alm do pen-                   FENOMENICO, FENOMENOLGICO (in.
samento filosfico, inspirou o pensamento so-               Phenomenal, phenomenological; fr. Phno-
cial e poltico. O princpio da maior felicidade             mnal, phnomenologique, ai. Phnomenal,
continuou por muito tempo sendo a base do li-               Phnomenologisch; it. Fenomenico, fenomeno-
beralismo moderno de cunho anglo-saxnico.                  lgico) . A distino entre os dois adjetivos, que
A Constituio americana incluiu entre os direi-            no devem ser confundidos, foi bem exposta
tos naturais e inalienveis do homem "a busca               por Heidegger: "Por fenomenico entende-se
da F.". A esta tradio liga-se Bertrand Russell,           aquilo que  dado e pode ser explicitado se-
que foi um dos poucos a defender a noo de                 gundo o modo de encontro com os fenme-
F., ainda que numa obra de carter popular {A               nos, da falar-se em estruturas fenomnicas.
conquista daF., 1930). O que Russell acrescen-              Fenomenolgico  tudo aquilo que  inerente
ta de novo  noo tradicional de F. (alm de               ao modo de demonstrar e de explicitar e tudo
uma convincente anlise das situaes atuais                aquilo que exprime a conceituao implcita
de "infelicidade")  uma condio que ele julga             na presente investigao" (Sen und Zeit,  7).
indispensvel: a multiplicidade dos interesses,             Em outros termos, pode-se falar de um "objeto
das relaes do homem com as coisas e com                   fenomenico" ou "realidade fenomnica", mas
os outros homens, portanto a eliminao do                  deve-se falar em "investigao fenomenolgica",
"egocentrismo", do fechamento em si mesmo                   em "epoch fenomenolgica", etc. O adjetivo
e nas paixes pessoais. Trata-se de uma condi-              fenomenico qualifica o objeto que se revela no
o que coloca a F. em posio diametral-                   fenmeno, o adjetivo fenomenolgico qualifi-
mente oposta  da auto-suficincia do sbio,                ca a manifestao do objeto em sua "essncia",
que os antigos consideravam o grau mais ele-                bem como a busca que possibilita essa mani-
vado de F.                                                  festao.
    Por outro lado, no conseguindo mais utili-                FENOMENISMO (in. Phenomenalism; fr.
zar a noo de F. como fundamento ou princ-                Phnomnisme, ai. Phnomenalismus; it. Fe-
pio da vida moral, os filsofos desinteressaram-            nomenismo). Doutrina segundo a qual o co-
se dessa noo. Para esse desinteresse tambm               nhecimento humano limita-se aos fenmenos,
contribuiu a tendncia, que nasceu com o Ro-                no segundo sentido do termo. Essa palavra de-
mantismo e predominou por muito tempo, de                   signa tanto as filosofias que tambm admi-
exaltar a infelicidade, a dor, os estados de per-           tem a existncia de uma realidade diferente
turbao e insatisfao como experincias po-               do fenmeno (como as de Kant ou Spencer)
sitivas e intrinsecamente regozijadoras. Com                quanto as filosofias que negam qualquer reali-
efeito, nos graus e nas formas em que pode ser              dade que no seja fenmeno (Renouvier,
considerada realizvel, a F.  um estado de                 Hodgson). Esse termo foi cunhado no sc. XIX,
calma, uma condio de equilbrio pelo menos                mas a filosofia fenomenista nasceu no sc.
relativo, de satisfao parcial e todavia efetiva,          XVIII;  a filosofia do Iluminismo.
que  exatamente o oposto da inquietude ro-                    FENMENO (gr. x (paivu.eva; in. Phe-
mntica. A filosofia contempornea ainda no                nomenon; fr. Phnomene, ai. Phnomen\ it.
se deteve para analisar a noo de F. nos limi-            fenmeno). 1. O mesmo que aparncia (v.).
tes em que ela pode servir para descrever situa-            Nesse sentido o F.  a aparncia sensvel que
es humanas e orient-las. Contudo, a impor-               se contrape  realidade, podendo ser consi-
tncia dessa noo  hoje evidenciada pelo                  derado manifestao desta, ou que se contra-
interesse que algumas noes negativas                      pe ao fato, do qual pode ser considerado idn-
como "frustrao", "insatisfao", etc, tm na              tico (v. FATO).  este o sentido que essa palavra
psicologia individual e social, normal e patol-            normalmente assume na linguagem comum
FENMENO                                               437                                FENOMENOLOGIA

(mesmo quando esta faz aluso a uma aparn-                  objetos com o sujeito e sem limitar meu juzo
cia paradoxal e inslita, como por exemplo a                 a esta relao, ento nasce a iluso" (Crt. R.
monstruosa), sendo tambm o significado en-                  Pura, Esttica Transcendental,  8, Obs. ger.,
contrado em Bacon (no De interpretatione                     nota). Tal significado, no qual se estabelecia
naturaeproemium, 1603), em Descartes (Princ.                 um filosofema muito difundido no sc. XVIII,
phii, III, 4), em Hobbes (De corp., 25,  1) e em            permaneceu como um dos significados fun-
Wolff (Cosm.,  225).                                        damentais desse termo, mais precisamente aque-
    2. A partir do sc. XVIII, em virtude da                 le com relao ao qual se fala de fenomenismo.
reabilitao da aparncia como manifestao                  Esse significado caracteriza-se pela limitao
da realidade aos sentidos e ao intelecto do                  de validade do conhecimento humano. Neste sen-
homem, a palavra F. comea a designar o                      tido, F. no  o objeto que se manifesta, mas o
objeto especfico do conhecimento humano                     objeto que se manifesta ao homem nas condi-
que aparece sob condies particulares, ca-                  es limitativas especficas que essa relao
ractersticas da estrutura cognoscitiva do ho-               implica.
mem. Neste sentido, a noo de F.  corre-                       3. Todavia, na filosofia contempornea, a
lativa com a de coisa em si(v.), a ela remetendo             partir das Investigaes lgicas (1900-1901) de
por oposio contrria.  medida que se reco-                Husserl, F. comeou a indicar no s o que apa-
nhece que os objetos do conhecimento se re-                  rece ou se manifesta ao homem em condies
velam segundo os modos e as formas prprias                  particulares, mas aquilo que aparece ou se ma-
da estrutura cognoscitiva do homem, e que                    nifesta em si mesmo, como  em si, na sua
por isso eles no so as "coisas em si mesmas",              essncia.  verdade que para Husserl o fen-
as coisas como so ou poderiam ser fora da                   meno neste sentido no  uma manifestao
relao cognoscitiva com o homem, o objeto                   natural ou espontnea da coisa: exige outras
do conhecimento humano configura-se como                     condies, que so impostas pela investigao
F., ou seja, como coisa aparente nessas condi-               filosfica como fenomenologia (v.). O sentido
es, o que obviamente no significa coisa                   fenomenolgico de F. como revelao de essn-
enganosa ou ilusria.  na filosofia do sc. XVIII           cia (HUSSERL, Ideen, I, Intr.) soma-se portanto ao
                                                             significado crtico de F., sem contudo elimin-lo.
que se d este passo. Hobbes, que, em princ-
                                                             Nele insistiu Heidegger, considerando o F. como
pio, reavaliou o F. como aparncia geral (De                 o aparecer puro e simples do ser em si e distin-
 corp. 25,  1; V. APARNCIA), no atribuiu qual-            guindo-o assim da simples aparncia (Erschei-
quer significao limitativa ou corretiva  pa-              nungou blosseErscheinung), que  indcio do
lavra F., com a qual designa qualquer objeto                 ser ou aluso ao ser (que contudo permanece
possvel do conhecimento humano. Mau-                        escondido) e que, por isso,  o no manifestar-
pertuis, que nas Cartas de 1752 afirma que a                 se ou o esconder-se do ser (Sein undZeit,  7,
extenso  um fenmeno como todas as coisas                  A). Obviamente neste sentido a noo de F. no
corpreas ((Euvres, 1756, II, 198 ss.), exprime              se ope mais  de coisa em si: o F.  o em si da
contudo a convico, bastante comum em seu                   coisa em sua manifestao, no constituindo,
tempo, da limitao do conhecimento huma-                    pois, uma aparncia da coisa, mas identifi-
no, e foi desta convico que Kant partiu para               cando-se com seu ser.
sua distino entre F. e nmeno. Segundo Kant,
 o F. , em geral, o objeto do conhecimento                      Podemos agora resumir da seguinte maneira
 enquanto condicionado pelas formas da intui-                os trs significados atualmente em uso da pala-
 o (tempo e espao) e pelas categorias do                  vra F.: 1) aparncia pura e simples (ou fato
 intelecto. Diz: "F.  o que no pertence ao ob-             puro e simples), considerada ou no como ma-
 jeto em si mesmo, mas se encontra sempre                    nifestao da realidade ou fato real; 2) objeto
 na relao entre ele e o sujeito, e  inseparvel           do conhecimento humano, qualificado e deli-
                                                             mitado pela relao com o homem; 3) revela-
 da representao que este tem dele. Por isso
                                                             o do objeto em si.
 mesmo, os predicados do espao e do tempo
 so atribudos aos objetos dos sentidos como                    FENOMENOLOGIA (in. Phenomenology, fr.
 tais, e nisso no h iluso. Ao contrrio, se atri-         Phnomnologie, ai. Phnomenologie, it. Fe-
 buo  rosa em si a cor vermelha, a Saturno os               nomenologia) . Descrio daquilo que aparece
 anis ou a todos os objetos externos em si a ex-            ou cincia que tem como objetivo ou projeto
                                                             essa descrio.  provvel que esse termo tenha
 tenso, sem levar em conta a relao desses
                                                             sido cunhado pela escola de Wolff. Lambert uti-
FENOMENOLOGIA                                            438                                FENOMENOLOGIA


liza-o como ttulo da 4a parte do seu Novo                     tambm  reduo fenomenolgica em sentido
Organon (1764) e com ele entende o estudo                      estrito, porque transforma esses fenmenos em
das fontes de erro. Aqui, a aparncia, cuja des-               irrealidadesildeen, I, Intr.). Com esse significa-
crio  a F.,  entendida como aparncia ilus-               do, a F. constitui uma corrente filosfica parti-
ria. Kant, porm, utiliza esse termo para indicar              cular, que pratica a filosofia como investigao
a parte da teoria do movimento que considera o                 fenomenolgica, ou seja, valendo-se da redu-
movimento ou o repouso da matria somente                      o fenomenolgica e da epochiy?). Os resul-
em relao com as modalidades em que eles                      tados fundamentais a que esta investigao le-
aparecem ao sentido externo {Metaphysische                     vou, em Husserl, podem ser resumidos da
Aufangsgrnde der Natur wissenschaft, 1786,                    maneira seguinte: 1Q O reconhecimento do ca-
Pref.). Por sua vez, Hegel chamou de "F. do es-                rter intencional da conscincia (v.), em virtude
pirito" a histria romanceada da conscincia, que,             do qual a conscincia  um movimento de
desde suas primeiras aparncias sensveis, con-                transcendncia em direo ao objeto e o obje-
segue aparecer para si mesma em sua verda-                     to se d ou se apresenta  conscincia "em car-
deira natureza, como Conscincia Infinita ou                   ne e osso" ou "pessoalmente"; 2e evidncia da
Universal. Nesse sentido, identifica a F. do esp-             viso (intuio) do objeto devida  presena
rito com o "devir da cincia ou do saber", e nela              efetiva do objeto; 3S generalizao da noo de
descobre o caminho atravs do qual o indivduo                 objeto, que compreende no somente as coi-
repercorre os graus de formao do Esprito                    sas materiais, mas tambm as formas de
Universal, como figuras j abandonadas ou eta-                 categorias, as essncias e os "objetos ideais"
pas de um caminho j traado e aplanado                        em geral (Jdeen, I,  15); 4e carter privilegiado
(Phnomen. des Geistes, Pref., ed. Glockner, p.                da "percepo imanente", ou seja, da conscin-
31). Hamilton atribuiu outro significado a esse                cia que o eu tem das suas prprias experin-
termo (Lectures on Logic, 1859-1860,1, p. 17), o               cias, porquanto nessa percepo aparecer e
de psicologia descritiva; foi com tal significado,             ser coincidem perfeitamente, ao passo que no
de pura descrio da aparncia psquica, preli-                coincidem na intuio do objeto externo, que
minar  explicao dos fatos psquicos, que esse               nunca se identifica com suas aparies 
termo foi usado com freqncia pela cultura fi-                conscincia, mas permanece alm delas (Ibid.,
losfica alem da segunda metade do sc. XIX e                 38).
nos primeiros anos do sc. XX. Hartmann inti-                      Nem todos estes princpios so aceitos pelos
tulou F. da conscincia moraKPhnomenologie                    pensadores contemporneos que se valem da
des sittliche Bewusstseins, 1879) a coletnea de               investigao fenomenolgica: apenas o primei-
dados empricos da conscincia moral, indepen-                 ro deles (carter intencional da conscincia, em
dentemente de sua interpretao especulativa.                  virtude do qual o objeto  transcendente em
    Mas a nica noo hoje viva de F.  a anun-                relao a ela e todavia presente "em carne e
ciada por Husserl em Investigaes lgicas                     osso") tem crdito no s entre esses pensa-
(1900-1901, II, pp. 3 ss.), correlativa ao 3S signifi-         dores como tambm junto a grande nmero
cado de fenmeno e depois desenvolvida por                     de filsofos contemporneos. Foi com base na
ele mesmo nas obras seguintes. O prprio                       investigao fenomenolgica que Nicolai Hart-
Husserl preocupou-se em eliminar a confu-                      mann fundou seu realismo (v.) metafsico; o
so entre psicologia e fenomenologia. Escla-                   mesmo fizeram Scheler para a anlise das emo-
receu que psicologia  a cincia de dados de                   es (v.) e Heidegger (como mtodo para sua
fato; os fenmenos que ela considera so acon-                 ontologia). Este ltimo expressa com toda a
tecimentos reais que, juntamente com os sujei-                 clareza o carter prprio da F. quando afirma:
tos a que pertencem, inserem-se no mundo                       "A palavra 'F.' significa antes de mais nada um
espcio-temporal. A F. (que ele chama de                       conceito de mtodo. Ela no caracteriza a con-
"pura" ou "transcendental")  uma cincia de                   sistncia de fato do objeto da indagao filos-
essncias (portanto, "eidtica") e no de dados                fica, mas seu como... Esse termo expressa um
de fato, possibilitada apenas pela reduo                     lema que poderia ser assim formulado: s coi-
 eidtica, cuja tarefa  expurgar os fenmenos                 sas mesmas! -- por oposio s construes
psicolgicos de suas caractersticas reais ou                  soltas no ar e aos achados casuais; em oposi-
empricas e lev-los para o plano da genera-                   o  admisso de conceitos apenas aparente-
lidade essencial. A reduo eidtica, vale dizer,              mente verificados e aos falsos problemas que
a transformao dos fenmenos em essncias,                    se impem de gerao em gerao como pro-
FENMENO ORIGINRIO                                  439                                         FETICHISMO


blemas verdadeiros" (Sein und Zeit,  7). Por-             gativa, como no exemplo: "Nenhum homem
tanto, o que a F. mostra  aquilo que, acima de             pedra; alguns homens so animais; logo,
tudo e na maior parte dos casos, no se mani-              alguns animais no so pedra" (PEDRO HISPANO,
festa, o que est escondido, mas que  capaz               Summ. log., 4. 15).
de expressar o sentido e o fundamento daqui-                  FESPAMO. Palavra mnemnica usada pela
lo que, acima de tudo, e na maior parte dos                Lgica de Port-Royal para indicar o oitavo
casos, se manifesta. Nesse sentido, a F.  a               modo do silogismo de primeira figura (isto ,
nica ontologia possvel (Ibid.,  7 C). A F.             Fapesm), com a modificao que consiste em
entendida de maneira anloga por Sartre (Z 'tre           tomar por premissa maior a proposio em
et le nant, Intr.,  1-2) e por Merleau-Ponty            que est contido o predicado da concluso. O
(Pbnomnologie de Ia perception, Pref.). A                exemplo  o seguinte: "Nenhuma virtude 
formulao fenomenolgica da filosofia no                 uma qualidade natural; toda qualidade natural
implica, portanto, a reduo da existncia                tem a Deus por primeiro autor; logo, h quali-
aparncia e no pode ser confundida de ma-                 dades naturais que tm Deus por autor e no
neira nenhuma com o fenomenismo (v.). O                    so virtudes" (ARNAULD, Log., III, 8).
prprio conceito de fenmeno a que se faz                      FESTEVO. Palavra mnemnica usada pelos
referncia  diferente neste caso. Por outro lado,         escolsticos para indicar o terceiro dos quatro
tampouco implica a eliminao da diferena entre           modos da segunda figura do silogismo, mais
parecer e ser, embora esse antigo dualismo seja            precisamente o que consta de uma premissa
eliminado. Sartre diz: "O fenmeno de ser exi-             universal negativa, de uma premissa particular
ge a transfenomenalidade do ser. Isto no quer             afirmativa e de uma concluso particular ne-
dizer que o ser est escondido atrs dos fen-             gativa, como no exemplo: "Nenhuma pedra
menos (vimos que o fenmeno no pode mas-                   animal; alguns homens so animais; logo,
carar o ser), nem que o fenmeno  uma apa-                alguns homens no so pedra" (PEDRO HIS-
rncia que remete a um ser distinto (s enquanto           PANO, Summ. log., 4.11).
aparncia o fenmeno , ou seja, ele se indica                 FETICHISMO (in. Fetishism- fr. Ftichisme,
sobre o fundamento do ser). Segue-se que o                 ai. Fetchismus; it. Feticism). Crena no po-
ser do fenmeno, conquanto coextensivo ao fe-              der sobrenatural ou mgico de certos objetos
nmeno, deve escapar  condio fenomnica                 materiais (it. feticci; v. port. feitio - artificial).
-- de s existir na medida em que se nos reve-             Mais geralmente, atitude de quem considera
la -- e, por conseguinte, excede e fundamen-               animados os objetos materiais, e os tipos de re-
ta o conhecimento que se tem dele" (Z 'tre et le          ligio ou de filosofia baseados nesta crena.
 nant, Intr.,  2). A relao entre aparncia e           Neste segundo sentido, esse termo no  mais
ser, na ontologia fenomenolgica, pode ser de-             usado, por ter sido substitudo por animismo
finida ou analisada de maneiras diferentes, mas            (v.). Em geral, os filsofos empregam essa pa-
no se amolda  tradio que relaciona aparncia           lavra em sentido depreciativo; por exemplo,
 e realidade.                                              Mach chamou de F. a crena nos conceitos de
  FENMENO ORIGINRIO. V. URPHNO-                         causa e de vontade (Populrwissenschaftliche
MENON.                                                      Vorlesungen, 1896, p. 269). Comte exaltara o F.,
   FERIO. Palavra mnemnica usada pelos                    por encontrar nele alguma afinidade com o
escolsticos para indicar o quarto modo da pri-            positivismo, porquanto ambos vem em todos
meira figura do silogismo, mais precisamente               os seres uma atividade anloga ou semelhante
o que consta de uma premissa universal negati-              humana, e assim estabelecem a unidade fun-
va, de uma premissa particular afirmativa e de             damental do mundo que se expressa na teoria
uma concluso particular negativa, como no                 do Grande Ser {Politique positive, III, p. 87; IV,
exemplo "Nenhum animal  pedra; alguns ho-                 p. 44). Kant, por outro lado, chamou F. a reli-
mens so animais; logo, alguns homens no                  gio mgica, de quem realiza certas aes que
so pedra" (Pedro Hispano, Summ. log., 4.07).              por si nada contm de agradvel a Deus, nada
   FERISON. Palavra mnemnica usada pelos                  tm de moral, com o fim de obter favores divi-
escolsticos para indicar o sexto dos seis mo-             nos e satisfazer desejos pessoais. Neste sentido,
dos do silogismo de terceira figura, mais pre-             o sacerdcio  "a constituio de uma igreja em
cisamente o que consta de uma premissa uni-                que reina o culto fetichista, onde o fundamento
versal negativa, de uma premissa particular                e a essncia do culto no so constitudos por
afirmativa e de uma concluso particular ne-               princpios de moralidade, mas por disposies
FICO                                                440                                             FIGURA


estatutrias, regras de f e observncias" (.Reli-          predicado ao sujeito da concluso. Na primei-
gion, IV, se. 2,  3).                                     ra F., o termo mdio serve de sujeito na pre-
    FICO (in. Fiction; fr. Fiction; ai. Fiktion;          missa maior e de predicado na premissa me-
it. Finzion). Uma filosofia da F., ou ficcionis-           nor. Na segunda F., serve de predicado em
mo (Fiktionalismus),  a "Filosofia do como                 ambas as premissas, uma das quais negativa, e
se" (1911) de Vaihinger, que se prope demons-              a concluso tambm  negativa. Na terceiraV.,
trar que todos os conceitos, as categorias, os              serve de objeto em ambas as premissas e a
princpios e as hipteses de que lanam mo o               concluso  particular. A tradio atribui a
saber comum, as cincias e a filosofia so F.               Galeno, famoso mdico e filsofo aristotlico
destitudas de qualquer validade terica,                   do sc. II d.C, a distino de uma quarta F.,
freqentemente contraditrias, que so aceitas              em que o termo mdio serve de predicado na
e conservadas enquanto teis. Vaihinger no                 premissa maior e de sujeito na premissa me-
acha que essa situao seja patolgica, mas                 nor: os modos dessa F. haviam sido includos
normal, e que a nica alternativa vivel  utili-           por Aristteles entre os da primeira. A separa-
zar as F. conscienciosamente. Est claro que,               o foi feita porque se definiu como premissa
nesse sentido, a F. no  uma hiptese, pois                maior a que compreende o predicado da conclu-
no exige verificao; aproxima-se mais do                  so, e como premissa menor a que compreen-
conceito de mito (v). A filosofia da F.  um dos            de o sujeito da concluso (PRANTL, Geschichte
desdobramentos do conceito kantiano do como                 der Logik, I, pp. 570 ss.). Cada F., por sua vez,
                                                            divide-se em certo nmero de modos, confor-
se (v.) na filosofia contempornea.                         me a qualidade e quantidade das proposies
   FICHTISMO. V. ROMANTISMO.                                que constituem as premissas e a concluso, ou
    FIDESMO (in Fideism; fr. Fidisme; ai.                 seja, segundo as premissas e a concluso, con-
Fideismus; it. Fideism). Designou-se com este              sideradas individualmente, sejam universais ou
termo a concepo filosfica e religiosa defen-             particulares, afirmativas ou negativas. Como na
dida nas primeiras dcadas do sc. XIX pelo                 Escolstica se usou a letra A para indicar a propo-
abade Bautain, por Huet, por Lamennais (este                sio universal afirmativa', a letra E para indicar
ltimo especialmente na obra Essais sur l'in-               a proposio universal negativa, a letra /para
diffrence en matire de religion, 1817-1823);              indicar a proposio particular afirmativa e a
essa concepo consiste em opor  razo "indi-              letra O para indicar a proposio particular
vidual" uma razo "comum", que seria uma                    negativa (da os versos: A affirmat, negat E,
espcie de intuio das verdades fundamen-                  sed unversaliter ambae, Ifirmat, negat O, sed
tais, comum a todos os homens. Esta intuio                particulariter ambae), formaram-se palavras
teria origem numa revelao primitiva que se                mnemnicas para indicar os vrios modos do
transmitiria atravs da tradio eclesistica; as-          silogismo, palavras nas quais as duas primeiras
sim, serviria de fundamento da f catlica. Essa            vogais indicam as premissas e a terceira, a con-
doutrina visava justificar o primado da tradio            cluso. Assim, os nove modos da primeira F.
eclesistica. Na realidade, negava  Igreja a               foram indicados pelas palavras Barbara, Cela-
prerrogativa de ser a nica depositria da tradi-           rent, Darii, Ferio, Baralipton, Celantes, Debits,
o autntica e negava  tradio o apoio da ra-            Fapesmo, Frisemorum. Os quatro modos da se-
zo. Depois da condenao da Igreja (1834),                 gunda F. foram indicados pelas palavras Cesare,
entre os escritores catlicos esse termo assumiu            Camestres, Festino, Baroco. Os seis modos da
conotao pejorativa, mas continua sendo usa-               terceira F. foram indicados pelas palavras
do at hoje para indicar, em geral, quaisquer               Darapti, Felapto, Disamis, Datisi, Bocardo, Fe-
atitudes que considerem a f como instrumen-                rison. Os ltimos quatro modos da primeira F.
to de conhecimento superior  razo e inde-                 so os que se atribuem  quarta F., quando
pendente dela.                                              distinguida. As iniciais das palavras mnemni-
                                                            cas tambm tm significado. Todos os modos
    FIGURA (gr. ojcnua; lat. Figura; in. Figure,            indicados por uma palavra que comece com B
fr. Figure, ai. Figur, Gestalt; it. Figura). 1. Com         podem ser reduzidos ao primeiro modo da pri-
este termo so designadas tradicionalmente as               meira F.; os indicados por uma palavra que
formas fundamentais do silogismo, diferentes                comece com C so redutveis ao segundo modo
 dos modos (v.), que so especificaes de tais             da primeira F.; os indicados por uma palavra
formas. Aristteles distinguiu as diferentes fi-            com D inicial so redutveis ao terceiro modo
guras do silogismo segundo a funo do termo                da primeira F.; e os indicados por uma palavra
 mdio, que serve para mostrar a inerncia do
FIGURAE DICTIONIS (FALCIA)                            441                                         FILOLOGIA

com F inicial reduzem-se ao quarto modo da                   dossid). Essa palavra (que significa mais exata-
primeira F. (cf., sobre o uso das palavras                   mente "amor pela glria") foi usada por Plato
mnemnicas, PEDRO HISPANO, Summ. log., 4.18                  para indicar os "amantes da opinio", em opo-
ss.). Para cada modo, ver as palavras relativas.             sio aos "amantes da cincia", que so os fil-
    2. Com esse mesmo termo, que traduz o                    sofos. Os amantes da opinio so aqueles que
alemo Gestalt, indicam-se as determinaes                  gostam de ouvir belas vozes, olhar belas cores,
da fenomenologia do esprito de Hegel. Tais                  etc, mas que no consideram o belo como um
determinaes so "figuras da conscincia"                   ser em si (Rep., V, 480 a). Kant chamou de F. a
(Phnomen. des Geistes, pref., ed. Glockner,                 atitude daqueles que rejeitam no s o mtodo
pp. 36 e passini) ou "graus do caminho j                    da crtica, por ele proposto, mas tambm o m-
traado e batido" pelo Esprito Universal, ou                todo da fundamentao de Wolff, que consiste
seja, etapas atravs das quais a conscincia                 em proceder estabelecendo princpios, definin-
chegou  conscincia de si como Conscincia                  do conceitos e buscando o rigor das demons-
Infinita e Absoluta. Como se sabe, entre as F.               traes (Crit. R. Pura, Prefcio da 2a edio).
da fenomenologia Hegel inclui tambm cria-                       FILOGNESE. V. BIOGENTICA, LEI.
es fantasistas, o que estabelece uma dife-                     FILOLOGIA (gr. (pt^ooya; lat. Philologia;
rena entre essas F. e as categorias, que so                in. Philology, fr. Philologie, ai. Phlologie-, it.
objeto da Enciclopdia. Com efeito, as catego-               Filologia). Para Plato, essa palavra significava
rias so determinaes necessrias e necessa-                amor aos discursos (Teet., 161 a); na idade mo-
riamente reais.                                              derna, passou a designar a cincia da palavra,
    FIGURAE DICTIONIS (FALCIA). Para                        ou melhor, o estudo histrico da lngua. Vio
logismo in dictione (v. FALCIA), que consiste               ops F. e filosofia: "A filosofia contempla a razo
no uso gramatical errneo nas premissas, ge-                 de onde parte a cincia do verdadeiro; a F. ob-
rando conseqncias paradoxais ou gramatical-                serva a autoridade, o arbtrio humano, de onde
mente impossveis ("Omnis bomo est albus,                    parte a conscincia do certo" (Scienza nuova,
 mulier est homo, ergo mulier est albus"). Cf.               dign. 10). Seria tarefa dos fillogos o "conheci-
ARISTTELES, El. sof., 4, 166 b 10; PEDRO HISPA-             mento das lnguas e dos feitos dos povos". F. e
NO, Summ. log., 7.34SS.;JUNGIUS, Lgica hamb.,               filosofia completam-se no sentido de que os fi-
VI, 7, etc.                              G. P.               lsofos deveriam "conferir" suas razes com a
   FILANTROPIA (gr. (pi,ocv0po7ra; lat. Phi-               autoridade dos fillogos, e os fillogos deve-
lanthropia; in. Philanthropy, fr. Philanthropie,             riam "confirmar" sua autoridade com a razo
ai. Philanthropie, it. Filantropia). Amizade do              dos filsofos. No conceito moderno, F.  a cin-
homem para com outro homem. Essa palavra                     cia que tem por objetivo a reconstituio his-
foi assim entendida por ARISTTELES (Et. nic,                trica da vida do passado atravs da lngua,
VIII, 1, 1155, a. 20) e pelos esticos, que atri-            portanto dos seus documentos literrios. Por
buram essa amizade ao vnculo natural, gra-                 conseguinte, os projetos e os resultados dessa
as ao qual toda a humanidade constitui um                   cincia, do modo como ela se formou, sobre-
nico organismo. "Da deriva", diz Ccero, "que              tudo no sc. XLX, vo muito alm da humilde ta-
tambm  natural a solidariedade recproca entre             refa  qual desejaram limit-la os filsofos do
os homens, graas  qual, necessariamente, um                idealismo romntico. Hegel j se opunha aos
homem no pode ser alheio a outro homem,                     "fillogos", historiadores que faziam seu traba-
pelo prprio fato de ser homem" (Definibus,                  lho em nome da histria filosfica, nica histria
III, 63). Digenes Larcio atribui o conceito de             capaz de descobrir apriorio plano providencial
F. tambm a Plato, que o teria dividido em                  do mundo (Pbilosophie der Geschichte, ed.
trs aspectos: saudao, ajuda, hospitalidade                Lasson, pp. 8 ss.). No mesmo sentido, Croce
(DiG. L, III, 98). Na linguagem moderna, a                  chamava de histria filolgica a histria dos
 significao desse termo restringiu-se ao se-               historiadores,  qual contrapunha a histria
 gundo dos aspectos distinguidos por Plato. A               "especulativa", que identificava com a filosofia
 atitude geral de benevolncia para com os                   (CROCE, Teoria e storia delia storiografia, 1917;
 outros homens hoje  freqentemente chama-                  La storia come pensiero e come azione, 1938).
 da de altrusmo (v.).                                          Na realidade, a histria filolgica  a histria
   FILUCIA. V. AMOR SUL                                     dos historiadores, ao passo que a histria es-
  FILODOXIA(gr. (piloooc; lat. Philodoxia,                peculativa nada mais  que a concepo
Philodoxy, fr. Philodoxie, ai. Philodoxie, it. Filo-         providencialista do mundo histrico, que nada
 FILOSOFEMA                                              442                                         FILOSOFIA


  tem a ver com a historiografia cientfica (v.                igualmente na definio de Hobbes, segundo a                 :
  HISTORIOGRAFIA). O adjetivo/Yofgzcono pode                qual a F. , por um lado, o conhecimento cau-
  sequer ser usado para designar formas mon-                  sai e, por outro, a utilizao desse conhecimen-
  tonas e mal realizadas de historiografia, pois a             to em benefcio do homem (De corp., I,  2, 6),
  F. no  em nada responsvel por elas. Tam-                  bem como na de Kant, que define o conceito
  pouco a funo de conservao e recons-                      csmico da F. (o conceito que interessa neces-
  tituio do material documentrio e das fontes,              sariamente a todos os homens) como o de "ei-                 [
  que Nietzsche chamou de histria arqueolgi-                 ncia da relao do conhecimento  finalida-
  ca, (v.),  um tipo inferior de histria, porque             de essencial da razo humana" (Crt. R. Pura,
  s  possvel quando um interesse inteligen-                 Doutr. transe, do mtodo, cap. III). Essa finali-
  te guia as escolhas oportunas e as torna teis               dade essencial  a "felicidade universal"; por-          :
   tarefa da crtica e da reconstituio histricas.          tanto, a F. "refere tudo  sabedoria, mas atravs
      FILOSOFEMA (gr. (piAoa(pr|Lia; lat. Phi-                da cincia" (Ibid., in fine). No tem significao
  losophema; in. Philosopheme, fr. Phlosophme,               diferente a definio de F. dada por Dewey,
  ai. Philosophem; it. Filosofemd). Em geral, dis-             como "crtica dos valores", no sentido de "crti-
  curso filosfico. Na lgica de ARISTTELES (Top.,            ca das crenas, das instituies, dos costumes,
 VIII, 11, 162 a 15)  o "raciocnio demonstrati-              das polticas, no que se refere seu alcance so-          ;
 vo". Fora da lgica: conceito ou lugar-comum                  bre os bens" (Experience and Nature, p. 407).
  filosfico. Neste segundo sentido  usado pelo               Estas definies (aqui citadas apenas como           ,'
  prprio ARISTTELES (De cael., II, 13, 294 a 19)             exemplos) podem ser remetidas  frmula de               :
  e pela tradio posterior.              G. P.-N. A.          Plato, citada no incio, cuja vantagem  nada
      FILOSOFIA (gr. (pita>ao(poc; lat. Philosophia;          estabelecer sobre a natureza e os limites do sa-
  in. Phosophy, fr. Philosophie, ai. Philosophie, it.         ber acessvel ao homem ou sobre os objetivos
  Filosofia). A disparidade das F. tem por reflexo,            para os quais ele pode ser dirigido. Portanto
  obviamente, a disparidade de significaes de                pode-se entender esse saber tanto como rev-         
  "F.", o que no impede reconhecer nelas algu-                lao ou posse quanto como aquisio ou bus-
  mas constantes. Destas, a que mais se presta a               ca, podendo-se entender que seu uso deva
  relacionar e articular os diferentes significados            orientar-se para a salvao ultraterrena ou
  desse termo  a definio contida no Eutidemo                terrena do homem, para a aquisio de bens
  de Plato: F.  o uso do saber em proveito do                espirituais ou materiais, ou para a realizao
. homem. Plato observa que de nada serviria                   de retificaes ou mudanas no mundo. Por-
  possuir a capacidade de transformar pedras em                tanto, essa frmula revela-se igualmente apta a
  ouro a quem no soubesse utilizar o ouro, de                 exprimir as diferentes tarefas que a F. foi assu-
  nada serviria uma cincia que tornasse imortal
                                                               mindo ao longo de sua histria. Por exemplo,         ,
  a quem no soubesse utilizar a imortalidade, e
  assim por diante.  necessria, portanto, uma                exprime igualmente bem tanto a tarefa das F.
  cincia em que coincidam fazer e saber utilizar              positivas ou dogmticas quanto a das F. negati-
  o que  feito, e esta cincia  a F. (Eutid., 288 e          vas ou cpticas. Quando o cepticismo antigo se
  290 d). Segundo esse conceito, a F. implica: 1Q              prope realizar a imperturbabilidade da alma
  posse ou aquisio de um conhecimento que                    pela suspenso do assentimento (SEXTO
  seja, ao mesmo tempo, o mais vlido e o mais                 EMPRICO, Pirr. hyp., I, 25-27), no faz seno
  amplo possvel;^2 uso desse conhecimento em                  entender a F. como uso de determinado
  benefcio do homem. Esses dois elementos re-                 conhecimento para conseguir uma vantagem.
  correm freqentemente nas definies de F.                   Analogamente, quando, na F. contempornea,
  em pocas diversas e sob diferentes pontos de                Wittgenstein afirma que o propsito da F. 
  vista. So reconhecveis, por exemplo, na defini-            levar ao desaparecimento dos problemas fi-
   o de Descartes, segundo a qual "esta palavra              losficos, eliminar a prpria F. ou se "curar"
   significa o estudo da sabedoria, e por sabedoria            dela (Philosophical Investigations,  133), no
   no se entende somente a prudncia nas coi-                 est recorrendo a conceito diferente de F.: li-
   sas, mas um perfeito conhecimento de todas                  bertar da F.  a utilidade que o uso do saber
   as coisas que o homem pode conhecer, tanto                  (neste caso a retificao lingstica deste) pode
   para a conduta de sua vida quanto para a con-               proporcionar.
   servao de sua sade e a inveno de todas                    Os dois elementos encontrados na defini-
   as artes" (Princ. phil., Pref.). Encontram-se               o de F. considerada apta a constituir o quadro
FILOSOFIA                                            443                                        FILOSOFIA

das principais articulaes dos significados               balho  subalterno e ancilar: no  nem pode
desse termo constituem por si mesmos a pri-                ser decisivo quando se trata de interpretaes
meira dessas articulaes. Em outras palavras,            fundamentais e de instncias ltimas. Na reve-
possvel distinguir os significados historicamen-          lao e na tradio, encontra limites intrans-
te dados desse termo: ls com relao  nature-             ponveis que vedam qualquer possibilidade de
za e validade do conhecimento ao qual a F. se              desenvolvimento em direes diferentes das j
refere; 2S com relao  natureza do alvo para             determinadas. No pode combater e destruir as
o qual a F. pretende dirigir o uso desse saber;            crenas estabelecidas, opor-se frontalmente 
3S com relao  natureza do procedimento                  tradio, promover ou planejar transformaes
que se considera prprio da filosofia.                     radicais. Sua funo  conservar as crenas es-
     I. A filosofia e o saber-- O uso do saber ao          tabelecidas, e no renov-las ou aperfeio-
qual o homem tem acesso de algum modo ,                   las, portanto, sua funo  subordinada e ins-
em primeiro lugar, um juzo sobre a origem ou              trumental, destituda de autonomia e da dignidade
a validade desse saber. E a propsito do juzo             de fora diretiva.
sobre a validade do saber surgem imediata-                     J se disse que quase todas as F. orientais
mente duas alternativas fundamentais, que                  so dessa natureza, o que por vezes levou a
estabelecem a distino entre dois tipos dife-             duvidar de que pudessem ser chamadas de
rentes e opostos de filosofia. A primeira alter-           filosofias. Mas, na verdade mesmo o mundo
nativa estabelece a origem divina do saber: para           ocidental muitas vezes oferece exemplos de F.
o homem, ele  uma revelao ou um dom. A                  desse tipo, ainda que nenhuma delas apresente
segunda alternativa estabelece a origem hu-                os caracteres ora expostos em todo o seu rigor.
mana do saber: ele  uma conquista ou uma                  A partir do nome do mais importante desses
produo do homem. A primeira alternativa                 exemplos, as formas que esse tipo de F. assu-
a mais antiga e a mais freqente no mundo,                 miu no mundo ocidental podem ser chamadas
 prevalecendo de h muito nas filosofias orien-            de escolsticas. Uma escolstica, ao contrrio
tais. A segunda alternativa surgiu na Grcia e             de uma filosofia de puro tipo oriental; pressu-
foi herdada pela civilizao ocidental.                    pe uma F. autnoma e vale-se dela pra a de-
     ) De acordo com a primeira alternativa, o            fesa e a ilustrao de uma verdade religiosa
 saber  uma revelao ou iluminao divina,               para confirmar ou defender crenas cuja valida-
 com que se privilegiaram a um ou mais ho-                 de se julga estabelecida de antemo, indepen-
 mens, transmitida por tradio num grupo tam-             dentemente de confirmaes ou defesas. Uma
 bm privilegiado de homens (casta, seita ou               escolstica, como a prpria palavra diz,  es-
 igreja). Portanto, no  acessvel aos mortais            sencialmente um instrumento de educao:
 comuns, a no ser atravs daqueles que so                serve para aproximar o homem, na medida do
 seus depositrios; tampouco  possvel aos                possvel, de um saber considerado imutvel
 mortais, comuns ou no, aumentar seu patri-               em suas linhas fundamentais, portanto no sus-
 mnio ou julgar de sua validade. Faz parte inte-          ceptvel de aperfeioamento ou renovao. Entre
 grante dessa interpretao da origem do saber             as tarefas -- alis, mltiplas, assim como so
 a crena de que seu uso em benefcio do ho-               mltiplos os caminhos de acesso do homem 
 mem -- neste caso a "salvao" -- tambm                 verdade, bem como os obstculos encontra-
 ditado ou prescrito pela revelao ou ilumina-            dos nesse caminho -- assumidas por uma F.
 o divina. Portanto, esta interpretao parece           escolstica, no est o eventual abandono das
 eliminar ou tornar suprfluo o "trabalho" filos-         crenas de que ela  intrprete. As seitas filos-
 fico, que versa precisamente sobre esse uso.              fico-religiosas do sc. II a.C. (p. ex., os es-
 Mas na prtica isso  raro. A exigncia de apro-          snios), as doutrinas de Flon de Alexandria
 ximar a verdade revelada da compreenso hu-               (sc. I d.C.) e de muitos neoplatnicos, a F.
 mana comum, de adapt-la s circunstncias e              islmica e judaica, a Patrstica e a Escolstica,
  de fazer que ela atenda aos problemas novos              bem como, no mundo moderno, o ocasiona-
  ou modificados que os homens se propem,                 lismo, o imaterialismo, a direita hegeliana e
  de defend-la de negaes, desvios, increduli-           boa parte do espiritualismo contemporneo so
  dades declaradas ou ocultas, faz que o trabalho          escolsticos no sentido ora esclarecido: F. que
  filosfico encontre nesse conceito do saber um           consistem em utilizar determinada doutrina
  vasto campo para desenvolver-se e tarefas                (platonismo, aristotelismo, cartesianismo, em-
  multiformes para enfrentar. Contudo, esse tra-           pirismo, idealismo, etc.) para a defesa e a inter-
FILOSOFIA                                           444                                           FILOSOFIA


pretao de crenas que no podem ser postas              mito e, em geral,  crena infundada que os
em dvida, corrigidas ou negadas por esse tra-            gregos chamavam de opinio.  na diferena
balho. Certamente, essas diferentes escolsticas          entre opinio e cincia, entre amor  opinio e
possuem graus diferentes de liberdade e esses             amor  sabedoria, que Plato mais insiste ao
graus s vezes variam, em cada uma delas, de              esclarecer o conceito de F. (Rep., V, 480 a). A F.
uma poca para outra. P. ex., S. Toms, apesar            como investigao  contraposta por Plato,
de conferir  "F. humana" certa autonomia, na             por um lado,  ignorncia e, por outro,  sabe-
medida em que lhe atribui a considerao e o              doria. A ignorncia  iluso de sabedoria e des-
estudo das coisas criadas como tais, ou seja,             tri o incentivo  investigao (O Banq., 204
sua natureza e suas prprias causas {Contra               a). Por outro lado, a sabedoria, que  a posse
Gent., II, 4), considera impossvel que ela pos-          da cincia, torna intil a investigao: os Deu-
sa contradizer as afirmaes da f crist, que            ses no filosofam ilbid. 204 a; Teet., 278 d). A
deve ser tomada como norma do procedimento                investigao  o que define o status de F. J
correto da razo (Ibtd., I, 7). Ainda que as F.           Herclito dissera: " necessrio que os homens
desse tipo possam conseguir resultados impor-             filsofos sejam bons investigadores de muitas
tantes, que passam a fazer parte do patrimnio            coisas" (Fr. 35, Diels). Enquanto investigao,
filosfico comum, seu campo  rigidamente                 a F.  "conquista", como dizia Plato (Eutid.,
limitado pelo problema em torno do qual elas              288 d), ou esforo, como diziam os esticos
giram, de defesa de crenas tradicionais: suas            (SEXTO EMPRICO, Adv. math., IX, 13), ou "ati-
possibilidades no se estendem  correo e               vidade", como diziam os epicuristas (Ibid.,
renovao de tais crenas.                                XI, 169).
    E) Para a segunda alternativa, o saber  uma              Mas se a F.  o compromisso de fazer do sa-
conquista ou uma produo do homem. O fun-                ber investigao, condiciona o saber efetivo,
damento desta concepo  que o homem                    que  "conhecimento" ou "cincia". No juzo
um "animal racional" e, portanto, como diz                que a prpria filosofia emite sobre ele, esse
Aristteles no incio da Metafsica (980 a 21),           condicionamento pode assumir trs formas que
"todos os homens tendem, por natureza, ao sa-             definem trs concepes fundamentais da F., a
ber": "tendem" significa que no somente dese-            metafsica, a positivista e a crtica. Ia Para a pri-
jam o saber, mas tambm podem obt-lo. O sa-              meira delas, a F.  o nico saber possvel, e as
ber, sob esse ponto de vista, no  privilgio            outras cincias, enquanto tais, coincidem com
ou patrimnio reservado a poucos; qualquer                ela, so partes dela ou preparam para ela. 2-
um pode contribuir para sua aquisio e para              Para a segunda delas, o conhecimento cabe s
seu enriquecimento, tendo, por isso, direito de           cincias particulares, e  F. cabe coordenar e
julg-lo, aprov-lo ou rejeit-lo. Sob esse ponto         unificar seus resultados. 3a Para a terceira delas,
de vista, a tarefa fundamental da F.  a busca e          F.  juzo sobre o saber, ou seja, avaliao de
a organizao do saber. Quando Tucdides (II,             suas possibilidades e de seus limites, em vista
40) atribui a Pricles a frase "Amamos o belo             de seu uso pelo homem.
com moderao e filosofamos sem timidez",                     1- A primeira concepo da F.  a metafsi-
certamente est expressando a atitude e o esp-           ca, que dominou na Antigidade e na Idade
rito grego, do qual nasceu a F. nesta segunda             Mdia, distinguindo ainda hoje muitas corren-
acepo do termo. Pricles no fazia aluso a             tes filosficas. Sua caracterstica principal  a
uma disciplina especfica, mas  busca do saber           negao de qualquer possibilidade de inves-
conduzida sem compromissos preconcebi-                    tigao autnoma fora da F. Um conhecimento
dos ou com um nico compromisso de experi-                ou  filosfico ou no  conhecimento. Admi-
mentar e pr  prova toda crena possvel.                te-se muitas vezes que, fora da F., existe um
Neste sentido, a F.  uma criao original do es-         saber imperfeito, provisrio e preparatrio, mas
prito grego e uma condio permanente da                 nega-se que tal saber possua validade cognos-
cultura ocidental.  um compromisso no senti-             citiva prpria. Assim, Plato, por um lado, cha-
do de que qualquer investigao, em qualquer              ma a geometria e as outras cincias de F., refe-
campo, deve obedecer somente s limitaes                rindo-se em especial  sua funo educativa
 ou s normas que ela mesma reconhea como                {Teet., 143 d; Tim., 88 c), e por outro lado con-
vlidas em funo de suas possibilidades ou de            sidera tais cincias (aritmtica e geometria, as-
sua eficcia em descobrir ou confirmar. Neste             tronomia e msica) simplesmente propedu-
sentido, F. ope-se a tradio, preconceito,              ticas para a F. propriamente dita, ou seja, para
FILOSOFIA                                             445                                            FILOSOFIA

a dialtica, que teria, entre outras, a tarefa de           e esprito, cumprindo, assim, a "tendncia ne-
"descobrir a comunho e o parentesco entre as               cessria de todas as cincias naturais" (System
cincias e de demonstrar as razes pelas quais              des transzendentalen Idealismus, 1800, Intr.,
esto interligadas" (Rep., VII, 531 d). Aristteles          1). Hegel afirmaria explicitamente que "as
define a F. como "cincia da verdade" (Met., II,            cincias particulares se ocupam dos objetos
1, 993 b 20), no sentido de que ela compreen-               finitos e do mundo dos fenmenos" (Geschichte
de todas as cincias tericas, ou seja, a F. pri-           der Philosophie, Intr., A,  2; trad. it., I, p. 69); e
meira, a matemtica e a fsica, e exclui somente            que "uma coisa so o processo de origem e os
a atividade prtica: mas tambm esta deve re-               trabalhos preparatrios de uma cincia e outra
correr  F. para esclarecer sua natureza e seus             coisa  a prpria cincia", na qual eles desa-
fundamentos. Tanto Plato quanto Aristteles                parecem para serem substitudos pela "necessida-
admitem como cincia primeira uma disciplina                de do conceito" (Ene,  246). Isso significa que
determinada, que para Plato  a dialtica e                s a F.,  cincia, porque s ela demonstra "a
para Aristteles a F. primeira ou teologia, mas             necessidade do conceito", utilizando e mani-
para eles essa disciplina determinada tambm                pulando a seu modo (como Hegel realmente
 a mais geral. Com efeito, conforme j se viu,             fez) o material preparado pelas chamadas cin-
a dialtica permitia compreender a ligao e a              cias empricas. Portanto, Hegel reservava para
natureza comum das cincias, e a F. primeira,               a F. o privilgio de ser a "considerao pensante
como cincia do ser enquanto ser, tem por                   dos objetos" (Ibid.,  2). O conhecimento pre-
objetivo especfico a essncia necessria ou                liminar ou preparatrio assenta em representa-
substncia que a cada cincia cabe indagar em               es; tem-se conhecimento propriamente dito
seu campo particular (Depart. an., I, 5, 645 a              quando, com a F., "o esprito pensante atravs
1). Outras vezes, ao contrrio, a F. resolve-se             das representaes e trabalhando sobre elas
nas disciplinas particulares, sem privilgio de             progride para o conhecimento pensante e o
nenhuma delas. Era o que faziam os epicuristas,             conceito" (Ibid.,  1). Est claro que, expresso
que a dividiam em cannica, fsica e tica (DIG.           desta maneira, o conceito de F. como totalida-
L, X, 29-30), e os esticos, que a dividiam em              de do saber  uma manifestao de arrogncia
lgica, fsica e tica (ACIO, Plac, I, 2), consi-          filosfica, inexistente nesse mesmo conceito no
derando que essas trs partes eram interli-                 perodo clssico. Naquela poca, com efeito,
gadas como os membros de um animal (DIG.                   esse conceito agia como compromisso espec-
L, VII, 40).                                                fico das disciplinas cientficas, que graas a ele
                                                            ingressavam na esfera da investigao desinte-
    Esta concepo, que identifica o saber inte-
                                                            ressada, recebendo dele incentivo e sustenta-
gral com a F. e se recusa a reconhecer que haja
                                                            o em sua constituio conceituai. Mas na
ou possa haver um saber autntico fora dela
                                                            concepo do idealismo romntico, as cincias
sobreviveu  constituio das cincias particu-
                                                            especficas eram rebaixadas  funo de traba-
lares como disciplinas autnomas e con-
                                                            lho braal destitudo de validade intrnseca. A
servou-se substancialmente inalterada em
                                                            essa mesma funo a cincia  reduzida tanto
certas correntes filosficas at nossos dias. A
                                                            pelo idealismo quanto pelo espiritualismo. A
definio que Fichte deu da F. como uma "cin-
                                                            definio de F. como "teoria geral do esprito"
cia da cincia em geral" (ber den Begriff der
                                                            leva Gentile a consider-la como a conscincia
 Wssenschaftslehre oder der sogernannten
                                                            que o Eu absoluto tem de si mesmo: dessa
Philosophie, 1794,  1) no deixa qualquer auto-
                                                            conscincia, os conhecimentos empricos, ba-
nomia s cincias particulares, uma vez que, se-
                                                            seados na distino entre objeto e sujeito e entre
gundo essa definio, a doutrina da cincia
                                                            os prprios objetos, so uma falsa abstrao
 "deve dar sua forma no s a si mesma, mas
                                                            (Teoria generale dello spirito, 1916, cap. 15,
tambm a todas as outras cincias possveis", e
                                                             2). Outrossim, apesar da formulao menos
constituir assim o "sistema acabado e nico do
                                                            berrante, a definio dada por Croce de F. como
esprito humano" (Ibid.,  2). Essa pretenso
                                                            "metodologia da historiografia" implica a mes-
manteve-se inalterada em todas as definies
                                                            ma arrogncia filosfica. Para Croce, o conhe-
que o idealismo romntico deu da filosofia.
                                                            cimento histrico  o nico possvel, visto que
 No  outro o significado das observaes de
                                                            a histria  a nica realidade: portanto, a redu-
 Schelling, para quem a tarefa da F.  aclarar a
                                                            o da F. a metodologia desse conhecimento
 concordncia (que finalmente  identidade) en-
                                                            eqivale a negar que o saber cientfico seja
 tre objetivo e subjetivo, ou seja, entre natureza
FILOSOFIA                                           446                                         FILOSOFIA


conhecimento; de fato, para CROCE, ele no               dam na mesma negao da cincia, uma vez
um saber, mas um conjunto de expedientes                  que negam autonomia estrutural e validade s
prticos (La storia, 1938, p. 144; Lgica, 1908,          cincias especficas (Phil,  1, pp. 53 ss.;
I, cap. 2). Por outro lado, o espiritualismo con-         Existenzphii, 1938, Intr.). Uma desvalorizao
temporneo segue, em sua maior parte, esse                ainda mais radical das cincias especficas 
mesmo caminho. Para Bergson, a intuio  o               realizada por Heidegger, para quem os pressu-
rgo da F. por ser a intuio a "viso direta do         postos da cincia moderna so o esquecimento
esprito por parte do esprito" (La pense et le          do ser, a reduo do homem a sujeito e do
mouvant, 3a ed., 1934, p. 51), ou seja, o instru-         mundo a representao (Brief ber den "Hu-
mento para atingir, imediata e infalivelmente, a          manismus", em PlatosLebre von der Wahrheit,
"durao real" que  a realidade absoluta. Seu            1947, p. 88).
reconhecimento da cincia como conhecimen-                    2a A segunda concepo de F. como juzo
to adequado ao mundo material ou das "coi-                sobre o saber  a que tende a resolv-la nas
sas"  puramente fictcio: para Bergson, nem a
matria nem as coisas tm realidade como tais,            cincias especficas, atribuindo-lhe s vezes a
porque no so seno conscincia, e a cons-               funo de unificar as cincias ou de reunir seus
cincia s pode ser autenticamente conhecida              resultados numa "viso de mundo". A origem
pela prpria conscincia: "Ao sondar sua pr-             desta concepo pode ser vista em Bacon, que
pria profundidade, a conscincia no estaria              concebeu a F. como uma cincia que, em pri-
penetrando tambm no ntimo da matria, da                meiro lugar, dividiria e classificaria as cincias
vida, da realidade em geral? Isso s poderia ser          particulares e depois conferiria a tais cincias a
contestado se a conscincia se acrescentasse             posse de seus mtodos, do material de que
matria como um acidente, mas ns acredita-               elas disporiam e das tcnicas para a utilizao
mos ter demonstrado que essa hiptese  absur-            desse material em proveito do homem. Em De
da ou falsa, conforme o lado pelo qual  consi-           dignitate et augmentis scientiarum (1623), es-
derada, contraditria em si mesma e desmentida            boando o plano de uma enciclopdia das
pelos fatos" (Ibid,, pp. 156-57). O conceito de           cincias em bases experimentais, Bacon atri-
F. como conhecimento privilegiado (seja qual              bua  "F. primeira", por ele considerada como
for o aspecto em que assente o privilgio) nada           "cincia universal e me das outras cincias", a
mais  que uma das tantas expresses do anti-             tarefa de reunir "os axiomas que no so pr-
go conceito de F. como saber nico e absoluto.            prios das cincias particulares, mas comuns a
As tendncias do pensamento moderno que                   vrias cincias" (Deaugm. scient., III, 1). Hob-
costumam ser chamadas de "metafsicas"                    bes, por sua vez, identificava a F. com o conhe-
caracterizam-se precisamente por esse concei-             cimento cientfico: "A F.  o conhecimento ad-
to de filosofia. Husserl expe assim o ideal              quirido atravs do raciocnio correto, dos
cartesiano da F. que ele declara adotar: "Lem-            efeitos ou fenmenos, a partir de suas causas
bremos a idia diretiva das Meditaes de Des-            ou origens; ou, reciprocamente, o conhecimen-
cartes. Ela visa a uma reforma total da F., para          to adquirido sobre as origens possveis a partir
torn-la uma cincia de fundamentos absolu-               dos efeitos conhecidos" (De corp., 1,  2). Des-
tos. Isto implica, para Descartes, uma reforma            te conceito de F. coincidente com o conheci-
paralela de todas as cincias, visto serem estas          mento cientfico, e no esforo de esclarec-la e
membros de uma cincia universal que outra                estend-la, proveio o sentido do termo em in-
no  seno a prpria F.  s na unidade siste-           gls, para o qual Hegel j chamava a ateno
mtica desta que elas realmente podem tornar-             (Ene,  7 e nota; Geschichte derPhil., Intr., A,
se cincias" (Cart. Med., 1931,  1). Em sua              2; trad. it, I, p. 70): segundo ele, esse termo
ltima obra, Husserl estabelecia como primeira            no se aplicava somente  cincia da natureza,
condio da F. "uma 'epoch' de qualquer pres-            mas ainda a certos instrumentos, como term-
suposto das cincias objetivas, de qualquer to-           metros, barmetros, etc, alm dos princpios
mada de posio crtica em torno da verdade               gerais da poltica; este ltimo uso conservou-
ou da falsidade da cincia, uma 'epoch' at da           se nos pases anglo-saxnicos. Para o prprio
idia diretiva da cincia, da idia do conheci-           Descartes, a F. compreendia "tudo aquilo que o
mento objetivo do mundo" (Krisis,  35).                  esprito humano pode saber", e assim coinci-
                                                          dia em grande medida com as pesquisas cientfi-
   No obstante o amplo reconhecimento da                 cas, que, alis, para Descartes deveriam ser
validade do mtodo cientfico, as considera-              remetidas a certos princpios fundamentais
es de Jaspers sobre a natureza da F. redun-
FILOSOFIA                                                 447                                         FILOSOFIA

(Princ.phii, Pref.). Todo o Iluminismo partici-                 ratura filosfica das ltimas dcadas do sc.
pou do conceito de filosofia como conheci-                      XIX e das primeiras do sc. XX, porquanto per-
mento cientfico. "Filsofo, amante da sabedo-                  mite que a F. aproveite amplamente os resulta-
ria, da verdade", dizia Voltaire iDict. Phii, art.              dos obtidos pela investigao positiva tanto no
Philosophe). E Wolff mesmo admitia, ao lado                     campo das cincias naturais quanto no das
das cincias "racionais" em que dividia a F.,                   cincias do esprito. Por vezes, tende-se a acen-
cincias empricas correspondentes, dotadas de                  tuar, nesse sentido, o carter unitrio e totalit-
um mtodo autnomo, que  o experimental.                       rio desta cincia universal; nesse caso, assim
P. ex., ao lado da cosmologia geral ou cientfi-                como na definio de Wundt, ela  considerada
ca, Wolff admite uma cosmologia experimental                    intuio ou viso do mundo. Tal conceito 
"que haure das observaes a teoria que  esta-                 uma determinao ulterior do conceito de F.
belecida ou que deve ser estabelecida na cos-                   como "cincia universal", unificadora e gene-
mologia cientfica" (Cosm.,  4), e reconhece                   ralizadora. Mach diz: "O filsofo tenta orientar-
que  possvel, embora difcil, que toda a teoria               se no conjunto de fatos de um modo universal,
da cosmologia geral derive dessas observaes                   o mais completo possvel... Somente a fuso
Ubid.,  5).                                                    das cincias especiais mostrar a concepo do
    Dentro desse significado, o positivismo deu                  mundo para a qual tendem todas as especiali-
destaque  funo da filosofia de reunir e coor-                zaes" (Erkenntniss und Irrtum, cap. I, trad.
denar os resultados das cincias especficas                    fr., pp. 14-15). Dilthey demonstrou bem esta
com vistas a criar um conhecimento unificado e                  conexo entre F. e cincias especiais quando
generalssimo. Esta  a tarefa atribuda  F. por               escreveu: "A histria da F. transmite ao trabalho
Comte e Spencer. Comte acha que, ao lado das                    filosfico sistemtico os trs problemas da fun-
cincias particulares, deve haver um "estudo                    damentao, justificao e conexo das cin-
das generalidades cientficas", que, para ele,                  cias especficas, juntamente com a tarefa de en-
corresponde  "F. primeira" de Bacon. Esse                      frentar a necessidade inexaurvel de reflexo
estudo deveria "determinar exatamente o esp-                   ltima sobre o ser, o fundamento, o valor, a fi-
rito de cada cincia, descobrir as relaes e a                 nalidade e suas interconexes na intuio do
concatenao entre as cincias, resumir talvez                  mundo, sejam quais forem a forma e a direo
todos os princpios dessas cincias no menor                    em que tal tarefa  realizada" (Das Wesen der
nmero possvel de princpios comuns, sempre                    Philosophie, ao fim; trad. it, em Critica delia
em conformidade com as mximas fundamen-                        ragione storica, p. 487). Para Simmel, a relao
tais do mtodo positivo" (Cours de phil. po-                    entre fundamentao/unificao das cincias e
sitive, Ia lio,  7; 2- lio,  3). O conceito de F.         intuio do munclo (em que consiste propria-
como cincia generalizadora e unificadora dos                   mente a metafsica) configura-se como a distin-
resultados das outras cincias foi e continua                   o entre os dois limites que definem o campo
sendo corrente na filosofia moderna e con-                      da investigao filosfica. "Um deles compreen-
tempornea. Foi aceito no s por correntes                     de as condies, os conceitos fundamentais, os
positivistas, mas tambm por doutrinas espiri-                  pressupostos da pesquisa especfica, que no
tualistas; estas ltimas acrescentaram-lhe em                   podem ser satisfeitos nesta porque, de certo
certos casos uma determinao ou condio                       modo, j constituem a sua base; no outro, essa
limitadora: a generalizao e a unificao de-                  pesquisa especfica  levada a cabo em conexo
vem corresponder a uma imagem do mundo                          e em relao com questes e conceitos que
 que satisfaa s necessidades do corao. Essa                 no tm lugar na experincia e no saber obje-
 precisamente a definio de F. dada por                       tivo imediato. Aquela  a teoria do conhecimento,
Wundt, que reconheceu como funo sua a                         esta  a metafsica do campo especfico em
 "sntese dos conhecimentos especficos em                      questo" (Soziologie, 1910, p. 25; cf. P. Rossi,
uma intuio do mundo e da vida que satisfaa                   Lo storicismo tedesco contemporneo, Torino,
as exigncias do intelecto e as necessidades do                 1956, pp. 242 ss.). Ora, a primeira destas tare-
corao" (Syst. der Phil., 4- ed., 1919, 1. p. 1;               fas  aquela que a filosofia crtica havia atribu-
Einleitung in diePhii, 3a ed., 1904, p. 5). Des-                do  F. (v. adiante); a segunda delas  a que
se ponto de vista, a F. " a cincia universal que              havia sido atribuda  F. pela corrente positivista
deve unificar num sistema coerente os conheci-                  que remonta a Bacon. A ltima manifestao
mentos universais fornecidos pelas cincias                     deste conceito de F. no pensamento contem-
particulares": conceito muito freqente na lite-                porneo  a noo de "cincia unificada", pr-
FILOSOFIA                                               448                                        FILOSOFIA


 pria do neo-empirismo,  qual  dedicada a                   trem seu conhecimento" (Ibid., IV, 21,  2-4).
 Enciclopdia internacional da cincia uni-                   Nesta diviso das cincias falta a F.: isto quer
ficadaie 1938 em diante). Contudo, nesta obra                dizer que, para Locke, a F. no  uma cincia
o prprio conceito de unificao  dbio, sendo               no mesmo sentido da fsica, da tica ou da
defendido de maneiras diversas pelos diferen-                 lgica, ou seja, conhecimento de objetos, mas
tes adeptos. Neurath entende-a como a combi-                   juzo sobre a cincia,  crtica. Esse ponto de
nao dos resultados das vrias cincias e a                  vista constitui um dos files principais da filo-
axiomatizao deles num sistema nico; Dewey,                 sofia moderna e contempornea. Hume identi-
como exigncia de estender a posio e a fun-                 ficava a tarefa da F. acadmica ou ctica, por
o da cincia  vida humana; Russell, como                   ele professada, com a "limitao de nossas in-
unidade de mtodo; Carnap, como unidade for-                  vestigaes s matrias que mais se adaptam 
mal ou lingstica; Morris, como doutrina geral               limitada capacidade da inteligncia humana"
dos signos (Intern. Encycl. of Unifed Science,               (Inq. Cone. Underst., XII, 3). Em Kant, a limita-
I, 1, pp. 20, 33, 61, 70). Apesar de tudo, o con-             o do conhecimento  considerada fundamento
ceito de filosofia como unificao e generaliza-              da validade do prprio conhecimento, segun-
o do saber cientfico continua sendo propos-                do conceito j utilizado por Locke. Com efeito,
to no mundo contemporneo;  defendido, p.                    para Kant, tanto as condies a priori do co-
ex., por Whitehead (Adventures of Ideas, 1933,                nhecimento (intuies puras, categorias) quanto
IX,  2).                                                     suas condies a posteriori (dado emprico ou
     3a A terceira concepo de F. como juzo do              intuio) determinam e limitam as possibilida-
saber pode ser chamada de crtica e consiste                  des cognoscitivas no sentido de que no s
em reduzir a F., sob esse ponto de vista, a dou-              excluem certos campos de indagao, mas tam-
 trina do conhecimento ou a metodologia. Se-                  bm fundamentam a validade ou a efetividade
gundo esta concepo, a filosofia no aumenta                 das prprias possibilidades. Kant expressava o
 a quantidade do saber, portanto, no pode ser                campo da F. com as seguintes perguntas: Ia o
 chamada propriamente de "conhecimento". Sua                  que posso saber?; 2a que devo fazer?; 3a o que
 tarefa  verificar a validade do saber, determi-             posso esperar?; 4a o que  o homem? E acres-
 nando seus limites e condies, suas possibi-                centa: "A metafsica responde  primeira ques-
 lidades efetivas. O iniciador desse conceito de F.           to; a moral,  segunda; a religio,  terceira; a
foi Locke. Todo o Ensaio nasceu -- como ele                   antropologia,  quarta. Mas, no fundo, poder-
 adverte na "Epstola ao Leitor", que o precede               se-ia reduzir tudo  antropologia, uma vez que
-- da necessidade de "examinar a capacidade                   as trs primeiras questes remetem  ltima.
 da mente humana e ver que objetos esto ao                   Conseqentemente, o filsofo deve poder deter-
 seu alcance e quais os que esto acima de sua
                                                              minar: 1Q a fonte do saber humano; 2- o campo
 compreenso". Mais exatamente ainda, a F. tende
 a descobrir quais so as possibilidades da inte-             de aplicao possvel e til do saber; 3e os limi-
 ligncia, qual a magnitude dessas possibilida-               tes da razo" (Logik, Intr., III). A objeo de
 des, a que tipo de coisas elas se ajustam e onde             Hegel a esse ponto de vista -- "querer conhe-
 nos falta seu socorro (Ensaio, Intr.,  4). Os               cer antes de conhecer  to absurdo quanto o
 limites das capacidades humanas so resumi-                  prudente propsito de certo aluno, que queria
 dos claramente por Locke no terceiro captu-                 aprender a nadar antes de entrar na gua" (Ene,
 lo do IV livro do Ensaio. Mas  no ltimo cap-               10) --  pura boutade, uma vez que a F. como
 tulo da obra, dedicado  diviso das cincias,               crtica supe que j se saiba nadar, que j exis-
 que esses limites ficam mais claros. Distinguem-             ta um saber constitudo (o da cincia), a partir
 se trs cincias principais: a F. natural ou fsica,         do qual se podem investigar as possibilidades
 cuja tarefa  "o conhecimento das coisas como                de conhecer e determinar seus limites. Na doutri-
 elas so em seu ser prprio, sua constituio,               na kantiana, o neocriticismo contemporneo
 suas propriedades e operaes"; a F. prtica ou              modificou o tpico referente  religio e, man-
 tica, que  "a arte de bem dirigir nossos pode-             tendo inalterado o conceito de F. como crtica
 res e nossos atos para a consecuo das coisas               do saber, reconheceu trs disciplinas filosficas,
 boas e teis"; e a doutrina dos sinais, semitica            quais sejam, lgica, tica e esttica; entendeu,
 ou lgica, cuja tarefa  "considerar a natureza              por lgica, na maioria das vezes, a teoria do
 dos signos utilizados pelo esprito para o en-               conhecimento. Essa doutrina foi defendida pela
 tendimento das coisas ou para transmitir a ou-               chamada escola de Marburgo (Cohen, Natorp,
FILOSOFIA                                           449                                        FILOSOFIA

Cassirer) e tambm pelo criticismo francs                duo que filosofa; para a segunda interpretao,
(Renouvier, Brunschvicg). A posio de desta-             a F. transcende o indivduo e concerne s rela-
que de que a gnosiologia ou teoria do conhe-              es com a natureza e com os homens, portan-
cimento tem gozado na filosofia contempor-               to  vida humana social. Para usar um termo de
nea (e no s entre as correntes neocriticistas)          clara significao histrica, pode-se chamar de
 conseqncia do conceito de filosofia como              "iluminista" esta segunda interpretao da fi-
crtica do conhecimento. A gnosiologia ou teo-            losofia.
ria do conhecimento (v.), todavia,  caracteri-               a) O conceito de F. como contemplao  t-
zada por pressupostos e problemas particula-              pico, em primeiro lugar, das F. de tipo oriental,
res; portanto, o conceito de F. como crtica do           que estabelecem como objetivo da F. a salva-
saber no implica a identificao da F. com a             o do homem. Com efeito, a salvao  a li-
doutrina do conhecimento ou gnosiologia. De               bertao de qualquer relao com o mundo,
fato, mesmo depois da crise e do abandono da              portanto a realizao de um estado em que
gnosiologia oitocentista, esse conceito conti-            qualquer atividade  impossvel ou sem senti-
nua na forma da anlise dos procedimentos                 do. No Ocidente, o conceito de F. como con-
efetivos do conhecimento cientfico e de deter-           templao ho toi aprimeira forma assumida
minao de seus limites e de sua validade. Esta           pelo trabalho filosfico (que foi, ao contrrio, o
anlise  tema caracterstico da metodologia
                                                          da "sabedoria", da F. ativa e militante), mas foi
(v.). Portanto, a metodologia pode ser conside-
rada a ltima encarnao da F. como crtica do            a primeira caracterizao explcita desse traba-
saber. Como parte da metodologia, ou como                 lho. Seu fundamento  a natureza "desinteres-
restrio de seu objetivo, pode-se entender a             sada" da investigao filosfica. Quando em
definio de F. como "anlise da linguagem",              Herdoto (I, 30) o rei Creso diz a Slon: "Ouvi
proposta pela primeira vez por Wittgenstein,              falar das viagens que, filosofando, tens empreen-
em Tractatus logco-philosophicus(1922). Atri-            dido a fim de ver muitos pases", obviamente
buindo "a totalidade das proposies verda-               est aludindo ao carter desinteressado dessas
deiras"  cincia natural, Wittgenstein nega que          viagens, que no foram realizadas com objeti-
a F. seja uma cincia natural: esta palavra, diz          vos lucrativos ou polticos, mas visando apenas
 ele, "deve significar alguma coisa que est aci-         ao conhecimento. O prprio Plato contrape
ma ou abaixo das cincias da natureza, no ao             o esprito cientfico dos gregos ao amor e ao
 lado delas" {Tractatus,  4,111). Torna-se ento         lucro, tpico dos egpcios e dos fencios (Rep.,
 tarefa da F. o aclaramento lgico da lingua-             IV, 435 e). E que a busca do saber no pode ser
 gem. "A F. no  uma doutrina, mas uma ativi-            subordinada ou submetida a finalidades alheias
 dade. Uma obra filosfica consiste essencial-            a ela  fato que resulta da prpria noo dessa
 mente em elucidaes. Os frutos da F. no so            busca, a maneira como ela se foi configurando
 proposies filosficas, mas o aclaramento               na Grcia antiga (cf. I, B). Mas j na narrao
 das proposies. A F. deve aclarar e delimitar           atribuda a Pitgoras, que provm de um texto
 com preciso as idias que, de outro modo, se-           de Herclides Pntico (DIG. L., Proemium, 12)
 riam turvas e confusas" (Jbid., 4, 112).                 com que se pretende justificar o nome de F.,
                                                          h algo mais que a simples exigncia de desinte-
   II. A filosofia e o uso do saber-- O segundo           resse na investigao. Segundo essa tradio,
ponto de vista sob o qual se podem buscar                 transmitida por Ccero em Tusculanae (V, 9),
constantes nos significados historicamente atri-          Pitgoras comparava a vida com as grandes fes-
budos  F., para em seguida realizar divises            tas de Olmpia, aonde alguns se dirigem a ne-
ou articulaes de tais significados,  o que fi-         gcio, outros para participar das competies,
cou expresso na 2- parte da definio usada
                                                          outros para divertir-se e, finalmente, alguns so-
como ponto de partida deste artigo, qual seja, a
F. como wsodo saber pelo ser humano. Ao lon-              mente para vero que acontece: estes ltimos
go da histria tm sido dadas duas interpreta-            so os filsofos. Aqui se evidencia a distino
es fundamentais desse conceito de F. d) a F.            entre o filsofo, interessado apenas em ver, e
 contemplativa e constitui uma forma de vida             o comum dos homens, dedicado a suas ocupa-
que  fim em si mesma; b~) a F.  ativa e consti-         es. Portanto, a superioridade da contempla-
tui o instrumento de modificao ou de corre-             o sobre a ao est implcita nessa narrao,
o do mundo natural ou humano. Segundo a                 que, provavelmente, tinha o objetivo de enobre-
primeira interpretao, a F. exaure-se no indiv-         cer, pela aluso a Pitgoras, o conceito de F.
FILOSOFIA                                              450                                         FILOSOFIA


que se ia formando na escola de Aristteles. O               mana; portanto, no se deve tomar ao p da le-
carter contemplativo da F. (que nada tem a ver              tra a afirmao de Aristteles de que ela no d
com o carter desinteressado da investigao                 o que fazer. Essa afirmao significa apenas
em geral), como uma das possveis respostas                  que ela no modifica a estrutura do mundo, do
ao problema do uso do saber pelo ser humano,                 conhecimento concernente ao mundo e das
foi afirmado e justificado pela primeira vez por             formas de vida social, mas pode modificar a
Aristteles. Esse carter funda-se na natureza               vida do indivduo, tornando-o sapiente e bem-
necessria do objeto da F., aquilo que "no                  aventurado.
pode ser seno o que " (Et. nc, VI, 3, 1139 b                  A partir dessas caractersticas,  fcil conhe-
19)- Sob este ponto de vista, a j \ __j>ab_er e no         cer a atitude contemplativa em filosofia. Quan-
sabedoria, j que a sabedoria consiste em bem                do Spinoza diz: "O homem forte considera
deliberar, porm nada h que deliberar a res-                principalmente que todas as coisas procedem
peito de coisas que no podem ser de outra                   da necessidade da natureza divina e que, por-
maneira (Jbid., VI, 5, 1140 a 30). Com base                  tanto, tudo o que ele julga molesto e ruim e
nisso, Aristteles estabelece uma oposio en-               tudo aquilo que aparenta ser mpio, horrvel,
tre sabedoria e sapincia (v.). Homens como                  injusto e torpe nasce do fato de ele conceber as
Anaxgoras e Tales so sapientes, mas no s-                coisas de maneira obscura, parcial e confusa"
bios: no indagam acerca do bem humano, no                  (Et., XTV, 73, scol.), est expressando o conceito
conhecem o que  til a eles mesmos, mas                     contemplativo da F. em sua forma clssica. E
apenas coisas excepcionais, maravilhosas, raras              quando Hegel afirma que a F., assim como a
e divinas. "Ningum", diz Aristteles, "delibera             coruja de Minerva que comea a voar ao cair
sobre aquilo que no pode ser de outra manei-                da noite, sempre chega quando tudo j est fei-
ra ou sobre coisas que no tm um fim ou cujo                to, portanto demasiado tarde para dizer como
fim no  um bem realizvel" (Ibid., VI, 7, 1041             deve ser o mundo, est expressando o mesmo
b 10). Mas, desse ponto de vista, qual  o uso               conceito (Fil. do dir., Pref.). Com efeito, para
possvel do saber? Somente um: a realizao                  Hegel, assim como para Aristteles e Spinoza,
de uma vida contemplativa, dedicada ao conheci-              o objetivo da F.  o necessrio; sua tarefa  pre-
mento do necessrio. Portanto, para Aristteles,             cisamente mostrar a necessidade do que existe,
a atividade contemplativa  a mais alta e bea-               ou seja, a racionalidade do real (Ene,  12).
tfica das atividades: faz do homem algo supe-               Sob esse ponto de vista, a F.  a justificao ra-
rior ao prprio homem porque se conforma ao                  cional da realidade, entendendo-se por realida-
que de divino existe nele (Ibid., X, 7, 1177 b               de no s a da natureza, mas tambm a das
26). Assim, a doutrina de Aristteles fixou os               instituies histrico-sociais, a do mundo hu-
seguintes pontos no que se refere ao uso do                  mano. Sob esse prisma, no era muito diferente
saber pelo ser humano: ls a F., tendo como                   o conceito que Schopenhauer tinha de F.:
objeto o necessrio, no propicia ao homem                   "Espelhar em conceitos, de modo abstrato,
nada a fazer; portanto,  contemplao; 2- a                 universal e lmpido toda a essncia do mundo
contemplao  uma forma de vida individual                  e assim, qual imagem reflexa, deposit-la nos
privilegiada, pois  a bem-aventurana. Asjiuas              conceitos da razo, permanentes e sempre as-
teses so tpicas desta concepo da F,T que                 sentados: isso  F., no outra coisa" (Die Weil, I,
aparece com freqncia na histria do pensa-                 68).
mento ocidental e domina em toda a F. grega
ps-aristotlica, que cultiva o ideal do "sapien-                Na F. contempornea, o conceito de F. como
te", ou seja, daquele em quem se realiza a vida              contemplao permanece na fenomenologia e
contemplativa. Epicuristas, esticos, cpticos e             no espiritualismo. A fenomenologia  o esforo
neoplatnicos concordam em julgar que s o                   de realizar, por meio da "epoch", o ponto de
sapiente pode ser feliz, porque s ele, como                 vista do "espectador desinteressado", do sujeito
contemplador puro,  auto-suficiente. A finali-              que no esteja submetido s mesmas condies
dade que esses filsofos atribuem  F.  indivi-             limitativas que toma em considerao. Husserl
dual e pessoal: a realizao de uma forma de                 diz: "O eu da meditao fenomenolgica pode
vida que fecha o sapiente em si mesmo e na                   tornar-se o espectador imparcial de si mesmo,
 sua contemplao solitria. Tambm desse                    no s nos casos particulares, mas em geral;
 ponto de vista obviamente a F.  um esforo                 esse 'si mesmo' compreende qualquer objetivi-
 de transformao ou de retificao da vida hu-              dade que exista para ele, tal qual existe para
                                                             ele" (Cart. Med.,  15). E na ltima obra Husserl
FILOSOFIA                                               451                                        FILOSOFIA

v a filosofia como "movimento histrico da                   base-la na justia. Para ela, a educao do fil-
revelao da razo universal, inata como tal na               sofo no culmina na viso do bem, mas no "re-
humanidade" (Krisis,  6), atribuindo-lhe a                   torno  caverna": porquanto o filsofo deve co-
tarefa de levar a razo " autocompreenso,                   locar  disposio da comunidade os resultados de
a uma razo que se compreenda concretamen-                    sua especulao e utiliz-los para a direo e a
te a si mesma, que compreenda que  um                        orientao da mesma. "Cada um de vs", diz
mundo, um mundo que , em sua prpria ver-                    Plato, "deve descer para a habitao comum e
dade, universal" (Ibid.,  73). Por outro lado                acostumar-se a contemplar os objetos nas tre-
Bergson, ao distinguir a F. como intuio ou                  vas: porque, acostumando-se a elas, ver bem
conscincia da durao temporal (do devir                     melhor que aqueles que sempre estiveram l e
da conscincia) da cincia como conhecimen-                   reconhecer os caracteres e o objeto de cada
to dos fatos, v a cincia como "auxiliar da ao"            imagem, porque viu os verdadeiros exemplares
e a F. como atividade contemplativa. "A norma                 da beleza, da justia e do bem. Assim, ns e vs
da cincia", diz ele, " a que foi proposta por               constituiremos e governaremos a cidade des-
Bacon: obedecer para comandar. O filsofo no                 pertos, e no sonhando, como acontece agora
obedece nem comanda: procura simpatizar" (La                  na maior parte das cidades por culpa daqueles
pense et le mouvant, 3a ed., 1934, p. 158). A                que guerreiam por causa de sombras e dispu-
idolatria do "sapiente", como condio humana                 tam o poder como se fosse um bem" (Rep., VII,
privilegiada ou perfeita, e da F., como forma fi-             520 c). A F. platnica  totalmente dominada por
nal e conclusiva do ser, so dois traos caracte-             esse compromisso educativo e poltico: para
rsticos para se conhecer a concepo da F.                   Plato, a tarefa da F. no  dar a certo nmero
como contemplao. A esta concepo perten-                   de homens a bem-aventurana da contempla-
cem as formas do cepticismo antigo e moderno.                 o, mas dar a todos a possibilidade de viver se-
Quando Sexto Emprico aponta como finalidade                  gundo a justia (Ibid., 519 e). Esta concepo
da F. cptica a imperturbabilidade que ela                    ativa da F. permaneceu inoperante por muito
permite realizar (Pirr. hyp., I, 25), ou quando               tempo. Foi s no Renascimento que os hu-
Hume reduz o motivo de seu filosofar -- que                   manistas a retomaram, entendendo F. como
ele julga incapaz de agir sobre as crenas mais               sabedoria. Em De nobilitate legu m et medicinae,
 arraigadas no homem -- ao prazer que dele                    Coluccio Salutati (1331-1406) dizia: "Muito me
 extrai (Treatise, I, 4, 7; Inq. Cone. Underst., XII,         admira afirmares que a sabedoria consiste na
 3), ambos esto atribuindo  F. uma funo                   contemplao, cuja serva seria a prudncia, ha-
 contemplativa que se exaure no mbito da vida                vendo entre elas a mesma relao que h en-
 individual. E nesse mesmo mbito exaure-se a                 tre o administrador e o senhor, e dizeres que a
 funo da F. como "terapia" da F., isto , como              sapincia  a maior das virtudes, pertencente 
 libertao das dvidas filosficas, de que falam             melhor parte da alma, que  do intelecto, e que
 Wittgenstein (Philosophical Investigations,  133)           a felicidade consiste em agir conforme a sa-
 e alguns filsofos ingleses, seus seguidores (cf.            pincia. E acrescentas que, sendo a metafsica a
 Revolution inPhii, 1956, pp. 106, 112 ss.). De               nica cincia livre, o filsofo quer que a especu-
 fato, no parece que esses filsofos atribuam               lao preceda em tudo a ao... Mas a verdadei-
 terapia filosfica outra funo a no ser a de               ra sapincia no consiste, como crs, na espe-
 libertar o indivduo de suas dvidas filosficas             culao pura. Se tirares a prudncia, no achars
 permitindo que ele se "sinta melhor", do mes-                nem sapiente nem sapincia... Chamarias
 mo modo que Hume se sentia melhor com                        porventura de sapiente a quem houvesse co-
 suas dvidas cpticas.                                       nhecido coisas celestes e divinas, sem que hou-
                                                              vesse provido a si mesmo, sem que houvesse si-
    b) O conceito de F. como atividade diretiva               do til aos amigos,  famlia, aos parentes e 
ou transformadora j est presente na lenda dos               ptria?" No mesmo esprito, Leonardo Bruni, em
Sete Sbios, que foi citada pela primeira vez por             Isagogicon moralis disciplinae (1424), afirmava
Plato (Prot., 343 a). Os Sete Sbios foram mora-             a superioridade da F. moral sobre a F. terica.
listas e polticos, e seus ditados referem-se                   Posteriormente, a consolidao desta con-
conduta de vida e s relaes com os homens                   cepo ativa da F. caracteriza o incio da Idade
(v. SBIOS). Mas o primeiro grande exemplo de                 Moderna. Os humanistas acreditavam que s a
F. explicitamente concebida com a finalidade                  F. moral era ativa; para Bacon tambm  ativa a
de transformar o mundo humano  a de Plato,                  F. que tem por objeto a natureza, porque se
destinada a modificar a forma da vida social e a
FILOSOFIA                                             452                                         FILOSOFIA


destina a dominar a natureza. E Bacon no he-               humana, para o positivismo evolucionista a F.
sitou em chamar de "pastoral" a F. de Telsio,              tem mais carter contemplativo do que ativo.
que muito apreciava e em parte seguia, por pa-              A defesa do mistrio, que Spencer coloca en-
recer-lhe que ela "contemplava o mundo placi-               tre as tarefas da F., ou seja, o reconhecimento
damente e quase por cio" (Works, III, p. 118).             da insolubilidade dos chamados problemas lti-
Hobbes insistia na mesma funo da F. (De                   mos, pe a F. no mesmo plano contemplati-
corp., I,  6). Descartes, por sua vez, julgava-a           vo da religio. A discusso sobre a solubilidade
apta a obter sabedoria e cincia de tudo aquilo             ou insolubilidade dos chamados "enigmas do
que  til e vantajoso para o homem (Princ.                 mundo" incide inteiramente no plano da F.
phil, Pref.) A mesma finalidade diretiva e cor-             contemplativa. O positivismo de Ardig, o mo-
retiva foi atribuda  F. por Locke e pelos                 nismo materialista (Haeckel) e o evolucionismo
iluministas. Com Locke, a F. torna-se crtica do            espiritualista (Wundt, Morgan, etc.) so igual-
conhecimento e esforo de libertao do ho-                 mente contemplativos. Na realidade, o clima
mem de ignorncias e preconceitos. A mesma                  romntico est presente tanto no positivismo
concepo se mantm no Iluminismo do sc.                   quanto no idealismo e orienta tanto quele
XVIII, que v a F. como esforo da razo para               como a este para o conceito de F. como con-
assenhorear-se do mundo humano, libert-lo                  templao de uma realidade necessria. Con-
dos erros e faz-lo progredir. D'Alembert des-              tra tal conceito insurge-se o "novo materialis-
crevia assim a ao que a F. exercia em seu                 mo" de Marx, que, ao mesmo tempo, ope-se
tempo: "Dos princpios das cincias profanas                ao materialismo terico de Feuerbach. "Os fil-
aos fundamentos da revelao, da metafsica                 sofos", dizia ele, "at agora s fizeram interpre-
s questes de gosto, da msica  moral, das                taro mundo de diversas maneiras: trata-se ago-
disputas escolsticas dos telogos, aos objetos             ra de transform-lo" (Tese sobre Feuerbach,
de comrcio do direito dos prncipes ao direito             11). Mas por mais que Marx insista no esforo
dos povos, da lei natural s leis arbitrrias das           de transformao que deve caracterizar a F.
naes, numa palavra, das questes que mais                 como tal, o prprio fundamento da F. como
nos preocupam s que menos nos interessam,                  contemplao permanece firme em sua doutri-
tudo foi discutido e analisado, ou pelo menos               na. Esse fundamento , com efeito, a necessi-
cogitado. Nova luz sobre alguns objetos, nova               dade do real; para Marx, a transformao da
obscuridade sobre outros foram os frutos ou o               sociedade, ou seja, a passagem da sociedade
resultado dessa efervescncia geral dos espri-             capitalista para a sociedade sem classes, acon-
tos, assim como o efeito do fluxo e do refluxo              tecer "com a mesma fatalidade que caracteriza
do oceano  levar para a margem alguns obje-                os fenmenos da natureza" (Capit., I, 24,  7).
tos e dela afastar outros" (CEuvres, ed. Condorcet,         Desse ponto de vista, a tarefa da F. apresenta-
p. 218). O conceito iluminista de F. era comparti-          se como a de uma proftica Cassandra, no de
lhado por Kant, para quem a F., determinando                promover e orientar a transformao. Nesse
as possibilidades efetivas do homem em todos                aspecto,  o neocriticismo que por vezes es-
os campos, deve iluminar e dirigir o gnero                 capa ao clima romntico. Em Uchronie, Renou-
humano em seu obrigatrio progresso rumo                   vier props-se eliminar "a iluso da neces-
felicidade universal (Recenso de "Idias sobre             sidade preliminar, segundo a qual o fato
aF. da histria''de Herder, 1784-85; cf. Crt. R.           consumado seria o nico, entre todos os outros
Pura, Doutrina transcendental do mtodo, ca-                imaginveis, que poderia realmente acontecer"
ptulo III ao final).                                       (Uchronie, 2- ed., 1901, p. 411). Segundo ele, a
                                                            "F. analtica da histria" tem a tarefa de deter-
   Ao insistir no carter necessrio, porque ra-            minar as concatenaes gerais dos fatos histri-
cional, do ser, o Romantismo constituiu, em                 cos para dirigir o desenvolvimento da histria
seu conjunto, um retorno  concepo contem-                (Intr.  Ia phil. analytique de Vhistoire, 1864,
plativa da F. O prprio positivismo, que preten-            pp. 551-52). Por outro lado, a determinao de
dia explicitamente remeter-se  doutrina de                 "viso do mundo", imposta  F. na segunda
Bacon, do saber como possibilidade de dom-                 metade do sc. XIX por pensadores de proce-
nio da natureza, nem sempre se mantm fiel ao               dncia neocriticista ou positivista, tem claro sig-
reconhecimento do carter ativo da F. Se para               nificado contemplativo. Foi contra a interpreta-
o positivismo (v.) de cunho social (St.-Simon,              o contemplativa da F. que o pragmatismo,
Proudhon, Comte, Stuart Mill) a F.  principal-             desde a origem, assestou suas armas, como se
mente um meio de transformao da sociedade
FILOSOFIA                                            453                                          FILOSOFIA

pode ver no ensaio Como tornar claras nossas               clarecimento definitivo da realidade humana
idias (1878) de C. S. Peirce. Nesse ensaio,               como tal Qbid., p. 663).  evidente o carter
Peirce afirmava que toda a funo do pensa-                contemplativo de semelhante disciplina. Mas
mento  produzir hbitos de ao (ou crenas)              em sua segunda obra Sartre entende por F. a
e que, portanto, o significado de um conceito              "totalizao do saber, mtodo, idia regulado-
consiste exclusivamente nas possibilidades de              ra, arma ofensiva e comunidade de lingua-
ao que ele define. Mas essas afirmaes de               gem", e ao mesmo tempo como instrumento
Peirce so importantes tambm de outro pon-                que age sobre as sociedades decadentes para
to de vista. Peirce negava explicitamente o pres-          transform-las, podendo constituir a cultura e
suposto da F. como contemplao, vale dizer, o             at mesmo a natureza de uma classe inteira
carter necessrio do real. Mostrava que a regu-           (Critique de Ia raison dialectique, p. 17). No
laridade e a ordem dos acontecimentos, bem                 primeiro caso, a F. no dava o que fazer ao ho-
como suas inter-relaes condicionais, nada                mem, porque o homem nada podia fazer:
tm a ver com a necessidade, o que implicaria              Sartre definia o homem como "paixo intil"
a possibilidade de previso infalvel {Chance,             como paixo impossvel de ser Deus (Z 'tre et
Love and Logic, II, cap. 2). A definio dada              le nant, p. 708). No segundo caso, a F. insere-
por Dewey de F. como "crtica dos valores"                 se no mundo como fora humana finita mas
(Experience andNature, p. 407) expressa, pre-              eficaz, e tende a transform-lo. Subtrada ao
cisamente sobre pressupostos estabelecidos                 destino de fracasso e de sucesso, a noo de
por Peirce, a funo diretiva da filosofia. Se-            projeto presta-se a expressar o carter diretivo
gundo Dewey, a tarefa da F.  a antiga, que                e operante atribudo  F. pelas correntes neo-
est inscrita no prprio significado etimolgico           iluministas contemporneas. Com efeito, um
da palavra: procura da sabedoria, em que sabedo-           projeto parte dos conhecimentos disponveis e
ria difere de conhecimento por ser "a aplicao            determina seu uso possvel, a fim de garantir a
daquilo que  conhecido pela conduta inteli-               existncia e a coexistncia dos homens. Uma F.
gente das aes da vida humana" (Problems of               que projete neste sentido (alis, j esclarecido
Man, 1946, p. 7). No tem significado diferente            por Plato) o uso humano do saber obviamen-
 a definio dada por Morris: "Uma F.  uma or-            te  a determinao de tcnicas de vida que
ganizao sistemtica que compreende as cren-              podem ser postas  prova, corrigidas ou re-
as fundamentais: crenas sobre a natureza do              jeitadas .
mundo e do homem, sobre o que  bem, so-                       III. A filosofia e seus procedimentos -- O
bre os mtodos a seguir no conhecimento, sobre             terceiro ponto de vista para identificar constan-
o modo como a vida deve ser vivida" (.Signs,               tes de significado que permitam reconhecer
 Language and Behavior, 1946, VIII,  6; trad.             articulaes fundamentais nas interpretaes do
 it., p. 314). Para Morris, assim como para todo           conceito de F., ao longo da histria,  o que se
 o pragmatismo, crena no passa de norma de               refere ao procedimento ou mtodo atribudo 
 comportamento: a F., como organizao das                 F. Desse ponto ele vista, as F. podem ser divi-
 crenas fundamentais, constitui por isso aquilo           didas em a) F. sintticas ou criativas, que pro-
 que Sartre chamou de "projeto fundamental de              duzem conceptualmente seu objeto, sem impor
 vida". Na prpria obra de Sartre pode-se perce-           limites ou condies a esse trabalho de cons-
 ber a passagem da concepo contemplativa                 truo; e b) F. analticas, que reconhecem a
 de F., expressa em Vtre et le nant (1943),              existncia de dados, que elas descrevem ou
 para a concepo ativa ou iluminista, expressa            analisam. A caracterstica das F. analticas  a li-
 em Critique de Ia raison dialectique(J960). Na            mitao a que elas se julgam submetidas por
 primeira obra, Sartre projetava uma investiga-            parte do dado, seja qual for a maneira como o
 o chamada "psicanlise existencial", cuja fi-           concebem. A caracterstica das F. sintticas, ao
 nalidade era "evidenciar, de maneira rigorosa-            contrrio, consiste em no reconhecer essa li-
 mente objetiva, a escolha subjetiva graas               mitao e em pretender que seu mtodo seja
 qual cada pessoa se faz pessoa, ou seja, se faz           inteiramente construtivo, capaz de exaurir todo
  anunciar a si mesma aquilo que " (Z 'tre et le         o objeto da filosofia.
  nant, p. 662). O resultado de uma investiga-
 o desse gnero deveria ter sido, segundo                    d) O procedimento sinttico no pode lan-
  Sartre, a classificao e a comparao dos v-           ar mo da verificao de situaes, fatos ou
  rios tipos possveis de conduta, portanto o es-          elementos que sejam independentes dele; sua
                                                           caracterstica, portanto,  valer como verifica-
FILOSOFIA                                            454                                        FILOSOFIA

o de si mesmo. Sempre que uma filosofia                      Essa concepo atribui ao procedimento fi-
pressupe que a validade de seus resultados                losfico a produo de seu objeto, tomando
depende exclusivamente de sua prpria orga-                como objeto o infinito, o Absoluto ou Deus,
nizao interna, podendo, pois, ser reconheci-             que resolve ou anula em si todos os fatos ou
da e estabelecida de uma vez por todas, sem                todas as coisas finitas. Antes de encontrar em
necessidade de que esses resultados sejam pos-             Hegel sua forma tpica, essa concepo havia
tos  prova e confirmados por tcnicas ou pro-             sido exposta por Fichte como exigncia de que
cedimentos independentes dela, seu mtodo                  a F., como doutrina da cincia, confira forma
pode ser considerado sinttico. Com efeito,                sistemtica no s a si mesma, mas tambm a
neste caso, seu modo de proceder eqivale                  todas as outras cincias possveis e garanta
 criao ou composio ex novo de seu obje-               para todas a validade dessa forma (ber den
to, de forma que no exige confirmaes nem                Begriffder Wissenschaftslebre [Sobre o concei-
teme desmentidos. A F. de Hegel constitui a                to da teoria da cincia], 1794,  1). Com efeito,
encarnao mais pura desse tipo. Quando                    Fichte considerava que, juntamente com a for-
Hegel diz: "A F. no tem a vantagem de que go-             ma, a doutrina da cincia deveria produzir tam-
zam as outras cincias, de poder pressupor que             bm o contedo e que o contedo da doutrina
seus objetos so dados imediatamente pela re-              da cincia deveria encerrar qualquer possvel
presentao e (de poder pressupor) como j                 contedo, que seria portanto "o contedo ab-
admitido seu mtodo de conhecer no ponto                   soluto" (Jbid.,  1). Retrocedendo um pouco
de partida e no procedimento seguinte" (Ene,               mais, vemos que a concepo do mtodo sint-
 1), est afirmando precisamente a exigncia de           tico pode ser encontrada em Spinoza, para
que a F. construa seu objeto e seu mtodo por si           quem o procedimento filosfico (que denomi-
mesma e inteiramente. Mas, produzindo por                  na conhecimento intuitivo, terceiro gnero de
si mesma tanto o objeto quanto o mtodo, ela               conhecimento ou amor intelectual a Deus)  o
no tem de prestar contas de seus resultados,              que tem por objeto a necessidade com que
quaisquer que sejam, a outras cincias ou a outros         todas as coisas resultam da natureza divina. O
pontos de vista eventuais. Hegel insiste no ca-            amor intelectual a Deus  o mesmo amor com
rter absolutamente independente ou incon-                 que Deus se ama a si mesmo (Et., V, 36) e isso
dicionado de seu mtodo. "O mtodo", diz ele,              significa que o conhecimento da necessidade
por exemplo, "assim como o conceito na cin-               com que as coisas provm de Deus  o conhe-
cia, desenvolve-se por si mesmo e  apenas                 cimento mesmo que Deus tem de si. Desse
uma progresso imanente e uma produo de                  ponto de vista, o procedimento matemtico da
suas determinaes" (Fil. do dir.,  31). E ainda:         tica assume importncia fundamental na filo-
"A mais elevada dialtica do conceito  produ-             sofia de Spinoza: no  um artifcio expositivo,
zir e entender a determinao no s como li-              mas a adequao do mtodo da F. ao procedi-
mite ou posio, mas haurindo dela contedo e              mento necessrio com que as coisas provm
resultado positivos, pois unicamente com isso              de Deus. Assim considerado, o mtodo sintti-
ela  desenvolvimento e progresso imanente.                co revela-se em sua caracterstica mais eviden-
Essa dialtica no  um fazer externo do pensa-            te: a pretenso de valer como uma vista d'olhos
mento objetivo, mas a prpria alma do conte-              divina sobre o mundo, como o conhecimento
do, que faz brotar seus ramos e seus frutos or-            que Deus tem de si e dos seus efeitos criados.
ganicamente" (Jbid.,  31). A diferena entre              E fcil perceber, ento, por que essa pretenso
esse mtodo produtor, ou melhor, criador de                foi to freqente em F. Aristteles dizia: "So-
seu objeto e o mtodo analtico, que Hegel                 mente esta cincia  divina, e em sentido du-
identifica nas cincias depois de Descartes,              plo: porque prpria de Deus e porque con-
expressa por ele da seguinte maneira: "O mto-             cernente ao divino. S a ela couberam esses
do iniciado por Descartes rejeita todos os m-             dois privilgios; Deus aparece como a causa e
todos interessados em conhecer aquilo que, por             o princpio de todas as coisas e s uma cincia
natureza,  infinito; entrega-se, portanto, ao de-         semelhante, ou sobretudo ela, pode ser prpria
senfreado arbtrio das imaginaes e asseres,            de Deus" (Met., I, 2, 983 a 5). Aristteles cha-
 presuno de moralidade, ao orgulho de sen-              mava de teologia a F. primeira. Verdade  que
 timentos ou ao excesso de opinies e racioc-             a F. primeira  tal por sua universalidade e
 nios, veementemente assestados contra a F. e os           que ela  universal somente na medida em
 filosofemas" (Ene,  77).                                 que  cincia do ser enquanto ser (Ibid., VI, I,
FILOSOFIA                                             455                                       FILOSOFIA

1026 a 30). Mas a cincia do ser enquanto ser               construdos, pelo procedimento filosfico (Crt.
 teologia porque  a cincia da causa ou ra-               R. Pura, Doutrina do mtodo, cap. I, se. 1).
zo de ser a esta causa ou razo de ser  Deus.             Kant, portanto, acautela os filsofos contra a
Por isso, a F. aristotlica possui carter                  pretenso de querer organizar sua cincia se-
declaradamente sinttico e, alis, pode ser con-            gundo o modelo matemtico. Em F., no h
siderada o primeiro e clssico exemplo do pro-              propriamente definies (que sejam construes
cedimento sinttico. Obviamente, no  sint-               de conceitos), nem axiomas, que so verdades
tica s porque tem Deus como objeto de sua                  evidentes, nem demonstraes, que so pro-
investigao, mas tambm porque se conside-                 vas apodticas. Em relao a estas ltimas Kant
ra coincidente com o conhecimento que Deus                  diz: "A experincia nos ensina o que existe,
tem de si. E por essa caracterstica pode-se re-            mas no que isso no pode ser de outra manei-
conhecer facilmente uma F. sinttica.                       ra. Princpios empricos de prova no podem
     b) O procedimento analtico da F. reconhe-             dar-nos nenhuma prova apodtica. De concei-
ce-se negativamente pela ausncia de preten-                tos a priori (no conhecimento discursivo)
so de valer como conhecimento divino do                    nunca pode nascer uma certeza intuitiva, uma
mundo e, positivamente, pelo reconhecimento                 evidncia, mesmo que o juzo possa ser apodi-
de limites para suas possibilidades e de verifi-            ticamente certo" (Jbid., Doutrina do mtodo,
cao de seus resultados. O procedimento ana-               cap. 1, se. 1). Deste ponto de vista, o procedi-
ltico no , por conseguinte, a construo ex              mento da F. est bem longe da possibilidade
 novo do seu objeto, mas a resoluo dele nos               de dar ao homem um conhecimento compar-
elementos que permitem sua compreenso, ou                  vel ao possudo por Deus. "A determinao
seja, em suas condies. Nestes termos, a de-               dos limites de nossa razo s pode ser feita
terminao do procedimento filosfico por                   segundo princpios apriori, mas a limitao da
Kant foi feita primeiramente num texto de                   razo, que vem a ser o conhecimento, mesmo
 1764, Sobre a distino dos princpios da teolo-           que indeterminado, da ignorncia que nunca
gia natural e da moral, e depois na segunda                 pode ser completamente eliminada, tambm
 parte principal da Crtica da Razo Pura. No               pode ser conhecida aposteriori; vale dizer que,
 primeiro texto, Kant contrapunha o mtodo                  em todo conhecer, sempre nos resta o que
 analtico da F. ao mtodo sinttico da matemti-           conhecer" (Jbid., Da impossibilidade da satis-
 ca: "Aos conceitos gerais pode-se chegar por               fao ctica). A F. nunca  uma cincia per-
 dois caminhos: pela ligao arbitrria dos con-            feita, que se possa ensinar ou aprender. "Pode-
 ceitos ou isolando os conhecimentos que fo-                se apenas aprender a filosofar, a exercitar o
 ram esclarecidos por subdiviso. A matemtica              talento da razo na aplicao dos seus princpi-
 sempre chega s definies seguindo o primei-              os universais a determinadas investigaes, mas
 ro caminho... As definies filosficas, ao con-           sempre com a ressalva de que  direito da ra-
 trrio, so completamente diferentes. Nelas,               zo investigar esses princpios em suas fontes,
 o conceito das coisas j foi dado, mas de maneira          para confirm-los ou recus-los" (Ibid., Doutri-
 confusa e no suficientemente determinada.                na do mtodo, cap. III).
 preciso subdividi-lo, comparar nos vrios casos               Essas consideraes de Kant constituem um
 as notas que foram separadas com o conceito                conceito relativamente acabado ou maduro do
 dado, para depois determinar e levar a termo a             procedimento analtico em filosofia. Seu prece-
 idia abstrata" (Untersuchung ber die Deu-                dente imediato  Locke, que disse: "No nos
 tlichkeit der Grundstze der natrlichen Theo-             cabe neste mundo conhecer todas as coisas,
 logie und der Moral, I, I,  1). Na Crtica da Ra-         mas sim as que concernem  nossa conduta de
 zo Pura, Kant distinguiu o conhecimento                   vida. Se pudermos ento achar as normas gra-
 filosfico, como conhecimento por conceitos,               as s quais um ser racional como o homem,
 do conhecimento matemtico, que consiste na                considerado no estado em que se encontra
  construo de conceitos. Kant diz que a mate-             neste mundo, possa e deva conduzir suas opi-
 mtica pode construir conceitos porque dispe              nies e as aes que dela dependam, se puder-
 de uma intuio pura que  a do espao-tem-                mos chegar a tanto, no devemos ficar aflitos
 po. A F., porm, no dispe de uma intuio                se outras coisas escapam ao nosso conheci-
 pura, mas somente de uma intuio sens-                   mento" (Ensaio, Intr.,  6). O conceito de F.
 vel: os objetos da F. devem, pois, ser dados               como procedimento analtico, com vistas a de-
 e por isso s podem ser analisados, e no                  terminar as condies e, assim, os limites das
FILOSOFIA                                            456                                        FILOSOFIA

atividades humanas, inspirou todo o Iluminismo             nas de Aristteles e Hegel). Outra determina-
setecentista. Mas nesse aspecto, ressalvadas as            o dessa concepo (que ela s adquire no
diferenas devidas aos meios culturais dis-                mundo contemporneo)  a que concerne ao
ponveis, o Iluminismo setecentista retomava               campo do qual a F. pode ou deve tirar seus da-
o ideal ao Iluminismo antigo dos Sofistas e de             dos e com o qual a interpretao desses ele-
Scrates, para os quais a F. visava  formao             mentos pode e deve ser confrontada.  recen-
do homem na comunidade. O prprio conceito                 te a idia de que os resultados da F., assim
que Plato tem da F. pode ser considerado                  como os de qualquer outra investigao, no
manifestao desse Iluminismo, segundo o qual              so definitivos, mas precisam ser provados e
a F.  instrumento do homem. Plato de fato                experimentados. Devido a isso, Dewey chamou
negava que a F. pudesse pertencer  divindade.             a F. de crtica das crticas. Disse: "A alguns
Tanto quanto o amor, ela  falta, porque dese-             pode parecer uma traio conceber a F. como
jo de sabedoria por parte de quem no possui               o mtodo crtico para desenvolver os mtodos
a sabedoria pela prpria natureza. O homem                da crtica. Mas at esse conceito de F. espera
filsofo porque "est no meio, entre aquele                ser provado, e a prova que o confirmar ou
que sabe e aquele que ignora", ao passo que a              condenar consiste no resultado final. A im-
divindade, que j possui o saber, no precisa              portncia do conhecimento que adquirimos e
filosofar (O Banq., 204 a-b). Por outro lado, a            da experincia que foi revivificada pelo pensa-
dialtica, mtodo da F.,  concebida por Plato            mento consiste em evocar e justificar a prova"
como anlise, como um procedimento que                     (Experience and Nature, p. 437).
permite distinguir o discurso verdadeiro do falso,            Entretanto, essa exigncia torna-se operante
mostrando as coisas que podem combinar-se                  s quando se determina o campo do qual a F.
e as que no podem combinar-se (Sof., 252 d-               extrai seus dados e no qual encontra possibili-
e). Para mostrar quais so as coisas que po-               dades de confirmao. A determinao deste
dem e quais no podem combinar-se, a dialtica             campo constitui a caracterstica da F. analtica
procede compondo vrias determinaes em                   dos nossos tempos. Ora', os campos aos quais
um nico conceito e depois dividindo esse                  podemos referir-nos so apenas dois: ls exis-
conceito nas suas articulaes como faz um                 tncia individual; 2S existncia social.
hbil trinchador (Fed., 265 e). Portanto, a ca-
                                                               Ia As F. que recorrem  existncia individual
da passo, supe a escolha oportuna das de-
                                                           para a busca de dados e eventual prova das
terminaes, a serem compostas num nico
                                                           solues consideram habitualmente a existn-
conceito, e dos aspectos segundo os quais divi-
                                                           cia individual como conscincia e vem a cons-
dir esse conceito; essa escolha, como qualquer
                                                           cincia como domnio da filosofia. No mundo
outra, supe uma utilizao de elementos, pelo
                                                           contemporneo, a mais conhecida e tpica F.
que o mtodo platnico foi, com justia, consi-
                                                           desse tipo  a de Bergson, que se organiza ex-
derado emprico (Taylor, Plato, 4a ed., 1937, p.
                                                           plicitamente como busca dos "dados imediatos
377).
                                                           da conscincia" e utiliza esses dados para solu-
   A concepo analtica tem como caractersti-            es que, por sua vez, s podem ser postas 
ca considerar a F. como atividade humana, ou               prova no mbito da conscincia. A esse tipo de
seja, limitada em termos de alcance e validade,            F. liga-se tambm a fenomenologia concebida
cuja funo  fazer escolhas, e no construir in           por Husserl como "um retorno radical ao ego
tot seu objeto. Destas duas caractersticas pro-          cogito puro, para fazer reviverem os valores
vm a terceira, talvez a mais bvia e visvel:             eternos que dele procedem" {Cart. Med.,  2).
que consiste em ser esse mtodo, entre outras              O defeito metodolgico desse tipo de F. consis-
coisas e em primeiro lugar, reconhecimento e               te no fato de que nelas o dado, que deve servir
utilizao de dados, ou seja, de fatos, elemen-            como limitao ou verificao do procedimen-
tos ou condies, que no so produzidos pelo              to analtico, na verdade no  independente
prprio mtodo. A escolha dos dados e sua                  desse procedimento, porque s pode ser des-
elaborao com vistas a uma soluo possvel               coberto ou assumido com base nos pressupos-
constitui o problema (v.). As F. analticas so,           tos que o inspiram.
em geral, marcadas pelo fato de que nelas a                    22 F. que recorrem  existncia social tm
noo de problema  fundamental, ao passo                  como precursora a F. de Plato, que pretendia
que no existe ou  considerada secundria e               provar os resultados da F. na vida social. Ao
negligencivel nas F. sintticas (como acontece            mesmo gnero pertence a F. de Kant, segundo
FILOSOFIA PRIMEIRA                                      457                                        FEVALISMO

a qual os resultados da F. devem ser provados                 "foge do infinito" (Degen. an., I, 1, 715 b, 16,
no domnio moral e poltico, ou seja, no campo                15). Dewey usou essa palavra no mesmo sen-
das relaes humanas em geral, e devem cons-                  tido: "Podemos conceber o F. como devido ao
tituir um instrumento de progresso nesse cam-                 cumprimento,  consecuo perfeita,  saciedade,
po [cf. os textos Se o gnero humano est pro-                 exausto,  dissoluo, a alguma coisa que
gredindo constantemente para o melhor, de                     diminuiu ou cedeu"; em outras palavras, os F.
1798, Sobre o Ilumnismo, 1784, bem como                      so s "termos ou concluses de episdios
os citados antes neste verbete, II, b],  tam-                temporais" favorveis ou desfavorveis, bons ou
bm  experincia inter-humana que Dewey                      ruins (Experience and Nature, pp. 97 ss.);
se refere para submeter  prova resultados da                     2- trmino ou perfeio, com o sentido que
F., ou seja, propostas que ela formula para a                 freqentemente tem a palavra grega tlos. Neste
conduta de vida inteligente (Expertence and                   sentido diz-se que uma coisa "chegou ao F."
Nature, cap. X). Por outro lado, o existencialis-             sobre uma coisa que foi terminada;
mo de Heidegger, embora no planeje pr                          3a motivo ou causa final, no sentido da quar-
prova os resultados de suas anlises, toma os                 ta das quatro causas aristotlicas (v. CAUSALIDA-
dados desta anlise na existncia cotidiana co-               DE). Neste sentido a palavra italiana scopo, a
mum, naquilo que acontece entre os homens                     francesa but, a inglesa purpose so mais bem
"acima de tudo e na maioria das vezes" (Sein                  empregadas, pois tm carter objetivo, quer se
 undZeit,  9)- Finalmente, podemos inserir nes-              entenda o F. como imanente  natureza, quer
se mesmo panorama a F. considerada como                       se entenda como motivo de um comportamento
anlise da linguagem, que discerne nesta o fato               humano:  o termo final do projeto ou do pla-
intersubjetivo fundamental e, portanto, na acla-              no ao qual se refere;
rao e na retificao da linguagem o instru-                     4a intuito ou alvo, ou seja, F. em seu aspec-
 mento mais apto a eliminar equvocos e a retifi-             to subjetivo, como aquilo que tem em mira
 car relaes intersubjetivas. Esta pelo menos                certa inteno, mas que pode ser diferente do
 pareceria a significao mais importante de tal              alvo atingido na realidade.
 F. Mas no se tem essa significao quando ela                   FINALIDADE (in. Purposiveness, Finality,
  entendida simplesmente como "terapia", cujo                fr. Finalit, ai. Zweckmssigkeit; it. Finalit).
 objetivo  livrar das dvidas (consideradas fic-             Correspondncia entre um conjunto de coisas
 tcias) produzidas pela filosofia. Neste caso, uma           ou de acontecimentos e um fim. Assim, p. ex.,
 vez que ningum, salvo o interessado, pode                   a F. de um plano ou de um projeto  a corres-
 julgar se est suficientemente "curado", a pro-              pondncia ou a adequao desse plano ao fim
 va a que se submeteria a F. teria como campo                 a que visa. A F. da natureza  a correspondn-
 a vida privada do indivduo.                                 cia da natureza com os seus supostos fins, etc.
   FILOSOFIA PRIMEIRA (gr T p T ) (piX-O-
                                     C T                     Essa palavra no se aplica, pois, exclusivamente
acxpa; lat. Prima philosophia-, in. Firstphiloso-             causalidade dos fins da natureza ( qua! se
phy, fr. Philosophie premire, ai. Ersten Phi-                aplica a palavra finalismo), mas em geral desig-
losophie, it. Filosofia prima). Foi esse o nome               na certa forma de organizao ou ordem.
que por vezes Aristteles deu  F. como cincia                   FLNAIISMO (in. Finalism; fr. Finalisme, ai.
do ser (ou teologia), para distingui-la da fsica             Finalismus; it. Finalismo). Doutrina que admi-
(F. segunda) e da matemtica (.Fts., I, 9, 191 a              te a causalidade do fim, no sentido de que o
36; Met., VI, 1, 1026 a 16; etc). Bacon usou                  fim  a causa total da organizao do mundo
esse termo para indicar a "cincia universal",                e a causa dos acontecimentos isolados. Essa
que seria uma rvore da qual partem, como                     doutrina implica duas teses: Ia o mundo est
tantos ramos, as cincias especficas, que tem                organizado com vistas a um fim; 2a a explica-
por objeto os princpios comuns s cincias                   o de qualquer evento do mundo consiste em
(Deaugm. scient., III, 1) (v. FILOSOFIA). Na sig-             aduzir o fim para o qual esse evento se dirige.
nificao aristotlica, esse vocbulo foi substi-             Essas duas teses freqentemente esto uni-
tudo por metafsica (v.).                                    das ou confundidas, mas s vezes elas so dife-
   FIM (gr. xXoq, oi) eveKCX; lat. Finis; in. End,           rentes e procura-se admitir uma sem admitir
Purpose, fr. Fin, But; ai. Zweck, it. Fine). Esta pa-         a outra. Segundo relato de Plato e de Aristteles,
lavra tem as seguintes significaes principais:              Anaxgoras foi o primeiro dos antigos a ad-
   Ia limite, no sentido com que Aristteles                  mitir a causalidade do fim (PLATO, Fed., 97C;
diz: "a natureza procura sempre o F.", ou seja,               ARISTTELES, Met., I, 3, 984 b 18). Plato apre-
FINALISMO                                            458                                          FINALISMO


senta sua prpria doutrina como uma conse-                 para os deuses e para os homens" (De nat.
qncia do princpio de Anaxgoras de que a                deor., II, 133). Em vista de sua estreita conexo
inteligncia  a causa ordenadora do mundo.                com a teologia, entende-se por que o F. sem-
"Se a inteligncia ordena todas as coisas e dis-           pre serviu de fundamento para a metafsica
pe cada coisa do modo melhor", diz ele, "achar            teolgica. Os escolsticos insistem sobre a su-
a causa graas  qual cada coisa  gerada,                 perioridade causai do fim, que chamam de "cau-
destruda ou existe significa descobrir qual  a           sa das causas". S. Toms, seguindo as pegadas
sua melhor maneira de existir, modificar-se ou             de Aristteles, resolve na causalidade do fim a
agir" (Fed., 97C). Desse ponto de vista o "me-             necessidade prpria dos movimentos naturais.
lhor" ou o "excelente"  a "verdadeira" causa              "A necessidade natural que inere nas coisas e
das coisas, ao passo que so causas secund-               as dirige"; escreve ele, "chega s coisas impri-
rias ou concausas as de natureza fsica habi-              mida por Deus, que as destina a um fim, do
tualmente aduzidas (Tim., 46 d; Fil., 54 c). Mas           mesmo modo como a necessidade com que a
a doutrina graas  qual prevaleceu a concep-              flecha se desloca e graas  qual se dirige para
o finalista na metafsica antiga e recente  a           o alvo foi-lhe imprimida por quem a lanou e
aristotlica. As duas teses prprias do F. so             no pertence  flecha" (S. Th., I, q. 103, a. 1).
partes integrantes da metafsica aristotlica. Por         Este  o pensamento fundamental que domina
um lado, Aristteles afirma que "tudo aquilo               e torna extraordinariamente uniformes todas
que  por natureza existe para um fim" (De                 as teorias finalistas, to abundantes na histria
an., III, 12, 434 a 3D e identifica o fim com a            da F. at os nossos dias. Hegel considerou uma
mesma substncia, "forma ou razo de ser da                grande inovao a sua doutrina do fim como
coisa" (Met., VIII, 4, 1044 a 31). Por outro lado,         do "prprio conceito em sua existncia", e da
julga que o universo inteiro est subordinado a            finalidade como determinao imanente  na-
um nico fim, que  Deus, do qual depende a                tureza; contraps essa doutrina a outra que con-
ordem e o movimento do universo (Ibid., XII,               siderava tradicional, para a qual um intelecto
7, 1072 b). Com base nisso, Aristteles defende            "terreno" impe, de fora, seus fins  natureza
a causalidade do fim contra a tese que ele cha-            (Wissenschqft derLogk, III, se. II, cap. III; trad.
ma de "necessidade", consistente em admitir                it., pp. 216 ss.). Mas na realidade, como os tex-
que as coisas no acontecem com vistas ao seu              tos at agora citados provam na histria da F.,
resultado melhor, mas que, s vezes, o resulta-            no existe doutrina de finalidade extrnseca e
do melhor  o efeito acidental da necessidade.             imposta por um intelecto extraterreno, visto que,
De fato, assim como se diz que, dadas certas               por finalidade do mundo, tanto Aristteles quan-
causas, necessariamente choveu, e que a chu-               to os esticos e S. Toms entendem a razo de ser
va provocou acidentalmente a perda da colheita,            do mundo, sua necessidade imanente: S. To-
sem que esta fosse a finalidade da chuva, po-              ms identifica explicitamente a impressio de
der-se-ia tentar explicar do mesmo modo a for-             Deus sobre a natureza com a "necessidade
ma dos organismos animais (Fs., II, 8, 198 b              inerente s coisas". Como tal, a necessidade 
17). Contra esse modo de raciocinar, Aristteles           sempre imanente  totalidade cuja organizao
observa que aquilo que acontece sempre ou                  constitui. E como j observava Aristteles, sob
geralmente no pode ser explicado com o aca-               este aspecto o F. no muda, quer se trate de
so, mas supe a necessidade da ao do fim                 totalidades naturais, quer se trate de totalida-
(Ibid., II, 9, 200 a 5). No encontramos, porm,           des artificiais; na construo de uma casa o fim
em Aristteles aquela forma popular da teleo-              penetra o material utilizado e no inere a ele
logia iniciada com os esticos, que consiste em            de maneira diferente daquele com que inere s
demonstrar que as coisas do mundo so feitas               partes de um organismo (Fs., II, 9, 200 a 34).
 pela natureza em proveito do homem. O fun-                Em todos os casos, para usar a expresso de
 damento desta teleologia foi expresso por                 Hegel, o F.  o prprio conceito na sua existn-
 Ccero: "Para quem ento poderamos dizer que             cia: a realizao de um conceito que desde o
 o mundo foi realizado? Evidentemente para os              incio dirige e governa essa mesma realizao.
 seres vivos dotados de razo, ou seja, para os            Portanto, a polmica de Hegel contra "o inte-
 deuses e para os homens; nada h de fato que              lecto extraterreno"  teolgica -- contraposio
 seja mais excelente que eles, em virtude de a             de uma tese pantesta a uma tese testa --, mas
 razo ser superior a tudo: assim,  crvel que o          no concerne ao finalismo. Significao dife-
 mundo e tudo o que no mundo existe foi feito              rente tem a distino entre finalidade interna e
FINAIISMO                                            459                                         FEMALISMO

finalidade externa feita por Schopenhauer, que             o juzo teleolgico  reflexivo, no determinan-
no entanto mantm inalterado o conceito tradi-             te, ou seja, no apreende um elemento cons-
cional de F., apesar de sua tese sobre o carter           titutivo das coisas, mas um modo subjetivo,
irracional e desordenado da fora que rege o               porquanto inevitvel para o homem represent-
mundo. Para Schopenhauer, finalidade interna               las. "H uma diferena absoluta entre dizer que
 "a harmonia de todas as partes de um orga-               a produo de certas coisas da natureza, ou
nismo, de tal modo que a conservao deste e               mesmo de toda a natureza, s  possvel por
de sua espcie seja objetivo desta harmonia".              meio de uma causa que se determina a agir se-
Finalidade externa , pelo contrrio, a "relao           gundo fins, e dizer que, segundo a natureza
da natureza inorgnica com a orgnica ou de                particular de minha faculdade cognoscitiva,
partes da natureza orgnica entre si, o que pos-           s posso julgar da possibilidade das coisas e de
sibilita a conservao da natureza orgnica toda           sua produo concebendo uma causa que aja
e das espcies individuais" (Die Welt, I,  28).           segundo fins, portanto um ser que produza de
Por outro lado, nesse aspecto a doutrina de                modo anlogo  causalidade de um intelecto.
Bergson no constitui uma inovao do F. tradi-            No primeiro caso quero afirmar alguma coisa do
cional. No que se refere  finalidade orgnica,            objeto, e sou obrigado a demonstrar a realida-
Bergson declarou-se contrrio ao "mecanismo                de objetiva do conceito que admito; no segundo
radical" e ao "F. radical", reconhecendo em                caso a razo s faz determinar o uso de minhas
ambos a negao do carter "imprevisvel" ou               faculdades cognoscitivas, de acordo com sua
"criador" da evoluo vital. A harmonia -- diz             natureza e com as condies essenciais de seu
ele -- deve encontrar-se atrs e no  frente              alcance e de seus limites" {Crt. dofuizo,  75).
dessa evoluo. "O futuro no est contido no              Do segundo ponto de vista, que  o proposto
presente sob a forma de um fim representado.               por Kant, o F. no passa de conceito regulador
Entretanto, uma vez realizado, explicar o pre-            do uso do intelecto humano: uso oportuno e
sente assim como o presente o explicava, e                 necessrio pelo fato de que o intelecto humano
ainda melhor; dever ser considerado fim, mais             encontra limites bem precisos na explicao
que resultado. Nossa inteligncia tem o direi-             mecnica do mundo, sendo, pois, levado a re-
to de consider-lo abstratamente do seu ponto              correr a uma considerao complementar. Esta,
 de vista habitual, visto que ela mesma  uma              contudo, nunca pode valer como explicao, e
 abstrao realizada sobre a causa da qual ema-            sua nica funo  ajudar a procurar as leis par-
 na" (vol. cratr., 8a ed., 1911, cap. I, p. 57).         ticulares da natureza {Ibid.,  78). Esse ponto de
 Mas tampouco esta determinao feita por                  vista kantiano (recentemente renovado por N.
 Bergson inova muito o conceito clssico de F.,            HARTMANN, Philosophie der Natur, 1950), en-
 cuja natureza no consiste, como julga Berg-              quanto nega ao F. qualquer valor cognoscitivo e
 son, em negar os caracteres imprevisveis ou              cientfico, atribuiu-lhe uma espcie de validade
 novos que emergem durante a realizao do                 subjetiva, entre esttica e moral, que se deve 
 fim, mas unicamente em admitir a causalidade              limitao inevitvel do conhecimento humano.
 do fim e em considerar essa causalidade como                  Obviamente, a interpretao kantiana do F.
 princpio de explicao. A doutrina de Bergson            repousa na tese dos adversrios do F., que
 no contribui para inovar esses dois aspectos,            nega poder explicativo ao F. S esta negao
 podendo, pois, ser reintegrada na concepo               constitui, na realidade, o abandono do F. e s
 clssica de F., assim como podem ser reintegra-           as razes que o apoiam constituem uma autn-
 das nessa concepo as doutrinas que, apesar              tica crtica a ele. Na realidade, o F. no  uma
 de admitir o mecanismo, consideram-no com-                generalizao emprica a partir da considerao
 preendido no F. geral da natureza, e a ele su-            de certo nmero de exemplos teleolgicos;
 bordinado, c o m o fazem Leibniz (Op., ed.                tampouco uma "disteleologia", ou seja, uma lis-
 Gerhardt, III, p. 607; IV, p. 284), Lotze (Mikro-         ta de casos contrrios ao F.,  uma crtica decisi-
  kosmus, 1856, I) e, com eles, muitos espiritua-          va ao F. A doutrina de Plato e de Aristteles a
 listas contemporneos.                                    respeito, particularmente a deste ltimo, mostra
                                                           claramente o fundamento do F.: a crena em
    s com a interpretao de Kant que o F. se            que a nica explicao possvel dos aconteci-
inova significativamente. Essa interpretao ne-           mentos  a que aduz o objetivo pelo qual acon-
ga a 2- tese do F., segundo a qual explicar um fe-         teceram. Para Plato e para Aristteles, o objeti-
nmeno significa aduzir o objetivo. Para Kant, a           vo  a forma ou a razo de ser da coisa, e a
explicao dos fenmenos s pode ser causai, e
FINALISMO                                          460                                        FINALISMO


determinao do objetivo  a explicao causai           curso da uma explicao teleolgica dos fen-
da coisa. Comeou-se a duvidar desse princpio           menos vitais. Esse recurso, todavia, pareceu ine-
s na idade moderna. O epicurismo, que, com              vitvel s na medida em que cientistas e
Lucrcio, negava o F. aduzindo que ele pe               filsofos formularam hipteses globais sobre a
antes o que vem depois (p. ex., a viso antes            origem e a natureza da vida, uma vez que o tra-
do olho [LUCRCIO, De rer. nat., IV, 829 ss.D, no       balho propriamente cientfico, ao qual se devem
constitui a negao desse princpio. A primeira          os sucessos da biologia e da medicina contem-
crtica a ele pode ser encontrada na Escolstica         pornea, no empregou outros instrumentos,
do sc. XIV, em G. Ockham, que, em primeiro              materiais ou conceituais, que no pertencessem
lugar, mostra que a ao do fim s pode consis-          s cincias naturais. Esse trabalho, portanto,
tir em impelir a causa eficiente a agir e, em se-        nunca precisou da hiptese finalista. Por outro
gundo lugar, que essa ao  puramente meta-             lado, a situao hodierna  caracterizada por: Ia
frica (In Sent., II, q. 3 G). Ockham observa            reconhecimento da originalidade dos fenme-
que a ao do fim s poderia consistir em ser            nos orgnicos em relao aos fenmenos fsico-
desejado ou amado e que isso demonstra o ca-             qumicos, sem que tal originalidade represente
rter metafrico dessa ao. No tem sentido             um carter finalista (v. EVOLUO; VITALJSMO); 2Q
perguntar a causa final das aes naturais, que          abandono do ideal da explicao mecnica, de
se verificam com uniformidade; p. ex., no tem           tal modo que deixou de existir a diferena radical
sentido perguntar com que fim o fogo  gera-             que, com base no xito dessa explicao, vinha-
do, pois no  preciso que haja um fim para              se estabelecendo entre fenmenos fsicos de
que o efeito se produza (Quodl., IV, q. 1). Esta         um lado e fenmenos biolgicos e antropo-
talvez tenha sido a primeira crtica feita ao va-        lgicos de outro lado (V. CAUSALIDADE; EXPLICA-
lor explicativo do F. Alguns sculos depois, a
                                                         O). Em virtude desta situao, por um lado
causa final era completamente desprezada na-
explicao que Telsio tentava dar do mundo              alijou-se a causalidade do fim do domnio da
natural (De rer. nat., 1565). E Bacon exclua            evoluo orgnica, e por outro lado a ao des-
explicitamente da investigao experimental a            sa causalidade, tal qual se admite no homem,
considerao do fim (Nov. Org., II, 2). Dizia: "A        pode no ser considerada diferente da ao da
investigao das causas finais  estril: assim          causalidade natural. Sobre a primeira questo,
como uma virgem, consagrada a Deus, nada                 Simpson afirma: "Objetivo e plano no so ca-
gera" (Deaugm. scient, III, 5). Por sua vez, Galilei     ractersticas da evoluo orgnica e no consti-
(Op., VII, p. 80) e Descartes (Princ.phii, III, 3)       tuem a chave para nenhuma de suas operaes,
eliminaram da cincia a considerao da causa            mas so caractersticas da nova evoluo [social
final, e Spinoza contraps a necessidade com             ou histrica] porque o homem tem objetivos e
que as coisas provm da natureza divina ao F.,           planos. Aqui objetivo e plano entram definitiva-
que considerou um preconceito, contrrio                mente na evoluo, como resultado e no como
ordem do mundo e  perfeio de Deus (Et., I,            causa dos processos que a longa histria da vida
36, Ap.). A partir dessa poca, que marca a              nos mostra. Os objetivos e os planos so nossos,
origem da cincia moderna, o F. deixou de valer          no do universo, que nos apresenta indcios
como procedimento de explicao cientfica.              convincentes da ausncia deles" (TheMeaning
                                                         ofEvolution, 1952, p. 292). Mas, por outro lado,
    Verdade  que sempre se insinuou nas lacu-           os objetivos e os planos no constituem uma
nas deixadas pela explicao mecanicista do              forma de causalidade  parte, que faa do mun-
mundo e sempre foi considerado complemento               do no qual se verificam um domnio privilegia-
desta explicao, alm dos limites por ela al-           do ou especial do ser. No mundo humano a
canados. Isso aconteceu principalmente no do-           causalidade do fim foi reintegrada na motivao
mnio das cincias biolgicas ou na especulao          (v.) que no difere formalmente da explicao
filosfica sobre os resultados dessas cincias.          causai (C. G. HEMPEL-P. OPPENHEIM, "The logic
Apesar dos sucessos obtidos nesse campo pelo
                                                         of explanation", em Readings in the Ph. of
estudo fisico-qumico dos fenmenos biolgi-
cos, freqentemente se reconheceu o malogro              Science, 1953, pp. 327-28); ou foi descrita em
ou mesmo a impossibilidade de se reduzirem               termos de comportamento que implicam ainda
esses fenmenos a princpios mecanicistas. As            menos referncia a um tipo de explicao
vrias formas de valismo (v.) so caracteriza-          especfica (Roseblueth-Wiener-Bigelow, em
das por esse reconhecimento, portanto, pelo re-          Philosophy of Science, 1943, pp. 18 ss.).
FENTTISMO                                               461                                  FINS, REINO DOS

    Em concluso, o F., hoje considerado intil               possibilidades cognoscitivas so limitadas pela
em todos os campos de explicao cientfica,                  intuio sensvel, ou seja, por uma intuio que
permanece como caracterstica das correntes                   depende de objetos dados (Crt. R. Pura,  8,
metafsicas que consideram modesta demais                     IV). Do ponto de vista moral, o homem  um
para a filosofia a tarefa de criticar os valores              ser F. porquanto sua vontade no se identifica
para corrigi-los ou conserv-los, propondo-se                 com a razo e a lei desta vale para a vontade s
a tarefa de demonstrar que os valores so garan-              como imperativo (Crt. R. Pratica,  1, scol.).
tidos pela prpria estrutura do mundo onde o                  Enfim, a faculdade de juzo esttico e teleo-
homem vive e que eles constituem o fim dessa                  lgico funda-se na natureza F. do homem, na
estrutura. O F. perdeu completamente o car-                  limitao de suas possibilidades cognoscitivas,
ter cientfico que possua originariamente na Gr-            porquanto no determinam completamente
cia antiga e permanece apenas como uma das                    seu objeto, mas apenas a forma deste (Crt. do
tantas esperanas ou iluses s quais o homem                 Juzo,  77). Essa significao da palavra perma-
recorre na falta de procedimentos eficazes ou                 neceu em expresses como "intelecto F.", "ser
em substituio deles.                                        F.", "natureza F.", etc.: nas quais F. no expressa
    FINITISMO (in. Finitism; fr. Finitisme, ai.               uma limitao espacial ou temporal, mas o ca-
Finitismus; it. Finitism). Com este termo, usado             rter condicional de certas possibilidades que
raramente, entende-se toda doutrina que afir-                 no so aptas a garantir a oniscincia, a onipo-
me a finitude do mundo, que adote as teses das                tncia e a infalibilidade. Com esta significao,
antinomias cosmolgicas expostas na Crtica                   esse termo foi aceito pelo existencialismo con-
da Razo Pura de Kant.                                        temporneo. Heidegger v o carter F. do ho-
   FINITO (gr. 7ce7iepao(i,vov; lat. Finitus-, in.           mem no fato de que qualquer projeto seu de
Finite, fr. Fini; ai. Endlich; it. Finito). Esse ter-         mundo j est dominado pelo prprio mundo,
mo tem as seguintes significaes principais,                 que limita as possibilidades projetveis. Hei-
das quais as duas primeiras correspondem aos                  degger diz: "O projeto de possibilidades, em
sentidos de infinito:                                         conformidade com sua essncia, est cada vez
    Ia Como disposio ou qualidade de uma                    mais rico da posse na qual o projetante se en-
grandeza em sentido matemtico, F. : d) o que                contrava anteriormente. Mas uma posse as-
est completo ou  exaurvel, ou seja, no tem                sim s pode pertencer ao ser-a porque ele, en-
partes fora de si: o contrrio de infinito poten-             quanto projetante, sente-se imerso no meio do
cial; b) o conjunto no auto-reflexivo, ou se-                ente. Mas, com isso, j esto sendo subtradas
ja, no equipotente a uma de suas partes ou                   ao ser-a outras possibilidades, e isso em con-
subconjuntos (no sentido estabelecido pela                    seqncia de sua facticidade... Prova trans-
teoria dos conjuntos de Cantor e Dedekind).                   cendental da finitude da liberdade do ser-a 
                                                              que o projeto concreto do mundo s adquire
    23 No sentido teolgico, aquilo que encontra
                                                              fora e se torna posse na subtrao. Ser que
limites ou obstculos  sua possibilidade de
                                                              nisso no se evidencia a essncia F. da liberda-
ser,  sua potncia. Esse conceito de F. remonta
                                                              de em geral?" (Vom Wesen des Grundes, III;
a Plotino, que foi o primeiro a entender o infi-
                                                              trad. it., pp. 68-69). Nesse sentido, "F."  qua-
nito como no-limitao da potncia (Enn., IV,
                                                              lidade prpria s do homem ou das possibili-
3, 8; VI, 6, 18). Mas foi principalmente nesse
                                                              dades humanas, e finitude  o termo abstrato
conceito que o Romantismo se baseou para
                                                              correspondente. Toda filosofia da existncia 
afirmar a realidade do infinito. Para Hegel, o
                                                              uma filosofia do F. porque interpretao da exis-
infinito  a prpria realidade enquanto potn-
                                                              tncia em termos de possibilidades condicio-
cia ilimitada de realizao, enquanto Absoluto.
                                                              nadas (v. EXISTNCIA, 32).
F.  aquilo que no tem potncia suficiente
para realizar-se, o ideal, o dever-ser (Ene,  95;               FINS, REINO DOS (ai. Reich der Zwecke).
 Wssenschaft der Logik, cap. II, se. I; trad.               Segundo Kant,  a comunidade ideal dos seres
it., I, p. 163). Deste ponto de vista, F.  "ir-              racionais que obedecem unicamente s leis da
real" e encontra realidade s no infinito e                   razo. O reino dos F. -- diz Kant --  "o con-
como infinito.                                                ceito em virtude do qual todo ser racional deve
    3a Aquilo que pode ser ou agir em determi-                considerar-se fundador de uma legislao uni-
nadas condies. Esse  o sentido com o qual                  versal por meio de todas as mximas de sua
essa palavra foi entendida por Kant. Ele chama                vontade, de tal modo que possa julgar-se a si
o homem de "ser pensante F.", porquanto suas                  mesmo e s suas aes desse ponto de vista"
FSICA                                                   462                                              FSICA


(Grundlegung zur Met. der Sitten, II). Nesse                   que so os corpos celestes, e essa substncia  o
reino, entendido como "a unio sistemtica de                  ter. Dos quatro elementos que compem o
vrios seres racionais sob leis comuns", cada                  mundo sublunar, dois (ar e fogo) movem-se de
membro , ao mesmo tempo, legislador e s-                     baixo para cima; dois (gua e terra), de cima
dito, valendo, portanto, como "fim em si mes-                  para baixo. A F. aristotlica, portanto,  qualita-
mo" (Ibid., II). V. DIGNIDADE.                                 tiva por considerar que determinado movimen-
    FSICA (gr. (pi)(TiKr|; lat. Physica; in. Physics;         to  prprio de determinado elemento, estabe-
fr. Physique, ai. Physik, it. Fisicd). Disciplina              lecendo assim ntida diviso qualitativa entre os
que tem por objeto o estudo da natureza; por-                  elementos e entre estes e o ter. Desta postura
tanto, suas caractersticas e seus mtodos esto               segue-se o princpio geral da F. aristotlica, que
em relao com aquilo que entendemos por                       : "Todo elemento move-se para a sua esfera,
natureza (v.). Como disciplina especfica, po-                 se no for impedido" (Fs., IV, 1, 208 b 10);
de-se dizer que nasceu com Aristteles, que a                  esse princpio implica ou estabelece a existn-
considerou a "filosofia segunda" e, no grupo                   cia de lugares absolutos, que so sedes natu-
das cincias tericas, distinguiu-a da teologae               rais dos elementos para as quais os elementos
da matemtica (Met., XI, 7, 1064 b 1). Pode-                   retornam quando delas so afastados. Esses
mos distinguir trs conceitos fundamentais des-                lugares, segundo Aristteles, so determinados
sa cincia, que se sucederam ao longo da histria:             pelo peso dos elementos. No centro do mundo
1Q F. como teoria do movimento; 2- F. como                     est a terra, que  o elemento mais pesado (como se
teoria da ordem necessria; 3S F. como previso                conclui, p. ex., do fato de a pedra cair na gua
do observvel.                                                 ou afundar na gua). Em torno da terra est a
    1- Quando nasceu, com Aristteles, a F. era a              esfera da gua, e em torno da esfera da gua
teoria do movimento e como tal se manteve at                  est a do ar, que  mais leve ainda, como de-
as origens da cincia moderna. Para Aristte-                  monstra o fato de a bolha de ar que se rompe
les, a F. tem por objeto "a substncia que tem                 na gua subir  superfcie. Em torno da esfera
em si mesma a causa de seu movimento" (Met.,                   do ar est a do fogo, que  elemento mais leve,
VI, 1, 1025 b 18); portanto, o modo como a F.                  como prova o fato de as chamas que esto na
considera as substncias depende da natureza                   superfcie da terra tenderem para o alto, para a
dos movimentos dos quais elas so dotadas. Dos                 esfera que est acima do ar. Com base nisso,
quatro movimentos distinguidos por Aristteles                 Aristteles determina os caracteres do mundo:
(substancial: gerao e corrupo; qualitativo:                nico porque os elementos se condensam cada
mudana; quantitativo: aumento ou diminui-                     um em sua esfera; finito porque acabado e per-
o; local translao [Fs., VIII, 7, 261 a 26]), o            feito; como tal, ordenado para um nico fim,
de translao  o primeiro e fundamental: todos                que  Deus. Esta doutrina, que se baseia em
os outros podem ser explicados pela translao                 pequeno nmero de experincias comuns e 
dos corpos (Ibid., VIII, 7, 260a-b). A determina-              admirvel por sua elegncia e simplicidade, foi
o das vrias substncias fsicas deve, por isso,             a maior expresso, no pensamento antigo, da
ser feita com base no movimento de translao                  sntese dos conhecimentos naturais. Diante dela,
que  prprio de cada uma delas. O movimento                   a F. atomista dos epicuristas e a F. pantestica
de translao  de trs espcies: do alto para o               dos esticos tm mais carter de especulao
centro do mundo, do centro para o alto, em                     que de conhecimento cientfico. Foi realmente
torno do centro ou circular. Os primeiros dois                 isso que os cientistas antigos pensaram, pois
movimentos so contrrios entre si e (como a                   deixaram-nas completamente de lado remeten-
gerao e a corrupo consistem na passagem                    do-se constantemente  F. aristotlica; com ela
de um contrrio ao outro) prprios dos corpos                  Ptolomeu (sc. II) elaborou sua astronomia. A
sujeitos  gerao e  corrupo, ou seja, dos                 F. aristotlica dominou sem rival durante mui-
corpos terrestres ou sublunares, compostos por                 tos sculos, e, apesar das dvidas levantadas
quatro elementos: gua, ar, terra e fogo. O movi-              por alguns escolsticos no sc. XIV, s foi aban-
 mento circular no tem contrrios, porque mo-                 donada com Leonardo da Vinci, Coprnico,
ver-se da direita para a esquerda ou da esquerda               Kepler e Galilei, aos quais se deve a primeira
 para a direita circularmente no modifica a ativi-            organizao da cincia moderna.
 dade circular do movimento (De cael., 1,4); esse
                                                                  2 O segundo conceito fundamental da F.
 movimento  prprio da substncia que com-
                                                               considera-a como estudo da ordem experimen-
 pe os corpos no-gerveis e incorruptveis,
                                                               tvel da natureza. Para esse conceito contribu-
FSICA                                                     463                                              FSICA


ram os aristotlicos do Renascimento, com a de-                  ria do movimento por pretender limitar-se a
fesa da necessidade a ordem natural, os plat-                  descrevera, natureza em sua ordem, em vez de
nicos do Renascimento, em especial Nicolau de                    explic-la em suas causas. A partir de Newton
Cusa, com a afirmao do carter matemtico da                   a descrio ope-se  explicao, como tarefa
ordem natural, e a magia, com a pretenso de                     prpria da F. Ou ento -- o que d no mes-
atingir e exercer domnio efetivo sobre a nature-                mo --, considera-se que a explicao  qual a
za. O conceito da natureza, que j est claro em                 F. deve aspirar legitimamente  a determinao
Galilei,  de ordem objetiva, escrita em carac-                  da relao entre dois fenmenos, de acordo
teres matemticos, necessria e destituda de                    com uma lei, o que, sob um outro aspecto, 
finalidade, atingvel por meio do experimento.                   simples descrio. Portanto, a caracterstica desse
Sobre este conceito de ordem fundava-se a noo                  conceito de F.  o reconhecimento das cone-
de harmonia, que para Kepler era a base da                       xes necessrias entre os fenmenos, nas quais
cincia da natureza (Harmonices mundi, 1619,                     se concretiza ou ganha corpo a ordem natural,
IV, I). A obra de Newton conduzia  maturidade                   bem como a crena na experimentao, na
o conceito correspondente de F. Passava a ser                    verificao emprica dessa conexo. O concei-
tarefa da F., explcita e unicamente, a descrio                to de ordem natural coincide com o da causa-
da ordem natural. A F. aristotlica, como teoria                 lidade necessria (V. CAUSALIDADE) e portanto
do movimento, era dirigida ao estudo das cau-                    com o de previsibilidade infalvel dos fenme-
sas do movimento, que coincidiam com as subs-                    nos naturais. Se a natureza  a ordem necess-
tncias (formas ou causas finais) das coisas.                    ria, a F. como estudo dessa ordem pode esta-
Newton esclarecia em que sentido a determi-                      belecer regras que permitam a previso infalvel
                                                                 dos fenmenos. Essa  a crena que serviu de
nao da ordem natural deve ser objeto da cin-
                                                                 base para a F. clssica at os primeiros decnios
cia, chegando a negar, em oposio  cincia                     do sc. XX e que tambm sustentou sua hip-
aristotlica, que a F. fosse cincia das causas                  tese fundamental: o mecanicismo (v.). Esta
 {Optice, 1740, III, q. 31). Em 1764 Kant assim                  hiptese tinha, entre outras, a vantagem de pos-
 descrevia o conceito newtoniano de cincia:                     sibilitar a descrio visual do curso dos fen-
 "Com experincias seguras e, no caso, com o                     menos, descrio que recorria a imagens vi-
 auxlio da geometria tambm, devem ser pro-                     suais com as quais pretendia representar (por
 curadas as regras segundo as quais ocorrem                      meio de partculas em movimento) a estrutura
 certos fenmenos da natureza" (Untersuchung                     efetiva dos fenmenos. Mas foi exatamente essa
 ber die Deutlichkeit der Grundstze der na-                    pretenso que deu origem s primeiras dificul-
 trlichen Theologie und der Moral, 1763, II).                   dades, quando, com a F. relativista, o conceito
 Estas regras so as leis naturais, que traam a                 de campo (v.) comeou a substituir a represen-
 ordem dos fenmenos naturais, ou seja, o modo                   tao visual das partculas em movimento. "Era
 necessrio, portanto uniforme e constante, de                   necessria uma corajosa imaginao cientfi-
 interconexo entre eles. Descrever essa cone-                   ca", observam Einstein e Infeld, "para reconhe-
 xo  tarefa da F. O lumnsmo e o positivismo                 cer que o essencial para a ordenao e a com-
 aplicaram esse conceito de F., que foi enfatizado               preenso dos acontecimentos pode no ser o
 por D'Alembert (lements dephil, 1759,  4) e                   comportamento dos corpos, mas o comporta-
 serve de base para a noo de cincia expressa                  mento de alguma coisa que se interpe entre
 por Comte: "O carter fundamental da F. posi-                   eles, vale dizer, o campo" {The Evolution of
 tiva  considerar todos os fenmenos como                       Physics, IV; trad. it., p. 302). A F. quntica re-
 submetidos a tos naturais invariveis, cuja des-                presentava mais um passo para a destruio da
 coberta exata e cuja reduo ao mnimo nme-                    possibilidade de uma descrio visualizante. Bohr
 ro possvel constituem os objetivos de todos os                 notava: "Na adaptao da exigncia relativista
 nossos esforos, considerando-se absolutamente                  ao postulado do quantum devemos preparar-
 inacessvel e sem sentido a busca daquilo a                     nos para uma renncia  visualizao (no sen-
 que se d o nome de causas, sejam estas prim-                  tido comum do termo) ainda mais radical que
 rias ou finais" (Cours de phil. positive, li. I,  4).         a encontrada na formulao das leis qunticas
 As leis nada mais so que expresses da ordem                   consideradas at hoje. Encontramo-nos no ca-
  necessria da natureza.                                        minho encetado por Einstein ao adaptarmos
                                                                 nossos modos de percepo, derivados das
    O conceito de F. como teoria da ordem na-                    sensaes, ao conhecimento cada vez mais
 tural contrape-se ao conceito de F. como teo-
FSICA                                               464                                       FISICALISMO


profundo das leis naturais" (Atomic Theory and              1). Deste ponto de vista, embora no se possa
the Description of Nature, 1934, p. 90). A re-             descrever todo o curso de um fenmeno, pode-
nncia  visualizao na realidade tambm era              se calcular com exatido o resultado de uma ob-
renncia  descrio, uma vez que a impossibi-             servao futura. Heisenberg diz: "Meam-se,
lidade de visualizar o curso completo dos fe-              em certo instante, certas grandezas fsicas com
nmenos  impossibilidade de descrever sua                 a mxima exatido possvel, ter-se-o ento, em
ordem necessria em sua integridade. De fato,              cada instante seguinte, grandezas cujo valor
essa impossibilidade foi reconhecida na F. com             pode ser calculado exatamente, ou seja, para as
a introduo do chamado "princpio de                      quais o resultado de uma medio pode ser pre-
indeterminao" de Heisenberg (1927), com o                visto com exatido, contanto que o sistema ob-
qual a causalidade rigorosa dos fenmenos f-              servado no seja submetido a nenhuma pertur-
sicos era negada pela primeira vez, em virtude             bao, exceto  prpria medio" (Ibid., IV,  1).
da impossibilidade de prever com exatido o                Dirac enunciou o mesmo conceito dizendo: "O
comportamento das partculas atmicas (v. CAU-             nico objeto da F. terica  o de calcular resulta-
SALIDADE; INDETERMINAO). Com a queda da                  dos que possam ser comparados com a experi-
pretenso  causalidade rigorosa e, por conse-             mentao, sendo completamente intil fazer
guinte, da descrio da ordem total dos fen-              uma descrio satisfatria de todo o desenvolvi-
menos, a F. no podia mais ser entendida como              mento do fenmeno" {Principies of Quantum
teoria da ordem necessria da natureza.                    Mechanics, 1930, p. 7).
    3S O terceiro conceito de F., que comeou a                Assim, a F. transforma-se em teoria da previ-
ser traado a partir de 1930, parte de uma deter-          so dos eventos observveis e abandona as
minao j considerada fundamental pela noo              exigncias descritivas de sua segunda fase,
de F. que a precedeu. Na esteira de Bacon,                 alm das explicativas de sua fase anterior. Do
Comte j insistira na exigncia de a cincia esta-         ponto de vista filosfico, esse carter funda-
belecer previses que permitissem o domnio
                                                           mental da F. contempornea foi perfeitamente
sobre a natureza: "Cincia, donde previso; pre-
viso, donde ao" (Cours dephil. positive, li.           expresso por Heisenbergquando disse que a F.
II,  3). Em 1894, Hertz, em Princpios de mec-           do nosso tempo no nos fornece mais "uma
nica, d nfase ao mesmo conceito: "O mais                 imagem da natureza, mas uma imagem das
imediato e, em certo sentido, o mais importante            nossas relaes com a natureza" (Das Natur-
problema que o nosso conhecimento da nature-               bild der heutigen Physik, 1955, p. 21).
za deve capacitar-nos a resolver  a previso                  FISICALISMO (in. Physicalism, fr. Physica-
dos acontecimentos futuros, graas  qual pode-            lisme, ai. Physikalismus; it. Fisicalism). Nome
remos organizar nossas ocupaes presentes".               proposto por Neurath (em Erkenntnis, 1931.
 medida que a tarefa da descrio total da or-            p. 393) como denominao do Crculo de Vie-
dem dos acontecimentos ia sendo considerada                na, que via na linguagem o campo de indaga-
fora das possibilidades da F., a tarefa da previ-          o da filosofia, para acentuar o carter fsico
so ia adquirindo maior relevncia. A limitao            da linguagem. Esse termo foi aceito por Car-
a essa tarefa aumentou enormemente o poder                 nap, para indicar o primado da linguagem fsi-
de ao ou de transformao da F. O princpio              ca e sua capacidade de valer como lingua-
de complementaridade expresso por Bohr                     gem universal: "A linguagem da fsica", diz
em 1927 marca o abandono definitivo da pre-                Carnap, " uma linguagem universal, pois
tenso de que a F. pudesse valer como teoria da            abrange os contedos de todas as outras lin-
ordem necessria. Segundo esse princpio, "no             guagens cientficas. Em outras palavras, cada
 possvel realizar simultaneamente a descrio            proposio de um ramo da linguagem cientfi-
espcio-temporal rigorosa e a conexo causai ri-           ca  eqipolente a algumas proposies da ln-
gorosa dos processos individuais: uma ou outra             gua fisicalista e pode, portanto, ser traduzida
deve ser sacrificada". Isso significa que a cadeia         para ela sem mudar seu contedo" (Philosophy
 de causas e efeitos s poderia ser quantitativa-          and Logical Syntax, 1935, p. 89). Essa tradu-
 mente verificada se o universo inteiro fosse con-         tibilidade das proposies significantes para
 siderado como um sistema nico, mas neste                 uma proposio da fsica foi chamada F., que
 caso a F. desapareceria e ficaria apenas um es-           constituiu a idia diretiva da Enciclopdia da
 quema matemtico (HEISENBERG, Die physikalis-             cincia unificada (v. EMPIRISMO LGICO; ENCI-
 chen Prinzipien der Quantentheorie, 1930, IV,             CLOPDIA). Contudo, num segundo momento,
    FSICA SOCIAL                                        465                                               FORA

    Carnap interpretou o F. como a redutibilidade              pois, como tudo consiste na viso, nada h
    de todas as expresses lingsticas  linguagem            que precise ser mais investigado ou descober-
    coisal (v.) e no  forma particular de lingua-            to, retirando uma camada de aparncia depois
    gem coisal, que  linguagem fsica ("Testability           da outra" (Dasphysiognomische Weltbild, Intr.;
    and Meaning", em Readings in the Phil. of                  trad. it. em Os elementos da grandeza huma-
    Science, 1953, pp. 69-70).                                 na, 1942, pp. 61 ss.).
       FSICA SOCIAL (in. Socialphysics; fr. Phy-                  FISIOGNOSE (in. Physiognosy). Termo usa-
    sique sociale, ai. Sozial Physik, it. Fisica so-           do por Peirce para indicar o conjunto das cin-
    cial). Com este nome, Comte designou o                    cias fsicas (Coll. Pap., 1.242).
    estudo dos fenmenos sociais, a sociologia,                    FISIOLOGIA (in. Physiology, fr. Physiologie;
    cuja autonomia cientfica ele foi o primeiro a             ai. Physiologie, it. Fisiologi). No sentido com
    afirmar (Cours de phil. positive, li. 46) (v. SO-         que Aristteles e outros escritores antigos em-
    CIOLOGIA).                                                 pregam essa palavra, estudo da natureza: o
       FSICO-TEOLGICA, PROVA. V DEUS,                        mesmo que fsica. Algumas vezes Kant tambm
    PROVAS DE.                                                 a usou com essa significao (Crt. R. Pura,
        FISIOCRACIA. V. ECONOMIA POLTICA.                     Doutr. transe, do mt., cap. III).
        FISIOGNOMONIA (gr. qvaioyvcayLa; in.                      FISIOLOGIA PSICOLGICA ou PSICO-
    Physiognomonics; fr. Pbysiognomonie, ai. Phy-              FISIOLOGIA. V. PSICOLOGIA, B.
    siognomik; it. Fisiognomic). Arte de julgar o                FISSISMO (it. Fissism). Termo italiano, que
    carter do homem, seu modo de sentir e de                  no encontra correspondncia nas outras ln-
    pensar, a partir de sua aparncia visvel, es-             guas, com o qual se designa a doutrina da
    pecialmente a partir dos traos fisionmicos.              imutabilidade das espcies vivas, em contrapo-
    Aristteles (seguido por muitos escritores anti-           sio a evolucionismo (v. EVOLUO). Sua tra-
    gos e medievais) j admitira a possibilidade de            duo literal seria fixismo.
    julgar a natureza de uma coisa com base em                    FLECHA (gr. OT; in. Arrow, fr. Flche, ai.
    sua forma corprea (An. pr., II, 27, 70 b 7).              Pfeil; it. Freccid) O terceiro dos quatro argu-
    Ccero falava de um fisiognomonista, Zopiro,               mentos aduzidos por Zeno de Elia em oposi-
    que se vangloriava de conhecer a natureza e o              o ao movimento. O argumento baseia-se em
    carter dos homens pelo exame de seu corpo,                dois pressupostos: le o tempo  formado de
    ou seja, de seus olhos, seu rosto e sua testa (De          instantes; 2e em cada instante a F. s pode ocu-
                                                               par um espao igual ao seu comprimento. Por
    Fato, V, 10). Mas foi principalmente no Renas-             esta segunda tese, a F.  imvel no instante, e
    cimento que essa arte foi cultivada, a comear             como todo tempo  formado por instantes,
    por Giambattista delia Porta, que, em 1580, pu-            durante todo tempo em que se move a F. est
    blicou o livro Sulla F. umana. Esse tipo de                imvel (ARISTTELES, FS., VI, 9, 239 b 29). Aris-
    estudo foi muito difundido no sc. XVIII por               tteles tambm indicou corretamente o pressu-
    Lavater (Fragmentos F., 1775-78). O prprio                posto desse argumento, ou seja, a tese de que o
    Kant reconheceu o valor da F. (Antr., 11, cap.             tempo  constitudo de instantes. V. DICOTOMIA;
     III). Hegel distingue-a das ms artes e dos estu-         AQUILES; ESTDIO.
     dos inteis porque ela afirma a unidade entre
     interior e exterior (Phnomen. des Geistes, I,               FOGO (gr. Tip; lat. Ignis; in. Fire, fr. Feu; ai.
     parte 1, cap. V; trad. it., p. 281). Nos tempos           Fuer, it. Fuoco). Substncia que compe o mun-
     modernos a F. tambm tem defensores no s                do, segundo Herclito. Este considerava o F.
     entre os psiclogos e caracterologistas, mas              dotado de inteligncia e causa primeira do go-
     tambm entre filsofos. Spengler disse: "A mor-           verno do universo (Fr. 65, Diels). Parmnides,
                                                               nos discursos "segundo a opinio", assumia a
     fologia do que  mecnico e amplo, cincia                dualidade F.-trevas (equivalente  dualidade
     que descobre e ordena relaes causais,  cha-            quente-frio [v.]) como princpio de explicao
     mada de sistemtica. A morfologia. do que                da aparncia sensvel (Fr. 8, Diels). Os esticos
     orgnico, da histria e da vida, de tudo aquilo           identificaram o F., situado na extremidade do
     que traz em si direo e destino,  chamada F."           universo, com o ter, que constitui a primeira
     (Untergang des Abendlandes, I, p. 134). R.                esfera imvel e as esferas mveis dos cus
     Kassner afirmou a identidade entre psicologia e           (DiG;. L, VII, 137).
      F., alegando que a antiga distino entre ser e
      aparecer no tem valor: "A psicologia deve en-              FORA (lat. Vis; in. Force; fr. Force; ai.
      to ser F. e qualquer outra  tediosa e banal,           Kraft; it. Forza). Precisamente a ao causai,
                                                               no no sentido de explicar ou justificar (como



1
FORA                                                 466                                              FORA


razo de ser), mas de produzir infalivelmente                mographicum, 1621, em Opera, ed. Frisch, I,
um efeito. Portanto, de forma mais geral, toda              p. 176). Mas essa noo s foi definida quando
tcnica apta a garantir infalivelmente um efeito            se definiu com preciso o princpio da inrcia
ou que pretenda garanti-lo. Nesse sentido, diz-             como princpio fundamental da fsica, com Des-
se "o direito como F." ou "o Estado como F."                cartes. Galilei utilizou-a com freqncia (p. ex.,
para destacar a infalibilidade da realizao do             nos Disc. sulle nuovescienze, em Op., VIII, pp.
direito ou da vontade do Estado. Em tal sentido              155, 344, 345, 442, 447, etc), mas no a defi-
Kant dizia que h quatro espcies de combina-               ne, como tampouco define a noo de inrcia,
es da F. com a liberdade e a lei: a) lei e liber-         que tambm utiliza. Em relao direta com
dade sem F.: anarquia; ti) lei e F. sem liberdade:          esta ltima, a F.  definida por Descartes, que
despotismo; c) F. sem liberdade e sem lei:                  diz: "A F. com que um corpo age contra outro
barbrie; d) F. com liberdade e lei: repblica              corpo ou resiste  sua ao consiste apenas em
(Antr., II, Delineao do carter do gnero hu-             que toda a coisa persiste, enquanto pode, no
mano, 2). Em sentido anlogo Hegel falou de                 mesmo estado em que se encontra, de acordo
"F. da existncia" no domnio das relaes jur-            coma primeira lei j exposta [lei da inrcia]. De
dicas entre os Estados, aludindo  frase de Na-             tal maneira, um corpo unido a outro corpo
poleo: "A repblica francesa no tem necessi-              possui F. para impedir que seja dele separa-
dade de reconhecimento" (Fil. do dir., 331,                 do e, quando  separado, h uma F. que im-
Apnd.).                                                    pede a unio; assim, quando se encontra em
    A noo de F. deve ser considerada sob                  repouso, tem F. para permanecer em repou-
dois aspectos fundamentais, a saber: 1Q no seu              so e para resistir quilo que poderia faz-lo
uso pela cincia; 2S na interpretao dada                  mudar; assim, se se move, h uma F. para conti-
pela filosofia.                                             nuar movendo-se com a mesma velocidade e
    1Q Consideramos aqui a noo de F. exclusi-             para o mesmo lado" {Princ. phii, II, 43). Mas
vamente da forma como se veio configurando                  foi Newton quem generalizou a noo de F.,
desde os primrdios da cincia moderna, ex-                 dando-lhe expresso matemtica precisa. O se-
cluindo de seu mbito as noes de potncia,                gundo princpio da dinmica newtoniana, ou
de causa eficiente ou formal, de qualidade                  seja, a proporcionalidade entre F. e acelerao
oculta, etc, todas de carter metafsico ou teo-            imprimida (F = md), faz da F. uma relao entre
lgico s quais se pode referir, retrospectiva e            duas grandezas, sem nenhuma referncia s
grosseiramente, o termo F. Todos esses ter-                 essncias ou qualidades ocultas, cuja inutilida-
mos tm uma amplitude histrica e problem-                 de para a fsica era declarada pelo prprio
tica completamente diferente do termo em ques-              Newton: "Pretendo dar somente uma noo
to, de tal maneira que no podem lanar luzes              matemtica das foras, sem considerar suas
sobre seu significado ou aos problemas a ele                causas ou suas sedes fsicas" (Philosophiae
atinentes. Portanto, entenderemos com o termo               naturalisprincipia mathematica, 1760, p. 5). A
F. a ao causai infalvel considerada como: d)             generalizao newtoniana permitia falar de F.
diferente ou independente de qualquer agente                da gravidade, de F. eltrica ou de F. magntica,
ou forma metafsica; ti) diferente ou indepen-              de tal modo que, na segunda metade do sc.
dente de qualquer forma ou agente psquico; c)              XVIII, o conceito de F. tornou-se um dos mais
suscetvel de tratamento matemtico. A noo                populares e difundidos. Contudo, despertou a
de F. tambm deve ser distinguida da noo de               desconfiana dos cientistas, que muitas vezes
energia, apesar de os prprios cientistas terem             se recusavam ver nele algo mais que simples
por vezes confundido os dois termos, ao fala-               relao causai. D'Alembert observou que, se a re-
rem (como, p. ex., Mayer e Helmholtz) de con-               lao entre causa e efeito no for considerada de
servao da F., quando se trata da conservao              natureza lgica, mas apenas baseada na expe-
da energia.                                                 rincia, a F. a distncia (gravidade) no represen-
                                                            ta um enigma maior do que a transmisso do
    Neste sentido, pode-se discenir o nascimento            movimento atravs do choque, e de fato nada
da noo de F. nas observaes de Kepler, que               mais faz que expressar, assim como esta lti-
considerou a virtude (virtus),  qual se devem              ma, uma relao confirmada pela experincia
os movimentos gravitacionais, como sujeita a                (lements dephil, 1159,  17). Pelos mesmos
todas as "necessidades matemticas" {Astrono-               motivos Maupertuis queria que o conceito de F.
 mia nova, III, p. 241), negando que ela pudes-             como "causa da acelerao" fosse eliminado da
se ser identificada com a alma (Mysterium cos-
FORA                                               467                                              FORA


mecnica e substitudo pelas simples determi-             me para definir certas relaes entre algumas
naes da medida da acelerao (Examen phi-               grandezas fsicas. A este propsito Russell dis-
losophique de lapreuve de 1'existence de Dieu,            se: "Supe-se que a F. seja causa da acelera-
1756, II,  23, 26). Kant no fez mais que ex-           o... Mas a acelerao  uma simples fico
pressar o mesmo conceito ao dizer que "F.                 matemtica, um nmero, no um fato fsico...
 nada mais  que a relao entre a substncia A           Portanto, se a F.  causa,  causa de um efeito
e qualquer outra coisa B" e que tal relao s            que no se produz" (Principies ofMathematics,
pode ser dada pela experincia (De mundi                  1903, p. 474)
sensibilis et inteligibilis forma et principiis,              2S As interpretaes filosficas do conceito
 28), ou que a F. no  mais que "a causalida-           de F. seguem  distncia e com pouca fidelida-
de da substncia", ou seja, "a relao do sujeito         de o desenvolvimento cientfico do seu concei-
da causalidade com o efeito" (Crt. R. Pura,              to. Todas elas obedecem a um esquema unifor-
Anal. dos Princpios, cap. II, se. III, Segunda          me e consistem em integrar a noo de F. na
analogia da experincia). Deste ponto de vista,           experincia humana. Esta reduo pode ter du-
a interpretao da F. como agente causai                  plo significado. Pode.- d) ser entendida como
misterioso e inacessvel, tal como se encontra,           justificao da noo e transform-la em con-
p. ex., em Spencer (First Principies,  26),             ceito metafsico; ti) ser entendida como crtica 
alijada de cincia.                                       noo e mostrar, com o carter antropomrfico,
    Contudo, com os significados atribudos por           a falta de fundamento. Leibniz  o iniciador das
Galilei ou Newton, a noo de F. tambm no               tentativas no primeiro sentido e Locke, no se-
predominou por muito tempo na cincia. Leib-              gundo sentido.
niz j descobrira e esclarecera o conceito de F.              d) Em Systme nouveau de Ia nature(l695)
 viva, que  o produto da massa pelo quadrado             Leibniz narra que, depois de se libertar do jugo
 da velocidade, conceito que constitui o ponto            de Aristteles, acreditara no vcuo e nos to-
 de partida para a moderna noo de energia               mos, mas que, depois de muitas meditaes,
 (Mathematische Schriften, ed. Gerhardt, VI, pp.          conclura que as unidades ltimas no podem
 218 ss.). Sua doutrina acerca da superiorida-            ser materiais e que, portanto, no podem ser
 de da F. sobre a matria, que serve de termo             tomos de matria, mas de esprito. E acrescenta:
 mdio para a resoluo da matria em energia             "Era necessrio, portanto, reabilitar as formas
 espiritual (V. adiante), baseia-se precisamente          substanciais to desacreditadas hoje em dia,
 nesse conceito de energia. Porm, no sculo se-          mas de tal maneira que fossem inteligveis e
 guinte, a descoberta da conservao da energia           permitissem uma separao entre o uso que
 (1842) por Robert Mayer e a obra de Helmholtz            delas se deve fazer e o abuso que delas se tem
 e de Hertz conduziram  formulao daquilo               feito. Descobri, ento, que a natureza delas
 que se chamou energismo da mecnica (cf.                 consiste na F. e que disto resulta algo anlogo 
POINCAR, La science et Vhypothse, p. 148). O            conscincia e ao apetite, sendo, assim, necess-
energismo nega que a F. seja a "causa" do mo-             rio conceb-las  imitao da noo que temos
vimento e que, portanto, esteja presente an-              das almas" (Systeme, etc,  3). Isto mostra as
tes do movimento, e considera a idia de ener-            bases do primado que Leibniz sempre conce-
gia anterior  de F. Esta ltima  introduzida            deu  noo de F. em suas interpretaes fsi-
atravs de simples definio e suas proprieda-            cas e metafsicas: a F.  algo anlogo  cons-
des so deduzidas a partir da definio e das             cincia (sentiment) e ao apetite, ou seja, a
leis fundamentais. Portanto, no energismo a               experincias internas do homem.  certo que
idia de F. j no implica dificuldade alguma:           Leibniz entendeu por F. a vis activa que, como
um simples conceito convencional. Na mesma                se disse,  energia. Mas isso no faz diferena
linha encontram-se os Princpios de mecnica              do ponto de vista de sua metafsica, que  uma
(1894) de Hertz, que s consideram como fun-              metafsica da F. espiritual (cf. Nouv. ess., II, 21,
damentais as idias de tempo, espao e massa,              1). Esta doutrina torna-se arqutipo de toda a
considerando derivadas as idias de F. e de               corrente filosfica cujo segundo fundador foi
 energia. Contudo, o conceito de energia conti-           Maine de Biran, no incio do sc. XIX. Este
nuava sendo importante em fsica, sobretudo               considera a percepo interna e imediata, vale
 com referncia ao conceito de campo (v.), en-            dizer, a conscincia que o eu tem de si, como
 quanto o conceito de F. continuava sendo o               F. volitiva e ativa, como revelao do mesmo
 mesmo demonstrado pelo energismo: um no-                 carter originrio da realidade, que, por isso
FORA                                                468                                              FORMA


mesmo, seria ela mesma F. Diz: "A percepo                vez demonstrou que nem da experincia inter-
interna ou imediata  a conscincia de uma F.              na nem de qualquer outra fonte o esprito
que  meu prprio eu e que serve de exemplo                pode extrair uma idia clara e real de F.: "E cer-
para todas as noes gerais e universais de                to que ignoramos a maneira como os corpos
causa e de F." {Nouveaux essais d'anthro-                  agem um sobre o outro, e que sua F. ou ener-
pologie, 1823-24, em Euvres, ed. Naville, III, p.         gia nos  de todo incompreensvel, porm so-
5). Praticamente na mesma poca Schopen-                   mos igualmente ignorantes sobre a maneira ou
hauer realizava a mesma passagem da psico-                 F. com que uma mente, conquanto suprema,
logia para a metafsica, reconhecendo como                 age sobre si mesma e sobre os corpos. De qual
nica F. constitutiva da essncia do mundo a               dessas coisas, pergunto, conseguimos fazer
que o homem percebe imediatamente em si                    uma idia?... O que  mais difcil conceber: que
mesmo, ou seja, a vontade {Die Welt ais Wille              o movimento nasce de um choque ou que nas-
und Vorstellung, 1819). Isso deve ser entendi-             ce de um ato de vontade? Tudo o que conhece-
do no sentido de que ao homem mostra-se                    mos  nossa ignorncia profunda em ambos os
como vontade a mesma potncia ativa que nas                casos" {Inq. Cone. Underst, VII, 1). Essa crtica
outras partes da natureza se manifesta como                de Hume  clssica e, sob certo aspecto, de-
F.: "Se, portanto, eu disser que a F. que faz a            finitiva. Mach considerou "fetichismo" o uso
pedra cair no cho, em sua essncia, em si e               do conceito de F., alis tanto quanto o de cau-
fora de qualquer representao,  vontade, no             sa, que desejava substituir pelo conceito de
se dever atribuir a essa afirmao o insensato            funo {Analyse der Empfindungen, 9a ed.,
significado de que a pedra se move segundo                 1922, p. 74; Populwissenschaftlichen Vorlos-
um motivo conhecido pelo fato de que no ho-                sugen, 1896, p. 259; trad. in., 1943, p. 254). Por
mem a vontade se manifesta deste modo" {Ibid.,             outro lado, pelo fato de esse conceito ter deixado
I,  19)- Esta identificao da F. que o homem             de despertar o interesse da cincia tambm dei-
conhece pela experincia interior com a F. que             xou de ter interesse para a crtica metodolgica.
age no mundo continua constituindo a ba-                   Portanto, hoje se apresenta como conceito cien-
se das filosofias espiritualistas. A doutrina de           tfico antiquado, que serve de pretexto (embo-
Bergson, segundo a qual um el vital, que se               ra cada vez mais raramente) para especula-
revela  conscincia humana como durao                   es metafsicas (cf. MAX JAMMER, Concepts of
real, d origem  vida penetrando e organizan-             Force, 1957: obra rica de informaes conquanto
do a matria {vol. cratr., cap. I), obedece ao           dbia e confusa ao delimitar a noo de que
mesmo critrio fundamental. Mas essa postura               trata).
tambm  assumida pelas doutrinas materialis-
tas: admitir, a exemplo de Haeckel {Die Wel-                   FORMA (gr. (lopcpn, 5o; lat. Forma; in.
trtsel, 1899), uma nica F. que explica todo              Form; fr. Forme, ai. Form; it. Forma). Esse ter-
devir do universo e  anloga  que se revela              mo tem as seguintes significaes principais:
na conscincia do homem significa obedecer                    Ia Essncia necessria ou substncia das coi-
mesma interpretao da noo de F.                         sas que tm matria. Nesse sentido, que est
                                                           presente em Aristteles, F. no s se ope a
    b) Por outro lado, a reduo dessa noo a             matria, mas a pressupe. Aristteles usa, por-
experincia interna por vezes significou uma               tanto, esse termo com referncia s coisas natu-
crtica  prpria noo, porque considerada                rais que so compostas de matria e F., e obser-
como sinal do seu carter arbitrrio. A este res-          va que a F.  mais "natureza" que a matria,
peito, Locke evidenciara que a idia de poder              uma vez que de uma coisa diz-se aquilo que
{Power) derivara da reflexo do espirito sobre             ela  em ato (a F.), e no o que  em potncia
suas operaes {Ensaio, II, 21, 4). Com o fim              (Fs., II, 1, 193 b 28; Met., IV, 1015 a 11). Desse
de defender sua concepo do universo como lin-            ponto de vista, no se pode dizer que so F. as
guagem ou manifestao de Deus, Berkeley foi               substncias imveis {Deus e as inteligncias
levado a retirar o carter realista dos conceitos          motrizes), que so isentas de matria, mas so
da cincia: "F., gravidade, atrao e termos se-           F. as substncias naturais em movimento. Don-
melhantes convm ao fim de raciocinar e de fa-             de a polmica de Aristteles contra o plato-
zer clculos sobre o movimento e sobre todos               nismo, com o objetivo de afirmar a insepa-
os corpos que se movem, mas no ao fim de                  rabilidade entre F. e matria. Os escolstcos
compreender a natureza do prprio movimen-                 no se ativeram rigorosamente a essa termi-
to" {De motu,  17; Siris,  234). Hume por sua            nologia aristotlica e estenderam o termo F. a
FORMA                                                469                                          FORMA


qualquer substncia, falando de "F. separadas"          contedo humano da conscincia, produzido
para indicar as idias existentes na mente de           pelo pensamento, no aparece primeiro em
Deus (ALBERTO MAGNO, S. Th., I, q. 6; S. TOMS,         F. de pensamento, mas como sentimento, in-
S. Th., I, q. 15 a. 1) e de "F. subsistentes"           tuio, representao, F. que devem ser dis-
para indicar os anjos que no tm corpo e,              tinguidas do pensamento como F." (Ene,  2).
portanto, no tm matria (S. TOMS, S. Th., I,         Foi exatamente com esse sentido que Croce
q. 50 a. 2). Alm disso, falavam de "F.                 e Gentile falaram de "formas do esprito", seja
substanciais ou de F. acidentais" (Ibid., I, q. 76      para estabelecer, seja para negar sua diversi-
a. 1), sendo esta ltima expresso, do ponto de         dade.
vista aristotlico, no mnimo contraditria. Gil-           2- Uma relao ou um conjunto de relaes
berto Porretano (sc. XII), em Desexprincipiis,         (ordem) que pode conservar-se constante com
separara as F. inerentes, correspondentes s            a variao dos termos entre os quais se situa.
primeiras quatro categorias de Aristteles              P. ex., a relao "Sep, ento q" pode ser assu-
(substncia, qualidade, quantidade, relao)            mida como a F. da inferncia, porque permane-
das F. assistentes, correspondentes s outras           ce constante quaisquer que sejam as proposi-
categorias aristotlicas, de caracteres que no         es pe qentre as quais se situa. Assim, diz-se
constituem a substncia das coisas. Em todos            habitualmente que a matemtica  uma cincia
os casos, a F. conserva os caracteres que Arist-      formal porque o que ela ensina no vale ape-
teles lhe havia atribudo:  causa ou razo de          nas para certos conjuntos de coisas, mas para
ser da coisa, aquilo em virtude do que uma coi-         todos os conjuntos possveis, j que versa sobre
sa  o que ;  ato ou atualidade da coisa, por         certas relaes gerais que constituem o aspecto
isso o princpio e o fim do seu devir.                  formal das coisas. Nesse sentido, a palavra F. foi
    O conceito de F. assim entendido foi e conti-       usada pela primeira vez por Tetens, para indicar
nua sendo empregado tambm fora do aristo-              as relaes estabelecidas pelo pensamento en-
telismo e de seus derivados. No possui deter-          tre as representaes sensveis que, por sua vez,
minaes diferentes das aqui apontadas a F. de          constituiriam a "matria" do conhecer (Philoso-
que fala Bacon como objeto da cincia natural:         phische Versuche ber die menschliche Natur,
essa F.  ato e causa eficiente, tanto quanto a         1776, I, p. 336). Kant fez distino anloga na
F. aristotlica (Nov. Org. II, 17), e distingue-se      dissertao de 1770: " representao perten-
desta apenas porque, como pensava Aristteles,          ce, em primeiro lugar, alguma coisa que se
no pode ser apreendida pelo procedimento               pode chamar de matria, que  a sensao, e,
dedutivo ou pelo intelecto intuitivo, mas s            em segundo lugar, aquilo que se pode cha-
pela induo experimental. Descartes refere-            mar de F. ou espcie das coisas sensveis, que
se  significao tradicional da palavra quando         serve para coordenar, por meio de certa lei
nega que existam "as F. ou qualidades sobre             natural da alma, as vrias coisas que impres-
as quais se discute nas escolas" (Discours, V).         sionam os sentidos" (De mundi sensibilis et
E  com o mesmo significado que essa palavra            intelligibilis forma et ratione,  4). Essa distin-
 usada por Bergson, ao afirmar que "F.  um            o entre matria e F. foi o ponto de partida de
 instantneo de uma transio", ou seja, uma            toda a filosofia kantiana, mas Kant nunca alte-
 espcie de imagem intermediria da qual se             rou o significado de F., que continuou sendo
 aproximam as imagens reais em sua mudana              relao ou conjunto de relaes, isto , ordem.
 e que  pressuposta como "a essncia da coisa          Escreveu em Prolegmenos ( 17): "O elemen-
 ou a coisa mesma" (vol. cratr., IV ed., 1911,        to formal da natureza  a regularidade de to-
 p. 327).                                               dos os objetos da experincia." Analogamente,
                                                        a F. dos princpios morais  a simples relao
    Deste conceito de F. aproxima-se o senti-           na qual uma lei se encontra com os seres ra-
 do com que essa palavra  usada por Hegel,             cionais, ou seja, sua validade para todos esses
 como "totalidade das determinaes", que             seres, sua universalidade (Crt. R. Prtica,  4).
 a essncia no seu manifestar-se como fen-            A partir de Kant o sentido dessa palavra nunca
 meno (Ene,  129). Nesse sentido, F.  o modo         deixou de ser o de relao generalizvel, or-
 de manifestar-se da essncia ou substncia de          dem, coordenao ou, mais simplesmente, uni-
 uma coisa, na medida em que esse modo de              versalidade. Nesse sentido, Kant distinguiu ma-
 manifestar-se coincide com a prpria essncia.        tria e F. no conceito: "A matria do conceito 
  nesse sentido que Hegel empregava habitual-          o objeto; a F. dele  a universalidade" (Logik.,
 mente essa palavra, p. ex. quando dizia: "O
FORMA                                                 470                                            FORMAL


Elementarlehre,  2).  neste sentido que hoje              uma "questo de F." diz respeito  relao entre
os lgicos utilizam essa palavra para caracteri-            o caso em exame e as normas de procedimento,
zar o objeto de sua cincia. Era a ele que Peirce           e no ao problema que constitui a substncia ou
se referia {Coll. Pap., 4.611), e  a ele que,              o mrito do caso. s vezes o recurso  "F." ex-
mais recentemente, referem-se Strawson (Intr.               pressa a exigncia de autonomia num procedi-
to Logical Theory, 1952, p. 41), Prior {Formal              mento ou numa tcnica. Esta , freqentemente,
Logic, 1955,  1) e Church (Introduction to                 a significao da insistncia no carter formal da
Mathematical Logic, 1956,  00). Carnap dis-                arte. Quando, em arte, o recurso  F. no ex-
se: "Uma teoria, uma regra, uma definio ou                pressa exigncia de organizao e ordem (que
coisas semelhantes devem ser chamadas de                    diz respeito ao significado 2S), expressa a exi-
formais quando no fazem nenhuma refern-                   gncia de que os procedimentos ou as tcnicas
cia ao significado dos smbolos (p. ex., das                da arte sejam independentes dos procedimen-
palavras) ou ao sentido das expresses (p.                  tos ou das tcnicas de outras atividades, como o
ex., dos enunciados), mas unicamente s es-                 conhecimento, a moral, etc. (cf. CROCE, Bre-
pcies e  ordem dos smbolos com os quais                  virio de esttica, p. 53). Nesse sentido, passa-
as expresses so construdas" {Logische Syntax             se a consideraes formais, em certo campo,
derSprache, 1934,  1).                                     quando se reconhece a independncia entre
     a esse significado de ordem ou relao que            as tcnicas utilizveis nesse campo e as em-
est ligado o uso da palavra F. (Gestalt) na psico-         pregadas em outros campos.
logia contempornea, ao se ressaltar o fato ex-                FORMA, PSICOLOGIA DA. V PSICOLOGIA
perimental de que impresses simultneas no                   FORMAO (ai. Bildung). No sentido es-
so independentes umas das outras, como se                  pecfico que esta palavra assume em filosofia e
fossem pedaos de um mosaico, mas consti-
                                                            em pedagogia, em relao com o termo ale-
tuem uma unidade com ordem definvel (v.
PSICOLOGIA). NO mesmo sentido, Born props
                                                            mo correspondente, indica o processo de
que sejam consideradas como "F. das coisas                  educao ou de civilizao, que se expressa
fsicas as invariantes das equaes, que tm a              nas duas significaes de cultura, entendida
mesma realidade objetiva das coisas que nos                 como educao e como sistema de valores sim-
so familiares" {Experiments and Theory in                  blicos (v. Cultura).
Physics, 1943, pp. 12-13). Na prpria esttica                 FORMAIS, CINCIAS. V. CINCIAS, CLASSI-
h pelo menos uma significao na qual a pa-                FICAO DAS.
lavra F. pode ser reintegrada na significao de               FORMAL (in. Formal; fr. Formei; ai. Formal;
ordem ou organizao das partes;  a significa-             it. Formal). 1. Em correspondncia com o le
o esclarecida por Dewey: "S quando as par-               significado de forma: aquilo que pertence 
tes constitutivas de um todo tm o fim nico de             essncia ou substncia da coisa, por isso essen-
contribuir para a perfeio de uma experin-                cial, substancial, atual. Nesse sentido essa pala-
cia consciente  que o desenho e a imagem                   vra foi empregada pelos escolsticos, por Des-
perdem o carter sobreposto e tornam-se F."                 cartes {Md., III, // Rponses, def. IV) e por
{Ari as Experience, cap. VI; trad. it, p. 140).             Spinoza {Et., II, 8). A esta significao refere-se
Aproxima-se dessa mesma significao o uso                  tambm o uso que Duns Scot faz do termo nas
da palavra por Focillon: "As relaes formais               expresses "distino F." ou "razo F.". Distin-
em uma obra e entre as vrias obras consti-                 o F.  uma distino de essncia ou natureza,
tuem uma ordem, uma metfora do universo"                   mas sem implicar separao numrica: ela inter-
{Viedesformes, 1934, trad. it., p. 53). Em geral,           cede, p. ex., entre a natureza comum e a indivi-
pode-se dizer que, no mbito desse significa-               dualidade das coisas ou entre as vrias perfei-
do, passa-se  considerao da F. todas as ve-              es de Deus {Op. Ox., I, d. 8, q. 4, n. 17).
zes em que certa relao  generalizada, vale                   2. Em correspondncia com o 2- significado
dizer, considerada vlida para certo nmero de              de forma: o que pertence a uma relao ge-
termos ou de casos possveis, ou quando no                 neralizvel ou ento  ordem ou coordenao
so considerados os termos entre os quais est              das partes. Nesse sentido, essa palavra  em-
uma ordem, para atribuir importncia ou signi-              pregada na lgica, na matemtica moderna e
 ficado somente a essa ordem.
                                                            na esttica.
   3a Uma norma de procedimento. Nesse senti-                   Em lgica esse termo foi amplamente utiliza-
do, fala-se de F. em direito, no sentido de que             do num sentido intuitivamente claro, mas nunca
FORMALISMO                                              471                                        FORTALEZA


determinado completamente. Na lgica medie-                   meros inteiros, da teoria dos conjuntos, ou do
val, formalis tem a significao fundamental                  clculo lgico elementar) sempre que Tseja
de "inerente  forma", portanto "essencial", mas              uma interpretao verdadeira e possivelmente
tambm -- por conseguinte -- "universal", "v-                Z-verdadeira de S. Em geral, todas as teorias fun-
lido para todo contedo emprico relativo a                   damentais das matemticas puras contempor-
certa forma"; por esta razo, como ltima sig-                neas foram alvo de F.; ainda no est completa-
nificao, "independente da natureza emprica                 mente resolvido o problema da F. da lgica e,
dos contedos". Foi com esse sentido que esse                 em geral, das metalinguagens empregadas pa-
termo passou para a lgica moderna e contem-                  ra a F. das teorias matemticas. Entre outras coi-
pornea: a partir de Leibniz, os termos "forma"               sas, uma das maiores dificuldades para essa
(p. ex., os arguments enformem terminolo-                     formalizao de segundo grau  representada
gia leibniziana) e "F." indicam certos esquemas,              por um conhecido teorema (de Gdel), segun-
frmulas, etc, em que os termos descritivos                   do o qual uma teoria formalizada no pode con-
so substitudos por smbolos ("variveis"), e                ter a prova de sua prpria no contradio (v.
portanto as propriedades, as relaes, as conse-              AXIOMATIZAO; MATEMTICA).       G. P.
qncias, etc, do esquema ou frmula vigoram
                                                                 FORMALIZADA, LINGUAGEM. V. SISTEMA
 independentemente de qualquer possvel desig-
                                                              LOGSTICO.
nao dos termos significativos nela presentes.
                                                                 FORMAS, PLURALIDADE DAS. V. AGOS
     3. Em correspondncia com o 3S significa-                TINISMO.
 do da palavra "forma": aquilo que pertence                       FRMULA (in. Formula; fr. Formule, ai.
 ao procedimento, seja legal, de etiqueta, etc                Formei; it. Formula). 1. Elemento de um cl-
                                          G. P.-N. A.         culo (v.). Nesse sentido, a F. distingue-se da
     FORMALISMO (in. Formalism; fr. Formalis-                 proposio, que  o elemento de um sistema
 me, ai. Formalismus; it. Formalismd). Toda dou-              semntico (CARNAP, Foundations of Logic and
 trina que recorra  forma, em qualquer das                   Mathematics,  9).
 significaes do termo. No fim do sc XIV,
 foram chamados de "formalistas" os partidri-                    2. O mesmo que enunciado ou proposio.
 os da metafsica de Duns Scot, que se opu-                       3. Mais em geral: uma seqncia finita linear
 nham aos "terministas", partidrios de Ockham                de smbolos primitivos. Foi assim que A.
 (GERSON, De conceptibus, p. 806). Foi qualifi-               Church definiu a F., chamando de "F. bem for-
 cado de F. o ponto de vista kantiano em tica,               mada" a F. que atende a certas regras funda-
 por recorrer s formas gerais das mximas, sem               mentais de uma linguagem ilntr. to Mathe-
 considerar os fins a que se destinam. Em mate-               matical Logic, 1956,  7).
 mtica foi chamado de F. o procedimento que                      FORMULA IDEAL. Foi essa denominao
 pretende prescindir dos significados dos sm-                dada por Gioberti  "proposio que expressa
 bolos matemticos, especialmente a corrente                  a Idia de modo claro, simples e preciso",
 de Hilbert. Tambm  considerada F. a grande                 como a seguinte: "O Ente cria o existente, o
 importncia atribuda aos procedimentos legais               existente retorna ao Ente" ijntr. ao estudo da fi-
 ou a certas normas de comportamento nas rela-                losofia, 1840, II, pp. 147, 174; III, p. 3). A F. I.
 es entre os homens.                                        expressa o conceito neoplatnico de que o
     FORMALIZAO (in. Formalisation; fr.                     mundo provm de Deus e voltar a Deus atra-
  Formalisation; ai. Formalisation; it. Formaliz-             vs do homem.
  zazion). Este termo  caracterstico da lgica e               FORO NTIMO (fr. For intrieur). Esta ex-
  da filosofia da cincia, contempornea. Com                 presso origina-se da antiga frase francesa, ain-
  "F. de uma teoria" entende-se o procedimento                da usada, e significa o tribunal da conscincia
  com que  construdo um sistema meramente                   (v.).
  sinttico de smbolos S, regido por alguns axio-                FORONOMIA (in. Phoronomics; fr. Pho-
  mas (e, eventualmente, por regras prticas de               ronomie, ai. Phoronomie, it. Foronomid). Pala-
  formao e derivao das frmulas), dos quais,              vra criada por Lambert para indicar a doutrina
  de acordo com as normas sintticas do prprio               que estuda as leis do movimento (Neues Or-
  sistema, derivam frmulas que constituem                    ganon, 1764), e retomada por Kant com senti-
  transformaes tautolgicas do grupo de axio-               do anlogo {Metaphysische Anfangsgrnde der
  mas. Esse sistema sinttico puro S constitui uma            Naturwissenschaft, 1786).
  F. de dada teoria T (p. ex., da aritmtica dos n-             FORTALEZA. V. CORAGEM.
FORTUNA                                                472                                              FUNO


    FORTUNA. V. SORTE.                                        das coisas que servem de meios e de instru-
    FORTUITO. O que  devido  sorte ou ao                   mentos, mas a fruitio  como o fim da coisa
acaso (v.).                                                  proposta" {De hom., XI,  5). s vezes essa pa-
    FRENOLOGLA (in. Phrenology fr. Phrno-                   lavra  usada em sentido anlogo na filosofia
logie, ai. Phrenologie, it. Frenologia). Doutrina            contempornea, p. ex. por Dewey (Fxperience
que estuda as correspondncias entre as dispo-               and Nature, 1926, cap. 3), outras vezes com
sies espirituais e a forma do crnio, es-                  significao diferente como em S. Alexander
pecialmente suas protuberncias. Essa doutrina               (Space, Time andDeity, 1920), indicando a per-
foi sistematizada por F. J. Gall num livro in-               cepo imediata que a conscincia tem de si
titulado Anatomia efisiologia do sistema nervo-              mesma (percepo imanente no sentido de
so (Anatomie et physiologie du systme nerveux,              Husserl) (v. CONSCINCIA). Whitehead falou de
1810). Hegel deu muita importncia a esta                    autofruio (Autofruition) como caracterstica
pretensa cincia, enquanto dava muito menos                  da vida, porquanto esta se apropria dos proces-
importncia a cincias mais srias, discutindo-a             sos fsicos da natureza (Nature and Life, 1934,
longamente em Fenomenologia do esprito (I,                  II).
parte 1, cap. V). Na verdade, esta obra (1807)                    FUGA (ai. Flucht). Heidegger chamou de F.
 anterior  publicao da obra de Gall, mas o               de si mesmo o homem entregar-se  banalida-
contedo desta ltima era conhecido graas s                de da existncia cotidiana. O retorno dessa F.
exposies que Gall fazia durante suas viagens                a angstia (v.), na qual o homem enfrenta
 Europa.                                                    sua maior possibilidade, que  a da morte (Sein
   FREUDISMO. V. PSICANLISE.                                 undZeit,  40, 41). Para o conceito de "F. do
    FRISESOM (ORUM). Palavra mnemnica                       mundo", cf. ABBAGNANO, Introduo ao exis-
usada pelos escolsticos para indicar o nono                  tencialismo, 1942, IV,  4.
modo da primeira figura do silogismo, precisa-                    FULGURAO (in. Fulguration; fr. Fulgu-
mente o que consiste em uma premissa parti-                   ration; it. Fulgurazion). Termo com o qual
cular afirmativa, uma premissa universal negati-             Leibniz indicou o modo como as mnadas
va e uma concluso particular negativa, como                 dimanam de Deus, porquanto nascem "por as-
no exemplo: "Alguns animais so substncia;                  sim dizer por meio de F. contnuas da divinda-
nenhuma pedra  animal; logo, algumas subs-                  de de momento em momento" (Monad.,  47).
tncias no so pedra" (PEDRO HISPANO, Summ.                 Esse termo pretende ressaltar a continuidade
log., 4. 09)                                                 da criao divina.
    FRISESOSOM. Palavra mnemnica usada                           FUNO (in. Function; fr. Fonction; ai.
pela Lgica de Port-Royal para indicar o no-                 Funktion; it. Funzion). Esse termo tem duas
no modo do silogismo de primeira figura                      significaes fundamentais:
(Frisesotnorum) com a diferena de assumir                        1- Operao. Neste significado o termo cor-
como premissa maior a proposio em que                      responde  palavra grega ergon, do modo como
est o predicado da concluso. O exemplo  o                  empregada por Plato, quando diz que
seguinte: "Nenhum infeliz est contente; h                  a F. dos olhos  ver, a F. dos ouvidos  ouvir,
pessoas contentes que so pobres; logo, h                   que cada virtude  uma F. de determinada par-
pobres que no so infelizes" (ARNAULD, Log.,                te da alma e que a F. da alma, em seu conjunto,
III, 8).                                                      comandar e dirigir (Rep., I, 352 ss.). F., nesse
    FRUIO (lat. Fruitio; in. Fmition; fr. Frui-            sentido,  a operao prpria da coisa, no sen-
 tion\ ai. Genus; it. Fruizione).Na Escolstica me-          tido de ser aquilo que a coisa faz melhor do
dieval foi assim chamado o usufruto de                       que as outras coisas (Ibid., 353 a). Aristteles
Deus por parte do homem ou, em geral, por                    emprega esse termo com o mesmo sentido,
parte das criaturas racionais, na medida em que              quando, em tica a Nicmaco, procura desco-
Ele constitui o fim ltimo delas (cf. S. TOMS, S.           brir qual  a F. ou a operao prpria do ho-
 Th., II, 1, q. 11, a. 3). A distino entre a F. de         mem como ser racional (Et. nic, I, 7). Alm
Deus e uso das coisas j fora considerada fun-               disso, insiste no carter finalista e realizador da
damental por Pedro Lombardo, servindo de                     F.: "a F.  o fim, e o ato  a F." (Met., IX, I, 1050
base as sees de seu Livro das sentenas (sc.              a 21). Essa palavra  usada freqentemente
XII). Tambm encontramos a distino entre                   com esta significao tanto na linguagem cien-
uso e F. em Hobbes: "Do bem que desejamos                    tfica quanto na comum. Em filosofia, Kant cha-
por si mesmo no fazemos uso, visto que o uso                mou de F. os conceitos que "se baseiam na
FUNO                                                473                                        FUNO

espontaneidade do pensamento, assim como                vez por iniciativa pessoal deste ltimo (v.
as intuies sensveis se baseiam na recepti-           Mathematische Schriften, ed. Gerhardt, I, p.
vidade das impresses". Em outras palavras, os          268) -- inferiu do significado acima o conceito
conceitos so F. porque so atividade, operaes,       matemtico de F., mas a primeira tentativa de
e no modificaes passivas como as impresses          defini-lo foi feita por Johann Bernouilli em
sensveis. A F. conceptual  definida por Kant          1718 (cf. Opera, 1742, II, p. 241). Hoje em dia,
como "unidade do ato de ordenar diversas re-            as definies que os matemticos do desse
presentaes sob uma representao comum"               conceito de F. variam muito, mas em geral po-
Xcrt. R. Pura, Anal. transe, cap. I, se. 1). Com      demos dizer que se trata de uma regra que une
sentido anlogo, Husserl entende por F. a ativi-        as variaes de certo termo ou de um grupo de
dade da conscincia que tenha um fim, de tal            termos com as variaes de outro termo ou
modo que a considerao funcional substitui a           grupo de termos. Na F. distingue-se a varivel
descrio e a classificao das vivncias indivi-       dependente, que  a prpria F., e as variveis
duais pela considerao "do ponto de vista              independentes ou argumentos (v.), cujas varia-
teleolgico de sua F., que  a de possibilitar          es so consideradas dadas ou determinveis
uma unidade sinttica" (Ideen, I,  86). A distin-      arbitrariamente. Peirce afirma: "Dizer que uma
o introduzida por C. Stumpf entre aparies           quantidade  a F. dada de certas quantidades
e F. psquicas tem o mesmo fundamento: as F.            que valem como argumentos significa dizer
so operaes, enquanto as aparies so mo-            simplesmente que os valores deles esto em
dificaes passivas {Erscheinungen und psy-             dada relao com os valores dos argumentos,
 chische Funktionen, 1907). Scheler introduziu a        ou que uma proposio dada  verdadeira em
mesma distino entre estados e F. emotivas:            todo o conjunto de valores de sua ordem. Dizer
em relao ao estado emotivo, a F.  a reao           simplesmente que uma quantidade  uma F. de
ativa no sentido, p. ex., de que a simpatia            certas outras significa nada dizer, j que se
uma F. que no pressupe uma modificao                pode dizer o mesmo de cada conjunto de valo-
 emotiva passiva na pessoa que a sente (Sym-            res. Isso todavia no torna-intil a palavra F.,
pathie, I, cap. 3; trad. fr., p. 69). O conceito de     assim como dizer que um conjunto de coisas
 operao para um fim ou capaz de realizar um           que tm entre si alguma relao no torna in-
 fim tambm est implcito no uso dessa noo           til a palavra relao." Desse ponto de vista, F.
 pelas cincias biolgicas e sociais. Em biologia,       a operao de aplicar efetivamente a regra
 F.  a operao por meio da qual uma parte ou          que interliga as variaes de dois conjuntos de
 um processo do organismo contribui para a              quantidades de tal modo que se encontrem os
 conservao do organismo total (cf., p. ex.,           valores de algumas dessas quantidades quando
 BERTALANFFY, Modern Theories ofDevelopment,            os outros so dados (Coll. Pap., 4, 253). A lgi-
 Nova York, 1933, pp. 9 ss., 184 ss.). Em socio-        ca contempornea adotou o conceito matem-
 logia a F. foi definida por Durkheim (Rgles de        tico de funo; emprega o smbolo matemtico
  Ia mthode sociologique, 1895) como a corres-         de F.,/Cx), para indicar proposies da forma
 pondncia entre uma instituio e as necessi-          "a baleia  um mamfero", em que o smbolo x
 dades de um organismo social, vale dizer, como         representa o argumento, o sujeito do qual se
 a atividade pela qual uma instituio contribui        fala (a baleia ou outro mamfero qualquer), ef
 para a manuteno do organismo. Com o mes-             corresponde  propriedade que se lhe atribui
 mo esprito, Radcliffe-Brown define a F. de uma        (mamfero). O sinal/tambm  chamado de F.
  atividade social recorrente (como, p. ex., a          proporcional ou predicado. O objeto ao qual
  punio dos crimes ou uma cerimnia funer-           ele corresponde, ou seja, a propriedade deno-
  ria) como "o papel que ela desempenha na              tada, chama-se tambm F. situacional. Ser ma-
  vida social como um todo e, por isso, a con-          mfero , p. ex., a propriedade ou F. situacional
  tribuio que ela d para a manuteno da con-        denotada pelo predicado ou F. proposicional
  tinuidade estrutural" (Structure and Function         "mamfero".
  in Primitive Society, 1952, p. 180). A significa-
  o de operao ou de ao dirigida para um                  O uso do conceito de F. nas cincias tende a
  fim e capaz de realiz-lo predomina em todas              suplantar o do conceito de causa, podendo ser
  essas noes.                                             considerado eqipolente ao uso do conceito de
                                                            condio. Expressa a interdependncia dos fe-
   2- Relao. No final do sc. XVI, o grupo de             nmenos e permite a determinao quantitati-
 matemticos ao qual pertencia Leibniz -- e tal-            va dessa interdependncia sem pressupor ou
FUNO PROPOSICIONAL                                 474                                    FUNDAMENTO

assumir nada sobre a produo de um fenme-                Russell, "(3x)"], na proposio particular "pelo
no por parte de outro. J em 1886 Mach teria               menos um x O" [na notao de Russell, "(3x).
sugerido que o conceito de F. deveria suplantar            <>x"]; pelo operador "x" (na notao de Russell)
o conceito tradicional de causalidade, por en-             ou X (na notao mais recente)  transformada
tender a dependncia recproca dos fenme-                 na descrio abstrata da classe dos x que so 4>
nos (Analyse derEmpfindungen, 9a ed., 1922,                [na notao de Russell, "x O x" ou "XOx"].
p. 74). Num estudo de 1910 {Substanzbegriff                    FUNCIONAL (in. Functional; fr. Fonction-
und Funktionsbegriff) Cassirer mostrava a re-              nel; ai. Funktional; it. Funzional). As sig-
dutibilidade de boa parte das noes cientficas           nificaes deste adjetivo correspondem s
ao conceito de funo. Mais recentemente,                  significaes fundamentais do substantivo
Dewey insistiu na diferena de significado que             correspondente. Ao Ia significado correspon-
esse conceito tem em fsica e em matemtica.               dem os das expresses "psicologia F." ou "an-
Quando se diz "o volume de um gs  F. da                  lise sociolgica F.". Ao 2 significado cor-
temperatura e da presso", descobre-se e verifi-           respondem os significados das expresses
ca-se esta frmula com operaes de observa-               "correlao F." ou "clculo F.". A psicologia F.,
o experimental: portanto, a frmula  contin-            cujos fundamentos foram defendidos especial-
gente, assim como  contingente a relao que              mente por Peirce, James, Mead e Dewey, con-
ela determina. Contudo, no caso da proposio              sidera os processos mentais como operaes
y = x1, cada operao que confere um valor a x             atravs das quais o organismo biolgico adap-
ou a y institui necessariamente uma modifica-              ta-se ao ambiente e o domina (cf. MORRIS, Six
o correspondente no valor do outro membro                 Tbeories of Mind, Chicago, 1932, cap. VI). A
da equao, e a operao de atribuir um valor              anlise F. em sociologia tende a mostrar "o
 inteiramente determinada pelo sistema do                 papel que as instituies desempenham na to-
qual a equao faz parte {Logic, cap. XX,  5;             talidade de um sistema cultural", como afirma
trad. it., p. 539). Mas obviamente esta diferen-           Malinowski, ou, em outros termos, a contribui-
a no modifica o prprio conceito de F., cujas            o que uma instituio d para a manuteno
caractersticas permanecem constantes em to-               do conjunto social de que faz parte (MERTON,
das as cincias contemporneas que o utilizam              Social Theory and Social Structure, 1957, pp.
amplamente.                                                20 ss.). Por outro lado, "correlao F."  uma
    FUNO PROPOSICIONAL (in. Proposi-                     relao de dependncia recproca, de acordo
tional function; fr. Fonction propositionnelle,            com o 2 significado de funo. "Clculo F." 
ai. Funktion; it. Funzioneproposizional). Esta            aquela parte da lgica que analisa a estrutura
noo, introduzida por Frege (1879) e mais tar-            interna das proposies, indicadas pelo smbo-
de amplamente desenvolvida por Russell e                   lo f (x).
Whitehead em Principia mathematica, hoje                     FUNCIONALISMO. V. PSICOLOGIA, F.
o objeto de um dos captulos fundamentais da                  FUNCTOR (in. Functor, fr. Functor, ai.
Lgica. A F. proposicional  uma F. que, con-              Funktor, it. Funtor). Com esse termo os lgi-
forme o nmero das variveis independentes,                cos indicam o sinal de uma funo no
 chamada de mondica, didica..., n-dica,                proposicional, isto , numrica (REICHENBACH,
cuja substituio por smbolos denotados pro-              Elements ofSymbolic Logic, 1947, p. 312; CAR-
duz proposies que so seus valores. P. ex.:              NAP, Meaning and Necessity,  2).
"Scrates  mortal"  um valor da F. proposicional            FUNDAMENTO (gr. ama, Ayo; lat. Ratio,
mondica, "x  mortal". Se a F. proposicional              in. Foundation; fr. Fondement; ai. Grund; it.
 mondica, tambm  chamada de predicado                  Fondament). Causa, no sentido de razo de
(Russell) ou de propriedade, de outra manei-               ser. Esta  uma das significaes principais do
ra,  chamada de relao (didica, tridica...,            termo "causa", graas  qual contm a expli-
n-dica). A F. proposicional tambm  passvel             cao e justificao racional da coisa da qual
de outras operaes (e nisso reside seu grande              causa. Aristteles diz: "Acreditamos conhe-
interesse para a Lgica) que a transformam                 cer um objeto de maneira absoluta -- no
em smbolos designantes: assim, uma F. "O x"               acidentalmente ou de modo sofistico -- quan-
 transformada pelo operador "todos" [na nota-             do acreditamos conhecer a causa por que a
o de Russell, "Oc)."l na proposio universal            coisa  e acreditamos conhecer que ela  causa
 "todos os xso >" [na notao de Russell, "(x)           da coisa e que esta no pode ser de outra ma-
O x"]; pelo operador existencial [na notao de            neira" (An. post., I, 2, 71b 8). Nesse senti-
FUNDAMENTO                                         475                                     FUNDAMENTO

do, causa  razo, logos (De pari an., I, 1, 639          imperfeio. Ora, nada  necessrio cujo opos-
b 15), pois no s permite compreender a                 to seja possvel" {Disc. de mt., 1686,  13).
ocorrncia de fato da coisa, mas tambm o seu             Como mostram os textos de Leibniz, o F. ou
"no poder ser de outra maneira", sua necessi-            razo suficiente tem uma capacidade explicativa
dade racional. Na doutrina aristotlica, portan-          diferente da causa ou razo de ser de Aristteles.
to, assim como em todas as que dela provm, a             Esta ltima explica a necessidade das coisas,
causa-razo  um conceito ontolgico que ex-              por que a coisa no pode ser diferente do que
pressa a necessidade do ser enquanto substn-             . O fundamento ou razo suficiente explica a
cia.  nesse sentido que Hegel usa esse concei-          possibilidade da. coisa, explica por que a coisa
to: "O F.  a essncia que  em si e esta                pode ser ou comportar-se de certa maneira.
essencialmente F.; e F. s  como F. de alguma            Foi exatamente por isso que Leibniz destinou o
coisa, de um outro" {Ene,  121). De fato, nes-           princpio de razo suficiente a servir de funda-
se sentido F.  "a essncia posta como totalida-          mento das verdades contingentes, continuan-
de" (Ibid., % 121), a razo da necessidade de             do a admitir, como fizera Aristteles, o princ-
uma coisa, como julgava Aristteles.                      pio de contradio como base das verdades
     Em Leibniz, todavia, essa noo adquiriu             necessrias (De scientia universali, em Opera,
sentido diferente e especfico, distinguindo-se           ed. Erdmann, p. 83). Todavia, foi s Kristian
nitidamente da noo de causa essencial ou                Wolff que atribuiu ao princpio do F. (ou prin-
substncia necessria: passa a designar uma               cpio da razo suficiente) a condio de princ-
 conexo falha de necessidade, mas capaz de               pio de toda a filosofia e do seu mtodo. Foi
 possibilitar o entendimento ou a justificao            com base nele que Wolff definiu a filosofia como
 da coisa; o princpio desta conexo  chama-             "cincia das coisas possveis e enquanto po-
 do de princpio de razo suficiente {Princi-             dem existir" (Log., Disc. prael.,  29) e conside-
pium rationis sufficientis, Satz vom zurei-               rou como tarefa fundamental dela dar a "razo
 chenden Grund). Leibniz chega  formulao              pela qual as coisas possveis podem chegar a
 desse princpio atravs da contraposio entre           ser" (Ibid.,  31). Desse ponto de vista, toda a
 a conexo livre mas determinante e a conexo             atividade filosfica consiste na determinao
 necessitante. Ele diz: "A conexo ou concate-            do F. (rafe, Grund), entendendo por F. "a ra-
 nao  de duas espcies: uma  absolutamen-             zo pela qual alguma coisa  ou acontece" (Ibid.,
 te necessria, de tal modo que seu contrrio              4). Wolff, todavia, reintegrava o princpio de
 implica contradio, e tal conexo verifica-se           razo suficiente na significao necessarista. Dis-
 nas verdades eternas, como as da geometria; a            tinguia o principium essendi, que contm a
 segunda s  necessria ex bypotbesie, por as-           razo da possibilidade da coisa, do principium
 sim dizer, por acidente, sendo contingente em           fiendi (ou do acontecer) que contm a razo
 si mesma, uma vez que o seu contrrio no im-            da realidade (Ont.,  874), bem como o prin-
 plica contradio." Esta segunda conexo veri-           cipium cognoscendi, com o qual entendia "a
 fica-se na relao entre uma substncia indivi-          proposio por meio da qual se conhece a ver-
 dual e suas aes: p. ex., o fundamento do fato          dade de outra proposio" (Ibid.,  876). Est
 de Csar ter atravessado o Rubico est, sem             claro que tanto o principium fiendi (que  o
 dvida, na prpria natureza de Csar, mas isso           princpio da causalidade) quanto o principium
 no indica que esse acontecimento seja neces-            cognoscendi (que  a demonstrao) tm car-
 srio em si mesmo ou que o seu contrrio im-             ter necessitante, alis tambm presente na obra
 plique contradio. Da mesma maneira, Deus              de Baumgarten, que tende a integr-lo no de
  sempre escolhe o melhor, mas escolhe-o li-              contradio (Met.,  20). Esta tendncia era pre-
 vremente, e o contrrio do que escolhe no im-          dominante na escola wolfiana (cf. CASSIRER,
  plica contradio. "Toda verdade fundada nes-           Erkenntnissproblem, VII, cap. 3; trad. it., II, pp.
  ses tipos de decretos  contingente, conquanto          596 ss.) e s sofreu a oposio de Crusius, que
  certa, porque esses decretos no mudam a pos-           insistia na distino do princpio de razo sufi-
  sibilidade das coisas; e apesar de Deus, como          ciente do princpio de causalidade, justamente
  j disse, sempre escolher indubitavelmente o            para excluir do primeiro o carter necessitante
  melhor, isso no impede que o que  menos              (De usu et limtibusprincipii rationis determ-
  perfeito no seja e continue possvel em si             nantis, 1743,  4), correo que Kant aceitou
  mesmo, ainda que no acontea, porque no             numa de suas primeiras obras (Principiorum
  sua impossibilidade que o faz repelir, mas sua         primorum cognitionis metaphysicae nova



1
FUNDAMENTO                                          476                                     FUTUROLOGIA

dilucidatio, 1755). Depois de Crusius, todavia,           Do mesmo modo, princpio "fundamental" 
o carter no necessitante do princpio de ra-            o que estabelece a condio primeira e mais
zo suficiente -- carter que convencera Leibniz          geral pela qual alguma coisa possa existir,
de admiti-lo como um princpio em si -- desa-             e cincia fundamental  a que contm as con-
pareceu completamente. A mesma distino                  dies que tornam possveis as outras cincias
estabelecida por Crusius entre princpio de ra-           (nesse sentido Wolff chamava a ontologia de
zo suficiente e princpio de causalidade serviu          Grundwissenschaff). Pode-se dizer, portanto,
para considerar os dois princpios como duas              que no uso moderno essa palavra no tem sig-
expresses do princpio de necessidade. Esse              nificao diferente de condio (v.).
foi justamente o caminho seguido por Schopen-                 O iluminismo alemo do sc. XVIII, que ela-
hauer em sua obra Die vierfache Wurzel des                borou o conceito de F., tambm elaborou a no-
Satzes vom zureichenden Grunde (1813).                    o de mtodo do F. (ai. Grundlichkeii), cujas re-
Schopenhauer enumerava quatro formas do                   gras foram ditadas por Wolff no IV captulo do
princpio de razo suficiente, ou seja, ao lado           Discurso preliminar de Philosopha rationalis, e
das duas distinguidas por Crusius, punha o                assim resumidas por Kant no prefcio da segun-
princpio de razo suficiente do ser, que rege            da edio da Crtica da Razo Pura-. "Algum dia,
as relaes entre os entes matemticos, e o               no sistema futuro da metafsica, cumprir seguir
princpio de razo suficiente do agir, que rege           o mtodo do clebre Wolff, o maior dos filsofos
as relaes entre as aes e seus motivos. Con-           dogmticos, o primeiro a dar exemplo (graas ao
tudo, o carter no necessitante do F.  confu-           qual se tornou, na Alemanha, o criador do espri-
samente reconhecido nos seus usos metafsicos.            to de Grundlichkeit que ainda persiste) de como
Schelling, em Untersuchungen herdas Wesen                se pode tomar o caminho seguro da cincia esta-
der menschlichen Freiheit (1809), entendeu por            belecendo os princpios com regularidade, deter-
F. o desejo ou a vontade de viver, de que de-             minando os conceitos com clareza, procurando o
pende tanto a existncia do homem quanto a                rigor das demonstraes e negando-se a dar sal-
de Deus. Neste sentido, F. no , obviamente,             tos na deduo das conseqncias." O mtodo
uma causa necessitante. Com sentido anlogo,              da fundamentao consiste em aduzir o F., ou
Heidegger disse: "a liberdade  o F. do F.".              seja, a razo justificativa, a cada passo do filoso-
Explica: "A liberdade, por ser o fundo deste F.,          far, e dele a filosofia ainda pode esperar uma sal-
tambm  o abismo (sem fundo) do ser-a. No              vaguarda do arbtrio.
que seja infundado o relacionamento indivi-                   FUROR HERICO. V. ENTUSIASMO.
dual e livre, mas no sentido de que a liberdade,              FUSO (in. Fusion; fr. Fusion; ai. Fusion; it,
em sua natureza essencial de transcendncia,              Fusion). Termo usado em psicologia para in-
pe o ser-a, como poder-ser em possibilida-              dicar uma forma de associao. Scheler v na F.
des que se estendem diante de sua escolha                 afetiva uma indicao da unidade metafsica do
finita, ou seja, em seu destino" (Vom Wesen               mundo da vida; essa unidade, porm, no eli-
des Grundes, 1928, III; trad. it., pp. 77-78). Em         mina a diversidade das pessoas, mas sim exi-
outras palavras, para a existncia humana o F.            ge-as (Sympathie, I, cap. 4,  3-5; trad. fr.
 o enraizamento no mundo, em virtude do                  pp. 108 ss.).
que possibilidades projetadas so limitadas e
comandadas pelo prprio mundo. O F. expressa                  FUTURIO (in. Futurition; fr. Futurition;
o condicionamento que o mundo exerce sobre                it. Futurizion). Leibniz designa assim a deter-
o homem em virtude do seu enraizamento no                 minao dos acontecimentos futuros, possibi-
mundo.                                                    litando a Deus a sua previso infalvel (Thod.,
                                                          I,  37) (v. PREDETERMINAO). Ortega y Gasset
    Emerge claramente desses textos o trao ca-           usa esse termo para indicar a orientao da
racterstico da noo em exame, que  expres-             vida humana em direo ao futuro.
sar um condicionamento no necessitante. Essa                 FUTURO (in. Future, fr. Avenir, ai. Zukunfi;
 de fato a significao mais comum e geral do            it. Avvenir). Quanto ao primado do F. sobre as
termo tanto na linguagem comum quanto na                  outras determinaes do tempo em algumas
filosfica. F.  o que explica uma preferncia,           formas de filosofia contempornea, v. TEMPO.
uma escolha, a realizao de uma alternativa e                FUTUROLOGIA (in. Futurology, fr. Futu-
no de outra. Fala-se em F. todas as vezes em             rologie, ai. Futurumlogie, it. Futurologid), Ter-
que a preferncia ou a escolha  justificada ou           mo empregado por O. K. Flechtheim, a partir
quando a realizao da alternativa  explicvel.          de 1943, para designar a cincia das perspecti-
FUTUROLOGIA                                     477                              FUTUROLOGIA

vas provveis do futuro destino do homem, da      grande alcance e teorias referentes s perspec-
sociedade e da cultura. Essa cincia no pre-     tivas do universo,  futura evoluo da Terra e
tende tomar como base apenas os dados das         do clima, da flora e da fauna" (History and
cincias exatas, mas introduzir "hipteses de     Futurology, 1966).
                                              G

   GARANTIA (in. Security; fr. Assumnce; ai.           GNERO (gr. TVO; lat. Genus; in. Genus,
Assecuranz; it. Assicurazion). Royce sugeriu      fr. Genre; ai. Gattung; it. Gener). Aristteles
um sistema de G. para realizar o que ele cha-      distinguiu trs significaes desse termo: Ia ge-
mava a "Grande comunidade" humana. A G. ,         rao, particularmente "a gerao contnua de
com efeito, uma associao baseada no princ-      seres que tm a mesma espcie", e neste senti-
pio tridico da interpretao: assim como nes-     do diz-se "G. humano"; 2- estirpe ou raa como
ta h o intrprete que interpreta alguma coisa     "primeiro motor" ou "aquilo que deu ser s coi-
para algum, assim na G. existem, na relao,      sas de uma mesma espcie"; neste sentido fala-
o que  garantido, o garantidor e o beneficirio   se do G. dos helenos porque descendem de
{A esperana na Grande comunidade, 1916).          Heleno ou do G. dos jnios porque descendem
                                                   de Jnio; 3a o sujeito ao qual se atribuem as
Royce tambm sugeriu a G. contra a guerra          oposies ou as diferenas especficas, e neste
{Guerra e G, 1914).                                sentido o G.  o primeiro constituinte da defini- :
   GEGENSTANDSTHEORIE. Teoria dos ob-              o (Afe., V, 28,1024 a 30 ss.). Essas trs signifi- i
jetos, especialmente na forma que assumiu na       caes j haviam sido usadas ocasionalmente |
obra de A. Meinong (v. OBJETO).                    por Plato (para a primeira delas, v., p. ex., 0 j
    GENERALIZAO (in. Generalization; fr.         Banq., 190 c; para a segunda, O Banq., 191 c; j
Gnralisation; ai. Verallgemeinerung; it. Ge-     Ale. I., 120 e). Plato deu maiores explicaes j
neralizzazion). Operao de abstrao que         sobre o terceiro sentido, que  o mais estrita- f
d ensejo a um termo ou uma proposio ge-         mente filosfico, dizendo: "Cada figura  seme- \
ral. Algumas vezes tambm se d o nome de G.       lhante a outra figura, porque no gnero todas as I
 induo (v.) ou  construo de uma hiptese     figuras formam um todo. No entanto, as partes 
(v.) que com mais propriedade deveriam ser         do gnero ou so contrrias umas s outras ou \
chamadas de operaes de universalizao.          so diferentssimas entre si" (Fil., 12 e). Para
Fala-se de G. principalmente em matemtica.        Aristteles essa significao tambm  a mais
"Ampliar um domnio com a introduo de no-        importante e, em vista disso, pode-se dizer que
vos smbolos, de tal modo que as leis vlidas      o G. (juntamente com a espcie)  substncia
no domnio originrio continuem valendo no         segunda. Aristteles diz: "S as espcies e os >
domnio mais amplo,  um dos aspectos do           G., alm das substncias primeiras, so chama- i
caracterstico procedimento matemtico de G.       das substncias segundas: s eles manifestam :
A G. a partir dos nmeros naturais para os         a substncia primeira das coisas s quais se
                                                   atribuem predicados. Ser possvel explicar o
racionais satisfaz tanto a necessidade terica     que  um homem s aduzindo a espcie ou o
de remover as restries para a subtrao e a      G.; e dizendo-se que  um homem, estaremos
diviso, quanto a necessidade prtica de que       explicando melhor do que se o chamssemos 
os nmeros expressem os resultados de certas       simplesmente animal? No caso de se aduzir ai- ;
medidas. Essa ampliao do conceito de n-         gum outro predicado, dizendo, p. ex., que ele
mero tornou-se possvel com a criao de no-       branco ou que corre, estar-se- dizendo alguma >
vos nmeros sob forma de smbolos abstratos,       coisa que  alheia ao objeto em questo" (Cat., ;
como 0, - 2, 3/4" (COURANT-ROBBINS, What is        5, 2 6 28 ss.). Em outros termos, os G. e as *
Mathematics?, II,  2; trad. it., p. 109).
GENTICA                                            479                                       GENTICA

espcies so "substncias segundas" porque                dos. As leis de Mendel afirmam que os filhos
entram na composio da definio da "subs-               provenientes da unio de indivduos que tm
tncia primeira", ou seja, da essncia necessria         caracteres diferentes apresentam, pois, uma
(v. SUBSTNCIA). "Como a substncia  a essn-            mistura de tais caracteres, mas no os transmi-
cia necessria e a expresso desta  a defini-            tem a seus descendentes, nos quais esses ca-
o (...) e como a definio  um discurso e um           racteres vo se separando em propores esta-
discurso tem partes, foi necessrio distinguir            tsticas bem definidas. A G. moderna indica
quais so as partes da substncia e quais no             com o nome de gene o corpsculo germinal
so, e se estas tambm so partes da definio;           portador de determinada caracterstica fsica. O
assim vemos que nem o universal nem o G.                 gene  uma unidade, ou seja, no se mescla. As
substncia" (Met., VIII, I, 1042 a 16 ss.). O G.          caractersticas herdadas de um organismo re-
no  substncia, mas componente necessrio               presentam o resultado da ao recproca de
da essncia necessria, que  a substncia.               seus genes. Habitualmente um ou dois pares
    Dessa formulao de Aristteles nasceu a              de genes so os principais responsveis pelas
contenda medieval dos universais (v.). Os uni-            variaes que se observam em determinados
versais so de fato o G. e a espcie. A outra             caracteres do organismo. Os genes dispem-
alternativa fundamental para a soluo da                 se em ordem definida nas partes da clula
discusso foi proposta pelos esticos, que de-            chamadas cromossomos.
finiram o G., de modo nominalista, como "a                    Nem todas as caractersticas de um organis-
conjuno de noes diferentes e permanen-                mo apto so determinadas pelos genes; por
tes, como p. ex. animal, que abrange como                 outro lado, em decorrncia da ao recproca
suas espcies todos os animais" (DIG. L. VII,            entre os genes alguns caracteres tendem a de-
60). Na filosofia moderna e contempornea a               saparecer (so chamados recessivos) e outros a
palavra G., assim como a palavra espcie, ain-            fortalecer-se (so chamados dominantes). Por-
da  esporadicamente empregada, mas sem as                tanto, um nico gene pode exercer efeitos ds-
 implicaes ontolgicas que possua em Pla-              pares sobre o organismo, e o mesmo efeito
 to e Aristteles. Alm disso, em lgica, foi            pode ser produzido por combinaes dspares
 completamente suplantada pelo conceito de                de genes. Estas duas verificaes privam a
classe (v.).                                              transmisso das caractersticas orgnicas do
   GENTICA (in. Genetics- fr. Gntique; ai.             carter de necessidade. Os geneticistas usam a
Genetik; it. Gentica). Uma das cincias biol-           palavra expressividade para indicar a medida
gicas mais recentes e mais bem organizadas,               em que o efeito de determinado gene se mani-
que contribuiu decisivamente para o progresso             festa no indivduo que o possui, e a palavra pe-
dos estudos biolgicos. Seu objeto especfico            netrao do gene para indicar a porcentagem
a transmisso das caractersticas hereditrias            de indivduos que, possuindo o gene, manifes-
dos organismos de uma gerao para outra e,               tam seus efeitos. O emprego desses termos
por conseguinte, a mutao que os organismos              demonstra que, entre a posse do gene e seu
sofrem em suas caractersticas hereditrias. O            efeito (uma caracterstica fsica), no h rela-
fundador da G. moderna foi o abade austraco              o de necessidade, mas s uma relao esta-
Gregor Mendel, que em 1866 publicou os re-                tstica, cujas condies podem ser determina-
sultados de algumas de suas experincias so-              das em cada caso. O gene no age como causa
bre a hibridao de diferentes espcies de                infalvel, como fora que produz necessaria-
ervilhas e formulou as leis que at hoje rece-            mente determinados efeitos. As condies que
bem seu nome. Essas leis exprimem um fato                 delimitam seus efeitos so: Ia interao de to-
experimental que desmentia as crenas univer-             dos os genes; 2- ambiente.
salmente aceitas at aquele momento. Acredita-                Esses conceitos da G. foram confirmados e
va-se, p. ex., que dois indivduos, um genitor            desenvolvidos decisivamente pela bioqumi-
de pele branca e um outro de pele negra, ge-              ca. Hoje se sabe que o principal componente
rassem filhos de pele morena, e que estes indi-           dos cromossomos  o cido desoxirribonu-
vduos, unidos com outros de pele morena,                 cfco(DNA), cuja estrutura molecular foi defi-
gerassem filhos morenos, como se os dois                  nida por Watson e Crick em 1953 como um
caracteres ou tipos de "sangue" se houvessem              par de espirais que, quando separadas, podem,
misturado para sempre, assim como o leite se              individualmente, reunir em torno de si os res-
mistura ao caf e no podem mais ser separa-              duos moleculares necessrios  reconstruo
GENTICA                                            480                                             GNIO

da espiral dupla original. O DNA  composto               cientfico, que nenhuma considerao apriori
por quatro bases nucleotdicas que costumam               pode alterar" (Soviet Genetics and World Scien-
ser indicadas com as letras C, T, G e A, consi-           ce, trad. it., p. 151). Os conceitos de mutao
deradas um alfabeto gentico. Assim como as               aleatria e de seleo continuam sendo funda-
formas, poucas das quais constituem palavras e            mentais na G. moderna. Monod escreveu: "As
frases significantes (capazes de comunicar                alteraes genticas so acidentais, ocorrem
informaes), os elementos do alfabeto gentico           aleatoriamente. E como constituem a nicaon-
podem combinar-se em numerosas formas,                    gem possvel das modificaes do texto genti-
algumas das quais transmitem a mensagem ge-               co, que, por sua vez,  o nico depositrio das
ntica, ou seja, determinam com certa probabi-            estruturas hereditrias do organismo, segue-se
lidade a transmisso de carter hereditrio. Por-         necessariamente que o acaso  a nica origem
tanto, o material gentico  semelhante a uma             de qualquer novidade e de qualquer criao
mensagem escrita que, uma vez recebida pelo               na biosfera" (Le hasard et Ia necessite, 1970,
organismo, dirige e controla seu desenvolvi-              p. 127).
mento. Viu-se tambm que cada palavra do                      GENTICO (in. Genetic, fr. Gntique- ai.
cdigo gentico  constituda por uma srie de            Genetisch; it. Gentico). Aquilo que pertence 
trs de suas bases {triplet); o gene  ento             gerao ou efetua-se atravs da gerao. Neste
concebido como uma seqncia de tripletos no              ltimo sentido, Hobbes falou de definio ge-
DNA, e a mutao consiste na substituio de              ntica ou por generationem. "A razo pela qual
uma das letras do triplet por outra. Essas subs-         as coisas que tm causa e gerao devem ser
tituies ocorrem aleatoriamente e constituem             definidas atravs da causa e da gerao  esta:
a nica origem possvel das modificaes do               o fim da demonstrao  a cincia das causas e
texto gentico e, portanto, das estruturas here-          da gerao das coisas, e, se no se tiver essa
ditrias do organismo. Quando tais modifica-              cincia na definio, no se poder t-la tam-
es so nocivas  adaptao do organismo ao              pouco na concluso do silogismo que dela par-
ambiente, produzem em escala macroscpica                 te" {Decorp., VI,  13). Essa noo passou mais
a senescncia ou a morte do organismo.                    tarde para a lgica de Wolff, que entendeu por
    Contra a disseminao da G. moderna, um               definio gentica "a definio que expe a g-
grupo de cientistas russos sustentou durante              nese de uma coisa, ou seja, a maneira como ela
certo tempo a doutrina de Michurin, que, gra-             pode realizar-se" (Log.,  195). O conceito desta
as ao apoio de Lysenko, teve aprovao ofi-              definio est ligado ao princpio exposto por
cial da cincia sovitica durante os anos de              Hobbes em De homineK,  5), qual seja: s se
estalinismo. A doutrina de Michurin  uma for-            pode ter cincia demonstrativa das coisas que
ma de lamarckismo, pois parte da crena no                podem ser produzidas (como os entes matem-
poder criativo do ambiente biolgico. "A he-              ticos e os entes morais ou jurdicos), porque
rana", diz Lysenko, " efeito da concentrao            delas se conhece seguramente a causa. A par-
das condies externas, assimiladas pelo orga-            tir da segunda metade do sc. XIX esse adjeti-
nismo durante uma srie de geraes ante-                 vo, particularmente quando se referia a cin-
riores." Isso nada mais  que o postulado da ri-          cias ou a partes de cincias, passou a ter signi-
gorosa causalidade do ambiente. A doutrina de             ficado ligado ao de evoluo (v.); uma teoria
Michurin nega, portanto, todos os instrumentos            gentica geralmente  a considerao do de-
conceptuais do probabilismo mendeliano: a                 senvolvimento evolutivo da coisa  qual a teo-
no-hereditariedade dos caracteres adquiridos             ria se refere (p. ex., "psicologia gentica" = es-
e at a existncia do gene. Contra a tese funda-          tudo da evoluo psquica).
mental de Michurin, J. Huxley observou: "Os                  GNIO (in. Genius-, fr. Gnie; ai. Genie; it.
lamarckianos e os partidrios de Michurin tm             Gnio). A partir da segunda metade do sc.
razo quando sustentam que h uma relao                 XVII passou-se a indicar com esse termo (que,
entre o ambiente e os caracteres da adaptao             segundo Varro, na origem indicava "a divinda-
 do organismo. Enganam-se, porm, quando su-              de que  preposta a cada uma das coisas ge-
 pem que essa relao  simples e direta. Ela           radas e que tem a capacidade de ger-las", S.
 complexa e indireta: as mutaes ocorrem                 AGOSTINHO, De civ. Dei, VII, 13) o talento
 aleatoriamente e a seleo conserva as poucas            inventivo ou criativo nas suas manifestaes
 mutaes que favorecem os indivduos naque-              superiores. Pascal j usa essa palavra com esse
 le ambiente especfico. Este  um dado de fato           sentido: "Os grandes gnios tm seu imprio,
GNIO                                                481                                              GNIO

seu esplendor, sua grandeza, suas vitrias e               exatamente o gnio. Para Fichte, mesmo que
no precisam das grandezas carnais, que no                um dia a filosofia progredisse a ponto de con-
tm relao com o que eles procuram" (Penses,             ter uma "teoria da inveno, no seria possvel
793). E La Bruyre dizia: "E menos difcil para            chegar a isso a no ser por meio do G." (Werke,
os grandes gnios topar com coisas grandes e               ed. Medicus, I, p. 203). Fichte reconheceu no
sublimes do que evitar qualquer espcie de                 G. as mesmas caractersticas que Kant lhe atri-
erro" {Caracteres, 1687, cap. 1). A esttica do            bura: inventividade e naturalidade. O G. "
sc. XVIII reduziu a noo de G. ao domnio da             um favor especial da natureza, que no se pode
arte. Kant (provavelmente inspirado numa obra              explicar ulteriormente" (Ibid., ed. Medicus, III,
inglesa de GERARD, Essay on Genius, \ll4t) de-             p. 92; cf. PAREYSON, A esttica do idealismo ale-
fende este ponto de vista: "O talento de desco-             mo, I, pp. 333 ss.). O obscuro sentimento da
brir chama-se gnio. Mas esse nome s se d                verdade, que Fichte atribui ao G., transforma-
ao artista, quele que sabe fazer alguma coisa,            o naquilo que Schlegel chamava de "mediador
no quele que conhece e sabe muito; e no se              entre o Infinito e o finito", aquele que "perce-
d ao artista que imita apenas, mas quele que             be em si o divino e, anulando-se, dedica-se a
 capaz de produzir sua obra com originalida-              anunciar esse divino a todos os homens, a par-
de; enfim, s se d quando seu produto  ma-               ticipar dele e a represent-lo nos costumes e
gistral, quando, por mrito, merece ser imitado"           nas aes, nas palavras e nas obras" (Ideen,
(Antr,  57). Esse  o sentido da definio de G.          1800,  44).  verdade que, assim como Kant,
que Kant d na Crtica do Juzo como de "talen-            Schelling afirmava que o G.  sempre e somente
to (dom natural) que dita regras  arte". Como ta-         esttico, mas ao mesmo tempo considerava a
lento, o G. foge a qualquer regra; mas como                intuio esttica o rgo da filosofia e, em geral,
criador de exemplares distingue-se de qual-                da cincia. O G. , pois, o absoluto que se
quer extravagncia.  natureza porque no age              revela no homem e no pertence s a uma par-
racionalmente; e  natureza que dita regras               te do homem (Werke, I, III, pp. 618 ss.). Hegel,
arte. Kant observa que, justamente devido a                por sua vez, dizia que a palavra G. era empre-
estas ltimas caractersticas, "a palavra G. deri-         gada para designar no s os artistas, mas tam-
vou de genius, que significa o prprio esprito            bm os grandes lderes e os heris da cincia
do homem, o que lhe foi dado ao nascer, que o              (Vorlesungen ber die sthetik, ed. Glockner,
protege e o dirige, de cuja sugestes provm as            I, p. 378), mas pessoalmente reservava esse
 idias originais" (Crtica do Juzo,  46). Esse          vocbulo para os artistas, definindo o G.
 ponto de vista era aceito por Schopenhauer,               como "a capacidade geral de produzir autn-
que, considerando a arte como a viso das                  ticas obras de arte, acompanhada pela ener-
idias platnicas, que so a primeira "objeti-             gia necessria  sua realizao" (Ibid., p.
vao" da vontade de viver, v na arte a "con-             381). Na realidade, aqueles que Fichte cha-
templao pura" e, por isso, a essncia do G.              mava de "doutos" ou de "videntes" (cf. Vorle-
 na preponderante aptido para tal contempla-              sungen ber die Bestimmung des Gelehrten,
o. "Visto que esta", diz ele, "requer esqueci-           1794), Hegel de "indivduos da histria csmi-
 mento total de si mesmo e de suas relaes,               ca" e outros de heris (v.) so simplesmente
 decorre da que a genialidade  a mais comple-            expresses diferentes do mesmo conceito que,
 ta objetividade, ou seja, a direo objetiva do           no domnio da arte, o Romantismo designou
 esprito, que se ope  direo subjetiva ten-            com o termo G., ou seja, encarnao do Infini-
 dente  prpria pessoa,  vontade." Por conse-            to no mundo, mediadores entre o finito e o In-
 guinte, enquanto para o homem comum o                     finito (como dizia Schlegel), instrumentos da
 patrimnio cognoscitivo  "a lanterna que ilu-            realizao ou da revelao do Absoluto. O pr-
 mina o caminho", para o G. ele  "o sol que               prio Kierkegaard, que por muitos aspectos
 revela o mundo" (Die Welt, I,  36). Essas obser-         pode ser considerado antagonista do Romantis-
 vaes de Schopenhauer constituem uma con-                mo, partilhou esse conceito de G. Disse: "O G.
 tribuio para aquilo que poderamos chamar                um An-sich onipotente que, como tal, gos-
 de culto romntico do gnio. Obviamente, esse             taria de sacudir o mundo inteiro. Por isso, para
 culto no se limita ao G. artstico. Fichte mos-          salvar a ordem, nasce com ele outra figura: o
 trava j a conexo do G. com a filosofia. A               destino. Mas o destino  nulo, porque  ele mes-
 inventividade do filsofo requer "um obscuro              mo que o descobre, e quanto mais profundo
 sentimento da verdade" e esse sentimento                 for o G., mais profundamente o descobre; por-
GENTES, DIREITO DAS                                   482                                       GEOMETRIA

que o destino nada mais  que a antecipao                 Estados diferentes, ou seja, o direito natural
da providncia" (Der Begriff der Angst, III,  2;           internacional (v. DIREITO).
trad. Fabro, p. 123).                                           GEOMETRIA (gr. yecofieTpa; lat. Geome-
    Na cultura contempornea, o conceito do G.              tria; in. Geometry; fr. Gomtrie; ai. Geometrie;
se manteve com essas caractersticas romnti-               it. Geometria). Em geral, a cincia que estu-
cas, que no desapareceram nem com a apro-                  da as possibilidades mtricas dos conjuntos. A
ximao entre G. e loucura, tentada por alguns              estrutura mtrica dos conjuntos pode ser con-
antroplogos, particularmente por Cesare Lom-               siderada: l9 nica e necessria, como foi consi-
broso. Essa aproximao baseava-se na consi-                derada at a descoberta das geometrias no-
derao dos chamados "fenmenos regressivos                 euclidianas: nesse caso, a G. ser a descrio
da evoluo", em virtude dos quais os grandes               das determinaes necessrias de tal estrutura
avanos em uma certa direo so acompanha-                 (o espao euclidiano) e assumir a forma de
dos, na maioria das vezes, por uma parada nas               um sistema dedutivo nico e perfeito; 22
outras direes. Por isso, Lombroso julgava                 multplice ou indefinidamente varivel: nesse
encontrar formas mais ou menos atenuadas de                 caso sero possveis G. diferentes, cujo objeto
loucura ou perverso nos indivduos geniais                 sero estruturas mtricas espaciais diferentes
(G. e degenerao, 1897), mas com isso no                  ou dotadas de graus diferentes de generalida-
punha em dvida a realidade do conceito, sem                de. A primeira forma da G. iniciou-se com
dvida pressuposta. Por outro lado, quando,                 Pitgoras e com Plato, tornando-se modelo
no fim de Duas fontes da moral e da religio                das cincias dedutivas. A segunda iniciou-se
(1932), Bergson auspicia o advento de um "G.                com a descoberta das G. no-eucldianas e
mstico", que possa "arrastar atrs de si uma               sua expresso mais clara foi o "programa de
humanidade imensamente encorpada", v nes-                  Erlangen".
se G. a encarnao ou a realizao do el vital                 le Segundo relato de Proclo (In Eucl, 65, 11,
que  o princpio do mundo (Deux sources, IV;               Friedlein), foi Pitgoras quem "deu forma de
trad. it., pp. 343 ss.). Como todo G. romntico,            educao liberal ao estudo da G., procurando
o G. preconizado por Bergson tambm  a                     seus princpios primeiros e investigando seus
encarnao do Absoluto e destina-se a realizar              teoremas do ponto de vista conceptual e teri-
o Absoluto no mundo. Todavia, Kant j havia                 co". Mas sabemos que  sobretudo a Plato que
advertido para o perigo inerente ao uso desse               se deve a guinada conceptual e terica da geome-
conceito, que parece dispensar alguns homens                tria. Plato contrape explicitamente ao uso
da aprendizagem, da pesquisa e dos deveres                  prtico da G., ou seja, ao uso que a subordina
comuns, e propusera a questo sobre quem                    s necessidades cotidianas e portanto s exi-
contribui mais para o progresso efetivo do ho-              gncias de construtores, estrategistas, etc, seu
mem: os grandes gnios ou "os crebros mec-                fim teortico, em virtude do qual ela tende a
nicos" que se apoiam na bengala da experin-                conhecer "aquilo que sempre  e no o que
cia (Antr.,  58).                                          nasce e perece" (Rep., VII, 527b). Como todas
    GENTES, DIREITO DAS (lat. Ius gentium,                  as outras cincias propeduticas, pertencentes
in. Law of nations; fr. Droit des gens; ai. Vl-             esfera do conhecimento racional ou diania,
kerrecht; t. Diritto delle gentt). 1. Identificado         a G. vale-se de "hipteses" que sabe justificar;
por Gaio (sc. II) com o direito natural, o direi-          tudo o que ela faz  entrelaar coerentemen-
to das G. foi distinguido deste por Ulpiano                 te "concluses e proposies intermedirias"
(sc. III); para ele, o direito das gentes  "aque-         (Ibid., VII, 533c). Aristteles tambm insistiu no
le que todos os seres humanos utilizam e s es-             procedimento abstrativo utilizado pela geome-
tes", enquanto o direito natural  aquele que               tria. Disse: "O matemtico constri sua teoria
a natureza ensinou a todos os animais e por                 eliminando todos os caracteres sensveis, como
isso no  prprio s do gnero humano (Di-                 o peso e a leveza, a dureza e seu contrrio, o
gesto, 1,1,1-4). Essa distino permaneceu subs-            calor e o frio, bem como os outros contrrios
 tancialmente a mesma at o jusnaturalismo                  sensveis, e fica apenas com a quantidade e a
 moderno.                                                   continuidade, s vezes em uma s dimenso,
    2. A partir de Grcio, entende-se por direito           s vezes em duas, outras em trs, bem como
 das G. a norma no escrita que regulamenta as              com os atributos dessas entidades que sejam
 relaes entre os Estados ou entre cidados de             quantitativos e contnuos; e no os considera
GEOMETRIA                                            483                                      GEOMETRIA

sob nenhum outro aspecto" (Met., XI, 1061 a                do espao apriori, ou seja, independentemen-
29). Mas foi tambm graas a Aristteles que a             te da experincia, e para garantir a tais proprie-
G. ganhou organizao lgica; de fato, essa                dades seu carter apodtico, ou seja, sua neces-
organizao, que se realizou plenamente nos                sidade (Crt. R. Pura,  3).
Elementos de Euclides, no sc. III a.C, tem                    2a A segunda fase conceptual da G. s co-
como modelo a ordem que, no Organon, Aris-                 meou quando se realizou plenamente o signi-
tteles considerara prpria de toda cincia,               ficado da descoberta das G. no-euclidianas.
qual seja: o ponto de partida so os primeiros             O V postulado de Euclides provocara discus-
princpios (definies, axiomas e postulados),             ses desde a Antigidade. No sc. XVIII,
passando-se  deduo rigorosa a partir des-               especialmente graas a Saccheri e de Lambert,
ses princpios, sem recorrer  experincia ou a            e nos primeiros decnios do sc. XIX, graas a
qualquer intuio. Mas essa mesma formulao               Legendre, essas discusses se acirraram, mas
lgica da G. antiga esclarece a natureza de seu            no levaram a concluses, porque se achou
objeto. Como dizia Aristteles, esse objeto  a            absurdo admitir a possibilidade de uma G. di-
quantidade continua; e como dissera Plato,               ferente da de Euclides. S Gauss, Lobacevskij
"alguma coisa que  sempre", ou, na termino-               e Bolyai reconheceram e puseram em prtica
logia de Aristteles,  uma substncia ou essn-           essa possibilidade. Em 1855, uma dissertao
cia substancial que, justamente por ser tal,               de RIEMANN, Sobre as hipteses que fundamen-
pode ser definida, e cujas propriedades funda-             tam a G., mostrava como, com mudanas opor-
mentais o intelecto pode intuir, expressando-as            tunas no V postulado, seria possvel obter no
nos axiomas.  preciso lembrar que, segundo                s a G. de Euclides e a G. de Lobacevskij e
Aristteles, o procedimento dedutivo ou silo-              Bolyai, mas tambm uma terceira G. (que mais
 gstico deve partir de premissas evidentes,               tarde foi chamada de Riemann). O V postula-
 intudas pelo intelecto, e que essa intuio s           do de Euclides exige que s haja uma paralela
 pode existir com relao a propriedades ou a              para uma reta dada; a G. de Lobacevskij e
 determinaes necessrias da substncia. O ca-            Bolyai exige que haja infinitas paralelas para
 rter substancial do objeto da G., no sentido             uma reta dada. Riemann sups que no hou-
 exato e tcnico que a palavra "substancial" tem           vesse paralela nenhuma para uma reta dada, o
 em Aristteles (v. SUBSTNCIA),  o pressuposto           que produz uma G. simetricamente oposta  de
 fundamental dessa fase conceptual da geome-               Lobacevskij e de Bolyai. A G. euclidiana  vli-
 tria. Isto quer dizer que o contnuo espacial,            da para o espao de curvatura constante nula.
 que  o objeto da G.,  pressuposto, em seu               A G. de Lobacevskij vale para o espao de
 modo de existncia especfica e em suas deter-            curvatura constante negativa. A G. de Riemann
 minaes necessrias, a partir das operaes              vale para o espao de curvatura constante posi-
 geomtricas que a tomam como objeto. Esse                 tiva. Nesta ltima G., uma reta no pode ser
 contnuo  independente de tais operaes                 prolongada at o infinito, mas  finita e fecha-
 porque  uma substncia, porque  necessaria-             da, e  a G. que vigora na superfcie da esfera
 mente o que  e no pode ser diferente. A ne-             (supondo-se que se considerem somente duas
 cessidade intrnseca das definies e dos axio-           dimenses), portanto o modo mais natural de
 mas e o carter indispensvel dos postulados              um navegador descrever o mundo. Assim, a
 (que tampouco podem ser mudados) expres-                  G. euclidiana tornava-se um caso particular de
  sam, no mbito desta fase conceptual, a neces-           uma G. bem mais ampla e geral, mas a verda-
  sidade do objeto da G., ou seja, do espao. Este         deira significao dessa descoberta s ficou cla-
  tem essncia necessria, cujos princpios ex-            ra alguns anos depois, em virtude do emprego
  pressam as determinaes imutveis e cuja de-            de um conceito que fora utilizado desde o in-
  duo silogstica pe em evidncia as determi-           cio pela chamada G. projetiva: o conceito de
  naes implcitas (mas igualmente necessrias).          transformao. A G. projetiva, cujas primeiras
  A interpretao do espao feita por Kant, como           menes se encontram nos trabalhos de Gas-
  "forma da intuio" ou "intuio pura", no              pard Monge (1746-1818), introduzia uma nova
  constitui (e nem Kant teve essa inteno)                operao -- a projeo --, que permite trans-
  uma inovao do conceito de geometria. Se-               formar uma figura em outra, cujas proprieda-
  gundo Kant, o espao como intuio pura de-              des podem ser deduzidas das propriedades da
  via exatamente servir para garantir  G. seu pa-         primeira. O carter peculiar dessas proprieda-
  pel de cincia que determina as propriedades             des, como foi mostrado por Poncelet (Tratado
GEOMETRIA                                             484                                               GERAL


das propriedades projetivas das figuras, 1822),             as invarincias que podem ser obtidas por meio
consistia em sua invarincia, ou seja, em per-              de operaes oportunas livremente escolhidas.
manecerem as mesmas ao longo das transforma-                   GERAO (gr. YVEOI; lat. Generatio; in.
es que as figuras sofriam com a projeo. Em              Generation; fr. Gnration; ai. Erzeugung; it.
1847, a G. de posio de Staudt, realizando                 Generazion). Segundo Aristteles, "a mudan-
uma exposio rigorosa da G. descritiva, mos-               a que vai do no-ser ao ser do sujeito, segun-
trava que ela podia absorver em si toda a cincia           do a contradio": a passagem da negao da
geomtrica. Nessa mesma linha, o passo decisivo             coisa  coisa. A G. pode ser absoluta, e nesse
foi dado por Felice Klein com seu progra-                   caso  a passagem do no-ser ao ser da subs-
ma de Erlangen, que constituiu a aula inaugu-               tncia, ou qualificada, e nesse caso  a passa-
ral dada nessa Universidade em 1872. Segun-                 gem do no-ser ao ser de uma qualidade da
do Klein, a G. nada mais  que o estudo das                 substncia (Fs., V, I 225 a 12 ss.). O oposto de
propriedades invariveis em relao a um gru-               G.  corrupo (v.). G. e corrupo constituem
po de transformaes, entendendo por grupo                  a primeira das quatro espcies de mudana,
de transformaes um conjunto de transfor-                  mais precisamente a mudana substancial
maes em que, ao lado de cada transformao                Ubid, 225 a 1) (v. DEVIR).
tambm est a transformao inversa (a que                      GERAL (in. General; fr. General; ai. Ge-
destri o efeito da primeira). Desse ponto de                meingltig; it. General).. Essa palavra foi intro-
vista, as propriedades a serem consideradas                 duzida no uso moderno pelo empirismo ingls
"geomtricas" dependem do grupo de opera-                   que, por meio dela, designou o resultado de
es considerado fundamental. Quando este                   uma operao de abstrao; por isso,  algo di-
ltimo varia, tambm varia o significado do                 ferente de universal, interpretado como nature-
termo geometria. Cayley demonstrou que o                    za originria ou forma substancial. "As pala-
grupo fundamental da G. projetiva  mais amplo              vras", diz Locke, "tornam-se G. pelo fato de
do que o das G. mtricas. Outra ampliao                   fazermos delas signos de idias G.; e as idias
realiza-se quando se passa da G. descritiva                tornam-se G. quando delas so afastadas as cir-
topologia (ou analysissitus[v.]), que estuda as             cunstncias de tempo e de lugar, bem como de
propriedades invariantes em relao ao grupo                qualquer outra idia que possa determin-las
generalssimo das transformaes contnuas.                 no sentido desta ou daquela existncia particu-
                                                            lar. Com esse meio da abstrao, elas adquirem
     fcil, portanto, perceber a diferena de              a capacidade de representar mais indivduos,
postura conceptual da G. contempornea em                   cada um dos quais, tendo em si conformidade
relao  clssica. Ao contrrio desta ltima, a            com aquela idia abstrata,  (como dizemos)
G. contempornea no pressupe o objeto de                  daquela espcie" (Ensaio, III, 3,  6). A idia 
seu estudo (o espao), ou seja, no pressupe               G., ento, quando  o resultado da abstrao;
que tal objeto tenha propriedades necessrias,              a generalidade  obra do intelecto, embora a
expressveis em definies unvocas, em axio-               ela corresponda a semelhana das coisas natu-
mas evidentes e em postulados inevitveis. So              rais. Como no existem naturezas ou formas
consideradas objeto da G. as propriedades que               universais, o universal reduz-se ao G., e s vezes
se mostrem invariantes por meio dos grupos de               Locke emprega os dois termos como sinni-
transformaes, mas ao mesmo tempo procu-                   mos (Jbid., III, 3,  11). Esse termo era aceito
ram-se realizar tipos de transformaes sempre              com este sentido por Berkeley (Principies of
diferentes e considerar, portanto, invarincias             Knowledge, Intr.,  12) e por Hume (Treatise, I,
cada vez mais gerais. A estrutura lgica dessa              1,7). Leibniz aceitava essa palavra e seu con-
G. obviamente nada mais tem a ver com a lgica              ceito, apesar de afirmar que desse conceito no
aristotlica e com a estrutura da G. euclidiana.            derivava a negao das essncias universais.
Poincar descreveu essa estrutura como de                   Dizia: "A generalidade consiste na semelhana
 sistemas hipottico-dedutivos (v. CONVENCIO-               das coisas individuais entre si, e essa seme-
NALISMO). Ao mesmo tempo em que a forma l-                 lhana  uma realidade" (Nouv. ess., III, 3, 11).
gica de tais sistemas  extremamente rigorosa               Stuart Mill aceitava essa terminologia, distin-
 e evita recorrer a elementos ou a operaes                guindo substantivos individuais ou singulares
 intuitivas, essa G. perdeu o carter de necessida-         e substantivos G.: estes ltimos possibilitariam
 de racional que caracterizava a G. clssica:               afirmar proposies G., ou seja, "afirmar ou ne-
 seu objeto no  uma substncia racional, mas              gar alguns predicados de um nmero indefini-




                                                                                                                   L
GESTALTPSYCHOLOGIE                                    485                                     GNOSTICISMO

do de coisas ao mesmo tempo" (Logic, I, 2,  3).            de satisfao da alma, que na realidade no
Essa significao no prevaleceu na lgica con-             se distingue da G." (Et., V, 36, Schol.). Des-
tempornea, que considera singular o termo                  cartes atribura significado puramente munda-
cuja conotao impede sua aplicao a mais de               no a esse termo, considerando a G. como "uma
uma coisa real, sendo G. o termo que no                   espcie de G. fundada no amor que se sente
singular nesse sentido. Lewis diz: "Saber se um             por si mesmo e deriva da impresso da espe-
termo concreto  singular ou geral  questo                rana de louvor por parte dos outros" (Pass. de
de conotao, no de denotao, ainda que um                Vme, art. 204).
termo singular no possa denotar mais de uma                   GNMICO (in. Gnomical; fr. Gnomique; ai.
coisa. 'O objeto vermelho da minha mesa'  um               Gnomisch; it. Gnomic). Quem se expressa
termo singular, e 'Objeto vermelho sobre mi-                por meio de breves sentenas morais, como fi-
nha mesa'  um termo G., independentemente                  zeram os Sete Sbios (v. SBIOS), que, por isso,
dos objetos vermelhos que se encontram em                   foram chamados de Gnmicos.
cima da minha mesa" (Analysis of Knowledge                    GNOSIOLOGIA. V. TEORIA DO CONHECI-
and Valuation, p. 45). Nesse sentido, o G. nada             MENTO.
tem a ver com o universal: este  obtido com o                  GNOSTICISMO (gr. yvai, in. Gnosticism;
uso do operador todos e refere-se  denotao,              fr. Gnosticisme; ai. Gnosticismus; it. Gnosticis-
no  conotao de um termo. Por conseguin-                 md). Foram assim designadas algumas corren-
te, proposio G.  a que se chama funo pro-              tes filosficas que se difundiram nos primeiros
posicional (v. FUNO), na qual o sujeito fica              sculos depois de Cristo no Oriente e no Oci-
indeterminado. Dewey tambm insistiu na di-                 dente. A literatura que produziram era rica e
ferena entre G. e universal, negando que a                 variada, mas perdeu-se,  exceo de poucos
proposio "se humano, ento mortal" seja                   textos conservados em tradues coptas, che-
equivalente  proposio "todo homem  mor-                 gando at ns apenas atravs dos trechos men-
tal. "So coisas radicalmente diferentes", disse            cionados e, ao mesmo tempo, refutados pelos
Dewey, "formular proposies sobre traos ou                Padres Apologistas. O G.  uma primeira tenta-
caractersticas que descrevem uma espcie fa-               tiva de filosofia crist, feita sem rigor sistemti-
 zendo abstrao de cada exemplar da espcie                co, com a mistura de elementos cristos mti-
 e formular proposies abstratas sobre abstra-             cos, neoplatnicos e orientais. Em geral, para os
 es" (Logic, XIX,  2, trad. it., p. 497-98).             gnsticos o conhecimento era condio para
   GESTALTPSYCHOLOGIE. V. PSICOLOGIA                        a salvao, donde esse nome, que foi adotado
   GIMNOSOFISTAS (gr. yu^vooocpvoT; lat.                   pela primeira vez pelos Ofitas ou Sociedade da
Gymnosophistae; in. gymnosophists; fr. Gymno-               Serpente, que mais tarde se dividiram em nu-
sophistes; ai. Gymnosophisten; it. Gimnosofisti).           merosas seitas. Estas utilizavam textos religio-
Os "sbios nus" da ndia; assim foram chama-                sos atribudos a personalidades bblicas, tal
dos os faquires pelos escritores gregos (ARIS-              como o Evangelho de Judas, mencionado por
TTELES, Fragm., 35; ESTRABO, 16, 2, 39; PLU-              Irineu (Adv. haer., I, 31,1). Outros textos dessa
TARCO, Alex., 64, etc). Pirro, o fundador do                espcie foram encontrados em tradues
cepticismo, visitou os G. na ndia e imitou seus            coptas; entre eles, o mais importante  Pistis
costumes (DIG. L, IX, 61).                                 Sophia (publicado em 1851), que expe em
   GIOBERTTSMO. V. ONTOLOGISMO.                             forma de dilogo entre o Salvador ressuscitado
   GLRIA (lat. Gloria; in. Glory; fr. Gloire; ai.          e seus discpulos, especialmente Maria Mada-
Glorie; it. Gloria). Na terminologia bblica e              lena, a queda e a redeno de Pistis Sophia,
escolstica, G. , por um lado, a homenagem                 ser pertencente ao mundo dos Eons (v.), bem
que o homem faz a Deus e, por outro, a recom-               como o caminho da purificao do homem por
pensa que Deus d ao homem, acolhendo-o                     meio da penitncia. Os principais gnsticos
em Sua fruio. Com esta ltima significao S.             dos quais temos notcia so: Baslides, Carp-
Toms diz que a G.  "a perfeita fruio de                 crates, Valentim e Bardesane, cujas doutrinas
Deus" (S. Th., III, q. 53, a. 3). Foi com esse sen-         so conhecidas pelas refutaes feitas por Cle-
tido que Spinoza identificou o amor intelectual             mente de Alexandria, Irineu e Hiplito. Uma
de Deus com a G. da qual fala a Bblia: "Esse               das teorias mais tpicas do G.  o dualismo
amor ou beatitude  chamado de G. nos livros                dos princpios supremos (admitido, p. ex., por
sagrados, no sem razo. Pois tal amor, refira-             Basilides), ligado a concepes orientais. A
se ele a Deus, ou  mente, pode ser chamado                 tentativa de unio entre os dois princpios,
GNOSTOLOGIA                                          486                          GOVERNO, FORMAS DE

bem e mal, tem como resultado o mundo, no                  reza humana, sem pretender qe em todas as
qual as trevas e a luz se unem, mas com pre-               ocasies os sentimentos dos homens se confor-
domnio das trevas.                                        mem a esse critrio. "Em cada criatura", diz
    GNOSTOLOGIA (lat. Gnostologi). Termo                  Hume, "h um estado so e um estado de doen-
cunhado por Calov em Scripta Philosophica                  a; s o primeiro nos d o verdadeiro critrio
(1650), para designar uma das duas disciplinas             de G. e de sentimento. Se no estado de sade
auxiliares da metafsica (a outra  a Noologia,            do organismo houver uniformidade completa
[v.]), mais precisamente a que tem por objeto              ou considervel de sentimentos entre os ho-
"o cognoscvel enquanto tal". Foram chamados               mens, poderemos da inferir uma idia da bele-
de gnostlogos alguns aristotlicos protestantes           za perfeita, do mesmo modo como a aparncia
que ensinaram nas universidades alems na                  dos objetos,  luz do dia e aos olhos de um ho-
primeira metade do sc. XVII. Sobre eles, cf.              mem em bom estado de sade,  considerada a
PETERSEN, Geschichte der aristotelischen Philo-            cor verdadeira e real dos objetos, ainda que
sophie im protestantischen Deutschland, Leip-              tanto durante o dia quanto durante a noite a
zig, 1921; CAMPO, Cristiano Wolff, Milo, 1939,            cor seja apenas um fantasma dos sentidos"
I, pp. 144 ss.                                             (Essays, I, p. 272). Por sua vez, E. Burke dizia:
    GOSTO (in. Taste; fr. Got; ai. Geschmack;             "Pela palavra G. entendo apenas a faculdade,
it. Gust). Critrio ou cnon para julgar os obje-         ou faculdades, da mente que so impressiona-
tos do sentimento. Visto que s a partir do sc.           das pelas obras da imaginao e pelas belas-
XVIII o sentimento (v.) comeou a ser reconhe-             artes, formulando um juzo sobre elas" (A Phi-
cido como faculdade autnoma, distinta da fa-              losophical Inquiry into the Origin ofOurldeas
culdade teortica e da prtica, a noo de G.              of the Sublime and Beautiful, 1756, Intr.; trad.
foi-se determinando, no mesmo perodo, em                  it., p. 47). Para Kant, o G.  uma espcie de sen-
correlao com a noo do critrio ao qual essa            so comum (v.), alis o senso comum em seu
faculdade, em suas valoraes, est adequada               significado mais exato, porque pode ser defi-
ou deve adequar-se. A faculdade do sentimen-               nido como "a faculdade de julgar aquilo que
to logo recebeu como atribuio a atividade                torna universalmente comunicvel o sentimento
esttica: assim, entende-se por G. sobretudo o             suscitado por dada representao, sem a me-
critrio do juzo esttico, e foi com esse sentido         diao do conceito" (Crt. do Juzo,  40). Por-
que essa palavra se incorporou no uso corren-              tanto, a universalidade do juzo de G. no  a
te. Em seu sentido mais geral, o G.  definido             mesma do juzo intelectual, pois no se baseia
por Vauvenargues como "disposio para julgar              no objeto, mas na possibilidade de comunicao
corretamente os objetos do sentimento" (Intr.              com os outros. Em outros termos, o juzo de G.
 Ia connaissance de Vesprit human, \1A6,                 s  universal porque se fundamenta na co-
12); e por Kant, que declara, em Antropolo-                municabilidade do sentimento iCrt. do Juzo,
gia ( 69): "O G. (enquanto uma espcie de                  39). Kant tambm fez a distino entre o G.
sentido formal) leva a compartilhar com ou-                como faculdade de julgar e o gnio como fa-
tros os sentimentos de prazer e dor e implica a            culdade de produzir (Ibid.,  48). Croce iden-
capacidade -- agradvel, graas a esse mesmo               tifica essas duas faculdades, considerando
compartilhar -- de sentir satisfao (complacen-           idnticos o processo de criao e o de repro-
ti) em comum com outrem". Em alguns de                    duo de uma obra de arte {Esttica, cap. 16).
seus Ensaios morais e polticos (1741), Hume               Mas com isso o conceito de G. no muda; na
entendeu o G. em sentido mais estritamente                 realidade, a esttica moderna e contempornea
esttico, conquanto tambm ligue o G. estreita-            conservou ou reproduziu, com modificaes
mente com o sentimento em geral. A beleza                 irrelevantes (do ponto de vista conceptual), a
de fato um sentimento, e, como todo sentimen-              noo de G. elaborada pelos tratadistas do sc.
to  justo, no se referindo a nada alm de si             XVIII, cujas caractersticas fundamentais expu-
 mesmo, cada esprito percebe uma beleza dife-             semos.
rente. Isso, porm, no impede que haja um
                                                              GOVERNO, FORMAS DE (gr a%f]\iam
critrio do G., pois existe uma espcie de senso
                                                           7io?iiTea; lat. Reipublicaeformae, in. Forms of
 comum que restringe o valor do velho ditado
                                                           government; fr. Formes de gouvernement; ai.
 "Gosto no se discute". Pode-se determinar um
                                                           Staatsverfassung; it. Forme di governo). Uma
critrio do G. recorrendo s experincias e s
                                                           das mais antigas doutrinas polticas, talvez a
observaes dos sentimentos comuns da natu-
                                                           mais antiga,  a distino das trs formas de G.
GOVERNO, FORMAS DE                                    487                          GOVERNO, FORMAS DE

(de um s, de poucos, de todos), enunciadas                 rato por meio do qual esse poder  exercido.
por Herdoto por meio da discusso de sete per-             Na monarquia, a soberania reside no rei, mas
sonagens persas, mas na realidade expondo                   este pode delegar amplamente seu poder e
noes populares de sabedoria grega. Her-                  governar de modo democrtico, ao mesmo
doto pergunta: "Como poderia ser um G. bem                  tempo que, numa democracia, o governo pode
institudo o domnio de um s homem, se ele                 ser desptico (Six livres de Ia Republique, 1576).
pode fazer o que quer sem dar satisfao a nin-             Hobbes parte do mesmo princpio: a diferena
gum? O monarca tende a tornar-se tirano. Por               das formas de G. depende da diversidade das
outro lado, o G. do povo  com certeza o me-                pessoas s quais  confiado o poder soberano.
lhor, porque nele todos so iguais, mas tam-                Tm-se democracia, aristocracia ou monarquia,
bm tende a degenerar e a tornar-se desenfrea-              segundo o poder soberano seja confiado ao
da demagogia. Por isso, a melhor forma de G.                povo, aos nobres ou ao rei. Quanto s chama-
 uma boa monarquia" (III, 80-82). Em Repbli-              das degeneraes das formas de G., elas so
ca, Plato punha acima dessa classificao o Es-            apenas "trs denominaes diferentes dadas por
tado idealmente perfeito, a aristocracia ou G.              quem odiava o governo ou os governantes"
dos filsofos. A primeira degenerao da aristo-            {De eive, 7,  1-2). Montesquieu modificou a
cracia  a timocracia, ou seja, o G. fundado na             diviso tradicional, afirmando que o G. pode
honra que nasce quando os governantes se                    ser republicano (um conjunto de democracia e
apropriam de terras e de casas. A segunda  a               aristocracia), monrquico e desptico. Cada uma
 oligarquia, governo baseado no patrimnio,                 dessas trs formas  regida por um "princpio"
no qual os ricos mandam. A terceira forma  a               que, portanto, condiciona sua conservao e
 democracia, na qual a todo cidado  lcito fa-            seu funcionamento. O G. popular baseia-se na
zer o que quer. Finalmente, a forma extrema de              virtude cvica e no esprito pblico do povo; a
degenerao poltica  a tirania, que muitas                monarquia no sentimento de honra da classe
vezes nasce da excessiva liberdade da demo-                 militar; o despotismo, no temor (Esprit des lois,
cracia (Rep., VIII-IX). De modo mais sistemti-             1748, III). Com base nessa mesma doutrina de
 co, em O Poltico, Plato distinguiu trs formas           Montesquieu, a antiga tripartio das formas de
 de regime poltico: G. de um s, G. de poucos              G. comea a perder importncia. Montesquieu
 e G. de muitos; essas formas, segundo sejam                viu claramente que a liberdade da qual os cida-
 regidas por leis ou desprovidas de leis, moti-             dos gozam num Estado no depende da for-
 vam respectivamente o G. rgio ou tirania, a               ma de G. desse Estado, mas da limitao dos
 aristocracia ou oligarquia e as duas formas da             poderes garantida pela ordenao do Estado.
 democracia, a regida por leis e a demaggica               Disse: "A democracia e a aristocracia no so
 {Pol., 291 d-e). Essa classificao foi repetida           Estados livres por natureza. A liberdade polti-
 por Aristteles (Pol., III, 7, 1279 a 27), que, no         ca encontra-se nos G. moderados. Mas nem
 entanto, alude a outra diviso, na qual as for-            sempre existe nos Estados moderados: perma-
 mas fundamentais seriam duas: "democracia,                 nece s quando no h abuso de poder... Para
 quando os livres governam, e oligarquia, quan-             que no seja possvel abusar do poder,  preci-
 do os ricos governam e, em geral, os livres so            so que, pela disposio das coisas, o poder
 muitos e os ricos poucos" (Jbid., IV, 4, 1290b,            refreie o poder. Uma constituio pode ser de
 I): classificao que seria simtrica a outras             tal forma que ningum seja obrigado a cumprir
 classificaes didicas, cuja autoria Aristteles          as aes s quais a lei no obrigue nem a dei-
 declara. Contudo a classificao tridica veio             xar de cumprir as que a lei permite" (Jbid., XI,
 a ser tradicional e a ela os escritores polticos          6). Essas palavras so verdadeiras ainda hoje,
 da Idade Mdia, do Renascimento e da Ida-                  assim como eram verdadeiras no tempo de
 de Moderna se referem constantemente. A                    Montesquieu. A experincia histrica do mun-
 Bodin deve-se a observao de que as diver-                do moderno e contemporneo mostrou que a
  sas formas de ordenamento estatal so diversas            liberdade e o bem-estar dos cidados no de-
  formas de G., no formas diferentes de Estado             pendem da forma de G., mas da participao
  (donde a permanncia da expresso "formas                 que os G. oferecem aos cidados na formao
  de G." em francs, italiano e ingls). A sobera-          da vontade estatal e da presteza com que eles
  nia, que  o carter fundamental do Estado,              so capazes de modificar e de retificar suas
  una e indivisvel: o Estado consiste na posse da          diretrizes polticas e suas tcnicas administrati-
  soberania. O G., ao contrrio, consiste no apa-           vas. Por esses motivos, na moderna teoria po-
GRAA1                                                488                                           GRAA2


ltica geral, a distino ou classificao das for-         berdade" (Jbid., XI, p. 184; cf. L. PAREYSON,
mas de G. no tem grande relevncia; pode-se                Vestetica deli'idealismo tedesco, Turim, 1950,
dizer que  a mesma de Herdoto, mas que                    1, pp. 227 ss.). Essas observaes tornaram-se
deixou de expressar um problema efetivo da                  clssicas e at hoje so repetidas, mesmo fora
teoria e da prtica da poltica.                            do contexto filosfico em que Schiller as inse-
    GRAA1 (in. Grace, fr. Grce; ai. Anmut;                ria, o qual caiu completamente em desuso.
it. Grazia). Uma espcie particular de bele-                    GRAA2 (gr. xpic,; lat. Gratia; in. Grace,
za distinguida pela esttica do sc. XVIII: a               fr. Grce, ai. Gnade; it. Grazia). Em geral, dom
beleza em movimento. Edmund Burke dizia:                    gratuito, sem retribuio; mais especifica-
"A G.  uma idia no muito diferente da                    mente, em sentido teolgico, o dom da sal-
beleza, constituda pelos mesmos elemen-                    vao ou de alguma condio essencial da
tos. A G.  uma idia relativa  postura e ao               salvao que Deus oferece ao homem, inde-
movimento: para serem graciosos, no de-                    pendentemente dos mritos (se existirem) do
vem dar a impresso de dificuldade; bastam                  prprio homem. Nesses termos, a G. foi descri-
a leve flexo do corpo e a harmonia das par-                ta na Epstola aos romanos, de S. Paulo. O
tes, de tal maneira que no se estorvem reci-               problema da magnitude e dos limites da G.
procamente e que no se mostrem separadas                   sempre foi fundamental no cristianismo. Mar-
por ngulos bruscos e distintos. Nesta facilida-            cou o ponto culminante da atividade filosfica
de, harmonia e delicadeza de postura e de mo-               e teolgica de S. Agostinho e, depois de inme-
vimento consiste todo o encanto da G., o seu                ras discusses medievais, representou um dos
'no-sei-qu'" (A Philosophical Inquiry into                maiores conflitos entre a Reforma e o Catolicis-
the Origin of our Ideas of the Sublime and
                                                            mo ps-tridentino. Reduzido a seus termos
Beautiful, 1756, II, 22). Essas idias eram re-
petidas com freqncia pelos tratadistas do                 essenciais, o problema pode ser expresso da
sc. XVIII. Num Ensaio sobre a beleza (1765),               seguinte maneira.  doutrina fundamental do
ao carter da G. descrito por Burke, Giuseppe               cristianismo que a salvao no  possibilidade
Spalletti acrescentava outro: a expressividade.             humana. A revelao e a ercamao do Cristo
"J grandes autores observaram que essas qua-               so os instrumentos indispensveis que, su-
lidades (agilidade e robustez) consistem nas                prindo a deficincia da natureza humana, redu-
flexes, nas curvas e na mistura delas, que, se             zida ou corrompida pelo pecado original, lhe
forem acompanhadas por transparncia que                    retribuem a possibilidade de salvao. Mas a
indique a conformidade com os movimentos                    revelao e a participao dos mritos de Cristo
internos causados pelos afetos da alma, pare-               podem ser concedidas e, em princpio, o so a
cero graciosas: prerrogativa cuja importncia              todos os homens enquanto tais; por isso, a
o feliz possuidor do gosto natural entende com              admitir-se (como fazem muitos padres da Igre-
tanta facilidade quanto lhe parece difcil expli-           ja oriental) que no fim dos tempos todos os
car" (Op. cit., 37). Mas o maior terico da G. foi          homem sero salvos (doutrina da apocatstase
certamente Schiller, que viu nesse conceito a               [v.]), a noo de G. no d origem a graves
mais consumada harmonia entre a liberdade                   problemas. Mas surge o problema quando se
moral e a necessidade natural. Schiller comea              admite que nem todos os homens se salvaro
distinguindo a beleza imvel ou arquitetnica,              e que no fim dos tempos ainda haver justos e
que  produzida pelas foras plsticas da natu-             perversos, portanto, eleitos e condenados. Nes-
reza por meio da lei da necessidade, da beleza              se caso, surge a pergunta: quem determina a
 em movimento, que  produzida por um esprito              salvao de cada homem, o prprio homem ou
segundo condies de liberdade. A beleza                    Deus? Diante desse problema s h duas res-
 arquitetnica honra o criador da natureza; a               postas possveis e, na realidade, so duas as
beleza em movimento honra quem a pos-                       doutrinas tpicas da G.: lg a G.  determinante,
 sui. A beleza em movimento assim  chamada                 ou seja,  Deus mesmo que, conferindo-a a uns
 porque uma modificao da alma s pode mani-               e negando-a a outros, determina os hbitos e
 festar-se como movimento no mundo sensvel                 as disposies que tornaro o homem justo e
 (ber Anmut und Wrde, 1195; Werke, ed.                    o levaro  salvao; 2a a G. no  determinante,
 Karpeles, XI, p. 183). Esta segunda espcie de             no sentido de que sua concesso por parte de
 beleza  justamente a G., definida por Schiller            Deus, mesmo sendo condio necessria da
 como "a beleza de uma figura movida pela li-               salvao, no determina a prpria salvao,
GRAA2                                              489                                            GRAA2

que exige a contribuio do homem. Essas                  chrtienne, 1541, 7). Augustinus(l64l) dejan-
duas solues, ou melhor, esses dois tipos de             snio contm tese idntica a esta sobre a G. (v.
solues, permaneceram substancialmente                   JANSENISMO).
inalterados ao longo da histria dessa contro-                29 O segundo ponto de vista foi formulado
vrsia, apesar da variedade das expresses,               durante a Idade Mdia e est exposto, p. ex.,
atenuaes ou nuanas que receberam durante               na obra de Anselmo, Concordncia da pres-
esse tempo.                                               cincia da predestinao e da G. de Deus com
   l 2 A primeira soluo  apresentada por S.            o livre-arbtrio (1109)- Anselmo afirma que a
Agostinho na polmica contra Pelgio, pela Re-            predestinao de Deus leva em conta a liberda-
forma protestante e pelo jansenismo. Consiste             de humana, j que Deus no predestina nin-
em julgar que a humanidade toda pecou com                 gum violentando sua vontade, mas deixa sem-
Ado e em Ado e que, portanto, o gnero hu-              pre a salvao em poder do predestinado.
mano  uma s "massa condenada", a cuja pu-               Todavia, em virtude de sua prescincia, ele
nio nenhum membro pode escapar, a no                   predestina s aqueles cuja boa vontade conhe-
ser pela misericrdia e pela G. no obrigatria           ce antecipadamente (De concrdia prescien-
de Deus (S. AGOSTINHO, De civ. Dei, XIII, 14).            tiae, etc. q. 2, 3). Soluo anloga  dada por S.
O fundamento dessa soluo  que a verda-                 Toms: "A preparao do homem para a G.
deira liberdade do homem coincide com a ao              tem Deus como mbil, o livre-arbtrio como
agraciadora de Deus. Segundo S. Agostinho, a              movimento. Ela pode ser considerada sob dois
vontade s  livre quando no dominada pelo               aspectos: no primeiro, depende do livre-arb-
vcio e pelo pecado e  essa a liberdade que s           trio e no implica a necessidade de obter a G.
pode ser devolvida ao homem pela G. de Deus               porque o dom da G. excede qualquer prepara-
(Ibid., XIV, 11). Desse ponto de vista, o homem           o da virtude humana; no segundo aspecto,
no possui mritos prprios, vlidos perante              tem Deus como mbil e implica a necessidade
Deus: seus mritos so dons divinos que de-               de obter a G. que  determinada por Deus, em-
vem ser atribudos a Deus e no a si mesmo                bora no se trate de uma necessidade prove-
(De gratia et libero arbtrio, 6). O De servo ar-         niente de coao, mas da infalibilidade, por-
btrio (1525) de Lutero, admitindo esse ponto             quanto a inteno de Deus no pode deixar de
de vista agostiniano, nega que o homem seja li-           ter efeito" (S. Th., III, q. 112, a 3). No perodo
vre. Segundo Lutero, no se pode admitir ao               da Contra-Reforma, Lus de Molina, no texto
mesmo tempo a liberdade divina e a humana.                Liberi arbitri cum gratiae dons, divina praes-
A prescincia e a predestinao divina impli-             cientia, providentia, praedestinatione et repro-
cam que nada acontece sem a vontade de                    batione concrdia, voltou a propor a soluo
Deus, e isso exclui que no homem ou em qual-              tomista, distinguindo a G. suficiente, dada a to-
quer outra criatura haja livre-arbtrio.  bvia          dos os homens como condio necessria da
objeo que, nesse caso, Deus  o autor do                salvao, da G. eficaz, que  infalvel e segue a
mal, Lutero responde com a doutrina j de-                boa vontade humana. Em realidade esta e an-
fendida pela ltima Escolstica (p. ex., por              logas distines s servem para justificar o ca-
OCKHAM, In Sent., I, d. 17, q. 1 M): Deus no se          rter no rigorosamente determinante da G., no
submete a normas: ele no deve querer uma                 sentido de que, em todo caso, ela deixa a salvo
coisa ou outra porque  justa, mas o que ele              a liberdade humana e, com isso, tambm dei-
quer  justo por si mesmo (De servo arb., 152).           xa aos rprobos (e somente a eles) a responsabili-
Calvino expressava mais cruamente o mesmo                 dade de sua condenao. Toda a disputa gira
conceito quando afirmava: "Digamos que o Se-              em torno do significado de liberdade (v.), e, j
nhor decidiu, em seu parecer eterno e imut-              que ambas as partes consideram a liberdade
vel, a quais homens conceder salvao e quais             como autocausalidade -- mas nenhuma delas
deixar em runa. Digamos que os chamados                 considera tal causalidade -- primria ou abso-
salvao so recebidos por sua misericrdia               luta --, a substncia da disputa reduz-se a bem
gratuita, sem nenhuma considerao pela dig-              pouco do ponto de vista conceptual. Para uma
nidade deles. Ao contrrio, o ingresso na vida            ou outra doutrina, a causa primeira de tudo, e,
est fechado para todos os que ele quer entre-            portanto, tambm da liberdade ou da salvao
gar  condenao, e isso acontece em virtude              humana,  Deus. Contudo, essa disputa no 
de seu juzo oculto e incompreensvel, embora             realmente conceptual, mas religiosa ou ecle-
justo e equnime" (Institution de Ia religion             sistica. A defesa de certo grau de liberdade
GRAMTICA                                             490                                       GRAMTICA


humana em relao  G. tende a acentuar a im-               da G., "na qual se explicam as regras gerais
portncia da ao mediadora da Igreja, na qual              pertencentes  G. em geral, sem levar em con-
o homem sempre pode achar, desse ponto de                   ta os particularismos das lnguas especiais" (Log.,
vista, a concesso compreensiva da G., ou seja,             Disc. prael, 1735,  72).
a ajuda sobrenatural para a salvao. Por outro                 Foi s com Humboldt que surgiu um novo
lado, a acentuao do carter determinante ou               conceito de G., no famoso texto Sobre a diver-
necessitante da G. tende a colocar o homem                  sidade da constituio da linguagem huma-
diretamente diante de Deus e de sua vontade                 na (1836), a partir do qual a G. comeou a ser
inescrutvel, j que o pecado, desse ponto de               concebida como uma disciplina no normativa
vista, no pode ser remido por ao mediado-                ou legislativa, mas descritiva, sendo seu objeti-
ra, mas, ao contrrio,  sinal evidente de no-             vo investigar, na lngua, as uniformidades que
concesso da G., portanto, da futura condena-               constituem regras ou leis. Por esse conceito
o. Entende-se por que este segundo ponto                  moldaram-se todos os estudos modernos da
de vista, assim como ocorreu com o janse-                   G., que passaram a utilizar cada vez mais as
nismo, surge no prprio seio do catolicismo                 consideraes estatsticas (cf., p. ex., G. HER-
quando, em nome de certo rigorismo moral,                   DAN, Language as Choice and Chance, Gr-
se deseja insistir na gravidade do pecado e no             ningen, 1956). No campo filosfico, Heidegger
se est disposto a consider-lo um obstculo                encarou a exigncia de libertar a G. da lgica
fcil  salvao.                                           que toma as coisas como modelo, ou seja, o
    GRAMTICA (gr. ypa(j.|J.aTiKr| Txvr); lat.             "instrumental intramundano": "A tarefa de liber-
Grammatica; in. Grammar; fr. Grammaire;                     tar a gramtica da lgica exige uma compreen-
ai. Grammatik; it. Grammatic). Segundo uma                 so preliminar e positiva da estrutura apriori
tradio registrada por Digenes Larcio (III,              do discurso como existencial. Essa tarefa no
25), Plato foi o primeiro a "teorizar a possibili-         pode ser cumprida subsidiariamente por meio
dade da G.". De fato,  freqente nos textos de             de correes e complementaes do que foi
Plato a referncia  G., cuja natureza  defini-           legado pela tradio. Nesse propsito, devem-
da com mais preciso no Crtilo. O fundamen-                se questionar as formas fundamentais em que se
to dessa definio  a analogia entre a G. e a              funda a possibilidade semntica de articulao
arte figurativa. Assim como um artista procura              do que  suscetvel de compreenso e no ape-
reproduzir os traos dos objetos com o dese-                nas dos entes intramundanos conhecidos teori-
nho e as cores, o gramtico procura fazer a                 camente e expressos em frases" (Sein undZeit,
mesma coisa com as slabas e as letras. Seu                  34). Desse ponto de vista, no basta realizar
objetivo  "imitar a substncia das coisas". Se             uma "G. geral" baseada na generalizao das
ele chegar a reproduzir tudo o que pertence a               regras de todas as lnguas, visto que mesmo
essa substncia, sua imagem ser bela, mas, se              essa G. geral pode ser restrita demais no que
deixar alguma coisa fora ou se acrescentar algo             diz respeito s formas lgicas em que se mol-
no pertinente, sua imagem no ser bela. Nes-              da. Heidegger acrescenta: "A semntica tem
se aspecto, o gramtico  um "artfice de no-               razes na ontologia do ser-a: sua sorte est
mes, portanto um legislador que pode ser bom                ligada ao destino deste" ijbid.,  34). Em outros
ou mau" (Crat., 431 b ss.). Esse  o primeiro               termos, Heidegger desejaria uma G. que levas-
conceito de G. formulado, e  normativo por-                se em conta no s e no tanto a estrutura das
que, segundo ele, o gramtico no descreve,                 coisas, em que se molda a estrutura da orao,
mas prescreve:  um "legislador". Parece ser                mas tambm e sobretudo a estrutura da exis-
anlogo o conceito de Aristteles, que define a             tncia humana, que  especfica e diferente da
G. como "cincia do ler e do escrever" (7qp.,               estrutura das coisas. Esse tambm parece ser o
VI, 5, 142 b 31). Esse conceito praticamente                pressuposto da G. gerativae transformacional
 no foi alterado at a Idade Moderna. No fim               de que fala Chomsky; com efeito, este se refe-
 da Escolstica comeou-se a falar de uma "G.               re freqentemente a Descartes e, em geral, aos
 especulativa" (Tomaseu de Erfurt comps uma                filsofos do sc. XVII, que ressaltaram o car-
 que foi atribuda a Duns Scot), e Campanella               ter especificamente humano e criativo da lingua-
 incluiu uma G. semelhante em sua Philosophia               gem. Essa G. gerativa deveria solucionar o pro-
 rationalis (1638), que inclui Potica, Retrica e          blema de "construir uma teoria da aquisio
 Dialtica. No sculo seguinte, Wolff ps entre as          lingstica e de explicar as habilidades ina-
 outras cincias a G. especulativa ou filosofia             tas especficas que possibilitam essa aquisio"
GRANDEZA                                             491                                              GRAU

(Aspects ofthe Theory o/Syntax, 1956, I,  4).             componentes de cada par de termos desse gru-
Uma G. desse tipo, por um lado, seria "um                  po" (Human Knowledge, IV, 6; trad. it., p. 411)
modelo explicativo, ou seja, uma teoria da intui-          (v. QUANTIDADE).
o lingstica do falante nativo" e, por outro,               GRAU (lat. Gradus; in. Degree, Grade-, fr.
mostraria que "as estruturas profundas so mui-            Degr; ai. Grad; it. Grado). A importncia desta
to semelhantes de uma lngua para outra e as               noo se deve  sua relao com a noo de
regras que as manipulam e interpretam tam-                 infinitsimo e, por isso, s comea com Leib-
bm parecem derivar de uma classe muito                    niz, que utiliza essa palavra com sentido me-
restrita de operaes formais concebveis" (En-            tafsico, e no matemtico ou fsico. Os escols-
saios lingsticos, trad. it., III, 1969, pp. 19 e         ticos, porm, usavam essa palavra ao falarem
272). Essa G. seria, assim, a matriz de qual-              de "G. de perfeio" do universo e, portanto,
quer G. possvel e tambm apresentaria os cri-             da "prova dos G." da existncia de Deus (v.
trios para a escolha de determinada G. na                 DEUS, PROVAS DE). Bacon falava de uma "tbua
constituio de uma linguagem.                             dos G." (v. TBUA), Locke aludia aos G. das
    GRANDEZA (gr. P7E60; lat. Magnitudo;                 idias simples (Ensaio, IV, 2, 11) e, em sentido
in. Size, Magnitude; fr. Grandeur, ai. Grsse;             mais preciso e moderno, Galilei observava:
it. Grandezzd). Segundo Aristteles, quanti-               "Segue-se que, diminuindo sempre nessa razo
dade mensurvel, distinta da multiplicidade, que           a velocidade antecedente, no haver G. de ve-
 a quantidade numervel, e a ela correspon-               locidade to pequeno, ou melhor, de lentido
dente. Aristteles acrescenta que, enquanto                to grande, no qual no se tenha constitudo o
a multiplicidade  potencialmente divisvel                mesmo mvel depois da partida da infinita len-
em partes no contnuas, a G.  divisvel em               tido, ou seja, do repouso, etc." (Disc. delle
partes contnuas. Portanto, so G. o compri-               nuove scienze, III; Op., VIII, p. 199). Mas foi
mento, a largura, a profundidade (Met., V,                 s com a lex continui, estabelecida por Leib-
13, 1020 a 7). Kant fez da G. um princpio da              niz, que a noo de G. passou a ser conceito
Razo Pura, mais precisamente um "axioma                   fundamental da matemtica, da fsica e da me-
da intuio", mas no mantm imutvel esse                 tafsica. Segundo a lei da continuidade, pas-
conceito. "A percepo de um objeto como                   sa-se por G. do grande ao pequeno, do re-
fenmeno", diz Kant, "s  possvel por meio               pouso ao movimento ou vice-versa, assim
da unidade sinttica da multiplicidade da intui-           como se passa por G. das percepes eviden-
o sensvel dada, graas  qual a unidade                 tes s que so pequenas demais para serem
da composio da multiplicidade homog-                    observadas (Nouv. ess., 1703, pref.). A partir
nea  pensada no conceito de uma G.; os                    de Leibniz o G. passa a ser noo fundamental
fenmenos so todos G., alis G. extensivas                da metafsica. Definida por Wolff como "quan-
porque devem ser representados como intui-                 tidade das quantidades" (Ont.,  747) e por
es no espao e no tempo". Segundo Kant,                  Baumgarten nos mesmos termos (Met.,  246),
dizer G. extensivas significa que "a represen-             Kant erigiu essa noo em "princpio da ra-
tao das partes torna possvel a representa-              zo pura", expressando-a do seguinte modo:
o do todo e por isso a precede"; conceito                "Em todos os fenmenos o real, que  objeto
que torna a matemtica aplicvel aos objetos               da sensao, tem uma grandeza intensiva, ou
da experincia (Crt. R. Pura, Anal. dos princ,            seja, um G.". Para Kant,  nesse princpio, que
cap. II, se. III, 1). Tudo isso significa que a           serve de base s "antecipaes" da percepo,
G.  uma quantidade emprica que pode                      que se funda o conceito de continuidade tanto
ser aplicada  matemtica, ou seja, que                   em fsica quanto em matemtica (Crt. R. Pura,
mensurvel. No pensamento matemtico mo-                   Anal. dos princpios, se. 3, 2a). Na realidade, a
 derno a relao entre a noo de G. e a de                noo de contnuo e a de G. no so diferen-
 mensurabilidade se mantm, mas s vezes se                tes. Como observava Leibniz, a lex continui
 inverte.  o que ocorre em Russell, para quem             leva a considerar, por exemplo, o repouso
 G.  a "propriedade que vrias coisas mensur-            como um G. do movimento e, em geral, qual-
 veis podem possuir em comum". E acrescenta:               quer qualidade como um G. da qualidade
 "A crena de que haja semelhante proprieda-               oposta. Hegel expressou essa idia ao falar da
 de, pertencente a cada um dos termos de dado              transformao da quantidade em qualidade ou
 grupo, eqivale logicamente  crena de que               vice-versa: " primeira vista, a quantidade apa-
 haja uma relao simtrica e transitiva entre os          rece como tal contrapondo-se  qualidade; mas
GROTESCO                                                  492                                            GUERRA


a quantidade tambm  uma qualidade, uma                        e negativos, inclusive o zero, constitui um G.
determinao que, em geral, se refere a si, dis-                nesse sentido. Os dois conceitos fundamentais
tinta de sua outra determinao, a qualidade co-                da teoria dos G. so os de transformao (v.),
mo tal. Contudo ela no  apenas qualidade,                     que  entendido no sentido mais lato, e o de
mas a verdade da qualidade  a quantidade;                      invarincia (v. INVARIANTE), em virtude do qual
aquela mostra-se em transposio nesta (...).                   se chamam invariantes as propriedades de
Para chegar-se  totalidade,  necessria a tran-               um objeto que permanecem as mesmas, por
sio dupla, no s a transio de uma deter-                   meio da transformao.
minao para a sua outra determinao, mas                         2. No significado sociolgico, um conjunto
tambm a transio desta outra, o seu retorno,                  de pessoas caracterizadas por uma atitude co-
para a primeira" {Wissenschaft der Logik, I, I,                 mum ou recorrente.  esse o termo mais ge-
se. II, cap. III, C; trad. it., I, p. 39D. Engels enu-         ral para indicar um objeto qualquer da pes-
mera essa tese de Hegel como a primeira lei                     quisa sociolgica: de fato, o grupo pode ser
fundamental da dialtica (v. DIALTICO, MATERIA-                definido dos modos mais diversos, e a diver-
LISMO), interpretando-a em sentido materialista:                sidade desses modos garante as dimenses
"Lei da converso da quantidade em qualidade                    de liberdade da prpria pesquisa; cf. R. K.
e vice-versa. No que se refere aos nossos obje-                 MERTON, Social Theory and Social Structure,
tivos, podemos express-la no fato de que, na                   3a ed., 1957, cap. VIII-LX; ABBAGNANO, Problemi
natureza, s podem ocorrer variaes qualita-                   di sociologia, 1959, III, 8.
tivas acrescentando ou subtraindo matria ou                        GUERRA (gr. jr^eu,o; lat. Bellum; in. War;
movimento (a chamada energia), e isso de modo                   fr. Guerre; ai. Krieg; it. Guerra). Alguns filso-
rigorosamente vlido para qualquer caso"                        fos da Antigidade atriburam um valor csmico
{Dialektk derNatur, Dialtica; trad. it., p. 57).               G., uma funo dominante na economia do
    Na filosofia contempornea, a noo de G.                   universo. Foi o que fez Herclito, que chamou a
foi absorvida pela noo de continuidade.                       G. de "me e rainha de todas as coisas" {Fr. 53,
   GROTESCO (in. Grotesque; fr. Grotesque;                      Diels), afirmando que "a G. e a justia so confli-
ai. Groteske; it. Grottesc). Uma espcie do c-                tos e, por meio do conflito, todas as coisas so
mico, distinguida pelos tratadistas modernos.                   geradas e chegam  morte" {Fr. 80, Diels). Foi o
 caracterizado por Santayana como "um efei-                    que fez tambm Empdocles, que, ao lado da
to interessante, produzido pela transformao                   Amizade (ou Amor), como fora que une os
de um tipo ideal, que exagere um dos seus                       elementos constitutivos do mundo, ps o dio
elementos ou o combine com os de outros                         ou a Discrdia que tende a desuni-los {Fr. 17,
tipos". Nesse caso considera-se "a sua diver-                   Diels). Outros filsofos, como Hobbes, afirma-
gncia em relao ao tipo natural, e no em                     ram que o estado de G.  o estado "natural" da
relao sua possibilidade interna" (Sense of                    humanidade, no sentido de que  o estado a
Beauty, 1896,  64).                                            que ela seria reduzida sem as normas do direito,
    GRUPO (in. Group; fr. Groupe; ai. Gruppe;                   ou do qual procura sair mediante essas regras
it. Grupp). 1. No significado matemtico, a                    {Leviath., I, 13). Mas, no obstante essas idias
palavra foi usada pela primeira vez por Evariste                ou semelhantes, os filsofos esforaram-se
Galois, em 1830. O conceito elaborado poste-                    constantemente por evidenciar e encorajar os
riormente pela matemtica serviu poderosa-                      esforos dos homens para evitar as G. ou para
mente para a unificao das matemticas e                       diminuir as situaes que lhes do origem. Por
para a sua elucidao conceituai. Um G.  uma                   vezes, ocuparam-se em formular projetos nesse
classe ou um conjunto dotado das seguintes ca-                  sentido (v. PAZ). A exceo a essa regra  repre-
ractersticas: d) seus elementos podem ser enti-                sentada por Hegel, que considerou a G. como
dades aritmticas, geomtricas, fsicas ou inde-                uma espcie de "juzo de Deus", do qual a pro-
finidas; b) o nmero de tais entidades pode ser                 vidncia histrica se vale para dar a vitria  me-
finito ou infinito; c) as regras de combinao de               lhor encamao do Esprito do mundo. Hegel
tais entidades podem ser as aritmticas ou geo-                 afirma, por um lado, que, "assim como o movi-
 mtricas ou podem no ser definidas; d) a re-                  mento dos ventos preserva o mar da putrefao
gra de combinao deve ser associativa, mas                      qual o reduziria a quietude duradoura, a isso
 pode ser tanto comutativa ou no-comutativa;                   reduziria os povos a paz duradoura ou perp-
 ) todo elemento do conjunto deve ter o seu                    tua" {Fil. do dir.,  324), e por outro lado julga
 inverso. A classe dos nmeros inteiros positivos               que, no plano providencial da histria do
GUERRA                                              493                                GUIA, PRINCIPIO

mundo, um povo sucede ao outro no encarnar,               ccia destruidora em face do Esprito do povo,
realizar ou manifestar o Esprito do mundo, do-           se este j no estiver exnime, extinto" (Phi-
minando, em nome e por meio dessa superiori-              losophie der Geschichte, ed. Lasson, p. 47). Es-
dade, todos os outros povos. A G. pode ser um             sas afirmaes de Hegel eqivalem a justificar
episdio dessa alternncia, desse juzo de Deus           qualquer G. vitoriosa que, como tal, estaria nos
proferido pelo "Esprito do mundo". "Em geral",           planos providenciais da Razo. Constituem, por-
diz Hegel, "a isso est ligada uma fora externa          tanto, uma monstruosidade filosfica que, en-
que destitui com violncia o povo do domnio e            tretanto, no deixou de ter defensores e segui-
faz que ele deixe de ter primazia. Essa fora ex-         dores, dentro e fora do crculo da filosofia
terior, porm, s pertence ao fenmeno; nenhu-            hegeliana.
ma fora externa ou interna pode impor sua efi-              GUIA, PRINCPIO. V. PRINCPIO.
                                                H

    HBITO1 (gr. Go; lat. Consuetudo; in.          dito: ele redobra o automatismo, que arrasta
Habit, Custom; fr. Habitude, ai. Gewohnheit;         o intelecto sem que este se aperceba.  pre-
it. Abitudin). O mesmo que COSTUME1. Em ge-         ciso conquistar uma crena mais fcil, que 
ral, a repetio constante de um acontecimento       a do hbito (habitude) e que, sem violncia,
ou de um comportamento, devido a um meca-            sem arte, sem provas, faz-nos crer nas coisas
nismo de qualquer gnero (fsico, fisiolgico,       e inclina todas as nossas foras para essa
biolgico, social, etc.) Na maioria das vezes,       crena, de tal forma que nossa alma nela in-
esse mecanismo se forma por meio da repetio        cide naturalmente" (Penses, nQ 252). Foi esse
dos atos ou dos comportamentos e, portanto,          o ponto de vista que, um sculo depois, serviu
no caso de acontecimentos humanos, por meio          de base  filosofia de Hume. Ele definiu o costu-
do exerccio. Diz-se que "as coisas habitual-        me como a disposio, produzida pela repeti-
mente acontecem assim" para indicar qualquer         o de um ato, a renovar o mesmo ato, sem a
uniformidade nos acontecimentos, mesmo no           interveno do raciocnio (Inq. Cone. Underst.,
humanos, conquanto no seja uma uniformida-          V, 1). E valeu-se desse conceito de hbito (cos-
de rigorosa e absoluta, mas apenas aproximada        tume) para explicar a funo das idias abstra-
e relativa, contudo capaz de permitir uma pre-       tas, que ele considerou como idias particula-
viso provvel. Nesse sentido Aristteles disse      res assumidas como signos de outras idias
(Ret., I, 10, 1369b 6): "Faz-se por hbito aquilo    particulares semelhantes. O costume de consi-
que se faz por se ter feito muitas vezes", e         derar interligadas idias designadas por um
acrescenta que "O hbito , de certa forma,          nico nome faz que o nome desperte em ns
muito semelhante  natureza, j que 'freqen-        nem uma nem todas dessas idias, mas sim o
temente' e 'sempre' so prximos: a natureza
                                                     costume de consider-las juntas, portanto uma
 daquilo que  sempre; o hbito  daquilo que
 freqentemente" (Ibid., I, 11, 1 370a 7). Com      ou outra, delas de acordo com as ocasies.
isso Aristteles viu no hbito uma espcie de        (Treatise, I, 1, 7). Hume recorre ao hbito para
mecanismo anlogo aos mecanismos naturais,           explicar a conexo causai: por termos visto v-
que garante, de certa forma, a repetio uni-        rias vezes juntos dois fatos ou objetos, como p.
 forme dos fatos, atos ou comportamentos, eli-       ex. a chama e o calor, o peso e a solidez, so-
 minando ou reduzindo nestes ltimos o esfor-        mos levados pelo costume a prever um quan-
 o e o trabalho, tornando-os, assim, agradveis.    do o outro se apresenta. O conjunto de nossa
     Com esse significado esse termo foi e  cons-   vida diria funda-se no hbito. "Sem o hbi-
 tantemente usado em vrias disciplinas (biolo-      to" -- diz Hume (Jnquiry, cit., V, I) -- "ignora-
 gia, psicologia, sociologia) e, em filosofia mo-    ramos inteiramente quaisquer questes de
 derna, tem sido tomado freqentemente co-           fato, alm daquelas que se nos apresentam
 mo princpio de explicao de problemas             imediatamente  memria ou aos sentidos.
 gnosiolgicos ou metafsicos. O primeiro a          No saberamos adaptar os meios aos fins,
 usar esse conceito com essa finalidade foi          nem empregar nossos poderes naturais para
 Pascal, que insistiu na influncia do hbito na     produzir qualquer efeito. As aes termina-
 crena: " o costume (coutum) que torna as         riam, terminando tambm a parte principal da
 nossas provas mais slidas e dignas de cr-         especulao".
HABITO1                                            495                                            HABITO2

    De modo anlogo, mas em campo diferen-               o e conscincia tornam-se livres novamente
te, Bergson (talvez retomando uma idia de               disponveis para outras operaes), Hegel res-
Renouvier, Nouvelle monadologie, p. 298) uti-            saltou a importncia do hbito para a vida espi-
lizou a noo de hbito/costume para explicar            ritual. "O hbito" -- disse ele -- " mais essencial
as obrigaes morais, que no seriam exign-             para a existncia do que qualquer espiritualida-
cias da razo, mas costumes sociais que garan-           de no indivduo, para que o sujeito exista como
tem a vida e a solidez do corpo social {Deux             sujeito concreto, como idealidade da alma; para
sources, p. 21).                                         que o contedo religioso, moral, etc, pertena
    A interpretao do hbito como ao origi-           a ele como ele mesmo, a ele como a essa alma;
nariamente espontnea ou livre que depois se             para que no esteja nele apenas em si (como
fixa com o exerccio, de tal forma que pode              disposio), nem como sensao e como re-
ser repetida sem a interveno do raciocnio e           presentao transitria, nem como interiorida-
da conscincia, portanto mecanicamente, pos-             de abstrata separada do fazer e da realidade,
sibilitou o uso metafsico dessa noo: uso que          mas no seu ser". Isto quer dizer que o hbito
aparece com bastante freqncia na filosofia             incorpora certo contedo no prprio ser da
moderna e contempornea, especialmente no                alma individual, como uma posse efetiva, que
idealismo e no espiritualismo. O primeiro a              se traduz em ao real.
tirar proveito desse uso para a construo de                Na esteira de Maine de Biran, Ravaisson
uma metafsica da experincia interior foi Mai-          props uma metafsica do hbito, que expe
ne de Biran, em sua obra Influncia do habito            num famoso trabalho {Sobre o habito, 1838).
sobre a faculdade de pensar(1803)  Enquanto             No hbito, Ravaisson viu uma idia substan-
os hbitos passivos, que dizem respeito s sen-          cial, ou seja, uma idia que se transformou em
saes, reduzem a conscincia, os hbitos ati-           substncia, em realidade, e que age como tal.
vos, que dizem respeito s operaes, facilitam          O hbito no  um mecanismo puro, mas uma
e aperfeioam a conscincia, constituindo, por           "lei de graa", porquanto indica o predomnio
isso, um instrumento para que o esprito se li-          da causa final sobre a causa eficiente. Permite,
berte dos mecanismos que tendem a formar-                pois, que se entenda a prpria natureza como
se mediante a repetio dos seus esforos.               esprito e como atividade espiritual, uma vez
    Essa noo de hbito/costume, que, mes-              que demonstra que o esprito pode tornar-se
mo sendo expressa nos termos da denomina-                natureza e a natureza, esprito. Permite organi-
da "experincia interior" ou "sentido interior",         zar todos os seres numa srie cujos limites
j tem alcance metafsico (pois Maine de Biran           extremos so representados pela natureza e
acredita que os dados dessa experincia reve-            pelo esprito. "O limite inferior  a necessidade,
lam a prpria realidade) e encontra correspon-           o destino, se quisermos, mas na espontaneida-
dncia na doutrina de Hegel, que lhe dedicou             de da natureza; o limite superior  a liberdade
alguns pargrafos da sua seo sobre o espri-           do intelecto. O hbito desce de um para outro,
to subjetivo, na parte dedicada  alma senciente         reaproxima esses contrrios e, reaproximando-
{Ene,  409-10). Hegel diz que, graas ao hbi-         os, revela sua essncia ntima e sua conexo
to, a alma "toma posse do seu contedo e con-            necessria." A partir de Bergson, esses con-
serva-o de tal forma que, nessas determina-              ceitos foram retomados com freqncia no
es, ela no est como sensitiva, no est em           espiritualismo contemporneo, para explicar
 relao com elas, mas distingue-se delas, nem           de certa forma o "mecanismo da matria" e
 est nelas imersa, mas as possui sem sensao           reintegr-lo na espontaneidade espiritual.
 e sem conscincia, movendo-se dentro delas.                 HBITO2 (gr. ify-, lat. Habitus, in. Habit; fr.
A alma, portanto, est livre delas, porquanto            Disposition; ai. Fertigkeit; it. Abit).  preciso
 por elas no se interesse e com elas no se             distinguir o significado deste termo do signifi-
 preocupe; e existindo nestas formas como em             cado de costume (v. HBITO1), com o qual 
 poder de si, est concomitantemente aberta a            freqentemente confundido. Significa uma dis-
 qualquer outra atividade e ocupao (tanto da           posio constante ou relativamente constante
 sensao quanto de conscincia espiritual em            para ser ou agir de certo modo. P. ex., o "hbito
 geral)". Por esta funo do hbito, de oferecer         de dizer a verdade"  a disposio deliberada,
  alma a posse de certo contedo, de tal forma          neste caso um compromisso moral de dizer a
 que ela possa utilizar esse contedo "sem sen-          verdade.  coisa bem diferente do "costume de
 sao e sem conscincia" (de modo que sensa-            dizer a verdade", que implicaria o mecanismo
HARMONIA                                             496                                    HECCEIDADE

de repetir freqentemente essa ao. Assim, "o             termo foi usado por Leibniz na expresso Har-
hbito de levantar-se cedo pela manh"  uma               monia preestabelecida, para designar determi-
espcie de compromisso que pode represen-                  nado sistema de comunicao entre as substn-
tar esforo e sofrimento; "o costume de levan-             cias espirituais (manadas) que compem o
tar-se cedo pela manh" no representa esforo             mundo. Leibniz acredita que tais substncias
algum, porque  um mecanismo rotineiro.                    no podem influenciar-se reciprocamente, j
    Essa palavra foi introduzida na linguagem fi-          que cada uma est "fechada em si mesma", e
losfica por Aristteles (Met., V, 20, 1022b, 10),         assim exclui a doutrina comumente aceita, da
que a definiu como "uma disposio para estar              influncia recproca. Exclui tambm a doutrina
bem ou mal disposto em relao a alguma coi-               por ele denominada assistncia, que  prpria
sa, tanto em relao a si mesmo quanto a outra             do sistema das causas ocasionais de Guelinx e
coisa; p. ex., a sade  um hbito, porque                Malebranche, segundo a qual a comunicao
uma dessas disposies". Nesse sentido, Arist-            entre as vrias mnadas seria estabelecida cada
teles julga que a virtude  um hbito, por no             uma por sua vez diretamente por Deus. A Har-
ser "emoo" (como a cupidez, a ira, o medo,               monia preestabelecida  a doutrina segundo a
etc), nem "potncia", como seria a tendncia              qual as vrias mnadas, como muitos relgios
ira, do sofrimento,  piedade, etc. A virtude ,           perfeitamente construdos, esto sempre de
antes, a disposio para enfrentar, bem ou mal,            acordo entre si, mesmo seguindo cada uma
emoes e potncias; p. ex., dobrar-se aos im-             sua prpria lei. Assim, a alma e o corpo vi-
pulsos da ira ou moder-los (Et. nic, II, 5). O            vem cada um por conta prpria, contudo em
mesmo significado  retomado por S. Toms,                 harmonia, porque Deus coordenou as leis de
que o expe da seguinte maneira (Contra                    ambos. O corpo segue a lei mecnica, a alma
Gent., IV, 77): "O hbito difere da potncia               segue sua prpria espontaneidade: a H. entre
porque no nos capacita a fazer alguma coi-                eles foi predisposta por Deus no ato da criao
sa, mas torna-nos hbeis ou inbeis para                   (Phil. Schriften, ed. Gerhardt, IV, p. 500).
agir bem ou mal".
    Esse conceito manteve-se praticamente                      Esse termo encontra-se com freqncia no
inalterado at nossos dias. Dewey assim o                  espiritualismo, especialmente em Ravaisson.
expe: "A espcie de atividade humana que                  Whitehead utilizou-o para explicar a beleza, a
 influenciada pela atividade precedente e,                verdade, o bem, assim como a liberdade, a paz
neste sentido,  adquirida; que contm em si               e toda "a grande aventura csmica". "A grande
certa ordem ou certa sistematizao dos meno-              H." -- diz ele (Adv. ofldeas, p. 362) -- " a H.
res elementos da ao; que  projetante, din-             de individualidades duradouras conexas na
mica em qualidade, pronta para a manifestao              unidade do fundamento.  por essa razo que
aberta; e que  atuante em qualquer forma su-              a noo de liberdade nunca abandona as civili-
bordinada e oculta, mesmo quando no  ativi-              zaes mais avanadas; a liberdade, em cada
dade obviamente dominante. Hbito, mesmo                   um de seus muitos sentidos,  a exigncia de
em seu emprego ordinrio,  o termo que de-                vigorosa auto-afirmao".
nota mais esses fatos do que qualquer outra                   HECCEIDADE (lat. Haecceitas; in. Hae-
palavra" (Human Nature and Conduct, 1921,                  cceity, fr. Heccit, it. Ecceit). Termo criado
pp. 40-41). Dewey achava que os termos "atitu-             por Duns Scot a partir do adjetivo haec, com
 de" e "disposio" tambm eram apropriados                que se indica uma coisa particular, para desig-
 a esse conceito; na verdade, estes dois ltimos           nar a individualidade, esta consiste na "reali-
 termos so usados com mais freqncia que                 dade ltima do ente", que determina e "con-
 hbito e com significados muito semelhantes.              trai'' a natureza comum (composta de matria
    HARMONIA (gr. p|J.ova; lat. Harmonia-,               e forma) numa coisa particular, ad esse hanc
 in. Harmony, fr. Harmonie, ai. Harmonie, it.              rem. Esse princpio  invocado por Duns Scot
 Armonia). A ordem ou a disposio finalista               para explicar de que maneira a coisa indivi-
 das partes de um todo, como p. ex. do mundo,              dual se origina da "natureza comum", que  in-
 ou da alma, foi denominada "Harmonia", pelos              diferente tanto  universalidade quanto  indi-
 pitagricos, por ser proporo ou mescla dos              vidualidade. Esse termo no se encontra em
elementos corpreos (cf. PLATO, Fed., 86 c).              Opus Oxoniense, que  o maior comentrio de
Empdocles valeu-se desse conceito para defi-              Duns Scot s Sentenas, de Pietro Lombardo,
nir a natureza do esfero (Fr. 122, Diels). Esse            mas em Reportataparsiensia (II, d. 12, q. 5, n.
HEDONISMO                                              497                                 HERMENUTICA


1, 8, 13, 14); foi muito usado pela escola esco-             das correntes filosficas que se inspiraram no
tista (v. INDIVIDUAO).                                     hegelianismo. A direita hegeliana insistiu sobre-
     HEDONISMO (in. Hedonism; fr. Hdonis-                   tudo nas teses 2Q, 3e e 5B; a esquerda, nas teses
me, ai. Hedonismus; it. Edonism). Termo que                 1Q e 2. O neo-hegelianismo italiano, nas te-
indica tanto a procura indiscriminada do pra-                ses 1B, 2e e 4B (v. ABSOLUTO; DIREITA HEGELIANA;
zer, quanto a doutrina filosfica que considera              IDEALISMO; ESQUERDA HEGELIANA)
o prazer como o nico bem possvel, portanto                    HEGEMNICO (gr. 17ELIOVIKV; lat. Prin-
como o fundamento de vida moral. Essa doutri-                cipatus; it. Egemonico). Segundo os esticos, a
na foi sustentada por uma das escolas so-                    razo que anima e governa o mundo. "Chamo
crticas, a Cirenaica, fundada por Aristipo; foi             de parte regedora ou governo aquilo que os
retomada por Epicuro, segundo o qual "o pra-                 gregos denominam H., da qual pode e deve
zer  o princpio e o fim da vida feliz" (DlG.              estar o mais excelente em cada gnero de coi-
 L, X, 129). O hedonismo distingue-se do utilita-            sas. Assim,  preciso que tambm a parte em
 rismo do sc. XVIII porque, para este ltimo, o             que est o governo de toda a natureza seja
bem no est no prazer individual, mas no pra-               entre todas a melhor e a mais digna do poder
 zer do "maior nmero possvel de pessoas", ou               e do domnio sobre todas as coisas" (CCERO,
 seja, na utilidade social.                                  De nat. deor., II, 29).
     HEGELIANISMO (in. Hegelianism; fr. H-                     HELENSTICA, FILOSOFIA. Entende-se,
 glianisme, ai. Hegelianismus; it. Hegelism).              com esta expresso, a filosofia da poca ale-
 Doutrina de Hegel (1770-1831), na forma como                xandrina -- perodo seguinte  morte de Ale-
 agiu na cultura contempornea, com maior                    xandre Magno (323 a.C.) --, que compreende
 difuso e profundidade. Pode ser assim re-                  as trs grandes linhas mestras: Estoicismo,
 sumida:                                                     Epicurismo e Ceticismo -- v. os respectivos
      ls Identidade entre racional e real, em vir-           termos, bem como ALEXANDRINISMO.
 tude da qual a realidade  tudo aquilo que                      HENOTESMO (ai. Henotheismus). Termo
 deve ser, ou seja, justifica-se absolutamente em
                                                             cunhado por Max Mller (Lect. on the Origin
 todas as suas manifestaes, que, portanto, so
  "necessrias" no sentido de no poderem ser                and Growth of Religion, 1878) para indicar a
  diferentes daquilo que so. Desse ponto de                 crena segundo a qual, mesmo havendo uma
 vista, contrapor  realidade o "dever ser", uma             nica divindade para o povo ou nao a que se
  norma ou um ideal  qual ela no se adequa-                pertence, existem outras divindades para os
  ria, significa simplesmente erigir em juiz da rea-         outros povos e as outras naes.
  lidade o intelecto finito (o interesse ou o arb-              HERACLITISMO (in. Heracliteanism; fr.
  trio do indivduo humano), e no a razo.                  Hraditsme, ai. Heraklitismus-, it. Emdismo).
      2a Interpretao da necessidade racional em            Indica-se, com este termo, o ponto mais rele-
  termos de processo dialtico, entendendo-se                vante da doutrina de Herclito de feso (sc. V
  por dialtica (v.) a sntese dos opostos.                  a.C), ou seja, o princpio do devir incessante
      39 Reconhecimento, como termo ltimo des-              das coisas, expresso no famoso fragmento:
  se processo, de uma autoconscincia absoluta,              "No  possvel entrar duas vezes no mesmo
  que tambm ser chamada pelos partidrios de               rio, nem tocar duas vezes uma substncia mor-
   Hegel de Esprito, Conceito Puro, Conscincia             tal no mesmo estado; graas  velocidade do
   Absoluta, Superalma, etc.;                                movimento, tudo se dispersa e se recompe
      4S Interpretao da histria como realiza-             novamente, tudo vem e vai." (Fr. 91, Diels).
   o de um plano providencial no qual os po-               Herclito, todavia, admitia um princpio nico,
   vos vencedores encarnam, alternadamente, o                subjacente ao movimento: o fogo; admitia,
   Esprito do mundo, ou seja, a Autoconscincia             outrossim, uma ordem rigorosa nas mudanas,
   ou Deus.                                                  que garantia um retorno constante e peridico.
       59 Interpretao do Estado como encar-                   HERANA SOCIAL. V. TRADIO.
   nao ou manifestao do Esprito do mundo                   HERMENUTICA (in. Hermeneutics; fr.
   ou, em outros termos, como realizao de                  Hermneutique; ai. Hermeneutik; it. Erme-
   Deus no mundo.                                            neutica). Qualquer tcnica de interpretao.
       Apesar de esses pontos bsicos constitu-             Essa palavra  freqentemente usada para
   rem o esprito da filosofia hegeliana, nem to-            indicar a tcnica de interpretao da Bblia
   dos entraram na constituio do patrimnio                (v. INTERPRETAO).
HERMETISMO                                          498                        HETEROGONIA DOS FINS


   HERMETISMO (in. Hermetism; fr. Herm-                  da Razo-, esta utiliza os indivduos e suas pai-
tisme, ai. Hermetismus; it. Ermetism). Indica-           xes como meios para realizar seus prprios
se com este termo a doutrina filosfica contida           fins. O indivduo, em certo ponto, perece ou 
em alguns textos msticos que apareceram no               levado  runa pelo sucesso: a Idia Universal,
sc. I d.C. e chegaram at ns com o nome de              que provocara esse sucesso, j alcanou seu
Hermes Trismegisto. Esses escritos tendem a               fim (Pbil. der Geschichte, ed. Lasson, p. 83).
reintegrar a filosofia grega na religio egpcia.         Nos heris, age a mesma necessidade da hist-
Hermes  identificado com o deus egpcio                  ria, e por isso resistir a eles  intil. "Eles so
Theut ou Thot. Esses textos so escritos em               levados irresistivelmente a cumprir sua obra"
tom mstico e defendem contra o cristianismo o            ilbid., p. 77). Em conceito anlogo inspirava-se
paganismo e as religies orientais. No sc. XV,           T. Carlyle em sua obra Os heris e o culto dos
foram traduzidos para o latim por Marslio                heris e o herico na histria (1841): "A hist-
Ficino e impressos pela primeira vez em 1471              ria universal, a histria daquilo que o homem
(Mercuri trismegisti liber de potestate et                realizou neste mundo, substancialmente outra
sapientia Dei, Treviso, 1471) .                           coisa no  seno a histria dos grandes ho-
    H. e o adjetivo "hermtico" passam, pois, a           mens que aqui agiram. Foram estes grandes
designar qualquer doutrina abstrusa, difcil ou           homens os lderes da humanidade, os inspirado-
acessvel apenas a quem possua uma chave                  res, os campees, e, lato sensu, os artfices de
para interpret-la.                                       tudo aquilo que a multido coletiva dos ho-
    HERI (gr. fpCO; lat. Heros; in. Hera, fr.          mens cumpriu e conseguiu" (Heroes, li. 1).
Hros; ai. Heros; it. Ero). Segundo Plato, os           Esse "culto dos Heris", como Carlyle denomi-
H. so semideuses nascidos de um deus que                 nava, tem dois pressupostos: 1Q o carter
se apaixonou por uma mulher mortal ou de                  providencial da histria, que, segundo se cr,
um homem mortal que se apaixonou por uma                  destina-se a realizar um plano perfeito e infal-
deusa (Crat,, 398c). Obviamente, com essa de-             vel em cada uma de suas partes; 2o o privilgio,
finio Plato relegava a noo de H.  esfera            concedido a alguns homens, de serem os prin-
do mito, assim como pertence ao mito a "idade             cipais instrumentos da realizao desse plano.
dos H." de que falavam Hesiodo e o prprio                Estas duas crenas constituem as caractersti-
Plato (v. IDADE); com isso, expungia essa no-            cas da concepo romntica da histria; sub-
o, pelo menos implicitamente, do campo da               sistem e caducam com ela (v. HISTRIA).
filosofia. Aristteles admitia essa expuno,                HERICA, IDADE. V. IDADE.
quando observava: "Se houvesse duas catego-                 HERICO, FUROR. V. ENTUSIASMO.
rias de homens tais que a primeira diferisse da             HETEROGENEIDADE, LEI DE. V. HOMO
segunda tanto quanto se julgava que os deuses             GENEIDADE.
e os heris diferiam dos homens, sobretudo                   HETEROGONIA DOS FINS (ai. Hetero-
pela valentia fsica e pelas qualidades da alma,          gonie derZweck). Wundt batizou com o nome
ento sem dvida ficaria evidente a superiori-            solene de "lei da H. dos fins" a observao no
dade dos governantes sobre os governados,                 muito original de que os fins que a histria rea-
etc." (Pol., VII, 14, 1332b 17). Foi s com o Ro-         liza no so os mesmos que os indivduos ou
mantismo que se comeou a acreditar na existn-           as comunidades se propem, mas resultam da
cia de indivduos excepcionais, nos quais se              combinao, da correlao e do conflito das
encarna a Providncia Histrica e que, portan-            vontades humanas entre si e com as condies
to, esto destinados a cumprir tarefas predomi-           objetivas {Ethik, 1886, p. 266; System der Phil,
nantes. Hegel v nos heris, ou "indivduos da            1889, 1, p. 326; II, pp. 221 ss.). Podemos lem-
histria do mundo", os instrumentos das mais              brar que Vio expressara o mesmo conceito
altas realizaes da histria. So videntes; sa-          numa pgina famosa: "Porque os homens fize-
bem qual  a verdade do seu mundo e do seu                ram este mundo de naes (que foi o primeiro
tempo, qual  o conceito, o universal prximo             princpio incontestvel desta Cincia, depois
 a surgir; os outros renem-se em torno da ban-           do que perdemos a esperana de reencontr-la
 deira deles, porque eles exprimem aquilo cuja            em filsofos e fillogos), mas esse mundo, sem
 hora  chegada. Aparentemente, tais indivduos           dvida, saiu de uma mente amide diferente e
 (Alexandre, Csar, Napoleo) nada mais fazem             por vezes de todo contrria, e sempre superior,
 que seguir sua prpria paixo, sua prpria am-           a esses fins particulares que os homens se ha-
 bio; mas, segundo Hegel, trata-se de astcia           viam proposto; esses fins restritos, transforma-
HETEROLOGICO                                         499                                     HILOZOISMO

dos em meios para servir a fins mais amplos,               gundo essa doutrina, alis haurida em Liberde
foram sempre usados para conservar a gera-                 causis, de inspirao neoplatnica, tudo o que
o humana nesta Terra" (Sc. nuova, 1744,                   compe-se de matria e forma. Donde se de-
Concl. da obra).                                           duz que a substncia espiritual, como p. ex. a
   HETEROLOGICO. V. AuTOLGico.                            alma, tambm no  forma pura, mas um com-
   HETERONOMIA. V. AUTONOMIA.                              posto de matria e forma. Avicebron, portan-
   HETEROZETESE (lat. Heterozetesis). O mes-               to, identificava a matria com a substncia, ou
mo que Ignoratio Elenchi (v.).                             seja, com a primeira das categorias aristotlicas,
   HEURSTICA. Palavra moderna originada                   que sustem (sustinet) as outras nove catego-
do verbo grego epOKto = acho: pesquisa ou                rias (Fons vitae, II, 6).
arte de pesquisa. Diferente de Erstica (v.).                  HILOPATIA (in. Hylopathy). Foi assim que
   HIERARQUIA (gr. epocpxoc; lat. Hyerar-                C. S. Peirce denominou o "monismo idealista",
chia; in. Hierarchy, fr. Hirarchie, ai. Hirar-           doutrina segundo a qual a matria  "esprito
chie, it. Gerarchd). Em sentido prprio, or-              que se tornou estril" (Chance, Love and Logic,
dem das coisas sagradas, dos entes e dos valores           II, cap. I; trad. it. p. 121) .
supremos. O conceito (se no o termo)  neo-                   HILOZOSMO (in. Hylozoism, fr. Hylozois-
platnico (v., p. ex., PLOTINO, Enn., III, 2, 17),         me, ai. Hylozoismus; it. Ilozoism). Crena
mas foi introduzido na filosofia ocidental atra-           ou doutrina segundo a qual a matria vive
vs dos dois textos do Pseudo-Dionsio, o                  por si mesma, ou seja, possui originariamente
Areopagita, que apareceram no comeo do sc.               animao, movimento, sensibilidade ou qual-
VI, intitulados Sobre a H. celeste e Sobre a H.            quer grau de conscincia. Essa doutrina no
eclesistica. O primeiro desses textos contm              eqivale  negao da matria e  sua resolu-
a organizao das inteligncias anglicas (v.              o em foras ou elementos espirituais (como
ANGELOLOGIA); o segundo estabelece a corres-
                                                           faz o pampsiquismo [v.]); ao contrrio, costuma
pondncia entre a H. anglica e a eclesistica,            ser uma expresso do materialismo, doutrina
que tambm se divide em trs ordens. A pri-                que reconhece a matria como nica realidade.
                                                           A expresso "H." j se encontra em Cudworth.
meira  constituda pelos mistrios: Batismo,
                                                           Kant definiu o H. como a forma de "realismo
Eucaristia, Ordem Sacra. A segunda  constitu-            da finalidade da natureza", para o qual "os fins
da pelos rgos que administram os mistrios:              da natureza se fundam no anlogo de uma
bispo, sacerdote, dicono. A terceira  consti-            faculdade que age com inteno, a vida da
tuda por aqueles que, atravs desses rgos,              matria (que existe na prpria natureza, ou
so levados ao estado de Graa: catecmenos,                produzida por um princpio animador inter-
energmenos, penitentes. Mais genericamen-                 no, uma alma do mundo)" (Kritik der Urteils-
te, nos dias de hoje indica-se com esse termo              kraft,  72; Metaphysische Anfangsgrnde der
qualquer organizao de valores ou de autori-              Naturwissenschaft, Teor. 3, nota).
dade: p. ex., "H. de valores", "H. burocrtica",
"H. partidria", etc.                                          Neste sentido, so hilozostas todos os fsi-
                                                           cos pr-socrticos (Tales, Anaximandro, Anaxi-
    HILTICOS, DADOS (ai. Hyletische Data).                menes, Parmnides, Herclito, Empdocles),
Na terminologia de Husserl, dados constitu-               para os quais no princpio ou nos princpios
dos pelos contedos sensveis, que compreen-               materiais que admitem h alma e sensibilidade.
dem, alm das sensaes denominadas externas,              Hilozostas so os esticos, para os quais o
tambm os sentimentos, impulsos, etc. Nesse                princpio constitutivo corpreo do universo, ou
sentido, as consideraes e as anlises feno-              seja, o fogo,  um sopro ou esprito animador e
menolgicas voltadas para esse elemento ma-                ordenador (DIG. L, VII, 156; CCERO, De nat.
terial so chamadas de hiltico-fenomenolgicas,           deor., II, 24). O H. antigo foi retomado pela fi-
assim como as relativas aos correspondentes                losofia da natureza e pela magia do Renas-
momentos noticos so denominadas notico-                 cimento. Segundo Telsio, o calor e o frio, que
fenomenolgicas (Ideen, I,  85).                          so os dois princpios que agem na "massa
    HILOMORFISMO (in. Hylomorphism; fr.                    corprea" inerte, devem ser providos de
Hylomorphisme; ai. Hylomorphismus; it. Ilo-                sensibilidade porque, se no percebessem
morfismo). Termo moderno, usado para indi-                 suas prprias impresses e as aes do princ-
car a doutrina do filsofo judeu Avicebron                 pio oposto, no poderiam combater-se; con-
(Ibn-Gebirol, 1020-1069), em Fons vitae. Se-               seqentemente, todas as coisas da natureza so
HIPERBLICO                                           500                                           HIPTESE


dotadas de sensibilidade. Essa doutrina  repe-             foi usada pela tradio filosfica com significa-
tida nos mesmos termos por Campanella (Del                  do totalmente diferente (v. SUBSTNCIA). Nas
senso delle cose, I, 1) e por G. Bruno, em cujos            discusses trinitrias dos primeiros sculos,
Dilogos latinos, porm, encontra-se uma acen-              esse termo foi preferido a pessoa (7tpoco7iov),
tuao no sentido pampsquico do H. O H. ,                 que, por significar propriamente mscara, pare-
pois, o pressuposto da magia, como tentativa                cia evocar a imagem de algo fictcio. A partir
direta para dominar as foras animadas da na-               dessas discusses, o substantivo H. passou a
tureza atravs de encantos (v. MAGIA).                      designar a substncia individual, a pessoa. S.
   As ltimas manifestaes do H. so observa-              Toms diz: "Para alguns, a substncia, na defi-
das no materialismo oitocentista: Haeckel, p.               nio de pessoa, eqivale a substncia primei-
ex., acredita que os tomos so animados e                  ra, que  a H.; todavia, no  suprfluo acres-
que a matria e o ter so dotados de sensibili-            centar individual, uma vez que com as palavras
dade e vontade (Die Weltrtsel, 1899) . Na filo-            H. ou substncia primeira se exclui a relao
sofia contempornea pode-se dizer que o H.                  entre o universal e a parte. De fato, no se diz
desapareceu, permanecendo o pampsiquismo                    que o conceito de homem ou a mo so H." (5.
(v.), que  a metafsica do espiritualismo (v.).             Th., I, q. 29, a. 1).
   HIPERBLICO. V. DUVIDA.                                      Na linguagem moderna e contempornea,
   HIPERORGNICO (fr. Hyperorganique).                      esse termo  usado (mas raramente) em senti-
Termo com que os escritores positivistas ca-                do pejorativo, para indicar a transformao fa-
racterizaram o mundo propriamente humano,                   laz e sub-reptcia de uma palavra ou um con-
ou seja, psquico e social.                                 ceito em substncia, ou seja, numa coisa ou
   HIPERURNIO (gr. 7iepoi)pvio). A re-                  num ente. Neste sentido fala-se tambm de
gio "alm do cu", na qual, segundo o mito en-             hipostasiar (fr. hypostasier).
contrado em Fedro (247 ss.), residem as subs-                   HIPTESE (gr. JiOeoi; in. Hypothesis; fr.
tncias imutveis que so objeto da cincia.                Hypothse-, ai. Hypothese, it. Ipotest). Em geral,
Trata-se de uma regio no espacial, j que,                um enunciado (ou conjunto de enunciados)
para os antigos, o cu encerrava todo o espao              que s pode ser comprovado, examinado e ve-
e alm do cu no haveria espao. Essa expres-              rificado indiretamente, atravs das suas conse-
so, portanto,  puramente metafrica; em Re-               qncias. Portanto, a caracterstica da H.  que
pblica, o prprio Plato zomba dos que se ilu-             ela no inclui nem garantia de verdade nem a
dem achando que vero os entes Inteligveis                 possibilidade de verificao direta. Uma pre-
olhando para cima: "No posso atribuir a outra              missa evidente no  uma H., mas, no sentido
cincia o poder de fazer a alma olhar para cima,            clssico do termo, um axioma. Um enunciado
seno  cincia que trata do ser e do invisvel;            verificvel  uma lei ou uma proposio em-
mas se algum procurar aprender alguma coisa                prica, no uma hiptese. Uma H. pode ser ver-
sensvel olhando para cima, com a boca aberta               dadeira, mas sua verdade s pode resultar da
ou fechada, digo que no aprender nada por-                verificao de suas conseqncias. Era neste
que no h cincia das coisas sensveis e sua               sentido que Aristteles entendia a H., pois mes-
alma no est olhando para cima, mas para bai-              mo usando vez por outra esse termo em senti-
xo, mesmo que ele estude ficando de costas                  do muito amplo, como premissa de demonstra-
na terra ou no mar" (Rep., VII, 529 b-c).                   o (compare, p. ex., Met., V, 1, 1013 a 16; 1913
    HIPOLEMA (in. Hypolemmd). Foi esse o                    b 20; Fs., II, 3, 195 a 18), define-a em seu signi-
nome dado por W. Hamilton  premissa me-                    ficado especfico, excluindo-a do campo das
nor do silogismo, porquanto est subsumida                  premissas necessrias: "Aquilo que  necess-
na premissa maior ou tema (Lectures on Logic, I,            rio que seja e que  necessrio que parea
p. 283) .                                                   necessrio, no  hiptese nem postulado" (An.
    HIPSTASE (gr.  I O O O in. Hypostasis;
                       T T C I ;                           post., 1,10, 76 b 23). Axiomas e definies cons-
fr. Hypostase, ai. Hypostase, it. Ipostas). Com            tituem as premissas necessrias do silogismo;
este termo Plotino denominou as trs substn-               H. e postulados so as premissas no necess-
cias principais do mundo inteligvel: o Uno, a              rias. Em particular, as H. estabelecem a exis-
Inteligncia e a Alma (Enn., III, 4, 1; V, 1, 10),          tncia das coisas definidas. As definies -- diz
que ele comparava, respectivamente,  luz, ao               ele -- devem apenas levar-nos a compreender
sol e  lua (Ibid., V, VI, 4). A transcrio latina         aquilo de que se fala; as H. estabelecem sua
desse substantivo  "substncia", que, todavia,             existncia, para deduzir as concluses (Ibid., I,
HIPTESE                                             501                                       HIPTESE

10, 76b 35 ss.). Conseqentemente, os racio-               tulados ou axiomas da matemtica -- e
cnios fundados em H. pressupem uma esp-                 como eles assumidos por H. -- em todas as
cie de conveno ou acordo preliminar {An.                 cincias que alcanaram certo grau de elabo-
pr., I, 44, 50 a 33) e no tm o valor probatrio          rao conceituai.
dos que se fundam em definies (Ibid., I, 23,                 3S Uma condio qualquer. Este  o signifi-
40b 22).                                                   cado do termo na expresso ex hipothesi. Aris-
    Esta determinao da H. como premissa de               tteles fala daquilo que  "necessrio por H.",
grau ou qualidade inferior, isenta da necessida-           ou seja, em virtude de determinada condio
de prpria das premissas autnticas,  caracte-            (Fs., II, 9, 199b 34 e ss.).
rstica da posio de Aristteles. No se encon-               4S A explicao causai dos fenmenos. Nes-
tra em Plato, para quem as premissas devem                te sentido, essa palavra foi usada freqente-
ser escolhidas com base no juzo comparativo,              mente nos scs. XVII e XVIII. Locke advertia
que se orienta para aquela que  "a mais forte"            "para que a palavra princpio no nos engane
ou "a melhor" entre elas (Fed., 100a; lOld).               nem se nos imponha, fazendo-nos aceitar como
Plato observa que a matemtica e, em geral,               verdade incontestvel aquilo que, no melhor
as disciplinas propeduticas no partem de H.,             dos casos, nada mais  que uma conjectura
mas que "deixam-nas intocadas por no serem                muito duvidosa, como ocorre com a maioria
capazes de explic-las" {Rep., VII, 533c). Em              das H. da filosofia natural, para no dizer to-
Parmnides so chamadas de H. todas as pos-                das" {Ensaio, IV, 12, 13). E bvio que, para
sveis vias de investigao, no se privilegiando          Locke, H.  o que anuncia os "princpios", as
nenhuma com nome diferente {Pann., 135 e).                 causas dos fenmenos. Ainda mais explicita-
Plato declara s vezes que "investiga atravs             mente Leibniz dizia: "A arte de descobrir as
da H.", como fazem os gemetras, ou seja, ra-              causas dos fenmenos, ou as H. verdadeiras, 
ciocinando assim: ''Em certas condies, obter-            como a arte de decifrar, na qual muitas vezes
se- determinado resultado, mas se as condi-               uma conjectura engenhosa abrevia em muito
es forem outras, o resultado ser diferente"             o caminho" {Nouv. ess.,.IV, 12, 13), onde "H.
(Men., 87a). O uso das H. em filosofia estabele-           verdadeiras" e "causas dos fenmenos" so iden-
ce uma diferena importante entre a filosofia              tificadas. A renncia de Newton (" hypotheses
de Plato e a de Aristteles, no que concerne              nonfingo" [no formulo hipteses]) refere-se
ao procedimento da prpria filosofia e, em                 exatamente a esse significado de hiptese. O
geral, do saber cientfico. Essa diferena, po-            texto de Newton  o seguinte: "At agora, no
rm, incide nos termos da noo geral de H.,               pude deduzir dos fenmenos as razes dessas
como acima expressa. No mbito dessa no-                   propriedades da gravidade, e no formulo hi-
o,  possvel distinguir os seguintes signi-             pteses. Tudo o que no se deduz dos fenme-
ficados especficos:                                       nos deve ser chamado de H., e as H., tanto
    ls O antecedente de uma proposio hipo-               metafsicas quanto fsicas, sejam elas de qua-
ttica ou condicional, de um raciocnio anapo-             lidades ocultas ou mecnicas, no tm lugar
dtico ou de um silogismo hipottico. A lgica             na filosofia experimental." A essas H. ele con-
estica, ao contrrio da aristotlica, privilegiou         trape as causas verdadeiras, que so as "ne-
as proposies hipotticas e os raciocnios                cessrias para explicar os fenmenos" {Philo-
anapodticos, em conformidade com a for-                   sophiae naturalis principia mathematica, 1687,
mulao geral da lgica como dialtica (v. L-             ao final). Em ptica (1704), Newton dizia que
GICA; DIALTICA; CONDICIONAL; CONSEQNCIA;                formular H.  recorrer s qualidades ocultas,
IMPLICAO).
                                                           assumidas como causas da metafsica aristot-
                                                           lica, s quais ele contrapunha os princpios
   2- Uma proposio originria assumida                   (gravidade, fermentao, coeso), "que no
como fundamento de um discurso cientfico,                 considero qualidades ocultas, supostamente re-
como p. ex. um postulado ou um axioma de                   sultantes das formas especficas das coisas, mas
matemtica. Realmente, no se afirma nem se                leis naturais gerais, pelas quais as coisas so
nega a verdade desses postulados ou axiomas,               formadas e cuja verdade se nos manifesta pelos
mas reconhece-se sua validade se e na medida               fenmenos, mesmo que suas causas no te-
em que possibilitam o discurso matemtico.                 nham sido descobertas" {Opticks, III, 1 q. 31).
Neste sentido, a matemtica  denominada                   Portanto, a renncia de Newton s H. nada
"sistema hipottico-dedutivo". Mas  poss-                mais  que a renncia  explicao em favor da
vel encontrar proposies anlogas aos pos-
HIPTESE                                             502                                          HISTORIA

descrio. Em meados do sc. XIX, a oposio               te os fatos, que foge  prova dos fatos" (Er-
entre descrio e explicao hipottica era re-            kenntniss und Irrtum, cap. 14; trad. fr., p. 240).
forada pelo fsico ingls J. Macquom Rankine:             Para este significado, v. TEORIA.
"Segundo o mtodo abstrato, uma ciasse de                     HIPOTTICO (gr. OToGexiK; lat. Hypothe-
objetos e de fenmenos  definida por descri-              ticus; in. Hypothetical; fr. Hypothtique; ai.
o, ou seja, mostrando-se que determinado                 Hypothetisch; it. Lpotetico). Este termo tem signi-
conjunto de propriedades  comum a todos os                ficado correspondente ao do substantivo. Para
objetos ou fenmenos da classe, e consideran-              proposio hipottica, v. CATEGRICO; para si-
do-os tais como os sentidos no-los do a perce-            logismo hipottico, v. SILOGISMO. V. tambm
ber, sem nada introduzir de hipottico e s lhes           ANAPODTICO; RACIOCNIO; CONDICIONAL; CONSE-
atribuindo um nome ou smbolo. Pelo mtodo                 QNCIA.
hipottico, a definio de uma classe de obje-                 HIPOTIPOSE (gr. OTOTTTXR; ai. Hypoty-
tos ou de fenmenos  deduzida de uma con-                 pose). Este termo, que significa bosquejo ou es-
cepo conjectural acerca de sua natureza." E              boo (neste sentido  encontrado no ttulo da
Rankine previa o abandono gradativo das teo-               obra de SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp.), foi usado
rias hipotticas e sua substituio pelas teorias          pelos retricos para indicar a figura em virtude
abstratas (Outlnes ofthe Science o/Energetics,            da qual um assunto  vividamente descrito em
1865, em Miscellaneous Scientifics Papers, p.              palavras (QUINTILIANO, Inst., IX, 2, 40). Kant
210; cf. P. DUHEM, La thorie physique, 1906,              utilizou essa palavra em sentido anlogo, para
pp. 80-81) .                                               expressar a relao entre a beleza e a moralida-
    5S Um procedimento especial que substitui a            de: a beleza, como smbolo da moralidade,  a
induo, para a formulao de princpios a se-             H. dela, ou seja, sua vigorosa manifestao in-
rem verificados experimentalmente. Para Stuart             tuitiva. Enquanto as palavras e os outros sig-
Mill, o procedimento cientfico  composto por             nos so simples expresses dos conceitos, as
trs partes: induo, raciocnio e verificao.            H. so exibies ou manifestaes do conceito
Ora, "o mtodo hipottico suprime o primeiro               em forma intuitiva (Crt.. do Juzo,  59).
desses trs passos, a induo, para comprovar                  HISTRIA (gr. xopa; lat. Historia; in.
a lei, e limita-se s outras duas operaes, ra-           History, fr. Histoire, ai. Geschichte, it. Storia).
ciocnio e verificao: a lei sobre a qual se              Esse termo, que em geral significa pesquisa,
raciocina  presumida, em vez de ser provada"              informao ou narrao e que j em grego era
(Logic, III, 14, 4). No mesmo sentido, Peirce              usado para indicar a resenha ou a narrao dos
pe a H. ao lado da deduo e da induo,                  fatos humanos, apresenta hoje uma ambigida-
como um tipo de raciocnio vlido que se dis-              de fundamental: significa, por um lado, o co-
tingue da induo porque, enquanto esta "pro-              nhecimento de tais fatos ou a cincia que disci-
cede como se todos os objetos que tm deter-               plina e dirige esse conhecimento (historia rerum
minados caracteres fossem conhecidos", a H.               gestarum) e, por outro, os prprios fatos ou
"a inferncia que procede como se todos os                 um conjunto ou a totalidade deles (resgesta).
caracteres necessrios  determinao de certo             Essa ambigidade est presente em todas as
objeto ou classe fossem conhecidos". Enquanto              atuais lnguas cultas (cf. H. I. MARROU, De Ia
a induo pode ser considerada como a infe-                connaissance historique, 1954, pp. 38-39).
rncia da premissa maior do silogismo, a hip-             Mas, em vista do maior uso do termo his-
tese pode ser considerada como a inferncia da             toriografia para indicar o conhecimento histrico
premissa menor a partir das outras duas ("Some             em geral, ou cincia da H. (e no a arte de
Consequences of Four Incapacities", em Values              escrever H.), pode-se colocar no verbete
 in a Universe of Chance, pp. 44 ss.). Este signi-         historiografia o tratamento dos significados atri-
ficado do termo tornou-se raro.                            budos  H. ao longo do tempo, (como conhe-
    6a O argumento de um discurso, enquanto                cimento) e incluir neste verbete s os significa-
proposto ou enunciado no incio do discurso                dos que foram dados  realidade histrica como
(ARISTTELES, Ret. adAl, 30, 1436 a 36; Ret., II,          tal. Tais significados so os seguintes: lg H.
18, 1391 b 13).                                            como passado; 2- H. como tradio; 3S H. como
    1 Uma teoria cientfica ou parte de uma teo-          mundo histrico; 4S H. como objeto da histo-
ria cientfica. Nesse sentido, Mach diz: "Chame-           riografia.
mos de H. uma explicao provisria que tem                  Ia A H. interpretada como passado pode,
por objetivo fazer compreender mais facilmen-              com boas razes, ser considerada uma tauto-
HISTORIA                                             503                                         HISTORIA

logia, mas o sentido em que Heidegger enten-               do, a H. contrape-se a "natureza", que  a to-
deu essa interpretao (Sein und Zet,  73),              talidade do que  independente do homem ou
no parece puramente tautolgico. Quando se                que no pode ser considerado produo ou
diz: "Isto pertence  H.", entende-se que per-             criao sua, mas permanece aparentado com a
tence ao passado, a um passado que tem pou-                natureza pelo seu carter de totalidade, de
ca eficcia sobre o presente. Por outro lado,              mundo.  no mbito desse conceito que se po-
quando se diz: "No podemos subtrair-nos                  dem distinguir as interpretaes "filosficas" da
H.", entende-se ainda a H. como passado, mas               H., que constituem a chamada "filosofia da H.".
como um passado que age inevitavelmente so-                Entre estas interpretaes podem-se considerar
bre o presente. Assim tambm, dizer que "algo              principais as seguintes: a) H. como decadncia;
tem H." significa afirmar que tem passado e                b) H. como ciclo; c) H. como reino do acaso;
que  fruto desse passado. Nestas e em seme-               d) H. como progresso; ) H. como ordem pro-
lhantes expresses, o significado desse termo              videncial.
permanece estritamente genrico: remete a                      d) A interpretao da H. como decadncia 
uma dimenso do tempo e s relaes que po-                prpria da Antigidade, que a expressou com
dem ser estabelecidas entre ela e as outras di-            a doutrina das idades (v.) do gnero humano.
menses.                                                   A sucesso das cinco idades, descrita por He-
    2S Em segundo lugar, a H. pode ser entendi-            sodo, vai da idade de ouro, na qual os homens
da como tradio, em que crenas e tcnicas                "viviam como deuses",  idade dos homens, na
so transmitidas e conservadas atravs do tem-             qual estes esto sujeitos a toda espcie de ma-
po, seja tal legado verificvel pela historio-             les, passando pela idade de prata, de bronze e
grafia, seja considerado como "evidente", mes-             dos heris, que assinalam a decadncia gradual
mo permanecendo obscuro e no verificvel.                 do estado do gnero humano (Op., 109-79).
Ao conceito de tradio pode vincular-se o                 Plato reduziu a trs as idades, enumerando
conceito de Heidegger sobre a historicidade                somente a idade dos deuses, dos heris e dos
autntica, que  a escolha, para o futuro, das             homens, mas conservando o carter de deca-
possibilidades que j foram, sendo, pois, a                dncia sucessiva que as idades apresentam
transmisso de tais possibilidades da existncia           quanto s condies materiais e morais dos ho-
para si mesma, uma repetio decidida, que                 mens (Crtias, 109b ss.). Retomada no mundo
Heidegger chama tambm de destino. "A deci-                moderno (Vio, Fichte e outros), essa doutrina
so constitui a fidelidade da existncia a si mes-         perdeu o significado pessimista e tornou-se oti-
ma. Enquanto deciso permeada de angstia, a               mista: as idades esto em ordem de progresso
fidelidade  ao mesmo tempo o possvel res-                e no de decadncia. Mas no h dvida de
peito em face da nica autoridade que um exis-             que, para os gregos, essa doutrina constitui
tir livre pode reconhecer, ou seja, em face das            uma interpretao da H. como decadncia (v.
 possibilidades repetveis da existncia" (Sein            IDADE).
 undZeit,  75). "Se o ser-a s  autenticamente              b) A noo da H. como ciclo est ligada 
 real na existncia, sua factualidade constitui-se         de ciclo do mundo, bastante difundida na An-
 justamente no decidido autoprojetar-se para               tigidade grega. Para os esticos a repetio
 um poder-serque j foi escolhido. Mas ento o             do ciclo csmico inclua a repetio da H. huma-
 que foi autenticamente um fato  a possibilida-           na no seu conjunto. Segundo eles, de fato, em
 de existenciria em que se determinam efetiva-            cada novo ciclo do mundo, "haver de novo
 mente o destino, a destinao comum e mun-                Scrates de novo Plato e de novo cada um
 danamente histrica" (Ibid.,  76). s vezes,             dos homens com os mesmos amigos e con-
 porm, a tradio  entendida como conserva-              cidados, as mesmas crenas, os mesmos
 o infalvel e progressiva de todos os resulta-          assuntos discutidos, e toda cidade, vilarejo ou
 dos ou conquistas do homem; nesse caso, o                 campo igualmente retornaro" (NEMSIO, De
 conceito identifica-se com o de H. como plano             nat. hom., 38). Pode-se ver na obra de Spen-
providencial (v. TRADIO).                                gler uma revivescncia moderna desse concei-
   3S O terceiro significado de H.  o mais rele-          to de H. Para ele, os ciclos histricos, as cultu-
vante filosoficamente; para ele, H.  o mundo              ras, no se repetem de modo idntico, como
histrico, a totalidade dos modos de ser e das             julgavam os esticos, mas a sua forma repete-
criaes humanas no mundo, ou a totalidade                 se identicamente: nascimento, crescimento e
da "vida espiritual" ou das culturas. Nesse senti-         morte. "Toda cultura, todo surgimento, pro-
HISTRIA                                             504                                          HISTORIA


gresso e declnio, bem como cada um dos seus               tico e no inevitvel do progresso, pois, se o
graus e dos seus perodos inteiramente neces-              progresso  necessrio, a H.  sobretudo uma
srios tm durao determinada, sempre igual,              ordem providencial cujos momentos so to-
sempre recorrente, com forma de smbolo"                   dos igualmente perfeitos, porquanto indis-
(Der Untergang des Abendlandes, 1932, I, p.                pensveis  perfeio ou ao aperfeioamento
147) (v. CICLO)!                                           do conjunto. A H. como progresso problemtico
    c) O conceito da H. como reino do acaso                 uma idia iluminista que supe a medida
no  freqente na interpretao filosfica da             do progresso, ou seja, uma norma ou um
histria. Parece, contudo, que Aristteles no             ideal de que a H. procura aproximar-se, ou
estava muito longe dele quando contraps o                 que ela procura realizar, mas no encontran-
historiador ao poeta, dizendo que a este ltimo            do jamais em si uma adequao perfeita. G.
cabia representar o universal, "as coisas tais             B. Vio expressou esse ideal no conceito de
quais poderiam acontecer segundo a verossi-                H. ideal eterna "sobre a qual transcorrem no
milhana e a necessidade", ao passo que cabe-              tempo as H. de todas as naes, com surgimen-
ria ao historiador representar as coisas "real-            tos, progressos, estados, decadncias e fins"
mente acontecidas", "o particular" e, como p.              (Sc. nuova, De'principi). A H. ideal eterna 
ex. "o que fez Aquiles e o que lhe aconteceu"              a ordem universal e eterna  qual a H. tempo-
(Poet., IX, 1451b 2-10). No se deve esquecer              ral, ou melhor, as vrias H. temporais dos
que, para Aristteles, s o universal  objeto de          vrios tempos e naes tendem a adequar-
conhecimento cientfico e que o particular no             se, sem nunca conseguirem por completo,
pertence  cincia (Met., III, 6, 1003 a 15). Mais         alis, s vezes precipitando-se na confuso e
explicitamente, Schopenhauer dizia: "A H.                  na runa (Jbid., Concluso da obra). Vio
do gnero humano, a intimidade de aconte-                  entendia a H. ideal eterna como sucesso pro-
cimentos, a mudana dos tempos, os mlti-
                                                           gressiva de trs idades (dos deuses, dos he-
plos aspectos da vida humana em pases e s-
                                                           ris, dos homens) e a permanncia indefini-
culos diferentes, tudo isso  apenas a forma
                                                           da na ltima, que  a concluso do ciclo. Voltaire,
casual assumida pela manifestao da Idia,
                                                           ao contrrio, considerou como norma e me-
que no pertence a esta, na qual est apenas a
                                                           dida do progresso histrico a ilustrao; a
objetividade adequada da vontade, mas ao fe-
nmeno que fica sendo conhecido pelo indiv-               libertao da razo humana dos preconcei-
duo; e  to estranha, to inessencial e indife-           tos e a sua posio de guia da vida individual
rente  Idia quanto so estranhas s nuvens               e social do homem (cf. especialmente o Essai
as figuras que representam, ao rio a forma dos             sur les moeurs, 1740; Philosophie de 1'histoire,
seus sorvedouros e das suas espumas, e ao gelo             1765). Kant seguiu o mesmo critrio, suge-
suas figuras de rvores e flores" (Die Welt, I,            rindo-o, porm, apenas como "fio condutor"
 35). No se pode considerar, porm, neste                para orientar-se filosoficamente na H. dos po-
tpico, o conceito da H. expresso por Maquiavel            vos. Escreveu: " medida que as limitaes 
ao dizer que "a sorte pode ser rbitro da meta-            atividade pessoal forem sendo abolidas e que
de das nossas aes, contanto que nos deixe                a liberdade religiosa for concedida a todos, pro-
ainda governar a outra metade, ou quase"; com-             duzir-se- gradualmente, ainda que com in-
parando a sorte a um rio que, quando irado,                tervalos de iluses e fantasias, a ilustrao como
arrasta tudo, mas cujo mpeto no  prejudicial            um grande bem que a espcie humana po-
ou causa menos danos quando o homem faz,                   der fazer derivar at dos objetivos ambiciosos
a tempo, reparos e diques (Princ, 25). De fato,            de poder dos seus dominadores" (Ideezu einer
para Maquiavel, a sorte  o conjunto de condi-             allgemeinen Geschichte, 1784, tese VIII). Se-
es que limitam, impedem ou frustram a ao               gundo Jaspers, o nico fim projetvel da H.
do homem na H., mas no  a totalidade da H.                a unidade da humanidade, no alcan-
No entanto, para A. Cournot o acaso servia                 vel por meio da cincia ou da uniformidade
para definir o domnio da H., que ele contra-              lingstica ou cultural, mas da "ilimitada co-
ps ao da natureza, que  o domnio da ordem               municao daquilo que  diferente historicamen-
e da lei (Essai sur les fondements de Ia con-              te, tal como se pode realizar num dilogo
 naissance, 1851).                                         incessante, numa luta amorvel" (Vom Ursprung
                                                           und Ziel der Geschichte, 1949). Certamente 
   d) O conceito de H. como progresso tem a                possvel propor outros critrios ou normas
caracterstica de afirmar o carter problem-
HISTRIA                                             505                                        HISTORIA

como medida do progresso na H., mas as                     te do mal, confia em que o mal, em ltima ins-
caractersticas dessa noo no mudam en-                  tncia, no triunfar, mas sabe que no pode di-
quanto se admite a inevitabilidade do pro-                 zer como isso acontecer. Quando, no Roman-
gresso.                                                    tismo, a doutrina do plano providencial da H.
    e) Com a afirmao da inevitabilidade do               se transforma em doutrina filosfica, o no-sa-
progresso, o prprio progresso torna-se incon-             ber religioso transforma-se em certeza racional.
cebvel (como viu Hegel), porque, se a H.  ne-            Hegel afirmou muitas vezes que a diferena
cessria, cada momento dela  tudo o que                   entre religio e filosofia  que a segunda de-
deve ser e no pode ser melhor nem pior do                 monstra, na sua determinao, essa relao
que os outros. A concepo da necessidade da               entre Deus e o mundo, esse plano providen-
H.  a concepo da H. como plano providen-                cial, e a primeira se limita a reconhec-los
cial. A noo de plano providencial est impl-            (Ene,  573; Philosophie der Geschchte, ed.
cita em todas as formas de milenarsmo ou                  Lasson, I, p. 55). Entretanto, o ingresso des-
quiliasmo (v.): toda doutrina desse tipo inclui a          sa noo em filosofia deve-se sobretudo a
idia de desenvolvimento necessrio dos feitos             Fichte. Em Caracteres da Idade Contempor-
humanos at a consecuo de um estado defi-                nea (1806), Fichte afirmava energicamente a
nitivo de perfeio. Foi esse, p. ex., o conceito          necessidade da H. e a sua reduo a um plano
de H. em Orgenes: para ele, os mundos suce-               providencial: "Qualquer coisa que realmente
dem-se no tempo como escolas nas quais os                  exista existe por absoluta necessidade: e existe
seres decados se reeducam (De princ, III, 6,              necessariamente na forma precisa em que exis-
3), e o ciclo total da H.  o retorno do mundo a           te" (Ibid., IX). E distinguia dois elementos no
Deus, que culmina na apocatstase, na restitui-            processo de civilizao da espcie humana: um
o de todos os seres  sua perfeio originria           elemento apriori, que  o plano do mundo ou
(Injohann., XX, 7). Mas o primeiro a formular              ordem providencial, e um elemento a poste-
claramente o conceito de plano providencial                riori, temporal ou emprico, constitudo pelos
foi S. Agostinho, que viu na H. a luta entre a ci-         fatos. A resultante dessa concepo  que
dade celeste e a cidade terrena: luta destinada            "Nada  como  porque Deus queira arbitraria-
a acabar com o triunfo da cidade celeste. Para             mente assim, mas porque Deus no pode ma-
esse triunfo, segundo S. Agostinho, Deus faz               nifestar-se de outro modo. Reconhecer isso,
que tambm contribuam o mal e a m vontade                 submeter-se humildemente e ser feliz, na cons-
{De civ. Dei, XI, 17). Os trs perodos em que,            cincia da nossa identidade com a fora divina,
para S. Agostinho, a H. se divide no so mais              tarefa de todo homem" (Ibid., IX; trad. it.
que o desenvolvimento do plano providencial.               Cantoni, p. 67). Com essa distino, Fichte pa-
No primeiro, os homens vivem sem leise ainda               rece atribuir certa autonomia (embora fictcia)
no h luta contra os bens do mundo. No se-                aos "fatos"da H., em face do plano providen-
gundo, os homens vivem sob a lei e por isso                cial de que devem participar. Mas mesmo essa
combatem contra o mundo, mas so vencidos.                 autonomia fictcia dos fatos desaparece na dou-
O terceiro perodo  o tempo da graa, em                  trina de Hegel: "Deus prevalece, e a H. do
que os homens combatem e vencem (Ibid., XIX,               mundo no representa nada alm do plano da
15-26). No sc. XII, a profecia de Gioacchino              providncia. Deus governa o mundo: o conte-
da Fiore parte do mesmo conceito de H. e tem               do do seu governo, a execuo do seu plano 
como modelo a diviso das idades feita por                 a H. universal... A filosofia quer conhecer o
S. Agostinho. Gioacchino acredita que, depois              contedo, a realidade da idia divina e justifi-
da idade do Pai, que  a da lei, e da idade                car a realidade vilipendiada. Com efeito, a ra-
do Filho, que  a do Evangelho, vir a idade do            zo  a percepo da obra de Deus" (Philoso-
Esprito, que  a da Graa, da inteligncia ple-           phie der Geschichte, ed. Lasson, I, p. 55). Foi
na da verdade divina (Concrdia novi et veteris            esse conceito de H. que Croce retomou e de-
testamento, V, 84, 112).                                   fendeu nos primeiros decnios do sc. XX. Para
                                                           ele, o sujeito da H.  o Esprito do Mundo ou a
   Todavia, o plano providencial da H., embo-              Razo, no o homem (Teoria e storia delia
ra infalvel e necessrio, , do ponto de vista            storiografia, 1917, p. 87). A H.  uma ordem
religioso, imperscrutvel em seus detalhes. O              progressiva que no conhece decadncia, in-
homem religioso cr nele e na sua perfeio,               terrupo ou morte (La storia come pensiero e
mas sabe que no pode compreender os cami-                 come azione, 1938, p. 38). Ela  sempre jus-
nhos pelos quais se vai realizando. Posto dian-
HISTRIA                                                 506                                           HISTRIA


tificadora, nunca justiceira; e "s poderia tor-               buda  H. por doutrinas que negam o conceito
nar-se justiceira tornando-se injusta, ou seja,                 religioso de providncia, como o positivismo
confundindo o pensamento com a vida" (Teo-                     social e o marxismo. Comte considerava a H.
ria e storia delia storiografia, p. 77). Para Hegel            como o desenvolvimento progressivo da Hu-
e para Croce o carter necessrio e providencial               manidade ou Grande Ser, que  "o conjunto
da H. deriva da crena de que a H.  obra de                   dos seres passados, futuros e presentes que
uma Razo Absoluta cuja perfeio e cuja po-                   concorrem livremente para aperfeioar a or-
tncia no conhecem limites.                                   dem universal" (Politiquepositive, 1854. IV, p.
    Uma forma levemente atenuada dessa con-                    30), e reconhecia que De Maistre tivera o mri-
cepo  a que considera a H. como revelao                   to de contribuir para preparar a verdadeira teo-
de Deus. Esse conceito no  estranho ao pr-                  ria do progresso com a sua revalorizao da            I
prio Hegel, para quem revelao de Deus no                     Idade Mdia, j que s depois dessa revalo-            j
mundo e realizao de Deus coincidem. Mas                      rizao a continuidade da tradio providencial        !
ele assinala a atenuao da relao entre os                   foi restabelecida (Ibid., I, p. 64). Por outro lado,   j
dois conceitos de revelao e realizao. Essa                 o marxismo considera a H. como um processo             i
atenuao j estava em Schelling, que definia a                unilinear e progressivo que, por meio da luta de       j
H. como "a revelao do Absoluto que se de-                    classes, necessariamente desembocar na so-
senrola contnua e gradualmente", distinguindo                 ciedade sem classes, que  a sociedade perfei-
trs perodos: o primeiro, em que a providn-                  ta. Marx diz, a propsito, que a passagem para
cia aparece como destino ou fora cega; o                      a nova sociedade ocorrer "com a mesma fata-
segundo, em que ela aparece como natureza;                     lidade que preside aos fenmenos da natureza"
o terceiro, em que ela aparece como provi-                     (Das Kapital, I, 24,  7). Mas fatalidade significa
dncia (System des transzendentalen Idealis-                   necessidade e trata-se de uma necessidade
mus, se. IV, Adendos, III, C; trad. it., p. 283 ss.).         providencial porque dela advir o modo de vida
O conceito de revelao foi usado freqente-                   definitivo e perfeito do gnero humano.
mente no fim do Romantismo do sc. XIX, bem                        4S As interpretaes, filosficas da H. gra-
no Espiritualismo e Idealismo do sc. XX. Nes-                 vitam quase todas em torno da noo da H.
sas suas manifestaes, conservou a conexo                    como totalidade ou mundo histrico. Na verda-
da idia de progresso que Schelling lhe atribura.             de, s essa noo permite falar da H. como
Tal conexo, porm, no  indispensvel. A re-                 objeto nico e simples, avalivel em seu con-
velao de Deus na H. pode no ser gradual,                    junto uma vez por todas. A noo de mundo
mas total e completa em cada ponto da H.                       histrico, como todas as noes totalitrias e
Cada poca, cada momento seu , nesse caso,                    a prpria noo de mundo (v.), est alm
uma revelao completa de Deus, segundo as                     das capacidades efetivas de investigao e
palavra* de Goethe: "O instante  a eternidade"                compreenso de que o homem dispe. A H.
e, segundo a frase do historiador Ranke, "Cada                 como objeto da historiografia nunca  um
poca est em relao imediata com Deus".                      mundo nesse sentido, isto , a totalidade abso-
Nesta forma, o conceito romntico da H. como                   luta dos acontecimentos humanos. Por vezes,
ordem providencial tambm foi aceito por al-                   um perodo histrico ou um conjunto de insti-
guns historicistas alemes como E. Troeltsch                   tuies  chamado de mundo (p. ex., "mundo
(Der Historismus und seine Probleme, 1922) e                   antigo", "mundo oriental", etc.) apenas no sen-
F. Meinecke (Dle Entstehung der Historismus,                   tido de totalidade relativamente homognea de
1936; Vom geschichtlichen Sinn und vom Sinn                    culturas, e no em sentido absoluto. A prpria
der Geschichte, 1939), preocupados em salvar                   expresso "mundo histrico", se tiver o signifi-
da mobilidade e da relatividade da H. o carter                cado de "objeto geral das disciplinas historio-
absoluto dos valores e o carter divino do cris-               grficas", no designa uma totalidade absolu-
tianismo (cf. PIETRO Rossi, Lostoricismo tedesco               ta, mas o campo relativamente homogneo no
 contemporneo, 1956, parte VI).                               qual atuam e se encontram as tcnicas das dis-
    Por outro lado, no  indispensvel que o                  ciplinas historiogrficas. Por isso, quando se
conceito da H. como ordem providencial se ba-                  entender por "realidade histrica" simplesmente
seie na crena de uma providncia de nature-                   o objeto do conhecimento histrico, estar-se-
za divina, imanente ou transcendente. "Ordem                   renunciando psofacto ao conceito de mundo
providencial" significa "ordem necessria e per-               histrico como totalidade absoluta e a qual-
feita": e uma ordem semelhante tambm  atri-                  quer juzo sobre essa totalidade. Estar-se- re-
HISTRIA                                              507                                          HISTRIA


nunciando, tambm, a considerar todos os fa-                1956, p. 46). O carter de unicidade do aconte-
tos como fatos histricos, visto que a afirma-              cimento provm das prprias tcnicas historio-
o de que todos os fatos so histricos (pre-              grficas que servem para verific-lo e ilustr-lo,
sente, p. ex., em CROCE, Lastoria comepensiero              sendo reflexo dessas tcnicas. O acontecimen-
e come azione, 1938, p. 19)  apenas outro                  to histrico s se mostra nico e no repetvel
modo de expressar a noo de H. como tota-                  quando sua abordagem historiogrfica  con-
lidade absoluta. Por outro lado, se a H. no  o            duzida a bom termo, de tal modo que o ditado
mundo histrico, no existe a histria. Toda                "a H. no se repete" exprime mais o ideal
H., desse ponto de vista,  a H. de alguma                  historiogrfico (alis, difcil de ser alcana-
coisa (um perodo, uma instituio, uma per-                do) do que um suposto carter do processo
sonalidade), mas no  um processo ou uma                   histrico.
substncia nica ou universal que compreen-                     2- A correlao do fato com os outros fatos,
da tudo dentro de si (cf. J. H. RANDALJR., Nature           graas  qual o fato  "explicado" ou "com-
and Historical Experience, 1958, p. 28). Desse              preendido". Tambm quanto a este segundo
ponto de vista, as expresses "objeto histri-              carter, a metodologia histrica contempornea
co" ou "realidade histrica" so apenas nomes               chegou a um ponto de concordncia satisfa-
comuns para indicar qualquer tema de investi-               tria. Ainda que no falte quem queira inter-
gao historiogrfica. A metodologia historio-              pretar a conexo entre os fatos histricos como
grfica contempornea, que historiadores e                  conexo causai (cf., p. ex., HEMPEL, loc. cit., p.
filsofos (em acordo fundamental) fizeram avan-             462 ss.) no intuito de mostrar que tanto a H.
ar notavelmente nestes ltimos tempos, permi-              quanto as cincias naturais fazem uso de um
te atribuir no objeto histrico os seguintes carac-         nico tipo de explicao, hoje j est bem
teres:                                                      claro que os historiadores rejeitaram a explica-
    Ia Individualidade ou unicidade, em vir-                o causai tanto quanto os estudiosos da F-
tude da qual o fato histrico se apresenta                  sica (cf., sobre este ponto, HISTORIOGRAFIA, e
como algo nico e no repetvel. O reconheci-               tambm CAUSALIDADE.; CONDIO; EXPLICAO).
mento explcito deste carter deve-se ao                    Com a recusa do esquema causai elimina-se
historicismo alemo. J afirmado por Dilthey                tambm da H. a noo de lei que est ligada a
(Gesammelte Schriften, V, p. 236), foi ressalta-            ele, j que uma lei s faz expressar uma suces-
do por Windelband (Prludien, IP, p. 145) e                 so causai de fatos. E com a eliminao do con-
por Rickert (Die Grenzen der naturwissens-                  ceito de lei tambm se eliminou o conceito de
 chaftlichen Begriffsbildung, 1896-1902, pp.                necessidade da. histria. Nesse aspecto,  preci-
251, 420, etc.) como conseqncia da distino              so lembrar que Kierkegaard foi o primeiro a re-
entre o procedimento generalizador das cin-                conhecer na H. a categoria da possibilidade: "O
cias da natureza e o procedimento indivi-                   passado no  necessrio ao momento em que
 dualizador das cincias do esprito. Este car-            vem a ser; no veio a ser necessrio vindo a ser
ter da H. s vezes suscitou desconfiana nos                (o que seria uma contradio); e vem a s-lo
 metodizadores porque pareceu um carter                    ainda menos por meio da compreenso que se
 "metafsico" (cf., p. ex., C. G. HEMPEL, em Rea-           tem dele (...) Se o passado viesse a ser necessrio
 dngs in Philosophical Analysis, ed. Feigl e               por meio da compreenso, ganharia aquilo que
Sellars, 1949, p. 461; GARDINER, The Nature of              a compreenso perderia, pois ento esta lti-
Histrica!Explanation, 1952, p. 43). Por outro              ma compreenderia uma coisa diferente e seria
lado, ningum nega que um acontecimento                     uma incompreenso" (PhilosophischeBrocken,
histrico seja nico no sentido de estar indi-              1844, IV,  4).
vidualizado pelos dois parmetros fundamen-                     3e O significado ou a importncia que o
tais, a cronologia e a geografia (cf. o mesmo               acontecimento possui como opo historiogrfi-
GARDINER, loc. cit.), e alm disso muitos reco-             ca. Tambm este carter  quase universalmen-
nhecem unicidade no acontecimento histrico,                te reconhecido na metodologia contempor-
no sentido "de ser diferente dos outros, com                nea. Pode ser considerado conseqncia do ca-
os quais seria naturalmente agrupado sob um                 rter precedente, visto que a importncia de um
termo classificador, sendo tambm diferente                 acontecimento consiste na capacidade por ele
quanto aos modos pelos quais desperta o inte-               demonstrada de condicionar de um modo qual-
resse dos historiadores que procuram explic-               quer os outros acontecimentos, isto , de pro-
lo" (W. DRAY, Laws and Explanation inHistory,               duzir, no seu decorrer, variaes que podem
HISTRIA IDEAL ETERNA                                    508                                     HISTORICISMO


 ser atribudas ao acontecimento em questo. Fica              indicar que Jesus foi uma pessoa real, no um
 suficientemente claro, porm, que o significado               mito.
 de um acontecimento (no sentido agora esclare-                    3. A importncia histrica que, s vezes, se
 cido) no  uma qualidade que lhe seja inerente               atribui tambm a fatos presentes e contempo-
 de modo absoluto e que o acompanhe em qual-                   rneos.
 quer contexto historiogrfico, mas pode variar                    HISTORICISMO (in. Historicism- fr. Histo-
 segundo os contextos ou as escolhas que os                     ricisme, ai. Historismus; it. Storicism). Por esse
 regem: de tal modo que um acontecimento im-                   termo, empregado pela primeira vez por Novalis
 portante em um deles ter menos ou nenhuma                    {Werke, III, p. 173), podem ser entendidas trs
 importncia em outro.                                         linhas de pensamento diferentes, a saber:
     O primeiro dos caracteres acima arrola-                        Ia Doutrina segundo a qual a realidade 
 dos, a individualidade, pode ser utilizado para               histria (desenvolvimento, racionalidade e
 distinguir o objeto historiogrfico do objeto so-             necessidade) e que todo conhecimento  co-
 ciolgico ou, em geral, do objeto das cincias                nhecimento histrico; foi expressa por Hegel
 sociais, que possui o carter oposto de repe-                 (cf. especialmente Geschichte der Phlosophie,
 tibilidade (cf. AHBAGNANO, Problemi d socio-                 I, intr.) e por Croce (La storia come pensiero e
 logia, 1959, II, 5). E o conjunto dos trs carac-             come azone, 1938, p. 51). Essa  a tese fun-
teres serve para distinguir o fato histrico do                damental do idealismo romntico (v.), que
fato jornalstico comum, que no  individua-                  supe a coincidncia entre finito e infinito,
 lizado, no tem conexes suficientes com                      entre mundo e Deus, e considera a histria co-
 outros fatos e no  significativo.                           mo realizao de Deus. Pode chamar-se H. ab-
                                                               soluto.
    HISTRIA IDEAL ETERNA. V HISTRIA
    HISTRIA UNIVERSAL. V. HISTORIO                                2- Uma variante da doutrina precedente,
GRAFIA.
                                                               que v na histria a revelao de Deus no sen-
                                                               tido de considerar que cada momento da his-
   HISTRICAS, FONTES (in. Historical sour-
                                                               tria est em relao direta com Deus e 
ces; fr. Sources historiques; ai. Historische                  permeado dos valores transcendentes que Ele
Quellen; it. Fonti storiche). Com esta expresso               incluiu na histria. Foi o ponto de vista defen-
indica-se comumente o material da pesquisa                     dido por E. Troeltsch e F. Meinecke (cf. o ver-
historiogrfica. As fontes H. costumam ser divi-               bete HISTRIA, 3, ). Pode-se chamar essa dou-
didas em restos e tradies. Os restos so: 1) o               trina de H. fidesta porque a revelao de Deus
que ficou das obras produzidas pelo homem                      no H. ocorre substancialmente por meio da f.
(casas, pontes, teatros, utenslios, etc); 2) os
                                                                   3a A doutrina para a qual as unidades cuja
modos de vida das comunidades (usos, costu-                    sucesso a histria constitui (pocas ou Civili-
mes, ordenaes jurdicas, polticas, etc); 3) as              zaes) so organismos globais cujos elemen-
obras literrias e filosficas; 4) os documentos               tos, necessariamente vinculados, s podem
em geral.                                                      viver no conjunto; afirma, portanto, a relati-
    Os restos da produo humana cujo objetivo                 vidade entre os valores (que so alguns desses
seria transmitir a memria de um acontecimento                 elementos) e a unidade histrica a que perten-
chamam-se monumento. O mesmo se diz dos                        cem; sendo inevitvel a morte desses elemen-
documentos, cuja finalidade  transmitir para o                tos com a morte dessa unidade. Esse  o ponto
futuro a concluso de um fato, e das inscries,               de vista de Spengler e de outros, e pode cha-
medalhas, moedas, etc.                                         mar-se H. relativista. Existe tambm, pelo me-
    Fontes de tradio so aquelas atravs                     nos em polmica, uma noo vulgar desse H.,
das quais se transmitiu a memria dos fatos                    segundo a qual a histria seria um movimento
passados; podem ser orais e escritas (cf. G.                   incessante que empolga tudo, mesmo a ver-
G. DROYSEN, Grundzge der Historik, 1882,                      dade e os valores, imediatamente depois do
 20-24).                                                      instante em que florescem. A doutrina mais
    HISTORICIDADE (in. Historicity, fr. His-                   prxima dessa concepo  defendida por G.
 toricit, ai. Geschichtlichkeit; it. Storicit). 1. O         Simmel; para ele, a vida  um fluir incessante
modo de ser do mundo histrico ou de qual-                     que resolve e concilia todas as coisas dentro de
 quer realidade histrica.                                     si: "O bem e o mal que fazemos e que recebe-
    2. A existncia de fato no passado; neste                  mos, o belo que nos deleita e o feio de que fu-
sentido se diz, p. ex., "a H. de Jesus", para                  gimos, as sries acabadas e as que foram inter-
HISTORIOGRAFIA                                        509                                  HISTORIOGRAFIA

rompidas na nossa vida, todas estas coisas, por             Historie, it. Storiografia). O termo historiogra-
mais dspares que sejam, constituem elementos               phus aparece em Cornlio Agripa {De in-
da vida, como cenas de um destino, na cone-                 certitude et vanitate scientiarum, 1527, Cap. V,
xo das vivncias que continuam incansvel e                em Opera, II, p. 2,27) e o termo historiographie
ininterruptamente: em uma vida, cujo sentido,                encontrado num idlio em prosa do poeta in-
justamente como vida, supera todas as oposi-                gls Nicholas Breton (Wits Trenchmour, 1597).
es que seus contedos possam apresentar,                  Foi adotado por T. Campanella para indicar "a
segundo outros critrios" (Hauptprobleme der                arte de escrever corretamente a histria" (Phi-
Philosophie, 1910, IV; trad. it., p. 201) . O mes-          losophiae Rationalis partes qunque, videlicet
mo Simmel, porm, admitia alguma coisa que                  Grammatica, Dialectica, Rethorica, Potica,
mais que vida (v.),  a forma da prpria vida               Historiographia, iuxta prpria principia, 1638,
que dela emerge e para ela retorna (Lebensans-              p. 243). Permaneceu com esse significado em
chauung, 1918, pp. 22-23) .                                 ingls e em francs (o alemo usa Historik), ao
    4a A corrente da filosofia alem que, nos               passo que em italiano passou a significar, na
ltimos decnios do sc. XIX e nos primeiros do             esteira de Croce, o conhecimento histrico em
sc. XX, debateu o problema crtico da histria.            geral ou o conjunto das cincias histricas.
O fato de, no sc. XIX, as disciplinas histricas           Dada a ambigidade do termo histria,  opor-
terem sido aladas ao nvel de cincia criava               tuno dispor de um termo adequado para indi-
um problema anlogo ao que Kant se propu-                   car o conhecimento histrico, na sua distino
sera a respeito das cincias naturais: o pro-               da realidade histrica.
blema da possibilidade da cincia histrica, ou                 As interpretaes dadas sobre esse conhe-
seja, da sua validade. Esse problema foi debatido           cimento so fundamentalmente duas, que po-
na Alemanha a partir dos textos de Dilthey,                 dem ser qualificadas como A) historiografia
especialmente Einleitung in die Geisteswissens-             universal; B) historiografia pluralista. A inter-
chaften (1883), em que ele procura estabele-                pretao do conhecimento histrico como his-
cer a diferena entre as disciplinas historio-              tria universal corresponde  interpretao da
grficas e as cincias naturais, indicando como             realidade histrica como mundo. A interpreta-
instrumento principal das disciplinas histri-              o dela como histria pluralista corresponde 
cas a "psicologia analtica e descritiva", cujo             interpretao da realidade histrica como obje-
instrumento fundamental  a vivncia (v.).                  to definvel ou verificvel s atravs dos ins-
Windelband e Rickert contriburam, por sua vez,             trumentos de pesquisa de que se dispe.
para delimitar conceitualmente o domnio das                    A) A histria universal, ou melhor, csmica
disciplinas historiogrficas, distinguindo entre as         (ai. Weltgeschichte),  o conhecimento do plano
cincias nomotticas ou generalizantes, que so             providencial do mundo histrico (cf. HEGEL,
as naturais, e as cincias idiogrficas ou indivi-          Phil. der Geschichte, ed. Lasson, p. 52). Tem
dualizantes, que so as histricas (v. CINCIAS,            duas caractersticas fundamentais:
CLASSIFICAO DAS). OS problemas da expli-                      Ia  tarefa do filsofo, e no do historiador,
cao (v.) e da compreenso (v.) da realidade               e a obra do historiador pode servir-lhe apenas
histrica eram tambm debatidos nessas escolas              como auxlio no indispensvel. Fichte, que a
no s por Dilthey, Windelband e Rickert, mas               chama "histria apriori", afirma: "Compreender
tambm por Simmel, Troeltsch e Meinecke; con-               com clara inteligncia o universal, o absoluto, o
tudo, a sua contribuio mais substancial veio              eterno e o imutvel que guia a espcie humana
de Max Weber, que encarou sobretudo o pro-                   tarefa do filsofo. Fixar de fato a esfera sem-
blema da explicao histrica e da causalidade              pre cambiante e mutvel dos fenmenos atra-
da histria. A herana dessa escola, que iniciou            vs dos quais marcha em passo firme a espcie
a elaborao da metodologia histrica, foi rece-            humana,  tarefa do historiador, cujas descober-
bida pelos modernos metodizadores da histria               tas so s casualmente recordadas pelo filso-
(sobre os quais, V, HISTORIOGRAFIA) (cf. R. ARON,           fo" (Grundzge des gegenwrtigen Zeitalters,
La philosophie critique de Vhistoire, Essais sur            1806, IX; trad. it., Cantoni, p. 67). Hegel, em
 une thorie allemande de Vhistoire, 2a ed., 1950;          polmica com os grandes historiadores do seu
P. Rossi, Lo storicismo tedesco contemporneo,              tempo, degradados a "fillogos" (v. FILOLOGIA),
1956).                                                      afirmava: "Para conhecer o substancial,  preci-
   HISTORIOGRAFIA (lat. Historiographia, in.                so ter acesso a ele por meio da razo... A filosofia,
History, fr. Histoire-, ai. Geschichte, s vezes            na certeza de que o que impera  a razo, ficar
HISTORIOGRAFIA                                           510                                  HISTORIOGRAFIA


convencida de que o ocorrido encontrar lugar                  sentido absoluto. Embora a antigidade grega
no conceito e no alterar a verdade, como hoje                nos tenha legado exemplos excelentes de H.
 moda particularmente entre os fillogos                      nesse sentido (p. ex., a obra de Tucdides e de
que, usando aquilo que chamam de acuidade,                     Polbio), os fundamentos do que hoje se cha-
introduzem na histria elementos francamente                   ma metodologia historiogrfica comearam a
apriorsticos" (Op. dt., p. 8). Era isso que tinham            aclarar-se s a partir do Renascimento e a ser
em mente Croce, ao identificar filosofia e hist-              definidos por historiadores e filsofos s nos
ria (.Teoria estria delia storiografia, 1917, pp.             ltimos anos. Tais fundamentos podem ser re-
71 ss.), e Gentile, ao identificar histria e histria         sumidos do seguinte modo:
da filosofia (Teoriageneraledellospirito, 1920,                    le O conhecimento histrico  perspec-
XIII, 14).                                                     tivista-. mantm afastamento em relao ao pas-
    2a  independente das limitaes do mate-                  sado e quer entend-lo no seu tempo e lugar,
rial historiogrfico e dos instrumentos de pes-                sem assimil-lo ou reduzi-lo ao presente. O
quisa, podendo, pois, prescindir de qualquer                   reconhecimento da alterdade entre a expe-
histria que tenha sido ou que possa ser escri-                rincia histrica e a realidade histrica, entre o
ta. Fichte considerava a histria a priori com-                sujeito histrico e o objeto histrico, ou entre
pletamente independente da histria a poste-                   o presente e o passado,  uma das condies
riori, que  do historiador (Op. cit.). Hegel                  fundamentais da pesquisa histrica. Constitui a
afirmava que, para reconhecer a realidade                      contribuio do Humanismo para a metodo-
substancial da histria,  preciso "trazer consi-              logia histrica. Pois, enquanto a Idade Mdia
go a conscincia da razo: no olhos fsicos,                  ignorava a perspectiva histrica, transformando
no um intelecto finito, mas o olho do concei-                 os fatos e os acontecimentos mais heterog-
to, da razo", e portanto confiar no modo de                   neos e distantes em fatos e acontecimentos con-
proceder rigorosamente apriorstico" (Phil. der                temporneos, o Humanismo procurou enten-
Gescbichte, I, p. 8). Croce falava de uma "anam-               der o passado como passado, a antigidade
nese" do Esprito Universal que teceu a histria               como antigidade, o outro, como outro (cf. E.
e para o qual as fontes da histria servem apenas              GARIN,     Medioevo e Rinascimento,      1954,   II,
como motivos de recordao (Teoria e storia                    5). A exigncia de "reviver" o passado, de faz-
delia storiografia, p. 16). O prprio Heidegger                lo "voltar", seria falsificadora da histria, se to-
compartilha desta concepo da histria csmi-                 mada ao p da letra (cf. H. 1. MARROU, Dela
ca; adverte que "histria csmica" significa em                connaissancehistorique, 1954, pp. 43 ss.), assim
primeiro lugar "o historicizar-se do mundo na                  como seria falsificadora da histria, se tomada
sua essencial unidade existencial com o Ser-a";               ao p da letra, a exigncia apresentada por Croce
em segundo lugar, "o historicizar-se intra-                    (Teoria estria delia storiografia, pp. 3 ss.; La
mundano dos instrumentos e das coisas"; em                     storia comepensiero e come azione, 1938, p. 5),
ambos os sentidos, a histria csmica  inde-                  de que toda histria seja entendida como "his-
pendente do conhecimento historiogrfico (Sein                 tria contempornea". Um corolrio da exign-
 und Zeit,  75), de tal sorte que  a escolha                 cia da perspectiva histrica  o afastamento em
implcita na historicidade do Ser-a que deter-                relao ao passado, que Nietzsche atribua 
mina a escolha historiogrfica (Ibid.,  76).                  histria crtica (ao lado da histria arqueolgica,
    B) A H. pluralista caracteriza-se, em primei-              que "conserva e venera", e da histria monu-
ro lugar, pelo abandono de conceitos como                      mental, que exalta e encoraja, Unzeitgemsse
"mundo histrico" ou "histria universal" e                    Betrachtungen, 1873, II), afastamento que
pelo reconhecimento da pluralidade das formas                  Nietzsche entendia como abandono do passa-
do conhecimento histrico e da sua depen-                      do e encaminhamento do presente para novos
dncia em relao ao material documentrio                     caminhos, e que certamente  um dos ensi-
 disponvel e aos princpios que orientam a esco-              namentos da historiografia. Mas h tambm um
 lha historiogrfica. Deste ponto de vista, o co-              afastamento em relao ao presente, inerente 
 nhecimento histrico autntico versa sempre                   atitude historiogrfica preconizada sobretudo
 sobre objetos delimitados ou delimitveis, nun-               pelo Iluminismo, e expressa por P. Bayle em
 ca sobre a totalidade da histria; e nunca                   palavras que ficaram famosas: "O historiador
 juzo sobre essa totalidade, de sorte que ex-                 deve esquecer que pertence a certo pas, que
 clui, como desprovidos de sentido, os conceitos               foi criado em certa comunidade, que seu des-
 de progresso, decadncia, etc, entendidos em                  tino se deve a isto ou quilo e que fulano e
HISTORIOGRAFIA                                       511                                  HISTORIOGRAFIA


sicrano so seus parentes ou seus amigos. Um               pour 1'histoire, 1952, p. 2; H. I. MARROU, Dela
historiador, enquanto tal, assim como Mel-                 connaissance historique, 1954, pp. 209 ss.; W.
quisedeque, no tem pai, me, nem genealogia"              DRAY,  Laws and Explanation in History, 1957,
(Dictionnaire, art. Usson, rem. F.). O ideal pro-          pp. 98 ss.; J. H. RA\DALL, Nature and Historical
posto por Bayle  difcil, para no dizer impos-           Experience, 1958, pp. 25, 45, etc). O carter
svel, porque, como os historiadores hoje reco-            seletivo da H. tambm  reconhecido por K.
nhecem (cf., p. ex., MARROU, op. cit., cap. II), a         POPPF.R, The Poverty of ' Hstoricism, 1944,  31, e
interferncia ativa dos interesses e das tendn-           pelo marxista L. GOLDMANN, Sciences humaines
cias do historiador sempre condiciona, em cer-             etphilosopbie, 1952, p. 4. J. H. Randall ilustrou
ta medida, os resultados da sua investigao e             deste modo a funo seletiva da H.: "O histo-
at mesmo a descoberta dos fatos. Entretanto, a            riador deve fazer uma escolha. Na infinita varie-
tcnica da investigao historiogrfica no ten-           dade de relaes revelada pelos acontecimen-
de mais a descarnar ou desumanizar o historia-             tos passados, deve escolher o que  importante
dor, como queria Bayle, mas a limitar e a dis-             ou fundamental para a sua histria. Para que
ciplinar a interferncia dos seus interesses na            a seleo no seja apenas aquilo que parece
pesquisa.                                                  importante para ele, para no ser subjetiva e
    2" O conhecimento histrico  individua-               arbitrria, deve ter um foco objetivo em alguma
lizante, porque individualizantes so os ins-              coisa que deve ser feita, em alguma coisa que
trumentos de que se vale. A individualidade                ele considere obrigatria ou imposta aos ho-
ou unicidade (no-repetibilidade), amide atri-            mens, em algum Aufgabe ou facendum, em
buda aos fatos histricos, na verdade  refle-            algum trabalho que deve ser feito" (op. cit, p. 60).
xo dos instrumentos que os examinam (v. HIS-               A possibilidade da escolha no implica a pos-
 TRIA). Em primeiro lugar, todo acontecimento             sibilidade de que o passado mude. "No que o
histrico  individualizado pelos dois par-               passado em si mesmo possa mudar; o que pode
metros fundamentais: cronologia e geografia.               mudar  a seleo que o presente faz do pas-
Em segundo lugar, a documentao da H. tem                 sado. O que signiflcante e relevante no passado
carter individualizante. Um documento, uma                de cada coisa muda  medida que a prpria
moeda, uma inscrio sempre se referem a um                coisa muda e se desenvolve" (op. cit., p. 36). A
nico fato; o mesmo ocorre com o relato. Em                escolha historiogrfica  feita, em primeiro lu-
terceiro lugar, tm carter individualizante os            gar, em relao aos fatos, mas tambm, e si-
critrios de escolha historiogrfica, porque ten-          multaneamente, em relao s hipteses que
dem a pr em evidncia um fato entre outros, a             esto incorporadas na prpria verificao dos
ressaltar seu significado ou sua importncia,              fatos. A escolha de uma hiptese no  neces-
portanto o seu carter de algum modo "singu-               sariamente sugerida ao historiador por suas pr-
lar" ou "nico". A unicidade do fato histrico s          prias simpatias ou tendncias; s vezes, como
vezes foi criticada como carter supostamente              ocorre no caso de Tucdides, a hiptese que
metafsico da realidade histrica (cf. os textos           ele apresenta e acha comprovada pelos fatos 
citados no verbete HISTRIA, 4, 1), mas no                contrria a todos os seus desejos. O pluralismo
poder suscitar objees, se for entendida como            das escolhas, isto , a possibilidade de efetuar
resultado do carter individualizante dos instru-          opes historiogrficas diferentes e de mudar
mentos historogrficos. Pode-se dizer que o               e corrigir as j efetuadas,  uma das condies
grau de individualidade do fato histrico deriva           do conhecimento histrico. Por vezes, os fil-
do grau de xito que a investigao historio-              sofos tentaram limitar, por princpio, a plura-
grfica logra obter. Um fato se mostra no-                lidade das escolhas, ou seja, estabelecer um
 repetvel quando a investigao historiogrfica           princpio que orientasse unilateralmente, em
consegue reconstru-lo em sua individualidade              cada caso, a seleo historiogrfica. Foi o que
completa, mas essa individualidade  ideal                 fez Hegel, ao afirmar que a histria  "histria
 historiogrfico, mais que fato.                           do esprito", obrigando assim a escolha do
                                                           historigrafo a deter-se nas idias e a declarar
    3a O conhecimento histrico  seletivo. Este           historicamente inexistente todo o resto. Foi o
  um dos pontos pacficos na metodologia                  que fez tambm o materialismo histrico (v.),
historiogrfica (R. ARON, Introduction  Ia                ao afirmar que a histria , em primeiro lugar,
philosophie de Vhistoire, 1948; ed. 1952, pp. 131          histria das "relaes de produo de traba-
ss.; P. GARDINF.R, The Nature of Historical Ex-            lho", e que todo o resto  "superestrutura", que
planation, 1952, pp. 104 ss.; M. BLOCH, Apologie
HISTORIOGRAFIA                                       512                                           HOMEM


no determina, mas decorre. No h dvida de               storico-sociali, p. 223). Por certo, qualquer his-
que essas tentativas de limitao da escolha               toriador julgaria sem sentido a tentativa feita
historiogrfica, especialmente a marxista, cha-            por Renouvier, em Uchronie, de imaginar "o
maram a ateno para fatos que podiam ser ou               desenvolvimento da civilizao europia tal
que eram negligenciados, aguando, por assim               com poderia ter sido, mas no foi". Contudo,
dizer, o olhar do historiador para caminhos me-            como diz R. Aron: "Todo historiador, para ex-
nos trilhados. Em ltima anlise, porm, e se              plicar o que foi, pergunta-se o que poderia ter
assumidos como princpios absolutos para a                 sido. A teoria limita-se dar forma lgica a essa
limitao das escolhas, negariam a pluralidade             prtica espontnea do homem comum" (op.
das escolhas, impediriam a sua retificao, e aca-         cit., p. 164; cf. MARROU, op. cit., p. 181). Por
bariam por falsear a histria, ocultando esferas           mais que os historiadores e os metodizadores
de fatos que no so os privilegiados por essa             da histria continuem a falar de "causa", o sen-
tendncia.                                                 tido que do a essa palavra nada tem que ver
   4a O conhecimento histrico no visa  ex-              com seu significado tradicional: por isso, seria
plicao causai, mas  explicao condicional.             interessante que,  mudana conceituai j ocor-
Embora no falte quem ainda insista no carter             rida, se seguisse a mudana terminolgica (Cf.
causai da explicao histrica (cf., p. ex. HEM-           uma bibliografia selecionada sobre a metodolo-
PEL, em Readings in PhlosophicalAnalysis, ed.             gia historiogrfica em Theory and Practice in
Feigl. e Sellars, 1949, pp. 459 ss.; GARDINER, op          Historical Study: a Report ofthe Committee on
cit,, pp. 65 ss.), tende a prevalecer entre os             Historiography, 1942, e cf. sobre os autores tra-
metodizadores da histria a opinio de que as              tados neste verbete: P. Rossi, Storia estoricismo
noes de causa e de lei tm pouca possibili-              nella filosofia contempornea, 1960).
dade de aplicao no domnio historiogrfico
(como tambm, alis, no domnio da fsica).                    HOLISMO (in. Holism; fr. Totalisme, ai. Ho-
Nesse sentido, a obra citada de W. Dray  parti-           lismys; it. Olism). 1. Uma variante da doutrina
cularmente significativa (v. o verbete EXPLICA-            da evoluo emergente (v.), que consiste na
O). A preferncia pela explicao condicio-              inverso da hiptese mecanicista e em consi-
nal reduz a importncia da oposio entre                  derar que os fenmenos biolgicos no de-
explicao e compreenso, que por certo tem-               pendem dos fenmenos fsico-qumicos, mas
po pareceu expressar a oposio entre cincias             o contrrio. Esta hiptese nada mais  que uma
da natureza e cincias do esprito. De fato, tan-          forma mal disfarada de vitalismo. Cf. J. C.
to a explicao quanto a compreenso consis-               SMLTS, Holism and Evolution, 1927; J. S. HAL-
tem na determinao da possibilidade do obje-              DANE, ThePhilosophicalBasis of Biology, 1931;
to (v. COMPREENSO).                                       DRIESCH, Zur Kritik des Holismus, 1936.
   5S O conhecimento histrico visa  deter-                   2. K. Popper denominou H. a tendncia dos
minao de possibilidades retrospectivas. Esta            historicistas em sustentar que o organismo so-
uma conseqncia da renncia da H. ao es-                  cial, assim como o biolgico,  algo mais que a
quema causai (que supe a necessidade do                   simples soma dos seus membros e  tambm
objeto histrico) e do seu recurso ao esquema              algo mais que a simples soma das relaes
condicional. Este esquema consiste na determi-             existentes entre os membros (The Poverty of
nao de possibilidades, ou melhor, de proba-              Historicism, 1944,  7).
bilidades retrospectivas. Essa caracterstica j               HOLOMERIANOS (in. Holomerians- ai. Ho-
foi atribuda ao conhecimento histrico por                lomerianer, it. Olomeriani). Henri Moore deno-
Max Weber: "A considerao do significado                  minou assim os que acreditam que a alma re-
causai de um fato histrico comear com a se-             side na totalidade do corpo, e no em parte
guinte pergunta: excluindo os acontecimentos               dele. (Enchiridion metaphysicum, I, 27, 1).
do conjunto de fatores considerados condicio-                  HOMEM (gr. v0pco7CO; lat. Honra, in. Man;
nantes, ou mudando-os para determinado sen-                fr. Homme, ai. Mench; it. Uom). As definies
tido, e tomando como base regras gerais da ex-             de H. podem ser agrupadas sob os seguintes t-
perincia, seu curso teria podido tomar direo            tulos: ls definies que se valem do confronto
de algum modo diferente, nos aspectos decisi-              entre o H. e Deus; 22 definies que expressam
vos para o nosso interesse?" (Krtiscbe Studien            uma caracterstica ou uma capacidade prpria
auf dem Geliet der kulturwissenschaftlichen                do H.; 3a definies que expressam a capacida-
Logik, 1906; trad. it. em II mtodo delle scienze          de de autoprojetar-se como prpria do H.
HOMEM                                                513                                                HOMEM

    ls As definies do primeiro grupo so de              mente a mesma. Feuerbach, p. ex., diz que o
natureza religiosa e teolgica, mas tambm po-             H. se revela e se define no seu conceito de
dem ser encontradas em doutrinas que nada                  Deus. "O ser absoluto, o Deus do H.,  o ser
tm de religioso e teolgico. Qualquer defini-             do H.", diz ele (Wesen des Christentum,  ).
o desse gnero baseia-se na expresso do                 Aquilo que o H. pensa de Deus  a definio
Gnese. "E Deus disse: faamos o H.  nossa                de H.: "Pensas o infinito? Ento pensas e afirmas
imagem e semelhana" (Gn., I, 26). Esta ex-               a infinidade do poder do pensamento. Sentes
presso servia freqentemente de ponto de                  o infinito? Sentes e afirmas a infinidade do poder
partida para especulaes sobre a alma, espe-              do sentimento" (Ibid). As teses de existncia
cialmente sobre suas divises (v. ALMA): na rea-           ou inexistncia de Deus no influem nessas de-
lidade, ela  a definio explcita do H. e, como          finies de H., que se ancoram ao confronto
tal, foi considerada pelos telogos da Reforma.            entre o H. e Deus. Assim, em Nietzsche, aps
Por outro lado, Aristteles, ao tratar da vida             a proclamao de que "Deus morreu", Zaratustra
contemplativa, falou de um "elemento divino"               anuncia o Super H., como aquilo que est alm
do H., que, na mesma medida em que excede                  do H. "A grandeza do H. est no fato de que
no todo que constitui o H., torna o H. virtuoso            ele  ponte e no fim: o que pode faz-lo amar
e bem-aventurado (Et. nic, X, 6, 1177b 26).                 o fato de ser ele uma passagem e um ocaso"
Mas esse tipo de definio do H. na tradio               (Also sprach Zarathustra, Prol.,  4). Em sentido
filosfica teve como inspirao constante a B-            anlogo ao de Feuerbach e Nietzsche, mas
blia. Viram o H. como imagem de Deus: CAL-                 acrescido do conceito de fracasso ao qual o H.
VINO (Institutie, I, 15, 8) e ZWNGUO (Deutsche            est destinado, Sartre disse: "Se o H. possui
Schrifter, I, 56). Atravs das ricas amplificaes         uma compreenso pr-ontolgica do ser de
de JACOB BOEHME (cf., p. ex., Aurora oder die              Deus, ela no lhe foi conferida pelos grandes
Morgenrthe im Aufgang, VI, I), esse conceito              espetculos da natureza nem pelo poderio da
passou para a filosofia romntica alem. Spinoza           sociedade: mas Deus, valor e objetivo supremo
dizia que "a essncia do H.  constituda por              da transcendncia, representa o limite perma-
certas modificaes dos atributos de Deus" (Et.,           nente a partir do qual o H. se anuncia aquilo
II, 10. Corol.). Nas lies sobre a Destinao do          que ele . Ser H.  tender para Deus; ou, se
douto, em 1794, Fichte apontava como tarefa                assim preferirem, o H.  fundamentalmente
do H. adequar-se  unidade e  imutabilida-                desejo de ser Deus" (Vtre et le nant, pp.
de do Eu absoluto, segundo a mxima "age de                653-54).
tal forma que possas considerar a mxima da
                                                             .. 2- jAs definies que exprimem uma caracte-
tua vontade uma lei eterna para ti" (ber die
                                                           rstica ou uma capacidade atribuda ao H. so
Bestimmung des Gelebrten, 1794, I). Mas o Eu
                                                           numerosas; a primeira e mais famosa  a de-
absolu.to  o princpio ou a substncia do H., e
                                                           finio de H. como "animal racional". Essa
sua unidade e sua imutabilidade so apenas a
                                                           definio expressa bem o ponto de vista do
unidade e a imutabilidade de Deus, de tal for-
                                                           Iluminismo grego e o esprito das filosofias de
ma que a melhor maneira de expressar a dou-
                                                           Plato e Aristteles. Mas no se encontra expli-
trina de Fichte a esse respeito  que o H., em
                                                           citamente ern Plato, que teria dito somente
seu princpio ideal,  Deus e deve esforar-se
                                                           que o H.  animal "capaz de cincia" (Def,
por tornar-se tal. Analogamente, para Hegel o
                                                           415a), determinao que Aristteles repete,
H.  essencialmente Esprito e o Esprito 
                                                           considerando-a como peculiaridade do H.
Deus. Diz: "Conquanto considerado finito por
                                                           (Top., V, 4, 133 a 20). Mas em Poltica Aristte-
si mesmo, o H.  tambm imagem de Deus e
                                                           les afirma que "o H.  o nico animal que pos-
fonte da infinidade em si mesmo, pois  o fim
                                                           sui razo", e que a razo serve para indicar-lhe
de si mesmo e tem em si mesmo o valor infinito
                                                           o til e o pernicioso, portanto tambm o justo e
e a destinao para a eternidade" (Philosophie
                                                           o injusto (Poi, I, 2, 1253a 9; cf. VII, 13, 1382b,
der Geschichte, ed. Gloekner, p. 427). Hegel
                                                           5). Aceita pelos esticos (SEXTO EMPRICO, Pirr.
define cristianismo como a posio de "unida-
                                                           hyp., II, 26; J. STOBEO, Ecl, II, 132), essa defini-
de do H. e de Deus" (Ibid., p. 416). Nessas
                                                           o tornou-se clssica e a ela recorrem habi-
definies de H., a relao do H. com Deus 
                                                           tualmente os escritores medievais (cf., p. ex., S.
vista de forma positiva.
                                                           TOMS, S. Th., II, 1, q. 71, a. 2; II, 2, q. 34, a. 5).
   Mas essa relao pode ser vista de modo ne-              essa a nica definio que penetrou na cultura
gativo ou invertido, permanecendo substancial-             comum, e os filsofos tambm se referem a ela
HOMEM                                                 514                                           HOMEM


 para introduzir variaes que se coadunem                  tica da autoprojetabilidade, que o terceiro gru-
com o sentido especfico que dem  palavra                 po de definies atribui ao homem.
razo. P. ex., a definio de Rosmini, "o H.                    Uma segunda e mais especfica determina-
um sujeito animal dotado da intuio do ser                 o, que tem servido freqentemente para defi-
ideal indeterminado" (Antropologia,  23), ex-              nir o H.,  sua natureza poltica, socivel.; J
pressa a mesma coisa que a definio tradicio-              mencionada por Plato (Def, 415a), esta de-
 nal, porque, para Rosmini, a "percepo do ser             terminao  estreitamente ligada por Aristteles
 ideal indeterminado"  a razo (Nuovo saggio,               natureza racional do homem. "Quem no
 396). A definio de De Bonald, famosa por                pode fazer parte de uma comunidade ou quem
algum tempo, "o H.  uma inteligncia servida               no precisa de nada, bastando-se a si mesmo,
por rgos" (Euvres, 1864,1, p. 41; III, p. 149),          no  parte de uma cidade, mas  fera ou
tambm nada mais  que uma parfrase da                     Deus" (Poi, I, 2, 1253 a 27). Obviamente, para
definio tradicional, porquanto nela o "servi-             Aristteles,  estreita a conexo entre racio-
o dos rgos"  equivalente a "animalidade".               nalidade e poltica, podendo-se dizer o mesmo
 ainda mais famosa a definio de Pascal, "o               de todos aqueles que, depois dele, adotarem a
H. nada mais  que um junco, o mais frgil da               mesma definio. Hobbes, que combatia essa
natureza, mas  um junco pensante" (Penses,                definio, interpretava-a como se significasse:
347), que tambm pode ser considerada va-                   "O H. est apto, desde o nascimento, a viver
riante da definio traciicional, em que a co-              em sociedade"; afirmava que, nesse sentido,
notao da fragilidade natural do H. tomou o                ela  falsa, porque o H. s se torna apto para a
lugar da "animalidade". Por outro lado, Descar-             vida social graas  educao (De eive, I, 2, e
tes dispensara a animalidade e reduzira o H. a              nota). Mas o significado mais bvio dessa defi-
pensamento, como conscincia imediata: "Para                nio  que o H. no pode deixar de viver em
falar com preciso, sou apenas uma coisa que                sociedade; nesse sentido, nem mesmo Hobbes
pensa, um esprito, um intelecto ou uma razo"              duvida de sua fundamental exatido. No en-
(Md., II), Mas, na definio tradicional, a ani-           tanto, essa definio no fi proposta para de-
malidade servia, por um lado, para explicar a               terminar a natureza do H. em sua totalidade.
bvia limitao da atividade pensante do H. e,                  Quem tem a pretenso de expressar a totali-
por outro, para reconhecer no H. um ser ter-                dade do H.  Bergson: "Se pudssemos despir-
restre ou mundano, que necessita de rgos.                 nos do nosso orgulho, se, para definir nossa
Em sentido cartesiano, Hus.serl disse: "Se o H.            espcie, nos ativssemos estritamente quilo
um ser racional (animal rationale), s o  na               que a histria e a pr-histria nos apresentam
medida em que toda a sua humanidade  uma                   como caracterstica constante do H. e da inte-
humanidade racional, na medida em que  la-                 ligncia, talvez no dissssemos Homo sapiens,
tentement orientado para a razo ou aber-                  mas Homofaber. Em concluso, a inteligncia,
tamente orientado para a entelquia que se                  considerada naquilo que parece ser a sua tarefa
revelou e guia, conscientemente e por neces-                original,  a faculdade de fabricar objetos ar-
sidade essencial, o devir humano" (Kriss, 1954,            tificiais, particularmente utenslios para fazer
 6). A ltima e mais atualizada verso da antiga           utenslios, e de variar indefinidamente a fabri-
definio diz que o H.  um animal simblico,               cao deles" (vol. cratr, 8a ed., 1911, p. 151).
ou seja, um animal que fala (CASSIRER, Essayon              Na realidade, porm, o prprio Bergson admite
Man, cap. II). Esta caracterstica, na verdade, es-         que em torno da inteligncia h um "halo de
tava presente no mesmo termo grego que sig-                 instinto", considerando possvel o retorno da
nifica razo: logos, que  o discurso racional ou           inteligncia ao instinto, por meio da intuio:
a razo que se faz discurso. Na filosofia con-              isso deveria significar que o H. no  apenas
tempornea, essa definio serve para expres-               Homo faber.
sar o poder condicionante da linguagem, do                      3S O terceiro grupo de definies compreen-
comportamento sgnico em todas as atividades                de as que interpretam o homem como possibi-
do homem. Esse poder dificilmente poderia ser               lidade de autoprojep.t Quase todas as defini-
exagerado, e a definio em pauta est, com                 es do segundo grupo, mesmo partindo de
justia, entre as mais difundidas e aceitas na fi-          uma nica determinao do H., considerada
losofia contempornea. Contudo, no pode ser                prpria e fundamental, interpretam-na, ex-
compreendida sem levar em conta a caracters-               plcita ou implicitamente, como possibilidade,
HOMEM                                                 515                                           HOMEM

como capacidade ou disposio. Ao defender a                as coisas inferiores; poders, segundo o teu
definio do H. como animal racional, Leibniz               desejo, regenerar-te nas coisas superiores, que
observa que o fato de os idiotas carecerem da               so divinas" (De hom. dign., f. 131 r). Com
razo no  uma objeo contra ela: basta que               certeza, a ilimitada capacidade de autoprojeo
eles, mesmo que apenas com seu corpo, mos-                  do H. nunca mais foi exaltada com tanta elo-
trem um indcio de racionalidade (Nouv. ess.,               qncia e com otimismo to confiante quanto
III, 6, 22). Mas, na realidade, j em Aristteles           nesta pgina de Pico delia Mirandola. Todavia,
est suficientemente claro que a razo  uma                o conceito iluminista de H. como razo projetante,
possibilidade ou capacidade de juzo, no uma               limitada e impedida, mas eficaz, pode ser con-
determinao necessitante, que somente a esse               siderado decorrente do conceito renascentista
ttulo constitui a definio do homem. O carter            do homem. Kant dizia: "Numa criatura, a razo
indeterminado do H. talvez estivesse disfara-               o poder de entender alm dos instintos natu-
do na expresso de Demcrito: "O H.  aquilo                rais as normas e os fins de uso de todas as suas
que todos ns sabemos" (Fr. 165, Diels), mas                atividades; ela no conhece limites para os seus
est claramente expresso nas especulaes dos               desgnios. No entanto, a razo no age instin-
neoplatnicos da Antigidade e do Renas-                    tivamente, mas por tentativas, com o exerccio
cimento sobre a "natureza mdia" ou "central"'              e aprendendo, para elevar-se pouco a pouco
do homem. Plotino j afirmava a este propsi-               e passar de um grau de conhecimento a ou-
to: "O lugar do H.  no meio, entre os deuses e             tro" (Idee zu einer allgemeinen Geschichte in
os animais; s vezes tende para uns, s ve-                  Weltbrgerlicher Absicht, 1784, tese II). Kant
zes para outros; alguns homens assemelham-se                julga, portanto, que s atravs da histria da
aos deuses; outros, s feras; a maioria fica no             espcie humana na terra o homem realiza a
meio" (Enn., III, 2, 8). Esse pensamento foi                sua natureza, que  a liberdade de autopro-
ilustrado no sc. IX por Scotus Erigena: "No foi           jetar-se com a razo, especialmente de proje-
sem razo que o H. foi denominado oficina de                tar para si uma sociedade civilizada alicerada
 todas as criaturas: de fato, todas as criaturas            totalmente no direito. Essas idias expressam
esto nele contidas. Ele entende como o anjo,               bem o ponto de vista do iluminismo, ao qual o
 raciocina como o H., sente como o animal irra-             prprio Kant as atribua. Com maior clareza
 cional, vive como um germe, constitui-se de                ainda, Kant assim descrevia o carter da espcie
 alma e corpo e no est isento de coisa alguma             humana: "Para poder atribuir ao H. o seu lugar
 criada" (De divis. nat., III, 37). Esses pensa-            no sistema da natureza viva e assim caracteriz-
 mentos so repetidos no Renascimento por                   lo, s resta dizer que ele tem o carter que ele
 Nicolau de Cusa (De vsone Dei, 6; Exci-                  mesmo faz, porquanto sabe aperfeioar-se
 tationes, V; De ludo globi, II) e por Marslio             segundo os fins por ele mesmo criados; por
 Ficino (Xheol. Plat., III, 2), e ambos transferem-         isso, de animal capaz de raciocinar (animal
 nos para a alma do H.; Ficino chama a alma de              rationabil), pode tornar-se sozinho animal
 cpula do mundo. Mas esto expressos de                    que raciocina (animal rationalef (Antr., II, e).
 maneira clssica na orao De hominis dig-                     Na filosofia contempornea, esse conceito
  nitate, de Pico delia Mirandola, em que Deus              de homem foi herdado pelo existencialismo e
 diz: "No te dei, Ado, um lugar determinado,              pelo instrumentalismo americano. Por um lado,
 um aspecto prprio, nem prerrogativa alguma,               eles frisam que o H.  aquilo que ele mesmo
 porque esse lugar, esse aspecto e essas prer-              pode e quer tornar-se, e por isso  constante-
 rogativas que venhas a desejar, tudo segundo tua           mente problema para si mesmo e soluo para
 vontade e teu discernimento, deves obter e                 esse problema, que projeta continuamente seu
  conservar. A natureza limitada dos outros est            modo de ser ou de viver e que este projeto
  contida em leis por mim prescritas. Tu determi-           passa a constituir, em algum grau ou medida,
  nars as tuas sem seres impedido por barreiras,           seu modo de ser ou de viver efetivo. Por outro
  segundo o teu arbtrio, a cujo poder te confiei.          lado, ambas as correntes reconhecem as limita-
  -- Pus-te no meio do mundo, para que de l                es dessa possibilidade de projetar, que agem
  avistasses tudo o que nele existe. No te fiz ce-         especialmente no fato de que, em certa medi-
  leste nem terreno, mortal nem imortal, para               da, cada projeto j encontra como dados(como
  que, como livre e soberano artfice de ti mes-            relativamente no modificveis) os elementos
  mo, te plasmasses e esculpisses na forma que              que utiliza, que tudo o que ele pode pro-
  melhor te aprouvesse. Poders degenerar para              jetar para o futuro j foi, de qualquer modo ou
HOMEOMERIAS                                           516                                     HOMO HOMO


forma, no passado, e que, portanto, o passado               vismo, doutrina em que o homem  a medida
condiciona, em certos limites (considerados                 de todas as coisas (v. RELATIVISMO).
mais ou menos amplos), o futuro do homem.                       HOMO FABER.  a definio de homem
 neste sentido que Heidegger disse que o pro-              feita por Bergson, que viu na inteligncia, ca-
jeto  o modo de ser fundamental do H. (Sein                racterstica fundamental do homem, a faculda-
undZet,  31) e Sartre falou de um projeto fun-            de de fabricar instrumentos inorganizados (La
damental do mundo (L'treet le nant, p. 540).              pense et le mouvant, 1934, p. 105) (v. INTELI-
No mesmo sentido, John Dewey falou da mu-                   GNCIA).
tabilidade da natureza humana e dos seus cha-                  HOMOGENEIDADE (in. Homogeneity, fr.
mados instintos ou impulsos fundamentais                    Homognit, ai. Homogeneitt; it. Omogenei-
(Human Nature and Conduct, pp. 95 ss.; 106                  t). Relao entre coisas que pertencem ao
ss.). Heidegger insistiu tambm sobre a limita-             mesmo gnero (p. ex., branco e preto), ou que
o da possibilidade de projetar, uma vez que               tm a mesma composio (p. ex., as partes de
todo projeto incidiria e se achataria naquilo               um objeto composto do mesmo material), ou
que j foi, nisso consistindo a facticidade do H.           que tm entre si partes semelhantes, que se
(v. PROJETO). Sartre insistiu na liberdade absolu-          correspondem termo a termo (p. ex., dois re-
ta da possibilidade de projetar e considerou                lgios construdos da mesma maneira). Spencer
puramente arbitrria ou gratuita a escolha de               usou esse termo no sentido de no diferencia-
um projeto qualquer (L'tre et le nant, p. 721).           o e definiu a evoluo como a passagem do
Por outro lado, Dewey retomou o conceito                    homogneo para o heterogneo, ou seja, do
iluminista de racionalidade (que  ao mesmo                 que no  diferenciado para o que  diferencia-
tempo condicionamento e liberdade) dos pro-                 do em partes entre si diferentes (First Prin-
jetos humanos, e o existencialismo positivo                 cipies,  145).
deu nfase aos mesmos caracteres de auto-                       Kant denominou "princpio da H." a norma
projeo (cf. ABBAGNANO, Possibilita e liberta,             da razo de procurar unificaes conceptuais
1956,1, 7; II, 3; etc). Alis, hoje parece que at          cada vez mais amplas, gneros cada vez mais
os bilogos compartilham dessa concepo. G.                elevados; essa norma seria a contraposio si-
G. Simpson diz: "O H. pode optar por desen-                 mtrica da norma de especificao (v.), com
volver suas capacidades como animal superior                esta confluindo na lei de afinidade (v.) (Crt. R.
e tentar erguer-se ainda mais, ou sua escolha               Pura, Apndice  dialtica transcendental). Ha-
pode ser outra. A escolha  responsabilidade                milton repetiu substancialmente essas noes
sua e apenas sua. No existe automatismo que                de Kant e denominou "lei de H." o enunciado
o eleve sem escolha ou esforo, nem existe                  segundo o qual "dois conceitos, por mais dife-
uma tendncia unilateral na direo certa. A                rentes que sejam um do outro, sempre podem
evoluo rio tem objetivos; o H. deve dar                  subordinar-se a um conceito superior; em
objetivos a si mesmo" (The Meaning of Evo-                  outros termos, as coisas mais dessemelhantes
lution, 6a ed., 1952, p. 310).                              devem, em alguns aspectos, ser semelhantes".
   HOMEOMERIAS (gr. LiotOLipetat; in.                     Ao lado desta, Hamilton enunciou tambm "a
Homeomeries; fr. Homomries; ai. Homoio-                   lei de heterogeneidade", segundo a qual "todo
merien; it. Omeomeri). Com esta palavra, que               conceito contm abaixo de si outros conceitos
significa "partes semelhantes", Aristteles de-             e por isso, quando dividido, desce sempre pa-
nominou as partculas, ou seja, as partes (que              ra outros conceitos, nunca para indivduos; em
no so elementos, porque sempre divisveis)                outros termos, as coisas mais homogneas ou
que, segundo Anaxgoras, compem um cor-                    semelhantes devem, sob certos aspectos, ser
po e que so semelhantes a esse corpo. Assim,               heterogneas ou dessemelhantes". Segundo
mesmo que em cada corpo existam partculas                  Hamilton, essas duas leis governam toda a clas-
ou gros de todos os outros corpos, em cada                 sificao das coisas em gneros e espcies (HA-
um predomina certa espcie de partculas, que               MILTON, Lectures on Logic,  40; vol. I, 2S ed.,
d nome ao corpo (ARISTTELES, De cael., III,               1865, pp. 209-10).
3, 302b 3; Met., I, 3, 984a 14; cf. DIG. L, II, 8;             HOMO HOMO.  a definio de sbio feita
LUCRCIO, De rer. nat., I, 830; SEXTO EMPRICO,             pelo humanista francs Charles de Bouelles
Adv. math., X, 25).                                         (1470 ou 1475-1553 aproximadamente) em seu
   HOMINISMO (ai. Hominismus). Termo                        livro De sapicutc. O sbio  a perfeio do ho-
criado por Windelband para designar o relati-               mem porque  o homem que se formou com a
HOMOIUSIA ou HOMUSIA                                 517                                      HORIZONTE

sua inteligncia e adquiriu conscincia de si              virtude e do bem fazer'' (Ibid., VIII, 14, 1163 b
mesmo e do mundo (De sapiente, 22).                        3), provm da tica grega, da qual passou para
   HOMOIUSIA ou HOMUSIA (gr. uoiODOa,                    os costumes e o direito da tradio ocidental,
(j.oua(x). Diz-se que toda a disputa teolgica,          em sua formulao aristocrtica. No mundo
que culminou com o Concilio de Nicia (325),               moderno, a "respeitabilidade"  o anlogo desse
girava em torno de uma semivogal, ou seja, da              antigo conceito.  bvio, todavia, que "o bem
diferena entre homoiusia, doutrina de rio                fazer'' (eepyeoa) -- cujo prmio, segundo
que admitia apenas a semelhana entre a subs-              Aristteles, deveria ser a H., alm de s-lo para
tncia de Deus-Pai e a do Logos, e a bomusia,              a virtude -- inclui boa dose de conformismo
doutrina de Atansio, que admitia a identidade             aos preconceitos dominantes no grupo ou na
da substncia de Deus-Pai com a do Logos. A                classe social que confere aH.eao anlogo moder-
deciso do Concilio a favor da bomusia esta-               no da H. a respeitabilidade, no includa uma
beleceu a principal base dogmtica da teologia             dose menor de conformismo. Portanto, no 
crist.                                                    de surpreender que a H. tenha freqentemente
    HOMOLOGIA (gr. LtoXoycc; in. Homology,               sugerido e continue sugerindo aes imorais,
fr. Homologie, ai. Homologie, it. Omologi). 1.            malficas, ou verdadeiros delitos, tanto na vida
Para os esticos, este era o termo tcnico para            privada quanto nas relaes entre os povos,
designar a conformidade com a natureza como                em que a H. muitas vezes desempenha papel
norma fundamental de conduta (J. STOBEO, Ecl.,             predominante no nascimento e na perpetuao
II, 76, 3); termo que Ccero traduziu por con-             de conflitos.
 venientia (De finibus, III, 6, 21). 2. Hoje, H.              HORIZONTE (gr. rcepixov; lat. Horizon;
um conceito cientfico que tem vrias definies           in. Horizon; fr. Horizon; ai. Horizont; it. Oriz-
nas diferentes disciplinas. Em geometria deno-             zonte). Limite que circunscreve as possibilida-
minam-se homlogos os elementos de duas                    des de uma investigao, de um pensamento
figuras semelhantes que se correspondem. Em                ou de uma atividade qualquer: limite que pode
biologia so chamados homlogos os rgos                  deslocar-se, mas que volta a mostrar-se aps
que se correspondem pela sua situao em                   cada deslocamento. Esse termo foi introduzido
relao ao organismo todo, mesmo no                       na filosofia por Anaximandro (sc. VI a.C),
exercendo a mesma funo, como se verifica                 que considerou o Princpio (infinito ou apeiron)
com os rgos anlogos (v. ANALOGIA).                      como aquilo que "abarca todas as coisas e as
    HOMONMIA (in. Hornonymy, fr. Homony-                  dirige" (ARISTTELES, FS., III, 4, 203b 11).
mie, ai. Homonymie, it. Omonimia). Aristteles                 No sentido moderno, esse conceito foi elu-
designa assim a ambigidade de um termo, ou                cidado por Kant, que entendeu por horizonte o
seja, o fato de um mesmo termo ser usado para              limite ou a medida de extenso do conheci-
denotar-coisas diferentes. A H. de frase deno-             mento e distinguiu o horizonte lgico, referente
mina-se anfibolia (v.) (v. EQUVOCO; UNTVOCO).             aos poderes cognoscitivos em relao ao inte-
    HOMOTESMO (in. Homotheism; ai. Ho-                    resse do intelecto, o horizonte esttico, referen-
motheismus; it. Omoteismo). O mesmo que an-                te ao gosto em relao ao interesse do senti-
tropomorfismo (v.). Termo criado por Ernest                mento, e o horizonte prtico, referente ao til
Haeckel.                                                   em relao ao interesse da vontade. Em geral,
    HONRA (gr. jn,|a.r|; in. Honor, fr. Honneur,           "o horizonte concerne ao juzo e  determina-
ai. Ehre, it. Onor). Toda manifestao de con-            o daquilo que o homem pode saber, conse-
siderao e estima tributada a um homem por                gue saber e deve saber"; pode ser objetivo, sen-
outros homens, assim como a autoridade, o                  do ento histrico ou racional, ou subjetivo,
prestgio ou o cargo de que o reconheam in-               sendo ento universal ou absoluto, particular
vestido. Os antigos consideravam a H. como                 ou privado (Logik, Einleitung,  VI, A).
um dos bens fundamentais da vida social; Aris-                 Essa noo foi retomada na filosofia con-
tteles reconheceu que h uma virtude em re-               tempornea primeiramente por Husserl, que
lao  H. assim como h uma virtude (libe-                entendeu o H. como limite temporal (com-
ralidade) em relao ao dinheiro. Essa virtude             preendido como presente ou agora), no qual
 a magnanimidade (v.), cujo excesso  a                   esto todas as vivncias (Ideen, I,  82), e de-
ambio e cuja deficincia  a pusilanimidade              pois por Jaspers, graas a quem passou para o
(Et. nic, II, 7, 1107b 20). Essa grande importn-          atual uso filosfico. Jaspers diz: "Sempre vive-
cia atribuda  H., considerada "o prmio da               mos e pensamos num H. circunscrito. Pelo fato
HORMICA, TEORIA                                      518                                       HUMANISMO

mesmo de tratar-se de um H., temos o pressen-                 3e Gnero humano, espcie humana como
timento de um H. mais vasto, que compreenda,               entidade biolgica. Nesse sentido fala-se, p.
por sua vez, o H. alcanado: surge assim o pro-            ex., da histria ou dos feitos da H. na terra, ou
blema de um H. que abarque qualquer outro                  da evoluo biolgica da humanidade.
H. (H. conglobante, das Umgreifenci). No H.                  4- Sntese hipostasiada da histria ou da tra-
conglobante tm-se todos os tipos de realidade             dio do homem, segundo o conceito de Comte,
e de verdade, mas  tambm aquilo em que                   que com esse termo expressa "o conjunto dos
cada H. est compreendido, como naquele H.                 seres passados, futuros e presentes, que con-
que tudo engloba e que no  mais pensvel                 correm livremente para o aperfeioamento da
comoH." (Vernunft undExistenz, 1935, p. 29).               ordem universal" (Politique positive, IV, p. 30).
Enquanto o conceito de H. conglobante, que                Nesse sentido, para Comte, a H. constitui um
o H. de todos os horizontes possveis,  tpico            Grande Ser, uma espcie de divindade que
da filosofia de Jaspers, o conceito de H. pode             nada mais  que o mundo histrico hipostasiado.
ser utilmente empregado por qualquer corrente              Comte pretendeu instituir o culto deste grande
filosfica para designar os limites de validade            ser (v. SER, GRANDE).
de determinada investigao ou o tipo de vali-                 5B Natureza racional do homem, dotada de
dade a que aspiram os instrumentos utilizados              dignidade e, portanto, fim para si mesma. Esse
(cf. C. D. BURNS, The Horizon of Experience,                o significado que essa palavra assume na
1934; ABBAGNANO, Possibilita e liberta, 1956,              segunda frmula do imperativo categrico de
pp. 95 ss.).                                               Kant: "Age de tal maneira que trates a H.
   HRMICA, TEORIA (in. Hormic theory, it.                 (Menschheit), tanto na tua pessoa quanto na
                                                           pessoa de qualquer outro, sempre tambm
Teoria ormic). Assim  comumente denomina-
                                                           como fim, nunca somente como meio" (Grund-
da, na literatura anglo-saxnica, a teoria segun-          legung der Met. der Sitten, II). A H. na pessoa
do a qual as emoes dependem de certos                    dos homens  objeto do respeito (v.), que, para
instintos fundamentais (p|ir| = instinto), que            Kant,  o nico sentimento moral (Met. der Sitten,
estariam na base de toda a atividade psquica.             II,  11).
Essa teoria foi defendida por G. F. Stout, J.
Dewey, S. Alexander, T. P. Nunn (o primeiro a                  62 Disposio  compreenso dos outros ou
                                                            simpatia para com eles. Nesse sentido, a me-
empregar essa expresso) e, principalmente,
                                                           lhor definio desse termo foi dada por Kant:
por W. McDougall. Sobre a mesma, v. J. C. FLU-             "H. (Humanitt) significa, por um lado, o sen-
GKL, Studies in Feeling and Desire, London,                timento universal da simpatia e, por outro, a
1955 (v. EMOO).
                                                           faculdade de poder comunicar pessoal e uni-
   HUMANIDADE (lat. Humanitas; in. Hu-                     versalmente; essas so duas propriedades que,
manity, fr. Humanit, ai. Humanitt, Mensch-               juntas, constituem a sociabilidade prpria da H.
heit; it. Umanit), Esse termo tem os seguintes            (Menschheit), graas  qual ela se diferencia do
significados principais:                                   isolamento animal" (Crt. do Juzo,  60; cf. Antr.,
    Ia Forma acabada, ideal ou esprito do ho-              88).
mem. Era nesse sentido que os antigos usavam                   HUMANISMO (in. Humanism; fr. Huma-
a palavra humanitas, correspondente ao grego               nisme, ai. Humanismus; it. Umanesimo). Esse
paidia, da qual derivou o substantivo huma-               termo  usado para indicar duas coisas dife-
nismo (v.) e seu conceito. Em sentido anlogo,             rentes: I) o movimento literrio e filosfico que
Humboldt considerava como fim da histria "a               nasceu na Itlia na segunda metade do sc.
realizao da idia de H." (Schriften, IV, p. 55).         XIV, difundindo-se para os demais pases da
    2S Substncia ou essncia do homem, no                 Europa e constituindo a origem da cultura mo-
significado aristotlico adotado pela metafsica           derna; II) qualquer movimento filosfico que
clssica. Nesse sentido, S. Toms dizia: "H. sig-          tome como fundamento a natureza humana
nifica os princpios essenciais da espcie, tanto          ou os limites e interesses do homem.
formais quanto materiais, no levando em conta                 I) Em seu primeiro significado, que  o hist-
os princpios individuais. A H.  aquilo em vir-           rico, o H.  um aspecto fundamental do Re-
tude do que o homem  homem; e em homem                    nascimento (v.), mais precisamente o aspecto
 homem no porque tem os princpios indivi-               em virtude do qual o Renascimento  o reco-
duais, mas porque tem os princpios essenciais             nhecimento do valor do homem em sua totali-
da espcie" (Contra Gent., IV, 81).                        dade e a tentativa de compreend-lo em seu
HUMANISMO                                            519                                        HUMILDADE

mundo, que  o da natureza e da histria. Nesse            plinas que formam o homem, por serem pr-
sentido, costuma-se dizer que o H. se inicia com           prias do homem e o diferenciarem dos outros
a obra de Francesco Petrarca (1304-74). Os prin-           animais (AULO GLIO, Noct. Att., XIII, 17). As
cipais humanistas italianos so: Coluccio Salutati         boas artes, que ainda hoje so denominadas dis-
(1331-1406), Leonardo Bruni (1374-1444), Lo-               ciplinas humansticas, no tinham para o H. va-
renzo Valia (1407-57), Giannozzo Manetti (1396-            lor de fim, mas de meio, para a "formao de
1459), Leonbattista Alberti (1404-72), Mario               uma conscincia realmente humana, aberta
Nizolio (1498-1576). Entre os humanistas fran-             em todas as direes, por meio da conscincia
ceses: Charles de Bouelles (1470 ou 75-1553),              histrico-crtica da tradio cultural" (GARIN,
Petrus Ramus (1515-72), Michel E. de Montaigne             / 'educazione umanistica in Itlia, p. 7) (v. CUL-
(1533-92), Pierre Charron (1541-1603), Fran-               TURA).
cisco Sanchez (1562-1632), Justo Lipsio (1547-                 4- Reconhecimento da naturalidade do ho-
1606). Entre os espanhis, lembramos Ludovico              mem, do fato de o homem ser um ser natural,
Vives (1492-1540) e, entre os alemes, Rodolfo             para o qual o conhecimento da natureza no
Agrcola (1442-85).                                         uma distrao imperdovel ou um peca-
    As bases fundamentais do H. podem ser                  do, mas um elemento indispensvel de vida
assim expostas:                                            e de sucesso. O reflorescimento do aristote-
    Ia Reconhecimento da totalidade do ho-                 lsmo, da magia e das especulaes naturalistas
mem como ser formado de alma e corpo e                     (graas a Telsio, G. Bruno e Campanella)
destinado a viver no mundo e a domin-lo. O                constituem o preldio da cincia moderna.
curriculum de estudos medieval era elaborado                   II) O segundo significado dessa palavra nem
para um anjo ou uma alma desencarnada. O                   sempre tem estreitas conexes com o primeiro.
H. reivindica para o homem o valor do prazer               Pode-se dizer que, com esse sentido, o H. 
(Raimondi, Filelfo, Valia); afirma a importncia           toda filosofia que tome o homem como "medi-
do estudo das leis, da medicina e da tica con-            da das coisas", segundo antigas palavras de
tra a metafsica (Salutati, Brun, Valia); nega a          Protgoras. Exatamente nesse sentido, e com
superioridade da vida contemplativa sobre a                referncia  frase de Protgoras, F. C. S. Schiller
vida ativa (Valia); exalta a dignidade e a liber-          deu o nome de H. ao seu pragmatismo (Studies
dade do homem, reconhece seu lugar central                 in Humanism, 1902). Foi com o mesmo senti-
na natureza e o seu destino de dominador des-              do que Heidegger entendeu o H., mas para
ta (Manetti, Pico delia Mirandola, Ficino).                rejeit-lo; viu nele a tendncia filosfica a to-
    2a Reconhecimento da historicidade do ho-              mar o homem como medida do ser, e a subor-
mem, dos vnculos do homem com o seu pas-                  dinar o ser ao homem, em vez de subordinar,
sado, que, por um lado, servem para uni-lo a               como deveria, o homem ao ser, e a ver no ho-
esse passado e, por outro, para distingui-lo               mem apenas "o pastor do ser" (Holzivege, 1950,
dele. Desse ponto de vista,  parte funda-                 pp. 101-02). Referindo-se a um sentido anlogo,
 mental do H. a exigncia filolgica, que no             Sartre aceitou a qualificao de H. para o seu
 apenas a necessidade de descobrir os textos               existencialismo (Lexistencalisme est un hu-
 antigos e restituir-lhes a forma autntica, estu-         mansme, 1949).
 dando e colecionando os cdices, mas tambm                   Em sentido mais geral, pode-se entender
  a necessidade de encontrar neles o autntico            por H. qualquer tendncia filosfica que leve
 significado de poesia ou de verdade filosfica            em considerao as possibilidades e, portanto,
 ou religiosa que contenham. A admirao pela              as limitaes do homem, e que, com base nisso,
 Antigidade e seu estudo nunca faltaram na                redimensione os problemas filosficos.
 Idade Mdia; o que caracteriza o H.  a exigncia             HUMANITARISMO (in. Humanitarianism;
 de descobrir a verdadeira cara da antigidade,            fr. Humantarisme, ai. Humanitt; it. Umani-
 libertando-a dos sedimentos acumulados du-                tarismo). V. FILANTROPIA.
 rante a Idade Mdia.                                         HUMILDADE (gr. Tcurewcxppoavr]; lat. Hu-
    3a Reconhecimento do valor humano das le-              militas-, in. Humility, fr. Humilit, ai. Demut; it.
 tras clssicas.  por esse aspecto que o H. tem           Umilt). Atitude de abjeo voluntria, tpica da
 esse nome. J na poca de Ccero e Varro, a pa-          religiosidade medieval, sugerida pela crena na
 lavra humantas significava a educao do ho-             natureza miservel e pecaminosa do homem.
 mem como tal, que os gregos chamavam de                   Neste sentido, a H.  ilustrada e exaltada por
 padia; eram chamadas de "boas artes" as disci-          Bernard de Clairvaux: "A H.  a virtude graas 
HUMILDADE                                             520                           HYSTERON PROTERON

qual o homem se avilta com verdadeiro reco-                 dirigido ao tpico conceito medieval de H. (cf.
nhecimento de si mesmo" (De gradibus hu-                     Werke, VII, pp. 348 ss.).
 militatis et superbiae, em P. L., 182Q, col. 942).             HUMOR (in. Mood; fr. Humeur, ai. Stimmung;
Nesse sentido, a H. era desconhecida do mun-                it. Umore). Estado emotivo que no tem objeto,
do antigo. S. Paulo, que foi o primeiro a empre-            ou cujo objeto  indeterminvel, distinguindo-se,
gar essa palavra, entendeu-a como falta de esp-            assim, da emoo propriamente dita. Esta distin-
rito de competio e de vangloria (Philipp., II),           o foi proposta por W. Cerf. ("H. e emoes na
vendo seu modelo em Cristo, que, com a en-                  arte", em Rivista di Filosofia, 1954, pp. 363 ss.) e
carnao, rebaixou-se at o homem (Ibid., II,               parece oportuna para identificar, na vasta gama
3-11). Da mesma forma, S. Agostinho fala da H.              dos estados emocionais, os que recebem o nome
sobretudo a propsito da via humilitatis, que              de humor. O H. no tem objeto intencional no
a encarnao do Verbo para a redeno dos ho-               sentido de que no existe um H.e..., assim como
mens: nesse sentido, contrape a H. crist  so-            existe um medo de... ou alegria de... etc. Tem
berba dos platnicos, que sabiam tantas coisas,             causa ou razo, mas no se refere a um objeto
mas ignoravam a encamao (Conf., VII, 9). S.               em particular e no constitui advertncia quanto
Toms considerava a H. como a parte da virtu-               ao valor biolgico de uma situao. Nesse senti-
de "que tempera e freia o nimo, a fim de que               do, Cerf afirmou que na arte no existem emo-
ele no tenda desmesuradamente s coisas mais               es, mas apenas H.
altas" e veja nelas o complemento da mag-
nanimidade que "fortalece o nimo contra o                      Heidegger chamou a ateno para o signifi-
desespero e impele-o a perseguir as grandes                 cado existencial dos H.: "O fato de os H. pode-
coisas, de acordo com a reta razo" (S. Tb., II,            rem transformar-se ou deteriorar-se significa
2, q. 161, a. 1). Mas  bvio que, neste sentido,           somente que o ser-a est sempre num estado
a H. nada mais  que a magnanimidade em                     emocional." O H. fundamental  o tdio, "o pe-
significado aristotlico (v. MAGNANIMIDADE) e               so do ser". Mas, em qualquer caso, o H.  aqui-
nada tem a ver com a H. no sentido atribudo                lo que torna manifesto "como algum  e se
por S. Bernardo.                                            torna" (Sein und Zeit,  29).
      freqente a oposio dos filsofos ao sig-               HYBRIS (gr. )p"pt). Com este termo, intra-
nificado medieval de H.; outras vezes procu-                duzvel para as lnguas modernas, os gregos
ram reconduzi-la a um significado compatvel                entenderam qualquer violao da norma da
com a tica clssica. Spinoza negava que a H.               medida, ou seja, dos limites que o homem
fosse uma virtude e julgava-a uma emoo pas-               deve encontrar em suas relaes com os outros
siva, porquanto ela nasce do fato de "o homem               homens, com a divindade e com a ordem das
contemplar sua prpria impotncia". Entretan-               coisas. A injustia nada mais  que uma forma
to, se ete pensa nessa impotncia em relao a              de H., porque  a transgresso dos justos limi-
um ser mais perfeito, esse pensamento favore-               tes em relao aos outros homens. Neste sen-
ce sua potncia de ao e por isso no  H.,                tido, Hesodo dizia: "Quando levada a cabo, a
mas virtude (Et., IV, 53). Kant distingue a H.              justia triunfa sobre a H.: o nscio s entende
moral, que  "o sentimento da pequenez do                   quando sofre" (Op., 216-17). Para Plato, h H.
nosso valor, comparado com a lei", da H. esp-              sempre que  superada "a medida do justo";
ria, que  "a pretenso de, por meio da renn-              portanto, a H. tem muitas faces, muitos lados e
cia, adquirir algum valor moral de si mesmo,                muitos nomes (Fed., 238 a). Aristteles deu a
um valor moral oculto". A pretenso de supe-                esse termo um significado mais restrito: enten-
rar os outros rebaixando-se  uma ambio                   deu tratar-se de ofensa gratuita feita aos outros
oposta ao dever para com os outros; utilizar                apenas pelo prazer de sentir-se superior: o que
esse meio para obter o favor dos outros (Deus                insolncia (Ret., II, 2, 1378 b 23).
ou homem que seja)  hipocrisia e adulao                      HYSTERON PROTERON. Estes termos,
(Met. derSitten, II,  11). Hegel afirmava que a            assim como Hysterologia e Protysteron, co-
 H. " a conscincia de Deus e da sua essncia              mearam a ser empregados no sc. IV a.C.
 como amor" (PhosophischePropdeutik,  207,               pelos gramticos gregos e latinos (p. ex.,
 cf. Philosophie der Religion, ed. Glockner, II,            CHEROBOSCO, Trop., 27; SERVIO, Ad Vergi-
 p. 553). Entretanto, por outro lado, o protesto            lium, A, 9, 816) para indicar a figura retri-
 de Nietzsche, que v na H. simplesmente um                 ca que consiste em dizer antes o que deve-
 aspecto da "moral dos escravos", obviamente               ria ser dito depois, como quando dizemos:
HYSTERON PROTERON                                   521                         HYSTERON PROTERON

"Est bem e est vivo". Leibniz emprega esse ter-         nnimo de crculo vicioso ou de petio de prin-
mo no mesmo sentido, considerando-o equiva-               cpio, para indicar uma argumentao que toma
Lente a rebours e contrapondo-o a "crculo vi-            como premissa a prpria concluso, ou que
cioso" (Nouv. ess., IV, 2, 1). Mas depois essa            utiliza como elemento de prova aquilo que de-
expresso foi freqentemente usada como si-               veria ser provado.
                                                         I

    1. 1. Na lgica formal "aristotlica" esta letra     noo do I. s no domnio da esttica, visto ter
 usada como smbolo da proposio particu-              concebido a arte como a "intuio concreta e a
lar afirmativa (PEDRO HISPANO, Summ. log., 1.21).        representao do Esprito Absoluto em si como
    2. Na Lgica modal tradicional, I designa a          do I." (Ene,  556). A distncia da realidade,
proposio modal que nega o modo e afirma                que  a caracterstica do I.,  limitada por Hegel
a proposio. P. ex., "No  possvel que p"             ao mundo da arte, porque nele a Idia ou Ra-
onde p  uma proposio afirmativa qualquer              zo autoconsciente no chega a realizar-se na
(ARNAL:LD, Log., II, 8).                  G. P.-N. A.    sua forma prpria, mas transparece, nas formas
   ID ou ISSO. V. PSICANLISE.                           sensveis da natureza, como o I. que est de
    IDEAO (in. Ideation; fr. Idation; ai. Idea-       algum modo alm dessas formas ( Vorlesungen
tiori; it. Ideazion). Termo usado por Hus-              ber die sthetik, ed. Glokner, I, pp. 112 ss.).
serl em Investigaes Lgicas (1900-01) para             Na religio e na filosofia, entretanto, que so as
designar aquilo que chamou de "intuio eid-            formas espirituais em que a Idia tem realiza-
tica" ou "viso das essncias" Udeen, I,  3). (v. FE-   o mais elevada, a noo de I. no tem lugar.
NOMENOLOGIA).                                            Na filosofia contempornea, que mesmo resta-
    IDEAL1 (in. Ideal; fr. Ideal; ai. Ideal; it. Idea-   belecendo a distino entre dever-ser e ser,
le).  a noo de origem setecentista, da encar-         prpria da filosofia setecentista, recusa-se a
nao acabada, mas no real, da perfeio em             considerar o dever-ser como j encarnado nu-
determinado campo. Essa noo foi claramen-              ma forma perfeita e como inatingvel na reali-
te expressa por Kant, que a distinguiu da noo          dade, a noo de I., caracterizada por esses
de idia: "A virtude e, com ela, o saber humano          dois aspectos, deixou de ser usada e foi subs-
em toda a sua pureza so idias. Mas o sbio             tituda pela noo de valor(y). Dewey disse a
(do estico)  um ideal, um homem que s                 propsito: "Esta noo da natureza e da funo
existe no pensamento, mas corresponde ple-               dos ideais combina num todo contraditrio o
namente  idia de sabedoria. Assim como a               que h de vicioso na separao entre desejo e
idia dita a regra, o I. serve de modelo (...). Em-      pensamento (...) Segue o curso natural da inte-
bora no se possa atribuir realidade objetiva            ligncia ao pedir um objeto que unifique e sa-
(existncia) aos I., nem por isso eles devem ser         tisfaa o desejo, e depois anula a obra do pen-
considerados quimeras; ao contrrio, oferecem            samento, ao considerar o objeto inefvel e sem
um critrio  razo, que precisa do conceito do          relao com a ao e a experincia presente"
que  perfeito em seu gnero para, tomando-o             (Human Nature and Conduct, II, 8, p. 260).
como medida, avaliar e estimar o grau e a falta              IDEAL2 (in. Ideal; fr. Ideal; ai. Ideal, Ideell).
de perfeio" (Crt. R. Pura, Dialtica, cap. III,       Esse adjetivo tem trs significados fundamen-
 se. I). No domnio da esttica o I.  a figura         tais, correspondentes: Ia ao primeiro significa-
 humana (Kritik der Urteil.,  17). Esse conceito        do de Idia, designando o que  formal ou per-
 de I. como perfeio concretizada num tipo ou           feito no sentido de pertencer  Idia como
 numa forma de vida, mas no realizada, passou           forma, espcie ou perfeio; 2S ao segundo sig-
 a ser comum, verificando-se toda vez que se             nificado de Idia, significando o que no  real
 acentua a separao entre o dever ser e o ser.          porque pertence  representao ou ao pensa-
 Hegel, que negou esta separao, empregou a             mento; o prprio Hegel emprega este significa-
IDEAIIDADE                                           523                                         IDEALISMO

do do termo quando afirma que o idealismo                      ls No sentido gnosiolgico (ou epistemo-
consiste em afirmar que "o infinito  I.", ou              lgico) esse termo foi empregado pela primei-
seja, no real (WissenschaftderLogik, I, I, se.           ra vez por Wolff: "Denomina-se idealista quem
I, cap. II, nota 2); 3S ao termo ideal, designando         admite que os corpos tm somente existncia
o que  perfeito, mas irreal.                              ideal em nosso esprito, negando assim a exis-
     IDEAUDADE (in. Ideality, fr. Idalit; ai.            tncia real dos prprios corpos e do mundo"
Idealitt; it. Idealit). Termo introduzido por            (Psycbol. rationalis,  36). No mesmo sentido,
Kant para designar a subjetividade das formas              Baumgartem diz: "Aquele que admite neste
da intuio e das categorias; neste caso se trata          mundo somente espritos  um idealista" (Met.,
de I. transcendental, no sentido de que tais                402). Kant introduziu definitivamente em filo-
formas so condies da conscincia (Crt. R.              sofia esse significado do termo: "I.  a teoria
Pura,  3). Na primeira edio da Crtica, Kant            que declara que os objetos existem fora do
dissera: "A existncia de todos os objetos dos             espao ou simplesmente que sua existncia 
sentidos externos  duvidosa. A esta incerteza             duvidosa e indemonstrvel, ou falsa e imposs-
dou o nome de I. dos fenmenos externos e                 vel; o primeiro  o I. problemtico de Descartes,
doutrina dessa idealidade denomina-se I.".                 que declara indubitvel somente uma afirmao
Ubid., 1- ed., Paralogismos da Razo Pura, IV).            (asserti) emprica, 'Eu sou', o segundo  o I.
Hegel inverteu esse conceito de L, afirmando               dogmtico de Berkeley, que considera o espa-
que ela no deve ser entendida como negao                o, com todas as coisas a que ele adere como
do que  real, mas como sua conservao                    condio imprescindvel, como algo em si mes-
(Ene,  403): "A I. pode ser chamada de qua-               mo impossvel e declara por isso que as coisas
lidade da infinidade", ou seja, a qualidade do             no espao so simples imaginaes" (Crt. R.
real porque, segundo Hegel, s o infinito  real           Pura, Analtica dos princpios, refutao do I.).
e o finito no  real (Wissenschaft der Logik, I,          Kant denomina esse I. de material, para distin-
1, cap. 2, A Passagem). Nicolai Hartmann em-
                                                           gui-lo do I. transcendental ou formal (Prol,
pregou esse termo num sentido mais prximo
ao de Kant. Ele fez a distino entre: I. inde-             49), que  a sua prpria doutrina da "idealidade
pendente, pertencente a objetos irreais, mas               transcendental" do espao, do tempo e das ca-
subsistentes em si, como os objetos da Lgica              tegorias; essa doutrina permite justificar o realis-
e da Matemtica, bem como os valores; e I.                 mo e refutar o idealismo. Mas, apesar dessa to-
aderente, pertencente s formas ideais que cons-           mada de posio (mais explcita na segunda
tituem a essncia do real (as leis ou relaes             edio da Crtica do que na primeira, na qual
ideais que o constituem) (Metaphysik der Er-               falta a "Refutao"), a doutrina kantiana j este-
kenntnss, 1921, cap. 62).                                 ve voltada para um significado idealista, sobre-
                                                           tudo graas  interpretao feita por Reinhold,
     IDEALISMO (in. Idealisni; fr. Idalisme; ai.          em Letras sobre a filosofia kantiana (1786-87);
Idealismus; it. Idealismo). Este termo foi intro-          segundo este ltimo, o fenmeno, ou seja, o
duzido na linguagem filosfica em meados do                objeto do conhecimento emprico, como re-
sc. XVII, inicialmente com referncia  doutri-           presentao. Schopenhauer acreditava ex-
na platnica das idias. Leibniz diz: "O que h            pressar a essncia do kantismo ao iniciar sua
de bom nas hipteses de Epicuro e de Plato,               obra O mundo como vontade e representao
dos maiores materialistas e dos maiores idealis-           (1819) com a tese: "O mundo  a minha repre-
tas, rene-se aqui [na doutrina da harmonia                sentao." Esta tese, aceita como um princpio
preestabelecida]" (Op., ed. Erdmann, p. 186).
                                                           evidente do I. romntico, foi compartilhada
Contudo, esse significado do termo, que por
vezes  indicado como "I. metafsico", no sen-             na filosofia moderna e contempornea, no s
tido de ser uma hiptese acerca da natureza da             pelas formas desse I. como tambm pelas v-
realidade (que consiste em afirmar o carter               rias correntes do criticismo e por algumas corren-
espiritual da prpria realidade) no teve longa            tes do espiritualismo. So idealistas, neste senti-
vida. Essa palavra foi usada principalmente nos            do, as doutrinas de Renouvier, Cohen, Natorp,
 dois significados seguintes: 1Q I. gnosiolgico           Windelband, Rickert, assim como as de Lotze,
 ou epistemolgico, por vrias correntes da filo-          Eduard Hartmann, Ravaisson, Hamelin, Marti-
 sofia moderna e contempornea. 2S I. romn-               netti e outros: pensadores que, mesmo se opon-
 tico, que  uma corrente bem determinada da               do ao I. romntico, tm em comum com ele o
 filosofia moderna e contempornea.                        pressuposto gnosiolgico fundamental: a redu-
IDEALISMO                                            524                                                 IDIA

 o do objeto de conhecimento a representa-               Hegel, era a principal caracterstica do I.: a no-
 o ou idia.                                             realidade do finito e a sua resoluo no infini-
    2- No segundo sentido, o I. constitui o nome           to. Mas, enquanto o I. italiano seguiu mais de
 da grande corrente filosfica romntica que se            perto a corrente hegeliana, procurando estabe-
originou na Alemanha no perodo ps-kan-                   lecer essa identidade por via positiva, mos-
tiano e que teve numerosas ramificaes na                 trando na estrutura do finito, na sua intrnseca
filosofia moderna e contempornea de todos                 e necessria racionalidade, a presena e a reali-
os pases. Por seus prprios fundadores, Fichte            dade do infinito, o I. anglo-americano tratou de
e Schelling, esse I. foi denominado "transcen-             demonstrar a identidade por via negativa, mos-
dental", "subjetivo" ou "absoluto". O adjetivo             trando que o finito, devido  sua intrnseca
 transcendental tende a lig-lo ao ponto de vis-           irracionalidade, no  real, ou  real na medida
ta kantiano, que fizera do "eu penso" o princ-            em que revela e manifesta o infinito. O ttulo
 pio fundamental do conhecimento. A qualifica-             de uma das obras fundamentais do I. ingls,
o subjetivo tende a contrapor esse I. ao ponto           Aparncia e realidade(1893), de F. H. Bradley,
de vista de Spinoza, que reduzira toda a reali-            revela j o tema dominante do I. anglo-saxo,
dade a um nico princpio, a Substncia, mas               enquanto o ttulo da obra fundamental de Gen-
entendera a prpria substncia como objeto.                tile, Teoria do espirito como ato puro (1916),
Por fim, o adjetivo absoluto tem por finalidade            revela a inspirao fichteana e a trilha subjetivista
frisar a tese de que o Eu ou Esprito  o princ-          do I. italiano. Quanto s principais caractersti-
pio nico de tudo, e que fora dele no existe              cas de todas as formas do I. romntico, v.
nada. Schelling diz, ao traar a gnese histrica          ABSOLUTO; ROMANTISMO.
do I. romntico: "Fichte libertou o eu dos re-                IDEALISMO DA LIBERDADE (ai Idealis-
vestimentos que em parte ainda o obscureciam               mus der Freheif). Um dos trs tipos funda-
em Kant, e colocou-o como nico princpio                 mentais de filosofia, isto , de intuio do mundo,
testa da filosofia; tornou-se assim o criador do           segundo Dilthey, mais precisamente o que 
I. transcendental... O I. de Fichte  o oposto             representado por Plato, pela filosofia hele-
perfeito do espinosismo ou um espinosismo in-              nstico-romana, por Ccero, pela especulao
vertido, pois Fichte ops ao objeto absoluto de            crist, por Kant, Fichte, Maine de Biran, pelos
Spinoza, que aniquilava qualquer sujeito, o Su-            pensadores franceses a este ligados e por
jeito em sua absolutidade, o Ato ao ser absolu-            Carlyle {Das Wesen der Philosophie, 1907,
tamente imvel de Spinoza; para Fichte, o eu               III, 2; trad. it., em Critica delia ragione storica,
 no , como para Descartes, um eu admitido s             p. 469).
com o objetivo de poder filosofar, mas  o eu                  IDEATO (lat. Ideatum). O objeto da idia
real, o verdadeiro princpio, o prius absoluto             (no 2 sentido). Spinoza, que entende por
 de tudo" (Mnchener Vorlesungen: zur Ges-                 idia adequada aquela que tem "as notas in-
 chichte der neueren Philosophie, 1834, Kant,              trnsecas da idia verdadeira", adverte: "Digo
 Fichte; trad. it., pp. 108-09). Hegel, que tam-           intrnsecas para excluir a nota que  extrnseca,
 bm chama de subjetivo ou absoluto o seu I.,              ou seja, a correspondncia da idia com o
 esclarece seu princpio desta forma: "A propo-            seu I." (Et., II, def. 4).
 sio de que o finito  o ideal constitui o idea-
 lismo. O I. da filosofia consiste apenas nisto:               IDIA (gr. ia; lat. Idea; in. Idea; fr. Ide;
 em no reconhecer o finito como verdadeiro                ai. Idee; it. Idea). Este termo foi empregado
 ser. Toda filosofia  essencialmente I., ou pelo          com dois significados fundamentais diferentes:
 menos tem o I. como princpio; trata-se apenas            1Q como a espcie nica intuvel numa mul-
 de saber at que ponto esse princpio est efe-           tiplicidade de objetos; 2S como um objeto qual-
 tivamente realizado. A filosofia  I. tanto quan-         quer do pensamento humano, ou seja, como
 to religio" (Wissenschaft der Logik, I, se. I,          representao em geral. No primeiro significa-
 cap. III, nota 2, trad. it., pp. 169-70). Tambm          do, essa palavra  empregada por Plato e Aris-
 receberam os nomes de I. subjetivo ou I. abso-            tteles, pelos escolsticos, por Kant e outros.
 luto as derivaes contemporneas do I. ro-               No segundo significado, foi empregada por
 mntico, que so substancialmente duas: a                 Descartes, pelos empiristas, por boa parte dos
 anglo-americana (Green, Bradley, McTaggart,               filsofos modernos e  comumente usada nas
 Royce, etc.) e a italiana (Gentile, Croce). Ambas         lnguas modernas.
 as derivaes mantiveram aquilo que, para                     le No primeiro significado, a I., como unida-
                                                           de visvel na multiplicidade, tem carter privile-
IDIA                                                525                                               IDIA

giado em relao  multiplicidade, pelo que               mem; 3o Objetos dos quais com certeza no h
freqentemente considerada a essncia ou a                 I., que so as coisas vis ou geralmente as que
substncia do que  multplice e, por vezes,               no tm valor. Ora, pode-se tomar ao p da le-
como o ideal ou o modelo dele. Este , clara-              tra essa espcie de confisso platnica, pois
mente, o ponto de vista de Plato, que, em                 um olhar nos demais dilogos demonstra que
Parmnides, atribui a Scrates o conceito de               ele sempre falou de I. nos sentidos constantes
que a I.  a unidade visvel na multiplicidade             das letras d) e b), que ele admitiu, ou melhor,
dos objetos e, por isso, tambm a sua espcie              introduziu, com o fim de chegar a certas de-
(eidos). "Creio que acreditas haver uma es-                monstraes, formas naturais como o calor, o
pcie nica toda vez que muitas coisas te pare-            frio, a doena e a febre (Fed., 105 b e ss.) ou for-
cem, p. ex., grandes e tu podes abrang-las                mas artificiais, como a da cama (Rep., X, 597 b),
com um s olhar: parece-te ento que uma                   mas nunca falou, a no ser para exclu-las, de
nica e mesma I. est em todas aquelas coisas              formas correspondentes  terceira classe de ob-
e por isso julgas que o grande  uno" (Partn.,             jetos. Disso pode-se deduzir o que Plato en-
132 a). Como unidade, a I. se mostra, em                   tendia ao afirmar (como ainda o fazia na fase
Plato, o exemplar das coisas naturais: "Essas             crtica [Parm., 135 bl) a existncia das I. "em
espcies" -- diz ele -- "esto como exempla-               separado das demais coisas", da multiplicidade
res na natureza e as outras coisas se asseme-              das coisas. Existem I. de conceitos matemti-
lham a elas e so imagens delas; a participao            cos ou de valores: portanto, como j reconhe-
dessas outras coisas na espcie consiste apenas            cera Natorp (Platos Ideenlehre, 1903), as I. no
em serem imagens da espcie" (Ibid., 132 d).               so supracoisas, ou seja, objetos transcenden-
No mesmo dilogo, Plato diz quais as coisas               tes cuja existncia tem como modelo a existn-
de que admitia I., quais as coisas de que no              cia das coisas, mesmo constituindo uma esfera
admitia e quais as coisas de que tinha dvida,              parte, mas normas, regras ou leis. Desse ponto
quanto a admiti-las. "Parece-te que h uma se-             de vista, o fato de estarem "separadas" das
melhana em si, separada da semelhana que                 outras coisas significa simplesmente a indepen-
ns temos, e um uno e muitos em si, bem                    dncia da regra das coisas que serve para jul-
como outras coisas deste tipo? -- Parece-me                gar. E por regra entende-se: Ia que so critrios
que sim, disse Scrates. -- E admites que haja             para julgar as outras coisas no sentido que, por
-- continuou Parmnides -- a espcie do justo              exemplo, a igualdade permite julgar se duas
em si, do belo em si, do bem em si e outras coi-           coisas so iguais ou no, e assim o belo por
sas assim? -- Sim, respondeu Scrates. -- E                meio das coisas belas, etc. (Fed., 74 ss.); 2- que
admites que haja uma espcie do homem sepa-                so causas das coisas no sentido de serem as
rada de ns e de todos os nossos semelhantes,              razes pelas quais as coisas "geram-se, des-
uma espcie em si do homem, do fogo, da                    troem-se e existem", porquanto constituem "a
gua? -- Sempre tive dvida -- respondeu                   melhor maneira de existir, de modificar-se ou
Scrates -- se convinha ou no reconhecer                  de agir" (Ibid., 97 c). Por fim, em correspondn-
essas espcies assim como as outras. -- E das              cia com as duas classes de I. (as I. matemticas
coisas que pareceriam at ridculas, como cha-             e as I.-valores), Plato admitia duas ordens de
pu, lama, imundcie e todas as outras desti-              conhecimento cientfico: o conhecimento dia-
tudas de valor ou vis, tambm duvidas que                 notico, prprio das cincias propeduticas
haja ou no uma espcie de cada uma delas,                 (cincias matemticas), e o conhecimento inte-
separada das coisas correspondentes que po-                lectual ou filosfico, prprio da dialtica (Rep.,
demos manipular? -- Certamente no -- res-                 VII, 531 e ss.).
pondeu Scrates --, essas coisas so tais e
quais ns as vemos, e seria absurdo acreditar                  A reiterada crtica de Aristteles a essa dou-
que h uma espcie delas" (Ibid., 130 b-d).                trina (Met., I, 9, 990 b ss.; XIII e XIV passim)
Deste trecho do Parmnides resulta que exis-               tem como alvo o ponto central dela.- as I. no
tem trs classes de objetos: le Objetos dos                so princpios de explicao nem causas. S a
quais com certeza existem idias, que so: a)              substncia ou essncia necessria  causa e
os objetos matemticos, igualdade, um, muitos,             princpio de explicao, e isso vale para o bem
etc.; b) os valores: o belo, o justo, o bem, etc.;         e para aquilo que Plato denominava I., assim
2S Objetos dos quais  duvidoso que existam                como para todas as outras coisas. Aristteles
I.: as coisas naturais, o fogo, a gua ou o ho-            diz: "A cincia de uma coisa consiste em co-
                                                           nhecer a essncia necessria da coisa. Isso 
IDIA                                                526                                              IDIA

verdadeiro no que se refere ao bem, assim                  inmeras vezes os escolsticos repetem essa
como a todas as outras coisas, de tal modo que,            doutrina quase nos mesmos termos. Anselmo
se o bem no tivesse a essncia necessria do              considera a I. como uma espcie de "palavra
bem, no teria ser e no seria uno. O mesmo                interior": Deus exprime-se nas I. como o artfi-
pode ser dito sobre todas as outras coisas, que            ce em seu conceito, mas essa expresso no 
so o que so com base em sua essncia ne-                 uma palavra externa, um enunciado;  a coisa
cessria ou no so nada; portanto, se a sua               para a qual se volta a acuidade da mente cria-
essncia no , nada delas " (Ibid., VII, 6,              dora (Monol, 10). S. Toms dizia: "O termo
1031 b 6). Em outros termos, o status onto-                grego idea diz-se em latim forma-, por idia en-
lgico das I., se  que possuem algum,  o de              tendem-se as formas de algumas coisas, exis-
todas as outras coisas: so reais porque so               tentes fora das prprias coisas. Essa forma
substncias, no porque so unidades ou valo-              pode servir para duas coisas: ou como exem-
res. Portanto, as I., como formas ou espcies,             plar daquilo cuja forma , ou como princpio
so certamente reais, segundo Aristteles,                 de conhecimento e, neste segundo sentido, diz
mas so reais apenas na medida em que as for-              que a forma das coisas cognoscveis est no
mas ou espcies so a substncia das coisas                cognoscente" (S. Th., I, q. 15, a. 1). Ockham,
compostas (v. FORMA). A teoria da substncia               que nega o carter universal das I., no nega,
(v.) possibilitou a Aristteles retirar das duas           todavia, que as I. existem em Deus, como "as
determinaes, unidade e valor, o primado                  coisas produziveis por Deus" (In Sent., I, d, 35,
ontolgico que Plato lhes atribura nas primei-           q. 5). O emprego desse conceito continuou
ras fases de sua filosofia. A teoria das I. no            mesmo fora da tradio platnica (NICOLAU DE
tem mais validade para Aristteles, no sentido             CUSA, De coniecturis, II, 14; FICINO, em Par-
de as idias no constiturem substncias privi-           menid., 23) O Renascimento repete-o sem va-
legiadas e muito menos exemplares ou mode-                 riantes: p. ex., Bacon (Nov. org., I, 23). E quan-
los das coisas. Contudo, atribui  palavra I. o            do o segundo significado desse termo j havia
mesmo significado que Plato lhe dera: unida-              sido introduzido por Descares e difundido por
de que  ao mesmo tempo perfeio ou valor.                cartesianos e empiristas, Kant restituiu-lhe seu
    Em seguida, ao longo de sua histria, aca-             significado platnico, entendendo por I. uma
bam prevalecendo as determinaes mticas ou               perfeio no real, "que supera a possibilidade
popularescas que esse termo recebera na filo-              da experincia". "As I." -- diz Kant -- "so
sofia platnica: modelo, arqutipo, perfeio,             conceitos racionais dos quais no pode existir
etc. Na Escolstica judaica e neoplatnica, as I.          na experincia nenhum objeto adequado. No
so consideradas objetos da Inteligncia divina            so intuies (como espao e tempo) nem sen-
e identificadas com essa Inteligncia. Flon j as         timentos (que pertencem  sensibilidade),
considerava como "potncias incorpreas", das              mas conceitos de perfeies, dos quais  sem-
quais Deus se serve para formar a matria (De              pre possvel aproximar-se, mas que nunca se
sacrif, II, 126). E Plotino as identificava com a          alcana completamente" (Antr,  4.3). As trs I.
prpria Inteligncia, mais precisamente com a              que Kant enumera como "objetos necessrios
inteligncia "em estado de repouso, unidade e              da razo" (alma, mundo e Deus) so desprovi-
calma, que  distinta mas no separada da Inte-            das de realidade exatamente porque esto
ligncia que contempla e pensa" (Enn., III, 9,             alm da experincia possvel; no entanto, so
 1). Neste sentido a I.  o objeto "interno" da            regras para estender e unificar a experincia.
inteligncia divina, e como a inteligncia no             Assim, para Kant, a I. conserva de alguma
se distingue do ser e do ato do ser, a I., a forma         forma o carter regulativo que Plato lhes atri-
 do ser e o ato do ser so a mesma coisa (Ibid.,           bura. Em todo caso, Kant julga "intolervel
V, 9, 8). Essa doutrina tornou-se lugar-comum              ouvir chamar de I. algo como, p. ex., a repre-
 da Patrstica e da Escolstica. S. Agostinho re-          sentao da cor vermelha" (rt. R. Pura, Dial-
 produziu-a ao afirmar que o Logos ou Filho                tica, se. I). No idealismo ps-romntico a
 tem em si as I., ou seja, as formas ou razes             noo de I. recuperou todo o alcance meta-
 imutveis das coisas, que so eternas, assim              fsico e teolgico que j tivera no neopla-
 como ele mesmo  eterno, em conformidade                  tonismo tradicional. Schelling considera as I.,
 com tais razes ou formas, so formadas todas             por um lado, como as determinaes da razo
 as coisas que nascem e morrem (De diversis                de Deus e, por outro, como as formas da obje-
 quaest., 83, q. 46). A partir de S. Agostinho,            tivao corprea: em outros termos, so o pon-
IDIA                                                  527                                                   IDIA

to de encontro e de identificao entre a infini-             objetiva, porquanto representa um objeto: nes-
dade divina e o finito corpreo (Werke, I, II, p.            te sentido as I. so "quadros" ou "imagens" das
187). Para Goethe, a I.  a fora divina formadora           coisas (Md., III). Esta terminologia era ampla-
da natureza (Werke, ed. Hempel, XIX. pp. 63,                 mente aceita pela filosofia ps-cartesiana. A
158). Schopenhauer considera a I. como a pri-                Lgica de Port-Royal adotou-a, entendendo por
meira e imediata objetivao da vontade de                   I. "tudo o que est em nosso esprito quando
viver, portanto como "forma eterna" ou "o                    podemos dizer com verdade que concebemos
modelo" das coisas (Die Welt, I,  25). Hegel,               uma coisa, seja qual for a maneira como a con-
por fim, v na I. "o verdadeiro em si e para si, a           cebemos" (ARNAULD, Log., I, 1). Tambm foi
unidade absoluta do conceito e da objetivida-                aceita por Malebranche (Rech. de Ia ver., II, 1)
de". Nesse sentido, ela no  representao                  e Leibniz, que considera as I. como "os objetos
nem conceito determinado. "O absoluto  a I.                 internos" da alma (Nouv. ess. II, 10,  2). Este
universal e nica que, com o julgar, se especifi-            ltimo, porm, pretendia reservar o termo I.
ca no sistema das I. determinadas, que no en-                apenas para o conhecimento claro, distinto e
tanto voltam para a I. nica, sua verdade. Por               adequado, passvel de ser analisado em seus
fora desse juzo, a I. , em primeiro lugar, ape-           constituintes ltimos e isento de contradies
nas a nica e universal substncia, mas, na for-             (Phil. Schriften, ed. Gerhardt, IV, pp. 422 ss.)
ma verdadeira e desenvolvida, ela  como su-                 Spinoza, por sua vez, entendia por I. "o concei-
jeito, por isso como esprito" (Ene,  213).                 to formado pela mente enquanto pensa" e pre-
Nesta forma verdadeira e desenvolvida ela  I.               feria a palavra "conceito" a "percepo" por-
absoluta, ou seja, Razo Autoconsciente, que se              que a percepo parece indicar a passividade
manifesta nas trs determinaes do esprito                 da mente diante do objeto, enquanto o concei-
absoluto (arte, religio, filosofia) e se realiza no         to exprime sua atividade (Et., II, def. 3). Por
estado, tambm denominado por Hegel" reali-                  outro lado, Hobbes j definira a I. como "a
dade da I." (Fil. do dir., % 258, comentrio). Isso          memria e a imaginao das grandezas, dos
no passava de uma traduo para termos mo-                  movimentos, dos sons, etc, bem como da or-
dernos da identidade que o antigo platonismo                 dem e das partes deles, coisas estas que, apesar
estabelecera entre a I. como objeto inteligvel e            de serem apenas I. ou imagens, ou seja, quali-
a Inteligncia. O idealismo contemporneo,                   dades internas da alma, aparecem como exter-
mesmo se inspirando em Hegel, no adotou a                   nas e independentes da alma" (Decorp., 7,  1).
terminologia hegeliana nesse aspecto: deu  ra-              Mas, sem dvida, foi Locke quem difundiu esse
zo autoconsciente os nomes de Esprito,                     significado (Ensaio, I, 1, 8) e o imps ao em-
Absoluto ou Conscincia, e no o de Idia. Em                pirismo ingls e ao iluminismo, atravs dos quais
todos os demais aspectos, a noo de I. per-                 entrou para o uso comum. Para Locke, assim
manece ligada  noo platnica de exemplar                  como para Descartes, a I.  o objeto imediato
ou arqutipo eterno, e isso tanto para os que                do pensamento: I.  "aquilo que o homem en-
a aceitam quanto para os que a negam.                        contra em seu esprito quando pensa" (Ibid., II,
                                                             1,1). No prefcio da IV edio do Ensaio, Locke
   2- No segundo significado, I. significa repre-            insistia na conexo da I. com a palavra. "Esco-
sentao em geral. Esse significado j se en-                lhi esse termo" -- dizia ele -- "para designar,
contra na tradio literria (p. ex., em MON-                em primeiro lugar, todo objeto imediato do
TAIGNE, Essais, II, 4), mas Descartes introduziu-o
                                                             esprito, que ele percebe, tem  sua frente e 
na linguagem filosfica, entendendo por I. o                 distinto do som que ele emprega para servir-
objeto interno do pensamento em geral. Nesse                 lhe de signo; em segundo lugar, para mostrar
sentido, afirma que por I. se entende "a forma               que essa I. assim determinada, que o esprito
de um pensamento, para cuja imediata percep-                 tem em si mesmo, conhece e v em si mesmo,
o estou ciente desse pensamento" (Resp. II,                deve estar ligada sem mudanas quele nome,
def. 2). Isso significa que a I. expressa aquele             e aquele nome deve estar ligado exatamente
carter fundamental do pensamento graas ao qual             quela idia" (Ibid., trad. it., I, p. 23). Estas obser-
ele fica imediatamente ciente de si mesmo. Para              vaes permaneceram como fundamento dessa
Descartes, toda I. tem, em primeiro lugar, uma               noo que, nesse aspecto, acabou por identifi-
realidade como ato do pensamento e essa reali-               car-se com a noo de representao. Wolff
dade  puramente subjetiva ou mental. Mas,                   dizia: "A representao de uma coisa denomi-
em segundo lugar, tem tambm uma realidade                   na-se I. quando se refere  coisa, ou seja, quan-
que Descartes denominou escolasticamente de
IDIA GERAL                                            528                                           IDENTIDADE


do  considerada objetivamente (Psychol.                      374), por Baumgarten (Met.,  560) e por Kant
emprica,  48). O iluminismo alemo aceitou                  (Trume eines Geistersehers, erlutert durch
esse significado atribudo por Wolff ao termo,                Trume der Metaphysik, 1766, I, 3). Fouille
mas este, como dissemos, depois seria impug-                  deu o nome de Idia-fora "ao encontro do
nado por Kant. Nesse segundo significado, esse                interno e do externo, uma forma que o interno
termo no se distingue de representao, e os                toma pela ao do externo e pela reao pr-
problemas a ele relativos so os mesmos rela-                 pria da conscincia" (L 'evolutionisme des ides-
tivos a conscincia em geral. Contudo, h um                 forces, 1890, p. XV), ou seja a unidade psicofsica
significado no qual a palavra I. (alis, a nica              que realiza o postulado do monismo psicofisico
usada na linguagem comum) continua distin-                   (v. MONISMO).
guindo-se de "representao":  aquele graas                    EDENTIAL (ai. Identiat). Adjetivo criado por
ao qual, tanto na linguagem comum quanto na                  Avenarius para designar o conjunto de dois
filosfica, ela indica o aspecto de antecipao e            dos caracteresiy.), identidade e alteridade (Kritik
projeo da atividade humana, ou, como diz                   der reinen Erfabrung, 1890, II, pp. 28 ss.).
Dewey, uma possibilidade. "Uma I. , acima de                    IDENTIDADE (gr. xatxri; lat. ldentitas;
tudo, uma antecipao de alguma coisa que                    in. Identity; fr. Identit; ai. Identitt; it. Identit).
pode acontecer: ela marca uma possibilidade"                 Este conceito tem trs definies fundamentais:
(Logic, II, 6; trad. it., p. 164). Com este signifi-         Ia I. como unidade de substncia; 2a I. como
cado, esse termo conserva ainda hoje uma uti-                possibilidade de substituio; 33 I. como con-
lidade especfica.                                           veno.
   IDIA GERAL. V. GERAL.                                        P A primeira definio  de Aristteles, que
   IDIAS, VARIEDADE DE (in. Varietyofldeas,                 diz: "Em sentido essencial, as coisas so idnti-
fr. Variet d'ides\ ai. Ideensmanmigfltigkeit;             cas no mesmo sentido em que so unas, j que
t. Variet di ide). S se admite variedade de              so idnticas quando  uma s sua matria (em
I. no mbito do 2- significado de idia, en-                 espcie ou em nmero) ou quando sua subs-
tendida como representao. Descartes distin-                tncia  una. Portanto,  evidente que a I. , de
gue trs espcies de I.: inatas, que parecem                 algum modo, uma unidade, quer a unidade se
congnitas no sujeito pensante, adventicias,                 refira a mais de uma coisa, quer se refira a uma
que lhe parecem estranhas ou vindas de fora;                 nica coisa, considerada como duas, como
e factcias, que so formadas ou encontradas                 acontece quando se diz que a coisa  idntica a
por ele mesmo.  primeira classe de I. perten-               si mesma" (Met., V, 9,1018 a 7). Em outros
cem a capacidade de pensar e de compreender                  termos, como diz ainda Aristteles, as coisas s
as essncias verdadeiras, imutveis e eternas                so idnticas "se  idntica a definio da subs-
das coisas;  segunda classe pertencem as                    tncia delas" (Ibid., X, 3, 1054 a 34). A unidade
I. das coisas naturais;  terceira, as I. das coisas         da substncia, portanto da definio que a ex-
quimricas ou inventadas (Md., III; Lettres                pressa , desse ponto de vista, o significado da
Mersenne, 16 de junho de 1641, em CEuvres, III,              identidade. Como nota Aristteles, pode haver
383). Esta classificao parece moldada  que                uma I. acidental, como quando dois atributos
Bacon fizera sobre os dolos, dividindo-os em                acidentais ("branco" e "msico", p. ex.) se refe-
adventcios (adscittia) e inatos-. "Os dolos               rem  mesma coisa, ao mesmo homem; contu-
adventcios so introduzidos na mente humana                 do, essa I. acidental no significa de modo al-
por meio das doutrinas das seitas filosficas                gum que o homem (em geral) seja branco ou
ou atravs de demonstraes feitas com mto-                 msico (Ibid., V, 9, 1017 b 27). Esse conceito
do errado. Os dolos inatos pertencem  pr-                 de I. como unidade de substncia ou (o que d
pria natureza do intelecto, que  propenso ao                no mesmo) de definio da substncia foi con-
erro muito mais do que o sentido" (Nov. Org.,                servado e ainda est presente em muitas dou-
 Pref.). Os cartesianos e os wolffianos denomi-              trinas. Foi adotado por Hegel, que definiu a
 naram I. material os movimentos que, segun-                 essncia como "I. consigo mesma" e, conseqen-
 do Descartes, so levados para o crebro pelos              temente, I. como coincidncia ou unidade da
 nervos estimulados pela ao dos objetos exter-             essncia consigo mesma (Ene,  115-116). Tal
 nos que sensibilizam as diferentes partes do                conceito de I. , pois, anlogo e corresponden-
 corpo (cf. Descartes, Princ. phil., IV, 196). Essa          te  interpretao do ser predicativo como
 doutrina foi acatada pelos ocasionalistas, mas              inerncia (v. SER) e da essncia como essncia
 tambm por Wolff (Psychol. rationalis,  118,               necessria (v. ESSNCIA).
IDENTIDADE, FILOSOFIA DA                             529                     IDENTIDADE, PRINCPIO DE

    2a A segunda definio  de Leibniz, que               esprito, do inconsciente com o consciente
aproxima o conceito de I. ao de igualdade (v.):            (Werke, II, pp. 371 ss.) (v. NATUREZA, FILOSO-
"Idnticas so as coisas que se podem substi-              FIA DA).
tuir uma  outra salva veritate. Se A estiver con-            IDENTIDADE, PRINCPIO DE (lat Prin-
tido numa proposio verdadeira e se, pondo-               cipium identitatis; in. Law of identity; fr. Prn-
se B no lugar de A, a proposio resultante                cipe dHdentit; ai. Satz der Identitt; it. Princi-
continuar sendo verdadeira, e se o mesmo                   pio di identit). O reconhecimento explcito
acontecer em qualquer outra proposio, diz-se             deste princpio como um dos princpios lgi-
que Ae B so idnticos; reciprocamente, se A e             cos ou ontolgicos fundamentais, ao lado dos
B so idnticos, a substituio a que nos referi-          princpios de contradio e do terceiro exclu-
mos pode acontecer" (Specimen Demonstrando                 do,  coisa recente porque no passa da poca
Op., ed. Erdmann, p. 94). Definio anloga foi            de Wolff. Aristteles ignora o princpio da I., o
aceita por Wolff, que definia como idnticas               mesmo ocorrendo com toda a tradio medie-
"as coisas que se podem substituir uma  outra,            val. O prprio Leibniz considera o enunciado:
salvaguardando quaisquer de seus predicados"               "Tudo  aquilo que " como tipo das verdades
(Ont.,  181). Com base neste sentido da pala-             idnticas afirmativas, sem atribuir-lhe a posi-
vra, comeou-se a falar de proposies idnti-             o de princpio, que atribui apenas ao de contra-
cas, que Leibniz distinguiu em: afirmativas, do            dio e ao de razo suficiente (Thod., I,  44;
tipo "Cada coisa  aquilo que "; negativas,               Monad.,  31-32, 35). Ele afirma: "As verdades
que so regidas pelo princpio de contradio              primitivas de razo so aquelas a que dou o
(v.); dspares, que afirmam que "o objeto de               nome geral de idnticas porque parece que
uma idia no  o objeto de outra idia" (Nouv.            elas no fazem mais que repetir a mesma coisa
ess., IV, 2,  1). Estas observaes de Leibniz            sem dizer nada de novo. As verdades idnticas
so repetidas com poucas alteraes pela lgi-             podem ser afirmativas ou negativas. As afirma-
ca contempornea (CARNAP, Der Logische Aufbau              tivas so como as seguintes: Cada coisa  aqui-
der Welt,  159; QUINE, From a Logical Point of            lo que , e outros tantos exemplos nos quais A
 View, 1953, VIII, 1).                                      A, B  B" (Nouv. ess, IV, 2,  1). Por outro
    3a A terceira concepo diz que pode ser               lado, o reconhecimento da certeza das proposi-
estabelecida ou reconhecida com base em                    es idnticas era muito antigo: encontrando-
qualquer critrio convencional. De acordo com              se j em S. Toms, que dizia: ''Devem ser not-
essa concepo, no  possvel estabelecer em              rias por si mesmas as proposies nas quais se
definitivo o significado da I. ou o critrio para          afirma a identidade de uma coisa consigo mes-
reconhec-la, mas, dentro de determinado sis-              ma, como em homem  homem ou nas quais o
tema lingstico,  possvel determinar esse cri-          predicado est includo na definio do sujei-
trio de forma convencional, mas oportuna.                 to como em homem  animal" (Contra Gent,
Esta concepo foi apresentada por F. Wais-                I, 10).
mann num artigo de 1936 ("ber den Begriff                     Por outro lado, Leibniz tambm conhecia a
der Identitt", em Erkenntniss, VI, pp. 56 ss.),           frmula geral das I., como ocorria com Locke,
em polmica aberta contra a definio car-                 que a enumerava entre as mximas cujo car-
napiana de I.; foi representada por P.T. Geach             ter inato se reconhece, graas ao consenso uni-
(em oposio a Quine), segundo o qual, quan-               versal que suscitam: "A esto dois dos clebres
do se diz "x idntico a y", tem-se uma expres-            princpios, aos quais, mais que a qualquer ou-
so incompleta, abreviativa de ''x o mesmo A              tro, se atribui a qualidade dos princpios inatos:
de y", onde "A"  um nome cujo significado re-              Tudo aquilo que  , e:  impossvel que uma
sulta do contexto ("Identity", em Rev. ofMet.,             coisa seja e no seja ao mesmo tempo" (Ensaio,
 1967, pp. 2-12). Esta  a concepo menos                 I, 1, 4). Tanto Locke quanto Leibniz parecem
dogmtica e mais ajustada s exigncias do pen-            referir-se  frmula da I. como mxima bem
samento lgico-filosfico.                                 conhecida e reconhecida, mas que ainda no
   IDENTIDADE, FILOSOFIA DA (in             Iden-          foi alada ao nvel de princpio ontolgico
tity-philosophy; fr. Philosophie de Videntit;             ou lgico.
ai. Identittsphilosophie; it. Filosofia delia                 Ora, essa frmula comeara a circular na
identit). Assim Schelling denominou sua fi-               Escolstica do sc. XIV, sobretudo entre os par-
losofia, porquanto define o Absoluto como I.               tidrios de Scot e Ockham, na tentativa de re-
do objeto com o sujeito, da natureza com o                 duzir o princpio de contradio (que conti-
IDENTIDADE, PRINCIPIO DE                               530                     IDENTIDADE, PRINCIPIO DE

nuava sendo reconhecido como o primeiro                      atribua o carter originrio que atribua ao
princpio ontolgico)  sua expresso mais                   princpio de contradio e ao de razo suficien-
simples e econmica. Esta tentativa  uma ma-                te. Em Baumgarten, o princpio de I. deu mais
nifestao caracterstica do uso do princpio de             um passo ao ser posto aps o de contradio
economia (v.), que era considerado guia me-                  (que para ele continuava sendo "o absoluta-
todolgico por Ockham e por muitos esco-                     mente primeiro"), mas no mesmo nvel dele,
tistas. Antnio Andra (morto em 1320) diz:                  como "Princpio de oposio ou de I.". Expres-
"Digo que o princpio ' impossvel que a mes-               sou-o da seguinte forma: "Todo possvel At A;
ma coisa simultaneamente seja e no seja' no                ou seja, tudo o que , ; ou ento, todo sujeito
 absolutamente primrio, ou seja, primaria-                  predicado de si mesmo" (Met.,  11). Por sua
mente primeiro (...) Se perguntarem qual  ab-               vez Kant, em Nova elucidao dos primeiros
solutamente o primeiro complexo e o primaria-                princpios do conhecimento metafsico (1755),
mente primeiro, direi que  este: 'O ente                   dizia: "Dois so os princpios absolutamente
ente.' Este princpio de fato tem termos prima-              primeiros de todas as verdades: um das verda-
riamente primeiros e ultimamente ltimos, que                des afirmativas, a proposio 'O que , '; o
no so portanto resolveis em termos prece-                 outro das verdades negativas, a proposio
dentes; alis toda resoluo de conceitos diz                'aquilo que no  no '. Ambas essas proposi-
respeito ao conceito do ente, como o  abso-                 es denominam-se comumente princpio de I.
lutamente primeiro entre os conceitos essen-                 (Nova dilucidatio, prop. II).
ciais" (In Met., IV, q. 5). Buridan aludia a esta ou             Com isto, o princpio de I. ingressava ofi-
a semelhantes tentativas de reduzir o princpio              cialmente no rol dos princpios fundamentais
de contradio a uma frmula mais simples,                   da lgica (apesar de na origem, com Wolff e
que seria a da I.: "Alguns, entendendo que tem               Baumgarten, ele ter sido um princpio onto-
mais prioridade a simplicidade que a evidncia               lgico). Fichte valia-se dele como de uma pro-
e a certeza, dizem que as proposies categri-              posio absolutamente "certa e indubitvel"
cas precedem as hipotticas e que as asser-                  (Wssenschaftslehre, 1794,  1). E como princ-
trias precedem as modais, etc; conseqen-                   pio indubitvel do pensamento tambm era
temente, propem uma nica grande or-                        visto por Schelling (Werke, I, IV, p. 116). Tudo
dem de princpios indemonstrveis. O primeiro                isto dava a Hegel o direito de dizer que "o prin-
princpio seria 'O ente ', donde se seguiria                cpio de I., em vez de ser uma verdadeira lei do
que 'o no-ente no '. Depois viria 'O ente                pensamento, nada mais  que a lei do intelecto
ente', donde 'o no-ente no  ente', etc." (In              abstrato. A forma da proposio a contradiz,
Met., IV, q. 13). Do ponto de vista da simplici-             seno porque a proposio tambm promete
dade e da economia, a frmula da I. parecia                  uma distino entre sujeito e predicado e essa
ento mais primitiva que a da contradio;                   proposio no cumpre o que sua forma pro-
assim, os lgicos do sc. XIV comearam a                    mete. Mas deve notar, em especial, que ela 
atribuir a essa frmula a posio tradicional-               negada pelas outras chamadas leis do pensa-
mente atribuda apenas ao princpio de con-                  mento, para as quais  lei o contrrio dessa lei"
tradio.                                                    (Ene,  115). Hegel, naturalmente, tinha ra-
   Contudo, como dissemos, foi s com Wolff                  zo, mas lutava contra um moinho de vento,
que se comeou a reconhecer explicitamente                   pois os filsofos haviam admitido explicita-
no enunciado da I. o valor de princpio. Wolff o             mente esse princpio com o objetivo de dar
exps com a denominao de "Princpio da                     fundamento de necessidade s verdades idnti-
certeza", que derivava do princpio de contradi-             cas. A lgica filosfica do sc. XIX continuou
o. Em Ontologia (1729), disse: "Como  im-                 incluindo o princpio da I. entre as leis univer-
possvel que uma mesma coisa seja e no seja                 sais do pensamento (cf. HAMILTON, Lectureson
ao mesmo tempo, toda coisa, enquanto , ;                   Logic, I, pp. 79 ss.; DROBISCH, Logik,  58; BER-
ou seja-, se A , tambm  verdadeiro que A . Se            WEG, System der Logik, p. 183; WUNDT, Logik, I,
negares que A , enquanto , deveras ento                   pp. 504 ss.; B. HERDMANN, Logik, I, pp. 172 ss.,
concordar que A  e no  ao mesmo tempo: o                  etc.) embora no faltasse quem lhe negasse
que se ope ao princpio de contradio e por                qualquer significado (cf. P. HERMANT e A. VAN
isso no pode ser admitido, por fora desse                  DE WAELE, Lesprincipales thories de Ia logique
princpio" (Ont,  55). Wolff ligava o princpio             contemporaine, Paris, 1909, pp. 116 ss.). Para
 noo de necessidade (Ibid.,  288) e no lhe              Boutroux, no princpio de I. estava expresso o
IDENTIDADE DOS INDISCERNIVEIS                          531                                       IDEOLOGIA

ideal da necessidade racional (L'ide de loi                 mos (dos tomos materiais, evidentemente),
naturelle, 1895. cap. 2). Meyerson, obedecen-                que seriam idnticos por definio. Aceito e
do a conceito anlogo, reduzia a identificao               defendido por Wolff (Cosm.,  246-48) e por
qualquer processo racional, ou seja, qualquer                toda a escola wolffana, bem tambm -- a seu
processo que consiga compreender ou explicar                 modo -- por Hegel (Ene,  117), esse princpio
um objeto qualquer (Identit et realit, 1908;               foi rejeitado por Kant: "Em duas gotas de gua
Lexplication dans les sciences, 1927). Por ou-                possvel abstrair totalmente de qualquer dife-
tro lado, a lgica matemtica logo percebeu a                rena interna (de qualidade e de quantidade),
inutilidade desse princpio para a validade de               mas basta que elas sejam intudas simultanea-
um raciocnio qualquer, e Peirce podia reduzir               mente em lugares diferentes para consider-las
o significado dele ao dizer que "continuamos a               numericamente diferentes. Leibniz confundiu
crer naquilo que acreditamos at hoje, na                    fenmenos com coisas em si mesmas, portanto
ausncia de qualquer razo em contrrio"                     confundiu com intettigibilia, ou seja, objetos do
(Coll. Pap., 3, 182). Na lgica contempornea,               intelecto puro (conquanto as designasse com o
esse princpio no existe, pelo menos na forma               nome de fenmenos porque as considerava re-
de "princpio". Por vezes os lgicos fazem-no                presentaes confusas) e assim o seu princpio
coincidir com este ou aquele teorema que                     dos indiscernveis tornava-se inatacvel" (Crt.
expresse um dos significados da cpula (v. SER,              R. Pura, Analtica dos Princpios, Apndice).
1). Outras vezes, fora de lgica, consideram-no              Em outros termos, o princpio da I. dos indis-
um postulado semntico, de que todo smbolo                  cernveis valeria para objetos do intelecto puro,
deve ter sempre o mesmo termo de referncia,                 no para fenmenos, que j so bastante indi-
toda vez que ocorre no mesmo contexto (DE-                   vidualizados por sua posio no tempo e no
WEY, Logic, XVII,  3)- Neste sentido, obvia-                espao. Na filosofia contempornea h poucos
mente, o princpio de I. no  lgico nem onto-              vestgios desse princpio. Alguns lgicos o ad-
lgico, e a rigor nem princpio , mas apenas                mitem, mas interpretam-no a seu modo. Quine,
uma regra para o uso dos smbolos.                           p. ex., o expe com o nome de "mxima da
    IDENTIDADE DOS INDISCERNVEIS                            identificao dos indiscernveis" desta forma:
(lat. Identitas indiscernibiliuni; in. Identity              "Objetos indiscernveis um do outro dentro dos
 of indiscernibles; fr. Identit des ndiscerna-             termos de dado discurso devem ser considera-
 bles; ai. Identitt der Ununterscheidbaren; t.             dos idnticos para esse discurso" (From a Logcal
Identit degli indiscernibili). Princpio metafsi-          PointofView, IV, 2). Outros o consideram inde-
co que exclui a existncia na natureza de                    monstrvel e admitem que  logicamente pos-
duas coisas absolutamente iguais. J conheci-                svel que duas coisas tenham em comum todas
do pelos esticos (cf. Ccero, Acad., III, 17,               as suas propriedades (BLACK, Problems of
 18) e retomado no Renascimento ("Duas coi-                  Analysis, 1954, I, 5).
sas no universo no podem ser absolutamente                     IDEOGRFICAS, CINCIAS. V.          CINCIAS,
iguais"; NICOLAU DE CUSA, De docta ignor., II,               CLASSIFICAO DAS.
 11), foi defendido e ilustrado por Leibniz, que                IDEOLOGIA (in. Ideology; fr. Idologie; ai.
se vangloriou de ter descoberto este princ-                 Ideologie; it. Ideologia). Esse termo foi criado
pio e o princpio de razo suficiente, como                  por Destut de Tracy (Idologie, 1801) para de-
sendo os dois princpios que "mudam o estado                 signar "a anlise das sensaes e das idias",
da metafsica, tornando-a real e demonstrati-                segundo o modelo de Condillac. AI. constituiu
va" (IV Lett. a Clarke, Op., ed. Erdmann, pp.                a corrente filosfica que marca a transio do
 755-56). Leibniz expressou-o dizendo simples-               empirsmo luminista para o espiritualismo
 mente: "No existem indivduos indiscernveis",             tradicionalista e que floresceu na primeira
 ou "Pr duas coisas indiscernveis significa pr            metade do sc. XIX (v. ESPIRITUALISMO). Como
 a mesma coisa sob dois nomes" (Ibid., ed.                   alguns ideologistas franceses fossem hostis a
 Erdmann, pp. 755-56). E afirma: "Se dois indi-              Napoleo, este empregou o termo em senti-
vduos fossem perfeitamente semelhantes e                    do depreciativo, pretendendo com isso
 iguais, enfim indistinguveis por si mesmos,                identific-los com "sectrios" ou "dogmticos",
 no haveria princpio de individualizao e nem             pessoas carecedoras de senso poltico e, em
 haveria, ouso dizer, distino entre diferentes             geral, sem contato com a realidade (PICAVET,
 indivduos" (Nouv. ess., II, 27,  3). Para Leibniz         Les idologues, Paris, 189D- A comea a hist-
 esse  um argumento contra a existncia dos to-            ria do significado moderno desse termo, no
IDEOLOGIA                                            532                                          IDEOLOGIA

mais empregado para indicar qualquer espcie               anlise da I., a doutrina de Pareto estabeleceu
de anlise filosfica, mas uma doutrina mais ou            um ponto importante: a funo da I.  em pri-
menos destituda de validade objetiva, porm               meiro lugar persuadir, dirigir a ao. Esse as-
mantida pelos interesses claros ou ocultos da-             pecto foi desprezado pelo outro terico da ideo-
queles que a utilizam.                                     logia, Mannheim. Este distinguiu um conceito
     Nesse sentido, em meados do sc. XIX, a               particular e um conceito universal de ideo-
noo de I. passou a ser fundamental no mar-               logia. Em sentido particular, entende-se por I.
xismo, sendo um dos seus maiores instrumen-                "o conjunto de contrafaes mais ou menos
tos na luta contra a chamada cultura "burgue-              deliberadas de uma situao real cujo exato co-
sa". Marx de fato (cf. Sagrada famlia, 1845;              nhecimento contraria os interesses de quem
Misria da filosofia, 1847) afirmara que as cren-          sustenta a I.". Em sentido mais geral, entende-
as religiosas, filosficas, polticas e morais            se por I. a "viso do mundo" de um grupo
dependiam das relaes de produo e de tra-               humano, p. ex., de uma classe social. Segundo
balho, na forma como estas se constituem em                Mannheim, a anlise de I. no primeiro sentido
cada fase da histria econmica. Essa era a tese           deve ser feita no plano psicolgico; a anlise
que posteriormente foi denominada matria-                 da I. no segundo sentido deve ser feita no pla-
lismo histrico (v.). Hoje, por I. entende-se o            no sociolgico (ldeology and Utopia, 1953 [Ia
conjunto dessas crenas, porquanto s tm a                ed. 19291, II, D- Num e noutro caso a I.  a idia
validade de expressar certa fase das relaes              incapaz de inserir-se na situao, domin-la e
econmicas e, portanto, de servir  defesa dos             adequ-la a si mesma. Mannheim diz: "As I. so
interesses que prevalecem em cada fase desta               idias situacionalmente transcendentes que
relao. Foi exatamente com esse sentido que               nunca conseguem de fato atualizar os projetos
a I. foi estudada pela primeira vez em Trattato            nelas implcitos. Apesar de freqentemente se
di sociologia generale (1916) de Vilfredo Pa-              apresentarem como justas aspiraes da con-
reto, apesar de, nesta obra, no ser usado o               duta pessoal do indivduo, quando levadas 
termo I. (que fora empregado em Sistemi so-                prtica, seu significado muitas vezes  defor-
cialisti, 1902, pp. 525-26). Em Pareto, a noo            mado. A idia do amor fraterno cristo, p. ex.
de I, corresponde  noo de teoria no-cien-              numa sociedade fundada na servido,  irreali-
tfica, entendendo-se por esta ltima qualquer             zvel e por isso ideolgica, mesmo quando,
teoria que no seja lgico-experimental. Se-               para quem o entenda em boa f, seu significa-
gundo Pareto, uma teoria pode ser considera-               do constitui um fim para a conduta individual."
da: le em seu aspecto objetivo, em confronto               (Ibid., IV, 1). Nisto a I. seria diferente da utopia,
com a experincia; 2 em seu aspecto subjetivo,            que chega a realizar-se. Como foi freqente-
em sua fora de persuaso; 3e em sua utilidade             mente observado (cf. MERTON, Social Theory
social, para quem a produz ou a acata {Trat-               and Social Structure, 1957, pp. 489 ss.), o cri-
tato,  14). As teorias cientficas ou lgico-ex-          trio assim sugerido por Mannheim para a dis-
perimentais so avaliveis objetivamente, mas              tino (a ser estabelecida somente postfactum)
no nos outros modos, porque seu objetivo no              entre I. e utopia, ou seja, a realizao, inclui um
 o de persuadir (Ibid.,  76). Portanto, s as            crculo vicioso, pois o juzo sobre a adequao
teorias no cientficas so avaliveis com base            da realizao, a avaliao dessa adequao s
nos outros dois aspectos. Cincia e I. perten-             poderia ser feito com base numa distino pr-
cem, assim, a dois campos separados, que nada              via entre I. e utopia.
tm em comum: a primeira ao campo da ob-
servao e do raciocnio; a segunda ao campo                   A caracterstica de ambas as doutrinas lem-
do sentimento e da f (Ibid.,  43). Com justeza           bradas  a contraposio entre a I. e as teorias
foi frisada a importncia dessa distino, que,            positivas, entre I. e cincia segundo Pareto, e
por um lado, torna impossvel considerar ver-              entre I. e utopia (a teoria que se realiza), se-
dadeira uma teoria persuasiva (ou til) ou                 gundo Mannheim. Conquanto Pareto tenha fei-
 persuasiva (ou til) uma teoria verdadeira e,             to a distino entre juzo sobre a validade ob-
 por outro, permite "compreender antes de con-             jetiva de uma teoria de juzo sobre sua fora de
 denar e fazer a distino entre o estudioso dos           persuaso e sobre sua utilidade social, a contra-
 fatos sociais e o propagandista ou apstolo"              posio feita entre I. e teoria cientfica levou-o
 (BOBBIO, "Vilfredo Pareto e Ia critica delle I.",         a constituir duas classes nitidamente distintas
 Riv. diFil, 1957, p. 374). Do ponto de vista da           de teorias. Hoje est bem claro que, se uma teoria
                                                           cientificamente verdadeira no tem, por isso
IDEOSCOPIA                                          533                                        IGNORABIMUS


mesmo, fora persuasiva (fora do campo dos                    IDOLOLOGIA (ai. Eidologie). Doutrina que
cientistas competentes), tambm est claro que            estuda os dolos, ou seja, as aparies na cons-
uma teoria evidentemente falsa do ponto de                cincia: uma parte da metafsica, juntamente
vista cientfico no pode ter fora de persuaso          com a metodologia, a ontologia e a sinecolo-
por muito tempo. Hoje, p. ex., ningum faria              gia, segundo Herbart (Allgemeine Metaphysik,
qualquer forma de propaganda com base na                  1828, 1, 71).
inexistncia dos antpodas. A fora de persua-                DOLOS (gr. eico^oc; lat. Idola, Simulacra;
so de uma teoria no est presa de modo                  in. Idols; fr. Idoles; ai. Idole; it. Idol). A doutrina
imutvel  prpria teoria, mas depende do con-            dos I. foi exposta na antigidade por Demcrito;
texto social em que ela atua ou  utilizada. A            segundo ela, a sensao e o pensamento so
verdade ou no-verdade cientfica da teoria               produzidas por imagens corpreas provenientes
certamente  um elemento do contexto, que,                de fora (J. STOBEO, IV, 233). Essa doutrina foi
assim como os demais elementos, entra na                  retomada e adotada pelos epicuristas (Ep. a
constituio da fora de persuaso da teoria.             Herod., 46-50; cf. LUCRCIO, Derer. nat., IV, 99,
Portanto, deve-se frisar que o significado de             etc). Em sentido diferente, foi retomada por
uma I. no consiste, como achavam os escrito-             Francis Bacon, para quem os I. no so instru-
res marxistas, no fato de ela expressar os inte-          mentos de conhecimento, mas obstculos ao co-
resses ou as necessidades de um grupo social,             nhecimento; so "falsas noes" ou "antecipa-
nem na sua verificabilidade emprica, nem em              es", ou seja, preconceitos. Para Bacon, so
sua validade ou ausncia de validade objetiva,            quatro as espcies de dolos. Duas delas tm
mas simplesmente em sua capacidade de con-                razes na natureza humana e Bacon denomi-
trolar e dirigir o comportamento dos homens               na-as idola tribuse dola specus. Os I. tribus(-
em determinada situao. O alcance ideolgi-              tribo) so comuns a todo o gnero humano e
co do princpio citado por Mannheim como                  consistem, p. ex., em supor que na natureza h
exemplo, o amor fraterno, no reside no fato              uma harmonia muito maior que a existente, em
                                                          dar importncia a determinados conceitos mais
negativo de que esse princpio no se realize
                                                          que a outros, etc. Os I. specus (da caverna)
numa sociedade fundada na escravido, mas                 provm da educao, dos costumes e dos ca-
no fato de, mesmo numa sociedade fundada                  sos fortuitos em que cada um venha a encon-
na escravido, esse princpio permitir con-               trar-se. Assim, a importncia que Aristteles
trolar e dirigir a conduta de grande nmero               atribuiu  lgica, aps hav-la inventado,  um
de pessoas.                                               I. dessa espcie. Os I. provenientes do exterior
    Em geral, portanto, pode-se denominar I.              tambm so de duas espcies: idolaforie idola
toda crena usada para o controle dos compor-             theatri. Os I. /n'(da praa) derivam da lingua-
tamentos coletivos, entendendo-se o termo                 gem freqentemente usada ou de nomes de
 crena (v.), em seu significado mais amplo,              coisas que no existem (como sorte, primeiro
 como noo de compromisso da conduta, que                mvel, rbitas dos planetas, etc.) ou de nomes
 pode ter ou no validade objetiva. Entendido             de coisas que existem, mas so confusas (como
 nesse sentido, o conceito de I.  puramente for-         gerar, corromper, grave, leve, etc). Os I. theatri
 mal, uma vez que pode ser vista como I. tanto            (do teatro) derivam das doutrinas filosficas ou
 uma crena fundada em elementos objetivos                de demonstraes errneas e Bacon as deno-
 quanto uma crena totalmente infundada, tanto            mina assim porque compara os sistemas filos-
 uma crena realizvel quanto uma crena                  ficos a fbulas que so como mundos fictcios
 irrealizvel. O que transforma uma crena em             ou cenas de teatro. A este propsito distingue
 I. no  sua validade ou falta de validade, mas          trs falsas filosofias: a sofistica, cujo maior exem-
 unicamente sua capacidade de controlar os                plo  Aristteles; a emprica, cujo maior exemplo
 comportamentos em determinada situao.                   a alquimia; a supersticiosa, que se mistura 
                                                          teologia e cujo maior exemplo  Plato (Nov.
    IDEOSCOPIA (in. Ideoscopy). Foi assim que             Org., I, 38-45). Recentemente, essa teoria de
 Peirce denominou "a descrio e a classificao          Bacon sobre os I. foi considerada antecessora
 das idias que pertencem  experincia co-               do conceito moderno de ideologia (MANNHEIM,
 mum ou surgem naturalmente em conexo com                Ideology and Utopia, 1929, II, 2).
 a vida comum, independentemente de sua va-
 lidade ou no-validade, ou de sua psicologia"               IGNAVA RATIO. V. RAZO PREGUIOSA.
 (Coll. Pap., 8.328).                                        IGNORABIMUS. V. ENIGMAS.
                                                                                                             2
IGNORNCIA                                           534                                       ILUMINISMO


    IGNORNCIA (lat. Ignorantia; in. Ignoran-              ou possibilidades no diferentes das possu-
 ce-, fr. Ignorance; ai. Unwissenheit; it. Igno-           das por qualquer outro x nas mesmas condi-
 ranzd).Imperfeio do conhecimento, mais                  es. Esta claro que o juzo de I. s pode ser
precisamente a deficincia, inseparvel do sa-             pronunciado com base em determinado con-
ber humano e devida s limitaes do homem.                texto, com base na determinao das condi-
Kant distinguiu a I. em objetiva e subjetiva. A I.         es s quais os termos devem satisfazer para
 objetiva consiste na deficincia de conhecimen-           serem considerados substituveis (cf. PEIRCE, Coll.
tos de fato (I. material) ou na deficincia de             Pap., 3 42-44).
conhecimentos racionais (I. formal). AI. swfo-                 ILAO (lat. Illatio; in. Illaton; fr. Illation;
jetiva  I. douta ou cientfica (de quem co-               it. Illazone). Em Apuleio e Bocio, esse termo
nhece os limites do conhecimento) [V. DOUTA                traduz o estico Ttupop; indica a proposio
IGNORNCIA] OU I. comum, que  a I. do igno-               na qual se conclui um silogismo. Esse termo
rante. Kant acrescenta que a I.  inculpvelnas            desaparece na lgica medieval, sendo substi-
coisas cujo conhecimento ultrapassa o horizon-             tudo por conclusio, para reaparecer na idade
te comum, mas  culpvelnas coisas cujo saber              moderna indicando a complexa operao men-
 necessrio e atingvel (Logik, Intr., VI). Esta          tal-discursiva graas  qual se chega a estabe-
observao de Kant ainda hoje  vlida.                    lecer determinada proposio, ou essa mesma
    IGNORATIO ELENCHI (gr. >iY%o\) ccy-                  proposio.                                     G. P.
vota). Uma das falcias extra dictionem enume-                 ILIACE. V. PURPUREA.
radas por Aristteles (El. sof, 6, 168 a 18), mais             ILIMITADO (in. Boundless; fr. Illimit; ai.
precisamente a que consiste na ignorncia da-              Unbegrenzi; it. Illimitatd). A distino entre
quilo que se deve provar contra o adversrio               infinito e ilimitado foi feita por Aristteles, que
(cf. tambm PEDRO HISPANO, Summ. log., 7. 54;              denominava o ilimitado de "infinito por seme-
e ARNAULD, Log., III, 19, D (V. FALCIA).                  lhana". Enquanto no infinito  sempre poss-
    IGUALDADE (gr. ioxri; lat. Aequalitas; in.           vel tomar uma nova parte, mas essa parte 
Equality; fr. galit; ai. Gleichheit; it. gua-           sempre nova, no I. a parte que se pode tomar
glianza). Relao entre dois termos, em que                nem sempre  nova. Um anel sem engaste 
um pode substituir o outro. Geralmente, dois               um exemplo de I.:  possvel ir sempre alm,
termos so considerados iguais quando podem                ao longo de sua circunferncia, mas estar-se-
ser substitudos um pelo outro no mesmo con-               passando sempre pelos mesmos pontos (Eis,
texto, sem que mude o valor do contexto. Esse              III, 6, 207 a 2). Essa distino, que ficou es-
significado foi estabelecido por Leibniz (Op.,             quecida durante sculos, foi retomada por
ed. Gerhardt, VII, p. 228), mas Aristteles limi-          Einstein quando este afirmou que o mundo 
tava o significado dessa palavra ao mbito da              finito e ao mesmo tempo I., exatamente no
categoria.de quantidade, e que dizia eram iguais           sentido aristotlico (ber die spezielle und die
as coisas "que tm em comum a quantidade"                  allgemene Relativittstheorie, 1921,  31; cf.
(Met., IV, 15, 1021 a 11).                                 EDDINGTON, The Nature ofthe Physical World,
    A noo de I. assim generalizada (como                 1928, pp. 80-81)
possibilidade de substituio) presta-se tanto                ILOCUO. V. PERFORMATIVO.
para as relaes puramente formais de equiva-                 ILUMINISMO1 (in. Illuminism; fr. Illumi-
lncia ou de equipolncia quanto s relaes               nisme; ai. Illuminatsm; it. Illuminatismo). Pre-
polticas, morais e jurdicas que se denominam             tenso de ter viso pessoal e direta de Deus ou
de igualdade. P. ex., a I. dos cidados perante            das realidades transcendentes. Esse termo foi
a lei pode ser reduzida  possibilidade de                 definido por Kant como "uma espcie de de-
substituio dos cidados nas situaes previs-            mocracia baseada em inspiraes pessoais que
tas pela lei sem que mude o procedimento da                podem diferir, de acordo com a cabea de cada
lei, de tal forma que, p. ex., o ru por um crime          um" (Religion, III, V; B 143).
 d nas circunstncias c pode ser substitudo                  ILUMINISMO2 (in. Enlightenment; fr. Phi-
 por qualquer outro ru do mesmo crime na                  losophie des lumires; ai. Aufklrung; it. Illumi-
 mesma circunstncia, sem que o procedi-                   nismo). Linha filosfica caracterizada pelo em-
 mento legal seja alterado. Do mesmo modo,                 penho em estender a razo como crtica e guia
 pode-se descrever a I. moral ou jurdica di-              a todos os campos da experincia humana.
 zendo que, nela, x, que se encontre em de-                Nesse sentido, Kant escreveu: "O I.  a sada
 terminadas condies, possui prerrogativas                dos homens do estado de minoridade devido a
ILUMINISMO 2                                         535                                     ILUMINISMO2

eles mesmos. Minoridade  a incapacidade de                a crtica racional a qualquer campo, h outro
utilizar o prprio intelecto sem a orientao de           aspecto fundamental desse mesmo compro-
outro. Essa minoridade ser devida a eles mes-             misso: no existem campos privilegiados, dos
mos se no for causada por deficincia intelec-            quais a crtica racional deva ser excluda. Sob
tual, mas por falta de deciso e coragem para              este segundo aspecto, o I., mais que extenso,
utilizar o intelecto como guia. 'Sapere aude!               correo fundamental do cartesianismo. De
Tem coragem de usar teu intelecto!'  o lema               fato, para Descartes a crtica racional no tinha
do I." (Was ist Aufklrung', em Op., ed. Cas-             direitos fora do campo da cincia e da metafsi-
sirer, IV, p. 169)- O I. compreende trs aspec-            ca. Os campos da poltica e da religio deve-
tos diferentes e conexos: 1B extenso da crtica a         riam continuar sendo tabus, e no prprio cam-
toda e qualquer crena e conhecimento, sem                 po da moral Descartes acha que a razo no
exceo; 2e realizao de um conhecimento                  tenha a sugerir outra coisa a no ser a revern-
que, por estar aberto  crtica, inclua e organize         cia s normas tradicionais. O I. no aceita estas
os instrumentos para sua prpria correo; 3e              renncias cartesianas; seu primeiro ato, alis,
uso efetivo, em todos os campos, do conheci-               foi estender a indagao racional ao domnio
mento assim atingido, com o fim de melhorar                da religio e da poltica. O desmoiy.) ingls 
a vida privada e social dos homens. Esses trs             de fato a primeira manifestao do I.; consiste
aspectos, ou melhor, compromissos funda-                   na tentativa de determinar a validade da reli-
mentais, constituem um dos modos recorrentes               gio "nos limites da razo" (como dir Kant),
de entender e praticar a filosofia, cuja expres-           mas de uma razo cujas possibilidades j foram
so j se encontra no perodo clssico da Gr-             delimitadas previamente pela experincia. Por
cia antiga (v. FILOSOFIA). O discurso de Pricles          outro lado, os Tratados sobre o governo de Loc-
em Tucdides (II, 35-46)  a melhor e mais                 ke iniciam a crtica poltica iluminista, depois
autntica descrio do I. antigo. Por I. moderno           retomada e levada a termo por Montesquieu.
entende-se comumente o perodo que vai dos                 Turgot, Voltaire e pelos escritores da Revolu-
ltimos decnios do sc. XVII aos ltimos de-              o. No domnio moral, a Teoria dos sentimen-
cnios do sc. XVIII: esse perodo muitas vezes            tos morais (1759) de Adam Smith, as obras dos
 designado simplesmente I. ou sculo das luzes.           moralistas franceses (La Rochefoucauld, La
    ls O I., por um lado, adota a/cartesiana na           Bruyre, Vauvenargues), que punham em evi-
razo e, por outro lado, acha que  bem mais               dncia a importncia do sentimento e das pai-
limitado o poder da razo. A lio da modstia             xes na conduta do homem, bem como as
que o empirismo ingls, sobretudo em Locke,                doutrinas morais de Hume, marcam a abertura
dera s pretenses cognoscitivas do homem                  deste campo de indagao  crtica racional e 
no  esquecida: o empirismo, alis, passa a fa-           busca de novos fundamentos para a vida moral
zer pa/te integrante do I. A expresso tpica              do homem. Ao mesmo tempo, a obra de BEC-
                                                           CARIA, Dei diritti e delle pene (1764), abria 
desta limitao dos poderes da razo  a dou-
trina da coisa em si (v.), lugar-comum do I. e             indagao racional o domnio do direito penal.
como tal compartilhado por Kant. Essa doutri-              Obviamente, os resultados obtidos em todos
na significa que os poderes cognoscitivos                  esses campos so diferentes e sua importncia
humanos, tanto sensveis quanto racionais,                 varia. Mas o significado do I. no consiste na
vo at onde vai o fenmeno, mas no alm.                 soma de seus resultados, mas no fato de ha-
Assim, o I.  caracterizado, em primeiro lugar,            ver aberto  crtica domnios at ento fe-
pela extenso da crtica racional aos poderes              chados e por haver iniciado em tais domnios
cognoscitivos, portanto pelo reconhecimento                um trabalho eficaz que desde ento no foi
dos limites entre a validade efetiva desses po-            interrompido.
deres e suas pretenses fictcias. O criticismo                A atitude crtica prpria do I. est bem
kantiano, que, como Kant afirma, pretende le-              expressa em sua resoluta hostilidade  tradi-
var a razo ao tribunal da razo (Crt. R. Pura,           o. Na tradio, o I. v uma fora hostil que
Pref.  l1 edio), nada mais  que a realiza-             mantm vivas crenas e preconceitos que  sua
 o sistemtica de uma tarefa que todo o I.               obrigao destruir. Aquilo que impropriamen-
 assumiu.                                                  te tem-se denominado anti-hstoricismo ilumi-
    Ao lado desta limitao dos poderes cog-               nista na realidade  antitradicionalismo: a recu-
 noscitivos, primeira caracterstica do I. por ser         sa em aceitar a autoridade de tradio e de re-
 o primeiro efeito do compromisso de estender              conhecer nela qualquer valor independente da
ILUMINISMO2                                          536                                      ILUMINISMO 2


razo. O Dicionrio histrico e critico (1697)                 3a O I. no  somente uso crtico da razo;
de Bayle, concebido como coletnea e refuta-                tambm o compromisso de utilizar a razo e
o dos erros da tradio,  o maior documen-              os resultados que ela pode obter nos vrios
to da atitude constante dos iluministas de todos           campos de pesquisa para melhorar a vida indivi-
os pases. Tradio e erro para eles coincidiam.           dual e social do homem. Esse compromisso
E embora hoje essa tese possa parecer extre-               no  compartilhado igualmente por todos os
mista e to dogmtica quanto a tese que iden-              iluministas. Alguns deles, que contriburam de
tifica tradio e verdade, no se deve esquecer            forma eminente para o desenvolvimento da
que s ela, graas a um esforo hercleo, pos-             crtica racional do mundo humano, no o acei-
sibilitou a libertao dos fortes entraves que a           tam. Isso ocorre, p. ex., com Hume, que decla-
tradio impunha  livre pesquisa, permitindo              ra filosofar para seu prprio deleite. Mas, por
chegar aos novos conceitos (de que ainda hoje              outro lado, ele constitui a substncia da perso-
dispomos) de histria e de historiografia. Esta            nalidade de muitos pensadores iluministas e
ltima vinha constituindo, nesse perodo, os               tambm de empreendimentos como a Enci-
cnones que lhe garantiam, na medida do pos-               clopdia, que tomaram para si a tarefa da luta con-
svel, a Independncia em relao a crenas e              tra o preconceito e a ignorncia. Essa luta, assim
preconceitos no reconhecimento e na avalia-                como a luta contra os privilgios empreendida
o dos fatos. Por outro lado, a histria vinha-           pela Revoluo Francesa com base nos com-
se configurando como o progresso possvel (v.              promissos e nas concepes iluministas, tem
adiante).                                                  como objetivo declarado a felicidade ou o bem-
     2e J se disse que o empirismo fez parte do           estar do gnero humano. Nesse aspecto, o I. 
. De fato, s a atitude empirista garante a aber-         responsvel por duas concepes de fundamental
tura do domnio da cincia e, em geral, do                 importncia para a cultura moderna e con-
conhecimento,  crtica da razo, pois consiste            tempornea: a concepo de tolerncia e a de
em admitir que toda verdade pode e deve ser                progresso. O princpio da tolerncia religiosa,
colocada  prova, eventualmente modificada,                que no s exige a convivncia pacfica das
corrigida ou abandonada (v. EMPIRISMO). ISSO               vrias confisses religiosas, mas tambm im-
explica por que o I. sempre esteve estritamente            pede que a religio se torne um instrumento de
unido  atitude empirista. O empirismo  o                 governo, encontra no I. a primeira defesa no
ponto de partida e o pressuposto de muitos                 sentido de defini-lo como elemento da cultura
destas;  a filosofia defendida por Voltaire,             ocidental, no suscetvel de negao no mbito
Diderot, D'Alembert e que, atravs da obra de              dessa mesma cultura (v. TOLERNCIA). Por ou-
Wolff, domina os rumos do I. alemo at Kant.              tro lado, o compromisso de transformao, pr-
Em estreita ligao com essa atitude est a im-            prio do I., leva  concepo da histria como
portncia que o I. atribui  cincia. Com o I., a          progresso, ou seja, como possibilidade de
cincia, esta filha mais nova da cultura ociden-           melhoria do ponto de vista do saber e dos modos
tal, candidata-se ao primeiro lugar na hierar-             de vida do homem. Voltaire, Condorcet e Turgot
quia das atividades humanas. A fsica, cuja pri-           so os que mais contribuem para formular a
meira sistematizao se encontra na obra de
NEWTON {Princpios matemticos de filosofia                noo de um devir histrico aberto  obra do
 natural, 1687),  acatada pelos iluministas como          homem, suscetvel de receber as marcas que
a cincia me ou como a "verdadeira" filosofia.            o homem lhe quer imprimir. Essa noo serviu
As pesquisas de Boyle encaminham a qumica                 para apagar o sentimento de fatalidade histri-
para a guinada decisiva, que levou  sua orga-             ca que impedia qualquer iniciativa de transfor-
nizao como cincia positiva; a obra de Buffon            mao. Mais tarde, o Romantismo dir que a
e de outros naturalistas assinala, tambm para             histria  a prpria Razo Absoluta, que nela,
as cincias biolgicas, etapas fundamentais de             em cada um de seus momentos, tudo aquilo
desenvolvimento. Mas, tambm a, o mais impor-             que deve ser  e o progresso  fatal ou inevi-
tante no so os resultados obtidos, mas sim a             tvel; e ver no I., que contraps a histria 
direo do caminho tomado. Tudo o que esses                tradio e negou esta ltima, uma concepo
 resultados tm de dogmtico, incompleto, pro-             "abstrata" ou "anti-histrica". Mas na realidade
 visrio, pode ser corrigido pelo prprio com-             o que o Romantismo visava era apenas declarar
 promisso fundamental do I., de no bloquear a             intil ou impossvel o compromisso de trans-
 obra da razo em nenhum campo e em ne-                    formao: confiando na fora da Razo Histri-
 nhum nvel.                                               ca, pretendia imprimir o selo da eternidade nas
ILUSO                                                  537                                   IMAGINAO

instituies em que a via encarnada. Isso con-             modernos. Os esticos distinguiam os dois sig-
firma que, se e quando a filosofia quiser as-              nificados empregando duas palavras diferen-
sumir a tarefa (que Plato j lhe atribua) de             tes: denominavam imaginao ((pvtao(Xa) a I.
transformar o mundo humano, a atitude ilu-                 que o pensamento forma por sua conta, como
minista e seus pressupostos fundamentais so               acontece nos sonhos, e I. (cpavtaoa) a marca
as primeiras condies dessa tarefa.                       que a coisa deixa na alma, marca que  uma
    ILUSO (in. Illusion, fr. Illusion, ai. lllusion;      mudana da prpria alma. A I. propriamente
it. Illusone). Aparncia errnea, que no cessa           dita  "aquilo que  impresso, formado e distin-
mesmo quando reconhecida como tal; p. ex.,                 to do objeto existente, que se conforma  sua
ver como quebrado o basto imerso na gua.                existncia e por isso  o que no seria se o
doutrina antiga, que remonta aos epicuristas               objeto no existisse" (DIG. L, VII, 50). Desse
(DIG. L, X, 51) e se repete com freqncia em             ponto de vista, as I. podem ser sensveis e no
tempos recentes, que as I. no pertencem aos               sensveis (como as das coisas incorpreas); ra-
sentidos, mas ao juzo feito sobre o dado sen-             cionais ou irracionais (como as dos animais) e
svel. Contudo, essas consideraes hoje tm               artificiais ou no artificiais (DIG. L, VII, 51).
menos importncia, pois nem a filosofia nem a              Conceito igualmente geral da I. era o dos
psicologia acham til fazer uma distino ntida           epicuristas, que admitiam a verdade de todas
entre dados sensveis e funes intelectuais. Kant         as I. porquanto produzidas pelas coisas: pois o
definiu a I. como "o jogo que persiste mesmo               que no existe no pode produzir nada (DIG.
quando se sabe que o objeto pressuposto no                L, X32).
 real" (Antr.,  13). E nesse sentido, considerou             Esses conceitos passaram para a Idade M-
a atividade dialticada razo como I. "Em nos-             dia e foram utilizados com fins teolgicos, para
sa razo (considerada subjetivamente como facul-           esclarecer a relao entre a natureza divina e a
dade cognoscitiva humana) existem normas e                 humana (cf., p. ex., S. Thoms, S. Th., I. q. 95).
princpios de uso que tm todo o aspecto de prin-          Na filosofia moderna, foram retomados por
cpios objetivos: por isso acontece que a neces-           Bacon (De augm. scient., II, 1,  5) e Hobbes;
sidade subjetiva de que haja certa conexo dos             para este, a I. " ato de sentir e s difere da
nossos conceitos, em virtude do intelecto, seja            sensao assim como o fazer difere do fato"
considerada necessidade objetiva de determi-               (De corp., 25,  3). Mas, em filosofia, o termo I.,
nar as coisas em si mesmas. I. que no pode ser            em seu significado geral, comeou a perder
evitada, assim como no  possvel evitar que              terreno para idia (v.), em Descartes, e repre-
o meio do mar parea mais alto que na praia                sentao^?), em Wolff. A preferncia por esses
porque ns o vemos l atravs de raios que so             dois termos persiste na filosofia contempornea,
mais elevados que os daqui; assim como o as-               que s lana mo do termo I., em seu 2Q signi-
trnomo no pode impedir que a lua lhe pare-               ficado, quando quer acentuar o carter ou a
a maior ao surgir, mesmo que no se deixe                 origem sensvel das idias ou representaes
enganar por esta aparncia" (Crt. R. Pura,                de que o homem dispe.  o que faz, p. ex.,
Dialtica, Intr., I). As qualificaes "natural" e         Bergson: "Vamos fazer de conta, por um instante,
 "inevitvel" que Kant atribui  1. transcendental,        que nada sabemos das teorias sobre a matria
 mas que so atribuveis a qualquer iluso, s             e sobre o esprito, que nada sabemos sobre as
fazem expressar o carter fundamental da I.: ao           (discusses acerca da realidade ou da idealidade
 contrrio do erro, no deixa de existir mesmo             do mundo externo. Estaremos ento em presena
 ao ser identificada como I.                               da I. no sentido mais vago em que se possa
   IMAGEM (gr. (pvxaoyia., (pavxaaos; lat.               tomar essa palavra, I. percebidas quando abro
Imago; in. Image; fr. Image; ai. Einbildung; it.           meus sentidos, no percebidas quando os fecho"
Immagine). Semelhana ou sinal das coisas,                 (Matire et mmoire, cap. 1).
que pode conservar-se independentemente das                   IMAGINAO (gr. (pavraaoc; lat. lmagi-
coisas. Aristteles dizia que as I. so como as          . natio, Phantasia; in. Imagination; fr. Imagina-
coisas sensveis, s que no tm matria (De               tion-, ai. Einbildungskraft; it. Immaginazione).
an., III, 8, 432 a 9). Neste sentido a I. : P             Em geral, a possibilidade de evocar ou produ-
produto da imaginao (v.); 2 sensao ou                 zir imagens, independentemente da presena
percepo, vista por quem a recebe. Neste se-              do objeto a que se referem. Aristteles definiu
gundo significado, esse termo  usado cons-                a I. nesses termos, sendo o primeiro a analis-
tantemente tanto pelos antigos quanto pelos                la, em De anima (III, 3). Aristteles distinguiu a
IMAGINAO                                           538                                      IMAGINAO


I. em primeiro lugar da sensao, em segundo               sensao: "Na realidade, a I. nada mais  que
lugar da opinio. I. no  sensao porque uma             uma sensao enfraquecida ou langorosa por
imagem pode existir mesmo quando no h                    estar distante do seu objeto" (De corp., 25, % 7).
sensao; p. ex., no sono. I. no  opinio por-           E via na I. a inrcia do esprito. Assim como um
que a opinio exige que se acredite naquilo                corpo em movimento se mover eternamen-
que se opina, enquanto isso no acontece com               te se no surgir obstculo, ns conservamos
a I., que, portanto, tambm pode pertencer aos             a imagem, ainda que mais confusa, de um obje-
animais. O carter que aproxima a I. da opinio            to que no est mais presente ou diante do
 que ela, assim como a opinio, tambm pode               qual fechamos os olhos.  isso que os lati-
ser falaz. Aristteles considerou a imaginao             nos chamavam de I. e os gregos, de fantasia.
como uma mudana (kinesis) gerada pela sen-                Trata-se de uma sensao atenuada, comum
sao, semelhante a esta, embora no ligada a              aos homens e a outras criaturas, no sono e na
ela. (De an., III, 428 b 26). Nesse sentido, a I.          viglia" (Leviath., I, 2). Hobbes relaciona com
 condio da apetio, que tende para alguma              a I. a memria, a experincia e, por interm-
coisa que no est presente e da qual no se               dio destas, tambm o intelecto e o juzo (Ibid.,
tem sensao atual (Ibid., 433 b 29). Esse con-            I, 12).
ceito de I. permaneceu inalterado por muito                    Essa funo da I. na organizao geral das
tempo. Como Aristteles j observara, a I. con-            faculdades humanas torna-se dado comum da
fere  alma possibilidades vrias, ativas ou pas-          filosofia dos scs. XVII e XVIII. Spinoza, que 
sivas, que so enfatizadas por muitos filsofos.           propenso a atribuir  I. todos os erros da mente
S. Agostinho diz: "As imagens so originadas               humana, diz que a mente no erra porque ima-
por coisas corpreas e por meio das sensaes:             gina, mas apenas porque acredita na presena
estas, uma vez recebidas, podem ser facilmente             das coisas imaginadas, que, por definio, no
lembradas, distinguidas, multiplicadas, reduzi-            esto presentes. (Et., II, 17, Scol.). Hume, que
das, ampliadas, organizadas, invertidas, recom-            concorda com Hobbes quanto  funo funda-
postas do modo que mais agrade ao pensamento"              mental da I., acredita que.o que distingue a I.
(De vera rei, 10,  18). Todas essas so possi-            propriamente dita da memria e que portanto
bilidades prprias da imaginao. E S. Toms,              est na base da crena, que acompanha a pr-
que pouca ou nenhuma importncia atribui  I.,             pria memria assim como acompanha a sensi-
que, assim como a sensibilidade, se limita a cap-          bilidade,  unicamente o fato de as idias da
tar a semelhana e no a essncia das coisas (S.           memria serem mais fortes e vivas que as da I.
Th., I, q. 57, a. I), atribui entretanto mltiplas         (Treatise, I, III,  5). Obviamente, a funo ge-
funes ao seu produto, que  a imagem (Ibid.,             ral atribuda  I. em relao s outras ativida-
q. 93, a. 9). A definio de I. no muda muito             des do esprito implica que se diferenciem
nas fases ^posteriores da histria desse termo,            essas funes da outra especfica, que leva o
mas as funes a ela atribudas tendem a ser               nome de I.; e isso leva  distino de vrios ti-
cada vez mais numerosas e complexas. Francis               pos de I., que foram enumerados no sc. XVIII.
Bacon, em De augmentis scientiarum (1623),                 Wolff distinguia a I. ("faculdade de produzir as
o elaborar o plano de uma nova enciclopdia                percepes das coisas sensveis ausentes"
das cincias, colocava a I. ao lado da memria             [Psychol. emprica,  92]) da facultas fingendi,
e da razo, como uma das faculdades funda-                 que consiste "em, atravs da diviso e da com-
mentais, a que serve de base para a poesia.                posio das imagens, produzir a imagem de
Ainda mais radicalmente, Descartes, em Regulae             uma coisa nunca percebida pelos sentidos"
a directionen ingenii, reconhecia na I. a con-            (Ibid.,  138). Anloga a esta foi a distino
dio de atividades espirituais diversas: "Essa            estabelecida por Kant, que v na I. "a faculda-
mesma fora, se aplicada com a I. ao senso                 de das intuies, mesmo sem a presena do
comum, denomina-se ver, tocar, etc; se aplica-             objeto", dividindo-a em produtiva, que  "o
da  I. apenas, coberta de figuras diversas,               poder de representao originria do objeto
denomina-se lembrana; se aplicada  I. para               (exhibitio originaria) e precede a experin-
criar novas figuras, denomina-se I. ou repre-              cia", e reprodutiva (exhibitio derivativa), que
sentao; se por fim age sozinha, chama-se                 "traz de volta ao esprito uma intuio emprica
compreender" (Regulae, XII). Hobbes tambm                 anterior". S as intuies puras de espao e de
via na I. uma condio fundamental das ativi-              tempo so produtos da I. produtiva. A I. re-
 dades mentais. Ele a vinculava estreitamente             produtiva, mesmo quando  denominada poti-
IMAGINAO                                             539                                         IMANENCIA

ca, nunca  criadora, porque no pode criar                  acontece porque, ao representar-se como "li-
uma representao sensvel que no tenha sido                vres fantasias", as experincias humanas reve-
nunca antes dada  sensibilidade, mas dela                   lam sua verdadeira natureza, porquanto se
sempre extrai seu material (Antr., I,  28). O               tornam puros objetos de contemplao de-
conceito de I. produtiva -- que para Kant                   sinteressada. Deste ponto de vista Husserl afir-
puramente formal, pois s produz as condi-                   ma paradoxalmente que "a fico o elemento
es da intuio (espao-tempo) -- fora utili-               vital da fenomenologia" (Ibid.,  70). Mas, sem
zado mais amplamente na primeira edio de                   levar em conta essa funo vital que a I.
Crtica da Razo Pura, onde se falava de uma                 reprodutiva desempenha na fenomenologia, as
"sntese da produo na I.", considerada como                tarefas que ela parece cumprir nas anlises fi-
a condio da sntese conceituai da apercepo.              losficas e psicolgicas contemporneas no
A partir de Fichte, o idealismo romntico atri-              so diferentes das que ela parecia cumprir nas
bui  I. um alcance bem maior cjue o atribudo               anlises dos filsofos do sc. XVIII. Por vezes
por Kant, que a confinara aos limites das con-               se pe em relevo a funo que a I. desempe-
dies formais. Para Fichte, a I.  a ao rec-             nha nas cincias, especialmente na matemtica
proca e a luta entre o aspecto finito e o aspecto            (cf. p. ex., PEIRCE, Coll Pap., 4232), mas nem
infinito do Eu, ou seja, o aspecto graas ao qual            por isso se lhe atribui o poder criativo mgico
o Eu impe um limite  sua atividade produtiva               que a esttica romntica via nela.
e o aspecto graas ao qual o supera e o distancia.              IMAGINAO TRANSCENDENTAL. V. IMA-
A oscilao desse limite (que  a representa-                GINAO.
o) do produto faz da I. algo de flutuante                      IMANENCIA (in. Immanence; fr. Immanen-
entre realidade e irrealidade. Fichte diz: "A I.             ce; ai. Immanenz; it. Immanenza). Esse termo
produz a realidade, mas nela no h realidade;               pode significar: 3 a presena da finalidade da
s depois de concebida e compreendida no                     ao na ao ou do resultado de uma operao
intelecto, seu produto se torna algo de real"                qualquer na operao; 2Q limitao do uso de
(Wissenschaftslehre, 1794, II. Deduo da re-                certos princpios  experincia possvel e recu-
presentao, III). Essa funo criadora da I. tor-           sa em admitir conhecimentos autnticos que
nou-se lugar-comum do Romantismo. Sobre                      superem os limites de semelhante experincia;
ela, Hegel implantou a distino entre I. e fan-             3e resoluo da realidade na conscincia.
tasia. Ambas so determinaes da inteligncia,                   le Era com o primeiro significado que os
mas a inteligncia como I.  simplesmente                    escolsticos falavam de ao imanente, que
reprodutiva, ao passo que como fantasia  cria-              "permanece no agente", como entender, sen-
dora,  "I. simbolizante, alegorizante ou poe-               tir, querer, porquanto distinta da ao transitiva
tante" (Ene,  455-57). Sobre o poder criador               (transiens), que passa para uma matria exter-
da fantasia, Hegel fundou seu conceito de g-                na, como serrar, esquentar, etc. (cf. por todos
nio (Vorlesungen berdiesthetik, ed. Glockner,              S. TOMS, 5. Th., I, q. 14, a. 2; q. 18, a. 3; q. 23,
I, pp. 378 ss.). Tais observaes constituram o             a. 2; q. 27, a. I etc). Essa distino s fazia
ponto de partida para a distino entre fantasia             expressar a distino feita por Aristteles entre
e I., utilizada sobretudo pela esttica romnti-             movimento (Kvr|cn) e atividade (vpTEm)
ca e por suas ramificaes, at Croce (v. FANTA-             no IX livro da Metafsica (6, 1048 b 18), consi-
SIA). Afora essa esttica, hoje nem a filosofia              derando como movimento a ao que tem fim
nem a psicologia estabelecem mais, entre I. e                fora de si, e atividade as aes que tm fim em
                                                             si mesmas. Aristteles empregara a esse pro-
fantasia ou entre I. reprodutiva e I. produtiva,             psito o verbo vrjjtp^eiv, que significa inerir
a mesma diferena radical (de qualidade mais                 como parte essencial ou constitutiva. Spinoza
que de grau) cjue a esttica romntica supunha.              empregou o adjetivo no mesmo sentido, afir-
A fenomenologia, em particular, atribuiu uma                 mando que "Deus  causa imanente, no tran-
funo especial  I., pois a ela  confiada a re-            sitiva, de todas as coisas" querendo com isso
 presentao das vivncias como puros objetos                dizer que "Deus  causa das coisas que esto
 de contemplao, o que constitui a prpria pos-             nele", e que nada h fora de Deus (Et., I, 18).
 sibilidade da fenomenologia. Por isso, Husserl              A distino aristotlica foi retomada pelos wolf-
 diz.- "Na fenomenologia, como em todas as cin-             fianos (cf. BAUMGARTEN, Met.,  211).  evidente
 cias eidticas, as representaes, mais precisa-            que, neste sentido, I. significa permanncia do
 mente as fantasias livres, tm posio privilegiada         fim, do resultado ou do efeito de uma ao no
 em relao s percepes" (Ideen, I,  70). Isso            seu agente.
IMANNCIA, FILOSOFIA DA                               540                                   IMATERIALISMO


    2a O segundo significado desse termo cor-               alguma maneira, imanente no homem, pelo
responde ao emprego que Kant faz do adjeti-                 menos sob forma de necessidade, aspirao ou
vo, chamando de imanentes "os princpios cuja               exigncia (BLONDEL, Lettre sur les exigences de
aplicao se tem em tudo e por tudo dentro                  Ia pense contemporaine en matire d'Apolo-
dos limites da experincia possvel", contrapon-            gtique, 1896; LABERTHONNIRE, Essais de philo-
do-se, portanto, aos princpios "transcenden-               sophie religeuse, 1903). Le Roy deu a esse m-
tes", que ultrapassam esses limites (Crt. R. Pura,         todo uma expresso ainda mais generalizada,
Dialtica, Intr., I; Prol,  40). Nesse sentido, I.         denominando-o "princpio de I." e expressan-
significa limitao do emprego de certos prin-              do-o da seguinte forma: "tudo  interno a tudo,
cpios ao domnio da experincia possvel, e                e no mnimo detalhe da natureza ou da cincia
renncia a estend-los alm dele.                           a anlise encontra toda a natureza e toda a
    3Q O terceiro significado de I. foi estabeleci-         cincia" (Dogme et critique, 1907, p. 9) (v. AO,
do pelo idealismo ps-kantiano. Fichte diz: "No             FILOSOFIA DA).
sistema crtico, a coisa  aquilo que est posto                IMANENTISMO (in. Immanentism; fr. Im-
no Eu; no dogmtico, aquilo em que o Eu                     manentisme, ai. Immanentismus; it. Immanen-
posto; assim, o criticismo  imanente porque                tismo). 1. Indica-se com esse termo a doutrina
pe tudo no Eu; o dogmatismo  transcendente                que admite a imanncia no 3S significado, ne-
porque vai alm do Eu" (Wissenschaftslehre,                 gando qualquer realidade ou ser fora da cons-
1794, I,  3, D; trad. it., p. 77). Essa terminolo-         cincia ou da autoconscincia. Neste sentido
gia, que  seguida por Schelling, atribui ao                so doutrinas imanentistas o idealismo romnti-
adjetivo "imanente" a caracterstica do idealis-            co, o idealismo gnosiolgico e todas as formas
mo absoluto, para o qual nada existe fora do                do consciencialismo.
Eu. Contudo,  evidente a analogia desse signi-                 2. Esse termo tambm  usado para indicar
ficado com o de Spinoza, para quem a ao de                a doutrina da imanncia no Ia significado, em
Deus  imanente porque no vai alm de Deus.                que eqivale a pantesmo (v.).
Nesse sentido, a i .  a incluso de toda a rea-                3. Algumas vezes, especialmente em fran-
lidade no Eu (ou Absoluto ou Conscincia) e a               cs, esse termo  empregado para designar o
negao de qualquer realidade fora do Eu. No                mtodo da imanncia (v.).
mesmo sentido, Gioberti falava de "pensamen-                    IMATERIALISMO (in. Immaterialisni; fr. Im-
to imanente" (Protologia, I, p. 173) e insistia na          matrialisme, ai. Immaterialismus; it. Imma-
imanncia o idealismo italiano entre as duas                terialismo). Termo criado por Berkeley para
guerras.                                                    indicar a doutrina da negao de existncia da
    Comum a esses trs significados do termo               realidade corprea e da reduo desta a idias
o conceito de imanente como tudo que, fazen-                impressas nos espritos finitos diretamente por
do parte da-substncia de uma coisa, no sub-               Deus {Dialogues hetweenHylasandPhonous,
siste fora dessa coisa.                                     III; Works, ed. Jessop, II, pp. 259 ss.). Essa dou-
   IMANNCIA, FILOSOFIA DA (In. Imma-                       trina foi denominada e denomina-se mais co-
nence Philosophy, fr. Philosophie de limma-                 mumente idealismo (no ls sentido). O argu-
nence; ai. Immanenzphilosophie; it. Filosofia               mento fundamental adotado por Berkeley em
delia immanenza). Com esta expresso Gui-                   favor do I.  que as coisas e suas propriedades
lherme Shuppe (1836-1913) designou o ponto                  no so mais que idias que, para existirem,
de vista fundamental de sua filosofia, segundo              precisam ser percebidas {esse estpercip), por-
o qual " o mundo est na conscincia", porm                tanto pensar coisas que no sejam percebidas
no na conscincia individual, mas na "cons-                eqivale a defini-las como "no pensadas"
cincia em geral", que  o contedo comum                   mesmo enquanto so pensadas. A diferena
das conscincias individuais (Grundriss der                 entre as idias reais, que so as coisas, e as
Erkenntnistheorie und Logik, 1894, 2- ed.,                  idias simplesmente imaginadas, que so co-
1910,  31).                                                mumente chamadas de idias, consiste, segun-
  IMANNCIA, MTODO DA (in. Method of                       do Berkeley, no fato de que as primeiras so
Immanence; fr. Mthode d'immanence; ai. Im-                 produzidas no nosso esprito por Deus e as
manenzmethode; it. Mtodo delia immanenza).                 outras so produzidas por ns mesmos. Portan-
Assim foi denominado por Blondel, Laberthon-                to, a mais simples percepo de uma coisa na
nire e outros o mtodo de apologtca religi-              realidade  a percepo de uma ao de Deus
osa, que tende a mostrar que o divino , de                 sobre ns e implica a existncia de Deus, ao
IMEDIATO                                              541                                         IMEDIATO


passo que, a admitir-se a matria, deve-se atri-            por outro, a intuio simptica de que fala
buir a ela a causalidade das prprias idias e              Bergson: a primeira tem por objeto as essncias;
pode-se dispensar Deus. O materialismo  por                a segunda tem por objeto a conscincia em sua
isso o fundamento do atesmo e da irreligio,               durao (v. INTUIO). Ambas essas intuies
assim como o I.  o fundamento da religio                  so caracterizadas pelo carter L: captam os
(Principies ofHuman Knowledge, I, 92 ss.).                  respectivos objetos sem necessidade de inter-
   IMEDIATO (gr. auEOO; in. Immediate; fr.                 medirios.
Immdat; ai. Unmittelbar, it. Immediat). Qua-                 Hegel, provavelmente o crtico mais radical
lifica-se geralmente com este termo todo obje-              do privilgio da imediao, denominou "filoso-
to que pode ser reconhecido ou proposto sem                 fia do saber I." a filosofia da f de Jacobi. Kant
a ajuda de qualquer outro objeto: p. ex., uma               j se manifestara contrrio a essa filosofia, re-
idia que pode ser percebida sem ajuda de                   cusando-se a admitir que a f ou qualquer outra
outra idia, um fato que pode ser constatado                atividade sentimental ou I. do homem pudesse
sem ajuda de outros fatos, uma proposio que               ir alm dos limites da razo, que so enfim os
pode ser considerada verdadeira sem recorrer                mesmos da experincia possvel (Was heisst:
a outras proposies, etc. Assim, Aristteles               Sich in Denken orientieren?, 1786). Mas a crtica
chamava de I. a premissa " qual nenhuma                    de Kant  especialmente dirigida contra o fa-
outra  anterior" (An. post., I, 2, 72 a 7), ou             natismo (v.) que ele v implcito nessa posi-
seja, a premissa cuja verdade  obtida sem re-              o, ao passo que a crtica de Hegel  dirigida
correr  verdade de outras premissas. Em senti-             contra a imediao. Para Hegel, a forma da
do anlogo, Descartes afirmava entender por                 imediao "d ao universal a unilateralidade de
pensamento "tudo aquilo que est de tal forma               uma abstrao, de tal forma que Deus se tor-
em ns que ns o percebemos imediatamen-                    na a essncia indeterminada, mas Deus s
te em ns mesmos" (IIRp., def. 1), onde ime-               pode ser chamado de esprito na medida em
diatamente lhe servia "para excluir as coisas               que se sabe, mediando-se em si consigo mes-
que se seguem e provm do nosso pensamento".                mo. S assim  concreto, vivo, esprito: a saber
Ainda analogamente Locke entendia por co-                   de Deus, como esprito, exatamente por isso
nhecimento intuitivo a percepo da concor-                 contm em si a mediao" (Ene,  74). Para
dncia e da discordncia entre as idias por si             Hegel, a mediao (v.)  o retorno da cons-
mesmas e imediatamente, ou seja, sem ajuda                  cincia sobre si mesma, a autoconscincia, que
de idias intermedirias (Ensaio, IV, 2, 1).                 a forma ltima e suprema da realidade e, por
    Faz parte do conceito de imediao, assim               isso, identificada por Hegel com Deus. Negar a
entendido, a pretenso de que o I. no precisa              mediao significa, portanto, negar a superio-
de outra coisa para exigir o reconhecimento de              ridade da autoconscincia sobre a conscincia.
sua'validade. Assim, para Descartes a ime-                  O I.  a forma mais simples da conscincia, 
diao do pensamento constitui a prpria vali-              "o intuir abstrato", que  o intuir no qual aquilo
dade da proposio Eu sou, e para Locke a                   que intui (a conscincia) se considera diferente
imediao da relao entre as idias torna esta             daquilo que  intudo (o objeto da conscin-
relao mais segura do que a relao mediata,               cia). Esta crtica, como se v,  tpica da filoso-
ou seja, demonstrativa (Ibid., IV, 2, 4). , pois,          fia hegeliana: faz parte integrante dela, mas
 suprfluo lembrar que as premissas imediatas               no  utilizvel fora dela. No mundo contem-
 de Aristteles tm validade necessria como                porneo, em que o domnio do saber tende a
 princpios primeiros da demonstrao. Privil-             ser coberto pelas vrias disciplinas cientficas,
 gio anlogo geralmente  atribudo s formas               o I. perdeu seus privilgios, mas por razes
 de conhecimento I., como p. ex. a intuio.                que nada tm a ver com as aduzidas por Hegel.
 Kant atribuia  intuio o privilgio de ser "o I.         O objeto de uma investigao cientfica nunca
 presena do objeto" (Prol,  8), mas ao mesmo               I., pois sua validade s pode ser estabe-
 tempo negava que existisse uma intuio "no               lecida com o auxlio de instrumentos ou pro-
 sensvel", algo mais que uma modificao pas-              cedimentos mais ou menos complicados, por-
 siva, que uma afeio. Mas a filosofia moderna             tanto de forma indireta e mediata. At os objetos
 e contempornea falou com freqncia de in-                da viso, que tradicionalmente constituam o
 tuio no sensvel: basta lembrar, por um                 modelo dos objetos I., perderam esse carter
 lado, a intuio eidtica de que fala Husserl e,           para a psicologia contempornea, que tende a
IMITAO                                             542                                   IMORTALIDADE


evidenciar as complexas estruturas e os pro-               I, 3). Ao lado da alma material, que  a nica
cedimentos mediatos da percepo (v.). Con-                que preside s operaes humanas (inclusive a
tudo, muitos filsofos ainda privilegiam algu-             moralidade) e  mortal, Telsio admite uma
ma forma de conhecimento imediato.  o que                 alma divina, que  o sujeito da aspirao do
fez Russell, ao admitir como ponto de partida              homem  transcendncia e  imortal (De rer.
de todo conhecimento o conhecimento ime-                   nat., V, 2). A demonstrao da I.  uma das fi-
diato (acquantance), de cujos objetos "fica-              nalidades declaradas da filosofia de Descartes
mos cientes diretamente, sem intermedi-                   e um aspecto importante da filosofia de Leibniz
rios" (Human Knowledge, 1948, p. 196 e pas-                (Teod., I, 89) e da filosofia alem pr-kantiana
sim). Para Russell, qualquer conhecimento, em              (BAUMGARTEN, Mel,  776). A I. da alma conti-
ltima anlise, deve ser reintegrado nesses "da-           nua fazendo parte de todas as formas mona-
dos egocntricos". Ao mesmo tempo, Carnap                  dolgicas do espiritualismo moderno e con-
considerou como elementos originrios, que                 temporneo, visto estar claro que a mnada,
fazem parte da construo lgica dos objetos               seja ela criada ou incriada,  em qualquer caso
da cincia, as vivncias elementares (Elemen-              imortal.
tarerlebnisse [Der Logische Aufbau der Welt,                   2- A teoria da I. parcial tem origem em Aris-
 65D. Mas nesses pressupostos e em outros                 tteles. Aps distinguir o intelecto ativo do pas-
semelhantes, a filosofia da cincia afasta-se das          sivo, Aristteles diz que "o intelecto ativo"  se-
anlises e das concluses da prpria cincia.              parvel, impassvel e sem mistura porque, por
    IMITAO. V. ESTTICA.                                 sua substncia,  ato; e que s ele " imortal e
    IMORALISMO (in. Immomlism; fr. Immo-                   eterno" (De an., III, 5. 430 a 17). Por sua
ralisme, ai. Immoralismus; it. Immoralism).               "impassibilidade", o intelecto ativo no conser-
Expresso adotada por Nietzsche para expressar             va as determinaes particulares, por isso no
sua posio de antagonismo  moral tradicional             se identifica com a totalidade da alma humana,
e sua tentativa de efetuar uma "reviravolta dos            que tambm compreende o intelecto passivo.
valores". Nietzsche dizia: "Sabe-se qual  a pa-           Essa doutrina foi incorporada pelos esticos
lavra que preparei para esta luta, a palavra               em sua metafsica, segundo a qual a alma do
imoralista; minha frmula tambm  conheci-                homem  uma parte do Esprito Csmico e,
da: alm do bem e do mal" (Wille zur Macht,                como este,  imortal (DiG. L, VII. 156). Clean-
1901,  167, c).                                           tes afirmava que todas as almas duraro at a
    IMORTALIDADE (in. Immortality; fr. Im-                 conflagrao final; Crisipo acreditava que so-
mortalit; ai. Unsterblichkeit; it. Immortalit).          mente as almas dos sbios duraro at esse
Uma das crenas mais difundidas nas filosofias             momento (DlG. L, VII, 157).
e nas religies do Oriente e do Ocidente. Do                  Na Idade Mdia, o aristotelismo rabe reto-
ponto de vista filosfico, pode assumir duas               mou doutrina semelhante a esta. Averris dava
formas diferentes: Ia a crena na I. da pessoa             um passo a mais que Aristteles no que se
individual, ou seja, da alma humana em sua to-             refere  relao entre o intelecto e o restante da
talidade; 2g a crena na I. daquilo que a pessoa           alma humana: no s o intelecto ativo, como
individual tem em comum com um princpio                   julgava Aristteles, mas tambm o intelecto
eterno e divino, s da parte impessoal da alma.            passivo (ou material ou Mico) esto separados
 necessrio, pois, considerar em terceiro lugar           da alma humana,  qual s pertence o intelecto
as provas aduzidas pelos filsofos em favor da             aquisitivo ou especulativo, que  a disposio
imortalidade.                                              essencial para participar das operaes do in-
     1- A I. da alma individual foi admitida por           telecto. Este , portanto, nico, separado e di-
rficos, pitagricos e por Plato. Os eclticos            vino, e a alma humana nada tem de verdadei-
 (v. p. ex. CCERO, Tusc, I, 26-35) tambm a               ramente imortal (De an., III, 1). Esse ponto de
 admitiram, bem como Plotino (Enn., III, 4, 6).            vista, seguido pelos averrostas latinos, que re-
 Na Patrstica e na Escolstica, ai. da alma indi-         duziam a I. da alma a pura questo de f (p.
 vidual  lugar-comum, e fora das disputas dos             ex., MANDONNET, SigerdeBrabante, II, p. 167),
 aristotlicos ela tambm se mantm como lu-               tambm foi adotado pelos averrostas e pelos
 gar-comum no Renascimento. Os naturalistas                alexandristas do Renascimento. Pomponazzi
 do Renascimento admitem a I. (CAMPANELLA, De              afirmava a respeito que a diferena entre inte-
 sensu rerum, II, 24; BRUNO, De triplici minimo,           lecto ativo ou separado e o intelecto humano
IMORTALIDADE                                           543                                     IMORTALIDADE


consiste no fato de o intelecto humano necessi-              que nunca falta a si mesmo, nunca deixa de
tar do rgo fsico (De immortalitate animae,                mover-se, mas  tambm fonte e princpio de
9). I. parcial ou impessoal tambm  a que                   movimento para todas as coisas que se mo-
Spinoza atribui  alma humana, ao dizer que                  vem" (Fed., 245 d). A crtitica a esse argumen-
"a mente humana no pode ser destruda total-                to foi feita por Aristteles, para quem era im-
mente com o corpo, mas que dela fica alguma                  possvel que a alma fosse movida, portanto
coisa que  eterna" (Et., V, 23); em outros ter-             que pudesse ser movida por outra coisa ou
mos, a alma  eterna enquanto modo ou mani-                  por si mesma (De an., I, 3).
festao da Substncia Divina. O Romantismo                      II. O segundo argumento  deduzido da de-
no esteve mais interessado que Spinoza na I.                finio de alma como substncia; como subs-
da alma individual. Hegel dizia: "Para ns, o                tncia, a alma  ser em ato e, como ser em ato,
essencial da crena na I.  que a alma tem em                 imorredoura (ARISTTELES, De an., III, 5, 430
si um fim eterno, totalmente diferente de seu                a 17). Plato exps este argumento no Fdon,
objetivo finito e portanto um valor infinito.               em sua forma mais popular, asseverando que a
essa superioridade que confere interesse  f                alma, por participar necessariamente da idia
na sobrevivncia da alma". (Phil. der Ges-                   de vida, no pode deixar de viver, do mesmo
chichte, ed. Lasson, p. 494; trad. it., II, pp. 267-         modo como o nmero trs, que participa ne-
68). Realmente, para Hegel o que  imortal,                  cessariamente da idia de mpar, no pode dei-
alis eterno,  o Esprito do Mundo, que se                  xar de ser mpar (Fed., 104-07). S. Toms ex-
encarna nos povos e nos Estados, que se alter-               pressou o argumento de Aristteles ao afirmar
nam como seus portadores. Por outro lado,                    que "aquilo que tem ser por si no pode ser
todas as formas de pantesmo (v.), antigas ou                gerado e corrompido'', pois "o ser por si  pr-
modernas, admitiram uma I. parcial ou parti-                 prio da forma enquanto ato" (S. Th., I. q. 75, a.
lhada, que na realidade significa a eternidade               6). Este argumento foi criticado por Duns Scot:
de um princpio que s parcial ou temporaria-                para este, a alma no tem ser por si no sentido
mente se encarna no homem. O prprio Berg-                   de subsistir por conta prpria e de no poder
 son parece sugerir tal forma de I., ao conside-             ser a ttulo algum separada do ser: isto signifi-
 rar o corpo como um simples "instrumento de                 caria que nem Deus pode cri-la e destru-la, o
 ao" e ao identificar a alma com a corrente da             que  falso (Rep. Par., IV, d. 43, q. 2, n ss 18-19).
 "lembrana pura", que no tem mais individua-               Esse argumento foi ainda mais radicalmente
 lidade alguma (Matire et mmoire, Rsum et                criticado por Kant, que demonstrou o carter
 conclusion).                                                sofista da afirmao da substancialidade da
    3 a A maior parte das provas aduzidas pelos              alma, porquanto tal afirmao s faz transfor-
filsofos em favor da I. no so suficientemen-              mar sub-repticiamente em substncia a simples
te precisas para poderem ser invocadas em                    relao funcional que o sujeito pensante tem
apoio a qualquer uma das crenas acima. As                   consigo mesmo, ou seja, o FM penso (Crt. R.
provas mais concludentes, pelo menos  pri-                  Pura, Dialtica, cap. I).
meira vista, so as que partem dos dois concei-                  III. O terceiro argumento  deduzido de um
tos que tradicionalmente definem a natureza da               corolrio da tese de substancialidade da alma,
alma: a causalidade e a substancialidade. Mas                ou seja, da simplicidade da substncia alma.
estas tambm so as provas mais radicalmente                 Em vista dessa simplicidade, a alma no pode
criticadas.                                                  corromper-se, pois que a corrupo (como pas-
    I. Uma das provas mais antigas  a dedu-                 sagem de um contrrio a outro) implica com-
zida do movimento. Aristteles relata que                    posio, donde os corpos, tambm se forem
Alcmon de Crton julgava a alma imortal e                   simples (como os celestes), sero incorrupt-
 divina porque ela est sempre em movimento,                 veis. Plato afirmava que a alma, por ser invi-
 assim como as coisas divinas, ou seja, a lua, o             svel como as idias, deve ser imutvel e inde-
 sol, etc. (De an., I, 2, 405 a 30). Plato ado-             componvel com elas (Fed., 78c ss.). S. Toms
 tava essa argumentao: "Toda alma  imortal                expe argumento anlogo com outra forma,
 porque o que se move incessantemente                       (cf. especialmente Contra Gent., II, 55). Uma
 imortal. Aquilo que move outra coisa e  mo-                variante dele foi dada por Mendelssohn, em
 vido por outra coisa, ao parar de mover-se,                 Fdon (1766), com a tese de que a alma, em
 pra de viver. S o que se move por si, pelo                vista de sua simplicidade, no pode morrer por
IMORTALIDADE                                          544                                   IMORTALIDADE


decomposio, mas nem por extino. De fato,                    VI. O sexto argumento  extrado do desejo
no podendo ela ser diminuda pouco a pouco                 natural de imortalidade. S. Toms diz: "Qual-
e depois reduzida ao nada (j que no tem                   quer um que tenha inteligncia naturalmente
partes), no deveria haver espao de tempo                  deseja existir para sempre. Mas um desejo na-
entre o instante em que ela  e aquele em                   tural no pode ser vo. Portanto, toda substn-
que ela no  mais. Kant notava a propsito                 cia intelectual  incorruptvel" (S. Th., I. q. 75,
que, mesmo no tendo quantidade extensiva,                  a. 6). Conquanto S. Toms aduza esse argu-
a alma poderia e deveria ter, assim como a                  mento como simples signum da I., ele foi repe-
conscincia, uma quantidade intensiva, ou seja,             tido com freqncia.
um grau (Crt. R. Pura, Confutao do argu-                     VII. O stimo argumento apresenta a I.
mento de Mendelssohn).                                      como exigncia da vida moral do homem.
   IV. O quarto argumento  deduzido da pre-                Esse argumento no teve muita aceitao na
sena da verdade na alma (PLATO, Mn., 86a).               Antigidade: valeu mais como motivo, fre-
S. Agostinho diz: "Se aquilo que est num sujeito           qentemente inconfesso, para que os filso-
(subiectum) dura para sempre, necessariamente               fos procurassem provas demonstrativas da
o sujeito tambm dura para sempre. Ora, toda                imortalidade. Duns Scot negava que fossem
cincia (disciplina) existe na alma como em                 conclusivas as razes extradas da aspirao da
seu sujeito; conclui-se necessariamente que a               alma  bem-aventurana eterna e  justia ca-
alma dura para sempre, se a cincia dura para               paz de retribuir o bem e o mal. A razo natural
sempre. Mas a cincia  verdade e a verdade                 deveria pelo menos dar-nos a conhecer que a
dura para sempre; portanto, a alma dura para                bem-aventurana eterna  o fim adequado 
sempre tambm e nunca pode ser considerada                  nossa natureza, o que no acontece; quanto
morta" (Solil, II, 13). Esse argumento foi repetido          necessidade de prmio ou de castigo, pode-
por S. Toms (Contra Gent., II, 55): "Sendo                 se dizer que cada um encontra retribuio sufi-
incorruptvel o objeto do intelecto, o prprio              ciente em sua prpria ao boa e que o primei-
intelecto ser incorruptvel." Foi criticado pelos          ro castigo do pecado  o prprio pecado (Op.
alexandristas do Renascimento, particularmen-               Ox, IV, d. 43, q. 2, n2 27, 32). Portanto, para
te por Pomponazzi. "Para o intelecto  essen-               Duns Scot, a I. da alma era pura verdade de f,
cial entender, atravs de imagens, como resul-              no susceptvel de tratamento demonstrativo.
ta claro da definio de alma como ato de um                Pomponazzi retomou esse ponto de vista em
corpo fsico-orgnico. Por isso o intelecto, em             sua crtica ao argumento moral (De imm.
cada uma de suas funes, necessita de um                   animae, 14). Na filosofia moderna, contudo,
rgo. Mas aquilo que assim entende  neces-                esse foi o argumento que obteve maior recep-
sariamente, inseparvel do corpo. Portanto o                tividade, o que se explica com facilidade, visto
intelecto humano  mortal" (De imm. animae,                 que, com o declnio da metafsica antiga, as
9). Argumento semelhante ao de Agostinho                    provas deduzidas da causalidade e da substan-
algumas vezes foi repetido por filsofos mo-                cialidade da alma perderam valor. Na "Profis-
dernos com referncia  presena de valores                 so de f do Vigrio saboiano" (Emlio, IV),
ideais na alma humana, ou seja, da Verdade, da              Rousseau chegava a afirmar a imaterialidade,
Beleza e do Bem (p. ex., C. H. HOWISON, The                 portanto a I. da alma, exatamente com base na
Limits of Evoluton, 1901, cap. 6).                         exigncia de uma justia que nem sempre se
   V. Argumento anlogo a este foi deduzido                 v realizada no mundo: "Mesmo que no hou-
por S. Anselmo da presena do amor por Deus                 vesse outra prova da imaterialidade da alma,
na alma. A alma humana, como criatura racio-                alm do triunfo do mau e da opresso do justo
nal, "foi criada para amar sem cessar a Substn-            neste mundo, s isso bastaria para que eu no
cia Suprema. Mas no poderia faz-lo se no                 duvidasse dela. Contradio to manifesta, dis-
vivesse para sempre; portanto, a alma  feita               sonncia to estridente na harmonia do univer-
para viver sempre, conquanto queira fazer                   so, levar-me-ia a refletir que nem tudo termina
sempre aquilo para que foi feita. Alm disso,               para ns na vida, mas que, com a morte, tudo
no estaria de acordo com a suprema bondade,                retorna  ordem". Nesse aspecto, Rousseau
sabedoria e onipotncia do Criador reduzir a                constitua a voz eloqente de grande parte do
nada uma criatura por ele criada para am-lo,               iluminismo e do desmo do sc. XVIII, ainda
at que ela o ame" (Monologion, 69).                        que outra parte desse iluminismo pensasse,
IMORTALIDADE                                         545                                      IMPERATIVO


com Voltaire, que "a mortalidade da alma no              sobre esse problema na filosofia moderna e
contrria ao bem da sociedade, como provam                 contempornea, principalmente depois de
os antigos hebreus, que acreditavam na alma                Kant. Seu interesse por ele acabou por limi-
material e mortal" (Trait de mtaphysique, 6).            tar-se  esfera da religio e da apologtica
Kant s fez reexpor a tese de Rousseau, pres-              religiosa.
supondo a I. como um dos postulados da razo                  IMPENETRABILIDADE. V. ANTITIPIA.
prtica. Segundo Kant, a I. da alma e a existn-               IMPERATIVO (in. Imperative, fr. Impratif,
cia de Deus so condies para a realizao do             ai. Imperativ-, it. Imperativo). Termo criado por
bem supremo, que  a unio de virtude e felici-            Kant, talvez por analogia com o termo bblico
dade. Sem a continuao indefinida da vida hu-             "mandamento", para indicar a frmula que
mana alm da morte, a realizao da santidade              expressa uma norma da razo. Kant diz: "A
mediante o progresso ao infinito no seria pos-            representao de um princpio objetivo, por-
svel, portanto o homem nunca se tornaria dig-             quanto coage a vontade, denomina-se coman-
no de felicidade. Mas para Kant esse postulado             do da razo, e a frmula do comando denomi-
no  uma verdade teortica, mas uma neces-                na-se I." (GrundlegungzurMet. derSitten, II).
sidade do ser moral finito: as consideraes               Para o homem, norma da razo  uma ordem,
morais, em outros termos, no demonstram a                 pois a vontade humana no  a faculdade de
I., mas mostram que ela  uma aspirao leg-              escolher apenas o que a razo reconhece como
tima de quem age moralmente (cf. Postulados                praticamente necessrio, ou seja, como bom.
da Razo Prtica).                                         Se assim fosse, a norma da razo no teria ca-
    VIII. Por fim um argumento antigo, mas                 rter coativo e no seria uma ordem. Isso aconte-
que sempre reaparece,  extrado do con-                   ce com os seres dotados de vontade santa, de
sensus gentium. Ccero assim o expressava:                 uma vontade que est necessariamente de acor-
"Se o consenso universal  voz natural e se                do com a razo e que s pode escolher o que
todos, em todos os lugares, esto de acordo                 racional. Mas, como o homem pode escolher
em julgar que existe algo no que se refere aos             tambm segundo a inclinao sensvel, a lei da
que j morreram, tambm ns devemos ser do                 razo assume para ele a forma de ordem e por
mesmo parecer e, se julgarmos que os dotados               isso sua expresso  um I. (Crt. R. Prtica, I,
de esprito superior por engenho ou virtude                cap. III). Portanto, a palavra I. no passa de
esto em melhores condies para reconhecer                outro nome para a palavra dever (v.). Kant dis-
a fora da natureza porque so perfeitos por               tinguiu os I. em hipotticos e categricos. O I.
natureza,  verossmil -- visto que os melho-              hipottico ordena uma ao que  boa relativa-
res se preocupam muitssimo com a posterida-               mente a um objetivo possvel ou real. No pri-
de -- que exista algo cuja sensao esto des-             meiro caso, ele  um princpio problematica-
tinados a ter depois da morte" (Tusc. ,1, 15, 35).         menteprtico; no segundo caso,  um princpio
    O problema da I. h muito deixou de existir            assertivamente prtico. O I. categrico ordena
em filosofia. Isto nem tanto porque a soluo              uma ao que  boa em si mesma, por si mes-
positiva dele estivesse ligada a determinada fi-           ma objetivamente necessria, sendo portanto
losofia, a metafsica da substncia, mas tambm            um princpio apoditicamente prtico. Os I.
e sobretudo por outras duas razes. A primeira             problematicamente prticos so os de habili-
delas  que a tica moderna desvinculou a mo-              dade (p. ex., as prescries de um mdico). Os
ral de qualquer sano ultraterrena, eliminando            I. assertivamente prticos so os da prudncia:
assim o primeiro e mais imediato interesse                 seu objetivo  a felicidade. Os I. categricos so
na soluo positiva do problema da imortali-               os da moralidade. Os primeiros poderiam deno-
dade. A segunda  que a moderna tendncia                  minar-se I. tcnicosou regras-, os segundos, l.prag-
da filosofia, que considera ilegtimo ou sem               mticosou conselhos; os terceiros so I. morais
significado estender a anlise filosfica alm da          ou leis da moralidade (Grundlegung, cit., II).
espera de existncia ou da experincia detec-                 Essas observaes de Kant foram sobeja-
tvel com os instrumentos que o homem                      mente aceitas na filosofia moderna e contem-
possui, negou, em princpio, a legitimidade e              pornea. Isto no quer dizer que a tica kan-
a conclusividade do prprio debate sobre a                 tiana do dever tambm tenha sido to aceita,
imortalidade. No causa portanto estranheza o              sobretudo na forma proposta por Kant (v. TI-
fato de serem escassos e pobres os trabalhos               CA). O problema de poder ou no considerar as
IMPERSONA1ISMO                                         546                                     IMPLICAO


normas morais como imperativos  fundamen-                       (5) Se x cometer um crime, ento xir para
tal e muitas vezes teve resposta negativa. Toda              a cadeia.
a tradio militarista constitui um exemplo de                   (6) Se x me insulta, eu esbofeteio x
semelhante soluo negativa. A tica de Berg-                    (7) Se x me fizer um favor, ento x ser
son  outro exemplo. Conceber a norma moral                  recompensado por mim.
como I. (ou dever) significa julgar, como Kant,                  (8) Se x um gnio filosfico, ento eu sou
que ela seja um "fato da razo" um sic volo sic              o imperador da China.
iubeo (Crt. R. Prtica, cap. I,  7, Escol.): coisa             Se considerarmos esses diversos exemplos
que nem todos se mostram dispostos a admitir.                de I. (e outros que podero ser enumerados),
    A partir da obra de OGDEN e RICHARDS, The                logo perceberemos que a conexo entre ante-
Meaning ofMeaning (1923), o I., sobretudo o                  cedente e conseqente  diferente em cada
I. moral, foi freqentemente considerado uma                 caso: o fundamento  diferente ou, como se
"proposio emotiva", ou seja, destinada a pro-              poderia dizer, sua validade provm de contex-
duzir ao, mas desprovida de significado cog-               tos diferentes. No exemplo (1), a validade de-
noscitivo. Essa teoria, cuja melhor forma se                 corre do fato de, no dicionrio, verificar-se que
encontra em Ayer (Language Truth and Logic,                  "solteiro" eqivale a "no casado"; em (2), do
2- ed., 1948) e Stevenson {Ethics and Lan-                   contexto da geometria euclidiana e de seus pos-
guage, 1944), aps breve sucesso deixou de ter               tulados; em (3), das observaes empricas ou
defensores (STROLL, The Emotive Theory of                    da cincia; em (4) e (5), respectivamente, das
Ethics, Berkeley, 1954).                                     normas morais e jurdicas vigentes em determi-
                                                             nado pas; em (6) e (7), de minha deciso de
    IMPERSONALISMO (in. Lmpersonalisni).                     reagir a certo tipo de comportamento de x; em
Termo muito pouco usado,  oposto de perso-                  (8) est apenas um modo de expressar minha
nalismo (v): significa simplesmente materia-                 convico de que x no  um gnio filosfico.
lismo (v.).
   IMPERTURBABILIDADE. V. ATARAXIA.
                                                                 Diante dessa variedade de tipos de I., os l-
                                                             gicos procuraram identificar a condio mais
    IMPESSOAL (ai. Man; it. Anonimia). Segun-
                                                             simples, geral e abstrata que torna vlida uma
do Heidegger,  o modo de ser nivelado da                    I. qualquer, sem levar em conta o contexto a
existncia quotidiana, na sua "mediania" pbli-              que ela se refere nem o fundamento apresenta-
ca, isto , nas formas que acaba assumindo na                do por seu contedo especfico; identificaram
vida de todo dia. Em tal modo de ser, "cada um               essa condio na frmula que Flon de Mgara
 os outros e ningum  ele mesmo. O Se,                     j defendera contra Diodoro Cronos, sobre a
onde est a resposta ao problema do Quem do                  validade das proposies condicionais (SEXTO
Ser-a quotidiano,  o ningum ao qual cada                  EMPRICO, Adv. math., VIII, 113-14: cf. CONDI-
Ser-a se entregou na indiferena do seu ser-                O): uma I.  vlida sempre que no tenha
junto" (Sein undZeit,  27) (v. MEDIANIA).                   antecedente verdadeiro e conseqente falso. As-
    IMPLICAO (in. Lmplication; fr. Lmplica-                sim, tambm vale quando o antecedente e o
tion; ai. Lmplication; it. Lmplicazione). Na                 conseqente so falsos. Essa condio generals-
lgica contempornea, este termo substituiu                  sima e abstrata foi chamada de /. material e foi
outros mais antigos, como condicional (v.)                   expressa por Russell (Principia mathematica,
e conseqncia (v.), permitindo generalizar                  I, 1.01) com a frmula:
esses significados. A I.  a composio de duas                              p^q=~pv qDf
proposies por meio do conectivo se... ento,               que se l: 'p implica q" eqivale por definio a
em que a primeira se chama antecedente e a                   "no-p ou q"; onde p e q representam, res-
segunda conseqente. Tanto a linguagem                       pectivamente, o antecedente e o conseqen-
comum quanto a cientfica oferecem exem-                     te e o sinal ZD representa a I. material. De mo-
plos de I. bem distintos. Consideraremos os                  do correspondente, chamou-se de formal a I.
seguintes:                                                   que, alm de preencher a condio de validade
    (1) Se x  solteiro, ento x no  casado.               da I. material, para ser vlida exige outras con-
    (2) Se x  tringulo, ento x tem os ngulos             dies. Nos exemplos antes enumerados, ape-
 internos iguais a dois retos.                               nas o (8)  I. material pura porque pode ser
     (3) Se x  metal, ento x  malevel.                   expressa dizendo-se "ou x no  um gnio
     (4) Se x comete uma ao indigna, ento x               filosfico ou eu sou o imperador da China". As
 perde a estima dos amigos.                                  outras, mesmo respeitando essa condio, exi-
IMPLICAO                                            547                   IMPREDICATIVA, DEFINIO


gem outras (como vimos) que constituam seu                  seria expresso pela frmula ~ M(p~ q), em que
fundamento. Assim, pode-se dizer que todas as               M significa "possvel", lendo-se assim: "no 
I. formais so materiais, mas que nem todas as              possvel que p seja verdade e q no o seja".
I. materiais so formais. Por isso, a I. ser defi-         Uma relao anloga de I. foi chamada de
nida pela seguinte tbua de verdade (na qual p              entailment [decorrncia necessria] por mui-
e q representam proposies quaisquer e Ve F,               tos escritores ingleses, a partir de Moore; este
verdadeiro e falso):                                        a ilustrou da seguinte forma: "p entails [implica
           P            <7       => q                      necessariamente] q" quando e s quando tiver-
            V           V            V.                     mos condies de dizer realmente que 'g decor-
            V           F            F                      re dep ou ' dedutvel dep no mesmo sentido
            F           V           V                       em que a concluso de um silogismo em Brba-
            F          F            V                       ra decorre das duas premissas tomadas como
   ( v . TBUA DE VERDADES)                                 proposio conjuntiva" (Pbilosopbical Studies,
   A I. material pode parecer paradoxal do                  1922, cap. IX; ed. 1960, p. 291). Carnap distin-
ponto de vista do senso comum e das cincias                guiu a C-implicao, ou I. sinttica, que  a ma-
empricas. Por exemplo, ela permite reconhe-                terial de que falamos, e a L-implicao ou I.
cer como verdadeira a I. "Se 2 x 2 = 5, ento               semntica, que corresponde  I. estrita de Lewis
Nova York  uma cidade pequena"; e como falsa               {Introduction to Semantics,  9, 14).
esta outra: "Se 2 x 2 = 4, ento Nova York                     Na lgica medieval, o termo I. era usado
uma cidade pequena"(cf. TARSKI, Introduction                apenas para indicar uma forma da restrio
to Logic, 1941,  8), nas quais no h nenhuma              (v.): como no exemplo "o homem que  bran-
conexo causai ou contextual entre o antece-                co corre", em que a I.  constituda pela propo-
dente e o conseqente, mas a primeira signifi-              sio "que  branco", que restringe aos brancos
ca "ou 2 x 2 no so = 5 ou Nova York  uma                 os homens que correm. Nos manuais de lgica
cidade pequena", e a segunda: "ou 2 x 2 no                 do sc. XVI a palavra implicatoi utilizada como
so = 4 ou Nova York  uma cidade peque-                    abreviao de implicai contradictionem, e esse
na". A I. material  sobretudo usada em ma-                 uso tambm reaparece em De intellectus emen-
temtica; nela Hilbert baseou os axiomas da                 datione (1662) e em Cogitata metaphysica (1663)
lgica das proposies ("Die Logischen Grund-               de Spinoza (cf. W. KNEALE AND M. KNEALE, The
lagen der Mathematik", em Mathematische                     Development of Logic, 1962, p. 300).
Annalen, 1923, pp. 151-65). Em forma de axio-                   IMPLCITO (in. Implicit; fr. Lmplicite; ai.
ma, a I. material significa que "a verdade de-               Verflechten; it. Lmplicito). Esse adjetivo tem
corre de qualquer coisa" porque, se q verda-               trs significados principais: 1Q I., no sentido
deiro por si mesmo, decorre de qualquer p,                  lgico de implicao (v.), referindo-se ex-
no importa se verdadeiro ou falso, e que "tudo             clusivamente a enunciados, proposies ou
decorre do falso" porque, se p  falso, dele                asseres; 2S no explcito, ou seja, sugerido
pode decorrer qualquer q, seja ele verdadei-                por certo contexto do discurso, como quan-
ro ou falso. Na realidade, a I. material abstrai            do se diz "x implicitamente admitiu que...";
completamente de qualquer conexo causai                    3S potencial ou virtual. Este ltimo emprego
ou contextual entre o antecedente e o conse-                 imprprio.
qente (que pode ter fundamento bem diferen-                    IMPOSIO (lat. Lmpositio; in. Imposition,
te) e constitui apenas a condio mnima sufi-              fr. Lmpositiort; it. Lmposizione). Na Lgica me-
ciente para a validade de todas as implicaes.             dieval  o ato pelo qual um nome  destinado
  Contudo, alguns lgicos procuraram tornar                 a significar uma coisa (cf. PEDRO HISPANO, Summ.
menos abstrato o conceito de I., aproximando-o              log., 6.03).
mais do seu significado comum. Assim, o ameri-                 IMPOSSVEL. V. POSSVEL.
cano C. I. Lewis (cf. LEWIS AND LANGDORF, Sym-                 IMPREDICATIVA, DEFINIO (in. Im-
bolic Logic, 1932, pp. 174 ss., 248 e ss.) falou de         predicative defntion; fr. definition imprdi-
uma I. estrita, segundo a qual "p implica q" seria          cative-, it. Definizione impredicativd). Poin-
sinnimo de "q dedutvel dep", no sentido de               car indicou com esta expresso a definio
que seria contraditrio afirmar o antecedente p             do membro de uma classe que faz referncia
e negar o conseqente q. Esse conceito recorre               totalidade dos membros da classe e que,
ao conceito de possibilidade lgica e por isso              portanto, contm um crculo vicioso. Destas
IMPRESSO                                               548                                           INATISMO


definies surgem as antinomias lgicas que                   sentao catalptica, a antecipao, que  "a
Poincar queria evitar estabelecendo o princ-                noo natural do universal" (DIG. L, VII, 54).
pio que no permite tais definies (POINCAR,                Ccero assim expunha o ponto de vista esti-
em Revue de Mtaphysique et de Morale,                        co: "A Natureza deu-nos minsculas centelhas,
1906, pp. 294-317; cf. tambm Dernires Pen-                  e ns, cedo estragados por maus costumes e
ses, 1913, IV) (v. ANTINOMIA).                               por falsas opinies, apagamo-las todas, de tal
   IMPRESSO (gr. TOJHXKn; lat. Impressio; in.               modo que fazemos desaparecer a luz da natu-
Impression; fr. Impression; ai. Eindruck, it. Im-             reza. Na verdade, em nossa ndole, so inatas
pressione). A teoria segundo a qual o conheci-                as sementes da virtude, e se lhes fosse possvel
mento consiste numa marca ou impresso feita                  desenvolver-se, a prpria natureza nos guiaria
pelas coisas sobre a alma nasce com os esti-                 para uma vida feliz" (Tusc, III, 1, 2). Essa esp-
cos. Estes diziam que "a imagem  um sinete                   cie de I. vincula-se  teoria do instinto (v.), pr-
na alma", tomando o nome da figura que o                      pria dos esticos, que  retomada por doutri-
selo imprime na cera (DIG. L, VII, 45). Ccero               nas cuja inteno  proteger da dvida certas
procurou eliminar o carter fsico da I. (Tusc,               crenas fundamentais de natureza terica ou
I, 61). Esse termo foi difundido na filosofia e na            prtica.
linguagem moderna por Hume, que entendeu                          Nesse sentido, o I. foi retomado pelo pla-
por I. "todas as nossas sensaes, paixes e                  tonismo renascentista, cuja continuao pode
emoes, em sua primeira apario na alma"                    ser vista no platonismo ingls do sc. XVII,
(Treatise, 1,1,1). E distinguiu as I. das idias, que         contra cujas teses fundamentais se dirige a crti-
so cpias empalidecidas delas (Ibid., I, 1, 2).              ca do primeiro livro do Ensaio de Locke. O I. 
                                                              depois retomado na Inglaterra, no sculo
  IMPRPRIO, SMBOLO. V SINCATEGORE-
                                                              seguinte pela escola escocesa do senso comum
MTICO.
                                                              (v.), ou seja, por Reid e Dugald Stewart. Mas j
  IMPULSO. V. INRCIA.
                                                              Descartes e Leibniz tinham dado ao I. um sig-
     IMPULSO (in. Impulse, Urge, fr. Impulsion;               nificado novo. Para Descartes algumas idias
ai. Impuls; it. Impulso). Incitamento sbito, mo-             so inatas como "capacidade de pensar e de
mentneo e difcil de controlar para determina-               compreender as essncias verdadeiras, imut-
da ao. Chama-se de "impulsivo" quem est                    veis e eternas das coisas" (Md., III; lettre  Mer-
sujeito a freqentes mpetos desse tipo. Esse                 senne, 16-VI-1641, CEuvr, III, 383). E Leibniz,
termo no deve ser confundido com "instinto"                  de modo semelhante, considerava inatas as
(v.) nem com "tendncia", que corresponde ao                  verdades que se revelam imediatamente como
termo tradicional apetio (v.).                              tais  luz natural, sem ter necessidade de outra
     IMPUTABILIDADE (gr. cxiioc; lat. lmpu-                  verificao (Nouv. ess., I, 1, 21). Neste sentido,
tato; in. Irnputability, fr. Imputabilit, ai. Zu-           o inatismo no era mais uma espcie de escul-
rechenbarkeit; it. Imputabilit). Possibilidade               tura que a alma traz consigo ao nascer, segun-
de atribuir uma ao a um agente, como causa-                 do a imagem que Ccero empregara (De nat.
dor;  diferente da responsabilidade (v.).                    deor., II, 4, 12). Ao velho adgio escolstico,
     INATISMO (in. Innatism, fr. Innatisme, ai.               "Nihilest in intellectu, quodprius nonfuerit in
Nativismus; it. Innatism). Doutrina segundo a                sensu", Leibniz acrescentava a restrio "nisi
qual no homem existem conhecimentos ou                        ipse intellectus"', entendendo dizer com isso
princpios prticos inatos, ou seja, no adquiri-             que a alma dispe, por sua conta, de categorias
dos com a experincia ou pela experincia e                   como o ser, a substncia, o uno, o mesmo, a
anteriores a ela. O modelo de todo I.  a dou-                causa, a percepo, o raciocnio, etc, que os
trina platnica da anamnese (v.): "Como a                     sentidos no poderiam fornecer-lhe (Nouv. ess.
alma  imortal e nasceu muitas vezes e viu todas              II, 1,  2).
 as coisas, tanto aqui como no Hades, nada                       No  grande a distncia entre essa forma
h que ela no tenha aprendido: de modo que                   de inatismo e a doutrina kantiana (que, toda-
 no espanta o fato de que possa recordar, seja               via, no se costuma designar com esse termo),
 em relao  virtude, seja em relao a outras               segundo a qual as formas a priori do conheci-
 coisas, o que antes sabia" (Men., 81 c). Mas a               mento no derivam da experincia. O inatismo
 forma com que o I. passou para a tradio                    pertence, hoje, ao nmero das doutrinas no
 filosfica foi dada pelos esticos. Estes admitiam           mais discutidas, porque j no so mais discuti-
 como critrio da verdade, ao lado da repre-                  dos os problemas cujas solues elas consti-
INAUTNTICO                                           549                            INCONCEPTIBIIIDADE

tuiriam. Na filosofia moderna, quando se admi-              mitia aquela espcie de correspondncia hipo-
te que alguma coisa precede a experincia (como             ttica entre o I. e o fenmeno que Spencer de-
o faz, p. ex., o idealismo hegeliano), esse algo            nominava realismo transfigurado (Lbid.,  50).
no  um complexo de idias ou de virtualidades,            O conceito de I. nunca ultrapassou os limites
mas toda a razo ou todo o esprito (cf. A PRIORI).         do positivismo evolucionista de cunho spen-
   INAUTNTICO. V. AUTNTICO.                               ceriano (v. COISA EM SI).
    INCEPTIVA, PROPOSIO (fr. Proposition                     INCOMPATIBILIDADE. V. COMPATIBILIDADE.
inceptive ou dsistive). A Lgica de Port-Royal                INCOMPLETO, SMBOLO (in. Incompleto
denominou assim a proposio que afirma que                 symboD. Em lgica matemtica d-se esse no-
uma coisa comeou a ser ou deixou de ser; p.                me ao smbolo que no tem significado pr-
ex.: "A lngua latina deixou de ser vulgar na               prio, mas s num contexto, para cujo significa-
Itlia h muitos sculos." (ARNAULD, Lg., II,              do por sua vez contribui.
10, 4).                                                        INCOMPLEXUM. V. COMPLEXO.
   INCLINAO. V. TENDNCIA.                                     INCONCEPTIBILIDADE (in. Inconceiva-
   INCLUSO (in. Inclusion; fr. Inclusion; ai.               bility, fr. Inconcevabilit, ai. Unbegreiflichkeit;
Einschliessung; it. Inclusion). Na Lgica das              it. Inconcepibilit). O critrio cartesiano de acei-
classes, a relao de I. entre duas classes a e (3          tar como verdadeiro tudo o que  evidente
(smbolo "a z> p") subsiste quando todos os                 para a razo tem como correlativo negativo o
elementos da classe a pertencem tambm                     critrio de rejeitar o que no parece evidente
classe P, mas no necessariamente o inverso                 para a razo ou o que, em geral,  incompat-
(a I.  reflexiva e transitiva, mas no simtri-            vel com a razo. Esse  propriamente o critrio
ca).  relao de I. corresponde a relao de               das inconceptibilidades. Foi utilizado sobretu-
implicao entre os conceitos-classe correspon-             do por Leibniz, que o defendeu explicitamente:
dentes. P. ex., a classe homem est includa na             "Em verdade reconheo que no  lcito negar
classe mortal porque todos os homens so                    o que no se entende, mas acrescento que se
mortais.                                    G. P.           tem o direito de negar (pelo menos na ordem
   INCOERNCIA. V. COERNCIA.                               natural) aquilo que no  absolutamente inte-
    INCOGNOSCVEL (in. Unknowable, In-                      ligvel nem explicvel... A concepo das cria-
cognizable; fr. Inconnaissable; ai. Unerkennbar,            turas no  a medida do poder de Deus, mas a
it. Incognoscible). Termo empregado por Ha-                conceptibilidade ou fora de concepo delas 
milton para designar o Absoluto ou Infinito,                a medida do poder da natureza, pois que tudo
considerado alm de qualquer possibilidade de               o que se conforma  ordem natural pode ser
conhecimento e objeto somente de f. "Pensar                concebido ou entendido por alguma criatura"
 condicionar" -- dizia Hamilton (Discussions               (Nouv. ess., Avant-Propos., Op., ed. Erdmann,
on Philosophy, 1852, p. 13) -- "e a limitao               p. 202). Em outros termos, pode-se admitir ser
condicional  lei fundamental das possibilida-              real na natureza aquilo que no se entende
des do pensamento... O absoluto s  conceb-               (que no se saiba explicar), mas no o que 
vel como negao da conceptibilidade". Con-                 inconcebvel, ou seja, "incompatvel com a ra-
tudo, a esfera da crena  mais ampla que a do              zo". Mas Leibniz no explicou o que deve ser
conhecimento: assim, conquanto no se possa                 entendido por incompatibilidade com a razo,
conhecer o Infinito, pode-se e deve-se crer                 o que tampouco fizeram todos os (muitssimos)
nele. (Lectures on Metaph., II, pp. 530-31). Essa           que se referiram a esse critrio; a primeira cr-
noo foi retomada por Spencer, que tambm                  tica a esse critrio encontra-se em Lgica de
afirmou a incognoscibilidade do absoluto e, ao              Stuart Mi, com referncia ao emprego que de-
mesmo tempo, a necessidade de admiti-lo para                le fizeram Hamilton (Lectures on Metaphysics
tornar possvel o relativo (FirstPrincipies, 1862,          and Logic, 1859-60) e Spencer (Principies of
 26). A noo do I. tornou-se ento correlativa            Psychology, 1855). Stuart Mill notava como os
de agnosticismo (v.) e, assim como esta lti-               antpodas eram declarados impossveis pelos
ma, foi estendida at designar a doutrina de                antigos, que achavam inconcebvel que existis-
Kant da coisa em si e da sua incognoscibi-                  sem pessoas cuja cabea estivesse na direo
lidade. Kant todavia no admitia a inconcepti-              dos nossos ps, e que um dos argumentos mais
bilidade da coisa em si, como fazia Hamilton                difundidos contra o sistema copernicano havia
 relativamente ao Absoluto, assim como no ad-              sido a I. do imenso espao vazio que aquele
INCONDICIONADO                                        550                                   INCONSCIENTE

sistema pressupunha (Lg., V, 3,  3; cf. II, 5,            WOLFF, Psychol. rationalis,  58 ss.) e foi admi-
 6; 7,  1-3).                                            tida por Kant, que respondeu  objeo de
    Realmente, a incompatibilidade com a ra-                Locke de que no se pode ter representaes
zo, que  a definio de I., no pode ter outro            das quais no se tenha conscincia, porque as
significado exato seno o de incompatibilidade              ter significa exatamente estar consciente delas
com o sistema de crenas a que se faz refern-              (Ens., I, 1, 5), afirmando que "podemos estar
cia. Obviamente semelhante incompatibilida-                 conscientes medatamente de uma representa-
de no pode valer como critrio de juzo para               o da qual no estejamos conscientes imedia-
a fidedignidade de uma noo qualquer. Se                   tamente' (Antr.,  5). Mas foi s com Schelling
porm por I. se entende a contraditoriedade                 que o I. tornou-se elemento fundamental das
(como por vezes acontece),  preciso lembrar                concepes metafsicas, ou seja, um dos aspec-
que o juzo sobre a contraditoriedade ou no                tos essenciais do Absoluto como Identidade en-
cie duas asseres deve referir-se a um campo               tre natureza e esprito (entre I. e conscincia).
determinado, no qual estejam implcita ou                   "Esse eterno L", dizia Schelling, "que, como o
explicitamente definidas as regras da coerncia             sol eterno do reino dos espritos, esconde-se
ou da compatibilidade. Pode acontecer, p. ex.,              em sua prpria luz serena e, apesar de nunca se
que no seja contraditrio em fsica aquilo que             tornar objeto, imprime sua identidade s aes
seria contraditrio em matemtica ou vice-ver-              livres,  o mesmo para toda a inteligncia e 
sa; p. ex., a fsica no julga contraditrio conce-         ao mesmo tempo a raiz invisvel de que todas
ber os fenmenos eletromagnticos ao mesmo                  as inteligncias so apenas potncias;  o eter-
tempo como corpusculares e como ondulatrios.               no intermedirio entre o subjetivo, que se
Mas para estes significados restritos e especfi-           autodetermina em ns, e o objetivo ou intuinte
cos de contraditoriedade, a palavra I., em seu
                                                            e  o fundamento da uniformidade na liberda-
significado absoluto,  totalmente imprpria.
Portanto, a filosofia contempornea deixou de               de e da liberdade na uniformidade objetiva"
us-la, no insistindo mais na anttese racional-           (System der transzendentalen Idealismus, IV, F;
inconcebvel, mas na anttese significncia-in-             trad. it., p. 280). Ainda mais radicalmente, Scho-
significncia (v. SIGNIFICADO).                             penhauer considerava I. a vontade que consti-
                                                            tui o nmeno do mundo: "A vontade conside-
   INCONDICIONADO (in. Unconditioned- fr.                   rada em si mesma  L:  um impulso cego e
Inconditionn, ai. Unbedingt; it. Incondizio-               irresistvel o qual vemos aparecer na natureza
nato). Hamilton (Discussions on Philosophy,                 inorgnica e vegetal, bem como na parte
1852) e Mansel (The Philosophy of the Con-                  vegetativa da nossa vida" (Die Welt, I,  54). E
ditioned, 1866) denominaram I. o Infinito ou o              como sntese do Esprito Absoluto de Hegel, da
Absoluto, ou seja, Deus, porquanto escapa a                 Vontade de Schopenhauer e do I. de Schelling,
todas as limitaes do pensamento humano e                  Edward Hartmann apresentava o princpio de
por isso  inconcebvel.                                    sua filosofia: um princpio que ele denominava
   Para o significado genrico do termo, v.                 precisamente I. e do qual o esprito e a matria
CONDIO.                                                   teriam sido duas diferentes manifestaes (Phi-
    INCONSCIENTE (in. Unconscious, fr. Incons-              losophie des Unbewussten, 1869). Pode-se con-
cient; ai. Unbewusst; it. Inconscio). O ingres-             siderar que a filosofia de Bergson pertence a
so dessa noo em filosofia deve-se a Leibniz,              essa mesma linha; ele defendia o I. ao observar
que frisou a importncia das "percepes in-                que a repugnncia em conceber estados psico-
sensveis" ou "pequenas percepes", de que                 lgicos inconscientes vem do fato de se consi-
no se toma cincia e sobre as quais no se re-             derar a conscincia como propriedade essen-
flete. Para Leibniz, so essas percepes que               cial dos estados psquicos. "Mas" -- observava
"formam o no-sei-qu, os gostos, as imagens
                                                            ele -- "se a conscincia  somente o sinal ca-
das qualidades sensveis, claras no conjunto
mas confusas nos detalhes, as impresses                    racterstico do presente, daquilo que est sendo
que os corpos que nos rodeiam exercem sobre                 vivido, daquilo que est agindo, ento o que
ns e que envolvem o infinito, os vnculos que              no est agindo poder deixar de pertencer 
cada ser tem com o restante do universo"                    conscincia sem deixar necessariamente de
(Nouv. ess., Avant-propos, op., ed. Erdmann, p.             existir de qualquer modo" (Matireet mmoire,
197). A existncia dessa zona inconsciente tor-             cap. III, p. 147). Para Bergson, o I. assim enten-
nou-se lugar-comum na escola wolffiana (cf.                 dido identifica-se com a recordao pura, ou
INCONSCIENTE                                            551                               INDEMONSTRVEL

seja, a corrente da conscincia que  o prprio               existe em primeiro lugar como sintoma. Trata-
el vital.                                                    se da mesma soluo terica que Kant vira ao
    Mas enquanto o I. era assim utilizado pela                dizer que o I., mesmo no sendo percebido
metafsica e enquanto a psicologia o admitia,                 imediatamente, pode ser percebido mediata-
mesmo a contragosto, como um dado de fato,                    mente, mas esta soluo terica foi bem me-
seu contedo era completamente renovado por                   lhorada, pois em Freud o I., como sintoma,
Freud, que apresentava as duas teses funda-                   nem precisa ser "percebido":  um fato que a
mentais da psicanlise da seguinte forma: "A                  observao clnica pode constatar.
primeira dessas premissas  que os processos                      INCONSEQNCIA (in. Inconsistency; fr.
psquicos so em si mesmos inconscientes e                    Inconsquence, ai. Folgewidrigkeit.; it. Incon-
que os processos conscientes so apenas atos                  seguenza). Ausncia de compatibilidade (v.)
isolados, fraes da vida psquica total." A se-              das proposies que constituem um sistema
gunda proposio que a psicanlise proclama                   simblico. P. ex., um conjunto de proposies
como uma de suas descobertas  a afirmao                     inconseqente quando implica uma con-
de que "tendncias que podem ser classifica-                  tradio, quando dele deriva formalmente cer-
das apenas como sexuais, em sentido estrito                   ta proposio p ou a negao de p. Em geral,
ou amplo da palavra, agem como causas deter-                  pode-se dizer que a I. de um sistema qualquer
minantes de doenas nervosas ou psquicas e                    a possibilidade de contradio no prprio
que essas emoes sexuais desempenham pa-                     sistema.
pel importante nas criaes do esprito huma-                    INCONSISTNCIA. V. COMPATIBILIDADE.
no nos campos da cultura, da arte e da vida                        INDAGAO. V. INVESTIGAO.
social" {Einfhrung in die Psychoanalyse, 1917,                    INDEFINIDO (in. Indefinite; fr. Indfini; ai.
Intr., trad. fr., pp. 32-33). Desta forma, na psi-             Unbegrenzi; it. Indefinito). Aquilo que no tem
canlise o I. deixava de ter o carter indeter-               limite no espao ou no tempo, que portanto 
minado ou amorfo que tivera at aquele mo-                    infinito no sentido negativo do termo. Este pelo
mento nas interpretaes dos filsofos e dos                  menos  o significado da palavra estabelecido
psiclogos, para adquirir um contedo preciso                 por Descartes, que assim fazia a distino
e identificar-se com as tendncias sexuais inibi-             entre a indefinio das coisas e a infinidade
das, negadas, camufladas ou ocultas. O grande                 de Deus, que "no tem limites em suas perfei-
sucesso inicial da psicanlise e a importncia                es" e  por isso o nico ser infinito (Princ.
cientfica de que ela se revestiu no mundo con-               phii, I, 27; IRsp.,  X). Portanto, essa palavra
temporneo (v. PSICANLISE) relegaram para se-                eqivale a ilimitado (v.), mas no  usada com
gundo plano a dificuldade terica associada ao                o sentido de "no definido", ou seja, no ex-
prprio reconhecimento da existncia do in-                   presso por uma definio.
consciente. Obviamente, a objeo de Locke,
                                                                   INDEMONSTRVEL (in. Undemonstrable,
tantas vezes repetida, de que "existir", para um
                                                              fr. Indmontrable^A. Unerweislich). it. Indimos-
estado mental, significa "ser percebido" ou "ser
                                                              trabile). Aquilo que no necessita de demons-
objeto de conscincia", e que portanto um estado
                                                              trao porque sua verdade  evidente. Neste
mental inconsciente  uma contradio em seus
                                                              sentido, so I. os primeiros princpios da lgica
prprios termos, deixou de ter valor. Um esta-
                                                              de Aristteles (v. AXIOMAS) e os anapoditicos
do mental (p. ex. uma emoo, uma tendncia,
                                                              dos esticos (v. ANAPODTICO).
uma volio) pode "existir" mesmo sem ser
"percebido ", no sentido de que oportunamen-                      2. As proposies primitivas ou em geral os
te pode ser evidenciado e reconhecido,                        antecedentes de um sistema simblico qual-
com procedimentos apropriados (que so os                     quer que sirvam de fundamento das regras de
empregados pela psicanlise), como condio                   demonstrao prprias do sistema. Neste sen-
de uma situao psquica normal ou patol-                    tido, so indemonstrveis os axiomas, as defi-
gica. O prprio Freud insistiu na noo de sin-               nies e as regras de transformao de todo
toma: "Um sintoma forma-se para substituir                    sistema simblico.
alguma coisa que no conseguiu manifestar-se                      3. As proposies indecidveis, isto , as
exteriormente. Certos processos psquicos, no                proposies que no podem ser consideradas
podendo desenvolver-se normalmente, e che-                    verdadeiras ou falsas em dado sistema simbli-
gar at a conscincia, do origem a um sintoma                co, mas que podem ser decididas num sistema
neurtico" (Ibid., trad. fr., p. 303). Portanto, o I.         mais amplo, onde porm se apresentam com
                                                              outra forma. Neste sentido, so indemonstr-
INDEPENDENTE                                        552                               INDETERMINISMO

veis as proposies que constituem as antino-             ria eliminar a influncia por meio de clculos.
mias lgicas (v.);  I. a no-contradio em              Na fsica atmica, essa admisso no  possvel
matemtica e em geral dos sistemas simblicos             porque, em vista da descontinuidade dos acon-
( v . ANTINOMIA; MATEMTICA; SISTEMA).                    tecimentos atmicos, qualquer interao pode
    4. Toda crena ou pretenso que no pos-              produzir variaes parcialmente incontrolveis
sa ser apoiada por provas. Este  o signi-                e relativamente grandes. Essa circunstncia tem
ficado mais geral e indeterminado com que                 como conseqncia o fato de que, em geral, as
esse termo  usado freqentemente na lin-                 experincias realizadas com o fim de determi-
guagem comum. Assim, denominam-se I.                      nar uma grandeza fsica tornam ilusrio o co-
certas crenas religiosas, bem como a pre-                nhecimento de outras grandezas obtidas antes;
tenso de crdito no apoiada em documen-                 na verdade, influenciam de maneira incontro-
tos ou testemunhas. Asseres concernentes                lvel o sistema sobre o qual se opera, portanto
a fatos muitas vezes so declaradas I. pela               os valores das grandezas anteriormente conhe-
mesma razo.                                              cidas so por elas alterados. Se tratarmos essa
    INDEPENDENTE (in. Independent; fr. In-                perturbao de modo quantitativo, veremos
dpendant; ai. Unabhngig; it. Indipendent).             que em muitos casos o conhecimento simult-
Aquilo cujo ser, cuja validade ou cuja capacida-          neo de diversas variveis tem um limite de exa-
de de ao no derivem de outro. Assim, diz-              tido finito, que no pode ser ultrapassado"
se que um homem ou um Estado  I. quando                  (Die physikalischen Prinzipien der Quanten-
sua vida ou sua conduta no depende da vida               theorie, 1930, I,  1). Quanto  influncia que
ou da conduta de outro homem ou de outro                  a descoberta das relaes de I. exerceu no
Estado. Diz-se que um acontecimento  I. de               campo cientfico-filosfico, v. CAUSALIDADE;
outro quando no mantm relao de causali-               CONDIO).
dade com ele. Uma proposio qualquer  I. de                 INDETERMINADO. V. DETERMINAO.
uma outra proposio ou de um sistema de                      INDETERMINISMO (in. Indeterminism; fr.
proposies se entre eles no houver relao              Indtermnsme, ai. Indeterminismus; it. Inde-
de derivao.                                             terminism). Termo introduzido na linguagem
    A determinao dos axiomas de um siste-               filosfica na segunda metade do sc. XVIII para
ma simblico tem como requisito a indepen-                designar a doutrina que nega o determinismo
dncia recproca. De fato, seria intil aceitar           dos motivos, ou seja, a determinao da vonta-
como axioma uma proposio que pudesse ser                de humana por parte dos motivos (v. DETER-
derivada dos outros axiomas do sistema (v.                MINISMO). Leibniz dizia: "Quando se afirma que
AXIOMA).                                                  um acontecimento livre no pode ser previs-
    INDETERMINAO (in. Indetermination;                  to, confunde-se liberdade com indeterminao
fr. Indetermination; ai. Unbestimmtheit; it. In-          ou com indiferena plena ou de equilbrio; e
determinazione). 1. Ausncia da determina-                quando se quer dizer que a falta de liberdade
o lgica (v. DETERMINAO). S vezes, o mes-            impediria que o homem fosse culpado, faz-se
mo que indeciso (v. VAGO).                               referncia a uma liberdade destituda de neces-
   2. Ausncia da determinao causai (v. IN-             sidade e de coao, e no de determinao ou
DETERMINISMO).                                            certeza" (Thod., III, 369). Kant afirmava: "No
   INDETERMINAO, RELAES DE (in                        h dificuldade em conciliar o conceito de liber-
Uncertainty relations; fr. Relations d'indter-           dade com a idia de Deus como ser necessrio,
mination; ai. Unbestimmtheitsrelationen; it.              porque a liberdade no consiste na contingn-
Relazioni di indeterminazione). Em fsica                 cia da ao (no fato de a ao no ser determi-
subatmica essa expresso ou a expresso                  nada por nenhum motivo, ou seja, no I.), mas
"princpio de I." designa desde 1927 o reco-              na absoluta espontaneidade que s  ameaada
nhecimento da ao recproca entre o objeto e             pelo predeterminismo, uma vez que para ele
o observador, portanto a perturbao que a                o motivo determinante da ao  anteceden-
observao produz sobre o objeto observado.               te no tempo; portanto, a ao no est mais
Foi Heisenberg quem mostrou esse aspecto                  atualmente em meu poder, mas nas mos da
essencial da fsica quntica, expressando-o               natureza e, por esse motivo, sou irresistivel-
assim: "Nas teorias clssicas a interao entre o         mente determinado" (Religion, I. Observao
objeto e o observador era considerada despre-             Geral, Nota). OI. compreendido nesse sentido,
zvel ou controlvel, de tal modo que se pode-            como negao do determinismo dos moti-
NDICE                                              553                                     INDIVIDUAO

vos,  uma das caractersticas do espiritualismo          origem  o princpio da necessidade da subs-
francs (Ravaisson, Lachelier, Boutroux, Ha-              tncia, que Avicenna expressa dizendo: "Tudo
melin, Bergson etc. Compare A. LEVI, Vindeter-            o que  tem uma substncia graas  qual  o
minismo nella filosofia francese contempo-                que  e graas  qual  a necessidade e o ser
rnea, Firenze, 1904) (V. LIBERDADE).                     daquilo que " {Lgica, I. ed. Veneza, 1508, fl. 3)
    NDICE (in. Index). Termo usado por Peir-             (v.). Com base nesse princpio, "o animal  em
ce para indicar a relao objetiva (no mental)           si alguma coisa e  a mesma coisa, quer seja
entre o signo e seu objeto. ndices neste senti-          percebido, quer seja apreendido pelo intelec-
do so todos os signos naturais e os sintomas             to; e em si no  nem universal nem particular"
fsicos. "Chamo de I. um desses signos" -- diz            (Ibid., III. fl. 12 r.). Mas se  assim, o que o tor-
Peirce -- "porque um I. designado  o tipo de             na individual, o que faz da substncia "animal"
uma classe" (Coll. Pap., 3-361).                          este ou aquele animal? Segundo Avicenna, esse
   INDIFERENA, LIBERDADE DE. V. LIBER-                    o problema da individuao. E Avicenna en-
DADE.                                                     contrava em Aristteles a resposta ao proble-
   INDIFERENA, PRINCPIO DE (in. Principie               ma: a individualidade depende da matria.
of indifference, fr. Prncipe d'indiffrence, ai.         Aristteles de fato dissera: "Todas as coisas que
Indifferenzprinzip; it. Principio di indiffe-             so numericamente muitas tm matria, visto
renza). Com este nome ou com os nomes                     que o conceito dessas coisas, como p. ex. ho-
de "princpio de equiprobabilidade" ou "prin-             mem,  uno e idntico para todas, ao passo
cpio de nenhuma razo em contrrio" indica-              que Scrates (que tem matria)  nico" (Met.,
se o enunciado de que os acontecimentos                   XII, 8, 1074 a 33)- Essa soluo  aceita por
tm a mesma probabilidade quando no h                   Avicena (In Met., XI, 1) e, atravs deste, por
razo para se presumir que um dele deva                   Alberto Magno (In Met., III, 3, 10) e por muitos
acontecer preferivelmente ao outro. Esse                  outros escolsticos. S. Toms apresentou uma
princpio foi exposto em Essai philosophi-                variante dessa soluo ao afirmar que o princ-
que sur les probabilits (1814) de Laplace                pio de I. no  a matria comum (j que todos
como segundo princpio do clculo das pro-                os homens tm carne e rosto e portanto no se
babilidades (cap. 2); fundamenta a teoria a               diversificam nisso), mas a matria signata ou,
priori da probabilidade, que procura definir              como ele diz, "a matria considerada sob deter-
a probabilidade independentemente da fre-                 minadas dimenses" (De ente et essentia, 2).
qncia dos acontecimentos aos quais se refe-             Em outros termos, um homem  diferente de
re. Esse princpio foi abandonado por algumas             outro porque unido a determinado corpo, dife-
teorias modernas sobre a probabilidade (LE-
WIS, Analysis of Knowledge, 1946, cap. X; REI-            rente pelas dimenses, ou seja, por sua situa-
CHENBACH, Theory ofProbability, 1949, 68) (v.
                                                          o no espao e no tempo, dos corpos dos
PROBABILIDADE).
                                                          demais homens (S. Th., III, q. 77, a. 2). Esse
                                                          mesmo tipo de soluo  reproduzido na Ida-
   INDIFERENTES. V. ADIFORA.                             de Moderna por Schopenhauer, que, conside-
   INDISCERNVEIS. V. IDENTIDADE DOS.                     rando a vontade como a substncia nica e
    INDISTINTO. Termo usado por Ardig para               comum de todos os seres, viu o princpio da I.
definir a evoluo, em substituio a "homog-            no espao e no tempo: "De fato, por meio do
neo", de Spencer. A evoluo seria a passagem             espao e do tempo, aquilo que  uno na essn-
do I. ao distinto: termos extrados da experin-          cia e no conceito mostra-se diversificado, como
cia psquica, enquanto os de Spencer foram                pluralidade justaposta e sucessiva" (Die Weil, I,
extrados da biologia (ARDIG, Opere, II, pp.             23).
189 e passim).
    INDIVIDUAO (lat. Individuatio; in. In-                 Por outro lado, a corrente agostiniana da
dividuation, fr. Individuation, ai. Individua-            escolstica foi levada a reconhecer o princpio
tion; it. Individuazione). Problema da cons-              da I. na forma das coisas, mais que na matria.
tituio da individualidade a partir de uma               Boaventura julgava que a forma  a essncia
substncia ou natureza comum: p. ex., consti-             que restringe e define a matria em determina-
tuio deste homem ou deste animal a partir da            do ser, e situava o princpio da I. na comunica-
substncia "homem" ou substncia "animal". O              o (communicati) entre a matria e a forma,
primeiro a formular esse problema foi Avi-                porquanto o indivduo  um hoc aliquid, em
cenna (v. RABE, FILOSOFIA), por quem foi trans-          que o hoc  constitudo pela matria e o ali-
mitido  Escolstica crist. O pressuposto de             quid pela forma (In Sent., III, d, 10, a 1, q. 3).
INDIVIDUAO                                         554                                  INDIVIDUALISMO

Ao mesmo tipo de solues pertence a inter-                coisa que se lhe acrescente, mas a singularida-
pretao que muitos discpulos de Duns Scot                de  uma propriedade que pertence ime-
deram  haecceitas [ecceidade] como de uma                 diatamente a tudo, porque cada coisa , por
forma final que completa e integra uma srie               si, idntica ou diferente de outra" (Expositio
de formas constitutivas do objeto natural (cf.             urea, liberpredicabilium, Proemium). Quan-
HERVEUS   NATALIS,   Depluralitateformarum,    5).         do, numa de suas primeiras obras, Leibniz afir-
    Finalmente, uma terceira soluo do proble-            mou que "cada indivduo  individualizado por
ma  autenticamente escotista. Duns Scot nega              sua entidade total", s fazia expressar em ter-
que a matria ou a forma possam valer como                 mos escotistas a mesma posio de Ockham,
princpios de individuao. A matria, que  o             como ele mesmo reconhecia. (De principio
sujeito indistinto, no pode ser o princpio da            indivdu, 1663,  4), pois a entidade total no
distino e da diversidade (Op. Ox, II, d. 3, q.           passa da coisa existente enquanto tal. A mesma
5, n. 1). A forma  a prpria substncia ou natu-          negao implcita do problema da individuao
reza comum, que  antecedente (e indiferente)              pode ser vista na soluo aparente dada por
tanto  universalidade quanto  individualida-             Wolff: "O princpio da I.  a determinao com-
de. A individualidade consiste numa "ltima                pleta de todas as coisas inerentes a um ente em
realidade do ente" que determina e restringe a             ato" (Ont.,  229). Por outro lado, Locke disse-
natureza comum  individualidade, adessehanc               ra: "Do que se disse  fcil descobrir o que 
rem. Esta ltima realidade ou, como ele tam-               principium individuationis, sobre o qual tanto
bm chama, "entidade positiva" (Ibid., II, d. 3,           se indagou; est claro que ele  a prpria exis-
q. 2)  a determinao ltima e acabada da                 tncia, que determina um ser de qualquer esp-
matria, da forma e do composto delas. Desse               cie, num tempo particular e num lugar particular,
ponto de vista, o indivduo no  caracteri-               incomunicveis a dois seres da mesma espcie"
zado pela simplicidade de sua constituio,
                                                           (AnEssay ConcerningHuman Understanding,
mas pela complexidade e riqueza de suas de-
terminaes.                                               II, 27, 4).
    Como j dissemos, o problema da I. nas-                    Estas supostas "solues" na realidade so
ce do carter privilegiado atribudo  substn-            negaes do problema, que desaparece com-
cia comum, que existiria de qualquer maneira               pletamente (salvo raras excees) da filosofia
antes e independentemente dos indivduos.                  moderna, devido  dissoluo do seu pressu-
Portanto, desaparece quando se nega o carter              posto: a prioridade ontolgica da substncia
privilegiado da substncia comum, o que acon-              comum.
tece com o nominalismo empirista da ltima                    INDIVIDUAL, PSICOLOGIA. V PSICOLO-
escolstica. Ockham reconhece na substncia co-            GIA, ).
mum uma forma do universal e o comprometi-                    INDIVIDUALIDADE (lat. Individualitas; in.
mento na negao resoluta de toda realidade                Individuality, fr. Individualit, ai. Indvidualitt;
universal: "Nada que esteja fora da alma, nem              it. Individualit). Termo de origem medieval:
por si, nem por algo real ou mental que se lhe             o modo de ser do indivduo.
acrescente, seja de que forma se considere ou                  INDIVIDUALISMO (in. Individualism; fr.
compreenda,  universal, pois  to grande a               Individualisme; ai. Individualismus; it. Indivi-
impossibilidade de que algo fora da alma seja              dualismo). Toda doutrina moral ou poltica que
de qualquer maneira universal (a no ser por               atribua ao indivduo humano um preponde-
conveno arbitrria, do mesmo modo como a                 rante valor de fim em relao s comunidades
palavra 'homem', que  particular, se torna uni-           de que faz parte. O extremo desta doutrina ,
versal) quo grande  a impossibilidade de que             obviamente, a tese de que o indivduo tem
o homem, por qualquer considerao ou se-                  valor infinito, e a comunidade tem valor nulo;
 gundo qualquer ser, seja o asno" (In Sent., I, d.         essa  a tese do anarquismo (v.). Contudo o
 2, q. 7, S-T). Desse ponto de vista o problema            termo I.  habitualmente utilizado na acepo
 da I. desaparece. Ockham diz ainda: "Deve-se              mais moderada, sendo, nesse sentido, o fun-
 ter em mente, sem sombra de dvida, que                   damento terico assumido pelo liberalismo
 qualquer coisa existente imaginvel, por si,              assim que surgiu no mundo moderno.  de
 sem que nada lhe seja acrescentado,  uma coi-            fato o pressuposto comum do jusnaturalismo,
 sa singular e uma coisa de nmero: pois nada              do contratualismo, do liberalismo econmico e
 que se imagine  singular devido a alguma                 da luta contra o Estado, que constituem os as-
INDIVIDUALISMO                                      555                                        INDIVDUO

pectos fundamentais da primeira fase do libe-             retrizes do interesse privado. Desse modo, po-
ralismo (v.).                                             rm, eram negligenciados os motivos histri-
   l2 O jusnaturalismo consiste em atribuir ao            cos que haviam provocado o surgimento da
indivduo direitos originrios e inalienveis que         corrente individualista no liberalismo, prepa-
ele conserva, mesmo que de maneira diferente              rando-se assim, inadvertidamente, o caminho
ou limitada, em todos os corpos sociais de que            para novas vitrias do absolutismo estatal.
faz parte (v. JUSNATURALISMO).                                INDIVDUO (gr. aTOUOV; lat. Individuum;
    2Q O contratualismo consiste em considerar            in. Individual; fr. Individu; ai. Individuum; it.
que a sociedade humana e o Estado so resul-              Indivduo). Em sentido fsico: o indivisvel, o
tantes de conveno entre os indivduos; na               que no pode ser mais reduzido pelo procedi-
Idade Moderna a partir de Vindiciae contra                mento de anlise. Em sentido lgico: o que no
tyrannos (1579) dos calvinistas de Genebra,               pode servir de predicado. Para Aristteles, oi.,
essa doutrina foi freqentemente usada como               no primeiro sentido,  a espcie, porquanto,
negao do absolutismo estatal ou como instru-            sendo resultado da diviso do gnero, no
mento para limit-lo (v. CONTRATUALISMO).                 pode ser dividida (An.post., II, 13, 96b 15; Met.,
    3a O liberalismo econmico, prprio dos               V, 10, 1018 b 5).  determinao da indivisibili-
fisiocratas e da escola clssica de economia              dade os lgicos do sc. V acrescentaram a im-
poltica,  a luta contra a ingerncia do Estado          possibilidade de servir de predicado. Bocio
nos assuntos econmicos e a reivindicao da              diz: "Chama-se de I. aquilo que no pode ser
iniciativa econmica para o indivduo. Este              dividido por nada, assim como a unidade ou a
um aspecto caracterstico do liberalismo indivi-          mente, ou o que no pode ser dividido devido
dualista (v. ECONOMIA; LIBERALISMO).                       sua solidez, como o diamante; ou o que no
    4S A luta contra o Estado e a tendncia a             pode servir de predicado a outras coisas seme-
estabelecer limites  sua ao  o carter global         lhantes, como Scrates" (Ad Isag., II em P. L,
do individualismo. Neste sentido, um dos mais             64, col. 97). Esse reparo tornou-se fundamental
significativos documentos do liberalismo mo-              na lgica medieval, que o utilizou para definir
derno  a obra de SPENCER, O homem contra o               o I.: "I.  aquilo de que se diz uma nica coisa,
Estado (1884), na qual se combate a ingerncia            como Scrates e Plato" (Pedro Hispano, Summ.
do Estado (portanto tambm do Parlamento)                 log., 209). S. Toms fala de um I. vago(vagum),
at no campo da sade e do ensino pblico,                que corresponde  individualidade da espcie
alm do campo econmico.
                                                          e de um I. nico: "O I. vago, p. ex. o homem,
    O postulado subjacente a todos estes dife-            significa uma natureza comum com determina-
rentes aspectos do I.  a coincidncia entre o            do modo de ser que compete s coisas singu-
interesse do indivduo e o interesse comum ou             lares, que subsistem por si e so distintas das
coletivo. J ordem natural que, em Riqueza das            demais. Mas o I. nico significa algo determina-
 naes (1776), Adam Smith considerava carac-
                                                          do que distingue; assim, o nome Scrates signi-
terstica dos fatos econmicos, servia como ga-
                                                          fica este corpo e este rosto" (S. Th., I, q. 30, a.
rantia dessa coincidncia. Nisso tambm acre-
                                                          4). OI. vago obviamente  apenas a unidade s
ditavam Benthan e James Mill. Quando foram
                                                          numericamente distinguvel de outras unida-
observadas as anomalias da ordem econmica
                                                          des. Era assim definido por Duns Scot: "Chama-
e se reconheceu que a simples limitao dos
poderes do Estado no elimina essas anoma-                se de I., ou seja, o que  numericamente uno,
lias, nem a desordem ou as desigualdades so-              aquilo que no  divisvel em muitas coisas e se
ciais, essa crena comeou a ficar abalada, a             distingue numericamente de qualquer outra"
fase individualista do liberalismo chegou ao              (In Met., VII, q. 13, n. 17).
fim e teve incio a fase que recorria  ao do              Contudo, em Duns Scot mesmo encontram-
Estado e tendia a exaltar seu papel. Esse novo            se as premissas de um conceito diferente de
ponto de vista tachou o I. de "atomismo" por-             indivduo: este, em seu modo de ser, em sua
que pretendia que a sociedade nascesse de um              singularidade,  caracterizado por uma deter-
conjunto de tomos sociais, os indivduos; de             minao ltima ou "realidade ltima" da natu-
"anarquismo" porque pretendia que o indiv-               reza que o constitui (v. INDIVIDUAO), de tal
duo no se submetesse  ao do Estado; de                forma que inclui um conjunto ilimitado de de-
"egosmo" porque desejava que as atividades               terminaes, em virtude das quais a natureza
econmicas se desenvolvessem segundo as di-               comum se restringe at se tornar este determi-
INDIVDUO                                           556                                           INDUO

nado ente. Desse ponto de vista, o I. no  ca-           sentes apenas em escoro" {Phnomen. des
racterizado pela indivisibilidade, mas pela infi-         Geistes, Pref., II,  3; trad. it., p. 24). Do ponto
nidade de suas determinaes. Esse conceito               de vista do conceito de I. como infinidade de
foi expresso claramente por Leibniz: "Embora              determinaes, Hegel certamente podia falar
possa parecer paradoxal,  impossvel ter co-             de I. universal, pois uma infinidade de determi-
nhecimento dos I. e encontrar o meio de deter-            naes s pode ser atribuda a um I. absoluto
minar exatamente a individualidade de uma                 ou infinito. Diante disso, como diz Hegel, o I.
coisa, a menos que no se a considere em si               finito caracteriza-se por uma nica determina-
mesma. De fato, todas as circunstncias podem             o, estando as demais presentes apenas aces-
repetir-se; as diferenas mnimas so imper-              soriamente. Bergson faz referncia ao mesmo
ceptveis; o lugar e o tempo, em vez de serem             conceito de I. quando afirma que "a individua-
determinantes, precisam eles mesmos ser de-               lidade comporta uma infinidade de graus e em
terminados pelas coisas que contm. O que                 parte alguma, nem mesmo no homem, ela se
existe de mais considervel nisto  que a indi-           realiza plenamente" (vol. cratr., cap. I, ed.
vidualidade envolve o infinito e que s quem             1911, p. 13). Obviamente, esse conceito de
capaz de compreend-lo pode ter conhecimen-               indivduo leva ou a hipostasiar a individualida-
to do princpio de individuao desta ou da-              de de um I. absoluto, como fez Hegel, ou a
quela coisa; se entendermos isso corretamente,            declar-la inatingvel, como fez Bergson. Mas
veremos que se deve  influncia que todas as             exatamente isso demonstra que se trata de um
coisas do universo exercem umas sobre as                  conceito intil.
outras.  verdade que no seria assim, se exis-               Na filosofia contempornea, o I. (assim co-
tissem os tomos de Demcrito, mas nesse                  mo a noo anloga de elemento [v.])  defi-
caso no existiria sequer diferena entre dois I.         nido em relao com as exigncias predo-
diferentes de mesmo aspecto e mesmas dimen-               minantes nos vrios campos de indagao, ou
ses" {Nouv. ess., III, 3,  6). O pressuposto            melhor, em relao com as vrias exigncias
desta doutrina  que, na natureza, s existem             analticas. No campo moral ou poltico o I.  a
I., ou seja, coisas singulares: pressuposto que,          pessoa. No campo biolgico, o I. pode ser,
juntamente com os outros pontos principais,               para certos fins, o organismo; para outros, a
foi expresso com toda a clareza por Wolff. Este           clula. Mas foi sobretudo no campo das cin-
comea por afirmar que o I.  "aquilo que per-            cias histricas que a filosofia e a metodolo-
cebemos com o sentido interno ou com o sen-               gia contemporneas utilizaram a noo de I.
tido externo ou o que podemos imaginar                    Windelband (Prludien, II, p. 145) e Rickert
enquanto coisa nica" (Log.,  43), e continua            ( Grenzen der naturwissenschaftlichen Begriffs-
definindo o I. como "o ente que  determinado             bildung, p. 420) evidenciaram o carter indi-
sob todos os aspectos {ens omnimode deter-                vidualizante das cincias do esprito, diante
minatuni), no qual so determinadas todas as              do carter generalizante das cincias natu-
coisas que lhe so inerentes" (Jbid.,  74). Essa         rais. O conhecimento histrico visa a repre-
noo do I. como o que  absoluta ou infinita-            sentar o I. em seu carter singular e irrepetvel,
mente determinado foi utilizada com freqn-              ou seja, no como o caso particular de uma lei,
cia pela metafsica moderna. Foi essa noo               mas como irredutvel aos outros I. com os
que permitiu a Hegel (e a muitos que seguiram             quais est em conexo causai. O I., neste caso
seu exemplo) falar de "I. universal" sem incidir          o evento histrico (fato, pessoa, instituio
numa contradio de termos: "A tarefa de                  etc), tem duas caractersticas: a singularidade e
acompanhar o I. desse seu estado inculto at o            a no-repetibilidade (v. HISTRIA).
saber devia ser entendida em seu sentido geral
e consistia em considerar o I. universal, o Esp-            INDUO (gr. TiaYCoyn; lat. Inductio-, in.
rito autoconsciente, em seu processo de for-              Induction; fr. Induction; ai. Induktion; it. Indu-
 mao. No que concerne  relao desses dois             zone). "A I.  o procedimento que leva do par-
 modos de individualidade, no I. universal cada           ticular ao universal": com esta definio de
 momento se mostra no ato em que ganha a                  Aristteles {Top., I, 12, 105 a 11) concorda-
 forma concreta e seu aspecto prprio. OI. parti-         ram todos os filsofos. O prprio Aristteles v
 cular  o esprito no acabado: uma figura con-          na I. um dos dois caminhos pelos quais conse-
 creta em tudo, cujo ser determinado domina               guimos formar nossas crenas; a outra  a de-
 uma s determinao, estando as demais pre-              duo {silogismo) {An. pr., II, 23, 68 b 30).
                                                          Alm disso, atribuiu a Scrates o mrito de ha-
INDUO                                                 557                                            INDUO

ver descoberto os "raciocnios indutivos" (Met.,              omitidos na induo. Se todos, estaro em-
XIII, 4, 1078 b 28). Entre a I. e o silogismo, Aris-          preendendo um trabalho impossvel, porque os
tteles estabelece todavia uma grande diferen-                particulares so infinitos e ilimitados" (Pirr. hyp.,
a de valor. No silogismo dedutivo ("Todos os                 II, 204). Fora Aristteles quem afirmara que a I.
homens so animais; todos os animais so mor-                 era feita a partir de todos os casos particulares
tais; logo, todos os homens so mortais") o ter-              possveis (An.pr., II, 23, 68 b 29), enquanto os
mo mdio (animal) constitu a substncia ou a                 epicuristas haviam afirmado o valor da I. in-
razo de ser da conexo necessria entre os                   completa. Bacon, portanto, s fez retomar a al-
dois extremos: os homens so mortais porque                   ternativa epicurista quando declarou pueril a I.
so substancialmente animais. No raciocnio indu-             completa ou per enumerationem simplicem.
tivo, entretanto ("O homem, o cavalo e o mulo                 "Esta I. pode ser derrubada por qualquer
so duradouros; o homem, o cavalo e o mulo so                instncia contrria; alm disso, considera sem-
animais sem fel; logo, os animais sem fel                     pre as mesmas coisas e no atinge seu fim.
so duradouros"), o termo mdio (ser sem fel)                 Para as cincias, entretanto,  necessria uma
aparece na concluso, o que significa que ele                 forma de I. que escolha bem as experincias e
no  um porqu substancial, mas um simples                   conclua necessariamente, aps as devidas ex
fato (An.pr., II, 23, 68 b 15). Portanto, a I. no            cluses e eliminaes" (Nov. Org., Distrib. Op.).
tem valor necessrio ou demonstrativo, conquanto              Esta forma de I., que Bacon (embora com
seja mais clara que o silogismo; seu mbito de                dvidas) atribui a Plato (Ibid., 105), deve
validade  o mesmo do fato, ou seja, da totali-               inverter a ordem da demonstrao. Bacon diz:
dade dos casos em que sua validade foi efeti-                 "At agora era costume passar de chofre dos
vamente constatada. Pode, portanto, ser usada                 dados do sentido e das coisas particulares para
para fins de exerccio, em dialtica, ou com                  as coisas gerais, como a plos fixos da disputa,
objetivos persuasivos em retrica (Rbet., I, 2,               inferindo depois todas as outras coisas destas,
1356 b 13), mas no constitui cincia porque a                atravs das coisas intermdias. Esse  um ata-
cincia  necessariamente demonstrativa (An.                  lho, excessivamente ngreme, pelo qual nunca
post., I, 2, 71 b 19)- Na filosofia ps-aristotlica,         se encontra a natureza, mas apenas questes.
os epicuristas julgaram que a I. era o nico pro-             Ao contrrio, os axiomas devem ser inferidos
cedimento de nferncia legtima, enquanto os                 por graus sucessivos, chegando s no fim aos
esticos negaram esse valor. Em Designis, de                  axiomas generalssimos, que no so simples
Filodemo, encontramos um relato preciso da                    noes mas fatos bem determinados, sendo
polmica que esse assunto provocou entre as                   tais que a natureza os reconhece realmente
duas escolas. Os esticos diziam que no basta                como seus e inerentes  essncia das coisas"
constatar que os homens que esto ao nosso                    (Ibid., Distrib. Op.). Em outros termos, para
redor so mortais para dizer que em qualquer                  Bacon a certeza da I. consiste no fato de que,
lugar os homens so mortais; seria necessrio                 por fim, a I. redunda na determinao da for-
estabelecer que os homens so mortais exata-                  ma da coisa natural, entendendo-se por forma
mente enquanto homens, para conferir neces-                   "a diferena verdadeira, a natureza naturante
sidade a essa inferncia (Designis, III, 35; IV,              ou fonte de emanao" que explique o proces-
10; DE LACY, Philodemus on Methods oflnfe-                    so latente e o esquematismo oculto dos corpos
rence, 1941, p. 31). O problema da I. j se                   (Ibid., II, 1). Nesse sentido, a forma no passa
apresentava nessa dificuldade proposta pelos                  da "substncia" aristotlica: princpio ou razo
esticos. A eles os epicuristas objetavam que,                de ser da coisa. Aristteles achava que essa
desde que nada se oponha  concluso, a ge-                   substncia podia ser apreendida pelo proce-
neralizao indutiva  vlida (Ibid., VI, 1-14;               dimento silogstico, intuitivo-demonstrativo;
XIX, 25-36; DE LACY, pp. 34, 66). Sexto Em-                   Bacon acha que ela pode ser apreendida pelo
prico s fazia reexpor de forma mais radical a               procedimento indutivo que selecione e orga-
crtica dos esticos, partindo da distino entre             nize as experincias. Portanto, a verdadeira
I. completa e I. incompleta. "Uma vez que, par-               diferena entre Bacon e Aristteles  que, para
tindo do particular, desejam confirmar o univer-              Bacon, a nova disciplina do procedimento
sal por meio da I., faro isso percorrendo todos              indutivo por ele proposta (disciplina que con-
os particulares ou apenas alguns. Se alguns so-               siste na formao de tbuas que selecionem e
mente, a I. ser incerta, sendo possvel que ao               classifiquem as experincias e na instituio
universal se oponha algum dos particulares                    de experincias de verificao) permite atingir
INDUO                                               558                                           INDUO

com certeza a substncia, de que, segundo                   fundam-se na suposio dessa semelhana.
Aristteles, a I. s pode aproximar-se de ma-               Mesmo se admitindo que o curso das coisas
neira incerta ou imprecisa e cuja necessidade               sempre regular foi, s isso, sem nenhum argu-
s pode ser atingida pelo processo dedutivo.                mento ou inferncia nova, no prova que no
Graas a essa interpretao do procedimento                 futuro continuar assim" Unq. Cone. Underst.,
empirista nos termos da metafsica aristotlica,            IV, 2).
Bacon pde atribuir  I. incompleta a mesma                     Foi nesses termos que se props com fre-
"necessidade" que Aristteles atribua ao proce-            qncia o problema da I. no mundo moderno.
dimento silogstico. Desse ponto de vista, o                Foram-lhe dadas trs solues fundamentais:
problema da L, nos termos formulados pela                   Ia objetivista; 2- subjetvista; 3a pragmtica. Esta
crtica dos esticos e de Sexto Emprico, nem               ltima marca a passagem da concepo neces-
sequer se apresentava. Por outro lado, o carte-             sitarista (pressuposta pelas outras duas) para a
sianismo no estava interessado em propor o                 concepo probabilista da induo.
problema da I., vendo nela a mesma funo                       Ia A soluo objetivista consiste em conside-
preparatria e subordinada que Aristteles lhe              rar a existncia de uma uniformidade da natu-
atribura. A Lgica de Port-Royal diz: "A indu-             reza que admite a generalizao das experin-
o apenas nunca  um meio certo para se che-               cias uniformes. Esta soluo  muito antiga,
gar  cincia perfeita porque a considerao                tendo sido sustentada por Filodemo em sua
das coisas particulares  apenas uma oportuni-              polmica contra os esticos: "Do fato de todos
dade para o nosso esprito prestar ateno s               os homens que conhecemos serem semelhan-
suas idias naturais, segundo as quais julga so-            tes tambm no que se refere  mortalidade,
bre a verdade das coisas em geral. O que                   inferimos que todos os homens, universalmen-
verdade porque, p. ex., eu nunca teria tomado               te, esto sujeitos  morte, visto que nada se
em considerao a natureza do tringulo, se                 ope a essa inferncia ou nos mostra que os
no houvesse visto um tringulo que me deu                  homens no so suscetveis de morrer. Recor-
ensejo de pensar no assunto; todavia no foi o              rendo a essa semelhana, declaramos que, com
exame particular desses tringulos que me le-               relao  mortalidade, os homens que no co-
vou a concluir de modo geral e certo que a rea             nhecemos pessoalmente so semelhantes aos
de todos os tringulos  igual  rea do retn-             que conhecemos por experincia". {De signis,
gulo construdo sobre sua base dividida por                 XVI, 16-29; DE LACY, Ibid., pp. 58 ss.). Neste
dois (visto que este exame  impossvel), mas               trecho, obviamente o direito  inferncia indu-
apenas a considerao do que est includo na               tiva fundamenta-se na uniformidade revelada
idia de tringulo, que encontro no meu espri-             pelas semelhanas. De modo anlogo, no fim
to" (ARNAULD, Log., III, 19,  9). Portanto, foi s         da Escolstica, Duns Scot e Ockham baseavam
depois que as cincias comearam a usar am-                 a I. no princpio de causalidade. Duns Scot di-
plamente o procedimento indutivo, como                      zia: "Das coisas conhecidas por experincia
aconteceu na segunda metade do sc. XVII,                   digo que, embora no se tenha sempre expe-
que o problema da I. como problema da vali-                 rincia de todas as coisas particulares, mas
dade do procedimento indutivo e do direito                  apenas na maioria das vezes, quem experi-
de us-lo voltou a apresentar-se, sendo clara-              menta sabe infalivelmente que assim , sempre
mente exposto pela dvida ctica de Hume:                   e em todos os casos, com base na seguinte pro-
"Todas as inferncias extradas da experin-                posio existente na alma: tudo o que deriva
cia supem, como fundamento, que o futuro                   na maioria das vezes de uma causa no livre 
se assemelhar ao passado e que poderes se-                 o efeito natural dessa causa" (Op. Ox., I, d. 3,
melhantes estaro unidos a qualidades sens-                q. 4, n. 9); nesse trecho, efeito natural significa
veis semelhantes. Se houvesse alguma suspeita               efeito uniforme porque necessrio. Para Ock-
de que o curso da natureza pudesse mudar e                  ham, o fundamento da I. era o princpio: "Cau-
de que o passado no servisse de regra para o               sas da mesma natureza (ratio) tm efeitos da
futuro, toda a experincia se tornaria intil e             mesma natureza" (In Sent, Prol., q. 2 G), e
no poderia dar origem a nenhuma inferncia                 essa mesma soluo era proposta no sc. XIX
ou concluso.  impossvel, portanto, que                   por Stuart Mill. O fundamento da I.  o princ-
argumentos extrados da experincia possam                  pio das uniformidades das leis naturais, e esse
provar a semelhana entre o passado e o futu-               princpio  o mesmo de causalidade. Este, por
ro, visto que todos os argumentos desse tipo                sua vez, no podendo ser reduzido a um instin-
INDUO                                             559                                          INDUO

to infalvel do gnero humano ou a uma intui-             sibilidade da I. apia-se na organizao finalista
o imediata, s pode ser produto de induo.             do universo, ou seja, no fato de que a ordem
"Chegamos a essa lei geral" -- diz Stuart Mill --         da natureza  estabelecida pelo esprito (Fon-
"atravs da generalizao das muitas leis de ge-           dement de Vinduction, Paris, 1907, p. 12). A
neralidade inferior. Nunca teramos chegado              este tipo de soluo reduzem-se todas as justifi-
noo de causao (no significado filosfico do           cativas espiritualistas ou idealistas.
termo) como condio de todos os fenmenos,                   3a A justificao pragmtica foi proposta
se muitos casos de causao ou, em outras pa-             na filosofia contempornea quando se reco-
lavras, muitas uniformidades parciais de suces-           nheceu a impossibilidade de uma justifica-
so no se tivessem tornado familiares antes. A           o teortica, mas no se chegou a negar a
mais bvia das uniformidades particulares su-             legitimidade do problema, ou seja, da procura
gere e torna evidente a uniformidade geral, e a           de justificao. A justificao foi buscada na
uniformidade geral, uma vez estabelecida, per-            interpretao probabilista da I. A mais simples
mite-nos demonstrar as outras uniformidades               expresso da regra da I. probabilista talvez seja
particulares das quais resulta" (Logic, III, 21,          a de Kneale: "Depois de observarmos certo
 2). A uniformidade da natureza, portanto,              nmero de coisas a e de descobrirmos que a
uma simples I. per enumerationem simplicem.               freqncia das coisas (3 entre elas  f, conclu-
O crculo vicioso  evidente, e nele incide qual-         mos que P (a, p") = / ou seja, que a probabili-
quer soluo anloga para esse problema.
                                                          dade de uma coisa a ser p deve ser /" (Pro-
    2a A segunda soluo do problema da I.                bability and Induction, Oxford, 1949, p. 230).
subjetivista ou crtica, encontrando-se no kan-           Expresses mais complicadas que a prpria regra
tismo. Foi proposta pelo prprio Kant como                so encontradas em Lewis (Analysis ofKnow-
resposta  dvida de Hume sobre a possibilida-            ledge, 1946, p. 272) e em Reichenbach (Theory
de da generalizao cientfica; consiste em               of Probability, 1949, p. 446; cf. Fxperience and
admitir a uniformidade da estrutura categoria!            Prediction, Chicago, 1938, pp. 339 ss.). Mas
do intelecto e, por isso, da forma geral da natu-         todos eqivalem a dizer que, quando determi-
reza que dele depende. Kant diz: "Toda per-               nado carter recorre em certa proporo das
cepo possvel, portanto tudo aquilo que                 amostras examinadas, pode-se supor que essa
pode chegar  conscincia emprica -- isto ,             proporo vale para todos os outros exemplos
todos os fenmenos da natureza quanto  sua
                                                          do caso, salvo prova em contrrio. Quando a
unificao --, est sotoposta s categorias, das
quais depende a natureza, considerada sim-                proporo  igual a cem por cento das amos-
plesmente como natureza em geral, assim co-               tras examinadas, quando o carter em questo
mo ao princpio originrio de sua necessria              ocorre em todas, tem-se a generalizao uni-
conformidade a leis (qual natura formaliter               forme ou completa.  o que acontece quando
spectata). Mas nem a faculdade pura do inte-              se afirma que "todos os homens so mortais"
lecto chega a prescrever, apenas mediante cate-           porque o fato de ser mortal esteve constante-
gorias, mais leis alm daquelas sobre as quais            mente unido ao fato de ser homem. Por outro
repousa uma natureza em geral como regulari-              lado, quando o valor numrico dessa propor-
dade dos fenmenos no espao e no tempo."                 o  tomado como medida da possibilidade
Portanto, as leis particulares devem ser extra-          de que o carter em questo reaparea em novo
das da experincia (Crt. da R. Pura,  26). Isso         exemplo, tem-se um juzo de probabilidade
significa que, em sua conformidade s leis, em            (v.). Obviamente, a generalizao completa e o
sua uniformidade, a natureza depende das ca-              juzo de probabilidade so aspectos da gene-
tegorias, ou seja, da estrutura uniforme do               ralizao estatstica. Em vista disso, a justifica-
 intelecto, e que, portanto, a uniformidade ou            o da I., do ponto de vista pragmtico, pode
 leis que podem ser encontradas na expe-                  ser feita asseverando-se: a) que a I.  o nico
 rincia esto garantidas pela uniformida-                meio de obter previses; b) que ela  o ni-
 de da forma comum (intelecto-natureza). Esta             co meio suscetvel de autocorreo.
 doutrina  simetricamente oposta  da unifor-               a) Kneale diz: "A I. primria  uma diretriz
 midade natural, mas seu significado  o mes-             racional no por ser certo que ela leve ao su-
 mo. Em Lacheli'er encontra-se uma transcri-
                                                          cesso, mas porque  a nica maneira de tentar-
 o em termos espiritualistas da mesma tese
 fundamental (Fundamento da /., 1871): a pos-             mos fazer aquilo de que necessitamos: previ-
                                                          ses exatas" (Op. cit., p. 235). Contra esse
INDUO                                             560                                          INDUO

argumento, que  aceito por muitos (cf., p. ex.,          que o prprio Black recorre para caracterizar o
REICHENBACH, op. cit., p. 475), Black observa             mtodo cientfico (Op. cit., p. 23). A reviso,
que, se a I.  o nico meio de obter previses,           que a I. possibilita e  qual, alis, todo o seu
o sucesso dessas mesmas previses no a                   procedimento est intrinsecamente subordi-
confirma, assim como o seu insucesso no a                nado,  correo no sentido preciso do ter-
refuta (Problems ofAnalysis, 1954, pp. 174 ss.).          mo, ou seja, eliminao dos erros revelados
E Black observa que esse argumento, assim                 pelo prprio procedimento. Uma modificao
como o outro anlogo, de que a I.  o nico               que no fosse reviso ou correo nesse senti-
mtodo para verificar os outros mtodos de                do no seria exigida e realizada pela induo.
previso, tem a pretenso de justificar deduti-               Com tudo isso, o estado atual do problema
vamente a I., de justific-la com base em argu-           da I. parece bem expresso pela concluso de
mentos que, como seus prprios proponentes                Black, de que no s  impossvel justificar a I.,
reconhecem (REICHENBACH, op. cit., p. 479; J.             mas tambm que seu problema carece de sen-
O. WISDOM, Foundcitions oflnference in Natu-              tido, se por justificao se entende a demons-
ral Science, 1953, p. 229), tm carter analtico         trao da validade infalvel do procedimento
ou tautolgico. Os argumentos genuinamente                indutivo. "Insistir em que deve haver uma con-
prticos -- observa ainda Black -- no so                cluso seria como dizer que, se um bom joga-
dedutivos. Na vida quotidiana, numa situao              dor de xadrez conhece os movimentos a serem
cjue exige deciso, os indcios indicam com               feitos numa partida de xadrez, ele tambm
certo grau de segurana a ao que ser mais              deve ser capaz de conhecer os movimentos a
adequada, mas ela no  dedutvel daquela                 serem feitos num tabuleiro com uma s pea.
indicao e tampouco a conduta contrria im-              Mas este no  um problema de xadrez e nada
plica contradio {Problems of Analysis, p.               h que o jogador de xadrez possa resolver. O
185). Portanto, esse tipo de argumentao no             problema daquilo que devemos inferir quando
tem valor como justificativa do procedimento              sabemos apenas que alguns A so B no  um
indutivo.                                                 problema indutivo genuno, e no h modo de
    b) O segundo argumento fundamental para               resolv-lo a no ser reconhecendo que seria
a justificao prtica da I.  sua capacidade de          inoportuno tent-lo" (Op. cit., pp. 188-89; cf.
autocorreo. Peirce foi o primeiro a falar nes-          Language and Philosophy, 1952, cap. II). Em
se carter, discernindo nele a prpria essncia           outros termos, o problema da I. em geral, as-
da I. (Coll. Pap., 2729). E Reichenbach disse:            sim como o problema de inferir o futuro do
"O procedimento indutivo tem o carter de um              passado ou os casos no observados dos casos
mtodo de tentativa e erro projetado de tal               observados, no tm sentido por falta de da-
forma que, nas sries que tenham um limite de             dos, Se esses dados forem fornecidos, no
freqncias, ele leva automaticamente ao su-              haver mais problema de I., mas problemas
cesso num nmero finito de etapas. Pode ser               pertencentes aos domnios de cada cincia.
denominado um mtodo autocorretivo ou                     Deve-se acrescentar, todavia, que a eliminao
assinttico" (Op. cit., p. 446,  87; cf. KNEALE,
                                                          do problema da I. em sua forma clssica no
op. cit., p. 235). Contra esse argumento Black            exime o filsofo de analisar os procedimentos
observou que o termo autocorretivo no  exa-             indutivos empregados por cada cincia, de
to, visto ser verdadeiro que a I. inclui a possi-         confrontar tais procedimentos e de fazer as
bilidade constante de reviso, mas, para dizer            generalizaes que possam surgir desse con-
que as revises so correes, seria necessrio           fronto. Est claro, porm, que essa ordem de
que elas fossem progressivas, ou seja, dirigidas          investigao, no empreendida at hoje, nunca
para uma nica direo e na direo apropria-             levar  justificao cia induo, que, se fosse
da. Mas  exatamente essa segurana que falta             alcanada, teria como efeito imediato a elimina-
(Problems of Analysis, p. 170). Pode-se admi-             o de todos os riscos dos procedimentos indu-
tir, com Black, que nem esse argumento                   tivos e a reduo destes procedimentos 
realmente uma "justificao" da I. no sentido             certeza e  necessidade dos procedimentos dedu-
universal ou dedutivo da palavra "justificao",          tivos. Na realidade, os procedimentos cientfi-
mas que a possibilidade de autocorreo  carter         cos e, em geral, os comportamentos e as dire-
do procedimento indutivo, assim como de todo              trizes racionaiso homem consistem em limitar
procedimento cientfico,  coisa que no se               o risco, em torn-lo calculvel, no em elimin-
pode pr em dvida; ademais,  o carter a                lo. Portanto, os problemas filosficos no po-




                                                                                                               L
INDUO MATEMTICA                                     561                                            INRCIA


dem ser propostos de tal forma que sua soluo               esta  justamente a resposta'' (Ibid., 6. 52). E o
signifique a eliminao do risco. O carter qui-              Tractatus encerrava-se com a afirmao: "Sobre
mrico de tal postura evidencia, mais que qual-              o que no se pode falar, deve-se calar" (Ibid.,
quer outra coisa, a ilegitimidade do problema                7). Por outro lado, Carnap falava de uma
da justificao da induo. Essa tese foi expres-            "mitologia do I." e considerava essa palavra
sa por Popper de forma extremada, pois este                  perigosa, porque apta a produzir confuses
considerou a I. um simples mito, que no  um                e incertezas. O enunciado "Existem objetos
fato psicolgico, nem um fato da vida comum,                 I.", traduzido para a linguagem formal, soa,
muito menos um procedimento cientfico; e                    para Carnap simplesmente "Existem designa-
considerou que a cincia procede pelo mtodo                 es de objetos que no so designaes de
de tentativa e erro, ou seja, d saltos bruscos,             objetos" ou "'Existem enunciados que no so
indo de uma observao nica a uma conjectura                enunciados" (LogischeSyntaxderSpracbe, 1934,
ou uma hiptese que depois procura refutar e                  81; trad. in., p. 314).
que  mantida enquanto a refutao no ocorre                    INRCIA (in. Inertia; fr. Inertie; ai. Thgheit;
(Conjecturas and Refutations, 1963, pp. 3 ss.).              it. Inerzia). A histria deste conceito funda-
   INDUO MATEMTICA (in. Matbema-                          mental da mecnica moderna deve muito 
                                                             filosofia. Era estranho  fsica de Aristteles
tical induction; fr. Incluction mathmatique;
                                                             porque nela se julgava vlida uma tese que o
ai. Mathematische Induktiort; it. Induzione                  exclui: "tudo o que se move  movido necessa-
matemtica). Essa expresso designa o princ-                riamente por alguma coisa" (Fs., VII, 1, 241b
pio que serve para estabelecer a verdade de                  24).  bvio que, a ser verdadeiro esse princ-
um teorema matemtico em um nmero indefi-                   pio, um corpo no pode persistir em seu esta-
nido de casos. Denomina-se tambm princpio                  do de movimento sem a ao de outro corpo.
de recorrncia ou raciocnio por recorrncia                 A teoria do impetus, exposta pelos escolsticos
(POINCAR, La science et Vhipothse, I,  3).                do sc. XIV, constitui a primeira crtica a esse
Peano assim definiu esse princpio: "Seja S                  princpio de Aristteles e.a primeira manifesta-
uma classe, suponhamos que O pertena a essa                 o da noo de inrcia. Ao princpio de Aris-
classe e que todas as vezes que um indivduo                 tteles, Ockham ops o exemplo da flecha, ou
pertena a essa classe o seguinte tambm per-                de qualquer outro projtil, que recebe um
tence a ela; ento todos os nmeros perten-                  impulso e o conserva, mesmo sem ser acompa-
cero a essa classe. Essa proposio denomi-                 nhado em sua trajetria pelo corpo que lhe
na-se princpio de I." (Formul. mat,  10).                  transmitiu o impulso (In Sent., II, q. 18, 26).
Esse princpio nada tem em comum com a I.                    Um discpulo de Ockham, Buridan (sc. XIV)
cientfica, a no ser o carter de generalizao             retoma essa doutrina e a aplica ao movimen-
(cf. MORRIS R. COHEN-ERNEST NAGEL, TheNature                 to dos cus: estes podem ser perfeitamente
of a Logical or Mathematcal System,  6, em                 movidos por um impulso transmitido pela potn-
Readngs in the Phil. of Science, 1953, p. 144).             cia divina, que se conserva porque no  redu-
   INEFVEL ou EVEXPRIMVELat Ineffabi-                     zido ou destrudo por foras contrrias (InPhys.,
lis; in. Inexpressible, fr. Inexprimable, ai. Unaus-         VIII, q. 12). Nicolau de Oresme e Alberto de
sprechlich; it. Inesprimibile). Na teologia msti-           Saxnia, que tambm pertenceram  corrente
ca, a partir das antigas religies ocultistas, I.           ockhamista do sc. XIV, na Universidade de Pa-
aquilo que se revela no ponto culminante da                  ris, retomam e defendem essa teoria. Desta tra-
experincia mstica, o entusiasmo ou xtase (cf.             dio escolstica a noo de I. passou para os
PLOTINO, Enn., VI, 9,11; PSEUDO-DIONSIO, Myst.              fundadores da cincia moderna, Leonardo da
TheoL, 1,1; S. BONAVENTURA, Itinerarium mentis               Vinci e Galilei. Este ltimo utiliza constante-
inDeum, VII, 5, etc). Na filosofia contempor-               mente essa noo e a apoia numa espcie de
nea Wittgenstein, na concluso de Tractatits                 experimento mental. Falando do movimento
                                                             de uma esfera perfeita sobre um plano bem
logico-philosophicus(1922), admite a existncia
                                                             liso, ele pergunta: "Agora, digam-me o que
do I.: "Realmente, o inefvel existe. Ele se mos-            aconteceria ao mesmo objeto mvel sobre uma
tra,  aquilo que  mstico" (Tractatus, 6.522);             superfcie que no fosse aclive nem declive"? E
"sentimos que, se todas as possveis perguntas               responde: "ele seria perptuo" (Op., VII, 273;
da cincia tivessem resposta, os problemas de                cf. VIII, p. 243). Mas embora utilizasse corre-
nossa vida no seriam sequer aflorados. Certa-               tamente a noo de L, Galilei no formulou de
mente no ficaria ento pergunta alguma; e
INERENCIA                                             562                                            INFINITO

modo explcito o princpio correspondente; o                grandeza tendente a zero. Este conceito foi co-
primeiro a formul-lo foi Descartes, que estabe-            nhecido pelos gregos, que o empregaram com
leceu como "primeira lei da natureza" o prin-               freqncia;  pressuposto nas argumentaes
cpio de que "cada coisa continua no mesmo                  de Zeno de Elia contra o movimento (v.
estado enquanto pode e s o muda quando se                  AQUILES; DICOTOMIA; FLECHA; ESTDIO) e foi cla-
encontra com outras coisas" (Princ. phil, II,               ramente expresso por Anaxgoras, que disse:
 37). Alguns decnios depois, ao ser aceito por            "Com relao ao pequeno, no h mnimo,
Newton como primeiro princpio da dinmica                  mas h sempre um menor, porque o que existe
em Princpios matemticos da filosofia natu-                no pode ser anulado" (Fr. 3, Diels). Esse con-
ral (1687), o princpio da I. ingressava defini-            ceito foi exposto por Aristteles (Fs., III, 7,
tivamente na cincia moderna, onde foi e con-               207b 35), retomado pelos ltimos escolsticos
tinua sendo, mais que uma "lei natural" (no                 (cf. por todos OCKHAM, In Sent., I, d. 17, q. 8)
sentido cartesiano do termo) ou uma verdade                 e utilizado por Leibniz como fundamento do
experimental, um postulado ou princpio ins-                clculo I., cujo primeiro documento importan-
trumental que permite o clculo da fora (v.)               te  o texto Novo mtodo para os mximos e os
ou da energia (v.). Sobre a teoria do impetus,              mnimos (1682).
cf. DUHKM, tudes surLonard de Vinci, Paris,                   INFINITO (gr. caretpov; lat. Infinitum, in.
1909.                                                       Infinite, fr. Infini; ai. Unendlich; it. Infinito).
   INERENCIA. V. SER, I. A.                                 Este termo tem os seguintes significados prin-
    INFERNCIA (in. Inference; fr. Inference;               cipais, entre os quais existem algumas seme-
ai. Inferiren; it. Inferenza). No latim medieval,           lhanas: 1L> I. matemtico, que  a disposio
encontra-se em muitos lgicos o termo in/erre,              ou a qualidade de uma grandeza; 2- I. teolgi-
que designa o fato de, numa conexo (ou                     co, que  a no-limitao da potncia; 3S I.
consequentia) de duas proposies, a primeira               metafsico, que  a no-completude.
(antecedente) implica (ou melhor, contm por                    le A concepo matemtica do I. elaborou
"implicao estrita") a segunda (conseqente).              dois conceitos diferentes: a) I. potencial como
Na filosofia moderna, o termo "I."  preferido              limite de certas operaes sobre as grandezas;
pelos anglo-saxes, ao passo que, em lngua                 b) I. atual como uma espcie particular de
italiana, se prefere illazione (ilao). Na lngua          grandeza.
inglesa, esse uso  muito amplo, significando                   a) O conceito de I. potencial foi elaborado
desde implicao (v.), como p. ex. emjevons                 por Aristteles, que negava que o I. pudesse
e, em geral, nos lgicos ingleses do sc. XIX,              ser atual, ou seja, real, tanto como realidade
at o processo mental atravs do qual, partindo             em si (substncia) quanto como atributo de
de determinados dados, se chega a uma con-                  uma realidade (Fs., III, 5, 204 a 7 ss.). Isto quer
cluso por implicao ou mesmo por induo                  dizer que o I. no  substncia nem proprie-
(Stebbing, Dewey), Stuart Mill diz: "Inferir uma            dade ou determinao substancial, mas que
proposio de uma ou mais proposies ante-                 "existe somente de modo acidental" (Ibid.,
cedentes, assentir ou crer nela como concluso              204a 28), como disposio de grandezas. Que
de qualquer outra coisa, isso  raciocinar no               disposio? Aristteles d dois significados fun-
mais amplo significado do termo" (Logic, II, 1,             damentais de I.: no primeiro, I.  "aquilo que,
1). Essa palavra  empregada com o mesmo                    por natureza, no pode ser percorrido", no sen-
sentido generalssimo por Peirce (Chance, Love              tido de que no pode ser visto. No segundo, I.
 and Logic, cap. VI) e por muitos lgicos con-               aquilo que pode ser percorrido, mas no
temporneos (Lewis, Reichenbach, etc). De-                  todo, pois no tem fim; nesse sentido,  1. por
wey distinguiu ai., como relao entre signo e              composio, por diviso ou por ambas (Ibid.,
coisa significada, da implicao, que seria a               III, 4, 204 a 3). Ora, o I. em sentido matemtico
 relao entre os significados que constituem as             s este ltimo, ou seja, o I. que pode ser per-
 proposies (Logic, Introduo; trad. it., p. 96),         corrido, mas nunca de modo exaustivo ou com-
 mas essa proposta no teve seguidores. G. P.               pleto. Neste sentido, o I.  tal "que sempre se
   INFINITESIMAL (lat. Infinitesimus; in. Infi-             pode tomar algo de novo, e o que se toma 
nitesimal; fr. Infinsimal; ai. Infinitesimal; it.         sempre finito, mas sempre diferente. Assim,
Infinitesimale). Uma grandeza que pode vir a                no se deve tomar o I. como um ser singular,
ser menor que qualquer grandeza determin-                  como p. ex. um homem ou uma coisa, mas no
vel, ou, em termos menos apropriados, uma                   sentido em que se fala de um dia ou de uma
INFINITO                                               563                                          INFINITO

luta, cujo modo de ser no  uma substncia,                 to contra o emprego de grandeza I. como
mas um processo que, apesar de finito,  sem-                algo completo, emprego que nunca foi admi-
pre diferente" (Ibid., III, 6, 206 a 27). Portanto,          tido em matemtica. O I.  s uma faon de
no  I. aquilo fora do qual no h nada, como               parler, a rigor, fala-se de limites, dos quais
se acredita comumente, mas sim aquilo fora do                algumas relaes so aproximadas quando se
qual sempre h alguma coisa; conseqente-                    quer, enquanto a outras relaes  permitido
mente o I. participa mais do conceito de parte               crescer alm de qualquer medida", (cf. GEY-
que do conceito de todo (Ibid., III, 6, 206 b 32;            MONAT, Histria e filosofia da analise infini-
207 a 27). Esse conceito aristotlico era utili-             tesimal, 1947, pp. 174-75). I paradossi dell'1.
zado por Lucrcio para defender a doutrina                   (185D de Bernardo Bolzano  uma obra que
epicurista da infinidade do espao, expresso                 marca a primeira abordagem decisiva de um
com a imagem de uma flecha lanada a partir                  novo conceito do infinito.
do limite extremo do universo, admitido por                      b) O segundo  o de I. categrico ou (me-
hiptese; quer a flecha encontre um obstculo,               nos propriamente se diz) atual, ao qual s a ma-
quer continue alm, o limite extremo do uni-                 temtica moderna deu forma rigorosa. Contu-
verso no  mais o mesmo porque  apenas o                   do, a matemtica chegou a esse conceito atra-
ponto de partida da flecha (De rer. nat., I, 967-            vs das discusses tradicionais sobre os
982). Tambm nesta imagem I.  aquilo de que                 denominados paradoxos do infinito. J R. Bacon,
se pode sempre tomar uma parte, e aquilo que                 para refutar a infinidade do mundo, fazia notar
se toma  sempre finito mas sempre diferente.                que, a admitir-se o I., deve-se concluir que a
Este conceito de I.  essencialmente negativo:               parte  maior que o todo a que pertence (Opus
consiste na no-exauribilidade de determina-                 tertium, ed. Brewer, 41, pp. 141-42). Argumen-
das grandezas submetidas a certas operaes,                 tos semelhantes foram repetidos freqentemente
que so a composio (acrscimo de partes                    na Escolstica do sc. XIV, que no entanto,
sempre novas) e a diviso em partes sempre                   com Ockham, deu a tais argumentos uma res-
novas. A primeira operao tende ao infinita-                posta que indica o caminho.a ser depois segui-
mente grande; a segunda, ao infinitamente pe-                do pela matemtica da segunda metade do sc.
queno (infinitsimo [v.]): ambas definem o                   XIX. De fato Ockham afirma: "No  incompa-
conceito de I. como inexauribilidade de partes               tvel que a parte seja igual e no menor que
dentro de partes. Mas assim entendido o con-                 seu todo porque isso acontece toda vez que
ceito  obviamente negativo: caracteriza a ine-              uma parte do todo  I. (...) Isso tambm acon-
xauribilidade ou incompletitude de uma srie.                tece na quantidade descontnua ou em qual-
Justamente a esse respeito Plotino observou                  quer multiplicidade, em que uma das partes te-
que I.  aquilo que no pode ser exaurido em                 nha unidades no menores que as contidas no
termos de .grandeza ou de nmero de suas                     todo. Assim, em todo o universo no existe um
partes (Enn., VI, 9, 6). E Kant, do mesmo ponto              nmero maior de partes que numa fava, por-
de vista, dizia: "O conceito verdadeiro (transcen-           que numa fava h infinitas partes. Portanto,
dental) de infinidade  que a sntese seqencial             o princpio de que o todo  maior que a parte
da unidade na medio de um quantum nunca                    vale somente para todos os compostos de
pode ser acabada" (Crt. R. Pura, Dialtica,                 partes integrantes finitas" (Cent. Theol., 17 C;
cap. 2, se. 2). Essa espcie de I. foi denomina-            Quodl, I, q. 9). Essa corajosa limitao do valor
da pelos lgicos da Idade Mdia I. sincatego-                de um axioma, que ento parecia evidente,
remtico (syncategorematicum), que  o I. en-                no teve seguidores durante muito tempo. O
tendido como disposio (no qualidade) de                   prprio Galilei, para evitar a possibilidade de
um sujeito, distinto do I. categoremtico, que               igualdade entre a parte e o todo (a propsito
seria o I. como qualidade ou como substncia                 da relao entre os quadrados e a srie natural
(PEDRO HISPANO, Summ. log., 12, 57; OCKHAM,                  dos nmeros), afirmou que "os atributos 'igual',
In Sent., I, d. 17, q. 8). Esse mesmo I. foi defini-         'maior' e 'menor' no tm lugar nos I., mas s nas
do pela matemtica do sc. XVIII e da primeira               quantidades finitas" (Scienze nuove, op., VIII,
metade do sc. XIX mediante o conceito de li-                p. 79), deixando assim inalterada a verdade do
mite (como o campo das sries, das sucesses,                pretenso axioma. Este acabaria por ser derru-
etc), mas os matemticos daquela poca no                   bado, sendo declarado fruto de uma generali-
lhe atriburam a posio de tipo de grandeza                 zao falaz (cf. RUSSELL, Principies of Mathe-
em si. Gauss dizia numa carta de 1831: "Protes-              matics, 1903, p. 360), s quando G. Cantor
INFINITO                                              564                                            INFINITO

(Mathematische Annalen, entre 1878 e 1883) e                ficado pelo estudo desses paradoxos e pelas
Dedekind (Continuidade e nmeros irracio-                   solues para eles propostas.
nais, 1872; O que so e o que devem ser os                      2Q O segundo conceito de I.  de natureza
nmeros, 1888) enunciaram um novo conceito                  teolgica e surgiu no ltimo perodo da filoso-
de infinito, que consiste em tomar como defi-               fia grega, com Flon e Plotino. Este ltimo
nio de I. o que at ento parecera ser o "parado-         distinguira a infinidade do nmero, que  "ine-
xo" do prprio I.: a equivalncia da parte e                xauribilidade" (Enn., VI, 6, 17), da infinidade
do todo. Pode-se ilustrar essa concepo re-                do Uno, que  entretanto "a no-limitao da
correndo ao exemplo dado por Royce (The                     potncia" (Ibid., VI. 9, 6). Com menor preciso
 World and the Individual, 1900-01; cf. o En-               de linguagem, esse conceito  expresso fre-
saio complementar "O um, os muitos e o I."                  qentemente pela Escolstica da Idade Mdia.
anexo ao vol. 1 da obra). Suponhamos que exista             S. Toms, aps observar que os primeiros fil-
um mapa idealmente perfeito, de tal forma que,              sofos tiveram razo em julgar I. o princpio das
se Ao objeto reproduzido e A' o mapa, este es-             coisas "considerando que as coisas derivam do
teja em correspondncia com A de tal modo                   primeiro princpio ao I.", distingue o I. da matria,
que para cada elemento particular de A (a, b, c)            que  imperfeio porque a matria sem forma
possa ser determinado em A' algum ele-                       incompleta, e o I. da forma, que  perfeio
mento correspondente (d, b', d), em confor-                 porque  da forma que no recebe o ser de
midade com o sistema de projeo escolhido.                 outrem, mas de si mesmo, ou seja, de Deus (S.
Suponhamos alm disso que esse mapa seja                     Th., I, q. 7, a. 1). Chamar a forma subsis-
desenhado dentro e em cima de uma parte da                  tente por si s de I. parece querer significar
                                                            que o I.  aquilo que, para ser, no precisa de
superfcie da regio reproduzida, como p. ex.
                                                            outra coisa, sendo portanto a ilimitada potn-
a Inglaterra. Se este mapa  -- como deve ser               cia de ser. No muito diferente  o sentido que
por hiptese -- idealmente perfeito, deve re-               parece ter a tese de Duns Scot sobre a infinida-
presentar tudo o que existe sobre a superfcie              de como modo de ser de Deus. Duns observa
da Inglaterra, logo o prprio mapa. A repre-                que, se dissermos que Deus  supremo, estare-
sentao deste ltimo, sendo por sua vez per-               mos conferindo a ele uma determinao que
feita, dever conter a representao dele mes-              lhe cabe em relao s coisas que so diferen-
mo, e assim por diante, sem limite. Um sistema              tes dele:  supremo entre todas as coisas exis-
dessa espcie  claramente I., no por ser inexau-          tentes. Mas se dissermos que  I., estaremos
rvel, mas por ser auto-representativo, ou me-              dizendo que  supremo em sua natureza intrn-
lhor, auto-reflexvo. Em termos matemticos,                seca, isto , que transcende todo e qualquer
um conjunto auto-reflexivo  aquele que pode                grau possvel de perfeio (Op. Ox, I, d. 2, q.
ser posto.em correspondncia biunivoca com                  2, n. 17). A infinidade parece expressar aqui o
algum subconjunto seu. Esse  o caso da srie               "quo maius cogitari nequit" de S. Anselmo, ou
natural dos nmeros, que pode ser posta em                  seja, as perfeies de Deus esto alm de qual-
correspondncia biunivoca com seus subcon-                  quer grau alcanvel pelas perfeies finitas. A
juntos, como p. ex. os quadrados, os nmeros                clistino cartesiana entre I. e indefinido (v.),
primos, etc.                                                que atribui apenas a Deus o atributo da infini-
   Segundo Cantor a potncia comum de dois                  dade, parece coincidir mais com a distino
                                                            entre o I. teolgico e o I. matemtico: distin-
conjuntos entre os quais exista uma correspon-
                                                            o tambm encontrada em Locke (An Essay
dncia biunivoca  o "nmero cardinal" dos                  Conceming Human Understanding, II, 17, 1) e
dois conjuntos. Esse nmero  chamado de                    Leibniz (Nouv. ess., II, 17, 2). Mas na filosofia
transfinito quando o conjunto  eqipotente a               moderna o conceito de I. como no-limita-
uma de suas partes ou de seus subconjuntos.                 o da potncia  realmente introduzido por
Dessa forma, o conceito de nmero cardinal I.,              Fichte, para quem o Eu  I. "suposto a partir de
que fora sempre negado como contraditrio,                  sua absoluta atividade", porquanto sua ativida-
ingressava na matemtica. Mas logo deveria                  de no encontra limites ou obstculos. Supon-
revelar-se fonte de novas dificuldades e pro-               do-se, ao mesmo tempo, um no-Eu, o Eu limi-
blemas, que constituem os "paradoxos" da l-                ta-se e torna-se finito. Mas por fim "a finidade        I
gica moderna, conquanto no fossem de todo                  deve ser anulada: todos os limites devem desa-          |
desconhecidos da lgica antiga (v. ANTINOMIA).              parecer e ficar apenas o Eu I., como Um e               j
Mas o conceito de I. matemtico no foi modi-
INFINITO                                               565                                    INGENUIDADE

como Todo" (Wissenschaftslehre, 1794, 11,  4,            ou ao menos e portanto exclui a ordem e a
D). A contraposio hegeliana entre "falso I." e          determinao (Fil., 24 a 25 b).  este o conceito
"verdadeiro I." constitui a melhor ilustrao             metafsico de I., encontrado entre os gregos
dessa noo de I. na filosofia moderna. A falsa           porque estreitamente ligado ao seu ideal moral
infinidade  a infinidade matemtica do pro-              de ordem e de medida. Historicamente falan-
gresso ao I., pois este "pra na declarao da            do, esse conceito no ultrapassou os limites da
contradio, contida no finito, de que este              Grcia da idade clssica.
tanto uma coisa quanto a outra coisa" {Ene,                  INFINITO, JUZO (ai. Unendlich UrteiD.
 94). O progresso ao I. remete ao alm do finito,        Kant denominou assim as proposies nas
mas nunca alcana esse alm; por isso, sua ne-           quais o predicado  constitudo por uma nega-
gao do finito  um "dever-ser" que nunca              o, como, p. ex., "a alma  no-mortal" (Logik,
um "ser". O verdadeiro I. desfaz essa contradi-           22, Crt. R. Pura,  9). O termo I. j era empre-
o: nega a realidade do finito como tal e resol-        gado pela lgica medieval para indicar os subs-
ve-o em si. O verdadeiro I., em outros termos,           tantivos negativos, como p. ex. no-homem
 aquilo que ,  a realidade. Ele " e  deter-         (cf. PEDRO HISPANO, Summ, log., 1.04).
minadamente, existe, est presente. S o falso
I. est no alm, sendo apenas a negao do                   INFLUXO (lat. Influxus, Influentia; in. In-
finito como tal... A verdadeira infinidade toma-         flux; fr. Influence; ai. Einfluss; it. Infliisso). Ao
da assim em geral, qual um existir colocado               exercida por aquilo que  incorpreo sobre o
como afirmativo contra a abstrata negao,  a            que  corpreo. Nesse sentido, Cardano distin-
realidade em sentido mais elevado, no aquela             guia o I. da mudana, que  a ao de um cor-
anteriormente determinada como simples reali-             po sobre um outro corpo, e do alento, que  a
dade. A realidade adquiriu aqui um contedo               ao do incorpreo sobre o incorpreo e d-se
concreto. Real no  o finito, mas o i . " (Wis-          exclusivamente na alma (De subtilitate, XXI, em
senschaft der Logik, I, I, se. I, cap. II, C, trad.      Opera, 1663, III, p. 669 b-670 a). Esse termo
it., pp. 161-62). Nesse sentido, para usar uma           tem sido empregado para indicar:
frase do prprio Hegel, o I.  a "fora da exis-             le A ao determinante dos astros sobre o
tncia" (Fil. do direito,  331, Zusatz), ou seja,       destino e a vida dos homens, como mediadora
a fora graas  qual a razo habita o mundo e           da ao divina (cf. p. ex.: NICOLAU DE CUSA, De
domina-o, sendo, portanto, no-limitao de               docta ignor, II, 12; Pico DEIXA MIRANDOLA, Adv.
potncia (Ene,  6). E bem conhecido o emprego            astralogiam, VI, 2 e passim);
que o prprio Hegel e toda a filosofia romntica             2- A ao do governo de Deus sobre o mun-
do sc. XIX fizeram desse conceito de I.: ele             do. Neste sentido, Campannela fala dos trs
serviu para justificar a realidade enquanto tal, o        "grandes I." nos quais se concretiza a ao de
fato, e a repelir a pretenso de o intelecto "abs-       Deus, que so a necessidade, o destino e a har-
trato" julgar a realidade, de opor-se a ela e de          monia (Mel, IX, I; Theol, I, 17, a. 1);
nela inserir-se com o compromisso de transfor-               3Q A ao da alma sobre o corpo. Neste sen-
mao. Segundo a noo de infinidade de po-              tido, essa palavra foi empregada nos scs. XVII
tncia, a realidade, toda a realidade em qual-           e XVIII. Leibniz diz: "ao se querer fundamentar
quer momento,  tudo aquilo que deve ser,                a opinio vulgar do I. da alma sobre o corpo
uma vez que ao princpio que a rege no falta            com o exemplo de Deus, que atua de fora de
a potncia necessria para a realizao integral.        si mesmo, tem-se uma semelhana excessiva
     3S O terceiro conceito de I.  o correspon-         de Deus com a alma do mundo" (IV Lettre 
dente metafsico do conceito matemtico tradi-            Clarke,  34). Baumgarten chama essa doutrina
cional. J vimos que, para Aristteles, o I. nun-
                                                         de "Sistema do I. fsico" (Met.,  761). Kant cita
ca pode ser acabado, portanto nunca pode ser
um todo; ele  parte, incompletitude e inexauri-         essa mesma "opinio vulgar," rejeitando-a (De
bilidade. Aristteles, portanto, no concordava           mundi sensiblis, etc, IV,  17).
 com Melisso, que denominara o todo de I., e                    INFORMAO. V. CIBERNTICA.
 concordava com o pensamento de Parmnides,                     INGENUIDADE (in. Naivete; fr. Naivet; ai.
 que o considerara finito (Fs., 6, 207 a 15). Mas           Naivett; it. Ingenuit). No sc. XVIII, este ter-
 essas determinaes j haviam sido atribudas               mo comeou a ser empregado para indicar cer-
 ao I. por Plato: I.  aquilo que carece de n-             to modo de expresso esttica. Kant dizia: "A I.
 mero ou de medida, que  suscetvel ao mais                  a expresso da originria sinceridade natural
                                                             da humanidade contra a arte de fingir, que se
ININTELIGVEL                                            566                                         INSTANTE


tornou uma segunda natureza" (Crt. do Juzo,                  fletir, sou levado a pensar que, ao contrrio do
 54). A I. no deve ser confundida com a sim-                 que se acredita, o que determina a vontade
plicidade franca, que no dissimula a natureza                 no  ter os olhos voltados para um bem su-
s porque no compreende o que  a arte de                     perior, mas sim algum mal-estar (geralmente, o
viver em sociedade.  antes uma natureza                       mais grave dos que atualmente afligem o ho-
que se faz presente ou se revela na prpria                    mem) (...) Esse mal-estar tambm pode ser de-
arte (Ibid.,  54). Schiller inspirou-se nesses                nominado desejo, que  um mal-estar do esp-
conceitos no ensaio Sobre a poesia ingnua e                   rito pela falta de algum bem" (Ibid., II, 21, 31).
sentimental (1795-96): "O ingnuo  a repre-                   Leibniz acatava com bons olhos essa tese de
sentao da nossa infncia perdida, que fica                   Locke (Nouv. ess., II, 20,  6), que tambm foi
em ns como o que h de mais querido, e por                    acolhida e utilizada por Condillac (Trait des
isso nos enche de certa tristeza e , ao mesmo                 sensations, I, 3,  2).
tempo, a representao da suprema perfeio                        INSOLUBILIA. Na lgica medieval, a partir
do ideal, que suscita em ns sublime emo-                      do sc. XIV, receberam este nome e o nome de
o" (Werke, ed. Karpeles, XII, p. 108). A poe-                Impossiblia os raciocnios que a lgica me-
sia ingnua nesse sentido contrape-se  poesia                grico-estica chamava de ambguos ou con-
sentimental: o poeta ingnuo  natureza; o                     versveis, tambm chamados de dilemas (v.) e,
poeta sentimental procura a natureza {Ibid., p.                mais tarde, de antinomias (v.).
125).                                                              INSTABILIDADE (in. Instability). Precarie-
    Fora do domnio da esttica, esse termo por                dade. Um dos traos fundamentais da existn-
vezes  usado para caracterizar as crenas filo-               cia, segundo algumas correntes contempor-
sficas do homem comum. Deu-se o nome de                       neas. Dewey diz: "O homem vive num mundo
"Realismo ingnuo"  crena comum na reali-                    aleatrio; pode-se dizer, cruamente, que sua
dade das coisas. Embora, assim usado, esse                     existncia implica risco. O mundo  o palco do
adjetivo tenha certo tom depreciativo, a crtica               risco: incerto, instvel, terrivelmente instvel.
mais recente tem demonstrado que nem sem-                      Seus perigos so irregulares* inconstantes, no
pre as crenas ingnuas so as mais fracas (v.                 podem ser associados a um tempo ou a uma
REALISMO).                                                     situao determinada" (Experience and Nature,
     ININTELIGVEL (lat. Inexplicabilis; in. Unin-             cap. 2). ^
telligible, fr. Ininteligible, ai. Unverstndlich; it.             INSTNCIA (gr. ivoToem; lat. Instantia; in.
Inintelligibil). 1. Propriamente, aquilo de que               Instance, fr. Instance, ai. Instanz; it. Istanz).
no se consegue apreender o porqu e o como,                   1. Na lgica aristotlica, I.  "uma premissa
ou seja, aquilo cuja causa, condio ou signifi-               contrria a outra premissa" (An.pr., II, 26, 69 a
cado  inapreensvel, o inexplicvel (cf. CCERO,              36). Aristteles enumera quatro I. fundamen-
Acad., III, -29, 95). Este termo, portanto, tem                tais: o ataque  premissa do adversrio; uma
significado diferente e mais preciso que incon-                nova premissa; uma premissa contrria  do
cebvel'(v.), que indica apenas uma incompati-                 adversrio; recurso a decises precedentes ( Top.,
bilidade genrica com a razo. O prprio Leibniz               VIII, 10, I6la 1; Ret., II, 25, 1402 a 34).
estabelecia a diferena entre o que no se en-                     2. Bacon chamou de I. os casos experimen-
tende e o que  inconcebvel (Nouv. ess., Avant                tais particulares de determinado fenmeno,
props, op., ed. Erdmann, p. 202). Diferena                   como p. ex. do calor; denominou "tbuas das
anloga  estabelecida entre esses dois termos                 I." a relao de tais casos (Nov. Org., II, pp. 10
por Peirce (Chance, Love and Logic, II, 2, trad.               ss.) (v. TBUAS). Stuart Mill por vezes adotou
it., p. 137).                                                  essa terminologia (Logic, III, 9, 1, passini).
     2. A propsito de discursos escritos ou fala-                 INSTANTE (gr. t ;a<pvr|; lat. Momen-
dos: obscuro, confuso, mal exposto, incapaz                    tum; in. Instant; fr. Instant; ai. Augenblick,
de comunicar.                                                  it. Attimo) 1. De acordo com o significado
     INQUIETUDE (in. Uneasiness; fr. Inquie-                   especfico, prprio de certa tradio filosfica,
 tude; ai. Unruhe; it. Inquetudine). Locke defi-              o I.  diferente do agora (v.), sendo o limite ou
niu esse termo dizendo que  o mal-estar da                    a condio do tempo, porque representa uma
necessidade insatisfeita (An Essay Concer., II,                espcie de encontro ou de compromisso entre
 20, 6). Na segunda edio de Ensaio, Locke                    o tempo e a eternidade. Essa noo remonta a
viu na I. assim entendida o mvel principal da                 Plato, que dizia: "O I. parece indicar o que
vontade humana. Locke dizia: "Depois de re-                    serve de transio entre duas mudanas inver-
INSTANTE                                           567                                           INSTINTO

sas. A passagem do movimento ao repouso e                dessa ltima atitude, convidando a dar a cada
vice-versa no ocorre a partir da imobilidade            perodo da vida, a cada dia e a cada instante um
que ainda est imota nem do movimento que                valor autnomo e acabado. Essa atitude no
ainda se est movendo. A natureza um pouco               coincide, porm, com a chamada atitude est-
estranha do I. est no fato de ser o ponto m-           tica, pois, ao contrrio, supe que aos instantes
dio entre repouso e movimento, mesmo no                 da vida no se atribua o valor que por acaso
estando ele no tempo, o que o torna ponto de             tenham, mas o valor atribudo a todo um pro-
chegada e de partida do que se est movendo              jeto de vida. Heidegger retomou ainda, em sen-
em direo ao estar parado, e do que est pa-            tido anlogo, a noo de I., considerando-o
rado em direo ao mover-se" (Parm., 156 d).             como "o presente autntico" e contrapondo-o
Em outros termos, para Plato o I. no  nem o           ao agora, que  o presente inautntico da vida
tempo nem a eternidade, nem o movimento                  cotidiana. O agora  a apresentao das coisas
nem o repouso, mas est entre eles e constitui           para as quais se voltam os cuidados cotidianos
o seu ponto de encontro. Essa noo foi reto-            do homem; o I.  a deciso antecipadora da
mada por Kierkegaard, que viu no I. a insero           morte, isto , do nada da existncia: a mesma
subitnea da eternidade no tempo e, portanto,            situao que, do ponto de vista emocional,  a
a insero subitnea da verdade divina no ho-            angstia (Sein und Zeit,  68, 81).
mem, isto , o nascimento da f (Pbloso-                    2. O mesmo que instante ou agora (v.).
phischeBrocken, cap. IV; cf. Werke, II, pp. 108,             INSTINTO (gr. p|lt; lat. Instinctus; in.
ll ss.). O carter instantneo da f exclui que         Instinct; ai. Instinkt; it. Istnto). Um guia natural
ela possa ser suscitada ou produzida por                 da conduta animal e humana no  adquiri-
processos de demonstrao ou de persuaso.               do, no  escolhido e  pouco modificvel. O
Da a polmica de Kierkegaard contra a igreja            I. distingue-se da tendncia (v.) pelo carter
oficial dinamarquesa, travada no jornal, e que           biolgico, porquanto se destina  conserva-
ele denominou precisamente O Instante. O                 o do indivduo e da espcie e vincula-se a
conceito de I. volta no existencialismo ale-             uma estrutura orgnica.determinada; distin-
mo, mas sem a ressonncia religiosa que tinha           gue-se do impulso por seu carter estvel. Exis-
em Kierkegaard. Jaspers diz: "O I. vivido  o            tem duas concepes fundamentais de I.: X-
fato supremo, calor de sangue, imediao,                a metafsica, segundo a qual o I.  a fora que
vida, presente corpreo, totalidade do real,             assegura a concordncia entre a conduta ani-
nica coisa verdadeira e concreta. Em vez de             mal e a ordem do mundo; 2- a cientfica,
partir do presente para perder-se no passado             segundo a qual o I.  um tipo de disposio
ou no futuro, o homem encontra a existncia e            biolgica.
o absoluto no I., nico que os pode propor-
cionar. Bassado e futuro so abismos obscuros                \- A teoria metafsica dos I. foi fundada pe-
informes, tempo indefinido, ao passo que o I.            los esticos. Para eles, a ordem providencial do
pode ser a abolio do tempo, a presena do              inundo, que todos os seres esto destinados a
eterno" (Psychologie der Weltanschauungen,               manter, dirige a conduta animal por meio do ins-
 1925, I, 3; trad. it., p. 132). O mesmo Jaspers         tinto. Crisipo diz: "O I. primrio do animal, por
relaciona a noo de I. com a atitude tica              ser este desde o princpio dirigido pela nature-
caracterizada pela mxima "vive oi.", expres-            za,  de cuidar de si mesmo {.Dos fins, Livro I).
 sa na Antigidade por Aristipo (sc. IV a.C).           Diz tambm que o que est no mais ntimo de
 Este prescrevia "ter a mente no hoje, ou me-            cada animal  a sua prpria constituio e a
 lhor, naquele I. em que cada um faz e pensa             conscincia dessa constituio. No  veross-
 alguma coisa, pois s o presente  nosso, no           mil que o animal se alheie de si ou que de
 o I. que passou nem o que est sendo espera-            algum modo aja de tal forma que se alheie de
 do: um j est destrudo, o outro no sabemos           si ou no cuide de si mesmo.  preciso, pois,
 se h de vir" (ELIANO, Var. historiae, XIV, 6).         que a prpria natureza o constitua de tal modo
 Essa atitude, que Kierkegaard chamava de                que ele cuide de si, fugindo s coisas nocivas e
  "vida esttica", s vezes  contraposta  ou-          perseguindo as favorveis. Donde se evidencia
 tra que, sacrificando continuamente o presen-           como falso o que dizem alguns, de o prazer ser
                                                         o I. primrio dos animais" (DIG. L, VII, 85).
  te em favor do futuro, acaba tornando insigni-
  ficante e instrumental toda a durao da vida.         Atravs do I. a natureza leva o animal a cuidar
  No sc. XVIII, Lessing e Rousseau discordaram          de si e a conservar-se, contribuindo para man-
                                                         ter a ordem do todo. Ccero exprimia o concei-
INSTINTO                                              568                                          INSTINTO

to estico nos seguintes termos: "Para conser-              postas e mantidas na concepo cientfica do I.
var-se, para conservar sua vida e seu corpo,                Contudo, so tpicas da concepo metafsica,
toda espcie animal evita por natureza tudo o               sendo caracteres presumidos, deduzidos da
que parece nocivo, deseja e trata de arranjar               funo atribuda ao I. no cosmo, todos em
tudo o que  necessrio  vida, como alimento,              oposio aos dados da observao. Essas ca-
abrigo e todo o resto. Tambm  comum a to-                 ractersticas tambm so admitidas e defendi-
dos os seres animais o I. sexual com vistas                das habitualmente pelos filsofos que tm uma
procriao e certo cuidado para com suas crias"             concepo provdencialista do mundo biolgi-
(Tusc, I, 4, 11; De/in., III, 7, 23; De off, I, 28,         co, como p. ex. os espiritualistas. Hegel tam-
101). Algumas vezes o direito natural foi equi-             bm falou de um "I. da razo" (Phnom. des
parado ao instinto assim entendido, por ser                 Geistes, I, cap. V, "A observao da natureza";
comum no s aos homens mas tambm aos                      trad. it., I, pp. 222, 225, etc), atribuindo a esse
animais. No sc. III, Ulpiano fazia a distino             I. as caractersticas gerais mencionadas antes.
entre o direito das gentes, que  s dos ho-                    Tambm  metafsica a teoria freudiana do
mens, e o direito natural, que "a natureza ensi-            I., especialmente do modo como  formulada
nou a todos os animais e por isso pertence no              em seus ltimos textos. Os instintos so "a l-
s ao gnero humano, mas  comum a todos                    tima causa de toda atividade e sua natureza 
os animais que vivem na terra, no mar e no cu.             conservadora: de cada estado atingido por um
Desse direito decorrem o casamento, a procria-              ser surge a tendncia a restabelecer esse esta-
o e a educao dos filhos, coisas estas de que            do quando ele foi abandonado."
os animais tambm tm experincia" (Dig., I, 1,                 Os I. podem ser mltiplos, podem mudar de
1-4). Essa concepo sempre ligada esteve ao                alvo e uns podem substituir os outros, mas
pressuposto metafsico da existncia de uma                 em ltima anlise  possvel reconhecer dois
ordem providencial cuja manifestao nos ani-               instintos fundamentais em luta: Eros, ou I.
mais e nos homens seria o I. S. Toms aduzia                de vida, e Thanatos, ou I. de destruio
como prova dessa tese que a providncia se                  (Abriss der Psychoanalyse, 1940, cap. II). Ver
ocupa tambm das coisas individuais contin-                 PSICANLISE.
gentes, o I. natural de que os animais so do-                  2- As teorias cientficas do I. so de duas
tados e que se manifesta nas abelhas e em mui-              espcies: A) explicativas; B) descritivas.
tos outros animais (Contra Gent., III, 75). "Em
                                                               A) Existem trs teorias explicativas funda-
ns semeado e infundido pelo princpio da
                                                            mentais, que recorrem respectivamente: a) 
nossa gerao, nasce um rebento, que os gre-
                                                            ao reflexa; b) ao intelecto; c) ao sentimento
gos chamavam de homem e que  o apetite
                                                            (simpatia).
natural do esprito (...). E assim parece que ,
pois todo animal, assim que nasce, seja ele                     a) A doutrina que explica o I. recorrendo 
racional ou bruto, ama-se a si mesmo e teme e               ao reflexa  a mais antiga. Foi defendida por
                                                            SPF.NCER em Princpios de psicologia (1855):
evita as coisas que lhe so contrrias e que ele
detesta" (Conv., IV, 22; cf. Par., 1,112-14). Kant          "Enquanto nas formas primitivas da ao refle-
ainda falava do I. como da "voz de Deus                    xa uma nica impresso  seguida por uma
qual todos os animais obedecem" e que "na                   nica contrao, e enquanto nas formas mais
origem deve ter guiado os primeiros tempos                  desenvolvidas da ao reflexa uma nica impres-
do homem primitivo" (Mutmasslicher Anfang                   so  seguida por uma combinao de contra-
der Menschengeschichte, 1786).                              es, nesta, que distinguimos como I., uma com-
                                                            binao de impresses  seguida por uma
    Segundo essa concepo, as caractersticas              combinao de contraes; e quanto mais su-
do I. so as seguintes: Ia providencialidade, 2            perior for o I., tanto mais complexas sero as
infalibilidade, que deriva do carter anterior e            coordenaes de direo e de execuo" (Princ.
graas  qual o I. estaria sempre apto a garantir           of Psychology,  194). Essa tese foi substancial-
a vida do animal e a continuao da espcie; 3Q             mente aceita por Darwin, que a modificou no
imutabilidade, que deriva das duas caractersti-            sentido de que o desenvolvimento dos I. seria
cas precedentes e que consiste na imperfecti-               devido  seleo natural dos atos reflexos que
bilidade do I.; 4e cegueira, no sentido de que o            constituem os I. mais simples. Darwin diz: "A
I. foge ao controle do animal e o guia sem ne-              maior parte dos I. mais complexos parece ter
nhuma iniciativa direta de sua parte. Algumas               sido adquirida mediante a seleo natural das
dessas caractersticas por vezes foram pressu-              variaes de atos mais simples. Tais variaes
INSTINTO                                               569                                           INSTINTO

parecem resultar das mesmas causas desco-                    dade, a evoluo distanciou elementos que na
nhecidas que ocasionam as variaes ligeiras                 origem se interpenetravam" (vol. cratr, 1911,
ou as diferenas individuais nas outras partes               8 ed., pp. 190-9D- A evoluo vital distanciou
do corpo, que agem sobre a organizao cere-                 a inteligncia do I., especializando o I. na tare-
bral e determinam mudanas que, na nossa                     fa de utilizar ou mesmo de construir instru-
ignorncia, consideramos espontneas" (Descent               mentos organizados, e a inteligncia, na de fa-
ofMan, 1871, I, cap. 3; trad. fr., p. 69). Essa              bricar e utilizar instrumentos inorganizados (Jbid.,
explicao do I. foi aceita no s por darwinistas           p. 152). Segundo Bergson, a especializao do
e neodarwinistas, mas tambm pelos que ela-                  I. depende do fato de o I. ser utilizao de um
boraram a teoria dos reflexos condicionados,                 instrumento determinado para um fim deter-
que consideraram o I. como um reflexo condi-                 minado: de um instrumento que, alm do mais,
cionado complexo (cf. PAVLOV, OS reflexos con-                de enorme complexidade de detalhes, embo-
dicionados; trad. it., p. 273). O defeito dessa              ra de funcionamento simplssimo. Os instru-
teoria  que as variaes casuais dificilmente               mentos fabricados pela inteligncia, ao contr-
poderiam explicar a formao de I. to aperfei-              rio, so muito menos perfeitos, mas podem
oados e complexos como os dos insetos.                      mudar continuamente de forma e adaptar-se s
     b) A segunda teoria explicativa tem em vista            novas circunstncias. Isso explica tambm por
justamente a formao desses I. mais comple-                 que o I. no  consciente ou o  minimamente:
xos e considera o I. como inteligncia degrada-              a conscincia mede a distncia entre a repre-
da ou mecanizada. Essa doutrina, apresentada                 sentao e a ao (entre as diversas possibili-
por Romanes {Mental Evolution in Animais,                    dades de agir e a ao efetiva); no I. essa dis-
1883), foi amplamente aceita pela psicologia do              tncia  mnima porque  mnima a parte passvel
fim do sculo passado. Eqivale a ver o I. como              de escolha (Ibid., p. 157). Scheler, fazendo re-
um hbito que se formou e se aprefeioou atra-               ferncia a essa doutrina de Bergson, como ca-
vs do desenvolvimento de uma espcie ani-                   paz de explicar os I. mais complicados (p. ex.,
mal. Wundt, especialmente, contribuiu para a                 o dos himenpteros, que paralisam, mas no
difuso dessa doutrina. Diz: "Os I. so movi-                matam escaravelhos ou aranhas para pr seus
mentos oriundos de atos de vontade simples ou                ovos, cf. FABRE, Souvenirs entomologiques, I, 3S
compostos que depois, durante a vida indivi-                 ed., 1894, pp. 93 ss.), declara considerar prov-
dual ou ao longo de um desenvolvimento ge-                   vel que "nos atos instintivos dessa espcie, que
ral, acabam mecanizados no todo ou em parte"                 nos pem em presena de uma concatenao
(Grundzge derphysiologischen Psych., 4a ed.,                finalista, lgica, das fases de atividade de mui-
 1893, II, pp. 510 ss.; cf. System derPhil., 2a ed.,         tos seres, estejamos apenas diante de um exa-
1897, p. 590). Essa concepo algumas vezes                  gero anormal daquilo que  a verdadeira fuso
foi utilizada pelos filsofos, com vistas a uma              afetiva na esfera da atividade humana" (Sym-
metafsica espiritualista (cf., p. ex., RENOUVIER,           pathie, cap. I; trad. fr., p. 50). Essa  uma
 Nouvelle monadologie, 1899, p. 83), mas con-                aceitao substancial do ponto de vista de
tra ela existe o fato bem verificado de que os               Bergson, mas corrigindo aquilo que Bergson
 hbitos adquiridos no so transmissveis por               chama de simpatia para fuso afetiva (quan-
herana (v. HEREDITARIEDADE), constatando-se                 to  diferena entre as duas, v. SIMPATIA). A
 ademais que, para explicar a formao de I.                 doutrina de Bergson foi amplamente aceita
 aperfeioados, no basta a hereditariedade da               pelos filsofos, mas encontrou pouca acolhi-
 disposio para contrair hbitos mais facilmen-             da junto aos fisiologistas e psiclogos. Conti-
 te, que parece provada em alguns casos (Mac-                nua sendo uma das alternativas possveis
 Dougall).                                                   para uma explicao do instinto. Este, com
                                                             efeito, pode ser relacionado com qualquer uma
   c) A terceira teoria explicativa  a que rela-            das duas atividades que supostamente dirigi-
ciona o I. com os sentimentos, em particular                 rem a conduta humana: a inteligncia e o sen-
com a simpatia. "I.  simpatia", diz Bergson.                timento. A interpretao (b) procura vincular
"Nos fenmenos do sentimento, nas simpatias                  o I.  inteligncia; a interpretao (c), ao
e antipatias irrefletidas, sentimos em ns mes-              sentimento.
mos, de forma bem mais vaga e ainda demasia-
do penetrada de inteligncia, algo do que deve                  B) Na psicologia contempornea, a influn-
acontecer na conscincia de um inseto que age                cia do gestaltismo, em sua concepo de aban-
por instinto. Para desenvolv-los em profundi-               dono definitivo da teoria dos reflexos que ten-
INSTINTO                                                  570                                         INSTITUIO


dia a resolver o I. em atividades elementares                       Essa doutrina continua atribuindo ao I. o pa-
(as aes reflexas), favoreceu tambm o aban-                   pel principal na determinao do comporta-
dono de qualquer teoria explicativa e o recurso                 mento humano e animal, mas, por outro lado,
a teorias descritivas, fundadas em ampla base                   chegou-se a duvidar que, para explicar esse
de observaes. Desse ponto de vista, a descri-                 comportamento, fosse possvel utilizar o con-
o do I. mais comumente adotada  a de G. E.                   ceito de I. (cf. o simpsio sobre esse assunto
Mller, que modificou oportunamente uma de-                     no British Journal of Educational Psychol.,
finio de MacDougall: "O I.  uma disposio                   nov. 1941). Tambm se prope uma concep-
psicofsica, dependente da hereditariedade,                     o "estatstica" do I., segundo a qual ele  ape-
muitas vezes completamente formada logo de-                     nas "o fator de um grupo inato e conativo"
pois do nascimento, outras vezes s depois de                   (BURT, "The Case for Human Instincts" na Rev.,
certo perodo de desenvolvimento, que orienta                   cit., 3a parte; cf. J. FLUGEL, Studies in Feeling
o animal a dar ateno especial a objetos de                    andDesire, Londres, 1955). Essa negao do I.
certa espcie ou de certo modo, e a sentir,                     diz respeito sobretudo ao homem. Katz disse-
depois de perceber esses objetos, um impulso                    ra: "No homem, os I. determinam apenas a
para determinada atividade, em conexo com                      fora de um impulso  ao e seu esquema
eles" (cf. D. KATZ, Mensch und Tier, 1948;                      geral. Esse esquema  indefinido e varia segun-
trad. in., p. 1 71). Definies desse tipo tor-                 do a ocasio e o indivduo. P. ex., em todas as
nam intil at mesmo o nome I., que, de                         crianas o I. ldico desenvolve-se e floresce
fato, alguns psiclogos tendem a substituir por                 em certo perodo e depois morre. Mas o modo
outros termos, menos comprometidos pelo uso                     como as crianas realmente brincam varia muito.
                                                                Alm isso,  na infncia que o homem est
secular (propenso, tendncia). s vezes, in-
                                                                mais sujeito  influncia dos instintos. Mais tar-
siste-se no carter totalitrio da disposio instinti-         de, a conduta de vida  to controlada pelas
va, considerando-a como um "esquema unit-                      foras externas que  difcil distinguir sua base
rio" que cresce e diminui como um todo (cf. R.                  instintiva. Ao contrrio dos animais, ele no
B. CATTFXL, Personality, Nova York, 1950, p.                    passa a vida dentro da segurana dos I., mas
195). A etologia comparada distingue no I.                      tem a capacidade de form-los" {Animais and
aquilo que Konrad Lorenz chamou de meca-                        Men, cit., p. 173). Em sociologia, s vezes se
nismo desencadeante, conjunto de condies                      fala em I. como fator dominante da cultura ou
que servem de estmulo para a conduta instinti-                 dos seus aspectos fundamentais. Ao I. Pareto
va, e o ato consumador, constitudo por um                      atribua as aes "no lgicas" {Sociologia
esquema ou plano de movimentos, hierarqui-                      generale, 1923,  157). Thorstein Veblen, em
camente organizado, que  o comportamento                       suas explicaes sociolgicas, freqentemente
instintivo propriamente dito. Essa organizao                  recorria ao L: I. de eficincia, ao I. animista, etc.
hierrquica do comportamento instintivo torna-                  (cf. The Instinct of Workmanship and the State
se menos flexvel  medida que nos aproxima-                    of Business Enterprise, 1904). Hoje em dia esse
mos da conduta em ato. Para Tinbergen, essa                     ponto de vista  freqentemente contestado.
flexibilidade depende das mudanas no mun-                      "A cultura no  instintiva sob nenhum as-
do externo {TheStudy oflnstinct, 1951, p. 110).                 pecto: ela  exclusivamente aprendida. A partir
Para Lorenz, o desencadeamento da conduta                       da publicao de /., de Bernard, em 1924, foi
instintiva tambm pode ser provocado por um                     impossvel aceitar qualquer teoria do I. como a
acmulo de energia endgena (de natureza                        explicao do esquema cultural universal ou
predominantemente fsico-qumica) que, tanto                    como a soluo de certos problemas cultu-
no animal quanto no homem, constitui um /. de                   rais" (G. P. MURDOCK, em R. LINTON, The Scien-
agresso, este instinto, se entregue a si mes-                  ce of Man in the World Crisis, Nova York, T
mo, leva os homens  destruio recproca,                      ed., 1952, pp. 126-27).
mas pode ser disciplinado e canalizado para
alvos que no ponham em risco a convivn-                           INSTITUIO (lat. Institutio- in. Institution;
cia humana. A descarga da agresso sobre                        fr. Institution; ai. Anstalt; it. Istituzione). 1. Na
objetos constitudos seria o privilgio do ho-                  lgica terminista medieval,  a adoo de um
mem, que pode mudar a direo de seu im-                        novo vocbulo durante a discusso, pelo tem-
pulso instintivo {Das sogenannte Bse, 1963,                    po que ela dura (cf. OCKHAM, Summa log, III,
cap. XII).                                                      3, 38). A finalidade dessa adoo  tornar a lin-
                                                                guagem mais concisa, discutir uma coisa deso-
INSTRUMENTALISMO                                      571                                        INTELECTO


nhecida ou enganar o interlocutor ou permitir-               que pode assemelhar-se ao sensvel ou ser
lhe responder mais facilmente s objees. Neste             compreendido nele (InPorphirium, I, P. L, 64,
ltimo sentido  uma das obrigaes (v.).                    col. II). Essa distino, estabelecida porBocio,
    2. Na sociologia contempornea, esse termo               foi retomada por Hugo de So Vtor. O I.  o
 de uso freqente e foi empregado, p. ex., por              divino ou aquilo que de divino h no homem,
Durkheim como objeto especfico da sociolo-                  p. ex., a alma (Didascalion, II, 3, 4).
gia, definida precisamente como "cincias das                    INTELECTO (gr. voO; lat. Intellectus; in.
instituies" (Rglesdela mthode sociologique,              Understanding; fr. Intellgence, ai. Verstand; it.
2- ed., p. XXIII). 1 instituio por vezes foi              Intelletto). Este termo foi constantemente usado
entendida como um conjunto de normas que                     pelos filsofos com dois sentidos: ls genrico,
regulam a ao social (exatamente como faz                   como faculdade de pensar em geral e 2a espec-
Durkheim); outras vezes, em sentido mais ge-                fico, como uma atividade ou tcnica particular
ral, como "qualquer atitude suficientemente re-              de pensar. Com este segundo significado, esse
corrente num grupo social" (cf. ABBAGNANO,                   termo  entendido de trs maneiras diferentes:
Problemi di sociologia, 1959, IV, 2).                        d) como I. intuitivo; ti) como I. operante; c)
   INSTRUMENTAIISMO. V. PRAGMATISMO.                         como entendimento, inteligncia ou inteleco.
    INSTRUMENTO (in. Instrument; fr. Instru-                     l2 Plato e Aristteles definem em geral o I.
ment; ai. Werkzeug; it. Strument). Essa palavra             como faculdade de pensar. Plato de fato d o
foi ampliada por Dewey, designando todos os                  nome de I.  atividade que pensa (Sof, 248e-
meios capazes de obter um resultado em qual-                 249a) e, portanto, confere limites, ordem e
quer campo da atividade humana, prtico ou                   medida s coisas (Fil., 30c; Tim., 48a); denomi-
terico. Dewey diz: "Como termo geral, instru-               na pensamento (vT|CTi) o conjunto da cincia
mental significa a relao meios-resultados                  e da diania, ou seja, as atividades superiores
como categoria fundamental para a interpreta-                da alma contrapostas  conjectura e  crena,
o das formas lgicas, enquanto operacional                 reunidas sob o nome de opinio (Rep., VII,
exprime as condies graas s quais a mat-                 534a). Por sua vez, Aristteles declara entender
ria: 1Q se torna apta a servir como meio e 2-                por I. "aquilo graas a que a alma raciocina e
efetivamente funciona como meio para a trans-                compreende" (Dean., III, 4, 429a 23), significa-
formao objetiva, que  o objetivo da indaga-               do genrico que j fora dado por Parmnides
o" (Logic, I,  2, nota; trad. it., pp. 47-48).            (Fr. 16, Diels) e por Anaxgoras (Fr. 12, Diels).
    INTEGRAO (in. Integration; fr. Intgra-                 bvio que todos aqueles que, como Anax-
tion, ai. Integration; it. Integrazion). Este ter-         goras, Plato e Aristteles, atriburam ao I. a
mo tem significados diversos em diferentes ra-              funo de ordenar o universo no o entende-
mos dp saber. Em matemtica,  o processo                    ram como atividade ou tcnica especfica, mas
com o qual se determina o valor de uma gran-                 no significado mais genrico de atividade
deza como soma de partes infinitesimais toma-                pensante, capaz de escolher, coordenar e su-
das em nmero sempre crescente. Em biologia,                bordinar. Mesmo a contraposio -- to fre-
significa o grau de unidade ou de solidarie-                 qente nos antigos e j presente em sua forma
dade entre as vrias partes de um organismo,                extrema em Parmnides (Fr. 8, Diels) -- entre
ou seja, o grau de interdependncia dessas par-              I. e sentidos implica atribuir ao I. o significado
tes. Analogamente, em psicologia significa o                genrico de faculdade de pensar. Analoga-
grau de unidade ou de organizao da persona-               mente, a substancializao que o I. sofre no
 lidade; em sociologia, o grau de organizao                neoplatonismo  a da faculdade de pensar em
 de um grupo social.                                        geral, em todas as suas mltiplas formas (cf. p.
    Spencer, em Primeiros princpios (1862), via            ex., PLOTINO, Enn. III, 8, 9-10).
 na I. uma das caractersticas fundamentais da                   Esse significado genrico foi conservado na
 evoluo csmica enquanto passagem de um                   tradio filosfica at o Romantismo. S. Toms
 estado indiferenciado, amorfo e indistinto para            expressava-o contrapondo o I. aos sentidos: "O
 um estado diferenciado, formado e unificado                substantivo I. implica certo conhecimento nti-
 (First Principies,  94).                                  mo; intelligere  como 'ler dentro' (intus
    INTELECTVEL (lat. Intellectibilis). O que               leger). Isso  evidente a quem considera a di-
 no  sensvel e no tem relao com o que                ferena entre o I. e os sentidos: o conhecimen-
 sensvel; nisto,  diferente de inteligvel (v.),          to sensvel concerne s qualidades sensveis
INTELECTO                                             572                                         INTELECTO

externas; o conhecimento intelectivo penetra                ceito desses momentos" (Ibid., I, I, se. I, cap. 2,
at a essncia da coisa" (S. Th., II, 2, q. 8, a.           C, c, trad. it., I, p. 157). Dessa forma, "fixar"
1). Por outro lado, tem-se o mesmo significa-               "imobilizar", "determinar em absoluto" so as
do genrico quando esse termo  contraposto                 operaes que descrevem a atividade do I., em
 vontade, como acontece, p. ex., em Locke: "A              contraposio  razo, atividade autntica do
capacidade de pensar  que se denomina I., e                pensamento que elimina a fixidez e a rigidez
a capacidade de querer  o que se denomina                  das determinaes intelectuais, sendo capaz
vontade: duas capacidades ou disposies da                 de fluidific-las e relativiz-las. Essa contra-
alma s quais se d o nome de faculdade" (Ens.,             posio torna-se lugar-comum em grande parte
II, 6, 2). Leibniz, por sua vez, entendia por I. "a         da filosofia do sc. XIX: o I., portanto, desce de
percepo distinta unida  faculdade de refle-              sua posio de faculdade de pensar e passa
tir, que no existe na alma dos animais" (Nouv.             para a situao secundria ou subordinada de fa-
ess., II, 21, 5). Essa noo foi depois tomada              culdade de pensamento abstrato, ou seja, de
por Wolff (Psychol. emprica,  275). A defini-             falso pensamento. A persistncia desse lugar-
o de I. como "faculdade de pensar"  lugar                comum, sem qualquer justificao sria, pode
comum no sc. XVIII; Kant s faz repeti-lo:                 ser verificada pelo fato de que, no incio do
"I.  a faculdade de pensar o objeto da intui-              sc. XX, Bergson props (Evoluo criadora,
o sensvel" (Crit. R. Pura, Lgica, Intr., I)             1907) a crtica do I. considerado, segundo o
ou "o poder de conhecer em geral" (Antr, I,                 esquema hegeliano, faculdade que tem por
 6, 40).                                                   objeto especfico o que  imvel, inerte, rgido
    Mas de repente, com o Romantismo, o I.                  e morto, sendo, portanto, radicalmente inca-
deixa de ter valor de faculdade de conhecer em              paz de compreender o movimento e a vida.
geral e descobre-se a "imobilidade" do inte-                Dessa forma, substitua-se a contraposio
lecto. Essa descoberta  feita por Fichte: "O I.            hegeliana I.-razo pela contraposio I.-vida ou
 I. s quando alguma coisa est fixada nele; e             I.-conscincia, que inspirou e ainda hoje inspi-
tudo o que se fixa fixa-se apenas no intelecto.             ra algumas manifestaes da filosofia contem-
O I. pode ser definido como a imaginao fixa-              pornea. Todavia, mesmo fora dessas antteses
da pela razo, ou como a razo provida de                   estereotipadas, a noo do I. como faculdade
objetos da imaginao. O I.  uma faculdade                 de pensar em geral no est presente na filoso-
espiritual em repouso, inativa,  o puro recep-             fia contempornea, tendo sido substituda pela
tculo do que foi produzido pela imaginao e               noo de pensamento ou razo (v.).
que a razo determinou ou ainda est para de-                   2 O reconhecimento do significado genri-
terminar" (Wissenschaftslehre, Y19i, II, Dedu-              co de I. pode ocorrer ou no em conjunto com
o da representao, III, trad. it., p. 184). Mas          o reconhecimento de um significado especfi-
foi por meio de Hegel que acabou prevalecen-                co. Podem ser distinguidas trs interpretaes
do em filosofia a noo de I. "imvel", "rgido",           fundamentais da funo especfica do I.: a)
"abstrato": "Como I., o pensamento detm-se                 intuitiva; b) operante, c) de entendimento ou
na determinao rgida e na diferena entre ela             inteligncia.
e as outras; para o I., esse produto abstrato e li-             a) A noo de I. intuitivo foi elaborada por
mitado  autnomo e existente" (Ene,  80). O               Aristteles. Para ele, alm de ser geralmente a
I.  caracterizado pela imobilidade de suas de-             faculdade "graas  qual a alma raciocina e
terminaes: ele "determina e fixa suas deter-              compreende", o I.  tambm uma virtude
minaes" (Wissenschaft der Logik, Pref.  Ia               dianotica, ou seja, um hbito racional especfi-
edio, trad. it., p. 5). Essa imobilizao  um            co. Como tal,  a faculdade de intuir os princ-
 falseamento, como se v pela forma como o I.               pios das demonstraes, que no podem ser
 entende a relao entre infinito e finito, origi-          apreendidos pela cincia -- que  apenas um
 nando o "falso infinito". "O falseamento em                hbito demonstrativo -- nem pela arte e pela
 que o I. incorre em relao ao finito e o infini-          sabedoria, que dizem respeito "s coisas que
 to, que consiste em fixar como diversidade                 podem ser de outra forma", desprovidas de
 qualitativa a relao entre ambos, em afirmar,             necessidade (Et. nc, VI, 6,1140b 31 ss.). Alm
 ao determin-los, que so separados, e separa-             dessas "definies primeiras", o I. tambm tem
 dos em absoluto, tem como base o esqueci-                  a tarefa de intuir "os termos ltimos", ou
 mento daquilo que para o prprio I.  o con-               seja, os fins aos quais deve subordinar-se a
INTELECTO                                              573                                       INTELECTO

ao {Ibid., VI, 11, 1143b). Ao lado da cin-                para fazer utenslios, e de variar indefinida-
cia, o I. constitui a sabedoria, "que  ao mes-              mente sua fabricao" {vol. cratr., 1911, 8a
mo tempo cincia e intuio das coisas mais                  ed., p. 151). Portanto,  a soluo de um proble-
excelsas por natureza" {Ibid., VI, 7, 1151b 2),              ma que, numa outra linha evolutiva, levou ao
sendo por isso a mais alta realizao do ho-                 instinto entendido como faculdade de utilizar
mem.                                                         instrumentos organizados. Devido  sua funo
     Essa funo especfica do I., de intuir os              operante, a inteligncia tende a captar as rela-
princpios comuns do raciocnio, foi admitida                es entre as coisas, e no as prprias coisas;
por S. Toms (S. Th., I, q. 8, a. 1) e por muitos            portanto, sua forma, e no a sua matira; tem
outros escolsticos, ao lado da funo genrica              por objeto principal o slido inorgnico, im-
de "pensar". Kant, por sua vez, fazia a distino            vel, e  caracterizada por uma incompreenso
explcita entre I. no sentido genrico e I. como             natural do movimento e da vida {Ibid., p. 179).
faculdade especfica que est ao lado do juzo               Essa anlise de Bergson influenciou muito a
e da razo. Dizia: "A palavra I. tambm  enten-             filosofia contempornea, cujas correntes espi-
dida em sentido mais particular quando o I.                 ritualistas e idealistas utilizaram freqente-
subordinado, como membro de uma diviso,                     mente suas concluses para afirmar que "o I.
ao I. entendido em sentido mais geral, como                  abstrato" , quando muito, eficaz no domnio
faculdade superior de conhecer constituda por               da cincia, que tambm  conhecimento
I., juzo e razo" {Antr., I,  40). Nesse sentido           "abstrato", mas que pouco ou nada vale no
especfico, o I.  a faculdade de julgar, e o juzo          domnio da conscincia efetiva, que seria o fi-
que lhe compete  o juzo determinante, cujas                losfico. Mas tambm fora do mbito dessas
leis constituem o objeto natural em geral (mais              intenes denegridoras que envolvem o I. e a
precisamente, a forma de tal objeto). Essas leis             cincia, a funo operante do I., graas  qual
so "prescritas apriori" ao I., ou seja, dadas em            ele  a capacidade de enfrentar com sucesso as
seu funcionamento (Crt. R. Pura, Analtica                  situaes biolgicas, sociais, etc. nas quais o
dos conceitos, se. I; Crt. do Juzo, Intr.,  IV).         homem se encontre, acabou caracterizando
Nesse sentido especfico, como faculdade de                  o prprio I., sendo, portanto, difcil ver nele,
julgar, o I. no  intuitivo no sentido de estar             hoje, um rgo de funes puramente tericas.
em relao direta com o objeto; alis,  uma                 O pragmatismo certamente contribuiu para a
relao mediata com o objeto porque, enquan-                 formao deste ponto de vista, que se tornou
to juzo sobre uma representao, , segundo a               lugar-comum da filosofia contempornea.
expresso de Kant, "a representao de uma                       c) No terceiro significado especfico de I.,
representao". Mas  intuitivo no mesmo sen-                ele significa entendimento, sendo mais apro-
tido em que  intuitivo o I. especfico de Aris-             priadas, alm de "entendimento", as palavras
tteles: est em relao imediata com leis ou                inteligncia e inteleco (em italiano, intelli-
princpios fundamentais que entram na consti-                genza; em francs, entendement; em alemo,
tuio e na organizao da cincia e da estru-                Verstehen). Essa acepo do termo, por sua
tura de seus objetos. A diferena entre o ponto              vez, pode ser articulada em dois significados:
de vista de Aristteles e o de Kant  que, para                  et) Um significado comum e genrico, em
Aristteles, o I. tem a funo de formular os                que "entender" significa apreender o significa-
princpios primeiros utilizados pela cincia                 do de um smbolo, a fora de um argumento,
demonstrativa e de perceber a evidncia deles;               o valor de uma ao, etc. Em todos estes casos,
para Kant, ao cumprir a funo de julgar, o I.               a palavra exprime a possibilidade de efetuar
pe em funcionamento os princpios que o                     corretamente determinada operao. P. ex., o
constituem, mesmo sem necessidade de for-                    entendimento de um signo consiste na possibi-
mul-los explicitamente. Essas duas alternativas             lidade de estabelecer corretamente (com base
so as nicas historicamente presentes na                    no uso ou em regras devidas) a referncia en-
 interpretao do I. como faculdade intuitiva                tre o sinal e seu referente. O entendimento de
 especfica.                                                 um argumento consiste na possibilidade de
   ti) A concepo operante do I. foi apresentada            interligar suas partes de tal forma que o argu-
por Bergson, que a enxertou no conceito ro-                  mento se torne probante, etc. Nestes casos, h
mntico do I. entendido como faculdade de                    tanta diversidade entre os vrios significados
imobilizar. Deste ponto de vista, o I.  "a facul-           de entendimento quanto entre os objetos e as
dade de fabricar objetos artificiais, em especial            situaes s quais se faz referncia. Em geral,
INTELECTO ATIVO                                          574                                INTELECTO ATIVO


tudo o que pode ser dito desse ponto  que o                   dncia da atividade intelectual humana em re-
entendimento designa certa capacidade de                       lao aos sentidos. Reaparece com freqncia
inserir-se no contexto de tais situaes e de                  na histria da filosofia.  retomada pelo neo-
orientar-se nele.                                              platonismo rabe, com Al Kindi (sc. IX), Al
    P) Um significado mais restrito e especfico,              Farabi (sc. IX) e Avicena (sc. XI); este ltimo,
no qual entendimento significa a compreenso                   todavia, no achava que essa soluo contra-
de certo tipo de objetos, como p. ex. de um ho-                riasse a imortalidade da alma, pois admitia que
mem ou de uma situao histrica. Para tal                     a dependncia da alma em relao ao I. ativo,
significado do termo, v. COMPREENDER.                          logo em relao a Deus, se mantivesse mesmo
    INTELECTO ATIVO (gr. voTtouiTtx; lat.                  depois da separao entre alma e corpo, bas-
Intellectus agens; in. Active intellect; fr. Intellect         tando isso para conferir a imortalidade  alma
actif\. ActiveIntellekt; it. Intellettoattiv). No-           (De an., 10). Essa doutrina tambm era aceita
o de origem aristotlica que deu lugar a um                  por Ib Bagia (sc. XII), Moiss Ben Maimon
problema longamente debatido pelos anti-                       (Maimnides, sc. XII), o mais famoso dos fil-
gos comentadores de Aristteles, pela escolsti-               sofos judaicos da Idade Mdia (Cuide des
ca rabe, pela escolstica crist e pelo aristote-             gars, I, 50-52) e por Roger Bacon (Opus
lismo renascentista. O problema nasce da dis-                  maius, ed. Bridges, p. 143). No Renascimento,
tino feita entre I. potencial e I. atual. "Assim             essa soluo foi defendida por Pietro Pompo-
como, em toda a natureza" -- diz Aristteles --,               nazzi, que insistia nas condies sensveis do
"existe alguma coisa que serve de matria a                    funcionamento do I. humano e considerava
cada gnero e alguma coisa que  causalida-                    impossvel a demonstrao da imortalidade (De
de e atividade, tambm na alma deve neces-                     immortalitate animae, 9).
sariamente haver estas duas coisas diferentes.                     2- A separao entre I. ativo e I. passivo na
De fato, de um lado est o I. que tem a poten-                 alma humana. Esta foi a soluo proposta por
cialidade de ser todos os objetos e do outro                   Averris. O I. material ou lco, que os defenso-
lado est o I. que os produz, que se comporta                  res da soluo anterior atribuam ao homem,
como a luz: esta tambm permite que passem                     tambm  considerado por Averris separado
ao ato as cores que esto apenas em potncia.                  da alma humana. Na alma humana, o I. mate-
Esse I.  isolado, impassvel e sem mescla, pois               rial nada mais  que uma simples disposio
sua substncia  a prpria ao" (Dean., III, 5,               transmitida pelo I. ativo, e mais exatamente uma
430 a 10). Aristteles acrescenta que s este I.               disposio a abstrair conceitos e verdades uni-
atual e ativo  "imortal e eterno". Donde o pro-               versais de imagens sensveis. Portanto, ao ho-
blema: ele pertenceria  alma humana ou, gra-                  mem s resta o I. adquirido, que Averris de-
as  sua incorruptibilidade, faria parte da eter-             nomina tambm especulativo e que consiste no
nidade e da atualidade perfeita, da divindade?                 conhecimento das verdades universais (Dean.,
Foram trs as principais solues para esse pro-               foi. l65a). Essa doutrina  tpica do averrosmo
blema:                                                         medieval: foi defendida por Siger de Brabante
     Ia Separao entre I. ativo e alma humana.                (sc. XIII) na obra De anima intellectva (edi-
Esta  a soluo defendida na Antigidade pelo                 tado em Mandonnet, Siger de Brabant etVaver-
comentador de Aristteles, Alexandre de Afro-                  roisme latin au XIII" scle, II, Lovaina, 1908).
dsia (sc. II), que identificou o I. ativo com a              Essa soluo teve numerosos seguidores no
causa primeira, com Deus. Assim, pertenceriam                  aristotelismo do Renascimento (cf. BRUNO NAR-
 alma humana: d) I. fsico ou material (lic),               DI, Sigieri di Brabante nelpensiero dei Rinas-
que  o I. potencial, semelhante ao homem                      cimento italiano, 1945).
que  capaz de aprender uma arte mas que                           3a Unidade do I. ativo e passivo com a alma
ainda no a domina; b) I. adquirido (7iiK-                    humana. Esta tese foi sustentada no sc. IV
XT\XVI, adeptus), que  o aperfeioamento ou                 pelo comentador de Aristteles Temsio (De
 a completitude do anterior, o conjunto das ha-                an., 103, 6; trad. it. p. 233), em polmica com
 bilidades prprias no homem educado, seme-                    Alexandre, e mais tarde (sc. IV) pelo outro
 lhante ao artista que chegou a dominar sua arte               comentador Simplcio, tambm neoplatnico.
 (Dean., I, ed. Bruns., p. 138-39). Essa soluo,              Foi retomada no sc. XIII, durante a polmica
 negando  alma humana o nico I. imortal e                    contra o averrosmo que se deu na escolstica
 eterno que  o ativo, por um lado nega a imor-                latina daquele tempo. Alberto Magno e S. To-
 talidade da alma e por outro acentua a depen-                 ms opem-se  separao entre I. de alma,
INTELECTUALISMO                                         575                                              INTENO


defendida por Averris e Alexandre. Admitem                   intuicionismo bergsoniano, pela filosofia da
que, acima da alma humana, est o I. separado                 ao, pelo modernismo, pelo pragmatismo, ou
de Deus, mas acham que o homem participa                      seja, por todas as filosofias que tendem a de-
desse I. e que o I. ativo faz parte da sua alma               preciar o valor do intelecto como via de acesso
como uma luz acesa pelo I. divino (ALBERTO,                    verdade e como guia da conduta e a julgar
De intellectu et intelligibili, II, 1-2; S. TOMS, 5.         muito mais importante a intuio, a simpatia,
 Th., I, q. 79, a. 4). Provavelmente foi contra               o instinto, a vida, a vontade, etc. Por vezes
uma obra de Siger que S. Toms escreveu De                    esse termo foi contraposto a voluntarismo
unitate intellectus contra Averrostas, cuja res-             (v.) para indicar a primazia atribuda ao inte-
posta se encontra em De anima intellectiva, de                lecto sobre a vontade; nesse sentido, tam-
Siger. A principal objeo de S. Toms  que,                 bm foi empregado com a finalidade de carac-
se o I. fosse uma substncia separada, quem                   terizar historicamente certos pontos de vista.
entenderia no seria o homem, mas essa subs-                  Assim, falou-se do I. de S. Toms e do volun-
tncia, ao que Siger responde que o I. no age                tarismo de Duns Scot, aludindo ao peso dife-
no homem como um motor, mas operans in                        rente que nesses filsofos tm as duas ativida-
operando, eu seja, como princpio diretivo de                 des humanas fundamentais. Trata-se, porm, de
sua atividade. No Renascimento, foi sobretudo                 significados e caracterizaes pouco precisos.
Marslio Ficino quem defendeu a unidade do                        INTELIGVEL (gr. vorit; lat. Intelligibilis;
I, com a alma humana (Tbeologia platnica,                    in. Intelligible, fr. Intelligible, ai. Intelligibel; it.
XV, 14).                                                      Intelligibil). Em geral, o objeto do intelecto.
     O problema do I. ativo  especfico do                   Aristteles dissera: "todos os entes so sens-
aristotelismo e no tem sentido fora dele. Por-               veis ou I." (De an., III, 8, 431b 21). O I.  o ob-
tanto, deixa de ser debatido quando o aris-                   jeto do intelecto assim como o sensvel  o
totelismo deixa de determinar os rumos gerais                 objeto dos sentidos. Essa simetria  mantida
da filosofia. J entre o fim do sc. XIII e o incio          por todos os filsofos que admitem a distino
do sc. XIV existem filsofos que negam expli-                entre sensibilidade e intelecto. Plato denomi-
citamente o I. ativo e evitam, portanto, propor-              nou I. a esfera do conhecimento que com-
se esse problema. Durand de S. Pourain diz                   preende a diania e a cincia, distinta da es-
que, assim como no se supe um "sentido                      fera da opinio, que compreende a conjectura
ativo",  intil supor um I. ativo (In Sent., I, d.           e a crena (Rep., VII, 534a). Para o neoplatonis-
3, q. 5 26), e Ockham afirma que a funo de                  mo, o mundo I. compreende as trs primeiras
abstrair, atribuda ao I. ativo, desenrola-se na-             hipstases: o Uno, o Intelecto e a Alma do
turaliter, como efeito das noes sensveis e                 Mundo (PLOTINO, Enn., II, 9, 1). Para Kant, o
no exige o I. ativo, cuja noo, portanto, s                mundo I.  o mundo de que o homem faz par-
tem"apoio na autoridade de santos e filsofos                 te como "atividade pura", ou seja, no sendo
(In Sent., II, q. 25). Esse ponto de vista prevale-           influenciado pela sensibilidade, mas agindo
ceu desde os primrdios da filosofia moderna,                 com base na espontaneidade da razo. "Por
que abandona completamente essa questo.                      um lado" -- diz Kant --, "o homem, por per-
     INTELECTUALISMO (in. Intellectualism- fr.                tencer ao mundo sensvel, est submetido s
Intellectualisme, ai. Intellektualismus; it. Inte-            leis da natureza; por outro, por pertencer ao
llettualism). Com este termo Hegel designava                 mundo I., est submetido s leis que no de-
a filosofia de Plotino, interpretando o xtase                pendem da natureza, portanto no empricas,
como ato de sair da conscincia sensvel e                    mas fundadas unicamente na razo" (Grundle-
"puro pensar". "A idia da filosofia plotiniana"              gung zurMetaphysik der Sitten, III). Nesse sen-
-- dizia ele -- " portanto um I. ou um idealis-              tido, o mundo I.  o mundo moral.
mo superior que, certamente do lado do con-                       Em sentido mais especfico, diz-se que  I. o
ceito, no  ainda idealismo perfeito" (Ges-                  que pode ser entendido ou compreendido, em
 chichte derPhosophie, I, se. III, Plotino; trad.           correspondncia com os significados 2a, c, de
it., p. 41). Esse termo agora  usado pelas filo-             Intelecto (v.).
sofias da vida e da ao para tachar a corrente                   INTENO (lat. Intentio; in. Intention; fr.
contrria, para a qual o intelecto (ou pensa-                 Intention; ai. Gesinnung; it. Intenzion). Pro-
mento ou razo) tem funo dominante na                       priamente, a intencionalidade no domnio pr-
conscincia e na conduta do homem. Esse ter-                  tico, ou seja, a referncia de uma atividade
mo foi freqentemente empregado pelo                          prtica (desejo, aspirao, vontade) ao seu pr-
INTENO                                              576                             INTENCIONALIDADE

prio objeto. Nesse significado, a intenciona-               pios ticos. Mas esses princpios esto em
lidade do ato moral pode ser reconhecida por                eterno conflito, o que no pode ser resolvido
qualquer doutrina moral. Todavia, a insistncia             s por meio da tica" ("Der Sinn der Wert-
no valor da I. como condio da moral  uma                 freiheit der soziologischen und konomischen
das caractersticas da tica do fim, distinta da            Wissenschaften", 1917; trad. in., em The Me-
tica do mbil (v. TICA). Na tica do mbil, a             thodology of the Social Sciences, p. 16). A tica
moralidade da ao  julgada em termos de efi-              moderna e contempornea, por ser predomi-
cincia em produzir o bem-estar, a felicidade,              nantemente uma tica do mbil (v. TICA) d
etc. Na tica do fim, entretanto, a ao                   primazia quilo que Weber denominou segun-
julgada em termos da direo que o sujeito                  do postulado. Por outro lado, o ceticismo to
imprime  ao, que  exatamente a inteno.                difundido na filosofia contempornea, quanto
A esse respeito, S. Toms diz com justia que "a             possibilidade de conhecer com probabilidade
I.  o nome do ato da vontade, estando pres-                suficiente o que acontece no mago da cons-
suposto o ordenamento da razo, que orde-                   cincia individual, levou o behaviorismo a con-
na alguma coisa para um fim";  que "a I. per-              siderar a I. como operao (ou como parte de
tence primordial e principalmente quilo que                uma operao) que constitui a execuo de um
se move para um fim", sendo por isso "o ato da              plano ou projeto de conduta. Nesse caso, a fra-
vontade" (S. Th., II, 1, q. 12, a. 1). Nesse senti-         se "tenho a inteno de ver Joo" significa sim-
do, a I.  prpria da tica do fim. Portanto, sua           plesmente que estou empenhado na execuo
noo no se encontra na tica aristotlica, em             de um plano de que faz parte encontrar com
que a anlise do ato moral  feita com base na              Joo (MILLER, GALANTER, PRIBBAN, Plans and
tica do mbil; no se encontra nenhuma tica               the Structure of Behavior, 1960, p. 6l).
do mesmo gnero, como p. ex. o utilitarismo.                    INTENCIONAIJDADE (lat. Intentionalitas;
Por outro lado, a moral teolgica tende a insis-            in. Intentionality, fr. Intentionnalit, ai. Inten-
tir no valor da inteno. Abelardo dizia: "Deus             tionalitt; it. Intenzionalit). Referncia de
no toma em considerao as coisas feitas, mas              qualquer ato humano a um objeto diferente
o esprito com que so feitas, e o mrito e o va-           dele: p. ex., de uma idia ou representao 
lor de quem age no consiste na ao, mas na                coisa pensada ou representada, de um ato de
I." (Scito te ipsum, 3). A prpria moral kantiana,          vontade ou de amor  coisa querida ou amada,
sobretudo em seus aspectos de pregao leiga                etc. Essa noo foi inicialmente empregada
e edificante, insiste muito no valor da I.: a               com relao  atividade prtica, donde o signi-
exaltao da "boa vontade" com a qual se inicia             ficado, ainda hoje predominante, da palavra
a Fundamentao da metafsica dos costumes                   inteno (v.) que designa exatamente a refe-
na realidade  uma exaltao da inteno. E a               rncia da atividade prtica ao seu objeto. O
primeira parte da Crtica da Razo Prtica                  neoplatonismo rabe estendeu pela primeira
conclui-se com a exaltao da "I. realmente                 vez seu sentido, para designar a relao entre o
moral e consagrada  lei". Ao contrrio, a dife-            conhecimento e seu objeto, chamando os con-
rena entre a tica da I. e a tica objetiva foi            ceitos de intenes. Ao determinar a diferena
bem expressa por Max Weber: "Na esfera da                   entre a lgica e as cincias reais, Avicena afir-
conduta pessoal existem problemas ticos                    mou que, enquanto estas ltimas tm por ob-
especficos que a tica no pode resolver com               jeto as primeiras intenes (intensionesprimo
base em seus prprios pressupostos. Antes de                intellecta), ou seja, conceitos que se referem
mais nada h a questo fundamental de saber                 a coisas reais, a lgica tem por objeto as segun-
se: a) o valor intrnseco da conduta tica -- a             das intenes {intensionessecundo intellecta),
 'vontade pura' ou a 'I.', como se costuma deno-            ou seja, conceitos que se referem a outros con-
 minar -- basta para a sua justificao, segundo            ceitos (Met., I, 2). Alberto Magno reproduziu
 a mxima crist: 'o cristo age bem e deixa por            esta distino {In Met., I, 1, 1), que se tornaria
 conta de Deus as conseqncias de sua ao'                familiar aos filsofos do sc. XIII. S. Toms, por
 ou b) a responsabilidade das conseqncias                 sua vez, considerava a inteno como "a seme-
 previsveis da ao deve ser tomada em consi-              lhana da coisa pensada" (Contra Gent., IV,
 derao. Toda atitude politicamente revolucio-             11), distinguindo-a por vezes da espcie inte-
 nria, em especial o sindicalismo revolucion-             ligvel pela sua indiferena  ausncia ou 
 rio, partem do primeiro postulado; toda poltica           presena do objeto e pelo fato de abstrair das
 realista, do segundo. Ambas invocam princ-                condies materiais sem as quais esta ltima no
INTENCIONALIDADE                                       577                          INTENSO e EXTENSO

existe na natureza {Ibid., I, 53), e outras vezes            afirme ou negue o objeto. Husserl inspirou-se
identificando-a com a espcie inteligvel (S.                nessas idias de Brentano ao assumir a noo
Th., I, q. 85, a. 1, ad 4a). Mas o conceito de I. s         de I. no mais como caracterstica dos fenme-
ganhou destaque quando, entre o fim do sc.                  nos psquicos entendidos como um grupo de
XIII e o comeo do sc. XIV, comeou-se a du-                fenmenos que coexistam com outros fenme-
vidar da doutrina da espcie(v.) como interme-               mos chamados fsicos, mas como a definio
diria do conhecimento e deixou-se de ver no                 da prpria relao entre o sujeito e o objeto da
ato cognitivo uma "semelhana", uma cpia ou                 conscincia em geral. Husserl diz a este prop-
imagem da coisa. Durand de S. Pourain afir-                 sito: "A caracterstica das vivncias {Erlebnisse),
mava que  o prprio objeto, e no a espcie,                que pode ser indicada como o tema geral da
que se apresenta ao sentido e ao intelecto {In               fenomenologia orientada objetivamente,  a
Sent., II, d. 3, q. 6, n. 10) e Pedro Aurolo                intencionalidade. Representa uma caracterstica
observava, a respeito* que, se a espcie fosse o             essencial da esfera das vivncias, porquanto to-
objeto do conhecimento, este no diria respeito              das as experincias, de uma forma ou de outra,
 realidade, mas apenas  imagem dela. Auro-                tm intencionalidade... A I.  aquilo que carac-
lo, portanto, julgava que o objeto do conheci-               teriza a conscincia em sentido pregnante, per-
mento era a coisa em seu ser intencional ou                  mitindo indicar a corrente da vivncia como
objetivo, ou seja, assumida como termo da I.                 corrente de conscincia e como unidade de
do conhecimento {Ibid., I, d. 23, a. 2). O esse              conscincia" {Ideen, I,  84). Posteriormente, o
intentionale ou esse apparens, como tambm                   prprio Husserl falou de "intencionalidade
o denominava Aurolo,  a manifestao da                    atuante", no sentido de que a vivncia no se
coisa  I. cognoscitiva da mente {Ibid., I, d. 9,            refere somente ao seu objeto, mas tambm a si
a. 1). Para Ockham, isso se afigurava como um                mesma e  por isso cincia de si (v. ATUANTE).
anteparo intil entre o intelecto e a coisa {Ibid.,          Seja como for, no mbito da fenomenologia a
I, d. 27, q. 3 CC). Para ele, o ato cognitivo  uma          I. era assumida como caracterstica fundamen-
intentio, no sentido de referir-se diretamente              tal da conscincia, e como tal ficou em boa
coisa significada. Como inteno, o conceito                 parte na filosofia contempornea, especialmen-
no passa de signo que est no lugar de uma                  te na fenomenologia e no existencialismo (v.
classe de objetos, qualquer um dos quais pode                CONSCINCIA). O conceito de transcendncia
substituir o conceito nos juzos e raciocnios em            (v.), mediante o qual Heidegger definiu a rela-
que aparece {Ibid., I, d. 23, q. 1, D; Quodl, IV,            o entre o homem e o mundo, outra coisa no
q. 35; Summa log., I, 12).                                    seno uma generalizao da intencionalida-
    AL, como referncia ao objeto, fora assim                de. Heidegger diz: "Se considerarmos qualquer
reduzida pela escolstica medieval  referncia              relao com o ente como intencional, ento a
do signo ao seu designato, e por muito tempo                 I.  possvel apenas com base na transcen-
deixa de ser utilizada como noo autnoma.                  dncia, mas  preciso atentar: I. e transcendn-
Foi s no sc. XIX que Brentano redescobriu                  cia no se' identificam e esta no se funda
essa noo para torn-la como caracterstica                 naquela" {Vom Wesen des Grandes, I; trad. it.,
dos fenmenos psquicos {Psichologe vom                     p. 24).
empirischen Standpunkt, 1874). Estes podem                      INTENSO e EXTENSO (in. Intension and
ser classificados, segundo as caractersticas de             extension; fr. Intension et extension; ai. Sinn
sua I., de sua referncia ao objeto, em repre-               und Bedeutung; it. Intensione e estensione).
sentao (o objeto est simplesmente presente),              Este par de termos foi introduzido por Leibniz,
em juzo ( afirmado ou negado), em senti-                   para expressar a distino que a Lgica de
mento ( amado ou odiado). Esses trs atos se                Port-Royal expressara com o par compreenso-
referem a um "objeto imanente" e so atos                    extenso (v.) e a lgica de Stuart Mill expressa-
intencionais, mas sua I., ou seja, sua referncia            ra com o par conotao-denotao (v.). Leibniz
ao objeto,  diferente para cada um deles. Ini-              diz: "Animal compreende mais indivduos que
cialmente Brentano julgou que o objeto da I.                 homem, mas homem compreende mais idias
pudesse ser indiferentemente real ou irreal; de-             e mais formas; um tem mais exemplos, o outro
pois, em Klassification derpsychischen Phno-                mais graus de realidade; um tem mais exten-
 mene{Y)\X), afirmou que o objeto da I.  sem-               so, o outro tem mais I." {Nouv. ess., IV, 17,  9).
pre real e que a referncia a um objeto irreal              O emprego destes dois termos foi adotado por
indireta, ocorrendo atravs de um sujeito que                Hamilton: "A quantidade interna de uma no-
INTENSAO e EXTENSO                                 578                                         INTERESSE

o, sua I. ou compreenso,  constituda por               INTERAO. V. AO RECPROCA; TRANSA-
diferentes atributos cuja soma  o conceito, no           O.
sentido de que este rene os vrios caracteres               INTERESSANTE (in. Lnteresting; fr. Int-
conexos num todo pensado. A quantidade                    ressant; ai. Lnteressant; it. Interessante).
externa de uma noo, ou a sua extenso,                 Kierkegaard frisou a importncia desse concei-
constituda pelo nmero de objetos que so                to, que ele considerou "uma categoria situada
pensados mediatamente atravs do conceito"                no limite entre a esttica e a tica, portanto a
(Lectures on Logic, 2a ed., 1866, 1, p. 142). O           categoria do ponto crtico". Scrates foi, p. ex.,
uso desses dois^termos ainda prevalece na                 o mais I. dos homens que j viveram e sua
lgica contempornea, que os associou  dis-              vida foi a mais I. das vidas vividas. Mas aquela
tino estabelecida por Frege entre sentido e             existncia foi-lhe destinada pela divindade e,
significado. Frege disse: "Ao pensarmos num               na medida em que precisou conquist-la por
signo, deveremos ligar a ele duas coisas dis-             si, precisou conhecer dificuldades e dores (Furcht
tintas: no s o objeto designado, que ser               und Zittern, em Werke, III, 131).
denominado significado daquele signo, mas                     INTERESSE (in. Interest; fr. Intrt; ai. Inte-
tambm o sentidoo signo, que denota a maneira            resse, it. Interesse). Participao pessoal numa
como esse objeto nos  dado" ("ber Sinn und              situao qualquer e a dependncia que dela re-
Bedeutung", 1892,  1, trad. it., em Aritmtica           sulta para a pessoa interessada. Trata-se de um
e lgica, p. 218). Obviamente, o objeto  a               conceito moderno que Kant utiliza no domnio
extenso; o sentido  a intenso. Essa distino          da esttica, com a finalidade de afirmar o car-
 repetida ou pressuposta por quase toda a                ter "desinteressado" do prazer esttico: "Cha-
lgica contempornea.                                     ma-se de I. o prazer que associamos  repre-
    A I. de um termo  definida por Lewis como            sentao da existncia de um objeto. Esse
"a conjuno de todos os outros termos, cada              prazer tem sempre relao com a faculdade de
um dos quais deve ser aplicvel quilo a que o            desejar, seja como causa determinante dele,
termo  corretamente aplicvel". Nesse sentido,           seja como necessariamente atinente a tal causa.
a I. (ou conotao)  delimitada por toda defi-           Mas quando se trata de julgar se uma coisa 
nio correta do termo e representa a inteno            bela, no queremos saber se sua existncia
de quem o emprega, por isso o significado                 importa ou pode vir a importar para ns ou
primeiro de "significado". A extenso ou deno-            para qualquer pessoa; s queremos saber
tao de um termo, porm,  a classe das coisas           como julg-la ao contempl-la" (Crt. do Juzo,
reais s quais o termo se aplica (LEWIS, Analysis          2). Hegel, por sua vez, ao definir o I. como
of Knowledge and Valuation, 1950, p. 39-41).              "o momento da individualidade subjetiva e de
As mesmas determinaes so feitas por Qui-               sua atividade", entendia com isso a presena
ne: a I.  o- significado; a extenso  a classe          do sujeito na ao {Ene,  475). A noo de I.
das entidades s quais o termo pode ser                   foi utilizada sobretudo em pedagogia, como
atribudo com verdade (From a Logical Point               participao do educando no saber, graas 
ofView, II, 1).                                           qual o saber se lhe afigura til. Essa foi uma das
    Analogamente so usados os adjetivos in-              regras propostas para a educao em Emlio
tensional e extensional. este ltimo  aplicado           de Rousseau. Mas foi Herbart quem utilizou
a pontos de vista que tomam em considerao               sistematicamente a noo de I., indicando como
a denotao das proposies, sem levar em                 fim da educao a plurilateralidade dos inte-
conta, sempre que possvel, seus significados             resses. Segundo Herbart, o I. est no meio, entre
intensionais. Por outro lado, o adjetivo inten-           ser espectador dos fatos e neles intervir; em
sional, sobretudo se aplicado ao clculo das              outros termos,  uma participao ainda no
proposies ou das funes proposicionais(v.),            totalmente ativa ou engajada. O I. tambm se
significa que se toma em considerao a moda-             distingue do desejo porque, enquanto o objeto
lidade das proposies, que no so levadas               deste ltimo ainda no existe, o objeto do I. j
 em conta pela considerao extensional, que              est presente e real (AllgemeinePdagogik, 1873,
 se limita a examinar as funes de verdade das           II, 1, 2,  3). Dos pedagogos contemporneos
 prprias proposies (CARNAP, Logical Syntax             foi Dewey quem mais insistiu na valor do L,
 ofhmguage,  67; RUSSELL, Inquiry into Meaning           definindo-o como "o acompanhamento da
and Truth, 1940, cap. 19) (v. ESTENSIONALIDADE,
                                                          identificao, atravs da ao, do eu com algum
TESE DA).
                                                          objeto ou idia, atravs da necessidade de tal
INTERFENMENO                                          579                                 INTERPRETAO

objeto ou idia para a manuteno da auto-                   mais como sujeito ativo dessa referncia a alma
expresso" (Educational Essays, ed. por J. J.                ou o intelecto {De interpr., 1, 16a, 1 ss.).
Findlay, p. 89)- Desse ponto de vista, o esforo,                Bocio, graas a quem essa doutrina pas-
que, em pedagogia, s vezes se costuma con-                  sou para a Escolstica latina, entendia por I.
trapor ao I., implica uma separao entre o eu               "qualquer termo que significa alguma coisa
e o objeto que deve se aprendido ou domina-                  por si mesmo", incluindo entre as I. os subs-
do. Segundo Dewey, os caracteres do I. so a                 tantivos, os verbos e as proposies, e ex-
atividade, a projetividade e a propukividade.                cluindo as conjunes, as preposies e em
Pelo primeiro, o I.  dinmico, impele  ao. Pe-           geral os termos gramaticais que no signifi-
lo segundo, o I. tem objetivo fora de si, em                 cam nada por si mesmos. Para ele, refern-
algum objeto ou finalidade  qual se apega.                  cia do signo ao que ele designa era o essen-
Pelo terceiro, I. significa realizao interna ou            cial da interpretao (In librum de interpr.
sentimento de valor (Jbid., pp. 90-91). Essa                 editioprima, I, em P. L, 64, col. 295).
concepo do I., que  um dos pontos focais da                   Nesta concepo, a I.  a referncia dos sig-
pedagogia de Dewey, exerceu forte influncia                 nos verbais aos conceitos (as "afeies da men-
sobre a teoria e a prtica da educao em todos              te") e dos conceitos s coisas. As caractersticas
os pases do Ocidente.                                       dessa doutrina podem ser assim fixadas: \- a I.
     INTERFENMENO (in. Interphenomenor).                    um evento que acontece "na alma", um even-
Termo criado por H. Reichenbach para indicar                 to mental; 2a o signo verbal ou escrito  dife-
os eventos subatmicos no observveis, ou                   rente da afeio da mente ou do conceito e se
                                                             refere a este; 3a a relao entre signo verbal e
seja, no imediatamente inferveis pela obser-
                                                             conceito  arbitrria e convencional, ao passo
vao, como p. ex. o movimento de um eltron                 que a relao entre o conceito e o objeto 
ou de um raio luminoso da fonte at o encon-                 universal e necessria.
tro com outra matria. "Eventos dessa esp-
cie so apresentados por meio de cadeias de                      Esses princpios permaneceram inalterados
inferncias de tipo muito mais complicado. So               por longo tempo. Apesar do desenvolvimen-
                                                             to ocorrido na teoria dos signos graas  l-
construdos na forma de interpolao dentro
                                                             gica estica, medieval e moderna, a doutrina
do mundo dos fenmenos, e na mecnica                        da I. continuou considerando por muito tempo
quntica a distino entre fenmenos e I.                   que o processo interpretativo tinha sede na
anloga  distino entre coisas observadas e                alma ou na mente, que era um processo men-
no observadas" (Philosophic Foundations of                  tal. Foi s na filosofia contempornea que
Quantum Mechanics, I, 6).                                    se props outra alternativa, qual seja, de h-
     INTERIORIDADE. V. EXTERIORIDADE.                        bito ou comportamento. Conquanto no fal-
     INTERMUNDOS (gr. |4,TaKo|Ata; lat. Inter-             te hoje quem considere a I. um processo men-
mundid). Espaos entre os mundos, onde,                      tal (C. K. ODGEN-I. A. RICHARDS, The Meaning
segundo Epicuro, habitam os deuses (DIG. L,                 of Meaning, 1952 [l ed., 19231, p. 57; Du-
X, 89; CCERO, De divin., II, 17, 40; De nat.                CASSE, em Journal ofSymbolic Logic, 1939, n. 4),
deor., 16-19).                                               a semitica americana apresentou outra dou-
     INTERPRETAO (gr. punvea; lat. Inter-                trina fundamental da I., que toma como base o
pretatio; in. Interpretation, fr. Interprtation;            comportamento. Os pressupostos dessa doutrina
ai. Interpretation, Auslegung; it. Interpretazon).         so encontrados na obra de Peirce, que enten-
Em geral, possibilidade de referncia de um                  deu a I. como um processo tridico que se d
signo ao que ela designa, ou tambm a opera-                 entre um signo, seu objeto e seu interpretante,
o atravs da qual um sujeito (intrprete)                  constituindo este ltimo a relao entre o pri-
estabelece a referncia de um signo ao seu                   meiro e o segundo termo (Coll. Pap., 5.484).
objeto (designado). Aristteles denominou                    Conquanto em Peirce restem ainda muitos pres-
I. o livro em que estudou a relao entre os                 supostos da antiga doutrina, ele no entendeu
signos lingsticos e os pensamentos e entre                 a I. como um ato simplesmente mental, mas
os pensamentos e as coisas. Ele de fato con-                 como um hbito de ao, como a resposta ha-
siderava as palavras como "sinais das afei-                  bitual e constante que o intrprete d ao signo
es da alma, que so as mesmas para to-                     (Jbid., 5.475 ss.). Esse  o ponto de vista de
dos e constituem as imagens dos objetos que                  Morris, que prevalece na semitica contem-
 so idnticos para todos", considerando ade-                pornea (Foundations of a Theory of Signs,
INTERPRETAO                                          580                                   INTROSPECO

1938; Signs, Language and Behavior, 1946).                      ENTERPRETANTE e INTRPRETE (in Inter-
Desse ponto de vista, a I. tem as seguintes                  pretam, Interpreter). Na semitica contempor-
caractersticas: le no  (ou no  apenas) um               nea, os dois termos significam respectivamen-
hbito mental, mas um comportamentoiy.), uma                 te: a disposio em responder a um signo e
resposta objetivamente observvel e constante                aquele (em geral o organismo) que emprega o
de um organismo a um estmulo; 2S no existe                 signo ou se expressa com ele (MORRIS, Foun-
diferena entre sinais mentais e sinais verbais,             dations ofa Theory of Signs,  3) (v. SEMITICA).
no sentido de os primeiros serem suscetveis                    INTERROGAO MLTIPLA (gr x x
de I. necessria e os outros no; 3S a referncia            nkw pomnaxa ev novev; noXx)C,r\xi\ai; lat.
dos signos aos seus objetos no  nem neces-                 Plurium interrogationum fallacia; ai. Hetero-
sria nem arbitrria, mas determinada pelo uso               zetesis). Uma das falcias extra dictionem enu-
(nas linguagens comuns) ou por convenes                    meradas por Aristteles, mais precisamente a
cabveis (nas linguagens especiais).                         que consiste na reduo de vrias perguntas a
    As observaes anteriores dizem respeito                uma s, apostando assim na unicidade da respos-
teoria da I. na semitica (v.).  necessrio po-             ta que o adversrio  tentado a dar (ARISTTELES,
rm observar que, na linguagem cientfica e                  El. Sof, 30, 181 a 30; PEDRO HISPANO, Summ.
filosfica hodierna, essa palavra tem usos es-               log., 7. 62-7. 64;JUNGIUS, Lgica hamburgenss,
pecficos diversos, que s indiretamente po-                 VI, 12, 16; GENOVESI, Ars logico-critica, V, 11,
dem ser relacionados com o emprego a que                     12; etc.) (v. FALCIA).
aludimos. Fala-se de I. na cincia quando se                    INTERSUBJETTVO (in. Intersubjective, fr.
estabelece a correspondncia entre um siste-                 Intersubjectif, ai. Intersubjektiv-, it. Intersog-
ma axiomtico e determinado modelo (v. Axio-                 gettivo). Termo usado na filosofia contempor-
MTICA; MODELO), OU seja, um exemplo concre-                 nea para designar: Ia o que se refere s rela-
to ou um conjunto de entidades que satis-                    es entre os vrios sujeitos humanos, como
faa s condies enunciadas pelo sistema                    quando se diz "experincia I."; 2- o que  v-
axiomtico. Nesse sentido, a geometria comum                 lido para um sujeito qualquer, como quando se
pode ser a I. de determinado sistema axiom-                 diz "conceito I." ou "verificao I." (v. UNIVER-
tico, como p. ex. da axiomtica de Hilbert. Um               SAL, 2).
outro uso do termo  o que se encontra nas                       ESTEMISMO (fr. Intimisme). Atitude que con-
disciplinas histricas, quando se fala da I. de              siste em concentrar-se nas experincias inte-
determinado acontecimento, de um conjunto                    riores. Diz-se especialmente de poetas e litera-
de acontecimentos ou de um perodo. Nesse                    tos; em sentido ligeiramente depreciativo, de
caso, a I.  um aspecto da escolha historio-                 correntes que entendem a filosofia como uma
grfica, e consiste na escolha das caratersticas            espcie de autobiografia mascarada (v. EGO-
histricas consideradas dominantes e centrais,               CENTRISMO ; EGOTISMO).
em relao s quais as outras se situam num                     INTRNSECO. V. EXTRNSECO.
plano subordinado e secundrio. Nesse senti-                    TNTROJEO (in. Introjection- ai. Introjek-
do, fala-se, p. ex., de I. materialista da histria,         tiori). Termo introduzido por Avenarius (Kritik
quando os aspectos materiais (ou econmicos)                 der reinen Erfahrung, 1888-90) para designar
so considerados primordiais e fundamentais                  o processo de falsear a experincia e reduzir o
(v. HISTORIOGRAFIA). A I. pode ter outros senti-             objeto a uma representao interna do eu, ad-
dos especficos e em outros campos de pesqui-                mitindo-se que os outros indivduos tambm
sa e tambm pode ter o sentido de explicao                 possuem semelhante representao interna. Dito
(como quando se fala, p. ex., da I. de um fe-                processo, que  uma interiorizao do objeto,
nmeno fsico) ou, como fazia Bacon (Nov.                    d origem  diviso ilusria entre experincia
 Org., I, 26), da natureza em geral. Independen-             interna e experincia externa, enquanto a ex-
temente de todos os significados mencionados,                perincia, segundo Avenarius,  uma s, sendo
Heidegger definiu-a como o desenvolvimento                   sempre uma relao direta entre um objeto e
e a realizao efetiva da compreenso: "A I.                 um organismo.
 no  tomar conhecimento de que se com-
 preendeu, mas a elaborao das possibilida-                     INTROSPECO (in. Introspection; fr. In-
 des projetadas na compreenso" (Sein undZeit,               trospection, ai. Introspektion; it. Introspezone).
  32). Este conceito no  utilizvel para a an-           Auto-observao interior, observao que o eu
 lise do uso desse termo nos vrios campos.                  faz dos prprios estados internos. Esse termo
                                                             foi introduzido pela psicologia do sc. XIX para
INTUIO                                              581                                            INTUIO


designar o mtodo psicolgico fundamental,                  (Opus maius, VI, 1). Duns Scot privilegiava
considerado insubstituvel at o advento do                 como intuitivo (cognitio intuitiva) o conheci-
bebaviorismo(v.). Contra a I. Comte ops uma                mento que "se refere quilo que existe ou
objeo de princpio: "O indivduo pensante                 quilo que est presente em determinada exis-
no pode dividir-se em dois, um que racioci-                tncia atual", distinguindo-o do conhecimento
na e outro que o v raciocinar. Nesse caso,                 abstrativo (v. ABSTRATIVO), que abstrai da exis-
sendo idnticos o rgo observado e o rgo                 tncia atual (Op. Ox, II, d. 3, q. 9, n. 6). Essa
observador, como poder ocorrer a observa-                  noo foi aceita por Durand de S. Pourain (In
o?" (Cours de ph. positive, 1830, I, se. 1,             Sent., Prol, q. 3 F) e por Ockham, que, tal
 8). Comte conclura, por isso, pela impossibi-            como Bacon, identificava o conhecimento
lidade da psicologia e a suprimira da sua enciclo-          intuitivo com a experincia (In Sent., Prol., q. 1
pdia das cincias. Em 1868, Peirce respondia               Z). A partir de ento, at Kant, o significado
negativamente  pergunta "possumos uma                     especfico desse termo  experincia (v.).
faculdade de I.?" e conclua que "a nica ma-                   Mas, ao mesmo tempo, conserva-se o signi-
neira de investigar uma questo psicolgica                 ficado genrico de relao imediata com um
 a inferncia a partir de fatos externos"                  objeto qualquer. Nesse sentido, Descartes falava
(Coll. Pap., 5.244-249; 7.418 ss.). Essa conclu-            da intuio evidente (evidens intuitus), como
so de Peirce  o primeiro indicador do enca-               um dos dois caminhos que levam ao conheci-
minhamento da indagao psicolgica para o                  mento certo (o outro  o da "deduo necess-
behaviorismo (v.).                                          ria"), entendendo com ela a apreenso de qual-
   INTUIO (gr. JtipoX.i; lat. Intuitos, Intui-          quer objeto mental: "A intuio da mente
tio; in. Intuition; fr. Intuition; ai. Anschauung;          estende-se s coisas, ao conhecimento de suas
it. Intuizion). Relao direta (sem intermedi-            interconexes necessrias e a tudo o que o
rios) com um objeto qualquer; por isso, implica             intelecto experimenta com preciso em si mes-
a presena efetiva do objeto. A intuio foi                mo ou na imaginao" (Regulae ad directio-
entendida desse modo ao longo da histria da                nem ingenii, 12). No mesmo sentido, Locke
filosofia, a comear por Plotino, que emprega               chamava de intuitivo o conhecimento que per-
esse termo para designar o conhecimento ime-                cebe a concordncia ou a discordncia entre
diato e total que o Intelecto Divino tem de si e            duas idias imediatamente, ou seja, sem a in-
de seus prprios objetos (Enn., IV, 4, 1; IV, 4,            terveno de outras idias (An Essay Concer,
2). Nesse sentido, a I.  uma forma de conheci-             IV, 2, 1), e chamava de I., exatamente pela sua
mento superior e privilegiado, pois para ela,               imediao, o conhecimento que temos de nos-
assim como para a viso sensvel em que se                  sa prpria existncia (Ibid., IV, 9, 3). Ainda no
molda,, o objeto est imediatamente presente.               mesmo sentido, Leibniz dizia que so conheci-
Bocio falava da "intuio divina", que  o gol-            das por I. as "verdades primitivas" tanto de
pe de vista com que Deus abrange as coisas                  razo quanto de fato (Nouv. ess., IV, 2, 1), ou
sem mud-las {Phil. cons., V, 6). E S. Toms dizia,         seja, as verdades que o intelecto apreende ou
referindo-se a Deus: "A sua intuio versa so-              possui sem a mediao de outras. Este signifi-
bre todas as coisas que esto diante dele em                cado era aceito por Stuart Mill: "As verdades
sua presencialidade" (S. Th., I. q. 14, a. 13, cf.          so conhecidas de duas maneiras: algumas di-
 q. 14, a. 9). Por esse carter, o conhecimento             retamente ou por si mesmas, outras atravs da
 divino distingue-se do humano, que age com-                mediao de outras verdades. As primeiras so
 pondo e dividindo, por meio de atos sucessi-               objeto da I. ou conscincia; as segundas, da
 vos de afirmao e de negao (Ibid., I, q. 85,            inferncia" (logic, Intr.,  4). Kant, por sua vez,
 a. 5). O carter intuitivo do conhecimento divi-           referia-se ao sentido tradicional desse termo ao
 no contrape-se aqui ao carter de discurso do             afirmar que "a I.  a representao tal qual seria
 conhecimento humano (v. DIANIA; DISCURSIVO).              pela sua decorrncia da imediata presena do
    Mas a filosofia medieval empregou esse ter-             objeto" (Prol,  8). Por isso, para Kant, a I. ge-
 mo para indicar uma forma particular e privile-            ralmente  o conhecimento para o qual o objeto
 giada da conscincia humana, em primeiro lu-               apresenta-se diretamente. Mas Kant distingue a
 gar o conhecimento emprico. Bacon dizia que               I. sensvel^ a I. intelectual. Sensvel  a I. de todo
 "a alma no se acalma na intuio da verdade               ser pensante finito, ao qual o objeto  dado: ela
 se no a encontrar por fora da experincia"               , portanto, passividade, afeio (Crt. R. Pura,
INTUIO                                              582                                          INTUIO


Anal. dos conceitos, se. 1). A I. intelectual             terminado e vazio da idia de ser, Gioberti
originria e criativa: nela o objeto  posto ou             aceitava a noo de intuio como relao ime-
criado, portanto s se encontra no Ser criador,             diata, total e necessria da mente humana com
de Deus (Ibid.,  8, ao final; passim). Em outros           Deus e com sua ao criadora (Intr. alio studio
termos, intelectual  a intuio divina da filoso-          delia f., II, p. 46). Esta continuava sendo uma
fia tradicional: a presena do objeto a esta in-            "I. intelectual", mas tambm  intelectual a I. de
tuio  inevitvel e necessria porque o obje-             que fala Bergson, conquanto carregada de po-
to  criado pela prpria intuio.                          lmica antiintelectualista ou anti-racionalista.
    Essa distino kantiana foi conservada pelo             De fato, como rgo prprio da filosofia, ela
Romantismo, mas s com a finalidade de rei-                 possui as caractersticas da I. intelectual romn-
vindicar para o homem a I. intelectual ou cria-             tica: relao imediata ou direta com a realidade
tiva que Kant e os antigos reservavam para                  absoluta, ou seja, com a durao da conscin-
Deus. Isso  compreensvel, visto que, para os              cia ou com o impulso criativo da vida. Bergson
romnticos, o conhecimento humano  o mes-                  afirma: "AI.  a viso do esprito por parte do
mo conhecimento com que o Esprito Abso-                    esprito." "I. significa principalmente conscin-
luto ou criador se conhece a si mesmo, ou                   cia, mas conscincia imediata, viso que mal se
pelo menos  um aspecto ou um momento                       distingue do objeto visto, conhecimento que 
dela. Assim, Fichte entende por I. intelectual "a           contato e at coincidncia" (La pense et le
conscincia imediata de que eu ajo e daquilo                mouvant, 3a ed., 1934, pp. 35-36). As mesmas
que fao, sendo aquilo graas a que o Eu sabe               caractersticas formais encontram-se na I. eid-
enquanto faz" (Werke, I, p. 463). Por sua                   tica ou I. da essncia da qual fala Husserl: "A
vez, Schelling afirma que "a filosofia trans-               essncia  um objeto de nova espcie. Assim
cendental deve ser constantemente acompa-                   como o dado da I. individual emprica  um
nhada pela I. intelectual" e que o eu  "uma I.             objeto indidual, tambm o dado da I. eidtica
intelectual contnua", porquanto "se auto-                   uma essncia pura. No se trata de uma ana-
produz". E acrescenta: "Assim como, sem a I.                logia externa, mas sim de uma afinidade radi-
do espao, a geometria seria absolutamente                  cal. Tambm a I. eidtica  uma I., assim como
incompreensvel, porque todas as suas constru-              o objeto eidtico  um objeto. A generalizao
es so apenas formas e maneiras variadas de               dos conceitos correlativos 'I.' e 'objeto' no 
limitar essa I., tambm sem a I. intelectual a              arbitrria, mas exigida necessariamente pela
filosofia seria impossvel porque todos os seus             natureza das coisas" (Ideen, I,  3). Por fim, a I.
conceitos no passam de limitaes diversas do              que Croce identifica com a arte tem as mesmas
produzir que se tem por objeto, em outras pala-             caractersticas formais:  conhecimento origin-
vras, a I. intelectual" (System ler transzen-               rio e imediato, que por isso no distingue entre
dentalen"ldealismus, se. I, cap. I, trad. it., p.          real e irreal; tem carter ou fisionomia indi-
39). Hegel, por sua vez, identificava I. e pensa-           vidual e expressa diretamente o objeto (Estti-
mento: "O puro intuir  o mesmo que o puro                  ca, cap. 1).
pensar... F e I. devem ser tomadas em sentido                  Recapitulando as caractersticas comuns e
mais elevado, como f em Deus, como I. inte-                as diferenciais da I. ao longo da histria da
lectual de Deus: vale dizer que se deve abstrair            filosofia, podemos dizer sobre as primeiras
exatamente daquilo que constitui a diferena                que a I.  uma relao com o objeto, carac-
entre I. e f, de um lado, e pensamento, de                 terizada: ls pela imediao e 2- pela presen-
outro. No se pode afirmar que f e I., trans-              a efetiva do objeto. Constantemente, com
portadas para essa regio mais alta, ainda se-              base nessas caractersticas, a I.  considera-
jam diferentes de pensamento" (Ene,  63). A                da uma forma de conhecimento privilegia-
mesma tese  sustentada por Schopenhauer,                   do. Por outro lado, suas caractersticas diferen-
que identifica intelecto e I., e pretende que at           ciais podem ser assim distintas: le a I. pode ser
as conexes lgicas sejam reduzidas a elemen-               exclusiva de Deus e considerada o conheci-
tos intuitivos (Die Welt, I,  15).  mesma linha           mento que o criador tem das coisas criadas; 2a
de conceitos pertence a noo de I. encontrada              pode ser atribuda ao homem e considerada a
em Rosmini: como apreenso imediata da idia                experincia como conhecimento de um objeto
 do ser em geral (Nuovo saggio,  1.159; Antro-             presente, sendo, nesse sentido, percepo (v.);
pologia,  40, 505; Psicologia,  13). E, apesar de         32 pode ser atribuda ao homem e considerada
 opor-se a Rosmini quanto ao carter inde-                  conhecimento originrio e criativo no sentido
INTUIO                                              583                                  INTUICIONISMO

romntico. As trs alternativas deixaram, em                re da observao emprica ou no pode ser
grande parte, de despertar o interesse da filo-             deduzido dos conhecimentos j possudos.
sofia contempornea. A primeira de fato per-                Portanto, parece designar apenas certo grau de
tence  esfera das especulaes teolgicas. A               liberdade do pesquisador e nada tem a ver
segunda tende a ser substituda pelo conceito               com o significado filosfico tradicional do ter-
de experincia como mtodo ou como conjun-                  mo, no qual se insere o emprego que dele
to de mtodos (v. EXPERINCIA). A terceira                  fazem os matemticos intuicionistas (v. INTUI-
est estritamente ligada  metafsica do Ro-                CIONISMO, 4e).
mantismo (velho e novo): ascende e declina                      INTUIO DO MUNDO (ai. Weltanschau-
com ele.                                                    ung). Sobre a filosofia como "I." ou "viso do
    Em 1868 Peirce fez uma crtica do conceito              mundo" v. FILOSOFIA. K. Jaspers escreveu Psi-
de I., negando: 1Q que ela pudesse servir para              cologia da cosmoviso, distinguindo a imagem
garantir a referncia imediata de um conheci-               espcio-sensorial do mundo, a psicocultural e
mento ao seu objeto; 2- que ela pudesse constituir          a metafsica (Psychologie der Weltanschauun-
o conhecimento evidente que o Eu tem de si                  gen, 1925; trad. it., Roma, 1950).
mesmo; 3e que pudesse capacitar a distinguir                    INTUICIONISMO (in. Intuitionism; fr. In-
os elementos subjetivos de conhecimentos di-                tuitionnisme; ai. Intutonismus; it. Intuizo-
ferentes. Ao mesmo tempo, Peirce afirmava a                 nismo). Com este termo so indicadas atitudes
impossibilidade de pensar sem signos e de                   filosficas ou cientficas diversas, que tm em
conhecer sem recorrer ao vnculo recproco                  comum o recurso  intuio no sentido mais
dos conhecimentos (Coll. Pap., 5.213-263).                  geral do termo. Em particular, relacionam-se
Essas negaes e afirmaes de Peirce foram                 sob o nome de I. as seguintes correntes:
e so amplamente aceitas pela filosofia con-                    1B a filosofia escocesa do senso comum, por
tempornea.                                                 admitir que a filosofia se fundamenta em certas
    Hoje, mais que aos filsofos, a I. serve aos            verdades primitivas e indubitveis, conhecidas
cientistas, particularmente a matemticos e l-             por intuio (v. SENSO-COMUM);
gicos, quando estes querem frisar o carter                    2e a doutrina de Bergson, segundo a qual a
inventivo de sua cincia. Claude Bernard dizia:             intuio  o rgo prprio da filosofia;
"A I. ou sentimento gera a idia ou a hiptese                 39 a doutrina de N. Hartmann e de Scheler,
experimental, ou seja, a interpretao anteci-              segundo a qual os valores so objeto de uma
pada dos fenmenos da natureza. Toda a ini-                 intuio que se identifica com o sentimento (v.
ciativa experimental est na idia, pois s ela             VALOR);
provoca a experincia. A razo ou o raciocnio                  4a a corrente matemtica fundada por L. E.
servem apenas para deduzir as conseqncias                 J. Brouwer, inspirada nas idias de L. Kronecker
dessa-idia e para submet-las  experincia"               (1923-91), para quem o conceito de nmero
(Intr.  1'tude de Ia mdecine exprimentale,              natural fora dado  intuio humana, afirman-
 1865,1, 2,  2). Poincar repetia, com referncia          do que os nmeros naturais foram feitos por
 matemtica, o que Bernard dissera a prop-                Deus e os outros pelo homem. As teses tpicas
sito das cincias experimentais: "Demonstra-se              do I. de Brouwer so as seguintes: Ia a existn-
com a lgica, mas s se inventa com a I. (...) A            cia dos objetos matemticos  definida pela sua
faculdade que nos ensina a ver  a intuio.                possibilidade de construo: por isso, s "exis-
 Sem ela, o gemetra seria como o escritor bom              tem" entes matemticos que possam ser cons-
 de gramtica, mas vazio de idias" (Science et             trudos; 2S o princpio do terceiro excludo no
 mthode, 1909, p. 137). Ainda segundo Poin-                 vlido para proposies em que haja refern-
 car, na matemtica a exigncia lgica leva               cia a grandezas infinitas; 3Q as definies impre-
formulao analtica; a exigncia intuitiva,  for-         dicativas no so vlidas. A rejeio do princ-
 mulao geomtrica. "Assim, a lgica e a I. tm            pio do terceiro excludo implica a rejeio da
 cada uma sua misso. Ambas so indispens-                 dupla negao, portanto do mtodo da prova
 veis. A lgica, a nica que pode dar certezas,            indireta. Este mtodo, entretanto, fundamenta a
 o instrumento da demonstrao: a I.  o instru-            corrente formalista da matemtica, patrocinada
 mento da inveno" (La valeur de Ia science,               por Hilbert; segundo essa concepo, para
 1905, p. 29). Nesse sentido, como j se obser-             estabelecer a existncia de uma entidade mate-
 vou algumas vezes, a I. tem carter mais negati-           mtica basta a demonstrao de que ela no
 vo que positivo: ela antecipa o que no decor-             implica contradio (cf. A. HEYTING, Mathe-
INVARIANTE                                             584                                           IRONIA


matische Grundlagenforschung, Intuitionismus                 fenmenos regressivos da evoluo. A. Lalande
und Beweistheorie, Berlim, 1934).                            defendeu a tese de que o progresso em qual-
   INVARIANTE (in. Invariant; fr. Invariant;                 quer campo no depende da passagem do ho-
ai. Invariante, it. Invariante). Uma proprie-                mogneo para o heterogneo, como queria
dade constante, mais precisamente, na teoria                 Spencer, mas da passagem do heterogneo
dos grupos, uma propriedade que permanece                    para o homogneo, que  a dissoluo ou I.
a mesma sob um grupo de transformaes (v.                   (Vide directrice de Ia dissolution oppose 
GRUPO; TRANSFORMAO).                                       celle de Vvolution dans Ia mthode des scien-
    INVENO (in. Invention; fr. Invention; ai.              ces physiques et morales, 1898, 2- ed., com o
Hrfindung; it. Invenzion). "Inventar alguma                 ttulo Les illusions volutionnistes, 1931).
coisa" -- disse Kant -- " totalmente diferente                  2. Na lgica simblica, o procedimento que
de descobrir. A coisa que se descobre admite-se              corresponde  pontenciao aritmtica (cf. PEIR-
como j preexistente, apesar de ainda no co-                CE, Coll. Pap., 3.614-15).
nhecida, como a Amrica antes de Colombo;                        IOGA. Um dos principais sistemas filosfi-
contudo, o que se inventa, como a plvora,                   cos indianos, que consiste essencialmente numa
no existia em absoluto antes de quem a in-                  tcnica de ascetismo. O texto fundamental des-
ventou" (Antr., I,  57). Tradicionalmente, a                te sistema so os logassutra de Patanjali, obra
capacidade inventiva denomina-se gnio (v.).                 provavelmente composta entre os scs. V e o
Os problemas relativos  I. assumem aspectos                 VI d.C, talvez com base em fragmentos ou
diferentes nos vrios campos: na lgica, tm                 documentos mais antigos. A I., cujas doutrinas
sido por vezes debatidos a propsito da tpica               coincidem substancialmente com as do sistema
(v.) ou da intuio (v.); na arte, a propsito do            sanquia, mas com tnica testa, consiste essen-
gnio (v.).                                                  cialmente na descrio de exerccios graduais
    INVESTIGAO (gr. r|Tr|Gt; i a t Lnvesti-              para obter a perfeita libertao da alma. Os
gatio; Inquisitio; in. Inquiry, fr. Recherche; ai.           graus fundamentais so oito: 1Q restrio mo-
Untersuchung; it. Ricercd). Ainda que o con-                 ral; 2 cultura da alma com o estudo dos textos
ceito de I. se ligue estreitamente ao de filosofia           sagrados; 3Q posies convenientes  medita-
(como acontece em PLATO, cf., p. ex., Teet.,                o; 4Q controle da respirao; 5e controle dos
196 d; Men., 81 e), dificilmente foi objeto da               sentidos; 6B concentrao; 7a ateno contnua;
indagao filosfica. No mundo moderno, De-                  82 recolhimento absoluto (samdi), no qual
wey considerou a lgica como teoria da I..- "To-             desaparece a dualidade entre quem contempla
das as formas lgicas, com suas propriedades                 e o objeto contemplado. D I. distingue-se a
caractersticas, nascem do trabalho de L, e refe-            Hatha-ioga ou I. violenta, que sugere os exer-
rem-se  sua aferio, no que concerne  con-                ccios voltados para afrouxar os vnculos entre
fiabilidade* das asseres produzidas." Nesse                alma e corpo (v. G. Tucci, Storia delia filosofia
sentido, "a I. da I.  causa cognoscendidas for-             indiana, pp. 98 ss.).
mas lgicas, ao passo que a indagao primiti-                   IPSE DEXIT (gr. aT cpa). Frase com
va  causa essendi das formas reveladas por                  que os pitagricos costumavam responder
essa indagao" (Logic, 1939, 1: trad. it., p. 34).          aos pedidos de elucidaes sobre sua doutri-
A P.  definida por Dewey como "a transforma-                na: "Ele disse." Ele era Pitgoras. Ccero aduz
o controlada ou dirigida de uma situao                   esse costume como exemplo do predomnio
indeterminada em outra, determinada, nas dis-                da autoridade sobre a razo (De nat. deor, I,
tines e relaes que a constituem, de tal ma-              5, 10).
neira que os elementos da situao originria                    IPSEIDADE (Iat. Lpseitas; fr. Ipsit). Termo
sejam convertidos numa totalidade unificada"                 usado por Duns Scot para indicar a singularida-
{Logic, VI, trad. it., p. 157).                              de da coisa individual (v. ECCEIDADE).
     INVOLUO (Iat. Lnvolutio; in. Lnvolution;                 IRASCVEL. V. FACULDADE.
fr. lnvolution; ai. Lnvolution; it. lnvoluzion). 1.            IRONIA (gr. eipcoveot; Iat. Ironia; in.
O oposto de evoluo. Essa palavra foi empre-                Lrony; fr. Ironie; ai. Ironie; it. Lronia). Em
gada por Kant para indicar a teoria biolgica                geral, a atitude de quem d importncia
oposta  teoria da pr-formao individual, que              muito menor que a devida (ou que se julga
ele denominava evoluo (Crt. do Juzo,  81).              devida) a si mesmo,  sua prpria condio ou
 Hoje, com o nome de I. designam-se os fen-                 a situaes, coisas ou pessoas com que tenha
menos opostos aos da evoluo, ou seja, os                   estreitas relaes. A histria da filosofia co-
IRONIA                                              585                                              IRONIA

nhece duas formas fundamentais de I.: Ia                  de vista da subjetividade, que se compreende
socrtica; 2a romntica.                                  como coisa suprema e que, por isso, rebaixa a
    Ia A I. socrtica  o modo como Scrates se           zero todas as demais coisas, mesmo o que h
subestima em relao aos adversrios com                  de mais elevado. Apesar de se opor a alguns
quem discute. Quando, na discusso sobre a                pormenores da doutrina de Solger, que definiu
justia, Scrates declara: "Acho que essa inves-          como "platnicos", Hegel a adotava ao descre-
tigao est alm das nossas possibilidades e             ver a I. da seguinte maneira: "Considerem uma
vs, que sois inteligentes, deveis ter piedade            lei, singelamente tal qual  em si e por si: eu
de ns, em vez de zangar-vos conosco." Tras-             estou alm e posso fazer isto e aquilo. Superior
maco responde: "Eis a costumeira I. de S-                no  coisa, eu sou superior e senhor; acima da
crates" (Rep., I, 336 e 337 a). Aristteles s            lei e da coisa, brinco com elas a meu bel-prazer
faz enunciar genericamente esta atitude                   e, nessa conscincia irnica, em que permito
socrtica quando v na I. um dos extremos                 que o supremo perea, fruo-me a mim mes-
na atitude diante da verdade. O verdadeiro                mo" (Fil. do dir.,  140). Para Hegel, a assim
est no justo meio; quem exagera a verdade                entendida como conscincia da Subjetividade
 jactancioso e quem entretanto procura dimi-             Absoluta que, como tal,  tudo, e diante da qual
nu-la  irnico. E diz que, nesse aspecto, I.            todas as outras coisas so nada, portanto como
 simulao (Et. nic, II, 7, 1108 a 22). Ccero           conscincia do absoluto arbtrio de tal subjeti-
referia-se a esse conceito ao afirmar que "Na             vidade, a I.  resultado da filosofia de Fichte, tal
discusso, Scrates freqentemente se dimi-               como foi entendida e interpretada por Schlegel
nua e elevava aqueles que desejava refutar;              (Fil. do dir.,  140, Zusatz). "Aqui o sujeito sabe-
assim, dizendo o contrrio do que pensava,                se em si mesmo como o Absoluto e no d
empregava de bom grado a simulao que os
                                                          peso algum ao resto: sabe destruir constante-
gregos denominam I." (Acad., IV, 5, 15). S. To-
ms referia-se a este conceito do termo, como             mente todas as sua prprias determinaes do
uma forma (lcita).de mentira (5. Th., II, 2, q.          justo e do bem. Pode dar a entender a si mes-
113, a. 1).                                               mo todas as coisas, mas s demonstra vaidade,
                                                          hipocrisia, imprudncia. A I. sabe que domina
    2a A I. romntica baseia-se no pressuposto            qualquer contedo: no toma nada a srio, brinca
da atividade criadora do Eu absoluto. Identifi-           com todas as formas" (Geschchte derPhl, III,
cando-se com o Eu absoluto, o filsofo ou o               se. 3, C, 3; trad. it., III, 2, pp. 370 71).
poeta (que com muita freqncia coincidem,
para os romnticos)  levado a considerar a                   Esse conceito caracterizou um dos aspec-
realidade mais concreta como uma sombra                   tos fundamentais do Romantismo alemo.
ou um jogo do Eu, a subestimar a importn-                Kierkegaard deu-lhe uma interpretao ate-
cia da-realidade, no tom-la a srio. Segundo            nuada ou metafrica, por um lado conceben-
 Schlegel, a I.  a liberdade absoluta diante de          do a I. socrtica como superioridade de Scra-
 qualquer realidade ou fato. "Transferir-se arbi-         tes  iniqidade do mundo (Dirio, X3, A, 254),
 trariamente ora para esta, ora para aquela esfe-         por outro lado entendendo a I. em geral como
 ra, como para outro mundo, no s com o                  "a infinitizao da interioridade do eu", mas
 intelecto e com a imaginao, mas com toda a             como infinitizao "interior", num significado
 alma; renunciar livremente ora a esta, ora               que no tem mais a magnitude que Fichte atri-
 quela parte do prprio ser, e limitar-se com-           bua  infinidade. "O que  a I.?" escreve
 pletamente a uma outra; procurar e encontrar             ele. "A unidade de paixo tica, que acentua o
 a sua unidade e o todo, ora neste, ora naquele           eu infinitamente em interioridade, e a unidade
 indivduo, e esquecer voluntariamente todos              de educao que, em seu exterior (no comr-
 os demais: de tudo isso s  capaz um esprito           cio com os homens) abstrai infinitamente
 que contenha em si como uma pluralidade de               do prprio eu. A abstrao faz que ningum
 espritos e todo um sistema de pessoas, e em             se aperceba da primeira unidade vivida e
 cujo ntimo o universo que -- como se diz --             nisto est a arte da verdadeira infinitizao da
 est em germe em todos os mundos, desabro-               interioridade" (Dirio, VI, A, 38, trad. Fabro).
 chou, amadureceu" (Fragm., 1798,  121). Estas           Como aqui a infinidade do eu  somente uma
 observaes sobre a I. foram conceitualmente             infinidade "interior", ou seja, a acentuao ao
 sistematizadas na obra de C. G. F. Solger, Erwin         infinito do valor do eu na conscincia, mas
 (1815), na qual a I. era interpretada do ponto           no  a infinidade efetiva e criadora do Eu
IRRACIONALISMO                                         586                                     ISOMORFISMO

absoluto dos romnticos, a I. no tem mais                   gundo princpio da termodinmica (chamado
o significado romntico:  apenas a oposi-                   de Princpio de Carnot, 1824), segundo o qual
o entre a conscincia exaltada que o eu                    o calor passa apenas do corpo mais quente
tem de si e a modstia das suas manifestaes                para o corpo mais frio. Nesse caso, quando
externas.                                                    com essa passagem se alcana o equilbrio
   IRRACIONALISMO (ai. Irrationalismus).                     da temperatura,  impossvel voltar atrs. Do
Termo com que, em italiano e alemo, so                     sistema em equilbrio no  possvel voltar ao sis-
designadas as filosofias da vida ou da ao,                 tema do desequilbrio trmico, que s possi-
que, como p. ex a de Schopenhauer, conside-                  bilita a passagem do calor e, portanto, o tra-
ram o mundo como manifestao de um princ-                  balho mecnico. Um sistema em equilbrio
pio no racional (v. AO, FILOSOFIA DA; VIDA,               trmico no pode fornecer trabalho mecni-
FILOSOFIA DA).                                               co. Com isso estabelece-se a irreversibi-
   IRREVERSVEL (in. Irreversible, fr. Irrver-              lidade dos fenmenos naturais que, sob cer-
sible; ai. Irreversibel; it. Irreversibile). Carter         to aspecto, so todos fenmenos trmicos. O
das relaes simtricas e dos processos que                  Princpio de Carnot excluiu, assim, a imagem
tm sentido determinado. Plato, no mito do                  do devir do mundo que os antigos acredita-
Poltico, afirmou a reversibilidade do devir                 vam realizar-se ciclicamente, retornando sobre
csmico, declarando que o mundo, uma vez                     si mesmo.
atingindo o termo do tempo que lhe foi desig-
                                                                 A irreversibilidade dos fenmenos naturais
nado, "recomea a girar em sentido contrrio",
ou seja, inverte a ordem do tempo. Isto acon-                levou a pensar na morte inevitvel do univer-
tece porque o mundo , por um lado, a coisa                  so, quando fosse atingido o equilbrio trmico
mais perfeita possvel, mas, por outro,  um                 que impossibilitasse qualquer transformao e,
corpo e, como tal, sujeito a mudanas. "Por                  portanto, a vida. Foram numerosas as doutri-
isso, seu destino  refazer, seu giro em sentido             nas que aventaram hipteses que tentavam en-
inverso, sendo essa 'a mnima mudana poss-                 trever sorte diferente para o nosso universo (cf.
vel do seu movimento'" (Pol., 269 c-e). Esse                 sobre elas MEYERSON, De Vexplication dans les
conceito, de que a reversibilidade do processo               sciences, 1927, pp. 203 ss.). Mas na verdade
csmico se deve  exigncia de realizar a                    tanto a previso da catstrofe quanto a das
maior identidade possvel consigo mesmo, era                 possveis vias de salvao vo muito alm
expresso por Leibniz nos termos da cincia do                do que  permitido pelo alcance do princpio
seu tempo. Leibniz dizia: "A sabedoria supre-                de Carnot e, em geral, por um princpio cient-
ma de Deus levou-o escolher sobretudo as                     fico. Este de fato vale somente para sistemas
leis do movimento mais aptas e mais conve-                   fechados ou pelo menos relativamente isola-
nientes s razes abstratas ou metafsicas. No               dos, sendo um instrumento de previso para
universo, conserva-se a mesma quantidade de                  esses sistemas, e no para o universo ou o
fora total absoluta ou de ao, a mesma                     mundo, que so uma totalidade aberta ou infi-
quantidade de fora respectiva ou de reao; a               nita. Em sentido diferente e positivo, o signifi-
mesma quantidade de fora diretiva. Alm dis-                cado filosfico de irreversibilidade foi ilustrado
so, a ao  sempre igual  reao e o efeito                por E. PACI, Tempo e relazione, 1954, cap. VI e
inteiro  sempre equivalente  sua causa ple-                passim (v. ENTROPIA).
na" (Princ. de Ia nature et de Ia grce, 1714,                  ISOLAR (ai. Isolierer). No sentido de abstrair,
Op., ed. Erdmann, p. 716). Essa equivalncia                 como empregado por Kant, v. ABSTRAO. Wundt
perfeita entre a causa e o efeito significa a                distingue a abstrao isolante, que consiste em
reversibilidade do processo causai. A mecni-                separar determinada parte de uma aparncia
ca clssica admite essa reversibilidade. As                  complexa, da abstrao generalizante, que
equaes que exprimem o comportamento                        consiste em pr de lado, intencionalmente, algu-
dos fenmenos mecnicos no do indicao                    mas notas conceituais (Logik, II, pp. 11 ss.).
alguma sobre o sentido em que o tempo
transcorre. O /dessas equaes  uma varivel                   ISOMORFISMO (in. Isomorphism, fr. Iso-
contnua que no tem sentido determinado, e                  morphisme; ai. Isomorphie-, it. Isomofism). Ter-
isso significa que todo fenmeno mecnico                   mo empregado em lgica e em matemtica
reversvel. A irreversibilidade dos fenme-                  para indicar a relao entre relaes homog-
nos foi introduzida com a descoberta do se-                  neas de dois ou mais termos, que consiste na
                                                             correspondncia de termo a termo entre os ter-
ISONOMIA                                          587                                             ISSO

mos das relaes (cf. R. CARNAP, Logical Syntax         Segundo Epicuro, o perfeito equilbrio e a per-
ofLanguage,  71 c; A. CHURCH, Introduction to          feita correspondncia de todas as partes ou os
Mathematical Logic,  55).                              elementos do todo no infinito. "Conseqente-
    ISONOMIA (gr. iaovop.ot; lat. Isonomia).           mente, apesar de ser to grande a multido dos
Segundo Alcmon de Crton,  o perfeito equi-           mortais, no menor  a dos imortais, e se os
lbrio das propriedades que constituem o cor-           elementos de distribuio so inmeros, os de
po: a sade; seu contrrio  a monarquia, que           conservao devem ser infinitos" (CCERO, De
 o predomnio de uma propriedade sobre a               nat. deor, I, 19, 50).
outra, o que constitui a doena (Fr. 4, Diels).            ISSO. V. ID; PSICANLISE.
                                                J
    JAINISMO (in. Jainism). Uma das seitas fi-      vinciais. O J. continuou circulando por algum
losficas da antiga ndia, cujo nome provm de      tempo em ambientes religiosos italianos e fran-
seu fundador Mahavira (sc. V a.C), denomi-         ceses (cf. F. RUFFINI, Studi sul giansenism,
nado Jina, que significa "o Vitorioso". Admite      Firenze, 1947).
uma pluralidade de realidades ou substncias,           JOGO (gr. rati; lat. Jocus, in. Play, Game,
divididas em dois grupos antagonistas: as subs-     fr. Jeu; ai. Spiel; it. Gioco) Atividade ou opera-
tncias vivas e as materiais (cf. Tucci, Storia     o que se exerce ou se executa por si mesma,
delia fil. indiana, 1957, pp. 55 ss.).              e no pela finalidade  qual tende ou pelo re-
    JANSENISMO (in. Jansenism, fr. Jansnis-        sultado que produz. Por este carter Aristteles
 me, ai. Jansenismus-, it. Giansenism). Doutri-    aproximou o J.  felicidade e  virtude, pois
na do bispo Cornlio Jansnio (1585-1638), ex-      essas atividades tambm so. escolhidas por si
posta na obra Augustinus. Trata-se de uma ten-      mesmas e no so "necessrias", como as que
tativa de reforma catlica atravs do retorno s    constituem o trabalho (Et. nic, X, 6, 1176 b 6).
teses de S. Agostinho sobre a graa. Segundo        Esse conceito permaneceu substancialmente
Jansnio, a doutrina agostiniana implica que o
pecado original tirou do homem a liberdade de       inalterado. O prprio Kant no faz outra coisa
querer, tornou-o incapaz para o bem e inclina-      seno reproduzi-lo ao dizer que o J.  "uma
do necessariamente ao mal. Deus s concede          ocupao por si s agradvel e no necessita
aos eleitos, pelos merecimentos de Cristo, a        de outro objetivo", contrapondo-o ao trabalho,
graa da salvao. Jansnio confrontava essas       que  "uma ocupao por si desagradvel (pe-
teses com o relaxamento da moral eclesistica,      nosa) que atrai apenas pelo resultado que pro-
especialmente jesutica, segundo a qual a salva-    mete (p. ex., a remunerao)" (Crt. do Juzo,
o est sempre ao alcance do homem que,             43). Mas Kant foi tambm o primeiro a em-
vivendo no seio da Igreja, possui uma graa sufi-   pregar filosoficamente o conceito de J. assim
 ciente, que o salvar se for favorecida pela boa   entendido, ligando-o estreitamente  atividade
vontade. Esta era a tese do jesuta espanhol        esttica. Ele escreveu: "Todo J. variado e livre
Molina (1535-1600), em que os jesutas basea-       das sensaes (que no vise a um objetivo)
ram o seu proselitismo, que visava a conservar      produz prazer porque favorece a sensao de
no seio da Igreja o maior nmero possvel de        sade, haja ou no em nosso juzo racional pra-
pessoas. No dia 31 de maio de 1653 uma bula         zer pelo objeto ou mesmo fruio" (Jbid.,  54).
 do papa Inocncio X condenou cinco proposi-        Os J. podem ser divididos em J. de sorte, que
 es nas quais a Faculdade Teolgica de Pa-        exige um interesse, J. musical, que supe ape-
 ris condensara a doutrina do Augustinus de         nas a variao das sensaes, e J. de pensa-
Jansnio. A favor de Jansnio estavam Antoine       mentos, que  o J. propriamente esttico (Jbid.,
 Arnauld e os denominados "solitrios de Port-       54). Kant ressaltou a funo biolgica do ].,
 Royal". Estes julgaram que as cinco proposi-
 es condenadas no expressavam o pensa-           que serve para manter desperta e reforar a
 mento de Jansnio e que, portanto, condenao      energia vital na competio com as demais
 no dizia respeito ao jansenismo. Em favor         energias do mundo. Diz: "Dois jogadores pen-
 disto Pascal publicou, em 1656, as Cartas pro-     sam estar jogando um com o outro; na realida-
                                                    de,  a natureza que joga com ambos; e a razo
JOGO                                                  589                                              JOGO

pode convencer-se quando refletimos em co-                  que a esttica reconheceu nele analogia com a
mo os meios escolhidos dificilmente se adaptam              atividade artstica. As anlises de Groos sobre o
ao objetivo" (Antr.,  86). Essas observaes fo-           J. basearam-se nesses conceitos (Die Spiele der
ram freqentemente difundidas e ampliadas                   Menschen, 1889; Die Spiele der Tiere, 1896).
pelo pensamento moderno. Schiller diz.- "O                  Groos tambm utilizou esse conceito de J. para
animal trabalha se o mbil de sua atividade                definir a atividade esttica (Einleitung in die
a falta de alguma coisa; e brinca se o mbil                Aesthetik, 1892), mas a definio de J. continua-
 a plenitude de sua fora, se  estimulado                va sendo a de Aristteles: a atividade que tem
atividade pela exuberncia de vida" (ber die               em vista apenas o prazer pela atividade (Spiele
aesthetische Erziehung des Menschen, 27). O                  der Menschen, p. 7). Desse ponto de vista, o J.
ivertimento no  estranho nem  nature-                    foi freqentemente considerado uma espcie
za inanimada: a superabundncia de razes, ra-              de tendncia inata ou de instinto vital, que 
mos, folhas, flores e frutos de uma rvore, em              outra maneira de expressar a funo que cum-
comparao com o que  necessrio para a                    pre de adestrar o homem ou, em geral, o orga-
conservao da prpria rvore e de sua esp-                nismo vivo, para as atividades que garantam
cie,  o divertimento da natureza vegetal. "Da              sua conservao no mundo. Ao reconhecimen-
presso da necessidade ou da seriedade fsica,              to da funo biolgica, educativa e esttica do
atravs da presso da exuberncia, ou seja, do              J. acresceu nos ltimos tempos o reconheci-
J. fsico, a natureza passa ao J. esttico e, antes         mento da funo social. Tanto o J. como ativi-
de elevar-se, acima dos vnculos das finalida-              dade direta quanto o J. como espetculo cons-
des,  sublime liberdade do belo, aproxima-se               tituem hoje duas das principais maneiras de
pelo menos um pouco dessa independncia                     emprego do tempo livre para grandes massas
no livre movimento, que  fim e meio para si                de trabalhadores, exercendo, portanto, a fun-
mesmo" (Ibid., 27). O conceito, j expresso por             o de corrigir e equilibrar as atividades sociais,
Kant, de que o J. tem a funo biolgica de                 o que ainda precisa ser mais bem estudado.
adestrar para as atividades vitais, que garantem                Como j se disse, a importncia crescente
a conservao do organismo, torna-se lugar-co-              atribuda  atividade ldica e a multiplicidade
mum na filosofia e na pedagogia do sc. XIX.                de funes a ela atribudas em vrios campos
Para a formao desse lugar-comum contribuiu                no modificaram seu conceito, que continuou
muito aquela espcie de metafsica do J. de                 sendo substancialmente o mesmo formulado
inspirao romntica, mais precisamente em                  por Aristteles: atividade que tem fim em si
Schelling, que Froebel usou como base para a                mesma e que  procurada e exercida pelo pra-
sua teoria da educao. Para Froebel, o J. est             zer intrnseco, e no pelo efeito ou pelo resul-
para a criana assim como o trabalho est para              tado que dela deriva. Contudo, mesmo esse
o homem e a criao est para Deus:  a mani-               conceito hoje deve sofrer algumas retificaes.
festao necessria da atividade da criana as-             Em primeiro lugar, deve ser retificada a contra-
sim como o trabalho  para o homem e a cria-                posio, que ele implica, entre atividade ldica
o, para Deus (DieMenschenerziehung, 1826,                 e trabalho. Essa contraposio nem sempre se
 23). Portanto o J. infantil no  um passatem-            verifica e nunca  to radical. Muitos trabalhos
po: as disposies futuras do homem, tanto                  podem ser (ou tornar-se) interessantes, e, se
com relao s coisas quanto com relao aos                isso acontece, passam a ser fins em si mesmos
outros homens, formam-se na primeira infn-                 e adquirem, no todo ou em parte, um carter 
cia, atravs do J. E Froebel prope que toda a              ldico.  certamente difcil supor que todas as
 educao da primeira infncia se desenvolva                infinitas formas que o trabalho assumiu ou as-
 atravs do J., do qual deu minuciosa regula-               sumir possam vir a tornar-se intessantes e
 mentao. Mesmo sem levar em conta os pres-                ldicas, mas o fato de algumas deles serem ou
 supostos metafsicos da doutrina de Froebel, a             poderem vir a ser elimina em princpio essa
 pedagogia moderna e contempornea atribuiu                 contraposio, definindo o ludismo como uma
 ao J. um carter privilegiado de condio ou               possibilidade em algumas atividades humanas,
 instrumento da formao humana bsica, en-                 mais que como expresso da natureza de um
 quanto a psicologia e a antropologia lhe atri-             grupo de atividades. Em muitos autores, po-
 buram funo biolgica e social, ou seja, utili-          rm, essa contraposio persiste, especialmen-
 dade para a conservao do homem e da sua                  te no que se refere ao trabalho alienado da
 adaptao  sociedade, ao mesmo tempo em                   sociedade industrial, e o jogo  considerado
JOGO                                                 590                            JUDAICA, FILOSOFIA

"expansividade livre" ou "atividade improduti-             brepujam, como acontece no caso da teoria
va e intil", porque anula as caractersticas re-          da linguagem como J. e da teoria dos J. na
pressivas e exploradoras do trabalho e do cio             economia poltica. Recorreu-se a conceito
e "simplesmente brinca com a realidade". Des-              anlogo de J. na elaborao de uma teoria
se ponto de vista, o prprio trabalho deveria              do comportamento individual que permitis-
tornar-se ldico, ou seja, subordinar-se ao livre          se explicar as alteraes psquicas como "bri-
desenvolvimento das potencialidades do ho-                 gas" de J.: confuso entre antigas e novas nor-
mem e da natureza (MARCUSE, Eros and Civi-                 mas para as interaes sociais, recusa em
lization, 1954, cap. IX).                                  participar de um J. comandado por outros,
    Na realidade, hoje no se pode aceitar sem             no-aceitao da importncia doj. (T. S. SZASZ,
restries a definio tradicional de J., que evi-         The Mythof Mental Illness, 1961).
dencia o seu carter de absoluta espontaneida-                JUDAICA, FILOSOFIA (in. Jewish philo-
de e liberdade, contrapondo-o, pois, ao carter            sophy, fr. Philosophy judaique, ai. Jdischen
coativo do trabalho que  determinado pelo                 Philosophie, it. Filosofia giudaica). A filosofia
fim ou pelo resultado que deve atingir. Esse ca-           J.  de tipo escolstico (v. FILOSOFIA; ESCO-
rter de espontaneidade no pode ser entendi-              LSTICA); consiste essencialmente na tentativa
do em sentido absoluto: de fato, todos os jogos            de interpretar a tradio religiosa J. em termos
tm restries ou regras que delimitam suas                de filosofia grega, mais precisamente de neo-
possibilidades. Mesmo em J. simples e indivi-              platonismo ou de aristotelismo. A filosofia
duais existem tais restries: no se pode, p.             J. nasceu, portanto, quando o judasmo entrou
ex., lidar do mesmo modo com um cubo e com                 em contato com o helenismo no sc. II a.C.
uma bola. Nos J. coletivos, as regras definem e            Uma de suas primeiras manifestaes  a seita
regulamentam, sendo impossvel ignor-las. Na              dos essnios, dos quais nos falam Flon, Jo-
cultura contempornea, quando se lana mo                 sefo e Plnio,  qual parecem pertencer os
do conceito de J., como por vezes fazem fil-              documentos encontrados nas proximidades do
sofos e economistas, est-se acentuando exata-             Mar Morto em 1947, que costumam ser cha-
mente esse carter de ser guiado por regras                mados de "manuscritos do Mar Morto", (cf.
cabveis, escolhidas e estabelecidas para pos-             BURROWS, The DeadSea Scrolls, Nova York, 1956).
sibilitar a realizao do J. e a alternativa entre         Essa seita mostra profunda afinidade com o
sucesso e malogro. Wittgenstein alude a isso               neopitagorismo, supondo-se que se tenha de-
quando fala em "J. lingsticos", ou seja, lingua-         senvolvido sob a influncia dos mistrios rfico-
gens diferentes, cada uma das quais  regida               pitagricos. Era constituda por vrias comunida-
por regras prprias (Philosophical Investiga-              des submetidas a disciplina severa, com certo
 tions, I,  81). Assim, tambm considera a lin-           nmero de regras ascticas. Do ponto de vista
guagem matemtica como J. e entende que jo-                doutrinai, os essnios interpretavam alegorica-
gar  "agir de acordo com certas regras" (Re-              mente o Antigo Testamento de acordo, segun-
 marks on the Foundations of Matbematics,                  do tradio que atribuam a Moiss; acredita-
IV, 1). Em economia (v.), a chamada "teoria                vam na preexistncia da alma e na vida depois
dosj." considera que o J.  uma atividade limi-            da morte, admitiam divindades intermedirias
tada por regras, graas s quais o jogador pode            ou demnios, bem como a possibilidade de
escolher, entre as vrias estratgias possveis, a         profetizar o futuro. Flon de Alexandria (que vi-
que lhe assegure mais vantagens (NEUMANN-                  veu na primeira metade do sc. I d.C.)  a maior
MORGENSTERN, Theory of Games and Economic                  personalidade filosfica desse perodo da fi-
 Behavior, 1944). Nestes empregos, o significa-            losofia J.: sua inteno  interpretar alegorica-
do dessa palavra compreende: le limitao das              mente as doutrinas do Antigo Testamento me-
 escolhas, impostas  atividade do jogador pelas           diante conceitos da filosofia grega. O resultado
 regras; 2Q carter no rigorosamente determi-             dessa interpretao  uma forma de neopla-
 nante dessas regras, que possibilitam escolher            tonismo muito semelhante quela que se de-
 entre vrias tticas e, eventualmente, determi-           senvolver em Alexandria por obra do neopla-
 nar a melhor ttica caso por caso (que assegure           tonismoiv.).
 sucesso ou o melhor resultado do J.). Obvia-
 mente essas caractersticas no eliminam as tra-             A segunda fase ocidental da filosofia J. de-
 dicionais, j expressas por Aristteles, mas a            senvolveu-se na Idade Mdia, principalmente
 elas se somam, corrigem-nas e s vezes as so-             na Espanha, durante o domnio rabe. A essa
                                                           fase pertencem Isaac (que viveu no Egito entre
JUZO                                                  591                                              JUZO

os scs. IX e X); Saadja (sc. X); Ibn-Gebirol,              guas, o resultado ou o produto da atividade
que os escolsticos latinos conheceram com o                 judicativa e a expresso lingstica desta: por
nome de Avicebron, autor de uma obra famosa                  isso, chama-se de J. tanto a deciso ou a esco-
intitulada Fonte da vida (sc. XI), e Moiss Ben             lha que elimine uma incerteza, dirima uma
Maimoun, denominado Maimnides (sc. XII),                   controvrsia ou elimine um conflito quanto a
autor do Guia dos perplexos. Os temas funda-                 formulao verbal de alguns desses atos. Nesse
mentais dessa segunda fase da Escolstica J.                 sentido, a faculdade judicativa no se reduz ao
so os seguintes: 1Q utilizao do neoplatonis-              intelecto, conquanto compreenda tambm o in-
mo rabe, especialmente da filosofia de Av-                 telecto. S. Toms observava que "a palavra j . ' ,
cena, para a demonstrao da existncia de                   que segundo a primeira imposio significa a
Deus; 2Q negao do necessarismo caractersti-               correta determinao do que  justo, foi am-
co da filosofia rabe e, portanto, crtica das               pliada para significar a correta determinao
duas doutrinas decorrentes desse necessaris-                 em todas as coisas, tanto nas especulativas
mo: d) da eternidade do mundo e conseqente                  quanto nas prticas" (5. Th., II, 11, q. 60 a. 2 ad
defesa da criao como incio das coisas no                  1-). Kant, que definia o intelecto como "a facul-
tempo por obra de Deus; b) do rigoroso de-                   dade de julgar" {Crt. R. Pura, Anal. transe, I,
terminismo astrolgico, com a reafirmao da                 cap. I, se. I; Prol,  22), em Antropologia
liberdade humana. Estas teses aproximam mui-                 conceituava de modo mais geral o J., entenden-
to a Escolstica J. da Escolstica crist, que de-           do-o como "a capacidade intelectual de distin-
fende filosoficamente crenas religiosas anlo-              guir se cabe ou no uma regra", e afirmava que
gas. Portanto, a Escolstica crist empregou                 o J. no pode ser ensinado, mas s exercitado,
muito a filosofia J., e especialmente a de Mai-              e que o seu desenvolvimento chama-se "matu-
mnides (cf. J. GUTTMANN, Die Phil. des Ju-                  ridade" (Antr, 1,  42). Locke havia restringido
 dentums, Munique, 1933).                                    o J.  faculdade de utilizar os conhecimentos
    JUZO (gr. x KptxiKv, Kpca, lat. Judicium;           provveis na falta do conhecimento seguro
in. Judgment; fr. Jugement; ai. Urteskraft, Ur-             (Jud., IV, 14, 3), mas Leibniz observava que "ou-
 teil; it. Giudizio). Este termo, oriundo da lin-            tros chamam de julgar a ao realizada todas as
guagem jurdica, possui quatro significados                  vezes em que algum se pronuncia com algum
principais: Ia faculdade de distinguir e avaliar             conhecimento de causa" {Nouv. ess., IV, 14).
ou o produto ou o ato desta faculdade, bem                       Nesse sentido, o J.  uma atividade va-
como sua expresso; 2 uma parte da lgica; 3e               lorativa, embora possa expressar-se (como de
em relao a uma proposio, ato de assentir,                fato o fez com freqncia) por frmulas verbais
discordar, afirmar ou negar; 4e operao inte-               diversas, como regras, normas, exortaes, im-
lectual de sntese que se expressa na propo-                 perativos, pareceres, conselhos, concluses e,
sio.                                                       em geral, frmulas que expressam uma escolha
     le No sentido mais geral, entende-se por J. a           ou um critrio de escolha. Peirce diz: "O hbito
faculdade de avaliar e escolher, prpria de to-              cerebral da mais alta espcie, que determinar
dos os seres animados. Aristteles dizia que o               o que faremos, tanto em imaginao quanto
J.  uma das faculdades da alma dos animais (a               em ao, chama-se crena. Chama-se J. a re-
outra  a faculdade motriz), sendo obra do                   presentao, que fazemos para ns mesmos,
pensamento e da sensao {Dean., III, 9, 432 a               de que temos determinado hbito" (Coll. Pap.
 15). Em especial, atribua ao intelecto a capaci-           3, 160).
dade de julgar as qualidades sensveis com o                     Na mesma linha, Dewey considerou o J.
sensrio e a substncia das coisas com um                    como a concluso de uma busca e a sistemati-
meio diferente (Ibid., III, 4, 429, b 10). O signi-          zao efetiva da situao que a provocou, se-
ficado geral conservou-se constante na tradio              gundo o modelo do procedimento judicirio
filosfica e na linguagem comum. A faculdade                 {Logic, 1939, cap VII).
de julgar consiste em avaliar, escolher, decidir.                2 Ccero deu o nome de "J."  dialtica (v.)
 "Ter J." significa saber ser comedido nas esco-             dos esticos, que "foi inventada quase como
lhas, ou faz-las de acordo com as melhores                  rbitro e juiz do verdadeiro e do falso" {Acad.,
regras. Nesse sentido, o J.  qualificado segun-             II, 28, 91). Disse ele: "Todo tratamento comple-
 do os campos especficos em que age, falando-               to da argumentao possui duas partes, uma
 se de "J. moral", "esttico", "histrico", "polti-         que se ocupa da inveno a outra do _[.". Arist-
 co", etc. Esse termo ainda indica, em todas ln-            teles foi o fundador de ambas, os esticos se-
juzo                                                  592                                                JUZO

guiram diligentemente apenas o caminho do J.                     4y A partir de Descartes, entende-se por J.
(Judccuuli vias) na cincia que chamaram de                 de preferncia um ato ou uma operao men-
dialtica, mas descuidaram da arte da inven-                 tal de sntese que encontra expresso na pro-
o, que  a tpica (v\) (Top., 2, 6). Bocio                posio. Descartes afirmara que, alm dos pen-
aceitou a diviso de Ccero (P. L., 64; col. 73 a            samentos, que so quase "imagens das coisas'',
 1046). Essa doutrina passou para algumas cor-               existem na alma otitros pensamentos que tm
rentes da lgica do sc. XVI. Pierre de Ia Ra-               forma diferente: "Quando desejo, temo, afirmo
me considerava que a diviso da lgica em in-               ou nego  verdade que concebo algo como o
veno e J. baseava-se na distino natural dos              sujeito da ao do meu esprito, mas, com essa
poderes da razo, graas  qual antes se pensa               ao. acrescento mais alguma coisa  idia que
algo, para depois julg-lo. Portanto, considera-             fao dessa coisa; alguns dos pensamentos des-
va que essa diviso estava presente na prpria               se gnero so chamados de vontade ou atei-
obra de Aristteles e identificava J. com mto-              es; outros, de juzo' (Md., III). A lgica de
do (Scholae dialeclicae, I. cap. 8; ed., 1594,               Port-Royal definia o J. como a operao que
pp. 54-55; Dialectique, 1555, p. 4). lungius fa-             consiste "em unir e desunir as idias, segundo
zia referncia a essa distino (Lgica bambitr-             convenham ou no" (AKNAILD, Log., Discours,
geusis, 1638, Prol. 24).                                     I): o que Locke considerou definio do conhe-
                                                             cimento em geral (Saggio. IV, I, 2). Para Kant, J. 
    3" Na lgica terminista medieval entendeu-               "a representao da unidade da conscincia de
se por "[.' ou "ato judicativo" o mesmo que os               representaes distintas; ou a representao
esticos chamavam de asscnlimento (v.). Ock-                 das relaes entre estas representaes, na me-
ham, p. ex.. distinguiu dois atos do intelecto,              dida em que constituem um nico conceito"
o apreensivo (apprehcnsirns) e o judicativo                  (Logik,  17). Kant, porm, considera que a uni-
(jiidicatirus). Atravs deste ltimo "o intelecto            dade entre as representaes estabelecida pelo
no s apreende o objeto, mas tambm assente                 J.  objetiva, ou seja, no se baseia na associa-
a ele e dissente dele, sendo um ato que s diz               o psicolgica das representaes, mas na
respeito a noes complexas, j que s assenti-              apercepo, que  a funo lgica unificadora
mos com o intelecto naquilo que acreditamos                  da conscincia em geral, comum a todos os se-
ser verdadeiro e s dissentimos daquilo que                  res pensantes. Este  o sentido da definio que
acreditamos ser falso" (In Sent., Prol., q. 1 o,             se encontra expressa de vrias maneiras na
QuodL, ITI, q. 8). Nesse sentido, o ato judicativo            Crtica da Razo Pura; p. ex., quando se diz
 a aceitao ou a recusa de uma proposio                  que "o J. outra coisa no  seno o modo de
(ou de uma demonstrao); em outros termos,                  reintegrar conhecimentos dados na unidade
 a crena (v.). Vestgios ou repeties dessa               objetiva da apercepo" (Crt. R. Pura,  19).
doutrina podem ser encontrados em autores                    Deste modo, uma operao subjetiva (por per-
mais recentes. Na Psychologie vom empirischen                tencer ao sujeito, mas objetiva por ser universal
Slandpunkt (IK7\) Franz Brentano dividia a                   ou comum, em Kant  fundamento do J. e de
atividade psquica em duas classes: a da repre-              sua validade.
sentao, qtie  a manifestao de um objeto, e
a do J., que  a aceitao do verdadeiro e a re-                 A doutrina de Kant determinou o predom-
cusa do falso.                                               nio da concepo do J. como ato intelectual de
                                                             sntese em toda a lgica filosfica do sc. XIX.
    Frege julgava oportuno introduzir o uso do               Essa doutrina  repetida em quase todos os tra-
sinal|- para fazer a distino entre o J. como               tados de lgica, e o monumental (leschichte
reconhecimento ou no-reconhecimento de uma                  der Logik im Abeudlande (4 volumes, 1855-70)
verdade e um mero complexo de idias (Be-                    de K. Prantl, adota constantemente a palavra J.
griffsschrift, 1879,  2, trad. in. Geach. pp. 1-2).         nesse sentido, algumas vezes com estranhos
Para Meinong, um [. distingue-se de uma repre-               efeitos anacrnicos. As especulaes lgicas do
sentao pura porque contm o momento da                     idealismo de Hegel e dos hegelianos tomam
convico e porque essa convico consiste em                como ponto de partida o conceito kantiano e
adotar a atitude de aceitao ou de recusa (liber            vem no J. a atividade que medeia entre o su-
Aunalimeu, 1902, p. 2). Pode-se considerar que a             jeito (particular) e o predicado (universal), que
doutrina de Russell trilha esse mesmo caminho,               distingue e ao mesmo tempo unifica o univer-
por considerar a proposio como uma atitude                 sal e o particular (HKGEL, Wissenschaft der
psicolgica (v. PROPOSIO).                                 Logik, III, i, 2; Ene, % 166; GKNTILK. Sistema di
JUZOS, CLASSIFICAO DOS                               593                                            JUSTIA

lgica, I, 19222, pp. 192 ssj. Para Bradley e Bo-             ao plano das proposies. A relutncia do pen-
sanquet, o sujeito autntico doj., ao qual se re-             samento contemporneo em estabelecer distin-
ferem as qualificaes ou a idia que o consti-               es rgidas entre as atividades humanas impe-
tuem,  a realidade total, ou seja, o Absoluto ou             de que se estabeleam distines ntidas entre
Conscincia (BRADLFY, Appearcmce and Reality,                 as diversas atividades judicativas. Fala-se certa-
1902-, p. 370; BOSANQIKT, Logic, I. 1888, p.                  mente de um juzo esttico, que  diferente do
294). Por outro lado, os prprios lgicos mate-               juzo intelectual ou do juzo moral, mas fala-se
mticos usaram freqentemente a palavra "}.",                 analogamente de juzo econmico, jurdico,
porm em sentido diferente, passando ento a                  etc, sem que isso implique a diversidade ou a
prevalecer o termo proposio (v.).                           respectiva autonomia de diferentes faculdades
    Contudo, foi no prprio campo cia lgica fi-              de juzo. Em geral, pode-se dizer que uma ati-
losfica que se esboou a reao contra a no-                 vidade judicativa assume o nome do campo
o de J. como operao mental. Husserl esta-                 especfico a que ela se refere, de tal forma que
beleceu inicialmente a distino entre o ato                   possvel falar de juzos atinentes a campos
judicativo e sua essncia "intencional" ou "cog-              especialssimos, que obviamente se recusam a
nitiva", que seria seu contedo objetivo (Logis-              ser considerados "formas" ou "categorias" espi-
che Utitersuchunge}!, 1900, II. V,  21), e mais              rituais.
tarde fez a distino entre o |. como noeseiy.),                  JUSNATURALISMO. Teoria do direito na-
que  o "julgar", e o J. como noema (v.), que  o             tural configurada nos scs. XVII e XVIII a par-
"julgado", o "juzo formulado" que possibilita a              tir de Hugo Grocio (1583-1645), tambm re-
considerao lgico-formal do prprio J. Am-                  presentada por Hobbes (1588-1679) e por
bos os aspectos so dados na vivncia (Erlebns)              Pufenelorf (1632-94). Essa doutrina, cujos de-
do julgar (Ideen, I.  94).                                   fensores formam um grande contingente de au-
  J U  Z O S , CLASSIFICAO D O S (in         Clus-         tores dedicados s cincias polticas, serviu de
sification vf judgments-, fr. Classification des              fundamento  reivindicao das duas conquis-
jugeinents-, ai. Einteilung der Urteile. it. Clas-            tas fundamentais do mundo moderno no cam-
sificazione dei giudizi). 1. Com esta expresso               po poltico: o princpio da tolerncia religiosa e
entende-se comumente a classificao das pro-                 o cia limitao cios poderes do listado. Desses
posies, ou seja, sua diviso em afirmativas e               princpios nasceu de fato o listado liberal mo-
negativas, universais e particulares, categricas             derno (v. LIBERALISMO). O J. distingue-se da teo-
e hipotticas, etc. Para tal significado, v. PROPO-           ria tradicional do direito natural por no consi-
SIES, CLASSIFICAO DAS.                                    derar que o direito natural represente a partici-
    2. Mais propriamente, entende-se por esta                 pao humana numa ordem universal perfeita,
expresso a diviso das atividades valorativas.               que seria Deus (como os antigos julgavam, p,
Nesse sentido, Kant distinguiu o juzo determi-               ex., os esticos) ou viria de Deus (como julga-
nante ( propriamente intelectual) do juzo refle-             ram os escritores medievais), mas que ele  a
xivo (teleolgico ou esttico). Definindo em                  regulamentao necessria das relaes huma-
geral o juzo como "faculdade de pensar o par-                nas, a que se chega atravs da razo, sendo,
ticular como contido no geral", Kant considera                pois. independente da vontade de Deus. As-
que no juzo determinante  dacio o geral (a re-              sim, o J. representa, no campo moral e poltico,
gra, o princpio, a lei), cabendo subsumir-lhe o              reivindicao da autonomia da razo que o
particular (o mltiplo sensvel), enquanto no                 cartesiani.smo afirmava no campo filosfico e
juzo reflexivo  dado o particular (as coisas na-            cientfico (v. DIREITO).
turais) cabendo encontrar o geral ao qual ele                    JUSTIA (gr. SiKatoavn; lat. Justitia; in.
est subsumido, ou seja, o fim no qual as coisas              Justice, fr. Justice, ai. Gerechtigket; it. Giusti-
so reintegrves mediante um conceito (juzo                 zia). Em geral, a ordem das relaes humanas
teleolgico) ou imediatamente, sem conceito                   ou a conduta de quem se ajusta a essa ordem.
(juzo esttico) (Crl. do juzo, Intr..  IV). Essas         Podem-se distinguir dois significados princi-
distines pertencem efetivamente ao plano de                 pais: 1'-' J. como conformidade da conduta a
diviso dos juzos, como atividades valorativas,              uma norma; 2" }. como eficincia de uma nor-
enquanto as demais distines que Kant faz,                   ma (ou de um sistema de normas), entenden-
como entre juzos analticos e sintticos ou as               clo-se por eficincia de uma norma certa capa-
que se encontram na tbua dos juzos que ele                  cidade de possibilitar as relaes entre os
d no  9 da Crtica da Razo Pura, pertencem                 homens. No primeiro significado, esse conceito
JUSTIA                                               594                                               JUSTIA

 empregado para julgar o comportamento hu-                 gure a manuteno dos pactos, no existe J.
mano ou a pessoa humana (esta ltima, com                   nem injustia (Levath., 1, 15). Mas tambm nes-
base em seu comportamento). No segundo sig-                 te caso a J. no passa de conformidade a uma
nificado,  empregado para julgar as normas                 regra, mesmo em se tratando de tima regra
que regulam o prprio comportamento. A pro-                 simplesmente pactuada. Mesmo a interpreta-
blemtica histrica dos dois conceitos, ainda               o feita por Kant da definio romana reduz a
que freqentemente interligada e confundida,                J. ao respeito a uma norma j estabelecida: "Se
 completamente diferente.                                  aquela frmula fosse traduzida por 'dar a cada
    1Q No primeiro significado, a J.  a conformi-          um o que  seu', estaria dizendo um absurdo,
dade de um comportamento (ou de uma pes-                    pois no  possvel dar a algum o que j tem.
soa em seu comportamento) a uma norma; no                   Para ter sentido deve ser assim expressa: inclui-
mbito deste significado, a polmica filosfica,            se numa sociedade em que a cada tim possa
jurdica e poltica versa apenas sobre a natureza           ser garantido o que  seu contra qualquer ou-
da norma que  tomada em exame. Esta pode                   tro" (Lex jitstitiae) (Met. der Sitten, I, Diviso
ser de fato a norma natural, a norma divina ou              da doutr. do Dir., A). Por outro lado, tambm
a norma positiva. Aristteles diz: ''Uma vez que            aqueles que no vem no conceito de ). nada
o transgressor da lei  injusto, enquanto  justo           mais alm da tentativa de justificar determina-
quem se conforma  lei,  evidente que ttido                do sistema de valores, pretendendo expungi-lo
aquilo que se conforma a lei  de alguma for-               da teoria cientfica do direito, utilizam ou adap-
ma justo: cie fato, as coisas estabelecidas pelo            tam a mesma noo de justia. Kelsen diz: "J.
poder legislativo conformam-se  lei e dizemos              significa a manuteno de uma orcienao po-
que cada uma delas  justa" (/:/. nic, V, f, 1129           sitiva mediante sua conscienciosa aplicao.
b 11). Neste sentido, segundo Aristteles, a J.             Ela  J. segundo o direito. A proposio se-
 a virtude integral e perfeita: integral porque            gundo a qual o comportamento de um indiv-
compreende todas as outras, perfeita por-                   duo  justo ou injusto no sentido de ser jurdico
que quem a possui pode utiliz-la no s em                 ou antijurdico significa que seu comportamen-
relao a si mesmo, mas tambm em relao aos               to corresponde ou no  norma jurdica que 
outros (Ibicl., 1129 b 30). Mas tambm as duas              pressuposta como vlida pelo sujeito judicante
formas da J. particular que Aristteles enumera,            por pertencer a uma ordenao jurdica positi-
que so a distributiva (v. DISTRIBUTIVO) e a cor-           va" (General Theory, cit., I, I, A, c, 5, trad. it.. p.
retiva ou comutativa (v. COMITATIVO), consis-               14). Esse conceito de J. no est submetido
tem em conformar-se a normas, mais precisa-                 s conseqncias resultantes das diferenas,
mente s que prescrevem a igualdade entre os                mesmo as mais substanciais, entre as doutri-
mritos e as vantagens ou entre as vantagens e              nas do direito. Qtier se entenda a norma como
as desvantagens de cada um. A definio de J.               norma de direito natural, quer como norma
feita por Ulpiano, adotada pelos jurisconsultos             moral oti de direito positivo, a J.  sempre
romanos (Dg.. i, 1, 10) como "vontade cons-                considerada conformidade do comportamento
tante e perptua de dar a cada um o que  seu"               norma.
 outra maneira de expressar a noo de justi-
a como conformidade  lei, visto pressupor                     2" No segundo conceito, a J. no se refere ao
que o que cabe a cada um j est determinado                comportamento ou  pessoa, mas  norma; ex-
por uma lei. Kelsen tachou essa definio de                pressa a eficincia da norma, sua capacidade
tautolgica por no conter indicao alguma                 de possibilitar as relaes humanas. Neste ca-
sobre o que  o "seu" de cada um (General                   so, obviamente, o objeto do juzo  a prpria
1'heoiy of Laiv and State, 1945, 1, I, A, c, 2); na
                                                            norma, e desse ponto de vista as diferentes teo-
realidade, prescreve apenas a conformidade a                rias da J. so os diferentes conceitos do fim cm
uma lei ou regra que estabelea exatamente                  relao ao qtial se pretende medir a eficincia
aquilo que cabe a cada um. A noo de con-                  da norma como regra para o comportamen-
formidade  lei como definio de J.  uma                  to intersubjetivo. Plato foi o primeiro a insis-
constante mesmo naqueles que se opem ao                    tir na J. como instrumento. Scrates pergunta a
conceito tradicional de justia. Assim, Hobbes              Trasmaco: Acreditas por acaso que uma ci-
afirma que a J. consiste simplesmente na ma-                dade, um exrcito, um grupo de bandidos ou de
nuteno dos pactos, e que. portanto, onde                  ladres, ou qualquer outro amontoado de pes-
no h Estado como poder coercitivo que asse-               soas que se ponha de acordo para fazer algo
                                                            de injusto, poderia chegar a fazer alguma coisa
JUSTIA                                               595                                          JUSTIA

se os seus integrantes cometessem injustia uns             a, mantendo a ordem na sociedade" (Inq.
para com os outros? -- No, de certo, respon-               Cone. Morais, III, 1). A reduo da |.  utilida-
deu Trasmaco. -- E se no cometessem injus-                de, e no  felicidade, tem a caracterstica de
tia, no seria melhor? -- Seguramente. -- A                eliminar o carter de fim ltimo ou valor abso-
razo disto, Trasmaco,  que a injustia d ori-           luto, levando a consider-la como soluo (s
gem a dios e lutas entre os homens, enquanto               vezes a menos pior) cie determinadas situaes
a J. produz acordo e amizade" (Rep., 351 od).               humanas.  o que pensa Hume, corrigindo
Neste trecho a J.  desvinculada de qualquer                nesse aspecto o jusnaturalismo racionalista de
objetivo que tenha valor privilegiado: ela no              Grocio, que  J. atribua valor absoluto, e s
passa de condio para possibilitar a convivn-             normas que a garantem, absoluta racionalida-
cia e a ao conjunta dos homens: condio                  de, pois para ele "as relaes mtuas de socie-
que vale para qualquer comunidade humana,                   dade" possibilitadas por tais normas eram fins
mesmo para um grupo de bandidos. Da mes-                    em si mesmas, porque objeto ltimo de desejo
ma forma, no mito exposto a Protgoras no di-              (De jure belli acpacis, Intr.,  16).
logo homnimo, Plato diz que, enquanto os                      c) Foi Kant quem identificou J. e liberdade.
homens no tiveram a arte da poltica, que                  "A tarefa suprema da natureza em relao 
consiste no respeito reciproco e na J., no pu-             espcie humana"  uma sociedade em que a li-
deram reunir-se em cidades e eram destrudos                berdade sob leis externas esteja unida, no mais
pelas feras. "Apesar de ajud-los a obter ali-              alto grau possvel, a um poder irresistvel, o
mento, a arte mecnica no lhes era suficiente              que  uma constituio civil perfeitamente jus-
para combater as feras porque eles no possu-              ta (Idee zn einer allgemeinen Geschicbte in
am a arte poltica, de que faz parte a arte da              weltbrgerlicber Absicht, 1784, Tese V). Segun-
guerra" (Prot., 322 b-c). Com mais freqncia,              do esse ponto de vista, o luminisino  a condi-
porm, filsofos e juristas no mediram a J. das            o que derivar da progressiva eliminao dos
leis tomando como referncia a sua eficincia               obstculos opostos  liberdade da espcie hu-
geral no que diz respeito s possibilidades de              mana (Md., Tese VIII).
relaes humanas, mas a sua eficincia em ga-                   d) Por fim, alm d felicidade, da utilidade
rantir este ou aquele objetivei considerado fun-            e da liberdade, os filsofos tomaram freqen-
damental, ou seja, como valor absoluto. No                 temente a paz como medida ou critrio da J.
faltou portanto quem julgasse impossvel defi-              de uma ordenao normativa. Esse parmetro
nir a J. nesse sentido, limitando-se a propor a             foi introduzido por Hobbes: para ele,  justa
exigncia genrica de que, para ser justa, uma              a ordenao que garanta a paz, afastando os
norma deve adequar-se a um sistema de valo-                 homens do estado de guerra de todo.s contra
res qualquer (CH. PF.RKLMAN, De Ia justice, 1945,           todos, em que vivem no "estado natural". De
trad. jt., 1959). Todavia, os fins aos quais se re-         fato. para Hobbes a primeira lei da natureza, a
correu com mais freqncia so: a) felicidade;              primeira das normas que permite afastar o ho-
b) utilidade; c) liberdade; d) paz.                         mem do estado de guerra  a que prescreve
    a) Foram os filsofos que mais recorreram              perseguir a paz. "Para a igualdade de foras e
felicidade. Aristteles diz: "As leis promulgadas           de todas as outras faculdades humanas, os ho-
sobre qualquer coisa visam  utilidade comum                mens qtie vivem no estado natural, isto , no
a todos ou  utilidade de quem se destaca pela              estado de guerra, no podem pretender que
virtude ou por outra forma; desse modo, com                 sua conservao seja duradoura. Por isso, ten-
uma s expresso definimos como justas as                   der para a paz enquanto brilhar alguma espe-
coisas que propiciam ou mantm a felicidade                 rana de obt-la, e s recorrer  guerra quando
ou parte dela na comunidade poltica" (Et. nic,             isso no for possvel,  o primeiro ditame da
V. 1, 1129 b 4). A identificao do bem comum               boa razo, a primeira lei da natureza" (De cwe,
com a bem-aventurana eterna  um caso par-                 I,  15). No sc. XX. Kelsen contraps  J. como
ticular dessa doutrina (S. TOMS, De regimine               "ideal irracional" a paz como medida emprica
princpum, III, 3).                                         da eficincia das leis: "Uma teoria pode fazer
    b) J na antigidade (p. ex., para os sofistas          uma afirmao com base na experincia: s
e para Carnades) a J. foi identificada com a               uma ordenao jurdica que no satisfaa aos
utilidade. No mundo moderno, Hume imps                     interesses de uns em detrimento de outros,
eficazmente esse ponto de vista: "A utilidade e             mas que chegue a uma conciliao entre os in-
o fim da J.  propiciar a felicidade e a seguran-           teresses opostos, que reduza ao mnimo seus
JUSTIA                                               596                                       JUSTIFICAO

possveis atritos, pode contar com Lima existn-            validade do saber cientfico no mundo mo-
cia relativamente duradoura. S uma ordena-                 derno: a autocorrigibilidade. Assim como o
o dessa espcie estar em condies de as-                conhecimento cientfico se define como tal s
segurar a paz social em bases relativamente                 quando organizado com vistas  sua prpria
permanentes a todos os que se lhe submetem.                 verificao e, portanto,  sua autocorrigibilida-
Embora o ideal de J. em seu significado origi-              de, tambm uma ordenao normativa define-
nrio seja totalmente diferente do ideal de paz,            se como tal (ou seja, consegue ser eficiente
existe ntida tendncia a identificar os dois               como ordenao) s quando  organizada com
ideais ou ao menos a substituir o ideal de J.               vistas  sua eventual autocorreo. Os dois cri-
pelo de paz" (General Theory, cit., 1. I, A, c, 4;          trios citados, com as variaes devidas, tam-
trad. it., p. 14).                                          bm podem integrar-se. Podem conferir  pala-
    Essa tendncia, partilhada por muitos que               vra J. um significado to distante do ideal
julgam irrealizvel o ideal de J. como felicidade           transcendente e da aspirao sentimental quan-
ou liberdade, tende a julgar a eficincia das               to da justificao interessada das ordenaes
normas com base em sua funcionalidade nega-                 em vigor. No se deve esquecer tambm que a
tiva, ou seja. em sua capacidade cie evitar con-            mais eficaz e radical defesa de determinada or-
flitos. Sem dvida, conforma-se mais ao es-                 denao ne varietur no foi feita pela demons-
prito positivo de uma teoria do direito que                trao, ou tentativa de demonstrao da J. de
pretenda ter como objeto nada mais do que a                 tal ordenao, mas simplesmente ignorando-se
tcnica da coexistncia humana. Mas na reali-               e eliminando-se a prpria noo de justia. De
dade o jusnaturalismo moderno, a partir de                  fato,  isso o que acontece na filosofia do direi-
Grcio. j havia alcanado, pelo menos nesse                to de Hegel. que considera o Estado como
aspecto, uma generalizao maior, exigindo                  Deus realizado no mundo e nega at a possibi-
que as normas do direito natural servissem tan-             lidade de discutir a ordenao jurdica sob
to para a paz quanto para a guerra, e que pu-               qualquer aspecto. Hegel dizia: "O direito  algo
dessem, pelo menos em parte, valer para qual-               sagrado em geral porque  a existncia tio
quer condio ou situao humana. Portanto,                 Conceito Absoluto" (Fil. do dir.,  30). O em-
cio ponto de vista cia teoria geral do direito,             prego do conceito de J. no segundo significado
mesmo a paz pode mostrar-se como objetivo                    o exerccio do juzo, que deve ser possvel
restrito demais para julgar da eficincia (isto .          para todos os homens livres, sobre as orde-
da J.) das normas do direito. A guerra, assim               naes normativas que os regem. Que hoje
como os conflitos individuais e sociais, as com-            esse juzo no pode ser exercido com base em
peties, etc, constituem situaes humanas                 noes tautolgicas ou ideais quimricos  fato
recorrentes, mesmo que indesejveis; portanto,              reconhecido. Mas tambm  fato que ele pode
um juzo objetivo e sem preconceitos sobre as               e deve tornar-se objeto de uma disciplina espe-
normas de direito deve medir sua eficincia                 cfica que o torne positivo e o mais rigoroso
tambm com relao a tais situaes e s pos-               possvel, sem subtra-lo s suas condies em-
sibilidades de super-las. Na realidade,  poss-           pricas. Desse forma, o conceito de J. ainda po-
vel aduzir apenas dois critrios como funda-                de reassumir a funo que sempre teve: a de
mento de um juzo objetivo sobre ordenaes                 instrumento de reivindicao e de libertao.
normativas, visto que s eles valem no como                Para a distino das vrias espcies de J., v. os
fins, absolutos ou relativos, mas como condi-               verbetes: ATRIMTIVA, JI:STIA; COMI:TATIVO; DIS-
es c/e validade de uma ordenao qualquer.
                                                            TRIBITIVO.
O primeiro, j bastante conhecido na tradio
filosfica,  o de igualdade como reciprocida-                  JUSTIFICAO (in. Justijicalion; fr. Justi-
de, segundo o qual cada um deve esperar dos                 ficatioiv, ai. Rechtfertigmig; it. Gitstificazione).
outros tanto quanto os outros esperam dele. Na               Este termo, de origem teolgica, foi introduzi-
maioria das vezes em que a tradio filosfica              do na filosofia como sinnimo da deduo
deiniu a J. como igualdade (o que fez com                  kantiana (v. DHIH'O TKANSUNDKNTAL). A J.
freqncia a partir dos pitagricos). pretendeu             concerne  questo do direito de usar certos
ressaltar esse mesmo carter da _[., o de reci-             conceitos. Essa questo  fundamento da pos-
procidade (cf. p. ex.. HOHBF.S, Leriath., I. 14; De         tura crtica da filosofia kantiana. Kant dizia:
 eive, III,  6). O segundo critrio pode ser de-           "Todos os metafsicos esto solene e legitima-
duzido do carter fundamental que garante a                 mente suspensos das suas funes enquanto
                                                            no responderem satisfatoriamente  pergunta:
JUSTIFICAO                                        597                                   JUSTIFICAO

'como so possveis os conhecimentos sintti-             a sua satisfao ulterior no que diz respeito 
cos a priori?', pois s essa resposta pode auto-          forma, e essa forma , em geral, a necessida-
riz-los a falar em nome da razo pura" (Prol.,           de" (Ene,  9). E acrescenta: "Esse pensamento
5). Autorizao e legitimao so os termos              do modo de conhecimento, que  conheci-
que Kant emprega para exprimir a exigncia                mento filosfico, considerado tanto sob o as-
de J. Segundo Kant, o fato de um conceito ser             pecto de sua necessidade quanto de sua capa-
empregado no  J. do direito de empreg-lo.              cidade de conhecer os objetos absolutos,
Fm face dos conceitos  preciso distinguir,               precisa ser justificado. Mas a prpria J.  um
como fazem os juristas, uma questo de fato e             conhecer filosfico que, por isso, se realiza s
uma questo de direito (quid in ris). A ltima ,         dentro da filosofia" (Ibid.,  10). Portanto, o
precisamente, o objeto da J. ou deduo. A pro-           conceito de J. d lugar a duas alternativas, se-
psito, Kant distingue uma J. emprica, umaj.             gundo a modalidade que se exija dela: Io a de-
transcendental e uma J. metafsica. A deduo             monstrao da necessidade de um conceito, ou
emprica consiste em mostrar de que modo se               seja, a demonstrao de que ele no pode no
chega a um conceito por meio da experincia               ser e de que s pode ser do modo como 6; 2"
e da reflexo sobre ela. A deduo transcen-              o esclarecimento da possibilidade de um con-
dental consiste em mostrar de que modo os                 ceito em relao a um campo determinado, ou
conceitos a priori podem referir-se aos objetos.          seja, a determinao da possibilidade de uso
A deduo metafsica consiste em mostrar "a               do conceito. A filosofia contempornea inclina-
origem a priori das categorias em geral, medi-            se a admitir e a usar esse segundo significado
ante seu perfeito acordo com as funes lgi-             do termo, o nico que no depende de um
cas do pensamento" (Crt. K. Pura,  13, 26).             ponto de vista idealista, considerando que um
Para Kant a verdadeira J. de um conceito  a              conceito  justificado nos dois casos seguintes:
deduo transcendental, que consiste em mos-              a) quando seu uso em contexto formal (mate-
trar a possibilidade da referncia do conceito a          mtico ou lgico) no comporte contradio;
um objeto emprico. Assim sendo, Hegel mu-                b) quando o conceito possa referir-se a um
dou o conceito de J. quando a identificou com             objeto verificvel (como ocorre nos contextos
a exigncia de mostrar a necessidade do con-              reais, isto , nos campos dos conhecimentos
ceito. "A razo subjetiva" -- disse ele -- "exige         empricos).
                                            K

   K. Na lgica de Lukasiewicz, a letra K         KENNETICO (in. Kennetic). Neologismo
usada para indicar a conjuno mais comumente   cunhado por A. F. Bentley e tirado do escocs
simbolizada com um ponto ".". Cf. A. CHURCH,     ken ou kenning. que significa "conhecer", para
Introduction to Mathemacal Logic, ns 91.        marcar a indagao transacional {Inquiry into
   KANTISMO. V. CRITICISMO.                     Inquiries, 1954) (v. TRANSAO).
                                               L

    L. Posposto ou anteposto a termos como         para reivindicar a autonomia da esfera religiosa
conceito, verdade, etc, significa lgico. Em ge-   em relao  poltica. Durante muitos sculos
ral, como diz Carnap, um L-termo, p. ex., "L-      foi doutrina oficial da Igreja e ainda no sc. XII
verdadeiro", aplica-se toda vez que o termo ra-    o canonista Estvo de Tournai expressava-a
dical correspondente, p. ex., ''verdadeiro", se    com extrema clareza (Summa decretorum,
aplique com base em razes simplesmente l-        Intr.). O princpio expresso nesta doutrina con-
gicas, em oposio a razes de fato (Introduc-     tinua o mesmo quando os papis se invertem
tion to Semantics,  f 4).                         ou essa doutrina  invocada para defender o
    LAICISMO (in Laicism; fr. Laicisme; it.        poder poltico contra o eclesistico, como faz
Ixiicismo). Com este termo entende-se o princ-    Joo de Paris em seu tratado Sobre o poder r-
pio da autonomia das atividades humanas, ou        gio e papal (1302-3), como fez Dante alguns
seja, a exigncia de que tais atividades se de-    anos mais tarde, em De monarchia; e como
senvolvam segundo regras prprias, que no         fizeram Marclio de Pdua no Defensor pacis
lhes sejam impostas de fora, com fins ou inte-     (1324) e Guilherme de Ockham em suas obras
resses diferentes dos que as inspiram. Esse        polticas. Certamente as doutrinas polticas e
princpio  universal e pode ser legitimamente     eclesisticas desses escritores eram diferentes e
invocado em nome de qualquer atividade hu-         vez por outra opostas, mas est claro que a
mana legtima, entenciendo-se por "legtima"       teoria dos dois poderes nada mais  que um
toda atividade que no obste, destrua ou im-       apelo  autonomia das respectivas esferas de
possibilite as outras. Portanto, o L. no pode     atividade e que a fora do L. no est no parti-
ser entendido apenas como reivindicao de         cularismo das doutrinas, mas no reconheci-
autonomia do Estado perante a Igreja, ou me-       mento de sua autonomia, que  o princpio do
lhor, perante o clero, pois, como sua histria     L. Esse princpio tornou-se exigncia funda-
demonstra, j serviu  defesa da atividade reli-   mental na vida civil nas comunas italianas, france-
giosa contra a poltica e ainda hoje, em muitos    sas, belgas e alems (cf. SALVKMIM, Studi storici,
pases, tem essa finalidade; tambm tem o fim      Florena, 1901; PIRENNE, Les villes du Moyen
de subtrair a cincia ou, em geral, a esfera do    ge, Bruxelas, 1927; DK LAGARDE, La naissance
saber s influncias estranhas e deformantes       de Vesprit laique, ou dclin du Moyen Age,
das ideologias polticas, dos preconceitos de      Louvain-Paris, 3a ed., 1956); o Renascimento e
classe ou de raa, etc.                            o Iluminismo no passam de duas etapas su-
                                                   cessivas de seu predomnio crescente na vida
    O Papa Gelsio I, que, no fim do sc. V, ex-   poltica e civil do Ocidente.
punha num tratado e em algumas cartas a teo-
ria denominada "duas espadas", foi provavel-            Mas, como se disse, o princpio do L. no
mente o primeiro a recorrer explicitamente ao      vale somente nas relaes entre a atividade po-
princpio do L, desconhecido na Antigidade        ltica e a religiosa. Na primeira metade do sc.
clssica porque esta no conheceu conflitos de     XIV, Ockham reivindicava com energia a auto-
princpios entre as vrias atividades humanas.     nomia da atividade filosfica. A propsito da
A teoria das duas espadas, ou seja, de dois po-    condenao de algumas proposies de S. To-
deres distintos, ambos derivados de Deus, (o       ms pelo Bispo de Paris, em 1277, ele dizia:
do papa e o do imperador), servia a Gelsio I      "As asseres, principalmente filosficas, que no
LAICISMO                                              600                                           LATENTE

concernem  teologia no devem ser condena-                 diminuir e a destruir os direitos de liberdade
das ou proibidas, pois nelas qualquer um deve               dos cidados. No plano das inter-relaes das
ser livre para ciizer livremente o que lhe apraz"           atividades humanas, o L. desempenha o mes-
(Dialogus inter magistnim et cliscipulum de                 mo papel da liberdade no plano das inter-rela-
imperalomm et pontificum potestate, I, II. 22).             es humanas:  o limite ou a medida que ga-
Essa foi a primeira e certamente uma das mais               rante a essas atividades a possibilidade de orga-
enrgicas afirmaes do princpio do L. em fi-              nizar-se e desenvolver-se, assim como a liber-
losofia, e deve-se a um frade franciscano do sc.           dade  o limite e a medida que garante s rela-
XIV. No sc. XVII Galilei afirmava o mesmo                  es humanas a possibilidade de manter-se e
princpio em relao  cincia, opondo-se aos               desenvolver-se.
limites e obstculos que a autoridade eclesisti-               Considerado em sua estrutura conceituai e
ca pudesse impor  cincia. A Sagrada Escritura             histrica, o princpio do L. no tem qualquer ca-
e a natureza -- dizia ele -- procedem ambas                 rter de antagonismo a qualquer forma de reli-
do Verbo Divino, mas, enquanto a palavra de                 giosidade, nem mesmo ao catolicismo. Em pri-
Deus teve de adaptar-se ao limitado entendi-                meiro lugar, ele freqentemente foi til aos ca-
mento dos homens, a natureza  inexorvel e                 tlicos na defesa da autonomia de sua atividade,
imutvel, e nunca transgride os termos das leis             constituindo ainda hoje a poltica oficial do cato-
que lhe foram impostas, pois pouco lhe impor-               licismo nos pases em que ele no tem partido
ta se as suas razes recnditas so compreen-               poltico  disposio, como p. ex. nos pases
didas ou no pelos homens: por isso. "os efei-              anglo-saxes. Em segundo lugar,  interesse
tos naturais que a sensata experincia nos po-              dos catlicos, como de todos, que a adminis-
nha diante dos olhos ou que as necessrias de-              trao do Estado, as cincias, a cultura, a educa-
monstraes nos levem a concluir no devem                  o e, em geral, as esferas da atividade humana
por razo alguma ser postos em dvida nem                   sejam organizadas e regidas por princpios que
condenados, em nome cie trechos da Escritura                possam ser reconhecidos por todos, que sejam
cujas palavras tenham aparncia diferentes"                 independentes da inevitvel disparidade de
(Lett. alia Granel. Cristina, em op., V, p. 316).           crenas e ideologias e que, por isso, tornem efi-
Galilei reivindicava assim a autonomia da cin-             cazes e fecundas as atividades que neles se fun-
cia, nos mesmos termos em que Ockham rei-                   dem. F. bastante bvio que as administraes
vindicara a autonomia da filosofia. O princpio             polticas que favorecem ceilos grupos de cida-
do L. foi fundamento da cultura moderna e                  dos em prejuzo de outros, em vista de suas
indispensvel  vida e ao desenvolvimento de                crenas religiosas, so simplesmente ineficien-
todos os seus aspectos. Os nicos adversrios               tes e corruptas, no podendo reivindicar mri-
autnticos do L. so as correntes polticas totali-         tos "religiosos". Da mesma forma, os poderes ju-
trias, que pretendem apoderar-se do poder                  dicirios que no aplicam com escrpulo e
poltico e exerc-lo com o nico objetivo de                eqidade a lei vigente do Estado, no ofere-
conseiv-lo para sempre. Tais correntes preten-             cem garantias a ningum, porque tambm so
dem de fato assenhorear-se do corpo e da alma               ineficientes e corruptos. A cincia que serve a
do homem, para impedir qualquer crtica ou                  interesses de partidos, crenas e ideologias no
rebeldia. Embora o Romantismo do sc. XIX                   pode ter mritos de nenhum tipo, no  uma
haja encorajado sua persistncia ou revivescn-             cincia. Poderia ser comparada a uma medicina
cia, hoje essas correntes sofrem a oposio da              que tomasse como critrio de cliagstico, prog-
mesma situao objetiva que exige, em qual-                 nstico e cura os desejos do paciente ou de ou-
quer campo, o desenvolvimento do saber posi-                tras pessoas; uma medicina assim estruturada
tivo: esse saber, por sua vez, exige a autonomia            seria um caso de cincia "no laica", clerical ou
de suas regras, o que  L. Por otitro lado, as              partidria. O L. no atende ao interesse deste ou
correntes polticas totalitrias podem ser facil-           daquele grupo poltico, religioso ou ideolgi-
mente reconhecidas exatamente por sua atitu-                co, mas ao interesse de todos. Contanto que o
de em relao ao princpio do L: quer se apoie              interesse de todos seja o desenvolvimento har-
numa confisso religiosa, quer se apoie numa                mnico das atividades que asseguram a sobrevi-
 ideologia racista, classista ou cie qualquer outra         vncia do homem no mundo.
 espcie, tendem, em primeiro lugar, a diminuir
 e em ltima instncia a destruir a autonomia                  LAMARQUISMO. V. FYOUO.
 das esferas espirituais, assim como tendem a                  LATENTE (lat. Latem). F. Bacon chamava
                                                            de L o processo natural que vai da causa efi-
LATITUDINARIO                                                601                                                   LEI

ciente da matria sensvel  forma, ou seja, o                     rigorismo (v.). Fora da moral, consiste em dar
processo de constituio da forma (Nov. Org.,                      valor excessivo s prescries ou aos procedi-
II, 1). Os processos psquicos latentes dos quais                  mentos formais.
falava a psicologia do sculo passado hoje so                         LEI (gr. vito; lat. Lex; in Law; fr. Loi; ai.
denominados inconscientes ou subconscientes.                       Gesetz-, it. iegge), Uma regra dotada de necessi-
    LATITUDINARIO (in Latitudinariam fr.                           dade, entendendo-se por necessidade: V- im-
Lattudinaire, ai. LatitiidinarieK it. Latitudina-                 possibilidade (OLI improbabilidade) de que a
ro). Kant denominou com este termo aquele                         coisa acontea de outra forma; ou 2a uma fora
que, em alguns casos, admite a neutralidade                        que garanta a realizao da regra. A noo de
moral, ou seja, a existncia de atos ou carac-                     L.  distinta da noo de regra e de norma. A
teres humanos indiferentes do ponto de vista                       regra (que  termo generalssimo) pode ser
moral: "Estes so os L cia neutralidade, para                      isenta de necessidade; so regras no s as L.
quem o homem no  bom nem mau, poden-                             naturais ou as normas jurdicas, mas tambm as
do ser denominados indiferentistas, ou os L. da                    prescries da arte ou da tcnica. Norma  uma
coalizo, para quem o homem  ao mesmo                             regra que concerne apenas s aes humanas e
tempo bom e mau, podendo ser denominados                           no tem por si valor necessitante: portanto no
sincretistas." O oposto de L.  rigorista, ou seja,                so normas as leis naturais e as regras tcnicas,
aquele que no admite neutralidade moral al-                       e as normas, p. ex. de natureza moral, no so
guma (Religion, I, Observao). Na igreja ingle-                   coercitivas como as leis jurdicas. Desse ponto
sa do sc. XVII, o substantivo indicar os de-                     de vista, h apenas duas espcies de L: as L.
fensores de Lima interpretao mais aberta dos                     naturais e as L. jurdicas. Como a noo de L.
dogmas tradicionais.                                               jurdica foi analisada no verbete DIREITO, resta-
    LAXISMO. V. RIGORISMO.                                         nos analisar a noo de L. natural. Podemos
    LEALDADE (in Loyally). Dedicao volun-                        distinguir as seguintes interpretaes funda-
tria, prtica e completa de uma pessoa a Lima                     mentais: ly L. como razo; 2" L. como unifor-
causa. Foi assim que F. Royce a definiu em seu                     midade; 3" L. como conveno; 4y L como relao
livro Filosofia da L. (1908), assumindo-a como                     simblica.
princpio geral da tica. A L. inclui solidarieda-                     1L> A noo de L. como razo surgiu na
de para com os outros indivduos, ou melhor,                       Grcia antiga, com a transposio para o mun-
para com a comunidade de indivduos, e con-                        do natural do conceito cie justia OLI de ordem
tm o critrio para julgar o valor das causas,                     que havia sido elaborado para o mundo huma-
visto que permite reconhecer como inaceitvel                      no (cf. JAKGKR, Paidia, I, cap. 6; trad. it., I, pp.
uma causa que impossibilite ou negue a L.                          212 ss.). Anaximandro foi o primeiro a trans-
alheia. Portanto, segundo Royce, a L.  L.  o                     por a noo de clike do mundo da polis p-M o
critrio da vida moral.                                            mtinclo da natureza, entendendo o vnculo cau-
    LEGALIDADE (in Legality- fr. Lga/it: ai.                     sai de nascimento e morte das coisas como
Legalitl, Gesetzlichkeit; it. Legalit). Confor-                  uma L. que rege uma demanda judiciria, em
midade de uma ao  lei. Kant distinguiu a L.                     que todos os seres -- diz ele -- "devem sofrer
assim entendida da moralidade propriamente                         as conseqncias de sua injustia na ordem do
dita: "A conformidade ou desconformidade pu-                       tempo" (Fr. 9, Diels). Herclito, por sua vez,
ra de Lima ao em relao  lei, sem referncia                   concebia essa L. como a prpria razo ou
ao mbil da ao, denomina-se L. (conformida-                      Logos: dela "se alimentam todas as L. humanas"
de  lei); quando, porm, a idia do dever deri-                   (Fr. 1 H Diels). Conquanto Plato (cf. Tim., 83 e)
vada da lei  ao mesmo tempo mbil da ao,                        e Aristteles (De cael, 1, 1, 268 a 13) usem
tem-se a moralidade (doutrina moral)" (Met.                        s excepcionalmente a expresso "L. natural",
derSilten, Intr.,  III; cf. Crt. R. Prt., I, cap. III).         foi graas a eles que o conceito de racionalida-
Com forma mais atenuada, essa distino fora                       de da natureza e de expressibilidade dessa ra-
introduzida por S. Toms, para distinguir a nor-                   cionalidade em proposies universais e neces-
ma jurdica da norma moral (v. DIRITIO); Kant                      srias acabou prevalecendo na histria da filo-
utiliza-a com a mesma finalidade em Metafsica                     sofia. Lucrcio utilizou a expresso "pacto da
dos costumes.                                                      natureza" (foedus naturae: De rer. nat., V, 57,
    LEGALISMO (in legalism, fr. Lgalisme-, ai.                    924; VI, 906), e o conceito estico de destino
 I.egalisrnus; it. Legalismo). Atitude de obser-                   ou providncia  expresso do mesmo ponto
vncia literal da lei. Na moral,  o mesmo que                     cie vista (DiG. I... VII, 149). Plotino admitia,
LEI                                                  602                                                 LEI

inclusive para as coisas que escapam ao desti-              qual se reduz a relao causai. A conexo ha-
no, uma lei que dimana diretamente do Intelec-             bitual e constante entre eventos diversos auto-
to Divino (Enn., IV, 3, 15). A subjetivao das            riza a falar de causalidade, permite a previso
L. da natureza, realizada por Kant na tentativa            de eventos futuros e exclui o milagre (Ibid.,
de ver a "fonte" delas no intelecto, mais preci-           VII, 2). Essa concepo era adotada por Comte
samente nas formas a priori do intelecto (cate-            e, com ele, pela cincia positivista. "O carter
gorias), no muda muito o conceito de L. natu-             fundamental da filosofia positiva" -- dizia
ral que, tambm ele, continua sendo expresso              Comte -- " considerar todos os fenmenos
da racionalidade da natureza, ainda que de                 como sujeitos a L. naturais invariveis, cuja des-
uma racionalidade introduzida na natureza (co-             coberta precisa e cuja reduo ao mnimo n-
mo fenmeno) pelo prprio intelecto. Kant diz:             mero possvel constituem o objetivo de todos
"As L. naturais, se consideradas como princ-              os nossos esforos." Essas L. no consistem em
pios do uso emprico do intelecto, possuem ao              expor "as causas geradoras dos fenmenos",
mesmo tempo cunho de necessidade e, portan-                mas s expressam aquilo que interliga os fe-
to, pelo menos a presuno de uma determina-               nmenos mediante "relaes normais de sucesso
o que derive de princpios vlidos em si, a              e de semelhana" (Cours deph.positive, I, li.
priori e anteriormente a qualquer experincia.             I,  II). Do mesmo ponto de vista Stuart Mill
Todas as L. da natureza, sem distino, esto              considerava as L. como casos especiais da uni-
sujeitas aos princpios superiores do intelecto e          formidade da natureza. "As vrias uniformida-
aplicam tais princpios a casos particulares do            des, quando verificadas por aquilo que se con-
fenmeno. S esses princpios do o conceito               sidera uma induo suficiente, so denomina-
que contm a condio e, por assim dizer, o                das, na linguagem comum, L. da natureza.
expoente de urna regra geral, mas a experin-              Cientificamente falando, essa expresso  em-
cia d o caso que est submetido  regra"                  pregada em sentido mais restrito para designar
(Crt. R. Pura, Anal. dos princ, cap. II, sec. 3).         as uniformidades que foram reduzidas  sua
Schelling interpretava a formulao das L. natu-           expresso mais simples" (Logic, III, 4,  1). Essa
rais como a transfigurao progressiva da nature-          concepo dominou todo o positivismo clssi-
za em racionalidade: "A cincia da natureza                co e s entrou em crise com o reconhecimento
chegaria ao auge da perfeio se conseguisse               do carter econmico das L. naturais, efetuado
espiritualizar perfeitamente tocias as L. naturais         por Mach.
em L. da intuio e do pensamento. Os fen-                    3B O conceito de L. natural como conveno
menos (o material) devem desaparecer inteira-              nasce da funo econmica que Mach atribura
mente, ficando apenas as L. (o formal). Assim,             ao conhecimento cientfico, ao afirmar o car-
acontece que, quanto mais a L extrapola o                  ter subjetivo das L. naturais. S os nossos con-
campq da natureza, tanto mais se dissipa o vu             ceitos e a nossa intuio -- diz ele -- prescre-
que a envolve, os fenmenos tornam-se mais                 vem L.  natureza; "as L. naturais so as restri-
espirituais e por fim desaparecem totalmente.              es que ns, guiados pela experincia, pres-
Os fenmenos pticos nada mais so que uma                 crevemos  nossa expectativa dos fenmenos"
geometria cujas linhas so traadas por meio da            (Erkenntniss und Irrtum, cap. 23; trad. fr., p,
luz, e mesmo essa luz j tem materialidade du-             368). O progresso da cincia leva  crescente
vidosa" (System des transzendentalen Idealis-              restrio das possibilidades de previso, ou
mus, 1800, Intr.  1, trad. it., pp. 8-9). Pode-se         seja,  sua crescente determinao e preciso.
dizer que toda interpretao racionalista da               Esse reconhecimento do carter econmico ou
cincia adota at certo ponto essa tese de                 utilitrio da cincia foi sobejamente encorajado
Schelling. Desse ponto de vista, a L.  apenas             pela filosofia de Bergson e pelo pragmatismo.
expresso da racionalidade da natureza, e sua              A primeira, atribuindo  inteligncia apenas a
formulao por parte da cincia tem o objetivo             funo vital de fabricar objetos e de orientar-se
de reduzir a natureza  razo.                             no mundo natural, transformava a cincia, que
   2e A concepo de L. natural como relao                a criao da inteligncia, em "auxiliar da
constante entre os fenmenos foi proposta pela             ao" (BERGSON, La pense et le mouvant, 3a
primeira vez por Hume. Para ele, a L. natural             ed., 1934, p. 158) e no podia atribuir s L.
resultado de "uma experincia fixa e inalter-             cientficas qualquer validade teortica. O prag-
vel" (Inq. Cone. Underst., X, 1): a experincia da         matismo, por sua vez, generalizando a tese da
"conjuno constante de objetos semelhantes",              instrumentalidade da conscincia encorajava a
LEI                                                   603                                                 LEI

interpretao das L. cientficas como simples               Moritz Schilick. Utilizando a distino entre
instrumentos da orientao prtica do homem                 enunciado e proposio, que  um enunciado
no mundo. Algumas formas de espiritualismo e                dotado de significado (na medida em que real-
de idealismo interpretaram essa funo econ-               mente cumpre a funo de comunicar), Schi-
mica da cincia como sinal de sua inferioridade             lick julgou que "o contedo prprio de uma lei
teortica (e por vezes de todo o pensamento                 natural consiste no fato de que a certas leis gra-
discursivo) em relao  filosofia e aos seus r-           maticais (p. ex., de uma geometria) correspon-
gos especficos. Le Roy, levando ao extremo a              dem algumas proposies definidas como des-
crtica de Bergson, afirmou o carter conven-               cries verdadeiras da realidade". Uma vez que
cional da cincia e por isso a natureza arbitrria          esse fato  completamente invariante com rela-
de suas L. Para Le Roy, a tarefa da cincia                o a qualquer mudana arbitrria das regras
encontrar constantes teis; e encontra-as por-              gramaticais, no se pode reduzir as L. da natu-
que a ao humana no comporta preciso ab-                 reza a meras convenes lingsticas. "S as
soluta, mas exige apenas que a realidade seja               proposies so verdadeiras ou falsas, no os
aproximativamente representada, em suas rela-               enunciados. Os enunciados realmente esto
es conosco, por um sistema de constantes                  sujeitos a modificaes arbitrrias, mas isto no
simblicas denominadas L. (Science etphiloso-               diz respeito a quem se preocupa com o conhe-
phie, 1899-1900). A mesma tese, num exagero                 cimento dos fatos. Com a ajuda das regras dos
quase caricatural, pode ser encontrada em                   smbolos (cuja gramtica deve ser conhecida
Croce: "Como essas L. so construes nossas                porque sem ela os enunciados no teriam sen-
e apresentam o mvel como fixo, alm de no                 tido),  possvel chegar a proposies genu-
serem irrepreensveis nem isentas de excees,              nas, cuja verdade no depende da predileo
definitivamente no existe fato real que no                por smbolos" (Gesetz Kausalitt, und Wahr-
constitua exceo  sua L. naturalista". Isso               scheinlichket, Viena, 1948; agora em Readings
acontece porque no existem uniformidades                   inPhil. of Science, 1953, pp. 181 e ss.).
rigorosas, e um ursinho nunca  totalmente                      4S As crticas de Poincar e Schilick  tese da
semelhante aos seus pais. "Donde se poderia                 natureza convencional da L. cientfica partem
definir: as L. inexorveis da natureza so L. vio-          daquilo que se pode denominar quarta con-
ladas a todo instante; ao contrrio, L. filosficas         cepo fundamental da L, que a v como rela-
so as observadas o tempo todo. (...) As cin-              o simblica entre os fatos. Essa tese foi ex-
cias naturais, que no propiciam conhecimen-                pressa pela primeira vez por Duhem, no livro
tos verdadeiros, tm ainda menos direito (se               sobre Teoria fsica, que assim a resumiu: "Uma
lcito expressar-se assim) de falar em previso"            L. de fsica  uma relao simblica cuja aplica-
(Lgica, II, cap. 5; 4a ed, 1920, p. 218). Poin-            o  realidade concreta exige que se conhea
car pronunciou-se contra a natureza conven-                e se aceite todo um conjunto de teorias"
cional das L., em polmica com Le Roy. A L.                 (Thorie physique, 1906, p. 274). Isto quer di-
no  uma criao arbitrria do cientista, mas a            zer que os termos simblicos que uma lei inter-
expresso aproximativa ou provisria de uma                 relaciona so abstraes produzidas pelo traba-
constncia de ao que permite a previso.                 lho lento, complicado e cnscio que serviu
bem verdade que por vezes algumas L. so                    para elaborar as teorias fsicas, e que esse tra-
erigidas em princpio, escapando assim  veri-              balho nunca est definitivamente acabado. "To-
ficao da experincia e  incessante reviso que           da L. fsica" -- diz Duhem -- " aproximada;
esta comporta, mas nesse caso a L. deixa de ser             conseqentemente, para o lgico rigoroso, ela
verdadeira ou falsa para tornar-se apenas c-               no pode ser verdadeira nem falsa; qualquer
moda, e a verificao continua sendo feita so-              outra L. que represente as mesmas experin-
bre as relaes que expressem "o fato bruto da              cias com a mesma aproximao pode preten-
experincia" (Le valeur de Ia science, p. 239).             der, com o mesmo direito da primeira, o ttulo
Poincar observa tambm que "o cientista cria               de L. verdadeira ou, para falar com mais rigor, de
no fato apenas a linguagem na qual o enuncia",              L. aceitvel" (Ibid., p. 280). Esses conceitos per-
mas que, uma vez enunciada uma previso em                  maneceram substancialmente inalterados na fi-
determinada linguagem, "no depende eviden-                 losofia contempornea. As observaes de Schilick
temente dele que ela se realize ou no" (Lbid.,             contra a convencionalidade das L. naturais e
 p. 233). A mesma crtica era dirigida  tese do            em favor do seu carter simblico constituem
 carter convencional das L. cientficas por                uma confirmao substancial do ponto de vista
LEI BIOGENETICA                                         604                                    LIBERALISMO

de Duhem. Uma L  sempre um enunciado                         um homem artificial, ainda que de maior estatura
gramatical e sempre pressupe a gramtica da                  e fora que o homem natural, para cuja prote-
linguagem em que  expressa; mas, embora                      o e defesa foi idealizado" (Leiiath., Intr.); e
essa gramtica possa ser considerada convencio-               deu esse ttulo  sua obra poltica fundamental
nal, o mesmo no pode ser dito do significado                 (1561).
da L, pois ele se refere a relaes entre fatos                  LIBERALISMO (in. Liberalism; fr. Libralis-
verificavelmente constantes e capazes de possi-               mc\ ai. Liberalismus, it. Liberalismo). Doutrina
bilitar uma previso provvel. Conquanto a te-                que tomou para si a defesa e a realizao da li-
oria de Duhem tenha sido formulada antes do                   berdade no campo poltico. Nasceu e afirmou-
reconhecimento do carter probabilista da                     se na Idade Moderna e pode ser dividida em
cincia, aquilo que ele chamava de "aproxima-                 duas fases: Ia do sc. XVIII, caracterizada pelo
o das L. da natureza" abria caminho para o                  individualismo; 2a do sc. XIX, caracterizada
que hoje se denomina carter probabilista das                 pelo estatismo.
L. Ou melhor, a funo que a metodologia das                     Ia A primeira fase  caracterizada pelas se-
cincias tende hoje a atribuir cada vez mais  L.             guintes linhas doutrinrias, que constituem os
cientfica  a capacidade de previso. Peirce                 instrumentos das primeiras afirmaes polticas
disse: "Uma proposio no pode ser deno-                     do L: a) jusnaturalismo (v.), que consiste em
minada 'lei da natureza' enquanto sua capa-                   atribuir ao indivduo direitos originrios e ina-
cidade cie previso no for submetida a pro-                  lienveis; b) contratiialismo (v.), que consiste
va confirmada de tal forma que no persista                   em considerar a sociedade humana e o Estado
dvida sobre ela" ( Values in a Universe of                   como fruto de conveno entre indivduos; c)
 Chance, p. 290). Uma L. geralmente  uma                     L. econmico, prprio da escola fisiocrtica,
frmula para a previso. Desse ponto de vista,                que combate a interveno do Estado nos as-
a L. deixa de ter a necessidade que a primei-                 suntos econmicos e quer que estes sigam ex-
ra e a segunda interpretaes lhe atribuam.                  clusivamente seu curso natural (v. ECONOMIA);
Sua validade 6 medida pela sua eficincia, e                  d) como conseqncia global das doutrinas
essa eficincia  medida pela possibilidade de                precedentes, negao do absolutismo estatal e
obter com ela previses suficientemente cor-                  reduo da ao do listado a limites definidos,
retas.                                                        mediante a diviso dos poderes (v. ESTADO). O
   LEI BIOGENETICA. V. BIOGKNF.TICA                           postulado fundamental dessa fase do L 6 a
   LEIBNIZIANISMO. V. CARACTERSTICA; F.S-                    coincidncia entre interesse privado e pblico.
PIR1TCAIJSMO.                                                 Jusnaturalistas e moralistas, como Bentham,
   LEI DA MNIMA AO. V. AO MNIMA.                        acreditavam que bastava ao indivduo buscar
   LEI DAS TRS ETAPAS. V. POSITIVISMO.                       inteligentemente sua prpria felicidade para
   LEI MODAL. V. MODAL.                                       estar buscando, simultaneamente, a felicidade
   LEI PSICOFSICA. V. PSICOLOGIA, b.
                                                              dos demais. A doutrina econmica de Adam
   LEKTON. V. SIGNIFICADO.
                                                              Smith baseia-se no pressuposto anlogo da
   LEMA (gr. A.rj|j.(j.a: in. Lemma; fr. Lemme: ai.           coincidncia entre o interesse econmico do
Lemma, it. Lemma). 1. Proposio assumida co-                 indivduo e o interesse econmico da socieda-
                                                              de (v. INDIVIDUALISMO).
mo primeira premissa de um raciocnio (ARIST-
TF.LI-S., Tp., VIII, 1, 156 a, 21; DlG. L, VII. 76;             2a A segunda fase do L. comea quando esse
CICI-RO. De divn. II, 53. 108). Nesse sentido,               postulado entra numa crise cujos precedentes
Kant, chamava de L. a proposio que uma cin-                se encontram nas doutrinas polticas de Rous-
cia extrai cie outra e aceita sem demonstrao                seau, Rurke e Hegel, bem como no fato de
(Crt. do Juzo,  68; Logik,  39).                          que. no terreno poltico e econmico, o L. in-
   2. Teorema matemtico lateral ou subordi-                  dividualista parecia defender uma classe deter-
nado, fora de sua cadeia dedutiva (LITHMZ,                    minada de cidados (a burguesia), e no a tota-
Nouv. ess., IV, 2, 8).                                        lidade dos cidados. O Contrato social (1762)
   LENINISMO. V. COMUNISMO.                                   de Rousseau j constitui uma guinada no indi-
   LETCIA (gr. exppoGvri; lat. Lactitia). V.               vidualismo. Para Rousseau, os direitos que o
ALHGRIA.                                                      jusnaturalismo atribura aos indivduos perten-
  LEVIAT (in. l.euathan). Com esse nome, de                 cem apenas ao cidado. "O que o homem per-
um monstro bblico (Jac, 40. 20), Hobbes de-                 de com o contrato social  sua liberdade e o di-
nominou "o Estado -- em latim civitas--, que 6                reito ilimitado a tudo o que o tenta e que ele
LIBERALISMO                                           605                                       LIBERDADE

 pode obler; o que ganha  a liberdade civil e a                Nas primeiras dcadas do sc. XX assistiu-se
 propriedade de tudo o que possui", Mas. na                  continuao desse L. estatista. Tanto o idealis-
realidade, s "a obedincia  lei que prescrita            mo ingls quanto o italiano insistiram no car-
liberdade", de tal forma que s no Estado o ho-             ter divino cio Estado. Foi o que fizeram Bosan-
mem  livre (Contra social, I, 8). A afirmada              quet (The Phosophical Theory of tbe State,
infalibilidade da "vontade geral", resultante da            1899) e Gentile, que identificou o Estado com
"alienao total de cada associado com todos                o Eu Absoluto (Genesi e stnittura delia societ,
os seus direitos a toda a comunidade" (Ibid.. I,            pstuma, 1946). A inspirao hegeliana preva-
6), transforma aquilo que para o individualismo             lecia tambm na doutrina de Croce, que no
  \ coincidncia do interesse individual com o            entanto permaneceria fiel ao ideal clssico de
 interesse comum em coincidncia -- prelimi-                liberdade, demonstrando-o na prtica, durante
 nar e garantida -- do interesse estatal com o in-          o fascismo. Para Croce, L.  a doutrina do de-
cavsse individual. Desta forma, ia-se afirmando             senvolvimento dialtico da histria, que tudo
a superioridade do Estado sobre o indivduo                 absolve e justifica, mesmo o absolutismo e a
contra a qual o L. se insurgira em sua primeira             negao da liberdade (tica epoltica, 1931, p.
fase. Tal superioridade tambm  reconfirmada               290). O socialismo marxista pode ser conside-
por Burke: "A sociedade 6 um contrato, mas,                 rado uma das manifestaes dessa mesma for-
embora os contratos sobre objetos de interesse              ma de L. (ao qual se liga diretamente atravs
ocasional possam ser desfeitos a bel-prazer,                de Hegel) (v. MATEKIAI.ISMO).
no se pode considerar que o Estado tenha o                     Os partidos polticos que. a partir do incio
mesmo valor de um acordo entre partes num                   cio sc. XIX, desfraldaram a bandeira liberal
comrcio de especiarias e caf. (...) Deve-se               inspiraram-se em uma e em outra das diretrizes
consider-lo com reverncia porque no  a                  fundamentais ora expressas: individualismo ou
participao em coisas que servem somente                  estatismo. Portanto, um grande nmero de cor-
existncia animal.(...):  uma sociedade em to-             rentes polticas dspares e por vezes opostas
das as cincias, em todas as artes, em todas as             puderam falar em nome do L. (DE RUGGIERO,
virtudes e em toda a perfeio" (Reflection on              Storia dei L. europeo, 1925): partidos que nega-
tbe Revolution in Franca,   1790;   Works,   II, p.         ram o valor do Estado (como o radicalismo
368). Mas o ponto alto dessa nova concepo                 ingls do sculo passado), partidos que exalta-
de Estado encontra-se na doutrina de Hegel,                 ram o valor do Estado (como a chamada "direi-
para quem ele  "o ingresso de Deus no mun-                 ta histrica" da Itlia aps o resorgimento), par-
do", razo pela qual seu fundamento  a potn-              tidos que recusaram qualquer ingerncia do
cia da razo que se realiza como vontade" (Fil.             Estado em assuntos econmicos (como fazem
do dir.,  258, Zusatz). Com essa exaltao do              ainda hoje alguns partidos liberais europeus),
Estado concordava outro ramo do romantismo                  partidos que defendem a interveno do Esta-
do sc. XIX, o positivismo: Comte preconizava               do na iniciativa e na direo dos negcios eco-
um estatismo to absolutista quanto o hegelia-              nmicos, partidos que consideraram a liberda-
no (Systme depolitiquepositive, 1851-54; IV,               de como condio para a prtica de qualquer
p. 65), e Stuart Mill, mesmo sem fazer conces-              atividade humana e partidos que a relegaram
ses s concepes absolutistas, deixava gran-              para o empreo dos "valores" puros. Esses con-
de margem  ao cio Estado, mesmo no dom-                 trastes so a manifestao evidente do carter
nio que, para o liberalismo clssico, deveria fi-           compsito da doutrina liberal, carter este que
car reservado exclusivamente para a iniciativa              decorre do modo aproximativo e confuso
individual: o econmico (Principies ofPolitical             como foi tratada a noo que deveria ser fun-
Economy, 1848). O ensaio Sobre a liberdade                  damental para o L-. a de liberdade. O recurso
(1859). de Stuart Mill, tendia, ao mesmo tempo,             casual ou sub-reptcio a um ou outro dos con-
a retirar a liberdade do rol de condies indis-            ceitos de liberdade elaborados na histria do
pensveis para o exerccio da atividade moral,              pensamento filosfico tornou a idia liberal em
jurdica, econmica, etc. (segundo a concepo              poltica confusa e oscilante, conduzindo-a por
do L. clssico), e a transform-la num ideal ou             vezes  defesa e  aceitao da no-liberdade
valor em si (independente das possibilidades                (v. LIBERDADE).
que oferece). Isso no impede que essa obra
seja uma das mais nobres e apaixonadas defe-                   LIBERDADE (gr. teu6epa; lat. Libertas; in.
sas da liberdade.                                           Freedom, Liberty; fr. Liberte; ai. Freiheit; it.
                                                            Liberta). Esse termo tem trs significados fun-
LIBERDADE                                             606                                          LIBERDADE

damentais, correspondentes a trs concepes                terminao absoluta, que para ele comeava
que se sobrepuseram ao longo de sua histria                nos tomos, aos quais atribua o poder de des-
e que podem ser caracterizadas da seguinte                  viar-se da prpria trajetria. Lucrcio diz: "Po-
maneira: l1 L. como autodeterminao ou                     demos desviar nossos movimentos sem sermos
autocausalidade, segundo a qual a L.  au-                  determinados pelo tempo nem pelo lugar, mas
sncia de condies e de limites; 2a L. como ne-            pelo que nos inspira nosso esprito; pois sem
cessidade, que se baseia no mesmo conceito                  dvida a vontade  o princpio desses atos e
da precedente, a autodeterminao, mas atri-                atravs dela o movimento se expande por to-
buindo-a  totalidade a que o homem pertence                dos os membros" (De rer. nat., II, 260). A no-
(Mundo, Substncia, Estado); 3a L. como possi-              o de L. como autocausalidade ou autodeter-
bilidade ou escolha, segundo a qual a L.  limi-            minao (cxTOTtpaYa) tambm  o fundamen-
tada e condicionada, isto , fnita. No consti-            to do conceito de L. como necessidade. Os es-
tuem conceitos diferentes as formas que a L.                ticos admitiam que eram livres as aes que
assume nos vrios campos, como p. ex. L.                    tm em si mesmas causa ou princpio: "S o s-
metafsica, L. moral, L. poltica, L. econmica,            bio  livre, e todos os malvados so escravos,
etc. As disputas metafsicas, morais, polticas,            pois L.  autodeterminao, enquanto escravi-
econmicas, etc, em torno da L. so domina-                 do  falta da autodeterminao" (DlG. L, VII,
das pelos trs conceitos em questo, aos quais,             121). Epicteto, conseqentemente, dizia que
portanto, podem ser remetidas as formas es-                 eram "livres" as coisas que esto "em nosso po-
pecficas de L. sobre as quais essas disputas               der", ou seja, os atos do homem que tm prin-
versam.                                                     cpio no prprio homem (Dis., I, 1).
    1- Para a primeira concepo, de L. absolu-                 Este conceito foi transmitido durante toda a
ta, incondicional e, portanto, sem limitaes               Idade Mdia. Orgenes foi o primeiro a defen-
nem graus,  livre aquilo que  causa de si                 d-lo no mundo cristo, esclarecendo-o no
mesmo. Sua primeira expresso encontra-se em                sentido de que a L. consiste no s em ter em
Aristteles. Embora a anlise aristotlica do               si a causa dos prprios movimentos, mas tam-
voluntarismo das aes parea recorrer ao con-              bm em ser essa causa. Esta definio, que se
ceito da L. fnita, a definio de voluntrio  a           aplica a todos os seres vivos, privilegia o ho-
mesma de L. infinita: voluntrio  aquilo que              mem porque a causa dos movimentos, huma-
"princpio de si mesmo". Aristteles comea                 nos  aquilo que o prprio homem escolhe
afirmando que a virtude e o vcio dependem                  como mbil, enquanto juiz e rbitro das cir-
de ns; e prossegue: "Nas coisas em que a ao              cunstncias externas (Deprinc, III, 5). Consi-
depende de ns a no-ao tambm depende;                   deraes anlogas ocorrem em De libero
e nas coisas em que podemos dizer no tam-                  arbtrio de S. Agostinho (cf., p. ex., I, 12; III, 3;
bm podemos dizer sim. De tal forma que, se                 III, 25). Em outro trecho ele diz: "Sente que a
realizar uma boa ao depende de ns, tam-                  alma se movimenta por si s quem sente em si
bm depender de ns no realizar m ao"                  a vontade" (De div. quaesi, 83, 8). Alberto Mag-
(Et. nic, III, 5, 1113 b 10). Isso j fora dito por         no dizia que era livre o homem que  causa de
Plato no mito de Er. Mas para Aristteles signi-           si e que no  coagido pelo poder de outro (S.
fica que "o homem  o princpio e o pai de                  Th., II, 16, 1). E, para S. Toms, "o livre-arbtrio
seus atos, assim como de seus filhos" (Ibid).                a causa do movimento porque pelo livre-arb-
De fato, ''s para quem tem em si mesmo seu                 trio o homem determina-se a agir". S. Toms
prprio princpio, o agir ou o no agir depende             acrescenta que, para existir L, no  necessrio
de si mesmo" (Ibid., III, 1, 1110 a 17); assim o            que o homem seja a primeira causa de si mes-
homem " o princpio de seus atos" (Ibid., III,             mo, como de fato no , pois a primeira causa
3, 1112 b 15-16). Essa noo de "princpio de si             Deus. Mas a Primeira Causa no impede a
mesmo"  a definio da lei incondicionada,                 autocausalidade do homem (Ibid., I, q. 83, a. 1;
encontrada, p. ex., em Ccero: "Para os movi-               cf. Contra Gent., II, 48). A ltima escolstica
mentos voluntrios da alma no se deve procu-               manteve esse conceito de L, alis acentuan-
rar uma causa alheia, pois o movimento est                 do a indiferena da vontade com relao aos
em nosso poder e depende de ns: nem por isso               seus possveis determinantes. Duns Scot afirma
 sem causa, visto que sua causa  sua pr-                 que "a L. da nossa vontade consiste em poder
pria natureza" (Defato, II). Em Epicuro, a no-              decidir-se por atos opostos, seja depois, seja no
o de L. tinha o mesmo significado de autode-              mesmo instante" (Op. Ox., I, d. 39, q. 5, n. 16).
LIBERDADE                                                607                                      LIBERDADE

Esta possibilidade de decidir-se por atos opos-                no deve ser um fenmeno, deve ser uma
tos expressa a perfeita indiferena da vontade                 coisa em si e s os seus efeitos devem ser jul-
com relao a todas as motivaes possveis.                   gados fenmenos" (Prol,  53). Kant quis
Ockham, mesmo negando a possibilidade si-                      conciliar a L. humana, como poder de autode-
multnea de atos opostos, tambm frisa a indi-                 terminao, com o determinismo natural que,
ferena absoluta da vontade: "Por L entende-                   para ele, constitui a racionalidade da natureza;
se o poder de, indiferente e contingentemente,                 por isso considerou a L. como nmeno, pois
propor coisas diferentes, de tal forma que pos-                aquilo que, de um ponto de vista (dos fenme-
so causar ou no o mesmo efeito, sem que haja                  nos), pode ser considerado necessidade, de
diversidade alguma, a no ser nesse poder"                     outro ponto de vista (do nmeno), pode ser
(Qiiodl., I, q. 16). Mas Ockham no julga que                  considerado L. Mas o conceito de L. no sofreu
seja possvel demonstrar que a vontade  livre                 inovao alguma com esse artifcio kantiano.
nesse sentido. A L. s pode ser conhecida por                  Esse mesmo conceito  expresso por Fichte: "A
experincia, pois "o homem sente que, mesmo                    absoluta atividade tambm  denominada L. A
que a razo lhe dite alguma coisa, a vontade                   L.  a representao sensvel da auto-atividade"
pode quer-la ou no" (Ibid., I, cj. 16). Buridan              (Sittenlehre, Intr., 7, em Werke, IV, p. 9).
observava a esse respeito que a L. no consiste                    Esse mesmo conceito est hoje presente em
em poder deixar de seguir o juzo do intelecto,                todas as formas de indeterminismo (v.). Nas
porque, se o intelecto reconhecesse com evi-                   formas espiritualistas do indeterminismo (que
dncia que dois bens so perfeitamente iguais,                 so as mais difundidas), a autodeterminao 
no poderia decidir-se nem por nenhum dos                      considerada uma experincia interior funda-
dois; consiste, sim, em poder suspender ou                     mental, uma espcie de criao "interior"; tor-
impedir o juzo do intelecto (In Hth., III, q. 1-4).           na-se a "autocriao do eu". Maine de Biran
E assim propunha as premissas do caso que se                   afirma: ''A L. ou a idia de L, tomada em sua
denominou O As.no de Buridan (v.): este, por                   fonte real, nada mais  que o sentimento que
no ter L, morre de fome na mesma condio                     temos de nossa atividade ou desse poder de
em que o homem pode suspender o juzo e                        agir, de criar o esforo constitutivo do eu"
fazer arbitrariamente a escolha.                               (Essai sur les fondements de Ia psychologie,
    O conceito de autropraguia ou causa sui                    1812, em (Euvres, ed. Naville, I, p. 284). Con-
ocorre com freqncia na filosofia moderna e                   cepo anloga pode ser encontrada em Mi-
contempornea. "A substncia livre" -- diz                     krokosmus de Lotze (1, pp. 283 ss.) e, com algu-
Leibniz -- "determina-se por si mesma, seguin-                 ma atenuao, em Nouvelle monadologie, de
do o motivo do bem que  percebido pela inte-                  Renouvier (pp. 24 ss.). O espiritualismo fran-
ligncia, que a inclina sem necessit-la: todas                cs, com Scretan, Ravasson, Lacheler, Bou-
as condies da L esto compreendidas nestas                   troux, Hamelin, atm-se estritamente a esse
poucas palavras" (Thod., III,  288). Este mesmo              mesmo conceito. "O conhecimento das leis das
 conceito levou Kant a admitir o carter "num-                coisas" -- diz Boutroux -- "permite-nos domi-
nico" da liberdade: "Se tivermos de admitir a L.               n-las e assim, em vez de prejudicar nossa L, o
como propriedade de certas causas dos fen-                    mecanismo torna-a eficaz." Portanto, no so-
 menos, ela deve, em relao aos fenmenos                     mente as coisas internas, como queria Epicteto,
 como eventos, ter a faculdade de iniciar por si               mas tambm as externas dependem de ns (De
 isponte) a srie de seus efeitos, sem que a ativi-            Vide de loi naturelle, 1895, pp. 133, 143). Des-
 dade da causa precise ter incio e sem que seja               se ponto de vista, o motivo no  a causa
 necessria outra causa que determine tal incio"              necessitante da ao humana: a vontade d
 (Prol,  53). A ''faculdade de iniciar por si um              preferncia a um motivo mais que a outro, e o
 evento"  exatamente a causa sui do conceito                  motivo mais forte no o  independentemen-
 tradicional de liberdade. Esta  tambm deno-                 te da vontade, mas sim em virtude dela (f.a
 minada, no mesmo sentido, "espontaneidade                     contingence de los de Ia nature, 1874, p. 124).
 absoluta', ou seja, atividade que no recebe                  O conceito bergsoniano de L. outra coisa no
 outra determinao seno de si mesma (Crt. R.                faz seno reexpor essa mesma tese. Bergson
 Pura, I. livro I, cap. III, Elucidao crtica). Mas,         afirma que o conceito de L. por ele defendido
 mesmo como causa sui ou espontaneidade ab-                    situa-se entre a noo de L. moral, isto , da
 soluta, "a causa livre, em seus estados, no                  "independncia da pessoa perante tudo o que
 pode ser submetida a determinaes de tempo.                  no  ela mesma", e a noo cie livre-arbtrio,
LIBERDADE                                           608                                       LIBERDADE


segundo o qual aquilo que  livre "depende de             domnio do nmeno: foi o que fez tambm
si mesmo assim como um efeito depende da cau-             Schopenhauer, que considerou vlidas as razes
sa que o determina necessariamente". Contra               apresentadas por Priestley em sua Doutrina da
esta ltima concepo, Bergson objeta que os              necessidade filosfica (v. DETERMINISMO) e afir-
atos livres so imprevisveis e que, portanto,            mou que a L. como autocausalidade  apenas
no se lhes pode aplicar a causalidade, segun-            da vontade como fora numnica ou metafsica,
do a qual causas iguais tm efeitos iguais. Por           da vontade como princpio csmico (Die Welt,
isso, a L. continua indefinvel; e deve ser iden-         I,  55). Em geral o determinismo consiste em
tificada com o processo da vida consciente, ou            julgar universal o alcance do princpio de cau-
seja, com a durao real (Essais sur les donnes          salidade em sua fora emprica e portanto em
immdiates de Ia consciente, 1899, pp. 131                negar a causalidade autnoma. Neste sentido,
ss.). Mas na realidade o conceito de livre-arb-          Claude Bernard afirmava a inrcia dos corpos
trio partia precisamente da imprevisibilidade             vivos tanto quanto dos inorgnicos, que  a in-
dos fatos humanos (os chamados "futuros con-              capacidade de entrar em movimento por si
tingentes") e da autocausalidacle da vontade. A           mesmos: e nessa inrcia percebia a condio
doutrina bergsoniana nega a indiferena da                para o reconhecimento do determinismo abso-
vontade aos motivos, somente para sustentar               luto (Intr.  Vtude de Ia medicine exjKrimenta-
que a vontade cria ou constitui os motivos e              le, 1865, II, 8).
confere-lhes a fora determinante de que dis-                 O equivalente poltico da concepo de L.
pem. Mas dessa forma a autodeterminao                  como autocausalidade  a noo de L. como
continua sendo definio de liberdade; como               ausncia de condies ou de regras e recusa de
tal permanece tambm no conceito (proposto                obrigaes; numa palavra, anarquia. Na maio-
por   F.   LOMBARDI,    La liberta dei volere e           ria das vezes, esse conceito  utilizado como
Vindividuo, 1941, p. 192) de ato ou movimento             instrumento de polmica, para negar a prpria
que "se reproduz ou se produz continuamen-                L. Plato foi o primeiro a fazer isso quando pre-
te", levando consigo, nessa autoproduo.                 tendeu demonstrar que da demasiada L. conce-
"todo o mundo em que atua". No tem sentido               dida pelo regime democrtico nascem a tirania
diferente a doutrina de Sartre, para quem a L.           e a escravido. De fato, a recusa constante de
a escolha que o homem faz de seu prprio ser              limites e restries "torna os cidados to sus-
e do mundo. "Mas exatamente por se tratar de              cetveis que, to logo se lhes proponha algo
uma escolha, na medida em que  feita, essa               que parea ameaar sua liberdade, eles se me-
escolha geralmente indica outras tantas como              lindram, rebelam-se e terminam rindo das leis
                                                          escritas e no escritas, porque no querem de
possveis. A possibilidade dessas outras esco-
                                                          forma alguma submeter-se a nenhum coman-
lhas no  explicitada nem proposta, mas  vi-            do" (Rep., VIII, 563 d). A L. aqui  entendida
vida no sentimento de injusficabilidade e ex-            (no por Plato, como veremos mais adiante)
pressa na absurdidade da minha escolha, con-              como ausncia de medida, recusa de normas.
seqentemente do meu ser. Assim, minha L.                 O ilimitado poder sobre todas as coisas, que,
devora a minha L. Sendo livre, projeto o meu              para Hobbes, constitui a L. em estado natural
possvel total, mas com isto prorjonho que sou            (De eive, I,  7), tem o mesmo significado.
livre e que posso aniquilar esse meu primeiro             Filmer acreditava estar expressando o significa-
projeto e releg-lo ao passado1' (Letre et le             do da doutrina de Hobbes quando dizia: "A L.
 nant, p. 560). Mas uma escolha que no tem              consiste em cada um fazer o que lhe aprouver,
nada a escolher, que no  limitada por deter-            em viver como quiser, sem estar vinculado a lei
minadas condies, de escolha s tem o nome;              nenhuma" (Observations upon Mr. Hobbess
na realidade,  uma autocriao gratuita. A               Leviathan, 1652, p. 55). Mas talvez a melhor e
doutrina de Sartre s faz levar ao extremo o              mais coerente expresso dessa noo de L. seja
antigo conceito de L. como autocausalidade.               o nico de Max Stiner: o indivduo que no
   Recorrem a este conceito tanto o indetermi-            tem causa fora de si, que  sua prpria causa e
nismo quanto o determinismo. O que o deter-               causa de tudo. Nessa forma extrema a tese da
minismo nega  o mesmo que o indetermi-                   L. anrquica raramente  defendida: na maioria
nismo afirrna: a possibilidade de uma causa sui.          das vezes  pressuposta como termo de pol-
                                                          mica, reduzindo-se a ela (em boa ou m-f) as
Vimos que o prprio Kant considerava-a impos-
                                                          demais concepes de L. poltica.
svel no domnio dos fenmenos e a confiava ao
LIBERDADE                                             609                                         LIBERDADE

    2- A segunda concepo fundamental identi-              mem, como qualquer outra coisa,  determina-
fica L. com necessidade. Esta concepo tem                 do pela necessidade da natureza divina e pode
estreito parentesco com a primeira. O conceito              julgar-se livre somente enquanto ignora as cau-
de L. a que se refere  ainda o de causa sui;               sas de suas volies e de seus desejos (Ibid., I,
contudo, como tal, a L.  no atribuda  parte,            ap.; II, 48). Contudo, poder tornar-se livre se
mas ao todo: no ao indivduo, mas  ordem                  for guiado pela razo (Ibid., IV, 66, scol.), se
csmica ou divina,  Substncia, ao Absoluto,               agir e pensar como parte da Substncia Infinita
ao Estado. A origem dessa concepo est nos                e reconhecer em si a necessidade universal
esticos, para os quais, como vimos, "a L. con-             dela {Ibid., V, VI, scol.). Em outros termos, o
siste na autodeterminao e portanto s o s-               homem torna-se livre atravs do amor intelec-
bio  livre" (DIG. L, VII, 121). Mas por que o             tual por Deus (que  exatamente o conheci-
sbio  livre? Porque s ele vive em conformi-              mento da necessidade divina): amor que 
dade com a natureza, s ele se conforma  or-               idntico ao amor com que Deus se ama (Ibid.,
dem do mundo, ao destino (DIG. L, VII, 88;                 V, 36, scol.). Nenhuma inovao foi introduzida
STOBEO, Flor, VI, 19; CCERO, De fato, 17). A L.            nesse ponto de vista pela elaborao e amplia-
do sbio coincide, portanto, com a necessidade              o feitas pela filosofia romntica. Schelling
da ordem csmica. Crisipo, porm, procura fu-               afirma explicitamente a coincidncia entre li-
gir a essa conseqncia distinguindo as causas              berdade e necessidade: "O Absoluto age por
perfeitas e principais das causas auxiliares e              meio de cada inteligncia, ou seja, sua ao 
prximas; o destino age sobretudo atravs das               absoluta porquanto no  livre nem desprovida
primeiras, mas entre as ltimas est o assenti-             de L, mas as duas coisas ao mesmo tempo: ab-
mento que o homem d s coisas e, conse-                    solutamente livre e por isso tambm necess-
qentemente, sua ao.  como acontece com                  ria" {System des transzendentalen Idealismus,
o cilindro: basta dar um empurrozinho para                 IV, E). Em Investigaes filosficas sobre a es-
que ele role por um plano inclinado: graas                sncia da L. humana (1809), Schelling trans-
natureza do cilindro e do plano, ele continuar             fere para Deus, ou melhor, para a natureza
rolando se for empurrado, mas para que isso                 ou fundamento de Deus, o ato com que o
acontea  necessrio o empurro. Da mesma                  homem escolhe essa natureza ou fundamen-
forma, a ordem das coisas  tal que, uma vez                to, pelo qual todas suas inclinaes ou aes
iniciadas, as aes continuam de determinado                sero determinadas. A tendncia a atribuir a L.
modo, mas, para que sejam iniciadas,  neces-               ao Absoluto e a identific-la com a necessida-
srio o assentimento do homem e esse assenti-               de explicita-se assim como caracterstica tpica
mento permanece em poder dele (CCERO, De                   da concepo romntica. Hegel contrape "o
fato, 18-19). Todavia para Crisipo tambm a L.              conceito abstrato de L", isto , a L. como exi-
 apenas adequao entre assentimento huma-                 gncia ou possibilidade,  "L. concreta", que 
no e ordem csmica: as causas auxiliares per-               a "L. real" ou "a prpria realidade" do esprito
tencem  ordem necessria do mundo tanto                    ou dos homens (Ene,  482; Fil. do dr,  33,
quanto as causas principais, e o empurro que               Zusatz). Essa L real, realidade mesma do ho-
faz o cilindro rolar pertence a essa ordem tanto            mem,  o Estado, que, exatamente por isso, 
quanto a forma do cilindro e o plano sobre o                considerado "Deus real" (Fil. do dir.,  258,
qual ele rola. Desse ponto de vista, negar que              Zusatz). O Estado  "a realidade da L concreta"
o homem como tal  livre e afirmar que ele                 (Ibid.,  260). Isso significa que ele " a realida-
livre enquanto manifestao da autodetermina-               de em que o indivduo tem L. e a usufrui, mas
o csmica ou divina so a mesma coisa.                    s quando o indivduo  cincia, f e vontade
Tudo fica muito claro na formulao de Spi-                 do universal. Assim, o Estado  o centro dos
noza: "diz-se que  livre o que existe s pela              outros aspectos concretos da vida: direito, arte,
necessidade de sua natureza e que  determi-                costumes, bem-estar. No Estado, a L.  realiza-
nado a agir por si s enquanto  necessrio ou              da objetiva e positivamente". Isto no significa
coagido aquilo que  induzido a existir e a agir            que a vontade subjetiva do indivduo se realize
por uma outra coisa, segundo uma razo exata                atravs da vontade universal, que seria, portan-
e determinada" (Et., I, def. 7). Nesse sentido, s          to, um meio para ela; significa que a vontade
 Deus  livre, pois s Ele age com base nas leis            universal se realiza atravs dos cidados, que,
 de sua natureza e sem ser obrigado por nin-                nesse aspecto, so seus instrumentos. "O direi-
 gum (Ibid., I, 17, corol. II), ao passo que o ho-         to, a moral e o Estado, e somente eles, so
LIBERDADE                                            610                                        LIBERDADE

positiva realidade e satisfao da L. O arb-              determinismos "inferiores":  portanto a autode-
trio do indivduo no  L. A L. que  limitada             terminao dos planos, qvie se acrescenta  deter-
 o arbtrio referente ao momento particular               minao externa. No mesmo sentido Jaspers
das necessidades" (Phlosophie der Geschichte,             afirma a vinidade de L. e necessidade, expressa
ed. Lasson, I, p. 90). Essa coincidncia entre             na forma "posso porque devo" (no sentido da
L. e necessidade, que leva a atribuir a L. ape-            necessidade de fato, Icb muss: Phii, II, pp. 186,
nas ao Absoluto ou  sua realizao no mun-                195). Nesse caso a L, autodeterminao, per-
do (o Estado), por um lado passou a caracte-               tence  situao existencial total, cuja expres-
rizar todas as doutrinas de cunho romntico                so  o evi. Continuamos no mbito da concep-
e por outro foi utilizada, fora do mbito de               o que identifica L com autocausalidade de
tais doutrinas, na defesa do absolutismo esta-             uma totalidade metafsica (poltica, social, etc),
tal e na recusa do liberalismo poltico. Foi               ovi seja, com a necessidade com que essa tota-
aceita por Gentile e por Croce: o primeiro                 lidade se realiza. Essa doutrina por vezes foi
identificando a L. com a necessidade dialtica             defendida por filsofos ovi escritores de ten-
do Absoluto (Teoriagenerale ellospirto, XII,             dncias liberais, mas na realidade  a insgnia
 20), o segundo identificando a L. com "a                 do antiliberalismo moderno. De fato, no plano
criatividade das foras que se denominam in-               metafsico, reconhece como sujeito de L. ape-
dividuais e coincidem com a unidade do Uni-                nas o ser, a substncia, o mundo; no plano po-
versal" (Stonografia e dealit morale, p. 58).            ltico, apenas o Estado, a Igreja, a raa, o parti-
Mas tambm foi aceita por Martinetti, para                 do, etc.; atribui  totalidade assim privilegiada
quem a L.  espontaneidade da razo, e a es-               vim poder de autocausalidade ou autocriao
pontaneidade da razo  a prpria necessida-               que  vim ovitro poder igualmente absoluto
de, de tal forma que, em qualquer caso, iden-              de coero sobre os indivduos, considerados
tificam-se L e espontaneidade, espontaneida-               manifestaes ovi partes dele.
de e concatenao necessria (La liberta, 1928,                3a Enqvianto as duas primeiras concepes
p. 349). Com (uitra aparncia, essa doutrina               de L. possviem vim ncleo conceituai comum, a
retorna em algumas manifestaes da filosofia              terceira no recorre a esse ncleo porqvie en-
contempornea, como p. ex. no realismo de                  tende a L. como medida de possibilidade, por-
Nicolai Hartmann e no existencialismo de Jaspers.          tanto escolha motivada ou condicionada. Nesse
Segundo Hartmann, a L. consiste no fato de                 sentido, a L. no  autodeterminao absoluta e
que, em cada plano do ser, acrescenta-se ao                no , portanto, vim todo ovi um nada, mas vim
determinismo dos planos inferiores o deter-                problema aberto: determinar a medida, a con-
minismo daquele plano. Os planos, em outros                dio ovi a modalidade de escolha qvie pode
termos, so contingentes, um em relao ao                 garanti-la. Livre, nesse sentido, no  quem 
outro, porqyanto cada um tem tima forma es-                causa sui ovi quem se identifica com vima tota-
pecfica de determinismo no redutvel  forma             lidade que  causa sui, mas quem possui, em
dos planos inferiores; a L. seria ento o super-           determinado gravi ovi medida, determinadas
determinismo de vim plano do ser em relao                possibilidades. Plato foi o primeiro a enunci-
aos outros. Hartmann diz: "A L. em sentido po-             ar o conceito segundo o qual a L. consiste na
sitivo no  vim minus, mas vim plus na de-                "justa medida" (Leis, 693 e); ilustrou esse con-
terminao. O nexo causai no permite vim                  ceito como mito de Er. Segundo esse mito, as
 minus porque sua lei afirma que uma srie de              almas, antes de encarnar, so levadas a escolher
efeitos, uma vez em movimento, no pode ser                o modelo de vida a qvie posteriormente ficaro
detida de modo algum. Mas admite um plus --                presas. "Para a virtude, anuncia a parca Lquesis,
se ele existir -- porque svia lei no afirma qvie          no existem padres: cada vim ter mais ovi
aos elementos de determinao causai de um                 menos, conforme a honre ovi a negligencie.
processo no se possam acrescentar outros                  Cada um  autor de sua escolha; a divindade
elementos de determinao" (Etbik, p. 649).                est fora de questo" (Rep., X, 617 e). Mas o
No plano do esprito, esse plus de determina-              importante  qvie essa escolha, cujo avitor 
o  constitudo pela teleologia prpria do ho-           cada indivduo e evija causalidade, portanto,
mem, qvie impe aos processos cavisais fins                no pode ser atribvida  divindade,  limitada,
extrados da esfera dos valores. Mas  bvio               em um sentido, pelas possibilidades objetivas,
que, nesse sentido, a L. outra coisa no  seno o         pelos modelos de vida disponveis, e, em ou-
acrscimo de um determinismo "superior" aos                tro, pela motivao, pois -- como afirma Plato
LIBERDADE                                               611                                       LIBERDADE


-- "a maior parte das almas escolhe de acordo                 a garantir o determinismo dos motivos, negan-
com os costumes da vida anterior" (Ibid., 620                 do o livre-arbtrio como autocausalidade da
a). A situao mtica aqui ilustrada  de L.                  vontade, e por outro a garantir a L. do homem
finita, de escolha entre possibilidades determi-              contra o determinismo rigoroso. Locke con-
nadas e condicionadas por motivos deter-                      seguiu expressar muito melhor esse conceito
minantes. Semelhante L.  delimitada: 1Q pelo                 no terreno poltico ao negar, em oposio a
grau das possibilidades objetivas, sempre em                  Filmer, que a L. consistisse em cada um fazer o
nmero mais ou menos restrito; 2S pela ordem                  que bem entendesse; e afirmou: "A L. natural
dos motivos da escolha, que podem restringir                  do homem consiste em estar livre de poderes
ainda mais, at a unidade, a ordem das possibi-               superiores sobre a terra, em no estar submeti-
lidades objetivas. Portanto, esse conceito de L.              do  vontade ou  autoridade legislativa de nin-
 uma forma de determinismo, ainda que no                    gum e em possuir como norma prpria ape-
de necessarismo: admite a determinao do                     nas a lei natural. A L. do homem em sociedade
homem por parte das condies a que sua ati-                  consiste em no estar sujeito a outro poder
vidade corresponde, sem admitir que a partir                  legislativo alm do estabelecido por consenso
de tais condies a escolha seja infalivelmente               no Estado, nem ao domnio de outra vontade
previsvel.                                                   ou  limitao de outra lei alm da que esse
                                                              poder legislativo tiver estabelecido de acor-
     Esse conceito de L. foi completamente                    do com a confiana nele depositada" (Two
esquecido na Antigidade e na Idade Mdia                      Treatises of Government, II, 4, 22). No Estado
devido ao predomnio do conceito de L. como                   natural a L. consiste na possibilidade de esco-
 causa sui. Quando reapareceu, nos primrdios                 lha limitada pela norma natural, que  uma
da Idade Moderna, assumiu, em oposio  no-                  norma de reciprocidade, segundo a qual deve-
o de livre-arbtrio, a forma de negao da L.               se atribuir aos outros as mesmas possibilidades
de querem de afirmao da L. de fazer. Nessa                  atribudas a si mesmo (Ibid., II, 2, 4). Em so-
forma  expressa por Hobbes. Este, identifican-               ciedade, a L. consiste na possibilidade de es-
do a vontade com o apetite, afirma que no se                 colhas delimitadas por leis estabelecidas por
pode no querer aquilo que se quer (no se po-                um poder para isso designado pelo consenso
de no ter fome quando se tem fome, no ter                   dos cidados. Em outros termos, a L. poltica
sede quando se tem sede, etc), mas que  pos-                 supe duas condies: Ia existncia de normas
svel fazer ou no fazer aquilo que se quer (co-              que circunscrevam as possibilidades de escolha
 mer ou no comer quando se tem fome, etc).                   dos cidados; 2a possibilidade de os prprios
 Existe, pois, uma L. de fazer, no uma L. de                 cidados fiscalizarem, em determinada medida,
 querer (De hom., II,  2; De corp., 25,  13).               o estabelecimento dessas normas. Desse ponto
     Essa doutrina foi substancialmente aceita                de vista, o problema da L. poltica  um proble-
 por Locke, que definia a L. como "o fato de se               ma de medida: a medida na qual os cidados
 estar em condies de agir ou de no agir se-                devem participar da fiscalizao das leis e a
 gundo se escolha ou se queira" (Ensaio, II, 21,              medida na qual tais leis devem restringir as
 27). Mas em Locke essa doutrina se complica e                possibilidades de escolha dos cidados. Esse
 confunde, pois por um lado ele distingue apeti-              sempre foi o problema do liberalismo clssico,
 te de vontade, que julga constituda por um                  ou seja, de qualquer liberalismo autntico, seja
 poder de escolha, preferncia ou inibio (sus-              ele antigo ou moderno. Montesquieu reprops
 penso do desejo, ibid., II, 23, 48), e por outro            a doutrina da L. poltica de Locke em IJesprit des
 admite que tal escolha, preferncia ou inibi-                lois (1748, XI, 3-4). Hume e o Iluminismo reto-
 o  necessariamente determinada pelo                       maram a doutrina da L. filosfica. O primeiro
 motivo (que inicialmente ele identifica com o                afirmava: "Por L. s podemos entender um po-
 desejo do bem e depois com o mal-estar pr-                  der de agir ou de no agir, segundo a determi-
                                                              nao da vontade; isso significa que, .se decidir-
 prio do desejo, ibid., II, 21, 31 ) Portanto,  di-
                                                              mos ficar parados, poderemos ficar, e se deci-
 fcil saber como, desse ponto de vista, se pode-             dirmos andar, tambm poderemos andar " (Inq.
 ria falar em L. de fazer ou de no fazer, visto              Cone. Underst., VIII, 1); ao mesmo tempo, res-
 que a escolha ou a preferncia dada a uma ou                 saltava o determinismo dos motivos, sem o
 a outra dessas alternativas  necessariamente                qual as leis e sanes seriam inoperantes. O
 determinada. De qualquer forma, a inteno da                iluminismo, atravs de Voltaire, retomou essa
 doutrina de Locke  clara: tende, por um lado,
LIBERDADE                                            612                                      LIBERDADE


mesma doutrina: L. de indiferena  "uma ex-               obviamente anacrnica a conservao do es-
presso sem sentido", pois significaria que no             quema necessarista para a explicao dos acon-
homem h "um efeito sem causa". Somos livres               tecimentos humanos. Ao mesmo tempo, dei-
para fazer quando temos o poder de fazer                   xou de ter sentido a oposio entre cincia e
(Dictionnairephilosophique, art. "Liberte"). Kant          conscincia, entre a exigncia de causalidade
utilizou o conceito de L. finita para definir a L.         prpria da primeira e o testemunho de L. dada
jurdica ou poltica: ela  "a faculdade de no            pela segunda. Por um lado. vimos que a cons-
obedecer a outras leis externas a no ser as leis          cincia no d demonstraes de L. absoluta e
s quais eu possa dar meu assentimento" (Zum               que tampouco pode mostrar ser vlida qual-
ewigen Frieden, II, art. 1, ns 1). A concepo             quer demonstrao nesse sentido; por outro
de determinismo no necessarista consolidou-               lado, vimos qtie a cincia no exige a causali-
se na orientao empirista. Stuart Mill mostrou            dade necessria que autorizaria a previso infa-
que o fatalismo brota de um conceito de neces-             lvel dos eventos, mas um determinismo con-
sidade que no se reduz ao de determinao.                dicionante que autorize a previso provvel
Ela significa apenas "uniformidade de ordem e              dos eventos. A concluso  que o conceito de
capacidade de previso". Mas para os defenso-              L. como autocausao (que ainda aparece em
res da necessidade " como se houvesse um                  Bergson e Sartre)  to pouco sustentvel
vnculo mais forte entre as volies e suas cau-           quanto o conceito de determinismo como ne-
sas: como se, ao dizerem que a vontade  go-               cessidade. Correspondentemente, no plano po-
vernada pelo equilbrio dos motivos, estives-              ltico o conceito de L. como poder de fazer o
sem dizendo algo alm da afirmao de que,                 que apraz e o conceito de L. como poder abso-
conhecendo-se os motivos e nossa habitual                  luto da totalidade a que o homem pertence
suscetibilidade a eles, fosse possvel predizer a          (Estado, Igreja, raa, partido, etc.) so igual-
maneira como iremos agir" (Logic, VI, 2,  2).             mente mistificadores. Hoje, assim como nos
Dewey traduz essa doutrina para os termos do               tempos em que a noo no mundo moderno
pragmatismo, ou seja, do empirismo orientado               foi formulada pela primeira vez, a L.  uma
para o futuro: "s vezes se afirma que, se                questo de medida, de condies e de limites;
possvel demonstrar que a deliberao determi-             e isso em qualquer campo, desde metafsico e
na a escolha e  determinada pelo carter e pe-            psicolgico ao at econmico e poltico. Hoje
las condies,  porque no existe liberdade.             se destaca o fato de que a L. humana  "si-
como dizer que uma flor no pode produzir                  tuada, enquadrada no real, uma L. sob con-
fruto porque provm da raiz e do caule. A                  dio, uma L relativa" (Gi RVITCH, Dtermismes
questo no diz respeito aos antecedentes da               sociaux et liberte hnmaine, 1955, p. 81). Ex-
deliberao da escolha, mas s suas conse-                 pressa-se por vezes esse conceito dizendo que
qncias. Qual  sua caracterstica? Dar-nos o             a L. no  uma escolha, mas uma "possibilida-
controle das possibilidades futuras que se                 de de escolha", ou seja, uma escolha que, se
abrem para ns. Esse controle  o ncleo da                feita, poder ser sempre repetida em determi-
nossa liberdade. Sem ele, somos empurrados                 nada situao (ABBAGNANO, Possibilita e liber-
de trs. com ele caminhamos na luz" (Human                 ta, 1956. passim). Dessa forma, pode-se dizer
Naiure and Conduct, 1922, p. 311). A L. de que             que a L. est presente em todas as atividades
Heidegger fala como "transcendncia" e "proje-             humanas organizadas e eficazes, notadamente
o" do homem no mundo tambm  uma L.                     nos procedimentos cientficos cujas tcnicas de
finita, porque condicionada e limitada pelo mun-           verificao consistem exatamente em possibili-
do em que se projeta (Vom Wesen des Guindes,               dades de escolha no sentido acima. Vlido  o
 1949, III, trad. it., pp. 64 ss.).                        procedimento que pode ser eficazmente em-
                                                           pregado por qualquer um, nas circunstncias
   Essa doutrina da L. consolidou-se e tornou-             apropriadas:  uma "possibilidade de escolha"
se mais clara e coerente quando, a partir da d-           sempre ao alcance de qualquer um que se
cada de 40, a cincia desistiu do ideal de causa-          encontre nas condies oportunas. Analoga-
lidade necessria e de previso infalvel. O               mente, as L. polticas so possibilidades de es-
predomnio do conceito de condio sobre o                 colha que asseguram aos cidados a possibili-
de causa, da explicao probabilista sobre a               dade de escolher sempre. Um tipo de governo
explicao necessarista, que se delineou na fsi-          no  livre simplesmente por ter sido escolhido
ca atmica como efeito do princpio de inde-               pelos cidados, mas se, em certos limites, per-
terminao (v. CAUSALIDADE; CONDIO), tornou
LIBERTARISMO                                          613                                      LIBERTISMO


mitir que os cidados exeram contnua possi-               rada e defendida pelos aristotlicos do Renasci-
bilidade de escolha, no sentido da possibilida-             mento: por conseguinte: a) negao da liber-
de de mant-lo, modific-lo ou elimin-lo. As               dade humana; b) negao da imortalidade da
chamadas "instituies estratgicas da L". co-              alma; c) negao da possibilidade do milagre,
mo a L. de pensamento, de conscincia, de im-               interpretado como fruto da imaginao ou co-
prensa, de reunio, etc, tm o objetivo de ga-              mo fato natural fora do comum. Estes aspectos
rantir aos cidados a possibilidade de escolha              doutrinais ligam o L. ao aristotelismo do Renas-
no domnio cientfico, religioso, poltico, social,         cimento.
etc. Portanto, os problemas da L. no mundo                     4a Tese de que a religio , em geral, um
moderno no podem ser resolvidos por frmu-                 produto do embuste das classes sacerdotais.
las simples e totalitrias (como seriam as .suge-               5Q Aceitao do princpio da ''razo de Esta-
ridas pelos conceitos anrquicos ou necessa-                do", isto . do maquiavelismo poltico.
ristas), mas pelo estudo dos limites e das con-                6Q Destruio de crenas e prticas religio-
dies que, num campo e numa situao deter-                sas, sua ridicularizao e, por vezes, sua tradu-
minada, podem tornar efetiva e eficaz a possi-              o em imagens obscenas.
bilidade de escolha do homem.                                  7o Fidesmo, que  a aceitao declarada,
    LIBERTARISMO (in. Libertarianism). O mes-               sincera ou no, das crenas tradicionais, em
mo que anarquismo. Libertrio (in. Libertaraii;            oposio s concluses da razo, segundo o
fr. Libertaire): o mesmo que anrquico (v. ANAK-            princpio da "dupla verdade" do aristotelismo
QULSMO).                                                    renascentista (e do averrosmo medieval).
   LIBERTINISMO (fr. Libertinisme). Corrente                   8e Carter aristocrtico atribudo ao saber,
anti-religiosa que se difundiu sobretudo em                 em particular  reflexo filosfica, e limites im-
ambientes eruditos da Frana e da Itlia na pri-            postos  sua difuso e ao seu uso, para evitar o
meira metade do sc. XVII; constitui a reao               choque com os interesses do Estado e das insti-
-- em grande parte subterrnea -- ao predo-                 tuies a ele ligadas.
mnio poltico do catolicismo naquele perodo.                 Este ltimo aspecto, mais que qualquer
No tem idias filosficas bem determinadas, e              outro, marca a diferena radical entre L. e llu-
a ela pertenceram: catlicos sinceramente liga-             minismoiv.), que consiste em romper os freios
dos  Igreja, mas que achavam impossvel acei-              da crtica racional, em pratic-la em todos os
tar integralmente sua estrutura doutrinria, co-            campos (portanto tambm no campo poltico,
mo Gassendi, Gaffarel, Boulliau, Launoy, Ma-                alm do religioso), na vontade de comunicar os
rolles, Monconys; protestantes emancipados de               resultados dela a todos os homens e de utiliz-
qualquer preocupao religiosa, como Diodati,               los para a melhoria cia vida humana. Contudo
Prioleau, Sorbire e Lapeyrre; e cticos de-               no h dvida de que o L.  um elo importante
clarados que se remetem a doutrinas do pa-                  entre o esprito do Humanismo e o esprito do
ganismo clssico ou pelo menos  forma por                  Iluminismo, Seu melhor historiador, R. Pintarei,
elas assumida no humanismo renascentista, co-               assim resume seu pensamento sobre ele: "A se
mo Guyet, Luillier, Bouchard, Naud. Quillet,               acreditar -- como tudo leva a crer -- que o
Trouiller, Bourdelot, Le Vayer. Portanto, a pro-            surto do esprito filosfico do fim do sc. XVII
psito do L, no  possvel falar em corpo                   em grande parte continuao do Renasci-
doutrinai coerente, mas sim de certo nmero                 mento do sc. XVI, tambm ser preciso con-
de temas comuns, que podem ser resumidos                    cluir que o L. trunfatite dos Fontenelle e dos
da seguinte forma:                                          Bayle no teria existido sem o L. militante dos
    1Q Negao da validade das provas da exis-              Le Vayer, Gassendi e Naud, que tambm foi o
tncia de Deus e da possibilidade de entender               L. sofredor, combatido, embaraado por es-
e defender os dogmas fundamentais do cristia-               crpulos e temores, que s chegou a expres-
nismo.                                                      sar-se renegando-se" (Le libertinage rudit
    2 Negao da moral eclesistica e, em geral,           dans lapremire moiti clu XVII'' sicle, 1943, I,
da moral tradicional, e aceitao do prazer                 p. 576).
como guia ou ideal para a conduta da vida. O                   LIBERTISMO (fr. Libertisme). Este termo
significado da palavra libertino no uso corrente            foi empregado por Bergson (em Revue de
deriva exatamente desse aspecto.                            Mtaph. et de Morale, 1900, p. 661) em lugar da
    3" Aceitao da doutrina da ordem necess-              expresso mais comum "Filosofia da liberdade"
ria do mundo, na forma como havia sido elabo-               para indicar o espiritualismo francs do sc.
LIBIDO                                                614                                              LIMITE


XIX, no qual se insere a prpria doutrina de                enunciado que declare que o predicado con-
Bergson.                                                    vm ao sujeito mediante uma de suas partes ou
    LIBIDO. Termo que, em Freud e nos psica-                acidente, e no imediatamente. P. ex.: "o etope
nalistas, serviu para designar a tendncia se-               branco'  limitado por 'o etope  branco nos
xual em sua forma mais geral e indeterminada.               dentes'" (Lgica hamburguenss, 1638, II, 8, 8).
Freud diz: "Anloga  fome em geral, a L. de-               Wolff expressa-se no mesmo sentido, mas faz a
signa a fora com que o instinto sexual se ma-              distino entre proposio restritiva e limitada,
nifesta, assim como a fome designa a fora                  porquanto a L.  assumida ab intrnseco, isto ,
com que se manifesta o instinto de absoro de              no prprio sujeito, como no caso do enunciado
alimentos" (Einfhrung in die Psychoanalyse,                sobre o etope, ao passo que a restrio  assu-
cap. 21; trad. fr., p. 336). Nesse sentido, as pri-         mida ab extrinseco, como no enunciado "o ar 
meiras manifestaes da L. ligam-se a outras                leve no que diz respeito aos fluidos" (Log.,
funes vitais: no lactente, p. ex., o ato de su-            1106). Kant deu o nome de L.  terceira cate-
gar provoca um prazer diferente do prazer pro-              goria da qualidade, que  "a realidade unida
vocado pela absoro do alimento, e esse pra-                negao" (Crt. R. Pura,  11) e corresponde
zer passa a ser buscado por si mesmo. Freud                 ao juzo infinito, proposio que afirma um
afirma que a zona buco-labial  "ergena" e                 predicado negativo (Lbid.,  9) (v. INFINITO,
considera que o prazer propiciado pelo ato de               Juzo).
sugar  sexual. Nesse sentido, a L. pode nada                   Fm todos estes casos a L. era considerada
ter em comum com a esfera genital. Por isso,                uma restrio aplicada ao sujeito da proposio.
Freud acha que nada se ganha ao chamar a L.                 Para W. Hamilton, entretanto, a restrio  apli-
de instinto, como fez Jung (Lbd., pp. 442 ss.; cf.         cvel ao predicado e tem o nome de L. somente
C. G. JUNG, Wandlungen und Symbole derLibi-                 em expresses como "A virtude  a nica no-
do, 1925).                                                  breza" (Lectureson Logic, 2- ed.., p. 262).
    LICEU (gr. AKeiov). Esse foi o nome dado                   LIMITE (gr. npa; lat. Limes; in. Limit; fr.
 escola de Aristteles, ou Perpato, devido ao             Limite; ai. Grenze; it. Limite). Aristteles distin-
territrio em que estava situada, consagrado a              guiu e enumerou perfeitamente os diferentes
Apoio Lcio. Depois da morte de Aristteles, a              significados desse termo (Met., V, 17, 1022 a 4
escola foi dirigida por Teofrasto de reso, at a           ss.), que so os seguintes:
morte deste (288 ou 286 a.C), que a orientou                    1- O ltimo ponto de uma coisa, ou seja, o
principalmente para a organizao do trabalho               primeiro ponto alm do qual no existe parte
cientfico e para as investigaes pessoais. Teo-           alguma da coisa e aqum do qual esto todas
frasto foi sucedido por Fstrton de Lmpsaco,               as partes dela. Hoje esse conceito  expresso
que a dirigiu por 18 anos; a seguir, a escola               dizendo-se que o L.  um ponto que no pode
continuou seu,trabalho atravs de numerosos                 ser atingido; ou que  uma grandeza tal que a
outros representantes dos quais nos chegaram                diferena entre ela e os elementos da srie infi-
poucas notcias e fragmentos. No primeiro s-               nita a que pertence  ou permanece inferior a
culo antes de Cristo, Andrnico de Rocies pu-               qualquer grandeza atribuvel (cf. PEIRCE, Coll
blica as obras exotricas de Aristteles e d in-          Pap., 4.117; JORGENSEN, A Treatise of Formal
cio a uma nova forma de atividade filosfica: o             Logic, III, pp. 87 ss.).
comentrio aos textos do mestre. Nessa ativida-                 2- A forma de uma grandeza ou de uma
de salientou-se especialmente Alexandre de                  coisa que possui grandeza.
Afrodsia, que viveu aproximadamente no ano                     3'-' O trmino: tanto o terminus ad quem, ou
200 d.C. (cf. WKURLI, Die Schule des Aristteles,           ponto de chegada, quanto, por vezes, o ter-
Texte und Kommentar, Basilia, pp.1944 ss.).                minus a quo, ou ponto de partida.
    LIMITAO (lat. Limitatio; in. Limitation;                  4e A substncia ou essncia substancial de
fr. Limitation; ai. Limtation, Begrenzung; it.             uma coisa, visto ser esse o L. de conhecimento
Limitazione). Na lgica do sc. XVII, comeou-              da coisa, portanto da prpria coisa. Nesse sen-
se a chamar desse modo aquilo que na lgica                 tido, L. significa condio. Para Aristteles, a
medieval era chamado de restrio (resttictio,              condio do conhecimento e do ser da coisa 
cf. PEDRO HISPANO, Summ. log., 11.01): a redu-              a substncia ou essncia necessria (v. ESSN-
o de um enunciado a um significado mais                   CIA; SUBSTNCIA).
restrito. Segundo Jungius: "Diz-se que um enun-               O primeiro significado do termo est liga-
ciado sofre L. quando  substitudo por outro               do ao uso que Kant fez dessa palavra; "Nos
LNGUA                                                 615                                       LINGUAGEM

seres extensos, L. sempre pressupe um es-                   zer parte de um discurso com uma fLino de-
pao que est alm de certa superfcie deter-                terminada: s podem combinar-se com os
minada e que a inclui em si; a fronteira, po-                outros signos em modos limitados e reconhe-
rm, no precisa disso, mas  a negao pura                 cveis.
que qualifica uma grandeza, porquanto no                       A L. distingue-se da lngua, que  um con-
uma totalidade absoluta e perfeita. Ora, de al-              junto particular organizado de signos intersub-
gum modo nossa razo v em torno de si um                    jetivos. A distino entre L. e lngua foi estabe-
espao para o conhecimento das coisas em si,                 lecida por Ferdinand de Saussure, que a definia
ainda que nunca possa ter conceitos determi-                 da seguinte forma: "A lngua  um produto so-
nados sobre elas e se limite puramente aos fe-               cial da faculdade de L. e ao mesmo tempo um
nmenos" (Prol.,  57). Neste sentido, Kani de-              conjunto de convenes necessrias adotadas
nominou conceito-limite o conceito de nme-                  pelo corpo social para permitir o exerccio des-
no, que serve "para circunscrever as preten-                 sa faculdade nos indivduos. Tomada em con-
ses da sensibilidade, sendo, pois, de emprego               junto, a L.  multiforme e heterelita; sobrepos-
puramente negativo" (Crt. R. Pura; Anal. dos                ta a domnios diversos -- fsico, fisiolgico e
princ, cap. 3; cf. COISA EM SI). O que possui L,             psquico -- tambm pertence ao domnio indi-
nesse sentido,  finito no significado 4 do                  vidual e ao domnio social; no se deixa classi-
termo.                                                       ficar em categoria alguma de fatos humanos
    LNGUA (lat. Lngua; in. Language, Ton-                  porque no se sabe como determinar a unida-
gue; fr. I.angue; ai. Sprache; it. Lngua). Um               de" (Cours de linguistque gnrale, 1916, p,
conjunto organizado de signos lingsticos. A                15). Do ponto de vista geral ou filosfico, o pro-
distino entre L. e linguagem foi estabelecida              blema da L.  o problema da intersubjetividade
por Saussure, que definiu a L como "conjunto                 dos signos, do fundamento desta intersubjetivi-
dos costumes lingsticos que permitem a um                  dade. O problema da "origem" da L, discutido
sujeito compreender e fazer-se compreender"                  nos scs. XVII e XIX,  uma de suas formas; as
(Cours de linguistiqitegnrale, 1916, p. 114).              duas solues tpicas so apenas dois modos
Neste sentido, L, por um lado,  sistema ou es-              de garantir a intersubjetividade dos signos
trutura (v.) e, por outro, supe uma "massa fa-              lingsticos. Dizer que a L. tem origem em con-
lante" que a constitui como realidade social.                venes significa simplesmente que essa in-
Podem-se distinguir duas espcies de L: Ia his-              tersubjetividade  fruto de um acordo, de um
tricas, cuja massa falante  uma comunidade                 contrato entre homens, e dizer que a L. se ori-
histrica: p. ex. italiano, ingls, francs, etc; 2a         gina da natureza significa simplesmente que
artificiais, cuja massa falante  um grupo que               essa intersubjetividade  garantida pela relao
se distingue por uma competncia especfica;                 entre o signo lingstico e a coisa ou com o
so as L. das tcnicas especficas (s vezes cha-            estado subjetivo a que ele se refere.  possvel
madas impropriamente de linguagens); p. ex.:                 distinguir quatro solues fundamentais para o
L. matemtica, L. jurdica, etc.                             problema da intersubjetividade da L. e, portan-
                                                             to, quatro interpretaes de L: Ia L. como con-
    LINGUAGEM (gr. kyo; lat. Sermo; in.
                                                             veno; 2- L. como natureza; 3a L- como esco-
Lunguage, Speech; fr. Language; ai. Sprache, it.
                                                             lha-, 4- L. como acaso. As trs primeiras inter-
Linguaggio). Em geral, o uso de signos inter-
                                                             pretaes j haviam sido distinguidas e caracte-
subjetivos, que so os que possibilitam a co-
                                                             rizadas por Plato.
municao. Por uso entende-se: ly possibilida-
de de escolha (instituio, mutao, correo)                   As primeiras duas tm em comum a afirma-
dos signos; 2Q possibilidade de combinao de                o do carter necessrio da relao entre o
tais signos de maneiras limitadas e repetveis.              signo lingstico e seu objeto (qualquer que
Este .segundo aspecto diz respeito s estruturas             seja). A tese convencionalista, ao afirmar a per-
sintticas da L., enquanto o primeiro se refere              feita arbitrariedade de todos os usos lingsti-
ao dicionrio da L. A moderna cincia da L.                  cos, portanto a impossibilidade de confront-
tem cada vez mais insistido (como veremos) na                los e corrigi-los, reconhece em todos a mesma
importncia das estruturas lingsticas, ou seja,            validade. A tese do carter natural da L.  leva-
das possibilidades de combinaes delimitadas                da, por outro lado, a admitir as mesmas conclu-
pela L. Elementos como "Scrates", "homem",                  ses. Uma vez que todos os signos lingsticos
"", "e", "todos", "no", etc, so todos palavras,           so tais por natureza e cada um  suscitado ou
isto , signos intersubjetivos, mas s podem fa-             produzido pelo objeto que expressa, todos so
LINGUAGEM                                            616                                      LINGUAGEM

igualmente vlidos, e  impossvel confront-              rio, como p. ex. chamar de grande o que hoje
los, modific-los ou corrigi-los. Ambas as teses           chamamos de pequeno ou de pequeno o que
levam  conseqncia de que  impossvel di-               hoje chamamos de grande?" {Crat, 433 c.)
zer o que no , porque dizer o que no  sig-                 Este convencionalismo puro, que afirma a
nifica no dizer. Megricos e cnicos, que, na fi-         pura arbitrariedade da referncia lingstica,
losofia grega dos tempos de Plato, representa-            desapareceu a partir de Aristteles e s reapa-
vam as duas teses em questo, tinham em co-                rece no pensamento contemporneo. Aristte-
mum um pressuposto fundamental extrado                    les foi o primeiro a inserir entre o nome e o
(como relata Aristteles) do princpio segundo             seu designado a afeio da alma, a represen-
o qual "nada pode ser predicado de uma coisa               tao ou conceito mental (idia ou palavra inte-
salvo seu prprio nome", princpio que no ex-             rior ou qualquer outra denominao que venha
prime a necessidade da relao entre o signo               a ter em seguida) que cinde e articula a relao
lingstico e seu objeto (Mel., V, 29. 1024 b 33;          entre o nome e o seu designado. A insero
para os megricos, em particular Estlpon; cf.             desse termo permite reconhecer, ao mesmo
PLUTARCO, Ad Colot., 23, 1120 a). Ser fcil mos-          tempo, o convencionalismo da L. e a necessi-
trar que essas caractersticas das duas doutrinas          dade dos seus significados. Aristteles de fato
necessaristas da L. tambm so encontradas nas             afirma que "um nome  um vocbulo semnti-
formas assumidas por tais doutrinas no mundo               co segundo conveno", entendendo com "por
moderno.                                                   conveno" que "nada  nome por natureza,
    Ia A interpretao da L. como conveno                mas apenas depois de se tornar smbolo" (De
teve origem com os eleatas. A inefabilidade do             interpr., 2, 16 a 18; 26-28). As palavras, como
Ser (como necessrio e nico) devia lev-los a             sons vocais ou sinais escritos, no so as mes-
ver nas palavras nada mais do que "etiquetas               mas para todos; no entanto, referem-se s "afei-
das coisas ilusrias", como diz Parmnides (/>.           es da alma que so as mesmas para todos e
 19, Diels). Esta concepo parece ser comparti-           constituem imagens de objetos que so os mes-
lhada por Empdocles (Fr. 8-9, Diels), mas foi             mos para todos" (Ibid., I, 16 a.3-8). Tem-se por-
s Demcrito que a justificou com argumentos               tanto que: Ia os objetos so os mesmos para
empricos. Demcrito de fato fundamenta a                  todos; 2g as afeies da alma, como imagens
tese da convencionalidade em quatro argu-                  dos objetos, so as mesmas para todos; 3Q as
mentos: homonmia, em virtude da qual coisas               palavras escritas ou faladas no so as mesmas
diferentes so designadas pelo mesmo nome;                 para todos. Desta forma a relao palavra-ima-
diversidade de nomes para uma mesma coisa;                 gem mental  convencional, ao passo que a re-
possibilidade de mudar os nomes; e a falta de              lao imagem mental-coisa  natural. A primei-
analogias na derivao dos nomes (Fr. 26,                  ra pode mudar sem qtie mude a segunda, e 
Diels). Os sofistas, com Grgias, insistiam na             apenas a imutabilidade ou necessidade da se-
diversidade entre os nomes e as coisas e na                gunda que determina a estrutura geral da L,
conseqente impossibilidade de se comunicar                que depende da "unio e separao" dos sig-
o conhecimento das coisas atravs dos nomes.               nos, da forma como eles se unem e se sepa-
"A L." -- dizia Grgias -- "no manifesta as               ram, e no do convencionalismo dos sinais. Se-
coisas existentes, da mesma forma que uma                  gundo Aristteles, isso estabelece o carter
das coisas existentes no manifesta sua nature-            privilegiado da L. apofntica, em que tm lu-
za a outra" (Fr. 3, 153, Diels). J dissemos que           gar as determinaes de verdadeiro e falso,
Estlpon afirmava a tese da impossibilidade de             segtindo a unio ou a separao dos signos
tuna coisa ser predicado de outra, o que ex-               reproduza ou no a unio ou a separao das
pressa a necessidade de referncia do signo                coisas. Aristteles no nega que existam discur-
lingstico ao objeto. Plato aludia aos meg-             sos no apofnticos, como p. ex. a prece (Ibid.,
ricos quando dizia: "Ser que preferes a manei-            4, 17 a 2), mas, privilegiando o discurso apo-
ra como Hermgenes e muitos outros falam                   fntico, faz dele a verdadeira L, pela qual as
quando dizem que os nomes so convenes e                 outras se moldam mais ou menos ou a partir
que so claros para aqueles que os estipularam             da qual devem ser julgadas. De fato, a poti-
e conhecem as coisas s quais correspondem,                ca e a retrica, que se ocupam da L. no
e que essa  a justeza dos nomes, de tal forma             apofntica. so tratadas por Aristteles em co-
que no importa se a conveno  feita segun-              nexo com a analtica. Ora, a L. apofntica
 do o que j se tenha estabelecido ou o contr-            nada mais tem de convencional: suas estruturas
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so naturais e necessrias porque so as mes-              sons isolados, mas do uso dos sons, ou seja,
mas do ser, que ela revela.                                das regras que o limitam. Essa foi a posio de
    Esse convencionalismo aparente ou coxo                 Wittgenstein, em sua segunda forma (Philoso-
que se pode combinar com a tese do carter                 phische Untersuchungen). Wittgenstein admitiu
apofntico da L.  a forma assumida na Idade               a arbitrariedade, portanto a equivalncia, de to-
Mdia e na Idade Moderna. O nominalismo                    dos os " jogos lingsticos" em uso, admitindo
medieval retoma exatamente nessa forma a                   que tais jogos podem ter caracteres e regras
tese convencionalista. Ockham, p. ex., distin-             muito diferentes, de tal modo que cham-los
gue os signos "institudos arbitrariamente para            em conjunto de "L." significa apenas que eles
significar vrias coisas", ou seja, as palavras,           tm inter-relaes diferentes (Philosopbical In-
dos signos naturais, que so os conceitos                  vestgations, I, 65). Desse ponto de vista, h
(Summa log., I, 14), e essa posio s faz repro-          um retorno das teses clssicas do convencio-
duzir substancialmente a de Aristteles.  idn-           nalismo; em primeiro lugar, a impossibilidade
tica a posio de Hobbes, que, ao mesmo tem-               de retificar a L. razo pela qual ela deve ser
po em que insiste na arbitrariedade do signo               sempre declarada verdadeira e perfeita ou, co-
lingstico, diz que ele  "uma nota com a qual            mo Wittgenstein prefere, em ordem: "Est claro
                                                           que todo enunciado da nossa L. est em ordem
se pode revocar  alma um pensamento seme-
                                                           assim como . Isso quer dizer que no estamos
lhante a um pensamento passado" (De corp.,                 perseguindo um ideal como se os nossos
2, 4). Essa correspondncia entre palavras e               enunciados ordinariamente vagos ainda no ti-
pensamentos  tomada por Locke como defini-                vessem atingido um sentido irrepreensvel e
o da funo sgnica cia L: "As palavras que,             como se uma L. perfeita ainda estivesse para
por natureza, se ajustavam a esse objetivo fo-             ser construda. Por outro lado, parece claro que
ram empregadas pelos homens como signos                    onde h sentido deve haver ordem perfeita.
de suas idias: no por alguma conexo natural             Assim, deve haver ordem perfeita na mais vaga
que exista entre determinados sons articulados             das proposies" (Ibid:, 1, 98). Desse ponto de
e certas idias, pois nesse caso haveria uma s            vista, o ideal lingstico, a lngua perfeita  algo
L. entre os homens, mas por uma imposio                  j existente no uso. "O ideal" -- diz Wittgen-
voluntria, mediante a qual determinada pala-              stein -- "deve ser encontrado na realidade. En-
vra  aceita arbitrariamente como marca de                 quanto no virmos como se encontra nela, no
certa idia" (Ensaio, III, 2, 1). A insero do            entenderemos a natureza desse deve. Achamos
"signo natural", "pensamento" ou "idia" entre             que deve estar na realidade porque achamos
a palavra e seu designado descaracteriza a tese            que j o vimos" (Ibid., 101). Pode-se dizer que
convencionalista e, como vimos, aproxima-a da              esse ponto de vista coincide com o de Carnap.
tese oposta, chegando a confundi-las. Essa tese            O "princpio de tolerncia" ou "de convencio-
reduz-se de fato  afirmao da arbitrariedade             nalidade", estabelecido por Carnap, expressa a
do signo lingstico isolado, da palavra enten-            perfeita equivalncia dos sistemas lingsticos.
dida como som, mas no se estende ao uso                   "Em lgica" -- afirma Carnap -- "no existe mo-
 propriamente dito das palavras (no qual consis-           ral. Cada um pode construir como quiser a sua
te a L), portanto s regras desse uso. Eqivale            lgica, isto , a sua forma de linguagem. Se
a dizer. p. ex., que no jogo de xadrez  indife-           quiser discutir conosco, dever apenas indicar
 rente chamar a torre de peo ou peo de torre,            como quer faz-lo e apresentar regras sintti-
 mas que  necessrio que certa pea (peo ou              cas, em vez de argumentos filosficos" (Lgica/
 torre) seja usada de uma forma e que outra                Syntax of Language,  17). Desse ponto de vis-
 pea (torre ou peo) seja usada de outra ma-              ta, a construo de uma L. ideal ou perfeita 
 neira. A L.  o jogo de xadrez que, nesse caso,           feita com base naquilo que um certo tipo de !..
  declarado necessrio: o convencionalismo                 de fato. Carnap diz: "Os fatos no determi-
 das palavras, ou seja, dos simples sons articula-         nam se o emprego de uma certa expresso
 dos, no diminui essa necessidade.                        est correto ou errado, mas apenas a freqn-
                                                           cia com que leva ao efeito para o qual tende e
   Portanto, o restabelecimento da tese clssica           coisas desse gnero. Uma questo sobre o que
do convencionalismo s ocorre com a elimina-               est certo ou errado deve sempre referir-se a
o de qualquer intermedirio entre o sinal                um sistema de regras. A rigor, as regras que re-
lingstico e seu designado; em outras palavras            lacionaremos no so as regras da L. B, como
com a declarao de arbitrariedade, no dos
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ela  de fato, mas constituem antes um sistema            toma como designado pela L. Todas as formas
lingstico em correspondncia com B, que de-             dessa doutrina asseveram que a L.  apofntica,
nominaremos sistema semntico B-S. A L. B                 ou seja, que de certa forma revela seu objeto;
pertence ao mundo dos fatos (...), mas o siste-           diferem ao determinar o tipo de objeto que a L.
ma lingstico B-S  algo construdo por ns;             revelaria de forma primordial ou privilegiada.
tem todas as propriedades que estabelecemos               Assim,  possvel distinguir: a) a teoria da inter-
por meio de regras e somente elas. Todavia,               jeia, h) a teoria da onomatopia; c) a teoria
no construmos B-S arbitrariamente, mas le-              da metfora; d) a teoria da imagem lgica.
vando em considerao os fatos de B. Portanto,                a) A teoria da interjeio, que Max Mller
podemos formular a afirmao emprica de                  (Lectures on tbe Science of Language, 1861,
que a L. Besta, em certa medida, em harmonia              cap. 9, trad. it., p. 363) chamou de teoria do
com o sistema B-S" (Foundations of Logic and              puh-piih, foi exposta pela primeira vez por
Matbematics. I, 4). Por isso, segundo Carnap, o           Epicuro.- "As palavras no so em princpio
sistema semntico B-S tem as seguintes pro-               criadas por conveno, mas  a prpria nature-
priedades: Ia constitui o critrio com base no            za humana que, influenciada por determinadas
qual se pode julgar sobre a correo ou no da            emoes e visando a determinadas imagens,
L. /?; 2-- as regras de B-S vo so convencionais         leva os homens a emitir o ar da forma apropria-
porque so escolhidas com base nos dados de               da a cada emoo e imagem. As palavras so
tato fornecidos por B. Carnap, portanto, admite
                                                          inicialmente diferentes devido  diversidade
simultaneamente a tese do convencionalismo
cias L. e a tese da naturalidade dos sistemas se-         dos povos e dos lugares, mas depois tornam-se
mnticos, isto , das L. perfeitas.                       comuns, para que seus significados sejam me-
                                                          nos ambguos e mais rapidamente compreens-
    2- A doutrina segundo a qual a L. existe "por         veis" (DIG.. L, X, 75-76). Lucrcio expressava
natureza", e que a relao entre a L. e o seu             mais sucintamente o mesmo conceito: "A natu-
objeto (seja qual for)  estabelecida pela ao           reza obrigou os homens a emitir os vrios sons
causai deste ltimo, tambm se caracteriza pelo           da L, e a utilidade levou a dar a cada coisa o
reconhecimento da necessidade da relao se-              seu nome" (De rei: nat., V, 1027-28). Em tem-
mntica. Enquanto a doutrina anterior afirmava            pos modernos essa doutrina foi retomada por
que a relao semntica  sempre exata porque             Condillae (Sur lorigine des connaissances
em qualquer caso  instituda arbitrariamente, a          humaines, 1746, 1,  1 ss.) e exposta de forma
doutrina em exame afirma que  sempre exata               mais brilhante por Rousseau: "A primeira L. do
porque escapa ao arbtrio e  instituda pela
                                                          homem, a L. mais universal e mais enrgica, a
ao causai do objeto. Pode-se dizer que essa
tese remonta a Herclito (Fr. 23, Diels; 114.             nica da qual ele necessitava antes que fosse
Diels), mas forexposta explicitamente pelos c-           preciso convencer homens reunidos,  o grito
nicos, especialmente por Antstenes, cujo pon-            natural. Por ser arrancado por uma espcie de
to de vista  expresso por Crtilo no dilogo             instinto nas ocasies prementes, para implorar
homnimo de Plato: "As coisas tm nomes                  socorro nos grandes perigos ou alvio nos ma-
por natureza e artfice de nomes no  qual-              les violentos, esse grito no tinha grande utili-
quer uni, mas s quem olha para o nome que                dade na vida comum, em que reinam senti-
por natureza  prprio de cada coisa e que               mentos mais moderados. Quando as idias dos
capaz de expressar sua espcie em letras e sla-          homens comearam a estender-se e multipli-
bas" (Crat., 390 d-e). Sabemos outrossim que              car-se, estabelecendo-se comunicao mais es-
Antstenes definira a L. dizendo ser ela "aquilo          treita entre elas, quando foram buscados sinais
que manifesta o que era ou " (DIG. L, VI, 1,            mais numerosos e uma L. mais ampla, multipli-
3), e que extraa dessa doutrina as mesmas                caram-se as inflexes da voz e acrescentaram-
conseqncias que os megricos, com Estlpon,             se os gestos, que, por natureza, so mais ex-
extraam da tese do convencionalismo: " im-              pressivos e cujo sentido depende menos de de-
possvel contradizer ou mesmo dizer o falso"              terminaes anteriores" (De Vingalit parmi
(AKLSTTKLKS, Met., V, 29, 1024 b 33). Esta for-          les hommes, I; cf. tambm o ensaio "Sobre a
ma de Antstenes  apenas uma das formas                  origem das lnguas", em CEiwres, 1877, vol. I).
que a doutrina em exame pode assumir e assu-              Mas o problema que se ope a essa doutrina 
miu ao longo de sua histria. Essas formas so            o da passagem de uma lngua constituda por
distinguveis com base no tipo de objeto que se           gritos simples ou interjeies para uma lngua
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objetiva, constituda por termos gerais ou abs-           los glossologistas para explicar a formao das
tratos. Mesmo no mundo moderno no faltou                 palavras originais nesta ou naquela lngua e
quem visse na interjeio a origem dos sons               sua distribuio em grupos distintos. O prprio
que, gradualmente purificados, se transforma-             Cassirer admite como primeira fase da expres-
ram em verdadeira linguagem. Era o que pen-               so lingstica uma etapa mimtica, na qual "os
sava, p. ex., O. Jespersen (Language, Its Na-             sons parecem aproximar-se da impresso sen-
ture, Development and Origin, 1923, pp. 418               sorial e reproduzir sua diversidade com a maior
ss.); a mesma tese foi apresentada com mais ri-           fidelidade possvel" (Phil. der symbolischem
gor por Grace de Laguna, que procurou definir             Formen, 1923, 1, cap. 2,  2).
melhor a passagem da interjeio para a L.                    c) A terceira forma da doutrina da naturalida-
como um processo de objetivao, graas ao                de da L. considera-a como metfora. As teses ca-
qual as expresses emotivas vo sendo pouco               ractersticas em que se expressa essa doutrina
a pouco substitudas por aspectos percebidos              so as seguintes: 1- a L. no  imitao, mas
das situaes efetivas (Speech, its Functon and          criao (o que distingue esta teoria da ono-
Development, 1927, pp. 260 ss.). Mais difcil de          matopaica); 2a a criao lingstica no leva a
compreender  exatamente esse processo de                 conceitos ou a termos gerais, mas a imagens,
objetivao e purificao dos gritos emotivos:            que so sempre individuais ou particulares; 3a o
mesmo porque at as doutrinas que a eles re-              que a criao lingstica expressa no  um fato
correm evidenciaram e reconheceram explici-               objetivo ou racional, mas subjetivo ou sentimen-
tamente a diferena entre as palavras e as inter-         tal; e este  propriamente o objeto da lingua-
jeies (que no se distinguem dos gritos ani-            gem. Com tais caractersticas, essa teoria foi
mais), alm do fato de as palavras se afirmarem           expressa pela primeira vez por Vio, para quem "o
em prejuzo das interjeies.                             primeiro falar" no foi "um falar segundo a natu-
    b) A teoria da onomatopia, que Max Mller            reza das coisas", mas "um falar fantstico para
(Lectures cm the Science of Language, 1861,               substncias animadas, na maior parte imagina-
cap. 9) denominou teoria do bau-bau, afirma               das divinas" (Scienza nuova, II, Da lgica poti-
serem as razes lingsticas imitaes dos sons           ca). Os primeiros poetas, segundo Vio, deram
naturais. Essa teoria era conhecida por Plato,           "os nomes s coisas a partir das idias mais par-
que a critica observando que, "neste caso,                ticulares e sensveis, que so as duas fontes, esta
aqueles que imitam o balido das ovelhas, os               da metonmia e aquela da sindoque" (Ibd.,
cantos dos galos e as vozes dos demais animais            Corolrios acerca dos tropos, 2). Conseqente-
dariam nome aos animais cuja voz imitam"                  mente, os primeiros homens conceberam a
(Crat., 423 c). Essa teoria foi defendida por             idia das coisas "por caracteres fantsticos e mu-
Herder, em Tratado sobre a origem da lingua-              dos de substncias animadas" e entenderam-se
gem (1772): ele considerou os sons naturais (p.           "com atos ou gestos que tivessem relaes na-
ex., o balir de um cordeiro) como os sinais que           turais com as idias (como, p. ex., ceifar trs ve-
a alma utiliza para reconhecer o objeto em                zes ou mostrar trs espigas para significar trs
questo. "O balido, notado como sinal distinti-           anos)". Segundo Vio, isso  facilmente obser-
vo, passa a ser o nome do cordeiro. O sinal               vado na lngua latina, "que formou quase todas
compreendido, graas ao qual a alma se reflete            as palavras por transferncias de naturezas, por
claramente numa idia,  a palavra, li o que  a          propriedades naturais ou por efeitos sensveis",
L. humana, seno o conjunto de tais palavras?"            mas "geralmente a metfora constitui o maior
(Werke, ed. Suphan, V, pp. 36-37). A principal            corpo das lnguas em todas as naes" (Ibd.,
objeo a essa doutrina foi levantada pelos               Corolrios acerca dos tropos, 2). Essa teoria 
glossologistas: no  verdade que a origem de             expressa de modo bem mais imaginosa por
todas as razes lingsticas seja onomatopaica.           Hamann, para quem a L, que  ''o rgo e o cri-
Nem na formao dos nomes dos animais, em                 trio da razo", no  uma simples coleo de
que se poderia presumir maior eficcia do prin-           signos, mas "o smbolo e a revelao da prpria
cpio onomatopaico, ele tem realmente funo              vida divina" (Schriften, II, 19, 207, 216). No sc.
dominante. Contra ele encontramos ainda a ob-             XIX a teoria da metfora, mesmo sem a postura
jeo filosfica, oposta por Plato, de que uma           metafsica ou teolgica com que aparece em
coisa  a imitao de um som e outra coisa  a            Hamann,  a caracterstica comum das doutrinas
imposio de um nome. Contudo, o princpio                que foram chamadas do din-don, pelo carter
da onomatopia foi muitas vezes utilizado pe-             ressonante da natureza humana. Assim, Max
LINGUAGEM                                             620                                       LINGUAGEM

Mller afirmava que a L.  o produto de uma                     d) A quarta forma  a da naturalidade da L,
"faculdade criativa que d a cada impresso, na             que a considera como expresso ou imagem
maneira como penetra pela primeira vez no                   da essncia ou do ser das coisas. Essa doutrina
crebro, uma expresso fontica", e que os                   bem antiga, pois sua primeira manifestao 
fonemas assim criados so depois selecionados               a teoria de Antstenes, segundo a qual "L. 
e combinados naturalmente atravs do processo               aquilo que manifesta o que era ou " (DIG. L,
histrico de formao da L. (Lecture. cit., 9). O           VI, 1, 3). Os esticos, por sua vez, afirmaram
carter metafrico da L, consistindo no recurso             que "falar significa pronunciar um som que sig-
a termos ambguos ou equvocos, favorece (de                nifica o objeto pensado" (SKXTO EMPRICO, Adv.
acordo com esta teoria) a origem e a formao               math., VIII, 80). A caracterstica dessa doutrina
do mito. Mller disse: "Na L humana  imposs-               que a ateno no se volta tanto para signos
vel exprimir idias abstratas a no ser metafori-           ou palavras, mas para suas conexes sintticas,
camente, e no  exagero afirmar que todo o                 para as regras de seu uso nas proposies e
dicionrio da religio antiga era composto por              nos raciocnios, portanto para as estruturas for-
metforas (...), sendo pois uma fonte contnua              mais da L. A esta linha pertence propriamente a
cie equvocos, muitos dos quais consagrados                 teoria que denominamos de convencionalismo
na mitologia e na religio do mundo antigo"                 aparente ou coxo, segundo a qual os signos
(Contributions on the Science of Mythology,                 lingsticos so escolhidos arbitrariamente, mas
 1897, I, 68 ss.). Esti conexo da L. com o mito j         seus modos de combinao no so arbitrrios:
fora feita por Vio, que, ademais, no equiparam            so naturais e necessrios porque correspon-
a formao do mito a uma doena da L. As dou-               dem aos modos de combinao dos conceitos
trinas modernas do mitoiv.) negam esta equi-                mentais, que, por sua vez, correspondem aos
parao, mas mantm a conexo do mito com                   modos de combinao das coisas. Essa teoria,
a L Fm sentido anlogo, Croce estabeleceu a                 desenvolvida por Aristteles, foi reproduzida
conexo da L. com a arte em geral. Para ele, a              vrias vezes pelo empirismo moderno e con-
L. tem natureza fantstica ou metafrica, estan-            temporneo (v. acima). Nesta forma, caracteri-
do, pois, mais estreitamente ligada  poesia do             za-se pela insero, entre o signo lingstico e a
que  lgica. "O homem" -- afirma Croce --                  coisa, do conceito mental atravs do qual o sig-
"fala a todo instante como o poeta, porque,                 no lingstico, em seus modos de combinao,
assim como o poeta, exprime suas impres-                    passa a participar da necessidade objetiva das
ses e seus sentimentos na forma que chama-                 coisas. Fundamento anlogo tem a afirmao
mos de conversao ou familiar, e que no est              da naturalidade da L, feita por Fichte em Dis-
separada por um abismo das outras formas que                cursos  nao alem (1808), em que se afir-
denominamos prosaicas, prosaico-poticas, nar-              ma que "existe uma lei fundamental segundo a
rativas, picas, dialogadas, dramticas, lricas,           qual todo conceito assume um som atravs dos
musicais, cantadas, e assim por diante" (Bre-               rgos; um som que  aquele e no outro" (IV,
viario di esttica, 1913, II). Contudo, h um abis-         trad. it., Allason. p. 78), ou a afirmao de
mo existente (e Croce afirma-o mais tarde) en-              Hegel de que "a L. confere s sensaes, intui-
tre a expresso potica, que aplaca e transfigu-            es ou representaes uma segunda existn-
ra o sentimento (sendo por isso um conhecer),               cia superior  existncia imediata; uma existn-
e os outros tipos de expresso (sentimental ou              cia universal, que tem vigor no domnio cia re-
prosaica), que, estreitamente vinculados ao                 presentao" (Ene,  459).
sentimento e  idia, no realizam a transfigu-
rao prpria da expresso autntica e, portan-                Mas a tese da naturalidade da L. s foi reto-
to, nem podem chamar-se L. Para Croce, so                  mada em sua forma rigorosa e, portanto, em
apenas "sons articulados" (Lapoesia, 1936, pp.              seus princpios clssicos, pela lgica matemti-
9 ss.). Essa concluso,  qual Croce -- no sem             ca contempornea. Esta de fato reafirmou o
coerncia -- levou a teoria em exame, mos-                  princpio da correspondncia termo a termo
tra os limites dessa mesma teoria, que  inca-              entre os signos lingsticos e as coisas, princ-
paz de explicar a passagem da L. metfora pa-               pio que os cnicos expressaram dizendo que a
ra a L. conceituai, da L. que  grito, gesto ou             L.  aquilo que manifesta o que uma coisa era
outro "carter potico" (segundo a expresso                ou . Este princpio, que faz da L. a reproduo
de Vio) para a L. que  estrutura, organizao             pietrica da realidade ou, em geral, do ser, foi
e regra.                                                    inicialmente defendido por Russell, mas sua
                                                            formulao mais rigorosa est em Tractalus
LINGUAGEM                                           621                                       LINGUAGEM


logico-philosophicus (1922) de Wittgenstein. O            and Knowledge, pp. 197-98). Segundo Russell,
princpio era exposto por Russell da seguinte             a L. de Principia mathematica visa a ser a L.
forma: "Em toda proposio que podemos                    dessa espcie: nela s existe sintaxe, sem voca-
apreender (ou seja, no s aquelas cuja verda-            bulrio (Ibid., p. 198). E isso a equipara  lin-
de ou falsidade podemos julgar, mas todas as              guagem proposta pelos doutos da Academia de
que pudermos imaginar), todos os constituin-              Lagado, de que fala Swift em Viagens de Gulli-
tes so realmente entidades das quais temos                ver. a proposta era abolir as palavras porque,
conhecimento direto" ("On Denoting", 1905,                "desde que as palavras so apenas nomes para
agora em Logic and Knouiedge, 1956, p. 56; cf.            as coisas, seria mais cmodo as pessoas leva-
Mysticism and Logic, 1918, pp. 219, 221; The              rem consigo as coisas necessrias para expressar
Problema of Philosophy, 1912, p. 91). Isso signi-         os diversos assuntos sobre os quais pretendes-
fica que a cada termo empregado nas proposi-              sem conversar". Por isso, aqueles sbios carre-
es deve corresponder um termo ou entidade               gavam sacos repletos de objetos e conversa-
objetiva da qual se tenha conhecimento dire-              vam mostrando-se os objetos (Gullivefs Traveis,
to (acquaintance), ou que deve existir uma                III. cap. 5).
correspondncia termo a termo entre os ele-                   O mesmo ideal foi expresso por Wittgen-
mentos que entram na composio das propo-                stein (primeira maneira) com frmulas simples
sies e as entidades de que se tem conheci-              e precisas. Eis algumas: "O nome significa o
mento direto. Russell observa a propsito que             objeto: o objeto  o seu significado" ( Tractatus,
"devemos atribuir um significado s palavras              3.203). "A configurao dos signos simples na
que usamos se desejamos falar com algum sig-              proposio corresponde a configurao dos
nificado e no por simples tagarelice, e o signi-         objetos na situao" (Ibid., 3.21). "O nome 6 o
ficado que atribumos s palavras deve ser algo           representante do objeto na proposio" (Ibid..
do qual j tenhamos conhecimento" (Problems               3.22). Wittgenstein expressou com toda a clare-
o/Pbii. p. 9D. Esta  simplesmente a reexpo-              za desejvel o conceito de linguagem (que ou-
sio da tese de Antstenes. segundo a qual fa-           tro no  seno "a totalidade das proposies".
lar significa dizer algo, mais precisamente algo          Ibid., 4.001) como representao pictrica do
que . de tal forma que no  possvel dizer o            mundo. "A primeira vista" -- diz ele -- "no
que no ; acrescenta-se a isso que o que , ou           parece que a proposio, assim como est, p.
seja, as entidades correspondentes aos termos             ex., impressa no papel, seja uma imagem da
da L, deve ser "diretamente conhecido". Rus-              realidade de que trata. Mas a notao musical, 
sell baseava sua teoria da denotao nesse                primeira vista, tampouco parece uma imagem
princpio: segundo ela, "quando existe alguma             da msica, assim como nossa escritura fontica
coisa de que no temos conhecimento imedia-               (em letras) no parece uma imagem da nossa L.
to, mas apenas uma definio com frases deno-             falada. No entanto, esses smbolos demonstram
tantes. as proposies nas quais essa coisa              ser -- inclusive no sentido comum do termo --
introduzida por meio de uma frase denotante               imagens daquilo que representam" (Ibid., 4.001).
no contm realmente a coisa como constituin-             Boa parte do empirismo lgico e. em geral, da
te, mas os constituintes expressos pelas diver-           filosofia contempornea compartilha ou com-
sas palavras da frase denotante" ("On Deno-               partilhou dessa doutrina da L. como imagem
ting", Ibid., pp. 55-6). Assim, p. ex., como no          lgica do mundo. A objeo fundamental a ela
temos experincia direta do esprito dos outros,          foi bem expressa por Max Black: "No h mo-
se A 6 um desses espritos, no sabemos que               tivo para a L. 'corresponder' ou 'assemelhar-se'
"A possui esta e aquela propriedade", mas sa-             ao mundo', assim como no h motivo para
bemos apenas que "Fulano de Tal tem um es-                assemelhar-se ao mundo o telescpio com que
prito com esta ou aquela propriedade". Toda-             o astrnomo o estuda" (Language and Philo-
via, se pudesse haver uma L. ideal, ela deveria           sophy, V, 4; trad. it., p. 173).
conter unicamente elementos constitutivos lti-
mos, de tal forma que nela "s haveria uma                     interessante constatar que no outro ex-
palavra, e no mais de uma, para cada objeto sim-         tremo da filosofia contempornea, o metaf-
ples, e as coisas que no fossem simples seriam           sico ou ultrametafsico, tem-se conceito an-
expressas por uma combinao de palavras,                 logo da linguagem. Heiclegger certamente
cada uma das quais ali representaria uma coisa            no admite a correspondncia termo a termo
 simples" ("The Phil. of Logical Atomism", Logic          entre os elementos da L. e os elementos do
                                                          ser, mas afirma com a mesma veemncia de
LINGUAGEM                                           622                                      LINGUAGEM

Wittgenstein o carter apofntico da L. em rela-          tese filosfica fundamental acerca da L: a fali-
o  totalidade do ser. Nesse sentido, denomi-           bilidade da L, a possibilidade de dizer o que
nou a L. de "casa do ser". E acrescentou: "Falar          no  (Sof., 261 b). A caracterstica comum das
em casa do ser no significa absolutamente                duas doutrinas precedentes, como vimos,  a
transferir a imagem da casa para o ser; um dia,           negao dessa tese. A tese do convencionalis-
partindo de um pensamento adequado da es-                 mo nega que a L. possa incluir o erro porque
sncia do ser, ser possvel chegar a compreen-           uma conveno s pode ter o mesmo valor de
der o que significam casa e habitar ("Brief ber          uma outra. A tese da naturalidade nega que a
den Humanismus", em Platos Lehre von der                  L possa incluir o erro porque deve reconhecer
 Wahrheit, 1947, p. 112). Em outros termos, a L.          que a L. representa, de qualquer forma,
 a revelao imediata do ser, e o homem tem              aquilo que , estando portanto sempre no
acesso ao ser atravs da L.                               campo da verdade. Ambas as teses excluem
    3a A terceira doutrina fundamental da L. in-          que a L. possa ser julgada ou que o juzo so-
terpreta-a como um instrumento, como produ-               bre a correo tenha sentido. Ao contrrio, a
to de escolhas repetidas e repetveis. Essa dou-          tese da L. como operao, uso, escolha, in-
trina foi exposta pela primeira vez por Plato.           clui essa possibilidade, pois que v nela o
Diante das duas teses opostas -- convenciona-             produto de operaes destinadas a consti-
lidade e naturalidade da L. --, Plato evita de-          tuir um instrumento eficaz e no considera in-
cidir-se em favor de uma das duas. Em Crtilo             falvel o sucesso dessas operaes. O funda-
afirma: ''Gostaria que, na medida do possvel,            mento objetivo dessa possibilidade  que "o
os nomes fossem semelhantes s coisas, mas                discurso nasce da unio recproca das esp-
temo que -- como diz Hermgenes -- essa                   cies" (Sof, 259 d), e que as espcies no esto
atrao da semelhana nos leve para um terre-             todas unidas nem todas desunidas, mas algu-
no escorregadio e, assim, seja necessrio lanar          mas podem juntar-se e outras no. As possibili-
mo tambm de um meio mais grosseiro, que                 dades da L, portanto, so limitadas pelas pos-
 a conveno, para certificar-nos da exatido            sibilidades de combinao das espcies ou for-
dos nomes" (Crat, 435 c). Para Plato, os nomes           mas do ser (Sof., 262 c).
dos nmeros, p. ex., dificilmente poderiam                    Essa posio de Plato foi reproduzida por
ser considerados naturais no sentido de se-               Leibniz: ''Sei que se costuma dizer nas escolas e
rem semelhantes ao que indicam. Mas se                    em todo lugar que os significados das palavras
nem a conveno nem a natureza, ou seja,                  so arbitrrios (ex instituto), e  verdade que
se nem a dessemelhana nem a semelhana                   no so determinados por uma necessidade
entre a palavra e a coisa constituem o significa-         natural, mas so por fora de razes naturais,
do, o que  ento que o constitui? O uso.                 nas quais o acaso desempenha algum papel, e
Plato diz: "Se o uso no  uma conveno, se-            s vezes por razes morais, nas quais se inclui
ria melhor dizer que no  a semelhana a ma-             a escolha" (Nouv. ess., III, 2, 1). Herder partia
neira como as palavras significam, mas antes o            da mesma considerao preliminar e definia
uso: este, ao que parece, pode significar tanto           como abstrao a escolha que se faz de uma
por meio da semelhana quando da desseme-                 qualidade do objeto com a finalidade de dar-
lhana" (Crat., 435 a-b). Plato expressou aqui           lhe um nome. "O homem pe em ao a refle-
uma tese fundamental da lingstica moderna:              xo no s quando percebe vivida e claramen-
 somente o emprego que estabelece, ou me-                te todas as qualidades de um objeto, mas tam-
lhor, constitui o significado das palavras. Mas           bm quando pode reconhecer uma ou mais
essa tese pressupe outra, do carter instru-             delas como qualidades distintivas. (...) E com
mental da L, que Plato expressou ao dizer                que meios efetua tal reconhecimento? Atravs
que a L.  um instrumento e que, como todo                da sua capacidade de abstrao" (Werke, ed.
instaimento, deve ajustar-se ao seu objetivo              Suphan, V, p. 35). Foi a partir dessa tradio
(Crat, 387 a). Desse ponto de vista, o uso  a            que Humboldt formulou a doutrina que depois
escolha repetida ou convalidada que levou a               exerceria tanta influncia sobre a moderna
forjar determinado instrumento lingstico; e,            cincia da L. Desse ponto de vista, a formao
 assim como todos os outros instrumentos, os              dos instrumentos lingsticos  a formao de
 lingsticos tambm podem resultar mais ou               conexes, de symplok (como dizia Plato);
menos perfeitos e adequados  sua finalidade.             portanto, a L. no  um complexo atomstico
Justifica-se assim aquilo que, para Plato,  a           de palavras, mas  discurso organizado. Hum-
LINGUAGEM                                            623                                      LINGUAGEM


boldt expressava claramente este conceito:                 possvel prever com suficiente aproximao o
'No podemos conceber que a L. tenha incio                nmero de pessoas que se casaro no prximo
na designao dos objetos por meio de pala-                ano, em determinada comunidade, com base
vras e que proceda, num segundo momento,                  em estatsticas dos ltimos anos. Da mesma for-
organizao dessas palavras. Na realidade, o               ma, podem ser estudadas as freqncias estats-
discurso no  composto por palavras que o                 ticas com que determinadas expresses ocor-
precedem, mas, ao contrrio, as palavras se ori-           rem numa comunidade suficientemente ampla
ginam do discurso" ("Enletung zum Kawi-                  para que possam ser fixadas certas constantes
Werk", Werke, VII, 1, pp. 72 ss.). Portanto, a co-         estatsticas da L. e tom-las como base para o
municao no se realiza a partir da palavra,              estudo das estruturas lingsticas. Com certeza
mas das frases, e s estas so os instrumentos             tal pesquisa estatstica no  indispensvel para
particulares que formam a L. (Ibid., pp. 169 ss.).         o estudo global da L. Tambm h outro mto-
Essas idias dominaram e continuam dominan-                do, de observao sociolgica, no qual o obser-
do a cincia da L. Encontram-se incorporadas               vador lingstico, participando da vida de uma
nos conceitos utilizados por essa cincia, como            comunidade, pode descrever os usos lingsti-
p. ex. o de fonema. Fonema  "a unidade mni-              cos. Esse, alis,  o mtodo at agora mais ado-
ma dotada de caractersticas sonoras distinti-             tado pelos glossologistas, que em raras oca-
vas"; , portanto, uma unidade de significado,             sies, quase exclusivamente ao tratarem com
no de som (BLOOMFIELD, Language, 1933, 5.                 obras literrias, recorreram ao mtodo estatsti-
4). Cada lngua escolhe seus fonemas, mas essa             co. A propsito, pode-se lembrar a obra de Lu-
escolha no pode ser qualificada de "casual"               toslawski sobre o estilo de Plato (The Origin
ou "arbitrria", nem de "natural" ou "necess-             and Groivth ofPlato's Logic, 1897), que conse-
ria", porque uma escolha condiciona ou limita              guiu pr em bases novas e mais seguras a cro-
as outras, e cada grupo ou srie delas  condi-            nologia dos textos do filsofo. Mas hoje no fal-
cionada pela exigncia de eficcia comunicati-             tam propostas para o uso sistemtico do mto-
va da L. Portanto, os fonemas podem ser redu-              do estatstico com vistas  soluo de todos os
zidos a tipos, que a cincia da L. se prope de-           problemas da lingstica estrutural. G. Herdan
terminar. A determinao desses tipos fornece              diz a propsito: "Se considerarmos a lngua
o fundamento das escolhas que constituem as                como a soma dos signos lingsticos mais a
estruturas fundamentais da L. e assim explica,             probabilidade de que eles se repitam no discur-
at certo ponto, essas estruturas, sem justificar          so individual, portanto nos vrios modos como
sua perfeio ou sua infalibilidade. Na lingsti-         o evento sgnico pode ocorrer em conjunto
ca contempornea, a concepo de L. como                   com as relativas freqncias dos diferentes sig-
instRimento  defendida principalmente pelos               nos no uso efetivo, a concepo corresponder
funcionalistas, que consideram a L. como "ins-             a todas as exigncias daquilo que se chama po-
trumento de comunicao", atravs do qual a                pulao estatstica de tais eventos, ou seu uni-
experincia humana se analisa em monemas                   verso estatstico. Cada enunciado individual
que tm um contedo semntico ou uma for-                  (parole, na terminologia de Saussure) serve de
ma fnica: "esta, por sua vez, articula-se em              amostra dessa populao" (Language as Choi-
unidades distintas e sucessivas, os fonemas,               ce and Change, 1956, 1.3). Desse ponto de vis-
cuja natureza e cujas relaes variam de uma               ta, se examinarmos textos diferentes de uma
lngua para outra" (MARTINET, A Functional Vieiv           mesma lngua, descobriremos, por exemplo,
of Language, 1962, cap. I).                                que as freqncias relativas com que determi-
                                                           nado fonema foi empregado pelos escritores
   4- A quarta concepo da L, que denomina-
                                                           so mais ou menos as mesmas. Isso autoriza a
mos de acaso, na realidade  uma especifica-
                                                           consider-las como flutuaes da probabilida-
o da terceira, ou melhor,  uma perspectiva
                                                           de constante desse fonema naquela L. Isso sig-
de estudo aberta pela terceira concepo. Essa
                                                           nifica que o falante ou escritor obedece a leis
perspectiva  constituda pelo estudo estatstico
                                                           aleatrias, e que s quando se consideram gran-
da L. Sabe-se que as aes individualmente
                                                           des massas de formas lingsticas  que se tem
mutveis e imprevisveis apresentam uniformi-
                                                           a impresso de determinao causai em seu uso.
dade e constncia se consideradas em grande
                                                           Em outros termos, aqui estaria ocorrendo o que
nmero. Certamente no se pode prever se
                                                           acontece na fsica, para a qual o determinismo
certa pessoa vai casar-se o ano que vem, mas 
LINGUAGEM, ANALISE DA                                 624                                             LGICA

macroscpico  apenas o efeito de uma consi-                vale sobretudo para as linguagens formaliza-
derao em massa dos eventos microscpicos.                 das (v.).
Para os defensores dessa concepo de L, por-                   LNGUA GESTUAL (in. Sign language).
tanto, aquilo que, do ponto de vista intuitivo,             Com este termo entende-se a linguagem cons-
aparece na L. como relao de causa e efeito (a             tituda por gestos; segundo as chamadas teorias
determinao das escolhas lingsticas), do pon-            psicolgicas da linguagem, constitui a primeira
to de vista quantitativo  apenas acaso. Assim,             fase de todas as linguagens. Wundt distinguiu
segundo essa teoria, as diferenas entre os textos          duas espcies de gestos: indicativo e imitatwo.
no so explicadas pela inteno dos falantes               O gesto indicativo derivaria biologicamente do
ou pelo determinismo causai, mas pelas leis es-             movimento de agarrar (Die Sprache, Vlkspsy-
tatsticas aleatrias (HERDAN, op. cit., 1.4; C. E.         chologe, I, 2- ed.. p. 129). Tambm foram estu-
SHANNON e W. WEAVKR, lhe Mathematical Iheo-                 dadas determinadas L. gestuais, como a dos
ry ofCommunication, Urbana, 1949).                          napolitanos de classe baixa, a dos monges
   Esse ponto cie vista, por um lado, possibili-            trapistas (que fazem voto de silncio), a dos n-
tou as pesquisas da gramtica gerativa. que                dios da Amrica e de alguns grupos de surdos-
"um sistema cie regras que, de modo explcito               mudos.
e bem definido, atribuam descries estruturais                 LRICO (in. Lyric, fr. Lyrique, ai. Lyriscb,
aos enunciados" (CHOMSKY, Aspects of Theory                 it. Lrico). Adjetivo empregado por Croce para
ofSyntax, 1965, p. 8). Por outro lado, possibili-           especificar a expresso artstica como expres-
tou o uso de modelos (v. MODELO) que algu-
                                                            so do sentimento: "O que confere coerncia
mas vezes so considerados constituintes da
prpria realidade sistemtica cia L. (SAPIR, Lan-           eu nidade  intuio  o sentimento: a intuio
guage, 1921) e outras vezes constntctos, ou seja,           s  intuio porque representa um sentimento
estruturas hipotticas oportunamente constru-              e s pode surgir dele e sobre ele. (...) tica e l-
das (RKVZIN, Models of Language. 1966,  2). V.             rica, ou drama e lrica, so divises escolsticas
                                                            do indivisvel: a arte  sempre lrica, ou seja, ex-
ESTRl i'1'l iKAS; ESTRl "TI IRAL1SMO.
                                                            presso tica e dramtica do sentimento" Uirevi-
   LINGUAGEM, ANLISE DA. V. EMP1R1SMO
                                                            rio di esttica. 1912, em Nuoui saggi cii esttica,
I.CiICO.
                                                            p. 28). Para Croce, o lirismo constitui o carter
    LINGUAGEM FECHADA. V. LINGUAGF.M-
                                                            subjetivo ou romntico da arte.
OBJETO.
    LINGUAGEM FORMALIZADA. V SISTEMA                            LITIGIOSUS. Assim foi denominado o dile-
LOGSTICO.
                                                            ma de Protgoras e de seu aluno Evatlos (AULO
    LINGUAGEM-OBJETO (in. Object-langua-                    GF.LIO, Noct. Alt., V, 10) (v. DILEMA).
ge). Esta noo surge em correspondncia com                   LIVRE ARBTRIO. V. I.IBERDADE.
a de metalinguagem (v.) toda vez que uma lin-                   LGICA (in. Logic. fr. Logique; ai. Logik: it.
guagem  considerada "semanticamente fecha-                 Lgica). A etimologia dessa palavra (de yo.
da", por no conter, alm cie suas expresses,              que significa "palavra", "proposies", "ora-
os nomes dessas expresses ou termos (como                  o", mas tambm "pensamento")  to equ-
"verdadeiro" e "falso") que a elas se refiram.              voca quanto a noo que encerra. Em Aristte-
Neste caso.  necessrio distinguir a linguagem             les, cujo grupo de textos, reunidos no Organon,
cia qual se fala. que  o assunto da discusso, e           constitui o primeiro estudo amplo dessa disci-
a linguagem com a qual se fala, com a qual de-              plina, falta a palavra para design-la. No incio
sejamos construir a definio de verdade para               de Analticos, o trabalho mais estritamente "l-
a primeira linguagem. Esta ltima  a metaliu-              gico' dessa coleo, Aristteles define, sem dar
guagem; a primeira  a L. A distino entre L. e            nome, a disciplina que se prepara para investi-
metalinguagem foi introduzida pelos lgicos                 gar como cincia da demonstrao e do saber
poloneses por volta de 1919 e difundida por                 demonstrativo (An. pr., I, 24 a 10 ss.), mas
Tarski (cf. "The Semantic Conception of Truth".             num texto no muito claro. Seus objetos so re-
1944, em Readiugs in Philosopbical Analysis,                lacionados na seqncia do trecho: a proposi-
1949, p. 60). Essa distino foi aceita por Car-            o (como enunciado apofntico, inserido num
nap (Foii)idations of Logic ciiitl Maibematics,             discurso demonstrativo), seus termos (sujeito e
 1939,  3). Por vezes, todavia, a L e a meta-              predicado) e o silogismo. Aqui e em outros
linguagem coincidem, como p. ex. quando se                  textos (principalmente em Tpicosc Retrica),
fala em italiano sobre o italiano. A distino              Aristteles distingue dois tipos de discurso, dia-
LGICA                                                  625                                           LGICA


ltico e demonstrativo: o primeiro parte do                   ao, paixo); 3" doutrina das proposies e re-
problemtico e do provvel e termina necessa-                 gras de conversao; 4 doutrina do silogismo
riamente no provvel; o segundo parte do ver-                 categrico; 5L> doutrina do silogismo hipottico;
dadeiro e termina no verdadeiro. Mas,  paite                 6Q dialtica: a) tpica; b) doutrina dos sofismas
o valor cognitivo da premissa, adverte que, for-              ou fallaciae. Estas podiam ser agrupadas em
malmente, os dois discursos so idnticos: con-               trs partes: doutrina dos termos, doutrina das
sistem sempre no silogismo e em suas estrutu-                 proposies, doutrina do raciocnio (categrico
ras tpicas. O termo A.O7txn (subentendido T%vr|)            ou hipottico, apodtico ou dialtico). A estas
encontra-se nas obras dos e.slicos para indicar              partes de origem aristotlica, ou (atravs de
a arte do discurso persuasivo em geral: divide-               Bocio) estica, o pensamento medieval acres-
se, portanto, em retrica e dialtica, contendo               centou algumas doutrinas que constituem uma
esta ltima aquilo que ser o objeto fundamen-                contribuio original  tradio L. do Ocidente
tal da L., a doutrina do discurso demonstrativo               -- doLitrina da designao e denotao (de
e dos objetos a ele ligados (proposio, ter-                 proprietatibus terminornm), doutrina dos sig-
mos, silogismo, etc). E s nos comentadores                   nos lgicos e das proposies moleculares (de
peripatticos e platnicos de Aristteles, ou                 syncategorematious), doutrina da implicao
nos textos dos eclticos que a estes se referem               material (de consequentiis) -- todas pertencen-
(como Ccero ou Galeno), todos influenciados                  tes  parte da L. que hoje se denomina "semn-
pela terminologia dos csticos, que o termo                   tica".
"L", empregado estritamente como sinnimo                         Para compreender as transformaes havi-
de "Dialtica",  introduzido como nome da                    das durante a Idade Mdia, no s na tradio
doutrina cujo cerne se encontrava em Analti-                 doutrinria, mas tambm no mbito dos obje-
cos de Aristteles, ou seja, a teoria cio silogismo           tos includos no nome "L".  necessrio atentar
e da demonstrao. Bocio d o nome de "L."                   para algumas consideraes. Uma vez que
(tambm aqui alternado com "Dialtica") ao                    Aristteles estava mais preocupado em criar a
conjunto de doutrinas contidas no Organon de                  nova disciplina do que em fundament-la, e
Aristteles, ao qual se soma, como uma esp-                  ainda mais preocupado em criar suas doutrinas
cie de introduo geral, a Isagoge de Porfrio. E as-         fundamentais para aplic-las a problemas filo-
sim, durante toda a Idade Mdia (pelo menos a                 sficos "concretos" (principalmente  metafsi-
partir do sc. XII), a exposio, o estudo e o                ca e  tica) do que em desenvolv-las e exp-
comentrio da Isagoge de Portrio, seguida pe-                las sistematicamente, a L. no s ficou sem
los livros do Organori (na ordem que se tornou                nome prprio para design-la, como tambm
tradicional: Categorias, De interpretaiione, Pri-             permaneceu equvoca em termos de status
 meiros analticos, Segundos analticos. Tpi-                como disciplina e pouco determinada em ter-
 cos, Refinao dos sofistas), freqentemente                 mos de matria subiecta. Quais so propria-
com os comentrios e as tradues ou redu-                    mente os objetos de que a L. se ocupa? Entida-
es cie Bocio, constituem uma ars (uma                      des reais, pensamentos ou formas do discurso?
das "sete artes liberais") conhecida, indiferente-            Esse problema se apresenta j na Antigidade
mente, por Dialtica ou Lgica. A diferena,                  tardia. Os universais (categorias, gneros, esp-
introduzida durante o sc. XIII, entre ars vetns              cies), que parecem constituir propriamente os
e ars nova no tem muita relevncia tratando-                 elementos nos quais se resolve o discurso lgi-
se de uma distino meramente histrica e di-                 co, so substncias reais ou no? Em Isagoge,
dtica enire os livros de Porfrio e de Aristte-             Porfrio formula o problema, Bocio tenta uma
 les, de longa data conhecidos na traduo de                 soluo que, todavia, gira em crculo e se mos-
 Bocio (Isagoge, Categorias, De inteipretatio-               tra insatisfatria; disso resultou a disputa me-
 ne), e os livros que .se tornaram conhecidos de-             dieval entre realistas (Bernardo de Chartre.s,
 pois, com a difuso de novas tradues latinas               Guilherme de Champeaux, Anselmo cie Aosta
do Organon. Em sntese, o ensino da L. em fins                e outros), que afirmam a existncia real dos
da Idade Antiga e na Idade Mdia compreendia                  universais e para os quais a L.  uma espcie
os seguintes assuntos: 1 a teoria das qnnque                de ontologia, e os nominalistas(Rnscclin, Abe-
 roces ou predicveis (gnero, espcie, diferen-              lardo e mais tarde Guilherme de Ockham), que
a, prprio, acidente); 2- teoria das categorias              negam a subsistncia ontolgica dos universais.
ou predicamentos (substncia, quantidade, qua-                Discutindo a questo dos universais, atravs de
lidade, relao, lugar, tempo, posio, posse.                um profundo comentrio ao texto de Bocio.
LGICA                                                626                                           LGICA

Abelardo  o primeiro a fixar um plano prprio              coisas; e, como arte, seria ao mesmo tempo
da L: esta  scientia sermocinalis; os termos da            um preceiturio (Lgica docens) e um exerc-
L. so sermones, portanto palavras, discursos;              cio ativo de discurso ou discusso controlado
no meros sons (flatus voeis, como parece ter               por esses preceitos (Lgica utens). A reao
sustentado Roscelin), mas palavras com uma                  humanista contra a Escolstica, no campo da L,
inteno (intentio) significativa, vale dizer des-          leva  exaltao deste ltimo aspecto e a uma
tinadas a significar coisas, ou melhor, qualida-            spera polmica contra o formalismo tradicio-
des, dadas na experincia. A partir de ento,               nal (Coluccio Salutati, Lorenzo Valia e outros).
definem-se na L. medieval duas correntes ou                  L. "inglesa" (terminista), que, no ensino e no
mtodos (vicie): a via antiquei (ou antiquo-                exerccio escolar, perdia-se muitas vezes em
rum), fiel  tradio realista, portanto de ten-            estreis argcias e ardis disputativos (como a
dncia ontolgica, e a via moderna (ou moder-               antiga erstica dos tempos de Plato e Aristte-
norum), que desenvolve uma L. "terminista",                 les),  contraposta a L.-retrica, na maioria das
ou seja, puramente sermocinalis, em que os                  vezes cie inspirao ciceroniana, como busca
termos do discurso so considerados como                    dos meios de persuaso pelo discurso e ao
tais, independentemente de qualquer hiptese                mesmo tempo disciplina heurstica para a pro-
metafsica sobre a existncia real ou no de                cura das verdades no campo das coisas natu-
seu objeto. Foi esse, substancialmente, o ponto             rais e humanas (histricas e ticas). Esse movi-
cie vista que se firmou na L. a partir do sc. XIII         mento de reforma da L. culmina no ramismo
e no qual se basearam os textos escolares desta             (de Petrus Ramus, ou seja, Pierre de Ia Rame).
disciplina, usados at o incio da Idade Moder-             Ao lado dessa corrente deve-se lembrar outra,
na, como as Sitmmulae logicales de Pedro                    de inspirao peripattica, surgida em Pdua
Hispano (sc. XIII); a partir da difundiu-se defi-         no sc. XVI, cujos expoentes mximos foram
nitivamente a convico de que a questo dos                Fracastrio e Zabarella, que centralizaram suas
universais pertencia mais  metafsica e                   indagaes no problema da inferncia indutiva,
gnosiologia do que  L., que permanece relati-              suas dificuldades e seus pressupostos, ao qual
vamente indiferente a eventuais respostas da-               o trabalho de Aristteles apenas aludira. Tam-
das a esse problema. Contudo, impor-se-ia uma               bm nestes lgicos (ainda que, naturalmente,
outra distino, que em parte chegou at nos-               em formas menos drsticas que nos retores
sos dias, no que se refere ao objeto da L; para             humanistas), o interesse pelas estruturas for-
uns, fatos mentais (Duns Scot, mas tambm S.                mais do discurso dedutivo diminui muito em
Toms de Aquino e alguns nominalistas); para                favor de uma concepo pragmtica e metodo-
outros, no se trataria propriamente de atos                lgica da cincia da L. No incio do sc. XVII,
mentais, mas de formas estruturais intencional-             Francis Bacon em certo sentido leva a cabo esse
mente dirigidas para a constituio de conte-              processo, tentando, com Novum Organum (cujo
dos semnticos, e, como formas, independen-                 nome  programtico) uma reforma radical da
tes tanto de tais contedos quanto dos atos                 L, concebida exclusivamente como metodologia
mentais em que tais contedos so apreendi-                 cientfica geral. Descartada quase por inteiro a
dos (Buridan e seus continuadores dos scs.                 tradio L. peripattico-escolstica (centrada na
XIV e XV; Alberto de Saxnia, Nicola de Au-                 teoria formal do silogismo), a L. humanista (de
trecourt, Marslio de Inghen e outros). Esta lti-          Ramus e outros) tambm destaca os aspectos
ma posio, retomada por E. Husserl (e de ma-               mais propriamente metodolgicos, com a fina-
neira menos clara por B. Russell e por L.                   lidade de transform-los em "instrumento" para
Wittgenstein), determinar o atual renascimen-              guiar e enquadrar a investigao cientfica. Com
to da concepo da L. como formal pura.                     isso, a antiga noo de "L." muda completamente.
    Entrementes, propunha-se outro problema:                    O desinteresse pelo formalismo lgico e,
a L.  cincia ou arte? Vale dizer: tratar-se- de          em seu lugar, o interesse pelos problemas gno-
uma disciplina que, como p. ex. a matemtica,               siolgicos, psicolgicos e metodolgicos de
expe relaes objetivas subsistentes entre os              uma Lgica utens acentuam-se durante a Idade
seus objetos (p. ex., entre as premissas do                 Moderna, de tal forma que, durante os scs.
silogismo e a sua concluso) ou uma tcnica                 XVII, XVIII e XIX, L. passa a ser o nome de
para obter discursos corretos e verdadeiros? Em             uma srie heterognea de disciplinas filosfi-
geral, para os lgicos medievais a L.  as duas             cas, ensinadas nas escolas, "matria" cujos ma-
LGICA                                              627                                             LGICA


nuais expem vrias coisas diferentes: ao lado            do a agir imediatamente sobre o pensamento
da silogstica tradicional (freqentemente re-            lgico moderno, que nos filsofos acima cita-
duzida a poucas noes e mantida mais por                 dos foi buscar sobretudo a idia do clculo l-
razes de tradio do que por interesse real),            gico baseado na distino das idias em sim-
encontram-se anotaes metodolgicas, esbo-               ples e complexas e na analogia (meramente for-
os de teoria do conhecimento, anlises de de-            mal) entre certas operaes lgicas e certas
terminados conceitos gerais, etc. Tpica nesse            operaes aritmticas. Representando os ter-
aspecto  a Art depenser dos mestres de Port-             mos com smbolos genricos (p. ex., letras do
Royal, tambm conhecida pelo nome de Lgi-                alfabeto: a, b, c,..., x, y, z; X, Y, Z; e semelhan-
ca de Port-Royal, que durante longo tempo foi             tes) e as operaes lgicas com smbolos vrios
o texto mais importante dessa disciplina e o              (geralmente tomados de emprstimo  aritm-
modelo adotado e compendiado com maior ou                 tica: +, x, =; etc.)  possvel tentar desenvolver
menor fidelidade pelos demais tratados.                   uma doutrina matemtica (formal) do discurso.
   Todavia, o "renascimento" da geometria eu-             Leibniz fez numerosas tentativas neste sentido,
clidiana, que teve incio no sc. XVI e pros-             todas porm infrutferas e por ele abandona-
seguiu triunfalmente (pelo menos no que diz               das; outras tentativas desse tipo (analogamente
respeito ao aspecto lgico-formal) at quase os           infmtferas) foram feitas pela prpria escola leib-
nossos dias, reprope, juntamente com o mo-               niziana, como p. ex. por Lambert, Holland. Cas-
delo do ''rigor" euclidiano, o problema de fixar          tillon. Porm, mais do que nessas tentativas --
as estruturas discursivas que constituem esse ri-         talvez supervalorizadas pelos lgicos matemti-
gor e das quais este resulta. Descartes (Regulae          cos do nosso sculo --, a importncia de Leibniz
ad directionem ingenii, Discours de Ia m-                para o renascimento da L. aps a crise desenca-
thode) e depois Pascal (Esprit degomtriee Art           deada pelo Humanismo est na idia (ampla-
depersuader) comeam a extrapolar, em forma               mente desenvolvida pelos seus seguidores ale-
de regras metodolgicas, alguns aspectos des-             mes do sc. XVIII, Lambert, Wolff, Crusius) de
se "rigor", remetendo-se (mesmo em polmica               uma "arquitetnica da razo" (no mais conce-
com a silogstica tradicional) ao terreno de in-          bida psicologicamente, mas de tal maneira que
dagaes das formas estruturais de uma lingua-            prenunciava o ponto de vista "transcendental"
gem perfeita (aqui, a linguagem matemtica) e             da filosofia posterior), explicitada nas formas
repropondo, portanto, alguns problemas fun-               e estruturas do discurso; essa "arquitetnica"
damentais de L. formal, como o da definio               constituir o objeto da L. A herana leibniziana
(nominal e real) e o da validade da deduo a             foi recolhida por Kant, que, em Logik, distingue
partir de axiomas. Simultaneamente, Hobbes,               nitidamente a L. da psicologia (com a qual os
partindo tambm do euclidianismo da nova                  Iluministas tendiam a confundi-la) e da onto-
cincia (galileana) da natureza, dava um passo            logia (com a qual alguns leibnizianos, particu-
decisivo rumo  concepo da moderna L. for-              larmente Crusius, tendiam a confundi-la), afir-
mal pura. De fato, Hobbes introduz a profcua             mando o carter de doutrina formal pura: no do
idia do raciocnio como "clculo lgico",                discurso, mas do pensamento,donde as possi-
como combinao e transformao de smbo-                 bilidades de recada numa espcie de psico-
los segundo certas regras, que j em Hobbes se            logismo transcendental, inerentes ao kantismo.
mostravam -- e depois cada vez mais -- con-               De fato, como se sabe, ao lado da L. formal
vencionais (seja qual for a maneira de se enten-          pura, Kant coloca uma L. transcendental como
der posteriormente esse "convencionalismo").              doutrina das funes puras da conscincia: os
Portanto, na histria do pensamento, aparecia             idealistas, em particular Fichte e Hegel, ao
aquele convencionalismo que estava destinado              acentuarem tal interpretao psicologizante e
a ser o ponto de vista mais eficaz para isentar           transcendental, resolvero ambas as partes da
a L. de todos os pressupostos dogmticos e                L. kantiana na parte transcendental, interpre-
metafsicos, para libert-la das contaminaes            tando depois esta ltima como uma espcie de
psicologizantes (que continuaro a obstar seu             "metafsica da mente" ou do "pensamento".
desenvolvimento quase at nossos dias) e                  Desde ento, em vastas zonas da filosofia con-
organiz-la como disciplina das estruturas for-           tempornea, todas elas mais ou menos influen-
mais do discurso "rigoroso", segundo determi-             ciadas pelo idealismo, o termo "L." perdeu in-
 nados modelos ideolingsticos. Contudo o pon-           teiramente o sentido tradicional para retornar 
to de vista convencionalista no estava destina-          acepo iluminista de "filosofia do pensamen-
LGICA                                              628                                              LGICA

to" em geral. O fim do sc. XIX apresenta exa-             extensional, para o qual os conceitos so con-
tamente esse quadro. A L.  entendida como                siderados apenas como classes ou colees de
uma "teoria do pensamento", portanto tratada              objetos, e as proposies so interpretadas
com mtodos naturalistas pelos positivistas (p.           como incluses (ou excluses) totais ou par-
ex. Sigwart, Wundt e outros), e com mtodos               ciais de classes em (ou de) classes (em "todos
metafisico-transcendentais pelos idealistas. Hus-         os homens so mortais", "a classe 'homem' est
serl (Lugische Untersuchiingen, I, 1900-1901)             includa na classe mortal'"). Desse modo, a
criticou profundamente este ponto de vista e,             Analtica de Aristteles (compreendendo prin-
retomando as idias de um lgico bomio es-               cipalmente a teoria da converso e a do silogis-
quecido, B. Bolzano ( Wissenschaftslebre, 1838).          mo) era transformada em -- era substituda
reprope a idia da L. formal pura como dou-              por -- uma espcie de clculo das classes. Par-
trina das proposies em si (em sua pura apo-             tindo desses estudos, uma srie de lgicos e
fanticidade lgica, logo independentes dos atos           matemticos ingleses (C. Boole, Jevons, Venn,
psicolgicos em que so pensadas e da realida-            Whitehead) e outros (Schrder, Poretsky, Cou-
de sobre a qual versam) e da pura deduo de              turat) criaram uma disciplina mais formalizada
proposies a partir de outras proposies (em            e muito mais independente da L. tradicional, a
si). J nessa primeira obra, porm ainda mais             lgebra da Lgica: um clculo ambivalente (ou
nas seguintes (particularmente em Formule und             seja, interpretavel como clculo de classes e
Iranszendentale Logik, 1928), Husserl retoma a            como clculo de preposies) cuja forma exte-
idia da razo como "razo formal", ou seja,              rior em tudo se assemelha  lgebra simblica
pura arquitetnica do pensamento que se ex-               comum, porm com algumas peculiaridades,
plicita historicamente na atividade cientfica,           como p. ex.: as equaes s podem assumir os
por um lado, e na reflexo lgica, por outro.             valores 1 ("universo de discurso", ou "verdadei-
    O renascimento da L. formal pura, caracte-            ro") ou 0 ("classe vazia", ou "falso"); a . a= cie
rstica da poca contempornea, deveria ocor-             a + a = a-, etc. Essa lgebra da L. fornecer os
rer, porm, graas  retomada e ao desenvolvi-            conceitos bsicos e muito material doutrinrio
mento -- com idias mais claras e maior inde-              Lgica matemtica, criada entre o fim do
pendncia em relao a doutrinas metafsicas              sc. XIX e o incio do sc. XX por G. Frege, G.
-- das malogradas tentativas de Leibniz de                Peano e B. Russell, que culmina em Principia
construir a nossa disciplina na forma de clculo           mathematica de Russell e A. N. Whitehead,
simblico. Esta obra foi iniciada por um grupo            obra publicada entre 1900 e 1913- Nela, a L.
de filsofos e matemticos ingleses em meados             passava a ser constituda por duas disciplinas
do sculo passado. G. Bentham, W. Hamilton,               fundamentais: o clculo proposicional, segun-
A. I)e Morgan empreenderam o esforo, histo-              do as operaes principais de negao, disjun-
ricamente decisivo, que viria a transformar a L.          o ou afirmao alternativa, conjuno ou afir-
em disciplina matemtica, superando o obstcu-            mao simultnea, implicao material, e o cl-
lo contra o qual se haviam chocado as tentati-            culo das funes proposicionais (enunciados
vas de Leibniz: o fato de, na L. aristotlica, as         que contm variveis); este ltimo d origem 
consideraes quantitativas serem introduzidas            considerao de enunciados gerais e enuncia-
apenas com relao ao sujeito da proposio, e            dos particulares ou existenciais, mediante os
no com relao ao predicado. Deve-se sobre-              operadores "para cada x" e "existe pelo menos
tudo a Hamilton a chamada "quantificao do               um A-tal que" (resp. '(x)'. e '(3X)'.). Desta ltima
predicado", que  a anlise das proposies se-           doutrina deriva a dos smbolos incompletos:
gundo formas que introduzem quantificadores               descries (como "o rei de Frana") e classes. O
("todos", "algum") no s para o sujeito, mas             clculo das classes, portanto, no  mais uma
tambm para o predicado, interpretando, p.                doutrina fundamental da L, sendo derivvel do
ex., uma proposio do tipo "todos os homens              clculo das funes proposicionais: todavia,
so mortais" como "todos os homens so al-                devido  sua importncia, muitos lgicos con-
guns mortais". Na realidade, no se trata de              temporneos ainda o consideram um captulo 
mera "correo"  L. aristotlica (em que a               parte (o mesmo ocorre com as relaes). Pos-
omisso de quantificadores para o predicado               teriormente, Wittgenstein, em Tractatus, enun-
no era absolutamente casual), mas da introdu-            ciar uma espcie de segunda tese extensional
o de um ponto de vista novo, puramente                  para as proposies: distinguindo proposies
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atmicas (simples) de moleculares (complexas),               ticas, principalmente -- mas no apenas -- por
afirmar que estas ltimas dependem, para se-                parte dos "analistas do uso", de Oxford. Por
rem verdadeiras ou falsas, da verdade ou da fal-             outro lado, em outros setores (p. ex., na escola
sidade dos componentes atmicos somadas s                   alem proveniente de Hilbert e de Scholze, e
regras semnticas das operaes de composi-                  na escola polonesa de Lukasiewicz e Tarski)
o (p. ex., o enunciado "pou q" ser verdadeiro             prevaleceram os interesses matemticos e o in-
se, e somente se, pelo menos p ou q for verda-               teresse pela prpria L. como disciplina estrita-
deiro): donde a formulao do clculo proposi-               mente matemtica. Fssa  a origem da ciso
cional com base em certos diagramas lgicos                  (por ora parcial) da L. numa srie de disciplinas
meramente combinatrios. Partindo deles, no                  cada vez mais formalizadas e matematizadas,
perodo entre as duas guerras mundiais, alguns               com todos os complexos problemas inerentes
lgicos (principalmente poloneses) tentaram                   formalizao de uma disciplina matemtica
elaborar lgicas polcalentes em que outros                  fundamental (a metamatemtica), para a qual
enunciados alm de 1 ("verdadeiro") e 0 ("fal-               no se pode usar uma outra linguagem formali-
so") podem assumir valores intermedirios. Fal-              zante sem cair num crculo: donde os proble-
tava ainda, em Principia, obra exclusivamente                mas enfrentados por Gdel, Hermes, Tarski e
voltada para a fundao cia aritmtica dos n-               em parte tambm por Carnap. Fntretanto, na
meros naturais, um trabalho sobre a lgical mo-              ex-escola de Viena (atualmente escola de Chi-
dal, ou seja, um clculo de valores modais como              cago) e sob a influncia de outras correntes
"possvel", "necessrio", etc, que ser tentado              (neopositivismo ingls, pragmatismo america-
posteriormente por lgicos como Lewis e Von                  no), principalmente por obra de Morris, Carnap
Wright.                                                      e Hempel, a L. recebeu orientao sobretudo
    A L. matemtica tinha sobretudo dois objeti-             analtico-filosfica, com tendncia a tornar-se
vos: Io constituir a disciplina matemtica funda-            parte de uma disciplina bem mais ampla, a
mental; todas as demais matemticas -- segun-                semitica ou teoria geral dos signos (cuja parte
do a tese logicista defendida por Frege e por                mais interessante  a teoria da linguagem), cria-
Russell -- seriam suas ramificaes mais ou me-              da por Ch. W. Morris sob o duplo impulso da
nos complexas, mas sempre com o mesmo                        sintaxe lgica de Carnap e da Lgica de De-
material conceituai e nele reintegrveis; e 2Q               wey. Com o abandono dos pressupostos cons-
constiaiir (de acordo com o programa formalista              ciencialistas ou mentalistas, bem como das ve-
de Peano, desenvolvido posteriormente por D.                 leidades metafsicas, a cincia do pensamento
Hilbert) mtodos de formulao rigorosa e de                 torna-se cincia da linguagem, que  um com-
controle lgico das disciplinas matemticas pro-             portamento humano tpico e fundamental. A
priamente ditas. A L. torna-se, assim, um instru-            anlise lgica torna-se anlise lingstica, mas
mento de anlise filosfica. Graas a Russell e              aquilo que a tradio considerava dimenso
Wittgenstein, passa a constituir uma espcie de              "L."  somente umas dimenses da lingua-
 linguagem ideal ou perfeita, ou melhor, o es-               gem, ou melhor, duas (segundo Morris e Car-
quema geral (porque meramente simblico) de                  nap, numa distino amplamente aceita, mas
semelhante linguagem, segundo o qual depois                  hoje tambm muito controversa): a dimenso
seriam construdas linguagens (ou fragmentos                 sinttica, na qual os signos cjue compem o
de linguagens) cientficas, nas quais deveriam               discurso (a linguagem) interligam-se segundo
ser traduzidos e, assim, analisados segundo as               regras de formao e transformao (deriva-
estruturas lgicas dessa linguagem os enuncia-               o) relativas  nica forma do prprio discur-
dos de cada disciplina em exame. Sob esse as-                so; e a dimenso semntica, na qual o discurso
 pecto, a L. simblica de Russell no est mais              e os enunciados que o compem podem ser
estreitamente ligada s matemticas como tais:               verdadeiros ou falsos, ou seja, tratam de fatos e
  a L. tout court, instrumento de anlise cientfi-         eventos; conseqentemente -- o que muitos fi-
 ca e geral. F tambm foi aplicada  anlise filo-           lsofos, p. ex. os fenomenistas, contestariam --
 sfica pelo prprio Russell, por Wittgenstein,              as palavras que o compem tratam de coisas e
 por Wisdom e em seguida (com total abando-                  qualidades. Estes so os dois aspectos funda-
 no dos pressupostos metafsicos do atomismo                 mentais (L. matemtica e L. formal analtica)
 lgico cie Russell) pelos empiristas lgicos.               em que se divide hoje a L; contudo essa divi-
                                                             so no significa separao em duas disciplinas
   Mas o programa de Russell, centrado na no-                diferentes, muito menos antitticas, mas duas di-
o de linguagem ideal, foi alvo de severas cr-
LOGICISMO                                             630                                              LOGOS


rees diferentes da investigao lgica, mo-                   1 A doutrina do F. como substncia ou cau-
vidas por dois tipos diferentes cie interesse               sa do mundo foi defendida pela primeira vez
terico.                                   G. P.            por Herclito: "Os homens so obtusos com re-
    LOGICISMO (in. Logicism, fr. Logicisme; ai.             lao ao ser do I... tanto antes quanto depois
Logicismus; it. Logicismo). Com este nome cos-              que ouviram falar dele; e no parecem co-
tuma-se designar uma corrente de pensamento                 nhec-lo, ainda que tudo acontea segundo o
lgico-matemtico que floresceu no fim do sc.              L." (Fr. 1, Diels). O F.  concebido por He-
XIX e no incio do sc. XX. e cujos principais              rclito como sendo a prpria lei csmica: "To-
representantes foram R. Declekind, G. Frege e               das as leis humanas alimentam-se de uma s
B. Russell; no sc. XX, teve muitos seguidores,             lei divina: porque esta domina tudo o que quer.
sobretudo (mas no exclusivamente) no deno-                 e basta para tudo e prevalece a tudo" (Fr. 114,
minado "Crculo de Viena" (Carnap). Os pensa-               Diels). Fsta concepo foi tomada pelos esti-
dores dessa corrente sustentam que a matem-                cos, que viram na razo o "princpio ativo" do
tica (pura)  um ramo da lgica, ou seja, que               mundo, qtie anima, organiza e guia seu princ-
todas as proposies das matemticas puras                  pio passivo, que  a matria. "O princpio ativo"
(particularmente da aritmtica, portanto da an-            -- diziam -- " o L. que est na matria,  Deus:
lise) s podem ser enunciadas com o vocabul-               ele  eterno e, atravs da matria,  artfice de
rio e a sintaxe da lgica matemtica, que assim             todas as coisas" (DIG. F., VII, 134). O L. assim
se torna a disciplina matemtica por exceln-               entendido, como princpio formador do mun-
cia. Com esta convico, Dedekind, Frege e                  do,  identificado pelos esticos com o destino
Russell realizaram suas famosas anlises do                 Ubicl., Vil, 149). No mesmo sentido, Plotino
conceito de "nmero" (inteiro), exatamente                  afirma: "O L. que age na matria  um princ-
para defini-lo apenas atravs de noes (sm-               pio ativo natural: no  pensamento nem viso,
bolos) da lgica matemtica. Ao F. opem-se o               mas potncia capaz de modificar a matria, po-
formalismoc o intuicioriismo(x. MATTMTK:A).                tncia que no conhece, mas age como o selo
                                            G. P.           que imprime sua forma ou como o objeto que
   LGICO (in. Logical; fr. Logjite. ai. l.ogisch;         reproduz o seu reflexo na gua; assim como o
it. Lgico). 1. O mesmo que racional.                       crculo vem do centro, tambm a potncia
    2. O que diz respeito a determinado tipo de             vegetativa ou geradora recebe de outro lugar
lgica. Nesse sentido denomina-se hoje "ver-                sua potncia produtiva, isto , da parte princi-
dade lgica" a verdade que consiste na enun-                pal da alma, a qual lhe comunica esta potncia
ciao de uma tautologia, conforme o conceito               modificando a alma geradora que reside no
da lgica como estudo das tautologias (v. LGI-             todo" (Him., II, 3. 17). Nesse sentido, o L.  o
CA; RAZO).
                                                            prprio Intelecto Divino ordenador do mundo:
                                                            "Da inteligncia emana o F. e emana sempre,
   LGICOS, PRINCPIOS. V CONTRADIO
                                                            enquanto o Intelecto esl presente em todos os
PRINCPIO DI; FUNDAMKNTO; IOHNTIDADK, PRINC-
                                                            seres" (Ibicl. III, 2, 2). F.ssa concepo serviu
PIO DK; TKRCHIRO I-:XCLl'DO, PRINCPIO DO.
                                                            de modelo para todas as formas do pantesmo
   LOGSTICA (in. Logistic. fr. Logistkjiw, ai.             moderno (v. DlT's).
Logistik; it. Logstica). Na Antigidade (p. ex.,
nos fragmentos do pitagrico Arquitas de Ta-                    2 A doutrina do F. como hipstase ou pes-
rento) o termo "L." s vezes era empregado                  soa divina encontra a primeira formulao em
para indicar a aritmtica pura. Feibniz empregou            Flon de Alexandria. Nessa doutrina, o F.  um
esse termo como sinnimo de "clculo lgico"                ente intermedirio entre Deus e o mundo, o
ou "lgica matemtica": com este significado de             instrumento da criao divina. Diz Flon: "A
"lgica simblica" ou "matemtica" foi proposto             sombra de Deus  o seu F.; servndo-se dele
por Couturat e Lalande ao Congresso Internacio-             como instrumento. Deus criou o mundo. Fssa
nal cie Filosofia de Paris em 1904. Mas, depois             sombra  quase a imagem derivada e o mode-
de ter algum sucesso, o termo "L." passou a ser             lo das outras coisas. Pois assim como Deus  o
raramente empregado.                       G. P.            modelo dessa sua imagem ou sombra, que  o
   LOGSTICO, SISTEMA. V. SISTHMA LOGS-                    L.. o L.  o modelo das outras coisas" (Ali. leg..
TICO.                                                       III, 31 ) No cristianismo, o F.  identificado com
   LOGOS (gr. .70; lat. Verbam). A razo                 Cristo. O prlogo do Fvangelho de S. Joo, ao
enquanto V- substncia ou causa do mundo; 2"                lado das funes que Flon j atribua ao L.
pessoa divina.                                              acrescenta a determinao propriamente crist:
LOGOS                                                 631                                        LOUCURA

"O L. fez-se carne e viveu entre ns" (Joann.. I.               LOQUACIDADE (gr. 6oA.eo/a; lat. I.o-
14). Em sua elaborao da teologia crist, os                quacitas; in. Loquacity, fr. Loquac; ai. Recl-
padres da Igreja insistiram nos dois pontos se-             seligkeit; it. Loquacit). Segundo Aristteles,
guintes: \- a perfeita paridade do L.-Filho com             um dos caracteres das pessoas idosas, que es-
Deufi-Pai; 2- a participao do gnero humano               to mais interessadas no passado que no futu-
no L, enquanto razo. Justino. p. ex.. diz:                 ro (que j lhes promete pouco); por isso, gos-
'Apreendemos que Cristo  o primognito de                  tam de falar para rememor-lo (Ret., II, 13.
Deus e que  o L, do qual participa todo o                   1390 a 6).
gnero humano" (Apol. prima, 46). Contra os                     LOUCURA (gr. uopoc; lat. Stultila; in.
gnsticos seguidores de Valentino, para os                  Madness: fr. Folie; ai. Wahn; it. Pazzia). 1. O
quais o L.  o ltimo dos Kons. que, por estar              que Plato chamava de boa L, que no  doen-
mais prximo do mundo, destina-se a form-                  a ou perdio, foi interpretada de dois modos
lo, Irneu afirma a igualdade de essncia e                 diferentes: 1- como inspirao ou dom divino;
dignidade entre Deus-pai e o L, e entre ambos               2- como amor  vida e tendncia a viv-la em
e o Esprito Santo (Adi', haeres., II, 13, S). Nes-         sua simplicidade.
ses conceitos deveriam fundamentar-se as for-                   1L> O primeiro significado encontra-se em
mulaes dogmticas do sc. IV, especialmente               Fedro, onde Plato afirma que "os maiores
as decises do Concilio de Nicia (325) sobre               bens nos so ofertados atravs de uma L. que
os dogmas fundamentais do Cristianismo: Trin-                um dom divino" (Fed., 244 a). Essa L. mani-
dade e Encarnao. Mas entrementes a noo                  festa-se em quatro formas: a) L. proftica,
de L. continuou oscilando entre a interpretao             base da adivinhao, arte de predizer o futu-
de perfeita paridade entre L. com Deus e a que              ro; b) L. purificadora, que permite afastar os
estabelece certa diferena hierrquica entre as             males por meio de purificaes e de inicia-
duas hipstases. A doutrina de Orgenes, que                es no presente e no futuro; c) L. potica,
foi o primeiro grande sistema de filosofia crist           que  inspirada pelas musas (Ibid., 244a,
(sc. III), inclina-se para a segunda interpreta-           245a); d) L. amorosa, a forma superior,  qual
o. Orgenes afirma que se pode dizer do L,                o homem  predisposto pela lembrana da
mas no de Deus, que  o ser dos seres, a                   beleza ideal, despertada nele pela beleza das
substncia das substncias, a idia cias idias:            coisas do mundo (Ibid., 249e). Obviamente,
 Deus est alm de todas essas coisas (De                   as trs primeiras formas de L. tm inspirao
                                                            divina e so atribuveis ao entusiasmo (v.). O
princ, VI, 64). Portanto, o L.  coeterno com o
                                                            amor, entretanto,  L. em sentido diferente,
Pai, que tal no seria se no gerasse o filho,              como aspirao ao ser autntico, despertada
 mas no  eterno no mesmo sentido. Deus  a                por sua manifestao "mais amvel e mais
 vida e o Filho recebe a vida do Pai. O Pai                evidente", que  a beleza. Ora, este j  o se-
 Deus, o filho  Deus (em Joann., II, 1-2). Como            gundo significado de L.
 j se disse, a Igreja, em suas sesses concilia-
 res, pronunciou-se contra essa interpretao,                  2Q No segundo significado, a L.  de fato
 que ficou sendo o apangio das tentativas                  amor  vida em sua simplicidade, contraposta 
 herticas, vrias vezes renovadas ao longo da              sabedoria artificiosa e sombria, bem como 
 histria.                                                  cincia de quem sabe tudo menos viver e
                                                            amar. O Flogio da loucura (Stultiae laus, 1509),
   A doutrina do L. foi sempre religiosa. Os fi-            de Erasmo de Roterd,  a mais famosa defesa
lsofos s recorreram a ela quando quiseram                 desse segundo significado do termo. Eis como
dar carter religioso  sua doutrina. Foi o que             Erasmo traa o retrato do sbio estico: "Ele 
fez Fichte na segunda fase de seu pensamento.               surdo  voz dos sentidos, no sente emoo
Na Introduo  vida bem-aventurada (1806),                 nenhuma, o amor e a piedade no impressio-
Fichte utiliza o prlogo ao Evangelho de S.                 nam seu corao duro como diamante, nada
Joo para demonstrar a concordncia do seu                  lhe escapa, nunca deixa de duvidar, sua viso 
idealismo com o Cristianismo; portanto, reco-               de lince, tudo pesa com a mxima exatido,
nhece no L. aquilo que ele chama de a Existn-              nada perdoa; encontra em si mesmo sua felici-
cia ou Revelao de Deus (alm do qual fica o               dade, julga-se o nico rico da terra, o nico s-
Ser de Deus), ou seja, o Saber, o Eu, a Ima-                bio, o nico rei, o nico liberto: numa palavra,
gem, cujo fundamento  a vida divina (Werke,                julga-se o todo; e o mais interessante  que ele
V, p. 475).                                                  o nico a julgar-se assim". Ora, pergunta-se
LUGAR                                                 632                                              LUGARES

Hrasmo, quem no preferiria a este sbio "um                toda a clareza o conceito de L. que emergia da
homem qualquer, retirado da multido dos ho-                nova postura da cincia: "As palavras 'L.' e
mens loucos, que, conquanto louco, soubesse                 'espao' nada significam de realmente dife-
comandar os loucos e obedecer a eles e fazer-se             rente dos corpos que afirmamos estarem em
amar por todos; e que fosse complacente com                 algum lugar, e indicam apenas seu tamanho
a esposa, bom para os filhos, alegre nos banque-            e forma, e como esto situados entre os ou-
tes, socivel com todos com quem convive, e                 tros corpos. Para determinar essa situao, 
por fim que no se considerasse alheio a tudo               necessrio referir-se a outros corpos que
o que pertence  humanidade?" (/:'/., 30). A L.             consideramos imveis, mas, como tais corpos
cie que fala F.rasmo  a simplicidade da vida,              podem ser diferentes, poetemos dizer que
que se satisfaz nutrindo iluses e esperanas;              uma mesma coisa, ao mesmo tempo, muda e
ou, no campo da religio,  a f e a caridade               no muda de L." (Piinc. phil., II, 13). F Des-
contrapostas s cerimnias exteriores, aos ritos            cartes cita o exemplo do homem que est sen-
mecanizados e  hipocrisia dos grandes ban-                 tado num barco que se afasta da margem: o L.
quetes (Ibid., 54). Kssa forma de L. nada tem,              desse homem no muda em relao ao barco,
obviamente, com a inspirao divina, mas                   mas muda em relao  margem. Com essas
humana, laica, e por isso seu elogio  um dos               observaes, que exprimem a relatividade do
documentos mais significativos do Renasci-                  movimento (relatividade de Galileu), chega-se
mento.                                                      ao conceito moderno de L. como relao entre
   2. O m e s m o q u e psicose (v.).                       um corpo e outro, tomado como referncia.
    LUGAR (gr. xno, lat. I.ocus; in. Place: fr.              LUGARES (gr. TJTOI; lat. Loci; in. Topics; fr.
I.ieii; ai. Ort; it. Luogo). Situao de um corpo           l.ieu.x; ai. rter; it. l.uogbi). Segundo Aristte-
no espao. H duas doutrinas do L: Ia de                    les, so os objetos dos raciocnios dialticos e
Aristteles, para quem o L.  o limite que cir-             retricos, "assuntos comuns  tica,  poltica, 
cunda o corpo, sendo portanto uma realidade                 fsica e a muitas outras disciplinas, como p. ex.
autnoma; 2a moderna, para a qual o L. 6 certa              o argumento do mais e do menos" {Rei., I, 2,
relao de um corpo com os outros.                          1358 a 10). Estes seriam os L.-comtws. Mas
    Ia Segundo Aristteles, o L. 6 "o primeiro li-          existem tambm, segundo Aristteles, L. es-
mite imvel que encerra um corpo" (Ms., IV, 4,              peciais ou prprios, que so os artigos consti-
212 a 20); em outros termos,  aquilo que abar-             tudos por proposies pertencentes, p. ex.,  f-
ca ou circunda imediatamente o corpo. Nesse                 sica, mas nos quais  impossvel fundar propo-
sentido, diz-se que o corpo est no ar porque o             sies concernentes  tica, ou reciproca-
ar circunda o corpo e est em contato imediato              mente. Os L.-comuns no tm objeto espec-
com ele. F.ssa concepo persistiu durante toda             fico, por isso no aumentam o conhecimento
a filosofia medieval e tambm  repetida subs-              das coisas; os L.-prprios, entretanto, espe-
tancialmente pelos crticos da fsica aristotlica,         cialmente se utilizam proposies oportuna-
como p. ex. Ockham (Summuhw in librasphys.,                 mente escolhidas, contribuem para o conhe-
IV, 20; Quodl.. I. 4). Com base nessa concep-               cimento das cincias especiais (Ret., I, 2, 1358 a
o, existem "lugares naturais", nos quais um               21). Os retores latinos salientaram a importn-
corpo naturalmente est ou aos quais volta                  cia desse tipo de estudo, sobretudo dos L.-co-
quando deles  afastado: "lima coisa" -- afir-              muns, para a arte oratria, pois no aumentam
ma Aristteles -- "move-se naturalmente ou                  o saber, mas so instrumentos de persuaso
no naturalmente, e os dois movimentos so                  (CCKRO, 7b/;., 2. 7; De orat., II, 36. 152; QI:IN-
determinados pelos lugares prprios ou pelos                TIUANO, /ml., V, 10. 20). Atravs das obras lgi-
lugares estranhos. O L. no qual Lima coisa per-             cas cie Bocio (De d iff. topicis. 1: P. /... 64", col.
manece ou para o qual se movimenta no por                   1174), essa noo passou para a lgica medie-
natureza deve ser o L. natural de alguma outra              val. Pedro Hispano define os L. como "a sede
coisa, como demonstra a experincia" (Decciel..             de um argumento ou daquilo de que se extrai
I, 7, 276 a 11). Toda a fsica aristotlica est            um argumento conveniente  questo propos-
baseada neste teorema (v. FSICA).                          ta" (Summ. log., 5. 06).
    2a A teoria aristotlica dos lugares era alvo              Como se disse, a parte da lgica que estuda
da crtica acerba de Galilei, em Dialaghi dei               os L.  a Tpica. Para Ccero, era a parte inven-
 massimi sistemi (1632, Giornata seconda).                  tiva da lgica, a que excogita os argumentos
Alguns anos depois, Descartes expressaria com               teis ao convencimento, mais do que ao juzo
LULIANA, ARTE                                           633                                                LUZ1


sobre sua validade. K repreendeu os esticos                  Diferentemente cia lgica aristotlica. a ars mag-
por haverem cultivado somente a dialtica, ne-                na pretende ser um procedimento inventivo
gligenciando a Tpica (Top., 2, 6). Mas. na reali-            que no se limita a resolver as verdades co-
dade. Aristteles no alude  capacidade inven-               nhecidas, mas passa  descoberta de novas. A
tiva da Tpica, entendendo-a mais como um                     noo dessa arte, que no Renascimento teve
esludo voltado a reunir sob um nmero restrito                seguidores enttisiastas, entre os quais Agripa,
de tpicos (que so exatamente os L) os argu-                 Bovillo e Bruno, foi retomada por Leibniz, que
mentos que estejam presentes em vrias cin-                  a denominou Caracterstica Geral (v. CARACTE-
cias ou em vrias partes de uma mesma cincia.                RSTICA).
De qualquer forma, a crena no carter inventi-                   LUTA PELA VIDA. V. SEI.KCAO NATrRAL.
vo da Tpica passou para a tradio (atravs                      LLJZ1 (gr. (pyyo; lat. Lumeu: in. I.ight: fr.
de BOHCIO, Decliff. top.. I; P. 1... 64, col. 1173):         I.umire: ai. Licbt- it. Lume). Critrio diretivo
alis, quando se comeou a reconhecer o car-                 do pensamento e da conduta do homem, com-
ter improdutivo da lgica aristotlica, a ela foi             parado  L. procedente do alto ou de fora. Para
contraposta a importncia da Tpica como arte                 Aristteles, a ao do intelecto ativo sobre a
de inveno. Foi o que fizeram Pedro Ramus                    alma humana era comparvel  L. que pe em
(Dialecticae institutio)ies, 1543) e Vio (De                 ato as cores que no escuro esto somente em
 antiquissima italorum sapientia 1710), que                   potncia (Dean., III, 5, 430 a 15). Os esticos
considerou a Tpica como a arte cio engenho,                  falavam da faculdade sensvel e da represen-
que  a faculdade da inveno. Ainda, em                      tao catalptica como de uma "L. natural": "Co-
 Lgica bamburgensis (1638). de Jungius, h                   mo uma L. natural para o reconhecimento das
 um vasto estudo sobre os L. lgicos, sob o ttu-             verdades, foram-nos dadas a faculdade sensvel
 lo de Dialtica (livro V). Mas a Lgica cie Port-            e a representao gerada atravs dela" (SEXTO
 Royal (1662) j afirmava a escassa utilidade do              EMPRICO, Adv. matb.. VII, 259). K Ccero dizia:
estudo dos Tpicos. Arnaulcl disse: "Para for-                "A natureza deu-nos minsculas centelhas que
mar os homens numa eloqncia judiciosa e                     ns, estragados pelos maus costumes e pelas
slida, seria til ensinar-lhes a calar mais que a            falsas opinies, apagamos, levando ao total de-
 falar, ou seja, a suprimir e eliminar os pensa-              saparecimento da L. natural" (Tusc, III, 1, 2).
 mentos baixos, comuns e falsos mais que a                    Plotino fala do Bem como "L. que ilumina o in-
 produzir, como fazem, um amontoado confuso                   telecto" (inn., VI, 7, 24). Mas foi s com S.
 de raciocnios bons e maus, com os quais se                  Agostinho que a noo de L. tornou-se funda-
 enchem livros e discursos" (L.og.. cap. P ) . O              mental, difundinclo-se atravs de sua obra e
 estudo dos L. desse gnero serve, portanto,                  permanecendo viva na tradio ocidental. S.
 apenas para reconhec-los e evit-los. A Lgica              Agostinho atribui aos esticos o mrito de ter
 de Port-Boyal enumerava trs espcies deles:                 visto em Deus "a L. das mentes" (De civ. Dei.
 gramaticais, lgicos e metafsicos (Ibid.. cap.              VIII. 7). Essa L  a condio para o verdadeiro
 18). Posteriormente, o estudo dos L. deixou de               conhecimento e para a comunicao de verda-
 fazer parte integrante da lgica. Kant generaliza            des. A luz da verdade que. partindo de Deus,
 o conceito de lugar lgico entendendo por ele                ilumina diretamente a alma e a guia  o concei-
 "qualquer conceito, qualquer ttulo sob o qual               to central cia filosofia agostiniana. "Mesmo os
 se agrupem muitos conhecimentos", e fala de                  ignorantes" -- diz S. Agostinho -- "quando bem
 uma "Tpica transcendental", cujo objeto  "a                interrogados, respondem corretamente acerca
 determinao cio lugar que cabe a cada concei-               de algumas disciplinas, pois neles est presen-
 to na sensibilidade ou no conceito puro, segun-              te, na medida em que podem receb-la, a L. da
 do a diversidade do seu uso" (Crt. K. Pura,                 razo eterna, na qual vem as verdades imut-
 Anal. dos princ, Xota s anfibolias dos concei-              veis" (Relracliones, I, 4, 4). Isso significa que o
 tos da reflexo). Nesse sentido, a Tpica coin-              funcionamento natural do intelecto humano
 cide com a "doutrina dos elementos" cia Crtica              exige a presena da I.. divina e que. para o ho-
 da Razo Pura.                                               mem, o conhecimento da verdade  a viso cia
                                                              verdade em Deus, possvel graas  direta ilu-
   LULIANA, ARTE (lat. Ars hdliana. in. .nllic               minao divina. Nos primrdios da Fscolstica
art: fr. Art lullien; ai. Lullische Kunst). Ars mag-          essa doutrina toi reproduzida por Scotus
na de Raimundo Llio (1235-1315), cincia uni-                Krigena (De divis. nat., II, 23), mas nas suas fa-
versal que ensina a combinar os termos para a                 ses posteriores passou a ser um dos maiores
descoberta sinttica cios princpios das cincias.
LUZ1                                                   634

pontos cie divergncia entre a corrente agosti-              sobre ela se diz, em Princpios de filosofia
niana e a aristotlica. Essa divergncia 6 tipica-           (I, 30): "A faculdade de conhecer, que nos foi
mente expressa pelas posies de S. Boa-                     dada e que ns denominamos L. natural, s
ventura e de S. Toms. S. Boaventura refere-se               percebe objetos verdadeiros, porquanto os
s palavras de Agostinho, "'que, com letras cla-             apercebe, ou seja, conhece-os clara e distinta-
ras e razes, demonstra que a mente, em seu                  mente." Leibniz, por sua vez, afirma que "a L.
conhecimento certo, deve ser dirigida por re-                natural supe um conhecimento distinto"
gras imutveis e eternas; no atravs de uma                 (Nour. ess., I, 1, 21) e Wolff entendia por "L. da
de suas disposies (habitas), mas diretamente               alma" a "clareza das percepes" (Psychol.
por essas regras, que esto acima dela, na Ver-              emprica,  35). Nestes empregos, essa palavra
dade eterna" (Desciencia Christi, q. 4). S. To-              no tem mais nada do significado tradicional,
ms admite que "tudo aquilo que se sabe com                  de L. que, proveniente de fora ou do alto, pe-
certeza deriva da L. da razo que, por obra di-              netre na mente humana para gui-la. A L. natu-
vina,  inata interiormente no homem" (De                    ral aqui  somente a clareza do pensamento
rer., q. 11, a. 1, a d 13)- Mas interpreta aristote-         humano. Ao falar cia mxima " preciso seguir
licamente essa L. como o conhecimento inato                  a alegria e evitar a tristeza", Leibniz afirma:
dos primeiros princpios indemonstrveis "co-                "Trata-se de um princpio inato, mas que no
nhecidos graas  L. do intelecto agente" (Con-              faz parte cia L. natural, pois no fica sendo co-
tra Gent., III, 46). Em outros termos, o conheci-            nhecido de maneira luminosa" (Nouv. ess., I, 2,
mento humano da verdade no  viso em                        1). O significado que a expresso "as L." assu-
Deus, ou iluminao direta por parte de Deus:                miu no perodo iluminista  esclarecido por
 o uso de uma "forma" que Deus comunicou                    Leibniz. As L. so a clareza da crtica racional
 mente humana e que constitui, portanto, a "L.              aplicada a todos os campos possveis do saber
natural" dela (S. lh., I, q. 106, a. 1). Dessa L na-         e Lisada como critrio diretivo do pensamento
tural S. Toms distingue a L. da glria (lumen               e da conduta do homem.
gloriae), que torna a criatura racional "deifor-                 LUZ2 (lat. Lux, in. Light;h. Lumire, ai. Licht;
me", capaz de ver a essncia divina; nega que                it. Luce). Para certa tradio filosfica, cuja ori-
a L. da glria possa ser uma disposio natural              gem remota e provvel estaria na religio persa
do homem (Ibid., I q. 12, a. 5); diz o mesmo                 que adorou Mitra como "Esprito da L." (cf.
sobre o lunien gratiae, a graa justificante (Ibid.,         CUMONT, Oriental Religons in Romein Paga-
I, q. 106, a. 1).                                            nism; trad. in., p. 155), a L.  uma realidade pri-
    O significado do conceito de L. em Agosti-               vilegiada de natureza incorprea, via de comu-
nho, que  de iluminao contnua por parte                  nicao entre as regies superiores do mundo
de Deus, conserva-se nas doutrinas cie inspira-              e do homem. As caractersticas mais evidentes
o agostjjiiana no mundo moderno e contem-                  dessa doutrina so as seguintes: \- a L.  uma
porneo. Para elas, o conhecimento  uma "vi-                realidade superior privilegiada:  Deus ou de
so em Deus": Malebranche (Recherche de Ia                   Deus; 2a a L.  incorprea e serve de ligao
vrit, III, 2, 6), Rosmini (Nuovo saggio,  396)            entre o mundo incorpreo e o mundo cor-
e Gioberti (Introei, alio studio delia fil, 11, p.           preo; 3a a L.  a forma geral (essncia ou na-
175). Por outro lado, de acordo com a segunda                tureza) das coisas corpreas. As primeiras duas
interpretao, a L. natural acaba perdendo                   teses so de carter religioso e de clarssima
qualquer conexo teolgica. O ttulo que Des-                origem oriental. A terceira  propriamente filo-
cartes deu a um dilogo inacabado, que deve-                 sfica e caracteriza o agostinismo medieval.
ria sintetizar sua filosofia, demonstra o modo                   Na filosofia ocidental, a metafsica da L. 
como ele entendia es.sa noo: "Busca da ver-                introduzida por Parmnides: "E como se diz
dade com a I.. natural que, por si s, sem o au-             que todas as coisas so L. e noite, e como L. e
xlio da religio e da filosofia, determina as opi-          noite esto presentes nisto e naquilo, segundo
nies que um homem honesto deve ter sobre                    suas possibilidades, o todo  pleno de L. e ao
todas as coisas que possam ocupar seu pensa-                 mesmo tempo de invisvel treva; L. e trevas so
mento, L. que penetra at os segredos das cin-              iguais, pois nenhuma prevalece sobre a outra"
cias mais curiosas." Assim entendida, a L. natu-             (Fr 9). A substancializao da L.  freqente
ral  o "bom senso oti razo" que, nas primeiras             em Enadas de Plotino, em que s vezes no 
linhas do Discurso do mtodo,  considera-                   fcil distinguir a L. como metfora da L. como
da "a coisa mais bem distribuda do mundo";                  substncia (p. ex., Enn., V, 3, 9; IV, 3, 17). Apa-
LUZ 2                                                  6-S5                                                 LUZ 2

rece com toda clareza nas especulaes dos                    cia formao geral dos corpos; a sua formao
gnsticos. de direta provenincia maniquesta:                especial  devida  supervenincia de outras
'"Antes que o universo visvel tivesse origem                 formas, elementares ou mistas (In Scut.. II. d.
subsistiam dois princpios supremos: um bom e                  13 d. 2 ei. 1-2). Na segunda metade do mesmo
o outro perverso. A morada do primeiro, Pai de                sc. XIII a Pospeclira de Witel expe idias
Grandeza, era na regio da I.. File multiplicava-             muito semelhantes. "A ao divina expande-se
se em cinco hipstases: Intelecto, Razo, Pen-                no m u n d o atravs da L. As substncias inferio-
samento, Reflexo, Vontade" (Bi O N A U T I . Frcun-          res recebem cias substncias superiores a L.
 nienti gnostici, 1923, p. 55). \ u m dos livros da           proveniente da fonte da divina bondade; em
Cabala, o Zobar, a I..  entendida c o m o subs-              geral o ser de cada coisa provm do ser divino,
tncia primitiva que s vezes aparece c o m o                 toda intelegibilidade provm do intelecto divi-
cu, portanto como elemento no qual os outros                 no e toda vitalidade, da vida divina. O princ-
se dissolvero no fim dos tempos (cf. SKROIYA,                pio, o meio e o fim de todas essas influncias 
 La Kabble, Paris, 1957, pp. 346 ss.). Essa dou-             a L. divina, pela qual, atravs da qual e para a
trina passou para a filosofia hebraica da Idade               qual todas as coisas esto dispostas" (Perspecli-
Mdia e, dela. para a escolstica crist. Nesta,              va. ed. Baeumker, pp. 127-28). A ptica, que
 foi caracterstica da corrente agostiniana, defen-           estuda as leis da difuso cia L, constitui inteira-
 dida especialmente pelos ranciscanos. No sc.               mente a fsica, porquanto todo o m u n d o fsico
 XIII, Roberto Grosseteste afirmava que todos                  determinado pela difuso da L. (IbicL, p. 131).
 os corpos tm uma forma c o m u m que se une                A ltima manifestao dessa fsica ou metafsica
 matria-prima antes de sua especificao nos                 da L. talvez seja o projeto de Descartes de des-
 vrios elementos. Esta forma primeira  a L "A               crever o m u n d o do ponto de vista da L. "Assim
 L." -- diz ele -- "difunde-se por si em todas                como os pintores, no p o d e n d o representar no
 as direes, de tal m o d o q u e de um p o n t o            quadro todas as diversas faces de um corpo,
 luminoso  imediatamente gerada uma esfera                   escolhem uma das faces principais que voltam
 de L to grande quanto se queira, a menos                    para a L e, deixando as outras na sombra, per-
 que encontre o obstculo de algum corpo opa-                 mitem que delas aparea s o que se p o d e ver,
 co. Por outro lado, a corporeidade  aquilo que              tambm eu, t e m e n d o no poder pr no meu
 tem por conseqncia necessria a extenso da                discurso Ino projetado livro sobre o Mundo,
 matria nas trs dimenses" (De incboatioiie                 que depois no publicoul tudo que tinha em
formamm, ecl. Baur, 51-52). Roberto identifica-               mente, projetei expor amplamente apenas
 va assim a difuso instantnea da L. em todas                aquilo que pensava sobre a I.. Depois, na oca-
 as direes com a tridimensionalidade do espa-               sio, projetei acrescentar algo sobre o sol e as
 o, portanto L. com espao. Quase nos mes-                   estrelas fixas, porque  dessas fontes que ela
 mos termos Bonaventura de Bagnorea afirmava                  deriva quase inteiramente; sobre os cus, por-
 que a L. no  um corpo, mas a forma de todos                que a transmitem; sobre os planetas, os come-
 os corpos: "A L.  a forma substancial cie todo              tas e a terra, p o r q u e a refletem; em particular
 corpo natural". Todos os corpos dela partici-                sobre todos os corpos que esto na terra, por-
 pam em maior ou m e n o r grau; s e g u n d o essa           que so coloridos, transparentes ou luminosos;
 participao tm maior ou m e n o r dignidade e              por fim. sobre o homem, porque  seu especta-
 valor na hierarquia dos seres. Fia  o princpio             dor" (Discours, V).
                                                M

   MACROCOSMO. V. MICROCOSMO.                        que possibilita agir sobre a natureza e domin-la.
     ME (gr. (J.ixr|p). Segundo Plato, a me do   Era assim considerada por Pico delia Mirandola
universo  a matria amorfa, assim como o pai        (De hominis dgntate, fl. 136 v.) e por todos os
 o modelo eterno segundo o qual o Demiurgo          naturalistas do Renascimento. Johannes Reu-
o cria. "Essa me e receptora de tudo, de tudo       chlin, Cornlio Agripa, Teofrasto Paracelso,
o que de visvel e sensvel  criado, no deve       Gerolamo Fracastoro, Gerolamo Cardano, Gio-
ser chamada de terra, nem de ar, nem de fogo,        vambattista delia Porta, todos visam a eliminar
nem de gua, nem de outra coisa que destas           o carter diablico atribudo durante a Idade
nasa ou da qual estas nasam;  uma espcie         Mdia  M., transformando-a na parte prtica
invisvel e amorfa, capaz de tudo acolher, par-      da filosofia. Delia Porta distinguiu nitidamente
tcipe do inteligvel e difcil de se conceber"      a M. diablica, que se vale das aes dos esp-
(Tini., 51 a-b).                                     ritos imundos, da M. natural, que no ultrapas-
     MAGIA (gr. (j.ayiKr) T/VT); lat. Magia; in.    sa os limites das causas naturais e cuja prtica
Magic; fr. Magie, ai. Magie, it. Magia). Cincia     parece maravilhosa apenas porque seus proce-
que pretende dominar as foras naturais com          dimentos permanecem ocultos (Magia natu-
os mesmos procedimentos com que se sujei-             rals, 1558, I. 1). Essa distino foi repetida por
tam os seres animados. O pressuposto fun-            Campanella, que tambm distinguia uma M. di-
damental da M. , portanto, o animismo; sua           vina que opera por virtude da graa divina,
melhor definio, ciada por Reinach,  de            como a de Moiss e dos outros profetas (Del
"estratgia do animismo" (Mytbes, citltes et         senso delle cose e delia magia., 1604, IV, 12). A
religions, II, Intr., p. XV). Instrumentos des-      respeito da M. no Renascimento, cf. GARIN,
sa estratgia so: encantamentos, exorcismos,        Medioevo e Rinascimento, 1954, cap. III.
filtros e talisms, por meio dos quais o mago se         Com o progresso da cincia, elimina-se o
comunica com as foras naturais ou celestiais        pressuposto da M., que  animismo, retiran-
ou infernais, convencendo-as a obedecer-lhe.         do-se as bases da estratgia de assalto em que
O carter violento ou matreiro das operaes         ela consistia. Francis Bacon, apesar de ser o
com que se produz a obedincia das foras na-        maior herdeiro dessa exigncia prtica que a
turais  outra caracterstica da M., estratgia de   M. representava, compara-a s novelas de ca-
assalto, que quer conquistar de vez, do contr-      valaria do ciclo do rei Artur, considerando-a
rio da estratgia da cincia moderna, que tende      proveniente da metafsica que indaga as for-
 conquista gradativa da natureza, sem lanar        mas, ao passo que da fsica, que  a investiga-
mo de meios violentos ou sub-reptcios.             o das causas eficientes e materiais, nasce a
     A M.  de origem oriental e difundiu-se no      mecnica como cincia prtica (De augm.
Ocidente no perodo greco-romano (cf. F.             scient., III, 5). Portanto, no mundo moderno a
CIIMONT, Oriental Religions in Roman Paga-           M. desapareceu completamente dos horizon-
 nism, cap. VII). Circulou mais ou menos oculta-     tes da cincia e da filosofia. No que concerne a
mente durante a Idade Mdia e voltou a agir s       esta ltima, constitui exceo a obra de No-
claras durante o Renascimento, perodo em que        valis, que no perodo romntico defendeu um
muitas vezes foi considerada complemento da          'idealismo mgico', segundo o qual boa parte
filosofia natural, ou seja, como a parte desta       das atividades humanas mais comuns  M.
MAGNANIMIDADE                                          637                                          MAIS-VALIA

Novalis diz: 'O uso ativo dos rgos nada mais               outras: "Quem  digno de pequenas coisas e
 que pensamento mgico, taumatrgico, ou                    se considera digno delas  moderado, mas no
uso arbitrrio do mundo dos corpos; de fato, a               magnnimo; a M.  inseparvel da grandeza,
vontade outra coisa no  seno magia, enrgi-               assim como a beleza  inseparvel de um cor-
ca capacidade de pensamento" (Fragmente,                     po grande, j que os corpos pequenos sero
 1731). E exprimia assim o princpio de seu                 graciosos e proporcionais, mas no belos"
idealismo mgico: "O maior mago seria aquele                 (Et. nic, IV, 3, 1123 b 71. A insistncia nessa
que soubesse tambm encantar-se a tal ponto                  virtude  o sinal da persistncia em Aristteles
que suas prprias magias lhe parecessem fen-                da tica aristocrtica arcaica (cf. JAKGF.R, Pai-
menos alheios e autnomos. E no poderia ser                 dia, I; cap. 1; tracl. it., I, pp. 43 ss.). Para Des-
esse o nosso caso?" (Ibid.,  1744).                         cartes. VI.  o mesmo que generosidade; identi-
   Alheia ao mundo da filosofia e da cincia, a              fica-se com a virtude de avaliar-se de acordo
M. permanece como uma das categorias inter-                  com seu prprio valor e no sentir cime ou
pretativas da sociologia e da psicologia. Sobre              inveja (Pass. de lme, arts. 156-61).
a funo da M no homem primitivo, Mali-                          MAIUTICA (gr. M.oaeimxti x^vri; in.
nowski assim se expressa: "A M. fornece ao ho-               Maieutics-, fr.    Macutique; ai.     Meittik; it.
mem primitivo um nmero de atos e de cren-                   Maieulica). Arte cia parteira; em Teeteto de
as rituais j feitos, uma tcnica mental e                  Plato, Scrates compara seus ensinamentos a
prtica definida que serve para superar os                   essa arte, porquanto consistem em dar  luz co-
obstculos perigosos em cada empreendimen-                   nhecimentos que se formam na mente de seus
to importante e em cada situao crtica. (...)              discpulos: "Tenho isso em comum com as
Sua funo  ritualizar o otimismo do homem,                 parteiras: sou estril de sabedoria; e aquilo que
reforar sua f na vitria da esperana sobre                h anos muitos censuram em mim, que interro-
o medo" (Magic Science and Religion. ed.                     go os outros, mas nunca respondo por mim
Anchor Book, p. 90). Mas a atitude primitiva                 porque no tenho pensamentos sbios a ex-
no se encontra s no homem primitivo: o ho-                 por,  censura justa" Cleet., 15c).
mem civilizado nela reincide em determinadas                    MAIORIA DAS VEZES, NA (gr. 7ti x noXv;
circunstncias, que vo desde a falta de tcni-              in. Mostly. ai. Zumeist; it. Perlopi). Esta ex-
cas aptas a enfrentar situaes difceis at a in-           presso  empregada por Aristteles para indi-
capacidade de descobrir como utilizar essas                  car o que acontece de modo uniforme e cons-
tcnicas. Crenas mgicas so, portanto, fre-                tante, mas nem sempre nem necessariamente;
qentes na vida diria, ainda que muitas vezes               acidental  o que no acontece sempre nem na
no confessadas. No sem razo, Sartre cha-                  maioria das vezes {Mel., VI, 2, 1026 b 30). O
mou de comportamento mgico a reao emo-                    que  sempre ou necessariamente constitui
tiva patolgica que s vezes  a base de distr-             objeto das cincias tericas; o que  na maioria
bios mentais (v. EMOO). Alm disso, para                   das vezes constitui objeto das cincias praxi-
Jung, a origem da M.  a idia de uma energia                poiticas; o acidental no pode ser objeto de
universal, latente no inconsciente de todo o g-             cincia. Heidegger empregou essa expresso
nero humano e identificada com a idia de                    para indicar o conjunto dos modos de ser que
 Deus (Psicologia do inconsciente, 1942, cap. 5).            constituem a "medianidade" (Sen und Zet,
 Lvi-Strauss fez uma analogia entre a teraputi-             9). V. MHniANIDAni.
 ca mgica e a psicanlise (v.) porque, atravs                  MAIS-VALIA (in. Surplus value-, fr. Plus-va-
 da conscientizao dos conflitos internos do                Itie, ai. Mehnvert; it. Phisvalore). Um dos con-
 paciente, ambas possibilitam uma experincia                ceitos fundamentais da economia de Marx.
 especfica na qual os conflitos podem desen-                Uma vez que o valor nasce do trabalho e outra
 volver-se e manifestar-se livremente (Anthro-               coisa no  seno trabalho materializado, se o
pologie stmcturale. 1958, pp. 217 ss.).                      empresrio retribusse ao assalariado o valor
   MAGNANIMIDADE (gr. (ieyao\(/-uxa; lat.                  total produzido pelo seu trabalho, no existiria
Magrumimitas; in. Magnanimty. fr. Magnani-                  o fenmeno puramente capitalista do dinheiro
mit; ai. Grossmuth; it. Magnanimit). Segun-                que gera dinheiro. Mas como o empresrio no
do Aristteles, a virtude que consiste em de-                retribui ao assalariado aquilo que eorresponde
sejar grandes honras e em ser digno delas.                   ao valor por ele produzido, mas apenas o custo
Aristteles d muito relevo a essa virtude, porquan-         da sua fora de trabalho (o suficiente para pro-
to ela acompanha e "engrandece" todas as                     duzi-la, o mnimo vital), temos o fenmeno da
MAIS-VIDA, MAIS-QUE-VIDA                            638                                                MAL

M., que 6 a parte do valor produzido pelo traba-          a reduzir o M. ao no-ser. Essa reduo torna-
lho assalariado da qual o capitalista se apodera          se explcita no neoplatonismo. Plotino diz: "Se
(cf. Das Kapital, I, se. 3).                             tais so os entes e se tal  o que est alm dos
   MAIS VIDA, MAIS-QUE-VIDA (ai            Mehr-          entes [isto , Deusl, ento o M. no existe nem
.eben, Mehr-als-I.eben). Expresses cunhadas             naqueles nem neste, j que tanto um quanto o
por G. Simmel para indicar, respectivamente, o            outro so bem. Conclui-se, portanto, que, se
processo da vida e as formas s quais ele cl lu-         existir, existe no que no . e que  uma esp-
gar. Como "M.-vida", a vicia  o processo que             cie de no-ser. encontrando-se, pois, nas coisas
supera continuamente os limites que impe                 mescladas de no-ser ou partcipes do no-ser"
a si mesma. Como "M.-que-vida", a vida 6 o                (Hnn.. I, 8, 3). Nesse sentido, Plotino identifica
conjunto das formas finitas que emergem do                o M. com a matria: a matria  o no-ser. "O
processo vital e a ele se contrapem (Lebens-             M. no consiste na deficincia parcial, mas na
anscbcmiing, 1918, pp. 22-23).                            deficincia total: o que carece parcialmente de
   MAL (gr. x KOCKV; lat. Malim. in. liril; fr.         bem no  mau e pode at ser perfeito em seu
Mal; ai. Base, it. Mede). Este termo tem uma va-          gnero. Mas quando h deficincia total, como
riedade de significados to extensa quanto a              na matria, tem-se o verdadeiro M., que no
do termo bem (v.), do qual  correlativo. Do              tem parte alguma de bem. A matria no tem
ponto de vista filosfico, entretanto,  possvel         sequer o ser que lhe possibilitaria participar do
resumir essa variedade em duas interpretaes             bem: pode-se dizer que ela  apenas em sen-
fundamentais dadas a essa noo ao longo da               tido equvoco; na verdade, a matria  o pr-
histria da filosofia: Ia noo metafsica do M.          prio no-ser" (Ibid., 1, 8, 5).
segundo a qual este  a) o no-ser, ou h) uma                 A identificao do M. com o no-ser torna-
dualidade no ser; 2- noo subjetivista, segun-           se tradicional na filosofia crist.  retomada por
do a qual o M.  o objeto de aptido negativa             Clemente de Alexandria (Slrom., IV, 13), por
ou cie um juzo negativo.                                 Orgenes (Depriuc, 1, 109) e por S. Agostinho,
   Ia A concepo metafsica do M. consiste               que a difunde no mundo ocidental. S. Agosti-
em consider-lo como o no-ser diante do ser,             nho diz: "Nenhuma natureza  M., e esse nome
que 6 o bem, ou em consider-lo como uma                  indica apenas a privao do bem" (Deciv. Dei.
dualidade do ser, como uma dissenso ou um                XI, 21). Portanto, "todas as coisas so boas, e o
conflito interno do prprio ser.                          M. no  substncia porque se fosse substn-
   ei) A concepo do M. como no apare-                  cia seria bem" (Conf., VII, 12). Hocio afirma-
ce nos esticos e 6 claramente formulada pelos            va: "O mal  nada, porque no o pode fazer
neoplatnicos. Por considerarem que a existn-            Aquele que pode todas as coisas" (Pbil. cons.,
cia dos males condiciona a dos bens, de tal               III, 12). A Escolstica  igualmente unnime
modo que, p. ex., no haveria justia se no              nesse aspecto. S. Anselmo reiterou a doutrina
houvesse ofensas, no haveria trabalho se                 do M. como no-ser nos mesmos termos de S.
no houvesse indolncia, no haveria verdade              Agostinho (De casn diabo/i. 12-16). Com
se no houvesse mentira, etc, os esticos, em             Maimnides, a escolstica hebraica repete a
particular Crisipo, achavam que os chamados               mesma tese (Guia dos perplexos, III, 10), na
males no so realmente males, porque neces-              escolstica crist,  repetida por agostinianos,
srios  ordem e  ecnomia do universo                    como Alexandre de Hales (S. Th., I, q. 18, 9),
(AILO Guo, Nucl. At!., 1). Marco Aurlio ex-             por aristotlicos, como Alberto Magno (S. Tb.. 1,
primia perfeitamente este ponto de vista dizen-           cj. 27, 1), e por S. Toms, liste ltimo diz: "Uma
do: "Toda vez que arrancas uma partcula qual-            vez que bem  tudo o que  apetecvel e uma
quer da ordem e da continuidade do inverso a              vez que a cada natureza apetece seu ser e sua
integridade do todo fica mutilada e comprome-             perfeio, cumpre dizer que o ser e a perfeio
tida. (...) K realmente extirpas, na medida do            de qualquer natureza so essencialmente bem.
teu poder, alguma coisa do universo toda vez              Portanto, no pode acontecer que 'M.' signifi-
que te queixas do que aconteceu; em um certo              que algum ser, alguma forma ou natureza; con-
sentido, em assim fazendo, ests condenando               clui-se, pois, significa apenas a ausncia do
 morte o universo inteiro em teu desejo" (Ric,           bem" (S. Th., I, q. 48, a. 1) O verbo ser pode
V, 8). Uma vez que no se pode amar uma coi-              referir-se ao M. somente no sentido ''da verda-
sa e consider-la m, o ponto de vista estico            de da proposio", como quando se diz que "a
eqivale a considerar bom tudo o que existe e             cegueira  do olho", sentido que no implica
MAL                                                  639                                                     MAL

de modo algum a realidade (entitas rei) (bid.,            ou Ormazd) uma antidivindade (Ahriman),
I. q. 48. a 2).                                            que  o princpio do M. (cf. PETTAZZONI, La
    Aps as observaes cpticas de Pierre                 religione di Zarattistra, Bolonha, 1921; Du-
Bayle sobre a compatibilidade do M. (em todas              CHF.SKE-GUILLF.MIN,  Orniazd et Ahriman, Paris,
as suas formas) com a onipotncia divina e                 1953). Essa doutrina constitui uma soluo ex-
com a perfeio do universo, a teodicia de                tremamente simples para o problema do M.,
I.eibniz est fundamentada na doutrina tradi-              pois, ao mesmo em que limita o poder das
cional do M como negao do bem. "Os pla-                  divindades, no trai o monotesmo porque con-
tnicos, S. Agostinho e os escolsticos", diz              cebe a potncia limitante como antidivindade.
Leibniz, "tiveram razo em dizer que Deus  a              Segundo essa soluo, o M.  real tanto quanto
causa material do M.. que consiste em sua par-             o bem, e, como tal, tem causa prpria, antittica
te positiva, e no da forma dele, que consiste              do bem. Essa doutrina evita a reduo do M.
na privao, assim como se pode dizer que a                ao nada, to pouco convincente para o homem
corrente  a causa material do atraso na velo-             comum, e decorre do mesmo tipo de justifica-
cidade de um barco, sem ser a causa da forma               o de que lana mo a negao metafsica da
do prprio atraso, ou seja, dos limites desta ve-          realidade do M. O dualismo persa retornou no
locidade" (Thod., I, 30). Essas consideraes             culto de Mitra: personagem que. segundo rela-
de Leibniz fundamentaram todas as tentativas               to de Plutarco. ocupava posio intermediria
ultcriores de teodicia (v.). Por outro lado, a            entre o domnio da luz, pertencente a Ahura
nulidade do M. continuou sendo a tese adotada              Mazda, e o domnio das trevas, pertencente a
pelas doutrinas que identificam o ser com o                Ahriman (De Iside et Osiride, 46-47; cf. I\
bem ou, em termos modernos, com a racio-                   CUMONT,       The Mysteries   of Mithra,   cap.    I).
nalidade ou o dever-ser; isso acontece em                  Retornou tambm, com algumas atenuaes,
Hegel, para quem o M., entendido como vonta-               em algumas seitas gnsticas dos primeiros .s-
de malvola,  "a nulidade absoluta" dessa                 culos da era vulgar, especialmente na de Hasides
vontade (Ene,  512). Do ponto de vista dos                (cf. BUONAUTI, Frammenti gnostic, 1923, pp.
 idealismos absolutos, como o de Hegel e de                42 ss.), bem como na seita dos maniqueus,
sua escola, apresenta-se novamente o proble-               contra os quais S. Agostinho assenta uma de
 ma tradicional da teodicia: o da possibilidade           suas principais polmicas (v. MAMQUF.SMO). Mas
do M.; a nica soluo disponvel  ainda a tra-            filosofia nunca aceitou essa soluo para o
 dicional: a nulidade do M. Gentile dizia: "No           problema do M. na forma simples como foi
 erro e verdade, mas erro na verdade, como                 originariamente formulada pela religio persa;
 seu contedo que se resolve na forma; nem M.              nunca admitiu a separao dos dois princpios.
 e bem, mas M. do qual o bem se nutre no seu               Quando aceitou essa soluo, modificou-a no
absoluto formalismo" (Teoria getierale dello               sentido de incluir ambos os princpios em Deus,
spirito, XVI, 10). Croce por sua vez afirmava:             considerando o princpio do bem e o do M.
 "O M., quando real, no existe seno no bem,              unidos em Deus, justamente em virtude de seu
 que se lhe ope e o vence: portanto, no exis-            conflito. Xo sc. XVII, Jacob Bhme, insistindo
 te como fato nositvo: quando, porm, existe              na presena, em todos os aspectos da realida-
 como fato positivo, j no  um M., mas um                de, de dois princpios em luta, que so o bem
 bem (e por sua vez tem como sombra o M.,                  e o M., atribua a causa dessa luta  presena
 contra o qual luta e vence)" (Fl. delia pratica,         em Deus dos dois princpios antagonistas, que
 1909, p. 139). No-ser. nulidade ou irrealidade           ele indicava com vrios nomes: esprito e natu-
do M.  tese redescoberta toda vez que, de                 reza, amor e ira, ser e fundamento, etc. Em
qualquer forma, se prope a identidade entre               Deus, esses dois princpios estariam fortemen-
ser e bem.                                                 te ligados, numa espcie de luta amorosa. Bhme
                                                           dizia: "A divindade no repousa tranqila, mas
   b) A segunda concepo metafsica do M.                 suas potncias trabalham sem trgua e lutam
considera-o como um conflito interno do ser,               amorosamente; movem-se e combatem: como
como a luta entre dois princpios. Segundo es-             acontece com duas criaturas que brincam uma
sa concepo, o domnio do ser divide-se em                com a outra, com amor abraam-se e estrei-
dois campos opostos, dominados por dois prin-              tam-se; ora uma  vencida, ora a outra, mas o
cpios antagnicos. O modelo dessa concepo               vencedor logo se detm e deixa que a outra
 a religio persa, de Zarathustra ou Zoroastro,           retome seu jogo" (Aurora oderdieMorgenrte
que contrapunha  divindade (Abura Mazda
MAL                                                    6)0                               MALTHUSIANISMO

im An/gang, 1634, cap. XI,  49). Em outras                  (em alemo, Wohl e Ubel). "O que devemos
palavras, o dualismo do bem e do M. est em                  chamar de bem" -- dizia ele -- " o objeto da
Deus mesmo e nele os dois princpios travam                  faculdade de desejar segundo o juzo dos ho-
um combate "amoroso", no qual nenhum  de-                   mens dotados de razo; o M. deve ser objeto cie
finitivamente derrotado. A subcorrente do pen-               averso aos olhos de todos, de tal modo que
samento filosfico chamada teosofia (v.) sem-                para tais juzos, alm dos sentidos, tambm h
pre adotou essa soluo para o problema do                   necessidade da razo" (Ibid.). Contudo Kant
M.: no perodo romntico, retornou em Indaga-                concordava com a teoria subjetivista, ao julgar
es sobre a essncia da liberdade humana                    que o bem e o M. no podem ser determinados
(1809), de Schelling, em que este sustentava,                independentemente da faculdade de desejar
assim como Bhme, que em Deus est no se')                  do homem, o que significa que eles no so
o ser, mas, como fundamento desse ser, h um                 realidade ou irrealidade por si mesmos. A filo-
substrato ou natureza que se distingue dele e                sofia moderna e contempornea compartilha
6 um anseio obscuro, um desejo inconsciente                  essa viso. Para ela, M,  simplesmente um des-
de ser, de sair da escurido e alcanar a luz divina         valor, objeto de um juzo negativo de valor, e
( Werke, I, VIII, p. 359). No entanto, Schelling             implica, portanto, referncia  regra ou norma
afirmava que, estando esses dois princpios                  na qual se fundamenta o juzo de valor (v. VA-
estreitamente unidos em Deus, no h nele                    LOR). Assim, p. ex., o terremoto  um M. quan-
distino entre bem e M.: com a separao                    do destri vidas humanas ou fontes de subsis-
desses princpios no homem, nasce a possibi-                 tncia e bem-estar humano, mas no  um M.
lidade do bem e do M., e de seu conflito (Ibid..             quando no provoca esse tipo de destruio,
                                                             pois nesse caso no contraria o desejo ou a exi-
p. 364). Ainda em tempos relativamente recen-
                                                             gncia humana de sobrevivncia e bem-estar.
tes, em relao mais direta com a religio persa,            Seja qual for o ponto de vista cie que se consi-
soluo semelhante para esse problema foi pro-               dere essa exigncia, ela se expressa em regras
posta por Ci. T. Fechner, que admitia haver em               ou normas que podem entrar em conflito com
Deus a mesma dualidade entre vontade racio-                  acontecimentos naturais ou com comportamen-
nal e instintos obscuros encontrada no homem                 tos humanos. Esses acontecimentos ou com-
(Zend Aresta. 5S ed., 1922, pp. 244-45).                    portamentos so chamados de males, com base
possvel entrever solues anlogas, porm me-               nes.se conflito, e no porque tenham um stalus
nos explicitas, em algumas formas de espi-                   metafsico especial.
ritualismo e na psicanlise (v.), mas trata-se,
muitas vezes, de solues de carter religioso                  Era desse ponto de vista que Kant interpre-
ou teosfico, que dificilmente podem ser con-                tava o "M. radical" da natureza humana como
sideradas explicaes filosficas propriamente               um princpio que alicera o comportamento de
ditas.                                                       todos os seres racionais finitos: afastar-se, oca-
                                                             sionalmente, da lei moral (Religioii 1, 3). F.sse
    2a A segunda concepo fundamental do M.                 princpio nada mais expressa que a possibilida-
no o considera realidade ou irrealidade, mas                de de transgredir as normas morais prprias do
objeto negativo do desejo ou, em geral, do                   homem, definindo-se, ento, o M. radical como
juzo de valores. Kssa concepo  admitida                  a possibilidade geral de desvalor na conduta
por todos os que defendem ,, chamada teoria                  do homem.
subjetivista do bem. Hobbes, Spinoza e Locke                    MAL RADICAL. V, MAL.
compartilham essa teoria (para os relativos tex-                MALTHUSIANISMO (in.             Malthusianism,
tos, v. IJI-:M),  qual Kant deu forma mais geral.           fr. Malthusianisme; ai. Malthusianismus. it.
Segundo Kant, "os nicos objetos da razo pr-               Malthusianesimo). 1. Doutrina econmica de
tica so o bem e o M. Pelo primeiro entende-                 Thomas Robert Malthus (1766-1834), exposta
se um objeto necessrio da faculdade de dese-                em Ensaio sobre a populao(17l)8), que parte
jar; pelo segundo, um objeto necessrio da                   do princpio de que a populao e os meios de
faculdade de repelir; mas ambos somente se-                  subsistncia crescem em propores diferen-
gundo o princpio da razo" (Crt. R. Prtica,               tes, passando-se a considerar os meios para
cap. 2). Kant insistia sobretudo em retirar as               evitar o desequilbrio entre ambos. Malthus ba-
determinaes de bem e M. (em alemo, Cinte                  seava-se no desenvolvimento da Amrica do
 Rose) "da esfera da faculdade inferior de dese-             Norte, observando que ali a populao tendia a
jar",  qual pertencem o agradvel e o doloroso              crescer em progresso geomtrica, duplicando
MANEIRISMO                                           641                                 MAQUIAVELISMO

a cada vinte e cinco anos, enquanto os meios               na crist  perfeio. O M.  uma mistura ima-
de subsistncia tendiam a crescer em progres-              ginosa de elementos gnsticos, cristos e orien-
so aritmtica. Segundo Malthus, o desequil-              tais, sobre as bases do dualismo da religio de
brio assim determinado provoca a interveno               Zoroastro. Admite dois princpios: um cio bem,
dos meios repressivos (misria, vcio e outros             ou princpio da luz, e outro do mal, ou prin-
flagelos sociais) que dizimam a populao, e               cpio das trevas. No homem, esses dois princ-
no h outra maneira de evitar a ao de tais              pios so representados por duas almas: a cor-
meios a no ser substituindo-os por meios pre-             prea, que  a do mal, e a luminosa, que  a do
ventivos, que consistem no controle da natali-             bem. Pode-se chegar ao predomnio da alma
dade. Para Malthus, portanto, o nico rem-                luminosa atravs de uma ascese particular, que
dio para os males sociais seria a absteno                consiste em trs selos: absteno de alimentar-
de casar-se por parte das pessoas que no                  se de carne e de manter conversas impuras
estejam em condies de prover ao sustento                 (signaculum oris); absteno da propriedade e
dos filhos, recomendando-se ao mesmo tem-                  do trabalho (signaculum nianus); abster-se do
po "a conduta estritamente moral durante                   casamento e do concubinato (sig)iaculum sinus).
esse perodo de absteno". Essa doutrina                  O M. foi muito difundido no Oriente e no Ociden-
props um problema que continua vivo e                     te; aqui durou at o sc. VII. O grande advers-
atual na sociedade contempornea, levando-                 rio do M. foi S. Agostinho, que dedicou grande
se em conta os enormes ndices de cresci-                  nmero de obras  sua refutao. Cf. H. C. Pi IKCH,
mento da populao mundial.                                Le manichisnw. sou fondateitr. sa doctrine,
     2. Em geral, a teoria e a prtica do controle         Paris, 1949.
voluntrio da natalidade.                                     MNTICA(gr. u.avTiKti t^vr); in. Mantic, fr.
    MANEIRISMO (in. Manner, fr. Manire, ai.               Mantique, ai. Mantica; it. Mantica). Viso an-
 Manier, it. Mauiera). A partir do sc. XVIII essa         tecipada ou cincia das coisas futuras. V. assim
palavra foi usada para designar uma forma me-              que Ccero define a M. (De diviu., I, 1). ao citar
 nor de expresso artstica, produto da busca              e discutir o modo como essa cincia era enten-
 malsucedicla de originalidade. Kant diz "O M.             dida pelos esticos. Para estes, a M. fundamen-
  uma espcie de contrafao, que consiste em             ta-se na ordem necessria do mundo, no des-
 imitar a originalidade e, portanto, em afastar-se         tino: ao se interpretar essa ordem  possvel
 o mximo possvel dos imitadores, sem, po-                antecipar os acontecimentos que ela determi-
 rm, possuir o talento de ser exemplar por si             na. "Os esticos" -- diz Ccero -- "afirmam
 mesmo. (...) O precioso, o rebuscado e afetado            que s o sbio pode ser adivinho." Crisipo define
 que querem distinguir-se do comum mas care-               a M. com estas palavras: "faculdade de co-
 cem de talento lembram os modos de quem se                nhecer, ver e explicar os sinais por meio dos
 escuta ou se movimenta como se estivesse em               quais os Deuses manifestam sua vontade aos
 cena" (Cri/, do Juzo,  49). No mesmo sentido,           homens" (De diviu, II, 63, 130).
 Hegel definia o M. como a forma de arte em                    MAQUIAVELISMO (in. Macbiavelianism;
 que o artista, em vez de conservar a "objeti-             fr. Machiavlisme, ai. Macbiavelismus; it. Ma-
 vidade" da arte, procura absorv-la em sua                chiavellismo). Doutrina poltica cie Maquiavel
 individualidade "particular e acidental", con-            ou o princpio no qual ela  convencionalmen-
 trapondo-a. portanto,  originalidade, eme  a            te resumida.
  "verdadeira objetividade" da obra de arte (Vor-              A doutrina poltica do M. tem explicitamente
  lesungen iiber die sthetik, ed. Glockner, I,            o objetivo de indicar o caminho por meio do qual
pp. 391 ss.).                                              as comunidades polticas em geral (e a italiana
   MANIFESTAO (in. Manifestation; fr.                    em particular) podem renovar-se conservando-
Manifestation; ai. Manifestation; it. Manifesta-           se, ou conservar-se renovando-se. Tal caminho
zione). O mesmo que expresso, revelao ou                 o retorno aos princpios, conforme a concep-
fenmeno (v.), no sentido positivo deste lti-             o que o Renascimento (v.) tem da renovao
mo termo.                                                  do homem em todos os campos. O retorno aos
   MANIQUESMO (in. Manicheism; fr. Ma-                    princpios de uma comunidade poltica supe
nichisme, ai. Manichismus; it. Manicbeismo).             duas condies: Ia que suas origens histricas
Doutrina do sacerdote persa Mani (lat. Mani-               sejam claramente reconhecidas, o que s pode
chaeus), que viveu no sc. III e proclamou-se o            ser feito por meio de uma investigao histri-
Paracleto, aquele que devia conduzir a doutri-             ca objetiva; 2- que sejam reconhecidas, em sua
MAQUIA VELISMO                                        6-12                                       MATEMTICA


 verdade afetiva, as condies a partir das quais            preceitos imorais de conduta poltica, o que*
ou atravs cias quais o retorno deve ser realiza-            acabou sendo mal expresso ou generaliza-
do. A objetividade historiogrtica e o realis-               do na mxima de que "o fim justifica os meios".
 mo poltico constituem, assim, os dois pontos               Esta, na realidade, foi a mxima da moral je-
bsicos do M. original. Graas a este segundo                suta: Hegel cita-a na forma dada pelo padre
aspecto, Maquiavel foi considerado fundador                  jesuta Busenbaum (1602-68): "Quando o fim
da cincia emprica da poltica, ou seja, discipli-           lcito, os meios tambm so lcitos"' (Medulla
na emprica que estuda as regras da arte de                  tbeo/ogiae niora/is, IV, 3. 2), e justifica-a do pon-
governar sem outra preocupao alm cia efi-                 to de vista formal (como expresso tautolgi-
cciadessas regras. Constituem parte integrante              ca) e substancial (como "conscincia indetermi-
da doutrina de Maquiavel o conceito de acaso,                nada da dialtica do elemento positivo") (Fil.
que com sua imprevisibiliclade  sempre con-                 do dir.,  140, d); cf., sobre o M.. F. MHIMI-CKK,
dio da atividade poltica, e o conceito conexo             De Idee der Staatsrdson in der neueren
do empenho poltico, em virtude do qual os                   (Jescbichle, I925: trael. in., Machiavellianism,
homens "nunca devem entregar-se", no senti-                  1957).
do de que* no devem desesperar nem renun-                      MARXISMO. V. COMUNISMO. MATHRIAI.ISMO
ciar  ao. mas participar ativamente dos acon-             DIALTICO, MATKKIALISMO HISTRICO.
tecimentos, pois o resultado deles, dada a                       MATEMA (gr. u8r||ia). Tudo o que  obje-
presena do acaso, nunca  predeterminado.                   to cie aprendizagem. Nesse sentido. Plato diz
(Sobre a doutrina de Maquiavel e suas interpre-              que* a idia do bem  "o maior M." (Rep.. VI,
taes, v. G. SASSO, A'. M., storia delsuopeusiero           505 a). Para Sexto Emprico, M. implicava, alm
poltico, Npoles, 1958.)                                    cia coisa apreendida, quem a aprende e o mo-
    Por M. entende-se tambm o princpio no                  do de aprender (Adr. math., I, 9), entendendo
qual. a partir do sc. XVII, a doutrina de Ma-               por "matemticos" todos os cultores cie cin-
quiavel passou a ser convencionalmente resu-                 cias, alm dos filsofos. Kant restringiu essa pa-
mida: de que "o fim justifica os meios". Tal                 lavra, designando com ela as proposies da
mxima, porm, no foi formulada por Maquia-                 matemtica que* so obtidas por meio ela "cons-
vel, que* no considera o listado como fim ab-               truo de conceitos" (Crt. R. Pura, II, cap. 1,
soluto e no o julga dotado de existncia supe-              se. 1). A palavra mais prxima ao uso clssico
rior  do indivduo (no sentido atribudo, p. ex.,           desse termo  disciplina (v.): cincia aprendida
por HIXKL, Fil. do dir.,  337). Alm disso.                ou ensinada.
Maquiave-1 tinha grande simpatia pela honesti-                   MATEMTICA (gr. Ma9n,LiorctKi; ht.Matbe-
dade e pela lealdade na vida civil e poltica;               matica; in. Mathematics; fr. Mathmatique-, ai.
portanto, admirava os Estados regidos por es-                Mathematik, it. Matemtica). As definies filo-
sas virtudes, como p. ex. o dos romanos e dos                sficas de M. por um lado expressam orienta-
suos. Entretanto, como dissemos, seu objeti-               es diferentes da investigao nessa rea e,
vo era formiilar regras eficazes de governo, tendo           por outro, modos diferentes de justificar a va-
como base a experincia poltica antiga e nova.              lidade e a funo da VI. no conjunto das cin-
considerando que essa eficcia era indepen-                  cias. Podem ser distinguidas quatro definies
dente do carter moral ou imoral das regras.                 fundamentais: lkl M. como cincia da quantida-
Por outro lado, percebeu que* a moral e a reli-              de: 2a M. como cincia das relaes; 3a M. como
gio podem ser -- como s vezes so -- foras                cincia do possvel; 4a M. como cincia das
polticas que, como todas as outras, condicio-               construes possveis.
nam a atividade poltica e seu xito; percebeu                   1- "Cincia da quantidade" foi a primeira de-
tambm que s vezes isso no acontece e que*                 finio filosfica da M. Essa definio foi clara-
a ao poltica se mostra eficaz mesmo quando                mente formulada por Aristteles, mas j estava
exercida em sentido contrrio ao das leis da                 implcita nas consideraes de Plato sobre a
moral. Como essa era a realidade mais freqente              aritmtica e a geometria, que tendiam sobretu-
nas sociedades de seti tempo (especialmente a                do a evidenciai" a diferena entre as grande-
italiana e a francesa) -- que* ele chama de "cor-            zas percebidas pelos sentidos e as grandezas
ruptas" -- e como Maquiavel tem sobretudo em                 ideais, que so objeto ela M. (Rep., VII, 525-27).
vista a aplicao de suas regras polticas  socie-          Aristteles dizia: "O matemtico constri sua
dade italiana para a constituio de um Estado               teoria por meio da abstrao; prescinde de to-
unificado, explica-se sua insistncia em certos              das as qualidades sensveis, como peso e leve-
MATEMTICA                                              643                                    MATEMTICA

za, dureza e seu contrrio, calor e frio, e das               sas relaes ou propores neles encontradas"
outras qualidades opostas, limitando-se a consi-              (Discours, II). O conceito leibniziano de ars
derar apenas a quantidade e a continuidade,                   comhincitoria (v.) ou M universal sem dvida
ora em uma s dimenso, ora em duas, ora em                   pode ser considerado o incio do conceito da
trs, bem como os caracteres dessas entidades,                M. como lgica, mas no impedia que o pr-
na medida em que so quantitativas e continua-                prio Leibniz aderisse ainda ao conceito tradi-
tivas, deixando de lado qualquer outro aspecto                cional de M. como arte da quantidade (Dearte
delas. Conseqentemente, estuda as posies                   combitiatoria, 1666. Froemium, 7, em Op., ed.
relativas e o que  inerente a elas: comensu-                 Erdmann, p. 8). Obviamente, a estreita cone-
rabilidade ou incomensurabilidade e propor-                   xo da M. com a lgica comeou a evidenciar-
es" (AM., XI, 3, 1601 a 28; cf. Ms., II, 193 b 25).         se como caracterstica da M. s quando a lgica
Esse conceito de M. persistiu por muito tempo                 assumiu a forma de clculo matemtico. Segun-
e s no sculo passado comeou a parecei' insu-               do Boole. uma vez. que "as ltimas leis da lgi-
ficiente para exprimir todos os aspectos desse                ca tm forma matemtica", a apresentao da
campo de estudos. O prprio Kant traduzia-o                   lgica em forma de clculo no  arbitrria,
para a linguagem de sua filosofia. Para ele, a M.             mas representa algo que decorre das prprias
distinguia-se da filosofia porque, enquanto esta              leis do pensamento (Laws oj 'Ihougbt, 185),
procede por meio de conceitos, a M. procede                   cap. I,  10). Os estudos de Declekind sobre-
por meio da construo de conceitos; mas a                    os fundamentos da aritmtica (Was snd un
construo de conceitos s  possvel em VI.                  solleu die Zahlen?. 1887) seguem a mesma
com base na intuio aprioricio espao, que                  ordem de idias. Mas quem mais contribuiu
a forma da quantidade em geral. E diz: "Quem                  para inscrever a M. no domnio da lgica foi
pensou distinguir a filosofia da M. dizendo que               Frege e sua polmica contra o psicologismo.
esta tem como objeto apenas a quantidade to-                  F.m um ensaio de 1884, Frege mostrava a im-
mou o efeito pela causa. A forma do conheci-                  portncia do conceito de relao para a defi-
mento da M.  a causa de ela poder referir-se                 nio do nmero natural; dizia: "O conceito de
unicamente a quantidades. Na verdade, s o                    relao pertence -- tanto quanto o conceito
conceito de quantidade pode ser construdo,                   simples -- ao campo da lgica pura. Aqui no
ou seja, exposto aprorin intuio do espao"                interessa o contedo especial da relao, mas
(Crt. R. Pura, Dout. do mt., cap. I, se. 1). O             exclusivamente sua forma lgica. Se algo pode
conceito de M. como construo-- portanto,                    ser afirmado sobre ela, a verdade desse algo 
de algum modo como intuio-- retornou na                     analtica e reconhecida a priori" (Hine logisb-
M. contempornea (v. mais adiante, n. 4). Mas                 mathematische lintersuchung berden Begriff
o conceito de M. como cincia da quantidade                   der Zabl, 1884,  70, trad. it., em Aritmtica e
oi repetido numerosas vezes pelos tilsolos.                 lgica, p. 139).
As longas e fantsticas di.squisies cie Hegcl
sobre os conceitos fundamentais da M., na grande                 A partir da. pode-se considerar consolida-
Lgica, baseiam-se nele (WisseuschaftderLogik,                da a conexo da M. com a lgica atravs da
I. I, se. II). F. mesmo muito mais tarde, Croce              teoria das relaes; essa conexo foi constan-
reteria-se destemidamente a esse conceito: "As                temente pressuposta nas definies de M.
M. fornecem conceitos abstratos que possibili-                Todavia mesmo as definies que tm esse
tam o juzo numrico; constrem os instrumen-                 fundamento em comum foram formuladas cie
tos para contar e calcular e para realizar aquela             modos diferentes. A formulao mais bvia
espcie de falsa sntese apriori, que  a nume-               de uma definio deste tipo  a que considera
rao dos objetos individuais" (Lgica, 1920, p.              a M. como "teoria das relaes". Poincar ex-
238).                                                         punha essa definio na forma geral, afirman-
                                                              do: "A cincia  um sistema de relaes. S nas
   2a A segunda concepo fundamental cia M.                  relaes deve-se buscar objetividade, e seria
considera-a como cincia das relaes, portan-                vo busc-la nos seres isolados" (La valeur de
to estreitamente ligada  lgica ou parte desta.              iascience, 1905, p. 266). Esse conceito foi ado-
Os antecedentes dessa concepo podem ser                     tado por Russell, que via a coincidncia entre
encontrados em Descartes, que afirmava: "Em-                  M. e lgica justamente no mbito da teoria das
bora as cincias comumente chamadas de ma-                    relaes e julgava que o tema comum das duas
temticas tenham objetos diferentes, esto de                 cincias era a forma dos enunciados, definida
acordo quanto a considerarem apenas a.s diver-                como "aquilo que permanece invarivel quan-
MATEMTICA                                            644                                    MATEMTICA

do todos os componentes do enunciado so                    Nature of Mathematical Truth", 1925, em Rea-
substitudos por outros", ou seja, quando o enun-           dngs in the Phlosophy of Science, 1953, p. 59).
ciado se transforma em pura relao (Intr. to                   3a A terceira concepo fundamental de M.
Mathematical Philosophy, 1918, cap. XVIII).                 pertence  corrente formalista e pode ser
   Por outro lado, Peirce, mesmo admitindo a                assim expressa: a M.  "a cincia cio possvel",
conexo entre M. e lgica, procurara distinguir             onde por possvel se entende aquilo que no
ambas, afirmando que, enquanto a M.  a cin-               implica contradio (v. POSSVEL, 1). Desse pon-
cia que infere concluses necessrias, a lgica             to de vista, a M. no  parte da lgica e no a
 a cincia do modo de inferir concluses ne-               pressupe. Do modo como foi concebida por
cessrias. "O lgico no est muito preocupa-               Hilbert e Bernays (Grundlagen der Matbe-
do com esta ou aquela hiptese ou com suas                  matik, I, 1934; II, 1939), a M. pode ser cons-
conseqncias exceto quando isso pode lan-                  truda como simples clculo, sem exigir inter-
ar luzes sobre a natureza do raciocnio. O ma-             pretao alguma. Torna-se, ento, um sistema
temtico interessa-se muito pelos mtodos efi-              axiomtico (v. AXIOMATIZAO). no qual: 1'-' to-
cientes de raciocinar, visando  sua possvel               dos os conceitos bsicos e todas as relaes b-
extenso para novos problemas, mas, enquan-                 sicas devem ser completamente enumerados,
to matemtico, no se preocupa em analisar as               integrando-se neles, por meio de definio,
partes de seu mtodo cuja correo  dada                   quaisquer conceitos ulteriores; 2" os axiomas
como bvia" (Coll. Pap., 4.239). Essa distino,            devem ser completamente enumerados e destes
porm, baseava-se na noo de lgica como                   deduzidos todos os outros enunciados em con-
cincia categrica e normativa (Ibid. 4.240), o             formidade com as relaes bsicas. Nesse sis-
que no fez carreira na lgica contempornea,               tema, a demonstrao matemtica  um proce-
cujo carter convencional se acentuou cada vez              dimentopuramente mecnico^ infernda de
mais(v. CONVKNCIONALISMO: LGICA). Portanto,                frmulas, mas ao mesmo tempo acrescenta-se
a melhor definio de M., desse ponto de vista,              M. formal uma metamatemtica constituda
 dada por Wittgenstein: "A M.  um mtodo                  por raciocnios no formais em torno da M.
lgico. As proposies da M. so equaes,                  "Desse modo" -- disse Hilbert -- "realiza-se,
portanto pseudoproposies. A proposio                    por meio de trocas contnuas, o desenvolvi-
matemtica no exprime pensamento algum.                    mento da totalidade da cincia matemtica, de
De fato, nunca precisamos de proposies ma-                duas maneiras: inferindo dos axiomas novas
temticas na vida, mas as empregamos apenas                 frmulas demonstrveis por meio de dedues
com o fim de, a partir de proposies que no               formais e acrescentando novos axiomas e a
pertencem  M, tirar concluses que se expres-              prova de no-contradio, por meio de racioc-
sam em proposies que tampouco lhe perten-                 nios que tenham contedo." A M. constitui, en-
cem" ( Traclalus, 1922. 6.2; 6.21; 6.211). As equa-         to, um sistema perfeitamente autnomo, ou
es da JV. correspondem s tautologias da lgica          seja, no pressupe um limite ou um guia fora
(Ibid., 6.22) e, como estas, nada dizem. Ponto              de si mesma e desenvolve-se em todas as dire-
de vista anlogo foi expresso por Camap: "Os                es possveis, entendendo-se por direes pos-
clculos constituem um gnero particular de cl-            sveis as que no levem a contradies.
culos lgicos, distinguindo-se deles pela maior                 Portanto,  essencial para esse conceito da
complexidade. Os clculos geomtricos so um                M. a possibilidade de determinar a posbilia-
gnero particular de clculos fsicos" (Founda-             /cJ(no-contradio) dos sistemas axiomticos.
tioris of Logic and Mathematics, 1939,  13).               Mas foi justamente essa possibilidade que o
   Esta  a melhor formulao da tese do                    teorema descoberto por Gdel em 1931 ps
logicismoiv.). Segundo esse ponto de vista, em              em dvida: segundo ele, no  possvel de-
primeiro lugar deve-se construir uma lgica                 monstrar a no-contradio de um sistema S
exata, para em seguida dela extrair a M., do se-            com os meios (axiomas, definies, regras de
guinte modo: V' definindo todos os conceitos                deduo, etc.) pertencentes ao mesmo sistema
da M. (vale dizer, da aritmtica, da lgebra e da           S; para efetuar tal demonstrao,  preciso
anlise) em termos de conceitos de lgica; 2L)              recorrer a um sistema 5i, mais rico em meios
deduzindo todos os teoremas da M. a partir                  lgicos que SCJber formal unentscheidbare
dessas definies e por meio dos princpios da              Stze der Principia Mathematica und ver-
prpria lgica (inclusive os axiomas cie infini-            wandter Systeme", em MonatschriftefrMathe-
dade e de escolha) (cf. C. G. HEMPEL, "On the               matik und Physik, 1931, pp. 173-98). Esse
MATEMTICA                                          645                                   MATEOSIOLOGIA

teorema de Gdel teve grande ressonncia na               da afirmao de que Lima construo matemti-
M. moderna. At agora foi possvel demons-                ca, qLie deveria satisfazer a certas condies,
trar a no-contradio de algumas partes da M.,           no  realizvel (cf. A. HHYTING, Mathematische
como p. ex. da aritimtica (demostrado por                Gntndlagenforschung. Inluitioismus nnd Be-
Gentzen em 1936), mas no se avanou muito                weistheorie, 1934 [trad. ft\, 1955], I. 5, 1). Na es-
nessa direo; por isso, a "cincia do possvel"          teira de Brouwer, Heyting demostrou que, apesar
hoje acredita que sua misso mais difcil  mos-          de o princpio de contradio poder ser utiliza-
trar a "possibilidade" de suas partes. Quanto            do, o mesmo no acontece com o princpio do
possibilidade da M. como sistema nico e total,           terceiro excludo (\.) (Dieformalen Regehi der
obviamente foi excluda pela formulao do                intuitionistischen Logik, in L. B. Preusz. Akad.
teorema de Gdel, que tambm mostrou os li-                Wiss., 1930).
mites da axiomtica ao demonstrar que ne-                     O intuicionismo. apesar cie definir a M.
nhum sistema axiomtico contm "todos" os                 como a cincia das construes possveis,
axiomas possveis e que, portanto, novos prin-            no recorre, como Kant,  intuio a priori
cpios de prova podem ser continuamente                   do espao, nem a forma alguma de intuio
descobertos. Outra conseqncia do teorema                emprica ou mstica. A construo de que o
de Gdel  uma limitao das capacidades                  intuicionismo fala  conceituai e no se refe-
das mquinas calculadoras, cuja construo toi            re a fatos empricos. Heyting resumiu desta
enormemente facilitada pelo conceito forma-               forma o ponto de vista de Brouwer: 1" a M.
 lista da M. De fato, pode-se construir uma m-           pura  uma criao livre do esprito e no
 quina para resolver determinado problema, mas            tem relao alguma com os fatos de expe-
 no uma mquina que seja capaz de resolver               rincia; 1" a simples constatao de um fato
 lodosos problemas (cf. E. NAGKL-G. R. NKWMANN,           de experincias sempre contm a identifica-
 Gdels Proof, 1958, pp. 9 ss.).                         o de um sistema matemtico; 3" o mtodo
     4- Segundo a quarta concepo fundamen-              da cincia da natureza consiste em reunir os
 tal, a M.  a cincia que tem por objeto a pos-          sistemas matemticos contidos nas experin-
 sibilidade de construo. Trata-se, como se v.          cias isoladas em um sistema puramente mate-
 da noo kantiana da M. como "construo de              mtico construdo com este fim (cf. HEYTING,
 conceitos"; por isso, essa corrente comumente            op. cit., IV. 3).
  chamada de intuicionismo, mas seus prece-               Se considerarmos essas concluses, vere-
 dentes podem ser percebidos na polmica               mos que a distino entre formalismo e intui-
 antiformalisla de Poincar, na obra de Kronec-        cionismo (entre a terceira e a quarta concepo
 ker (Uber deu Zahlbegriff, 1887), na tendncia        da M.) no  to radical quanto poderia pare-
 empirista de alguns matemticos franceses             cer. Em primeiro lugar, a construo que os
 (Borel, Lebegue, Bayre), no filsofo vienense R       intuicionistas vem como objeto do procedi-
  Kuufmann. e em outros. Segundo Brouwer,              mento matemtico  formal e sua possibilidade
  que  um dos principais representantes do             determinada por regras formais. Por outro
  intuicionismo, a M. identifica-se com a parte        lado, os limites do formalismo evidenciados
  exata do pensamento humano e por isso no            pelo teorema de Gdel ressaltam o valor de
  pressupe cincia alguma, nem a lgica, mas          algumas exigncias apresentadas pelo conceito
  exige uma intuio que permita apreender a           intuicionista da matemtica. E j que  difcil ig-
  evidncia dos conceitos e das concluses.            norar a importncia do aspecto lingstico da
  Portanto, no se deve chegar .s concluses         AI., que serviu de base para o /ogicismo, o pen-
  a partir de regras fixas contidas num sistema       samento matemtico contemporneo  domi-
  formalizado, mas cada concluso deve ser dire-      nado por certo ecletismo (cf. p. ex. E. W. BKTH.
  tamente verificada com base em sua prpria          Les fondements logiques des mathmatiqiies,
  evidncia. Desse ponto de vista, o procedimento     2- ed., 1955). Entretanto, do ponto de vista fi-
 c/e demonstrao matemtica no tem em vista         losfico, vale dizer, do ponto de vista dos con-
a dedtio lgica, mas a construo de um sis-        ceitos bsicos e das orientaes gerais de estu-
tema matemtico. Brouwer insiste no fato de           do, as diferenas nas definies enunciadas neste
que, mesmo no caso de uma demonstrao de             verbete continuam sendo importantes.
impossibilidade atravs da evidncia de uma               MATEOSIOLOGIA(fr. Matbosiologie). 'ler-
contradio, o LISO do princpio de contradi-         mo empregado por Ampre para indicar a cincia
o  apenas aparente: na realidade, trata-se         que deveria ter por objeto, "por Lim lado, as leis
MATRIA1                                              646                                            MATRIA2


a serem obedecidas no estudo ou no ensino                   ber a ao criadora da Razo Divina (que  o
dos conhecimentos humanos e. por outro lado,                princpio ativo), os esticos chamaram a M. de
a classificao natural desses conhecimentos"               "substncia primeira" (DIG. L, VII, 150; cf.
(Hssai snr Ia philusopbie cies sciences, 1834.              SHNKCA, Ep.. 65, 2). Plotino s fez levar ao extre-
p. 31).                                                     mo essa concepo de M. ao afirmar que ela
   MATRIA1. Km sentido gnosiolgico v.                     no 6 "alma intelecto, vida, forma, razo, limite
FORMA. 2.                                                   (j que  ausncia de limite), nem potncia (pois
    MATRIA2 (gr. v\x\\ lat. Matria-, in. Matten           o que poderia criar?). Desprovida como  de
fr. Matiiv. ai. Materie-, it. Matria). Um dos             todos os caracteres, nem sequer  possvel atri-
princpios c(ue constituem a realidade natural,             buir-lhe o ser, no sentido, p. ex.. em que se diz
isto , os corpos, So as seguintes as principais           que existe movimento ou repouso; ela 6 real-
definies dadas da M.: Ia M. como sujeito; 2a              mente o no-ser, uma imagem ilusria cia mas-
M. como potncia; 3" M- como extenso; 4a M.                sa corprea e uma aspirao  existncia" (Fnri.,
como fora; 5a M. como lei; 6a M. como massa;               III. 6, 7). Ksse conceito da M. foi constantemen-
7- M. como densidade de campo. As quatro                    te empregado com fins teolgicos. Na patrstica,
primeiras definies so filosficas; as trs lti-         foi repetido por Orgenes (Contra Cels., III, 41;
mas, cientficas.                                           Deprnc, 11, 1) e por S. Agostinho. Fste consi-
    Ia Km Plato e Aristteles a definio de               dera a M, segundo o conceito clssico, como
M. como sujeito alterna-se com a de M. como                 "absolutamente informe e desprovida de quali-
potncia. Segundo esse conceito, M.  receptivi-            dade", estando "prxima do nada", conquanto
dade ou passividade; nesse sentido, Plato                  existente na medida em que  dotada da capa-
chama-a de meie das coisas naturais, j que                 cidade de ser formada ((,'onf., XII, 8; De natura
ela "acolhe em si todas as coisas sem nunca                 boni, 18). S. Toms, por sua vez, nega que a M.
assumir forma alguma que se assemelhe s                    seja "potncia operante" (S. Th., I, q. 44, ad. 3")
coisas, pois 6 como a cera que recebe a marca"              e insiste em sua imperfeio incompletitudeou
( Tim.. 50 h-d). Nesse sentido, M.  o material             relativamente  forma (Ibiei. I, q. 4, a. 1). Mes-
bruto, amorfo, passivo e receptivo, do qual                 mo atribuindo  M. certa realidade atual e ne-
as coisas naturais so compostas. Aristteles               gando, pois, que ela seja um "quase-nada" ou
chama esse material de sujeito (JtOKeiuxvov):              pura "possibilidade de ser", a escolstica agos-
"Chamo de M. o sujeito primeiro de uma coi-                 liniana no renova o conceito de M. Duns Scot,
sa, a partir do qual a coisa no  gerada aci-
                                                            p. ex., atribui certa realidade (eutilas)  M, mas,
dentalmente" (Fs., I, 9, 192 a 3D. Como
sujeito, a M.  "aquilo que permanece atra-                 apesar disso, considera-a "receptiva de todas
vs das mudanas opostas; assim, p. ex., no                 as formas substanciais e acidentais", segundo o
movimento o mvel permanece o mesmo,                        conceito aristotlico (Op. Ox., II. d. 12, q. 1, n.
apesar de estar ora aqui, ora l; na mudana                11), e nega-lhe potncia ativa ao negar que
quantitativa permanece o mesmo aquilo que                   nela estejam presentes razes seminais (Ibid.,
se torna menor ou maior; e na mudana qua-                  d. 18, q. 1, n. 3). Desse ponto de vista, a passi-
litativa permanece o mesmo aquilo que uma                   vidade ou receptividade continua sendo carac-
vez est com boa sade e outra vez no"                     terstica fundamental da M.,  qual recorreram
(Mel.. VIII, 1, 1042 a 27). Fm seu aspecto de               alguns naturalistas do Renascimento, como p.
sujeito, a M.  desprovida de forma,  in-                  ex. Paracelso (Meteor., 72) e Telsio. Este lti-
determinada, portanto incognoscvel por si                  mo considerou a M. como a "massa corprea"
mesma (IbicL, Vil, 11. 1037 a 27; VII, 10. 1036             destinada a sofrer a ao das duas "naturezas
a 8): caractersticas estas eminentes na "M.                agentes", o calor e o frio (De rei: uat., I. 4). Fssa
primeira", que no  a que constitui o mate-                concepo foi compartilhada por Locke, para
rial (p. ex., o bronze ou a madeira) de que                 quem a M.  "morta e inativa" (Ensaio, IV, 10.
uma coisa 6 feita, mas que  o sujeito co-                  10), concepo esta freqente ainda hoje na
mum, incognoscvel, de todos os materiais                   filosofia e no pensamento comum. Est pre-
(Ibic., IX, 7, 1049 a 18 ss.). O conceito de M.            sente, p. ex., em Bergson. para quem a M. 
como sujeito passivo foi retomado pelos es-                 cessao potencial do movimento da vida,
ticos, que a designaram precisamente por                   definindo-se pela "inrcia", em contraposio
esse seu carter (Dic. L, VII, 134). Fm virtu-             ao que  "vivo" (Evol. cratr., 8a ed., 1911, pp.
de dessa passividade, que dispe a M. a rece-               216 ss.).
MATRIA2                                                  647                                            MATRIA2

    2- Em Plato e Aristteles o conceito de                     mento da natureza que nada produz a partir do
M. como potncia mescla-se ao conceito de M.                    nada" (InSent., II, d. 18. a. 1, q. 3). Esse conceito
como sujeito. Plato diz que a M. "nunca perde                  de M. foi transmitido ao Renascimento por
a potncia" ('fim., 50 b). Aristteles identifica a              Nicolau de Cusa. que a considera como "pos-
M. com a potncia: "Todas as coisas produzi-                    sibilidade indeterminada", na qual existem, con-
das, seja pela natureza, seja pela arte, tm M,                  tradas, todas as coisas do universo. "A dispo-
pois a possibilidade que cada uma tem de ser                    sio da possibilidade" -- dizia N. de Cusa --
ou no ser  a M. de cada uma" (Mel., Vil, 7,                   "tem de ser contracta, e no absoluta, uma vez
1032 a 20). Mas, segundo Aristteles, a potn-                  que, se a terra, o sol e as outras coisas no
cia no  apenas essa possibilidade pura de ser                 estivessem ocultas na M. como possibilidades
ou no ser;  uma potncia operante e ativa;                    contractas, no haveria razo para passarem ao
"Uma casa existe potencialmente se nada hou-                    ato, em vez de no passarem" (Dedocta igtior.,
ver em seu material que a impea cie tornar-se                  II, 8). Em outras palavras,  s por estarem
casa e se nada mais houver que deva ser acres-                  presentes em estado contrado na M. que de-
centado, retirado ou mudado. (...) E as coisas                  terminadas possibilidades vm  tona com a
que tm em si prprias o princpio de sua g-                   criao. E nesse conceito que Giordano Bruno
nese exi.stiro por si mesmas quando nada de                    basearia seu conceito de M. como princpio
externo o impedir" (Met., IX. 7, 1049 a 9 ss.).                 ativo e criador cia natureza: "Para ser realmen-
Essa auto-suticincia da potncia para produzir,                te tudo o que pode ser, essa M. tem todas as
graas  qual a M. no 6 apenas material bruto,                 medidas, todas as espcies de configuraes e
mas capacidade efetiva de produo, exprime                     dimenses, e porque as tem todas no tem
um conceito que no  mais de M. como passi-                    nenhuma, pois  preciso que aquilo que  tan-
vidade ou receptividade. Como potncia ope-                     tas e diversas coisas no seja nenhuma delas
rante, a M. no  um princpio necessariamente                  em particular." Nesse sentido, M. coincide com
corpreo. Plotino, que, como se viu, reduz a M.                 forma (De Ia causa, IV).
ao no-ser, por outro lado identifica-a, como                       33 O conceito cie M. como extenso foi de-
potncia, com o infinito (TJUL, II, 4, 15). e, ao               fendido por Descartes: " natureza da M. ou
lado da M. sensvel, admite uma M. inteligvel                  dos corpos em geral no consiste em ser uma
que permanece sempre idntica a si mesma e                      coisa dura, pesada, colorida ou capaz de afetar
possui todas as formas, de tal modo que lhe                     nossos sentidos de qualquer outro modo, mas
falta a razo de transformar-se (Ibl, II, 4, 3).               apenas em ser uma substncia extensa, em
Nessa doutrina encontra-se a origem da tradi-                   comprimento, largura e profundidade" (Princ.
o que insiste na atividade da M.: tradio                    phii, II, 4). Esse conceito tem grande aceitao
que passa por Scotus Erigena (De cliris. nat.,                  no sc. XVII. Hobbes. p. ex., identifica a M. pri-
III, 14) e encontra nova fase na doutrina de                    meira dos aristotlicos com o corpo em geral,
Avcebrn (Ibn Gabirol) sobre a composio                      ou seja, com o "corpo considerado sem levar
hilomrfica universal. Segundo Avicebrn, as                    em conta qualquer acidente, exceto a grandeza
coisas espirituais tambm so compostas por                     ou extenso e a capacidade de receber formas
M. e forma, e a M. identifica-se com a primeira                 e acidentes" (De corp., VIII, 24). O mesmo con-
tias categorias aristotlicas, sendo substncia                 ceito cie corpo em geral como M.  aceito por
porque "sustenta" as outras nove categorias                     Spinoza. que tambm o identifica com a exten-
(Tons ritae, II, 6). Foi s com base no carter                 so (Et., II, def. 1).
ativo ou inativo da M. que David cie Dinant
pde identificar Deus com M. (ALBKRTO MAG-                          H motivos para acreditar que essa defini-
NO, S. Th.. I, 4, q. 20; S. TOMS, ,V. Th., 1, q. 4, a.         o cie M. esteja implcita na hiptese atomista.
8). Contudo, a M. mantm o carter de ativida-                  Como se sabe, o termo "M." aparece pela pri-
de mesmo na escolstica agostiniana, que si-                    meira vez em Aristteles com significado filos-
multaneamente insistia em atribuir-lhe realida-                 fico, mas o prprio Aristteles fala, referindo-se
de positiva, detectando sua presena tambm                     a Demcrito. do "corpo comum de todas as
nos seres espirituais, segundo o conceito de                    coisas", e afirma que, segundo Demcrito, as par-
Avicebrn. S. Boaventura diz: "A razo semi-                    tes cie tal corpo diferem em grandeza e confi-
nal  a potncia ativa nsita  M., e essa potn-               gurao (Fs., III, 4, 203 a 33-203 b 1). Ora.
cia ativa  a essncia da forma, visto que a                    "grandeza e configurao" nada mais so que
partir dela gera-se a forma atravs do procedi-                 extenso. Em outro trecho, Aristteles enumera
                                                                trs diferenas entre os tomos: configurao,
MATRIA 2                                            648                                         MATRIA 2


ordem e posio (Mel.. I, 4, 985 b 15), mas con-           em Giuir.phil, ed. Vernire, p. 393). Essa con-
figurao, ordem e posio nada mais so que               cepo tambm foi aceita por Kant que dizia:
extenso. Extenso tambm  a configurao                "A M. enche um espao, no atravs de sua
qual, segundo Kpicuro, se reduzem todas as                 existncia pura, mas por meio de uma fora
qualidades cio tomo (DIG. L, X, 54). Assim, a            motriz, particular": a fora repulsiva de todas as
hiptese atomista implica o conceito de M.                 suas partes (Metaphysische Anfangsgrnde der
como extenso, o que foi ressaltado por Guilheme           Natunvissenschaft, II. Lehrsatz, 2, 3). O concei-
de Ockham no sc. XIV: "E impossvel haver                 to romntico de M. como fora oti atividade,
M. sem extenso porque no  possvel ha-                  expresso por Schelling. p. ex.,  apenas uma
ver M. que no tenha as partes distantes umas              ampliao dessa doutrina. Segundo Schelling,
das outras; por isso, ainda que as partes cia M.           as trs dimenses da M. so determinadas pe-
possam unir-se, como se unem as partes cia                 las trs foras que a constituem: fora expansi-
gua e do ar, no podem estar no mesmo                     va, fora atrativa e uma terceira fora sintti-
lugar" (Summ. phys., 1, 19; QuocIL. IV, q. 23).            ca, que correspondem, em sua natureza, ao
    4- O conceito cie M. como fora ou energia            magnetismo,  eletricidade e ao quimismo, res-
defendido pela primeira vez pelos platnicos               pectivamente (System der transzendentalen
de Cambridge, no sc. XVII, sendo depois acei-             Idealismus, III, cap. II, Deduo da matria;
to por Leibniz e por muitos filsofos do sc.              trad. it.. pp. 109 ss.). Mais genericamente,
XVIII. Segundo Cudworth. a M.  uma nature-                Schopenhauer identificava M. com atividade
za plstica, uma fora viva que  emanao di-             (Die Welt, I,  4). No domnio cientfico, esse
reta de Deus ( The Tme Jtitellectual System of             ponto de vista foi realizado como energismo
the ['nirerse, 1. 1, 3). H. More, assim como Des-          (v.). G. Ostwald sustentou, no fim do sculo
cartes, reduz a M. a extenso, mas identifica a            passado, que o conceito de M. era perfeitamen-
extenso com o esprito, resolvendo-a em par-              te intil para a cincia da natureza, propondo
tculas indivisveis que ele chama de manadas              a sua substituio pelo conceito de energia (Die
fsicas e que nada mais tm de material (I-jicbi-          1'benrndung des wssenschaftlichen Mctte-
ridion metaphysicum. I, 8, 8; I, 9, 3)- Essas con-         rialismus, 1895).
sideraes metafsicas ganharam significado                    5a Embora no se possa chamar de conceito
mais preciso em Newton e Leibniz. Newton jul-              de M. a reduo de M. a percepes ou idias,
gava impossvel admitir que "a M. fosse isenta             proposta por Berkeley, porque isso  simples-
de qualquer tenacidade e atrito de partes, bem             mente neg-la,  possvel aceitar a definio
como de comunicao de movimento"; consi-                  dada por Mach, de que a M.  uma "conexo
derava, portanto, que ela tivesse estreitssima            determinada de elementos sensveis em con-
relao com as "foras" ou "princpios" que se             formidade com uma lei" (Analyse der Rrnpfin-
manifestam na experincia (Optickis. 1704, III,            dungen. XIV, 14). Essa definio no tende, de
 1. q. 31). Para Leibniz. a M., alm da extenso,          fato. a negar a matria ou a reduzi-la a elemen-
 constituda por uma fora passiva de resistn-           tos subjetivos e psquicos, mas a substituir a ri-
cia, que  a impenetrabilidade ou anlitipia(\.)            gidez e inrcia tradicionalmente atribudas 
(Op., ed. Erdmann, pp. 157, 463, 466. 691). A              M. pela estabilidade relativa cie uma lei. Nesta
mesma doutrina foi aceita por Woltf, que defi-             definio, o conceito fundamental  de lei,
nia a M. como "um ente extenso provido de                  entendida como expresso de uma conexo
fora de inrcia", e acreditava que ela possus-           constante. A M. seria precisamente a cone-
se fora ativa por si (Cosm..  141-42). Essa             xo constante na qual se apresentam agrupa-
interpretao cia M. tornou-se um dos temas                dos os elementos ltimos das coisas, ou seja,
comuns do Iluminismo e da polmica dos ilu-                as sensaes.
ministas contra Descartes. Diderot dizia: "No
sei em que sentido os filsofos supuseram que                  6a Os usos anteriores so todos cie natureza
a M.  indiferente ao movimento e ao repouso.              filosfica, apesar cie algumas vezes terem sido
 certo, porm, que todos os corpos gravitam               propostos ou sustentados por cientistas. No
uns sobre os outros, que todas as partculas dos           domnio da cincia, mais precisamente da me-
corpos gravitam umas sobre as outras, que nes-             cnica, a noo de M. se identifica com a de
te universo tudo est em translao ou in nisu.            massa (definida pelo segundo princpio da
ou em translao e in nisu ao mesmo tempo"                 dinmica como relao entre a fora e a acele-
(Prncipes phil. surla matire et le monvemenl,            rao imprimida). A massa pode ser entendida
                                                           como massa inercial ou como peso. O princ-
MATERIALISMO                                          649                                   MATERIA1ISMO

pio cia "conservao da M.", que a cincia do               vimentos; 3L> o M. prtico, que reconhece no
sc. XIX considerava como um de seus pilares,               prazer o nico guia da vida; 4o o M. psicojsico,
ao lado do princpio da "conservao da ener-               para o qual os fenmenos psquicos so causa-
gia", refere-se  M. entendida como peso, uma               dos estritamente por fenmenos fisiolgicos.
vez que seu significado especfico foi-lhe dado             Estas so as formas historicamente reconhec-
somente pelas clebres experincias com as                  veis do M, alm das formas conhecidas como
quais Lavoisier demonstrou (1772) que nas rea-              M. dialtico e M. histrico (v.), considerados 
es qumicas (entre as quais a combusto) o                parte. No se pode aceitar, porm, como histo-
peso do composto  a soma dos pesos dos                     ricamente legtimo o significado que Berkeley
componentes.                                                atribui ao termo, entendendo por materialistas
    J- Na cincia contempornea, o conceito de              todos aqueles que de qualquer maneira reco-
M. tende a ser reduzido ao de densidade de                  nheam a existncia da matria (Principies of
campo. "Lima vez reconhecida a equivalncia                 Htiman Knowledge,  74), porque nesse senti-
entre massa e energia, a diviso entre M. e                 do Aristteles e os aristotlicos tambm seriam
campo parece artificiosa e no claramente defi-             materialistas; tampouco  possvel chamar os
nida. No poderamos ento renunciar ao con-                esticos de materialistas, ainda que, para eles,
ceito cie M. e edificar uma fsica do campo                 tudo o que existe na natureza  corpo (DiG.
puro? O que impressiona nossos sentidos                     L, VII. 1, 56; PLUTARCO, De Com. NolX uma vez
como M. na realidade  uma grande concen-                   que admitiam um princpio racional divino como
trao de energia em espao relativamente                   causa do mundo; por motivos anlogos, no se
limitado. Portanto, parece lcito equiparar a M.            pode julgar que Tertuliano seja materialista por
a regies espaciais nas quais o campo  extre-              ter afirmado que "tudo o que existe  corpo"
mamente forte" (EINSTKIN-INFHLD, lhelivolution              (Dean., 7; De cante Christi, 11).
o/Physics, cap. III; trad. it.. p. 253). F.sta ten-             1" O M. cosmolgico  caracterizado pelas
dncia da fsica contempornea no pode                     seguintes teses: a) carter originrio ou inde-
ser confundida com o energismo, porque                      rivvel da matria, que.precede todos os ou-
no implica a reduo da M.  energia, mas a                tros seres e  causa deles (portanto, no  M. a
reduo dos conceitos de M. e de energia ao                 doutrina de Gassendi, para quem os tomos
de campo (v.).                                              que constituem o universo foram criados por
    MATERIALISMO (in. Materalism. fr. Ma-                  Deus); b) estrutura atmica da matria; c) pre-
tralisirw, ai. Materialismus; it. Ma/erialismo).          sena na matria, portanto nos tomos, de uma
Este termo foi usado pela primeira vez por                  fora capaz de p-los em movimento e de
Robert Boyle em sua obra de 1674 intitulada                 lev-los a se combinarem de tal modo que do
 The Kxcellence and Grounds ofthe Mechanical                origem s coisas (Demcrito admitia que os
Pbilosopby (cf. EtJCKKN, Geistige Slrmungen                tomos se movem por conta prpria desde a
der Gegenwarl, 5a ed., 1916, p. 168). Esse ter-             eternidade [ARISTTKLKS, Pis., VIII, 1, 252 a 321,
mo designa, em geral, toda doutrina que atri-               e esse pressuposto permaneceu em todas as
bua causalidade apenas  matria. Em todas as               formas do atomismo; a ltima forma histrica
suas formas historicamente identificveis (em               assumida pelo M., difundida nos ltimos dec-
que esse termo no seja empregado com fins                  nios do sc. XIX pelo bilogo alemo Ernst
polmicos), o M. consiste em afirmar que a                  Haeckel, admitia at mesmo que os tomos
nica causa das coisas  a matria. A antiga                fossem dotados de vida e sensibilidade, alm
definio de Wolff, segundo a qual so ma-                  de movimento [Die Weltrtsel, 18991); d) nega-
terialistas "os filsofos que admitem apenas a              o do finalismo do universo e, em geral, de
existncia dos entes materiais, ou seja, dos                qualquer ordem que no consista na simples
corpos" (Psychol. rationalis,  33), no  sufi-            distribuio das partes materiais no espao; )
ciente para apontar as formas histricas do M.,             reduo dos poderes espirituais humanos 
porque levaria a incluir nessa corrente doutri-             sensibilidade, ou seja, sensacionismo (sob esse
nas que a repudiam (v. mais adiante). A partir              aspecto, na Antigidade o M.  representado pelas
da  possvel distinguir: V-'- o M. metafsico ou          doutrinas de Demcrito e de Epicuro; na Idade
 cosmolgico, que se identifica com o atomismo              Moderna, pelas doutrinas de alguns iluministas
filosfico; 2- o M. metodolgico, segundo o                 e de numerosos positivistas do sc. XIX).
qual a nica explicao possvel dos fenme-                    2- O M. metodolgico foi defendido primei-
 nos  a que recorre aos corpos e aos seus mo-              ramente por Hobbes; sua tese fundamental con-
MATERIALISMO                                         650                                  MATERIALISMO

siste em julgar que a noo de matria, ou seja,                3Q Em seu significado prtico ou moral, o M.
de corpo e de movimento,  o nico instru-                   termo que pertence mais  linguagem co-
mento disponvel para a explicao dos fen-                mum do que  filosfica. Fala-se de "poca ma-
menos. Hobbes afirmava de fato que o conhe-                 terialista", de "tendncias materialistas" ou do
cimento de uma coisa  sempre conhecimento                  "materialismo" de grupos ou classes, para indi-
de sua gnese, e que a gnese  movimento.                  car a tendncia ao conforto ou, mais precisa-
Portanto, todo conhecimento  conhecimento                  mente, uma tica que adote o prazer como ni-
do movimento, e movimento implica corpo.                    co guia do comportamento. O termo filosfico
Por isso, chamou De coipore( 1655) o seu tra-               para isso  hedonismo (v.); este muitas vezes 
tado de filosofia primeira. Desse ponto de vis-             acompanhado pelo M., mas no necessaria-
ta, a explicao materialista tambm  a nica              mente. A tica de Epicuro e dos materialistas
possvel para as coisas que dizem respeito ao               do sc. XIX  hedonista, mas no a tica de
esprito e s coisas espirituais. Assim, Hobbes             Demcrito. Por outro lado, o hedonismo pode
objetava a Descartes: "O que diremos se o ra-               estar presente em filosofias no materialistas:
ciocnio no passar de um conjunto e uma co-                foi aceito, p. ex., pelos cirenaicos e pelos
nexo de nomes por meio da palavra '? Se-                  empiristas do sc. XVIII. Em sua forma extre-
gue-se dessa tese que, por meio da razo, no              ma, porm, o hedonismo constituiu uma mani-
podemos concluir nada que diga respeito  na-              festao caracterstica do M psicofsico sete-
tureza das coisas, mas somente algo que diga               centista, que, desse ponto de vista, foi uma
respeito a seus apelativos; vale dizer: com ela            continuao do libertinismo (v.). A obra de
vemos apenas se os nomes das coisas se agru-               Hm.vTirs, Del'esprit(\l^).  particularmente
pam bem ou mal, segundo as convenes que                  significativa a esse respeito porque contm
estabelecemos arbitrariamente para os seus sig-            uma exaltao indiscriminada do prazer, assim
nificados. Se assim for, como pode perfeita-               como outra obra de alguns anos antes, Lartde
mente ser, o raciocnio depender dos nomes,               jouir ou 1'cole de Ia rolupl (1751), de LA
os nomes dependero da imaginao e a ima-                 MKTTRIH.
ginao talvez (isto segundo a minha opinio)                  4Q O M. psicofsico consiste em afirmar
dependa do movimento dos rgos do corpo,                  que a atividade espiritual humana  efeito
e assim o esprito nada mais ser que um movi-             estrito da matria, ou seja, do organismo, do
mento em certas partes do corpo orgnico"                  sistema nervoso ou do crebro. Essa tese apre-
(III, Ohjeclions, 4). Portanto, segundo Hobbes,            sentou-se sob diversas formas nos scs. XVIII
o corpo  o nico objeto possvel do saber hu-             e XIX; uma delas  a concepo do homem-
mano, e a filosofia divide-se em duas partes, a            mquina. Essa expresso foi usada pelo fran-
filosofia natural e a filosofia civil, segundo             cs La Mettrie, como ttulo de uma obra sua
estude o corpo natural (a natureza) ou o corpo             famosa (1748), mas o conceito tambm  ex-
artificial (a sociedade) (De corp.. I, 9).                 presso na obra de DAVID HARTI.KY, Obsetva-
    Recentemente, o M. metodolgico foi defen-             tions of Man (1749), e na de JOSF.PH PRIKSTLF.Y,
dido pelos filsofos do crculo de Viena, espe-            Disquisitions Relating Io Matter and Spirt
cialmente por Carnap, mas em sentido diferen-              (1777). O Systme de Ia nature, de Holbach,
te do de Hobbes e referindo-se  linguagem:                talvez seja a melhor expresso desse ponto de
tal M.  a exigncia de traduzir para os termos            vista; segundo ele, todas as faculdades huma-
da linguagem fsica os dados protocolares. a               nas so modos de ser e de agir que resultam do
fim de construir com eles uma linguagem inter-             organismo fsico do homem, que, por sua vez,
subjetiva. Esse M. identifica-se, portanto, com             determinado pela mquina do universo. Uma
o ftsicalismo(v.) e no implica nenhuma afirma-            forma mais restrita e especfica desse M. est
o sobre a existncia da matria (cf. lirkennt-           presente na obra do mdico francs PIF.RRE
 ns, 1931, p. 477), nem a dedutibilidade das leis         CABANIS. Rapports du physque et du moral de
biolgicas e psicolgicas a partir das leis f-            lhomme (1802), para quem as atividades psqui-
sicas. Sem dvida, segundo esse ponto de vis-              cas provm do sistema nervoso. F.m meados do
ta, a unificao das leis da cincia  meta da             sc. XIX, essa dependncia causai dos poderes
prpria cincia, mas no se pode excluir nem               espirituais humanos em relao ao sistema
prever que essa meta seja alcanada (CARNAP,               nervoso pareceu a muitos filsofos e cientistas
l.ogical Foundations of lhe l'nity of Science.             um fato estabelecido. O M. daquela poca par-
 1938, p. 61).                                             te desse pressuposto. Numa obra de 1854,
MATERIALISMO DIALTICO                               651                     MATERIALISMO DIALTICO

Khler-gaube und Wissenschaft, o naturalista              res dessa filosofia. Segundo Engels. \ legel reco-
Karl Vogt afirmava que "o pensamento est                  nheceu perfeitamente as leis da dialtica, mas
para o crebro assim como a blis est para o f-          considerou-as "puras leis do pensamento", j
gado ou a urina para os rins", afirmao que ia            que no foram extradas da natureza e da hist-
ao encontro de outra, feita pelo historiador e li-         ria, mas "concedidas a estas do alto, como leis
terato francs Hyppolite Taine, de que "o vcio            do pensamento". Porm, "se invertermos as
e a virtude so produzidos como o vitrolo ou o            coisas, tudo se tornar simples: as leis da dial-
acar, e cada dado complexo nasce do encon-               tica que, na filosofia idealista, parecem extre-
tro de outros dados mais simples, dos quais                mamente misteriosas, tornam-se logo simples
depende" (Ilistore de Ia littratmv anglaise.             e claras como o sol" (Anti-Dbhn}>, pref.). Se-
 1863. Intr.). Outra forma mais atenuada ou, se            gundo Engels, so trs as leis: Ia lei cia conver-
quisermos, mais "nobre" da mesma doutrina                  so da quantidade em qualidade e vice-versa;
diz que a conscincia  o epifenmeno dos pro-             2a lei da interpenetrao dos opostos; 3' lei da
cessos nervosos, no sentido que, enquanto                 negao da negao. A primeira significa que
produzida por eles, no reage sobre eles mais              na natureza as variaes qualitativas s podem
do que a sombra reage sobre o objeto que a                 ser obtidas somando-se ou subtraindo-se ma-
produz (Huxley, Clifford, Ribot). Em Histria              tria ou movimento, ou seja, por meio de varia-
doM. ( Geschicbte des Materialismus. 1866), de             es quantitativas. A segunda lei garante a uni-
Y. A. Lange, a exposio do M. est centrada               dade e a continuidade da mudana incessante
precisamente na sua forma psicofsica, na qual             da natureza. A terceira significa que cada sntese
ele v um salutar lembrete contra a pretenso               por sua vez a tese de uma nova anttese que
de estender o saber humano alm de certos li-              dar lugar a uma nova sntese (ENGKI.S, Dialektik
mites. Segundo Lange, o M. renasce sempre                  derNatm; passim). Segundo Engels, esse con-
que o homem esquece esses limites e pretende               junto de lei.s determina a evoluo necessria
dar valor objetivo a construes metafsicas               -- e necessariamente progressiva -- do mun-
que s tm valor de fantasia.                              do natural. A evoluo histrica continua, com
    Tanio em sua forma metafsica quanto na                as mesmas leis, a evoluo natural. O sentido
psicofsica, o M. da metade do sc. XIX tem ca-            global do processo  otimista. A organizao
rter romntico, pois no se limita a ser uma              da produo segundo um plano, como se rea-
lese filosfica dotada de maiores ou menores               lizar na sociedade comunista, destina-se a ele-
possibilidades de confirmao, mas pretende                var os homens acima do mundo animal, em
ser doutrina de vida, destinada a vencer a reli-           termos sociais, tanto quanto o uso de instru-
gio e a suplant-la. Essa pretenso confere a             mentos de produo o elevou em termos de
tais doutrinas um tom violentamente polmico               espcie. Como se v, o M. dialtico de Engels
e proftico, transformado a "Cincia" na nova              nada mais  que a teoria da evoluo (que nos
tbua da verdade absoluta. Essa atitude rece-              tempos de Engels festejava seus primeiros
beu o nome de cientificistno (v.) e constitui a            triunfos), interpretada em termos de frmulas
vanguarda romntica da cincia do sc. XIX; o              dialticas hegelianas, com prognsticos extre-
M. foi seu credo. Mas esse credo foi em parte              mamente otimistas.
destrudo pela prpria cincia, em virtude da                 Costuma-se considerar que o materialismo
crise de sua concepo mecanicista nos ltimos             histrico e o materialismo metafsico so partes
decnios do sc. XIX.                                      integrantes do M. dialtico. Sobre o primeiro, v.
  MATERIALISMO DIALTICO (in. Dialec-                      captulo  parte. Quanto ao segundo, foi mais
tical malerialism; fr. Matrialisme dialectique,           enfatizado por Lnin e pelos comunistas aissos
ai. Dialektischer Materalismus; it. Matria-              do que Marx e Engels. Lnn assim resumia as te-
Usino dialettico). Entende-se por essa expresso           ses do materialismo: "Ia H coisas que existem
a filosofia oficial do comunismo enquanto teo-             independentemente de nossa conscincia, in-
ria dialtica da realidade (natural e histrica).          dependentemente de nossas sensaes, fo-
Mais que de materialismo {\\), trata-se na reali-          ra de ns. 2a No existe e no pode existir dife-
dade de um dialetismo naturalista, cujos princ-           rena alguma de princpio entre o fenmeno e
pios foram propostos por Marx (v. DIALTICA),              a coisa em si. A nica diferena efetiva  a que
desenvolvidos por F.ngels e depois, mais ou                existe entre o que  conhecido e o que ainda
menos servilmente, seguidos pelos filsofos do             no o . 3a Sobre a teoria do conhecimento,
mundo comunista, que so os nicos seguido-                como em todos os outros campos da cincia,
MATERIALISMO HISTRICO                                  652                      MATERIALISMO HISTRICO


deve-se raciocinar sempre dialeticamente, ou                  para Marx, pelo contrrio,  o ser social do
seja, nunca supor que nosso conhecimento seja                 homem que determina a sua conscincia.
invarivel e acabado, mas analisar o processo                      Contudo, no se deve achar que Marx fosse
graas ao qual o conhecimento nasce da igno-                  partidrio fatalismo econmico, segundo o
rncia ou o conhecimento vago e incompleto                    qual as condies econmicas necessariamente
torna-se mais justo e preciso" (Materialismus                 levariam o homem a determinadas formas de
utid Empiriokritizismus,   1909; trad.   it., p. 75).         vida social. Nessas relaes econmicas, que
Como se v, tampouco essas teses expres-                      dependem de tcnicas de trabalho, produo,
sam uma concepo materialista, mas cons-                     troca, etc, o homem  elemento ativo e con-
tituem uma reivindicao do realismo gno-                     dicionante. Portanto, a condicionalidade que a
siolgico.                                                    estrutura econmica exerce sobre as superes-
   MATERIALISMO HISTRICO (in                  Hist-         truturas sociais  -- pelo menos em parte --
rica! materialism-, fr. Matrialisme historique,              uma autocondicionalidade do homem em rela-
ai. IIistorischerMaterialismus; it. Materialismo              o a si prprio {DeutscheIdeologie, 1, C; trad.
storico). Com este nome Engels designou o                     it., pp. 69 ss.). Engels falou em seguida da "inver-
cnon de interpretao histrica proposta por                 so da prxis histrica", ou seja, de uma reao
Marx, mais precisamente o que consiste em                     de oposio da conscincia humana  ao das
atribuir aos fatores econmicos (tcnicas de                  condies materiais sobre ela. Mas do ponto
trabalho e de produo, relaes de trabalho                  de vista de Marx essa inverso no  necess-
e de produo) peso preponderante na deter-                   ria, visto no ser a superestrutura que reage 
minao dos acontecimentos histricos. O pres-                estrutura, mas o homem que, intervindo com
suposto desse cnon  o ponto de vista antro-                 suas tcnicas para mudar ou para melhorar a
polgico defendido por Marx, segundo o qual                   estrutura econmica, se autocondiciona por meio
a personalidade humana  constituda intrhi-                  dela.
secamente (em sua prpria natureza) por re-                        O M. histrico chamou a ateno dos his-
laes de trabalho e de produo de que o                     toriadores para um cnon interpretativo ao qual
homem participa para prover s suas neces-                    muitas vezes  indispensvel recorrer para
sidades. A "conscincia" do homem (suas cren-                 explicar acontecimentos e instituies hist-
as religiosas, morais, polticas, etc.)  resulta-           rico-sociais. A ele de fato recorrem, em maior
do dessas relaes, e no seu pressuposto.                    ou menor grau, historiadores de todos os cam-
Esse ponto de vista foi defendido por Marx                    pos de atividade humana, porquanto algumas
sobretudo na obra Ideologia alem (Deutsche                   vezes o caminho aberto por esse tipo de expli-
Ideologie, 1845-46). Em vista disso, a tese do                cao histrica  o nico possvel. No entanto,
M. histrico  de que as formas assumidas pela                nem sempre  o nico possvel. Hoje a tendn-
sociedade ao longo de sua histria dependem                   cia  interpretar o M. histrico como uma pos-
das relaes econmicas predominantes em                      sibilidade explicativa,  qual se recorre em
certas fases dela. Marx diz: "Km sua vicia pro-               circunstncias apropriadas, e no como um prin-
dutiva em sociedade, os homens participam de                  cpio dogmtico (sobretudo na forma proposta
determinadas relaes necessrias e indepen-                  por Engels). Em outras palavras, afirmar que
dentes de sua vontade: relaes de produo                   acontecimentos ou situaes histrico-sociais
que correspondem a certa fase de desenvolvi-                  sempre devem ser explicados pelo determinis-
mento de suas foras produtivas materiais. Flsse              mo dos fatores econmicos  tese to dogmtica
conjunto de relaes de produo constitui a                  quanto qualquer outra que quisesse excluir
estrutura econmica da sociedade, que  a base                absolutamente e em todos os casos o deter-
real sobre a qual se erige uma superestrutura                 minismo de tais fatores. O historiador, diante
jurdica e poltica e  qual correspondem deter-              de uma situao, deve verificar o peso relativo
minadas formas sociais de conscincia. (...) Por-             cios fatores determinantes, estabelecendo-o caso
tanto, o modo de produo da vida material em                 a caso. considerando as situaes particulares,
geral condiciona o processo da vida social,                   e no decidindo de antemo e em definitivo.
poltica e espiritual" (Zur Kritik derpolitischen             Isento dessa postura dogmtica, o M. histrico
 konomie, 1859, Pref.: trad. it., p. 17). Marx               representa, para a tcnica de explicao historio-
 elaborou essa teoria sobretudo em oposio ao                grfica, uma das possibilidades mais fecundas
 ponto de vista de Hegel, para quem  a cons-                 e um novo grau de liberdade  escolha historio-
 cincia que determina o ser social do homem;                 grfica (v. HISTORIOGRAFIA).
 MATHESIS UNIVERSALIS                               653                                    MECANICISMO

   MATHESIS UNIVERSALIS. Foi assim que                    Introduction to Logic,  13; CHURCII, Introduc-
Leibniz (Op., ed. Erdmann, p. 8) chamou a arte             tion to Mathematical Logic, I,  15).
combinatria ou caracterstica universal (v.).                MXIMA (lat. Mxima propositio-, in. Ma-
Husserl retomou esse termo para designar a                xim, fr. Maxime, ai. Maxime, it. Massima). Este
lgica formal ou pura como "cincia eidtica              termo tem dois significados diferentes: l'J pro-
do objeto em geral", que ele assim caracteriza:           posio evidente; 2- regra de conduta.
"Objeto  para ela tudo e cada coisa; portanto                ly O significado de proposio evidente  o
podem ser constitudas as verdades infinita-              mais antigo e se encontra estabelecido a prop-
mente mltiplas que se distribuem nas in-                sito da teoria dos lugares lgicos. Bocio cha-
meras disciplinas da mathesis. Estas ltimas,             mou de "proposio mxima" a proposio
por outro lado, remetem a um pequeno patri-               indemonstrvel mas evidente (In top. Cicer., I;
mnio de verdades imediatas ou fundamen-                  De diff. topicis, II; em />. L., 64L>, col. 1151,
tais, que nas disciplinas puramente lgicas fun-           1185), e esse significado permaneceu na lgica
cionam como axiomas" (Ideen, I,  10; Logische            medieval. "A proposio mxima" -- diz Pedro
 lintemtchungen, I, ltimo cap.).                         Hispano -- " a proposio mais conhecida ou
   MATRIMNIO. V. CASAMENTO.                              mais primitiva possvel, como, p. ex., 'O todo 
  MATRIZES, MTODO DAS (in. Method of                     maior que sua parte'" (Summ. log., 5.07). Mais
 matrices; fr. Mthode des matrices; it. Mtodo           tarde, acentuou-se algumas vezes o carter de
 delle mairici). Mtodo de construo de tbuas           probabilidade da mxima: por mxima Jungius
 de verdade (y. TBUA); consiste na enumerao            entende "um enunciado universal maximamen-
 sistemtica das possibilidades de verdades para          te provvel" (log. bamburgensis, 1638, V, 3, 5).
 certo nmero de proposies simples, ou seja,            Nesse significado, que  sinnimo de axioma,
 na enumerao das combinaes possveis dos              essa palavra era utilizada por Locke (Ensaio, IV,
 valores de verdade dessas proposies. Para               12, 1) e por Leibniz (Nouv. ess., IV, 126). Agora
uma proposio h duas possibilidades (verda-             no  usada, tendo sido substituda pelo termo
deira ou falsa); para duas, quatro; em geral,             axioma.
para n proposies, 2" possibilidades de ver-                 2Q Foram os moralistas franceses da segun-
dades. Esse mtodo foi introduzido por Peirce             da metade do sc. XVII os primeiros a empre-
numa obra de 1885 (Coll. Pap., 4.359-403), de-            gar esse termo para designar uma regra moral.
senvolvido por Schrder (lgebra der Logik,               La Rochefoucauld intitulou sua coletnea de
1890) e empregado pelos lgicos poloneses,                pensamentos Rflexions ou sentences et ma-
especialmente Lukasiewicz, para construo                ximes mondes, (1665); Kant aceitou este uso,
das lgicas polivalentes (que admitem o va-               entendendo por M. uma regra de comporta-
lor possvel, alm de verdadeiro e falso) (cf.            mento em geral. Distinguia a M., como "princ-
TARSKI, Logic, Semantics, Metamathematics,                pio subjetivo da vontade", da lei, que  o prin-
1956, cap. IV), sendo hoje adotado por gran-              cpio objetivo, universal de conduta. O indivduo
de nmero de lgicos matemticos (cf., p. ex.,            pode assumir como M. a lei, outra regra ou
BETH, Les fondements logiques des mathma-                mesmo afastar-se da lei (CirundlegungzurMet.
tiques, 1955,  34).                                      derSitten, I, 1, nota; Crt. R. Prtica,  1. Def.;
    Esse mtodo era conhecido na Antigidade;             Religion, I, Obs.). Este segundo significado  o
Flon de Mgara utilizou-o em sua anlise das             nico que ficou.
proposies condicionais, afirmando que tais pro-             MECANICISMO (in. Mechanism- fr. M-
posies sero verdadeiras nos seguintes ca-              canisme, ai. Mecanismus-, it. Meccanicismo).
sos: 1) se o antecedente e o conseqente fo-              Toda doutrina que recorra  explicao meca-
rem verdadeiros; 2) se o antecedente for falso e          nicista. Entende-se por explicao mecanicista
o conseqente verdadeiro; 3) se o antecedente             a que utiliza exclusivamente o movimento dos
e o conseqente forem falsos; e que sero fal-            corpos, entendido no sentido restrito de movi-
sas quando o antecedente  verdadeiro e o con-            mento espacial. Nesse sentido,  mecanicista a
seqente  falso (SEXTO EMPRICO, Adv. math., I,          teoria da natureza que no admite outra expli-
309). V. CONDICIONAL; IMPLICAO.                         cao possvel para os fatos naturais, seja qual
   O mtodo de matrizes geralmente serve                  for o domnio a que eles pertenam, alm da-
para reconhecer se uma proposio do clculo              quela que os interpreta como movimentos ou
proposicional  verdadeira; por isso, pode ser            combinaes de movimentos de corpos no
enumerada entre as leis do clculo (TARSKI,               espao. O M. pode ser considerado: le uma
MECANICISMO                                            654                                     MECANICISMO


concepo filosfica do mundo; 2" um mtodo                  estudo dos movimentos dos corpos sob a ao
ou princpio diretivo da pesquisa cientfica.                das foras, era desconhecida dos antigos e foi
     1" Como concepo filosfica do mundo,                  inaugurada por Galilei e Newton. Depois, o
o M. apresentou-se desde a Antigidade                       princpio de ITAlembert unificou a esttica e a
como atomsmo (v.). A concepo do mun-                      dinmica, mostrando que um problema de di-
do como sistema de corpos em movimento,                      nmica pode ser transformado num problema
como uma grande mquina,  tpica do atomis-                 de equilbrio de foras, portanto cie esttica, to-
mo antigo. O materialismo dos scs. XVIII e                  mando em considerao foras fictcias chama-
XIX retomou essa concepo, que tem as se-                   das "foras inerciais"; assim, p. ex., a rbita cie
guintes caracte-rsticas: a) negao de qual-                um planeta em torno do sol pode ser interpre-
quer ordem fina-lista; a polmica entre M. e                 tada como equilbrio entre a fora de gravi-
finalismo comeou a partir de sc. XVII, quan-               tao e uma fora centrfuga igual e oposta.
do o M. se firmou com o surgimento da cin-                  Com essa concepo, a mecnica estava de
cia moderna; atualmente muitas vezes o ter-                  algum modo concluda em termos de teoremas
mo M 6 interpretado apenas como negao                      fundamentais, e a partir de ento sofreu trans-
do finalismo (v.); b) determinismo rigoroso,                 formaes conceituais e lingsticas que visa-
representado pelo conceito de causalidade                    vam a torn-la mais coerente e simples. Desse
necessria infiltrada em todos os fenmenos                  ponto de vista, pode-se dizer que em meados
da natureza; hoje 6 con-siderada como no-                   do sc. XIX teve incio uma segunda fase do
mecanicista qualquer concepo do mundo                      desenvolvimento cia mecnica, graas sobre-
que negue o determinismo rigoroso.                           tudo a Hamilton, com a substituio da idia
    As duas caractersticas acima so tipicamen-             de fora pela idia de energia. A primeira fase
te expressas pela filosofia cie Hobbes. que                  da mecnica foi caracterizada pela tentativa de
constitui um dos melhores exemplos de M. filo-               explicar os fenmenos naturais reduzindo-os a
sfico (v. MATFRIAI.ISMO). Por outro lado, a viso           inmeras aes  distncia entre os tomos da
mais perspicaz que as filosofias antimecani-                 matria. A segunda fase inspira-se na impor-
cistas do sc. XIX assumiram perante o M. foi                tncia adquirida pelo princpio de conservao
expressa por Lotze, em Microcosmo (1856):                    da energia (enunciado por Helmholtz em 1847)
"a tarefa que cabe ao M. na ordenao do uni-                e pela expresso cias leis fundamentais da me-
verso  universal, sem excees no que se refe-              cnica, em termos de energia cintica e poten-
re  extenso, mas absolutamente secundrio                  cial. Uma terceira fase foi iniciada quase no
no que se refere  importncia" (Mikrokosnuis,               fim do sc. XIX por Hertz, que procurou re-
I, Intr.; trad. it., p. 10); ou. em outros termos, o         duzir a dinmica  cinemtica admitindo como
M. no passa de instrumento utilizado pelo                   fundamental a lei do princpio mnimo: cada
Princpio Racional ou Divino do universo para                sistema livre persiste em seu estado de repou-
cumprir seus objetivos. Na filosofia espiritua-              so e de movimento uniforme pelo caminho
lista contempornea, esse ponto de vista mes-                mais curto.
clou-se  crtica ab exthnseco dos princpios                    O M. em fsica  relativamente indepen-
cientficos do M. A partir das ltimas dcadas               dente dessas mudanas da mecnica. Como
do sc. XIX. o M. como concepo filosfica                  j foi dito, a caracterstica das teorias meca-
geral deixou de ter seguidores pelos motivos a               nicistas em fsica  utilizar exclusivamente as
seguir expostos.                                             grandezas prprias da mecnica (tora, massa,
    2- O M. cientfico pode ser considerado: a)              energia, etc). Podemos distinguir: a teoria
na fsica; h) nas outras cincias.                           mecanicista da descontinuidade e a teoria me-
    a) Na fsica, o M. consiste na tese de que               canicista do contnuo.
todos os fenmenos da natureza devem ser ex-                     A teoria mecanicista do descontnuo  a teo-
plicados pelas leis da mecnica, e que, portan-              ria atmica utilizada para explicar, alm da luz
to, a prpria mecnica deve ter um status privi-             (teoria corpuscular), vrios fenmenos; fsicos
legiado entre as outras cincias, porquanto lhes             como a adeso, a coeso, a capilaridade; deu
fornece os princpios explicativos. Ora. a mec-             lugar  teoria cintica dos gases e s primeiras
nica como cincia  criao relativamente re-                teorias dos fenmenos eltricos. As teorias
cente. Arquimed.es conhecia os elementos da                  mecanicistas fundamentadas na continuidade
 esttica, que  a parte da mecnica que trata do            s foram possveis com a descoberta de instru-
equilbrio das foras, mas a dinmica, que  o               mentos de clculo diferencial mais complexos:
MECANIOSMO                                           655                                       MEDIAO

seu exemplar  a hiptese de Fresnel sobre o               o pressuposto de que os fenmenos vitais so
ter elstico como meio de propagao das                  regidos apenas por leis fsico-qumicas, mas
ondas luminosas. Ambas as teorias foram eli-               no admitiu qualquer forma de vitalismo (v.
minadas da fsica pela teoria do campo (v.),               EVOLUO; VITALISMO). Pode-se dizer, portanto,
em virtude da qual os conceitos da mecnica                que o M. foi abandonado, mas  preciso acres-
deixaram de ter validade como princpios                   centar que com ele tambm foram abandona-
explicativos gerais da fsica. Simultaneamente,            das as tendncias conceptuais s quais ele se
a outra caracterstica fundamental do M., o de-            contrapunha e cuja correo representava.
terminismo rigoroso ou necessarista, foi elimi-               MEDIAO (in. Mediation; fr. Mdiation;
nada em virtude da consolidao da teoria                  ai. Vermittelung; it. Mediazione). Funo
quntica (v. CAUSALIDADE). Einstein e Infeld di-           que relaciona dois termos ou dois objetos
zem a respeito: "As leis da fsica quntica no            em geral. Essa funo foi identificada: 1" no
governam o comportamento de objetos par-                   termo mdio no silogismo; 2" nas provas na
ticulares no tempo, mas as variaes da proba-             demonstrao; 3Q na reflexo; 4'- nos demnios
bilidade no tempo" (The Evolution of Physic,               na religio.
IV; trad. it., p. 29S). Com essa transformao,               1B Segundo Aristteles, o silogismo  de-
a fsica saiu de sua fase mecanicista e consti-            terminado pela funo mediadora do termo
tuiu-se como cincia da previso provvel (v.              mdio, que contm um termo e  contido pelo
FSICA).                                                   outro termo (An. pr., I, 4, 25 b 35) (v. SILO-
    b) O M. no foi apenas um princpio di-                GISMO).
retivo da fsica: a partir do sc. XVIII tambm                2~ Segundo a Lgica de Port-Royal, a M. 
foi o princpio diretivo de todas as outras cin-           indispensvel em qualquer raciocnio. "Quan-
cias naturais, inclusive da biologia, da psicolo-          do apenas a considerao de duas idias no 
gia e da sociologia. Obviamente, fora da fsica,           suficiente para se julgar se o que se deve fazer
o M. teve um carter bem menos rigoroso: nem                afirmar ou negar uma idia com a outra, 
para a explicao dos fenmenos biolgicos,                preciso recorrer a uma terceira idia, simples
psicolgicos ou sociolgicos mais simples che-             ou complexa, e esta terceira idia chama-se
gou-se  exatido quantitativa dos modelos                 intermediria" (AKNAULD, Log., III, 1). Locke di-
mecnicos empregados para explicar, p. ex., o              zia: "As idias intermedirias, que servem para
fenmeno da capilaridade ou o da interfern-               demonstrar a concordncia entre outras duas,
cia da luz. Fora da fsica, portanto, o M. foi uma         so chamadas de provas; quando, com esse
aspirao genrica, uma tese filosfica ou, na             meio, percebe-se com clareza ou evidncia a
melhor das hipteses, uma exigncia genrica               concordncia ou discordncia, elas so chama-
de mtodo, mais que instrumento efetivo de                 das de demonstrao" (Ensaio, IV, 2, 3). No
explicao. Como instrumento de polmica, de-              mesmo sentido ITAlembert afirmava: "Toda a
fendeu a necessidade causai contra o finalismo;            lgica se reduz a uma regra muito simples:
em termos positivos, afirmou em todos os cam-              para confrontar dois ou mais objetos distantes
pos a exigncia da anlise quantitativa. Afora             uns dos outros utilizamos objetos intermedi-
isso, as teses do M. nos vrios campos da cin-            rios. O mesmo acontece quando queremos
cia so reducionistas: em biologia, consiste em            confrontar duas ou mais idias; a arte do racio-
reduzir as leis biolgicas a leis fsico-qumicas;         cnio nada mais  que o desenvolvimento des-
em psicologia, consiste em reduzir as leis                 se princpio e as conseqncias dele resultan-
psicolgicas a leis biolgicas; em sociologia,             tes" (GSuvres, ed. Condorcet, 1853, p. 224).
consiste em reduzir as leis sociolgicas a leis                3a Segundo Hegel, a M.  a reflexo em ge-
biolgicas e psicolgicas. A utilidade dessas              ral (Werke, ed. Glockner, II, p. 25; IV, p. 553,
tendncias reducionistas foi desvencilhar o                etc): "Um contedo pode ser conhecido como
campo das respectivas cincias de estruturas               verdade s quando no  mediado por outro,
conceituais antiquadas, cie pressupostos metaf-           quando no  finito, quando, portanto, medeia-
sicos ou teolgicos que estorvavam a pesquisa              se consigo mesmo, sendo, assim, o todo em um,
ou at mesmo a bloqueavam. Contudo, a cin-                M. e relao imediata consigo mesmo." Em ou-
cia do sc. XX, sobretudo a partir do terceiro             tras palavras, a reflexo exclui no s a ime-
decnio, abandonou a postura reducionista e,               diao, quea intuio abstrata, o saber imedia-
portanto, o M, sem voltar s posies s quais             to, mas tambm a "relao abstrata", a M. de
o M. se opunha. A biologia, p. ex., abandonou              um conceito com um conceito diferente (as
MEDIADOR PLSTICO                                     656                                                MEIO1

provas de Locke), q u e Hegel considera t-                 aquilo que se mede e aquilo com que se mede
pica (e com razo) do sculo do Iluminismo                  (Ihid, X, 1, 1053 a 22).
(Ene,  74).                                                   2" Critrio ou o cnon daquilo que  verda-
   4" Na Antigidade, aos demnios cabia uma                deiro ou bem. Nesse sentido, Clebulo, um dos
funo mediadora entre os deuses e os ho-                   Sete Sbios, dizia: "O melhor  a M." (DIG. L,
mens. O Demiurgo de Plato encarrega as di-                 1, 93)- Plato via na justa M. a ordem e a har-
vindades inferiores ou demnios de criar as ge-             monia das coisas (/'//., 24 c-cl) e para Aristteles
raes mortais e completar a obra da criao                o meio (v.) era o cnon da virtude tica. No
(Tini., 41 a-c). Plotino diz que os demnios so            mesmo sentido essa palavra foi usada por
eternos, em relao a ns, servindo de "inter-              Protgoras, em seu famoso princpio de que o
medirios entre os deuses e nossa espcie"                  homem  a M. das coisas, e por Aristteles,
(Enn., III, 5, 6). Mitra era concebido como me-             quando via no homem virtuoso "o cnon e a
diador, mais precisamente como mediador en-                 M. das coisas" (Et. nic, III, 4, 1113 a 33). Nesse
tre a divindade inatingvel das esferas etreas e           sentido, a M.  um dos conceitos fundamentais
o gnero humano ( C I M O N T . The Mysteries of            da cultura clssica grega.
Mithrci, pp. 127 ss.). Enfim, segundo a doutrina               MEDITAO. V. MISTICISMO.
crist, "somente a Cristo compete ser mediador                  MEDO. V. EMOO.
de modo simples e perfeito", enquanto anjos e                   MEGARISMO (in. Megarism; fr. Mgaris-
sarcerclotes so instrumentos de M. (S. TOMS, S.           me-, ai. Megarismus; it. Megarismo). Escola
Tb., III, q. 26 a 1).                                       socrtica de Mgara, fundada no sc. V a.C. por
    MEDIADOR PLSTICO (fr. Mdiateur                        Euclides (no confundir com o matemtico Eucli-
plasti(jite). Assim foi chamada por alguns fil-            des, que viveu e ensinou em Alexandria qua-
sofos cio sc. XIX a "natureza plstica" de que             se um sculo mais tarde). Outros represen-
falava Cudworth como ctipo(v.), que  inter-               tantes dessa escola so Eubulides de Mileto,
medirio entre Deus e o m u n d o (The 'Tme                 Diodoro Cronos e Estlpon, que ensinou em
Intelleclual System ofthe Uniuerse, I, 1, 3). Essa          Atenas mais ou menos em 320 a.C. Sua carac-
expresso  usada por Laromiguire (Leons                  terstica  unir o ensinamento de Scrates 
dephil, 1815-18, II, 9) e por Galluppi (Lezioni             doutrina eleata. Para Euclides, o bem  um s,
di lgica e metafsica, 1832-1836, II, p. 273).             a Unidade, chamada por vrios nomes: Sabe-
    MEDIANIDADE (ai. Durchschnittlichkeit).                 doria. Deus. Intelecto, etc. Portanto, assim
Segundo Heidegger, aquilo que o homem  em                  como os eleatas, os megricos contestavam a
mdia, em sua existncia quotidiana e indiferen-            realidade do movimento, da mudana e da
te: determinao fundamental da existncia, de              multiplicidade. Para isso, adotavam vrios ar-
que a anlise existencial deve partir (Sein und             gumentos de natureza sofistica, como o do sorites
Zeit,  9).                                                 (v.) ou do calvo, bem como acatavam a nega-
     MEDIDA(gr. Litpov; lat. Mensura; in. Measure,         o da possibilidade formulada por Diodoro
fr. Mesure, ai. Mass, it. Misura). J Plato havia          Cronos (para esta ltima, v. POSSIBILIDADE). Al-
dividido a arte da M. em duas partes, situando na           guns desses argumentos foram retomados pe-
primeira as artes "que medem o nmero, o com-               los esticos, nos raciocnios "ambguos" ou
primento, a altura, a largura e a velocidade em             "conversveis", depois chamados de dilemas
relao a seus contrrios" e na segunda "as artes           (v.) e hoje chamados de paradoxos ou antino-
que medem a relao ao justo meio, ao conveni-              mias (v.).
ente, ao oportuno, ao obrigatrio, enfim s deter-              MEIO1 (gr. |iOTT|; lat. Medietas, in. Mean;
minaes que esto no meio entre dois extre-                fr. Milieit; ai. Mittel; it. Mediet). Justo meio,
mos" (Poi, 284 e).                                          meio-termo, entre os extremos, que, segundo
      Conseqentemente pode-se entender por                 Aristteles, pode ser definido em relao s
medida:                                                     coisas ou em relao a ns: "Se cada cincia
      \" Relao entre uma grandeza e a unidade.            cumpre bem o seu papel quando visa ao justo
A1'este propsito Aristteles observava que                 meio e orienta suas obras para ele (donde se
a unidade pode ser entendida de dois modos:                 costuma dizer que nas boas obras nada se tem
como unidade convencional ou aparente e co-                 a tirar nem a acrescentar, porquanto o excesso
mounidade absolutamente indivisvel (Mel., X,               e a falta arruinam o bom, enquanto o justo
 1-,' 1053 a 22), e, nesse sentido, reconhecia as           meio o salva), se os bons artistas trabalham
condiesi da M. na homogeneidade entre                     com vistas a esse meio-termo, a virtude, que,
MEIO"                                                            (>=>'                                          MEMRIA


assim como a natureza,  mais acurada e me-                               persistncia de conhecimentos passados que.
lhor que qualquer arte, dever tender precisa-                            por serem passados, no esto mais  vista:
mente para o justo meio" (Et. uic, II, 6. 1106 b                           a retentiva; 2" possibilidade de evocar, quan-
8). Contudo, o justo meio  definio apenas                              do necessrio, o conhecimento passado e de
da virtude tica (v.) ou moral, porque s ela diz                         torn-lo atual ou presente:  propriamente a
respeito a paixes ou aes suscetveis cie ex-                           recordao. Esses dois momentos j foram clis-
cesso ou deficincia (cf. tambm S. TOMS. S.                             tinguiclos por Plato, que os chamou respecti-
lh., I. II, q. 59, a. 1) (v. VIRTIIDH).                                   vamente de "conservao de sensaes" e "remi-
   MEIO2 (in. Means; fr. Moyen; ai. Mittek it.                            niscncia" (Fii, 34 a-c). e por Aristteles, que
Mczzo). 1. Tudo o que possibilita alcanar                                utiliza esses mesmos termos. Aristteles tam-
um fim. cumprir um objetivo ou realizar um                                bm prope claramente o problema decorren-
projeto. Sobre a relao entre M. e fim. v.                               te da conservao da representao como mar-
VAI.OR.                                                                   ca (impresso) de um conhecimento passado:
   2. Ambiente, especialmente o biolgico.                                "Se em ns permanecer algo semelhante a uma
Nesse sentido, essa palavra corresponde ao fran-                          marca ou a uma pintura, como pode a percep-
cs milieit, que comeou a ser usada com esse                             o dessa marca ser M. de alguma outra coisa
significado em meados cio sculo passado (v. AM-                          e no apenas de si? De fato. quem lembra v
BIKNTK).                                                                  apenas a marca e s dela tem sensao; como
   MELANCOLIA (gr. ui/Ux xoW|; in. Melem-                                pode ento lembrar o que no est presente?"
cholia;    fr.    Mlaucolie,   ai.   Melanchole:   it.   Me-            (DeMeni.. 1, 450 b 17). A resposta de Aristteles
lanconia). Propriamente, humor negro (v. TKM-                             a essa questo  que a marca na alma  como
PF.RAMHNTO). Fm linguagem comum, tristeza                                 um quadro que pode ser considerado por si ou
sem motivo.                                                               pelo objeto que representa. F. diz: "Assim como
   MELIORISMO (in. Meliorism. fr. Mlio-                                  um animal pintado num quadro  animal e
rsme, ai. Meliorism us\ it. Megliorismo). Palavra                        imagem, sendo ao mesmo tempo ambas as coi-
recente, usada sobretudo pelos escritores                                 sas, ainda que o ser dessas coisas no seja o
anglo-saxes para indicar uma viso de mundo                              mesmo, podendo ele ser considerado como
que no  pessimista nem otimista, mas guiada                             animal ou como imagem, tambm a imagem
pela esperana do melhor e pela vontade de                                mnemnica que est em ns deve ser conside-
realiz-lo.                                                               rada como objeto por si mesmo e, ao mesmo
                                                                          tempo, como representao de alguma outra
   MEMRIA (gr. uviur]; lat. Memria; in.                                coisa" (fbid, 450 b 21). Segundo Aristteles, a
Memoiy      fr.    Mmoire-,    ai.   Gedachtnis-,   it.   Me-
                                                                          explicao do processo da M., tanto como re-
mria). Possibilidade de dispor cios conheci-                             tentiva quanto como recordao,  inteiramen-
mentos passados. Por conhecimentos passados                               te fsica: a retentiva e a produo de impresso
 preciso entender os conhecimentos que, de                               decorrem de um mofimento, assim como de
qualquer modo, j estiveram disponveis, e no                            um movimento decorre a lembrana/recorda-
j simplesmente conhecimentos cio passado. O                              o. Contudo, a recordao, ao contrrio da
conhecimento do passado tambm pode ter                                   retentiva,  uma espcie de deduo (silogismo),
formao nova: p. ex., dispomos agora de                                  pois "quem recorda deduz que j escutou ou
informaes acerca do passado de nosso pla-                               percebeu aquilo de que se lembra; isso  uma
neta ou de nosso universo que no so recor-                              espcie de busca" (Ibici., 453 a 11). Portanto, a
daes. Conhecimento passado tambm no                                  recordao  prpria apenas dos homens. Com
simplesmente marca, vestgio, pois estas so                              isso, Aristteles evidenciava outra caracterstica
coisas presentes, no passadas. A tristeza ou a                           fundamental da M. como recordao: seu car-
imperfeio fsica causadas por um acidente                               ter ativo de deliberao ou de escolha. A an-
no so a M. desse acidente, apesar de serem                              lise platnico-aristotlica cia M. trouxe  baila
vestgios dele, ao passo que a recordao pode                            os seguintes aspectos: a) distino entre retentiva
estar disponvel e pronta, sem precisar da ajuda                          e recordao; b) o reconhecimento do carter
de nenhum vestgio, como no caso da frmula                               ativo ou voluntrio da recordao, diante do
para o matemtico e, em geral, das lembranas                             carter natural ou passivo da retentiva; c) base
decorrentes da formao ou de hbitos profis-                             fsica da recordao como conservao de
sionais.                                                                  movimento ou movimento conservado. Pode-
    A M. parece ser constituda por duas condi-                           se dizer que esses aspectos no mudaram ao
es ou momentos distintos: 1" conservao ou
MEMRIA                                               658                                         MEMRIA


longo da histria desse conceito. Todavia, as               tamente essa autoconservao. Tal  a concep-
doutrinas posteriores podem ser subdividi-                  o de M. por parte da filosofia espiritualista ou
das em dois grupos, segundo o ponto de                      consciencialista. A melhor exposio dessa
partida para a interpretao da M: M. como                  concepo encontra-se em Bergson (Matria e
retentiva ou conservao ou M. como recor-                  M., 1896), que a contraps  concepo de M.
dao.                                                      baseada na recordao. Bergson disse: "A M.
     A) A psicologia antiga ressaltou aspecto de            no consiste na regresso do presente para
M. como conservao, persistncia, de conhe-                o passado, mas, ao contrrio, no progresso do
cimentos adquiridos. O modo mstico como                    passado ao presente.  no passado que ns
Plotino trata o assunto, alm de negar a base f-           nos situamos de chofre. Partimos de um estado
sica da M. e considerar o corpo mais como                    virtual, que pouco a pouco, atravs de uma s-
obstculo do que como ajuda (Enn., IV, 3,                   rie de planos de conscincia diferentes, vamos
26), afirma a proporo entre M. e fora ou                 conduzindo at o termo em que ele se materia-
persistncia de conservao: "Se a imagem per-              liza em apercepo atual, ou seja, at o ponto
siste na ausncia do objeto, j h M., mesmo                em que se transforma em estado presente e
que persista por pouco; se persiste por pouco,              agente, enfim, at o plano extremo de nossa
a M. 6 curta; se dura mais, a M. aumenta por-               conscincia sobre o qual se desenha nosso cor-
que a fora da imaginao  maior; e, se dificil-           po. A recordao pura consiste nesse estado
mente falha, a M.  indestrutvel" (Ibicl, IV, 3,           virtual" (Malire et mmoire, 7- ed., p. 245). A
29). De maneira anloga, a lista feita por S. Agos-         M. pura (ou recordao pura)  a corrente de
tinho dos "milagres" da M. baseia-se no con-                conscincia em que tudo  conservado no esta-
ceito de M. como receptculo dos conhecimen-                do de virtualidade. A limitao da lembrana
tos ou, segundo sua expresso, "ventre da                   efetiva no pertence  M., mas  recordao
alma" (Conf., X, 14). Ksse  tambm o conceito              atual, que Bergson identifica com a percepo
dos filsofos medievais. S. Toms d-lhe o                  e que  uma escolha realizada na M. pura, para
nome de "tesouro e local de conservao das                 as exigncias da ao. Portanto, as leses ce-
espcies" (.V. Th., I, q. 29, a. 7), repetindo um           rebrais no afetam a M. propriamente dita, mas
lugar-comum da filosofia medieval. Isso eqiva-             apenas a reminiscncia das lembranas na per-
lia a insistir na M. como retentiva.                        cepo, ou seja, o mecanismo pelo qual a M.
    Mas as concepes modernas e contempo-                  se insere no corpo e transforma-se em ao.
rneas tambm vem a M. como conservao;                   Essa teoria, que Bergson apoiava na anlise
retomando a concepo agostiniana do tempo                  dos distrbios das funes mnemnicas, carac-
como distensio animi ou durao de conscin-                teriza-se por dois pontos fundamentais: Io dis-
cia, vem na M. a conservao integral do es-               tino entre M. pura e recordao, entenden-
prito por parte de si prprio, ou seja, a persis-          do-se por M. pura a conservao integral,
tncia nele de toda.s as suas aes e afeies,             independente de qualquer circunstncia, do
de todas as suas manifestaes ou modos de                  esprito por parte do esprito; ora,  evidente
ser. Essa concepo j foi exposta por Leibniz,             que essa M. nada tem a ver com a memria
que concebia a M. como conservao integral                 observvel; 2" negao de qualquer base fisio-
sob forma de virtualidade ou de "pequenas per-              lgica para a M. pura e limitao da base fi-
cepes" das idias que no tm mais forma de               siolgica ao fenmeno da percepo. Essa ne-
pensamentos ou de "apercepes"; donde                      gao tampouco  confirmada por fatos; seu
observar, em oposio a Locke: "Se as idias                precedente histrico  a teoria de Plotino. A
no fossem mais que formas ou modos de pen-                 partir de Descartes (Princ. phil, IV, 196), a
samentos, cessariam com eles; contudo o Sr.                 base fisiolgica da M. no  negada. A mesma
mesmo reconheceu que elas so os objetos in-                conservao integral do esprito por parte do
ternos dos pensamentos e que, como tais, po-                esprito  a "corrente da conscincia", de que
dem subsistir. Surpreende-me que possa, en-                 fala Husserl, pois ele tambm recorre ao con-
to, subestimar essas potncias ou faculdades               ceito empregado por Leibniz e Bergson, de
puras, deixando-as, ao que parece, sob os cui-              virtualidade ou potencialidade como marca da
dados dos filsofos da escola" (Nouv. ess., II,             M. Husserl diz: "As coisas podem ser viven-
 10, 2). Em virtualidade ou faculdade pode e                ciadas no s na apercepo, mas tambm na
deve conservar-se integralmente todo ato ou                 recordao e nas representaes afins  recor-
manifestao do esprito, j que o esprito  jus-          dao. (...)  essncia dessas vivncias per-
MEMRIA                                                 659                                    MENTALIDADE

tence a importante modificao que, do mo-                     interpretada sobretudo como recordao; 
do de atualidade, transporta a conscincia                    evidente o parentesco dessa doutrina com as
para o modo de inatualidade, e vice-versa.                    espiritualistas ou consciencialistas: a identifica-
Num caso, a vivncia  conscincia explcita de                         V.
                                                              o da J 1 com o pensamento tem o mesmo
seu objeto; em outro,  conscincia implcita.                sentido da unificao da M. com a conscincia
apenas potencial" (Ideen, I,  3*5). O pressupos-             ou com sua durao.
to  sempre o da total conservao do conte-                     b) O conceito de M. como mecanismo
do da conscincia: o fenmeno da recordao                   associativo foi expresso pela primeira vez por
6 ligado  passagem do contedo do estado                     Spinoza do seguinte modo: "A M. nada mais 
atual para o potencial, ou vice-versa.                        que certa concatenao de idias que implicam
    B) Pertencem a um segundo grupo as teorias                a natureza das coisas que esto fora do corpo
da M. cujo ponto de partida  o fenmeno da                   humano; essa concatenao se produz na mente
recordao. Hobbes, p. ex.. definiu a M. como                 segundo a ordem e a concatenao das afei-
"a sensao de j ter sentido" (Decoip., 25, 1),              es do corpo humanei". Spinoza faz a distin-
o que significa defini-la em relao ao ato de se             o entre a concatenao cia M. e a das idias,
reconhecer, naquilo que se percebe, o que j                  "que ocorre segundo a ordem do intelecto,
se percebeu outra vez. A partir desse ponto de                igual em todos os homens" (/:'/., II, 18, schol.).
vista, Wolff definiu a M. como "faculdade de                  No h dvida, portanto, cie que Spinoza fazia
reconhecer as idias reproduzidas e as coisas                 aluso a um mecanismo associativo semelhante
por elas representadas" (Psychol. rationalis,  278):         ao que mais tarde foi teorizado por Hume: "E
conceito que tambm .se encontra em Baum-                     evidente que existe um princpio cie conexo
garten (Met.,  579). Desse ponto de vista, ten-              entre os diversos pensamentos ou idias cio
de-se algumas vezes a reconhecer o carter                    esprito e que, ao surgirem na M. ou na imagi-
ativo da M.. ou seja, a funo da vontade ou da               nao, apresentam-se sucessivamente com certo
escolha deliberada ao evocar as recordaes.                  grau de mtodo e regularidade" (Inq. Cone.
Loke dizia: "Nessa evocao das idias depo-                  1'nderst., III). Como se sabe, Hume enunciava
sitadas na M., o esprito no  puramente passi-              trs leis de associao: semelhana, contigida-
vo porque a representao destes quadros ador-                de e causalidade; mas s as duas primeiras
mecidos s vezes depende da vontade" (Ensaio,                 foram empregadas pela psicologia associa-
II, 10, 7). Kant ressaltava igualmente esse carter           cionista para explicar os fenmenos psquicos (v.
ativo: "A M. difere da simples imaginao re-                 ASSOCIACIONISMO).
produtiva porque, podendo reproduzir volun-                       Grande parte da psicologia moderna ba-
 tariamente  representao precedente, a alma                seou-se na hiptese associacionista ao estudar
no est  merc dela" (Antr., 1,  34). A esse               os fenmenos da M., at que a psicanlise, por
mesmo grupo de doutrinas pertencem: a) as                     um lado, e a f>estalt, por otitro, mostrassem a
que interpretam a M. como inteligncia; b)                    importncia dos interesses e cias atitudes vo-
as que interpretam a M. como mecanismo asso-                  litivas na recordao, bem como a importncia
ciativo.                                                      cie toda a personalidade no reconhecimento do
    a) Hegel interpretou a M. como inteligncia               j visto. O estudo experimental da M. confir-
ou pensamento (sempre em seu aspecto de re-                   mou as palavras de Nietzsche: "Fiz isto -- diz-
cordao), vendo nela "o modo extrnseco, o                   me a memria. No posso ter feito -- sustenta
 momento unilateral da existncia do pensa-                   meu orgulho, que  inexorvel. Finalmente,
mento". K nota que a lngua alem confere  M.                quem cede  a M." (Jenseit von Cut und Rose,
 "a elevada posio de parentesco imediato com                1886.  68). Assim, as anlises psicolgicas mo-
o pensamento" (Ene,  464). Segundo Hegel. a                  dernas continuam girando em torno do fato da
 M.  o pensamento exteriorizado, pensamento                  recordao, mais do que em torno da retentiva,
que acredita encontrar algo de externo, a coi-                que continua sendo preferida pelas teorias filo-
sa que  lembrada ou recordada, mas que na                    sficas da memria.
 realidade encontra-se a si mesmo, porque a                       MENO. V. liso.
 coisa lembrada ou recordada tambm  pensa-                      MENDELISMO. V. GKNTICA.
 mento. Por isso, Hegel diz que, "como M., o                      MENTALIDADE (in. Mentality, ir. Menta-
 esprito torna-se, em si mesmo, algo de exter-               lit, ai. Mentalitl; it. Mentalit). 1. Termo
 no, de tal modo que o que  seu aparece como                 empregado pelos socilogos para indicar ati-
 algo que  encontrado" (Ibd.,  463). Acjui a M.            tudes, disposies e comportamentos insti-
MENTALISMO                                           660                                       METAFSICA


tucionalizados em um grupo e capazes de                    chamavam de ambguos ou conversveis e os
caracteriz-lo. P. ex.: "M. dos primitivos", "M.           modernos chamam de antinomias ou parado-
burguesa", etc.                                            xos: consiste em afirmar que se mente; assim,
    2. Spaventa chamou "M. pura" o pensamen-               quando se diz a verdade, mente-se, e quando
to reflexo ou consciente, que, para ele, deve              se mente, diz-se a verdade. A concluso 
acompanhar tambm as primeiras categorias da               impossvel. Atribudo a Kublides de Mgara
lgica hegeliana (ser e essncia) (Scritti ftlo-           (Di. L., II, 108), esse argumento  encontra-
sofici 1901, passim).                                      do em muitos escritores antigos (ARISTTELES,
    MENTALISMO (in. Mentalism). Vocbulo                   El. sof. 25. 180 b 2; CCERO, Acad, II, 95; De
usado na maioria das vezes por escritores filo-            divin., II, 4; AULO Guo, Noct. Att., 18, 2). Re-
sficos anglo-saxes para indicar coisas bem               tomado no ltimo perodo da Escolstica, esse
diferentes: ou como sinnimo de "subjetivis-               argumento ainda  discutido pela lgica como
mo" e "idealismo subjetivo" (do tipo de Ber-               uma das antinomias lgicas (v. ANTINOMIAS).
keley) ou como sinnimo de pscologsmo(\.),                   MRITO (lat. Meritum-, in. Merit; fr. Mrite,
ou seja, a tendncia combatida pela Lgica                 ai. Verdienst; it. Mrito). Ttulo para obter apro-
hodierna, mas ainda tenazmente persistente,                vao, recompensa ou prmio. Diz-se no s
de considerar as formas, as figuras e as estrutu-          de pessoas, mas tambm de obras, como p. ex.
ras da Lgica como formaes, representaes               "o M. deste livro ...". O M.  diferente da vir-
e operaes mentais (psicolgicas), e de consi-            tude e do valor moral, constituindo a avaliao
derar as regras da Lgica como "leis do pensa-             da virtude ou do valor moral, com fins de re-
mento". Nos textos dos seguidores da metodo-               compensa, ainda que apenas uma aprovao.
logia operativista e dos pragmticos (p. ex.,                 MESOLOGIA. V. ECOLOGIA.
Dewey), "M."  usado em acepo ligeiramen-                   METBASE (gr. Ltex(3ao et Xko yvo).
te diferente, para designar a tendncia empi-              Passagem, legtima ou no, para outro assunto
rsta a interpretar a experincia e os concei-             ou para outro campo. Aristteles diz: "No
tos empricos como meros "estados mentais",                podemos ultrapassar o. corpo e ir para outro
desprezando os aspectos objetivos (fisiolgi-              gnero como passainos do comprimento para
cos, operativo-manuais, lingsticos, histri-             a superfcie e desta para o corpo" (De cael, 1,
cos, etc).                                 G. P.           1, 268 b 1). Quintiliano considera essa passa-
    MENTE (lat. Meus). 1. O mesmo que inte-                gem como figura retrica (nst. or., IX, 3, 25).
lecto (v.).                                                   METABIOLOGIAn. Metabiology, fr. Mta-
    2. O mesmo que esprito: conjunto das fun-             bologie; ai. Metabiologe; it. Metabiologa).
es superiores da alma, intelecto e vontade (v.           Especulaes metafsicas a partir de fenme-
ESPRITO).                                                 nos biolgicos. Ou ento: a anlise da estru-
    3. Q mesmo que doutrina. Nesse sentido,                tura lingistico-conceitual da biologia.
diz-se (ou melhor, dizia-se, porque esse signifi-             METACRTICA(al. Metakritik). Este termo
cado  antiquado) "M. de Aristteles" para de-             aparece como ttulo de duas obras alems
signar a doutrina de Aristteles sobre um                  dedicadas  crtica do kantismo: na obra de
assunto qualquer.                                          HAMANN, Metacrtica do purismo da razo
    MENTIRA (gr. \|/eo; lat. Mendacum, in.             (1788), e na de HKRDER, M. da crtica da ra-
Lie, fr. Mensonge; ai. Liige; it. Menzogna).               zo pura (1799). Esse termo significa "crtica
Aristteles distingue duas espcies fundamen-              da crtica".
tais de M, a jaetncia, que consiste em exage-                 METAFSICA (gr. x Ltex x qyuoiK; lat.
rar a verdade, e a ironia (v.), que consiste em            Metaphysica; in. Methaphysik, fr. Mtaphysique,
diminu-la. Estas so M. que no dizem respei-             ai. Metaphysik it. Metafsica). Cincia primeira,
to s relaes de negcios nem  justia; nesses           por ter como objeto o objeto de todas as outras
casos no se trata de simples M., mas de vcios            cincias, e como princpio um princpio que
mais graves (fraude, traio, etc.) {Et. nic, IV,          condiciona a validade de todos os outros. Por
7, 1127 a 13). S. Toms deu minuciosa classifi-            essa pretenso de prioridade (que a define), a
cao da M. do ponto de vista da moral teolgi-            M. pressupe uma situao cultural determi-
ca (5. lb., II, 2, q. 110).                                nada, em que o saber j se organizou e divi-
    MENTIROSO (gr. \|/e\j|ievo; lat. Men-               diu em diversas cincias, relativamente inde-
 tiens; in. Liar, fr. Menteur, ai. Lgner it. Men-         pendentes e capazes de exigir a determinao
 titore). Um dos argumentos que os antigos                 de suas inter-relaes e sua integrao com
METAFSICA                                            661                                          METAFSICA

base num fundamento comum. Essa era preci-                  situados na zona de interseco e de encontro
samente a situao que se verificava em Atenas              das disciplinas cientficas particulares e de inte-
em meados do sc. IV a.C. graas  obra de                  resse comum para elas. Portanto, a M, como
Plato e de seus discpulos, que contriburam               foi entendida e projetada por Aristteles,  a
poderosamente para o desenvolvimento da                     cincia primeira no sentido de fornecer a todas
matemtica, da fsica, da tica e da poltica. O            as outras o fundamento comum, ou seja, o
prprio nome dessa cincia, que costuma ser                 objeto a que todas elas se referem e os princ-
atribudo ao lugar que coube ao textos relati-              pios dos quais todas dependem. A M. implica,
vos de Aristteles na coletnea de Andronico                assim, uma enciclopdia das cincias, um in-
de Rodes (sc. I a.C), mas que Jaeger atribui a             ventrio completo e exaustivo de todas as
um peripattico anterior a Andronico (.Aris-                cincias, em suas relaes de coordenao e
tteles; tracl. it.. p. 517), presta-se a expressar         subordinao, nas tarefas e nos limites atribu-
bem a sua natureza, porquanto ela vai alm da               dos a cada uma, de modo definitivo (v. ENCI-
fsica, que  a primeira das cincias particula-            CLOPDIA). A M. apresentou-se ao longo da his-
res, para chegar ao fundamento comum em                     tria sob trs formas fundamentais diferentes:
que todas se baseiam e determinar o lugar que                Ia como teologia; 2- como ontologia; 3a como
cabe a cada uma na hierarquia do saber; isso                gnosiologia. A caracterizao hoje corrente de
explica, seno a origem, pelo menos o sucesso               M. como "cincia daquilo que est alm da ex-
que esse nome teve.                                         perincia" pode referir-se apenas  primeira
    Plato apresentou a exigncia da formao               dessas formas histricas, ou seja.  M. teolgi-
dessa cincia suprema depois de esclarecer a                ca; trata-se tambm de uma caracterizao im-
natureza das cincias particulares que consti-              perfeita, porquanto leva em conta uma caracte-
tuem o currculo do filsofo: aritmtica, geome-            rstica subordinada, por isso inconstante, dessa
tria, astronomia e msica: "Penso que, se o                 metafsica.
estudo de todas essas cincias que arrolamos                     Ia O conceito de M. como teologia consiste
for feito de tal modo que nos leve a entender               em reconhecer como objeto da M. o ser mais
seus pontos comuns e seu parentesco, perce-                 elevado e perfeito, cio qual provm todos os
bendo-se as razes pelas quais esto intima-                outros seres e coisas do mundo. O privilgio
mente interligadas, o seu desenvolvimento nos               de prioridade atribudo  M. decorre, neste
levar ao objetivo que temos em mira e nosso                caso, do carter privilegiado do ser que  seu
trabalho no ser debalde: caso contrrio, ser'1           objeto:  o ser superior a todos e do qual todos
(Rep., 531 c-d). Nessa cincia das cincias,                os outros provm.
Plato reconhecia a dialtica (v.), cuja tarefa                 Na obra de Aristteles esse conceito mescla-
fundamental seria criticar e joeirar as hipteses           se com o outro, de M. como ontologia, que  a
que cada cincia adota como fundamento, mas                 cincia cio ser enquanto ser. Isso  expresso da
que "no ousam tocar porque no esto em                    seguinte forma por Aristteles: "Se h algo de
condies de explic-las" (Rep., 533 c).                    eterno, imvel e separado, o conhecimento
    A semelhante filosofia Aristteles dava o               disso eleve pertencer a uma cincia teortica,
 nome de "filosofia primeira" ou "cincia que               porm certamente no  fsica (que se ocupa
 estamos procurando" e apresentava seu proje-               das coisas em movimento), nem  matemtica,
 to nos treze problemas enumerados no tercei-               mas sim a uma cincia que est antes de am-
 ro (B) livro da Metafsica.                                bas. (...) Somente a cincia primeira tem por
    Esses problemas versam todos, direta ou                 objeto as coisas separadas e imveis. Embora
 indiretamente, sobre as relaes entre as cin-            todas as causas primeiras sejam eternas, essas
 cias e seus objetos ou princpios relativos: so-           coisas so eternas de modo especial porque
 bre a possibilidade de uma cincia que estude              so as causas daquilo a que. do divino, temos
 todas AS causas (996 a 18) ou todos os princ-             acesso. Conseqentemente, h trs cincias
 pios primeiros (996 a 26) ou todas as substn-             teorticas: matemtica, fsica e teologia; j que
 cias (997 a 15) ou tambm as substncias eseus             o divino est em todos os lugares, est espe-
 atributos (997 a 25) e as substncias no sens-           cialmente na natureza mais elevada, e a cincia
 veis (997 a 34) e sobre outros problemas                   mais elevada deve ter por objeto o ser mais
 (como os das partes que constituem todas as                elevado. (...) Se no existissem outras subs-
 coisas, da possvel diversidade de natureza en-            tncias alm das fsicas, a fsica seria a cincia pri-
 tre os princpios, da unidade do ser, etc.), todos         meira; mas se h Lima substncia imvel, esta
METAFSICA                                          662                                       METAFSICA


ser a substncia primeira e sua filosofia, a             objeto  a ordem necessria do mundo, vale di-
cincia primeira e, enquanto primeira, tambm             zer, Deus (Et., II, 46-47).  tambm M. teolgica
a mais universal porque ser a teoria do ser en-          a filosofia de Hegel, que afirma ter Deus como
quanto ser e daquilo que o ser enquanto ser              objeto: "A filosofia tem objetos em comum com
ou implica" (Mel, VI, 1, 1026 a 10). Esta ltima          a religio porque o objeto de ambas  a Verda-
frase permite ver como Aristteles entrelaa o            de, no sentido altssimo da palavra, porquanto
conceito de M. como ontologia ao conceito de              Deus e somente Deus  a Verdade" (Ene,  1).
M. como teologia. Este ltimo, porm,  com-              Portanto, diante da filosofia todas as outras
pletamente diferente do outro. Com base nis-              cincias ficam em condio de inferioridade:
so, o objeto da M.  propriamente o divino, e             seu objeto  o finito. o irreal, ao passo que o
a prioridade da M. consiste na prioridade qtie            objeto da filosofia  Deus, o infinito. Hegel diz:
o ser divino tem sobre todas as outras formas             "As cincias particulares, a exemplo da filoso-
ou modos de ser. Desse ponto de vista, as cin-           fia, tm como elementos conhecimento e pen-
cias se hierarquizam segundo a excelncia ou              samento, mas ocupam-se dos objetos finitos
perfeio de seus respectivos objetos  medida            e do mundo dos fenmenos. O conjunto de co-
confrontando-os com o ser divino. Esse fora o             nhecimentos relativos a essa matria est. de
critrio adotado por Plato na ordenao das              per si, excludo da filosofia, com a qual no
cincias, privilegiando a cincia que tem por             condizem nem esse contedo nem sua forma1'
objeto "aquilo que  timo e excelente", ou               (GeschichtederPhilosophie, Einleitung, B, 2, a;
seja, a prpria perfeio (Fed., 97 d), e hie-            trad. it., I, p. 69).  evidente que, no obstante
rarquizando todas as outras tomando essa                  os protestos antimetafsicos, explcitos a filoso-
como referncia (Kep.. VII, 525 a ss.). Conttido.         fia do esprito de Croce tambm  uma M. teo-
essa concepo relegava todas as cincias dife-           lgica, pois tem por objeto a Histria eterna do
rentes da M. a um nvel de irremedivel inferio-          Esprito Universal: realidade sublime, diante da
ridade, e o objeto que alcanava no era justi-           qual os objetos cie todas as outras cincias so
ficar as outras cincias, fundamentando sua               rebaixados  posio de aparncias particulares
validade e enobrecendo sua investigao, mas              ou de acidentalidade emprica (Teoria e storia
desvaloriz-las com o confronto com a cincia             delia storiografia, 1917; La storia como pen-
primeira e com o carter sublime de seu obje-             siero e come azione, 1938). Finalmente,  M.
to. Provavelmente esse foi o motivo por que, a            teolgica a filosofia de Bergson, que pretende
certa altura, Aristteles comeou a insistir no           "prescindir dos smbolos" e entrar diretamente
outro conceito da M. como ontologia, mesmo                em contato com uma realidade privilegiada, de
sem nunca renegar ou abandonar o primeiro.                natureza divina, que  a corrente da conscin-
    Entretanto, a M. teolgica reaparece sempre           cia ("Introduction  Ia mtaphysique", em La
que se estabelece a correspondncia entre um              pense et le mouvant, 5- ecl.. 1934, pp. 206 ss.),
ser primeiro e perfeito e uma cincia igualmen-           e qtie como tal se contrape  cincia, cha-
te primeira e perfeita.  teolgica, portanto, a          mada de simples "auxiliar da ao" (Ibid., p.
M. de Plotino, que, s cincias que tm o sens-          158). Todas as formas de espiritualismo ou
vel por objeto, contrape as que tm por obje-            consciencialismo tendem, mais ou menos cla-
to o inteligvel, ou seja, a realidade suprema:           ramente, para uma metafsica teolgica dessa
'Entre as cincias que esto na alma racional,            espcie.
algumas tm por objeto as coisas sensveis, se 
que podem ser chamadas cincias, j que me-                   2a A segunda concepo fundamental  a da
lhor lhes caberia o nome de opinies; elas vm            M. como ontologia ou doutrina que estuda os
depois das coisas e so imagens delas. As                 caracteres fundamentais do ser: os que todo
outras, as verdadeiras cincias, tm por objeto           ser tem e no pode deixar de ter. As principais
o inteligvel, chegam  alma provindas do inte-           proposies da M. ontolgiea so as seguin-
lecto divino e nada tm de sensvel" (Enn., V,            tes: Y- Existem determinaes necessrias do
9, 7). Essa bipartio da realidade em um dom-           ser, ou seja, determinaes que nenhuma
nio superior e privilegiado e outro inferior e            forma ou maneira de ser pode deixar de ter.
derivado  o pressuposto caracterstico da M.             2- Tais determinaes esto presentes em to-
teolgica, que pretende ter como objeto a reali-          das as formas e modos de ser particulares.
dade primria e privilegiada.  M. teolgica,             34 Existem cincias que tm por objeto um
portanto, a doutrina de Spinoza, porquanto seu            modo de ser particular, isolado em virtude
                                                          de princpios cabveis. 4" Deve existir uma
METAFSICA                                          663                                       METAFSICA

cincia que tenha por objeto as determina-                famosa de Partes dos animais, Aristteles reco-
es necessrias do ser, estas tambm reco-               nheceu, explicitamente, a mesma dignidade
nhecveis em virtude de um princpio cab-                em todas as cincias que tenham a substncia
vel. 5a Essa cincia precede todas as outras e            como objeto: "As substncias inferiores, por se-
6, por isso, cincia primeira, porquanto seu              rem mais acessveis ao conhecimento, acabam
objeto est implcito nos objetos de todas as             tendo vantagem no campo cientfico, e por
outras cincias e porquanto, conseqentemen-              estarem mais prximas de ns e mais em con-
te, seu princpio condiciona a validade de to-            formidade com nossa natureza, a cincia delas
dos os outros princpios. A M. expressa nessas            acaba sendo equivalente  filosofia que tem
proposies via de regra implica: a) determi-             por objeto as coisas divinas. (...) De fato, mes-
nada teoria da essncia, mais precisamente da             mo no caso das menos favorecidas do ponto
essncia necessria (v. ESSNCIA); b) determina-          de vista da aparncia sensvel, a natureza que
da teoria do ser predicativo, mais precisamente           as produziu proporciona alegrias indizveis a
da inerncia (v. SER, 1); c) determinada teoria           quem sabe compreender suas causas e  fil-
do ser existencial, mais precisamente da neces-           sofo por natureza" (Depart. an., I, 5, 645 a 1).
sidade (v. SER, 2).                                        bvio que, desse ponto de vista, a prioridade
   A.s proposies acima expressam a for-                 da M. no consiste na excelncia de seu objeto
ma mais madura que a M. assumiu na obra de                (como no caso da M. teolgica), mas no fato de
Aristteles, precisamente nos livros VII, VIII,           que a M., por ter a substncia objeto espec-
IX de Metafsica, ou seja, M. como teoria da              fico, permite entender os objetos de todas as
substncia, entendendo-se por substncia "aquilo          cincias tanto em seus caracteres comuns e
que um ser no pode no ser", a essncia ne-              fundamentais quanto em seus caracteres espe-
cessria ou a necessidade de ser (v. SUBSTN-             cficos: sem a substncia e, p. ex., sem o ser e a
CIA). Nesse sentido, o princpio da M.  o de             unidade que lhe pertencem, "todas as coisas
contradio, porque s ele permite delimitar e            seriam destrudas, j que cada coisa  e  uma"
reconhecer o ser substancial. Aristteles disse:          (Met., XI, 1, 1059 b 31). Em outras palavras:
 Quem nega esse princpio destri completa-              toda cincia, como tal,  o estudo da substn-
mente a substncia e a essncia necessria,               cia em qualquer de suas determinaes; p. ex.:
pois 6 obrigado a dizer que tudo  acidental e            em movimento, a fsica; como quantidade, a
que no h algo como ser homem ou ser ani-                matemtica. A M.  a teoria da substncia en-
mal. Se de fato h algo como ser homem, isto              quanto tal.
no ser ser no-homem ou no ser homem,                     Desse ponto de vista, a prioridade da M. so-
mas estas sero negaes daquele. Um s  o               bre as outras cincias 6 lgica, no de valor.
significado do ser, e este  a substncia dele.           Trata-se de uma prioridade lgica decorrente
Indicar a substncia de uma coisa nada mais              da prioridade ontolgica de seu objeto especfi-
que indicar o ser prprio dela" (Met., IV, 4,             co. Consiste no fato de todas as outras cincias
1007 a 21). Desse ponto de vista, a substncia           pressuporem a M. do mesmo modo como to-
objeto da M. por constituir o princpio de expli-         das as determinaes da substncia pressu-
cao de todas as coisas existentes. Aristteles          pem a substncia; ora, a reforma feita por S.
diz: "A substncia de cada coisa  a causa pri-           Toms na M. aristotlica, no sc. XIII, visa a
meira do ser dessa coisa. Algumas coisas no              restringir a superioridade lgica da M. Segun-
so substncias, mas as que so substncias               do S. Toms, a M. como teoria da substncia
so naturais e postas pela natureza, estando,             no inclui Deus entre seus objetos possveis,
pois, claro que a substncia 6 a prpria nature-          porquanto Deus no  substncia (S. Th., I, q.
za e que no  elemento, mas princpio" (Ibid.,           1, a. 5, ad 1"). A identidade entre essncia e
VII, 17. 1041 b 27). A substncia nesse sentido           existncia em Deus distingue nitidamente o ser
no  uma realidade privilegiada ou sublime,              de Deus do ser das criaturas, nas quais essncia
que confira dignidade superior  cincia que a            e existncia so separveis (Ibid., I, q. 3, a. 4).
tem como objeto. Enquanto substncias, Deus               Portanto, a determinao dos caracteres subs-
e o intelecto (como diz ARISTTKLKS, Et. nic, I,          tanciais do ser em geral no diz respeito a
6, 1096 a 24), ou mesmo Deus e um talo de ca-             Deus, mas apenas s coisas criadas ou finitas.
pim (como se poderia dizer), tm o mesmo va-              Com isso, a M. perde a prioridade em favor da
lor, e as cincias que os tomam como objeto               teologia, considerada como cincia autnoma,
tm a mesma dignidade. Em uma passagem                    originria, cujos princpios so ditados direta-
METAFSICA                                              66-1                                       METAFSICA


mente por Deus. "E assim a teologia nada rece-                 os juzos gerais sobre o ser e adquiridas com o
be das outras cincias, como se estas fossem                   uso comum das faculdades da mente" (Ont..
superiores a ela. mas delas tira proveito, em                   21). Essa ontologia natural, que os escolsti-
sendo elas inferiores ancilares, assim como as                 cos completaram sem tornar menos confusa,
cincias arquitetnicas tiram proveito de outras               distingue-se da ontologia artificial ou cientfica,
que lhe propiciam os materiais e assim como a                  assim como a lgica se distingue dos procedi-
cincia civil tira proveito da militar" (Ibid., I. q.          mentos naturais do intelecto (Ibid.,  23; lx>g.,
 1. a. 5, aci 2"). Com a negao do carter                     11). \  o  um simples dicionrio filosfico,
analgico do ser, realizada por Duns Scot, vol-                mas uma cincia demonstrativa, cujo objeto 
ta-se a reconhecer a prioridade cia M. Duns                    constitudo pelas determinaes que perten-
Scot define a M. como "a cincia primeira do                   cem a todos os entes, seja de modo absoluto,
saber primeiro", isto , do ser (/;/ Met.. Vil, q.             seja sob determinadas condies (Ont.,  25).
4, n. 3)- Segundo ele, o ser que  objeto da M.               Assim, graas a Wolff, introduzia-se no orga-
o ser comum-, comum a todas as criaturas e a                   nismo tradicional da M. ontolgica uma exign-
Deus. embora no se trate de um gnero, que                    cia descritiva e empirista que tendia a eliminar
teria extenso restrita demais. A comunidade                   o conflito entre apriorismo dedutivo da M. e
do ser compreende todo o domnio do intelig-                  experincia. Com base nessa mesma exigncia.
vel: a cincia do ser, a M., , portanto, a cincia            Wolff faz a distino entre psicologia emprica,
primeira e mais extensa (Op. Ox., 1. d. 3. q. 3.               "na qual, a partir da experincia, estabele-
a. 2. n. 1-4). A caracterstica desse ponto de vista           cem-se princpios que expliquem as causas do
de Seot  fazer a distino ntida entre a prio-               que pode acontecer na alma humana" (Log.,
ridade de valor, que pertence  teologia, e a                  Disc. prel..  111), e psicologia reacional, que 6
prioridade lgica, que pertence  M.                           a "cincia de todas as coisas possveis na alma
    Essa distino manteve-se ao longo da hist-               humana" (Ibid..  58). Por outro lado, Wolff fa-
ria ulterior da M. ontolgica. No sc. XVII, tal               zia a distino entre ontologia e as trs discipli-
M. comeou a ser designada pelo nome cie on-                   nas M. especiais: teologia, psicologia e fsica
tologia, que aparece em Schediasma histo-                      (da qual faz parte a cosmologia). cujos objetos
rie um (1655), cie lacobus Thomasius (pai de                   respectivos seriam Deus. a alma humana e as
Cristiano), e  justificada por Clauberg do se-                coisas naturais (Ibid.,  55-59).
guinte modo: "Assim como se chama de teo-                          A ontologia wolffiana possibilitava a inter-
sofici ou teologia a cincia que trata de Deus,                pretao emprica dessa cincia, razo pela
no parece imprprio que se chame de onto-                     qual ela foi algumas vezes defendida pelos
sofia ou ontologia a cincia que verse sobre o                 prprios iluministas. D'Alembert, p. ex., dizia:
ente em geral, e no sobre este ou aquele ente                 "Visto que tanto os seres espirituais quanto os
designado por um nome especial ou distinto                     materiais tm propriedades gerais em comum,
dos outros por certa propriedade" (Op. Phil..                  como existncia, possibilidade, durao, 6 cer-
 1691, I, p. 281). Uma ontologia assim entendi-                to que esse ramo da filosofia, no qual todos os
da, nitidamente distinta da teologia, no impli-               outros ramos haurem em parte seus princpios,
cava nenhum antagonismo, franco ou disfara-                   seja denominado ontologia, ou seja. cincia do
do, contra os dados da experincia. Ao contr-                 ser ou M. geral" (Discoursprlimnaire,  7, em
rio, essa ontologia comea a ser considerada                   (Fiivres. ed. Condorcet. p. 115). Neste sentido,
como a exposio organizada e sistemtica dos                  D'Alembert defende uma nova M., "que seja
caracteres fundamentais do ser que a experin-                 criada mais para ns. que fique mais prxima e
cia revela de modo repetido ou constante. Esse                 presa  terra, tuna M. cujas aplicaes se esten-
6 o conceito de Wolff, que conferiu a essa dis-                dam s cincias naturais e aos diversos ramos
ciplina a fora sistemtica que lhe garantiu su-               da matemtica. De fato, em sentido estrito
cesso por algum tempo. Segundo Wolff, o pen-                   no h cincia que no tenha sua M., se com
samento comum j possui de forma confusa as                    isso entendermos os princpios gerais sobre
noes que a ontologia expe de forma distin-                  os quais se constri determinada doutrina, que
ta e sistemtica, ou seja, existe uma "ontologia               so, por assim dizer, os germes de todas as ver-
natural" constituda das "confusas noes onto-                dades particulares" (Ixiaircssemenl,  16). Foi
lgicas vulgares". Esta pode ser definida como                 em sentido muito prximo que Crusius (lint-
"o conjunto de noes confusas, corresponden-                  wurf der notwendigen Vernunflwahrheiten.
tes aos termos abstratos com que expressamos                   1745,  1) e Lambeu (Architetonik, 1771,  43)
METAFSICA                                              665                                       METAFSICA

entenderam a ontologia. Com uma renncia                      como o material necessrio a realiz-lo. Por
mais radical ao carter sistemtico da cincia,               qualquer outro caminho ou meio, ela  impos-
ainda hoje  defendida uma ontologia descriti-                svel" (Prol.. A, 190). Assim, como M. "cient-
va ou "elenotativa" que. ao mesmo tempo em                    fica" ou "crtica", a M. kantiana contrapunha-
que se limite "a observar e a registrar os traos             se  M. dogmtica tradicional, que Kant sub-
da existncia", tambm leve em considerao                   metia  crtica nas trs partes distinguiclas por
o instrumento dessa observao: a reflexo hu-                Wolff: teologia, psicologia e cosmologia. Mas
mana e as condies que a solicitam (DKWKY.                   nem na dialtica transcendental, nem em
Experiente and Sature, and Histrica! Rxpe-                   outro lugar, Kant criticou a primeira parte fun-
rieuce, 1958, cap. 5).                                        damental cia M. wolffiana, que  a ontologia. Na
   3a O terceiro conceito de M. como gnosiolo-                realidade, o conceito fundamental de ontologia
gia  expresso por Kant. Na verdade, a origem                 continuava vlido para Kant. com a correo
desse conceito deve ser identificada na noo                 do carter crtico ou gnosiolgico desta, ou
de filosofia ]>rinieira de Bacon: "Uma cincia                seja. com a passagem do significado realista
universal, que seja me de todas as outras e                  para o significado subjetivista da disciplina em
que, no progresso das doutrinas, constitua a                  questo. Segundo Kant. da M. crtica ou onto-
parte comum do caminho, antes que as sondas                   lgica fazem parte a M. da natureza e a M. dos
se separem e se desunam." Segundo Bacon, tal                  costumes. A M. cia natureza compreende "to-
cincia deveria ser "o receptculo dos axiomas                dos os princpios racionais puros decorrentes
que no pertenam s cincias particulares,                   de simples conceitos (portanto, com excluso
mas sejam comuns a numerosas cincias" (De                    da matemtica) da cincia terica cie todas as
ciugm. scient., III, 1). Esse conceito de filosofia           coisas". A M. dos costumes compreende "os
primeira tem uma histria, que  a cio conceito               princpios que determinam a priori e tornam
positivista da filosofia, que tem em comum com                necessrio o lazer ou o no fazer", sendo, por-
o conceito kantiano de M. a maior nfase nos                  lanto, a "moral pura" (Crt. R. Pura, Doutr. do
princpios cios que nos objetos da cincia. Se-               mtodo, cap. 3).
gundo Kant, M.  o estudo da formas ou prin-                      A caracterstica da M. kantiana  sua pre-
cpios cognitivos que, por serem constituintes                tenso de ser "uma cincia de conceitos pu-
da razo humana -- alis de toda razo finita                 ros", ou seja, uma cincia que abarque os
em geral --, condicionam todo saber e toda                    conhecimentos que podem ser obtidos inde-
cincia, e cie cujo exame, portanto. 6 possvel               pendentemente da experincia, com base
extrair os princpios gerais de cada cincia.                 nas estruturas racionais da mente humana.
Kant expunha esse conceito da M. nas ltimas                  Desse ponto de vista, sua continuao hist-
pginas de Crtica da Razo Pura, mais preci-                 rica na filosofia contempornea  a ontologia
samente no captulo sobre a arquitelura. Kant                 fenomenolgca de Husserl. Diferentemente de
diz que a M. pode ser entendida de duas for-                  Kant, Husserl no considera os princpios mui-
mas: como a segunda parte da "filosofia da                    to gerais que seriam constituintes da razo em
razo pura", ou seja, como "sistema da razo                  geral, mas os princpios que constituem o fun-
pura (cincia), conhecimento filosfico total                 damento de determinados campos do saber,
(seja verdadeiro, seja aparente) que deriva da                de uma cincia ou de um grupo de cincias,
razo pura em conexo sistemtica" (e, nesse                  chamados, portanto, de materiais. Husserl diz:
sentido, dela  alijada a parte preliminar ou                 "Cada objeto emprico concreto insere-se com
propedutica da filosofia da razo pura, que                 sua essncia material em uma espcie material
a crtica), ou ento pode ser entendida como a                superior, em uma regio de objetos empricos.
filosofia total da razo pura, incluindo a crtica.           A essncia regional corresponde uma cincia
F. neste segundo sentido que Kant chamava a                   eidtica regional ou, como podemos dizer tam-
M de ontologia no documento de 1793. com o                    bm, uma ontologia regional." Portanto, "toda
qual respondia a ao tema proposto pela Acade-                 cincia de ciados de fato ou de experincia
mia de Berlim: "Quais so os progressos reais                 tem seus fundamentos tericos essenciais
da M. desde o tempo cie Leibniz e Wolff?". On-                em ontologias regionais. (...) Assim, p. ex., a to-
tologia, M. e crtica coincidem do seguinte pon-              das as disciplinas naturalistas corresponde a
to de vista: "A crtica e s a crtica" -- dizia Kant         cincia eidtica da natureza fsica em geral (a
em Prolegmenos-- "contm o plano bem veri-                   ontologia da natureza), porquanto  natureza
ficado e provado de uma M. cientfica, bem                    factcia corresponde um eidos puramente
METAFSICA                                          666                                       METAFSICA

apreensvel, a essncia' da natureza em geral,            das as outras cincias; primrio porque, como
juntamente com uma massa infinita de rela-                tal,  fundamento de todas as cincias. O que
es essenciais1'. (Ideen, I,  9). A afirmao           resta da M. na filosofia contempornea -- e
do carter "material" (determinado ou espe-               no resta como mera sobrevivncia, mas como
cfico) dos princpios ontolgicos, que sem-              parte viva da investigao -- no possui mais
pre se referem a determinado gnero de essn-             estes caracteres tradicionais. A M. est de fato
cias ou campo do saber, leva Husserl a esta-              presente e attiante na filosofia contempor-
belecer o carter "regional" da ontologia. De             nea sob a forma de dois problemas conexos:
seu ponto de vista, a ontologia geral ou for-              lq a questo do significado ou dos significa-
mal nada mais  que a lgica pura, que                   dos de existncia na linguagem das diversas
"a cincia eidtica do objeto em geral" (Ibid.,           cincias; 2 a questo das relaes entre as di-
 10) (v. MATHKSIS UNIVKRSA1.IS). No entanto, N.          versas cincias e das investigaes sobre obje-
Hartmann, que tem em comum com Husserl o                  tos que incidem nos pontos de interseco ou
pressuposto fenomenolgico, retornou  onto-              de encontro entre elas.
logia geral. Para ele, o objeto da ontologia  o              ly Com relao ao primeiro problema, fala-
ente, no o ser, j que o ser 6 unicamente                se hoje explicitamente de ontologia no sentido
"aquilo que h de comum em cada ente". O                  de compromisso em usar o verbo ser e seus
ser e o ente distinguem-se como a verdade e               sinnimos em determinado sentido. Quine, p.
o verdadeiro, a realidade e o real, e assim por           ex., diz: "Nossa aceitao de uma ontologia 
diante: h muitas coisas verdadeiras, mas o ser           semelhante, em princpio,  nossa aceitao de
da verdade  um s. Analogamente, o ser do                uma teoria cientfica, de um sistema de fsica:
ente  um s, ainda que o ente possa ser vrio            adotamos, no mnimo por sermos dotados de
e as diferenciaes do ser pertenam ao desen-            razo, o esquema conceituai mais simples no
volvimento da ontologia, e no a seu incio,              qual os fragmentos desorganizados da experin-
que versa sobre aquilo que  comum univer-                cia bruta possam ser adaptados e distribudos.
sal {(Imudlegung der Ontologie, 1935, p. 42).             Nossa ontologia estar determinada uma vez
A postura francamente realista da ontologia de            que tenhamos fixado o esquema conceituai total
Hartmann parece aproxim-la da tradicional,               em que se adapte a cincia em seu sentido
especialmente de Wolff, mas na realidade o                mais amplo; as consideraes que determinam
que para Hartmann constitui o objeto da onto-             a construo racional de uma parte qualquer
logia  o modo como o ser  dado (Ibid., p. 48)           desse esquema conceituai (p. ex., a paite bio-
 experincia fenomenolgica: de tal forma                lgica ou fsica) no so diferentes, em termos
que sua ontologia  parte integrante da corren-           de espcie, das consideraes que determi-
te fenomenolgica. A essa mesma corrente per-             nam a construo racional cie todo o esquema"
tence a ontologia de Heidegger, entendida                 (From a logcal Pont of View, pp. 16-17).
s como a determinao cio sentido da ser a               Kmbora objetando ao uso da palavra "ontologia",
partir do ser do ente que faz as perguntas e d           que pareceria fazer referncia a convices me-
as respostas: o homem. Heidegger reafirma o               tafsicas, quando na realidade se trata de uma
carter primrio ou privilegiado da ontologia.            deciso to prtica quanto "a escolha de um
"O problema do ser tende no s  determina-              instrumento", Carnap confirmou substancial-
o cias condies apriori& possibilidade das            mente o ponto de vista cie Quine (Meaning
cincias que estudam o ente enquanto ente, e              andNecessity,  10);  nesse sentido que se fala
que portanto, ao faz-lo, sempre j se movem              freqentemente em ontologia na lgica e na
numa compreenso do ser, mas tambm  de-                 metodologia contempornea.
terminao das condies de possibilidade das
ontologias que precedem e fundam as cincias                 2B Com relao ao segundo problema, a su-
nticas listo , empricas]" (Sen undZeit,  3).         cessora da M. tradicional  a metodologia, que
    Todas as doutrinas s quais nos referimos             habitualmente discute os problemas das rela-
at agora (exceto as de Dewey e Randall) ad-              es entre as cincias particulares e as questes
mitem o pressuposto em torno do qual a M. tra-            decorrentes das interferncias marginais entre
dicionalmente girou, situando, portanto, nos              as prprias cincias. Certamente a metodologia
limites do conceito de M. Tal presssuposto  o            no herdou a pretenso de criar uma enciclo-
carter necessrio e primrio da M.: necessrio           pdia das cincias que defina, de uma vez por
por ter como objeto o objeto necessrio de to-            todas, as tarefas e as limitaes de cada uma
                                                          delas; por isso, no reivindica a dignidade de
METFORA                                        667                                      METAMORAL

julgar as cincias e reinar sobre elas. Trata-se      disciplinas matemticas assim formalizadas,
mais de organizar continuamente o universo            bem como de verificar a correo das infern-
conceituai do modo mais simples e cmodo:             cias (dedues). Visto que, segundo conhecido
que favorea a comunicao contnua entre as          teorema (de Gdel), no se pode provar a no-
cincias sem atentar contra a indispensvel           contradio de um sistema matemtico formali-
autonomia de cada uma delas. Com este objeti-         zado dentro desse mesmo sistema, D. Hilbert e
vo, cumpre problematizar. em cada fase da             sua escola recorreram  criao de sistemas
pesquisa cientfica, as relaes entre as diver-      particulares para a verificao cios sistemas sim-
sas disciplinas ou as diversas correntes de           blicos (ou seja, de cada disciplina da mate-
pesquisa, tanto em favor do desenvolvimen-            mtica: lgebra, geometria, etc). Tais sistemas
to das disciplinas particulares, quando em fa-        de verificao foram denominados metama-
vor do uso que delas o homem pode ou deve              temticos. Por analogia, ou melhor, por exten-
fazer, ou seja, cia filosofia.                        so cio termo, os lgicos poloneses e Carnap
    METFORA (gr. uexaepop: in. Metaphor,            chamaram de M. qualquer sistema lingstico
fr. Mtaphore-. ai. Metapher, it. Metfora).          (p. ex., a linguagem da Lgica, da gramtica,
Transfe-rncia de significado. Aristteles diz:       etc.) que no conduza a denotata extralin-
"A M. consiste em dar a uma coisa um nome             gsticos, mas que, semanticamente, conduza a
que pertence a outra coisa: transferncia que         smbolos e fatos lingsticos, e de metalin-
pode realizar-se do gnero para a espcie, da         gstica qualquer expresso no que fale de
espcie para o gnero, de uma espcie para            coisas (reais ou ideais), mas de palavras ou dis-
outra ou com base numa analogia" (Poet., 21,          cursos (p. ex.: "'Mrio'  um nome prprio de
 1457 b 7). A noo de M. algumas vezes foi           pessoa, masculino e singular"; '"acelerao1 
empregada para determinar a natureza da lin-          um termo da Fsica"). A distino entre lingua-
guagem em geral (v. LINGUAGEM). Como ins-             gem e M. assume grande importncia na an-
trumento lingstico, hoje sua definio no         lise filosfica neopositivista, sendo um dos fun-
diferente cia definio de Aristteles. Quanto       damentos da crtica  metafsica especulativa,
M. mtica dos povos primitivos, que  substan-        na qual expresses metalingsticas so siste-
cialmente a identificao da expresso metaf-        maticamente confundidas com expresses
rica com o objeto, cf. CASSIRKK, Language and         lingsticas (v. LINGUAGEM-OBJETO).           G. P.
Mytb, 1946.                                               METALGICO (in. Metalogical; fr. Mtalo-
    METAGEOMETRIA (in. Metageometry- fr.              gique, ai. Metalogiscb; it. Metalogico). 1. A par-
Mtagometre-, ai. Metageontetria-, it. Mtageo-     tir de Carnap (Logische Syntax der Spracbe,
 ineria). Geometria no euclidiana, ou seja,          1934; trad. in.. 1937,  2), este termo passou a
qualquer geometria que parta de axiomas dife-         ter o mesmo significado de "sinttico": caracteriza
rentes dos de Euclicles (v. GEOMETRIA).               o estudo sistemtico das regras formais de uma
    META-HISTRICO. Indicam-se com este               lngua (v. SINTAXE).
termo os valores eternos que a histria tende a           2. Schopenhauer chamou de metalgica a
realizar e que constituiriam sua estrutura ou         verdade dos quatro princpios do pensamento:
 plano providencial que a rege (v. HISTRIA).         Identidade. Contradio, Terceiro Excludo e
    METALINGUAGEM (in. Metalanguage, fr.              Razo Suficiente (Uber de uierfache Wurzel
 Mlalanguage-, it. Metalinguaggio). Quando           des Satzeii von zureichenden Clrunde, 1813,
 D. Hilbert introduziu a concepo de matemti-        33).
ca como sistema meramente sinttico-dedutivo              3. Metalogcon  o ttulo de uma obra de
(sistema arbitrrio de smbolos no qual, dados        Joo cie Salisbury (sc. XII): significaria "defesa
 certos axiomas fundamentais e certas regras          da lgica".
 operacionais, procede-se por meios meramen-              METAMATEMTICO (in. Metamalhema-
 te simblicos, ou seja, operando com as frmu-       lc; fr. Mtaniatbivatique, ai. Metamatbema-
 las que constituem os axiomas e segundo as           tiscb; it. Metamatematico). O mesmo que sin-
 regras operacionais dadas,  inferncia das          ttico ou metalogico. No sentido de Hilbert,
 "conseqncias", independentemente dos pos-          teoria da prova, ou seja, formalizao da prova
 sveis ou eventuais significados extra-simbli-      matemtica por meio cie um sistema logstico
 cos, intuitivos ou outros desses mesmos sm-         (v. PROVA).
 bolos), colocou-se o problema cie verificar a          METAMORAL (in. Melamorcil; fr. Meta-
 no-contradio dos sistemas de axiomas das          Diorale; it. Metamorale). Estudo dos fundamen-
METAPSQUICA                                           668                                           MTODO

tos da moral. Ou ento: estudo das estruturas                sim como o termo mimese, com o qual indica o
lgico-lingsticas da moral.                                afastamento do mundo de Deus) para caracteri-
    METAPSQUICA (in. Psychical research- fr.                zar um termo de vrios pares de coisas ou en-
Mtapsy chique-, ai. Parapsychologie, Metapsy-               tes do mundo: p. ex.. o corpo  a mimese. a
chik; it. Metapschica). Exame, sem preconcei-                alma  a M.; a fmea  a mimese, o macho  a
tos e com viso cientfica, das faculdades                   M., etc. (Ibid., p. 319).
humanas, reais ou imaginrias,, que so inex-                   METDICA. Assim  chamada algumas ve-
plicveis com base nas hipteses geralmente                  zes a doutrina do mtodo pedaggico: p. ex.,
conhecidas. Hsta , pelo menos, a definio                  RAYNERI, Primi principi di metdica (1850);
dessa cincia por parte de seus seguidores                   ROSMINI, Del principio supremo delia metdica
mais srios. Os lenmenos que ela investiga si-              (1857). etc.
tuam-se em duas categorias fundamentais: os                     MTODO (gr. M9OO; lat. Methodus: in.
chamados fenmenos mentais, que consistem                    Method; fr. Mthode, ai. Methode; it. Mtodo).
em informaes adquiridas por meios supra-                   Este termo tem dois significados fundamentais:
normais, ou fenmenos de percepo extra-                    1" qualquer pesquisa ou orientao de pesqui-
seiisorial, e os fenmenos fsicos ou prodgios,             sa; 2" uma tcnica particular de pesquisa. No
como p. ex. objetos que flutuam no ar, batidas,              primeiro significado, no se distingue de
rudos, etc. A M. procura estabelecer a realida-             "investigao" ou "doutrina". O segundo signi-
de desses fenmenos e apresentar as hipteses                ficado  mais restrito e indica um procedimen-
cabveis para sua explicao (cf. D. J. WEST,                to de investigao organizado, repetvel e
Psychical Research Today, Londres, 1954).                    autocorrigvel. que garanta a obteno de re-
    METEMPRICO (in. 'Metempircah fr. M-                   sultados vlidos. Ao primeiro significado refe-
lempir/tie; ai. Metempirisch; it. Metemprco).             rem-se expresses como "M. hegeliano", "M.
O que est alm dos limites da experincia                   dialtico", etc. ou mesmo "M. geomtrico".
possvel (LKWKS, Problems of Life and Mind.                  "M. experimental", etc. Ao segundo significado
1874, I, p. 17).                                             referem-se expresses como "M. silogstico",
    METEMPSICOSE (in. Metempsychosis: fr.                    "M. residual" c. em geral, os que designam pro-
Mtempsycbose, ai. Metempsychose it. Metem-                  cedimentos especficos de investigao e verifi-
psicosi). Crena na transmigrao da alma                    cao. Tanto Plato (Sqf. 218 d; Fed.. 270 c)
de corpo em corpo. Essa crena  muito antiga                quanto Aristteles (Pol, 1289 a 26; Et. nic.
e de origem oriental, mas o termo s aparece                 1129 a 6) empregam esse termo em ambos os
nos escritores dos primrdios cia era crist.                significados; no moderno e contemporneo,
Flotino s vezes usa o termo metensomatose                   prevalece o segundo. Contudo,  preciso ob-
(Fnn.. II. 9, 6, 13), que seria mais exato. A                servar que no h doutrina ou teoria, quer
crena, difundida pelas seitas rficas e pelos               cientfica quer filosfica, que no possa ser
pitagricos, foi aceita por Empdocles (fr. 115,             considerada sob o aspecto de sua ordem de
117, 119), por Plato (Tini.. 49 ss.; Kep.. X. 614           procedimentos, sendo. pois. chamada de M.
ss.), por Plotino, pelos neoplatnicos e pelo                O prprio Descartes, p. ex., exps o mes-
gnstico Basilides (BUONAIITI, Frammenti                     mo contedo do Discurso do mtodo na forma
gnostici, pp. 63 ss.). Cf. E. Ro IDE. Psyche, 1890-         de Meditaes metafsicas e de Princpios de
94; trad. it., Bari, 1916.                                   filosofia: o que por um lado era M.. por outro
                                                             era doutrina. De modo geral, no h doutrina
    METENSOMATOSE. V. METEMPSICOSE.
                                                             que no possa ser considerada e chamada de M.,
    METXIS (gr. LtSe^i). Participao. Essa               se encarada como ordem ou procedimento
palavra foi usada por Plato para indicar um                 de pesquisa. Portanto, a classificao dos M. fi-
dos modos possveis de relao entre as coisas               losficos e cientficos sem dvida seria uma
sensveis e as idias (Parm., 132 d). Os outros              classificao das respectivas doutrinas. Quanto
modos em que Plato concebeu essa mesma                      s doutrinas que com mais freqncia ou razo
relao so: mimese ou imitao (Rep.. 597 a;                so chamadas de M., v. os captulos respecti-
 Tini., 50 c) e presena da idia nas coisas (Fed.,          vos: ANLISE; AXIOMATIZA.O; CONCOMITNCIA;
 100 d). Ksse termo foi usado nessa forma por                CONCORDNCIA: DEDfCO; DIALTICA; DlEEREN-
Gioberti. em Protologia, para designar o ciclo               CA; DEMONSTRAO; INDUO; PROVA; RES-
de retorno do mundo a Deus, que culmina                      DUOS; SILOGISMO; SNTESE; bem como os verbe-
numa renovao final, ou palingenesia (Prol..                tes dedicados a cada disciplina: FILOSOFIA; F-
II, p. 107). Gioberti usa esse mesmo termo (as-
METODOLOGIA                                           669                                     MICROCOSMO

S1CA; GF.OMKTRIA; LGICA; MATEMTICA; CINCIA,                  3a Com o nome de Jvl. hoje  freqentemen-
etc.                                                        te indicado o conjunto de procedimentos tcni-
   METODOLOGIA (in. Methodology, fr. M-                    cos cie averiguao ou verificao  disposio
Ihodologie, ai. Methodologye, Methodenlehre.                de determinada disciplina ou grupo de discipli-
it. Metodologia). Com este termo podem ser                  nas. Nesse sentido fala-se, p. ex., de "M. das
designadas quatro coisas diferentes: Ia lgica              cincias naturais" ou de "M. historiogrfiea".
ou parte da lgica que estuda os mtodos; 2-                Nesse aspecto, a M.  elaborada no interior
lgica transcendental aplicada; 3a conjunto de              de uma disciplina cientfica ou de um grupo de
procedimentos metdicos de uma ou mais                      disciplinas e no tem outro objetivo alm de
cincias; 4- a anlise filosfica cie tais procedi-         garantir s disciplinas em questo o uso cada
mentos.                                                     vez mais eficaz das tcnicas de procedimento
    Ia A lgica foi interpretada como M. na fase            de que dispem.
ps-cartesiana. Segundo a Lgica de Port-                       4a Por outro lado, em estreita conexo com
Royal, "a lgica  a arte de bem conduzir a                 o sentido acima, a M. vem-se constituindo
prpria razo no conhecimento das coisas,                   como disciplina filosfica relativamente aut-
tanto para instruir-se quanto para instruir                 noma e destinada  anlise das tcnicas de in-
aos outros". No mesmo sentido, Wolff definia a              vestigao empregadas em urna ou mais cin-
lgica como "a cincia de dirigir a faculdade               cias. Nesse sentido, no so objetos da M. os
cognoscitiva no conhecimento da verdade"                    "mtodos" das cincias, ou seja, as classifica-
(Log.,  1). Esse conceito de lgica pode ser               es amplas e aproximativas (anlise, sntese,
encontrado tambm na definio cie Stuart                   induo, deduo, experimentao, etc), nas
Mill, como "cincia das operaes do intelecto              quais se inserem as tcnicas da pesquisa cient-
                                                            fica, mas to-somente essas tcnicas, considera-
que servem para a avaliao da prova" (Logic,
                                                            das em suas estruturas especficas e nas condi-
Intr.,  7). Por outro lado, a M. tambm foi                es que possibilitam o seu uso. Tais tcnicas
considerada uma parte da lgica. Pedro Ramus                compreedem, obviamente, qualquer procedi-
dividia a lgica em quatro partes: doutrina do              mento lingstico ou operacional, qualquer
conceito, do juzo, do raciocnio e do mtodo               conceito e qualquer instrumento que uma ou
(Dialeclicae institutiones, 1543): essa diviso,            mais disciplinas utilizem na aquisio e na veri-
aceita pela Lgica de Port-Royal, tornou-se tra-            ficao de seus resultados. Nesse sentido, a M.
dicional e foi constantemente adotada pela l-               sucessora ti) da metafsica, porque a ela ca-
gica filosfica cio sc. XIX (v. para todos BF.NNO          bem os problemas que concernem s relaes
F.RDMANX, Logick, 1H92, I,  7). Apartir de Wolff           entre as cincias e as zonas de interferncia (e
([R-,  ^05 ss -', a doutrina cio mtodo (oi             algumas vezes de conflito) entre cincias di-
freqentemente chamada de lgica prtica.                   ferentes; ti) da gnosiologia, porquanto substi-
    2a A M. foi entendida por Kant como lgica              tui a considerao do "conhecimento"', enten-
transcendental aplicada ou "prtica". Constitui a           dido como forma global da atividade huma-
segunda parte principal da Crtica da Razo                 na ou do Esprito em geral, pela considerao
Pura, cujo objetivo  "determinar as condies              dos procedimentos cognoscitivos utilizados por
formais de um sistema completo da razo                     um ou mais campos da investigao cientfica.
pura"; compreende uma disciplina, um cnon,                 Essa M. chama-se tambm "crtica das cin-
uma arquitetura e. finalmente, uma histria da              cias". Embora o trabalho realizado por ela nes-
razo pura. O prprio Kant confronta essa par-              sa direo e iniciado nas primeiras dcadas do
te de sua obra com a lgica formal aplicada ou              sc. XX j seja considervel, est faltando at
prtica: "Do ponto de vista transcendental, fa-             agora uma determinao precisa da tarefa e
remos o que se procurou fazer nas escolas com               das orientaes dessa disciplina. Cf. todavia
o nome de lgica prtica em relao ao uso do               autores vrios, Fondamenti logici deliascienza,
intelecto em geral, mas que se fez mal, porque,             Turim, 1947; kl, Saggi di critica dellescenze, Tu-
no se limitando a um modo especial de co-                  rim, 1950: ambos org. pelo Centro di Stucli Me-
nhecimento intelectual (p. ex., o puro), nem a              todologici cli Torino.
certos objetos, a lgica geral nada mais pode                  MICROCOSMO (gr. UAKp KOUO; lat.
fazer seno propor ttulos de mtodos poss-                Microcosnms; in. Microcosm, fr. Microcosmc*
veis e de expresses tcnicas" (Crit. K.                    ai. Mikrokosmos; it. Microcosmo). A corres-
Pura, Doutr. transe, do mtodo. Intr.).                     pondncia entre o macrocosmo, que  o mun-
MICROCOSMO                                           670                                         MILAGRE


do, e o M., que  o animal e por vezes o ho-               isso, exigia que ela se fundamentasse em todas
mem,  tema filosfico antigo, que nasceu da               as cincias cjue estudam a natureza do univer-
tendncia a interpretar todo o universo com                so, quais sejam: teologia, filosofia, astronomia
fundamento no universo menor, que  o ho-                  e alquimia (Dephosophia oceulta, II, p. 289).
mem para si mesmo. Aristteles expunha da                     Quando a cincia deixou de lado o princ-
seguinte maneira esse principio de interpre-               pio antropomrfico na interpretao da natu-
tao, a propsito da possibilidade do movi-               reza, a correspondncia entre M. e macrocos-
mento autnomo: "Se isso  possvel no ani-                mo deixou de ser um guia til de pesquisa e
mal, o que pode impedir que acontea no                    passou a ter aspecto de preconceito. Lotze,
mundo tambm? Se ocorre no M., pode acon-                  que deu o ttulo de M.  sua obra fundamental,
tecer tambm no cosmo grande; e, se ocorre                 s admite essa correspondncia na forma do
no cosmo, pode acontecer tambm no infinito,               condicionamento que o mundo exerce sobre o
se  possvel que o infinito se mova e esteja em           homem, procurando reduzir o alcance desse
repouso em sua totalidade." (Fs., VIII, 2, 252 b          termo a limites estreitssimos (Mkrokosmus, VI,
25). Ora, essa  a objeo que Aristteles faz a           K, 1; trad. it., II, pp. 312 ss.).
si mesmo, refutando-a ao negar a possibilidade                MILAGRE (gr. xpa; lat. Miraculunv, in.
de movimento autnomo do universo e ao                     Miracle, fr. Miracle, ai. Wunder ii, Miracolo).
admitir, por isso, o primeiro motor. A corres-             Fato excepcional ou inexplicvel, considerado
pondncia entre M. e macrocosmo no , pois,               como sinal ou manifestao de uma vontade
um princpio adotado por Aristteles. Mas j               divina. Esta era a noo de M na Antigidade
em sua poca era um princpio antigo, visto                clssica (p. ex., Ilada, II, 234; Odissia, III,
fundamentar a cosmogonia dos rficos, mais                 173; XII, 394, etc.) e a que predominou na
precisamente a doutrina de que o mundo nas-                Idade Mdia, sendo assim expressa por S. To-
ceu de um ovo: e nasceu de um ovo porque                  ms: "No M. podem ser notadas duas coisas:
animal (cf. A. OLIVIF.RI, Civilt greca nellltalia         uma  o que acontece, que  certamente algo
meridionale, Npoles, 1931, pp. 23 ss.). Plato            que excede a faculdade da natureza, e neste
mesmo chamou o mundo de "grande animal"                    sentido os M. so chamados de potncias (vir-
(Tm., 30 b), provido de alma e inteligncia,              tudes); a segunda  a razo pela qual os M.
assumindo, assim, como realidade literal uma               acontecem, ou seja, a manifestao de algo de
correspondncia metodolgica; esse foi o sen-              sobrenatural; neste sentido, os M. so chama-
tido atribudo, depois dele, por esticos,                 dos comumente de sinais, enquanto so cha-
neopitagricos e. em geral, por todos os que               mados de portentos pela sua excelncia e de
insistiram no carter animado do universo.                 prodgios porque mostram algo cie distante" (S.
   A correspondncia entre M. e macrocos-                  n., II, 2, q. 178, a. 1, ad 3y).
mo foi um dos temas preferidos da literatura                  Quando se comeou a insistir na ordem ne-
mgica. A magia pretende dominar o mundo                   cessria da natureza -- como ocorreu com o
natural encantando-o ou domesticando-o co-                 averrosmo medieval, com o aristotelismo
mo se faz com um animal; seu pressuposto                   renascentista e, principalmente, com a primei-
 exatamente de que o mundo  um animal                    ra afirmao da cincia moderna --, o M. co-
e de que todos os seus aspectos so control-              meou a ser considerado "exceo" a essa or-
veis com procedimentos que se dirigem a eles               dem, portanto negado como tal ou reduzido a
como a atividades vivas. A correspondncia                 acontecimento incomum, mas concorde com a
M.-macrocosmo foi, portanto, um dos temas                  ordem natural. No livro Sugl incantesimi.
obrigatrios da magia renascentista. Cornlio              Pomponazzi. p. ex., negava que os M. fossem
Agripa afirmava que o homem rene em si                    acontecimentos contrrios  natureza e estra-
tudo o que est disseminado nas coisas, e que              nhos  ordem do mundo, admitindo-os apenas
isso lhe permite conhecer a fora que mantm               como fatos inslitos e rarssimos, que no
o mundo integrado e utiliz-la para realizar aes         acontencem segundo o ritmo habitual da nature-
miraculosas (De oceulta philosopha, 1, 33). Ob-           za, mas a intervalos muito longas; esses fatos.
servaes anlogas repetem-se em todos os                  porm pertencem  ordem natural, pela qual
escritores renascentistas que admitem a magia              so determinados (De incantatonibus, 12).
(p. ex., CAMPANELLA, De sensu rerum, I, 10).               Spinoza, por sua vez, afirmava que, "contra a
Paracelso baseava toda a cincia mdica na                 natureza ou acima da natureza, M. no passa
correspondncia entre macrocosmo e M.; por                 de absurdo, e que, na Sagrada Escritura, s 
MILENARISMO                                           671                                      MISTICISMO

possvel entender por M. a obra da natureza                 criado por Plato para indicar o dio aos ra-
que supera a inteligncia dos homens ou que                 ciocnios. Segundo Plato, "a M. nasce da
acredita superar" ( Traclatus theologico-politicm,          mesma forma que a misantropia". Assim como
cap. 6). Para Spinoza, Deus era mais bem co-                a misantropia nasce de se ter confiado em
nhecido graas  ordem e  necessidade da na-               algum sem discernimento, a M. nasce de se
tureza do que por pretensos M. Mas Hume, que                ter acreditado, sem possuir a arte do raciocnio,
parte de uma concepo completamente dife-                  na verdade de raciocnios que depois se mos-
rente, tambm nega a possibilidade do M.: "O                traram falsos (Fed., 89 d-90 b). Segundo Kant,
M.  uma violao das leis cia natureza, e, como            a M. nasce quando se confia  razo a tarefa de
essas leis foram estabelecidas por uma expe-                obter "a fruio da vida e a felicidade", tarefa
rincia fixa e inaltervel, a prova contra o M.,            para a qual ela no est apta, uma vez que seu
extrada da prpria natureza do fato, 6 to com-            destino, como faculdade prtica,  conduzir 
pleta quanto se pode imaginar que o seja um                 moralidade (Grundlegung derMetaphysik der
argumento extrado da experincia" (Inq. Cone.              Silte}/, I). Segundo Hegel, o saber imediato 
 Umlerst., X, 1), Todas as limitaes que o con-            uma forma de M. (Jinc,  11).
ceito de lei natural sofreu a partir de Hume no                MISTRIO (gr. (ruaxtpiov; lat. Mysterium;
facilitaram a noo de M. do ponto de vista da              in. Mysteiy; fr. Mystre, ai. Mysterium; it. Mis-
cincia e da filosofia.                                     tero). No sentido em que a palavra comeou a
    Mas talvez se trate de uma noo que, do                ser usada pelos escritores hermticos da An-
ponto de vista religioso, no oferece menor di-             tigidade (p. ex., Corpus bermeticum, I, 16),
ficuldade. Kierkegaard diz: No fundo, usar                  significa uma verdade revelada por Deus,
toda a sagacidade (como faz Lessing ao publi-               que deve permanecer secreta. No Cristianis-
car os Fragmentos de Wolfenbtteln) na com-                 mo, essa palavra passou a indicar algo incom-
provao do absurdo e da inivrossimilbcnia                 preensvel ou cujo .significado  obscuro ou
do M. para depois concluir a partir do fato de              oculto. Nesse sentido, |acob Bhme designava
ser inverossmil: ergo, no  M. (mas seria                 Deus como Mysterium magnum (ttulo de uma
mesmo M. se fosse verossmil?),  to insensato             de suas obras de 1623). A palavra  usada pelos
quanto (e  esta a sabedoria da especulao)                modernos:
estorar-se por compreender o M. ou por                         Y- no sentido de verdade de f indemons-
torn-lo compreensvel, concluindo finalmen-                trvel, portanto em certo sentido incompreen-
te: ergo,  um M. Um M. compreensvel no                  svel: p. ex., "os M. da Trindade e da Kncar-
mais um M. No, o M continua sendo o que :                 nao";
artigo cie f" (Dirio, X1, A, 373). Desse ponto                2" no sentido de problema considerado
de vista obviamente ruem as objees contra o               insolvel ou cuja soluo se atribui ao domnio
M., mas ele deixa de ser, a qualquer ttulo,                religioso ou mstico: p. ex., "o M. do ser"; ainda
objeto da pesquisa cientfica e filosfica.                 hoje no faltam filsofos que, como Spencer
   MILENARISMO. V. QflUASMO.                                (First Princ,  14), acham que o M.  o dom-
    MIMANSA. Um dos grandes sistemas filo-                  nio da religio;
sficos da ndia antiga, cuja fundao  atribu-               3" no sentido de qualquer problema cuja so-
da a Jaimini.  substancialmente uma interpre-              luo seja difcil ou no imediata; neste sentido,
tao da doutrina dos vdantas(y.) e pretende               um problema policial tambm  um mistrio.
ser uma tcnica de libertao. Ope-se ao con-                  MISTICISMO (in. Mysticism; fr. Mysticisme-,
ceito cie Deus criador e admite a realidade da              ai. Mysticismus; it. Misticismo). Toda doutrina
matria e das almas (cf. G. Ttxxi, Storia delia             que admita a comunicao direta entre o ho-
filosofia indiana, 1957, pp. 127 ss.).                      mem e Deus. A palavra mstica comeou a ser
   MIMESE. V. METFXIS.                                      usada nesse sentido nas obras de Dionsio, o
    MINIMUM. Assim chamou Lucrcio o to-                   Aeropagita, pertencentes  segunda metade do
mo (De rer. nat., I, 620). Nicolau de Gusa insis-           sc. V e inspiradas no neoplatnico Proclo. Em
tia sobre a coincidncia do mximo e do mni-               tais obras  acentuado o carter mstico do
mo em Deus (Dedocta ignor., I, 4) e Giordano                neoplatonismo original, que  a doutrina de
Bruno usou a palavra no sentido de Gusa (De                 Plotino. Para isso, insiste-se na impossibilidade
mnimo triplici et mensura, 1, 7) (v. TOMO).               de chegar at Deus ou de realizar qualquer co-
    MISOLOGIA (gr. u.iaooyia; in. Misology,                municao com ele atravs dos procedimentos
fr. Misologie. ai. Misologie, it. Misologia). Termo         comuns do saber humano, cie cujo ponto cie
MISTICISMO                                          672                                        MISTICISMO


vista s se pode definir Deus negativamente               dois, enumerando assim, no xtase, sele graus
(teologia negativa). Por outro lado, insiste-se           de ascenso, P. ex., segundo Bonaventura, o
tambm numa relao originria, ntima e pes-             pensamento pode considerar as coisas em sua
soal entre o homem e Deus. em virtude da qual             ordem objetiva (1 grau) ou na apreenso que a
o homem pode retornar a Deus e unir-se fi-                alma humana tem delas (II grau). A meditao
nalmente a ele num ato supremo. Este  o                  pode contemplar a imagem de Deus nos pode-
xtase, que Dionsio considera a deificao               res naturais da alma (memria, intelecto e von-
do homem.                                                 tade [III grani) ou ainda nos poderes que a
    Esse  o esquema de toda doutrina mstica,            alma conquista graas s trs virtudes teologais
e foi extrado pelo pseudo-Dionsio dos textos            (IV grau). A contemplao pode considerar
neoplatnicos; contm muitos vestgios das                Deus em seu primeiro atributo, ou seja, em seu
crenas orientais, s quais deviam boa parte de           ser (V grau), ou ainda em sua mxima potn-
sua inspirao. O M. medieval colocou-se algu-            cia, que  o bem (VI grau) (Itinerarum mentis
mas vezes como alternativa que exclua o ca-              in Deiirn, 1259). Para todos os msticos, acima
minho da busca racional: esse foi o caso de               de iodos os graus est o xtase^.1.), ou excessus
Bernad de Clairvaux (sc. XII), em quem a                 mentis, definido s vezes como "douta igno-
defesa da via mstica  acompanhada pela po-              rncia" (v.) e, em todos os caso, considerado
lmica contra a filosofia e, em geral, o uso da           como a "deificao do homem", ou seja, a sua
razo. Outras vezes a via mstica e a da especu-          unio com Deus.
lao escolstica so admitidas e reconhecidas,                Do ponto de vista filosfico-religioso, 
como fizeram Hugo e Ricardo de S. Vtor,                  importante a apreciao de Kierkegaard so-
tambm no sc. XII. O M. conserva os mesmos               bre o misticismo: o mstico  "aquele que se
caracteres em S. Bonaventura, que cultiva                 escolhe em isolamento completo", ou seja,
igualmente a especulao filosfica e a mstica.          isolado do mundo e cios contatos humanos
Por outro lado. a grande corrente do M. espe-             (Ant Aut, em Werke, II, p. 215), mas, assim
culativo alemo cio sc. XIV (Mestre Eckhart,             agindo, comete certa indiscrio em relao
Tauler, Suso e outros) ope-se tambm a qual-             a Deus. Isso porque, em primeiro lugar, desde-
quer tentativa de empregar a razo no campo               nha a existncia, a realidade na qual Deus o
cia religio, mas sua caracterstica  ser uma            colocou, e. em segundo lugar, degrada Deus e a
especulao sobre a f, considerada como via              si mesmo. "Degrada-se porque  sempre de-
de comunicao direta entre o homem e Deus.               gradao ser essencialmente diferente dos
No pertencem ao domnio da filosofia, mas sim            outros graas a simples acidentalidade, e de-
ao domnio do M., os msticos prticos do Cris-           grada Deus porque faz dele um dolo e de si
tianismo, como Santa Teresa, Santa Catarina de            mesmo um favorito em sua corte" {Ibci,
Siena, S. Francisco, Joana D'Arc e outros (cf. H.          Werke, II, p. 219).
DKLACKOIX, tude cCbistore et de psychologie
                                                               Na filosofia contempornea o M. foi defen-
dn mysticisme, Paris, 1908; J. H. LEIA. 'lhe             dido por Bergson, que nele viu a "religio din-
Psycbology ofReligkms Mysticism, 1925).                   mica", a religio que continua o el criador da
   A prtica mstica consiste essencialmente              vida e tende a criar formas de vida mais perfei-
em definir os graus progressivos da ascenso              tas para o homem. "O amor mstico' -- diz
do homem at Deus, em ilustrar com metfo-                Bergson -- "'identifica-se com o amor de Deus
ras o estado de xtase e em procurar promover             por sua obra, amor que criou todas as coisas e
essa ascenso com discursos edificantes. Os                capaz de revelar a quem souber interrog-lo
graus da ascenso mstica so habitualmente               o mistrio da criao.  composto de essncia
trs: pensamento (cogitatio), que tem por obje-           mais metafsica que moral. Com a ajuda de
to as imagens provenientes do exterior e                  Deus, ele gostaria de aperfeioar a criao da
destina-se a considerar as marcas de Deus                 espcie humana e fazer da humanidade o que
nas coisas; a meditao (medilatio), que  o              logo teria sido possvel, se tivesse podido cons-
recolhimento da alma em si mesma e que tem                tituir-se definitivamente sem a ajuda do ho-
por objeto a imagem de Deus; e a contempla-               mem." Em outras palavras,  ao el mstico que
o (contemplatio), que visa a Deus mesmo.                se pode atribuir o restabelecimento da "funo
Esses graus esto ilustrados e subdivididos de            essencial do universo, que  uma mquina des-
vrios modos pelos msticos, que habitualmen-             tinada a criar divindades" (Deux sources; trad.
te dividem cada um desses graus em outros                 it., pp. 256, 349). Essa interpretao do M., feita
 MISTIFICAO                                        673                                         MITO

por Bergson, no se diferencia do pantesmo             validade moral ou religiosa ao M. O que o M.
comum (v.).                                             diz -- supe-se -- no  demonstrvel nem
  MISTIFICAO (in. Mystificatkm, fr. Mys-              claramente concebvel, mas sempre  claro o
 tificathm; ai. Mystificatkm; it. Mistificazione).      seu significado moral ou religioso, ou seja o
 Interpretao de um conceito de modo obscu-            que ele ensina sobre a conduta do homem em
 ro, falaz ou tendencioso. Marx, p. ex., dizia: "A      relao aos outros homens ou em relao  di-
 M. que a dialtica sofre nas mos de Hegel no         vindade. Assim, a respeito dos M. morais ex-
 exclui em absoluto que ele tenha sido o pri-           postos em Grgias, Plato diz: "Talvez estas
meiro ii expor cie maneira ampla c consciente           coisas paream A. c/e mulheres velhas c as
as formas gerais do movimento da dialtica"            considerareis com desprezo. E no seria desca-
(Correspondncia Marx-Engels; trad. it.. V, p.         bido desprez-las se, com a investigao, pu-
28). Segundo Marx, a dialtica de Hegel era            dssemos encontrar outras coisas melhores e
"mistificacla" porque interpretada do ponto            mais verdadeiras. Mas vs tambm, tu. Plos e
de vista idealista, e no materialista. De ma-         Grgias, que sois os gregos mais sbios de nos-
neira anloga, chama-se de M. o conceito de            sos dias, no conseguis demonstrar que con-
liberdade segundo o qual ela coincide com ne-          vm viver outra vida que no esta" (Grg., 527
cessidade, o que, implicitamente, nega a liber-        a-b). Analogamente, atribui-se significado reli-
dade, etc.                                             gioso ao M sempre que, com esse nome, so
    MITO (gr. |Ueo: lat. Mytbus; in. Mytb; fr.       designadas determinadas crenas, como p. ex.
Mythe-, ai. Mythos). Alm da acepo geral de          quando se diz "M. cosmognico", "M. soterio-
"narrativa", na qual essa palavra  usada, p. ex.,     lgico", ou "M. escatolgico", etc. Na linguagem
na Potica (I, 1451 b 24) de Aristteles, do pon-      comum prevalece essa acepo do significado
to cie vista histrico  possvel distinguir trs      em sua forma extrema, ou seja, como de crena
significados do termo: l'J M. como forma ate-          dotada de validade mnima e de pouca verossi-
nuada de intelectualidade; 2U M. como forma            milhana; nesse sentido, chama-se de mtico o
autnoma de pensamento ou de vicia; 3Q M.              que  inatingvel ou contrrio aos critrios do
como instrumento de estudo social.                     bom senso comum, como p. ex. "perfeio
    ly Na Antigidade clssica, o M.  considera-      mtica".
do um produto inferior ou deformado da ativi-              A essa esfera de interpretao do M. perten-
dade intelectual. A ele era atribuda, no mxi-        cem as chamadas teorias naturalistas, que pre-
mo, "verossimilhana", enquanto a "verdade"            valeceram no sc. XIX na Alemanha. Segundo
pertencia aos produtos genunos do intelecto.          elas, o M.  produto da mesma atitude terica
Esse foi o ponto de vista de Plato e de Arist-       ou contemplativa que dar origem  cincia;
teles. Plato contrape o M.  verdade ou  nar-       consiste em tomar determinado fenmeno na-
rativa verdadeira ( Grg., 523 a), mas ao mesmo        tural como chave para a explicao de todos
tempo atribui-lhe verossimilhana, o que. em           os outros fenmenos. Os fenmenos astro-
certos campos,  a nica validade a que o dis-         nmicos, os meteorolgicos e outros foram
curso humano pode aspirar (Tini., 29 d) e, em          invocados com esse fim. Mais recentemente,
outros, expressa o que de melhor e mais ver-           outra escola sociolgica viu no M. sobretudo a
dadeiro se pode encontrar (Grg., 527 a). Tam-         lembrana dos acontecimentos passados. Km
bm para Plato o M. constitui a "via humana           ambos os casos essas "explicaes naturalistas"
mais curta" para a persuaso; em conjunto, seu         do M. nada mais fazem que reduzi-lo a uma
domnio  representado pela zona que fica              forma imperfeita de atividade intelectual.
alm do crculo estrito do pensamento racional,            2- para a segunda concepo de M., este 
na qual s  lcito aventurar-se com suposies        uma forma autnoma de pensamento e de
verossmeis. Substancialmente, Aristteles assu-       vida. Nesse sentido, a validade e a funo do
me a mesma atitude em relao ao M: este s            M. no so secundrias e subordinadas em re-
vezes  oposto  verdade (Hist. An., VIII, 12,         lao ao conhecimento racional, mas origin-
597 a 7), mas outras vezes  a forma aproxima-         rias e primrias, situando-se num plano dife-
liva e imperfeita que a verdade assume, quan-          rente do plano do intelecto, mas dotado de
do, p. ex., explica-se "a razo de uma coisa em        igual dignidade. Foi Vio o primeiro a expres-
forma de M." Ubid, VI, 35, 580 a 18). A esse           sar esse conceito de M.: "As fbulas, ao nasce-
conceito de M. como verdade imperfeita ou di-          rem, eram narraes verdadeiras e graves
minuda freqentemente se une a atribuio de          (donde ter a fbula sido definida como vera
MITO                                                 674                                              MITO


narratio) que no mais das vezes nasceram obs-              symbolischen Formen, II, 1925; trad. in., 1955,
cenas, e por isso depois se tornaram impr-                p. 24).
prias, a seguir alteradas, ento inverossmeis,                Mais tarde, em Ensaio sobre o homem, Cas-
adiante obscuras, da escandalosas, e finalmen-            sirer viu o carter distintivo do M. em seu fun-
te incrveis, que so as sete fontes da dificulda-         damento emotivo. "O substrato real do M. no
de das fbulas" (5c. ., II, Pruove filos, per Ia           de pensamento, mas de sentimento. O M. e
discoverta dei vero Omero, IV). Portanto, a ver-           a religio primitiva no so por certo de todo
dade do M. no  uma verdade intelectual cor-              incoerentes, no so totalmente desprovidos
rompida ou degenerada, mas uma verdade                     de senso ou razo. Mas sua coerncia provm
autntica, embora com forma diferente da ver-              muito mais da unidade sentimental que de re-
dade intelectual, com forma fantstica ou poti-           gras lgicas. Essa unidade  um dos impulsos
ca: "Os caracteres poticos nos quais consiste a           mais fortes e mais profundos do pensamento
essncia das fbulas nasceram, por necessida-              primitivo" (Fssay ou Man. cap. 7; trad. it., pp.
de natural, da incapacidade cie extrair as for-            124-25). Contudo, essa concepo tambm
mas e as propriedades dos assuntos; por con-               pertence ao tipo de interpretao para a qual o
seguinte, devia ser maneira de pensar de povos             M.  uma forma espiritual autnoma em rela-
inteiros que tivessem sido postos em tal neces-            o ao intelecto.
sidade natural, que  nos tempos de sua maior                  Tambm  desse tipo a interpretao socio-
barbrie" (Ibid., VI). Desse ponto de vista "os            lgica, para a qual o M.  produto de uma
poetas devem ter sido os primeiros historiado-             mentalidade pr-lgica. Esta foi a tese dos so-
res das naes" (Ibid., X), e os caracteres poti-         cilogos franceses Durkheim e Lvy-Bruhl. O
cos contm significados histricos que, nos pri-           primeiro afirmou que o verdadeiro modelo do
meiros tempos, foram transmitidos de cor pelos             M. no  a natureza, mas a sociedade, e que.
povos (Ibid., IX).                                         em todos os casos, ele  a projeo da vida so-
    O Romantismo adotou esse conceito de M.                cial do homem: projeo que reflete as ca-
c o ampliou em uma metafsica teolgica. A Fi-             ractersticas fundamentais dessa vida social
losofia da mitolugiae Schelling v no M., con-            (Les formes lmentaires de sa vie religieu.se,
siderado como religio natural do gnero hu-                1912). O segundo definiu o pensamento mtico
mano, uma das fases da auto-revelao do                   como pensamento pr-lgico. no sentido que
Absoluto. O M. faz parte integrante do proces-             este prescindiria completamente da ordem
so cie teofania; este nada tem a ver com a na-             necessria que. para o pensamento lgico,
tureza, ou melhor, tem a ver com ela s indire-            constitui a natureza, e veria a prpria natureza
tamente, e na medida em que a natureza                    como "uma rede de participaes e de exclu-
revelao de Deus. O M.  uma fase da teo-                 ses msticas, na qual nada valem a lei de
gonia que est alm e acima da natureza por-               contradio e as outras leis do pensamento l-
que  a manifestao de Deus como conscin-                gico" (La mentalit primitive, 1922; L'me
cia da natureza ou relao desta com o eu                  primitive, 1928).
(Werke, II, I, pp. 216 ss.). Fora dessas especu-               3o A terceira concepo de M. consiste na
laes, tpicas do idealismo romntico, a dou-             moderna teoria sociolgica que se pode atri-
trina do M. como forma autnoma de expres-                 buir principalmente a Eraser ( The Golden
so e de vida encontrou ampla acolhida na filo-            Bough, 1911-15) e a Malinowski. Este ltimo v
sofia e na sociologia contemporneas. Na                   no M. a justificao retrospectiva dos elemen-
filosofia, a melhor expresso desta interpreta-            tos fundamentais que constituem a cultura de
o do M.  o segundo volume de Filosofia das              um grupo. "O M. no  uma simples narrativa,
formas simblicas (1925), de Cassirer, no qual a           nem uma forma de cincia, nem um ramo de
caracterstica do pensamento mtico  avistada             arte ou de histria, nem uma narrao expli-
na distino malograda ou imperfeita entre                 cativa. Cumpre uma funo sui generis, intima-
smbolo e objeto do smbolo, ou seja, na                   mente ligada  natureza da tradio,  continui-
compreenso falha ou imperfeita do smbo-                  dade da cultura,  relao entre maturidade e
lo como tal. Cassirer diz: "O M. surge espiri-             juventude e  atitude humana em relao ao
tualmente acima do mundo das coisas, mas,                  passado. A funo do M. , em resumo, refor-
nas figuras e nas imagens com que ele substitui            ar a tradio e dar-lhe maior valor e prestgio,
este mundo, v outra forma de materialidade e              vinculando-a  mais elevada, melhore mais so-
de ligao com as coisas" (Philosophie der                 brenatural realidade dos acontecimentos ini-
MITO                                               675                                             MOBIL

ciais." Nesse sentido, o M. no se limita ao             ceiro ponto de vista, o que certamente  uma
mundo ou  mentalidade dos primitivos.  in-             vantagem. Outra vantagem  que ele explica a
dispensvel a qualquer cultura. "Cada mudana            funo exercida pelo M. nas sociedades mais
histrica cria sua mitologia, que, no entanto,           avanadas e as caractersticas dspares que ele
tem relao indireta com o fato histrico. O M.          pode assumir nessas sociedades; nelas, podem
6 acompanhamento constante da f viva, que               constituir M. no s narrativas fabulosas, hist-
precisa cie milagres, do status sociolgico, que         ricas ou pseudo-histricas, mas tambm figu-
pede precedentes, da norma moral, que exige              ras humanas (heris, lderes, etc), conceitos e
sano" ("Myth in Primitive Psychology", 1926,           noes abstratas (nao, liberdade, ptria, pro-
in Magic, Science and Religion, 1955, p. 146).           letariado), ou projetos de ao que nunca se
Por outro lado, Lvi-Strauss estudou a estrutura         realizaro (a "greve geral'1 de que falava Sorel
(v.) do M. nas sociedades primitivas, analisan-          como M. do proletariado; cf. Rflxions sur Ia
do alguns em seus elementos mais simples                 uiolence, 1906). A disparidade de contedo do
( mitemas) e estudando suas combinaes pos-             M. demonstra a impossibilidade de relacion-
sveis, que explicam tambm as semelhanas e             lo, com base em seu teor, com esta ou aquela
diferenas entre M. vigentes em grupos huma-             forma espiritual, indicando que, ao contrrio, 
nos diversos (Anthropologie structurale, 1958,           preciso estud-lo em relao  funo que exer-
cap. XI). Alm disso, mostrou que o M. no              ce na sociedade humana.
uma narrativa histrica, mas a representao                MITO DA CAVERNA. V. CAVERNA.
generalizada de fatos que recorrem com unifor-               MITOLGICO (ai. Mythologisch). Na obra
midade na vida dos homens: nascimento e                  de Rudolf Bultmann este termo recebeu um
morte, luta contra a fome e as foras da natu-           significado especial, importante para a interpre-
reza, derrota e vitria, relacionamento entre os         tao que esse autor faz do Cristianismo: "M. 
sexos. Por isso, o M. nunca reproduz a situao          a forma de representao em que aquilo que
real, mas ope-se a ela, no sentido de que a re-         no  mundano, que  divino,  representado
presentao  embelezada, corrigida e aperfei-           como mundano, humano, o alm como o
oada, expressando assim as aspiraes a que             aqum, em que, p. ex., a transcendncia de
a situao real d origem. Para caracterizar a           Deus  pensada como distncia espacial. Em
relao entre o M. e a realidade que o inspira           conseqncia dessa representao, o culto 
 adotada a palavra dialtica(v.) ("The Story of         entendido como uma ao na qual os meios
Asdiwal", em lhe Structural Study ofMylh and             materiais transmitem foras imateriais." Nesse
 Totemism, Leach, 1969, pp. 29 ss.). Outros              sentido,  bvio que a palavra mito no tem
autores preferem falar em retroalimentao               o sentido moderno, "em que no significa nada
(feedback), visto que o M. reage sobre a si-             mais do que ideologia" (Ketygma undMythos,
tuao que o provocou, tendendo a modifi-                1, 1951, p. 22, n. 2). Cf. MIEGGE, VEvangelo e il
car o universo social do qual surgiu; este,              mito, Milo, 1956.
uma vez modificado, provoca uma resposta
no campo do M., e assim por diante (DOUGLAS,                MNEMNICA, MNEMOTCNICA (lat. A rs
no mesmo volume, pp. 57 ss.). Em todos os ca-            nwmoriae, in. Mnemonics-, ir. Mnmoniqne-,
sos, o M. apresenta-se como "filosofia nativa",          ai. Mnemonik, Mnemotechnik, it. Mnemonica,
segundem a expresso de Lvi-Strauss, que  a            Mnemotecnica). A arte de cultivar a memria.
forma como o grupo social expressa sua pr-              Trata-se de uma arte antiqussima, que Ccero
pria atitude em relao ao mundo ou como                 atribui a Simonides (De or, II, 86, 351). Essa
procura resolver o problema da sua existncia.           arte foi cultivada pelos sofistas; Hpias vanglo-
    Desse ponto de vista, o M. no  definido            riava-se de ser seu mestre (Hpias menor, 368
segundo determinada forma do esprito, como              d; Hpias maior, 286 a). O gosto por essa arte
p. ex. o intelecto ou o sentimento, o que acon-          ressurgiu no Renascimento e foi cultivada es-
tece nas duas interpretaes precedentes, mas            pecialmente por Giordano Bruno, que lhe de-
em relao  funo que desempenha nas                   dicou um grupo de obras (De nmbris ideanim,
sociedades humanas: funo que pode ser es-              1582; Ars memoriae, 1582; Cantus circaeus,
clarecida e descrita com base em fatos obser-            1582; 1'riginta sigillonim explicaio, 1583, etc.)
vveis. A desvalorizao do M., presente na              (v. CLAVIS UNIVERSALIS). A psicologia contempo-
 primeira concepo, e a sua supervalorizao.           rnea voltou a tratar desse assunto com meios
 presente na segunda, no tm lugar nesse ter-           experimentais.
                                                            MBIL. V. MOTIVO.
MOBILISMO                                          676                                       MODALIDADE


    MOBILISMO (fr. Mobilisme). A palavra                    MODALIDADE (kit. Modulitus; in. Moda-
moderna (cf. CHIDK, Le mobilisme modenw,                 lity, fr. Modalit, ai. Modulitt; it. Modulit).
1908);  pouco usada em italiano e em francs,           Diferenas de predicao, ou seja, diferenas
mas serve para exprimir a atitude filosfica da-         que podem ser produzidas pela referncia de
queles que Plato chamava de "fluentes" (1'eet.,         um predicado ao sujeito da proposio. Tais
181 a), para quem tudo muda e nada est pa-              diferenas foram reconhecidas pela primeira
rado: como faziam na Antigidade os seguido-             vez por Aristteles, de acordo com seu concei-
res de Herclito e como fazem, na filosofia mo-          to do ser predicativo (v. SER, 1), que  a inerncia.
derna, os filsofos do devir.                            Ele diz que "uma coisa  inerir, outras coisas
    MODA (in. Fashiori; fr. Mode-, ai. Mode, it.         so inerir necessariamente e poder inerir, pois
Moda). Kant interpretou a M. como uma forma              muitas coisas inerem, mas no necessariamente,
de imitao baseada na vaidade, porquanto                outras no inerem nem necessria nem sim-
"ningum quer parecer inferior aos outros,               plesmente, mas podem inerir" (An. pr., I, 8, 29
mesmo nas coisas que no tm utilidade algu-             b 29). Desse modo, Aristteles distingue: 1Q
ma". Desse ponto cie vista, "estar na M.  ques-         inerncia pura e simples do predicado ao sujei-
to de gosto; quem est fora de M. e adere a             to; 2- inerncia necessria; 3Q inerncia poss-
um uso passado  chamado de antiquado; quem              vel. Posteriormente, os fomentadores de Aris-
no d valor ao fato de estar fora de M.  um            tteles deram o nome de modos  segunda e 
excntrico"; Kant diz que " melhor ser louco            terceira formas de predicao, e de "proposi-
na M. do que fora dela", e que a M. s  real-           es modais" s proposies necessrias e pos-
mente louca quando sacrifica a utilidade ou              sveis (AMMOMO, Deinterpr., f. 171 b; BOCIO,
mesmo o dever em avor cia vaidade (Antr., I,            De interpr, II, V, P. I... 64Q, col. 582). Na Idade
 71). Na realidade, hoje essa anlise de Kant           Mdia, deu-se o nome de proposio de inesse
no  mais suficiente, pois se sabe que a M.             ou depuro inesse  proposio hoje conhecida
infiltra-se em todos os fenmenos culturais, in-         como assertrica, e de modais s proposies
clusive nos filosficos. Na Idade Moderna                necessrias ou possveis. (ABELARDO, Dialect., II,
foram M. o cartesianismo, o iluminismo, o newto-         p. 100; PEDRO HISPANO, Summ. log., 1.3D. Na
nismo, o darwinismo, o positivismo, o idealis-           Lgica (1638) de Jungius d-se o nome de
mo, o neo-idealismo, o pragmatismo, etc: dou-            "enunciao pura"  proposio assertrica, e
trinas todas que tiveram importncia decisiva            de "enunciao modificada ou modal"  propo-
na histria da cultura. Por outro lado, foram M.         sio necessria ou possvel. O mesmo uso oi
tambm movimentos culturais que pouco ou                 adotado pela Lgica de Port-Royal (I, 80. e por
nenhum vestgio deixaram. Pode-se dizer que              Wolff (Log.,  69). Pode-se dizer, portanto, que
a funo da M.  introduzir nas atitudes ins-            Kant nada mais fazia que reexpor esta longa
titucionais de um grupo ou, mais particularmen-          tradio ao afirmar: "A M. dos juzos  uma fun-
te, em suas crenas, por meio de rpida comu-            o particular deles, que tem o seguinte carter
nicao e assimilao, atitudes ou crenas novas         distintivo: no contribui em nada para o con-
que, sem a M., teriam grande dificuldade para            tedo do juzo (j cjue, alm da quantidade, da
sobreviver e impor-se. Esta funo especfica,           qualidade e da relao, nada mais h que for-
graas  qual a M. age como uma espcie de               me o contedo do juzo), mas afeta apenas o
controle que limita ou enfraquece os controles           valor da cpula em relao ao pensamento em
da tradio, torna intil a exaltao ou o des-          geral. Juzos problemticos so aqueles em que
dm em relao  M.                                      se admite a afirmao ou a negao como sim-
                                                         plesmente possvel (arbitrrio); assertricos so
   MODAL(in. Modal- fr. Module-, ai. Moda!; it.          os juzos em que a alirmao ou a negao tem
Module). Este termo designa a proposio na              valor de realidade (verdade); so apoditicosos
qual a cpula recebe uma determinao com-               juzos em que a afirmao ou a negao tem
plementar qualquer. Para as proposies M., v.           valor de necessidade'1 (Crt. R. Pura,  9, 4).
iMODAUDADE.
   MODAL, LEI (ai. Modules Grundgesetz).                    Na lgica contempornea o desenvolvimento
Foi assim que Hartmann chamou a reduo de               da M. no foi levado a um grau suficiente de
todas as modalidades do ser (possibilidade e             clareza conceptual e de elaborao analtica.
necessidade)  efetividade, isto . ao ser de            Isto porque a lgica contempornea molda-se
fato (Mglicbkeit und Wirklichkeit, 1938, p. 71)         pela matemtica, que praticamente ignora, ou
(v. NECESSIDADE).                                        pode ignorar, o uso das M. No  de surpreen-
MODALIDADE                                           677                                     MODALIDADE

der, portanto, que tenha sido exposta a tese da            Sciences et Lettres de Varsovie, 1930, pp. 30, 50,
extensionalidade (v.), que eqivale  elimina-            176). Carnap aceitou as seis M. da tradio
o das M. dos enunciados. Contudo essa tese               aristotlica (Meaning and Necessity.  39).
no impediu que seus prprios defensores ten-                  O conceito de M. no est bem claro nessas
tassem uma interpretao das M. Russell afir-              doutrinas da lgica contempornea. Assim indi-
mou que as M. no so propriedades das pro-                caremos apenas as confuses mais freqentes:
posies, mas das funesproposicionais (v.):              1- tentativa de reduzir os enunciados modais a
assim, seria necessria a funo proposicional             enunciados quantitativos: 2a tentativa de redu-
"Se x  homem, x  mortal", que  sempre                   zir a M. a valor de verdade da proposio; 3a
verdadeira; seria possvel a funo "x homem",            tentativa de tornar as M. predicados umas das
que algumas vezes  verdadeira; e seria impos-             outras.
svel a funo "x unicorno", que nunca  ver-                 Ia A primeira tentativa consiste em estabele-
dadeira ("The Philosophy of Logical Atomism",              cer a correspondncia entre enunciados univer-
1918, cap. V, em Logic and Knowledge, pp. 230              sais e proposies possveis. Assim, "todos os
ss.). Mas essa interpretao de Russell eqivale           homens morrem'" seria equivalente a "os homens
simplesmente  inverso paradoxal das M., por-             devem morrer", e "alguns homens so artistas"
quanto o sentido modal da expresso "Se x                 seria equivalente a "os homens podem ser ar-
homem, x mortal" no  a necessidade, mas                 tistas". Essas transcries sem dvida so insu-
a possibilidade, pois ela na verdade significa "x          ficientes, pois nem a proposio necessria nem
pode ser mortal". Outra sugesto de Russell (op.           a possvel expressam fatos como as correspon-
cit., p. 23D  a identificao de necessrio com           dentes proposies universais e particulares (cf.
analtico, com afirmaes do tipo ".r x". Carnap,         A. PAP, Semantics and Necessary Truth, 1958,
por sua vez, ateve-se a essa interpretao quando          p. 368); ademais, a proposio possvel tem
tentou construir a M. com base no conceito de              significado distributivo ("todo homem pode ser
necessidade lgica, analiticidade, e definiu pos-          artista"), que estaria excludo da proposio
sibilidade como a negao de tal necessidade               particular correspondente. Mas tambm  evi-
(Meaning and Necessity, 1957.  39).  fcil               dente que nenhuma transcrio desse gnero 
notar que essa interpretao eqivale  nega-              possvel para proposies modais do tipo "x
o pura e simples das M. e no pode valer                 pode ser", que no entanto ocorrem em todos
como lgica delas. Por outro lado. Quine mos-              os ramos da cincia sempre que se trate de
trou as dificuldades inerentes s abordagens               hipteses, previses, probabilidades, antecipa-
das M. que se baseiam na quantificao, como               es, etc.
a de Carnap (From a Logical Point of View,
                                                               2a A segunda confuso consiste em alinhar
VIII, 4).
                                                           a M. entre os valores de verdade das proposi-
    A respeito da distino das M. ou, como se             es; essa confuso est presente mesmo nas
diz hoje, dos valores modais das proposies,              chamadas lgicas das M. Ora, os valores de
a tbua de valores mais antiga e autorizada 6 a            verdade das proposies (verdadeiro, falso,
apresentada por Aristteles, em De interpre-               provvel, indeterminado, etc.) pertencem a um
tatione, que compreende seis valores: verda-               nvel diferente do nvel da M., que  uma deter-
deiro, falso; possvel, impossvel; necessrio,            minao da predicao, ou seja, da relao entre
contingente (De int., 12, 21 b). Essa lgica com           sujeito e predicado cia proposio. Os valores
seis valores no foi alterada na Idade Mdia               de verdade pertencem  esfera de referncia
(cf., p. ex., PKDRO HISPANO, Sitmm. log., 1.30),           semntica das proposies; as M. pertencem 
sendo desenvolvida e defendida tambm pelos                estrutura de relaes das proposies. Indicam,
lgicos contemporneos, como p. ex. LEWIS (A               portanto, se tal estrutura pode ser ou no dife-
Survey of Symbolic Logic, 1918). Algumas ve-               rente do que , se o contedo de um enuncia-
zes, os valores modais foram reduzidos a cin-              do (seu significado) pode ser ou no diferente
co, com a identificao de possibilidade e con-            daquilo que o enunciado expressa. As M. fun-
tingncia (p. ex., O. BECKEK, "Zur Logik der               damentais so, ento, duas e apenas duas: pos-
Modalitten", em fahrfr Phil. und Phnom.                 sibilidades necessidade, com seus opostos no-
Forsbchung, 1930, pp. 496-548). Lukasiewicz e              possibilidadec impossibilidade. Elas modificam
Tarski construram uma lgica com trs M.-. ver-           os valores de verdade das proposies no sen-
dadeiro, falso e possvel (cf. os artigos em               tido de limit-los ou estend-los, mas no de-
Comptes Reunds des Sances de Ia Socit des               vem ser confundidas com tais valores: a pre-
MODALISMO                                             678                                     MODERNISMO


dicao recproca supe, alis, a diversidade               da como hertica pela Igreja crist, que insistiu
dos nveis, e pode-se dizer "necessariamente                na igualdade e na distino das pessoas divinas.
verdadeiro" ou "possivelmente verdadeiro" pre-              No sc. III, o M. foi sustentado por Sablio; viu-
cisamente porque possibilidade e verdade,                   se tambm uma espcie de M. na doutrina de
verdade e necessidade pertencem a duas esfe-                Scotus Erigena e de Abelardo; este ltimo foi
ras diversas e no so excludentes entre si.                criticado por S. BERNARDO (De erroribus Abe-
    3  terceira confuso  inerente  tentativa            lardi, 3, 8). Outro nome ciado  mesma heresia
de predicao recproca das M. Essa tentativa               monarquismo (v.).
to contraditria quanto a de predicao rec-                  MODELO (in. Model; fr. Modele, ai. Modelh
proca entre os valores de quantidade ou cie                 it. Modello). 1. Uma das espcies fundamentais
verdade das proposies. A tese fundamental                 de conceitos cientficos (v. CONCEITO), mais
desse ponto de vista  a do carter alternativo             precisamente o que consiste na disposio
das M. Mas essa tese foi em geral desconhecida              caracterizada pela ordem dos elementos de
ou ignorada pelos lgicos da M. a partir de                 que se compe, e no pela natureza desses ele-
Aristteles. Este ltimo realmente cuidou da                mentos. Por isso, dois M. so idnticos se a re-
predicao recproca das M. e afirmou, p. ex.,              lao de suas ordens puder ser expressa como
que o que  necessrio tambm deve ser pos-                 correspondncia biunvoca, ou seja, tal que a
svel, uma vez que no se pode dizer que                   um termo de um corresponda um, e apenas
impossvel (Deint., 13, 22 b 11). Mas essa afir-            um, do outro, e que a cada relao de ordem
mao ou leva a considerar o necessrio como                entre os elementos de um corresponda idnti-
possvel, ou seja, como no necessrio, ou leva             ca relao entre os elementos correspondentes
a dividir em dois o conceito de possvel (que              do outro. O clculo numrico ordinrio  o
o caminho seguido por Aristteles), com o re-               melhor exemplo de correspondncia biunvoca:
conhecimento de uma espcie de possvel que                 se, de um lado, houver cinco livros e, de outro,
se identifica com o necessrio (y. POSSVEL). Por           cinco lpis, essas duas sries de objetos podem
otitro lado, a afirmao recproca (que Aristteles         ser alinhadas na mesma, ordem ou os objetos
ilustrou com o famoso exemplo da batalha naval),            podem ser colocados um sobre o outro. Do
de que o possvel  necessrio no sentido de                mesmo modo, a srie dos nmeros inteiros tem
que necessariamente h um possvel (p. ex.,                 correspondncia biunvoca com os nmeros
necessariamente amanh haver ou no uma                    pares, e assim por diante. Para ser til, um M.
batalha naval), eqivale a tornar necessria a              deve ter as seguintes caractersticas: 1) simplici-
indetenninao e a negar o possvel como tal.               dade, para que seja possvel sua definio exa-
De fato, "E necessrio que .rseja possvel" sig-            ta; 2) possibilidade de ser expresso por meio
nifica que xdeve manter-se indeterminado sem                de parmetros suscetveis de tratamento mate-
nunca realizar-se; mas nesse caso x no  um                mtico; 3) semelhana ou analogia com a reali-
possvel. Essas antinomias ou paradoxos sur-                dade que se destina a explicar.
gem do desconhecimento do carter exclusivo                     Os M. mecnicos pareciam indispensveis 
das diferenas modais, em virtude do qual elas              cincia do sc. XIX, mas hoje diferentes disci-
so alternativas inconciliveis. Por outro lado,            plinas utilizam M. puramente tericos: econo-
os valores de verdade podem ser predicados                  mia (que utiliza jogos), psicologia, biologia,
das M.; h um possvel verdadeiro, como p. ex.              antroplogia (cf. HKMPF.L, Aspects of Scientific
"o homem pode ser branco", e um possvel                    Rxplanation, 1965, p. 445 e nota 28). Lvi-
falso, como "o homem pode ser retngulo". E                 Strauss considerou a estrutura (v.) como um M.
pode haver uma necessidade verdadeira e uma                 desse gnero, para a explicao dos fatos so-
necessidade falsa, que  o absurdo. Esses repa-             ciais (Anthropologiestructurale, 1958, cap. XV).
ros exigiriam desenvolvimentos analticos ade-
quados. Para mais observaes, v. NECESSRIO;                   2. O mesmo que arqutipo (v.).
POSSVKL.                                                       MODERNISMO (in. Modernism; fr. Moder-
                                                            nisme. ai. Modernismus; it. Modernismo). Ten-
   MODALISMO (in. Modalism- fr. Modalis-                    tativa .de reforma catlica que teve alguma
me; ai. Modalismus-, it. Modalismo). Esse nome              difuso na Itlia e na Frana na ltima dcada
 dado  interpretao da Trindade crist que               do sc. XIX e na primeira do sc. XX; foi conde-
consiste em ver nas trs pessoas divinas trs               nado pelo papa Pio X com a encclica Pascendi
modos ou manifestaes da substncia divina                 de 8 de setembro de 1907. Essa tentativa inspi-
nica. Essa interpretao sempre foi condena-               rou-se nas exigncias da filosofia da aoiv),
MODERNISMO                                          679                                           MODO

nela haurindo o significado que deve ser atri-            progresso e  ascenso do povo, cuja vida na
budo aos conceitos fundamentais da religio:             histria  a manifestao da vida divina. Tais
Deus, revelao, dogma, graa, etc. O M. inspi-           foram as idias polticas defendidas principal-
ra-se principalmente nas idias de Oll Lapru-            mente por Romolo Murri. Cf. E. BUONAIUTI, Le
ne e de Blondel, que permaneceram alheios ao              modemismecatholique, 1927; J. RIVIKRH, Lemo-
movimento, e conta com os nomes de I.aber-                dernisme dans Vglise, 1929; GARIN, Cronache
ihonnire, Loisy e Le Roy. Na Itlia, assumiu es-         cli filosofia italiana, 1943-55, 1956.
pecialmente a forma de crtica bblica (Salva-               MODERNO (lat. Modernu.% in. Modem, fr.
tore Minocchi, Ernesto Buonaiuti) e de crtica            Moderne, ai. Modem, it. Moderno). Este adjeti-
poltica (Romolo Murri), enquanto o debate fi-            vo, que foi introduzido pelo latim ps-clssico
losfico limitava-se a reproduzir, com escassa            e significa literalmente "atual" (de modo = ago-
originalidade, as idias do M. francs. Os pon-           ra), foi empregado pela Escolstica a partir do
tos bsicos podem ser expostos assim:                     sc. XIII para indicar a nova lgica terminista,
    1Q Deus revela-se imediatamente (sem in-              designada como via moderna em comparao
termedirios)  conscincia do homem. Laber-              com a via antiqua da lgica aristotlica. Esse
thonnire cliz: "Se o homem deseja possuir                termo tambm designou o nominalismo, que
Deus e ser Deus,  porque Deus j se deu a                est intimamente ligado  lgica terminista.
ele.  assim que podem ser e so encontradas              Walter Burleigh diz: "Embora o universal no
na natureza as exigncias do sobrenatural"                tenha existncia fora da alma, como dizem os
(Essais dephilosophie religieuse, 1903, p. 171).          modernos, etc." (Kxpositiosuperartem veterem,
Ksse princpio diminua ou anulava a distncia            Venetiis, 1485, f. 59 r; PRAXTL, Ceschicbte der
entre os domnios da natureza e da graa, bem             Logik, III, pp. 255, 299, etc).
como entre o homem e Deus. fazendo de Deus                    No sentido histrico em que essa palavra 
o princpio metafsico da conscincia humana.             hoje empregada habitualmente, em que se fala
Tal  o fundamento do chamado "mtodo da                  de "filosofia moderna" neste dicionrio, indica
imanncia", que pretende encontrar Deus e o               o perodo da histria ocidental que comea de-
sobrenatural na conscincia do homem.                     pois do Renascimento, a partir do sc. XVII. Do
    2Q Deus  sobretudo um princpio de ao, e           perodo M. costuma-se distinguir freqente-
a experincia religiosa  sobretudo uma expe-             mente o "contemporneo", que compreende
rincia prtica. Esse ponto, que tambm deriva            os ltimos decnios.
estritamente da Ao (1893) de Blondel, eqi-                MODERNOS. V. ANTIGOS.
vale a considerar que religio e moral so                   MODIFICAO REPRODUTIVA (ai              Re-
coincidentes. Essa  uma das teses fundamen-          produktive Modfikalion). Assim Husserl cha-
tais de Loisy (La religion, 1917, p. 69).             mou as representaes das coisas e das vi-
    3- Os dogmas nada mais so que a expres-          vncias que j nos foram dadas uma vez em
so simblica e imperfeita -- porque relativa         suas modalidades peculiares (Ideen, I,  44).
s condies histricas do tempo em que se               MODO (gr. xpico; lat. Modus, in. Mode-, fr.
constituem -- da verdadeira revelao, que  a        Mode; ai. Modus-, it. Modo). Com este termo fo-
revelao feita por Deus mesmo  conscincia          ram designadas:
do homem. Esse foi o ponto cie vista que Loisy           1Q As diversas formas do ser predicativo (v.
defendeu na mais famosa obra do M., /. Hvangile           MODAI.IDADH).
et Tglise (1902).                                       2" As determinaes no necessrias (ou
   4" Os instrumentos de investigao filolgica      no includas na definio de uma coisa). O M.
devem ser aplicados sem limitaes  Bblia;          j era entendido pela lgica medieval nesse
isso significa que ela deve ser considerada e es-     sentido (cf., p. ex., PHDKO HISPANO, Sunwi. log.,
tudada como um documento histrico da hu-             1.28). Foi retomado por Descartes, que enten-
manidade, ainda que de carter excepcional e          deu por M. as qualidades secundrias mutveis
fundamental. Esta foi a convico tanto de            das substncias e as contraps aos atributos.
Loisy quanto daqueles que, na Itlia, aceitaram       que constituem as qualidades permanentes ou
o ponto de vista do M. sobre esse assunto,            necessrias. Descartes diz: "J que no devo
especialmente Buonaiuti.                              conceber em Deus variedade ou mudana
   5o No campo da poltica, o Cristianismo no        alguma, digo que nele no h M. ou qualida-
pode conduzir  defesa dos privilgios do clero       des, mas atributos; tambm nas coisas criadas,
ou de outros grupos sociais, mas apenas ao            o que nelas encontra sempre constante,
MODUS PONENS e MODUS TOLLENS                         680                                               MONADA

como a existncia e a durao da coisa que                 positio hypothetica da Lgica de Bocio e dos
existe e dura. chamo de atributo, e no M. ou              escolsticos:  uma proposio formada por
qualidade" (Prnc. phii, I, 56). Esse conceito             uma ou mais proposies atmicas (v.) ligadas
foi repetido por Spinoza (Et., I, def. 5) e por            por certas constantes lgicas, como "no", "c",
Wolff, que diz: "O que no repugna s determi-             "ou", "implica" ("se..., ...") (negao, conjuno,
naes essenciais, mas no  determinado por               disjuno, implicao) e outras. Na lgica de
elas, chama-se M." (Ont,  148). Por outro lado,           Russell as proposies funcionais correspon-
a Lgica de Port-Royal no distinguiu o M. do              dem s proposies moleculares.               G. P.
atributo ou da qualidade, definindo-o como                    MOLINISMO. V. GRAA.
"aquilo que, sendo concebido na coisa de tal                   MOMENTO (in. Moment; fr. Moment; ai.
forma que no pode subsistir sem ela, determi-             Moment: it. Momento). 1. Conceito mecnico:
na-a a ser de certa maneira e a ser denominada             ao instantnea de uma fora sobre um corpo.
correspondentemente" (I, 2). Dessa definio,               assim que Kant define o M. (Metaphysische
Locke aceitava a afirmao de que o M. no                 Anfangsgrinde der Naturwissenscbaft, Nota
pode subsistir independentemente da substn-               sobre a mecnica; Crt. K. Pura, Anal. dos
cia e, assim, definia M. como "as idias comple-           princ, B, ao final).
xas que, embora compostas, no contm em si                    2. Conceito temporal: parte mnima de tem-
a suposio de subsistirem por si prprias, mas            po, desprovida de sucesso (cf. LOCKK, Ensaio,
so consideradas dependncias ou afeces                  II, 14, 10).
das substncias, tal como so as expressas pe-                 3. Conceito dialtico: fase ou determinao
las palavras 'tringulo', 'gratido', homicdio',          do devir dialtico: p. ex., possibilidade e aci-
etc." (Ensaio, II, 12, 4).                                 dentalidade so "os M. da realidade" (HEGEL,
    Faz parte desse mesmo conceito o significa-            Ene,  145); a condio, a coisa e a atividade
do que Spinoza atribui ao termo, entendendo-o              so "os trs M. da necessidade" (HFGEL, ibid,,
como "aquilo que est em outra coisa e cujo                 148); o ser e o nada so "os M. do devir"
conceito se forma por meio dessa outra coisa"              (HHGKL, Wissenschaft derLogik, I, I, se. I, cap.
(Et., l, 8, scol. 2). No entanto, segundo Spinoza,         I, C, nota 2; trad. it., vol. 1, pp. 87 ss.), etc. Esse
o M. deriva necessariamente da natureza divi-              conceito de M. como fase dialtica  o mais co-
na e portanto se distingue do atributo pela sua            mum na filosofia contempornea.
particularidade, e no pela ausncia de necessi-               4. Conceito lgico: fase ou estgio de uma
dade: M. so as coisas e os pensamentos parti-             demonstrao ou de um raciocnio qualquer.
culares que expressam os atributos de Deus,                    MNADA (lat. Monas; in. Monad; fr. Mo-
pensamento e extenso (Ibid., I, 25 scol.; II, 1).          nade-, ai. Monade, it. Monade). Por ter signifi-
    3Q Formas, espcies, aspectos, determina-              cado diferente de Unidade (v.), esse termo de-
es particulares cie um objeto qualquer. Esse             signa uma unidade real inextensa, portanto
significado  o mais geral e comum, sendo tam-             espiritual. Giordano Bruno foi o primeiro a em-
bm o menos preciso.                                       pregar esse termo nesse sentido, concebendo
    4L> Especificao das figuras do silogismo,            a M. como o minimnm, como unidade indivis-
segundo a qualidade e a quantidade das pre-                vel que constitui o elemento de todas as coisas
missas (v. FIGURA; SILOGISMO).                             (De mnimo, 1591; De Monade, 159D. O termo
    MODUS PONENS e MODUS TOLLENS. Na                       foi retomado no mesmo sentido pelos neo-
lgica do sc. XVII. foram assim chamados os               platnicos ingleses, especialmente por H. Mo-
dois modos do silogismo hipottico: o primei-              re, que elaborou o conceito das "M. fsicas",
ro, posto o antecedente, pe o conseqente                 inextensas, portanto espirituais, como compo-
(se A ,  B\ mas A , portanto  B), e o segun-           nentes da natureza (Enchiridion Metaphy-
do, retirado o conseqente, retira o anteceden-            sicum, 1679, 1, 9, 3). A partir cie 1696, Leibniz
te (se A ,  B-. mas A no , portanto no  B)           lanou mo desse termo para designar a subs-
(JUNGIUS, Lgica, 1638, III, 17. 10-11; WOLFF,             tncia espiritual enquanto componente simples
Log.,  409-10).                                          do universo. Segundo Leibniz, a M.  um to-
   MOLECULAR, P R O P O S I   O (in.      Mole-          mo espiritual, uma substncia desprovida de
cular proposition; fr. Proposition molculaire,            partes e de extenso, portanto indivisvel.
ai. Molekular Satz; it. Proposizione moleco-               Como tal, no pode desagregar-se e  eterna;
lare). Termo que entrou em uso com o Trac-                 s Deus pode cri-la ou anul-la. Cada M.  di-
tatus de Wittgenstein; correspondente  pro-               ferente das outras, pois no existem na nature-
MONADOLOGIA                                          681                                  MONOGENISMO

za dois seres perfeitamente iguais (v. IDI-NTIDA-             MONARQUIA. V.   GOVKRNO. FORMAS DE.
D DOS INDISCI-RKIVKIS). Toda M. constitui um
  K                                                           MONARQUISMO. V. MODAI.ISMO.
ponto de vista sobre o mundo, sendo, portan-                   MONSTICO. Vio chamou de filsofos M.
to, lodo o mundo de determinado ponto de                   ou solitrios os esticos e os epicuristas. por-
vista (Monad., 1714,  57). As atividades funda-           quanto "querem o amortecimento dos senti-
mentais da M. so a percepo e a apetio,                dos" e "negam a providncia: aqueles deixan-
mas as M. tm infinitos graus de clareza e dis-            do-se arrastar pelo destino, estes entregando-se
tino-, as providas de memria constituem as              ao acaso, e os segundos opinando que as al-
almas dos animais, e as providas de razo cons-            mas humanas morrem com os corpos". Aos
tituem os espritos humanos. Mas a matria                 filsofos M. Vio contraps os filsofos polti-
tambm  constituda por M., ao menos a ma-                cos, especialmente os platnicos, que convm
tria segunda, j que a matria primeira  a               com os legisladores em admitir a providncia e
simples potncia passiva ou fora inereial (Op.,           a imortalidade, alm da moderao das pai-
ecl. Gerharclt, III, pp. 260-61). A totalidade das         xes (Scienza nuova, 1744, Degnit V).
M.  o universo. Deus  "a unidade primitiva                  MONERGISMO. V. SINKKGISMO.
ou substncia simples originria; todas as M.,                 MONISMO (in. Monism; fr. Monisme, ai.
criadas ou derivadas, so suas produes e                 Monismns; it. Monismo). Wolff chamava cie
nascem, por assim dizer, por fulgurao cont-             "monistas" os filsofos "que admitem um nico
nua da divindade, de momento em momento"                   gnero de substncia" (Psychol. rationalis,  32),
(Monad.,  47).                                            compreendendo nessa categoria tanto os ma-
    As caractersticas dessa doutrina de Leibniz           terialistas quanto os idealistas. Porm, conquan-
                                                           to algumas vezes tenha sido usado para desig-
reaparecem sempre que os filsofos recor-
                                                           nar estes ltimos ou pelo menos algum aspecto
rem ao conceito de M., e esto substancialmen-             de sua doutrina, esse termo foi constantemen-
te presentes nas doutrinas metafsicas do                  te monopolizado pelos materialistas; quando
espiritualismo contemporneo. Atente-se para               usado sem adjetivo, designa o materialismo.
o sabor leibniziano do seguinte trecho de                  Isso se deve provavelmente ao fato de ter sido
Husserl: "A constituio do mundo objetivo                 adotacio por um dos mais populares autores
comporta essencialmente uma harmonia de                    de obras materialistas, o bilogo F.rnst Haeckel
M., mais precisamente uma constituio har-                (Der Monismns ais Band zwischen Keligion
moniosa particular em cada M. e, por conse-                und Wissenschaft. 1893). Nesse sentido, o ter-
guinte, uma gnese que se realiza harmonio-                mo foi empregado no nome da Associao
samente nas M. particulares" (CartMed.,  49)              Monstica Alem (Deutsche Monistenbund),
(v. RSPIRITI ALISM).                                      fundada em 1906 por Haeckel e por Ostwald,
    MONADOLOGIA (in. Monadology, fr. Mo-                   bem como no ttulo de uma das mais antigas
nadologie, ai. Monadologie, it. Monadologia).              revistas filosficas americanas, 'lheMonist, fun-
Este termo serviu a Leibniz de ttulo  breve ex-          dada em 1890 por Paul Canis.
posio de seu sistema, composta a pedido do                   MONOFILETISMO (in. Monopbyletism; fr.
prncipe Eugnio de Savia. em 1714. O termo               Monophyltisme, ai. Monophyletismus; it. Mo-
permaneceu para designar a doutrina das                    nofiletsmo). Doutrina para a qual todas as
mnadas. Kant intitulou M. physica um escrito              espcies vivas derivam de um nico ramo
de 1756. K o termo desde aquela poca ocorre               originrio. A doutrina contrria chama-se polifi-
freqentemente (cf. p. ex. RKNOLVIER e PRAT,               letismo.
Nouvelle monadologie, 1899).                                   MONOFISISMO (in. Monophysism, fr. Mo-
    MONARCMACO (in. Monarchomachist;                      nophysisme; ai. Monopbysismus-, it. Mono-
fr. Monarchomachiste, ai. Monarchomache, it.               fisismo). Interpretao hertica do dogma cris-
Monarcomaco). Foram assim chamados no                      to da Encarnao: o Verbo ou Cristo teria uma
sc. XVII os seguidores do direito natural que             s natureza, a divina. Essa interpretao foi
combatiam o absolutismo monrquico. O nome                 sustentada no sc. V por Eutquio, em oposio
ocorre pela primeira vez no ttulo da obra do              ao nes/oranismo (v.), que sustentava a heresia
catlico escocs GI.ILHF.RME BARKLAY, Deregno              oposta; foi condenado pelo Concilio de Calce-
et regalipotestate adversas Buchanamtm, Brn-               dnia, de 451.
tum, Boucherinm, et relqnos monarchomachos.                   MONOGENISMO (in. Monogenism, fr. Mo-
Paris, 1600.                                               nognisme, ai. Monogenismus; it. Monogenis-
MONOPSIQUISMO                                           682                                      MORALIDADE


mo). Doutrina para a qual todas as raas huma-                das coisas (CCKRO, Acacl, II, 28, 92 ss.; 16, 49;
nas vivas descendem de um nico ramo. A                       DIG. L., VII, 82). O mesmo argumento foi
doutrina contrria chama-se poligenismo.                      s vezes expresso de outra forma sob o nome
   MONOPSIQUISMO (in. Monopsychism; fr.                       de argumento do calvo (d. DiG. L, II, 108) e
Monopsychisme, ai. Monopsychsmus; it. Mono-                  consiste em perguntar se um homem se torna
psichismo). Doutrina averrosta da unidade da                 calvo quando ser lhe arranca um fio de cabe-
alma intelectiva em todos os homens. V. INTK-                 lo. E quando lhe arrancam dois? E assim por
LKCTO ATIVO.                                                  diante.
    MONOSSILOGISMO (in. Monosyllogism, fr.                       MONUMENTAL, HISTRIA. V. ARQUHOLO-
Monosyllogisme, ai. Monosyllogismus; it. Mono-                GIA, HISTRIA.
sillogismo). Raciocnio constitudo por um s                     MORAL1 (lat. Moralia; in. Morais; fr. Mo-
silogismo, assim chamado em oposio a po-                    ra lt* ai. Moral; it. Morale). 1. O mesmo que
lissilogismo (v.).                                            tica.
    MONOTESMO (in. Mouotheism; fr. Mono-                         2. Objeto da tica, conduta dirigida ou dis-
thisme; ai. Monotheismus-, it. Monoteismo).                  ciplinada por normas, conjunto dos mores. Neste
Doutrina da unicidade de Deus. V. DKUS, 3g, b.                significado, a palavra  usada nas seguintes ex-
    MONOTELISMO (in. Monotheletism; fr.                       presses: "M. dos primitiveis", "M. contempor-
Monotbltisme-, ai. Monotheletisnms). Inter-                 nea", etc.
pretao hertica do dogma da Encarnao,                         MORAL2 (gr.rjhK; lat. Moralis-. in. Moral;
segundo a qual existe em Cristo uma nica                     fr. Moral; ai. Moral; it. Morale). Este adjetivo
vontade, a divina, que constitui o trao de                   tem, em primeiro lugar, os dois significados
unio das duas naturezas que h nele, a divi-                 correspondentes aos do substantivo moral: l'-1
na e a humana. Essa heresia toi sustentada                    atinente  doutrina tica, 2" atinente  conduta
pelo patriarca de Constantinopla, Srgio, no                  e, portanto, suscetvel de avaliao M, espe-
sc. VI e condenada pelo VI Concilio ecum-                   cialmente de avaliao M. positiva. Assim, no
nico em 680.                                                  s se fala de atitude M. para indicar uma atitu-
    MONTANISMO (in. Montanism; fr. Monta-                     de moralmente valorvel, mas tambm coisas
nisme, ai. Montanismus; it. Montanismo). Seita                positivamente valorveis, ou seja. boas.
religiosa crist do sc. II. assim chamada pelo                   Em ingls, francs e italiano, esse adjetivo
nome de seu fundador Montano, ex-sacerdote                    depois passou a ter o significado genrico de
de Cibele. Montano pretendia transferir para o                espiritual", que ainda conserva em certas ex-
Cristianismo o culto entusistico de sua seita de             presses. Hegel lembrava este significado com
provenincia: os montanistas viviam em cont-                 referncia ao francs {Ene,  503); ele ainda
nua agitao  espera da eminente volta do                    persiste, p. ex., na expresso "cincias morais".
Cristo. Tertuliano pertenceu por algum tempo                  que so as "cincias do esprito".
a essa seita.                                                     MORALIDADE (lat. Moralitas; in. Moralily,
    MONTO, ARGUMENTO DO (gr ocopexrj                       fr. Moralt-, ai. Moralilt; it. Moralit). Carter
Xyo, lat. Acervalis ratiocinatio; in. Soriete-, fr.         do que se conforma s normas morais. Kant
Sorte; ai. Sorites; it. Argomento dell'acetv).              contraps a M.  legalidade. A ltima  a sim-
Com esse nome faz-se referncia a duas argu-                  ples concordncia ou discordncia de uma
mentaes, uma de Zeno de Elia, outra de                    ao em relao  lei moral, sem considerar o
Eublides de Mgara. O argumento de Zeno                     mvel da ao. A M., ao contrrio, consiste em
de Elia dirige-se contra a fidedignidade do                  assumir como mvel de ao a idia de dever
conhecimento sensvel e, em particular, do ouvi-              (Mct. der Sitiem, I, Intr,  3; Crt. R. Pratica.
do: se um alqueire de trigo faz barulho ao cair,               I, 1, 3).
cada gro e cada partcula de gro deveria pro-                   No sentido hegeliano, a M. distingue-se da
duzir um som ao cair, o que no ocorre (Diels, A              eticidade (v.) por ser a "vontade subjetiva", ou
29). O argumento de Eublides, conhecido tam-                 seja, individual e desprovida de bem, enquanto
bm como sorites (v.) de ocop = monte, con-                 a eticidade  a realizao do bem em institui-
siste em perguntar quantos gros de trigo so                 es histricas que o garantam (Ene,  503; til-
necessrios para formar um monte; bastaria s                 do dir,  108). M. e eticidade esto entre si
um gro? Bastariam dois?, etc. Como  impossvel              como o finito e o infinito: isso significa que a
determinar em que ponto comea um monte,                      eticidade  a "verdade" da M., do mesmo modo
aduz-se esse argumento contra a pluralidade                   como o infinito o  do finito.
so dispersos entre os tomos" (Recordaes,
VI, 24). No mesmo sentido, Shakespeare dizia:
"Alexandre morreu, Alexandre foi sepultado,
Alexandre voltou ao p. O p  terra e com a
terra se faz argila; por que a argila em que ele
se transformou no poderia vir a ser a tampa
de um barril de cerveja?" (Hamlet, a. V, cena I).
Em todos esses casos entende-se por M. o fa-
lecimento do ser vivo, qualquer que seja, sem
referncia especfica ao ser humano. Perante a
M. assim entendida, a nica atitude filosfica
possvel  a expressa por Fpicuro: "Quando
ns estamos, a M. no est; quando a M. est,
ns no estamos" (DiG. L, 125). No mesmo
sentido, Wittgenstein disse: "A M. no  um
acontecimento da vida: no se vive a M."
(Tractatus, 6.4311). E Sartre ressaltou a insigni-
ficncia da M: "A M.  um fato puro, como o
nascimento; chega-nos do exterior e transfor-
ma-nos em exterioridade. No fundo, no se
distingue de modo algum do nascimento, e  a
identidade entre nascimento e M. que chama-
mos de facticidade" (Ltreetle nant, 1955, p.
630). Entendida nesse sentido, a M. no concerne
propriamente  existncia humana. O contras-
te entre a M. assim entendida e a M. como
ameaa iminente sobre a existncia individual
foi bem expresso por Lon Tolstoi no conto A
A. de Ivan Iljitsch, no qual o protagonista, que
reconhece como certa e vlida a idia genrica
da M, como falecimento, rebela-se contra a
ameaa que a M. faz pairar sobre ele.
    2- Em sua relao especfica com a existn-
cia humana, a M. pode .ser entendida: a) como
incio de um ciclo de vida; b) como fim de um
ciclo de vida; c) como possibilidade existencial.
    a) A M.  entendida como incio de um ciclo
de vida por muitas doutrinas que admitem a
imortalidade da alma. Para elas, a M.  o que
Plato chamava de "separao entre a alma e o
corpo" (Fed, 64 c). Com essa separao de
fato, inicia-se o novo ciclo de vida da alma: seja
ele entendido como reencarnao da alma em
novo corpo, seja uma vida incorprea. Plotino
expressava essa concepo dizendo: "Se a vida
e a alma existem depois da M., a M.  um bem
para a alma porque esta exerce melhor sua
atividade sem o corpo. E, se com a M. a alma
passa a fazer parte da Alma Universal, que mal
pode haver para ela?" (Hnn., 1, 7, 3)- Idntico
conceito de M. reaparece sempre que se
considera a vida do homem sobre a terra
como preparao ou aproximao de uma
vida diferente, e quando se afirma a imortalida-
MORTE                                                684                                             MORTE


cie impessoal da vida, como faz Schopenhauer,              possibilidade sempre presente na vicia huma-
para ele a M.  comparvel ao pr-do-sol, que              na, capaz de determinar as caractersticas fun-
representa, ao mesmo tempo, o nascer do sol                damentais desta. Na filosofia moderna, a cha-
em outro lugar (De Weil, I,  65).                        mada filosofia da vida, especialmente com
    b) O conceito de M. como fim do ciclo de               Dilthey, levou  considerao da M. nesse sen-
vida foi expresso de vrias formas pelos filso-           tido: 'A relao que caracteriza de modo mais
fos. Marco Aurlio considerava-a como re-                  profundo e geral o sentido de nosso ser  a re-
pouso ou cessao das preocupaes da vida:                lao entre vida e M. porque a limitao da
conceito que ocorre freqentemente nas con-                nossa existncia pela M.  decisiva para a com-
sideraes da sabedoria popular em torno da                preenso e a avaliao da vida" (Das Hrlebnis
M. Marco Aurlio dizia: "Na M. est o repouso              undde Dichtung, 5a ed., 1905, p. 230). A idia
dos contragolpes dos sentidos, dos movimen-                importante aqui expressa por Dilthey  que a
tos impulsivos que nos arrastam para c e para             M. constitui "uma limitao da existncia", no
l como marionetas, das divagaes de nossos               enquanto trmino dela, mas enquanto condi-
raciocnios, dos cuidados que devemos ter para             o que acompanha todos os seus momen-
com o corpo" (Recordaes, VI, 28). Leibniz                tos. Essa concepo, que, de algum modo, re-
concebia o fim do ciclo vital como climinuio             produz no plano filosfico a concepo de M.
ou involuo da vida: "No se pode falar de                da teologia crist, foi expressa por Jasper.s
gerao total ou de morte perfeita, entendida              com o conceito da situao-limite como "si-
rigorosamente como separao da alma. O que                tuao decisiva, essencial, que est ligada 
ns chamamos de gerao sem desenvolvimen-                 natureza humana enquanto tal e  inevitavel-
tos e acrscimos, e o que chamamos de M. so               mente dada com o ser finito" (Psychologie der
involues e diminuies" (Monacl,  73). Em                Weltanschaunngen, 1925, III, 2; trad. it., p. 266;
outros termos, com a M. a vida diminui e desce             cf. Phil, II, pp. 220 ss.). Referindo-se a esses
para um nvel inferior ao da apercepo ou                 precedentes, Heidegger considerou a M. como
conscincia, para uma espcie de "aturdimen-               possibilidade existencial: "A M., como fim do
to", mas no cessa (Prncipes de Ia nature et de           ser-a (Daseiri),  a sua possibilidade mais pr-
Ia grce. 1714,  4). Por sua vez, Hegel consi-            pria, incondicionada, certa e, como tal, inde-
dera a M. como o fim do ciclo da existncia                terminada e insupervel" (Sein midZet,  52).
individual ou finita, pela impossibilidade de ade-         Sob este ponto de vista, de possibilidade, "a M.
quar-se ao universal: "A inadequao do ani-               nada oferece a realizar ao homem e nada que
mal  universalidade  sua doena original e               possa ser como realidade atual. Ela  a possibi-
germe inato da M. A negao desta inadequao              lidade da impossibilidade de toda relao, de
 o cumprimento de seu destino" (Ene,  375).              todo existir" (Ibid.,  53). E j que a M. pode ser
Finalmente, o conceito bblico de M. como pena             compreendida s como possibilidade, sua com-
do pecado original (Cen., II, 17; Rom., V, 12) .          preenso no  esper-la nem fugir dela, "no
ao mesmo tempo, conceito dela como conclu-                 pensar nela", mas a sua antecipao emocio-
so do ciclo da vida humana perfeita em Ado               nal, a angstia (v.). A expresso usada por
e o conceito de limitao fundamental imposta              Heidegger ao definir a M. como "possibilidade
 vida humana a partir do pecado de Ado. S.               da impossibilidade" pode com razo parecer
Toms diz a respeito: "A M., a doena e qual-              contraditria. Foi sugerida a Heidegger por sua
quer defeito fsico decorrem de um defeito na              doutrina da impossibilidade radical da existn-
sujeio do corpo  alma. E assim como a rebe-             cia: a M.  a ameaa que tal impossibilidade faz
lio do apetite carnal contra o esprito  a pena          pairar sobre a existncia. A prescindir dessa in-
pelo pecado dos primeiros pais, tambm o so               terpretao da existncia em termos de neces-
a M. e todos os outros defeitos fsicos" (S. lh.,          sidade negativa, pode-se dizer que a M  "a
II, 2, q. 164, a. 1). Porm este segundo aspec-            nulidade possvel das possibilidades do ho-
to, tpico da teologia crist, pertence propria-           mem e de toda a forma do homem" (ABBAG-
mente ao conceito de M. como possibilidade                 NANO, Struttura delVesistenza, 1939,  98; cf.
existencial.                                               Possibilita e liberta, 1956, pp. 14 ss.). J que
                                                           toda possibilidade, como possibilidade, pode
   c) O conceito de M. como possibilidade                  no ser, a M.  a nulidade possvel de cada uma
existencial implica que a M. no  um aconteci-            e de todas as possibilidades existenciais; nesse
mento particular, situvel no incio ou no tr-            sentido, Merleau-Ponty diz que o sentido da M.
mino de um ciclo de vida do homem, mas uma
MOTIVAO                                            68 5                                MVEL, PRIMEIRO


 a "contingncia do vivido", "a ameaa perp-                 J Aristteles dissera: "Visto que h trs coi-
tua para os significados eternos em que este                sas: primeiro, o motor, segundo, aquilo com
pensa expressar-se por inteiro'" (Structure du              que move, e terceiro, o que  movido, tem-
comportement, 1942, IV, II,  4).                           se que o motor imvel  o bem prtico, o mo-
    MOTIVAO (in. Motivation; fr. Moti-                    tor que tambm  movido  a faculdade apeti-
vation; ai. Motivation; it. Motivazione). 1. Cau-           tiva, e o que  movido  o animal" (Dean., III,
salidade do motivo. Schopenhauer foi o pri-                 10, 433 b 14). O M.  aqui entendido como um
meiro a distinguir nitidamente essa forma de                motor nico e imutvel que  o bem, o fim ao
causalidade das outras trs, que so: causali-              qual tende a vida do animal. Mas no mundo
dade da causa, causalidade da razo e causa-                moderno no se fala mais cie motor nesse sen-
lidade da razo de ser ( ('her die vierfache                tido, mas de M. Wolff interpretava esse termo
 Wttrzel cies Satzes vom zureichenclen Grun-                como "a razo suficiente da volio ou da
dc, 1813,  20, 29, 36). Schopenhauer diz:                 nolio" (Psychol. emprica,  887), definio
A eficincia do motivo vem a ser conhecida                  que -- pode-se dizer -- no sofreu modifica-
por ns no s exteriormente de modo me-                    es, a no ser no que se refere  diferena no
diato, como a de todas as outras causas, mas                grau de determinao atribudo ao M. O pro-
tambm interiormente, de modo imediato. (...)               blema desses diferentes grtis de determina-
Da resulta a importante proposio: a M.  a               o  o problema da liberdade (v.). Por outro
causalidade vista do interiormente. (...)  pre-            lado, a importncia do conceito de M. para a
                                                            explicao da conduta humana foi algumas vezes
ciso, portanto, propor a M. como uma fora
                                                            posta em dvida na filosofia contempornea.
especial do princpio de razo suficiente do                Dewey. p. ex., afirmou que "todo o conceito de
agir, ou seja, como lei da M." ( Vierfache Wurzel.          M. na verdade  extrapsicolgico". Nenhuma
 43). Mesmo sem o carter privilegiado cie                 pessoa de bom senso atribui M. aos atos de um
revelao imediata do modo de agir intrn-                  animal ou cie um idiota, e  absurdo perguntar
seco da causalidade, que Schopenhauer lhe                   o que induz um homem  atividade. "Mas quando
atribua, a M. continuou indicando a ao de-               precisamos conduzi-lo a agir cie um modo
terminante do motivo, sejam quais forem os                  especfico e no de outro, quando queremos di-
limites impostos a tal determinao. Os proble-             rigir sua atividade para uma direo especfi-
mas da M. so, por um lado, de natureza psico-              ca, ento a questo do M.  pertinente. O
lgica e concernem ao modo de agir dos mo-                  M.  ento o elemento cio conjunto total da ativi-
lhos, passvel de observao pelos instrumentos             dade humana que, se suficientemente estimu-
de que a psicologia dispe; e, por outro lado,              lado, dar lugar a um ato que tem conseqn-
.so de natureza filosfica, porquanto dizem                cias especficas." Em outras palavras, menos
respeito aos limites ou s modalidades de de-               que fator de explicao da conduta humana, o
terminao, portanto  liberdade e ao deter-                M.  instrumento para sua orientao (luman
minismo   (v.).                                             Nature and Conducl, pp. 199-20).
   2. Husserl chamou de M. as conexes da ex-                  MOTOR. V. D K C S , PROVAS D-;; MOVIMKNTO.
perincia que condicionam a possibilidade de                   MVEL, PRIMEIRO (gr. TtptTOV Ktvr|TV;
experimentao ulterior "Experimentabilidade                lat. Primum mobile-, in. First mobile-, fr. Premier
no significa possibilidade lgica, vazia, mas              mobile, ai. Primre Rewegliches; it. Primo mo-
possibilidade motivada pela conexo da expe-                bile). Aristteles deu esse nome ao primeiro
rincia. Esta  uma cadeia contnua de M, que               cu, ao qual o movimento  comunicado dire-
assume sempre novas M. e transforma as j for-              tamente pelo Primeiro Motor ou motor imvel,
madas" (Ideen, I  47).                                     sendo, pois, to simples, ingerado e incorrup-
   MOTIVO (in. Motive, fr. Motif; ai. MotiK it.            tvel quanto o Primeiro Motor (De cael, II, 6,
Motivo). Causa ou condio de uma escolha,                  288 a 14 ss.). O prprio Aristteles compara a
ou seja, de uma volio ou de uma ao. O                   faculdade apetitiva da alma ao primeiro M., as-
M. pode ser mais ou menos claramente reco-                  sim como comparou o bem ao motor imvel
nhecido por aquele sobre quem age: chama-                   (Dean., III. 10, 433 b 14). O primeiro M.  o
se algumas vezes de mobilou mvel (fr. Mo-                  cu que Dante chama de "cristalino", ou seja,
bile-, ai. Triebfeder) o M. que no tem carter             difano ou transparente, alm do qual admite o
"racional", que no pode ser considerado uma                cu empreo ou sede dos bem-aventurados
"razo" da escolha.                                         (Conv., II, 4; Par, 30, 107).
MOVIMENTO                                             686                                   MULTIPLICIDADE


   MOVIMENTO (gr. Kvr)Oi; lat. Motu.% in.                 onde (ubi). O M., portanto,  a perda ou a
Moton; fr. Mouvement; ai. Bewegung; it. Movi-              aquisio contnua do onde e nesse sentido 
 mento). 1. Em geral, mudana ou processo de                uma "forma fluente" (Qnodl., q. 11, a. 1). Essa
qualquer espcie. Esse significado corresponde              doutrina foi criticada pela Escolstica dos fins
ao do termo grego. Plato distinguia duas esp-             dos scs. XIII e XIV. Ockham submeteu-a a cr-
cies de M.: alterao e translao ( Teet., 181 d);         tica radical, considerando o M. como a mudan-
Aristteles distinguia quatro: alm dos dois aci-           a de relao de um corpo com os corpos que
ma, o M. substancial (gerao e corrupo) e o              o circundam (Quodl, VII, q. 6). Este era o con-
M. quantitativo (aumento e diminuio) (Fs.,               ceito que a cincia deveria fazer prevalecer na
III, 1, 201 a 10). Para as espcies particulares do         Idade Moderna. Descartes expressou-o do se-
M, v. os verbetes relativos.                                guinte modo: "M.  o transporte de uma parte
    O M em geral foi definido por Aristteles               da matria ou de um corpo da proximidade
como "a entelquia daquilo que est cm potn-               dos corpos que o tocam imediatamente, e que
cia" (Fs., III, 1, 201 a 10): definio que per-           consideramos em repouso, para a proximida-
maneceu clebre durante sculos. Significa que M.           de de outros corpos" (Princ. phil, II, 25). Sobre
 a realizao do que est em potncia: p. ex.,             o conceito do M. na cincia contempornea, v.
a construo, a aprendizagem, a cura, o cresci-             RELATIVIDADE.
mento, o envelhecimento so realizaes de                      MUDANA (in. Change; fr. ChangemenP,
potencialidades (Ibid., 201 a 16). No M. assim              ai. Verndening; it. Mutamento). 1. O mesmo
entendido a parte fundamental  a do motor,                 que movimento, 1 (v.).
com cujo contato  gerado o M. "Qualquer que                   2. O m e s m o q u e alterao (v.).
seja o motor" -- diz Aristteles -- "ele sempre                MULTIPLICAO LGICA ( i n                  Logical
trar uma forma (substncia particular, qualida-            miiltplicaton: fr. Multiplicaiion logigue-, ai.
de ou quantidade) que ser princpio e causa                Logische Multiplikation; it. Molteplicazhme
do M., quando o motor mover, do mesmo modo                  lgica). Na lgebra da lgica (v.) chama-se
como, no homem, a entelquia faz o homem                    assim a operao "ei . b", -que apresenta pro-
do homem em potncia" (Ibid., III, 2, 202 a 8).             priedades formais anlogas s da M. aritmtica
A fsica aristotlica , do princpio ao fim, uma           ( importantssima a exceo "a. a = a"). Inter-
teoria do M. nesse sentido (v. FSICA). Seu teore-          pretada como operao entre classes, " . //
rra fundamental, "tudo o que se move  movi-                passa a formar a classe que contm todos os
do por alguma coisa" (Ibid., VII, 1, 256 a 14),             elementos comuns s classes a e /; e apenas
leva  teoria do Primeiro Motor imvel do uni-              eles. Interpretada como operao entre propo-
verso (v. DEUS, PROVAS DE).                                 sies, "a . b'' indica sua afirmao conjuntiva.
    2. Em sentido especfico, M. local ou trans-            simultnea ("a e b").                         G. P.
lao. Aristteles afirma a prioridade desse M.                 MULTIPLICIDADE (gr. x noXX: in. Mul-
sobre os outros trs, que podem ser reduzidos               tiplicity, fr. Mnltiplicit, ai. Mannigfaltigkeit; it.
a este ltimo, nico que pode pertencer s coi-             MohepHcit). O que  mltiplo e variado: "mui-
sas eternas, aos astros (Fs., VIII, 7, 260 b). Se-         tos" em contraposio a "um", sobre os quais
gundo Aristteles, as espcies do M. local ca-              versavam de preferncia as discusses dia-
racterizam os elementos do universo, inclusive              lticas do sc. IV a.C, segundo relato de Pla-
o que constitui as substncias celestes, ou seja,           to (f/7., 14 d). O prprio Plato estabeleceu
o ter que se move em M. circular (v. FSICA).              o conceito autntico de mltiplo, que no  de
Essa doutrina do M. permaneceu inalterada                   disperso ilimitada, mas de nmero; este,
muito tempo porque toda a filosofia antiga e                como dizia Plato,  ao mesmo tempo um e
medieval repetiu-a sem modificaes substan-                muitos porque  a ordem de uma M. determi-
ciais, Uma teoria do M. que teve xito no lti-             nada ( Fil, 18 a-b) (v. NUMERO). O sentido dessa
mo perodo da Escolstica foi a da forma fluen-             palavra voltou a ser de disperso desordenada
 le, elaborada por Duns Scot. Segundo Duns                  em alguns filsoos modernos, como p. ex. no
Scot, um corpo que se move adquire alguma                   uso que Kant faz dela como "matria" do co-
coisa: a todo instante no o lugar, que no c               nhecimento, ou seja, do contedo sensvel em
 um atributo seu, residindo nos corpos que o                seu estado desorganizado ou bruto, indepen-
circundam, mas uma espcie cie determinao                 dentemente da ordem e da unidade que ele
qualitativa, anloga ao calor adquirido pelo                receba das formas a priori da sensibilidade c
corpo que se aquece. Essa determinao  o                  do intelecto (Crt. R. Fura,  1).
ramente amplificativo ou retrico; o significa-
do (e)  puramente religioso. Assim,  possvel
distinguir trs conceitos fundamentais de M.: 1"
M. como ordem total; 2- M. como totalidade
absoluta; 3Q M. como totalidade de campo. Os
significados 1L> e 2- so articulaes do signifi-
cado (fl); o significado 3"  o significado (/;).
    1Q Diz-se que Pitgoras foi o primeiro a cha-
mar o M. de cosmo, para ressaltar sua ordem (J.
STOBKO, liei., 21, 450; Fr. 21, Dicls); o certo 
que essa  a interpretao desse conceito que
prevalece na filosofia grega. H aceita por Plato
(Grg., 508 a). Aristteles, que faz a distino
entre o todo (x 7Tv), cujas partes podem dis-
por-se de maneiras diferentes, e a totalidade
(T A.OV), cujas partes tm posies fixas (Met.,
V, 26. 1024 a 1), diz a propsito do M: "Se a
totalidade do corpo, que  um contnuo, est
ora numa ordem ou numa disposio, ora em
outra, e se a constituio da totalidade  um M.
ou um cu, ento no ser o M. que se gera e
se destri, mas apenas suas disposies" (De
 caei, I. 10. 280 a 19). Aristteles pretende di-
zer neste trecho que o M.  a constituio (ou
estrutura) da totalidade (sua ordem) e que tal
constituio ou estrutura permanece a mesma
a menos que suas partes se disponham diferen-
temente. Isso eqivale a definir o M. como a
ordem imutvel do universo. Analogamente, os
esticos faziam a distino entre universo (x
7iv) como totalidade de todas as coisas exis-
tentes, inclusive o vcuo, e M., considerado
como "o sistema do cu e da terra e dos seres
que esto neles" e nesse sentido o M.  Deus
(J. STOBHO, Kci, I, 421, 42 ss.). Esta interpreta-
o cio M. prevaleceu na Antigidade e foi ado-
tada pela filosofia crist que nela encontrava
um ponto de partida oportuno para as demons-
traes da existncia de Deus (cf., p. ex., AGOS-
TINHO, De ordine, I, 2). Entrou em crise s
quando a noo de ordem comeou a incorpo-
rar-se  de natureza, mais que  de M.: o con-
ceito de totalidade passou a ter primazia.
    2- Os primeiros a expor o conceito de M.
como totalidade que abarca todas as coisas fo-
ram os epicuristas. Epicuro dizia: "O M.  a cir-
cunferncia do cu cjue abrange os astros, a
terra e todos os fenmenos" (DIG., L, X, 88).
Mas foi s na filosofia moderna que esse con-
ceito prevaleceu, superando completamente o
mais antigo, de M. como ordem. Leibniz diz:
"Chamo de M. toda a srie e toda a coleo de
todas as coisas existentes, para que no se diga
que podem existir vrios M. em diferentes tem-
MUNDO                                                688                                           MUNDO

pos e lugares. De fato, seria preciso cont-los            NAS). Segundo Kant, s se chega  soluo de
todos juntos como um s M. ou, ;,e preferis,               tais antinomias renunciando-se  noo de M.
como um s universo'" (Tbod, I,  8). Desse               ou considerando tal noo simplesmente como
ponto de vista, o M.  "o conjunto total das coi-          uma regra do conhecimento emprico, mais
sas contingentes" {Ibicl, I,  7); a elaborao            precisamente a que "exige o regresso na srie
posterior desse conceito insistiu especialmente            das condies dos dados fenomnicos, regres-
nesse conceito de totalidade absoluta. Portanto,           so no qual nunca seja possvel deter-se em algo
as noes de universo e de M, que os antigos               absolutamente incondicionado" (Ibid., se. 8).
tendiam a distinguir, so consideradas coinci-             Desse ponto de vista, o M. no  uma realida-
dentes. Wolff diz: "A srie cios entes finitos,            de, mas "um princpio regulador da razo".
tanto simultneos quanto sucessivos, mas, in-                  Pode-se dizer que essa crtica de Kant foi
lerconexos, 6 chamada cie M. ou tambm de                  decisiva. F. bem verdade que tem sido esqueci-
universo" (COSDL,  48). Baumgarten esclare-               da no s pelas doutrinas que constituem res-
ce melhor o sentido de totalidade absoluta,                qucios da metafsica teolgica, mas tambm
afirmando que ela no pode ser parte de outra              pelas doutrinas cosmolgicas modernas, que se
totalidade: "O M.  a srie (a multido, a totali-         dizem "cientficas" e especulam sobre o M. e
dade) dos tinitos reais que no  parte de outra           sua criao (v. COSMOI.OGIA). Mas tambm 
srie" (Met.,  354). Essa determinao  repeti-          verdade que essas doutrinas logo se chocam
da por Crusius: "O M.  um concatenamento                  com antinomias insolveis, que reproduzem as
real de coisas finitas, de tal modo que no               kantianas. assim que recorrem ao conceito do
parte de outro, ao qual pertena em virtude de             M. como totalidade absoluta. Na realidade
um concatenamento real" (linlwurf der iiot-                aquilo cie que a cincia pode falar  apenas o
 iveudigeii Veniunft-Wahrbeiteii, 1745.  350).            M. observarei, entendido como "o mais abran-
K este o conceito criticado na dialtica trans-            gente conjunto de objetos astronmicos que
cendental de Kant.                                         possa ser identificado com a ajuda dos instru-
    Kant observava que a palavra M., "no senti-            mentos disponveis em dada poca" (M. K.
do transcendental de totalidade absoluta do                Mi'MTZ, Space, Time and Creation, 1957,
conjunto das coisas existentes", indica uma to-            p. 93). Mas neste sentido o M.  uma totalidade
talidade incondicionacla porque deve incluir               de campo, no uma totalidade absoluta.
todas as condies da srie (Crt. R. Pura, Anti-              3Q A terceira interpretao do conceito de
nomia da razo pura. se. 1). Isso supe que o             M., que est de acordo com a crtica kantiana,
regresso do condicionado  condio, que po-               identifica-se com a que enunciamos como sig-
de prosseguir infinitamente, seja esgotado e               nificado (/?): o M.  a totalidade de um campo
cumprido at compreender todas na condies;               ou cie vrios campos de atividade, investigao
e como a totalidade das condies  o incon-               ou relaes. Desse ponto cie vista, a palavra M.,
dicionado, a completitude do regresso eqiva-              sem adjetivos, no designa uma totalidade
leria  compreenso do incondicionado. Mas                absoluta, mas simplesmente o conjunto de um
precisamente a que, segundo Kant, est o erro             campo especfico estudado pelo astrnomo ou
dialtico includo no conceito de M., visto assu-          pelo cosmologista. Nesse sentido, a palavra
mir-se o condicionado em dois sentidos: no                  perfeitamente anloga quilo que a "matria"
sentido de conceito intelectual aplicado a sim-             para o fsico ou a "vida"  para o bilogo:
ples fenmenos e no sentido transcendental de              indica um campo genrico, determinado pela
categoria pura. Km outras palavras, da exign-             com ergncia ou pela sobreposio de determi-
cia de condio sempre nova (emprica) na s-              nado grupo de tcnicas de pesquisa (M. K.
rie dos fenmenos passa-se  exigncia da tota-            Mi MT/. o/), cil., p. 69). Em geral, desse ponto
lidade das condies, que  o incondicionado               de vista, pode-se dizer que a noo designa
ou M., no mais emprico (Ibid., se. 7). Portan-          "uni conjunto de campos definidos por tcnicas
to, no  de surpreender que a noco de M.,                relativamente compatveis e em alguma medi-
fundada como est num procedimento sofis-                  da convergentes. Podemos assim falar de 'M.
tico, d lugar a antinomias insolveis que di-             natural", como conjunto de campos cobertos pelas
zem respeito  finitude ou  infinidade do M.,             cincias naturais, na medida em que suas tc-
a seu incio ou no no tempo,  existncia nele            nicas so relativamente compatveis e conver-
ou no de partes simples e  presena ou                   gentes; ou de \M. histrico", como conjunto de
ausncia de liberdade (v. ANTINOMIAS KANTIA-               campos em que podem ser empregadas as
    MUNDO DA VIDA                                         689                                            MUSICA


    tcnicas da investigao historiogrfica, etc."             conjunto de tcnicas expressivas que concer-
    (AHRAGNANO, Possibilita e liberta, 1956, pp.                nem  sintaxe dos sons.
    154-55).                                                         Ia A primeira concepo, que passa por ser
         A esta mesma noo est ligada a de Hei-               a nica "filosfica", mas que na verdade  meta-
    degger, aceita pela filosofia existencialista, de           fsica ou teologizante, consiste em considerar a
    M. como campo constitudo pelas relaes do                 M. como cincia ou arte privilegiada, porquan-
    homem com as coisas e com os outros ho-                     to seu objeto  a realidade suprema, divina, ou
    mens. Heidegger diz: " to errneo utilizar a              alguma de suas caractersticas fundamentais.
    palavra M. para designar a totalidade das coisas            Nessa concepo  possvel distinguir duas fa-
    naturais (conceito cio M. naturalista) quanto para          ses: a) para a primeira, o objeto cia M.  a
     indicar a comunidade dos homens (conceito                  harmonia como caracterstica divina do uni-
     personalista). O que de metafisicamente essen-             verso; portanto, considera a M. como uma cias
     cial contm o significado mais ou menos claro              cincias supremas; b) para a segunda, o objeto
     de M.  que este visa  interpretao do Daseiu            da M.  o princpio csmico (Deus, Razo Auto-
     humano em sen relacionar-se com o ente em                  consciente ou Vontade Infinita, etc), e a M.  a
     seu conjunto" (Vom Wesen des Gnineles, 1929,               auto-revelao desse princpio na forma de
     I: trad. it.. p. 53). Obviamente, desse ponto cie          sentimento. Ambas as concepes tm uma ca-
      vista, a palavra M. faz parte integrante da ex-           racterstica fundamental em comum: a separa-
      presso "ser-no-M", que designa o modo de                 o entre M, como arte "pura", e as tcnicas
      ser do homem "situado no meio do ente e re-               em que esta se realiza. Plato reprova os msi-
      lacionando-se com ele", ou seja, em relao               cos que procuram novos acordes nos instru-
      essencial com as coisas e com os outros ho-               mentos (Rep.. VII, 531 b); o mesmo faz Plotino.
      mens. Nesse caso, M. significa o conjunto de              Schopenhauer e Hegel falam em "essncia" da
      relaes entre o homem e os outros seres: a               M.. de sua natureza universal e eterna, por-
      totalidade de um campo de relaes (v. TODO;              quanto  separvel cios meios expressivos nos
     UNIVERSO).                                                 quais ganha corpo como fenmeno artstico.
         MUNDO DA VIDA (ai. Lebensivelt). Termo                      a) A doutrina da M. como cincia da harmo-
     introduzido por Husserl em Krsis, para desig-             nia e de harmonia como ordem divina do cos-
     nar "o mundo em que vivemos intuitivamente,                mos nasceu com os pitagricos. "Os pitag-
     com suas realidades, do modo como se do.                  ricos, que Plato freqentemente segue, dizem
     primeiramente na experincia simples e de-                 que a M.  harmonia dos contrrios, unificao
     pois tambm nos modos em que sua validade                  cios muitos e acordo dos discordantes" (Fll.o-
     se torna oscilante (oscilante entre ser e aparn-          I.Al . Fr. 10, Diels). A funo e os caracteres cia
     cia, etc.)" (Krsis,  44). Husserl contrape esse         harmonia musical so idnticos  funo e aos
     mundo ao mundo da cincia, considerado                     caracteres cia harmonia csmica: a M. , por-
      como um "hbito simblico" que "representa"               tanto, o meio direto para elevar-se ao conheci-
      o mundo da vicia, mas encontra lugar nele. que            mento dessa harmonia. Kntre as cincias pro-
       "um mundo para todos" (Ibid.. Beilage. XIX).            peduticas, Plato punha a M. em quarto lugar
        MUNDO EXTERIOR. V. Ri AI 1DADI                          (depois da aritmtica, da geometria plana e s-
        MUNDO MORAL (ai. Moralische              Welt).         lida e da astronomia), considerando-a a mais
     Esse  o nome dado por Kant  "simples idia"              prxima da dialtica e a mais filosfica (Fetl,
     (que, como tal.  desprovida de realidade) de              61 a). Contudo, para Plato, como cincia au-
     "um mundo conforme a todas as leis morais",                tntica, a M. no consiste em procurar com o
     idia que s tem significado prtico como guia             ouvido novos acordes nos instrumentos: desse
     da ao humana (Crt. R. Pura, Doutrina do                 modo, as orelhas seriam mais importantes que
     mtodo, cap. 2, se. 2).                                   a inteligncia (Rep., VII, 531 a).As pessoas que
         MSICA (gr. uo-uoiKri TE^vn.; lat. Musica;             agem desse modo "comportam-se como os as-
     in. Music; fr. Musique; ai. Musik it. Musica).             trnomos, pois procuram os nmeros nos acor-
     Duas so as definies filosficas fundamen-               des acessveis ao ouvido, mas no chegam at
     tais dadas da M. A primeira considera-a como               os problemas, no indagam quais nmeros
      revelao de uma realidade privilegiada e divi-           so harmoniosos, quais no so e de onde vem
      na ao homem: revelao que pode assumir a                 sua diferena" (Ibid.. VII, 531 b-c). Por essa
      forma do conhecimento ou do sentimento. A                 possibilidade de passar dos ritmos sensveis 
      segunda considera-a como uma tcnica ou um                harmonia inteligvel, Plotino considera a M.




A
MUSICA                                                 690                                            MUSICA


como um dos caminhos para ascender at                       nicas), que cada arte reproduz  sua maneira, a
Deus: 'Depois das sonoridades, dos ritmos e                  M.  revelao imediata ou direta dessa mesma
das figuras perceptveis pelos sentidos, o msi-             vontade de viver. "A M." -- diz ele -- "
co deve prescindir da matria na qual se reali-              objetivao e imagem da Vontade to direta
zam os acordes e as propores, e atingir a be-              quanto o mundo, ou melhor, quanto as Idias,
leza deles por eles. Deve aprender que as coi-               cujo fenmeno multiplicado constitui o mundo
sas que o exaltavam so entidades inteligveis;              dos objetos particulares. A M. no , portanto,
isto  harmonia: a beleza que nela se encontra               como as outras artes, a imagem das idias, mas
 absoluta, no particular. Por isso, deve utilizar          a imagem da prpria Vontade, da qual as idias
raciocnios filosficos que o levem a crer em                tambm so objetividade. Por isso, o efeito da
coisas que tem em si, sem saber" (Hnn., I, 3, D-             M.  mais potente e insinuante que o das ou-
    Foram essas consideraes que levaram a                  tras artes, visto que estas nos do apenas o
incluir a M. no rol das "artes liberais", conside-           reflexo, ao passo que aquela nos cl a essncia"
radas fundamentais em toda a Idade Mdia. S.                 (Die Welt, 1819, I,  52). A doutrina de Hegel
Agostinho expe a transio da M. da fase da                 coincide com essa exaltao da M., mas acres-
sensibilidade, na qual ela cuida dos sons, para              centa a importante determinao de que a M. 
a fase da razo, em que se torna contemplao                a expresso do absoluto na forma do sentimen-
da harmonia divina: "A razo compreendeu                     to (Gemth). Hegel diz: "A M. constitui o ponto
que neste grau, tanto no ritmo quanto na har-                central da representao que expressa o subje-
monia, os nmeros reinam e conduzem tudo                    tivo como tal, tanto em relao ao contedo
perfeio; observou ento com a mxima dili-                 quanto em relao  forma, pois participa da
gncia a que natureza pertenciam e descobriu                 interioridacle e permanece subjetiva mesmo em
que eram divinos e eternos, porque com eles                  sua objetividade." Em outras palavras, ao con-
tinham sido ordenadas todas as coisas supre-                 trrio das artes figurativas, ela no permite que
mas" U)t'ordi)u>, 11, 14). Em Nozze cli Mercrio             a exteriorizao fique livre para desenvolver-se
e delia filologia. Marciano Capella, em meados               por si mesma e chegar  existncia autno-
do sc. V, inclua a M. entre as artes liberais (re-         ma, "mas supera a objetivao externa e no se
duzidas a sete), e com isso ela passava a ser                imobiliza nela, at transform-la em algo de
um dos pilares da educao medieval. Alguns                  externo qvie tenha existncia independente
sculos depois, Dante comparava a M. ao pla-                 cie ns" ( Vorlesmigeu tiber die sthetik, ed.
neta Marte, pois, como ele,  "a mais bela rela-             Glockner, III. p. 127). Isso quer dizer que na
o" porque est no centro dos outros planetas,              M.. ao contrrio das outras artes, a forma sen-
e o mais caloroso porque seu calor  seme-                   svel em que a Idia se manifesta e exprime 
lhante ao do logo; assim  a M.: "relativa, como             inteiramente superada como tal e resolvida em
se v nas palavras harmonizadas e nos cantos,                pura interioridacle, em puro sentimento.
cuja harmonia  to mais doce quanto mais                        Desse ponto de vista, Hegel diz que o senti-
bela  a relao"; ela "atrai para si os espritos           mento  a forma da M.: "O papel fundamental
humanos, que so principalmente como vapo-                   da M. no consiste em fazer ressoar a prpria
res do corao, pois quase cessam suas opera-                objetividade, mas, ao contrrio, as formas c os
es" (Cotiv., II, 14). O que Dante chama de                 modos nos quais a subjetividade mais ntima
"relao"  a harmonia de que falavam os an-                 do eti e alma ideal se movem em si mes-
tigos; o carter csmico da M.  expresso na                 mas" (Ibid., p. 129). Com o reconhecimento do
sua comparao com vim dos maiores astros cio                sentimento como forma prpria da M. e como
universo.                                                    justificao da superioridade desta, a teoria
   b) A doutrina da M. como auto-revelao do                romntica encontrou expresso definitiva. A
Princpio Csmico tende a privilegiar a M. aci-              radicalizao dessa expresso acha-se na teo-
ma de todas as outras artes ou cincias e a v-la            ria de Kierkegaard, cie que a M. "encontra seu
como a via de acesso mais direta ao Absoluto.                objeto absoluto na genialidade ertico-sensual"
Estas so as caractersticas da concepo ro-                (Aut Ant, "As etapas erticas", etc; trad. fr.,
mntica, cuja melhor expresso se encontra na                Prior e Guignot, p. 54). A definio cie M. como
teoria de Schopenhauer. Segundo ele, enquan-                 arte de expressar "os sentimentos" ou "as pai-
to a arte em geral  a objetivao da vontade                xes" atravs dos sons foi repetida infinitas ve-
de viver (que  o princpio csmico infinito)                zes, eheganclo-se a esquecer o sentido de suas
em tipos ou formas universais (as Idias plat-              implicaes tericas. Foi assumida como uma
MUSICA                                                 691                                           MUSICA


definio objetiva ou cientfica da M. (cf.                  co tipo de benefcio que dela possa resultar,
HANSLICK, Vom Musikalisch-Shnen. 1854, a                    mas para usos mltiplos, pois pode servir para
nota final do cap. 1), e nela se inspirou a obra             a educao, para a catarse e, em terceiro lugar,
de Wagner, que de fato compartilhava a filoso-               para o repouso, o alvio da alma e a suspenso
fia de Schopenhauer sobre M. Nietzsche,                      de todos os afs. Disso resulta que  preciso fa-
na juventude, adotou essa concepo, dela se                 zer uso de todas as harmonias, mas no de to-
desligando a partir de 1878 (com Humano, de-                 das no mesmo modo, empregando para a edu-
masiado humano), quando comeou a entre-                     cao as que tm maior contedo moral, e para
ver na obra de Wagner, que se orientava nos-                 outras finalidades as que incitam  ao ou
talgicamente para o Cristianismo, o abandono                 inspiram  comoo" (Foi., VIII, 7, 1341 b 30
dos valores vitais da Antigidade clssica e um              ss.). Essas consideraes, que, em sua aparente
esprito de renncia e resignao. Mas nem                   simplicidade, parecem excluir a interpretao
mesmo Nietzsche se afastou realmente do con-                 filosfica da M. na realidade expressam o con-
ceito romntico de M. Seu ideal de M. "meridio-              ceito de que a M.  um conjunto de tcnicas
nal" (como a de Bizet) conserva ainda a caracte-             expressivas que tm objetivos ou usos diversos
rstica romntica de expresso de sentimentos,               e que podem ser indefinida e oportunamente
ainda que de um sentimento situado "alm                     variadas. Na realidade, esse conceito  o nico
do bem e do mal". De fato, escreveu: "Meu                    que ajudou e sustentou o desenvolvimento da
ideal seria uma M. cujo maior fascnio consistis-            arte musical. Retornou no Renascimento, sendo
se na ignorncia do bem e cio mal, uma M. que                assim expresso por Vicente Galilei: "O uso da
no mximo vibrasse por alguma nostalgia de                   M. foi introduzido pelos homens para o respei-
marinheiro, por alguma sombra dourada, por                   to e o fim indicado de comum acordo pelos s-
alguma lembrana terna; uma arte que absor-                  bios; de outra coisa no nasceu seno, princi-
vesse em si, com grande distncia, todas as co-              palmente, da necessidade de expressar com
res de um mundo moral no crepsculo, um                      mais eficcia os conceitos do esprito deles ao
 mundo quase incompreensvel, e que fosse su-                celebrarem os louvores, a Deus, aos gnios e
 ficientemente hospitaleira e profunda para aco-             aos heris, como.se pode em parte compreen-
 lher em si os ltimos fugitivos" (Jenseits von              der nos cantochos e cantos eclesisticos, ori-
 Gut und Bse,  255). Ainda hoje se recorre                 gem desta nossa (M.) a vrias vozes, e imprimi-
 freqentemente  definio de M. como ex-                   los, a seguir, com idntica fora nas mentes cios
 presso de sentimentos ou pelo menos isso                  mortais, para a utilidade e a comodidade deles"
 pressuposto como coisa bvia e certa (cf. p.                (Dialogo delia M. antica e delia moderna,
 ex., DI-WF.Y, Ari asHxperience, cap, 10; trad. it.,          1581, ed. Fano, 1947. pp. 95-96). Nestas pala-
 pp. 278 ss.). Na Itlia, isso foi reforado pela            vras de Galilei tambm se reconhece claramente
 doutrina crociana da arte como expresso de                 o carter expressivo das tcnicas musicais: ca-
 sentimentos, mas, obviamente, essa doutrina                 rter que faz da M. uma arte no sentido moder-
 nada mais  que a generalizao, para todo o                no do termo (v. KSTKTICA). O conceito de tcni-
 domnio da arte, da definio romntica de                  ca expressiva  apresentado por Kant com a
 M. Hsta definio ainda se materializa fre-                 noo de "belo jogo de sensaes", que ele
 qentemente na figura do msico, conside-                   utiliza para definir a M. e a tcnica das cores.
 rado como sacerdote ou profeta que sabe                     Kant observa que "no se pode saber com cer-
 ouvir a voz do Absoluto e traduzi-la para a                 teza se uma cor e um som so simples sensa-
 linguagem sonora do sentimento, Ainda hoje                  es agradveis ou se j so, em si mesmos,
  raramente se renuncia a almejar essa represen-             um belo jogo de sensaes e, portanto, con-
  tao romntica da M., graas  qual os ouvin-             tm, enquanto jogo, um prazer que decorre da
  tes da M. sentem-se arrebatados num horizon-               forma deles no juzo esttico". Alguns fatos,
  te mstico, onde os acordes musicais so palavras          especialmente a falta cie sensibilidade artsti-
  de uma divindade oculta.                                   ca em alguns homens e a excelncia dessa
                                                             sensibilidade em outros, convencem a consi-
    2- A caracterstica da segunda concepo                 derar que as sensaes dos dois sentidos, vi-
 fundamental da M.  a identidade, que ela im-               so e audio, no so simples impresses sen-
 plica, entre a M. e suas tcnicas. Tal identidade           sveis, mas "efeito de um juzo formal no jogo
 foi claramente expressada por Aristteles, ao               de muitas sensaes". Km todo caso, "segun-
 reconhecer a multiplicidade das tcnicas musi-              do se adote uma ou outra opinio ao julgar
 cais: "A M. no deve ser praticada por um ni-
MUSICA                                                 692                                           MUSICA


o princpio da M., ser diferente a definio des-           absoluto predomnio da opinio de que o som
ta: ou ser definida (como fizemos) como um                   puro e simples meio de expresso, por outro
belo jogo de sensaes (da audio), ou como                 lado, contrapem-se de maneira to definitiva
um jogo de sensaes agradveis. De acordo                   que a mistura dos dois princpios  uma impos-
com a primeira definio, a M.  considerada                 sibilidade lgica" (Ibid., IV, p. 113). Contudo
uma arte bela, pura e simplesmente; de acordo                esse carter no se encontra apenas na lingua-
com a segunda,  considerada, pelo menos em                  gem musical, mas em qualquer linguagem ar-
parte, uma arte agradvel" (Crt. do Juzo.  SI).           tstica, em confronto com a linguagem comum
O conceito de "belo jogo de sensaes" j tende              (v. ESTTICA).
a exprimir uma noo sinttica da M. e, por acrs-              Embora a noo de M.  qtial msicos, cr-
cimo, uma noo para a qual a investigao                   ticos e estudiosos de esttica musical recorre-
sinttica pode ser dirigida livremente em todas              ram e recorrem de modo explcito continue
as direes Cisto est implcito na palavra "jogo").         sendo de "representao dos sentimentos", foi
    Em meados do sc. XIX essa noo foi for-                a noo de M. como tcnica da sintaxe dos
mulada com maior rigor e clareza na obra de                  sons, cujas regras podem ser indefinidamente
HANSLICK, O belo musical (1854), que ainda                   mudadas, que prevaleceu na prtica da cria-
hoje continua sendo uma das mais importan-                   o musical e na busca de modos de criao
tes obras de esttica musical. Hanslick cerra                novos e mais livres. A ltima e mais radical
fileiras contra o conceito romntico de M. como              tentativa de libertar a lngua musical da sinta-
"representao do sentimento". O objeto da                   xe tradicional  a chamada M. atonal, que
M.  o belo musical, entendendo-se com isto                  nada mais  que a afirmao programtica da
"um belo que, sem decorrer nem depender de                   liberdade da linguagem musical em escolher
qualquer contedo exterior, consista unica-                  sua prpria disciplina; esta, em certos casos,
mente nos sons e em sua interligao artstica.              pode ser at a disciplina tonai. Schnberg diz
As engenhosas combinaes dos belos sons,                    a respeito: "A emancipao da dissonncia,
sua concordncia e oposio, seus afastamen-                 ou seja, sua equiparao com os sons con-
tos e reunies, seu crescimento e morte,                    sonantes ocorreu de modo inconsciente, com
tudo isso que se apresenta em formas livres                 o pressuposto de que stia compreensibilidade
intuio de nosso esprito e agrada como belo.                favorecida por determinadas circunstn-
O elemento primordial da msica  a eufonia.                 cias (em Harmonielehre explico isso com o
sua essncia  o ritmo" ( Vom Musikalisch-                   tato de que a diferena entre consonncia c dis-
Schnen. 111; tracl. it., 1945, p. 82). Assim en-            sonncia no  antittica, mas gradual, ou seja,
tendida, a M. identifica-se com a tcnica rea-               as consonncias so os sons mais prximos
lizadora. Hanslick diz a respeito: "Se as pessoas            do som fundamental, e as dissonncias so os
no sabem reconhecer toda a beleza que vive                  mais afastados; por conseguinte, sua compreen-
no elemento puramente musical, grande par-                   sibilidade  graduada, sendo os sons mais
te da culpa deve ser atribuda ao desprezo                   prximos mais facilmente percebidos que os
pelo sensorial, que, nos antigos estetas, se dava            afastados). Como no basta o ouvido para re-
em favor da moral e do sentimento, e em                      conhecer e compreender as relaes e as fun-
Hegel em favor da idia. Toda arte parte do                  es, tais circunstncias encontraram-se no
sensvel e nele se move. A teoria do sentimen-               campo da expresso e no campo -- at en-
to desconhece esse fato, despreza completa-                  to pouco considerado -- da sonoridade"
mente ouvir e leva em considerao imediata                  ("Gesinnung oder Erkenntnis?", 1926, em L.
o sentir. Acham que a M.  feita para o cora-                ROGNONI, Hspressionismo edodecafonia. 1954,
o e que o ouvido  coisa desprezvel" (bd.,              p. 249).
III, pp. 85-86). Por outro lado, Hanslick ex-
pressou com clareza o carter que diferencia                    Desse ponto de vista, a tonalidade  defini-
a linguagem musical da linguagem comum:                      da, de modo muito geral, como "tudo aquilo
"A diferena consiste em que na linguagem o                  que resulta de uma srie de notas, que 
som  somente um signo,  um meio para                       coordenada atravs da referncia direta a uma
expressar algo completamente diferente des-                  nica nota fundamental ou atravs de interli-
se meio, enquanto na M. o som tem importn-                  gaes complicadas" (Harmonielehre. 1922,
cia em si,  objetivo por si mesmo. A autono-                3a ed., III, p. 488; em ROGNOM, Op. cit., p.
mia das belezas sonoras, por um lado, e o                    243). Alban Berg observava que "a renncia 
                                                             tonalidade 'maior' ou 'menor' no implica
MUSICA                                              693                                 MUTACIONISMO

absolutamente anarquia harmnica" porque,                 novas disciplinas, de novas formas sintticas
"apesar de, com a perda do 'maior' e do me-               para suas tcnicas expressivas; uma e outra
nor' ter-se aberto mo de algumas possibili-              pressupem (mesmo que nem sempre com
dades harmnicas, ainda ficaram todos os                  conceitos claros) a noo de arte como "tcnica
outros elementos essenciais da M. verdadei-               da expresso", entendendo-se por expresso
ra e autntica ("Was ist Atonal", 1930, em                as formas livres e finais da sintaxe lingstica.
ROGNONI, op. cit., p. 290). Seja qual for o               Como foi essa a noo de M. que, no fim da
juzo de gosto sobre as obras musicais inspi-             Idade Mdia e no Renascimento, presidiu  g-
radas nesse programa, no h dvida de que                nese da M. moderna, porquanto se apresentou
o prprio programa nada mais  que a li-                  desde o incio como procura de tcnicas ex-
beralizao da lngua musical e de suas tcni-            pressivas, pode-se vislumbrar nela a condio
cas em relao aos obstculos da sintaxe tra-             que ainda hoje garante capacidade de desen-
dicional, e o-incio da busca de novas formas             volvimento  M.
sintticas, que at podem, ocasionalmente,                   MUTACIONISMO (in. Mutationism: fr. Mu-
coincidir com as tradicionais. Portanto, no               tationisme, ai. Mutationismus; it. Mutazio-
campo da M., o atonalismo  a realizao da               nismo). 1. O mesmo que evolucionismo (v.).
mesma exigncia de libertao. Representada                  2. Doutrina que explica a transformao de
pelo abstracionismo no campo da pintura: as-              uma espcie viva em outra atravs do surgi-
sim como a pintura pretende prescindir das                mento de pequenas mutaes bruscas e here-
formas de representao ou percepo estabele-            ditrias que se produziriam ao acaso, durante
cidas ou reconhecidas, a M. pretende prescin-             uma ou mais geraes.
dir cias formas de harmonia musical estabelecidas            Essa doutrina foi apresentada por DE VRIFS
c reconhecidas. Uma e outra esto em busca de             na obra A teoria das mutaes (1901).
                                               N

  N. Na lgica de Lukasiewicz a letra N  usa-      mam o gnio, o carter, os gostos e os costu-
da para indicar a negao, comumente sim-           mes de um povo, que o fazem ser ele mesmo
bolizada por w de modo que Np significa oop         e no outro, que lhe inspiram o amor ardente
(cf. A. CHURCH, Introduction to Mathematical        pela ptria, fundamentado em hbitos imposs-
Logic, ny 91).                                      veis de erradicar, que o fazem morrer de tdio
   NACIONALISMO (in. Nationalism; fr. Na-           entre outros povos, em meio a delcias das
tionalisme, ai. Nationalismns, it. Nazionalis-      quais est privado em seu pas" (Considrsur
mo). O conceito de nao comeou a formar-          legoiwemement de Pologne, III). Mas foi prin-
se a partir do conceito de povo, que havia do-      cipalmente na poca da restaurao ps-napo-
minado a filosofia poltica do sc. XVIII, quan-    lenica que o conceito de nao comeou a
do se acentuou, nesse conceito, a importncia       assumir importncia dominante como um dos
dos fatores naturais e tradicionais em detrimento   produtos ou o produto fundamental da "tradi-
dos voluntrios. O povo (v.)  constitudo es-      o"  qual se atribua naquele perodo a ori-
sencialmente pela vontade comum, que  a            gem e a conservao de todos os valores fun-
base do pacto originrio; a nao  constituda     damentais do homem. Em Discursos  nao
essencialmente por vnculos independentes da        alem (1808) de Fichte, primeiro documento
vontade dos indivduos: raa, religio, lngua e    do N. alemo, o povo alemo  visto como
todos os outros elementos que podem ser             "o nico povo que tem direito de ser cha-
compreendidos sob o nome de "tradio". Di-         mado de povo, sem outra designao, ao con-
ferentemente do "povo", que no existe se-          trrio dos ramos que dele se separaram, co-
no em virtude da vontade deliberada de seus        mo, alis, indica por si s a palavra alemo"
membros e como efeito dessa vontade, a nao        (Reden, VII), sendo assegurada pela prpria
nada tem a ver com a vontade dos indivduos:        providncia da histria o futuro desse povo
 um destino que paira sobre os indivduos, ao      superior. Com a noo de "esprito de povo",
qual estes no podem subtrair-se sem traio.       Hegel levava a cabo a elaborao do conceito
Nesses termos, a nao s comeou a ser             de nao: "O esprito de um povo  um todo
concebida claramente no incio do sc. XIX; o       concreto: deve ser reconhecido em sua deter-
nascimento desse conceito coincide com o nas-       minao. (...) Desenvolve-se em tocias as aes
cimento da f nos gnios nacionais e nos desti-     e em todas as tendncias de um povo e realiza-
nos de uma nao particular, que se chama na-       se at a fruio e a compreenso de si mesmo.
cionalismo.                                         Suas manifestaes so religio, cincia, arte,
   O conceito de povo permanecia ligado aos         destinos, acontecimentos.  tudo isso que con-
ideais cosmopolitas do sc. XVIII. Mas j em        fere carter a um povo, e no o modo como
Rousseau se encontra a condenao desses            ele  determinado por natureza (como poderia
ideais: o apego de Rousseau ao conceito de          sugerir o fato de a palavra natio ter derivado
cidade-estaclo, da forma realizada na Grcia        de nasci)" (Phil. der Geschichte, ed. Lasson, p.
antiga, levava-o a condenar o universalismo         42; trad. it., 1, p. 49). No esprito dos povos
setecentista. Ao mesmo tempo, esse apego            encarna-se, alternadamente, o Esprito do Mun-
anacrnico levava-o a exaltar o valor do Estado     do, a Razo Universal que preside aos destinos
nacional: "So as instituies nacionais que for-   do mundo e determina a vitria do povo que
NACIONALISMO                                         695                                               NADA

seja sua melhor encarnao. Nesse conceito                      NADA (gr. p.r)8v, x (ir) v; lat. Nihil, in.
de esprito do povo como encarnao ou                     Nothing, Nothingness; fr. Nant; ai. Nichts; it.
manifestao de Deus no mundo, portanto                    Nullci). Duas concepes do N. esto interca-
do carter fatal e providencial da vida histri-           ladas na histria da filosofia: Ia O N. corno no-
ca da nao, j esto compreendidos todos os               scr; 2- o N. como alteridade ou negao. Os
elementos do N. europeu do sc. XIX e de                   fundamentos dessas duas concepes esto,
qualquer N.                                                respectivamente, em Parmnides e Plato.
    Na Itlia, Mazzini procurou conciliar os               Parmnides afirmou que "o N. no " (Fr. 6, 2)
ideais universalistas do iluminismo com o N., e            e que "no pode ser conhecido nem expressa-
viu na "misso" de uma nao o modo como                   do" (Ibid., 4); Plato, decidindo-se por uma
esta pode servir ao objetivo geral da humani-              espcie de "parricdio" em relao a Parmni-
dade. Era uma sntese bastante incoerente, mas             des (Sof., 242 d), admitiu o ser do no-ser e de-
que evitava a exaltao da fora que depois se-            finiu o N. como alteridade: "Resulta que h um
ria encontrada com tanta freqncia no N.                  ser do no-ser, tanto para o movimento quanto
europeu. Gian Domenico Romagnosi foi o pri-                para todos os gneros, j que em todos os
meiro a apresentar uma teoria jurdica do                  gneros a alteridade, qtie torna cada um de-
estado nacionaJ ne.s.se sentido (Delia costituzio-         I.s outro, transforma o ser de cada um em
ne di una monarcbia nazionale rappresenta-                 no-ser, de modo que diremos corretamente
tiva, 1815): teoria adotada mais tarde por P. S.           que todas as coisas no so e ao mesmo tem-
Mancini como fundamento do direito interna-                po so e participam do ser" (Ibid., 256 d).
cional (Delia nazione como fondamento dei                  Assim, enquanto para Parmnides o N.  abso-
diritto dellegenti, 1851). Na Frana a afirmao           luto no-ser, portanto no  pensvel nem
do N. est ligada principalmente  obra do his-            expressvel de modo algum, para Plato o N.
toriador Michelet, que, com o livro Le peuple               a alteridade do ser, ou seja, a negao de um
(1843), criava um dos principais documentos                ser determinado (p. ex., do movimento) e a re-
do N. profetizante. Na Alemanha, outro histo-              ferncia indefinida a outro gnero do ser (ao
riador, Treitschke, empreendia a ilustrao e a            que no  movimento).
defesa do N. alemo, que, na origem, vinculou-                  1- Grgias apoiava a tese de Parmnides
se  poltica de fora de Bismarck e mais tarde            ao afirmar que "o N. no , porque, se exis-
  de Guilherme II. Na Rssia, por fim, Dos-               tisse, seria ao mesmo tempo no-ser e ser:
 toievski erigiu-se em profeta do N. russo (cf.            no-ser enquanto pensado como tal, ser en-
HANS KOHN, Prophets and Peoples, 1946, trad.               quanto seria no-ser" (Fr. 3, 2,6). O N. defi-nido
it., 1949; The Ideal of Nationalism, Nova York             por essas proposies  o N. absoluto, "certa
1944). Tanto a Primeira como a Segunda Guer-               idia negativa do N., daquilo que est infinita-
ra Mundial foram travadas sob o emblema de                 rnente longe de qualquer tipo de per-feio",
um N. que perdera todo o contato com o                     cie que falava Descartes, opondo-a
universalismo setecentista e via na fora o ni-           a Deus, que inclui todas as perfeies (Md.,
co sinal decisivo concedido pela Providncia               IV); ou o "conceito vazio sem objeto", que  a
histrica  nao por ela favorecida. Essa idia,          negao do "mais alto conceito de que se cos-
entronizada pelo fascismo italiano e pelo na-              tuma partir nas filosofias transcendentais", do
cional-socialismo germnico, no era nova: tra-            objeto de que falava Kant (Crt. R. Pura, Anal.
tava-se da velha idia hegeliana e romntica               dos princ, Nota s anfibolias dos conceitos da
do privilgio que o Esprito do Mundo con-                 reflexo). O N. assim entendido foi utilizado
cede  nao em que prefere encarnar-se,                   sobretudo pela teologia e pela metafsica:
pois o nico sinal desse privilgio  precisa-             por um lado serviu para definir Deus, quan-
mente a fora vitoriosa que tal nao pode                 do se quis insistir em sua heterogeneidade
exercer sobre as outras. Esse N. proftico j              em relao ao mundo, ou para definir a mat-
no  professado hoje em dia pelos povos                   ria, quando se quis insistir em sua heterogenei-
europeus, que, graas  lio dada pelas duas              dade em relao s coisas; por outro lado, ser-
guerras, foram reconduzidos aos ideais univer-             viu para introduzir no ser uma condio ou um
salistas do iluminismo: tende, porm, a afir-              elemento que explicasse certos caracteres dele.
mar-se em outras regies do globo terrestre, s
quais s se pode desejar que aproveitem a ex-                  O primeiro uso ocorre freqentemente na
perincia cultural e histrica da velha Europa.            teologia negativa. Scotus Erigena j havia iden-
                                                           tificado Deus com o N. porque Deus  Supe-
NADA                                                696                                                 NADA

ressentia (acima da substncia) e porque o                negativo; essas qualiciades consistem na produ-
N. , por outro lado, "a negao e a ausncia             o de um outro" ( Wissenschaft der Logik, I,
da essncia ou substncia, alis de todas as coi-         se. 1, cap. 1, C, nota I, cf. Ene,  87). A caracte-
sas que foram criadas na natureza" {De divis.             rstica desse tipo de doutrina  a tese de que o
nat., III, 19-21). Essa doutrina  freqentemen-          N .  o fundamento cia negao, e no a nega-
te repetida na Idade Mdia: Deus  indicado               o do N. Isso  expresso por Hegel no tre-
como N., ou "N. do N.", ou "quintessncia do              cho citado, quando ele diz que o positivo e o
N." Zohar, um dos livros da Cabala (cf. S-               negativo contm o N. como base abstrata.
ROUYA, La Kabbale, Paris, 1957, p. 322);  cha-           Na filosofia contempornea a mesma tese  ex-
mado de "N. supra-ente" por Mestre Fxkhart                plicitamente apresentada por Heidegger: " o
(op. cit., ed. Pfeiffer, p. 139) e de "N. eterno"         N. a origem da negao, e no vice-versa" (Was
por Bhme (Mysterium magnum, I, 2). Em to-                istMetaphysik?, 1949, 5a ed., p. 33). Desse pon-
das essas expresses, N. exprime a negao                to de vista, o N.  "a negao radical da totali-
total das formas de ser conhecidas, julgadas              dade do existente" (Ibid.. 1949, 5a ed.. p. 27).
inadequadas  natureza de Deus.                            N. absoluto. Mas, ao mesmo tempo, constitui
    O segundo uso do conceito de N. encontra-             o fundamento do ser, mais precisamente do
se nos neoplatnicos, com o objetivo de acen-             ser do homem, porquanto esse ser  instvel
tuar a diferena entre a matria e as coisas,             (hinfllig). A instabilidade do ser do homem 
entre o carter informe de uma e as determi-              vivida na situao emotiva da angstia. "O
naes das outras. Assim, para Plotino a mat-            existente no  destrudo pela angstia de tal
ria  o no-ser porque desprovida de corpo-               modo que fique, assim, o N. E como pode-
reidade, alma, inteligncia, vida. forma, razo,          ria ser diferente, visto que a angstia se encon-
limite, potncia, que so todos os caracteres do          tra na mais completa impotncia perante o
ser. Segundo Plotino, " preciso dizer que ela           existente em sua totalidade? Na realidade, o N.
no-ser, mas no no sentido em que o movi-                revela-se propriamente com e no existente, na
mento no  repouso ou ao contrrio, mas que              medida em que este. nos escapa e se dissipa
 realmente o no-ser, imagem ou fantasma da              em sua totalidade" (Ibid.. 1949, 5a ed., p. 31).
massa corprea e aspirao  existncia" (Hun.,           Isso significa que o N.  vivido pelo homem na
III, 6, 7). A matria  caracterizada desse mes-          medida em que o ser do homem (a existncia)
mo modo por S. Agostinho: "Se se pudesse                  no  e no pode ser todo o ser: o ser do homem
dizer que o N.  e no  alguma coisa, diria que          consiste em no ser o ser em sua totalidade,
isso  a matria" (Conf., XII, 6, 2).                     que  o N. do ser. Por isso, Heidegger diz que
                                                          o N.  a prpria anulao (" precisamente
    O terceiro uso encontra-se na filosofia mo-           o prprio N. que anula"; Ibid., 5- ed., 1949. p.
derna e visa a resolver o ser no devir ou a pos-          31), e que ele  "a condio que possibilita, em
sibilidade em impossibilidade. O primeiro                 nosso ser-a (Dasein). a revelao do existente
objetivo  buscado pela concepo do N. sus-              como tal" (Ibid.. 5a ed., 1949. p. 32). O proble-
tentada por Hegel. Este observa corretamente              ma e a procura do ser nascem do fato de o ho-
que o velho ditado Ex nihilo nihilfit nada mais           mem no ser todo o ser, de que seu ser  o
exprime que a negao do devir; contra essa               N. da totalidade do ser. Sartre substitui a noo
negao, afirma a indissolubilidade e a conver-           de existncia pela de conscincia, mas conti-
sibilidade recproca do ser e do N, E disse:              nua a interpret-la como ser do homem, que 
"Do ser e do N. cumpre dizer que em nenhum                o N. do ser; termina assim por repetir os con-
lugar, nem no cu nem na terra, existe alguma             ceitos de Heidegger. Sartre diz: "O N. no , o
coisa que no contenha em si tanto o ser quan-            N. foi; o N. no se nadifica, o N. /oniadiiado.
to o N. Sem dvida, quando se fala de certo               Portanto, deve existir um ser -- que no pode-
algo e de algo de real, essas determinaes no           ria ser o em-si -- cuja propriedade  anular o
se encontram mais em sua completa verdade,                N., reg-lo com seu ser, sustent-lo perpetua-
em que esto como ser e como N., mas encon-               mente com sua prpria existncia: um ser gra-
tram-se numa outra determinao e so enten-              as ao qual o N. chega s coisas" (1,'tre et le
didas, p. ex., como positivo e negativo... Mas o           nant, p. 58). Esse ser  a conscincia, que.
positivo contm o ser, e o negativo contm o              sendo consUluda por possibilidades, tsv sem-
 tv, como base abslnwa. Assim, mesmo em                   pre aberta para o N. "Sempre fica aberta a
 Deus a qualidade (atividade, criao, potncia,          possibilidade de que ele se revele como N.
 etc.) contm essencialmente a determinao do
NADA                                                 697                                                  NAO

Mas, pelo simples fato de se aventar que um                ou metafsico. A melhor ilustrao disso na fi-
existente possa resolver-se como N.. toda per-             losofia contempornea encontra-se em Bergson:
gunta supe que se realize um recuo nadifi-                "A idia de abolio ou de N. parcial forma-se
cador em relao ao dado, que se torna sim-                durante a substituio de uma coisa por outra,
ples apresentao, oscilando entre o ser e o N."           a partir do momento em que tal substituio 
(Jbid., p. 59). Desse modo, o homem tem a                  pensada por um esprito que preferiria manter
possibilidade de circunscrever "um N". que o               a coisa antiga no lugar da nova ou que pelo
isole", de colocar-se fora do ser, para questio-           rnenos concebe essa preferncia como poss-
n-lo e subtrair-se  sua totalidade. Est claro o         vel. Do lado subjetivo, implica uma prefern-
que estas especulaes sobre o N. pretendem                cia: do lado objetivo, uma substituio; no passa
sugerir: o ser do homem, constitudo por possi-            de uma combinao ou, antes, de uma interfe-
bilidades que, como tais, podem no se realizar            rncia entre o sentimento de preferncia e essa
e que em todo caso excluem o ser completo ou               idia de substituio" (.vol. cratr., 8a ed.,
total, e manifestando-se portanto de modo                   1911. pp. 305-06). Isso significa que se diz "no
eminente na dvida, no problema, na projeo,              h N." quando no h a coisa que espervamos
etc,  o N. do tudo do ser. Trata-se de especu-            encontrar ou que poderia haver, e que a idia
laes que querem definir o finito (t limitao           do IV. absoluto  uma "pseudo-idiu", to absur-
prpria da existncia humana) utilizando dois              da quanto a de um crculo quadrado (Ibid., p.
infinitos: o tudo e o N.                                   307). Pode-se insistir um pouco menos no
    2- A segunda concepo fundamental do N.,              aspecto subjetivo desse conceito de N. e mais
cujos fundamentos esto em Plato, considera               no aspecto objetivo; pode-se dizer, p. ex., cjue o N.
o X. como alteridade ou negao. Segundo                   exprime a negao ou a ausncia de uma possi-
essa concepo, no h "N, absoluto", aquilo               bilidade determinada ou de um grupo de pos-
que, na terminologia kantiana,  a negao de              sibilidades, sem recorrer  noo de prefern-
todo objeto. Nesta terminologia o N.  apenas              cia ou de substituio; mas a anlise de Bergson
privao de alguma coisa: como a sombra ou o               continua substancialmente correta, tanto em sua
frio (iiihilprivativum), como um ente imagin-             tese positiva quanto na negativa. Ademais, est
rio (eus imaginariam) ou como o objeto de                  em conformidade com o conceito dos lgicos
um conceito que se contradiz (nihil uega-                  contemporneos sobre a negao; p. ex., com
tmm) (Crt. R. Pura, Anal. dos princ, Nota s             o que Carnap exps numa crtica ao conceito
anfibolias dos conceitos da reflexo). Desse               do N. de Heidegger, que se tornou famosa:
ponto cie vista o N.  um objeto (no sentido               para ele. nesse conceito esto resumidos todos
mais geral da palavra) e dele existe uma noo,            os vcios da metafsica. Carnap afirmou ento
ao contrrio cio que pensava Wolff quando                  que a nica noo de N. logicamente correta 
definia o X. como "aquilo a que no correspon-             a negao de uma possibilidade determinada;
de noo alguma" (Ont.,  57). Nesse sentido               portanto, dizer "No h N. l fora" significa
o velho Fredegiso de Tours (sc. IX) tinha                 "No h alguma coisa que esteja fora", "~ (E x)
razo ao afirmar que o N.  alguma coisa, por-             x est fora" ("berwindung der Metaphysik",
que "se algum disser que lhe parece no ser               em Erkenntnis, II, 1931, pp. 229 ss.). E como a
N., essa mesma negao lev-lo- a reconhecer              negao cie que alguma coisa est l fora impli-
que o N. 6 alguma coisa, uma vez que que                   ca que alguma coisa poderia estar l fora, nesse
dizer Parece-me que o N. 6 X.' eqivale a dizer            sentido a negao  a excluso de uma possi-
  Parece-me que 6 alguma coisa' " (De nibilo ei            bilidade determinada.
 tenebrs, em P. L, 105, col. 751). Isso significa            NO (ai. Nicht). Segundo Heidegger, o N.
que, uma vez que se fale em N., mesmo para                 exprime a limitao fundamental da existncia,
dizer que  N., o N.  algo de que se fala, ou             visto que "o ser-a. sendo como poder-ser, est
seja, um objeto em geral. Consideraes desse              sempre em uma ou em outra possibilidade, mas
gnero podem parecer puramente dialticas,                 continuamente N.  uma ou outra porque, no
 mas continuam tendo valor mesmo na lgica                 projeto existencirio, recusa uma ou outra" (Sein
 contempornea (cf. GHYMONAT, Saggi difiloso-              mieiZeit,  58). O N. exprime assim a excluso
fia neorazionalstica, Torino, 1953. pp. 101 ss.).         das possibilidades sempre implcita nas esco-
 Contudo, esse conceito de N. no teve muita               lhas cias que o ser-a (que  o homem) inclui
 acolhida por parte dos filsofos, por razes              em seu projeto. Nesse sentido. Heidegger fala
 compreensveis: no se presta a uso teolgico             do X. como culpa fundamental da existncia:
NAO-EU                                                698                                            NATUREZA


"A idia formal existencial do culpado deve,                natureza, ou seja, atravs da razo ou do cora-
portanto, ser assim definida: ser fundamen-                 o do homem.
to de um ser que  determinado por um N.,                       2. Correspondendo ao segundo significado
ou seja, ser fundamento de uma nulidade"                    de natureza, chama-se de N. o que se inclui na
(fbid).                                                     ordem necessria da natureza, distinguindo-se
    NO-EU(in. Non-ego; fr. Non mo; ai. Nicht              da ordem sobrenatural, desejada ou estabeleci-
ich; it. Non io). Por este termo Fichtc indicava            da diretamente por Deus.
o mundo da natureza e em geral o mundo                          No mbito de ambos os significados, N.
objetivo, na medida em que  posto pelo Eu                  contrape-se tambm a artificial, por ser aqui-
mas oposto ao prprio Eu. ''Nada h que se-                 lo que  prodtizido pela causalidade da nature-
ja posto originariamente, exceto o Eu; e s ele            za, fora do arbtrio humano.
posto absolutamente. Por isso, s se pode ter                   3. Em correspondncia com o terceiro signi-
oposio absoluta pondo-se algo de oposto ao                ficado de natureza, fala-se, p. ex., de "coisas
Eu. Mas o oposto ao Eu  = No-Eu" ( Wissens-               N.'' para dizer "coisas externas", e de "causali-
chaftslehre, 1794,  2. 9).                                 dade N." para dizer "causalidade externa".
    NARCISISMO (in. Narcissism-, fr. Narcisis-                 4. Hoje em dia, a denominao "cincias"
 me; ai. Narzissismus-, it. Narcisismo). 1. Segun-          N." leva em conta o 4" significado de nature-
do Plotino, o mito de Narciso representa a si-              za (v.).
tuao do homem que, no sabendo que a                          NATURALISMO (in. Naturalism; fr. Na-
beleza est dentro dele, procura-a nas coisas               turalisme-, ai. Naturalismus; it. Naturalismo).
externas, nas quais tenta em vo abra-la (Enn..           Esse termo tem trs significados diferentes:
I, 6, 8; V, 8, 2). Essa interpretao ganha des-                Ia Doutrina para a qual os poderes naturais
taque sobre o pano de fundo da preocupa-                    da razo so mais eficazes que os produzidos
o fundamental de Plotino, que  a da busca                ou promovidos pela filosofia no homem. Nes-
interior, ou da inferioridade de conscincia                se sentido, Kant dizia: "O naturalista da razo
                                                            pura admite, por princpio, que atravs da ra-
(v.). Algumas vezes, o significado desse mito
                                                            zo comum, sem cincia (que ele chama de
foi invertido por autores modernos: o narci-                 razo s"), pode-se concluir mais sobre as ques-
sismo no representaria a inutilidade da ten-               tes superiores da metafsica, do que por meio
tativa de buscar no exterior o que  interior,              da especulao. Afirma, pois, que o tamanho e
mas o autntico destino do homem, que  pro-                a distncia da lua podem ser determinados com
jetar-se para fora de si e amar como tal o que              mais segurana a olho nu que por meio da ma-
est dentro dele (cf. LAVEU.K, L 'envurdeNarcisse,          temtica" (Crt. R. Pura, Doutrina do mtodo,
1939).                                                      cap. IV).
    2. Uma forma ou modo da sexualidade,                        2- Doutrina segundo a qual nada existe fora
segundo a psicanlise, mais precisamente                    da natureza e Deus  apenas o princpio de mo-
aquela em que a libido (v.) reinveste o Ego                 vimento das coisas naturais. Nesse sentido, que
desinvestindo o objeto, de tal modo que o                   o mais difundido na terminologia contempor-
Ego "se comporta em relao aos investimen-                 nea, fala-se do "N. do Renascimento", do "N. antigo",
tos objetais como o corpo de um animalzinho                 do "A^ materialista", etc.
protoplasmtico que ele emitiu" (FREUD, Intro-                  3Q Negao de qualquer distino entre na-
duo ao narcisismo, 1914).                                 tureza e supranatureza e tese de que o homem
   NATIVISMO. V. INATISMO.                                  pode e deve ser compreendido, em todas as
   NATURAL (gr. cpuoiK; lat. Naturalis; in.               suas manifestaes, mesmo nas considera-
Natural; fr. Naturel; ai. Natrlich; it. Naturale).         das superiores (direito, moral, religio, etc),
Os usos deste adjetivo correspondem aos usos                apenas em relao com as coisas e os seres do
fundamentais do termo natureza.                             mundo natural, com base nos mesmos con-
   1. Correspondendo ao primeiro significado,               ceitos que as cincias utilizam para explic-los.
N. pode ser: o que  produzido pelo princpio                esse o sentido atribudo ao termo N. por
do movimento, ou o que se produz por si,                    muitos filsofos americanos (Santayana, Wood-
espontaneamente. Neste sentido, falou-se de                 bridge, Cohen) e pelo prprio Dewey (Experien-
"direito N.", que consiste em conformar-se                 ce and Nature, cap. III, e passim).
ordem espontnea da natureza; ou de "religio                  NATUREZA (gr. (poi; lat. Natura, in. Na-
N.", que  revelada pela natureza ou atravs da             ture, fr. Nature, ai. Natur, it. Natura). Paradefi-
NATUREZA                                             699                                         NATUREZA

nir este termo, lanou-se mo de uma srie de              relativos (De divis. nat., III, 1), foi introduzida
conceitos, entre os quais h alguns pontos em              na escolstica latina por Averris (De cael., I,
comum. Os principais so os seguintes: le prin-             1), sendo amplamente aceita (cf. S. TOMS DE
cpio do movimento ou substncia; 2e ordem                 AQUINO. S. Th., II. 1, q. 85, a. 6). Spinoza nada
necessria ou conexo causai; 3Q exterioridade,            mais fez que reexp-la quase nos mesmos ter-
contraposta  interioridade da conscincia; 4a             mos {Et., I, 29, schol.). A essa distino, mais
campo de encontro ou de unificao de certas               precisamente ao conceito de N. naturada, liga-
tcnicas de investigao.                                  se o outro significado subordinado, de N. como
    lg A interpretao da N. como princpio de             universo ou conjunto das coisas naturais: con-
vida e de movimento de todas as coisas exis-               ceito que coexiste com o de N. como princ-
tentes  a mais antiga e venervel, tendo condi-           pio de movimento, por ser seu resultado, e
cionado o uso corrente do termo. "Permitir a               -- como veremos -- com o de N. como ordem,
ao da N.", "Entregar-se  N.", "Seguir a N.", e          por designar, neste segundo caso, a N. "mate-
assim por diante, so expresses sugeridas                 rial" ( materialiter spectata).
pelo conceito de que a N.  um princpio de                    A exaltao especulativa da N. por parte do
vida que cuida bem dos seres em que se mani-               naturalismo renascentista recorre ao conceito
festa. Foi nesse sentido que Aristteles definiu           de N. criadora ou universal. Nicolau de Cusa
explicitamente a N.: "A N.  o princpio e a cau-          dizia: " o Esprito difuso e contrado por todo
sa do movimento e do repouso da coisa  qual               o universo e por cada uma de suas partes que
ela inere primariamente e por si, e no por aci-           se chama de N. Portanto, de algum modo a N. 
dente" (Fs., II, 1, 192 b 20). Como explica o             a reunio (complcatio) de todas as coisas ge-
prprio Aristteles, a excluso da acidentalida-           radas atravs do movimento" (Dedocta ignor.,
de serve para distinguir a obra da N. da obra              II, 10). E Giordano Bruno afirmava: "A N. ou 
do homem. A. N. tambm pode ser matria, a                 Deus mesmo, ou a virtude divina que se mani-
admitir-se, como faziam os pr-socrticos, que             festa nas coisas" (Summa terminorum, em Op.
a matria tem em si prpria um princpio de                latine, IV, 101). No mesmo sentido Spinoza
movimento e de mutao; mas  realmente                    identificava a N. com Deus (Et., I, 29, schol.).
esse mesmo princpio, portanto a forma ou a                Esse conceito da N. atravessou o sc. XVIII e
substncia em virtude da qual a coisa se de-               foi reafirmado por Wolff (Cosm.,  503-506) e
senvolve e torna-se o que  {Fs., II, 1, 193 a 28         por Baumgarten (Met..  430). Quando, naque-
ss.). Por esse motivo a N. assume o significado            le mesmo sculo, comeou-se a contrapor a N. ao
de forma, substncia ou essncia necessria:               homem e a proclamar-se a "volta  N.", a N. 
uma coisa possui sua N. quando alcanou sua                qual se recorreu continuava sendo a do antigo
forma, quando  perfeita em sua substncia.                conceito aristotlico: princpio diretivo inato no
Em concluso, segundo Aristteles, a melhor                homem sob forma de instinto; tal foi o conceito
definio da N.  a seguinte: "A substncia das            de Rousseau (De 1'ngalitparmi les hommes,
coisas que tm o princpio do movimento em si              I). Essa noo j entrou no patrimnio das
prprias": nesta definio podem ser includos             crenas comuns de nosso mundo, e por isso
todos os significados do termo {Met., V, 4,1015            est presente, mesmo sem se fazer notar, nas
a 13). Nesse sentido, a N.  no somente causa,            mais elaboradas concepes filosficas.
 mas causa final {Fs., II, 8,199 b 32). A tese do
                                                               Como se viu, compreende trs conceitos
finalismo da N. costuma estar ligada a esse con-
                                                           coordenados ou eqipolentes: d) a N. como
ceito da N.
                                                           causa (eficiente e final); b) a N. como substn-
   Tal conceito, que  a sntese dos dois con-             cia ou essncia necessria; c) a N. como totali-
ceitos fundamentais da metafsica aristotlica             dade das coisas.
(substncia e causa), dominou por muito tem-                   2- A segunda concepo fundamental de N.
po a especulao ocidental e nunca foi com-                considera-a como ordem e necessidade. A ori-
pletamente obliterado por conceitos diferentes             gem dessa concepo est nos esticos, para
e concorrentes. Por sua causalidade, a N.  o              os quais "a N.  a disposio a mover-se por si
prprio poder criador de Deus:  N. naturante.             segundo as razes seminais, disposio que
Mas como tal causalidade  inerente s coisas              leva a cabo e mantm unidas todas as coisas
que produz, a N.  a prpria totalidade dessas             que dela nascem em tempos determinados e
coisas,  N. naturada. Essa distino, que se              coincide com as prprias coisas das quais se
encontra em Scotus Erigena, mas sem os termos              distingue" (DiG. L, VII, 1, 148). Nesta defini-
NATUREZA                                              700                                         NATUREZA


 o  acentuada a regularidade e a ordem do                de todos os fenmenos"; a segunda seria "a re-
 devir  cjual a N. preside. A este conceito de N.          gularidade dos fenmenos no espao e no
 est ligada a noo de lei natural, que. da An-            tempo" (Ibid..  26). Mas a primeira nada mais 
tigidade ao sc. XIX, teve grande importncia              que o material a que se aplica a segunda, e o
 na moral e no direito (y.). De fato, a lei natural         conceito da N. continua sendo o de regularida-
  a regra de comportamento que a ordem do                  de devida a leis (Prol.,  14). Esta doutrina foi
 mundo exige que seja respeitada pelos seres                repetida numerosas vezes na filosofia moderna
vivos, regra cuja realizao, segundo os esti-             e contempornea. Entre os ltimos que a repe-
cos, era confiada ao instinto (nos animais) ou             tem pode-se lembrar Whitehead, para quem N. 
 razo (no homem) (DIG. L, VII, I, 85). O                  "um complexo de entes em relao", em que a
 aristotelismo do Renascimento retoma o con-                nfase  posta na relao, atribuindo-se  filo-
 ceito de N. como ordem. Em Defeito (sc. XVI),             sofia natural a tarefa de "estudar como se inter-
 Pietro Pomponazzi defendia explicitamente o                ligam os vrios elementos da N. (The Concept
fado estico, que  a necessidade absoluta da               ofNature, 1920, caps. I-II; trad. it., pp. 13. 28).
 ordem csmica estabelecida por Deus. E o pen-                  3U Para a terceira concepo, N.  a manifes-
 samento que fundamenta as primeiras mani-                  tao do esprito, ou um esprito diminudo ou
 festaes da cincia moderna, na obra de Leo-              imperfeito, que se tornou "exterior", "acidental"
 nardo, Coprnico, Keplere Galilei,  o de ordem            ou "mecnico", ou seja, foi degradado de seus
 necessria e de carter matemtico, que a cin-            verdadeiros caracteres. Essa concepo encon-
 cia deve descobrir e descrever. Segundo Leo-               tra-se claramente expressa em Plotino: "A sa-
 nardo da Vinci: "A necessidade  tema e inven-             bedoria  o primeiro termo: a N.  o ltimo. A
 tora da N., freio e regra eterna" (Works. ed.              \.  a imagem da sabedoria e  a ltima pane
 Richter, nQ 1135). Para Galilei, a N.  a ordem            da alma; como tal, s tem em si os ltimos
 do universo, ordem nica que nunca foi nem                 reflexos da razo. (...) A inteligncia tem em si
 ser diferente (Op., VII, p. 700). A insistncia           tudo; a alma cio universo recebe as coisas eter-
 na N. como ordem e necessidade  acom-                     namente, sendo a vida a eterna manifestao
 panhada pela negao do finalismo da N., ca-               do intelecto, mas a N.  o reflexo da alma na
 racterstico da primeira concepo (v. FINA-               matria. A realidade termina nela, ou at antes
 I.ISMO). Esse conceito da N. permaneceu co-                dela, pois ela  o termo do mundo inteligvel:
 mo fundamento da cincia moderna em todo                   alm dela, s h imitaes" (Erin., IV, 4, 13). O
 seu perodo clssico. "A N.  bastante conso-              conceito de N. como manifestao, no sentido
 nante e concordante consigo mesma", dizia                  de "exteriorizao", com tudo o que a exteriorida-
 Newton (Optiks, 1704, III, 1, q. 31), mas foi              de tem cie diminudo ou degradado em relao
 Boyle quem teve as idias mais claras sobre                 interioridade e  conscincia, foi compartilha-
 isso, afirmando explicitamente: "A N. no deve             do (e continua sendo) por todas as metafsicas
 ser considerada como um agente distinto c se-              espiritualistas. E retomado pela teosofia renas-
 parado, mas como uma regra, ou antes como                  centista e encontra-se, p. ex., em Jakob Bhme
 um sistema de regras, segundo as quais os                  (De signcitura rerum. IX). Mas oi o roman-
 agentes naturais e os corpos sobre os quais eles           tismo que o amplificou e difundiu. Novalis
 agem so determinados pelo Grande Autor das                dizia: "O que  a N. seno o ndice enciclopdi-
 coisas a agir e sofrer ao." Foi esta a concep-           co sistemtico ou o plano de nosso esprito?"
 o da N. aceita por Kant. "Pela expresso N.'             (Fragmente. n 1384). Foi Hegel quem ex-
 (em sentido emprico) entendemos a conexo                 pressou do modo mais rigoroso e completo
 dos fenmenos para sua existncia segundo                  esse conceito: "A N.  a idia na forma de
 regras necessrias ou leis. Existem, portanto,             ser outro", isto , da "exterioridade" (Ene,
 certas leis apriori que tornam possvel uma N.:            % 247). Como tal, no mostra, em sua existn-
 as leis empricas podem estar presentes e ser              cia, liberdade alguma, mas apenas necessidade
 descobertas apenas atravs da experincia,                 e acidentalidade. Portanto, "na N.. no s a
 portanto depois das leis originrias graas s             inter-relao das formas est  merc de uma
 quais comea a ser possvel a prpria experin-            acidentalidade desregrada e desenfreada, como
 cia" (Crt. R. Pura, Anal. dos princ, cap II. se.         tambm nenhuma forma tem, por si. o concei-
 3, Terceira analogia). Em outro lugar Kant dis-            to de si mesma". Hegel reconhece que a N. est
 tingue a N. materialiter spectata da N. for-               sujeita a "leis eternas", mas isso no a salva: a
  maliler spectatci: a primeira seria "o conjunto           N.  pior que o mal. "Quando a acidentalidade
NATUREZA                                              701                        NATUREZA, ESTADO DE

espiritual, o arbtrio, chega ao mal, at o mal        de Gentile, para quem ela  o "passado do es-
algo infinitamente superior aos movimentos              prito", sendo, pois, um limite abstrato que o
dos astros e  inocncia das plantas; porque            esprito recompreende em si e "domina" {Teo-
quem assim erra, ainda  esprito, apesar de             ria generale dello spirito, XVI, 18).
tudo" (Ibid.,  248).  bem verdade que nem                 4- A quarta concepo de N. pode ser dis-
toda a filosofia romntica compartilhou a con-          cernida de modo implcito ou na forma de
denao hegeliana da N. Schelling exaltou a             pressuposto na prtica efetiva da pesquisa
N., considerando-a como parte ou elemento               cientfica e em algumas anlises da metodolo-
da vida divina. Numa obra de 1806, censura-             gia cientfica contempornea. Para esta, a N. 
va Fichte por encarar a N. ora com um asce-             definida em termos cie campo (v.), mais preci-
tismo grosseiro e insensato, considerando-a             samente o campo ao qual fazem referncia e
puro nada, ora de um ponto de vista pura-               em que se encontram (ou algumas vezes se
mente mecnico e utilitarista, considerando-a           desencontram) as tcnicas perceptivas e de ob-
um instrumento de que o Eu Absoluto lana               servao de que o homem dispe: as primeiras
mo para realizar-se ( Werke, I, VII, pp. 94,103).      no so menos complexas que as segundas,
Na realidade, ao considerar a N. como manifes-          apesar de se mostrarem como "naturais", ou
tao do Absoluto, Schelling no insistia tanto         seja, passveis de serem postas em prtica sem
na inferioridade da manifestao em relao ao          o concurso de projetos deliberados. A arte faz
Princpio que se manifesta, mas sobretudo na            constante referncia s tcnicas perceptivas,
estreita relao entre os dois. Esta  a outra          pois sempre oferece alguma coisa a ser "vista"
alternativa oferecida pela concepo da N. de           ou "sentida", mesmo quando pretende ser
que tratamos. Por um lado pode-se insistir nos          "abstrata" e prescindir das formas comumente
aspectos que distinguem a N. do esprito e que,         oferecidas pela percepo comum. A cincia
de algum modo, os contrapem, quais sejam,              natural faz referncia s tcnicas de observa-
exterioridade, acidentalidade e mecanismo,              o, pois, mesmo iniciando seu trabalho com a
mas, por outro lado, pode-se tambm ressaltar           percepo, afasta-se desta rapidamente tanto
que a N., como manifestao do esprito, tem            no que se refere aos instrumentos de obser-
em comum com ele seus caracteres substan-               vao quanto no que diz respeito aos obje-
ciais. Foi o que fez Schelling, mas a primeira          tos que consegue identificar (p. ex., "massa",
alternativa costuma prevalecer. O espiritualis-         energia", "eltrons", "ftons", etc), alguns
mo francs do sc. XIX compartilhou quase               dos quais se comportam de modo muito dife-
unanimemente a tese expressa por Ravaisson              rente cias "coisas" que so objeto da percepo
no fim de Rapport sur Iaphilosophie en France           comum. Hoje, pode-se entender como N. o cam-
au XIX''""' s'c7c(lH68)": a N.  a degradao, em     po objetivo ao qual fazem referncia os vrios
mecanicismo e necessidade, de um Principio              modos da percepo comum e os vrios mo-
Espiritual que  espontaneidade e liberdade.            dos da observao cientfica, do modo como
Essa concepo tambm prevaleceu no espi-               esta  entendida e praticada nos vrios ramos
ritualismo do sc. XX graas a Bergson. A N.,           da cincia natural. Nesse sentido a N. no se
como exterioridade ou espacialidade,  uma              identifica com um princpio ou com uma apa-
degradao do esprito.  assim que Bergson             rncia metafsica, nem com determinado siste-
expe o projeto de uma teoria do conhecimen-            ma de conexes necessrias, mas pode ser de-
to da N.: ''Seria preciso, com um esforo sui           terminada, em cada fase do desenvolvimento
generiso esprito, seguir a progresso, ou me-         cultural cia humanidade, como a esfera dos pos-
lhor, a regresso do extra-espacial que se de-          sveis objetos de referncia das tcnicas de ob-
grada em espacialidade. Se no.s situarmos pri-          servao que a humanidade possui. Trata-se,
meiramente no ponto mais alto de nossa                  como  bvio, de uma concepo no dog-
prpria conscincia para em seguida deixarmo-           mtica, mas funcional, pois ainda no foram
nos cair pouco a pouco, teremos a sensao de           feitas indagaes metodolgicas suficientes para
que nosso eu se estende em recordaes iner-            esclarec-la; contudo, afigura-se corno uma exi-
tes, exteriorizadas umas em relao s outras,          gncia da atual fase da metodologia cientfica.
 em vez. de propender a um querer indivisvel e
agente. Mas isso  apenas o incio, etc. (vol.               NATUREZA, CINCIAS DA. V. CINCIAS,
 cratr., 11a ed., 1911, p. 226). O mesmo senti-        CLASSIFICAO DAS.
do de degradao  atribudo  N. na filosofia                NATUREZA, ESTADO DE (in. State of na-
                                                            ture, fr. tat de nature, ai. Naturzustand; it.
NATUREZA, ESTADO DE                                 702                      NATUREZA, FILOSOFIA DA

Stato di natura). Condio do homem, antes da             "Tudo que sai das mos do Criador  perfeito,
constituio da sociedade civil, segundo a dou-           tudo degenera nas mos do homem": era assim
trina do contratualismo (y.). J em Plato, no            que Rousseau comeava o Emlio. No prprio
III Livro de Leis, encontra-se a noo da condi-          Rousseau, porm, essa exaltao do estado de
o em que os homens ficaram depois da des-               N. contrasta com o valor atribudo ao estado ci-
truio de suas cidades por enormes catstro-             vilizado, com base no contrato social; na reali-
fes: "Esta  a condio dos homens depois da              dade, em Rousseau a noo de estado de N.
catstrofe: uma terrvel e ilimitada solido, a           constitui o critrio ou a norma para julgar a so-
terra imensa e abandonada; mortos quase to-               ciedade presente e delinear um ideal de pro-
dos os animais e os bovinos, sobrou apenas                gresso. Aps Rousseau, Kant entendia pot
um pequeno grupo de cabras, qual msero res-              estado de N. "aquele em que no h justia
to, para que os pastores recomeassem a vida"             distributiva alguma" (Met. der Sitten, I,  41). E
(Leis, III, 677 e). Esta no  a descrio de uma         Hegel mostrava o equvoco de se ter inventado
condio idlica, assim como no foi idlica a            o estado de N. como condio de fato na qual
condio que Hobbes atribuiu ao estado de N.,             valesse o direito natural; isso por se interpretar
a guerra de todos contra todos: "Enquanto vi-             a expresso "direito natural" no sentido de di-
vem sem um poder comum ao qual estejam su-                reito existente na N., e no de direito determi-
jeitos, os homens encontram-se na condio                nado pela N. da coisa (Ene,  502). A partir de
que chamamos de guerra, e tal guerra  de um              Hegel, a noo de estado de N. deixou de inte-
homem contra o outro" (Leviatb., I, 13). Isto             ressar aos filsofos, mas permaneceu como no-
acontece porque, sendo iguais por N., os ho-              o  qual o homem comum recorre de bom
mens tambm tm os mesmos desejos, e dese-                grado, sendo tambm utilizada pelas doutrinas
jando as mesmas coisas procuram preponderar               polticas utopistas, que freqentemente proje-
uns sobre os outros (Lbid.). A fundao do                tam o estado de N. como uma perfeio do fu-
Estado, de um poder soberano,  o nico meio              turo, e assim fazem tambm, algumas vezes, as
para sair da condio de guerra, prpria do               imaginaes fantsticas da fico cientfica.
estado de N.                                                 NATUREZA, FILOSOFIA' DA (in. Philo-
    Por outro lado, na Antigidade, Sneca exal-          sophy ofnature, fr. Philosophie de Ia nature, ai.
tava o estado de N. como uma condio perfei-             Naturphilosophie; it. Filosofia delia natura),
ta do gnero humano. Na nonagsima Epstola               Esta expresso, diferente da tradicional "filoso-
a Lucio, Sneca descreve a idade de ouro, em             fia natural" que designa a fsica ou as cincias
que os homens eram inocentes, felizes e vi-               naturais em geral, foi empregada pela primeira
viam com simplicidade, sem buscar o supr-                vez por Kant para designar uma disciplina niti-
fluo. Alm disso, no tinham necessidade de               damente distinta da cincia. Por filosofia da N.
governo e de leis porque obedeciam aos mais               ou metafsica da N., Kant entendeu a disciplina
sbios. Mas, em certo momento, o prprio pro-             que "abarca todos os princpios racionais puros
gresso das artes levou  avidez e  corrupo,            que derivem de conceitos simples (portanto
contra as quais se tornou necessria a institui-          com excluso da matemtica) do conhecimen-
o do Estado. A exaltao do estado de N. tor-           to terico de todas as coisas" (Crt. R. Pura,
nou-se tema recorrente na filosofia do sc.               Doutr. transe, do mtodo, cap. III). Assim en-
XVIII; sua expresso mxima est na obra de               tendida, a filosofia da N.  uma das duas partes
Rousseau. Opondo-se a Hobbes, Locke j havia              fundamentais da filosofia (a outra  a filosofia
considerado o estado de N. como um estado                 moral) e compreende apenas os princpios a
de perfeio:  "um estado de perfeita liberda-           priori nos quais se baseia o conhecimento da
de, em que cada um regulamenta suas prprias              N., que so os fundamentos da fsica e das
aes e dispe de suas posses e de si mesmo               outras cincias tericas da N., mas no as leis,
como bem lhe aprouver, dentro dos limites da              cuja descoberta, na prpria N., cabe  fsica
lei da N., sem pedir permisso a ningum, nem             (lbid., cf. Crt. do Juzo, Intr., I).
depender da vontade de ningum1' (Second                      Depois de Kant a expresso filosofia da N.
 Treatise on Governement, II, 4). Mas foi Rous-           passou a designar uma disciplina que estu-
seau quem mais exaltou a perfeio do es-                 da a N., mas no como cincia. Foi desse modo
tado de N., argumentando que nessa condio               que Schelling interpretou a filosofia da N.,
o homem obedece apenas ao instinto, que                   dedicando-lhe a maior parte de sua atividade.
 infalvel (De 1'ngalitparmi les hommes, I).          Schelling julgava que a cincia baseada na
NATUREZA, FILOSOFIA DA                                703                                       NECESSRIO


investigao experimental nunca  realmente                 contempornea, ao contrrio, tem acentuado
cincia. De fato, a N.  a priori, no sentido               cada vez mais a ilegitimidade de extrair as pro-
de que suas manifestaes individuais so de-               posies cientficas de seus contextos e de
terminadas de antemo por sua totalidade, ou                encontrar nelas significados que vo muito
seja, pela idia de uma N. em geral (Werke, I.              alm do que o prprio contexto autoriza. Com
III, p. 279). Substancialmente, a tarefa da filoso-         essa limitao metodolgica, a tarefa da filoso-
fia da N.  mostrar que a N. se resolve no esp-            fia da N.  cortada pela raiz. E tudo aquilo que
rito (System der transzendentalen ldealismus,               ela legitimamente compreendia, que eram os
 1), e esse objetivo permaneceu inalterado em              problemas concernentes  linguagem cientfica
todas as suas manifestaes no sc. XIX; nesse              em geral e s linguagens das cincias indivi-
sentido, foi grande a influncia de Hegel, que              duais, as relaes entre as cincias, o estudo
considerou a filosofia da N. como uma das trs              comparativo de seus mtodos, etc, hoje en-
grandes divises da filosofia, sendo as outras              contra lugar no seio da metodologia das
duas a lgica e a filosofia do esprito. A lgica           cincias.
seria o sistema das determinaes puras do                      NATURISMO (in. Naturism, fr. Naturisme,
pensamento. A filosofia da N. e a filosofia do              ai. Natiirismus; it. Naturismo). 1. Doutrina ou
esprito seriam ambas uma lgica aplicada;  fi-            crena de que a natureza  o guia infalvel para
losofia da N. caberia a tarefa "de levar para a             a sade fsica e mental do homem, e de que o
conscincia as verdadeiras formas do conceito,              homem deve "retornar" a ela em seus compor-
imanentes nas coisas naturais" (System der                  tamentos e costumes, afastando-se das criaes
PhiL, ed. Glockner, I, pp. 87-88). A filosofia da           artificiais e da sociedade. Essa doutrina funda-
N., assim entendida, nada mais  que a mani-                menta muitas prticas e crenas populares
pulao arbitrria de conceitos cientficos,                do mundo contemporneo, aps ter sido
extrados de seus contextos, com o fim de re-               doutrina filosfica no sc. XVIII (v. NATURE-
duzi-los a determinaes racionais ou pseudo-               ZA, ESTADO DH).
racionais; continuou assim inclusive quando                     2. Menos propriamente: culto religioso da
quis escapar  formulao idealista e foi tratada           natureza.
do ponto de vista realista, como fez Nicolai                   NUSEA (in. Nusea; fr. Nause, ai. Ekel; it.
Hartmann. A Filosofia da natureza(l9*>0), des-              Nusea).Experincia emocional de gratuidade
te ltimo, conserva a pretenso de entrever ou              da existncia, ou seja. da perfeita equivalncia
reconhecer o valor "metafsico" ou ''ontolgico"            das possibilidades existenciais. Essa noo foi
dos resultados da cincia. Deveria ser tarefa da            introduzida na filosofia por Sartre e por ele
filosofia da N. a anlise categoria! dos concei-            ilustrada principalmente no romance intitulado
tos cientficos. Hartmann afirma que ''o pensa-             La nause.
mento matemtico no pode dizer o que so
                                                               NAVALHA DE OCKHAM. V. ECONOMIA.
extenso, durao, fora e massa. Neste ponto,
insere-se a anlise categorial:  com os porta-                 NECESSRIO (gr. vaymo; kit. Necess-
dores ou substratos da quantidade que se li-                rias; in. Necessary, fr. Ncessaire, ai. Notwendig,
gam os problemas metafsicos de fundo da fi-                it. Necessrio). O que no pode no ser; ou o
 losofia da N." (Pbilosophie der Natur, p. 22).             que no pode ser. Esta  a definio nominal
                                                            tradicional que constitui uma das noes mais
   Pode-se dizer que o ltimo e mais restrito               uniforme e firmemente estabelecidas na tradi-
conceito de filosofia da N. foi apresentado pe-             o filosfica. Segundo essa definio, "o que
los componentes do Crculo de Viena, nos                    no pode ser"  o impossvel, que  o contrrio
primrdios do empirismo lgico. M. Schlick                  oposto de N., sendo tambm N.. assim como o
considerava a filosofia da N. como a anlise do             preto, que  a cor oposta do branco, tambm 
significado das proposies prprias das cin-              cor. O contraditrio do N., o no-N.,  a outra
cias naturais. "Desse ponto de vista" -- dizia              modalidade fundamental, opossweKv.). As dis-
ele -- "a filosofia da N. no  uma cincia,                cusses lgicas contemporneas sobre o N.,
mas uma atividade dirigida  considerao do                quando no eqivalem  negao expressa ou
significado das leis de X." (Philosopby of Na-              implcita dessa noo, nada mais so que a
ture, trad. in., 1949, p. 3). Neste conceito h             reapresentao dessa definio em termos de
ainda alguns vestgios da filosofia como "viso             convencionalismo moderno.
do mundo" ou sntese dos resultados mais ge-                    O primeiro a fazer uma anlise exaustiva de
rais das cincias particulares. A metodologia               "N." foi Aristteles. Ele distinguiu: a) o N. como
NECESSRIO                                          704                                       NECESSRIO


condio ou concausa, em virtude do que se                Aquino enumera: a) necessidade material(ou
diz, p. ex., que o alimento  N.  vida ou o              ex principio intrnseco), no sentido em que se
remdio  N.  sade, ou que ir a certo lugar            diz que " N. que tudo o que  composto por
N. para receber certa quantia; b) o N. como for-          contrrios se corrompa"; b) necessidade for-
a ou coao, em virtude do que se diz que                mal, que  naturale absoluta, segundo a qual
N. o que impede ou obsta  ao de um instin-             se diz que " N. que um tringulo tenha os
to ou uma escolha; c) o N. como o que no                 trs ngulos iguais a dois retos"; c) necessida-
pode ser de outra forma, que  o sentido fun-             de final ou utilidade, segundo a qual se diz
damental do conceito. De fato, segundo Arist-            que o alimento  N.  vida ou um cavalo  N. 
teles, os outros sentidos podem ser reduzidos             viagem; d) necessidade eficiente, ou necessida-
a esse: "Diz-se que  N. aquilo a que somos               de de coao, segundo a qual somos coagidos
coagidos quando uma fora qualquer nos obri-              por uma causa eficiente de tal modo que no
ga a fazer ou a sofrer alguma coisa que  contra          se pode agir de outro modo. Em todos os ca-
o instinto, de tal modo que a necessidade con-            sos, para S. Toms de Aquino N.  "aquilo que
siste, neste caso, em no poder fazer ou sofrer           no pode no ser" (S. Th., I, q. 82, a. 1,1; De
de outra forma. O mesmo vale para as condi-               ver., q. 22, a. 5). Est claro que essa distino
es da vida e do bem, pois quando o bem, a               reproduz a aristotlica. A necessidade material
vida ou o ser no podem existir sem algumas               e a final so a necessidade hipottica de Aris-
condies, estas so chamadas de necessrias              tteles; a necessidade por coao tem o mesmo
e diz-se que a causa  a prpria necessidade"             nome em Aristteles, e tanto para S. Toms de
(Met., V, 5, 1014 b 35). No sentido fundamen-             Aquino quanto para Aristteles a necessidade
tal, as demonstraes so necessrias porque              "natural e absoluta"  o significado fundamen-
no podem concluir de outra forma, e no podem            tal da necessidade. Essas distines, s vezes
concluir de outra forma porque as premissas               indicadas com outros nomes, no mudaram
no podem ser diferentes do que so lbid..               durante muito tempo na histria da filosofia.
1015 b 7). O significado a) de N.  designado             Os escolsticos repetem-nas sem alteraes, as-
por Aristteles como necessidade hipottica:             sim como repetem, mesmo acreditando pou-
a necessidade que se encontra nas coisas natu-            co, o significado fundamental de N. como aqui-
rais, mais precisamente na matria delas, por-            lo que no pode ser de outra forma (cf., p. ex.,
quanto constitui a condio delas (Fs., II, 9,           JOO RE SALISBURY, Metalogicus, II, 13). Avicena,
200 a 30); De somno, 455 b 26; Depart. an.,               a quem se deve a prevalncia do conceito de
639 b 24, 642 a 9). J Plato havia admitido essa         necessidade em metafsica e em teologia, tanto
espcie de necessidade, julgando-a um dos                 na escolstica rabe quanto na crist, partira da
constituintes do mundo (juntamente com a in-              distino aristotlica (Met., V, 5, 1015 b 10, j
teligncia) e identificando-a com a matria               cit.) entre o que  N. para si e o que  N. para
(Tim., 47 d ss). Finalmente, Aristteles distin-          outra coisa (Met., II, 1, 2): distino que funda-
gue o que  N. em virtude de uma causa exter-             menta a doutrina de Spinoza (Et., I, 33, schol.
na e aquilo que  por si prprio a causa da ne-           1) e foi repetida inmeras vezes a partir da.
cessidade. As coisas simples so necessrias                  As primeiras novidades conceptuais nessa
neste segundo sentido e portanto o so de                 histria uniforme so a definio da necessi-
modo primrio e eminente (Ibid., 1015 b 10).              dade lgica e a introduo do conceito de
Mas o conceito da necessidade  sempre o                  necessidade moral por parte de Leibniz, que
mesmo.                                                    distinguiu: a) a necessidade geomtrica, que
                                                          pertence s verdades eternas e "cujo oposto
   Estas concepes quase no mudaram ao                  implica contradio"; b) a necessidade fsica,
longo da histria da filosofia. Os esticos defi-         que constitui "a ordem da natureza e consiste
niram a necessidade tendo em mente enuncia-               nas regras do movimento e em alguma outra lei
dos verbais mais que condies de fato; por               geral que aprouve a Deus dar s coisas ao cri-
isso, chamaram de N. "aquilo que  verdadeiro             las"; c) a necessidade moral, que  "a escolha
e no pode revelar-se falso" (DIG. L, VII, 1,            do sbio por ser digna de sua sabedoria", ou
75), onde "no poder revelar-se falso" significa          seja, a escolha do "melhor" ( Thod., Disc, 5 2).
no poder ser diferente. Tampouco as distin-              A necessidade fsica baseia-se na necessidade
es estabelecidas por S. Toms de Aquino                 moral (foi Deus quem escolheu as leis da natu-
mudam o conceito do N., conforme a diviso                reza que constituem a necessidade fsica e sua
aristotlica das quatro causas. S. Toms de
NECESSRIO                                              705                                        NECESSRIO

escolha foi ditada pelo fato de que eram as me-               18). Ao contrrio de Leibniz, Wolff no reduz a
lhores possveis); as necessidades fsica e moral             necessidade hipottica  necessidade moral, ou
so chamadas por Leibniz de hipotticas; se-                  seja,  liberdade, mas identifica-a com a neces-
gundo ele, estas nada tm a ver com a necessi-                sidade regida pelo princpio de razo suficien-
dade absoluta, que  a impossibilidade do con-                te, ou seja, com a causalidade (Ibid.,  320 ss.).
trario(Nouv. ess., II, 21, 13). Leibniz utiliza essa          O prprio Wolff afirma que essa sua doutrina
distino para defender a liberdade de Deus e                 da necessidade  idntica  tradicional, em par-
a do homem, ao mesmo tempo em que pe a                       ticular  de S. Toms de Aquino (Ibid.,  327),
salvo a infalibilidade da previso divina: "A ver-            com a definio do N. como aquilo que no
dade de que amanh escreverei no  absolu-                   pode ser de outra forma; e certamente o ,
tamente necessria. Mas. supondo-se que Deus                  salvo no que se refere ao reconhecimento da
a preveja,  N. que ela se verifique, ou seja,               necessidade moral. Essa doutrina  simples-
necessria a conseqncia de que ela se realize               mente reproduzida por Kant, que tambm faz
desde que foi prevista, j que Deus  infal-                 a distino entre ''necessidade material na exis-
vel: isso  o que se chama de necessidade hipo-               tncia", que consiste na conexo causai, e ne-
ttica'" (Thotl., I,  37; cf. Disc. de mt., 13). A         cessidade "formal e lgica na conexo dos con-
diferena entre essa doutrina de Leibniz e a                  ceitos" (Crt. R. Pura, Anal.. II, cap. II, seo 3,
tradicional  que esta ltima considerava uma                 Postulados do pensamento emprico); distin-
espcie de necessidade, integrante do significa-              gue ainda dessas duas espcies de necessidade
do fundamental do termo, aquilo que Leibniz                   a "necessidade moral", como coao ou obri-
considera como liberdade e escolha: a necessi-                gao, que  o dever (Crt. R. Pratica, I, livro
dade hipottica. Em outras palavras, Leibniz                  I, cap. III; trad. it., p. 96). A necessidade mate-
restringiu o significado de necessidade ao que                rial  a necessidade real ou hipottica. Kant diz:
Aristteles e a tradio aristotlica considera-              "Tudo o que acontece  hipoteticamente N.;
vam como necessidade "primria", "absoluta"                   esse  um princpio que subordina a transfor-
ou "natural", dando-lhe o nome de "geom-                     mao no mundo a uma lei, a uma regra da
trica" ou "metafsica". A definio leibniziana               existncia necessria, sem a qual a natureza
dessa necessidade como "aquilo cujo oposto                    no existiria" (Crt. R. Pura, 1. c). Na realidade,
 impossvel", ou "aquilo cujo oposto  con-                  para Kant a conexo causai  "hipottica", por-
traditrio", serve para limitar sua extenso ape-             que a considera aberta nos dois lados e no
nas s verdades matemticas e a um restrito                   acha legtimo consider-la fechada como tota-
n-mero de verdades metafsicas. Esse  o resul-              lidade ou srie absoluta. Obviamente, se isso
tado importante e duradouro da introduo                     acontecesse, a necessidade hipottica tornar-
do conceito de necessidade moral por parte                    se-ia necessidade absoluta ou geomtrica.
de Leibniz. Quanto a esse conceito, a partir do               Schopenhauer, por sua vez, achava que a ne-
 momento que exclui a necessidade e  a pr-                  cessidade no tinha outro sentido alm de
 pria definio da determinao livre, pode-se                "inevitabilidade do efeito quando a causa foi
 objetar a impropriedade do nome: ele no                    posta", considerando at contraditrio falar de
 "necessidade".                                               um ser "absolutamente necessrio", ou seja,
                                                              "necessrio sem condies" (berdie vier/ache
   No entanto, foi como tipo ou espcie de ne-                 Wurzel des Satzes vom zureichenden Grunde,
cessidade que ingressou na filosofia do sc.                   49). Mas com o idealismo romntico, foi a
XVIII, juntamente com a distino das for-                    necessidade absoluta que assumiu o papel mais
mas do N. proposta por Leibniz. Wolff reela-                  importante. Fichte afirmava: "Qualquer coisa
borou esta distino, distinguindo: a) o absolu-              realmente existe, existe por absoluta necessi-
tamente N., que  "aquilo cujo oposto  impos-                dade; e existe necessariamente na forma preci-
svel ou implica contradio" (Ont.,  279); b) o             sa em que existe.  impossvel que no exista
hipoteticamente N., que  "aquilo cujo oposto                 ou que exista de outra forma" (Grundzgedes
implica contradio ou  impossvel s em dada                gegenwrtigen Zeitalters, 9). Absoluto tambm
hiptese ou em determinada condio" {Ont.,                   era o significado da necessidade que Hegel de-
 302); c) o moralmente N., que  "aquilo cujo                finia como "unidade de possibilidade e realida-
oposto  moralmente impossvel" (PM.pratica,                  de", definio que exprime a "presena da to-
I,  115). A diferena entre o absolutamente N.               talidade das condies" em cada momento do
e o hipoteticamente N.  que o primeiro exclui                real e portanto da plena e absoluta necessidade
a contingncia e o segundo no (Ibid.,  317-
NECESSRIO                                          706                                        NECESSRIO


do real. "Quando se tm todas as condies'1 --           de galinha chocado por uma serpente. "Isso 
diz Hegel -- "a coisa deve tornar-se real" (Ene,          essencialmente N. porque  isso que a palavra
 147). "O N.  mediado por um crculo de                  basilisco significa." iColl. Pap., 4.67). Lewis, por
circunstncias:  assim porque as circunstn-             sua vez, disse que "uma assero  logica-
cias so assim, e ao mesmo tempo  assim                  mente necessria se, e somente se, o contradi-
imediato,  assim porque " (Ibid.,  149). Desse         trio dela  incompatvel consigo mesmo"
modo a necessidade torna-se alma da realida-              (Analysis of Knowledge and Valuation, 1946,
de, dialtica (v.) da Razo Real ou da Realidade          p. 89), que nada mais  que uma reformulao
Racional. Essa extenso da necessidade ao in-             da definio de Leibniz. No mesmo sentido
finito no renova, como  bvio, as caractersti-         Strawson disse que "uma assero  necessria
cas do conceito, que continua sendo o mesmo               quando  a contraditria de uma assero
definido por Aristteles; assim como essas ca-            inconsistente" (Intr. to Logical Theory), 1952,
ractersticas no so renovadas pelo uso con-             p. 22). Carnap, observando que o conceito de
temporneo desse conceito, que mais insiste na            necessidade lgica  comumente entendido no
necessidade do real, em seus diversos graus e             sentido de que se aplica a uma proposio p
formas: Nicolai Hartmann (cf. especialmente Mg-          "se e somente se a verdade de p se baseia em
lichkeit nnd Wirklichkeit, 1938) (v. POSSVEL).           razes puramente lgicas e no dependentes
    Agora podemos lanar uma vista d'olhos na             da contingncia dos fatos, em outras palavras,
sorte que a filosofia contempornea deu s trs           se a pressuposio de no-p conduz a uma
formas do N., comumente admitidas a partir de             contradio lgica, independentemente dos fa-
Wolff, provando que esse conceito realmente               tos", identificou a necessidade lgica com a
no foi inovado.                                          verdade lgica e definiu a verdade lgica, na
    Ia O moralmente N., o obrigatrio ou o que            esteira de Leibniz. como a verdade que  vlida
 de dever, embora algumas vezes continue re-             em todos os mundos possveis, ou, em sua
cebendo esse nome, no pode ser includo nas              terminologia,  vlida em qualquer descrio
formas do N.;                                             de estado de um sistema.. Sua definio da des-
    2a O hipoteticamente N., identificando-se             crio de estado esclarece esse conceito: "Uma
com o causai (v.) ou o condicional (v.), com-             classe de enunciados em SI que, para cada
partilha o destino desses conceitos;                      enunciado atmico, contm esse enunciado ou
    3a  ao absolutamente N., ao N. "geomtri-            sua negao mas no ambas as coisas, nem ne-
co" ou "lgico", que se faz mais freqentemen-            nhum outro enunciado,  chamado de descri-
te referncia no domnio do saber filosfico e            o de estado em SI, porque ele obviamente
cientfico. Wittgenstein diz: "Existe apenas uma          d a descrio completa de um possvel estado
necessidade lgica, e assim existe apenas uma             do universo dos indivduos em relao a todas
impossibilidade lgica" (Tractacus, 6.375).               as propriedades e relaes expressas pelos
                                                          predicados do sistema. Assim, as descries
    Quase todos os lgicos contemporneos
                                                          de estado representam os mundos possveis de
subscrevem, ou implicitamente admitem, essa
                                                          Leibniz ou os possveis estados de coisas de
tese de Wittgenstein. No h acordo entre eles,
                                                          Wittgenstein" (Meaning and Necessity,  2 e
no entanto, quanto  definio de necessidade
                                                          39). Essa  a expresso mais rigorosa que a tese
lgica. As principais doutrinas a respeito so:
                                                          da reduo da necessidade  analiticidade j
a) doutrina da analiticidade, b) doutrina da re-
                                                          teve. No entanto, no esteve imune a crticas
gra; c) doutrina da imunidade, d) doutrina da
                                                          (cf., p. ex., QUINE, From a Logical Point ofView,
qualidade.
                                                          II; A. PAP, Semantics and Necessary Truth, pp.
    a) A primeira  herdeira da definio leib-           150 ss.).
niziana da necessidade lgica como "impossi-
bilidade do contrrio". Peirce dizia que lgica              b) A segunda interpretao da necessidade
ou essencialmente N.  aquilo que uma pessoa              lgica reduz os enunciados  aplicao da ne-
que no conhece os fatos, mas est perfeita-              cessidade a simples regras: regras de transfor-
mente a par das regras do raciocnio e das pala-          mao ou, mais simplesmente, regras lingsti-
vras implcitas no raciocnio, sabe que  verda-          cas. A doutrina segundo a qual as "verdades
deiro. Tal pessoa, p. ex., no sabe se existe ou          necessrias" da matemtica (p. ex., a famosa
no um animal chamado basilisco ou se exis-               proposio de que falava Kant, "7 + 5 = 12")
tem coisas como serpentes, galinhas e ovos,               nada mais so do que regras de transformao, re-
mas sabe que todo basilisco nasceu de um ovo              gras que permitem inferir uma frmula de
NECESSRIO                                                707                                    NECESSIDADE

outra, permitindo, portanto, a possibilidade de                 pr o carro  frente dos bois". Esta  a tese de
substituies recprocas das frmulas, j foi ex-               A. PAP (SemanticsandNecessary Truth, espec.
posta pelo Crculo de Viena, especialmente por                  cap. 7; cf. tambm "Necessary Propositions and
Schlick, e reaparece freqentemente na litera-                  LinguisticsRules", em Archivio difilosofia, 1955,
tura contempornea (cf., p. ex., K. BRITTON, em                 pp. 63-105). Segundo essa doutrina, a neces-
Proceedings of the Aristotelian Society, 21 S ,                 sidade lgica no se distingue de uma quali-
1947). Alis, como tambm reaparece a doutri-                    tas occulta.
na segundo a qual as proposies analticas                         Dessas quatro interpretaes, a nica que
(ou tautologias) que constituem as "verdades                    no eqivale  negao da necessidade  a
necessrias" da lgica nada mais so que re-                    primeira, que a identifica com analiticidade ou
gras lingsticas ou, mais precisamente, regras                 tautologicidade. Trata-se de uma interpretao
semnticas. De fato o enunciado "todos os sol-                  intimamente ligada ao conceito que Wittgen-
teiros so no casados" pode ser interpretado                   stein exps sobre a tautologia: "Entre os poss-
como uma regra para o uso da palavra "soltei-                   veis grupos de condies de verdade do-se
ro", regra extrada do uso. A objeo algu-                     dois casos extremos: em um, a proposio 
mas vezes formulada contra essas doutrinas,                     verdadeira para todas as possibilidades de
de que elas privariam a verdade N. do nvel de                  verdade das proposies elementares, e nes-
"proposio" porque uma proposio  sempre                     se caso dizemos que as condies de verda-
verdadeira ou falsa, enquanto uma regra, ao                     de so tautolgicas; no outro, a proposio 
contrrio,  sobretudo til, conveniente, corre-                falsa para todas as possibilidades de verdade.
ta, etc. (cf., p. ex., PAP, op. cl., pp. 179 ss.), no         as condies de verdade so contraditrias"
 muito concludente, porque demonstra ape-                      (Tractatus, 4. 46). Por conseqncia, "a tauto-
nas a incompatibilidade entre essa interpreta-                  logia no tem condio de verdade porque 
o de verdade N. e o conceito tradicional de                   incondicionalmente verdadeira, e a contradio
proposio.                                                     a nenhuma condio  verdadeira" (Ibid.,
    c) A terceira interpretao da necessidade                  4.461). Isso eqivale a dizer que uma afirma-
lgica  a dada por Quine, segundo quem ela                     o incondicionalmente verdadeira, ou seja,
seria a imunidade concedida a certas proposi-                   uma tautologia, uma proposio N., como se
es em matemtica e lgica, porquanto, em                      queira cham-la,  aquela que esgota todas as
vista do carter central que ocupam no sistema,                 gamas de possibilidades. Este tambm  o sig-
sua reviso perturbaria enormemente esse sis-                   nificado da doutrina de Carnap sobre a verda-
tema, cujas caractersticas fundamentais tende-                 de lgica como "descrio de estado", ou seja,
mos a conservar na medida do possvel. Desse                    como verdade vlida para todos os mundos
ponto de vista, N. no significaria "aquilo que                 possveis ou para todos os possveis estados de
no pode ser de outra maneira", mas sim "aqui-                  coisas. Desse ponto de vista, h necessidade
lo sem o que no se quer passar", no porque                    sempre que  possvel enumerar todas as
seja impossvel passar sem ele, mas porque assim                possibilidades, e necessidade eqivale, pra-
 prefervel. Esta interpretao baseia-se na                   ticamente, a onipossibilidade. No se trata de
rejeio da distino entre verdades analticas                 doutrina recente. No sc. XIV, Ockham s con-
(ou de razo) e verdades sintticas (ou de fato),               siderava N. as proposies condicionais ou
nas quais se baseiam as interpretaes estuda-                  equivalentes ou as que tratam do possvel,
das em a) (QUINE, Methodsof Logic, p. XIII; From                como, p. ex., "Se existe homem, o homem 
a LogicalPoint ofView, II e VIII). Essa interpre-               animal racional", ou "Todo homem pode
tao obviamente eqivale  eliminao do pr-                  ser animal racional" (Quodl., V, q. 15). Como
prio conceito de necessidade.                                   apenas convenes lingsticas de outra natu-
                                                                reza podem limitar convenientemente a gama
    d) A quarta interpretao considera a neces-                de possibilidades a que uma proposio faz re-
sidade como uma propriedade intrnseca das                      ferncia, est claro que esse conceito de neces-
proposies, consideradas como objetos, no                      sidade  inteiramente reduzvel a conveno.
sentido de Carnap: precisamente uma proprie-
dade que as proposies possuem antes da                            NECESSIDADE (gr. xpea ou vyicn; lat.
formulao das convenes lingsticas. Desse                   Necessitas; in. Need; fr. Besoin; ai. Bedrfniss;
ponto cie vista, "explicar a necessidade dos                    it. Bisogno). Em geral, dependncia do ser vivo
princpios tradicionais da inferncia dedutiva                  em relao a outras coisas ou seres, no que diz
em termos de convenes lingsticas significa                  respeito  vida ou a quaisquer interesses. Nesse
NECESSIDADE                                             708                                     NECESSIDADE

sentido, fala-se de "N. materiais", "N. fsicas",             que preferem enfatizar os elementos ou
"N. espirituais", "N. de disciplina", "N. de "re-             os caracteres que do destaque  independn-
gras", "N. de liberdade", "N. de afeto", "N. de               cia do homem em relao ao mundo, e no a
felicidade", "N. de ajuda", "N. de comunica-                  sua dependncia. Mesmo falando de um "sis-
o", etc. Qualquer tipo ou forma possvel de                 tema de N.", Hegel prefere dizer que a N.  do-
relao entre o homem e as coisas, ou entre o                 minada pelo homem, e no o contno-. "0
homem e os outros homens, pode ser conside-                   animal tem um crculo limitado de meios e modos
rado sob o aspecto da N., implicando que o ser                de satisfazer s suas N., que so igualmente li-
humano depende dessas relaes. Na histria                   mitadas. O homem, ainda que dependa delas,
da filosofia, a noo de N., nesse sentido (v.                demonstra ao mesmo tempo que as supera e
NECESSRIO), foi tratada sob duas perspecti-                  universaliza, sobretudo atravs da multipli-
vas: 1L>) mais freqentemente do ponto de vista               cao das N. e dos meios, bem como atravs
moral, ou seja, como atitude a tomar diante das               da decomposio e da distino da N. con-
N., se de limitao ou de incentivo, ou de que                creta" (Fil. do dir,  190). A primeira afirmao
modo e em que grau limit-las; 2-) com menos                  clamorosa da importncia das N., para a inter-
freqncia, do ponto de vista da importncia e                pretao do que o homem  ou pode ser, seria
do significado que a N. tem em relao ao                     vista na filosofia de Schopenhauer, que inter-
modo de ser do homem, da possibilidade que                    pretou como N. -- portanto como falta e dor
ela representa para ele compreender e descre-                 -- a vontade de vida que constitui a essncia
ver sua existncia. O problema da disciplina                  numnica do mundo. "A base de qualquer von-
das N., ou seja, da sua limitao qualitativa e               tade  N., falta, ou seja, dor.  qual o homem
quantitativa,  o problema da virtude, em espe-               est vinculado desde a origem, por nature-
cial da virtude tica, e seus desdobramentos                  za" (Die Welt, 1819, I.  57). Fora da metaf-
histricos devem ser vistos no verbete Virtude.               sica, no terreno da antropologia, quem insistiu
Aqui, cabe analisar o problema da N. como                     na estreita conexo entre N. e natureza huma-
smbolo, sintoma ou elemento da condio hu-                  na foi L. Feuerbach(GrimdstzederPhlosophie
mana. Na Antigidade, Plato parece ter reco-                 der Zukunft, 1844). Marx, nas obras juvenis
nhecido o valor da N.: esse parece ser o signifi-             (Economia e filosofia, 1844; Ideologia alem,
cado da importncia por ele atribuda ao amor,                1845-46). acentuou a importncia das N. e,
que, em O Banquete (204-05), interpretou em                   portanto, do trabalho destinado a satisfaz-las,
seu significado mais amplo como falta e busca                 chegando a tom-las como tema fundamental
do que falta. Alm disso, em Repblica (II, 369               de sua antropologia (v. PESSOA). Na filosofia
b ss.), ele atribui a origem do Estado  N.:                  contempornea, alm do marxismo, a impor-
"Quando um homem se rene com outro em                        tncia da noo de N. para a interpretao da
vista de uma N., e com outro homem em vista                   realidade humana  ressaltada de um lado pelo
de outra N., e quando essa multiplicidade de                  naturalismo e de outro pelo existencialismo.
homens rene no mesmo local vrios ho-                        Dewey, p. ex., ao insistir na "matriz biolgica"
mens que se associam para se ajudar, damos a                  cias atividades humanas (portanto tambm da
essa sociedade o nome de Estado."  menos                     lgica), v a N. como ruptura do instvel equi-
explcita a noo de N. encontrada na filosofia               lbrio orgnico e o incio da busca que tende a
de Aristteles: este certamente no ignora o                  restabelec-lo (Logic, cap. II, trad. it., p. 63).
seu peso na vida individual e social do homem                 por outro lado, na definio de "ser-no-mun-
(como demonstra sua Poltica), mas no lhe                    clo" por Heidegger. em que a existncia do
atribui funo especfica: mesmo a origem do                  homem consiste em cuidado [cura] (v.), o ho-
Estado, para ele, deve-se  exigncia de viver                mem depende do mundo, "est lanado no
feliz, o que significa sobretudo vida virtuosa (Pol.,         mundo, que domina as possibilidades huma-
VII, 2, 1324 a 5 ss.). A filosofia ps-aristotlica           nas de relaes com as coisas e com os outros
desinteressa-se das necessidades, ainda que                   homens" (Sein undZeit,  39 ss., cf.  20). A no-
Epicuro aconselhe a satisfaz-las (Mass. capit.,              o de N. que emerge dessas consideraes no
26; Fr. 200, Usener), pois est muito ocupada                  de estado provisrio de falta ou deficincia
em esboar o ideal de sbio, dedicado  vida                  (tem-se necessidade de ar, apesar de este existir
puramente contemplativa. Tampouco lan-                        em abundncia), mas de estado ou condio de
am mo da N. para interpretar a realida-                     dependncia que caracteriza de modo especfi-
de humana a filosofia medieval e a moderna,                   co o homem e, em geral, o ser finito no mundo.
NECESSITARISMO                                       709                                          NEGATIVO

    NECESSITARISMO (in. Necessitarianism;               conceitos como os de causa e substncia, com
fr. Ncessitarisme, it. Necessitarismo). Este ter-      todas as suas inferncias, que so numero-
mo, muito usado em ingls,  til para indicar o        sssimas, dominam ainda vastas zonas do dis-
conjunto das doutrinas que, de alguma manei-            curso comum, cientfico e filosfico e induzem
ra, atribuem posio eminente ao conceito de           seu sentido necessitarista nas anlises da cin-
necessrio ou o utilizam sistematicamente. Po-         cia e da filosofia.
dem ser enumeradas pelo menos trs doutri-                 NEGAO (gr. 7T(pacJi; lat. Negatio; in.
nas fundamentais desse gnero:                         Negation-, fr. Ngation; ai. Verneigung, Ne-
    Ia A doutrina que admite o destino, a ordem        gation-, it. Negazione). Termo com o qual se
finalista ou providencial do mundo como or-            pode designar tanto o ato de negar quanto o
dem que determina necessariamente todas as             contedo negado, ou seja, a proposio negati-
coisas e a cada coisa garante o melhor resulta-        va, chamada em grego nqaoiq (lat. nega-
do. Esta doutrina pode ser chamada de pro-             tio. Bocio) e definida como "enunciado que
videncialismo ou fatalismo, mas este ltimo            divide algo de algo" (De inteipr., 17 a 26), por-
termo  empregado apenas por quem a com-               quanto, segundo a mesma doutrina aristotlica,
bate ou pelo menos se ope a alguns de seus            separa ou afasta dois conceitos. Substancial-
aspectos (v. DESTINO; PROVIDNCIA). O signifi-         mente, a tradio lgica subseqente conser-
cado de necessrio ao qual tal doutrina faz re-        vou essa doutrina e portanto este significado
ferncia  o a) de Aristteles e c) de S. Toms        do termo N.; foram s os seguidores da teoria
de Aquino.                                             do juzo como assentimento (Rosmini, Fr. Bren-
   2- A doutrina segundo a qual a ordem do             tano, Husserl) que consideraram a N. como ato
mundo consiste na conexo causai universal;            de contestao (recusa, repdio, Verneigung)
faz referncia ao necessrio no significado a)         de uma representao ou idia. Na Lgica sim-
de Aristteles, d) de S. Toms de Aquino, b) de        blica contempornea a N.  representada por
Leibniz, de Wolff e de Kant. Trata-se do deter-        um smbolo especial ("~") que, anteposto ao
minismo rigoroso ou clssico, que melhor seria         smbolo de uma proposio "p", transforma-a
chamar de causalismo (v. CAUSALIDADE; DE-              na afirmao de que "p"  falsa (Russell) ou
TERMINISMO).                                           numa nova proposio (molecular), funo de
    3a A doutrina segundo a qual a necessidade         verdade de "p", mais precisamente (na Lgica
constitui o significado primrio e fundamental         com dois valores) na proposio que  falsa
do ser, utilizando-o como critrio para a avalia-      quando "p"  verdadeira e verdadeira quando
o e a anlise de todas as coisas existentes.         "p"  falsa (Wittgenstein, Carnap).        G. P.
Esse significado de N.  certamente o mais im-             NEGATIVO (gr. jcocmK; lat. Negatvus-
portante e fundamental, ao qual o termo deve-              in. Negative-, fr. Ngatif; ai. NegatiiK it. Negati-
ria referir-se de preferncia. Para essa doutrina,     vo). Aquilo que efetua ou implica uma nega-
o necessrio  a categoria fundamental, o hori-        o, ou seja, uma excluso de possibilidade.
zonte geral que abrange todos os instrumentos          Uma entidade N. (p. ex., uma proposio) no
de investigao e explicao que  possvel uti-       implica que subsiste a entidade positiva corres-
lizar. Freqentemente essa doutrina no admite         pondente  qual depois  acrescentada a nega-
a necessidade no mesmo sentido da Ia e da 2a;          o, mas  simplesmente a excluso de uma
Aristteles e S. Toms de Aquino, p. ex., que          possibilidade e, na maior parte das vezes, de
podem ser considerados exemplos importantes            uma possibilidade formulada somente com o
dessa doutrina, embora admitindo a necessida-          fim de exclu-la.
de do destino, no admitem a necessidade                   Os mltiplos usos desse termo podem inte-
causai absoluta; no entanto so necessitaris-          grar-se neste significado fundamental. "Resulta-
tas no sentido de que, para eles, o significa-         do N." de um experimento significa excluso
do fundamental do ser  a necessidade, e de            de certa possibilidade de interpretao ou de
que esse significado est presente na constru-         explicao. "Efeito N." de certa operao signi-
o de todos os conceitos fundamentais de sua          fica excluso daquilo que se esperava ser pos-
filosofia. No mesmo sentido,  necessitarista a        svel a partir da operao. "Atitude N." em re-
doutrina de Hegel e so necessitaristas todas          lao a uma doutrina ou a uma coisa qualquer
as doutrinas que se inspiram no idealismo ro-           a atitude que exclui a possibilidade de que a
mntico. Mas o aparato conceituai do N. difun-         doutrina seja verdadeira ou de que a coisa te-
diu-se muito alm desta ou daquela doutrina:           nha um valor qualquer, etc.
NEOCRIT1CISMO                                          710                                 NEOPLATONISMO


    NEOCRITICISMO (in. Neo-Criticism; fr.                    presena e a realidade do infinito. Este era tam-
Nocriticisme; ai. Neukantianisnius-, it. Neo-               bm o modo sustentado por Hegel e por todo
criticism). Movimento de "retorno a Kant" ini-              o idealismo romntico.  corrente inglesa per-
ciado na Alemanha em meados do sculo pas-                   tencem C. H. Stirling, T. H. Green, B. Bosan-
sado e que deu origem a algumas das mais                     quet, J. E. McTaggart e especialmente F. H
importantes manifestaes da filosofia contem-               Bradley, que  o seu maior representante. Na
pornea. As caractersticas comuns de todas as               Amrica, o maior expoente do N. foi J. Royce.
correntes do N. so as seguintes: Ia negao da              Os maiores representantes do idealismo italia-
metafsica e reduo da filosofia a reflexo so-             no foram G. Gentile e B. Croce. Sobre todos, v.
bre a cincia, vale dizer, a teoria do conheci-              IDEALISMO.
mento; 2- distino entre o aspecto psicolgico                 NEO-IDEALISMO. V. NEO-HEGELIAMSMO.
e o aspecto lgico-objetivo do conhecimento,                     NEOKANTISMO. V. NEOCRITICISMO.
em virtude da qual a validade de um conheci-                     NEOPITAGORISMO (in. Neo-Pythagoria-
mento  completamente independente do mo-                    nism; fr. No-pythagorisme, ai. Neupythagoreis-
do como ele  psicologicamente adquirido                     mus; it. Neopitagorismo). Revivescncia da fi-
ou conservado; 3a tentativa de partir das estru-             losofia pitagrica que se manifestou no sc. I
turas da cincia, tanto da natureza quanto do                a.C, tanto com o aparecimento de textos
esprito, para chegar s estruturas do sujeito               pitagricos de falsa atribuio (Ditos ureos,
que a possibilitariam.                                       Smbolos, Cartas, atribudos a Pitgoras) e de
    Na Alemanha, a corrente neocriticista foi                outros atribudos ao lucano Ocello e a Hermes
constituda pelas seguintes escolas: l s de                  Trismegisto, quanto com o florescimento de
Marburgo (Marburger Schule),  qual per-                     filsofos que declaravam inspirar-se nas dou-
tenceram F. A. Lange, H. Cohen, P. Natorp,                   trinas do pitagorismo antigo. Entre eles: Nigdio
E. Cassirer, e  qual tambm se liga, em parte,              Figulo, Apolnio de Tiana, Nicmaco de Ge-
Nicolai Hartmann; 2" de Baden (Badsche                      rasa e principalmente Numnio de Apamia
Schule), fundada por W. Windelband e H.                      (sc. 1 d.C). As doutrinas destes escritores
Rickert, 3e historicismo alemo, com G. Sim-                 nada tm de original, mas apresentam caracte-
mel, G. Dilthey, E. Troeltsch, etc. Esta ltima              rsticas que se tornaram prprias do neoplato-
escola formulou o problema da histria ana-                   nismo (v.).
logamente ao modo como as outras escolas                         NEOPLATONISMO (in. Neo-Platonism; fr.
kantianas formulavam o problema da cincia                   Noplatonisme, ai. Neuplatonismus; it. Neopla-
natural (v. HISTORICISMO). Fora da Alemanha,                 tonismo). Escola filosfica fundada em Alexan-
vinculam-se  corrente neocriticista C. Renou-               dria por Amnio Saccas no sc. II d.C, cujos
vier e L. Brunschvicg, na Frana, S. H. Hodgson              maiores representantes so Plotino, Jmblico e
e R. Adamson, na Inglaterra, e Banfi na Itlia.              Procios. O N.  uma escolstica, ou seja, a uti-
    NEO-HEGEIIAMSMO(in. Neo-Hegelianism;                     lizao da filosofia platnica (filtrada atravs
fr. No-Heglianisme, ai. Neuhegelianismus-, it.             do neopitagorismo, do platonismo mdio e de
Neohegelism). Retorno ao idealismo romn-                   Filon) para a defesa de verdades religiosas re-
tico, ocorrido na Inglaterra, na Itlia e na Am-            veladas ao homem ab antiquo e que podiam
rica nos ltimos decnios do sc. XIX e nos                  ser redescobertas na intimidade da conscincia.
primeiros do sc. XX. O N., assim como o                     Os fundamentos do N. so os seguintes:
idealismo romntico de que  sucessor direto,                    1Q carter de revelao da verdade, que,
tem como tese fundamental a identidade entre                 portanto,  de natureza religiosa e se manifesta
finito e infinito, a reduo do homem e do                   nas instituies religiosas existentes e na refle-
mundo da experincia humana ao Absoluto. O                   xo do homem sobre si prprio;
neo-idealismo anglo-americano e o italiano dis-                  2- carter absoluto da transcendncia di-
tinguem-se no modo de efetuarem essa redu-                   vina: Deus, visto como o Bem, est alm de
o. O idealismo anglo-americano faz isso por                qualquer determinao cognoscvel e  jul-
vias negativas, mostrando que o finito, por sua              gado inefvel;
intrnseca irracionalidade, no  real, ou  real                3<J teoria da emanao, ou seja, todas as coi-
apenas na medida em que revela e manifesta o                 sas existentes derivam necessariamente de Deus
infinito. O idealismo italiano utiliza as vias posi-         e vo-se tornando cada vez menos perfeitas
tivas, mostrando na prpria estrutura do finito,              medida que se afastam d'Ele; conseqente-
em sua racionalidade intrnseca e necessria, a              mente o mundo inteligvel (Deus, Intelecto e
NEOPOSITIVISMO                                     711                                    NEOTOMISMO

Alma do mundo)  distinto do mundo sensvel              obra de O. Klpe (Einleitung in die Philo-
(ou material), que  uma imagem ou manifes-              sophie, 1895). Mas foi s a partir do ensaio de
tao do outro;                                          G. E. MOORE, "A refutao do idealismo", pu-
    4y retorno do mundo a Deus atravs do ho-            blicado em Mndi 1903), que teve incio a nova
mem e de sua progressiva interiorizao, at o           histria do realismo. Depois disso, o realismo
ponto do xtase, que  a unio com Deus.                 foi defendido na Inglaterra por B. Russell e S.
    No N. costumam ser distinguidas as seguin-           Alexander. enquanto na Amrica um volume
tes escolas: Siraca, fundada por Jmblico; de           coletivo datado de 1912 e intitulado O novo
Prgamo,  qtial pertencem, entre outros, o              realismo afirmava as leses de um realismo
imperador] uliano, chamado o Apstata; de Ate-           atualizado, que, com outra forma, seriam re-
nas, cujo maior representante foi Proclos. Mas a         propostas alguns anos mais tarde em Ensaios
influncia das doutrinas fundamentais do N.              de realismo crtico (1920). publicados por outro
sobre muitas correntes do pensamento filos-             grupo de filsofos americanos. No primeiro gru-
fico roram e continuam sendo profundas.                  po a figura mais conhecida foi W. P. Monta-
    O "platonismo" do Renascimento na reali-             gue; no segundo grupo, G. Santayana. Mais
dade  um N. que repete, com algumas varia-              tarde, o novo realismo encontrou seguidores
es, as teses acima expostas. As variaes que          em A. N. Whitehead e em N. Hartmann.
caracterizam o N. renascentista (de Cusa, Pico               O novo realismo contm correntes dou-
delia Mirandola e Ficino) so relativas  maior          trinais to diferentes quantos so os filsofos
importncia atribuda ao homem e  sua fun-              que o professam, mas h uma tese fundamen-
o no mundo, de acordo com o esprito geral             tal, comum a todos, que, alm de constituir sua
do Renascimento (v.). O N. ingls, ao contr-            novidade e a caracterstica que o distingue
rio,  uma forma de racionalismo religioso que           do realismo tradicional, tambm serve de li-
floresceu na escola de Cambridge no sc. XVII            nha de defesa contra o idealismo. Essa tese 
(Cudworth, Moore, Whichcote, Smith. Culver-              a seguinte: a relao cognitiva (a relao en-
wel): por um lado, ope-se ao materaislismo de           tre o objeto do conhecimento e o sujeito,
Hobbes e, por outro, sustenta que as idias              que  a mente que o apreende) no modifi-
fundamentais da religio foram impressas dire-           ca a natureza do objeto. Essa tese inspira-se
tamente por Deus na razo e no intelecto do              na noo matemtica de "relao externa",
homem, c por isso precedem o conhecimento                que no modifica os termos relativos, Esta,
emprico das coisas naturais. Mas mesmo no N.            como  bvio, elimina completamente a de-
 ingls so muitos os temas do Renascimento,             pendncia existencial ou qualitativa do obje-
especialmente de Ficino.                                 to do conhecimento em relao ao sujeito e
    NEOPOSITIVISMO (in. Neo-positivism, fr.              torna o idealismo sem sentido. Apesar de
 No-positivisme, ai. Neupositivismus; it. Neo-          afastados por todos os outros aspectos, Moore,
positivismo). 1. O mesmo que empirismo lgi-             Montague, Santayana, Alexander, Hartmann
 co (v.).                                                compartilham dessa tese.
    2. Nome dado algumas vezes  doutrina de                 NEOTOMISMO (in. Neo-Thomism- fr. No-
 Bergson (LE ROY, Lhi positivisme nonveau,               thomisme, ai. Neuthomismus; it. Neotomismo).
1901).                                                   Com este termo ou com o outro, bem menos
  NEO-REALISMO (in. New Realism- fr. No-                apropriado, de "neo-escolstica" entende-se o
realisme; ai. Neurealismus-, it. Neorealismo).           movimento de retorno  doutrina de S. Toms
Recebem esse nome as correntes do pensa-                 de Aquino, no seio da cultura catlica, que foi
mento contemporneo cuja insgnia  a nega-              iniciado pela encclica Aetemi Patris de Leo
o do idealismognosiolgico (v.), a negao             XIII (4 de agosto de 1879). Esse movimento
da reduo do objeto do conhecimento a um                consiste na defesa das teses filosficas tomistas
modo de ser do sujeito. O idealismo gnosio-              contra as diversas tendncias da filosofia con-
lgico foi o clima dominante da filosofia no             tempornea e. indiretamente, na reelaborao
sc. XIX, pois que era compartilhado no s              e na modernizao de tais teses. Uma das pri-
pelo idealismo romntico, mas tambm pelo                meiras figuras do N. foi o cardeal belga Dsir
espiritualismo, pelo neocriticismo e, em geral,          Mercier (falecido em 1925), enquanto entre as
por todas as filosofias consciencialistas. Exce-         figuras mais conhecidas do mundo contempo-
es a essa tendncia geral foram, inicialmen-           rneo esto E. Gilson e I. Maritain. Habitual-
te, a filosofia da imanncia de G. Schuppe e a           mente o tomismo aceita a problemtica da filo-
NEOVITALISMO                                         712                                             NIILISMO


sofia contempornea, mas procura integr-la na              mente com as prprias coisas e com as percep-
sistemtica tomista. Um dos mais importantes                es (Process and Reality, 1929).
efeitos da florescncia neotomista foi a im-                    NEWTONIANISMO (in. Newtonianism; fr.
portncia que voltou a ser atribuda, a partir              Newtonianisme-, ai. Newtonianismus; it. Newto-
dos ltimos decnios do sc. XIX, aos estudos               nismo). Com este termo foi designada princi-
de filosofia medieval, isto . da escolstica               palmente a doutrina de Newton da gravitao
clssica.                                                   universal, que consiste na generalizao das
   NEOVITALISMO. V. VITALISMO.                              leis da gravitao a todo o universo e na formu-
   NESTORIANISMO (in. Nestorianism; fr. Nes-                lao dessas leis atravs da frmula nica: os
torianisme, ai. Nestorianism us; it. Nestorianis-           corpos se atraem proporcionalmente ao produ-
mo). Doutrina de Nestrio, patriarca de Constan-            to das massas e na razo inversa do quadrado
tinopla (428-31), segundo a qual, havendo em               das distncias. Essa lei foi enunciada por Newton
Cristo duas naturezas, h tambm duas pes-                  pela primeira vez em Propositiones de motu
soas: uma habita na outra como em um tem-                   (1684) e depois em Princpios matemticos de
plo. Nestrio negava tambm que Maria fosse                filosofia natural (1687).
me de Deus e chamava de lenda paga a idia                     NIAIA. Um dos grandes sistemas filosficos
cie um Deus envolto em fraldas e crucificado.               da ndia antiga, caracterizado pela importncia
Essa interpretao da encarnao j havia sido              da doutrina do conhecimento e de seus obje-
sustentada por Deodoro de Tarso (falecido por               tos. O N. enumera quatro meios de conhe-
volta de 394) e por seu discpulo Deodoro de                cimento: percepo, inferncia, analogia e
Mopsustia (falecido por volta de 428). Foi con-            testemunho; define como verdadeiro o conhe-
denada pelo concilio de feso de 431, mas                   cimento que no est sujeito a contradies ou
subsistiu por muito tempo, e ainda sobrevive                dvidas, e que reproduz o objeto como ele ;
em grupos da Turquia asitica e da Prsia.                  e faz um inventrio dos objetos cognoscveis e
   NEUTRALISMOGn. Neutralism). Termo em-                    de suas caractersticas. Entre estes inclui o mun-
pregado por Pcirce como sinnimo de monismo                 do fsico, com seus elementos, o homem, em
(Chance, Love and Logic, II, 1; trad. it., p. 121)          seu corpo e suas atividades espirituais, o es-
(v. MONISMO).                                               pao ou o tempo. Deus e, em geral, as condi-
    NEUTRALIZAO (ai. Neutralisierung).                    es de existncia das coisas fsicas ou espiri-
Com este termo, Husserl indicou a suspenso                 tuais (cfr. G. Ti.cci, Storia delia filosofia india-
da crena; "o que  existente, possvel, veros-              na, 1957, pp. 112 ss.).
smil ou discutvel, como tambm o no-exis-                    NIILISMO (in. Nihilism; fr. Nihilisme, ai.
tente, em qualquer negao ou afirmao, es-                Nihilismus; it. Nichlismo). Termo usado na
to presentes na conscincia, no  maneira do              maioria das vezes com intuito polmico, para
real, mas sim como 'mero pensado' ou 'mero                  designar doutrinas que se recusam a reconhe-
pensamento' " (Ideen, I,  109) (v. EPOCHK).                cer realidades ou valores cuja admisso  con-
    NEUTRO, MONISMO (in. Neutra! mo-                        siderada importante. Assim, Hamilton usou
nism). Com esta expresso s vezes  designa-               esse termo para qualificar a doutrina de Hume,
da, nos Estados Unidos, a tese do neo-realismo              que nega a realidade substancial (Lectures on
segundo a qual as entidades que entram na                   Metaphysics, I, pp. 293-94); nesse caso a paia-
composio do esprito e da matria no so                 vra quer dizer fenomenismo. Em outros casos,
mentais nem materiais, mas adquirem tais qua-                empregada para indicar as atitudes dos que
lificaes em virtude das relaes em que en-               negam determinados valores morais ou polti-
tram. Na verdade este ponto de vista foi susten-            cos. Nietzsche foi o nico a no utilizar esse
tado pelo empiriocriticismoiv.) de Avenarius e              termo com intuitos polmicos, empregando-o
por Mach.                                                   para qualificar sua oposio radical aos valores
    NEXO (lat. Nexus; in. Bond; fr. Connexon;              morais tradicionais e s tradicionais crenas
ai. Zusammenhang; it. Nesso). Conexo das                   metafsicas: "O N. no  somente um conjunto
coisas entre si, na ordem causai ou final: Kant             de consideraes sobre o tema 'Tudo  vo',
chama o primeiro de nexus effectivus e o se-                no  somente a crena de que tudo merece
gundo de nexus finalis (Crt. do Juzo,  87).              morrer, mas consiste em colocar a mo na
Whitehead deu esse nome (nexus) s cone-                    massa, em destruir. (...)  o estado dos espri-
xes reais entre as coisas, por ele consideradas            tos fortes e das vontades fortes do qual no 
como elementos ltimos da realidade, junta-                 possvel atribuir um juzo negativo: a negao
NIRVANA                                               713                                            NOLIO


ativa corresponde mais  sua natureza profun-                   Nenhum dos significados especficos pro-
da" (Wille zurMacht, ed. Krner, XV,  24).                 postos para esse termo teve grande aceitao;
     NIRVANA. Extino das paixes e do dese-               hoje resta quase exclusivamente o significado
jo de viver, portanto da corrente dos nascimen-             genrico de operao, ato ou elemento cog-
tos, na doutrina budista. ''Essa ilha incompar-            nitivo em geral.
vel em que tudo desaparece e todo apego                         NOES COMUNS (gr. KOlVOci vvoiOU.; lat.
cessa, chamo de N., destruio da velhice e da              Notiones communes). So as antecipaes (v.)
morte" (Suttanpta, V, 11). Na filosofia oci-              dos esticos, s quais freqentemente se fez re-
dental, Schopenhauer adotou essa noo, ven-                ferncia na histria da filosofia: cf., p. ex., SPI-
do nela a negao da vontade de viver, cuja                 NOZA, Et., II, 38, Cor.; LF.IBNIZ, NOUV. ess., Avant-
exigncia brota do conhecimento da natureza                 propos, etc.
dolorosa e trgica da vida (Die Welt, I,  71; II,               NODAL, LINHA (ai. Knotenlinie). Foi as-
cap. 41).                                                   sim que Hegel designou a passagem da quanti-
     NOO (gr. evvoioc, 7rpA.r|\|n; lat. Notio;          dade  qualidade que se d por mudana da
in. Notion; fr. Notion; ai. Notion; it. Nozione).           quantidade, p. ex., quando a mudana da quan-
Dois significados fundamentais: um muito                    tidade de calor na gua produz a sua passa-
geral, em que N.  qualquer ato de operao                 gem do estado lquido para o slido ou para
cognitiva, e outro especfico, em que  uma                 o gasoso (Wissenschaft der Logik, I, seo III,
classe especial de atos ou operaes cognitivas.            cap. 11, B; trad. it., I, pp. 444 ss.). Esse conceito
     Para Ccero, que introduziu esse termo, ele            teve mais aceitao fora do hegelismo que em
corresponde a evvoia, que tem significado muito             seu seio. Kierkegaard extraiu da seu conceito
geral, e a 7tp?ir|i|n.;, que  a antecipao, uma         de salto (v.) e Engels fez da passagem da quan-
espcie particular e privilegiada de conheci-               tidade para a qualidade uma das leis funda-
 mento (Top., 7, 3D. Na Idade Mdia, Joo de                mentais da dialtica (Dialektik derNatur, trad.
 Salisbury empregou esse termo no sentido ge-               it., p. 57) (v. DIALTICA; SALTO).
 ral, referindo-se precisamente ao grego vvota                  NOEMA (ai. Noema). Na terminologia de
 (Metal., II, 20); em sentido geral tambm era              Husserl, o aspecto objetivo da vivncia, ou
 empregado por Jungius, que entendia a N.                   seja, o objeto considerado pela reflexo em
 como "a primeira operao de nosso intelecto,              seus diversos modos de ser dado (p. ex., o
 pela qual exprimimos uma coisa com uma ima-                percebido, o recordado, o imaginado). O N. 
 gem" (Log. hamburgenss, 1638, Prol., 3). Locke,           distinto do prprio objeto, que  a coisa; p. ex.,
 ao contrrio, pretendia restringir esse termo              o objeto da percepo da rvore  a rvore,
 s idias complexas "que parecem ter ori-                  mas o N. dessa percepo  o complexo dos
 gem e existncia constante mais no pensa-                  predicados e dos modos de ser dados pela ex-
 mento dos homens que na realidade das coisas"              perincia: p. ex., rvore verde, iluminada, no
 (Ensaio, II, 22, 2), enquanto Leibniz observava            iluminada, percebida, lembrada, etc. (Ideen, 1,
 que "muitos aplicam a palavra N. a qual                     88). O adjetivo correspondente  noemtico.
 quer espcie de idias ou concepes, tanto                     NOESE (ai. Noesis). Na terminologia de
 s originais quanto s derivadas" (Nouv. ess.,             Husserl, o aspecto subjetivo da vivncia, consti-
 II, 22, 2). Berkeley. por sua vez, restringia esse         tudo por todos os atos de compreenso que
 termo ao conhecimento que o esprito tem de                visam a apreender o objeto, tais como perce-
 si mesmo e da relao entre as idias: conheci-            ber, lembrar, imaginar, etc. (Ideen, I,  92). O
 mento que, por sua vez, no  urna idia                   adjetivo correspondente  notco.
 (Princ. of Human Knowledge, I,  27, 89, 140,                  NOTICA (in. Noetic; fr. Notique, ai. No-
 etc; cf. a nota ao  27 da edio dos Principies,          tik, it. Noetica). Foi assim que Hamilton de-
 em Works, ed. T. E. Jessop, II, p. 53). Kant tam-          nominou a parte da lgica que estuda "as leis
 bm atribua significado restrito a esse termo,            fundamentais do pensamento", que so os qua-
 entendendo por N. "o conceito puro, porquan-               tro princpios: identidade, contradio, terceiro
 to tem origem unicamente no intelecto", reser-             excludo e razo suficiente (Lectures on Logic,
 vando o termo "representao" para o significa-            V, I, p. 72). Esse uso foi adotado por poucos
  do geral de N. (Crt. R. Pura, Dial. transe, I,           autores.
  seo 1). Wolff, inversamente, afirmara: "A re-
                                                                 NOLIO (lat. Noluntas; in. Nolition; fr.
  presentao das coisas na mente  N., por ou-
                                                            Nolont, ai. Nolitio; it. Nolont). No querer ou
  tros chamada de idia" (Log.,  34).
                                                            fugir. Esse termo  rarssimo, em todas as ln-
NOME                                                 714                                              NOME


guas. Segundo S. Toms de Aquino, "o dese-                 Esta antinomia fora vislumbrada por Frege
jo do bem chama-se vontade, porquanto  o                  ("ber Sinn und Bedeutung", 1892, em Aritm-
nome do ato de vontade, mas a fuga ao mal                  tica e lgica, ed. Geymonat, pp. 215-52), mas
chama-se noluntas. Por isso, assim como a                  foi formulada como tal por Russell ("On
vontade  do bem, a noluntas do mal" (S. Th.,             Denoting", 1905, agora em Logic and Know-
II, 1, q. 8. a. 1). No mesmo sentido, esse termo           ledge, pp. 41-56). Resulta do fato de que dois
recorre em Wolff (Phil. practica, I,  38). Est           N. sinnimos (que tm o mesmo significa-
claro que neste sentido a N.  vontade po-                 do) devem poder ser substitudos um pelo
sitiva, assim como a chamada vontade. Outros               outro sem que mude o significado e o valor de
autores, ao contrrio, a entenderam no sentido             verdade de contexto. Ora, "Sir Walter Scott" e
de vontade inibida ou ausncia de vontade                  "autor de Waverley so nomes sinnimos, por-
(RENOUVIF.R e PRAT, Monadologie, p. 231). Este             tanto substituveis. Contudo, se na frase "Jorge
segundo sentido  decididamente imprprio.                 IV perguntou uma vez se Scott era o autor de
    NOME (gr. vo|ia; lat. Nomen; in. Name, fr.             Waverley' substituirmos "autor de Waverlef
Nom; ai. Name, it. Nome). A palavra ou o sm-              pelo N. sinnimo "Scott", a frase resultante ser
bolo que indica um objeto qualquer. Os pro-                falsa, pois ficar: "Jorge IV perguntou uma vez
blemas a que o N. d origem como palavra ou                se Scott era Scott."
smbolo (p. ex., o de origem ou de validade)                   Essa antinomia recebeu duas solues prin-
encontram-se no verbete linguagem (v.). Aqui               cipais na lgica contempornea: a primeira
cabe apenas lembrar as determinaes espec-               consiste essencialmente em reduzir a denota-
ficas que os lgicos emprestaram ao conceito               o a uma descrio em termos direta ou indi-
de N. Quando Plato define o N. como "instru-              retamente redutveis a experincias elementa-
mento apto a ensinar e fazer discernir a essn-            res. Esta soluo foi proposta por Russell (que
cia, do mesmo modo como a lanadeira est                  a exps no ensaio citado e depois no primeiro
apta a tecer a tela" (Crat., 388 b), sua definio         vol. de Principia mathematca, 1910). Segundo
adapta-se a qualquer termo ou expresso lin-               Russell, a frase "Jorge IV, etc." pode significar:
gstica. Aristteles, ao contrrio, foi o primei-         a) "Jorge IV queria saber se um homem e s
ro a analisar especificamente o N.: "O N.  um             um homem escreveu Waverley e se Scott era
som vocal significativo por conveno, que                 esse homem", ou b) "Um homem e s um ho-
prescinde do tempo e cujas partes no so sig-             mem escreveu Waverley e Jorge IV queria sa-
nificativas se tomadas separadamente" (De int.,            ber se Scott era esse homem". E Russell diz:
2, 16 a 19). Por "prescindir do tempo", o N. dis-          neste segundo caso "o autor de Waverley ocor-
tingue-se do verbo, que sempre tem determi-                re de modo primrio (primary oceurrence),
nao temporal. Por no ter partes significati-            porque supe que Jorge IV tem algum co-
vas por si mesmas, o N. distingue-se do dis-               nhecimento direto de Scott. Na primeira, ao
curso. E como Aristteles observe que a ex-                contrrio, a frase ocorre de modo secundrio,
presso infinita "no homem" no  um N.. os               no sentido de que no supe um conhecimen-
lgicos posteriores acrescentaram  sua defini-            to direto de Scott" ("On Denoting", op. cit., p.
o de N. a caracterizao "finita" e tambm               72). Essa teoria, alm de pressupor a diferena
"reta", para excluir os casos oblquos do N.,              entre conhecimento direto e conhecimento in-
que interessam ao gramtico, e no ao lgico               direto, eqivale a reduzir os- N. prprios a
(PEDRO HISPANO, Summ. log., 1.04). O prprio               N. comuns e os N. comuns a N. prprios, que
Aristteles advertia (De int., 2, 16 a 23) que o           denotam elementos extrados da experincia
N. nem sempre  simples, e nesse sentido sua               direta. Teorias semelhantes a estas foram apre-
definio era modificada do seguinte modo por              sentadas por Quine (Methods of Logic, 1950,
Jungius, no sc. XVII: "Por N. entende-se um                33; From a LogcalPont ofVieiv, 1953, cap. 1)
smbolo ou signo, institudo para determinada              e por outros.
coisa e para a noo que representa a coisa,
quer se trate de um N. gramaticalmente nico,                 A segunda soluo da antinomia relao-N.
quer se trate de um N. composto por mais vo-                proposta pelo prprio Frege. Consiste em
cbulos (Log. hamburgensis, 1638, IV, 2, 10).              distinguir o significado (Bedeutung, Meaning),
                                                           como denotao, do sentido (Sinn, Sense). A
    Na lgica contempornea, a funo do N.                denotao  a referncia do N. ao objeto: "Sir
foi analisada principalmente em funo daquilo             Walter Scott" e "autor de Waverley tm a mes-
que Carnap chamou de "antinomia relao-N.".               ma denotao porque se referem ao mesmo
NOMINAL, DEFINIO                                     715                     NON CAUSA PRO CAUSA

objeto. O sentido, ao contrrio, como dizia Fre-             Ao traar uma breve histria do N., a prop-
ge,  "algo logo apreendido por quem conhece             sito de Nizlio, Leibniz dizia que "so nomina-
suficientemente a lngua (ou em geral o con-             listas todos os que acreditam que, alm das
junto de signos) a que o N. pertence" ("ber             substncias singulares, s existem os nomes
Sinn und Bedeutung",  1; ed. it. cit., p. 219):         puros e, portanto, eliminam a realidade das
assim, dois N. podem ter sentidos diferentes,            coisas abstratas e universais"; para ele, o N.
mesmo que se refiram ao mesmo objeto. Esse               assim entendido comeava com Roscelin, e en-
 precisamente o caso das duas expresses                tre os nominalistas, alm do prprio Nizlio,
citadas, e, como  possvel compreender o senti-         estava tambm Thomas Hobbes (De stilo phi-
do de um N. sem conhecer sua denotao, per-              losophco Nzolii, 1670, Op., ed. Erdmann,
guntas como a que foi atribuda a Jorge IV               p. 69). Essas observaes e incluses de Leibniz
significam um pedido de informaes referen-             foram aceitas pelos historiadores da filosofia.
te  identidade de suas denotaes. Essa solu-               Em poca mais recente, esse termo desig-
o foi repetida com variaes por Carnap (Mea-          nou a interpretao convencionalista da fsica:
ning andNecessity,  31-32) e por Church (Lntr.         p. ex., Poincar empregou em relao a Le
to Mathematical Logic, 1958,  1). E parece ser          Roy (La scence et 1'hypothse, p. 3).
uma soluo prefervel porque no exige pres-                Algumas vezes os lgicos modernos usam
supostos particulares sobre a natureza da lin-           esse termo para indicar a doutrina segundo a
guagem.                                                  qual a linguagem das cincias contm apenas
   NOMINAL, DEFINIO. V. DEFINIO.
                                                         variveis individuais, cujos valores so objetos
    NOMINALISMO (in. Nominalism; fr. Nom-               concretos, e no classes, propriedades e simi-
nalisme, ai. Nominalismus; it. Nominalismo).             lares (QUINE, From a Logical Point ofVieiv, VI,
                                                         4 ss.; CARNAP, Meaning and Necessity,  10).
Doutrina dos filsofos nominales ou nomina-
listas, que constituram uma das grandes cor-                NOMINALIZAO (ai. Nominalisierung).
rentes da Escolstica. Os termos nominalista             Husserl entendeu por "lei de N." a lei segundo
(nominals) ou terminista (terminista) foram             a qual "a cada proposio e a cada forma par-
usados somente no princpio do sc. XV (v.               cial distinguvel na proposio corresponde um
                                                         elemento nominal" (Ldeen, I,  119), o que sig-
TERMINISMO), mas O'ton de Freising, em sua
                                                         nifica, p. ex., que  proposio "S P" pode
crnica Gesta Friderici imperatoris (1, 47), afir-       corresponder o elemento nico nominal "o ser
mava que Roscelin fora "o primeiro em nossos             Pde 5" na qual "ser P" pode significar a seme-
tempos a propor em lgica a doutrina das pala-           lhana, a pluralidade, etc.
vras (sententiam vocum)". No princpio do sc.
                                                             NOMOLOGIA (in. Nomology, fr. Nomologie;
XII o N. era defendido por Abelardo (v. UNI-
                                                         ai. Nomologie, it. Nomologid). Termo raramente
VERSAIS), mas seu triunfo na Escolstica foi de-
                                                         usado na filosofia do sc. XIX para indicar a
vido  obra de Guilherme de Ockham (c. 1280-             cincia da legislao. Husserl chamou de "N.
c.1349), que com razo foi chamado de Princeps           aritmtica" a matemtica universal (Logsche
Nomnalium. Assim exprimia Ockham sua con-                Untersuchungen, I,  64).
vico sobre o assunto: "Nada fora da alma,
                                                             NOMOTTICO(al. Nomothetisch). Kant cha-
nem por si nem por algo de real ou de racional           mou de N., o que d leis, o juzo reflexivo
que lhe seja acrescentado, de qualquer modo              (v.), porquanto fornece mximas para a unifi-
que seja considerado e entendido,  universal,           cao das leis naturais; afirma que no  N.
pois  to impossvel que algo fora da alma              o juzo transcendental, "que contm as con-
seja de qualquer modo universal (a menos que             dies para a subsuno em categorias" e
isso se d por conveno, como quando se                 scj faz "indicar as condies da intuio sen-
considera universal a palavra 'homem', que              svel nas quais se pode conferir realidade
particular), quanto  impossvel que o homem,            (aplicao) a um conceito dado" (Crt. do
segundo qualquer considerao ou qualquer                Juzo,  69). Windelband chamou de nomo-
ser, seja o asno" (In Sent., I, d. II, q. 7 S-T). Do     tticas as cincias naturais, em contraposio s
ponto de vista positivo, o N. admite que o uni-          cincias do esprito, ou cincias histricas, de-
versal ou conceito  um signo dotado da capa-            nominadas idiogrficas (Prludien, 5 ed., II,
cidade de ser predicado de vrias coisas. O              p. 145) (v. CINCIAS, CLASSIFICAO DAS).
conceito j fora assim definido por Abelardo                NON CAUSA PRO CAUSA (gr. x |iii aiTiov
(v. UNIVERSAIS, DISPUTA DOS).                            t axiov). Um dos sofismas enunciados por
NON-ENS LOGICUM                                       716                                              NORMA

Aristteles {El. sof., 5, 167 b 21), que consiste           guagem, inteligncia, etc. (Vexigence idaliste
em assumir como causa (ou seja. como premis-                et lefait de 1'volution, 1927, pp. 195-96).
sa) aquilo que no o , donde resultam uma                      NORMA (lat. Norma; in. Norni; fr. Norme,
conseqncia impossvel e a aparente refu-                  ai. Norm; it. Norma). Regra ou critrio de juzo,
tao do adversrio.  uma falcia que ocorre               A N. tambm pode ser constituda por um caso
especialmente na r e d u   o ao a b s u r d o . O         concreto, um modelo ou um exemplo; mas o
exemplo dado por Aristteles  o seguinte:                  caso concreto, o modelo ou o exemplo s va-
Quem quiser reduzir ao absurdo a afirmao                  lem como N. se puderem ser utilizados como
de que alma e vida so a mesma coisa assim                  critrios de juzo dos outros casos, ou das coi-
proceder: a morte e a vida so contrrias; a               sas s quais o exemplo ou o modelo se refe-
gerao e a corrupo so contrrias; mas a                 rem. A N. distingue-se da mximaiv.) porque,
morte  corrupo, logo a vida  gerao. Mas               ao contrrio desta (no significado 2), no 
isto  impossvel, porque o que vive no gera,              apenas uma regra de conduta, mas pode ser re-
mas  gerado; portanto, alma e vida no so a               gra ou critrio de qualquer operao ou ativi-
mesma coisa. A falcia aqui consiste em elimi-              dade. Distingue da lei (v.) porque pode ser
nar a premissa "Alma e vida so a mesma coi-                isenta de carter coercitivo; p. ex., uma N. de
sa" e substitui-la por outra: "Morte e vida so             costume torna-se lei qxiando se torna coercitiva
coisas contrrias" (cf. PFDRO HISPANO, Summ.                em virtude de uma sano pblica.
log., 7.56-57; AKNALLD, Log., III, 19. 3; JLNGILS.              Trata-se de conceito recente, cuja origem
Log., VI, 12, 11, e t c ) .                                 est no neocriticismo alemo; formou-se atra-
  NON-ENS LOGICUM. Era assim que W.                         vs da distino e da contraposio entre o do-
Hamilton chamava o ato do pensamento nega-                  mnio emprico do fato (da necessidade natu-
tivo, ou seja, no pensar em nada de preciso,               ral) e o domnio racional do dever ser (da
que eqivale a no pensar (Lectures on Logic,               necessidade ideal). Sua validade no deriva do
I, 2a ed., 1867, p. 76).                                    fato de ser ou no aceita ou aplicada, mas
    NOOGONIA(al. Noogonie). Kant designou                   apenas do dever ser que exprime. Os fi-
a doutrina de Locke "sistema de N.", porque                 lsofos da escola de Baden (Windelband e
descreve a gnese dos conceitos a partir da                 Rickert) insistiram nesse carter da N. Win-
experincia (Crt. K. Pura, Anal. dos princ,                delband disse: "O sol da necessidade natu-
Nota s anfibolias dos conceitos da reflexo).              ral brilha igualmente sobre o justo e o injusto.
    NOOLOGIA (lat. Noologia-, fr. Noologie, ai.             Mas a necessidade que advertimos na validade
Noologie, it. Noologia). Termo inventacio por               das determinaes lgicas, ticas e estticas 
Calov em Scripta philosophica (1650) para in-               ideal; no a do Mussen e do no-poder-ser-de
dicar uma das duas cincias auxiliares da                   outro modo, mas do Sollen e do poder-ser-
metafsica Ia outra  a gnosiologia (v.)], mais             de outro modo" (Prludien, 4a ed., 1911, II,
precisamente a que tem por objeto as fun-                   pp. 69 ss.). Foi tambm neste sentido que Kelsen
es cognitivas. Esse termo foi retomado no                 entendeu a N., baseando nela sua teoria do di-
sculo seguinte por Crusius e outros, no mes-               reito: "A N.  a expresso da idia de que algo
mo sentido ou em sentidos anlogos. Kant                    deve acontecer, em especial de que um indiv-
chamou de noologistas aqueles que, como                     duo deve comportar-se de determinada manei-
Plato, acham que os conhecimentos puros                    ra. A N. nada diz sobre o comportamento efeti-
derivam da razo, em contraposio aos em-                  vo do indivduo em questo" ( General Theory
piristas, que os julgam derivados da experincia            of Law and State, 1945, I, C, a. 5; trad. it.,
(Crt. R. Pura, Doutr. transe, do mtodo, cap.              p. 36). Neste sentido, falou-se e fala-se de "trans-
IV). Ampre props chamar de noolgicas                     cendncia" da N. em relao s situaes que
todas as cincias do esprito (Essai sur Ia                 ela regula: por tal transcendncia, insistiu-se (s
phosophie des sciences, 1834). Nenhum desses               vezes oportunamente) na independncia do
usos teve sucesso.                                          valor da N. em relao  sua efetiva aplicao.
                                                            P. ex., no h dvida de que as N. destina-
    NOOSFERA (fr. Noosphre). Termo empre-                  das  obteno de bom produto agrcola ou
gado por Le Roy para indicar o domnio cia                  industrial, determinadas por disciplinas cientfi-
evoluo propriamente humana (portanto con-                 cas e tecnolgicas apropriadas, continuam vli-
traposto ao domnio da evoluo biolgica,                  das independentemente do fato de serem igno-
biosfera), que se realiza somente com a ajucia              radas ou desprezadas na maior parte dos casos.
de meios espirituais: indstria, sociedade, lin-
NORMAL                                                717                                     NUIXIBISTAS


Essa independncia, entretanto, no significa                   NORMATIVO (in. Normative, fr. Normatif;
que as N. tenham uma origem misteriosa                      ai. Normativ, it. Normativo). Este adjetivo tem
ou inacessvel ou que estejam depositadas em                dois sentidos principais, que correspondem
alguma regio do ser que tenha apenas uma                   aos dois sentidos atribudos  palavra norma:
relao indireta e distante com os campos da                le  N. o que prescreve a regra infalvel para
experincia humana que as mesmas visam a                    alcanar a verdade, a beleza, o bem, etc, ou
regular. As N. exprimem, habitualmente, a dis-              seja, um bem absoluto; 2-  N. uma frmula
ciplina mais conveniente de determinadas ati-               tcnica que garanta o desenvolvimento eficaz
vidades, com vistas a conferir-lhes a maior efi-            de certa atividade. Na segunda metade do sc
cincia e preciso possveis. Portanto, se elas             XIX foram chamadas de N., no 1B sentido, as
nem sempre so generalizaes daquilo que j                cincias filosficas especiais (lgica, tica e
est sendo feito ou realizado -- porque inclusi-            esttica), s quais se atribuiu a tarefa de pres-
ve podem inspirar-se em uma ordenao com-                  crever as normas com as quais o pensamento,
pletamente diferente -- tampouco so alheias                a vontade e o sentimento deveriam ajustar-se
aos campos de atividade humana que visam a                  para alcanar a verdade, o bem e a beleza
regular. Neste sentido Dewey dizia: "A diferen-             (Windelband, Rickert Wundt, Simmel, Husserl
a que se costuma registrar entre os modos                  e outros). Nesse sentido, a qualificao de N.
como os homens pensam e os modos como                       foi repelida pelas disciplinas acima (v. cap-
devem pensar  semelhante  diferena que se                tulos relativos). No se pode, porm, negar
observa entre o bom e o mau cultivo ou a boa                que existam disciplinas N. no 2S sentido, de
e a m prtica da medicina. Os homens pensam                formular hipoteticamente tcnicas aptas a ga-
como no devem quando adotam mtodos de                     rantir o desenvolvimento eficaz de determina-
investigao que a experincia das investiga-               das atividades.
es anteriores mostra serem inadequados ao                     NOTA (lat. Nota; in. Note, fr. Note; ai.
fim preestabelecido" (Logic, cap. VI; trad. it., p.         Merkma; it. Nota). Sinal ou caracterstica de um
 156). Desse ponto de vista, uma N.  simples-              objeto. Sobre o princpio: "a N. de uma N. 
mente uma frmula tcnica para o desenvolvi-                uma N. da prpria coisa", pela qual Kant quis
mento eficaz de determinada atividade.                      substituir o dictum de omni et nullo como fun-
     Portanto,  possvel distinguir dois conceitos         damento do silogismo, v. SILOGISMO.
de N.: 1<J como critrio infalvel para o reconhe-              NOTAO1 (in. Notation; fr. Notation; ai.
cimento ou a realizao de valores absolutos                Notation; it. Notazione). Tm este nome os
(este  o conceito elaborado pela filosofia dos             smbolos primitivos cia lgica. A classificao
 valores (v.), ainda aceito pelas doutrinas abso-           mais comum de tais smbolos divide-os em
lutistas); 2" como procedimento que garante                 quatro classes: constantes, variveis, conectivos
o desenvolvimento eficaz de determinada                     e operadores. Estes dois ltimos algumas vezes
atividade.                                                  sfio chamados, respectivamente, de operadores
    NORMAL (in. Norma!; fr. Normal; ai. Nor-                e abstratos (v. os verbetes individuais: CONF.O
 mal; it. Normale). 1. Aquilo que est em con-              TIVO: CONSTANTE; OPERADOR).
formidade com a norma.                                         NOTAO2 (gr. ruM.ooya; lat. Notatio; in.
     2. Aquilo que est em conformidade com                 Notation; fr. Notation; ai. Notation). Em lgica,
 um hbito, com um costume, com Lima mdia                  argumento (locus) inferido da etimologia do
aproximada ou matemtica, ou com o equilbrio               nome: como quando Plato diz que o termo
fsico ou psquico. Neste sentido, diz-se, p. ex..          soma (corpo) deriva de sema (tmulo), como
  levar vida N.", para dizer uma vida segundo os            argumento de que o corpo  o tmulo da alma
costumes de certo grupo social, ou "tem peso                (Crat., 400 c). Esse tipo de argumento  es-
 N." ou " altura N.", para dizer que tem peso ou            clarecido por Ccero (7b/)., 8. 35) e retoma-
 altura correspondentes  mdia dos indivduos              do pelos lgicos do sc. XVII (JUNGII:S, Log.,
 da mesma idade, raa, etc, ou " mente N.", "um             V, 25).
 organismo N.", para indicar a boa sade mental                NULLIBISTAS (in. Nullibists; ai. Nitllibis-
 ou fsica. F.ste uso do termo no  completa-              ten). Foi assim que Henri Moore chamou os
 mente imprprio porque, embora as normas s                que acreditam que a alma no ocupa espao e
 quais se refere sejam obtidas de generalizaes            no tem. portanto, uma sede determinada
 empricas, so empregadas como critrio de                 no corpo (linchrdon Metapbysicum. 1671, 1,
 juzo e estabelecem uma "normalidade".                     n, D.
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   NMENO (gr. vooLtevov; in. Noumenori;                    EL, VII, 2) e durante muito tempo fundamen-
fr. IVoumne, ai. Noumenon-, it. Noumeno). Es-               tou a matemtica. Para Plato, o N. encontrava-
te termo foi introduzido por Kant para in-                   se onde houvesse uma ordem, um limite do
dicar o objeto do conhecimento intelectual                   ilimitado. Entre a multiplicidade ilimitada (p.
puro, que  a coisa em si(v.). Na dissertao                ex., dos sons vocais) e a unidade absoluta, o N.
de 1770, Kant diz: "O objeto da sensibilidade                se insere como um limite (p. ex., distino e
 o sensvel; o que nada contm que no                      enumerao das letras do alfabeto), e por isso
possa ser conhecido pela inteligncia  o in-                sempre se encontra onde h ordem e intelign-
teligvel. O primeiro era chamado de fen-                   cia (Fil., 18 a ss.). Por outro lado, o N. neste
meno pelas escolas dos antigos; o segundo,                   sentido no est ligado a algo de visvel ou de
de N." (De mundi sensibilis, etc,  3). Na                   tangvel: , portanto, diferente do N. utilizado
realidade, a palavra N. s vezes  usada pelos               pelo homem em suas tarefas prticas (Rep., 525
filsofos gregos, no em contraposio a fen-               d). Essa tese (que no  a dos platnicos de
meno, mas a sensvel, como em Plato: "Se in-                tendncia pitagrica, que consideravam as idias
teleco e opinio verdadeira so duas coisas                como N.; cf. ARISTTELES, Met., XIV, 3)  subs-
diferentes, ento sem dvida existiro entes                 tancialmente apoiada por Aristteles: "As enti-
que, conquanto no sejam sensveis para ns,                 dades matemticas no so mais substncias
so apenas pensados" (Tim., 51 d); algumas ve-               que os corpos; precedem na lgica, mas no na
zes  usada em contraposio ao objeto direta-               existncia, as coisas sensveis, e no podem
mente apreensvel, como nos esticos: "A com-                existir separadamente. Mas, desde que no po-
preenso se produz com a sensao-- e ento                  dem sequer residir nas coisas sensveis, no
 compreenso de coisas brancas, pretas, spe-               devem existir de modo absoluto, ou devem
ras ou lisas -- ou com o raciocnio -- e en-                 existir de algum modo especial, que no  a
to  compreenso de nexos demonstrativos,                   existncia absoluta" (Met., XIII, 3, 1077 b 12).
como quando se demonstra que os deuses                       Este modo de existncia especial, prprio das
existem e que exercem a providncia. Das                     entidades matemticas,  definido pelas pr-
coisas pensadas, algumas so pensadas se-                    prias proposies matemticas: "E estritamente
gundo a ocasio, outras segundo a seme-                      verdadeiro" -- diz Aristteles -- "que existem
lhana, outras segundo a composio e ou-                    entidades matemticas e que elas so tais quais
tras segundo contrariedades" (DiG. L, VII,                  a matemtica diz que so" (Ibid., XIII, 3, 1077
52).  mais freqente nos antigos (sobretudo                 b 3D. Aristteles pretende dizer que as entida-
em Plato, em Aristteles e nos neopla-                      des matemticas tm uma existncia anloga
tnicos) o uso do termo inteligvel (vOT)i),               s entidades da fsica (p. ex., ao movimento):
no em contraposio a fenmeno, mas a sens-                so abstradas das causas sensveis, mas no
vel (cf., p. ex., ARISTTELES, Et. nic, X, 4, 11 74          so separveis destas. Desse ponto de vista, o
b 34).                                                       nmero  "uma pluralidade medida ou uma
                                                             pluralidade de medida", e a unidade no  um
    NMERO (gr. pt0|t; lat. Numerus; in.                  N., mas medida do N. (Met., XIV, 1, 1088 a 5):
Number, fr. Nombre, ai. Zahl; it. Numero). Na                definio que repete a de Plato e antecipa a
histria deste conceito, podem-se distinguir                 de Euclides, j lembrada.
quatro fases conceptuais diferentes, que deram
lugar a quatro definies diferentes: Ia fase rea-              2a A segunda fase conceptual da noo de
lista; 2- fase subjetivista; 3a fase objetivista; 4a         N. pode comear com Descartes: "O N. que
fase convencionalista.                                       consideramos em geral, sem refletirmos sobre
    Ia A fase realista  caracterizada pela tese de          coisa alguma criada, no existe fora de nosso
que o N.  um elemento constitutivo da realida-              pensamento, assim como no existem todas as
de, por ser acessvel  razo, mas no aos senti-            outras idias gerais que os escolsticos incluem
dos. Essa foi a tese dos pitagricos, que, segun-            sob o nome de universais" (Princ.phil., I, 58).
do relata Aristteles, acreditavam que "as coi-              Em outras palavras, o N.  uma idia, um ato
sas so N.", ou seja, "compostas de N. como                  ou uma manifestao do pensamento. A defini-
seus elementos" (Met., XIV, 3, 1090 a 21). A                 o da resultante  a de operao: o N.  uma
esta crena est ligada a definio de N. como               operao de abstrao executada sobre coisas
"sistema de unidades", prpria dos pitagricos               sensveis. Esse conceito  repetido muitas ve-
(J. STOBEO, Ecl, I, 18): essa definio serviu de            zes na filosofia moderna. Hobbes ps o N.
modelo  de Euclides ("multido de unidades",                entre as coisas "no existentes", que so ape-
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nas "idias ou imagens'' (De corp., VII,  1).               a faculdade que o pensamento tem de agru-
Locke v no K. uma idia complexa, mais pre-                par os objetos e de abstrair da natureza e da
cisamente um "modo simples obtido atravs da                ordem deles (o que d lugar ao N. cardinal) ou
repetio da unidade" (Ensaio, II, 16, 2); no               apenas da natureza deles (o que d lugar ao N.
mesmo sentido, Leihniz diz que o N.  uma                   ordinziY). Dedekind, por sua vez, fundou o con-
idia adequada ou completa, ou seja, "uma                   ceito de N. na operao de emparelhar ou acoplar
idia to distinta que todos seus ingredien-                as coisas. Conquanto matematicamente prof-
tes so distintos" (Nouv. ess., II, 31, D- Berkeley         cuas, essas noes mantm o conceito de N. no
afirma que o nmero " inteiramente criatura                mbito da subjetividade.
do esprito" (Princ. of Human Knowledge, I,                    5- A terceira fase conceptual da noo de N.
12). Newton afirma que por N.  preciso enten-              (a de N. objetivo, mas no real) foi iniciada
der "no tanto a multido das unidades quanto               pela obra de Frege Fundamentos da aritmti-
a relao entre a quantidade abstrata de uma                ca (1884). Frege atribua carter conceptual ao
qualidade e uma quantidade do mesmo g-                     N., mas tambm objetividade. Isto, em primei-
nero que se assume como unidade" (Arithme-                  ro lugar, exclui que o N. seja uma operao ou
tica universalis, cap. 2). Definio anloga  a            uma realidade psicolgica, uma idia no senti-
de Wolff, para quem "o N. geralmente tem com                do setecentista do termo: "O N. no constitui
a unidade a mesma relao que uma reta qual-                um objeto cia psicologia nem pode ser conside-
quer pode ter com uma reta dada" (Ont.,                     rado resultado de processos psquicos, assim
 406). Esta definio, como a de Newton, faz               como no se pode considerar desse modo o
do N. a operao com que se estabelece uma                  Mar do Norte. Fao uma distino ntida entre
relao de medida.                                          o que  objetivo e o que  palpvel, real e
    Kant s fazia expressar o mesmo conceito                ocupa espao. P. ex.. o eixo terrestre e o bari-
geral ao afirmar que o N.  um esquema (v.),                centro do sistema solar so objetivos, mas eu
mais precisamente que ele  "a representao                no diria que so reais como o  a terra" (Die
que compreende a sucessiva adio de um a                   Grundlagen der Arithmetik,  26; trad. it., pp.
um (homogneos)" (Crt. R. Pura, Anal. dos                  70-71). A matemtica j havia estabelecido a
princ, cap. 1). A novidade do conceito kan-                 insuficincia da definio de N. como coleo
tiano  que o N. no  uma operao emprica,               de unidade, por isso levaria a excluir 0 e 1
efetuada em material sensvel, mas uma opera-               como N. (Aristteles reconhecia esse fato no
o puramente intelectual, que atua sobre a                 que diz respeito ao 1; Met., XIV, 1, 1088 a 5).
multiplicidade dada pela intuio pura (do                  Frege assume como base da definio de n-
tempo), que  absolutamente homognea. Isto                 mero a extenso (v.) do conceito c diz que "o
faz do N. algo independente da experincia,                 conceito F to numeroso quanto o conceito G
dotado de um gnero de validade que no  o                 sempre que existe a possibilidade de pr em
emprico; mas o N. continua sendo uma opera-                correspondncia biunvoca os objetos perti-
o do sujeito. Enquanto esta concepo kan-                nentes a Ge os pertinentes a F". Em vista disso,
tiana era representada vrias vezes na filosofia            d a seguinte definio de N.: "O N. natural que
do sc. XIX, Stuart Mill voltava ao conceito do             cabe ao conceito /-'nada mais  que a extenso
N. como operao emprica de abstrao: "To-                a F do conceito 'to numeroso quanto'" (Ibid.,
dos os N. devem ser N. de algo: no h N. em                 68, p. 134). Esta definio de Frege foi expres-
abstrato". Portanto, os N. so produtos de uma              sa por Russell em termos de classes, e no de
"induo real, de uma inferncia real de fatos a            conceitos. Russell diz: "Quando se tem uma
fatos", e tal induo s  ocultada pela sua                relao termo a termo entre todos os termos de
natureza abrangente e pela conseqente gene-                um conjunto e todos os termos de outro, dize-
ralidade de linguagem em que desemboca (Logic,              mos que os dois conjuntos so semelhantes.
II, 6, 2). De certo modo, as posies de Kant e             Podemos ver ento que dois conjuntos seme-
de Stuart Mill so tpicas dessa fase subjetiva do          lhantes tm o mesmo N. de termos, e definir-
conceito de N.: o N.  uma operao intelectual             mos o N. de um conjunto dado como a classe
pura para Kant,  uma generalizao emprica                de todos os conjuntos semelhantes a ele. Re-
para Stuart Mill, mas em ambos os casos per-                sulta a seguinte definio formal: 'o N. dos ter-
tence  esfera da subjetividade. Pertencem a                mos de ama classe dada define-se como a clas-
essa concepo do N. as doutrinas de Cantor e               se de todas as classes semelhantes  classe dada'"
de Dedekind. Para Cantor, o fundamento do N.                (Our Knoivledge of the Externai World, 3a ed.,
NUMERO                                             720                                       NUMINOSO

1926, cap. 7; trad. fr., p. 163). A definio de          2; trad. it., pp. 137-38). Este ponto de vista
Russcll, que serviu de base para Principies of           pode ser resumido do seguinte modo:
Mathematics (1905) e Principia mathematica,                  a) no existe um objeto ou entidade nica
que ele publicou em 1910 em colaborao com              chamada "N.", cujas especificaes sejam os N.
Whitehead (as duas obras fundamentais da l-             definidos nos diversos sistemas numricos;
gica matemtica contempornea), teve grande                  b) a validade dos diversos sistemas numri-
aceitao na filosofia e na matemtica contem-           cos depende apenas da coerncia intrnseca de
porneas. Contudo, algumas vezes pareceu                 cada sistema, definida pelos axiomas funda-
restrita demais para as possibilidades de de-            mentais;
senvolvimento da matemtica hodierna, que                    d o conceito de N. presente em um sistema
no pretende ficar ligada a um conceito de N.            numrico no est ligado a uma interpretao
que lhe seja de algum modo preestabelecido.              determinada, mas  susceptvel de interpreta-
   4- A quarta fase foi-se configurando em               es indefinidamente variveis. Em outros ter-
estreita conexo com a axiomtica moderna, e             mos o N. no est imune a interpretaes
pode ser associada com os nomes de Peano,                (como um sinal que nada signifique) e no est
Hilbert, Zermelo, Dingler. Para esta, o N.  um          ligado a uma interpretao nica, privilegiada,
signo, definido por um sistema adequado de               mas caracteriza-se pela possibilidade de inter-
axiomas. Dingler diz: "Construmos uma srie             pretaes diferentes.
de signos (sinais grficos) passveis de repro-               esta a noo do N. que costuma ser pres-
duo, que deve possuir as seguintes proprie-            suposta nos mais recentes estudos de matem-
dades: a) a srie tem um primeiro termo; b) a            tica (v.).
srie possui uma regra de construo enunci-                NUMINOSO (in. Numinous-, ai. Numiuos).
vel de modo finito tal que: a) est sempre de-           Foi assim que Rudolf Otto chamou a conscin-
terminado univocamente qual termo da srie               cia do mysterium tremendum, que  algo mis-
vem imediatamente  direita de um termo j               terioso e terrvel que inspira temor e venera-
assinalado; (3) cada termo da srie  diferente          o; essa conscincia seria a base da experincia
de todos os termos que o precedem  esquer-              religiosa da humanidade (Das Heilige, 1917;
da" (Die Methode derPhysik, 1937, cap. 11, 3,            trad. it., IIsacro, Bolonha, 1926).
                                                 o
    O. Na Lgica formal "aristotlica" esta letra    so pelo qual um objeto independente do sujei-
usada como smbolo da proposio particular           to torna-se objeto de conhecimento (Systema-
negativa (v. A).                              G. P.   tische Philosophie, 1931,  11).
    OBEDINCIA (lat. Oboedentia- in. Obe-                OBJETIVIDADE (in. Objectivity, fr. Objecti-
dience, fr. Obissance-, ai. Gehorsamkeit; it. Ob-    vit\ ai. Objektivitt; it. Oggettivit). 1. Em sen-
bedienza). Segundo Spinoza, esse  o signifi-         tido objetivo: carter daquilo que  objeto.
cado especfico de f. Esta consiste "em ter por      Neste sentido, Husserl falava de uma "O. pri-
Deus sentimentos que, se ausentes, tambm             mria" que pertenceria s coisas e as privilegia-
est ausente a O. a Deus e que, ao contrrio,         ria diante dos outros objetos, como proprieda-
estaro necessariamente presentes quando esti-        de, relaes, estados de fato, conjuntos, etc.
ver presente a O." (Tract. theologico-polticus,      (Ideen, I,  10) (v. OBJETO).
cap. 14). Esta reduo da f  O.  expresso             2. Em sentido subjetivo: carter da conside-
das doutrinas que reduzem f a ato prtico (v.        rao que procura ver o objeto como ele , no
F).                                                  levando em conta as preferncias ou os inte-
    OBJEO (in. Objection; fr. Objection; ai.        resses de quem o considera, mas apenas pro-
Einwurf; it. Obbiezione). Argumento cuja con-         cedimentos intersubjetivos de averiguao e afe-
cluso contradiz certa tese. Leibniz j observava     rio. Neste significado, a O.  um ideal de que
que a verdade no pode ser afetada por "O.            a pesquisa cientfica se aproxima  medida que
invencveis." " preciso ceder sempre s de-          dispe de tcnicas convenientes.
monstraes, seja as propostas para afirmar,              OBJETTVISMO (in. Objectivism, fr. Objecti-
seja as que se apresentem em forma de obje-           visme, ai. Objektivismus; it. Oggettivismo). Qual-
es.  injusto e intil querer enfraquecer as        quer doutrina que admita a existncia de
provas dos adversrios sob o pretexto de que          objetos (significados, conceitos, verdades, valo-
so apenas O., visto que o adversrio tem o           res, normas, etc.) vlidos independentemente
mesmo direito e pode inverter os nomes, hon-          das crenas e das opinies dos diferentes sujei-
rando seus argumentos com o nome de provas            tos.
e rebaixando os nossos com o depreciativo de              OBJETIVO1 (in. Objective, fr. Objectif, ai.
O." (Thod., Discours,  25).                         Objektif-, it. Obbiettvo). 1. O mesmo que obje-
    OBJETIDADE (fr. Ohjectit, ai. Objektitcit;       to, quando a palavra  adotada no sentido de
it. Oggettit). Termo utilizado por Schopenhauer      fim ou meta (v. OBJETO).
para definir o corpo e as coisas naturais, que            2. No sentido especfico proposto por
seriam ''a O. da vontade" no sentido de ser "a        Meinong,  o objeto do juzo, distinto do objeto
vontade objetivada, que se tornou representa-         da representao. P. ex., quando se diz: " ver-
o" (Die Welt, I,  18, 25, etc).                    dade que existem antpodas", o O.  constitu-
    OBJETIFICAO (ai. Objektation). Segun-           do por "'que existem antpodas". O O. no 
do Hartmann, este termo significa "tornar-se          necessariamente existente. Se A no , o no-
objeto para um sujeito" e define a natureza do        ser de A  um O. tanto quanto o ser de A {Uber
conhecimento. A O.  o contrrio de objetiva-         Anuahmen, 1902, pp. 142 ss.).
o: esta  a transformao de algo subjetivo             OBJETIVO2 (in. Objective; fr. Objectif; ai.
em objetivo, enquanto a O. exprime o proces-          Objektiv; it. Oggetliva). O que existe como ob-
OBJETIVO 2                                            722                                         OBJETIVO2

jeto, tem um objeto ou pertence a um objeto.                de empiricamente dada. Neste sentido, Kant
Fste adjetivo tem,  primeira vista, mais signi-            afirma que o conhecimento  "O." ou "obje-
ficados que o substantivo correspondente, vis-              tivamente vlido". J em suas distines ter-
to que, alm dos significados ligados a este                minolgicas Kant inclui esse significado: "Uma
ltimo, serviu para significar: o que  vlido              percepo que se refira unicamente ao sujeito,
para todos, o que  externo em relao  cons-              como modificao de seu estado,  sensa-
cincia ou ao pensamento, o que  indepen-                   o: uma percepo O.  conhecimento. Esta
dente do sujeito, o que est em conformidade                ou  uma intuio ou um conceito. Aquela se
com certos mtodos ou regras, etc. Tais signi-              refere imediatamente ao objeto e  singular;
ficados surgiram principalmente da determina-               este lhe diz respeito de modo mediato, por
o kantiana do objeto de conhecimento como                 meio de uma marca, que pode ser comum a
objeto real ou empiricamente dado.  possvel               vrias coisas" (Crt. R. Pura, Dialtica, livro I,
enumerar trs significados fundamentais desse               seo I). Desse ponto de vista, "validade O." c
termo: 1Q o que existe como objeto; 2Q o que                "realidade" coincidem. Kant diz: "Nossas conside-
tem objeto; 3Q o que  vlido para todos. Os                raes ensinam a realidade, ou seja, a validade
dois ltimos esto intimamente ligados entre si             O. do espao em relao a tudo o que pode-
e com os outros significados arrolados.                     mos defrontar no mundo externo como objeto"
                                                            (Ibid.,  3); e diz analogamente sobre o tempo:
    1Q O primeiro significado corresponde ao                "Nossas consideraes demonstram a realidade
significado fundamental de objeto: O.  aquilo              emprica do tempo, ou seja, sua validade O. em
que existe como termo ou limite de uma ope-                 relao a todos os objetos que podem estar li-
rao ativa ou passiva. A essa definio corres-            gados aos nossos sentidos" (Ibid.,  6). Assim,
ponde em primeiro lugar o uso desse termo na                O.  o empiricamente real, e para Kant o
ltima fase da Escolstica, a partir de Duns                empiricamente real  produto de uma sntese
Scot, quando foi entendido como o que existe                que, para ser efetuada na conscincia comum
como objeto do intelecto, enquanto pensado                  ou genrica, vale para todos os sujeitos pen-
ou imaginado, sem que isso implique sua exis-               santes, e no para um s deles (Prol.,  22).
tncia fora do intelecto, na realidade. Neste               Kant diz: "Os juzos so subjetivos quando as
sentido esse termo era empregado por Scot                   representaes se referem apenas a uma cons-
(De an., 17, 14), por Antnio Andra (Super                 cincia em um sujeito e nele se unificam; ou
artem Deterem, 1517, f. 87 r.), por F. Mayron (In           so O. quando esto interligados em uma cons-
Sent., I, d. 47, q. 4) e por Durand de S. Pourain          cincia de modo genrico, ou seja, necessrio"
(In Sent., I, d. 19, q. 5, 7). Walter Burleigh diz:         (Ibid.,  22). Essas consideraes servem de
"Embora o universal no tenha existncia fora               transio  definio de O. feita por Kant no
da alma, como dizem os modernos, no h                     domnio prtico e sentimental, ao chamar de
dvida de que, segundo o parecer de todos, o                O. as leis prticas "que podem ser reconheci-
universal tem existncia O. no intelecto, visto             das como vlidas pela vontade de cada ser ra-
que o intelecto pode entender o leo univer-                cional" (Crt. R. Prt.,  1), e de "princpio O."
salmente sem entender este leo" (Super artem               o acordo universal no juzo esttico (Crt. do
veterem, 1485, f. 59 r.). "Existir objetivamente"           Juzo,  22).
significa, neste caso, existir em forma de repre-               3S Essas consideraes de Kant possibilitam
sentao ou de idia, ou seja, como objeto do               uma transio para o terceiro significado funda-
pensamento ou da percepo: esse significado                mental de O., o de "vlido para todos". Este
reaparece com forma idntica em Descartes                   significado, muito difundido nas escolas cri-
(Md, III, 11), em Spinoza (Et., I, 30; II, 8 cor.,         ticistas e idealistas contemporneas, foi bem
etc.) e em Berkeley (Siris,  292). Em todos                expresso por Poincar: "Uma realidade com-
esses casos, o O. no designa o que  real nem              pletamente independente do esprito que a
o que  irreal, mas simplesmente o que  ob-                concebe, a v ou a sente,  uma impossibilida-
jeto do intelecto e pode, numa segunda consi-               de. Se existisse um mundo externo nesse senti-
derao, revelar-se real ou irreal.                         do, ele nos seria inacessvel. Mas o que chama-
    2S Em correspondncia com a limitao im-               mos de realidade O. , em ltima anlise,
posta por Kant ao objeto de conhecimento                    aquilo que  comum a vrios seres pensantes e
como objeto "real", h um segundo significado               poderia ser comum a todos" (Ia valeur de Ia
de O., como o que tem por objeto uma realida-               science, 1905, p. 9). Poincar fazia essas consi-
OBJETIVO, IDEALISMO                                  723                                            OBJETO

deraes com referncia  matemtica, mas                  do expresso ou o conceito pensado. A pessoa
quase simultaneamente Max Weber impunha                     objeto de amor ou de dio, de estima, de
esse mesmo conceito de objetividade  me-                  considerao ou de estudo; neste sentido, o
todologia das cincias sociais, observando que             prprio eu  ou pode ser objeto. Toda ativida-
"a verdade cientfica  vlida para todos os que           de ou passividade tem como termo ou limite
procuram a verdade" e que mesmo nas cin-                  um O., qualificado em correspondncia com o
cias sociais h resultados que no so subjeti-            carter especfico de atividade ou de passivi-
vos no sentido de serem vlidos para uma s                dade. Ao lado deste significado genrico e fun-
pessoa e no para as outras ("A objetividade               damental, em que esse termo  insubstituvel,
nas cincias sociais e na poltica social", 1904,          encontra-se algumas vezes na linguagem filo-
em TheMethodology ofthe Social Sciences, 1949,             sfica e na comum um significado mais restrito
p. 84). Esse tipo de objetividade chama-se hoje            ou especfico, segundo o qual o O. s  O. se
intersubjetividade, e suas condies fundamen-             tiver alguma validade: p. ex. se  "real", "exter-
tais so reconhecidas na posse e no uso de                 no", independente", etc. (v. OBJETIVO). NO
tcnicas especiais que, em dado campo, ga-                 entanto, este segundo significado no elimina
rantam a comprovao e a aferio dos resulta-             o primeiro, mas o pressupe.
dos de uma investigao. Portanto, "vlido para                Essa palavra foi introduzida em filosofia pe-
todos" significa tambm "intersubjetivamente               los escolsticos, no sc. XIII.  claramente defi-
vlido", ou "em conformidade com um mtodo                 nida por S. Toms de Aquino, que diz: "O. de
qualificado". A esse mesmo conceito de O. li-              uma potncia ou de um hbito  propriamente
gam-se os significados de "independente do                 aquilo sob cuja razo (ratio) se inclui tudo o
sujeito" e "externo  conscincia". O que  O.             que se refere  potncia ou ao hbito em ques-
no sentido de ser vlido para todos  de fato              to. P. ex.: o homem e a pedra referem-se  vi-
independente deste ou daquele sujeito, de suas             so por terem cor; portanto, o que tem cor  o
preferncias ou avaliaes particulares; por ou-           O. da viso" (S. Th., I, q. 1, a. 7). Essa noo de
tro lado, o nico meio de que o sujeito dispe             O. foi substancialmente. retomada por Duns
para disciplinar ou frear suas preferncias e              Scot, que definiu o O. de um saber como mat-
avaliaes  recorrer a procedimentos metodo-              ria (subjectum) do saber, enquanto aprendida
lgicos qualificados. Finalmente, a equivalncia           ou conhecida. Segundo Scot, uma matria cog-
entre O. e exterior  a transposio desses mes-           noscvel torna-se O. conhecido atravs de um
mos conceitos para o plano da linguagem                    hbito intelectual relativo a esse objeto (Op.
consciencialista em que o uso das palavras "ex-            Ox., Prol., q. 3, a. 2, ns 4). Jungius s fazia
terno" e "interno" se justifique de alguma ma-             expressar com mais simplicidade a mesma no-
neira (v. EXTERIORIDADE; REALIDADE).                       o ao afirmar: "Chama-se de O. aquilo em
   OBJETIVO, IDEALISMO (ai. Objektiver Idea-               torno do que versam as faculdades, seus hbitos
lismus). Um dos trs tipos fundamentais de fi-             e seus atos" (Lgica, 1638, 1, 9, 37). Wolff por
losofia: intuio do mundo, segundo Dilthey,               sua vez dizia: "O.  o ente que termina a ao
mais precisamente a intuio baseada no senti-             do agente ou no qual terminam as aes do
mento e dominada pela categoria do valor.                  agente: de modo que  quase um limite da
Nesse tipo de filosofia Dilthey inclua Herclito,         ao" (Ont.,  949).
os esticos, Spinoza, Leibniz, Shaftesbury,                    Esse significado continuou sendo fundamen-
Goethe, Schelling, Schleiermacher, Hegel; con-             tal na filosofia moderna e contempornea. A
siderava o pantesmo uma de suas caractersti-             questo do carter real ou ideal do O. em geral
cas (Das Wesen der Philosophie, 1907, III, 2;              ou de uma classe especfica de O. (p. ex., dos
trad. it., em Crtica da razo histrica, p. 469)          O. fsicos ou coisas) no teve influncia. Assim,
(v. IDEALISMO DA LIBERDADE; NATURALISMO).                  pode-se considerar O. do conhecimento uma
   OBJETO (lat. Obiectum; in. Object; fr. Objet-           idia (como queria Berkeley), uma represen-
ai. Objekt, Gegenstand; it. Oggetto). Termo de             tao (como queria Schopenhauer), uma coisa
qualquer operao, ativa, passiva, prtica, cog-           material (como queria a escola escocesa do
noscitiva, ou lingstica. O significado dessa             senso comum) ou um fenmeno (como queria
palavra  generalssimo e corresponde ao signi-            Kant), mas como O.  sempre o termo ou limite
ficado de coisa (v.). O.  o fim a que se tende,           da operao cognoscitiva. No entanto,  Kant
a coisa que se deseja, a qualidade ou a realida-           quem inaugura o uso restrito do termo, segun-
de percebida, a imagem da fantasia, o significa-           do o qual o O., ou mais exatamente o O. de
OBJETO                                                 724                                           OBJETO

conhecimento , de preferncia, O. "real" ou                 tumam fazer os empiristas) ou como umpro-
"emprico". Kant diz: "H grande diferena en-               blema (como fizeram os neocriticistas; p. ex.
tre ser algo dado  minha razo como O. em                   Natorp, Platos Ideenlehre, p. 367), mas s pode
absoluto ou apenas como O. na idia. No pri-                 ser uma ou outra coisa se  considerado como
meiro caso, meus conceitos passam a deter-                   o termo ou limite da atividade cognoscitiva.
minar o O.; no segundo, o que existe de fato                    Na filosofia contempornea, o recurso  no-
s um esquema ao qual no se atribui direta-                 o de intencionalidadeiy.) permitiu reconhe-
mente nenhum O,, nem por hiptese, mas que                   cer claramente o carter geral da noo de O.
serve apenas para representar outros O., em                  Brentano, que foi o primeiro a reintroduziressa
sua unidade sistemtica, por meio de sua rela-               noo, diz que "todo fenmeno psquico inclui
o com a idia. Assim, digo: o conceito de                  em si alguma coisa como O., embora nem sem-
uma inteligncia suprema  uma simples idia;                pre da mesma forma. Na representao, h algo
vale dizer: sua realidade objetiva no deve con-             representado; no juzo, algo reconhecido ou
sistir em que ele se refira diretamente a um O.              negado; no amor, algo amado; no dio, algo
(pois seu valor objetivo no pode ser justifica-             odiado, etc." (Psychologie vom empirischen
do desse modo), mas  apenas um esquema,                     Standpunkt, 1874, I, p. 115). E Husserl ainda
organizado segundo as condies da mxima                    generalizou o conceito, distinguindo O. e "0.
racionalidade do conceito de uma coisa em                    percebido": "Deve-se notar que o O. intencio-
geral" (Crt. R. Pura, Dialtica, Apndice). Es-             nal de uma conscincia (tomado como pleno
sas consideraes de Kant so uma reiterao                 correlato dela) no  absolutamente igual ao
de que a idia da razo pura no tem propria-                O. apreendido (erfasstes). Costumamos pres-
mente O. porque O.  somente o emprico (a                   supor o ser apreendido no conceito de O. (O.
coisa natural), e a idia refere-se apenas indireta-         intencional), porquanto, ao pensarmos nele
mente a um grupo de tais objetos. Todavia,                   ou falarmos sobre ele, temo-lo como O. no
esse significado especfico do O. no elimina,               sentido de apreendido. (...) Com certeza s pode-
nem para Kant, o significado geral e funda-                  mos lidar com uma coisa fsica apreendendoa,
mental. De fato, esse filsofo no s conside-               e o mesmo se diga de todas as objetividades
ra o conceito de O. como o "mais elevado" em                 francamente representveis... Ao contrrio, no
filosofia (v. o fim deste verbete), como tambm              ato de avaliar, de alegrar-se, de amar, de agir,
fala de uma "distino de todos os O. em geral               lidamos com valor, com o O. da felicidade,
em fenmenos e nmenos", considerando o                      com o O. amado, com a ao, respectivamente,
nmeno como "o O. de uma intuio no sen-                   sem apreender nada de tudo isto" (Ideen, I,
svel", admitida em hipteses, que poderia                    37). Paralela e analogamente, Meinong de-
pertencer a um intelecto divino (Crt. R. Pura.              fendia o significado generalissimo da noo de
Anal. cios Princ, cap. III). Por outro lado. para            O. (Gegenstand), dividindo-a nas classes de O.
Kant, alm do O. de conhecimento, h "o O. cia               da representao (Objekte) e de O. do juzo
razo prtica", que  "a representao de um                 (Objektive) (ber Annahmen, 1902, pp. 142
O. como de um efeito possvel atravs da liber-              ss.). Quase ao mesmo tempo, no domnio da
dade" (Crt. R. Prtica. I. Livro I. cap. 2); isso           lgica matemtica, Frege defendia uma noo
significa que neste caso o O.  o termo ou re-               substancialmente idntica do O., identifican-
sultado de uma ao livre. O que em todo caso                do-o com o significado: "O significado de uma
constitui o O.  sua funo de limite ou termo               palavra  o O. que indicamos com ela" (ber
de uma atividade ou de uma operao qual-                    Sinn undBedeutung, 1892,  3; trad. it.. p. 222),
quer. Essa noo no desaparece nem nas for-                 pretendendo dizer que o O.  o termo ou limite
mas mais radicais de idealismo: para o prprio               da operao lingstica, do uso do signo.
Fichte, o O.  o limite da atividade do Ku: "O               Wittgenstein, por sua vez, dizia: "O nome va-
Eu pe-se como limitado pelo no-eu" ( Wis-                  rivel 'x  o signo do pseudoconceito objeto.
senschaftslehre, 1794,  4. A), e o no-eu                   Sempre que o termo O. ('coisa', entidade", etc.)
nada mais  que O. (Ibid.,  4 E. III; trad. it.,             usado corretamente,  expresso no simbolis-
p. 143). Analogamente, qualquer outra de-                    mo lgico pelo nome varivel" (Tractatus,
terminao que os filsofos possam criar                     4.1272). No muito distante disso est a noo
sobre a natureza do O. tem como ponto de                     de O. exposta por Dewey. para quem O.  o
partida a sua definio geral. P. ex., o O.                  resultado de uma operao de investigao: "0
pode ser considerado um dado (como cos-                      nome O. ser reservado  matria tratada, na
OBJETOS, TEORIA DOS                                 725                                       OBSERVAO

medida em que foi produzida e organizada de                   OBRIGAO (lat. Obligatio; in. Obligation-
modo sistemtico por meio da investigao;                ir. Obligation; ai. Verpflichtung; it. Obbligazio-
prolepticamente, objetos so os objetivos da              ne). 1. Carter coercitivo, conferido a uma re-
investigao. A ambigidade que se poderia en-            lao interpessoal por lei jurdica ou por norma
contrar no uso do termo, neste sentido (pois de           moral. Esse carter  diferente da necessidade
regra a palavra se aplica s coisas observadas e          (v.), segundo a qual  impossvel que a coisa
pensadas),  apenas aparente, visto que as coi-           seja ou acontea de modo diferente; a O. no
sas existem como O. para ns s se tiverem                impede que a relao de fato, por ela regida, se
sido preliminarmente determinadas como re-                configure de modo diferente, mas implica, nes-
sultados de investigao" (Logic, cap. 6; trad.           te caso, a interveno de uma sano. Algumas
it., p. 175).  fcil ver que a diferena entre           vezes o carter obrigatrio da relao expressa-
essas definies de O. 6 apenas a diferena               se com a noo de necessidade moral ou ideal
entre as atividades ou as operaes consideradas:         (v. NECESSIDADE), sem que com isto se preten-
O.  o termo do significado, se considerarmos             da reduzi-lo  necessidade propriamente dita.
a linguagem e, em geral, o uso dos signos;  o            Bergson foi o nico que procurou substancial-
termo de uma operao de investigao se con-             mente reduzir O. a necessidade de fato, enten-
siderarmos a pesquisa cientfica; e assim por             dendo por O. os costumes sociais e por O. em
diante; mas em todo caso  (como j julgavam              geral "o costume de contrair costumes" (Deux
os escolsticos) o termo ou o limite de determi-          sources. c a p . I).
nada operao.
                                                              2. Na lgica terminista medieval, o compro-
    A.s.sim, a palavra O.  o termo mais geral de         misso em vista do qual um interlocutor admite
que dispe a linguagem filosfica. Kant tinha             na discusso algo que antes no admitia. Esta 
razo ao afirmar que, se "o conceito mais ele-            a definio dada por Ockham (Summa log., III,
vado de que se costuma partir na filosofia                38), que admite seis espcies de obrigaes:
transcendental  a diviso entre possvel e im-
                                                          instituio, petio, posio, deposio, dubita-
possvel", visto que toda diviso pressupe
um conceito a ser dividido, "deve-se aduzir um            o e o st verum.
conceito ainda mais elevado, que  o conceito de              A instituio (iustitutio) consiste em atri-
O. em geral, assumido de modo problemtico,               buir a um vocbulo um significado novo du-
sem decidir se ele  algo ou nada" (Crt. R.              rante a discusso, e no mais (Summa log., IN.
Pura, Anal. dos Princ, Nota s anfibolias dos             III, 38). A petio (petitio) consiste em obrigar
conceitos da reflexo).  bvio que o conceito            o interlocutor a este ou aquele ato que diga
de O. no coincide inteiramente com nenhuma               respeito  sua funo, como p. ex. a conceder
de suas especificaes possveis. As coisas, os           uma proposio (Ibid., III, III, 39). A deposio
corpos fsicos, as entidades lgicas e matemti-          (depsitio)  a obrigao de sustentar uma pro-
cas, os valores, os estados psquicos, etc, so           posio como falsa (Ibid., III, III, 42). A dubitao
todos O., especificados ou especificveis por             (dubitatio)  a obrigao de sustentar alguma
meio de modos de ser particulares ou procedi-             coisa como dbia (Ibid., III, III, 43). Quanto a
mentos de verificao particulares; mas nenhu-            posioc o st verum, ver os verbetes respectivos.
ma dessas classes de O. possui uma objetivida-                OBSERVAO (in. Observatioujr. Observa-
de privilegiada e nenhuma se presta a exprimir,           tioii; ai. Beobacbtung). Verificao ou consta-
em seu mbito, a caracterstica do O. em geral.           tao de um fato, quer se trate de uma verifi-
    OBJETOS, TEORIA DOS (ai. Gegenstands-                 cao espontnea ou ocasional, quer se trate
ibeorie). Foi assim que A. Meinong chamou a               de uma verificao metdica ou planejada. A
cincia que considera os O. como O. sem le-               O. foi algumas vezes restringida ao primeiro
var em conta suas especificaes (realidade               significado; neste caso, contrape-se a expe-
ou irrealidade, etc). Essa cincia no  a me-            rincia ou experimentao como verificao
tafsica no sentido tradicional porque esta con-          deliberada ou metdica (cf. C. BHRNARD, Intro-
sidera a totalidade dos O. existentes, que so            duction  l tude de Ia medicine exprimentale,
apenas uma pequena parte dos objetos pos-                 1865, I, cap. 1). Outras vezes foi restringida ao
sveis (cf. Uber Annahmen. 1902; (egeu-                  segundo significado, caso em que se contrape
standstheorie, 1904; Zur Gnmdlegutig der ali-             a experincia ingnua, primitiva, comum ou
gemeinen Werththeorie, 1923) (v. OBJKTIVO;                ocasional (nesse sentido, este termo  empre-
OBJI-.TO).                                                gado habitualmente na linguagem cientfica
OBSERVAO                                           726                                 OCASIONALISMO

contempornea). Em vista disso,  possvel es-                 OBSTCULO (in. Obstacle, Hindrance, fr.
tudar ambos os significados, distinguindo-, le O.          Obstacle. ai. Hinderniss; it. Ostacolo). Limite 
natural, em que a.s condies da O. no so                atividade. Fichte definiu o O. do seguinte modo:
planejadas ou planejveis; e 2- O. experimental            "O que significa uma atividade e como se torna
(ou experimentao), que  a O. planejada, ca-             atividade? Simplesmente pelo fato de a ela se
racterizada pela aferio das variveis. Neste             opor um O."(Sittenlehre, 1798, Intr.,  VI; Werke,
segundo tipo de O., pode-se agir sobre a vari-            IV, p. 7). Cf. R. LE SI-NNK, Obstacle et raleur,
vel independente e estudar o comportamento                 1934.
correspondente da varivel dependente, ou seja,                OBVERSO (in. Obversion; fr. Obversion;
da funo vinculada.                                       ai. Obversion, it. Obversione). Este termo de
    Qualquer O., seja natural ou experimental,             origem recente (provavelmente devido a JFVONS,
apresenta a diviso entre sistema observante e             Elementary Lessons in Logic, p. 85) designa a
sistema observado. A validade desta diviso foi            transformao de uma proposio em uma
posta  prova (e reconfirmada) pela fsica                 proposio equipolente atravs da dupla nega-
quntica, a propsito das relaes de indeter-             o: p. ex., a transformao da proposio "to-
 minao (v.), ou seja, cia ao que o sistema             dos os homens so mortais" em "nenhum ho-
observante exerce sobre o sistema observado.               mem  no mortal".
Bohr e Heisenberg mostraram que, ao mesmo                      OCAMISMO (in. Ockhamism; fr. Occamis-
tempo que o limite entre sistema observante e              me: ai. Ockhamismus: it. Occamismo). Com
sistema observado no  rgido -- no sentido               este termo foi chamada desde o sc. XV a cor-
de serem possveis descries diferentes de um             rente filosfica iniciada por Ockham no ltimo
mesmo fenmeno em que esse limite mude (cf.                perodo da Escolstica medieval, caracterizada
BOHR, ''Wirkumsquantum und Naturbeschrei-                  pelos seguintes pontos bsicos: llJ emprismo,
bung", em Naturwissenschaftoi, 1929 [26], pp.              como privilgio concedido  experincia (ou
484-85) --, se ele faltar, tambm faltar o ca-            "conhecimento intuitivo") para a prova e a verifi-
rter fsico do sistema. Pode-se evitar calcular a         cao da verdade; 2- nominalismo, negao
ao perturbadora do sistema observante in-                da realidade dos universais e sua reduo a
                                                           signos naturais; 3 terrninismo, lgica da supo-
cluindo-o no clculo. Mas como mesmo as-
                                                           sio (v.), para a qual os conceitos so termos
sim resta a indeterminao a respeito cia O.               que esto em lugar das coisas reais; 4g ceptcsmo
do sistema observante, seria preciso incluir no            teolgico, segundo o qual  impossvel demons-
sistema observado nossos olhos tambm. Nes-                trar ou racionalizar as verdades da f e atribui-
te caso -- nota Heisenberg -- "s se poderia               se s provas da existncia de Deus apenas va-
tratar quantitativamente a cadeia de causas e              lor provvel. Por este ltimo ponto, Lutero
efeitos quando se considerasse o universo in-              denominou-se e foi chamado de ocamista. Os
teiro como parte do sistema observado, mas                 outros pontos foram defendidos e ilustrados na
ento a fsica desapareceria, ficando apenas um            escolstica da segunda metade do sc. XIV e
esquema matemtico. A subdiviso do mundo                  dos primeiros decnios do sc. XV.
em sistema observante e sistema observado
impede assim a ntida formulao da lei causai"               OCASIO (in. Occashm; fr. Occasion; ai.
{Die physikalischen Prinzipien der Quanten-                Gelegenheit; it. Occasione). Situao que provo-
 theorie, 1930, IV,  1). Como observa o prprio           ca ou facilita a interveno de uma ao livre.
Heisenberg, por "sistema observante" no se                Causas ocasionais-, causas consideradas como
deve entender necessariamente o observador                 ocasies para a ao direta de Deus (v. OCA-
                                                           SIONALISMO).
humano, visto que por este se pode entender
tambm uma chapa fotogrfica ou um apare-                      Kierkegaard ressaltou o valor da O. como
lho qualquer. Portanto, a diviso entre sistema            "categoria do f inito", que pode ser "pretexto ou
observante e sistema observado, que a fsica               causa". Neste sentido, a O.  a "ltima e verda-
julga indispensvel para dar significado fsi-             deira categoria de transio da esfera da idia
co (no puramente matemtico) a seus enuncia-               da realidade" (Autaiit, "Os primeiros amores";
dos, no eqivale  distino filosfica tradi-            trad. fr., Prior e Guignot, pp. 186 ss.).
cional entre objeto e sujeito,  qual, por outro              OCASIONALISMO (in. Occasonalisnth. Oc-
lado, tambm se ope a afirmada mobilidade do              casionalisme, ai. Occasonalismus; it. Occasio-
limite de demarcao entre os dois sistemas.               nalismo). Doutrina segundo a qual a nica causa
                                                           cie todas as coisas  Deus e que as chamadas
OCORRNCIA                                          727                            ONTOLOGICA, PROVA

causas (segundas ou finitas) so apenas ocasies          todas as cincias possveis. Mas hoje tambm se
de que Deus se vale para levar a cabo seus                chama de cincias O. a teosofia, a para psicologia,
decretos. Esta doutrina foi defendida pela pri-           etc, seja por lidarem com fenmenos conside-
meira vez pela seita filosfica rabe dos Mota-           rados manifestaes de foras O. seja porque
kallimun (cf. MAIMNIDES. Guide des gars, I,            se ache que o estudo de tais fenmenos deve
73), sendo depois retomada na idade cartesiana            ser reservado a quem se iniciou numa ordem
pelos pensadores que quiseram utilizar a dou-             superior de conhecimentos esotricos. A partir
trina de Descartes para defender crenas re-              do sc. XVII comeou-se a chamar de qualida-
ligiosas tradicionais (Louis De La Forge, Grard          desO. as causas formais e finais do aristotelismo
de Cordemoy, J. Clauberg e A. Geulincx, que               e da escolstica, pretendendo-se ressaltar com
viveram no sc. XVII). Geulincx foi o melhor              essa expresso que recorrer a tais causas eqi-
expositor da doutrina, que visa substancialmente          valia a recorrer a fatores mais desconhecidos
a negar ao homem qualquer poder efetivo no                que os prprios fenmenos, incapazes, portan-
mundo e a atribu-lo a Deus. Ao O. opuseram-              to, de explic-los. "Os aristotlicos" -- dizia
se Spinoza e Leibniz; era defendido por Male-             Newton -- "no deram o nome de qualidades
branche, que a respeito conclua que, no                 O. s qualidades manifestadas, mas s qualida-
podendo ser produzido pelas coisas (que no               des que supunham estar nos corpos como cau-
so causas), o conhecimento humano  uma                  sas desconhecidas de efeitos manifestados"
viso das coisas em Deus (Recherche de Ia vrit.         (Opticks, 1704, III, 1, q. 3D.
 1674-75).                                                   OFELIMIDADE (in. Ophelimity- fr. Oph-
    OCORRNCIA (in. Token). Esse foi o nome               limit: ai. Ophelimitt; it. Ofelimit). Termo
que Peirce deu ao sinsigno, ou seja, "um acon-            criado por Vilfredo Pareto (Conrs d'amomie
tecimento singular, que ocorre s uma vez, cuja           politic/ue, Lausanne, 1896) para designara qua-
identidade limita-se a essa nica ocorrncia e            lidade fundamental dos objetos econmicos,
ao objeto ou coisa singular que  um espao               que  o valor do uso, que nem sempre coincide
singular ou um nico instante do tempo". P.               com a utilidade; p. ex., um estupefaciente tem
ex., quando se diz que a palavra "o" aparece              O., mas no utilidade.
vinte vezes em dada pgina de determinado                    OLIGARQUIA. V. GOVERNO, FORMAS DK.
livro, diz-se que o "o"  uma O.; no entanto,                ONIROLOGIA. Interpretao dos sonhos (v.
quando se fala do artigo "o" na lngua portu-             Sonho).
guesa, fala-se de um tipoiColl. Pap., 4.537).                ONIPOTNCIA, ONISCINCIA. V. TEO-
Esse termo passou a ser empregado comumente               DICIA.
em filosofia de lngua inglesa. Assim, token-                 NTICOn. Otitiejr. Ontique/A. Ontisch;
sentence, ou token-reflexive,  um enunciado              it. Ontco). Existente: distinto de ontolgico,
do tipo "o enunciado da lousa est mal escrito",          que se refere ao ser categorial, isto ,  essn-
ou ento um enunciado aduzido puramente                   cia ou  natureza do existente. V. ex., a proprie-
como exemplo, como o discutido por Aristte-              dade emprica de um objeto  uma proprieda-
les (De int., 9. 19 a segs.): "Amanh haver uma          de O.; a possibilidade ou a necessidade  uma
batalha naval".                                           propriedade ontolgica. Essa distino foi res-
    OCULTAS, QUALIDADES. V. OCULTO.                       saltada por Heidegger: "'Ontolgico', no senti-
    OCULTISMO (in. Occultismjv. Occultisme:               do dado  palavra pela vulgarizao filosfica
ai. Okkultismus; it. Ocultismo). Crena em fe-            (e aqui se mostra a confuso radical) significa
nmenos que se julgam produzidos por foras               aquilo que, ao contrrio, deveria ser chamado
ocultas ou crena na validade das cincias ocul-          de O., ou seja, uma atitude tal em relao ao
tas. Por O. pode-se entender o conjunto de tais           ente que o deixe ser em si mesmo, no que  e
cincias: magia, astrologia, metapsquica, teoso-         como . Mas nem por isso se props ainda o
fia, etc. (v. verbetes especficos).                      problema dosei; e muito menos se atingiu aquilo
    OCULTO (in. Occult; fr. Occulte; ai. Okkult;          que deve constituir o fundamento para a pos-
it. Occulto). O que se escapa  viso e s pode           sibilidade de uma 'ontologia'" ( Vom Wesen des
ser descoberto por quem tem uma segunda                   Gniudes. I, ny 14; trad. it., p. 23).
viso, no sentido de ser iniciado numa forma su-                ONTOGNESE. V. BIOGENTICA, LKI.
perior de saber. Neste sentido cincia oculta ,                ONTOLOGIA. V. METAFSICA.
em primeiro lugar, a magia: Cornlio Agripa, em                 ONTOLGICA, PROVA. V. DEUS, PROVAS
DeoceultaphilosophiadSlQ), inclua na magia               DE.
ONTOLOGISMO                                           728                                   OPERACIONISMO

    ONTOLOGISMO (in. Ontologism, fr. Onto-                  co fundamento da filosofia, como a conscincia
logisme; ai. Ontologism us; it. Ontologisnio).              que o sujeito tem do ser, mas, ao contrrio de
Doutrina segundo a qual "o trabalho filosfico              Rosmini e cie Gioberti, considera o ser como
no comea no homem, mas em Deus; no                       absolutamente imanente  prpria conscincia.
sobe do esprito ao Ente, mas desce cio Ente ao             No entanto, tambm Carabellese chama esse
esprito" (GIOBKRTI, Intr. alio studo delia fil.           ser de Deus e considera-o fundamento da obje-
1840, 11, p. 175). O O. ope-se ao psicologismo,            tividade de todas as coisas particulares que a
que segue caminho oposto e  considerado                    conscincia pode atingir (Critica dei concreto,
tpico da filosofia moderna, a partir de Descar-            1921; II problema teolgico come filosofia, 1931).
tes. A tese fundamental do O.  de que o ho-                    ONTOTEOLOGIA. V. TKOLOGIA, 2Q.
mem possui uma viso ou intuio imediata                       OPERAO (lat. Operatio; in. Operationjr.
direta do ente: ou do ente genericamente en-                Opraton, ai. Operation: it. Operazione). 1.
tendido como noo geral cio ser (como julga                Atividade em geral. Este  o significado do ter-
Rosmini) ou do ente entendido como o prprio                mo na Idade Mdia, quando foi usado como
Ente supremo. Deus (como julga Gioberti). Es-               traduo do grego nrgeia, que eqivale a
ta tese fundamental deriva do agostinismo
                                                            atualidade ou atividade. Foi neste sentido que
escolstico, que sempre insistiu na iluminao
direta do intelecto humano por Deus. e. mais                S. Toms de Aquino empregou essa palavra (p.
imediatamente, dos ocasionalistas e cie Male-               ex.. S. Th., II, I, q.3, a.2); para ele, vale o prin-
branche, que reduziram toda espcie de co-                  cpio de que "o modo de agir de cada coisa
nhecimento  viso em Deus (v. AGOSTINISMO;                 segue seu modo de ser" (Ibid., I, q. 89, a. 1).
OCASIONAUSMO). Contudo, o O. inclui-se no                       2. Funo no significado 1: atividade caracte-
quadro do retorno romntico  tradio que                  rizada por certo tini e prpria de um ser deter-
domina a filosofia europia na primeira metade              minado. Neste sentido se diz, p. ex., que "a O.
do sc. XIX e ressalta os dois conceitos interli-           da fsica  calcular resultados que possam ser
gados, revelao e tradio. De tato, intuio              confrontados com a experimentao", ou que
do ente  entendida como a revelao que o                  "a O. da cincia  demonstrar", etc.
ente faz de si prprio ao homem.                                3. Funo no significado 2: relao ou cor-
    O O. de Rosmini limita essa revelao  no-             relao. Neste sentido, fala-se de O. matemti-
o geral cio ser ou "ser possvel", entendido              cas ou lgicas.
como forma fundamental e originria da mente                    4. Tcnica manual, procedimento manipu-
humana e como condio de qualquer conhe-                   lativo a ser efetuado segundo determinadas
cimento, que seria sntese entre a idia do ser             regras; p. ex., O. de medida, O. de produ-
e um dado sensvel (Nuuru saggio sull'origine               o, etc.
delleidee, 1830,  492, 537). O ato do conheci-                OPERACIONISMO (in. Operationism; fr.
mento assim entendido  a percepo intelecti-              Opratkmisme, ai. Operationismns; it. Opera-
va (v.). Para Gioberti, porm. Deus revela-se               zionismo). Doutrina segundo a qual o signifi-
ao homem ( intuio) em sua prpria ativida-               cado de um conceito cientfico consiste unica-
de criadora, e a intuio expressa-se plena-                mente em determinado conjunto de operaes.
mente na frmula "o Ente cria o existente', que             O primeiro a propor essa doutrina foi P. W.
relaciona trs realidades: causa primeira, subs-            Brdgman. que assim a ilustrou, com um exem-
tncias criadas e ao criadora (Int. alio studio           plo que ficou clssico: "Conhecemos aquilo
delia fil, 1840, II, p. 183). Tanto Rosmini quan-           que chamamos de comprimento s se pode-
to Gioberti tacham a filosofia moderna ele                  mos dizer qual  o comprimento de qualquer
subjetivista, de psicologista e de niilista, mas na         objeto, e o fsico no exige mais que isso. Para
realidade, como j dissemos, sua doutrina                  encontrar o comprimento de um objeto deve-
francamente romntica e encontra correspon-                 mos executar certas operaes fsicas. Portanto,
dncia na filosofia do segundo Schelling, na de             o conceito de comprimento  fixado quando
Schleiermacher e na de outros expoentes ro-                 so fixadas as operaes com as quais o com-
mnticos. Uma continuao do O. na filosofia                primento  medido, ou seja, o conceito de
contempornea pode ser considerada a filoso-                comprimento implica nada mais nada menos
fia de P. Carabelle.se, que procurou conciliar              que o conjunto de operaes com as quais o
Rosmini com Kant. Carabellese considera a                   comprimento  determinado. Fm geral, por um
conscincia, que  o ponto de partida e o ni-              conceito no entendemos nada mais que con-
OPERADOR                                                729                                           OPINIO

junto de operaes; o conceito  sinnimo do                  comuraente empregadas na lgica contempo-
conjunto de operaes correspondente. Se o                    rnea, mas no so as nicas. Para maiores
conceito  fsico, tal como o comprimento, as                 informaes, confrontar a citada Introduction
operaes so operaes fsicas reais, como p.                de Church.
ex. aquelas com as quais o comprimento                           OPINIO (gr. i;a; lat. Opinio; in. Opinion;
medido; se o conceito  mental, como por ex.                  fr. Opinion; ai. Meinung; it. Opinione). Este ter-
a continuidade matemtica, as operaes so                   mo tem dois significados: o primeiro, mais co-
mentais, e atravs delas determinamos se dado                 mum e restrito, designa qualquer conhecimento
conjunto de grandezas  contnuo" (lhe Logic                  (ou crena) que no inclua garantia alguma da
of Modem Physics, 1927, p. 5). Como se v. as                 prpria validade; no segundo, designa generi-
operaes a que Bridgman se referia so as do                 camente qualquer assero ou declarao, co-
significado 4 e 1, mas sua doutrina estendeu-se               nhecimento ou crena, que inclua ou no uma
a qualquer espcie de operao e fora da fsica               garantia da prpria validade. Este segundo sig-
foi utilizada sobretudo pelos psiclogos (cf. S.              nificado  mais usado do que explicitamente
S. STHVKNS, "Psychology and the Science of                    definido. No primeiro significado. O. contrape-
Science", em Readings in Philosophy of Scien-                 se  cincia (v.).
ce, ed. P. P., Wiener, 1953, pp. 158-84). Com                     O primeiro significado j se encontra em
base nessa extenso da doutrina do O. e, con-                 Parmnides, que contrape "as opinies dos
seqentemente, do conceito de operao, os                    mortais"  verdade (Fr., 1, 29-30). mas ambos
nicos caracteres atribuveis ao tipo de opera-               os significados j se encontram em Plato. Este,
o que pode valer como significado dos con-                  por um lado, considera a O. como algo inter-
ceitos cientficos so os de publicidade e re-                medirio entre o conhecimento e a ignorncia
petibilidade: o primeiro exclui o carter pessoal             (Rep., 478 c), incluindo nela a esfera do conhe-
de certas atividades puramente mentais; o se-                 cimento sensvel (conjetura e crena) (Ihid., VI,
gundo prescreve a intersubjetividade das opera-               510 a); deste ponto de vista, afirma que nem a
es. Hoje, porm, duvida-se de que o critrio                O. verdadeira fica imvel na alma. "at se ligar
operaconista possa valer para todos os concei-               a um raciocnio causai" e tornar-se cincia
tos cientficos (cf., p. ex., G. BERGMANN, Philosophy         (Meu., 98 a; cf. FiL. 59 a). Por outro lado, consi-
of Science, 1957, pp. 56 ss.).                                dera a O. como a conversa que a alma tem
    OPERADOR (in. Operator, fr. Opmteur, ai.                 consigo mesma, em que consiste o pensamen-
Operator, it. Operatore). Em lgica: um smbolo               to (Teet., 190 a-c); neste sentido a prpria cin-
imprprio (ou sincategoremtico(\.)\, que po-                 cia nada mais  que uma espcie de opinio.
de ser usado, juntamente com uma ou mais va-                  Os dois significados tambm se encontram em
riveis e com uma ou mais constantes ou formas,               Aristteles, que por um lado afirma, como
para produzir uma nova constante ou forma.                    Plato, que, ao contrrio da demonstrao e da
Esta  a definio dada por A. Church (Intr. to               definio, as O. esto sujeitas a mudar e por-
Matbematical Logic, 1956,  06);  a mais ge-                 tanto no constituem cincia (Me!., Vil, 15,
nrica e permite incluir no mbito desse termo,                1039 b 31): por outro lado declara: "Por princi-
alm dos quantificadores, tambm; o operador                  pio entendo as O. comuns nas quais todos os
de abstrao ou abstrator(que  indicado por                  homens baseiam suas demonstraes; p. ex.:
uma varivel precedida pela letra X) e ao                     que uma assero eleve ser afirmativa ou nega-
qual, segundo alguns lgicos, se reduzem to-                  tiva, que nada pode simultaneamente ser e no
dos os outros; e o O. de descrio ou descritor               ser, etc." Ubid., III, 2, 996 b 27).
('), que, quando  a varivel do O., como em                      Na tradio posterior, o significado genrico
(%). l-se: " x tal que". Os O. quantificadores ou            perdeu-se, permanecendo o outro. Os esticos
simplesmente quantificadoresso: o universal,                 definiram a O. como "assentimento fraco e ilu-
para o qual se usa a notao "(/)", posta antes               srio" (SKXTO EMPRICO, Adv. math., VII, 151-,
do operando e que se l "para todos os ^  ver-               cf. CCERO, Tusc, IV, 7, 15), e, no mesmo senti-
dade que"; o existencial, para o qual se usa ha-              do, Epicuro chamou de O. "uma assuno que
bitualmente a notao (3) e que, se for a vari-              pode ser verdadeira ou falsa" (Dic. L. X, 33).
vel do quantificador, como em (3 x), l-se                    Com outras palavras, S. Toms de Aquino ex-
"existe um x tal que". A aplicao de um ou                   pressava a mesma coisa: "A O.  o ato do inte-
mais quantificadores a um operando chama-se                   lecto que se dirige para um lado da contradio
quantificao. As notaes citadas so as mais                por medo do outro" (.V. Tb., I, q.79, a.9). Wolff
OPINIO                                                 730                                            ORDEM

chamava de O. "a proposio insuficientemen-                  ou teorias mais consolidadas apresentam certa
te provada" (Log.,  602), e Spinoza identificava             amplitude de interpretaes possveis, que dei-
a O. com o conhecimento do primeiro gnero,                   xa grande margem  diversidade de O. Final-
que  o menos elevado e seguro e provm de                    mente a repugnncia compartilhada (e com boas
signos (Et., II, 40. Scol. II). Da mesma forma                razes) por cientistas e filsofos a considerar a
Kant diz: "A O.  uma crena insuficiente tanto               verdade cientfica ou filosfica como absoluta
subjetiva quanto objetivamente, de que se est                e necessria, diminui a diferena entre a verda-
cn.scio". Estar cnscio consiste cm "no poder               de e a O., entre a O. e a cincia. O conceito de
presumir opinar sem pelo menos saber algo                     O. hoje no  diferente da definio dos anti-
por meio do qual o juzo problemtico tenha                   gos: compromisso frgil e sujeito a reviso, au-
certa conexo com a verdade"; de outro modo,                  sncia de garantia de validade constituem hoje
"tudo no passa de jogo da imaginao, sem a                  tambm as caractersticas da O., mas seu cam-
menor relao com a verdade" (Crt. R. Pura,                  po estendeu-se muito mais do que os antigos
Doutr. do Mtodo, cap. 2, se. 3). Kant afirma-               imaginariam ou do que imaginaram e imagi-
va tambm (loc. cit.) que "nos juzos que de-                 nam os filsofos absolutistas; acima de tudo.
rivam da razo pura no  absolutamente per-                  perdeu-se nitidez dos limites entre cincia e O.,
mitido opinar'', e que, portanto, no se pode                 visto no haver lugar ou regio da cincia em
opinar nem no domnio da matemtica nem no                    que no haja inlerseco entre O. e verdade.
domnio moral. Mas Hegel negava que hou-                          OPOSIO (gr. TvTtKeuevct; kit. Opposi-
vesse opinies, mesmo no domnio da filoso-
                                                              to; in. Opposition,iv. Opposition;a\. Gegensatz,
fia: "Uma O.  uma representao subjetiva,
                                                              Opposition-, it. Opposizione). Relao de exclu-
um pensamento casual, uma imaginao que
                                                              so entre termos ou objetos em geral. Aristte-
crio desta ou daquela maneira e que outro pode
                                                              les distinguiu quatro formas de O.: Ia O. corre-
criar de modo diferente; a O.  um pensamento
                                                              lativa, como p. ex. entre o dobro e a metade; 2
meu, no um pensamento em si universal, que
seja em si e por si. Mas a filosofia no contm               O. contrria, como entre o bem e o mal, o bran-
opinies, j que no existem opinies filosfi-               co e o preto, e t c ; 3 a O. entre posse e priva-
cas" (Geschichte der Philosophie, em Werke,                   o, como entre a viso e a cegueira; 4a O.
ed. Gloekner, XVII, p, 40; trad. it., vol. I, p. 21).         contraditria, que  a contradio (Cal., 10,11 b
Este ponto de vista foi compartilhado, e ainda                15 ss.) (v. em cada uma destas formas os verbe-
, por todas as filosofias absolutistas; na reali-            tes separadamente: CONTRADIO; CONTRARIE-
dade,  o ponto de vista da metafsica tradicio-              DADK; CORRELAO; POSSH; e ainda QUADRADO
nal. O ponto de vista expresso por Kant, a                    nos   OPOSTOS).
respeito da impossibilidade de opinies em cam-                  ORDEM (gr. x^t; lat. Ordo; in. Order, fr.
po cientfico, foi compartilhado pela cincia                 Ordre, ai. Ordnung; it. Ordine). lima relao
positivista cio sc. XIX. Mas o falibilismo que               qualquer entre dois ou mais objetos que possa
prevalece hoje, tanto em cincia como em fi-                  ser expressa por meio de uma regra. Esta no-
losofia, torna-nos menos desdenhosos e de-                    o, que  a mais geral, foi expressa por Leibniz
preciativos em relao  O. Por um lado, no                  pela primeira vez numa passagem do Discurso
se considera que a O. seja to pessoal ou inco-               de metafsica (1668): "O que passa por extra-
municvel quanto afirmara Hegel. Uma O.                       ordinrio  extraordinrio somente em relao
cientfica ou filosfica pode ser compartilhada               a alguma O. particular, estabelecida entre as
por muitos, precisamente como O., sem o dis-                  criaturas porque, quanto  O. universal, tudo
farce ilusrio ou sub-reptcio de verdade, ainda              perfeitamente harmnico. Tanto isso  verdade
que represente em determinada fase da investi-                que no mundo no s nada acontece que esteja
gao a hiptese mais racional ou a teoria mais               absolutamente fora de regra, como tambm no
apoiada pelos fatos. Dewey diz: "Na soluo de                se saberia sequer imaginar algo semelhante.
problemas que pretendem menor exatido que                    Suponhamos que algum marque uma quanti-
os casos jurdicos, os juzos so chamados de
                                                              dade de pontos no papel, de um modo qual-
O., para distingui-los dos juzos ou asseres
                                                              quer: digo que  possvel achar uma linha
justificadas. Porm, se a O. professada tem
                                                              geomtrica cuja noo seja constante e unifor-
fundamento,  produto da investigao e, em
                                                              me segundo certa regra, e tal que passe por
tal medida,  um juzo" (Logic, 1939, VII; trad.
                                                              todos esses pontos na mesma O. com que fo-
it., p. 179). Por outro lado, mesmo as hipteses
                                                              ram traados pela mo. E, se algum traar uma
ORDEM                                                  731                                              ORDEM

linha contnua, ora reta, ora curva, ora de outra            sob a condio de se presumir, no estado pre-
natureza,  possvel achar uma noo, regra ou               cedente, uma outra coisa que ela precise seguir
equao comum a todos os pontos dessa linha                  sempre, segundo uma regra; donde resulta, em
em virtude da qual as mudanas da linha sejam                primeiro lugar, que no posso subverter a srie
explicadas. P. ex., no h nenhum rosto cujo                 de tal modo que o conseqente seja anterior ao
contorno no faa parte de uma linha geom-                  precedente, e em segundo lugar que, posto o
trica e no possa ser traado de uma s vez por              estado precedente, determinado acontecimen-
meio de certo movimento regulado. Mas, quan-                 to deve infalvel e necessariamente seguir-se"
do uma regra  muito complexa, o que lhe per-                (Crt. R. Pura, Anal. dos Princ, cap. II, se. 3,
tence passa por irregular. Assim, podemos                    Analogias da experincia). Analogamente, para
dizer que, qualquer que fosse o modo como                    Bergson, a O. natural  "fsica", "geomtrica"
Deus tivesse criado o mundo, este teria sido                 ou "automtica", e fora dela s h O. "vital" ou
sempre regular e teria uma O. geral'' (Disc. de              "desejada", isto , a ordem dos fins (F.vol. cratr.,
 mt.,  6). Neste sentido, a O. consiste simples-           8' edio, 1911. p. 251-52).
mente na possibilidade de expressar com uma                      No entanto, esse privilgio conferido  O.
regra, ou seja, de maneira geral e constante,                causai nem sempre obscurece o conceito for-
uma relao qualquer entre dois ou mais ob-                  mal da O. serial. S. Toms de Aquino retomava
jetos quaisquer. A noo cie O., neste sentido,              a definio de Aristteles: "Fala-se sempre de
no se distingue da noo de relao constan-                O. em relao a alguns princpios. F. assim
te. Mas este  apenas o significado genrico da              como se fala em princpio de muitas maneiras,
noo. \o seu mbito podemos distinguir trs                 ou seja, segundo o lugar, como quando se fala
noes especficas: Ia O. serial; 2a O. total: 3a            do ponto, segundo o intelecto, como quando
grau ou nvel.                                               se fala do princpio da demonstrao, e segun-
    Ia A O. serial  prpria da relao antes e              do as causas singulares, assim tambm se fala
depois. Aristteles observou que esta relao                de O." (S. lh., I. q.42, a.3). Nesta passagem, a
recorre onde h princpio, porque neste caso                 O. causai  somente Lima exemplificao da O.
as coisas podem estar mais ou menos prximas                 geral. Do mesmo modo. Wolff definia a O. como
do princpio. Um antes ou um depois pode ser                 " bvia semelhana, graas  qual as coisas so
determinado em relao ao espao e ao tempo,                 postas umas  frente das outras ou uma depois
ou em relao ao movimento,  potenciali-                    da outra", em que a bvia semelhana  a
dade, ou  disposio. Mesmo no conhecimen-                  constncia de relao (Ont.,  472). O mesmo
to alguma coisa vem antes de outra por defini-               Kant expressava claramente o conceito de O.
o ou no sentido de que a sensao vem antes                serial ao identificar O. com regularidade, como
do conceito. Em geral, de duas coisas vem an-                fez a propsito do conceito formal de natureza
tes a que pode ficar sem a outra: segundo Aris-              (Crt. R. Pura,  26). C. I. Lewis observa que a
tteles, essa  a expresso mais genrica dessa              O. aritmtica, que se impe aos objetos natu-
forma de O. (Met., V, 1018 b 9). Aristteles                 rais, permite que "uma infinita multiplicidade
parece deste modo privilegiar como O. serial a               seja submetida a uma simplicidade finita de
O. causai, em que a causa pode subsistir sem o               regras" (Minei and the World-Order, 1929; edi-
efeito, mas o efeito no pode subsistir sem a causa,         o 1956, p. 363). Os matemticos e os lgicos,
e por isso vem depois dela: interpretao                    a partir de Cantor, consideram como O. uma
freqente na tradio filosfica. Agostinho di-              relao delimitada de certas regras. P. ex., se
zia, p. ex.: "Ou demonstrais que alguma coisa                assumimos a relao precede, bastam as regras
pode acontecer sem causa, ou acreditais, como                seguintes para obter uma O. simples: \" ne-
eu, que nada acontece sem certa O. de causas ",              nhum termo precede-se a si mesmo; 2 se a
identificando deste modo a noo de O. com a                 precede b e b precede c, ento a precede c 3
de causalidade (Deord., I, 4, 11). Para Spinoza,             se a e b so dois termos diferentes quaisquer.
a O. das coisas coincidia com a sua conexo                  a precede bou b precede a. Pode-se ter, enfim,
causai; considerava sinnimas as duas expres-                aquilo que Cantor chamou de "conjunto bem
ses: "A O. de toda a natureza" e "o nexo das                ordenado" ao admitir uma quarta regra: em
causas" (Et., II, 7. Fscol.). Kant no s fazia a            toda classe no vazia de termos h um primei-
mesma identificao como considerava a O.                    ro termo, que precede todos os outros da mes-
causai como condio da O. temporal: "Uma                    ma classe (cf. A. CHI:RCH. Intr. toMatbematical
coisa pode ter lugar determinado no tempo s                 Logic,  55).
ORFISMO                                              732                                      ORGANISMO

    2a A segunda espcie de O. consiste na dis-            nao das caractersticas da filosofia grega j
posio recproca das partes de um todo: como              no  reconhecida por ningum. Cf. O. KERN,
notava Aristteles, essa espcie de O. pode                 Orphicomm fragmenta, Berlim, 1923; 1. M.
referir-se ao lugar,  potncia ou  forma (Met.,          LINFORTH, The Arts of Orphens, 1941.
V, 19, 1022 b 1). Esta  a O. que os esticos                  ORGANICISMO (in. Organicism; fr. Orga-
definiam, segundo relata Ccero (lusc, 1, 40,               nicisme, ai. Organizismns; it. Organicismo).
142), como "a disposio dos objetos em seus               Toda doutrina que interprete o mundo, a natu-
lugares justos e apropriados"; essa definio,             reza ou a sociedade por analogia com o orga-
como  bvio, pressupe que seja previamen-                nismo. O O. , portanto, bastante antigo e di-
te disposto, para cada objeto, o lugar justo e             fundido, pois nele se incluem tanto as antigas
apropriado, com vistas ao fim a que se destina             especulaes fsicas do mundo como "grande
o objeto; por isso, baseia-se no conceito de fim.          animal" quanto as especulaes polticas em
Se a O. serial  essencialmente O. causai, a O.            que o Estado  concebido por analogia com o
total  essencialmente O. final. Foi esta O. que           homem. Mas, na realidade, esse termo (que 
Aristteles comparou  do exrcito ou da casa,             recente e deriva da biologia) faz habitualmente
sobre a qual disse: "Todas as coisas esto orde-           referncia s a doutrinas recentes, em particu-
nadas em torno de uma nica coisa: como                    lar a de Whitehead, o qual deu a seu ponto de
numa casa em que os homens livres estipula-                vista esse nome ou o de "filosofia do organis-
ram todas as suas atividades ou a maior parte              mo". A doutrina de Whitehead adota o conceito
delas, enquanto os escravos pouco contribuem               clssico de organismo como totalidade cujas
para o bem comum" (Met., 12, 10, 1075 a 18).               partes no precedem o todo, e considera o
E a O. que S. Toms se Aquino chamava de "O.               universo inteiro como um organismo nesse sen-
dos fins" ou "dos agentes" (S. Th., I, 11, 2109 a          tido (Process and Reality, 19291 Ela  um O.
6), que Kant chamou de O. moral ou reino dos               tambm porque atribui sensibilidade a todo o
fins(\.), e Bergson de "O. vital" (livol. cratr.,         mundo real (Ihid., p. 249). Fora da filosofia,
8- ed., 1911, p. 251). Obviamente, quando essa             esse termo s vezes foi empregado para desig-
O.  atribuda ao mundo, considera-se o mun-               nar as teorias sociolgicas que interpretam a
do, ou pelo menos sua O., como o produto de                sociedade humana como um organismo: p. ex.
um agente livre.                                           a de Spencer (Principies of Sociology, 1876).
   3a Finalmente, o terceiro conceito de O.  de               ORGNICO (in. Organic, fr. Organique, ai.
grau ou nvel. S. Toms de Aquino j fazia a               Organisch; it. Orgnico). Que  um organismo
distino entre O. como hierarquia e O. como               ou pertence ao organismo. Alm dos significa-
grau individual da prpria hierarquia: "No pri-            dos relativos a esse termo, o adjetivo foi e  s
meiro sentido" -- dizia ele -- "a ordem com-               vezes empregado para indicar a subordinao
preende diversos graus; no segundo,  um ni-              das partes ao todo que se considera tpica do
co grau, de tal maneira que se fala de vrias              organismo. Assim, Saint-Simon e Comte empre-
ordens de uma nica hierarquia" (S. Th., 1, q.             garam o adjetivo O. para indicar as pocas em
108, a. 2). Neste segundo sentido, a O.  sim-             que todas as manifestaes da vida esto su-
plesmente o grau, o plano ou o nvel de uma                bordinadas a um nico princpio, como aconte-
O. total.                                                  ceu, p. ex., na Idade Mdia em relao ao prin-
   ORFISMO (lat. Orphismits; in. Oiphism; fr.              cpio teolgico (v. CRISE).
Orphisme-, ai. Orphismus-. it. Orfismo). Seita fi-             ORGANISMO (gr. pyaviKv awua; lat. Cor-
losfico-religiosa bastante difundida na Grcia            pus Organicurn-, in. Organism, fr. Organisme,
a partir do sc. VI a.C. e que se julgava fundada          ai. Organismus-, it. Organismo). O corpo vivo
por Orfeu. Segundo a crena fundamental des-               naquilo que o distingue especificamente do
sa seita, a vida terrena era uma simples prepa-            corpo no vivo. O conceito de O. foi formu-
rao para uma vida mais elevada, que podia                lado pela primeira vez por Aristteles da se-
ser merecida por meio de cerimnias e de ritos             guinte maneira: "Se o machado tem de rachar a
purificadores, que constituam o arcabouo                 madeira, deve necessariamente ser duro; e, se
secreto da seita. Essa crena passou para vrias           tem de ser duro, deve necessariamente ser de
escolas filosficas da Grcia antiga (Pitgoras,           bronze ou cie ferro. Ora, exatamente da mesma
Fmpdocles, Plato), mas a importncia que                 maneira, o corpo, que  um instrumento como
alguns fillogos e filsofos dos primeiros dec-           o machado -- visto que cada uma de suas par-
nios do sc. XX atriburam ao O. na determi-               tes, assim como sua totalidade, tem uma nali-
ORGANISMO                                            733                                        ORGANISMO

dade prpria -- tem de ser feito necessaria-               nismo. "Num relgio" -- observa Kant -- "uma
mente assim e assim, se  que deve cumprir                 pea  o instrumento que serve ao movimento
sua funo" (Depari. an., I, 1, 642 a 10). Nesta           das outras, mas no  a causa eficiente da pro-
noo, o ponto fundamental  que toda a estru-             duo das outras: uma pea existe, sim, em
tura do O. subordina-se  sua funo, isto . a            funo das outras, mas no por meio delas. Por
seu fim de sobreviver como O.; dessa caracte-              isso. a causa produtora do relgio e da sua for
rstica deriva a outra, de subordinao das par-           ma (...) est fora dele. num ser que pode agir
tes ao todo. For isso. Aristteles diz, a propsi-         segundo as idias de um todo possvel, me-
to da composio dos animais, que uma casa                 diante sua causalidade". No O., ao contrrio,
no existe em funo dos tijolos e das pedras,             "cada parte  concebida como existente so-
mas so os tijolos e as pedras que existem em              mente por meio das outras, para as outras e
funo da casa (Ibid., II, 1, 646 a 27), e que "a          para o todo, ou seja, como um instrumento (r-
cincia da natureza trata da composio e da               go)": como "um instrumento que produz as
totalidade da substncia, e no das partes que             outras partes e  reciprocamente produzido
no podem existir separadamente da substn-                por elas". Em outros termos, as partes de um
cia" (Ibid., I, 5, 645 a 33). A subordinao das           O. so ao mesmo tempo causa e efeito umas
partes ao todo, que -- s ele --  substncia,             das outras, e todas em relao  totalidade do
passou a .ser a caracterstica fundamental do              organismo. Neste sentido, o O. no possui a
organismo. Mas esta caracterstica obviamente              simples fora motriz, como a mquina, mas
 determinada pela estrutura finalista do orga-            tambm possui "uma forca formadora tal que
nismo. Justamente porque ele, na sua totalidade,           se comunica s matrias que no a tm. poden-
deve ser apropriado ao fim a que se destina e a            do assim organizar; uma fora formadora que
ele subordinado, tambm as partes do O. de-                se propaga e que no pode ser explicada uni-
vem ser subordinadas  totalidade do O. Por-               camente pela faculdade do movimento" (C'rt.
tanto, a partir de Aristteles, o conceito de fim          do Juzo.  65).
passou a fundamentar a noo de O. e assim                     Estas notas de Kant, esclarecendo muito
continuou mesmo quando, com Descartes, o                   bem o finalismo intrnseco do O., tornam cie
O. comeou a ser considerado mquina. Des-                 algum modo intil o finalismo global da natu-
cartes dizia: "Aqueles que sabem quantos aut-             reza e o relegam a segundo plano. A organiza-
matos ou mquinas semoventes a habilidade                  o finalista do O., com efeito, pode ser com-
humana pode construir com poucas peas,                    preendida ou admitida independentemente cio
comparativamente  infinidade de ossos, ms-               finalismo universal da natureza. Todavia, as es-
culos, nervos, artrias, veias, etc, que esto no          peculaes da filosofia romntica sobre o O.,
corpo de cada um de ns, consideram esse cor-              mesmo partindo dos conceitos kantianos, ten-
po como uma mquina que, sada das mos de                 dem justamente a resolver a finalidade intrnse-
Deus,  incomparavelmente mais bem organi-                 ca do O. na finalidade universal, ou melhor, a
zada e tem em si movimentos mais admirveis                estender a primeira ao universo inteiro. Schelling,
do que as que podem ser inventadas pelos ho-               p. ex., diz: "No produto natural est ainda uni-
mens" (Discours, V). Com efeito, um relgio ou             do aquilo que, ao agir livremente, separou-se a
uma mquina no deixam de ter um objetivo, e,              servio do fenmeno. 'Ioda planta  inteira-
equiparando o O.  mquina, Descartes no                  mente aquilo que deve ser; nela, o livre  ne-
tencionava negar a sua finalidade, mas simples-            cessrio, e o necessrio  livre (...) S a natureza
mente apresentar a tese de que a estrutura                 orgnica d a imagem completa da liberdade e
finalista do O. no depende de uma fora ex-               da necessidade reunidas no mundo externo"
terna a ele, da alma, mas da variedade e da co-            (System des transzendentalen Idealismus, V;
ordenao das partes, ou seja, da organizao.             trad. it., p. 289). Ainda mais arbitrariamente,
Alis, Leibniz, que insistiu muito na organiza-            Hegel considera a terra como primeiro O. por-
o finalista do universo, tambm considerou o             que  "um sistema universal de corpos indivi-
O. como mquina: "Todo corpo orgnico                     duais" (Ene,  338); e afirma que, apesar de a
uma espcie de mquina divina ou de autma-                vitalidade natural romper-se na multiplicidade
to natural, que sobrepuja infinitamente todos              dos animais vivos, estes "so uma nica vida na
os autmatos artificiais" (Monad..  64). S em            idia, um nico sistema orgnico de vida" (Ibid..
Kant a finalidade de um autmato ou de uma                  337). Aqui o O. no  considerado em suas
mquina foi distinguida da finalidade do orga-             caractersticas especficas, mas simplesmente
ORGANISMO                                            734                                          ORGANON

dissolvido no finalismo csmico. A esse mes-               conduta da matria  diferente da que se ob-
mo resultado chega a doutrina de Bergson, que              serva nos estados no-vivos" (TheMeaning of
v no O. o resultado de um el vital (ou corren-           Evolution, 1952, p. 125). Por outro lado, a ca-
te de conscincia) que penetra e sujeita a ma-             pacidade que o O. tem de desfrutar das possi-
tria bruta. O que do ponto de vista da cincia            bilidades ou oportunidades que sua estrutura,
 "mquina", do ponto de vista da filosofia  o            suas prprias variaes ou mesmo o ambiente
equilbrio atingido pelo el vital em seu esforo          lhe oferecem -- que Simpson chama de opor-
formador. F. diz: "Para ns, o conjunto da m-             tunismo da vida -- outra coisa no  seno a
quina organizada representa o conjunto do tra-             prpria "finalidade intrnseca" da qual falam os
balho organizativo (embora mesmo este s seja              outros bilogos. Isso fora reconhecido at por
verdadeiro aproximativamente), mas as peas                um dos fundadores do Crculo de Viena, Morta
da mquina no correspondem s partes do                   Schlick: "Um grupo de processos ou de rgos
trabalho, visto que a materialidade da mquina              chamado de finalista em relao a um efeito
no representa mais um conjunto de meios em-               definido se esse efeito for normal na coopera-
pregados, mas um conjunto de obstculos con-               o dos processos e dos rgos. Aqui  preciso
tornados:  uma negao mais do que uma                    ressaltar a cooperao; num caso especfico,
realidade positiva" (vol. cratr., 8- ed., 1911,          esses processos, dependendo das circunstn-
p. 102) A realidade positiva  somente o el               cias, podem ocorrer de vrias maneiras, mas
vital, isto , a conscincia.                              so interdependentes e interligados de tal manei-
    A disputa metafsica entre finalismo e me-             ra que sempre produzem aproximadamente a
canicismo, ou entre materialismo e vitalismo,              mesma espcie de efeitos" ("Naturphiloso-
no influencia o conceito de organismo. Aquilo             phie", em Die Philosophie in ihren F.inzel-
que, depois de Kant, convencionou-se chamar                gebieten, Berlim, 1925; trad. in. em Readings
de "finalidade interna" do O. no foi posto em             in the Pbilosophy of Science, 1953, p. 529).
dvida nem (como vimos) por quem concebia                  Este conceito de finalismo decerto nada tem a
o O. como mquina. Por outro lado, a resolu-               ver com a tese do finalismo universal: trata-se
o da finalidade intrnseca do O. no finalismo            de um finalismo limitado, especfico, que pro-
csmico, apreciada por todas as formas de                  cede por tentativas e tem xito s em certos
vitalismo e, em geral, por todas as interpreta-            casos, e no do plano universal infalvel, no
es metafsicas do O., no ajuda em nada a                qual todos os seres se acham salvaguardados.
esclarecer o conceito de O. porque, ao recor-              Algumas vezes foi chamado de teleonomia(\'.).
rer a uma tese genrica, s d uma soluo                 Desse ponto de vista, o O. pode ser considera-
aparente ao problema de entender as formas                 do como mquina, mas uma mquina dotada
especficas de ao da finalidade orgnica. Os             de unidade funcional, coerente, integral e, ade-
bilogos contemporneos tendem, portanto, a                mais, capaz de autoconstruir-se, com base num
fugir  anttese entre mecanismo e finalismo.
                                                           plano ou projeto que se mantm relativamente
Goldstein julga to intil o recurso  entelquia
quanto o recurso ao finalismo csmico, mas jul-            invarivel de gerao em gerao (cf., p. ex., J.
                                                           MONOD, Le hasardet Ia necessite, 1970, cap. III).
ga indispensvel insistir na ao do O. como
totalidade. Isso leva a admitir o finalismo inter-         V. CIBERNTICA; SISTF.MA; ESTRUTURA.
no do O. "A hiptese de uma tarefa determina-                 ORGANON (gr. p^avov; lat. Organum). Esse
da" -- diz ele -- " suprflua para a compreen-            foi o ttulo dado pelos fomentadores gregos
so do O., mas a hiptese de um objetivo                   ao conjunto das obras lgicas de Aristteles:
determinado (a realizao da essncia do O.)              Categorias, Sobre a interpretao, Analticos
bastante profcua para a nossa compreenso                 primeiros (dois livros), Analticos segundos
do O." (Der Aufbau des Organismus. 1934,                   (dois livros); Tpicos (oito livros) e Refutaes
p. 264). Mais recentemente Simpson disse: "Sa-             sofsticas. Duas outras vezes o nome O. aparece
bemos que o fogo no  um elemento ou princ-              como ttulo de livro: Novum Organum (1620),
pio separado, mas um processo e uma orga-                  de Francis Bacon, que contraps explicitamente
nizao da matria em que a conduta da                     sua lgica  lgica aristotlica, e Neues O. (1764)
matria  diferente da que existe no no-fogo.             de J. H. LAMBERT, filsofo iluminista alemo com
Do mesmo modo. no se renuncia  perspecti-                quem Kant manteve importante correspondn-
va materialista quando se considera a vida como            cia. O uso desse ttulo, porm, no tem relao
um processo e uma organizao em que a                     exata com a tarefa atribuda  lgica (v.).
ORGAO                                               '-55                                         OTIMISMO


   RGO (gr. pyocvov, lat. Organum; in.                  assim propostos O. no significava apenas nas-
Organ-, fr. Organe, ai. Organ: it. Organo). No             cimento no tempo, mas tambm princpio e
sentido especfico da biologia, da qual o termo            fundamento do objeto cuja origem se procura-
passou  filosofia, o O. foi definido por Arist-          va. O mesmo significado equvoco encontrava-
teles com base na funo por ele desempenha-               se no antigo problema da O. do mal: .se Deus
da e por analogia com o inorgnico: "Todo                  existe, de onde vem o mal? E se no existe, de
instrumento e cada parte cio corpo tem um fim              onde vem o bem? (cf. S. AGOSTINHO, Conf., VII,
prprio, uma ao especfica. (...) Assim como             5). H. Cohen denominou "Juzo de O." o juzo
a serra 6 feita para serrar e no o contrrio, de          cm que algo  dado. como o prprio pensa-
tal modo que serrar  sua funo especfica,               mento pode achar, e no como material bruto:
tambm o corpo  feito para a alma e cada par-             assim como o sinal x, em matemtica, no sig-
te do corpo tem por natureza sua prpria fun-              nifica indeterminao, mas determinabilidade
o" (Depart. an., I, 5, 645 b 12). Este conceito          (.Logik, 1902, p. 83).
permaneceu constante em biologia, filosofia e                  ORTOGNESE (in. Orlhogeness). Doutrina
todos os outros campos em que  empregado.                 .segundo a qual a evoluo cia vida segue ou
   ORIENTAO (in. Orientatiou-r. Orienta-                tende a seguir uma linha reta. As interpreta-
lio)v, ai. Orientierung-, it. Orientamento). Este          es dadas pelos bilogos a esse conceito so
termo foi introduzido na filosofia por Kant, que           dspares; substancialmente, O.  a tese defendida
com ele designou o problema de como deve a                 por quem admite o finalismo da vida. s vezes,
razo comportar-se fora dos limites, bastante              porm mais raramente, o ponto de vista oposto
restritos, do conhecimento emprico, ou seja,               O. chama-se polignese: o reconhecimento
do conhecimento concreto: "Orientar-se no                  cie linhas cie evoluo diversas e dspares nos
pensamento em geral significa determinar-se                fenmenos da vicia (cf. C. . SIMPSON, The
no domnio do verossmil, segundo um princ-               Meaning of Hrolntion. 1952, p. 132).
pio sub/e/irod razo, em vista da insuficincia              OSTENSIVO (gr. 8.1KTIK; lat. Ostemimis;
de princpios objetivos da razo" (Was Heisst:             in. Ostensive, h. Ostensif.A. Ostensr; it. Oseu-
sich im Denken Orientierem?, 1786. A, 310).                siro). Qualificam-se assim as provas diretas.
Kant exclua a possibilidade de que o homem                que provam positivamente a verdade de uma
pudesse orientar-se com base na f ou num su-              tese, clistinguindo-se das provas indiretas, que
posto saber intuitivo. Esse termo foi emprega-             tendem a provar uma tese negativamente, com
do novamente por Jaspers, que deu o ttulo de              a demonstrao da falsidade do seu contrrio.
"O. filosfica no mundo" ao primeiro volume                As provas indiretas so chamadas apaggicas
da sua Pbilosophie (1932). Segundo Jaspers, a              (v. ABDrO; RKI)l:O). A distino acha-se
O. no mundo realiza-se quando o homem se                   em Aristteles (An.pi:, I. 23, 40 b 27) e  repro-
considera elemento ou coisa do mundo, entre                duzida por Leibniz l.\!our. ess., IV, 8, 2). Se-
inmeros elementos ou coisas, e procura achar              gundo Kant, o uso das provas apaggicas de-
deste modo sua prpria vida. No entanto, re-               veria ser abolido em filosofia, enquanto 
dunda na aiptura do mundo numa multiplici-                 legtimo nas cincias experimentais (Crt. R.
dade de perspectivas csmicas (Pbil., I, pp. 69            Pura. Doutrina transe, do mtodo, cap. 1,
ss.). Alm desses significados especiais, esse             sec. 4).
termo  muito empregado na linguagem co-                       OTIMISMO (in. Optimism-Jv. Optimisme..
mum e filosfica contempornea, mas com sig-               Optimismus; it. Ottimismo). Este termo come-
nificado bem pouco preciso.                                ou a difundir-se na cultura europia durante as
    ORIGEM (lat. Origo; in. Origiti; fr. Origine,          discusses filosficas sobre a ordem e a bonda-
ai. Ursprung; it. Origine). O termo tem dois               de do mundo suscitadas pelo terremoto de Lis-
significados freqentemente confundidos: ly                boa, em 1755. Num Poema sobre o terremoto
comeo, ato ou fase inicial; 2" fundamento ou              de Lisboa (ll^), Voltaire combatera a mxima
princpio. A 'volta s O.", caracterstica da Re-          "tudo est bem", considerando-a um insulto s
 nascena (v.),  uma noo que se baseia na               dores da vida; alguns anos depois, no romance
confuso dos dois significados. Nessa mesma con-           Cndido ou o O. (1759), fizera uma stira feroz
fuso baseou-se a importncia dos chamados                 a essa mxima e  atitude que ela implica. O
problemas de origem, discutidos nos scs. XVIII            O., porm, tinha outros defensores, entre os
e XIX: O. das idias, da vida, da linguagem, das           quais Kant, que no mesmo ano de 1759 publi-
espcies vivas, etc, visto que nos problemas               cou um opsculo intitulado "Ensaios de algu-
OUTRO                                               736                          OUTRO, PROBLEMA DO

mas consideraes sobre o O." {Versuch eini-              diferentes um do outro, e essa diversidade 
gerBetrachtungen berden Oplimismus) (que                 exatamente como  a sua identidade (devida
depois repudiou), em que defendia a bondade               ao fato de que ambos so). O O. (o diferente)
do mundo com base na tese leibniziana de que              , portanto, um gnero igualmente originrio e
"quando Deus faz uma escolha, escolhe sem-                irredutvel aos outros quatro (Sof., 254 ss.). O re-
pre o melhor". Como dizia Voltaire, o O. outra            conhecimento do O. como gnero supremo 
coisa no 6 seno a teoria do finalismo univer-           muito importante, pois permite que Plato re-
sal. Assim, em seu romance, o Doutor Pangloss,            solva a antinomia (tpica da sofistica e da erstca
mestre de "metafsico-telogo-cosmolonigo-                [v.]), segundo a qual  impossvel dizer o falso
logia" diz: "Est demonstrado que as coisas no           porque o falso  o que no , e dizer o que no
podem ser de outra maneira: visto que tudo foi             significa dizer nada, ou seja, no dizer. Desse
feito para um fim, tudo se dirige necessaria-             ponto de vista, o erro deveria ser declarado
mente ao melhor fim. Notai que o nariz foi                inexistente, e no haveria sequer diferena pos-
feito para suportar lentes e por isso usamos              svel entre o filsofo, que se preocupa em esta-
lentes". Leibniz dissera que "Deus escolheu o             belecer a distino entre verdade e erro, e o
mundo mais perfeito, ou seja, o mais simples              sofista, que no se preocupa com isso. Admiti-
em hipteses e ao mesmo tempo o mais rico                 do, porm, o O. como gnero supremo, o no-
em fenmenos" (Disc. de mt.  6), e que, "se             ser poder ser interpretado: no como o nada,
no mundo no houvesse o mnimo mal, no                   mas como o O. do ser, mais precisamente do
seria mais o mundo que, depois de tudo con-               ser de que se fala; p. ex., dizer que algo  no
siderado e somado, foi julgado o melhor pelo              grande ou no belo significa dizer que  O.,
                                                          diferente do grande e do belo, mas nem por
criador que o escolheu" (Thod., I, 9). Isto pode
                                                          isso  o oposto do ser, o nada (Ibid., 257 b ss.).
ser expressei pela frase com que Cndido cons-            Essa afirmao da realidade do no-ser, enquanto
tantemente conclui suas infelizes peripcias              O. ou diferente,  apresentada pelo Estrangei-
("Vivemos no melhor dos mundos possveis"),               ro eleata, principal protagonista do Sofista, como
que se tornou a expresso popular do otimismo.            uma espcie^ de "parricdio" em relao a Par-
    O O.  caracterstico das doutrinas que ad-           mnides, que afirmara que s o ser , e qtie o
mitem o finalismo universal, especialmente: 1L>           no ser no  (Ibid., 242 d). Essas observaes
as doutrinas espiritualistas de fundo teolgico,          de Plato, sobretudo sobre a categoria do O.,
tais como a metafsica aristotlica e a escols-          depois foram empregadas com freqncia para
tica, o leibnizianismo e as formas modernas e             esclarecer a noo de nada (v.).
contemporneas do consciencialismo espiritua-                OUTRO, PROBLEMA DO (in. Problem of
lista; 2Q das doutrinas idealistas (no sentido            others; fr. Problme de 1'autre-, ai. Problem von
romntico do termo), que compartilham o                   fremden lchen, it. Problema dellaltro). Na fi-
princpio da coincidncia entre realidade e               losofia moderna e contempornea, essa expresso
racionalidade (expresso por Voltaire com a fra-           indica o problema da existncia de outros eus
se "as coisas no podem ser de outro modo"),              (espritos ou pessoas), independentes do eu
tipificadas pela doutrina de Hegel. O oposto do           que formula o problema. Esse problema nasce
O. no  o pessimismo, que, na formulao de              de dois pontos de vista diferentes, mas vincula-
Schopenhauer, apesar de apregoar que "a vida              dos por alguns pressupostos comuns. O primei-
 dor", julga que o mundo est organizado com             ro  o do idealismo romntico (v.) segundo o
vistas  melhor ordem (Die Welt, I,  28), mas            qual, sendo a realidade um Princpio Infinito e
sim a negao do finalismo, com o reconheci-              universal (p. ex.. o Eu Absoluto de Fichte), 
mento do carter imperfeito, acidental e proble-          preciso ver de que modo ela se rompe ou se
mtico das ordens observveis no universo.                multiplica na diversidade dos eus singulares. O
    OUTRO (gr. Gtxripov; in. Othen fr. Autre,            segundo  o ponto de vista genericamente idea-
ai. Andere-, it. Allro). Um dos cinco gneros             lista e espiritualista, segundo o qual originaria-
supremos do ser, enunciados por Plato em                 mente  dado a cada um de ns somente o eu
Sofista, e que so: o ser, o repouso, o movimen-          e as suas experincias psquicas, dentre as quais
to, o idntico e o O. O motivo para admitir               algumas (uma parte apenas) se refeririam a
o O. como um gnero  parte  o seguinte: o               outros indivduos.
repouso e o movimento so-, portanto, sob o                   Fichte respondeu ao primeiro problema, em
aspecto do ser, so idnticos. Mas tambm so             Doutrina moral (1798), afirmando o carter
OUTRO, PROBLEMA DO                                      737                          OUTRO, PROBLEMA DO


originrio da idia do dever, da qual deriva o                (1923), o pressuposto subjetivista do problema
reconhecimento dos outros eus. A idia do de-                 mostrou-se cada vez mais frgil; e foi tambm
ver  a autodeterminao originria do eu. mas                atacado pela psicologia contempornea, com
ela no poderia ser realizada se no existissem               base em observaes experimentais. Scheler
outros eus, outros sujeitos em face dos quais,                observou que no existe nenhum privilgio on-
somente, a idia do dever pode ter sua deter-                 tolgico ou metafsico a favor dos pensamen-
minao e, portanto, possibilidade de realiza-                tos ou dos sentimentos que o eu chama de
o. Portanto, para Fichte, a realidade dos                   "meus". Meu pensamento me  dado como "meu"
outros eus  um postulado moral: a existncia                 do mesmo modo como o pensamento de outro
dos outros eus dever ser admitida e reconhe-                 me  dado como pensamento "alheio": esse 
cida, se o eu quiser realizar concretamente a                 o caso comunssimo e normal, em que com-
sua moralidade (Sittenlehre,  18). Com algu-                 preendemos uma comunicao qualquer que
mas variantes, essa concepo foi retomada                    nos  feita. Entre o meu e o alheio h sempre
por outros filsofos, como p. ex. por Riehl em                uma conexo estreitssima, e os dois determi-
seu livro sobre o Criticismo (1886-87), e por                 nam-se e condicionam-se reciprocamente, sem
Cohen, em tica da vontade pura (1904); este                  que as respectivas esferas se deixem jamais fixar
ltimo deduz a existncia das pessoas em geral                rigidamente, como prova o fato de que muitas
do carter jurdico e das funes pblicas do                 vezes ns no sabemos dizer se certa experin-
homem, de modo que a multiplicidade dos eus                   cia psquica vem de ns mesmos ou de outros
s existiria como multiplicidade de "pessoas                  (Sympathie, 111, cap. III). Isto eqivale a negar
jurdicas".
                                                              o carter pessoal e rigidamente subjetivo do Eu
    Por outro lado, o ponto de vista segundo o                (v.) e a reconhecer que, a partir de sua constitui-
qual o eu s conhece de modo imediato a si                    o e em todas as suas manifestaes, ele se
mesmo e seus estados interiores, ou seja, o                   move numa rede de relaes intersubjetivas que
ponto de vista do acesso privilegiado ao co-                  o constituem e no qual esto recortadas as esferas
nhecimento interior do eu (v. CONSCINCIA), d                correlativas do "meu" e do "teu". Este ponto de
origem ao problema de se saber como uma                       vista  freqente na filosofia contempornea,
parte da experincia do eu pode referir-se a                  encontrando-se mesmo em escolas diferentes.
outro eu, e ao problema ainda mais srio de                   Mead afirma que "o homem s se torna um eu
saber que garantia essa referncia oferece em                 na sua experincia na medida em que sua atitude
favor da existncia efetiva do outro eu. Para                 suscita uma atitude correspondente nas rela-
responder a esses problemas foram formuladas                  es sociais". Nesse caso, autoconscincia, ou
duas teorias. Ia A existncia dos outros seria                eu, outra coisa no  seno a atitude generalizada
inferida por um "juzo de analogia" a partir das              dos outros em relao a ns. "Assumimos o
percepes que nos revelam movimentos an-
                                                              papel daquilo que poderia ser chamado de outro
logos queles por meio dos quais exprimimos
nosso prprio eu. Mas esta teoria, pertencente                generalizado e, ao fazermos isto, aparecemos
 psicologia associacionista,  desmentida pelo               como objetos sociais, como eu" (Pbil. of tbe
fato de que a crena na existncia dos outros                 Present, p. 185). Por outro lado, Carnap ex-
seres animados tambm pode ser encontrada                     pressou ponto de vista bastante prximo
nos animais e nas crianas, que so incapazes                 deste, ao insistir no carter secundrio e deri-
de juzos analgicos. 2- A segunda teoria postula             vado da distino entre o eu e o tu. "Mesmo
um rgo especfico para o conhecimento da                    a caracterizao dos elementos fundamentais
existncia do outro, como p. ex. uma espcie                  do nosso sistema constitutivo como psiquica-
de intuio afetiva (Einfhlung), que nos poria               mente prprios, isto , como 'psquicos' e como
em relao com o que est alm das manifes-                   'meus', s adquire significado com a constitui-
taes corpreas do outro, com a alma do outro                o dos campos do no-psquico (contraposto
(cf., p. ex., TH. LIPPS. Aesthetik, I [19031; 2a ed.,         ao psquico) e do 'tu'" (DerlogischeAufbau der
 1914, p. 106 ss.). Mas o recurso a rgos desta               Welt,  65). Estas observaes demonstram que
espcie s faz reduzir a existncia de outros                  cada vez mais difcil sustentar pontos de partida
espritos a objeto de uma crena injustificvel,              solipsistas, que pretendam fundar-se em dados
logo irracional.                                              pertencentes ao mbito da conscincia pessoal.
                                                              E mesmo uma filosofia como a de Sartre, para
  Na filosofia contempornea, a partir da obra                a qual a outra existncia  tal porquanto no
de Scheler, Essncia e forma da simpatia
OUTRO, PROBLEMA DO                                 ?38                                                OVO

minha, de tal modo que a relao interpessoal            Husserl, a experincia do outro  uma espcie
6 uma relao de negao recproca e s a                de Einfhlung ou empatia, em virtude da qual
negao  "a estrutura constitutiva do ser ou-           o outro se constitui por "apresentao" como
tro" (L'tre et le nant, p. 285), apresenta-se          "um outro eu mesmo" (Cart. Med.,  52). O
como um transcender do cogito. "O que, por               prprio eu age de tal modo qtie "uma modifi-
talta de melhor expresso, chamamos de cogito            cao intencional de si mesmo e da sua primor-
da existncia do outro, confunde-se com o meu            dialidade chegue  validade sob o ttulo de per-
prprio cogito.  preciso que o cogitomc lance           cepo da estraneidade, percepo de um outro,
fora dele, sobre o Outro, assim como me lan-             de um outro eu" (Krisis,  54 b).
ou fora dele sobre o em-si, e isto no me reve-            OVO (gr. wv; in. Hgg- fr. Oeuf, ai. Ei; it.
lando uma estrutura minha apriori, que apon-             Uovo). Primeiro princpio do mundo, segundo
taria para o outro igualmente a priori, mas              a teogonia rfica ( Orpbicorum fragmenta, 53,
descobrindo em mim a presena concreta e                 54 Kern). A considerao do mundo como um
inclubitvel deste ou daciuele outro concreto,           gigantesco animal est na base desse mito, que
como j me revelou a minha existncia incon-             tem vrios precedentes orientais. Sobre estes e
frontvel, contingente e, todavia, necessria e          sobre o prprio mito, cf. A. OUVIHRI, Civiltgreca
concreta" (Jbl, pp. 308-09). Analogamente, paru         nelVltalia meridioiiale, J 93 J. p. 3-32.
                                                  p

   P. p. Na lgica contempornea, indica-se           sas paixes,  mais pela fraqueza delas do que
com P determinado clculo das proposies e           pela nossa fora", 122), e Vauvenargues, em
com p (e as letras que seguem em ordem alfa-          Discours sur Ia liberte(1737), dizia: "Para resis-
btica q, r, etc.) uma nica proposio.              tir  P. seria preciso pelo menos querer resistir.
   PAIDIA. V. CULTURA.                               Mas faria a P. nascer o desejo de combater a P.,
   PAIXO (in. Passion; fr. Passion; ai. Lei-         na ausncia da razo derrotada e afugentada?"
denschaft; it. Passione). Este termo pode signi-      E acrescentava: "As paixes ensinaram a razo
ficar: 1o o mesmo que afeio, modificao pas-       aos homens" (Rflexions et maximes, 154).
siva no sentido mais geral do grego TrGo e do       Com o mesmo esprito, Helvetius declarava:
latim passio (para este significado, v. AFF.IO);    "As paixes so no campo moral o que o movi-
2- O mesmo que emoo (v.), significado em            mento  no campo fsico" (De 1'esprit, III, 4), e
que foi empregado quase universalmente at o          Condillac definia a P: como "um desejo que
sc. XVIII, at que se foi determinando o signi-      no permite ter outros, ou que, pelo menos, 
ficado especfico que hoje possui; 3o ao de         o mais dominante" (Traitciessensations, I, 3,
controle e direo por parte de determinada            3). Foi Kant quem nos legou as determinaes
emoo sobre toda a personalidade de um in-           mais precisas. A P.  a inclinao que impede a
divduo humano.                                       razo de compar-la com as outras inclina-
     neste sentido, o nico apropriado e espe-       es e assim de fazer uma escolha entre elas
cfico, que essa palavra geralmente  emprega-        (Antr.,  80). Por isso, a P. exclui o domnio de
da hoje. Assim, a expresso francesa, que se          si mesmo, impede ou impossibilita que a von-
tornou internacional, " amour-passion", indica        tade se determine com base em princpios (Crt.
uma forma de emoo amorosa que domina a              do Juzo,  29). Com observaes felizes, Kant
personalidade e  capaz de transpor obstcu-          ressalta a capacidade que tem a P. de dominar
los morais e sociais (cf. tambm "Crime de pas-       toda a conduta do homem, de apoderar-se de
sion" ou "Crime passional"). Nas frases "P. pelo      sua personalidade. Ao contrarie? da emoo,
jogo", "P. pelas mulheres", "P. pelo dinheiro",       que  precipitada e irrefletida, a P.  lenta e re-
tambm est claro o significado de tendncia          fletida para alcanar seu objetivo, apesar de
dominante e global da personalidade, o que se         poder ser violenta. A emoo  como uma en-
percebe igualmente em expresses como "P.             xurrada que rompe o dique; a P.  como uma
poltica", "P. religiosa", etc. Esse conceito nasce   corrente que vai aprofundando seu leito. A
com as anlises dos moralistas dos scs. XVII e       emoo  como uma embriaguez que se desva-
XVIII, que evidenciaram a tendncia que tm           nece, apesar de deixar a dor de cabea, mas a
as emoes de penetrar na personalidade e             P.  uma intoxicao ou uma deformao, que
domin-la. Pascal dizia: "Quando se conhece a         precisa de um mdico interno ou externo da
P. dominante de algum, estaremos certos de           alma; este, porm, geralmente no sabe pres-
saber agradar-lhe" (Penses, 106). Nesta expres-      crever a cura radical, mas quase sempre s
so, o adjetivo "dominante" exprime bem o             paliativos (Antr.,  74). Em vista do perigo que
carter da paixo. Em Maximes, La Rochefoul-          a paixo representa para a escolha racional e a
cauld insiste com certo cinismo nesse carter         liberdade moral do homem, Kant rejeita qual-
dominante das paixes ("Se resistimos s nos-         quer exaltao das paixes. E cita a frase: "Nada
PAIXO                                                  740                                            PALAVRA

de grande no mundo nunca foi realizado sem                    como instrumentos da providncia csmica, co-
paixes violentas", para coment-la: "Pode-se                 mo "astcias" da Razo Infinita, para realizar
admitir isso a respeito de diversas inclinaes,              seus fins: tese que est entre as mais caracters-
aquelas sem as quais a natureza viva (inclusi-                ticas da filosofia da histria de Hegel (Philosopbie
ve a do homem) no pode passar, como as                       der Geschiche, ed. Lasson pp. 63 ss.). De um
necessidades naturais e fsicas. Mas que elas                 ponto de vista diferente, a exaltao da P. tam-
possam, ou melhor, precisem tornar-se pai-                    bm se encontra em Nietzsche, para quem era
xes, isto a Providncia no quis. Esse tipo de               sintoma de fraqueza o "temor dos sentidos, dos
explicao pode ser aceita num poeta, como                    desejos e das paixes, quando ela chega pa-
p. ex. em Pope, que escreveu 'Se a razo                     ra desaconselh-los", considerando a P. domi-
bssola, as paixes so os ventos', mas o fil-               nante como "a forma suprema de sade" por-
sofo no pode admitir esse princpio nem mes-                 que nela "a coordenao dos sistemas internos
mo para avaliar as paixes como um artifcio                  e seu trabalho a servio de um mesmo fim so
provisrio da Providncia, que as teria colo-                 mais bem realizados: o que  mais ou menos a
cado na natureza humana antes que os ho-                      definio da sade" (WlezurMacht, ed. Krner,
mens alcanassem um grau razovel de civi-                     778).
lizao" (Antr.,  80).                                           Ponto de vista eqidistante entre a condena-
    O Romantismo aceita e adota o conceito de                 o e a exaltao da P. parece prevalecer na
P. elaborado pelos moralistas franceses e por                 cultura contempornea. Dewey, p. ex., assim
Kant, ou seja, de que a P. no  uma emoo                   se expressa: "A fase emocional, apaixonada da
ou um estado afetivo particular, mas o domnio                ao no pode nem deve ser eliminada em
total e profundo que um estado afetivo exerce                 prol de uma razo exangue. Mais paixes, no
sobre toda a personalidade (ou "subjetividade")               menos,  a resposta. (...) A racionalidade no 
do indivduo. Por outro lado, inverte a valo-                 a fora a ser invocada contra impulsos e hbi-
rao negativa feita por Kant.  significativo                tos, mas sim a conquista de uma harmonia que
que Hegel, que expressou com mais rigor o                     atue entre diferentes desejos" (Human Nature
ponto cie vista romntico sobre o assunto, s                 and Conduct, pp. 195-96).
tenha invertido as valoraes kantianas. Hegel                   PALAVRA (lat. Verbum- in. Word; fr. Parole,
define a P. como a "totalidade do esprito prti-             ai. Wort; it. Parola). 1. Segundo a distino feita
co posto numa nica das muitas determinaes                  por Saussure entre P., l)igua(w) e linguagem
limitadas que se opem entre si" (linc,  473).               (v.), a P. seria a manifestao lingstica do
E acrescentou: "A determinao da P. implica                  indivduo. Diferentemente da lngua, que 
que ela se restringe a uma particularidade da                 uma funo social, registrada passivamente
determinao do querer, na qual imerge toda                   pelo indivduo, a P.  "o ato individual de von-
a subjetividade do indivduo, seja qual for o                 tade e inteligncia, no qual convm distinguir:
contedo dessa determinao. Mas por esse                      1Q as combinaes nas quais o falante utiliza o
carter formal, a P. no  boa nem m; sua                    cdigo da lngua para exprimir seu pensamen-
forma s exprime que um sujeito ps num                       to pessoal; 2" o mecanismo psicolgico que lhe
nico contedo todo o interesse vivo de seu                   permite exteriorizar essas combinaes" (Cours
esprito, de seu talento, de seu carter, de seu pra-         de lingustque gnmle, 1916, p. 31).
zer. Nada de grande foi realizado, nem pode                       2. O termo P. tem uma ambigidade eviden-
ser realizado, sem P. No passa de moralidade                 ciada pelos lgicos: por um lado, pode ser um
morta, na maioria das vezes hipcrita, a que                  evento individual, novo a cada vez que se re-
investe contra a forma da P. como tal" (Ene,                  pete (neste sentido dizemos, p. ex., que um
 474). Aqui, ao mesmo tempo em que se                        livro  composto por cinqenta mil palavras),
insiste no carter totalizante da P. -- que limita            por outro, pode significar a P.-significado, que
a um nico contedo ou determinao "toda a                    a mesma, por mais que se repita (neste senti-
subjetividade do indivduo", "o interesse vivo                do, sobre o mesmo livro, podemos dizer que 
do seu esprito, etc." --, retoma-se a frase                  composto por cinco mil palavras). No primeiro
criticada por Kant e declara-se expresso de                  sentido, p. ex., se a P. est for repetida dez
moralidade morta ou hipcrita a condenao                    vezes numa pgina ser dez palavras; no segun-
feita por ele. E o mais curioso  que Kant criti-             do sentido,  uma palavra s. Peirce props
cara antecipadamente outra caracterstica da                  chamar a palavra no primeiro significado token
filosofia de Hegel, ou seja, a justificao das P.            (ocorrncia) e no segundo significado type
                                                     7
PALINGENESE                                              41                                     PANENTEISMO

(tipo, elemento lingstico) (Coll. Fap.. 4.537).             quela parte da providncia que consiste no
Sobre o mesmo assunto, outros falam, respecti-                movimento regular e organizado da matria
vamente, em signo e smbolo (cf. M. BLACK,                    (Ibid., I, 1, 3). Por sua vez, More elaborava o
Language and Philosopby, VI. 2; trad. it.. pp.                conceito da mnada fsica, que seria uma part-
181 ss.).                                                     cula to pequena a ponto de no poder ser
    PALINGNESE (gr. 7rodiyyEveoa; in. Palin-                mais dividida. A mnada fsica no tem
genesis; fr. Palingnsie-, ai. Palingnsie, it.             grandeza fsica propriamente dita, mas  ex-
Palingenesti). Segundo os esticos, renasci-                  tensa, e a extenso  uma qualidade espiritual,
mento do mundo depois do trmino de um ci-                    incorprea, um atributo de Deus (Encbiridion.
clo de vida (NKMRS., De nat. bom., 3H. cf. MAR-               Metapbysicum, I, 9, 3; 1, 8, 15). Deste modo.
CO AURLIO, Memrias, XI, 1: "o peridico                     Cudworth e More reduziam a matria e o me-
renascimento do mundo"). Esse termo foi usa-                  canismo, em seus atributos fundamentais --
do freqentemente neste sentido ou em senti-                  extenso e movimento --, a uma manifesta-
do anlogo (p. ex., por C. BONNLT, Paling-                   o de elementos ou foras espirituais.
nse phlosophjue, 1769, e por GIOBERT,                          muito provvel que Leibniz se tenha inspi-
Protologia, 1857) e s ve7.es tambm em senti-                rado nesses autores dando ao P. sua forma
dos restritos ou particulares: para designar o                clssica. Segundo Leibniz, a matria  consti-
renascimento da alma ou, em sentido retrico,                 tuda por manadas, no sentido de ser um agre-
para indicar qualquer renovao radical (v.                   gado de substncias espirituais, como um reba-
APOCATSTASE).                                                nho de ovelhas ou como um amontoado de
    PAMPNEUMATISMO (ai. Panpneumatis-                         vermes. Por isso, os elementos da matria nada
mus). Termo empregado por Eduard Von Hart-                    tm de corpreo; so tomos de substncia ou
mann, no mesmo sentido de pampsiquismo                        pontos metafsicos, como poderamos chamar
(cf. Philosopbischen Fragmente, p. 68).                       a.s mnacla.s (Op., ed. Gerhardt. IV, p. 483). O
   PAMPSIQUISMO (in.           Panpsychisnr,   fr.            P. de Leibniz foi reproduzido por Lotze em
Panpsvchisme; ai. Panpsychismns: it. Pcimpsi-                 Microcosmo (l, trad. it., p. 50); este identificou
chismo). Este termo, muitas vezes confundido                  os tomos dos quais fala a teoria mecanicista
com bilozosmoiv.), designa na realidade uma                  da cincia com os centros de fora espiritual,
teoria simetricamente oposta. Enquanto o hilo-                ou seja, com a.s mnadas no sentido leibnista.
zoismo consiste em atribuir  matria (ou s                  O P.  a caracterstica metafsica do espiritualis-
suas partes) poderes ou atividades psquicas                  rao contemporneo (v. ESPIRITIAUSMO), seja ele
(sendo por isso materialismo). o P. consiste em               francs (Ravaisson, Lachelier, Hamelin), ingls
reduzir matria a alma, ou seja, a propriedades               (Ward) ou italiano (Martinetti, Varisco).
ou atributos psquicos (sendo, pois, espiritua-                   PAN-ANIMISMO. O mesmo que animismo
lismo). Com isso, a matria no  negada                      (v.).
(como faz o imaterialismo [v.]), mas seus atri-                   PANCALISMO (in. Pancalism; fr. Panca-
butos fundamentais (p. ex. extenso, movi-                    lisme: it. Pancalismo). Termo empregado
mento, etc.) so reduzidos  ao de foras oti               por J. M. Baldwin para designar sua doutri-
atributos espirituais.                                        na, segundo a qual a beleza, como objeto da
    Neste sentido, pode-se discernir a origem                 atividade esttica, realiza a conciliao entre
do P. nos platnicos ingleses do sc. XVII (Es-               a atividade cognoscitiva e a atividade prti-
cola de Cambridge). Partindo do princpio de                  ca, unificando o mundo da experincia (cf.
que "nenhum efeito pode sobrepujar a fora da                 Genetic Theory of Realty. beng tbe Outcome
prpria causa", Cudworth negava que a vida e                  of Genetic Logic, as Issuing in tbe Aestbetic
o ser -- muito menos a razo e o intelecto --                 Ibeory of Reality called Pancalism, 1915).
pudessem derivar de matria sem vida. E con-                      PANCOSMISMO (in. Pancosmism. fr. Pan-
clua que "o esprito  o ser primognito, o se-              cosmisme, it. Pancosmismo). O mesmo que
nhor natural de tudo o que existe" (The 1'rue                 materialismo. Este termo foi usado por Grote
Intellectual System ofthe Uni verse, I, 1, 4). Mas            para designar a doutrina dos pr-socrticos
como as coisas no podem ser produzidas pelo                  hilozostas (Plato and the Otber Companions
mecanismo da matria, e como Deus no pro-                    of Scrates. I, 1, 18). No teve aceitao.
duz imediata e milagrosamente todas as coisas,                    PANENTESMO (in. Panentheism, fr. Pa-
 preciso admitir uma natureza plstica que                   nentheisme. ai. Panentheismus; it. Panenteis-
seja um instrumento inferior e subordinado da-                mo). Termo criado por Christian Krause (1781-
PANLOGISMO                                            742                                       PARADOXO

1832) para designar uma sntese entre o tesmo              uma comparao ou um paralelo, como quan-
e o pantesmo, que consistiria em admitir que               do Scrates afirma que os governantes no de-
tudo o que ,  em Deus e existe como revela-               vem ser escolhidos por sorteio, assim como
o e realizao de Deus (Voresungen ber                  no so escolhidos por sorteio os atletas para
das System der Philosophie, 1828, pp. 254 ss.).             uma competio.  assim que Aristteles ilustra
Na realidade este  o ponto de vista do pan-                essa noo (Ret.. II. 19, 1393 b 4). Sentido an-
tesmo clssico, e portanto no se v utilidade             logo encontra-se nos Evangelhos (cf. Marc,
nesse termo, que de fato no teve aceitao (v.             XII. 1).
DEUS).                                                         PARADIGMA (gr. 7rpaԣryua; in. Para-
    PANLOGISMO (in. Panlogism, fr. Panlo-                   digm; fr. Paradigme; ai. Paradigma; it. Pa-
gisme, ai. Panlogismus; it. Panlogismo). Termo              radigma). Modelo ou exemplo. Plato empre-
empregado por J. E. Erdmann para designar a                 gou essa palavra no primeiro sentido (cf. Tim.,
doutrina de Hegel (Geschichte der neueren                   29 b. 48 e, etc), ao considerar como P. o mun-
Pbilosophie, 1853. III, 2, p. 853), ainda hoje uti-         do dos seres eternos, do qual o mundo sensvel
lizado (embora com pouca freqncia) para                    imagem. Aristteles utiliza esse termo no se-
designar essa mesma doutrina ou doutrinas                   gundo significado (An. pr, II, 24, 68 b 38), so-
anlogas que admitam a identidade entre racio-              bre o que v. EXEMPLO.
nal e real.                                                    PARADOXO (gr. rapoo ^yo; in.
    PANSATANISMO (ai. Pansatanismus). Ter-                  Paradox, fr. Paradoxe. ai. Paradox, it. Para-
mo empregado polemicamente por O. Lieb-                     dosso). O que  contrrio  "opinio da
mann para designar a doutrina de Schopen-                   maioria", ou seja, ao sistema de crenas co-
hauer, numa contraposio caricaturista ao                  muns a que se fez referncia, ou contrrio a
pantesmo (Zur analysis der Wirklichkeit, Ia                princpios considerados slidos ou a proposi-
ed., 1880, p. 230).                                         es cientficas. Aristteles, em Refutaes so-
    PANSOFIA (lat. Pansophia). Termo empre-                 fsticas (cap. 12), considera a reduo de um
gado por G. A. Comenus para designar o prin-               discurso a uma opinio paradoxal como o se-
cpio "ensinar tudo a todos" (Pansopbiae Pro-               gundo fim da Sofistica (o primeiro  a refuta-
dromus, 1639; Schola Pansophiae, 1670). Kant                o. ou seja, provar a falsidade da assero do
chama de P. o conjunto da poli-histria, que                adversrio). Bernhard Bolzano intitulou Para-
 o conhecimento histrico, e da polimatia,                 doxos do infinito (1851) o livro no qual intro-
que  o conhecimento racional (Logik, Intr..                duziu o conceito de infinito como um tipo es-
 VI).                                                      pecial de grandeza, dotado de caractersticas
    PANSPERMIA (ai. Panspermie). Doutrina                   prprias, e no mais como limite de uma srie.
defendida por S. Arrhenius, de que a vida so-               Esse conceito seria consolidado na matemtica
bre a terra provm de sementes orgnicas di-                por Cantor e Dedeking (v. INFINITO). A exem-
fundidas por todo o universo ( Werden der                   plo dele, foram chamados s vezes de P. as
 Welten, 1907).                                             contradies oriundas do uso do procedimen-
    PANTESMO (in. Pantheism; fr. Pantheis-                 to reflexivo, na maioria das vezes chamadas de
me; ai. Pantheismus; it. Pantesmo). O termo                antinomias   (v.).
pantesta foi utilizado pela primeira vez por f.                No sentido religioso, chamou-se P. a afirma-
Toland (Socianimism TrulyStated, 1705); o pri-              o dos direitos da f e da verdade do seu con-
meiro a empregar o termo P. foi seu adversrio              tedo em oposio s exigncias da razo. P. ,
Fay (1709).  a doutrina segundo a qual Deus                p. ex., a transcendncia absoluta e a inefa-
6 a naturezao mundo (v. DEI:S) identificando               bilidade de Deus, afirmada pela teologia nega-
a causalidade divina com a causalidade natural.             tiva (v.); P.  o "credo c/uia absurdum" (v.) de
Uma das formas de P. humanista  a chamada                  Tertuliano; P.  toda a f, segundo Kierkegaard,
"teologia sem Deus". V. DEUS; DEUS, MORTE DE.               porque todas as categorias do pensamento reli-
   PANTELISMO (ai. Panthelismus). O mes-                    gioso so impensveis, e a f, no obstante, cr
mo que voluntarismo (v.). Esse termo foi usa-               em tudo e assume todos os riscos (cf. Die
do por E. Von Hartmann (Philosophischen Frag-               Krankheit zum 'Pode, 1849). Kierkegaard viu
mente, p. 68).                                              como P. a prpria relao entre o homem e
   PARBOLA (gr. 7tapa(k>A,i; lat. Parbola:               Deus: "O P. no  uma concesso, mas uma
in. Parable, fr. Parabole, ai. Parabel; it. Pa-             categoria: uma determinao ontolgica que
rbola). Argumento que consiste em aduzir                   expressa a relao entre um esprito existente e
PARALELISMO PSICOFISICO                               743                                               PARA SI

cognoscente e a verdade eterna" (Dirio. VII,               tenso e da causalidade do pensamento, afir-
A 11).                                                      mando que a causa de um pensamento  sem-
   PARALELISMO P S I C O F I S I C O ( i n .   Psy-         pre um pensamento e que a causa de tini
cbophysical parallelism; fr. ParaHelisme psy-               corpo  sempre um corpo (Ibid., III, 2), en-
cbophysique: ai. Psycho-physscher Paral-                   quanto a ordem e a concatenao das coisas
lelismus; it. Parallelism o psicofisico). Esta ex-          so sempre as mesmas (Ibid., III, 2, Schol.). Es-
presso foi inventada por Fechner (Zei ida resta.           tas afirmaes podiam ser interpretadas como
II. p. 141), para designar a doutrina segundo a             expresso da doutrina do P., embora a inteno
qual os eventos psquicos e os fsicos constitu-            cie Spinoza no fosse afirmar a independncia
em duas sries paralelas, que no agem uns so-              causai recproca entre fatos fsicos e mentais,
bre os outros, mas so causalmente determina-               mas sim a sua subordinao comum  causali-
dos somente pelos eventos homogneos: os                    dade direta de Deus. A doutrina de Spinoza na
mentais pelos mentais, e os fsicos pelos fsi-             verdade no  um P., mas um monismo
cos. Essa doutrina era sugerida pela exigncia              pantesta. Alis, a doutrina cio P. no deve seus
(ou pelo desejo) de no submeter os eventos                 sucessos  sua validade metafsica, mas, ao
mentais  causalidade dos eventos fsicos e                 contrrio,  limitao do compromisso meta-
pela impossibilidade de considerar estes lti-              fsico que ela implicava, podendo ser aceita
mos dependentes dos primeiros. Durante v-                  como hiptese de trabalho independentemen-
rias dcadas, serviu de hiptese de trabalho                te da crena monista ou espiritualista, no ex-
para a psicologia experimental, em sua fase                 cluindo nem uma, nem outra. Quando a psi-
inicial de organizao como cincia autnoma                cologia abandonou essa doutrina, ela caiu em
ou relativamente autnoma (v. PSICOLOGIA). Foi,             desuso e deixou de ser tema vivo cie discusso
portanto, admitida e adotada por aqueles que                (v. PSICOLOGIA).
contriburam para os primeiros passos dessa                     PARALOGISMO (gr. JiapaoyiOM.; in.
cincia, em particular por Wundt. Kste enten-               Paralogism; fr. Paralogisme; ai. Paralogismus-,
deu como "princpio do P. psicosico" o princ-            it. Paralogismo). De Aristteles (Kl. sof.. pas-
pio de que "todos os contedos empricos que                sim) em diante este termo  usado para indicar
pertencem simultaneamente  esfera de consi-                um silogismo ou qualquer argumento formal-
derao mediata ou cientfica e  imediata ou               mente falso (v. tambm FALCIA). Fm Kant. "P.
psicolgica esto em relao recproca, por-                da Razo pura" designa a falsa argumentao
quanto cada evento elementar do campo ps-                  da psicologia racional, que se ilude achando
quico exprime um evento correspondente no                   que pode deduzir do simples "eu penso" deter-
campo fsico" (System der Philosophie, 2- ed.,              minaes materiais, mas a prori. do conceito
1897, p. 602). Essa doutrina contrapunha-se,                (idia) de "alma".                        G. P.
por um lado, ao monismoiw), que tende a re-                     PARAPSICOLOGIA. V. IYIKTAP.SQUCA.
duzir os eventos mentais a eventos fsicos ou,                PARA SI (in. Being for self; fr. Pour sai: ai.
pelo menos, a submeter os eventos mentais                  Fr-sich seiii; it. Fssere per se) O significado
causalidade dos eventos fsicos, e, por otitro              fundamental deste termo  atribudo por He-
lado, ao espiritualismo (v.), que consiste na               gel: ser atual ou real (em contraposio a em si
tentativa simetricamente oposta. Por isso, foi              [v.|, ser possvel), portanto ser que se desenvol-
bem aceita como hiptese de trabalho de in-                 veu atravs da reflexo e da conscincia. Hegel
vestigaes que no queriam ancorar a sua va-               diz: "Dizemos que  para si aquilo que suprime
lidade em nenhuma metafsica.                               o ser outra coisa, a sua relao e a sua parti-
   No perodo em que a doutrina do P. consti-               cipao com outra coisa, ou seja, aquilo que
tuiu o pressuposto da psicologia experimental               rejeita a outra coisa e abstrai dela. (...) A
e foi tema de grande nmero de discusses                   conscincia j contm em si, como tal, a deter-
entre psiclogos e entre filsofos, alguns pro-             minao do ser para si porquanto se represen-
curaram lig-la a ilustres precedentes histri-             ta o objeto por ela mesma sentido, intudo, etc,
cos; o mais bvio desses precedentes era sem                porquanto tem em si o contedo desse objeto.
dvida a metafsica de Spinoza. Spinoza, com                (...) Mas a conscincia de si  o ser para si aca-
efeito, dissera que "um modo da extenso e a                bado e posto, visto que nela o referir-se a outra
idia desse modo so uma e mesma coisa,                     coisa, a um objeto externo, est superado"
expressa de duas maneiras" (Et., II, VII, Schol.),          (Wissenschaft der Logik. I, 3, A; trad. it., I, p p .
e negara a interferncia da causalidade da ex-              173-74). Neste sentido, a conscincia  para si
PARCIMNIA, LEI DA                                    744                                             PARTIO


porque anulou a outra coisa (o objeto externo)                  PARTE (gr. pipo; lat. Pars; in. Part: fr. Part:
ou tirou-a do caminho, resolvendo-a em um de                ai. 7'eil; it. Parte). Aristteles distinguiu trs sig-
seus prprios contedos internos. Sartre reto-              nificados principais desse termo: 1" aquilo que
mou este conceito na filosofia contempornea,               decorre da diviso de uma quantidade, e neste
chamando de "ser para si" ou simplesmente                   sentido dois  P. de trs, a menos cjue se res-
"para si" a conscincia enquanto anulao                   trinja o significado de parte  unidade de medi-
ou "nada" do objeto, isto , do em si (Ltre                da, caso em que s um (e no dois)  P. de trs:
et le nant, pp. 115 ss.). O mesmo significado              2" aquilo que decorre da diviso de um gnero
6 atribudo  expresso por Merleau-Ponty                   que no seja uma quantidade, e neste sentido
(Phnomnologie de Ia perception, 1945, pp.                 so partes as espcies de um gnero; 3g aquilo
423 ss.).                                                   que decorre da anlise de uma proposio que
   PARCIMNIA, LEI DA. V. ECONOMIA.
                                                            serve de definio, e neste sentido o gnero 
   PARENTICA (gr. 7rapatvxiKf| l^vr); lat.
                                                            P. da espcie (porque  a espcie que  defini-
Praeceptiva-, in. Parenetic, fr. Parntique-. it.          da) (Met., V. 25, 1023 b 12). S. Toms de
                                                            Aquino por sua vez chamou de partes quanti-
Parenetica). Segundo os esticos, a parte da
                                                            tativas as do 1" significado de Aristteles e de
moral que consiste em prescrever preceitos                  partes essenciais as dos 2- e 3L> significados (S.
prticos para a conduta de vida nas vrias cir-              Th., I, q. 76, a. 8; III, q. 90, a. 2). E acrescentou-
cunstncias (cf. Sneca, P.p.. 95). Parentico:             lhes a P. subjetiva, "na qual est presente, si-
exortatrio.                                                multnea e igualmente, toda a virtude do todo,
   PARNTESE (in. Parentheses: fr. Paren-                   assim como toda a virtude do animal, porquan-
thse, ai. Parenthese-, it. Parentesi). Xa lgica e         to se conserva como tal em qualquer espcie
na matemtica os P. so um sinal de associao.             animal", e a P. potencial, "na qual est presente
Assim, na expresso In -- (x-y)l. os P. internos            o todo segundo toda a sua essncia, assim
servem exclusivamente para mostrar a associa-               como toda a essncia da alma est presente em
o das partes x-y da expresso. Na terminolo-              cada uma de suas potncias" (.V. Th., III, q. 90,
gia da fenomenologia contempornea, "pr en-                a. 3). Mas  bvio que estas duas ltimas esp-
tre P." significa efetuar a suspenso ou epoch             cies de P. foram excogitadas com fins teolgi-
fenomenolgica (v. EPOCH).                                 cos. Outras distines foram introduzidas com
   PAR-MPAR (gr. pTiorripiTTOV; in. Even-                 outros intuitos, como entre a P. prxima e a P.
odd\ fr. Pair-impair, ai. Gerade-ungerad: it.               remota, segundo haja ou no, entre a P. e o
Parimpar). Era assim que os pitagricos anti-              todo, uma outra P. (cf. JUNGICS. Log., I, 9, 11-
gos definiam a unidade, como princpio do                    12), e entre a P. alquota e a P. aliquanta,
nmero e das coisas, porquanto ela seria li-                segundo a repetio da parte chegue a adequar
mitada como o mpar e ilimitada como o par                  exatamente o todo ou resulte, em certo pon-
ARISTOTKI.KS, Mel., I, 5, 986 a 15).                       to, menor ou maior que ele (cf. WOLFF, Ont.,
   PARNIMO (gr. 7iapwvu|j.o; lat. Denomi-                  360).
naiivus). Foi assim que Aristteles denominou                  A maioria dessas distines hoje est em
os objetos cuja designao provm de certo                  desuso, e com o abandono do velho axioma "a
nome, com a modificao da desinncia: como                 P.  menor que o todo" (v. INFINITO) O prprio
gramtico, que deriva de gramtica, e corajo-               conceito de P. deixou de ser definido a partir
so, de coragem (Cat., 1, 1 a 11). Os P. tm em              do todo e  habitualmente definido atravs de
comum a essncia expressa pela definio (cf.               certo tipo de relao. Assim, Peirce diz: "Uma
Bocio, In Cat., I, P. L. 64, col. 167; Pedro               P. de um conjunto, chamado seu todo,  um
Hispano, Summ. log., 3-01; Jungius, lgica                  conjunto tal que tudo o que pertena  P.
hamburgensis, 1, 2, 16). Nisso, so semelhantes             pertence ao todo, mas alguma coisa que per-
aos sinnimos ou unvocos. Aristteles con-                 tence ao todo no pertence  P." (Coll.
sidera os P. como certa espcie de objetos                  Pap., 4173).
designveis, ao lado dos homnimos ou equ-                    PARTIO (gr. M.eptOM.; lat. Partitio-, in.
vocos e dos sinnimos ou unvocos (v. EQIIVO-               Partitiari; fr. Partition-, ai. Partitioi). Os esti-
CO; NVOCO).                                               cos designaram com este termo "a ordenao
   PARSISMO (in. Parsism: fr. Parsisme; ai.                 de um gnero em seus lugares" (DiG. L, VII,
Parsismus; it. Parsismo). Religio dualista dos             1, 62), ou seja, a enumerao das partes que
antigos persas |(v. MAI, 1 b); Zorcostrismo],               compem o todo, como quando se enumeram
PARTICIPAO                                          745                                     PATOLGICO


os membros do corpo humano; portanto, dis-                  ou a no inerncia a cada coisa" (An. pr., 1, 1,
tinguiram-na da diviso, que  a enumerao                 24 a 13). O contrrio da proposio P.  a uni-
das espcies pertencentes a um gnero (CCKKO.              versal (v.). A lgica medieval indicou com a le-
Top, 5-7, 28-30) (v. DIVISO).                              tra /a proposio P. afirmativa e com a letra O
    PARTICIPAO (gr. |i9e^i; lat. Parteci-               a proposio P. negativa. Uma proposio P. da
patio; in. Partcipation; fr. Partcipation; ai.            forma "alguns /'so 7 pode ser lida de vrias
Tenabme, Partizipation, it. Partecipazione).               as maneiras: "algum F  G", "alguma coisa 
1. Um dos dois conceitos de que Plato se va-               ao mesmo tempo Fe G", "alguma coisa que
leu para definir a relao entre as coisas sens-            F  G", "H um FG", "Existem FG", "FG
veis e as idias; o outro  o de presena ou                existe", etc. (cf. W. v. O. QUINE, Methods of
parsia (Ttocpowa). "Nada torna bela uma coi-              Logic,  12).
sa" -- disse ele -- "a no ser a presena ou a                 PARSIA. V. PARTICIPAO.
P. do belo em si mesmo, seja qual for o cami-                  PASSADO. V. TFMPO.
nho ou o modo como a presena ou a P. se                       PASSIVO (gr. 7ioc9r|TiK; lat. Passivus-, in.
realizam'' (Fed., 100 d). Mais tarde, Plato enten-         Passive, fr. Passf; ai. Passv; it. Passivo). Que
deu a P. como imitao: "Parece-me que as                   sofre uma ao. que  afetado por alguma coi-
idias esto como exemplares na natureza, que
                                                            sa.  o adjetivo correspondente a afeio(w) e
os outros objetos semelhem a elas e sejam suas
cpias, e que essa P. das coisas nas idias con-            contrrio a ativo (v.).
                                                               PASTORAL,       FILOSOFIA      (lat.   Pastoralis
siste em serem imagem delas" (Parni., 132 d).
Plato no deu muitas outras determinaes                  pbilosopha). Foi assim que Bacon chamou a fi-
sobre esse importante conceito da sua filosofia,            losofia "que contempla o mundo placidamente
mas a metafsica medieval a ele recorreu quan-              e quase por cio": censura que ele faz tambm
do precisou distinguir "o ser por essncia", que             filosofia de Telsio (Phil. Works, III,  45).
pertence somente a Deus, do "ser por P.", que                   PATTICO (in. Patbetic; fr. Pathtique, ai.
pertence s criaturas; essa distino garantia a            Pathetsch; it. Pattico). F. Schiller designou
subordinao do ser das coisas ao ser de Deus.              com este termo uma das espcies do sublime
S. Toms de Aquino disse: "Assim o que tem                  (v.) prtico, mais precisamente o que deriva de
fogo, mas no  fogo,  afogueado (ignitum)                 um objeto ameaador em si mesmo para a na-
por P., tambm o que tem ser, mas no  o ser,              tureza fsica do homem, portanto doloroso. No
 ente por P." (S. Th., I, q. 3, a. 4). Mas o amplo         sublime prtico contemplativo, ao contrrio, no
uso que esse conceito teve na metafsica tradi-              o objeto, mas a sua contemplao que institui
cional no contribuiu muito para esclarec-lo,              o temor e, conseqentemente, a sublimidade
e ele continuou to indefinido e obscuro quan-              (Vom Frhabenen, zur Weiteren Ausfuhrung
to em Plato.                                               einiger Kantischeu Ideen, 1793, Jber das
    2. L. Lvy Bruhl utilizou muito o conceito de           Pathetische, 1793).
participao para ilustrar a mentalidade dos pri-              PATOLGICO (in. Pathological; fr. Patho-
mitivos: a participao seria anterior  distino          logque, ai. Pathologisch; it. Patolgico). O que
entre as coisas que participam. "A participao             representa doena ou manifestao de doena.
no se estabelece entre um morto e um cad-                 O nico uso especificamente filosfico deste
ver mais ou menos nitidamente representados                 termo encontra-se em Kant, em que designa
(caso em que teria a natureza de relao e de-              tudo o que diz respeito  "faculdade inferior de
veria ser possvel esclarec-la por meio do inte-           desejar", ou seja, ao conjunto das inclinaes
lecto); ela no vem depois das representaes,              humanas naturais. Do ponto de vista kantiano,
nem as pressupe, mas  anterior a elas, ou                 no  P. somente a chamada "faculdade supe-
pelo menos simultnea. O que  dado em pri-                 rior de desejar", que  a razo prtica indepen-
meiro lugar  a participao" (Les carnets, I;              dente de todas as inclinaes sensveis (Crt. R.
trad. it., p. 36-37).                                       Prtica,  3" Schol. I). J. Bentham chamou de
    PARTICULAR (gr. Kocx (ipo; lat. Par-                 patologia a considerao e a classificao dos
ticularis; in Particular, fr. Particulier, it. Par-         mveis sensveis da conduta, indicando com
ticolare). Que  uma parte ou pertence a uma                esse termo "a teoria da sensibilidade passiva",
parte. A proposio P. foi definida por Aristte-           enquanto chamava de dinmica "o uso poss-
les da maneira seguinte: "Chamo de P. a propo-              vel, por parte do moralista e do legislador, des-
sio que expressa a inerncia a alguma coisa               ses mesmos mveis para determinar a conduta
PATRIST1CA                                             746                                            PECADO

humana com vistas  mxima felicidade poss-                 ser tratado como inimigo aquele a quem se te-
vel" {Springs ofAction, 1817).                               nha pedido essa garantia em vo" (Zum ewigen
    PATRSTICA (in. Patristic, fr. Patristique-,             Frieden, 1796,  2). Para Whitehead, a P.  um
ai. Patristik, it. Patristica). Indica-se com este           conceito metafsico, "a harmonia das harmo-
nome a filosofia crist dos primeiros sculos.               nias que aplaca a turbulncia destrutiva e
Consiste na elaborao doutrinai das crenas                 completa a civilizao" (Adventures of Ideas,
religiosas do cristianismo e na sua defesa con-              XX,  2).
tra os ataques dos pagos e contra as heresias.                  PECADO (lat. Peccatum; in. Sin; fr. P-
A P. caracteriza-se pela indistino entre reli-             ch, ai. Snde. it. Peccato). Transgresso inten-
gio e filosofia. Para os padres da Igreja, a re-            cional de um mandamento divino. Esse termo
ligio crist  a expresso ntegra e definitiva             tem conotao sobretudo religiosa: P. no 
da verdade que a filosofia grega atingira imperfei-          a transgresso de uma norma moral ou jur-
ta e parcialmente. Com efeito, a Razo (Jogos)               dica, mas a transgresso de uma norma consi-
que se fez carne em Cristo e se revelou plena-               derada imposta ou estabelecida pela divindade.
mente aos homens na sua palavra  a mesma                    O reconhecimento do carter divino de uma
que inspirara os filsofos pagos, que procura-              norma e a inteno de transgredi-la so os dois
ram traduzi-la em suas especulaes.                         elementos desse conceito, sem os quais se con-
    A P. costuma ser dividida em trs perodos.              funde com os conceitos de culpa, delito, erro,
O primeiro, que vai mais ou menos at o sc.                 crime, etc, que designam a transgresso de
III,  dedicado  defesa do Cristianismo contra              uma norma moral ou jurdica.
seus adversrios pagos e gnsticos (Justino,                    O conceito de P. foi elaborado pela teologia
Taciano, Atengoras, Tefilo, Irinen. Tertuliano,            crist nesses termos. S. Agostinho definia o P.
Mincio Flix, Cipriano, Lactnco). O segundo               como "o que  dito, feito ou desejado contra a
perodo, que vai do sc. III at aproximada-                 lei eterna", entendendo por lei eterna a vonta-
mente a metade do sc. IV,  caracterizado                   de divina cujo fim  conservar a ordem no
pela formulao doutrinai das crenas crists;              mundo e fazer o homem desejar cada vez mais
o perodo dos primeiros grandes sistemas de                  o bem maior e cada vez menos o bem menor
filosofia crist (Clemente de Alexandria, Or-               (Contra Faustum, XXII, 27). S. Toms de Aqui-
genes, Baslio, Gregrio Nazianzeno, Gregrio                no certamente aceitava essa definio ao dizer
de Nissa, S. Agostinho). O terceiro perodo,                 que para o homem a lei eterna  dplice: "l'ma
que vai da metade do sc. V at o fim do sc.                 prxima e homognea,  a prpria razo
VIII,  caracterizado pela reelaborao e pela               humana; a outra  a regra primeira, a lei eterna
sistematizao das doutrinas j formuladas,                  que  quase a razo de Deus'1 (S. Th., II, 1, q,
bem como pela ausncia de formulaes ori-                   71, a. 6). S. Toms de Aquino insiste, de um
ginais (Neinsio, Pseudo-Dionsio, Mximo                    lado, na voluntariedade (intencionalidade) do
Confessor, Joo Damasceno, Marciano, Capella,                P., em virtude da qual se poderia definir o P.
Bocio, Isidoro de Sevilha, Beda, o Venervel).              unicamente mediante a vontade, no fosse o
A herana da P. foi recolhida, no incio do                  fato de os atos externos tambm pertencerem
renascimento carolngio, pela F.scolstica (v.).             ao P. e por isso deverem ser mencionados em
    PAZ (in. Peace; fr. Paix. ai. Friede; it. Face).         sua definio (Ibid, ad. 2S). Por outro lado, in-
A mais famosa definio de P. foi dada por                   siste em dizer que todo P. , como tal, um P.
Ccero, em Filpicas: "Fax est tnuiqitilla liber-            contra Deus, embora os P. contra Deus consti-
tas" (FbiL, 2, 44, 113), muitas vezes repetida.              tuam, de outro ponto de vista, uma categoria
De modo mais geral, a P. foi definida por                    especial (.S". 77?.. II, 2, q. 72. a. 4, ad 1").
Hobbes como a cessao do estado de guerra,                      Pode-se dizer que esse conceito de P. no
ou seja, do conflito universal entre os homens.              se alterou atravs dos tempos. Kant repete-o
Portanto, "procurar obter a P.", segundo Hob-                ao definir o P. como "a transgresso da lei moral
bes.  a primeira lei tia natureza (Leriatb., I,             vista como mandamento divino" {Religion, 1,
14). Como Hobbes, Kant julgava que o estado                  se. IV; II, se. 1, c; trad. it.. Durante, pp. 31,
de P. entre os homens no  natural e que, por-              68); o mesmo faz Kierkegaard, ao afirmar que
tanto, ele tem de ser institudo, pois "a ausn-             o P.  perante Deus, e que consiste em "buscar
cia de hostilidade no significa segurana, e se             desesperadamente a identidade ou em fu-
esta no for garantida entre vizinhos (o que s              gir desesperadamente  identidade", o que
pode realizar-se num estado legtimo) poder                 significa que consiste no desespero de no ter f
PECADO ORIGINAL                                          747                                       PEDAGOGIA

(Die Krankheit zum Tode, II, c a p .   I, trad.   it.,         homem para o mal deriva da natureza de suas
Fabro, p. 300). O que Kierkegaard acrescenta                  mximas. E diz: "A proposio 'o homem 
o carter excepcional do P., que corresponde                    mau significa apenas que o homem est ciente
ao carter excepcional da f. O P. no  de to-                da lei moral, mas acolheu o princpio de afas-
dos os dias: "Ser pecador, no sentido mais rigo-               tar-se ocasionalmente dessa lei. Dizer que ele
roso, est bem longe de ser meritrio. No en-                   n\i\ por natureza s\gn\ic/ que isso vale para
tanto, como se pode achar uma conscincia                      toda a espcie humana, no no sentido de que
essencial do P. (o que alis  indispensvel                   essa qualidade possa ser deduzida do conceito
para o Cristianismo) numa vida to mergulha-                   de espcie humana (do conceito de homem
da na trivialidade. to reduzida  imitao vul-               em geral) -- porque ento seria necessria--,
gar dos outros, que  quase impossvel dar-lhe                 mas no sentido de que o homem, do modo
nome, pois  desprovida demais de esprito                     como  conhecido por experincia, no pode
para poder ser chamada de P.?" (Ibid, II, B,                   ser julgado de outra maneira ou no sentido de
Acrscimo A; trad. it., p. 328).                               que se pode pressupor como objetivamente
    PECADO ORIGINAL (lat. Peccatum origi-                      necessria a tendncia ao mal em qualquer ho-
nale; in. Original sin; fr. Pch originei; ai.                mem, at no melhor" (Religion, I, 3; trad. it.,
Erbsnd; it. Peccato originat). As discusses                 Durante, p. 18). Substancialmente idntica a
filosfico-teolgicas a respeito do P. original                esta  a interpretao do P. original dada por
geralmente tiveram como objeto a maneira                       Kierkegaard, que discerniu a condio e a reali-
como esse P. se transmitiu de Ado aos outros                  dade psicolgica dele na angstia: "A proibi-
homens. S. Toms de Aquino enumerava duas                      o de Deus angustia Ado porque desperta
hipteses principais, aduzidas para a soluo                  nele a possibilidade da liberdade. O que na
desse problema: a hiptese do traducianismo,                   inocncia era o nada da angstia passou ento
segundo a qual "a alma racional transmite-se                   a fazer parte da inocncia, sendo a tambm
com a semente, de tal maneira que de uma                       um nada. ou seja, a possibilidade angustiante
alma infecta derivam almas infectas", e a hi-                  de poder. Do que pode no tem a menor idia;
ptese da hereditariedade, segundo a qual "a                   caso contrrio, pressupor-se-ia, como aconte-
culpa da alma do primeiro genitor transmite-se                 ce habitualmente, aquilo que segue, que  a
 prole, embora a alma no se transmita do                     diferena entre o bem e o mal. Em Ado s h
mesmo modo como os defeitos do corpo se                        a possibilidade de poder, como forma superior
transmitem de pai para filho". Ambas as hi-                    de ignorncia, como expresso superior de an-
pteses pareciam insustentveis a S. Toms de                  gstia, porque em sentido mais elevado esta
Aquino, e ele anunciava a sua dizendo que                      possibilidade  e no , e Ado ama-a e foge
"todos os homens nascidos de Ado podem                        dela" (Der Begriff Angst, I.  5; trad. it., Fabro,
considerar-se um nico homem, porquanto tm                    p. 54). Tambm aqui, como se v, no se trata
a mesma natureza, recebida do primeiro genitor,                da origem temporal, mas da origem racional do
da mesma maneira como nas cidades todos os                     P. original, e aqui tambm essa origem  vista
homens que pertencem  mesma comunidade                        numa possibilidade, indeterminada ou "indefi-
se julgam um s corpo, e a comunidade inteira                  nida", como a chama Kierkegaard, que  tam-
 como um nico homem" (II, 1, q. 81, a. 1).                   bm a possibilidade de agir contra a proibio
Alguns sculos depois, em sua Teodicia (1710),                divina. Para Kierkegaard, assim como para Kant,
Leibniz enumeraria as mesmas hipteses                         o P. original consistiria, portanto, na perspectiva
(Thod., I,  86), entre as quais oscilou sempre               de uma possibilidade, que, como tal, pode
o pensamento teolgico.                                        implicar a infrao  norma moral ou  proibi-
                                                               o divina.
    Alis,  s em Kant e em Kierkegaard que se
encontra uma interpretao filosfica (e no                       PEDAGOGIA (in. Pedagogv, fr. Pdagogie;
teolgica) do P. original. Kant observou que                   ai. Pdagogik, it. Pedagogia). Este termo, que
no se deve confundir a questo da origem                      na sua origem significou prtica ou profisso
temporal de uma coisa com a questo de sua                     de educador, passou depois a designar qual-
origem racional, o problema da origem tempo-                   quer teoria da educao, entendendo por
ral deve ser resolvido pela doutrina bblica do                teoria no s uma elaborao organizada e ge-
P. original, mas o da origem racional do mal                   nrica das modalidades e possibilidades da
deve ser solucionado pela doutrina do "mal                     educao, mas tambm uma reflexo ocasional
radical", segundo a qual a disposio inata do                 ou um pressuposto qualquer da prtica educa-
PEDAGOGIA                                             748                                      PEDOLOGIA


 cional. Neste sentido, na Antigidade clssica a           sc. XX. Fssa forma de idealismo negava a
 pedagogia no tinha a dignidade de cincia                 diversidade das pessoas, julgando-as unidas ao
 autnoma, mas era considerada parte da tica               Esprito Universal, e identificava o desenvolvi-
 ou da poltica, c por isso elaborada unicamente            mento pessoal do homem com o desenvol-
 em vista do fim que a tica ou a poltica pro-             vimento universal do Esprito. Estas teses eram
 punham ao homem. Por outro lado, os expe-                  apresentadas como uma soluo da P. na filo-
 dientes ou os meios pedaggicos s eram                    sofia. Gentile dizia: "Quando por esprito s se
 estudados em relao  primeira educao,                  entende o desenvolvimento, a formao, a
 ministrada na infncia, portanto s mais ele-              educao, em suma, do Esprito, a prpria filo-
 mentares aquisies (ler, escrever, contar). As-           sofia (toda filosofia, contanto que a realidade
 sim, at certa altura, a reflexo pedaggica  di-         seja concebida absolutamente como Esprito)
 vidida em dois ramos isolados: um de natureza              transforma-se em P., e a forma cientfica dos
 puramente filosfica, elaborado com vistas aos             problemas pedaggicos particulares transforma-
fins propostos pela tica, e outro de natureza              se em filosofia" (Sommario di pedagogia, II.
 emprica ou prtica, elaborado com vistas                 1912, p. 15). Xa mesma poca, porm, fazia-se
 preparao primeira e elementar da criana                 a tentativa simetricamente oposta de reduzir a
 para a vida.                                               P. a cincia mecnica, tomando a fsica como
     Pode-se dizer que esses dois ramos se unem             modelo e mudando seu nome para pedologia
 pela primeira vez no sc. XVII, graas a G. A.             (v.), com a alegao de que, dominando-se o
 Comnio, que pretendeu integrar no domnio                 mecanismo psicolgico, pode-se dirigir a for-
 da P. a organizao metodolgica que Francis               mao mental dos homens do mesmo modo
 Bacon pretendera integrar no domnio das                   como  possvel dirigir as foras da natureza
 outras cincias. Para tanto, elaborou um siste-            utilizando as leis da natureza.
 ma pedaggico completo, fundado no prin-                       Pode-se dizer que a P. contempornea, em
 cpio dapansofia(v.), que partia de considera-             sua forma mais amadurecida, comea quando
 es sobre os fins da educao para chegar                 so postas de lado as pretenses opostas de re-
 ao estudo dos meios e dos instrumentos di-                 duzir o homem a esprito absoluto ou a meca-
 dticos. A partir de Comnio, a experincia                nismo, e o homem comea a ser julgado e
 pedaggica do Ocidente foi-se enriquecendo                 considerado como natureza, sem ser degrada-
 e aprofundando, com as tentativas de achar                 do o mecanismo. A noo de condicionamen-
 novos mtodos educacionais. As obras de Locke.             to (v. CONDIO)  a que prevalece hoje na P.,
 Rousseau, Pestalozzi, Frebel so muito impor-             alijando dela tanto o indeterminismo idealista
 tantes desse ponto de vista, inclusive por terem           quanto o determinismo mecanicista. Alm dis-
 esses autores combinado os mtodos educacio-               so, a experincia pedaggica hoje  enrique-
 nais, com as novas concepes filosficas que              cida pelo estudo da educao nas sociedades
 iam surgindo pouco a pouco. Assim, pode-                   primitivas, o que possibilitou, por um lado,
 mos dizer que Locke representa a P. do                     uma generalizao do prprio conceito de edu-
 empirismo; Rousseau, a P. do iluminismo;                   cao(v.) e, por outro, fazer confrontos e para-
 Pestalozzi, a P. do criticismo; e Frebel. a do            lelos eficazes no terreno dos instrumentos edu-
 romantismo. Todavia, a organizao cientfica              cacionais. Alm da psicologia, a antropologia e
 da P. deve muito a Herbart, que foi o primeiro             a sociologia tambm contribuem hoje para pro-
 a distinguir e unir os dois ramos da tradio pe-          ver a P. com um conjunto de instrumentais nas
 daggica num sistema coerente. Herbart distin-             reas em que o problema dos fins permanece
 guiu os fins da educao (que a P. deve haurir             aberto; ademais, do ponto de vista pedaggi-
 da tica) e os meios educacionais (que a P.                co, os fins tendem hoje a ser apresentados de
 deve haurir da psicologia), procurando elabo-              forma hipottica, e no da forma absoluta e
 rar, distinta e correlativamente, essas duas par-          dogmtica como eram pressupostos pela P. tradi-
 tes integrantes. (Allgemeine Pdagogik. 1806;              cional (v. CULTURA-, EDUCAO).
  Umris pdagogischer Vorlesiingen, 1835).                      PEDOLOGIA (in. Paidology, fr. Pdologie,
   A partir da, a psicologia tornou-se a princi-           ai. Paidologie; it. Pedologia). Cincia exata
pal cincia auxiliar da pedagogia. A nica exce-            da educao, em oposio  pedagogia, que
o infeliz a essa conexo foi representada                 seria a arte emprica da educao. Pelo menos
pela forma de idealismo romntico que pre-                  foi o significado dado a esse termo por aqueles
valeceu na Itlia nos primeiros decnios do                 que o introduziram: o alemo O. Chrisman
PEDOTECNICA                                            749                                                PENA

(Paidologie. 1894) e o francs E. Blum (cf. seus             nhou e outro bateu, ou ento quando algum
artigos em Revuephilosophique, maio 1897, no-                matou e outro morreu, no h relao de igual-
vembro 1898). Seu pressuposto deveria ser a                  dade entre o dano e o direito, mas o juiz procu-
psicologia experimental, da qual seriam extra-              ra remediar essa desigualdade com a P. que in-
dos os instrumentos educacionais relativos s                flige, reduzindo a vantagem obtida" (Ht. nic,
vrias idades cio homem. Esse conceito no                   V, 4, 1132 a 5; cf. 8, 1132 b 21). Este conceito
desapareceu; ao contrrio, fundamenta boa parte              j fora estendido do homem ao mundo por
da psicologia contempornea, mas o termo P.,                 Anaximandro cie Mileto, que afirmara: "Todos
depois de breve aceitao, foi abandonado.                   os seres devem pagar uns aos outros, segundo
    PEDOTECNICA(fr. Pdotechni). Uma -So-                   a ordem do tempo, o preo da sua injustia"
ciedade de P." foi fundada em 1906 em Bru-                   (fr., 1, Diels). A P. serve neste caso para restabe-
xelas por Dcroly: o termo tinha o mesmo sig-                lecer a ordem csmica. Esta tambm  a funo
nificado de pedologia.                                       atribuda pelo ponto de vista religioso. Plotino
    PEIRSTICA (gr. TOipaaxtKti T^vn). Se-                  diz: Cumprimos a funo que por natureza
gundo Aristteles, a arte de submeter uma tese               cabe  alma enquanto no nos perdemos na
 prova, deduzindo suas conseqncias.  uma                 multiplicidade do universo; e se nos perdemos
parte da dialtica e distingue-se da sofistica               sofremos a P., tanto com nossa prpria perda
porque se destina ao adversrio ignorante,                   quanto com o destino infeliz que mais tarde
ao passo que a sofistica tende a derrotar tam-               nos espera" (Hun.. II, 3. 8); as mesmas palavras
bm quem possui cincia (El. sof., 8. 169 b 25;              acham-se em S. Agostinho (De civ. Dei, V, 22).
171 b 4).                                                    S. Toms de Aquino diz: "Como o pecado  um
    PELAGIANISMO (in. Pelagianism, fr. Pla-                 ato contrrio  ordem,  bvio que quem peca
ganisme, ai. Pelagianismus-, it. Pelagianismo).             age contra certa ordem, seguindo-se que por
Doutrina do monge ingls Pelgio, que, no in-               essa mesma ordem  reprimido; e essa repres-
cio do sc. V, ensinou em Roma e Cartago; em                 so  a P." (S. Tb.. I, II, q. 87, a. 1). Com o mes-
polmica com S. Agostinho, sua doutrina dizia                mo esprito, Kant afirmava de modo s aparen-
que o pecado de Ado no enfraqueceu a ca-                   temente paradoxal: "Mesmo que a sociedade
pacidade humana de fazer o bem, mas                         civilizada se dissolvesse com o consenso de to-
apenas um mau exemplo, que torna mais di-                    dos os seus membros (se, p. ex., um povo que
fcil e penosa a tarefa do homem. S. Agosti-                 habitasse uma ilha decidisse separar-se e dis-
nho combateu essa tese em muitas obras, a                    persar-se pelo mundo), o ltimo assassino que
partir de 412, defendendo a tese oposta: de                  estivesse na priso deveria antes ser justiado,
que toda a humanidade pecara com Ado e                      para que cada um proferisse a pena por sua
em Ado e que, portanto, o gnero humano                    conduta e o sangue derramado no recasse
uma nica "totalidade condenada": nenhum de                  sobre o povo que no exigiu punio" (Mel.
seus membros pode escapar  punio a no                    der Sitten, I, II. se. 1, E; trad. it., p. 144). Do
ser por misericrdia e pela graa (no obri-                 mesmo ponto de vista, Hegel considerava a P.
gatria) de Deus (cf. De civ. Dei, XIII, 14) (v.             como "a verdadeira conciliao do direito con-
GRAA).                                                      sigo mesmo", como "respeito objetivo e conci-
                                                             liao da lei que se restaura atravs da anula-
   PENA (gr. Kn; lat. Poena; in. Penalty, fr.              o do delito e assim se valida" (Fil. do dir.,
Peme, ai. Strafe, it. Pena). Privao ou castigo              220). As anteriormente citadas so as princi-
previsto por uma lei positiva para quem se                   pais opinies que podem ser coligidas entre os
torne culpado de uma infrao. O conceito de                 filsofos a favor da teoria da P. como restaura-
pena varia conforme as justificaes que lhe                 o da ordem da justia. Mas so palavras que
foram dadas, e tais justificaes variam segun-              inspiraram e at hoje inspiram numerosas dou-
do o objetivo que se tenha em mente: ly ordem                trinas jurdicas, bem como as instituies e leis
da justia; 2" salvao do ru; 3y defesa dos                nelas fundadas.
cidados.
    - O mais antigo conceito de pena  o que                    2- O conceito da P. como salvao ou corre-
lhe atribui a funo de restabelecer a ordem da              o do ru muitas vezes est ligado ao conceito
justia. lista  a funo atribuda por Aristteles,         acima. A sua defesa mais clebre talvez esteja
para quem a justia no consiste na P. cie talio,           em Grgias, de Plato, para quem  melhor so-
e o objetivo da P.  restabelecer a justia em               frer a injustia que comet-la, e para quem co-
sua devida proporo: "Quando algum apa-                    meteu injustia a melhor coisa  submeter-se 
PENA                                                  750                                                 PENA

pena. "Se uma culpa  cometida" -- diz Plato               delito e a que pune quem o comete" (De eive.
-- " preciso ir o mais depressa possvel aonde              1642, XIV,  7). Este conceito seria adotado
a P. possa ser cumprida, ou seja, ao juiz, que             pela filosofia jurdica do lluminismo.  retoma-
como um mdico, para que a doena da injusti-               do por Samuel Pufendorf, que atribui  P. a
a no se tome crnica e no torne a alma cor-              tarefa principal "de dissuadir os homens do
rompida e incurvel" (Grg., 480 a). Com efei-              pecado com seu rigor" (De jure naturae, 1672,
to, "quem cumpre a P. sofre um bem", no                     VIII, 3, 4), sem excluir, todavia, a correo do
sentido de que "se for punido com justia, fica-            ru (Ibid.. VIII, 3, 9). Mas foi com Cesare Beccaria
r melhor" e "libertar-se- do mal" (Ibid., Ali             que esse conceito prevaleceu: fundamentou
a); assim, a P.  uma purificao ou libertao             sua obra Dei dititti e dellepene (1764). Segun-
que o prprio culpado deve querer. Essa fun-                do Beccaria, a P. no passa de motivo sensvel
o purificadora  muitas vezes reconhecida                 para reforar e garantir a ao das leis, de tal
por aqueles que vem na P. o restabelecimento               maneira que "as penas que excedam da neces-
da justia. Apesar de Kant afirmar que "a P.                sidade de conservar a sade pblica so injus-
nunca pode ser decretada como meio para                     tas por natureza" (Dei diritt e delle pene,  2).
atingir um bem, seja em proveito do criminoso,              Do mesmo ponto de vista, Bentham considera-
seja em proveito da sociedade civilizada, mas               va a P. como uma entre as vrias espcies de
deve ser-lhe aplicada apenas porque ele come-               sanes(y.) cuja funo  servir de "estimulan-
teu um crime" (Met. derSitten, I, II, se. 1, E; p.         tes da conduta humana", porquanto "transfe-
142), negando assim qualquer conexo entre                  rem a conduta e suas conseqncias para a
as duas concepes de P., S. Toms de Aquino                esfera das esperanas e dos temores: espe-
reconhecia essa conexo e dizia: "As P. da vida             ranas de um excedente de prazeres; temores
presente so medicinais; assim, quando uma P.               que prevem por antecipao um exce-
no  suficiente para deter um homem, acres-                dente de dores" (Deontology, 1834, I, 7). Os
centa-se outra, como fazem os mdicos que                   mesmos conceitos fundamentais foram valida-
empregam diversos remdios quando um s                     dos pela denominada "Escola Positiva Italiana"
no  eficaz" (S. Th., II, 2, q. 39 a. 4, ad 3y).           (Lombroso. Ferri e outros), que os defendeu
Analogamente, Hegel afirmava que a P. no                  com certo sucesso na discusso filosfico-jur-
somente a conciliao da lei consigo mesma,                 dica a respeito do direito penal.
mas tambm a conciliao do delinqente com                     No h dvida de que a maioria dos juristas,
sua lei, com a lei "conhecida e vlida para ele,            dos filsofos do direito, dos cdigos e dos di-
destinada  sua proteo"; nessa conciliao, o             reitos positivos vigentes nas vrias naes do
delinqente encontra "a satisfao da justia e             mundo inspiram-se numa concepo mista ou
o seu prprio interesse" (Fil. do dir.,  220).             ecltica da P., considerando-a, na maioria das
   3Q A terceira concepo de P. atribui-lhe a              vezes, sob os trs ngulos aqui apresentados.
funo de defender a sociedade. Deste ponto                 Este sincretismo no cria nenhuma dificuldade
de vista, a P. : a) um mvel ou estmulo para a            do ponto de vista terico, ainda que os trs
conduta dos cidados; b) uma condio fsica                pontos de vista no tenham o mesmo grau de
que pe o delinqente na impossibilidade de                 homogeneidade. Os primeiros dois unem-se
prejudicar. Os filsofos acentuaram sobretudo               facilmente e tambm na prtica esto freqen-
o primeiro carter. Aristteles j notava que to-           temente juntos, enquanto o terceiro pertence a
dos aqueles que no tiveram a sorte de receber              uma ordem diferente de pensamento: os dois
da natureza uma ndole liberal (e so os mais               primeiros inspiram-se na tica dos fins; o ou-
numerosos) absttn-se dos atos vergonhosos                  tro, na tica do mvel (v. TICA). Mas as dificulda-
s por medo das penas. E diz: "A maioria obe-               des comeam no terreno prtico, quando 
dece mais  necessidade que  razo, mais s P.             preciso estabelecer a medida da pena. Neste
cjue  honra" (Et. nic, X, 9. 11 80 a 4; cf. 1179 b         campo, as trs concepes manifestam hetero-
11). Mas o que Aristteles considerava o mvel              geneidade. De acordo com o primeiro ponto
das almas servis a concepo aqui examinada                 de vista, todas as infraes  ordem da justia
considerava o mvel nico e fundamental.                    so equivalentes: um furto insignificante fere
Hobbes afirma que " ineficaz a proibio que               essa ordem tanto quanto um crime perpetrado
no venha acompanhada pelo temor da P., sen-                com fraude e violncia. De acordo com o se-
do, pois, ineficaz uma lei que no contenha                 gundo ponto de vista, somos levados a crer
ambas as partes, a que probe de cometer um                 qtie a pena, assim como um purgativo,  mais
PENSAMENTO                                            751                                         PENSAMENTO


eficaz quanto mais forte.  s de acordo com o              (tvoia) quanto o intelecto intuitivo (vo)
terceiro ponto de vista, como notava Hegel, ou              (Rep., VII, 534 a), e outras vezes a palavra
seja, segundo a periculosidade para a socieda-              Sivoioc, como faz quando define o P. em geral
de civil, que as P. podem ser convenientemen-               como o dilogo da alma consigo mesma.
te graduadas (cf. HEGEL, Fil. dodir.,  218). Nes-          "Quando a alma pensa" -- diz ele -- "no faz
te terreno, portanto, a confuso e a mescla dos             outra coisa seno discutir consigo mesma por
vrios conceitos de P. est longe de ser incua,            meio de perguntas e respostas, afirmaes e
sendo o motivo principal da desordem e das                  negaes; e quando, mais cedo ou mais tarde,
desigualdades existentes nos sistemas penais                ou ento de repente, decide-se, assevera e no
vigentes.                                                   duvida mais, dizemos que ela chegou a uma
    PENSAMENTO (gr. VT|OI, Sivoioc; lat.                 opinio" (Teet., 190 e, 191 a; cf. Sof., 264 e). No
Cogitado; in. Thought; fr. Pense, ai. Denken; it.          mesmo sentido geral, Aristteles emprega a pa-
Pensiero). Podemos distinguir os seguintes sig-             lavra ivoioc como quando diz: "Pensvcl sig-
nificados do termo: 1" qualquer atividade men-              nifica aquilo sobre o que existe um P." (Met., V.
tal ou espiritual; 2- atividade do intelecto ou da           15, 1021 a 31).
razo, em oposio aos sentidos e  vontade;                    Este significado, que  o mais amplo (de-
3" Mividdc discursiva; 4- atividade intuitiva, -.          pois cio precedente), tornou-se tradicional e 
    1Q O significado mais amplo do termo, que               compartilhado por todos os que admitem a no-
indica qualquer atividade ou conjunto de ativi-             o do intelecto como faculdade de pensar em
dades espirituais, foi introduzido por Descartes:           geral: na realidade as duas noes coincidem.
"Com a palavra 'pensar', entendo tudo o qtie                S. Agostinho (De Trin., XIV, 7) e S. Toms de
acontece em ns, de tal modo que o perceba-                 Aquino (S. Th., II, 2, q. 2 a. 1) admitem esse
mos imediatamente por ns mesmos; por isso                  significado genrico ao lado do significado es-
no s entender, querer e imaginar, mas tam-                pecfico de P. discursivo (v. adiante). Neste sen-
bm sentir  o mesmo que pensar" (Princ.                    tido, o P. constitui a atividade prpria de certa
phil., I, 9; cf. Md., II). Esse significado  con-         faculdade distinta do esprito humano, mais
servado pelos eartesianos (cf.. p. ex.. MALE-               precisamente a faculdade  qual pertence a
BRANCHE, Kecherche de Ia vrit, I. 3, 2) e aceito          atividade cognoscitiva superior (no sensvel).
por Spinoza, que inclui entre as maneiras do P.             Wolff definia neste sentido: "Dizemos que
"o amor, o desejo e qualquer outra afeio da               estamos pensando quando estamos cientes da-
alma" (Et., II, axioma III). Locke fazia aluso a           quilo que acontece em ns, que representa as
esse significado, mesmo notando que em in-                  coisas que esto fora de ns" (Psychol. empi-
gls pensamento significa mais propriamente                 rca,  23). Este significado constitui, hoje tam-
"operao do esprito sobre as prprias idias"             bm, o emprego mais comum desse termo na
(P. discursivo) e preferindo por isso a palavra             linguagem corrente.
"percepo" {Ensaio, II, 9, D- O mesmo signifi-                 3Q O terceiro significado de P. especifica-o
cado era aceito por Leibniz, que definia o P.               como P. discursivo.  esse o P. que Plato cha-
como "uma percepo unida  razo, cjue os                  mava de diania, considerando-o rgo das
animais, pelo que nos  dado ver, no pos-                  cincias propeduticas (aritmtica, geometria,
suem" (Op., ed. Erdmann, p. 464), e obser-                  astronomia e msica), encaminhamento e pre-
vava que esse termo podia ser interpretado                  parao para o pensamento intuitivo do inte-
tambm com o significado mais geral de per-                 lecto (Rep., VI, 511 d). S. Agostinho negava que
cepo, e neste caso o P. pertenceria a todas as            o Verbo de Deus pudesse chamar-se P. neste
entelquias (tambm aos animais) (Nouv. ess.,               sentido (De Trin., XV, 16); o mesmo fazia S. To-
II, 21, 72). A tradio desse significado inter-            ms de Aquino, porque neste sentido pensar 
rompe-se com Kant e no  retomada na filoso-               "uma considerao do intelecto acompanhada
fia moderna.                                                pela indagao, sendo portanto anterior  per-
    2" No segundo significado, esse termo de-               feio que o intelecto atinge na certeza da vi-
signa a atividade do intelecto em geral, distinta           so" (S. Th., II, 2, q. 2, a. 1; cf. I q. 34, a. 1). Se-
da sensibilidade, por um lado, e da atividade               gundo S. Toms de Aquino, este  o significado
prtica, por outro. Neste significado Plato em-            "mais apropriado" da palavra "P.". Neste signifi-
prega, s vezes, a palavra vcvnai, como quan-              cado, pode-se integrar o outro, que ele distin-
do designa com ela todo o conhecimento                      gue como terceiro (o primeiro  o genrico,
intelectivo, que encerra tanto o P. discursivo              conforme o n" 2), o P. como ato da faculdade
PENSAMENTO                                            752                                     PENSAMENTO


cogitativa (virlus cogitativa) ou razo particular              4" A caracterstica do conceito de P. como
( ratioparticularis), que corresponde  capaci-             intuio  a sua identidade com o objeto. Neste
dade estimativa dos animais e consiste em reu-              sentido. P.  atividade do intelecto intuitivo, ou
nir e comparar as intenes particulares, assim             seja, do intelecto que  viso direta do intelig-
como a razo intelectiva ou P. discursivo con-              vel, segundo Plato (Rep., VI. 511 c), ou que,
siste em reunir e comparar as intenes univer-             segundo Aristteles, identifica-se com o pr-
saisdbid., I, q. 78, a. 4). Vio s fazia expressar         prio inteligvel em sua atividade (Met., XII, 2,
os mesmos conceitos ao afirmar, em De anti-                 1072 b 18 ss.). Para o P. neste sentido os anti-
quissima italoruni sapientia (1710), que a                  gos usaram constantemente a palavra intelecto
Deus pertence a inteligncia (intelligere), que             (\.)\ j vimos que S. Agostinho e S. Toms de
 o conhecimento perfeito, resultante de todos              Aquino recusaram-se a estender a ele o signifi-
os elementos que constituem o objeto, e ao ho-              cado de "P.". Mas no idealismo romntico, ao
mem pertence s opensamento(cogitare), que                  mesmo tempo em que o intelecto era rebaixa-
 como ir recolhendo alguns dos elementos                   do  faculdade do imvel (v. INTELECTO), O P.
constitutivos do objeto (De antiquissima ita-               era alado  posio j ocupada pelo intelecto
lorum sapientia, I, 1). O empirismo referia-se             intuitivo, e identificado com ele. Fichte foi o
mesma noo de P. quando Hume, p. ex., afir-                primeiro a fazer isso, quando identificou o P.
mava que tudo o que o P. pode fazer consiste                com o Eu ou Autoconscincia Infinita ( Wissens-
"no poder de compor, transportar, aumentar ou               chaftslebre, 1794,  1); o mesmo fizeram
diminuir os materiais fornecidos pelos sentidos             Schelling e Hegel. Schelling afirmava: "Meu eu
e pela experincia" (Inq. Cone. Underst.. II;               contm um ser que precede qualquer pensa-
trad. it., 1910, p. 17). E este , finalmente, o            mento e representao. F. porque  pensado; e
conceito de Kant: "Pensar  interligar represen-             pensado porque . (...) Produz-se com meu
taes numa conscincia" (Prol,  22). O que                P., graas a uma causalidade absoluta" ( Vomkh
significa "pensar  o conhecimento por concei-              ais Prinzip der Philosopbie, 1795,  3). Hegel,
tos", e tambm "os conceitos, como predicados               por sua vez. foi quem expressou com mais
de juzos possveis, referem-se a algumas re-               clareza a identificao do P. com a autocons-
presentaes de um objeto ainda indetermi-                  cincia criadora, ou seja. como atividade que
nado", e portanto, quando esse objeto no                  coincide com sua prpria produo. Ao definir
dado  intuio sensvel, tem-se um "P. formal",            a lgica como "cincia do P.", afirmava que "ela
mas no um conhecimento propriamente dito,                  contm o P. porque  ao mesmo tempo a coisa
que consiste na unidade de conceito e intuio              em si mesma, ou contm a coisa em si mesma
(Crt. R. Pura, Anal. dos conceitos, se. 1,  22).         porque  ao mesmo tempo o P. puro" (Wis-
Ao P. neste sentido referia-se Hamilton, consi-             senschaft der Logik, Intr., Conceito geral; trad.
derando-o "ato ou produto da faculdade dis-                 it.. I, p. 32). E partindo do conceito discursivo
cursiva, ou faculdade das relaes" (Lectureon              de P.. Hegel chega ao seu conceito intuitivo:
Logic, V, 10: I. p. 73). Desse ponto de vista, a            "O P. no seu aspecto mais prximo mostra-se
atividade do P.  definida em termos de sntese,            sobretudo em seu significado subjetivo comum
unificao, confronto, coordenao, seleo,                como uma atividade ou faculdade espiritual, ao
transformao, etc, dos dados que so ofereci-              lado de outras (sensibilidade, intuio, fanta-
dos ao P., mas no por ele mesmo produzidos.                sia, apetio, querer, etc). O produto dessa
Portanto, a caracterstica do P. visto como ativi-          atividade, carter ou forma do P.  o univer-
dade discursiva , em ltima anlise, negativa:             sal, o abstrato em geral. O P. como atividade ,
o P. discursivo nunca se identifica com seu                 por isso, o universal ativo,  propriamente aquilo
objeto, mas versa sobre ele, ou seja, caracteri-            que se faz, visto que o feito, o produto,  justa-
za-o e expressa-o. Neste sentido. Frege chama               mente o universal. O P. representado como su-
de P. o contedo de uma proposio, o seu                   jeito,  o pensante; e a expresso simples do
sentido (v.) ("ber sinn und Bedeutung".  5;               sujeito existente como pensante  o eu" (Ene,
trad. it., em Aritmtica e lgica, p. 225). Neste            20). Em outros termos, o P.  ao mesmo tem-
mesmo sentido. Wittgenstein dizia: "O P.  a                po a atividade produtiva e o seu produto (o
proposio significante", e identificava P. e lin-          universal ou conceito): ele , portanto, a essn-
guagem com o fundamento de que "a totalida-                 cia ou a verdade cie tudo (bid.,  21). A partir
de das proposies  a linguagem" ('iractatus,              de Hegel essa noo intuitiva do P. foi s vezes
3, 5; 4; 4.001).                                            qualificada pelos seus defensores como concei-
PENSANTE, PENSAMENTO                                                                       PERCEPO


to "especulativo" do P., e considerado o nico         vra foi usada tambm por Locke: "A P.  a pri-
adequado, por entender o P. em sua infinidade          meira faculdade da alma exercida em torno das
e fora criadora. Mas na realidade tratava-se          nossas idias; por isso,  a primeira e mais sim-
ainda da velha noo de intelecto intuitivo            ples idia a que chegamos por meio da reflexo.
estendida ao homem, sem levar mais em conta            (...) Na P. pura e simples, o esprito geralmente
os limites e as condies que os antigos impu-          passivo, no podendo deixar de perceber o
nham a essa extenso.                                  que em ato percebe" (Ensaio. II, 9, 1). Da mes-
  PENSANTE, PENSAMENTO. V. ATIALISMO.                  ma maneira, Leibniz entende a P. como o que
    PERATOLOGIA. Termo com que Ardig                  a alma do homem e a alma do animal tm em
designou a parte geral da filosofia, cujo objeto       comum, como "a expresso de muitas coisas
 o que se acha alm dos campos particulares           em uma", e distingue-a da apercepo ou pen-
das cincias filosficas especializadas, que so       samento pelo fato de esta ltima ser acompa-
a psicologia e a sociologia (Opere Filosofiche.        nhada pela reflexo (Noiw. ess., II, 9. 1; cl. Op..
II. 1884, passim).                                     ed. Erdmann, pp. 438, 464, etc). No  diferen-
    PERCEPO (gr. vn}j\|/i; lat. Perceptkr,        te o sentido geral que Kant atribui  palavra,
in. Perception; ir. Perception-, ai. Wabnieh-          quando d nome de P.  "representao com
 niimg, Perception: it. Percezione). Podemos           conscincia", distinguindo-a em sensao (se
distinguir trs significados principais deste ter-     fizer referncia apenas ao sujeito) e conheci-
mo: Io um significado generalssimo. segundo            nwtitoisc for objetiva) (Crl. R. Pura. Dialtica,
o qual este termo designa qualquer atividade           Livro I, se. 1). E bastante bvio que P. nesse
cognoscitiva em geral; 2" um significado mais          sentido significa o mesmo que pensamento em
restrito, segundo o qual designa o ato ou a fun-       geral; o prprio Locke notava esta identidade
o cognoscitiva  qual se apresenta um objeto         de significado, mesmo preferindo pessoalmen-
real; 3" um significado especfico ou tcnico,         te a palavra P., porque pensamento, em ingls,
segundo o qual esse termo designa uma opera-           indica "a operao do esprito sobre as prpri-
o determinada do homem em suas relaes              as idias", enquanto na P. o esprito  geral-
com o ambiente. No primeiro significado P. no         mente passivo (Ensaio. II. 9, 1).
se distingue cie pensamento. No segundo,                  2U O segundo significado do .termo  mais
o conhecimento emprico, imediato, certo e             restrito; expressa o ato cognitivo objetivo, que
exaustivo do objeto real. No terceiro significa-       apreende ou manifesta um objeto real determi-
do  a interpretao dos estmulos. S no mbi-        nado (fsico ou mental). Este  o significado
to deste ltimo significado, podemos entender          originrio do termo, tal qual foi usado pelos
o que a psicologia hoje discute como "proble-          esticos como equivalente de compreenso
ma da percepo".                                      (KOCT^r|\|/i.): "Os esticos definem a sensao
    1" No seu significado mais geral, o termo foi      deste modo: a sensao  P. por meio do sen-
empregado por Telsio, segundo quem "a sen-            srio ou da compreenso" (Acio, Plac. IV. 8,
sao  a P. das aes das coisas, dos impulsos        1; cf. Epicuro. Fr. 250; Plotino, Enn.. VI, 7. 3.
do ar e das mesmas paixes e mudanas, espe-           29, etc). Ccero traduzia como perceptioo ter-
cialmente destas ltimas" (Derer. nat, VII, 3).        mo grego, tendo particularmente em vista o
F.sta doutrina abria polmica contra a tese de         sentido de representao catalptica (Acad.. II,
que a sensao consiste simplesmente na ao           6, 17; Definibus, III, 5. 17). Em sentido anlo-
das coisas ou na modificao do esprito. Te-          go, esse termo foi usado por S. Agostinho (De
lsio, porm, afirma que ela consiste na P. de         Trin.. IV, 20) e por S. Toms de Aquino; este
uma ou de outra. A mesma doutrina foi defen-           ltimo designava com ele "certo conhecimento
dida por Bacon, que se reportava explicitamen-         experimental" (S. Th.. I, q. 63, a. 5, ad 2). Essa
te  distino de Telsio (Deaugm. scient.. IV,        palavra foi reintroduzida no uso filosfico por
3). Descartes, por sua vez, empregava esse ter-        Telsio e Bacon (como j dissemos), e com
mo para indicar todos os atos cognitivos, que          eles seu significado comeou a distinguir-se do
so passivos em relao ao objeto, em oposi-           de sensao. Mas foi s Descartes que estabele-
o aos atos da vontade, que so ativos                ceu o significado novo e mais complexo do ter-
(Pass. de lme, I, 17). Descartes dividiu-as em:       mo. Falando das percepes externas, ele afir-
P. que se reportam aos objetos externos, as que        mava que, conquanto elas sejam produzidas
se reportam ao corpo e as que se reportam             por movimentos provenientes de coisas exter-
alma (IbitL, I, 23-25). Neste sentido geral, a pala-   nas, "ns as relacionamos com as coisas que
PERCEPO                                                                                    PERCEPO

supomos ser suas causas, de tal maneira que             sente na coisa o sujeito que percebe (cf. G.
acreditamos ver um archote e ouvir um sino               Brand, Welt, icb und Zeit. 1955, 3).  s apa-
quando apenas sentimos os movimentos que                 rentemente diferente a noo de Bergson da
deles vm" (Pass. de lme, I, 23). A partir de           "P. pura". Bergson diz: "A P. outra coisa no 
ento a distino entre sensao e P. torna-se          seno uma seleo. Ela nada cria: sua tarefa
fundamental na teoria da percepo. Essa dis-            eliminar do conjunto das imagens todas as
tino  expressa por C. Bonnet (Fssai analytique        imagens sobre as quais eu no teria nenhuma
sur les facultes de Teime, 1759, XIV. 195-96) e          pretenso e, depois, eliminar das imagens con-
pela escola escocesa do senso comum, espe-              servadas tudo o que no interessa s necessi-
cialmente por Reid (Inquiry into the Hunian             dades dessa imagem particular que denomino
Mnd, 1764, VI, 2). Em virtude dela, a sensa-          corpo" (Matreet mmoire, p. 235). Deste modo.
o  reduzida  idia simples de Locke: a uma          a P. delinearia, no interminvel campo das
unidade elementar produzida diretamente no              imagens conservadas na conscincia, o objeto
sujeito pela ao causai do objeto. A P.. por           destinado a servir s necessidades da ao e
outro lado, torna-se um ato complexo que in-            que delimita a ao possvel cio meu corpo.
clui uma multiplicidade de sensaes, presentes         Mas, mesmo assim, a tarefa da P. continua sen-
e passadas, e tambm a sua referncia ao ob-            do apreender ou delinear um objeto.
jeto, ou seja, um ato judicativo. Identificando P.          O conceito de P. ao qual essas doutrinas fa-
e intuio emprica, que  o conhecimento               zem referncia  bastante uniforme: a P.  o ato
objetivo, o resultado da atividade judicante            pelo qual a conscincia "apreende" ou "situa"
exercida sobre o multplice sensvel, Kant (Prol.,      um objeto, e esse ato utiliza certo nmero de
 10) j considerara includo na P. o ato judicati-     dados elementares de sensaes. Este concei-
vo. A presena de um juzo na P. torna-se tema          to, portanto, supe: ly a noo de conscincia
comum na filosofia do sc. XIX. Hegel levava            como atividade introspectiva e auto-reflexiva;
essa tese ao extremo quando considerava a P.            2" a noo do objeto percebido como entida-
(e a coisa que  seu objeto) como um produto            de individual perfeitamente isolvel e dada:
do Universal (da Conscincia ou do Pensamen-            31' a noo de unidades elementares sens-
to): "Para ns ou em si mesmo, o Universal,             veis. O abandono desses trs pressupostos
como princpio,  a essncia da P., e em face           caracteriza a nova fase do problema da P.,
dessa abstrao o que percebe e o que  per-            prpria da psicologia e da filosofia contem-
cebido so o no-essencial" (Pbnomen. des              porneas.
Geistes, I, Conscincia II, trad. it.. I, p. 97). Mas
 parte essa tese extremista (que no entanto                3<J Segundo o terceiro conceito, P. outra coi-
foi repetida at h pouco tempo pelas escolas           sa no  seno a interpretao dos estmulos, o
idealistas), a distino entre sensao e P. e o        reencontro ou a construo do significado <k-
reconhecimento do carter ativo ou judicati-            les. Essa definio  uma frmula simplificada
vo da V. tiveram como base a sua referncia             e genrica para expressar as caractersticas
ao objeto externo. Foi o que fizeram Hamilton,          mais evidentes que as teorias psicolgicas con-
que se inspirava na doutrina da escola escoce-          temporneas atribuem  P.; F. H. Allport enu-
sa (Lectures on Metaphysics, 5a ed., 1870, II, pp.      merou (e analisou criticamente) treze dessas
129 ss.), e Spencer, que muito contribuiu para          teorias (Theories ofPerception and the Concept
difundir esse ponto de vista (Principies ofPsy-         of Structure, 1955). No entanto,  preciso ob-
chology, 1855,  353). Bolzano (Wissenschafts-          servar que, por terem sido quase todas elas
lehre, 1837, I, p. l6l), Brentano (Psychologie          propostas por psiclogos pesquisadores que
vom empirischen Standpunkte, 1874, I, 3,  D,           as formularam como generalizaes experimen-
Helmoltz (Die Tatsachen in der Wahrnehmung,             tais, raramente representam alternativas que se
1879, p. 36) enfatizaram a ao do pensamento           excluam mutuamente, mas na maioria das ve-
ou do intelecto na P.; Brentano identificava P.         zes s evidenciam ou consideram fatores ou
e juzo ou crena (loc. cit.). Em sentido seme-         condies fundamentais que certa ordem de
lhante, Husserl fazia a distino entre 1'. e ou-       investigaes trouxe  tona. Apesar disso 
tros atos intencionais da conscincia, com base         possvel distinguir dois grupos de teorias: d)
em sua caracterstica de "apreender" o objeto           as que insistem na importncia dos fatores e
(Ideen, I,  37). Na percepo, a coisa mesma           das condies objetivas; b) as que insistem
est presente em seu ser, assim como est pre-          na importncia dos fatores e das condies
                                                        subjetivas.
PERCEPO                                                                             PERCEPO


   a) Ao primeiro grupo de teorias pertence,       denominado "espao de vida", ou seja, a regio
em primeiro lugar, a psicologia da forma (Ges-     onde o indivduo tem experincia da sua ao,
talttheorie), que  substancialmente uma teoria    espao que no tem propriedades mtricas ou
da percepo. O gestaltismo inicia-se com a        direes determinadas, sendo por isso lopo-
obra de Max Wertheimer sobre a P. do movi-         lgco. no sentido de poder ter em qualquer
mento (1912) e tem como outros expoentes           momento qualquer dimenso ou forma geom-
Wolfgang Kohler (GestaltPsycbcology, 1929) e       trica, ainda que mantenha as propriedades que
Kurt Koffka (Beitrge Zur Psychologie der          possibilitam o movimento (LF.WIN, Principies of
Gestalt, 1919). Seu objetivo  opor-se aos pres-    Topological Psychology, 1936). Podem ser con-
supostos 2" e 3y da concepo tradicional de       sideradas variantes dessa teoria: a de Hebb,
percepo. Mostrou, em primeiro lugar, que         para quem o campo perceptivo corresponde a
no existem (a no ser como abstrao artifi-      uni campo fisiolgico, a um "mecanismo de
cial) sensaes elementares que faam parte        ao neutra seletiva" que, para cada P. particu-
da composio de uni objeto, e, em segundo         lar', se situaria em algum ponto do sistema ner-
lugar, que no existe um objeto de P. como         voso central (The Organization of Behavior,
entidade isolada ou isolvel. O que se percebe     Nova York, 1949), e a teoria do "campo tnico-
 uma totalidade que faz parte de uma totalida-    sensoriar, segundo a qual "as propriedades per-
de. O gestaltismo dedicou-se a determinar as       ceptivas de um objeto so funo da maneira
"leis" com base nas quais essas totalidades so    como os estmulos provenientes do objeto mo-
constitudas, as "leis de organizao", que so:   dificam o estado 'tnico-sensorial' existente do
da proximidade, da semelhana, da direo, da      organismo" ( WF.RNF.R e WAPNER, "Toward a Ge-
boa forma, do destino comum, do fechamento,        neral Theory of Perception" em Psycbological
etc.; elas podem ser vistas em ao mesmo em        Reriew, 1952, pp. 324-38). Todas as teorias aqui
experincias muito simples, como p. ex. as que     mencionadas, concentradas como esto nos
revelam a tendncia a agrupar numa nica per-      conceitos de "totalidade" ou de "campo", privi-
cepo sinais semelhantes ou suficientemente       legiam de certo modo o aspecto objetivo da
prximos, ou ento constituam uma figura re-       percepo.
gular. A afirmao fundamental dessa teoria            b) Um segundo grupo de teorias tem em
que a P. sempre se refere a uma totalidade,        vista principalmente o aspecto subjetivo da P.
cujas partes, se consideradas separadamente,       Para estas teorias, no  vlido nem mesmo o
no apresentam as mesmas caractersticas: maio-     1" pressuposto da 2- concepo de P., o da
res simplicidade e clareza possveis e maiores     conscincia. Estas doutrinas com efeito no re-
simetria e regularidade possveis. Tais caracte-   correm  noo de conscincia nem  conside-
rsticas por vezes levaram os gestaltistas a       rao introspectiva. Uma quantidade enorme
admitir a teoria do "todo determinante", segun-    de observaes experimentais evidenciou a im-
do a qual o todo transcende stias partes e as      portncia, para a P., do estado de preparao
determina dinamicamente de acordo com suas         ou predisposio do sujeito, aquilo que geral-
prprias leis. Assim, o todo assemelha-se         mente se chama de "disposio" (sei) per-
"coisa" de que fala Husserl, a propsito da P.     ceptual. O fato fundamental  que estar dispos-
transcendente, porquanto a essncia da coisa       to para certo estmulo e para certa reao a um
integra em si e ao mesmo tempo transcende a        estmulo facilita o ato de perceber e possibilita
totalidade de suas manifestaes. Esta  a teo-    a sua realizao com maior prontido, energia
ria da P. substancialmente aceita em Pheno-        ou intensidade. A disposio, em outras pala-
 mnologie de Ia perception (1945) de M.           vras,  um processo seletivo (\V\Q determina pre-
Merleau-Ponty. Importante variante dessa teo-      ferncias, prioridades, diferenas qualitativas
ria  a do campo topolgico de Lewin, segundo      ou quantitativas naquilo que se percebe; no 
a qual o indivduo, reduzido a um ponto sem        diferente do prprio processo perceptivo, nem
dimenses, est submetido  ao das foras         um mecanismo inato ou prefixado, mas um
que agem no campo e que ele sente como             esquema varivel aprendido ou construdo,
alheias ao seu corpo. Nesta condio, o indiv-    ainda que nem sempre voluntariamente (cf. o
duo  considerado em "locomoo", isto ,          cap. 9 da obra citada de Allport). As mais re-
como que movendo-se para uma meta positiva         centes teorias da P. levam em considerao
ou como afastando-se de uma meta negativa.         es.ses fatos. Com base neles, a teoria transa-
O espao em que ocorre esse movimento  o          cional, p. ex., considera a P. como uma tran-
PERCEPO                                            756                                         PERCEPTO


sao, como um acontecimento que ocorre en-                ptese ou para confirm-la ou desmenti-la. As
tre o organismo e o ambiente, e no pode                   principais correlaes funcionais entre as vari-
portanto .ser reduzido  ao do objeto ou do              veis que a teoria comporta so as seguintes: I)
sujeito, nem  ao recproca dos dois. Como               Quanto mais forte  a hiptese, tanto maior 
transao, a natureza da P. deriva da situao             a probabilidade da sua evocao e tanto menor
total em que est inserida e tem suas razes tan-          a soma de indcios necessria para confirm-la.
to na experincia passada do indivduo quanto              Disso resulta que, quando a hiptese  fraca,
em suas expectativas de futuro (DFWF.Y e                   para a sua confirmao  necessria uma enor-
BFNTLFY, K)iuiving and the Known, 1949;                    me quantidade de informaes apropriadas. li)
CANTRII., AMHS, HASTORF, ITTKLSON, "Psychology             Quanto mais forte  a hiptese, tanto maior 
and Scientific Research", em Science, 1949, pp.            a soma de indcios necessria para invalid-la;
461, 491, 517; ITTF.LSON e CANTIL, Perception: a           e quanto mais Ira ca a hiptese, tanto menor 
 Transactional Approacb, 1954). Desse ponto                a quantidade de indcios contrrios necess-
de vista,  fcil evidenciar o carter ativo e             rios para invalid-la (cf. o art. de L. POSTMAN,
seletivo da P.. o fato de ela valer-se de indcios         em Social Psychology at the Crossroads, org.
com base nos quais reconstri o significado do             ROHRER e SHKRIF, Nova York, 1951; e ALLPORT,
objeto e. tambm sua outra caracterstica funda-           op cit., cap. 15). O que essa teoria faz  resu-
mental, que  o fato cie ser constituda de                mir, de forma menos dogmtica, tanto os dados
probabilidades, e no de certezas. Essas carac-            experimentais recolhidos por um expressivo
tersticas so apresentadas pelo funcionalis-              nmero de observadores quanto as caracte-
 mo, chamado de "New Look" da teoria da P., e              rsticas essenciais atribudas  P, pelas doutri-
levaram  teoria da motivao e  teoria das               nas contemporneas da psicologia, a partir da
hipteses. A primeira, que  chamada tambm                Gestalttheorie.
de teoria do "estado diretivo", funda-se no reco-
nhecimento da influncia que as necessidades                   Essas caractersticas podem ser recapitula-
fsicas, as expectativas do indivduo (p. ex., um          das da seguinte maneira: Io a P. no  o conhe-
castigo ou um prmio) e a sua personalidade                cimento exaustivo e total cio objeto, como jul-
exercem sobre o objeto percebido e sobre a ra-             gavam as teorias do nmero 2, e sim uma
pidez e a intensidade da P. (BKIINHR e KRF.CH,             interpretao provisria e incompleta, funda-
Perception and PersonalUy: a Symposium,                    mentada em indcios ou sinalizaes. 2Q A per-
Durham, 1950). Na segunda teoria, confinem                 cepo no implica nenhuma garantia de vali-
todos os dados experimentais em que se fun-                dade, nenhuma certeza; mantm-se na esfera
damentaram as teorias do presente grupo e                  do provvel. 3o Como qualquer conhecimento
boa parte dos dados experimentais em que se                provvel, para ser validada, a P. precisa ser
fundamentavam as teorias do primeiro grupo.                submetida  prova, sendo ento confirmada ou
A idia fundamental cia teoria da hiptese                rejeitada. 4U A P. no  um conhecimento per-
que as percepes (alis, assim como a lem-                feito e imutvel, mas possui a caracterstica da
brana ou o pensamento) constituem hipteses               corrigibilidade.
que o organismo aventa em determinadas si-                    PERCEPO INTELECTIVA. Foi assim que
tuaes e que so confirmadas, abandonadas                 Rosmini chamou o ato fundamental do co-
ou modificadas de acordo com essa situao. A              nhecimento, enquanto sntese entre a idia do
disposio (set), da qual falava uma das teorias,          ser em geral e a idia emprica que deriva da
 justamente a preparao para uma hiptese                sensao (das coisas externas) ou do sentimen-
desse gnero. A disposio constitui a expecta-            to (que o eu tem de si) (Nnoro saggo sullori-
tiva perceptual, que se baseia na experincia              ginedelle idee, 1830,  )2, 537, etc).
precedente e antecipa a futura. Km geral, na P..
as disposies so estabelecidas desde muito                  PERCEPCIONISMO (in. Percepcionismji.
tempo, atravs da atividade perceptiva anterior,           Percepcionismc, ai. Perctpttonismus; it. Per-
e pode estar pronta para entrar em ao quan-              cezionismo).  a doutrina que admite a realida-
do o organismo ingressa em dada situao.                  de dos objetos da percepo. O mesmo que
Atravs dela. o organismo escolhe, organiza e              realismo ingnuo (v. REALISMO).
transforma as "informaes" que lhe chegam                    PERCEPES PEQUENAS.V. INCONSCIFNTE.
do ambiente. Essas informaes so indcios                   PERCEPTO (in. Percept). Na psicologia con-
ou sinalizaes que servem para "evocar" a hi-             tempornea, o P.  a experincia pessoal de um
                                                           objeto, a maneira como o objeto se mostra ao
PERCOLUO                                              75"                                         PERFEITO


sujeito. Esse nome foi cunhado por analogia                       S. Toms de Aquino mesmo descreveu a P.
com coucept (conceito).                                       de Deus e da criatura como consistente na pos-
   PERCOLUO. PF.RFORMATIVO.                                 se do ser: "Deus, que  a totalidade do seu ser,
    PERFECCIONISMO (in. Perfectionism, fr.                    possui o ser segundo a virtude integral do ser,
Perfedionisme-, ai. Perfektonismus, Perfekti-                e no pode carecer de nenhuma nobreza que
hilistnus; it. Perfezionism). Esta palavra  (ra-            pertena a coisa alguma. Assim como toda a
ramente) empregada em dois significados: 1Q                   nobreza e a P. inerem a uma coisa porque a
para indicar o ideal moral que consiste em per-               coisa . tambm o defeito inere a ela porque,
seguir a prpria perfeio moral ou de outrem,                de algum modo, ela no " (Contra Gent., I, 28).
ou seja, a capacidade de agir em conformidade                 Deste ponto de vista, uma coisa  tanto mais
com o dever, que implica tambm a cultura das                 perfeita quanto maior a sua posse do ser; e
faculdades fsicas e mentais do homem. Neste                  como Deus possui todo o ser,  totalmente
sentido,  P. o ideal moral expresso por Kant                 perfeito. Essas equaes constituam lugares-
na introduo ao segundo volume da Meta-                      comuns da escolstica medieval. Duns Scot re-
fsica dos costumes-, 2- para indicar a crena no             pete-as, afirmando que a forma nas criaturas
progresso, acompanhada pelo compromisso de                    implica alguma perfeio porque  forma parti-
contribuir para ele. Neste sentido, a palavra s              lhada e parcial, enquanto a forma no tem im-
vezes  usada na filosofia anglo-saxnica con-                perfeio em Deus porque no  nem partici-
tempornea.                                                   pao nem parte (Op. Ox., I, d. 8, q. 4, a. 3, n.
    PERFECTIHABIA. Foi assim qtie Ermolao                     22). Descartes recorreu exatamente a esse con-
Brbaro traduziu para o latim o termo grego                   ceito de P. ao afirmar que as idias "que repre-
"entelquia" (cf. LEIBNIZ, Monad.,  48).                     sentam substncias so sem dvida algo mais e
    PERFEIO (in. Perfection; fr. Perfection;                contm em si mais realidade objetiva, ou seja,
ai. Volkommenhcil; it. Perfezione). E.sta pala-               participam por representao de mais graus de
vra foi usada pelos filsofos somente em rela-                ser ou de P. do que as que representam s mo-
o aos significados 1 - e 3" cio adjetivo correspon-         dos ou acidentes" (Md., III). Spinoza identifi-
dente: no se considera P. a P. relativa, ou seja,            cava explicitamente realidade e P. (Et.. II, def.
o estado de uma coisa excelente entre as de                   6), e Leibniz declarava entender por P. "a gran-
sua espcie. S. Toms de Aquino diz: "A P. de                 deza da realidade positiva tomada precisamen-
uma coisa  dplice, ou seja, primeira e segun-               te, pondo-se de lado os limites das coisas que a
da. A primeira P.  aquela em virtude da qual                 possuem" (Monad.,  41). Kant falava neste
uma coisa  perfeita na sua substncia, e esta P.             sentido de uma P. transcendental, que  "a
 a forma do todo que emerge da integridade                   integridade de cada coisa em seu gnero", e de
das partes. A segunda P.  a do fim; mas o fim               uma P. metafsica, como "integridade de uma
a operao (assim como o fim do citarista  to-               coisa simplesmente como coisa em geral", dis-
car citara) ou  a coisa  qual se chega atravs              tinguindo delas a P. como aptido ou conve-
tia operao (assim como o fim do construtor                  nincia de uma coisa a vrios fins (Crt. ti. Pr-
 a casa que ele constri). A primeira P.  causa             tica. I, I, cap. I, escol. II).
da segunda: a forma  com efeito o princpio                      O conceito de P. foi lixado, no curso ulte-
das operaes" (S. Tb., 1, q. 73, a. 1). Esse mes-            rior da filosofia, pelas seguintes determina-
mo conceito era com exatido exposto por                      es: como integridade do todo ou correspon-
Kant: "A P. indica s vezes um conceito que                   dncia ao objetivo; no primeiro significado,
pertence  filosofia transcendental, o da totali-             foi constantemente identificado com o con-
dade dos elementos diferentes que, reunidos,                  ceito de ser. Fora de sua persistncia metafsica
constituem uma coisa; mas pode ser entendido                  e teolgica, a noo de P.  pouqussimo uti-
tambm como pertencente  teologia, e ento                   lizada na filosofia contempornea. Quando 
significa o acordo das propriedades de uma                    utilizada, a referncia aos significados tradi-
coisa com um fim1' (Met. der Sitteti, Intr., V, A;            cionais  evidente: assim acontece, p. ex., em
cf. Crt. do Juzo,  15). Estas determinaes re-            Bergson. que identifica a P. com o absoluto, e
duzem a P.: 1"  integridade do todo; 2"  reali-             ambos com a totalidade cio ser ("Introduction
zao do fim. Mas tendem na realidade a privi-                 Ia mtaphisique". em I.apenseel le mouvant,
legiar o primeiro conceito, que, ao ser aplicado              3a ecl., 1934, p. 204).
 totalidade do ser, levou a tradio filosfica a               PERFEITO (gr. xteto; lat. Perfech fr. Par-
identificar P. e realidade.                                   fait; ai. Vollkommeu; it. Perfeito). Aristteles
PERFORMATIVO                                        758                                  PERSONALIDADE


disiinguia trs significados do termo: 1 aquilo          gico. Consiste na mudana sbita de condies
a que no falta nenhuma de suas partes, ou alm           ou destino, que deve ocorrer de modo veross-
do qual no se pode achar nenhuma parte que               mil e necessrio (Poet.. 11, 1452 a 22).
lhe pertena; 2" o que possui, em sua espcie,               PERMANNCIA (in. Permanence: fr.
uma excelncia que no pode ser sobrepujada,              Permanence-, ai. Beharrlichkeit: it. Perma-
sendo, pois, P. o flautista ou o ladro que no           nenza). Segundo Kant "a P. expressa, em geral,
encontrem rivais; 3y o que atingiu seu objetivo,          o tempo como correlato constante da presena
desde que se trate de um bom objetivo (Met.,              da aparncia, da mudana e da concomitncia".
V, 16, 1021 b 12 ss.). No primeiro sentido, P.           Em outros termos, P.  o tempo enquanto dura-
o completo, aquilo a que no falte nenhuma                o (Crt. R. Puni, Anal. dos princ, cap. II, se.
das partes integrantes. No segundo. P.  o ex-            3, Primeira analogia) (v. ANALOGIAS DA KXPE-
celente em relao a otitras coisas cia mesma             RINCIA).
espcie; no terceiro, P.  o real ou atual, por-             PERPETUIDADE. V. ETERNIDADE.
que cumpriu seu objetivo. Hsses significados                  PERSEIDADE (lat. Perseitas; in. Perseity, fr.
no mudaram ao longo da histria da filosofia.            Persit-, it. Perseit). Termo empregado na
 claro qtie. enquanto o 2" significado  rela-           Escolstica (mas raramente) para indicar o estado
tivo e, portanto, no metafsico -- porque                e a condio do que  por si (v.).
exprime s a excelncia relativa de uma coisa                 PERSONALIDADE (in. Personality fr.
numa ordem estabelecida de coisas --, os                  Personnalit, ai. Persnlichkeii, it. Personalit).
outros dois so absolutos e pertencem  tradi-            1. Condio ou modo de ser da pessoa. Neste
o metafsica.                                           sentido esse termo j foi usado por S. Toms de
    PERFORMATIVO (in. Performative: fr.                   Aquino (S. Th.. I, q. 39. a. 3, ad 4") e  geral-
Performatif, it. Performativo). Foi esse o nome           mente usado pelos filsofos (que muitas vezes
dado por L. Austin  classe de enunciados que,            o empregam como sinnimo de pessoa).
apesar de terem forma de enunciados descriti-                 2. No significado tcnico da psicologia con-
vos, no o so e preenchem duas condies:                tempornea, P.  a organizao que a pessoa
 1- no descrevem, no relatam e no constatam            imprime  multiplicidade de relaes que a
nada, e tampouco so verdadeiros ou falsos;               constituem. R neste sentido que Nietzsche fala-
2a pronunciar o enunciado  realizao de uma             va de pessoa, observando que "alguns homens
ao ou cie uma parte dela, mais precisamente             compem-se de vrias pessoas e a maioria no
de uma ao que no  normalmente descrita                 pessoa. Onde predominarem as qualidades
como um simples "dizer algo". Exemplos disso              medianas importantes para que um tipo se per-
so o clssico "Sim" com que os noivos res-               petue, ser pessoa ser luxo. (...) trata-se de
pondem  pergunta sacramentai durante a ceri-             representantes ou de instrumentos de transmis-
mnia nupcial, ou as frases seguintes: "Dou a             so" (Wille Zur Macht, ed. 1901,  394). Estes
este navio o nome de 'Rainha Elizabeth", pro-             conceitos de Nietzsche so semelhantes aos da
nunciada na cerimnia de lanamento de um                 psicologia contempornea. H. J. Eysenck diz:
navio ao mar, ao se quebrar uma garrafa contra            "P.  a organizao mais ou menos estvel e
o casco; "Deixo meu relgio como herana a                duradoura do carter, do temperamento, do
meu irmo", ou frases semelhantes, freqentes             intelecto e do fsico de uma pessoa: organiza-
em testamentos; "Aposto um milho que ama-                o que determina sua adaptao total ao
nh chove" (cf. How to do Yhings with Worcs,             ambiente. Carter designa o sistema de com-
1962, p. 5).                                              portamento conativo (vontade) mais ou menos
   Austin chamou o P. de locuo(illociition),           estvel e duradouro da pessoa. Temperamento
para distingui-lo da locuo, que  uma expres-           designa seu sistema mais ou menos estvel e
so com denotao e conotao, e da peiio-                duradouro de comportamento afetivo (emo-
cuo, que  a forma persuasiva de uma ex-                o); intelecto, seu sistema mais ou menos
presso (Ibicl.. pp. 98 ss.).                             estvel e duradouro de comportamento cog-
   PERIEKON. V. HOKI/.ONTK.                               nitivo (inteligncia); fsico, seu sistema mais
   PER1PATETISMO. V. ARISTOTELISMO.                       ou menos estvel e duradouro de configurao
                                                          corprea e de dotao neuro-endcrina" ('lhe
   PERIPCIA (gr. 7iepv7ixeia; in. Perpety fr.
                                                          Structure of Human Personality, 1953, p. 2).
Priptie, ai. Peripetie, it. Peripezia). Segundo
                                                          Nesta definio, em que entram elementos j
Aristteles,  um dos elementos fundamentais
                                                          fixados por Roback, Allport, McKinnon. o ele-
da tragdia, mais precisamente do enredo tr-
PERSONALISMO                                         759                                        PERSUASO


mento dominante  constitudo pelo conceito                Foi com esse sentido que Dhring empregou
de organizao, estrutura ou sistema, elemento             esse termo em Geschichte der National-- ko-
que permite prever o comportamento provvel                tiomie(de 1899) --; com esse mesmo sentido,
de uma pessoa. Na o muito diferente desta  a              voltou a ser usado depois da Segunda Guerra
outra definio, puramente funcional, cuja fina-           Mundial por E. Mounier (Lepersonnalisme, 1950)
lidade 6 possibilitar as investigaes relativas          e, na sua esteira, por numerosos pensadores
P.: "P. 6 o que permite a previso do que far             catlicos, defensores do P. metafsico. Na ora-
uma pessoa numa dada situao (R. B. CAITHL,               tria mais ou menos confusa, que  a carac-
Personality, 1950, p. 2). Neste sentido, o eu dis-         terstica dominante desta corrente, a nota con-
tingue-se cia P. como a sua parte conhecida ou             ceituai que se consegue discernir  o conceito
aberta  pessoa,  qual esta faz referncia usan-          de pessoa como auto-relao ou conscincia.
do o pronome eu; essa parte pode no coinci-                   PERSPECTIVA (in. Prospect-.h. Perspective:
dir -- e geralmente no coincide -- com a                  ai. Perspektiue, it. Prospettiva). Antecipao do
totalidade da P. (v. Eu).                                  futuro: projeto, esperana, ideal, iluso, utopia,
    PERSONALISMO (in. Personalismo fr. Per-                etc. Esse termo expressa o mesmo conceito
sonnalisme/\. Personalismiis-, it. Personalismo).         designado por possibilidade (v.), mas de um
F.ste termo foi e  tisado para designar trs              ponto de vista mais genrico e menos compro-
doutrinas diferentes, mas interligadas.                    missado, xisto que podem ser perspectivas
    Ia A primeira  doutrina teolgica, que afir-          coisas que no tm consistncia suficiente para
ma a personalidade de Deus como causa cria-                serem possibilidades autnticas. Na filosofia
dora do mundo, em oposio ao pantesmo,                   contempornea, esse termo foi empregado
([ue identifica Deus com o mundo. Foi nesse                especialmente por Ortega y Gasset, Blondel e
sentido originrio que o termo foi empre-                  Mannheim, mas sem clara formulao concei-
gado primeiro por Schleiermacher (Rede)i.                  tuai.   Por perspectirismo (ai.   Perspektirismus)
 1799), e depois por Goethe, Feuerbach, Teich-             Nietzsche entendeu a condio em virtude da
mller, etc.                                               qual "cada centro de fora -- e no s o ho-
    2- A segtinda  uma doutrina metafsica, se-           mem -- constri todo o resto do universo
gundo a qual o mundo  constitudo por uma                 partindo de si mesmo, ou seja, atribuindo ao
totalidade de espritos finitos que, em seti con-          universo dimenses, forma e modelo propor-
junto, constituem uma ordem ideal em que                   cionais  sua prpria fora" ( Werke, ecl. Krner,
cada um deles conserva sua autonomia. Esta                 XVI,  636). Flsse termo s vezes foi usado para
concepo foi apresentada pela primeira vez                designar a filosofia de Ortega y Gasset.
por G. H. Howison, com o nome de P., em po-                    PERSPICCIA (gr. yj(voia; lat. Perspi-
lmica com Royce e, em geral, com o idealismo              cacitas-, in. Perspicacity, fr. Perspicacit; ai.
absoluto (na discusso publicada com o ttulo              Scharfsinn; it. Perspicaccia). Rapidez mental,
The Conception of God, 1897). Km seguida,                  segundo Plato (Carm., 160 a); justeza de me-
esse termo foi usado para designar a mesma                 tas, segundo Aristteles (El. nic, VI, 9, 1142 b
concepo fundamental por Renouvier (I.e                   6). A primeira definio capta a rapidez do pro-
personualisme, 1903), por W. E. Hocking e por              cesso intelectivo; a outra, seu xito; parecem
outros escritores dos Estados Unidos, onde foi             definies complementares. Kant, porm, defi-
criada, inclusive, uma revista destinada a de-             niu a P. como "a capacidade de notar as mni-
fend-la (Tbe Personalist, 1919). O P., neste              mas semelhanas e clessemelhanas", que gera
sentido, outra coisa no  seno um espiri-                observaes chamadas sutilezas ou simples-
tualismo monadolgico de cunho leibni-                     mente pedantismo, quando inteis (Anlr., I,
ziano-lotzista, e de fato o termo P. designa nos            44) (v. SAGACIDADE).
Estados Unidos a doutrina que na Europa                     PERSPICUIDADE (lat. Perspicuitas: in.
chamada de espiritnalismo (v.).                            Perspicuity, fr. Perspicnit, ai. Perspicuitat; it.
    3a A terceira  uma doutrina tico-poltica            Perspicnit). F o termo latino que traduz o ter-
que enfatiza o valor absoluto da pessoa e seus             mo grego vpTEia (cf. CCERO, Acad., II, 6. 17)
laos de solidariedade com as outras pessoas,              (v. EVIDNCIA).
em oposio ao coletivismo (que tende a ver                   PERSUASO (in. Persiiasicni; fr. Persna-
na pessoa nada mais que uma unidade numri-                siom ai. Uberredwig, it. Persuasione). 1. Crena
ca), e ao individualismo (que tende a enfraque-            cuja certeza se apoia em bases principalmente
cer os laos de solidariedade entre as pessoas).           subjetivas, ou seja, pessoais e incomunicveis.
PERSUASO                                             760                                        PESSIMISMO

A distino entre persuaso e ensinamento ra-               ps a P. acima da "confirmao pragmtica" e
cional j foi estabelecida por Plato, que dizia:           da "evidncia coercitiva", como o terceiro e
"O pensamento  gerado em ns por via de                    ltimo grau da verdade objetiva (Vernunft und
ensinamento; a opinio, por via da persuaso.               Existenz, 1935, III,  3)- Por outro lado, insistiu-
O primeiro baseia-se sempre num raciocnio                  se sobre o carter "emocional" da P.. no senti-
verdadeiro; a outra carece desse fundamento.                do de que ela apelaria para motivos "no racio-
O primeiro continua firme em face da P.; a ou-              nais"' (C. L. STEVENSON, Ethics and Language,
tra deixa-se modificar" ('fim., 51, e). Kant ex-            1944. cap. 6). O que emerge dessas indicaes
ps claramente este mesmo conceito; "A crena                o carter pessoal e, em certa medida, inco-
que tem fundamento na natureza particular do                municvel da P., ou melhor, dos motivos que
sujeito chama-se persuaso.  simples aparn-               fundamentam a crena na qual ela consiste.
cia porque o fundamento do juzo, que est                      2. Ato ou procedimento de persuadir, de
unicamente no sujeito,  considerado como ob-               induzir  persuaso.
jetivo. Portanto, esse juzo s tem validade pes-               PERSUASIVO (gr. TtiGavv; lat. Persuasihle.
soal e a crena no pode ser comunicada"                    in. Persuasive, ir. Persuasif, ai. [berzeugend;
(C.rt. R. Pura, Doutrina do mtodo, cap. II. se.          it. Persuasivo). Critrio de verdade defendido
3). Deste ponto de vista, a pedra de toque que              pelos cticos da Nova Academia, em primeiro
permite distinguir P e convico(\.)  "a possi-            lugar por Carnacles. Persuasiva  a representa-
bilidade de comunicar a crena e reconhec-la               o que se mostra verdadeira, que pode ser fal-
vlida para a razo de qualquer homem"                      sa, mas que na maioria das vezes  verdadeira.
(IbicL); a convico  comunicvel; a P. no 6.             Carnades dizia: "Visto que raramente topamos
A distino kantiana foi aceita e simplificada              com uma representao verdadeira, no deve-
por C. Perelmann e por L. Olbrechts-Tyteca:                 mos recusar-nos a crer na representao que
"Propomos chamar de persuasiva a argumenta-                 na maioria das vezes diz a verdade: com efeito,
o que pretenda servir apenas a um auditrio               juzos e aes so regulados pela maior ou
particular, e chamar de cotwincentej. que acre-             menor freqncia" (SI:XTO EMPRICO, Adv. inath.,
dita poder obter a adeso de qualquer ser ra-               VII, 175). A representao persuasiva, segundo
cional" (Trait de l'argunientathi, 1958,  6).            os discpulos cie Carnades, tambm deve ser
s vezes, P. foi cli.stinguida de convico por,            coerenteeponderada, ainda que essas caracte-
supostamente, envolver o sentimento alm da                 rsticas nada acrescentem  sua capacidade
razo e, portanto, s ela ser capaz de despertar            persuasiva (Ibid., VII. 184).
o que Pascal chamava de "autmato", que so                     PESQUISA. V. INVESTIGAO.
os comportamentos afetivos e habituais do ho-                 PESSIMISMO (in. Pessimism-, fr. Pessimis-
mem. Pascal dizia: "Somos autmatos tanto                   mo-, ai. Pessimismns; it. Pessimismo). Km geral,
quanto esprito; disso resulta que o instrumento            crena de que o estado das coisas, em algu-
de que se constitui a P. no  apenas a de-                 ma parte do mundo ou em sua totalidade,  o
monstrao" (Penses. 252). D'Alembert ex-                  pior possvel. Esse termo comeou a ser em-
pressou muito liem esse ponto de vista: "A                  pregado na Inglaterra, no incio do sc. XIX,
convico tem mais a ver com o esprito; a P..              como anttese do otimismo. Portanto, a tese do
com o corao. Diz-se que o orador no deve                 P. poderia ser expressa como a inverso da tese
apenas convencer, ou seja, provar o que enun-               do otimismo, com a assero de que nosso
cia, mas tambm persuadir, ou seja, impressio-              mundo  o pior dos mundos possveis. Mas ex-
nar e comover. A convico supe alguma pro-                presso desta forma o P.  uma metafsica, e
va; a P., nem sempre. (...) Persuadimo-nos                  pode-se falar em P. s a propsito da filosofia
facilmente do que nos agrada; ficamos s ve7.es             de Schopenhauer e de seus seguidores. Comu-
entristecidos ao nos convencermos daquilo em                mente, porm, fala-se em P. tambm em senti-
que no queramos crer" (Euvres posthumes,                 do mais limitado e parcial, quando ocorre pelo
 1799, II. p. 89). Outras vezes a P. foi considera-         menos uma das teses seguintes:
da a forma superior da certeza por estar ligada
 verdade objetiva. Foi o que fez Heidegger,                    Ia Na vida humana as dores superam os pra-
que a entendeu como "um modo de ser da cer-                 zeres, e a felicidade  inatingvel. Desta forma, o
teza", mais precisamente o que se funda teste-              P. foi defendido pelo cirenaico Egesias, chama-
munho da "coisa descoberta", que  verdadeira               do de "persuasor da morte" (DlOG. L, II. 8, 94).
(Seiu und Zeit,  52). Analogamente, [a.spers                   2J Na vida humana os males superam os
                                                            bens, de tal modo que ela  uni complexo de
PESSOA                                               761                                            PESSOA


acontecimentos ruins, ignbeis ou repugnan-                bem qualquer P. que te seja destinada, a outro
tes. O P. foi defendido dessa forma pelo Padre             pertence o direito de escolh-la" (Manual, 17,
Apologista Arnbio, no incio do sc. IV: para             tracl. Leopardi; cf. Dissertazioni, I, 29, etc). O
ele, a prpria existncia do homem  intil               conceito de papel, neste sentido, pode ser re-
economia do mundo, que permaneceria o mes-                 duzido ao de relao: um papel outra coisa no
mo se o homem no existisse (Adi', nationes,                seno um conjunto de relaes que ligam o
II, 37).                                                   homem a dada situao e o definem com res-
    3a A vida , em geral, mal ou dor. Esta  a            peito a ela. Por isso, a noo de P. revelou-se
tese do P. metafsico, da forma defendida pelo             til quando foi preciso expressar as relaes
budismo antigo e por Schopenhauer (Die Welt,               entre Deus e o Cristo (considerado como o
I,  57 ss.).                                              Logos ou Verbo), e entre ambos e o Esprito,
    4a O mundo , em sua totalidade, manifesta-            mas ao mesmo tempo foi fonte de mal-entendi-
o de uma fora irracional: segundo Schopen-              dos e heresias. Com efeito, por um lado a rela-
hauer, de uma "vontade de vida" que se dila-               o parecia ter sido somada -- acidentalmente
cera e se atormenta (Die Welt.  61); segundo E.           somada --  substncia da coisa; este pelo me-
Hartmann, de um princpio inconsciente que,                nos era seu conceito na filosofia tradicional e,
ao tornar-se progressivamente ciente, destri              em particular, na aristotlica (v. RELAO). Por
as iluses que regem o mundo (Philosopbiecies              outro lado, a prpria palavra P., lembrando a
 Liibewussten, 1869).                                      mscara de teatro, parecia implicar o carter
    Todas as formas do P. negam a possibilida-             aparente e no substancial da pessoa. Da nas-
de de progresso e, em geral, de qualquer me-               ceram as longas disputas trinitrias que carac-
lhora no campo especfico em que vigoram. O                terizam a histria dos primeiros sculos cio
que elas no negam, no entanto,  o carter                Cristianismo e eme levaram s decises do
finalista cio mundo: admitido e defendido tanto            Concilio de Nicia (325). Para evitar a associa-
por Schopenhauer (Die Welt, I,  28) quanto                o entre a noo de P. e a de mscara, os
por Hartmann (Op. cit.; tracl. fr., II, p. 65). O          escritores gregos adotaram, em vez de pr-
mais estranho  que a essncia do otimismo                 sopon, a palavra hypstasis, que, em seu signifi-
(v.) est justamente no finalismo, e o P. preten-          cado de "suporte", revela as preocupaes que
de ser a anttese do otimismo.                             sugeriram a escolha. Mas sobre o carter aci-
    PESSOA (gr. 7rpoomov, imaxaai. kit.                 dental que a relao parece ter por natureza,
Persona; in. Person; fr. Personne, ai. Persoii.            muitos padres da Igreja acharam melhor sim-
it. Persona). No sentido mais comum do termo,              plesmente negar que a P. fosse relao, e insis-
o homem em suas relaes com o mundo ou                    tir na sua substancialidade. Era o que fazia, p.
consigo mesmo. No sentido mais geral (por-                 ex., S. Agostinho, ao afirmar que P. significa
quanto essa palavra foi aplicada tambm a                  simplesmente "substncia'', e que por isso o
Deus), um sujeito de relaes.  possvel distin-          Pai  P. em relao a si mesmo (aclse). e no
guir as seguintes tases desse conceito: Ia fun-            em relao ao Filho. etc. (De Trin.. Vil, 6). Com
o e relao-substncia: 2a auto-relao (relao         base nisso, Bocio dava a definio de P. que
consigo mesmo); 3" heterorrelao (relao com             se tornou clssica em toda a Idade Mdia: "P. 
o inundo).                                                 a substncia individual de natureza racional"
                                                           (De duabus uaturis et una persona Christi, 3 P.
     Ia Essa palavra deriva de persona, que, em            L., 64, col. 1345). Mas. como nota S. Toms de
latim, significa mscara (no sentido de per-               Aquino (S. Th., I. q. 29, a. 4, contra), o prprio
sonagem: in. Character, fr. ['ersonmige; ai.               Bocio admitia que "todo atinente s P. signifi-
Rolle) c foi introduzida com esse sentido na lin-          ca uma relao"; alm disso, no havia outra
guagem filosfica pelo estoicismo popular,                 maneira de esclarecer o significado das pessoas
para designar os papis representados pelo ho-             divinas, seno a de esclarecer as relaes entre
mem na vida: Epicteto diz: "Lembra-te de que               elas, com o mundo e com os homens. S. Toms
aqui no passas de ator de um drama, que ser              de Aquino, portanto, em um de seus textos
breve ou longo segundo a vontade do poeta. E               mais notveis pela clareza e fora filosfica
se lhe agradar que representes a P. de um men-             (prescindindo do significado teolgico-religio-
digo, esfora-te por represent-la devidamente.            so), ao elucidar o dogma trinitrio, restabelece
Faze o mesmo, se te for destinada a P. de um               o significado do conceito de P. como relao,
coxo. de um magistrado, de um homem co-                    mesmo afirmando simultaneamente a substan-
mum. Visto que a ti cabe apenas representar
PESSOA                                                762                                              PESSOA

cialidade da relao in divinis. "No h distin-             conserva a memria de si mesmo, ou seja, lem-
o em Deus, a no ser em virtude das relaes               bra-se que  o mesmo que foi antes, neste ou
de origem. Contudo, em Deus a relao no                   naquele estado" (Psycbol. rationalis,  741). F.
como um acidente inerente ao sujeito, mas  a                Kant analogamente afirma: "O fato de o ho-
prpria essncia divina, de tai modo que sub-                mem poder representar seu prprio eu eleva-o
siste do mesmo modo como subsiste a essncia                 infinitamente acima de todos os seres vivos da
divina. Assim como a divindade  Deus, a pa-                terra. Por isso, ele  uma P., e por causa da
ternidade divina 6 Deus Pai, que  P. divina:                unidade de conscincia persistente atravs de
portanto, a P. divina significa a relao enquan-           todas as alteraes que podem atingi-lo,  uma
to subsistente, isto 6, significa a relao na for-         s e mesma P." (Antr.,  1). Hegel entendia por
ma da substncia, que  a hipstase subsistente              P. o sujeito autoconsciente enquanto "simples
na natureza divina, embora aquilo que subsis-               reerncia a si mesmo na prpria individualida-
te na natureza divina outra coisa no seja seno            de" (Fil. cio dir.,  35). Lotze diz: "A essncia da
a natureza divina" (S. Tb.. I, q. 29, a. 4). Deste           P. no se reporta a uma oposio passada ou
modo, ao lado do carter substancial ou hipos-              presente do eu ao no eu, mas consiste no
ttico da P., era energicamente ressaltado o seu            imediato ser por si" {Mikrokosmns, I, 1856, p.
significado de relao. Isto no que se refere s             575). E Renouvier diz: "A conscincia toma o
P. divinas. No que concerne  P. em geral, S.                nome de P. quando  levada ao grau superior
Toms de Aquino afirmava que,  diferena do                de distino e extenso no qual atinge o co-
indivduo, que por si  indistinto, "a P., numa              nhecimento de si mesma e do universal, bem
natureza qualquer, significa o que  distinto               como o poder de formar conceitos e aplicar as
nessa natureza, assim como na natureza huma-                leis fundamentais cio esprito, que so as cate-
na significa a carne, os ossos e a alma que so             gorias" (Noinvlle monadologie, 1899, p. 110.
os princpios que individualizam o homem"                   Visto que a P. . neste sentido, simplesmente a
(Ihid., I, q. 29, a. 4). Portanto, segundo S. To-           relao do homem consigo mesmo (o que  a
ms de Aquino, mesmo no sentido comum a P.                  definio da conscincia) identifica-se com a
 distino e relao.                                      conscincia, e essa identificao  o nico
    2- A partir de Descartes, ao mesmo tempo                dado conceptual que se pode achar na exalta-
em que se enlraquece ou diminui o reconheci-                o retrica da P. que caracteriza algumas for-
mento do carter substancial da P., acentua-se              mas contemporneas de personalismo (v.).
a sua natureza de relao, especialmente de                     3a Contra a interpretao acima de P. esto
cmlo-relcio ou relao do homem consigo                   obviamente as posies filosficas que se recu-
mesmo. O conceito de P. neste sentido identifi-             sam a reduzir o ser cio homem  conscincia e
ca-se com o de Eu como conscincia, e 6 anali-              fazem polmica contra a forma mais radical
sado sobretudo no que se refere quilo que se               dessa interpretao, que  o hegelianismo.
chama de identidade pessoal, ou seja. unidade               Neste sentido, a antropologia da esquerda he-
e continuidade da vida consciente do Eu. Lo-                geliana e do marxismo, apesar de no se ter
cke afirma que a P. " um ser inteligente e                 preocupado, abertamente, em esclarecer o
pensante que possui razo e reflexo, poden-                conceito de P., constitui o incio de uma reno-
do observar-se (ou seja, considerar a prpria               vao desse conceito ou a evidenciao de um
coisa pensante que ele ) em diversos tempos                aspecto sobre o qual a tradio filosfica se ca-
e lugares; e isso ele faz somente por meio da               lara: a P. humana  constituda ou condiciona-
conscincia, que  inseparvel do pensar e essen-           da essencialmente pelas "relaes de produo
cial a ele" (Ensaio, II, 27. 11). A P.  aqui               e de trabalhem", de que o homem participa com
identificada com a identidade pessoal, com a                j natureza e com os outros homens para satis-
relao que o homem tem eonsigo mesmo, e                    fazer s suas necessidades (cf. MARX, Deutsche
esta ltima com a conscincia. Leibniz est de              Ideologie. I). Por outro lado, a doutrina moral
acordo com Locke nesse aspecto, mas insiste                 kantiana j caracterizara o conceito de P. em
tambm na identidade fsica ou real como                    termos de heterorrelao, ou seja, relao
outro componente da P., alm da identidade                  com os outros. Quando Kant dizia que "os se-
moral ou da conscincia (Noiw. ess., II, 27, 9). A          res racionais so chamados de pessoas porque
relao consciente do liomem consigo mesmo                  a natureza deles os indica j como fins em si
torna-se, a partir de ento, caracterstica funda-          mesmos, como algo que no pode ser empre-
mental da pessoa. Wolff diz: "A P.  o ente que             gado unicamente como meio" (Grundlegung
PESSOA                                                                                        PIETISMO

Zur Met. der Silteii, II), declarava que a natu-      status da pessoa. A considerao da P. como
reza cia P., do ponto de vista moral, consiste na     unidade individual, com a qual se licla no do-
relao intersubjetiva. No entanto, foi s com a     mnio considerado por essas cincias, corres-
fenomenologia que o conceito cie P. como he-          ponde  mesma determinao conceituai do
terorrelao ingressa explicitamente na filosofia.   termo como agente moral, sujeito de direitos
Husserl, considerando o eu como o "plo da           civis e polticos ou, em geral, membro de um
vida intencional ativa e passiva e de todos          grupo social. O homem  P. porque, nos pa-
os hbitos criados por ela" (Ccirt. Meei.  -t-),    pis que desempenha,  essencialmente clefiido
acentuava essa relao com outra coisa, em            por suas relaes com os outros.
que consiste a intencionalidade. Mas  sobretu-          PESSOA JURDICA/CIVIL/COLETIVA (lat.
do com Scheler que a P. 6 explicitamente defi-        Perso)ia civilis; in. Jurstcperson-, fr. Personne
nida como "relao com o mundo". Segundo ele,        juridique: ai. Juristiscbe Person; it. Persona
a P.  definida essencialmente por essa relao,      civil). Segundo Hobbes. P. neste sentido 
assim como o eu 6 definido pela relao com o         "aquilo a que se atribuem palavras e aes
inundo externo, o indivduo pela relao com         humanas, prprias ou alheias": se  P. so atri-
a sociedade, o corpo pela relao com o am-          budas aes prprias, trata-se de uma P. natu-
biente. Segundo Scheler, "o mundo nada mais          ral; se lhe so atribudas aes alheias, trata-se
 que correlao objetiva da P.; portanto, a cada    de P. fictcia (De bom., 15,  1). Esta definio
P. individual corresponde um mundo individual"       de Hobbes  a mais genrica e ao mesmo tem-
(Fonuasnuis. 1913, p- 408). As esferas objeti-     po a mais exata das definies da P. civil e
vas que se podem distinguir no mundo (obje-          jurdica j dada pelos filsofos. O prprio Hegel
tos internos, objetos externos, objetos corpreos,   define a P. neste sentido como genrica "capa-
etc.) tornam-se concretos apenas enquanto partes     cidade jurdica" (/'//. do dir,  36).
de um mundo correlativo a uma I\. enquanto               PETIO DE PRINCPIO (lat Petitio
domnio das possibilidades de ao cia prpria       principi).  a conhecidssima falcia (v.). j
P. A P., neste sentido, no deve ser confundida      analisada por Aristteles ( Top., VIII, 13, 162 b; El.
com a alma, com o eu ou com a conscincia:           so/., 5, 167 b; An. pr.. II, 16, 64 b), que consiste
um escravo, p. ex.,  todas essas coisas, mas        em pressupor, na demonstrao, um equivalen-
no  P. porque no tem possibilidade cie agir       te ou sinnimo do que se quer demonstrar (cf.
sobre o prprio corpo, e assim um elemento           PEDRO HISPANO, Smnm. log., 7 x3).              G. P-
de seu mundo escapa-lhe (Ibid.. p. 499). "A P."         PICNTOMOS (ai. Pyknatomen). Foi esse
-- diz ainda Scheler-- "s se d onde se d um       o nome que Haeckel deu aos tomos, dotados
poder fazer por meio cio corpo, mais precisa-        de movimento e sensibilidade, que ele julgava
mente um poder fazer que no se fundamenta           elementos constitutivos de todas as formas de
apenas na lembrana cias sensaes ocasiona-         ser, por serem produzidos por condensao
das pelos movimentos externos e pelas expe-          (pinose) da matria primitiva (WKLTRATSKL.
rincias ativas, mas que precede o agir efetivo      1899; trad. it.. 1904. p. 296 ss.).
{Ibid., p. 499). No obstante os numerosos e            PIEDADE. V. COMPAIXO.
nem sempre coerentes vaivns metafsicos a               PIETISMO (in. Pietism; fr. Pitisme; ai.
que Scheler submeteu sua doutrina, seu con-          Pieiisnut; it. PietisDio). Reao contra a ortodo-
ceito de P. como de "relao com o mundo" foi        xia protestante que ocorreu no norte da Euro-
fecundo, inclusive porque assumido como ponto        pa, especialmente na Alemanha, na segunda
de partida da anlise existencial de Heidegger       metade do sc. XVII. Foi comandada por Felipe
(Sein und Zeit,  10); esta se centrou precisa-      Spener (1635-1705), e um de seus expoentes
                                                     foi o pedagogo August Franke (1663-1727). O
mente no conceito da P. humana, de existn-
                                                     P. pretendia voltar s teses originais da Refor-
cia, como relao com o mundo.
                                                     ma protestante: livre interpretao da Bblia e
   Ksse conceito de P., que, como vimos, no         negao da teologia; culto interior ou moral de
coincide com o de eu, foi formulado em ter-          Deus e negao do culto externo, dos ritos e de
mos anlogos e  geralmente empregado nas            qualquer organizao eclesistica; compromisso
cincias sociais. A definio habitualmente re-      com a vida civil e negao do valor das deno-
corrente nessas cincias, de P. como "o indiv-      minadas "obras" cie natureza religiosa. Deste
duo provido cie status social", faz referncia      ltimo aspecto deriva a aceitao de muitos
rede de relaes sociais que constituem o            ensinamentos de carter prtico e utilitrio nas
PIRRONISMO                                            764                             PLSTICA, NATUREZA

instituies educacionais pietistas (cf. A RITSCHL,             2Ll os nmeros constituem os princpios ou
Geschichte des Pietismus, 3 vol., 1880-86).                 os elementos constitutivos das coisas; esta dou-
   PIRRONISMO (in. Pyrrhonism, fr. Pyrrbo-                  trina, por meio do platonismo, tambm presidi-
nisme, ai. Pyrrhonismus; it. Pirronismo). For-              ram os primrdios da cincia moderna;
ma extrema do ceticismo grego, tal comei foi                    33 os corpos celestes (cjue para os pitag-
defendida por Prron de Elis, que viveu no tem-             ricos eram dez, por razes de simetria) giram
po de Alexandre Magno (Prron acompanhou-o                  todos em torno de um fogo central (Lestia), do
em sua expedio ao Oriente) e morreu por                   qual o sol seria um reflexo. Esta  a primeira
volta do ano 270 a.C. Conhecemos sua doutri-                manifestao daquilo que, na idade moderna,
na pelos Silloi (versos jocosos) de Tmon de                viria a ser o sistema de Coprnico. (Cf. Ipi-
Fliunte e pelas exposies de Digenes Lar-                 tagorici, testimonianze e frammenti, aos cui-
cio e Sexto Emprico. A tese fundamental do P.              dados de Maria Timpanaro Cardini, Florena,
 a necessidade de suspender o assentimento.                 1958 e a bibliografia a contida.)
Visto que para o homem as coisas so ina-                       PLANO (in. Plane, fr. Piau; ai. Schichk it.
preensveis, a nica atitude legtima  a de no            Piano). Esta noo  empregada em filosofia
julg-las verdadeiras ou falsas, nem belas ou               para designar graus ou nveis do ser, caracteri-
feias, nem boas ou ruins, etc. No julgar tam-              zados por qualidades prprias, no redutveis
bm significa no preferir ou no evitar: assim,            s de outros graus ou nveis. O conceito de P.
a suspenso do juzo  j por si mesma                      foi introduzido com esse sentido por Boutroux:
ataraxia, ausncia de perturbao. Digenes                 "No universo  possvel distinguir diversos
Larcio conta que Prron caminhava sem olhar                mundos, que seriam como P. sobrepostos uns
para nada e sem afastar-se de nada, arrostando              aos outros. Acima do mundo da pura necessi-
carros, se os encontrasse, precipcios, ces, etc.          dade, que  a quantidade sem qualidade, idn-
(DIG,   L, IX, 62).
                                                            tico ao nada, podem-se distinguir: o mundo
                                                            das causas, o mundo cias noes, o mundo f-
   Mais tarde houve um retomo ao P., entre o fim            sico, o mundo vivo e o mundo pensante" (De
do ltimo sculo a.C. e o fim do II sculo cl.C.            Ia contingence des lois de Ia natnre, 1874.
por obra de Knesidemos de Cnossos (que ensi-                Concl.). Segundo Boutroux, cada P.  caracteri-
nou em Alexandria), de Agripa e do mdico                   zado: ly por certa dependncia cio P. inferior;
Sexto Emprico. Este ltimo, que atuara entre               2-' pela irredutibilidade de suas qualidades funda-
os anos 180 e 210 d.C, deixou trs obras:                   mentais e de suas leis especficas  qualidade
Hipotipose pirrnica. Contra os dogmticos e                ou s leis cio P. inferior. Nisso consistiria a con-
Contra os matemticos, que constituem Lima                  tingncia & realidade. Concepo anloga foi
sntese de todo o ceticismo antigo. A tese pir-             apresentada por N. Ilartmann, que distinguiu
rnica da suspenso do assentimento  rigo-                 quatro P. cia realidade: inorgnico, orgnico,
rosamente mantida, mas, como guia para a                    psquico e espiritual (Der Aujbau der realen
conduta da vida, so adotadas a aparncia sen-               Welt. 1940). 1 Iartmann tambm admite que cada
svel e as normas da vida comum (Pirr. hyp., I,             P. da realidade  regido por leis prprias c
21) (cf. MARIO DAI. PKA, I.o scetticismo greco,             irredutveis, mas, ao contrrio de Boutroux.
1950).                                                      acentua a dependncia dos P. superiores em
   PISTIS SOPHIA. Segundo a cosmogomia cios                 relao aos inferiores. P. ex., as leis do mundo
gnsticos,  o ltimo dos Hons (v.) (emana-                 psquico no so redutveis s do mundo org-
es), ou eon decado, que d origem  matria              nico, mas as pressupe, acrescentado-se-lhes:
(Hipoi.rro, Philosophnmena. VI, 30 ss.) (cf.                representam, por isso, um snpradeterminisnw,
CiNOSTICISMO).
                                                            que se soma ao determinismo das leis inferio-
   PITAGORISMOOn. Pythagoreanism, fr. Py-                   res. Portanto, a concluso a que chega a anlise
tbagorisme, ai. Pytbagoreismus; it. Pitagorismo).           cia estratificao do ser feita por Hartmann no
                                                             a contingncia, e sim a supranecessidade (v.
Doutrina da antiga escola pitagrica; pouco ou
nada deve ao seu fundador, Pitgoras, sobre                 I.IBHRDADH).
quem pouco se sabe com certeza e que prova-                     PLSTICA, NATUREZA (in. Plastc nciture.
velmente nada escreveu. As teses caractersti-              fr. Sature plastique-, ai. Plastiscb Xaliir. it.
cas do P. foram as seguintes:                               Xatura plstica). A fora P. ou formadora,
   Ia metempsicoseiv.), nas quais se baseavam               dirigida por Deus e dele dimanada, mas di-
as crenas msticas e os ritos da seita;                    ferente,  qual est confiada a tarefa de or-
PLATONISMO                                             765                                           PNEUMA


ganizar a matria.  o conceito de natureza                  doutrina metafsica correspondente, prevale-
ectipa, admitido pelos platnicos de Cambrid-                ceu solipsistnoiv.), o termo P., no uso que dele
ge (v. CTIPO).                                              se fez em seguida, assumiu um significado me-
    PLATONISMO (in. Platonism; fr. Platonis-                 tafsico, passando a designar a doutrina que
me, ai. Platonismus; it. Platonism). Os ele-                admite pluralidade de substncias no mundo.
mentos da doutrina de Plato considerados                    A expresso tpica dessa doutrina  a mo-
caractersticos desde Aristteles podem ser re-              nadologia de Leibniz, e foi neste sentido que o
capitulados da seguinte maneira:                             termo voltou a ser usado por alguns espiritua-
    1L> A doutrina das idias, segundo a qual so            listas modernos (J. Ward, TheRealm ofEnds or
objetos do conhecimento cientfico entidades                 Pluralism and Theism, 1912; W. James, A Plu-
ou valores que tm um status diferente do das                 ralistic Universe, 1909). James insistiu particu-
coisas naturais, caracterizando-se pela unidade              larmente na exigncia proposta pelo P.: a de
e pela imutabilidade (v. IDIA). Com base nesta              no considerar o universo como massa com-
doutrina, o conhecimento sensvel, que tem                   pacta, em que tudo est determinado no bem
por objeto as coisas na sua multiplicidade e                 ou no mal e no h lugar para a liberdade,
mutabilidade, no tm o mnimo valor de ver-                 mas sim como uma espcie de repblica fe-
dade e podem apenas obstar  aquisio do co-                derativa na qual os indivduos, apesar de so-
nhecimento autntico.                                        lidrios entre si, conservem autonomia e liber-
    2" A doutrina da superioridade da sabedoria              dade. O universo pluralista, segundo James, 
sobre o saber, ou seja, do objetivo poltico da              um pluriverso ou multiverso; sua unidade no
filosofia, cuja meta final  a realizao da justia          a implicao universal ou integrao absolu-
nas relaes humanas e portanto em cada ho-                  ta, mas continuidade, contigidade e concatena-
mem (v. SABEDORIA).                                          o:  uma unidade de tipo sinequia, no senti-
   3" A doutrina da dialtica como procedi-                  do atribudo a esta palavra por Peirce (A Phi-
mento cientfico por excelncia, como mtodo                 ralistic Universe, p. 32^). Um universo assim
atravs do qual a investigao conjunta conse-               distingue-se do universo monadolgico de
gue, em primeiro lugar, reconhecer uma nica                 Leibniz justamente pelo carter no absoluto
idia, para depois dividi-la em suas articulaes            nem necessitante da unidade que o constitui.
especficas (v. DIALTICA).                                  Ate1 mesmo Deus. no universo pluralista, 
   Estes so tambm os trs aspectos polmi-                 finito.
cos que ops Aristteles e Plato; por marca-                    2. Na terminologia contempornea, desig-
rem a diferena entre P. e aristotelismo, servi-             na-se freqentemente com este nome o reco-
ram para caracterizar este ltimo ao longo do.s              nhecimento da possibilidade de solues di-
sculos.  bvio que no esgotam a doutrina                  ferentes para um mesmo problema, ou de
original cie Plato, que, portanto, no coincide             interpretaes diferentes para a mesma realida-
com o "P".                                                   de ou conceito, ou de uma diversidade de fato-
    preciso notar que as teses acima expostas               res, situaes ou evolues no mesmo campo.
no caracterizam o denominado P. da Renas-                   Assim, fala-se em "P. esttico" quando se admi-
cena. Este, na realidade,  um neoplatonismo                te que uma obra de arte pode ser considerada
que lana mo das teses fundamentais do neo-                 "bela" por motivos diferentes, que nada tm a
platonismo   antigo   (v.).                                  ver um com o outro; fala-se em P. sociolgico
    PLEROMA (gr. 7iA.ipco|i(X.). S e g u n d o o            quando se admite ou se reconhece a ao de
gnstico Valentim (sc. II), a totalidade da vida            vrios grupos sociais relativamente indepen-
divina plena ou perfeita (IKENEI1, Adv. haer.,               dentes uns dos outros.
I. 11, 1).                                                       PNEUMA (gr. nveua; lat. Spritus: in.
    PLURALISMO (in. Pluralismo fr. Pluralis-                 Pneuma; fr. Pneuma; ai. Pneuma; it. Pneu ma).
me; ai. Pluralismus; it. Pluralismo). 1. A partir            Este termo s ganhou significado tcnico com
de Wolff, este termo foi contraposto a egosmo               os esticos, que com ele designaram o esprito,
(v.) como "a maneira de pensar em virtude da                 ou sopro animador, com que Deus age sobre
qual no se abarca o mundo no eu, mas nos                    as coisas, organizando-as, vivificando-as e diri-
consideramos e nos comportamos apenas                        gindo-as. Digenes Larcio diz: "Para os esti-
como cidados do mundo" (Kant. Anlr., I,  2).               cos a natureza  um fogo artfice destinado a
Mas enquanto o termo egosmo continuou de-                   gerar, isto , um P. da espcie do fogo e da
signando uma atitude moral, visto que, para a                atividade formativa (VII, 156; Plut., De stoc.
PNEUMATICOS                                             766                                              POESIA

repngu., 43, 1054). Virglio aludia a essa con-               mal, que reside no corao, e o pneuma fsico
cepo com versos famosos: "Spiritits intus alit              ou natural, que reside no fgado, atribuindo a
'1'olamque infnsaperarlus, Meus agitai mo/em                  cada um deles funes especiais no organis-
et loto se corpore mscet"(En., VI, 726), aos ver-            mo; 2" alguns padres da Igreja e alguns gnsticos.
sos recorria Giordano Bruno para ilustrar sua                 que ressaltaram a distino presente no Novo
concepo do Intelecto artfice ou "ferreiro do               Testamento (v. PNIXMA) entre corpo psquico
m u n d o " (De Ia cansa, princpio e uno. II). Os            ou animal e corpo P., insistindo na superio-
magos do Renascimento falavam no mesmo                        ridade deste ltimo; 3" alguns qumicos dos
sentido cio esprito atravs do qual a alma do                scs. XVII e XVIII (Boyle, Black, Cavendish e
mundo age sobre todas as partes do universo                   outros), que iniciaram as investigaes sobre
visvel (Agripa, De occulta philosophia. I, 14).              os gases e descobriram certo nmero de elemen-
No livro da SabedoriaU, 5-7, etc), o P.  enten-              tos e compostos gasosos.
dido no sentido estico. K em sentido anlogo,                    PNEUMATOLOGIA (in. Pneumatology, fr.
S. Paulo fala do "corpo pneumtico", que ele                  Piieumalologie, Pueumalqne; ai. Pneuma-
contrapunha ao "corpo psquico" ou animal                     tologie, Pnenmatik it. Pnenmatologia). Leibniz
como corpo vivo e vivificante que ressurgir                  introduziu o termo P. para indicar "o conheci-
depois da morte (I Cor.. XIV, 44 ss.). Na tradi-              mento de Deus. das almas e das substncias
o crist, P. 6 o Esprito Santo, do qual S. To-             simples em geral" (Nouv. ess.. Avant-propos.
ms de Aquino dizia: "O nome esprito nas coi-                 Op., ed. Erdmann, p. 199). liste termo preten-
sas corpreas parece significar certo movimen-                dia significar "cincia dos espritos" e foi reto-
to ou impulso, visto que chamamos de esprito                 mado por Wolff para indicar o conjunto da
a respirao e o vento. Mas  prprio cio amor                psicologia e cia teologia natural (Log-, 1728, Disc.
mover e impelir a vontade do amante em dire-                  Pref..  79). Crusius adotava o termo P. para in-
o ao ser amado. E como a pessoa divina age                  dicar "a cincia da essncia necessria de um
pelas vias do amor, graas ao qual Deus  con-                esprito e das distines e qualidades que po-
venientemente amado, ela chama-se Esprito                    dem ser atribudas apriori" (Entwurf der not-
Santo" (S. Th.. I, q. 36, a. 1). Finalmente, da mes-          wendigen Vernuiiftwahrheiten,  424). Ros-
ma doutrina do esprito vivificante deriva a dos              mini exclua da P. a considerao de Deus e a
espritos "psquicos", "animais" ou "corpreos",              restringia ao estudo dos "espritos criados", isto
que foram admitidos pela medicina antiga (v.                  , da alma humana e dos anjos (Psicoi. 1850.
PNF.r.MTlCOS) e pela medieval, sendo mencio-                  27). DAlembert restringia o termo  significa-
nada muitas vezes pelos filsofos: os espritos               o "cia primeira parte da cincia do homem",
animais foram mencionados por S. Toms de                     que  "o conhecimento especulativo da alma
Aquino (In Senl., IV. 49. 3; cf. S. Th.. 1, q. 76, a.         humana", que ele indicava tambm com o no-
7, ad. 2") e mais tarde por Telsio (De rei: nat.,            me de metafsica particular. Para D'Alembert,
V, 5), por Bacon (Nov. Org.. II, 7: De angm.                  o conhecimento das operaes da alma consti-
scient.. IV, 2), por Hobbes (Decorp.. 25, 10) e               tua o objeto da lgica e da moral (Discours
especialmente por Descartes, que reexps a                    prlimiuaire de lEncyclopdie, em (Euvres, ed.
doutrina de seu prprio ponto de vista (Pass.                 Condorcet, 1853, p. 116). Kant observava a res-
de l ame. 1, 10).                                             peito que a psicologia racional nunca poder
   No sentido comum cie ar ou sopro, essa                     tornar-se pneumatologia, ou seja, cincia pro-
palavra  usada por alguns filsofos que conside-             priamente dita. cia mesma maneira como a teo-
ram a alma como ar: p. ex.. por Anaxmenes,                   logia no pode tornar-se teosotia (Crt. do/uzo,
cuja doutrina 6 um corolrio do princpio de                   89). Esse termo hoje est completamente em
que tudo  ar (Fi\ 2, Diels), e por Epicuro (Ad               desuso.
Herod., 63).                                                     PODERES DO ESTADO. V ESTADO
   PNEUMATICOS (gr. nveuuxtKOi; lat. Spi-                       POESIA (gr. 7TOT|at; lat. Poesia; in. Poetty,
ritales: in. Pneumaties, fr. Pnenmatiqites; ai.               fr. Posie-, ai. Dichtung; it. Poesia). Forma defi-
Pnenmatiken it. Pneumatici). Foram indica-                    nida da expresso lingstica, que tem como
dos com este termo: lu os seguidores da escola                condio essencial o ritmo. Podem-se distinguir
mdica de Galeno, que, inspirando-se nos esti-               trs concepes fundamentais: Ia a P. como
cos, identificavam no pneuma (v.) o princpio                 estmulo ou participao emotiva; 21' a P. co-
da vida; distinguiam: o pneuma psquico, que                  mo verdade; 3a a P. enquanto modo privilegia-
reside no crebro, o pneuma zotico ou ani-                   do de expresso lingstica.
POESIA                                               767                                               POESIA


    Ia A concepo de P. como estmulo emo-                empai ia (\:.')  um ato original, essencialmente
tivo foi exposta pela primeira vez por Plato:             independente da associao de idias e pro-
"A parte da alma que, em nossas desgraas                  fundamente arraigado na prpria estrutura
pessoais, tentamos refrear, que tem sede de l-            do esprito humano (sthetik], 1903, pp. 112
grimas e gostaria de suspirar e lamentar-se               ss.): deste modo,  postulada como uma facul-
vontade -- pois  essa a sua natureza --  jus-            dade  parte,  qual est confiada a funo de
tamente a parte a que os poetas do satisfao             animar a materialidade bruta do mundo exte-
e prazer. (...) Quanto ao amor,  clera e a to-           rior, tornando o mundo mais familiar e agrad-
dos os movimentos dolorosos ou agradveis da               vel ao homem. Com base na distino entre o
alma, que so inseparveis de todas as nossas              uso simhlicodn linguagem e o seu u.so emocio-
aes, pode-se dizer que sobre eles a imitao             nal, atribuiu-se  P. "a forma suprema da lin-
potica produz os mesmos efeitos, visto que,               guagem emotiva", cujo nico objetivo  esti-
embora fosse preciso estanc-los, ela os irriga            mular emoes e atitudes" (I. A. RICIIARDS,
e nutre, transformando-nos em servos das facul-            Principies of Litercny Criticism.   1924;   14a   ecl.,
dades que. ao contrrio, deveriam obedecer-                1955, p. 273). A funo simblica (ou cientfi-
nos para que nos tornssemos mais felizes e                ca) da linguagem consiste em simbolizar a re-
melhores" (Rep.. X, 606 a-cl). Plato observa              ferencia ao objeto e em comunicar essa refe-
que o lado emocional da arte no  menor por               rncia ao ouvinte, levando-o a reconhecer a
tratar de emoes alheias, porque "necessaria-             referncia ao mesmo objeto. A funo emotiva,
mente as emoes alheias passam a ser nossas"              por sua vez. consiste em exprimir emoes,
(Ihitl., 606 b). No h dvida, portanto, de que           atitudes, etc, e em evoc-los no ouvinte: fun-
para Plato a caracterstica fundamental da P.             es que podem ser includas na da "evoca-
imitativa (assim como da razo de sua conde-               o", que  o estmulo da emoo (C. K. OGDHN.
nao)  a participao emocional em que ela               I. A RICHARDS, lhe Meaning of Meaning, 1923.
se baseia, bem como o reforo das emoes                  10a ed.. 1952. p. 149). Obviamente, este ponto
que ela consegue com tais participaes.                   de vista no passa de repetio quase literal cia
Giambauista Vio no s estendeu ao universo               concepo platnica. E no tem significado di-
inteiro a participao emotiva, considerada                ferente o modo como C. Morris definiu o dis-
prpria da P., como tambm eliminou o carter              curso potico: "principalmente discurso valora-
condenatrio que se encontra em Plato. "O                 tivo e aprecialivo", cujo objetivo  "lembrar e
sublime trabalho da P." -- escreveu ele -- "              sustentar valores j conhecidos" ou "explorar
dar sentido e paixo s coisas insensatas, sen-            novos valores" (Signs, LcinguageandBeheirior.
do propriedade das crianas de tomar nas mos              1946, V. ~!).
coisas inanimadas e. brincando, conversar com                  2a A concepo de P. como verdade comea
elas como se fossem pessoas vivas. Esta digni-             com Aristteles, que a considerou como ten-
dade filolgico-filosfica comprova que os ho-             dncia  imitao, para ele inata em todos os
mens do mundo criana foram, por natureza,                 homens como manifestao da tendncia ao
poetas sublimes" (Scienzci nnovci. 1744, Degn.             conhecimento (PoeL, 6, 1448 b 5-14). Segundo
37). Portanto, segundo Vio, a P. est ligada              Aristteles, a imitao potica tem validade
aos ''robustos sentidos" e s "vigorosssimas              cognoscitiva superiora imitao historiogrfica,
fantasias" dos homens primitivos ou brutos; seu            porque a P. no representa as coisas realmente
trplice objetivo  "achar fbulas sublimes que            acontecidas, mas "as coisas possveis, segundo
se adaptem aos interesses populares", "perpe-              a verossimilhana e a necessidade" (Ibid., 1451
tuar ao mximo" e "ensinar o vulgo a agir vir-             a 38). Por isso. ela " mais filosfica e mais ele-
tuosamente" (Ibid., II., cf. Lettera a Choraro
                                                           vada que a histria, porque exprime o univer-
degli Angoli). Deste ponto de vista, P. e filoso-         sal, enquanto a histria exprime o particular.
fia so antpodas, e "quanto mais robusta  a              Com efeito, temos o universal quando um indi-
fantasia, (anto mais fraco  o raciocnio" (Ibid.,         vduo de certa ndole diz ou faz certas coisas
Degn. 36). Esse mesmo conceito de P. como                  com base na verossimilhana e na necessidade,
estmulo ou participao emocional acha-se na              e  essa a inteno da P.. que d nome  perso-
teoria da empatia(x), que considera a ativida-             nagem justamente com base nesse critrio. Por
de esttica como a projeo das emoes do                 sua vez temos o particular quando dizemos, p.
indivduo no objeto esttico. Segundo o princi-            ex.. o que Alcibades fez e o que lhe aconte-
pal defensor dessa teoria, Theodor Lipps, a                ceu" (Ibid., 9. 1451 b 1, 10). Estas famosas
POESIA                                               768                                              POESIA

observaes de Aristteles eqivalem a colocar             sentao originria da verdade,  o saber no
a P. na esfera da verdade filosfica, j que esta          qual o universal no foi ainda separado por sua
capta a essncia necessria das coisas, e no               existncia viva no particular, no qual a lei e o
domnio das vicissitudes humanas a essncia               fenmeno, o fim e o meio ainda no foram
constituda pelas relaes de verossimilhana c            contrapostos, para serem depois novamente
necessidade, que so objeto da poesia. A P.,               interligados pelo raciocnio, mas compreendem-
portanto, no possui um grau de verdade infe-              se um no outro e um atravs do outro. Por
rior  filosofia, mas sim a mesma verdade, no              isso, a P. no se limita a exprimir atravs da
domnio que lhe  prprio, o dos feitos huma-              imagem tim contedo que j  conhecido por
nos. Esta concepo de P. dominou a tradio               si em sua universalidade, mas, ao contrrio, de
filosfica, na qual podemos distinguir duas                acordo com seu conceito imediato, ela perma-
interpretaes fundamentais: A) a P. tem uma               nece na unidade substancial, onde ainda no
verdade de grau ou natureza diferente da ver-              ocorreu tal separao nem tal relao" (Vorle-
dade intelectual ou filosfica; B) a P. contm a           siingeu her die sthetik, ed. Clockner, III, p.
verdade filosfica absoluta.                               239). Com isso, para Hegel, a P. (assim como
    A) A primeira posio est na origem da                toda a arte) continua aqum ou abaixo da filo-
esttica moderna. Baumgarten afirmou que o                 sofia, pois  s nesta que a Idia se revela ou
objeto esttico, a beleza,  "a perfeio do co-           se realiza em sua verdadeira natureza, que 
nhecimento sensvel enquanto tal", e que por               universalidade ou razo, no imediao ou
isso ele no coincide com o objeto do intelecto,           imagem; mas a P. pertence  esfera da verdade
que  o conhecimento distinto (Aesthetica,                 absoluta, ao lado da filosofia e da religio (
1750-58,  14). Como perfeio cio conheci-                qual est subordinada). No idealismo cie ori-
mento sensvel, a beleza  universal, mas de               gem romntica, o conceito de P. continuou sen-
uma universalidade diferente do conhecimen-                do substancialmente o expresso por Hegel.
to, porque abstrai da ordem e dos signos, reali-           Croce, depois de insistir na prioridade da arte
zando Lima forma de unificao puramente fe-               sobre o conhecimento intelectual propriamente
nomenal (Jbid.,  18). Segundo Baumgarten, a               dito, portanto em sua relativa autonomia em
P. , particularmente, "um discurso sensvel               face da filosofia (com a qual, porm, nunca ne-
perfeito", de tal maneira que seus vrios ele-             gou que a arte compartilhasse o status de co-
mentos (representaes, nexos, palavras ou                 nhecimento), acabou insistindo cada vez mais
sinais que as expressam) tendem ao conheci-                nas caractersticas de totalidade e universalida-
mento das representaes sensveis (Medita-                de da expresso artstica, que a aproximam da
tiones philosophicae de nonnulis ad poema                  verdade filosfica. Ao contrrio do sentimento,
pertinentibus, 1735,  1-9). A qualificao "sen-         "a expresso potica  uma teorese, um conhe-
svel" esclarece o carter da P.; graas a isso,           cer, e por isso mesmo, enquanto o sentimento
ela tem por objeto representaes claras, mas              adere ao particular e, por mais elevado e nobre
que se confundem, ao passo que as represen-                que seja em sua origem, move-se necessaria-
taes claras e distintas, ou seja, completas e            mente na unilateralidade da paixo, na anti-
adequadas, no so sensveis, portanto no so             nomia do bem e do mal e na ansiedade do pra-
poticas; desse modo, filosofia e P. no se encon-         zer e da dor, a P. reata o particular ao universal,
tram, pois a primeira exige as distines de               acolhe com igualdade dor e prazer, superando-
conceitos que a segunda alija de seu domnio               os, e, acima do embate das partes contra as
(Medit., cit..  14). Analogamente Vio afirma-            partes, eleva a viso das partes no todo, a har-
va: "A sabedoria potica, que foi a primeira da            monia sobre o contraste, a extenso do infinito
gentilidade, teve de comear com alguma me-                sobre a angstia do finito. Este cunho de uni-
tafsica, no a metafsica arrazoada e abstrata            versalidade e de totalidade  o seu carter" (La
dos eruditos de agora, mas sensiva e imaginati-            poesia, 1936, pp. 8-9). Assim, o valor da P.
va tal como deve ter sido a de tais primeiros              estava justamente em sua teoreticidade, ou seja,
homens, pois eles eram de nenhum raciocnio,               na sua validade cognoscitiva; e vinha a ser o
mas de sentidos robustos e vigorosssimas fan-             que Hegel j havia dito que era: uma verdade
tasias" (Sc. nuova, 1744, II, Delia sapienza po-          filosfica que se manifesta na imediao da
tica). Mas foi Hegel quem expressou melhor                 imagem, e no na universalidade do conceito.
essa tese: "A P.  mais antiga que a linguagem                 E) Ao lado dessa concepo, h outra que,
prosaica artisticamente formada. Ela  a repre-            apesar de estreitamente aparentada, no v na
POESIA                                          769                                             POESIA

P. a aproximao da verdade absoluta, mas a           nifestao ou revelao do Ser (Holzwege, 1950,
prpria verdade absoluta. Schiller j se expres-      pp. 252 ss.).
sara sobre a poesia nesses termos. Na obra So-            3a A terceira concepo fundamental  pri-
bre a poesia ingnua e sentimental (1795-96),         meira vista  menos filosfica que as outras,
afirmou que o poeta  a natureza, ou seja, sen-       porque no consiste em atribuir  P. determinada
te naturalmente e portanto imita a natureza, ou       tarefa em dada metafsica, nem em lig-la a
sente-se afastado da natureza e vai  sua procu-      determinada faculdade ou categoria do espri-
ra nostalgicamente, configurando-a como ideal.        to, ou em reservar-lhe um lugar na enciclop-
No primeiro caso, o poeta  ingnuo, como na          dia do saber humano, mas apenas em desco-
antiga Grcia; no segundo caso,  sentimental,        brir certas caractersticas que a P. possui em
como na era moderna. Mas em ambos os ca-              suas realizaes histricas mais bem-sucedidas,
sos, a P.  o absoluto. Com efeito, a P. ingnua      e em resumi-las numa definio generaliza-
 representao absoluta, concluda, total e          dora. Todavia,  este o nico procedimento
definitiva; a P. sentimental  representao          que pode gerar uma definio funcional da P.,
do absoluto, de um ideal de perfeio consu-          que sirva para expressar e orientar o trabalho
mado, conquanto longnquo ( Werke, ed. Kar-           efetivo dos poetas. Portanto, para essa defini-
peles, XII, pp. 122 ss.). Schiller valeu-se desse     o os poetas contriburam mais que os filso-
aspecto para afirmar resolutamente a superiori-       fos, apesar de estes tambm terem por vezes
dade da P. sobre a filosofia: no hesitava em di-     conseguido captar alguns de seus aspectos im-
zer que "o nico homem verdadeiro  o poeta,          portantes. Obviamente, deste ponto de vista, a
diante do qual o melhor filsofo no passa de         P., pelo menos  primeira vista,  apenas um
caricatura" (FpistolrioGoethe-Schiller,7l-1795;      modo privilegiado de expresso lingstica: pri-
trad. Santangelo). Essa tese representa sem d-       vilegiado em virtude de uma funo especial a
vida um filo importante e bem determinado            ele atribuda. O privilgio atribudo ao modo
da concepo romntica da poesia. Schelling           potico de expresso  freqentemente deter-
dizia: 'A faculdade potica  a intuio origin-     minado como "liberdade". Depois de dizer que
ria na sua primeira potncia; e vice-versa, a         "as artes da palavra" so a eloqncia e a P.,
nica intuio produtiva que se repete na mais        Kant afirma: "A eloqncia  a arte de tratar
elevada potncia  o que chamamos de facul-           uma funo do intelecto como livre jogo da
dade potica" (System des transzendentalen            imaginao; a P.  a arte de dar a um livre jogo
Idealismus, 1800, VI,  3). A faculdade potica       da imaginao o carter de funo do "intelec-
atualiza a unidade das atividades consciente e        to" (Crt, do Juzo,  51). Aqui, a noo de
inconsciente, que constitui a natureza do Eu          "jogo" serve para ressaltar o carter livre da ati-
absoluto. "O que chamamos de natureza  um            vidade potica em face de qualquer outro fim
poema, fechado em caracteres misteriosos e            utilitrio; a noo de "funo do intelecto" ser-
admirveis. Mas se o enigma pudesse ser reve-         ve para designar a disciplina a cjue se sujeita a
lado, reconheceramos nele a odissia cio Esp-       P., mesmo na liberdade de seu jogo. Deste
rito, que, por maravilhosa iluso, buscando-se,       ponto de vista, a funo da expresso potica 
foge de si mesmo" (Ibid.). Na filosofia contem-       a libertao da linguagem de seus usos utilit-
pornea, esse ponto de vista foi reexpresso por       rios e a sua elaborao numa disciplina autno-
Heidegger: "A P.  a nominao fundadora do           ma. Dewey insistiu nas mesmas caractersticas
ser e da essncia de todas as coisas; no  um        da expresso potica: "Se, entre prosa e poesia,
simples dizer qualquer, mas  dizer pelo qual         no h uma diferena passvel de ser definida
 revelado inicialmente tudo o que ns debate-        com exatido, entre prosaico e potico h um
mos e tratamos depois na linguagem de todos           abismo, pois so termos extremos que limitam
os dias. Por conseguinte a P. nunca recebe a          tendncias da experincia. O prosaico realiza o
linguagem como matria a ser manipulada,              poder que as palavras tm de exprimir "por
pressuposta, mas, ao contrrio,  a P. que co-        meio da extenso"; o potico, o de exprimir
mea a possibilitar a linguagem. A P.  a lingua-     pormeio da intenso. O prosaico lida com des-
gem primitiva de um povo, e a essncia da             crio e narrao, acumulando detalhes; o po-
linguagem deve ser compreendida a partir da           tico inverte o processo: "condensa e abrevia,
essncia da P." (Holderlin und das Wesen der          dando assim s palavras uma energia e expan-
Dichtung, 1936,  5). Como linguagem origi-           so quase explosiva". Por isso, na P. "cada pala-
nria, a P.  a prpria verdade, isto , a ma-        vra  imaginativa, assim como, na verdade,
POESIA                                                770                                             POESIA


tambm o foi na prosa at que, pelo desgaste                independe dos contedos que lhe so ofereci-
do uso, as palavras foram reduzidas a simples               dos pela emoo ou pelo intelecto. Flaubert
enumeradores"; "a fora imaginativa da literatu-            diz.: "Poeta da forma! Eis a grande palavra inju-
ra  uma intensificao da funo idealizante               riosa que os utilitrios lanam em face dos ver-
cumprida pelas palavras na linguagem comum"                 dadeiros artistas. (...) No h belos pensamen-
(Art as Experience, 1934, cap. 10; trad. it., pp.           tos sem belas formas e vice-versa... A quem
284-85). A maior intensidade de que fala De-                escreve em bom estilo censura-se o descuido
vvey no  emotiva, mas expressiva:  a maior               cia idia, do fim moral: como se a tarefa do m-
fora do significado das palavras que no esto             dico no fosse curar, a do pintor pintar, a do
desgastadas pelo uso. Ora, confiar  P. a funo            rouxinol cantar e como se a finalidade da arte
de conservar e restabelecer na linguagem a for-             rio fosse, antes de tudo, o belo" (Lettre
a de significao, de purific-la, mant-la efi-           Lonise Colet, 18 de setembro de 1846). F Poe
ciente, renov-la e aperfeio-la  o que, de h            afirmava: "A P.. enquanto arte da palavra,  a
um sculo a esta parte, tm afirmado muitos dos             criao rtmica da beleza. Seu nico rbitro  o
poetas que refletiram sobre o prprio trabalho.             gosto: com o intelecto ou com a conscincia
     As teses fundamentais da concepo da P.               ela s tem relaes colaterais. A no ser por
elaborada e pressuposta pelos poetas modernos               acaso, ela no cuida absolutamente do (.levei
podem ser recapituladas da seguinte maneira:                riem da verdade" ("The Poetic Principie".
    ly A P.  independente de qualquer objetivo              Works, ed. Harrison, XIV, p. 275).
prtico ou utilitrio. Este carter foi expresso                3y O carter da beleza  objetivo; ela est
pela frmula da arte pela arte,  qual aderiram             alm da experincia emotiva. Flaubert dizia:
no sculo passado artistas como Flaubert, Gau-              "Quanto menos se sente uma coisa tanto mais
tier, Baudelaire, Walter Pater. Oscar Wilde e Allan         se tem capacidade para exprimi-la tal qual ela c
Poe. O alvo contra o qual se dirige essa frmu-             (tal qual ela  sempre, em si mesma, na sua
la  a subordinao da P.  emoo,  verdade               universalidade, livre de todas as suas contin-
ou ao dever; seu significado positivo  a liber-            gncias efmeras). V, preciso, porm, ter a fa-
dade da P. no sentido afirmado, p. ex., por                 culdade de fazer-se senti-la, e isso  o gnio''
Kant. Flaubert diz: "Compor versos simples-                 (Lettre  Lonise Colet, 6 de julho de 1852). F. T.
mente, escrever um romance, cinzelar mrmo-                 S. Fliot. apoiando esse conceito, escrevia: "AP.
re, eram coisas boas nos tempos em que no                  no  um livre movimento da emoo, mas
existia a misso social do poeta. Agora qual-               uma fuga da emoo; no  a expresso da
quer obra deve ter significado moral, ensina-               personalidade, mas a fuga da personalidade.
mento bem dosado;  preciso que um soneto                   Naturalmente, porm, s os que possuem per-
tenha alcance filosfico, que um drama pise                 sonalidade e emoo sabem o que pretende-
nos calos dos monarcas e que uma aquarela                   rnos dizer quando aludimos  necessidade de
enobrea os costumes. A mania de advogar in-                fuga dessas coisas. (...) A emoo da arte 
sinua-se em toda a parte, juntamente com a so-              impessoal. E o poeta no pode alcanar es-
freguido de discutir, perorar, arengar" (Lettre           sa impessoalidade sem entregar-se inteiramente
Lonise Colet, 18 de setembro de 1846). No edi-               obra que deve ser feita" ( The Sacred Woocl
torial introdutivo do peridico Lartiste(14 de               1920; tracl. it., pp. 124-25). No mesmo sentido
dezembro de 1856), Gautier proclamava: "Cre-                Ungaretti disse: "Toda a minha atividade poti-
mos na autonomia da arte; para ns a arte no               ca, desde 1919. desenvolvia-se nesse sentido,
 um meio para um fim. Um artista que corre                 um sentido mais objetivo, (...) uma projeo e
atrs de um objetivo que no seja a beleza em               uma contemplao dos sentimentos nos obje-
nossa opinio no  artista". A frmula da arte             tos, uma tentativa de elevar a idias e a mitos
pela arte , portanto, substancialmente a defe-             a minha prpria experincia biogrfica" (La tetra
sa da P. contra qualquer tentativa de torn-la              promessa. Nota de Leone Piccioni).
instrumento cie propaganda de um objetivo                       4" A P. tem carter construtivo-, a beleza tem
qualquer.                                                   carter construdo. Estas foram teses de Poe.
    2- A beleza  o nico fim da poesia. Visto              Baudelaire e Valry. O primeiro descreveu a
que a arte no pode estar subordinada ao bem,               construo potica como uma espcie de traba-
 verdade ou a coisas que pretendam ter tais                lho artesanal ("The Philosophy of Compo-
caractersticas, resta-lhe como nico fim a bele-           sition" em Works, ed. Harrison, XIV, p. 196).
za, mais precisamente a beleza formal, que                  Baudelaire, por sua vez, insistiu no conceito da
POESIA                                                                                            POESIA


arte como composio: "Todo o universo vis-              encarnao" ("Pierre Dupont", (Euvres, ed. Le
vel  s um armazm de imagens e de signos                Dantec, I, p. 404).
aos quais a imaginao atribuir um lugar e um                6 Deve-se buscar a perfeio formal, que 
valor relativo; 6 uma espcie de forragem                 a exatido ou preciso expressiva. Flaubert
que a imaginao precisa digerir e transformar"           queria que a P. fosse "to exata quanto a geo-
("Salon de 1859". (Euures, ed. Le Dantec, II, p.          metria" (Lettre  Louise Co/et, 14 de agosto de
232). Mas foi Valiy quem mais enfatizou o ca-            1853) e afirmava: "Quanto mais uma idia 
rter da arte como construo: "As criaes do            bela tanto mais a frase  harmoniosa. A exati-
homem so feitas com vistas ao prprio corpo              do do pensamento faz (ou melhor, ) a exa-
-- e d a esse princpio o nome de utilidade--            tido cia palavra" (Lettre  Mlle. Leroyer de
ou com vistas  prpria alma -- e isso ele pro-           Chantepie, 12 de dezembro de 1857). Mallarm
cura com o nome de beleza. Mas, por outro                 insistiu nesse aspecto da P.: "A arte suprema
lado, quem constri ou cria, comprometido                 consiste em mostrar, com a posse impecvel cie
como est com o resto do mundo e com o mo-                todas as faculdades, que se est em xtase, sem
vimento da natureza, que tendem perpetua-                 demonstrar de que maneira se chega ao cume"
mente a dissolver, corromper ou arruinar o que            (Lettre  ILenri Cazalis, 21 de novembro de
ele faz, precisa discernir um terceiro princpio,         1863). Valiy escreveu a respeito: "Procurei a
que tenta comunicar s prprias obras, capaz              exatido nos pensamentos, para que, patente-
de exprimir a resistncia que estas devero               mente gerados pela observao cias coisas, se
opor ao seu destino de obras perecveis. Em               transformassem, como por um processo espon-
suma, ele cria a solidez e a durao. Eis as              tneo, nos atos da minha arte. Distribu minhas
grandes caractersticas de uma obra completa.             atenes, refiz a ordem dos problemas; come-
S a arquitetura exige-as e eleva-as ao ponto             o onde antes eu terminava, para ir um pouco
culminante. Considero-a a arte mais completa"             mais adiante. (...) A varo de fantasias, concebo
(Eupalinos. trad. it., pp. 141-42). Assim, o car-        como se perseguisse" (Eitpalinos; tracl. it., p.
ter arquitetnico da arte  condicionado pela             91). E Ungaretti disse no mesmo sentido: "ELI
resistncia que ela encontra nas foras naturais          sonhava com uma P. em que os mistrios da
e pela vitria sobre essa resistncia. Por outro          alma, no atraioado.s nem falseados em seus
lado, um corolrio do carter construtivo ou              impulsos, se conciliassem com uma extrema
arquitetnico da atividade potica  o controle           sabedoria do discurso" (Quaranta souetti di
sobre a inspirao, j ressaltado por Baude-              Shakespeare, Nota ntr.). Mallarm estendeu a
laire: "Alimento substancioso e regular  a ni-          preocupao da exatido  prpria escrita: "O
ca coisa necessria para os escritores fecundos.          arcabouo intelectual do poema dissimula-se e
A inspirao  decididamente irm do trabalho             sustenta-se -- acontece -- no espao que
cotidiano. Esses dois contrrios no se ex-               isola as estrofes e o branco do papel: silncio
cluem, tanto quanto no se excluem os contr-             significativo, de composio to bela quanto a
rios que constituem a natureza. A inspirao              tios prprios versos" (Lettre non date  Char-
obedece, tanto quanto a fome, a digesto, o               les Morice, cf. 1'ropossur Iaposie-, ed. Mondor,
sono" ("Conseils aux jeunes littrateurs", 6. (Eitvres,   p. 164).
ed. Le Dantec, II, p. 388).
                                                              7-' Finalmente, como recapitulao de todos
   5" A P. tem carter comunicatiro. Flaubert             os aspectos acima enumerados da P., tambm
dizia: "O poeta deve simpatizar com tudo e                lhe  atribuda a funo cie manuteno de
com todos para compreend-los e descrev-                 uma linguagem eficiente. Essa funo foi expli-
los" (Lettre  Mlle. Leroyer de Chantepie, 12 de          cada com toda a energia e clareza possveis por
dezembro de 1857). E Baudelaire: "Prefiro o               F.zra Pound: a funo da literatura "no  a
poeta que est em permanente comunicao                  coero ou a persuaso por vias emocionais"
com os homens cie seu tempo, trocando com                 nem a coao a adotar certas opinies. "Sua
eles pensamentos e sentimentos que se tradu-              funo tem a ver com a clareza e o vigor de
zem em linguagem nobre e suficientemente                  qualquer pensamento ou opinio. Diz respeito
correta. Situado num dos pontos da circunfe-               preservao e ao esmero dos instrumentos, 
rncia da humanidade, o poeta retransmite na              sade da prpria substncia do pensamento.
mesma linha, com vibraes mais melodio-                  Com exceo de casos raros e limitados de
sas, o pensamento humano que lhe foi trans-               inveno nas artes plsticas ou na matemtica,
mitido. O verdadeiro poeta deve ser uma                   o indivduo no pode pensar e comunicar o
POTICA                                               772                                  POLISSILOGISMO


seu pensamento, o governante e o legislador                 pelo aforismo de Huxley, de que o proto-
no podem agir eficazmente e redigir suas leis              pkisma s consegue viver morrendo continua-
sem as palavras, e a solidez e a validade dessas            mente. Na tica, seria expresso pela interde-
palavras dependem dos cuidados dos malditos                 pendncia do sacrifcio e da realizao pessoal
e desprezados literatos" (Literary Essays; trad.            (Introduction to Logic, IV, 2; trad. it., p. 125).
it., p. 47). Desse ponto de vista, "a manuteno                POLMICO (in. Polemic; fr. Polemique;
de uma linguagem eficiente  to importante                 ai. Polemiscb: it. Polemico"). Kant entendeu por
para as finalidades do pensamento quanto em                 "u.so P. da razo" a defesa de seus enunciados
cirurgia  importante manter os bacilos do tta-            contra as negaes dogmticas. As negaes
no distantes das ataduras"; essa funo cabe               dogmticas dos enunciados racionais so as
P., que "6 simplesmente linguagem carregada                 negaes cpticas, consideradas por Kant como
de significado no mximo grau possvel" (Ibid..             as posies do dogmatismo negativo, simples-
p. 49). A P. executa essa funo de trs manei-             mente preparatrio com respeito  critica da
ras; por isso, so trs as espcies de P.: melo-            razo que  o exame das limitaes e dos limi-
pia, na qual "as palavras, alm do seu signifi-            tes exatos da razo (Crt. R. Pura, Doutrina
cado comum, comportam alguma qualidade                      transcendental do mtodo, cap. I, se. 2).
musical que condiciona o alcance e a direo                    POLIDICOvin. Potyadic). Na lgica con-
desse significado"; fanopia, que " a projeo             tempornea, so qualificados com este termo
de imagens sobre a fantasia visual"; e logopia.            os enunciados (ou relaes) constitudos por
na qual as palavras so usadas no s em seu                trs termos ou mais: p. ex., o enunciado "Fula-
significado direto, mas tambm em vista de                  no deve dinheiro a Sicrano", em que aparecem
usos c costumes, do contexto, das concomi-                  trs termos. Fulano. Sicrano e dinheiro (cf. p.
tncias habituais, das acepes conhecidas e da             ex., DFAVEY, Logic, XVI; trad. it., pp. 413 ss.).
ironia (Ibid., p. 52). No h dvida de que                    POLIGNESE. V. ORTOGNKSE.
essas observaes de Pound constituem o                         POLIGONIA. Gioberti falou em "P. do cato-
ponto culminante da esttica contempornea                  licismo", que  a refrao da palavra revelada
da poesia.                                                  na individualidade de cada um, que, apesar
   POTICA. V. FSTKTICA.                                    disso, continua una, assim como o polgono 
   POITICO (gr. Jtoir|TiK; in. Poietic, fr.              uno, apesar de ter um nmero infinito de lados
Poitique; ai. Poietik, it. Poietico). Produtivo ou         ('Riformacattolica, ed. Balsamo-Crivelli, pp. 147-
criativo, enquanto diferente de prtico. Segun-             48). O mesmo que multilateridade.
do Aristteles, a arte  produtiva, enquanto a                  POLILEMA (in. Polilemma; fr. Polilemme,
ao no  (ft. nic, VI, IV, 1140 a 4). Plotino            ai. Polilemma: it. Polilemma). Termo moderno
chamava as causas eficientes de P. (Knn., VI, 3.            para indicar um dilema (v.) com trs alternati-
18, 28). V. ENCICLOPDIA.                                   vas ou mais (Troxler, Logik., II, 1829, p. 102; B.
   POLARIDADE (in. Polar/y- fr. Polarit, ai.              Frdmann, Logik. 1892, 75).
Polarilt; it. Polarit). Conexo necessria de                 POLIMATIA (gr. 7r.o2nju.aeia). Saber muitas
dois princpios opostos entre si. Neste sentido,            coisas. Herclito disse: "Saber muitas coisas
o conceito foi empregado por Schelling na obra              no ensina a ter inteligncia; seno teria ensi-
Sobre a alma do mundo (1798). A alma do                     nado isso a Hesodo e a Pitgoras, e ainda mais
mundo, segundo Schelling, age na natureza                   a Xenofonte e a Hecateu" (Fr. 40. Diels). Kant
por meio das duas foras opostas de atrao e               chamou de P. o domnio dos conhecimentos
repulso, cujo conflito constitui o dualismo e              racionais, enquanto poli-histria seria o saber
cuja unificao constitui a P. da natureza (Wer-            histrico ou dos fatos, e pansofia seria o con-
ke, I, II, p. 381). Por vezes o conceito de P. foi          junto dos dois (Logik. Intr..  VI).
generalizado, transformando-se em princpio.                    POLISSEMIA (in. L}olysemy, fr. L}ofysmie,
Na filosofia contempornea, isso foi feito por              ai. Polysemic it. Polsemia). Diversidade de re-
Morris R. Cohen, que no o entendeu como                    ferncias semnticas (dos "significados") pos-
princpio da identidade, "mas da necessria co-             sudas pela mesma palavra (cf. BKKAL, Essai de
presena e da subordinao recproca das de-                smantique. cap. 14; S. ULLMANN, The Principies
terminaes opostas". Na fsica, esse princpio             o/Semanties. 2a ed., 1957, pp. 63, 114, 174).
seria representado pela lei de ao e reao e                 POLISSILOGISMO (in. Polysyllogisnv. fr.
pela lei segundo a qual onde h fora h tam-               Polysyllogisme. ai. Polysyllogsmus; it. Polisillo-
bm resistncia. Na biologia, seria expresso                gimo). Termo empregado no sc. XVIII para
POLITEISMO                                             773                                           POLTICA


indicar um silogismo multiplice ou composto,                     Ia O primeiro conceito foi exposto em ti-
ou seja, uma cadeia de silogismos. Essa cadeia                ca, de Aristteles. A investigao em torno do
pode estar ordenada de tal modo que todo                     que deve ser o bem e o bem supremo, segun-
silogismo sirva de fundamento para o que o                   do Aristteles, parece pertencer  cincia mais
segue e de conseqncia para o que o pre-                    importante e mais arquitetnica: "Essa cincia
cede. O silogismo da srie que contm a ra-                  parece ser a poltica. Com efeito, ela determina
zo da premissa de um outro silogismo                       quais so as cincias necessrias nas cidades,
chamado prosslogismo; o que contm a con-                   quais as que cada cidado deve aprender, e at
seqncia de outro silogismo  chamado                       que ponto" (Et. nic. I, 2. 1094 a 26). Este con-
epissilogismo (v.). Toda concatenao cie ra-                ceito da P. teve vida longa na tradio filosfi-
ciocnios, portanto,  constituda por prossi-               ca. Hobbes, p. ex., dizia: "A P. e a tica, ou seja.
logismos e epissilogismos (WOLFI-, L.og.,  492-            a cincia do justou do injusto, do equnimee
94; KANT, Logik,  86; HAMILTON. Lectures 011                do inquo, podem ser demonstradas a priori,
Logic,  68; B. ERDMAIW, Logik,  85).                       visto que ns mesmos fizemos os princpios
   POLITESMO (in. Polytheism; fr. Polythis-                pelos quais se pode julgar o que  justo e equ-
rai* ai. Polytheism lis; it. Politeismo). (Sobre a           nime, ou seus contrrios, vale dizer, as causas
noo de P., v. DKUS, 3, a). O P. est liem longe            da justia, que so as leis ou as convenes"
de ser uma crena primitiva e grosseira, incon-              (Dehom.. X.  5). Neste sentido. Althusius dava
cilivel com a reflexo filosfica. Visto que j             a seu tratado sobre o direito natural o ttulo de
est presente na distino entre divindade e                 Poltica methodice digesta (1603), e todas as
Deus, na realidade so politestas muitas filoso-            obras sobre direito natural foram consideradas
fias s vezes consideradas tipicamente mono-                 tratados de P. (v. DIRKITO).
testas, como p. ex. a de Aristteles. O P. foi s               2a O segundo significado do termo foi ex-
vezes explicitamente defendido por filsofos                 posto em Poltica de Aristteles: "Est claro
modernos. Hume j observava, em Histria                     que existe uma cincia  qual cabe indagar
natural da religio (1757), que a passagem do                qual deve ser a melhor constituio: qual a
P. para o monotesmo no deriva da reflexo                  mais apta a satisfazer nossos ideais sempre que
filosfica, mas da necessidade humana de adular              no haja impedimentos externos; e qual a que
a divindade para obter sua benevolncia, e que               se adapta s diversas condies em que possa
o monotesmo  acompanhado muitas vezes                      ser posta em prtica. Como  quase impossvel
pela intolerncia e pela perseguio, visto que              que muitas pessoas possam realizar a melhor
o reconhecimento de um nico objeto de de-                   forma de governo, o bom legislador e o bom
voo leva a considerar absurdo e mpio o cul-               poltico devem saber qual  a melhor forma de
to de outras divindades (lissay, II. pp. 335 ss.).           governo em sentido absoluto e qual  a melhor
Na era moderna, a superioridade do P. foi res-               forma cie governo em determinadas condies"
saltada por Kenouvier (Psycbologe ratonelle,               (Pol., IV, 1, 1288 b 21). Neste sentido, segundo
1859, cap. 25) e James (A Pluralistic Universe,              Aristteles, a P. tem duas funes: ll descrever
1909), mas muitas outras doutrinas so poli-                 a forma de Estado ideal; 2a determinar a forma
testas, inclusive a de Bergson. Max Weber con-              do melhor Estado possvel em relao a de-
siderou o P. como a luta entre os diversos valo-             terminadas circunstncias. Efetivamente, a P.
res ou as diversas esferas cie valores, entre os             como teoria do Estado seguiu o caminho utpi-
quais o homem deve tomar posio, luta que                   co da descrio do Estado perfeito (segundo o
nunca termina com a vitria de um s valor.                  exemplo da Republicada Plato) ou o caminho
Neste sentido, o mundo da experincia nunca                  mais realista dos modos e dos instrumentos
chega ao monotesmo, mas se detm no P.                      para melhorar a forma cio Estado, o que foi fei-
(Zwischen zwei Gesetze, 1916. em Gesammelte                  to pelo prprio Aristteles numa parte de seu
Politische Schriften, pp. 60 ss.).                           tratado. As duas partes, todavia, nem sempre
   POLTICA (gr. 7IO.ITIKI; lat. Poltica; in.
                                                             so facilmente distinguveis e nem sempre fo-
Politics; fr. Politique, ai. Politik, it. Poltica).         ram distintas. Quando, a partir de Hegel, o
Com esse nome toram designadas vrias coi-                   Estado comeou a ser considerado "o Deus
sas, mais precisamente: Ia a doutrina do direito             real" (v. ESTADO) e o carter da divindade do
e da moral; 2a a teoria do Estado: 3a a arte ou              Estado foi aceito pela historiografia, a P., en-
a cincia do governo; 4a o estudo dos comporta-              quanto teoria do Estado, pretendeu ter car-
mentos intersubjetivos.                                      ter descritivo e normativo ao mesmo tempo.
POLTICA                                                                                  POLITICISMO

Assim, Treitsehke esboava a sua tarefa no se-         apenas notar, em geral, que o bem do Estado
guinte sentido: "A tarefa da P.  trplice: em         tem um direito completamente diferente do
primeiro lugar deve investigar, atravs da             bem do indivduo, e que a substncia tica, o
observao do mundo real dos Estados, qual            Estado, tem sua existncia, seu direito, imedia-
o conceito fundamental de Estado; em segundo           tamente numa existncia concreta, e no
lugar, deve indagar historicamente o que os po-        abstrata, e que somente essa existncia concre-
vos quiseram, produziram e conseguiram e por           ta (e no uma das muitas proposies gerais.
que conseguiram na vida poltica: em tercei-           consideradas como preceitos morais) pode ser
ro lugar, fazendo isto, consegue descobrir algu-       o princpio de sua ao e de seu comportamen-
mas leis histricas e estabelecer os imperati-         to. Alis, a viso do suposto erro que sempre
vos morais" (Politik, 1897, intr.; trad. it., I, pp.   deve ser atribudo  P. nesta suposta anttese
2-3). Como j na obra de Treitsehke, a P. como         baseia-se na superficial idade das concepes
teoria do Estado muitas vezes foi teoria do            de moralidade, de natureza do Estado e de
Estado como fora, pois este  de fato o signifi-      suas relaes do ponto de vista moral" (EU. do
cado de qualquer divinizao do Estado (v.).           d ir..  557). Estas palavras de Hegel outra coisa
    3P A P. como arte e cincia de governo  o         no so seno a reiterao do princpio do ma-
conceito que Plato exps e defendeu em Po-            quiavelismo. O que Hegel chama de existncia
ltico, com o nome de "cincia regia" (PoL.            do Estado outra coisa no  seno a realidade
259 a-b), e que Aristteles assumiu como ter-          efetiva de Maquiavel. que a P. deveria sempre
ceira tarefa da cincia poltica. "Um terceiro         ter presente. Apesar de Hegel ter declarado
ramo da investigao  aquele que considera            superada a anttese entre P. e moral, o conflito
de que maneira surgiu um governo e de que              entre as duas exigncias ainda est vivo na
maneira, depois de surgir, pde ser conservado         prtica poltica e na conscincia comum, e as
durante o maior tempo possvel" (Ibid., IV. 1,         formas de equilbrio, por elas alcanadas, ain-
1288 b 27). Foi este o conceito de P. cujo realis-     da hoje so provisrias e instveis.
mo cru Maquiavel acentuou com as palavras                  4- Finalmente, o quarto significado de P.
famosas: "E muitos imaginaram repblicas e             comeou a ser usado a partir de Comte, e identifi-
principados que nunca foram vistos nem co-             ca-se com o de sociologia. Comte deu o nome
nhecidos como existentes. Porque  tanta a             de Sistema de P. positiva (1851 -54)  sua obra
diferena entre como se vive e como se deveria         mxima sobre sociologia, pois julgou que os
viver, que quem deixa o que faz pelo que de-           fenmenos polticos, tanto em coexistncia
veria fazer aprende mais a arruinar-se do que a        quanto em sucesso, esto sujeitos a leis inva-
preservar-se, pois o homem que em tudo quei-           riveis, cujo uso pode permitir influenciar es-
ra professar-se bom  foroso que se arruine           ses mesmos fenmenos. Foi nesse sentido que
em meio a tantos que no so bons. Donde ser           G. Mosca entendeu por P. a cincia da socieda-
necessrio ao prncipe que, desejando conservar-       de humana. Justificou esse termo da seguinte
se, aprenda a poder ser no bom e a usar disso         maneira: 'Chamamos de cincia poltica o estu-
ou no usar, segundo a necessidade" (Pri)ic,           do das tendncias acima mencionadas ["leis ou
XV). Neste sentido. Wolff definia a P. como "a         tendncias psicolgicas constantes, s quais os
cincia de dirigir as aes livres na sociedade        fenmenos sociais obedecem"! e escolhemos
civil ou no Estado" (Log., Disc,  65). Esta  a       essa denominao porque foi a primeira a ser
cincia ou a arte poltica  qual se faz refern-      usada na histria do saber humano, porque
cia mais freqentemente no discurso comum.             ainda no caiu em desuso e tambm porque a
Referindo-se justamente a este conceito, Kant          nova denominao sociologia, adotada depois
dizia: "Embora a mxima 'A honestidade  a             de Auguste Comte por muitos escritores, ainda
melhor P.' implique uma teoria infelizmente            no tem significao bem determinada e preci-
desmentida com freqncia pela prtica, a m-          sa, compreendendo, no uso comum, todas as
xima igualmente terica 'A honestidade  me-           cincias sociais (Elementos de cincia poltica.
lhor que qualquer P.' 6 imune a objees; alis        1922, I, 1,  II). Mas neste sentido o termo hoje
 a condio indispensvel da P." (Zum eicigen          imprprio.
Freden, Apndice, I). Hegel. por outro lado,
dizia: "J se discutiu muito sobre a anttese en-          POLITICISMO (fr. Politisme, ai. Politismus.
tre moral e P. e sobre a exigncia de a segunda        it. Politicismo). A prevalncia ou a excessiva
conformar-se  primeira. Sobre i.s.so cumpre           importncia que as exigncias polticas s ve-
                                                       zes assumem na vida moderna, em detrimento
POLITOMIA                                                                                        POR SI


de outras exigncias, como as cientficas, arts-      pode ser posta, ou seja, asseverada ou reco-
ticas, morais, religiosas, etc.                        nhecida, mas no deduzida (Dereiuzig mgli-
   POLITOMIA(fr. Polytomie, ai. Polytomie, it.         che Beweisgmnd zu einer Demonstration des
Poltomia). Divisa no dicotmica. Kant ob-           Daseins Gottes. I,  2).
serva que a F. exige intuio: ou a intuio a            2 Este verbo foi usado por Fichte no senti-
prori, como acontece com a matemtica, ou a           do de pr como ser. produzir ou criar: "O ser
intuio emprica, como nas cincias naturais.         cuja essncia consiste puramente em pr-se
Km outros termos, a P.  sempre emprica, en-          como existente  o Eu, como sujeito absoluto.
quanto a dicotomia, por ser fundada no princ-         F. porque se pe. ; e porque , pe-se. O Eu.
pio da contradio, 6 a priori (Logk,  fl5).         portanto,  absoluta e necessariamente para o
   POLIVALENTE, LGICA. V. TKRCKIRO I'X-               Eu" ( Wissenschaftslehre, 1791,  1). Este uso 
u.rix),
       PRINCPIO DO.                                   mantido por toda a tradio cio idealismo ro-
   POLIZETTICA. V. INTERROGAO MLTIPLA.             mntico e, em geral, por toda filosofia que
   PONTE D O S ASNOS (lat. Pons asinonim-              identifique razo com realidade, portanto ato
in. Asses' bridge,h. Pont aux cuies-.. Hselsbri-    lgico cie P. com ato real de produzir.
cke. it. Ponte degli asini). Foi chamado deste            POR ACIDENTE (gr. KorccruLiPePriK; lat.
modo, devido  aparente dificuldade, um dia-           Per accideus). Aquilo que  ou acontece sem
grama construdo pelo lgico Pedro Tartareto           conexo necessria com o sujeito do aconte-
(cuja atividade literria termina entre os anos        cimento, como quando acontece um msico
1480 e 1490), cujo fim era ajudar o estudante          construir; com efeito, entre ser msico e ser
a encontrar o termo mdio entre as vrias figu-        construtor no h conexo (cf. Aristteles. Mel..
ras do silogismo. Esse diagrama  registrado           V, 7, 1017 a 10).
por Prantl (Ceschichte der Logik. IV, p . 206).           POR IMPOSSVEL. V. AliSl RDO
Por vezes esse termo foi estendido, designan-              PORSTICO (in. Poristic. fr. Poristiqite, ai.
do alguma dificuldade de um ensinamento ou             Poristie. it. Poristico). De porisma = corolrio.
doutrina.                                              Este termo designa aquilo que  corolrio ou
    PONTO (lat. Puncliiin. in. Poiut fr. Point;        concerne a um corolrio.
ai. Punkt; it. Punto). Ao lado do P. matemtico            POR SI (gr. Ka8'aT; lat. Per st-, in. By
e do P. fsico, Leibniz admitiu o P. metafsico,       itself. fr. Par sai; ai. Frsich). O que existe em
que  a substncia espiritual como elemento            virtude da sua substncia e no por outra coisa;
constitutivo do mundo. Distinguia do seguinte          o que existe na conscincia e pela conscincia.
modo as trs espcies de P.: "Os P. fsicos so        Estes so os dois significados fundamentais do
indivisveis s aparentemente; os P. matemti-         termo, que remontam respectivamente a Aris-
cos so exatos, mas so apenas modos; s os P.         tteles e a Hcgel.
metafsicos ou de substncia, constitudos pe-             Aristteles (Mel.. V, 18, 1022 a 24 ss.) enu-
las formas ou almas, so ao mesmo tempo exa-           merava cinco significados deste termo:
tos e reais; sem eles no haveria nada cie real            1" Diz-se que uma coisa  por si o que ela 
porque nas verdadeiras unidades no haveria            em virtude de sua essncia necessria ou subs-
multiplicidade" (Systme uouveau dela uatnre,          tncia. P. ex., Clias  por si o que ele 
 1695,  11). Os P. metafsicos no so outra          substancialmente, isto , homem;
coisa seno as mnadas (v.).                               2- Diz-se que uma coisa  por si o que ela
    PR (gr. Tl9r|vai; lat. Ponere: in. Posit: fr.      em virtude de uma parte de sua essncia
Poser. ai. Setzen; it. Porre). liste verbo foi usado   necessria, de uma parte de sua definio (j
na linguagem filosfica com dois diferentes sig-       que a definio expressa a essncia necess-
nificados: 1" asseverar ou assumir como hipte-        ria). Neste sentido, diz-se que Clias  por si
se: 2" P. como ser, produzir.                          animal, porque "animal" faz parte da definio
    lu O primeiro significado j era empregado         de Clias;
por Plato e Aristteles: o primeiro no sentido            3y Em terceiro lugar, diz-se que uma coisa 
de estabelecer uma hiptese (Teet.. 191 c), o          por si o que ela  em virtude de uma de suas
segundo no sentido de estabelecer Lima pre-            qualidades ou determinaes primrias. Neste
missa (An.pr.. I, 1, 24 b 19) ou de admitir uma        sentido, diz-se que o homem  vivo por si,
tese (7b/;., II, 7, 113 a 28). Correspondente-         porquanto a vida  uma de suas determinaes
mente, a palavra posio vale genericamente            primrias (sendo parte da alma, que  substn-
como assero, e Kant afirma que a existncia          cia do homem);
POSIO                                                                                     POSITIVISMO

   4" Diz-se por si o que no tem, ou do qual            mesma coisa" (Der einzig mgliche Beweis-
no se considera, uma coisa externa. Neste               gmnd zit einer Demonstration des Daseins
sentido, o homem  por si enquanto homem,                Gottes, 1763,  3). Para Kant, a P.  o reco-
ou seja, porque sua causa  sua prpria subs-            nhecimento (emprico) de uma existncia.
tncia, e no porque ele  animal, bpede, etc;          No idealismo romntico, a partir de Fichte, a P.
    5Q Diz-se que  por si a coisa que  o que a         foi entendida como criao. Diz Fichte: "Aquilo
ela pertence propriamente ou que pertence so-            cujo ser (ou essncia) consiste apenas em pr-
mente a ela. Neste sentido, pode-se dizer que            se como existente  o Eu como sujeito absolu-
a alma pensa por si.                                     to. Porque se pe, ; e porque , pe-se"
   Estes cinco significados na realidade so to-         (Wssenschaftslehre, 1794,  1). O conceito de
dos integrveis no primeiro, segundo o qual se           P., neste sentido, no se distingue do de cria-
diz que  por si a coisa que existe em virtude           o. Volta a distinguir-se de criao em Husserl,
de sua substncia. Com efeito, o 2- significado          para quem a P.  a afirmao da existncia do
refere-se s partes da substncia; o 3Q significa-       objeto intencional. Ele distinguiu P. atual, que
do refere-se s qualidades ou determinaes              se tem quando o objeto intencional est pre-
que derivam da substncia; o 4Q e o 5S significa-        sente, da P. potencial, que se tem quando ele
dos referem-se  causalidade prpria da subs-            no est presente (Ideen, I,  113). Husserl usa
tncia. O significado fundamental ou genrico,           tambm o termo posicionalidade (alemo
segundo o qual  por si o que  em virtude da            Postionalitt) para indicar em geral o carter,
sua substncia,  o mais freqente na histria           comum a todas as vivncias, de pr o objeto
da filosofia. Este , p. ex., o significado da expres-   intencional (como existente, desejado, ou pre-
so atribuda a S. Toms de Aquino ou a Duns             tendido, etc). s vezes so chamados de P. os
Scot. S. Toms de Aquino afirma que "Deus               prprios objetos fsicos no definveis em ter-
o prprio ser subsistente por si" (S. Tb., I, q. 44.     mos de experincia, mas reconhecidos como
a. 1), visto que o ser pertence  essncia ou            existentes apenas como intermedirios teis
substncia de Deus (Ibid., 1, q. 3. a. 4), e que a       entre a experincia e a linguagem (QUINE, From
alma no pode corromper-se porque  "forma               a Logical Point of View, II, 6).
subsistente por si" (Ibid., I, q. 75, a. 6). Duns            2. Na lgica terminista medieval, uma obri-
Scot reserva o ser por si  forma total e perfeita       gao^-.), mais precisamente a que consiste
que compreende todas as partes, mas que no              em sustentar uma proposio como verdadeira
 parte (Quodi, q. 9, n. 17). Ambos os filsofos         (Ockham, Summa log., III, III, 40).
designam, portanto, como por si o ser substan-             POSITIVISMO (in. Positivism- fr. Pasitivis-
cial, apesar de Duns Scot restringir o significa-        me, ai. Positivismus; it. Positivismo). Este termo
do mais que S. Toms de Aquino.                          foi empregado pela primeira vez por Saint-
   POSIO (gr. 6OI; lat. Positio; in. Posit; fr.      Simon, para designar o mtodo exato das cin-
Position; ai. Setzung, Position; it. Posizione). 1.      cias e sua extenso para a filosofia (De Ia reli-
Assuno no demonstrada; 1 da premissa de              gion Saint-Simonienne, 1830, p. 3). Foi adota-
um raciocnio; 2" da existncia de alguma coisa.         do por Augusto Comte para a sua filosofia e,
    ly No primeiro sentido, o termo  constante-         graas a ele, passou a ciesignar uma grande
mente usado por Aristteles (cf. An.post., I, 2,         corrente filosfica que, na segunda metade do
72 a 15) e por toda a tradio lgica mesmo              sc. XIX, teve numerosssimas e variadas mani-
recente, na qual s vezes  explicitamente               festaes em todos os pases do mundo oci-
redefinido (cf. H. RKICHF.NHACH, The Rise of             dental. A caracterstica do P.  a romantizao
Scientific Philosophy, 1951, p. 240).                    da cincia, sua devoo como nico guia da
    2- Kant foi o primeiro a distinguir P. relati-       vida individual e social do homem, nico co-
va, que  o reconhecimento do ser predicativo            nhecimento, nica moral, nica religio poss-
(ser expresso pela cpula) que pe em relao            vel. Como Romantismo em cincia, o P. acom-
duas determinaes de uma coisa, e a P. abso-            panha e estimula o nascimento e a afirmao
luta, que  o reconhecimento da existncia da            da organizao tcnico-industrial da sociedade
coisa. Kant dizia: "Em um existente, nada               moderna e expressa a exaltao otimista que
posto alm do que j est no puro possvel (tra-         acompanhou a origem do industrialismo. 
ta-se com efeito de seus predicados), mas atra-          possvel distinguir duas formas histricas fun-
vs de um existente  posto algo mais que um             damentais do P.: o P. social de Saint-Simon,
puro possvel, porque se trata da P. absoluta da         Comte e John Stuart Mill, nascido da exigncia
POSITIVISMO JURDICO                                                           PS-PREDICAMENTOS

de constituir a cincia como fundamento                estabelecida de fato, que vigora como um com-
de uma nova ordenao social e religiosa               plexo de instituies histricas, ao contrrio da
unitria; e o P. evolucionista de Spencer, que         religio natural, que pode no vigorar de fato.
estende a todo o universo o conceito de pro-           Fala-se de direito P. como direito vigente em
gresso e procura imp-lo a todos os ramos da           determinado Estado, em contraposio ao di-
cincia (para o positivismo evolucionista, v.          reito natural, que pode no ter validade de
EVOLUCIONISMO). As teses fundamentais do P.            fato. As expresses "fato P." e "realidade P."
so as seguintes:                                      tm valor anlogo porque designam o fato ou a
    Ia A cincia  o nico conhecimento poss-         realidade reconhecida ou reconhecvel como
vel, e o mtodo da cincia  o nico vlido:           tal em virtude de um mtodo objetivo. Portan-
portanto, o recurso a causas ou princpios no         to, nesta acepo, o significado fundamental
acessveis ao mtodo da cincia no d origem          do termo  aquilo que vigora de fato ou tem
a conhecimentos; a metafsica, que recorre a tal       realidade efetiva. Comte expressava esse signi-
mtodo, no tem nenhum valor.                          ficado ao afirmar: "Considerada na sua acepo
   2- O mtodo da cincia  puramente descri-          mais antiga e mais comum, a palavra P. designa
tivo, no sentido de descrever os fatos e mostrai-      o que  real em oposio ao que  quimrico"
as relaes constantes entre os fatos expressos        (Discours sur Vesprit positif.  31). O positi-
pelas leis, que permitem a previso dos pr-           vismo chamou de P. o mtodo da cincia por-
prios fatos (Comte); ou no sentido de mostrar          que visa ao reconhecimento puro e simples
a gnese evolutiva dos fatos mais complexos a          dos fatos e de suas relaes (v. POSITIVISMO).
partir dos mais simples (Spencer).                     Em sentido no diferente deste, Schelling cha-
   3a O mtodo da cincia, por ser o nico vli-       mou de P. o conhecimento que considera o ato
do, deve ser estendido a todos os campos de            com que a realidade  posta. Distinguiu as con-
indagao e da atividade humana; toda a vida           dies negativas do conhecimento, que so
humana, individual ou social, deve ser guiada          aquelas sem as quais o conhecimento no 
por ele.                                               possvel, das condies P., que so aquelas gra-
   O P. presidiu  primeira participao ativa         as s quais o conhecimento se realiza. As pri-
da cincia moderna na organizao social e             meiras so as formas racionais do ser e dizem
constitui at hoje uma das alternativas funda-         o que o ser pode ou deve ser; as segundas
mentais em termos de conceito filosfico, mes-         expressam a existncia e consistem substan-
mo depois de abandonadas as iluses totalit-          cialmente na vontade de Deus de manifestar-se
rias do P. romntico, expressas na pretenso           (Werke. II, III, pp. 57 ss.).
de absorver na cincia qualquer manifestao
humana.                                                    2. O mesmo que afirmativo. Neste sentido,
   POSITIVISMO JURDICO (in. Juridical                 o termo recorre em locues como "declara-
positivism- fr. Positivismejuridique, it. Positivis-   es P." ou "notcias P.", ou mesmo para desig-
 mo giuridico). Foi esse o nome que Hans Kel-          nar doutrinas que caracterizem seus objetos
sen deu  sua doutrina formalista do direito e         com afirmaes, e no com negaes; p. ex.,
do Estado (General Theory of Law and State,            "teologia P.", em oposio a teologia negativa;
 1945; cf. especialmente o apndice "A doutrina        "existencialismo P.", etc.
do direito natural e o V. jurdico") (v. DIREITO;          3. O mesmo que positivista, no sentido
ESTADO).                                               em que, a partir de Comte, se diz "filsofos
   POSITIVISMO LGICO (in. Logical Posi-               positivos".
tivism\ fr. Positivisme Logique; ai. Neupos-              PS-PREDICAMENTOS (gr uex t  
tivismus; it. Positivismo lgico). (V. EMPIRISMO       KcaTiYopa; lat. Postpredicaments-, in. Postpredi-
LGICO.)                                               caments-, fr. Post-prdicamenls; ai. Postpradi-
    POSITIVO (in. Positive, fr. Positif, ai. Po-       kamente, it. Postpredicamenti). Comearam a
sitif; it. Positivo). 1. O que  posto, estabele-      ser chamados com este termo pelos glosadores
cido ou reconhecido como um fato. Leibniz              de Aristteles (p. ex., por Filpono, sc. VI em
chamava de "verdades P." as verdades de fato,          Cat., 39 a, 33) os conceitos que Aristteles
que se distinguem das verdades de razo por-           anunciou depois das categorias, no livro que
que constituem "leis que aprouve a Deus dar           tem este nome; so eles: de oposio (oppo-
natureza" (Thod., Discours,  2). No mesmo            sito), de prioridade(prius), de simultanedade
sentido, fala-se em religio P. como religio          (simul), de movimento (motus) e de ter (ha-
POSSE                                                                                                 POSSVEL

bere) (CM.. 10-15). Para estes conceitos, v. os               q. 25, a. 3). Duns Scot chama-o de P. lgico.
verbetes relativos.                                           considerando-o prprio da "composio do in-
   POSSE      (in.   Possessiotv,   fr.   Possession;   ai.   telecto", porquanto os termos desta no in-
Resitz; it. Possesso). 1. Alguma garantia da pos-             cluem contradio (Op. Ox., I, d. 2, q. 6, a. 2. n.
sibilidade de dispor de uma coisa ou de us-la.                10). Ockham julga que o P.. neste sentido,
Este  o conceito de Kant: "O que  meu                       outra coisa no  seno o no-impossvel
de direito (meum jris)  aquilo a que estou                  (Suninia log.. II, 25). Foi este o conceito ressal-
to ligado que o seu uso por outra pessoa, sem                tado por Leibniz: "Quando vos digo que h
o meu consentimento, se daria em meu pre-                     uma infinidade de mundos P., pressuponho
juzo. A P.  a condio subjetiva da possibili-              que no impliquem contradies, assim como
dade de uso em geral" (Met. der Sitten, I,  1).              se podem escrever romances que nunca se rea-
A noo cie P.. portanto, diz respeito  relao              lizaro, mas que so possveis. Para que uma
entre o homem e as coisas, e expressa certa                   coisa seja P., basta que seja inteligvel'' (Carta
garantia (que pode ter significados e limites                 a Bourguet. 1712. em Op., ed. Gerhardt, III. p.
muito diferentes) da possibilidade de uso que                 558). Neste sentido. Leibniz clistinguia o P. do
determinado indivduo tem em relao a deter-                  compossveHv.). que  a possibilidade objetiva.
minada coisa.  imprpria a noo de P. com                   A noo cie P. neste sentido continua na escola
referncia .s relaes entre as pessoas.                     wolffista (Wolff. Onl.,  85; Cru.sius, Vemwift-
   2. Na significao mais generalizada, esse                 wahrheiten.  56; Lambert. Dianoiologie,  39);
termo designa qualquer relao predicativa e                  Kant considerava-a vlida em .seus limites, mas
existencial; dizemos, p. ex., "A coisa x pos-                 opunha-lhe a noo de possibilidade objetiva
sui a qualidade a" ou "O objeto x possui                      ('Dereinzig mglicbe Beweisgrund zit ener De-
existncia". Neste sentido, o uso do termo cor-               monstratioji des Daseins Gottes. 1763, II, D-
responde ao que se encontra em Aristteles,                       As duas teses fundamentais desta noo do
em oposio a privao (cf. Met., X, 4, 1055 a                P. so as seguintes: I) reduo do P. ao no-im-
33) (V. PRIVAO).                                            possvel; II) inferncia do P. a partir do necess-
    POSSIBILIDADE. V Possvn.,                                rio, no sentido de que o necessrio deve ser
    POSSVEL (gr. x 5-uvaxv; lat. Possibilis-,              possvel. Trata-se de dois princpios estreita-
in. Possible; fr. Possible; ai. Mglich; it. Possibile).      mente interligados. Aristteles enunciou-os
O que pode ser ou no ser. Ksta definio nomi-               pela primeira vez no famoso tratado sobre o K,
nal geralmente  pressuposta pelas definies                 que se encontra em De inteipretatone. O ne-
conceptuais desse termo, mas s estas ltimas                 cessrio deve ser P. -- raciocinou Aristteles
permitem tratar dos problemas peculiares a                    -- porque, se no tosse P., seria impossvel, o que
essa noo. As definies conceptuais de pos-                 6 contraditrio (De int., 13, 22 b 28 ss.). A iden-
svel podem ser: A) /lega/iras (de natureza                   tificao do V. com o uo-impossvel j e.sl
lgica); B) positivas. Por sua vez estas ltimas              clara nesse raciocnio, mas em todo caso tor-
podem ser 1" de possibilidade real; 2" cie possi-             nou-se explcita com Aristteles. Ele observa
bilidade objetiva. As trs classes de definies              que, tanto no caso de possibilidades pertencentes
da resultantes correspondem quase perfeita-                  a entes imutveis quanto de possibilidades per-
mente s trs espcies de P. clistinguidas por                tencentes a entes mutveis,  sempre verdadei-
Aristteles em Metafsica: "O P. significa: 1Q o              ra a proposio "no 6 impossvel que seja"
que no 6 necessariamente falso; 2" o que                    (De int.. 1.3, 23 a 13). A mesma doutrina era
verdadeiro: 3!> o que pode ser verdadeiro"                    repetida por S. Toms de Aquino, que, no entan-
(Met.. V. 12. 1019 b 30).                                     to, se restringia explicitamente ao P. lgico (Con-
    1" As definies negativas de P. so de natu-             tra Gent., III. 86). As mesmas teses esto pre-
reza lgica; definem o P. como aquilo que no                 sentes nas doutrinas contemporneas sobre o
 necessariamente falso ou no inclui contradi-               P. Peirce diz: "F. essencial ou logicamente P.
o. Era com esse sentido que Aristteles defi-               tudo que uma pessoa, que no conhece fatos
nia o P. no trecho citado. F.ste conceito passou              mas est a par do raciocnio e tem familiarida-
 tradio filosfica com a denominao de "P.                de com as palavras que ele contm, seja inca-
lgico", distinto do "P. real". S. Toms de Acjui-            paz de declarar falso" (Coll. Pap.. 4, 67). Aqui
no chama-o de "P. absoluto" e diz que resulta                 a noo de falso substituiu a de contraditrio, mas
ex babitudine terminorum, isto . da no re-                  o P. continua sendo reduzido quilo que no
pugnncia entre predicado e sujeito (S. 7b., I,               falso. Carnap. por sua vez, define o P. como o
                                                       7
POSSVEL                                                   79                                           POSSVEL


 "no impossvel" (Meaning and Secessity.                       possvel. O ato que no  impossvel,  possvel.
 39-3)- Essa 6 a definio mais freqente na                   portanto, todo ato P. deve verificar-se de tem-
lgica contempornea. Obviamente, a noo                       pos em tempos: se nunca se verificasse, nunca
de P. neste sentido implica um conceito bem                     concorreriam todas as condies necessrias 
definido de impossibilidade, isto 6, da contra-                 sua produo, e ele seria ento, por definio,
dio ou falsidade lgica. Mas este conceito                    um ato impossvel, o que contraria a hiptese"
no parece estar  disposio dos lgicos, visto                (Decorp.. 10,  4). Esta elaborao cio conceito
o seu desacordo sobre a noo contrria e com-                  de P. outra coisa no  seno a repetio do
plementar de impossibilidade, que  a noo                     argumento vitorioso de Deodoro Cronos, que
de necessidade (v.).                                            reaparece toda vez que se reduz o P. a uma
    2- A definio de P. como possibilidade real                potencialidade, na qual devam estar presentes
identifica o P. com o potencial(v.) e v no po-                 todas as condies de realizao, estando,
tencial o que se destina infalivelmente a reali-                pois. destinada infalivelmente a realizar-se. Este
zar-se. Foi graas a essa interpretao que                      o conceito de P. encontrado em Hegel, que
Deodoro Cronos, famoso filsofo de Mgara,                      distinguia possibilidade real e mera possibilida-
afirmava, com o argumento vitorioso (w). que                    de; esta seria "a v abstrao da reflexo em
ludo o que  P. se realiza, e o que no se reali-               si", ou seja, uma simples representao subjeti-
za no 6 P. (ARISTTELES, Mel., 9, 3. 1046 b                    va, ao passo que se tem a possibilidade real
24 ss.; EPICTKTO, Diss., II. 19, 1; CCKKO, De fato,            quando ocorrem todas as condies de uma
6 ss.). Deodoro Cronos inferia deste princpio a                coisa, de tal maneira que a coisa deve tornar-se
tese da necessidade de tudo o que : nada cio                   real;  bvio que. neste caso, possibilidade real
que loi,  ou ser, pde ser, pode ou poder ser                no se distingue de necessidade (Ene,  147).
diferente de como loi,  ou ser. Mas o prprio                 A noo de possibilidade real neste sentido 
Aristteles, que combatia a tese de Deodoro                     freqentemente empregada pelos seguidores
Cronos baseando-se nos outros significados de                   cie Hegel, sejam eles idealistas ou marxistas.
P., s vezes admitia a tese fundamental desta                   Muitas vezes esta noo foi empregada para
concepo de possibilidade: "No pode ser                       designar a predeterminao dos eventos hist-
verdade que alguma coisa  P. mas no ser,                     ricos em suas condies, portanto para funda-
pois neste caso no existiriam impossibilida-                   mentar a possibilidade de previso infalvel
des" (Met., IX, 4, 1047 b 3). Esta concepo do                 cia evoluo futura da histria. Foi deste modo
P. foi acolhida pela Escolstica rabe a partir de              que Ci. LUKACS usou esse conceito (Geschicbte
Avicena. A diviso de Avicena entre o ser ne-                   imdKlassenbeivitsstsein. 1923; trad. fr., 1960, p.
cessrio e o ser P.  na verdade a diviso entre                 1()4 ss.). Com o mesmo significado de poten-
aquilo que extrai seu ser de si mesmo                           cialidade, esse conceito est pressuposto num
(Deus) e aquilo que extrai seu ser de outro (as                 livro de S. Buchanan, em que a possibilidade 
coisas criadas). Deste ponto de vista, o P. 6                   definida como "a idia reguladora da anlise
possvel enquanto no  nada; assim que come-                   cio todo em stias partes", sendo as partes defi-
a a ser. este  o sinal de que esto presentes                 nidas como "a potencialidade do todo" (Pos-
todas AS condies ou causas do seu ser, e ele                  sibility, 1927, pp. 81 ss.).
tornou-se necessrio: no sentido de necessrio                     Finalmente, o ltimo exemplo deste concei-
em relao a outra coisa (Met., II. 1-2; Algazel.               to  a denominada "lei modal fundamental" de
Met., I, 8; etc). Este "necessrio em relao a                 N. Hartmann, que compreende as seis teses se-
outra coisa" era o conlnge)ite(\.).                            guintes: "Ia o que  realmente P. 6 tambm
   lista doutrina foi repetida muitas vezes na                  realmente factvel; 2a o que  realmente factvel
histria da filosofia. Uma de suas melhores ex-                  tambm realmente necessrio; 3! o que 
presses est em Hobbes: "Chama-se de im-                       realmente P.  tambm real e reciprocamente
possvel o ato para cuja produo nunca have-                   necessrio; 4a aquilo cujo no ser  realmente P.
r potncia plena. Pois a potncia plena                        tambm realmente infactveh 5:l o que  real-
aquela para a qual concorrem todas as condi-                    mente infactvel  tambm realmente imposs-
es necessrias  produo do ato: se nunca                    vel; 6a aquilo cujo no ser  realmente possvel
houver a potncia plena, sempre faltar alguma                   tambm realmente impossvel" (Mglichket
das condies sem as quais o ato no pode                       itnc Wirklichkeil. 193<">. p. 126). Estas teses no
produzir-se, cie tal modo que esse ato nunca                    passam de reduo explcita do conceito cie
poder produzir-se, portanto ser um ato im-                    possibilidade real no conceito de necessidade:
POSSVEL                                              780                                              POSSVEL

reduo  qual na verdade no poderamos                    pensvel  dado, e estaremos em contradio
objetar.                                                    se ainda quisermos que haja alguma coisa de
    Faz parte desta noo do P. a reduo do                P." (Der einzig mgliche Bewesgrundzu einer
conceito de P.  ignorncia ou  imaginao                 Demonstration des Daseins Gottes, I, 2, 2), Ou,
post faclum. O primeiro caminho foi seguido                 em outros termos, "subtraindo-se do P. o mate-
por Spinoza: "Chamo cie P. as coisas singulares,             rial e os dados, tambm se nega a possibilida-
porquanto, considerando as causas pelas quais               de" (Ibid., I, 2, 3). Aqui, Kant parece negar at
elevem ser produzidas, ignoramos se elas es-                mesmo a legitimidade da noo de P. lgico.
to determinadas a produzi-las" (Et., IV, def. 4;           Em outro ponto, admite tambm esta possibili-
Cogit Met., I, 3). O segundo caminho foi segui-             dade: "O conceito  P. todas as vezes que no
do por Bergson: "O P. 6 a miragem do presente               se contradiz.  este o carter lgico da possibi-
no passado; e como sabemos que o futuro aca-                lidade, e com isso o seu objeto  distinto do
bar por tornar-se presente e que o efeito da                nihil negativum. Mas no pode ser um con-
miragem continuar a produzir-se, dizemos                   ceito vazio. (...) Esta  uma advertncia a no
que em nosso presente atual, que ser o passa-              deduzir imediatamente a possibilidade (real)
do de amanh, a imagem do amanh j est                    das coisas da possibilidade (lgica) dos concei-
contida, apesar de no chegarmos a alcan-la.              tos" (Crt. R. Pura, Dialtica, II, cap. 3, se. 4, n.
Nisso est precisamente a iluso" ("Le Possible             [A 597, B 625]). A possibilidade objetiva ou real
et le rel", 1930, em Lapense et le mouvant. 3a            baseia-se, ento, nos dados da experincia e 
ed., 1934, p. 128).                                         uma possibilidade que s a experincia, e
    3L> O terceiro conceito de P.  de possibilida-         no o simples conceito, autoriza a admitir. To-
de objetiva, que remonta a Plato. A possibili-             davia, no se trata de uma possibilidade real no
dade de agir ou de sofrer uma ao foi assumi-              sentido de que falamos ao nQ 2, isto , de uma
da por Plato como a definio do ser em geral              potencialidade destinada infalivelmente a reali-
(V. SKR). contra os materialistas, por um lado, e           zar-se: "As proposies de que as coisas po-
contra os idealistas, por outro. "Digo que                 dem ser P. sem ser reais e que, portanto, no se
existente tudo aquilo que tem por natureza a                pode deduzir a realidade a partir da possibili-
possibilidade de fazer uma coisa qualquer ou                dade ajustam-se  razo humana" (Crt. do
de sofrer uma ao (inclusive tudo o que existe             Juzo,  76). Kant chama de real ou transcen-
em medida mnima e por uma vez s, e com                    dente a possibilidade que se baseia nos dados
respeito  coisa mais insignificante). Por isso,            da experincia, mas no a identifica com a ne-
fao a seguinte definio: o,s ente.s no so               cessidade: ela s .significa que ao conceito
outra coisa seno possibilidades" (Sof., 247 e).            pode corresponder um objeto (Crt. R. Pura.
Aristteles definia a possibilidade neste senti-            Anal. dos Princ, cap. III [A 244, B 3031).
do como "aquilo que pode ser verdadeiro" (Mel.,                 Se Kant insistia na conexo do P. objetivo
V, 12. 1019 b 32). E S. Toms cie Aquino                    com a experincia, Kierkegaarcl insistia, em po-
defendia essa possibilidade contra o neces-                 lmica com Hegel, na incleterminao do P.
sitarismo rabe: "O P. ou contingente, que se               Respondendo negativamente quando lhe per-
ope ao necessrio, tem em seu conceito que                 guntaram se o passado era mais necessrio que
no deve realizar-se necessariamente quando                 o futuro, Kierkegaarcl afirmou que o P. no se
no , visto que ele se segue necessariamente               torna necessrio pelo fato de realizar-se, mas
da sua causa' (Contra Gent., III, 86). Ockham               que permanece P.: "O passado no  necess-
inclua o mesmo conceito entre os significados              rio no momento em que devm; no se tornou
do termo P., como "aquilo que no est em ato,              necessrio por devir (o que seria uma contradi-
mas poder estar", ou que "no  nem neces-                 o); e torna-se ainda menos necessrio atra-
srio nem impossvel" (Summa log.. II, 25). O               vs do entendimento da pessoa". Neste caso,
conceito de compossveKv.), de Leibniz,  ou-               com efeito, o passado ganharia o que o intelec-
tra expresso dessa mesma noo de pos-                     to perdesse: no seria entendido pelo que ,
sibilidade, defendida por Kant j antes de                  mas por uma outra coisa (Philosophische Bwken,
suas "Crticas", quando, opondo-se  escola                 IV, Intermdio,  4; trad. fr., pp. 162 ss.). Toda a
wolffista, ele mostrava a insuficincia do con-             especulao de Kierkegaard baseia-se nessa
ceito cie possibilidade lgica: "Existir possibili-         noo de possibilidade objetiva e indetermi-
dade e no entanto no existir nada de real                 nada, com a qual esclarece as noes de an-
contraditrio, porque, se nada existe, nada de              gstia (v.) e de desesperana (v.). No entanto,
POSSVEL                                                781                                       POSSVEL


Kierkegaard s vezes utiliza expresses que                ou morais que lhe so oferecidas pelo sistema
no so rigorosamente compatveis com a                    social em que vive.
indeterminao objetiva das possibilidades,                    Muitas das possibilidades que seu organis-
como p. ex. "Tudo c P." ou "todas as possibili-            mo fsico permitem efetivar so-lhe obstadas
dades". Considerando as possibilidades como                pelas normas jurdicas e morais. Portanto, para
infinitas, acaba-se por excluir sua indetermina-           cada possibilidade objetiva  indispensvel a
o e limitao: de tato, o que falta a uma delas          referncia a um contexto de condies e de re-
para realizar-se infalivelmente pode ser supri-            gras tcnicas determinadas, e falar-se em possi-
do pelas outras, se elas forem infinitas; as possibi-      bilidade sem especilicar esse contexto s pode
lidades transformam-se, ento, em potencialida-            dar ensejo a equvocos. Alis, o mesmo se
des necessrias.                                           pode dizer das cincias: uma possibilidade l-
    Na filosofia contempornea, porm, o con-              gico-matemtica nem sempre  uma possibili-
ceito de possibilidade objetiva  entendido no             dade fsica, ou seja, passvel de efetivao com
seu sentido empiricamente determinado e                    base em leis da fsica, e assim por diante (cf. J.
finito. Peirce fala em "possibilidades substan-            R. LUCAS, The Concept of'Probability, 1970, p. 6
ciais" (cm oposio s possibilidades lgicas),            e passim).
como as que se fundam em informaes refe-                     No campo da metodologia historiogrfica, a
rentes aos fatos e a suas leis; e diz que tais pos-        noo de possibilidade objetiva foi considera-
sibilidades coincidiriam com a necessidade s              da indispensvel por Max Weber (Kritische
na hiptese de uma informao onisciente                   Studien aufden Gebiet der Kulturivissenscba-
(Coll. Pap., 4, 67). Devvey entende a possibili-          ftlichen Logik. 1906; cf. especialmente a segun-
dade, no mbito da matemtica e, em geral, da              da parte; trad. in., cm The Methodology of lhe
investigao cientfica, como possibilidades de            Social Sciences, pp. 164 ss.; trad. it. em II m-
operaes ou de transformaes (Logic, XV e                todo delle scienze storico-sociali, pp. 207 ss.)
XX, 3). Wittgenstein afirma que possibilidade             sendo empregada tambm em obras mais re-
o que se expressa por uma proposio sensata,              centes (p. ex., W. DRAV, Lairs and Expia na -
que se distingue da tautologa, que  a propo-             tion in Ilistory, 1957, VI, 3; cf. HISTRIA;
sio da lgica ou da matemtica, que "nada                HISTORIOGRAFIA). NO campo das cincias bio-
diz", e da contradio (Tractalus, 5, 525). Em            lgicas, essa noo foi utilizada por Gold-
outros termos, para Wittgenstein, a proposio            stein (Der Aufbtm des Organismus, 1934;
sensata  apenas a expresso da possibilidade              trad. fr. 1951) e tende a ser utilizada no do-
de um fato. Lukasiewicz e Tarski formularam                mnio psiquitrico (cf., p. ex., M. TORRE, "La
os princpios de uma lgica da P., cujo fim                categoria dei possibile in psicopatologia", em
seria evitar o determinismo (v. os textos cita-            Note e Riviste dipsichiairia, 1957). Alm disso,
dos em TERCEIRO EXCLUDO. PRINCPIO DO).                   a gentica e a teoria da evoluo utilizam cons-
Reichenbach, por sua vez, distinguiu da pos-              tantemente esse conceito, designando-o s ve-
sibilidade lgica a possibilidade fsica e a               zes com outro nome (p. ex., com o nome de
possibilidade tcnica: a primeira significa                oportunidade, cf. G. SIMPSON, The Meaning of
algo que no contradiz as leis empricas; a                Evohition. cap. XII, "The Opportunism of Lvo-
segunda, algo que pertence ao reino dos                   lution"). Na sociologia, os conceitos que, impl-
mtodos prticos conhecidos ("Verifiability,              cita ou explicitamente, recorrem  noo cio P.
Theory of Meaning", em Proceedings of the                 so os mais numerosos. Lvy-Bruhl falou do
American Academy ofArts and Sciences, 1951,                "limite do P." como constitutivo da experincia
(80", p. 53)- Alm disso, ps a possibilidade f-          racional, por isso como deficiente ou ausente
sica como fundamento da probabilidade                     na mentalidade primitiva (I.es caniets, 1949;
( Theory ofProbablily,  74). Mas est claro que         trad. it., p. 98 ss.). Toda a teoria da probabilida-
esse ponto de vista pode ser generalizado, e              de, seja qual for a sua interpretao, baseia-se
que s se pode identificar uma possibilidade              nessa noo de P. (cf., p. ex.. REICIIEXBACH.
objetiva em contextos particulares, ou seja,               Theory of Probability.  74; e POPPER. que fala
com base cm condies c regras vigentes em                da probabilidade como "vector no espao das
determinado campo. P. ex.. no que diz respeito             possibilidades"; v. PROBABILIDADE). Finalmente,
ao homem, a possibilidade fsica que ele tem               quase suprfluo lembrar a importncia que a
de realizar determinada ao no coincide ne-             noo de possibilidade objetiva tem na filosofia
cessariamente com as possibilidades jurdicas             existencialista, em que constitui o principal
POST HOC ERGO PROPTER HOC                                                                          POTNCIA


instrumento de anlise (v. EXISTKNCIAI.ISMO). Est         tica" as condies que tornam possvel a
claro que, de acordo com esta terceira interpre-           moralidade, isto , a liberdade, a imortalidade
tao, o oposto de P. no  impossvel, mas                e a existncia de Deus (Crt. R. Prtica, Dialtica,
no-possvel.                                              se. II).
    POST HOC ERGO PROPTER HOC. Clebre                         POTNCIA (gr. SVOCLU; lat. Potentia; in.
falcia (v.) que constitui um caso particular da           Power. fr. Puissance-, ai. Vermgen; it. Poten-
falcia mm cansapro causaicf. ARISTTELES, El.             zti). 1. Em geral o princpio ou a possibilidade
,s'q/.', 5, 167 b); esta consiste em estabelecer uma       de uma mudana qualquer. Esta foi a definio
conexo causai, portanto necessria, com base              cio termo dada por Aristteles, que distinguiu
numa conexo meramente acidental ou secun-                 este significado fundamental em vrios signifi-
dria. No caso de post hoc ergo propter hoc. o             cados especficos, mais precisamente: ei) capa-
sofisma consiste em estabelecer uma conexo                cidade de realizar mudana em outra coisa ou
de causa e efeito entre A e R pelo simples fato            em si mesmo, que  a P. atira; b) capacidade
de B vir depois de A.                          G. P.       de sofrer mudana, causada por outra coisa
     POSTULADO (gr. Oxr|ua; lat. Postulaliim;             ou por si mesmo, que  a P. passiva; c) capaci-
in.   Postulate-, fr. Postulai; ai. Postulai; it.   Pos-   dade cie mudar ou ser mudado para melhor e
tulato). Em geral, uma proposio que se admite            no para pior; d) capacidade de resistir a qual-
ou cuja admisso se deseja, com o fim de pos-              quer mudana (Mel.. V, 12, 1019 a 15; IX, 1,
sibilitar uma demonstrao ou um procedimento               1046 a 4). listas distines praticamente no
qualquer. Esse termo nasceu na matemtica e                mudaram ao longo cia tradio filosfica (v.
 elucidado por Aristteles em correlao com              Aro). A tradio medieval repetiu-as sem varia-
axioma (\.). Enquanto os axiomas so eviden-               es, e, ainda no sc. XVIII, Wolff as repetia
tes por si e tm de ser admitidos necessariamente,         em frmulas epigrficas que em nada mudam
mesmo no sendo demonstrveis, o P., apesar                os velhos conceitos (Ont., 1729,  716). Mesmo
de demonstrvel,  assumido e utilizado sem                Locke, em sua famosa anlise dessa noo, no
demonstrao. Alm disso, o P.  uma propo-                lhe altera o conceito (Ensaio, II, 21, 1).
sio ainda no admitida ou aceita por aquele                  O conceito, todavia, implica uma ambigi-
a quem  endereada (seno seria intil pedir-             dade fundamental porque pode ser entendido:
lhe que a admitisse); nisso difere da hiptese             A) como possibilidade: B) como preformaoe
(v.), que tambm  uma proposio de-                      portanto predeterminao ou preexistncia do
monstrvel, no demonstrada, mas conside-                  atual. Em Aristteles e em todos aqueles que
rada verdadeira por aquele a quem  dirigido               seguem a metafsica aristotlica, ambos os sig-
o discurso (An. post., 10, 76 b 24 ss.). A distin-         nificados esto presentes e muitas vezes so
o entre axioma e P. foi adotada por Euclides             confundidos. Assim, quando Aristteles defen-
em seus Elementos-, enquanto os axiomas expres-            de o conceito da potncia contra a negao do
sam verdades evidentes e so chamados por                  mesmo feita por Deodoro Cronos (v. POSSIBILI-
Euclides de noes comuns, os P. expressam o               DADE), entende a P. no sentido A), ao passo
que se prope ser admitido e concernem                    que, ao afirmar "que no pode ser verdade
existncia de determinados elementos geom-                dizer que algo  possvel mas no ser" (Met.,
tricos. A distino entre P. e axioma deixou de            IX. 4, 1047 b 3). ou ao afirmar a superioridade
ser usada na lgica e na matemtica moderna                do ato sobre a P., com base no princpio de que
(v. AXIOMTICA).                                           sem o ato a P. no existiria (o ovo no existiria
   Kant chamou cie "P. do pensamento empri-               sem a galinha), est entendendo a P. como
co" os princpios correspondentes a priori s              preformao e predeterminao. e consideran-
categorias da modalidade, segundo os quais                do-a como um modo de ser menor ou prepara-
possvel tudo o que est de acordo com as                  trio do ato (Ibcl, IX, 8, 1049 b 4). Confuso
condies formais cia experincia (intuies               anloga acha-se no ensaio de Bergson "O pos-
puras e categorias); o que est de acordo com              svel e o real" (1930), pois nele Bergson, rejei-
as condies materiais da experincia (com as              tando o conceito de possvel como "no-im-
sensaes)  real; e aquilo cuja conexo com a             possvel", ou seja, como "no impedido de
realidade  determinada segundo as condies               ser", identifica-o no entanto com o de poten-
universais da experincia  ou existe necessaria-          cial e considera o potencial como "a mira-
mente (Crt. R. Pura, Anal. dos princ, cap. II,            gem do presente no passado" (Ia pense et
se. III, 4) Depois, chamou de "P. da razo pr-           le mouvant, 3a ed., 19.34, pp. 128-30). Visto
POTENCIAO, LGICA DA                              7X3                                        PRAGMTICO

que o conceito de potencial faz constante re-                 PRAGMTICA (in. Pragmalicsjr. Pragmati-
ferncia  atualidade ou realidade, enquanto              cjue: ai. Pragmatik; il. Pragmtica). Uma das
o de possvel no possui necessariamente                  partes da semitica (v.), mais precisamente a
essa referncia, as noes de preformao,                que compreende o conjunto de investigaes
preexistncia e predeterminao podem ser                 que tm por objeto a relao dos signos com
consideradas estreitamente conexas com a cie              os intrpretes, ou seja, a situao em que o sig-
potncia.                                                 no  usado. Fsse aspecto da semitica j havia
   2. Faculdade ou poder da alma (v. FACUL-               sido ressaltado por C. S. Peirce, Ogden e Ri-
DADE).                                                    chards, mas foi principalmente Morris que con-
    3. Domnio ou predomnio, como na ex-                 siderou a P. como parte integrante da semi-
presso "vontade de IV.                                   tica; seu ponto de vista  amplamente aceito na
    POTENCIAO, LGICA DA. Tentativa                     lgica contempornea (cf. C. MORRIS, Poun-
de lgica simblica, que consiste em eliminar             dations ofthe Theory of Signs. 193<">, cap. V;
as leis de tautologia e de absoro e em intro-           CARNAP, /'omidations of Logic and Xathe-
duzir os smbolos de potncia e de coeficiente.           maties, 1939,  2). As outras partes da semitica
Kste tipo de lgica deveria fundar-se no princ-          suo semntica e sintaxe (v.).
pio de que qualquer relao iruxiitici os entes              PRAGMTICO (gr. 7rpayn.aTiK; in. Prag-
relativos, contrrio ao princpio habitualmente           inatic;   fr.   Pragmatique;   ai.   Pragmatiscb;   il.
admitido pela lgica simblica contempornea
                                                          Pragmtico). Esse adjetivo foi usado pela pri-
(cf. P. Mosso, Princlpi cli lgica dei P.. Turim,
                                                          meira vez por Polbio. para quem h ntida dis-
1924; A. PASTORK, La lgica ciei P.. Npoles,
                                                          tino entre a histria "P.", que cuida dos fatos.
1936).
                                                          e a histria que se ocupa cias lendas, como a
    POVO (lat. Popnlus; in. People-, fr. Peuple           que fala da genealogia das famlias e da funda-
ai. Volk it. Popolo). Comunidade humana ca-               o cias cidades (IX, 1,4). Polbio acrescenta
racterizada pela vontade cios indivduos que a            tambm que a histria P.  a mais til para ensi-
compem de viver sob a mesma ordenao ju-
                                                          nar como o homem deve procedei' na vida
rdica. O elemento geogrfico no  suficiente
                                                          social. Depois, esse adjetivo foi usado com
para caracterizar o conceito de P.; como dizia
                                                          freqncia na histria poltica, especialmente
Ccero, "P. no  uma aglomerao qualquer de
                                                          alem, a propsito de decises constitucionais
homens, reunidos de qualquer maneira, mas
                                                          cujo carter deveria ser ressaltado, sendo ento
uma aglomerao de gente associada pelo con-
sentimento ao mesmo direito e por comunho                chamadas de "sanes IV. Kant dizia: "Cha-
de interesses" (Kep., I, 25, 39). Portanto, ao P.         niam-se P- as sanes que no derivam propria-
contrape-se a plebe, que  o conjunto das pes-           mente tios direitos dos Estados considerados
soas que, mesmo vivendo com o P., participam              como leis necessrias, mas de compromisso
da mesma o r d e n a   o jurdica. Por outro            para com o bem-estar geral. Uma histria 
lado, o conceito de P. distingue-se do de na-             composta pragmaticamente quando nos torna
oKx.) porque este contm um conjunto de                 prudentes, vale dizer, quando ensina  socieda-
elementos necessitantes que se somam  no-                de de hoje a maneira de obter mais benefcios
o de destino comum, ao qual os indivduos               que a sociedade de ontem, ou pelo menos
no podem subtrair-se legitimamente. O con-               tantos benefcios quanto ela obteve" (Gnind-
ceito de nao comeou a formar-se a partir do            logung zurMet. derSitlen. II, Nota). Kant cha-
conceito de P. quando, com Montesquieu,                   ma tambm de P. os imperativos hipotticos da
comearam a ser ressaltadas as causas naturais            prudncia que visam ao bem-estar (Ibid.. II,
e tradicionais (clima, religio, tradies, usos          Nota). Ele chama de P. a f fundada em juzo
e costumes, etc.) que contribuem para for-                subjetivo da situao, como p. ex. a do mdico
mar o que Montesquieu chamou de "esprito                 que no conhece bem a doena que deve tratar
geral" ou "esprito da nao" (Hsprit cies lois,          (Crt. R. Pura. Doutrina do Mtodo, cap. 2, se.
XIX, 4-5). A diferena entre P., nao e plebe            3). li chama sua antropologia de P. porque ela
era estabelecida com bastante clareza por Kant            considera o que o prprio homem faz de si
(A)itr., II, O Carter do povo), mas o conceito           mesmo, e no o que ele  por natureza (Antr.,
de P. era confundido muitas vezes com o de                Pref.).
nao no nacionalismo do sc. XIX (v. NACIO-
                                                             Na linguagem contempornea essa palavra
NALISMO; ESPRITO NACIONAL).
                                                          voltou a ter o seu sentido inicial. Quando no
PRAGMATISMO                                           784                                   PRAGMATISMO


se refere a pragmatismo, designa simplesmen-                regra proposta por Peirce era, portanto, sugeri-
te o que  ao ou que pertence  ao.                     da pela exigncia de achar um procedimento
    PRAGMATISMO (in. Pragmatism, Pragma-                    experimental ou cientifico para fixar as crenas,
ticism, fr. Pragmatisme, ai. Pragmatismus-, it.             entendendo por cientfico ou experimental o
Pragmatismo). Esse termo foi introduzido na                 procedimento que no recorre ao mtodo da
filosofia em 1898, por um relatrio de W. James             autoridade nem ao mtodo aprioriilbid., 1,1,
a Califrnia Union, em que ele se referia                   2, pp. 9 ss.). Pode-se dizer que pertence ao
doutrina exposta por Peirce num ensaio do                   mesmo tipo o P. de Dewey, que, para evitar
ano 1878, intitulado "Como tomar claras as nossas           qualquer equvoco, preferiu o termo instru-
idias". Alguns anos mais tarde, Peirce declara-            mentalismo (v.). "A essncia do instrumenta-
va ter inventado o nome P. para a teoria segun-             Hsmo pragmtico" -- escreveu ele -- " conce-
do a qual "uma concepo, ou seja, o signifi-               ber o conhecimento e a prtica como meios
cado racional de uma palavra ou de outra                    para tornar seguros, na experincia, os bens,
expresso, consiste exclusivamente em seu al-               que so as coisas excelentes de qualquer esp-
cance concebvel sobre a conduta da vida'; di-              cie" ( The Questfor Certainty, 1929, p. 37). Des-
zia tambm que preferira esse nome a pra-                   te ponto de vista, Dewey compartilhava o
ticismo ou praticalismo porque, para quem                   experimentalismo de Peirce, porque para ele "a
conhece o sentido atribudo a "prtico" pela fi-            experimentao faz parte da determinao de
losofia kantiana, estes ltimos termos fazem                qualquer proposio justificada" (Logic, 1939,
referncia ao mundo moral, onde no h lugar                p. 461), ao mesmo tempo em que evidenciava
para a experimentao, enquanto a doutrina                  o carter instrumental e operacional de todos
proposta  justamente uma doutrina experi-                  os procedimentos do conhecer, considerados
mentalista. Todavia, no mesmo artigo, Peirce                como meios para passar de uma situao
declarava que. em face da extenso do signifi-              indeterminada para uma situao determinada,
cado de que o P. fora alvo por obra de W.                   ou seja, ao mesmo tempo distinta e unificada
James e de F. C. S. Schiller, preferia o termo              (Logic, cap. VI). , portanto, bastante bvio o
pragmaticismo, para indicar sua prpria con-                parentesco desse tipo de P. com a metodologia
cepo, estritamente metodolgica, do P.                    cientfica contempornea, em particular com o
("What Pragmatism Is", TheMonist, 190S; Coll                operacionismo (v.), por um lado. e com as te-
Pap., S, 411-37). Desta maneira, Peirce acabava             ses fundamentais da lgica simblica, por ou-
distinguindo duas verses fundamentais de P.,               tro. Os pragmatistas italianos Giovanni Vailatie
que podem ser assim caracterizadas: Ia um P.                Mrio Calderoni ressaltaram este aspecto. 0
metodolgico, que  substancialmente uma                    primeiro observava a propsito que o principal
teoria do significado; 2a um P. metafsico, que            ponto de contato entre lgica e P. "est na
Lima teoria da verdade e da realidade.                      tendncia comum a ambos de considerar o valor
                                                            e o prprio significado de uma assero como
    Ia O P. metodolgico no pretende definir a             algo intimamente vinculado ao emprego que
verdade ou a realidade, mas apenas um proce-                se pode ou se deseja fazer deles na deduo e
dimento para determinar o significado dos ter-              na construo de determinadas conseqncias
mos, ou melhor, das proposies. Peirce dizia               ou grupos de conseqncias" ('Pragmatismo
no artigo do ano de 1878, geralmente conside-               e lgica matemtica", 1906, em // mtodo
rado data de nascimento do P.: "E impossvel                delia filosofia, p. 198). Estas palavras definem
ter em mente uma idia que se refira a outra                bem o carter funcional do P. de inspirao
coisa que no os efeitos sensveis cias coisas.             metodolgica.
Nossa idia de um objeto  a idia de seus efei-
tos sensveis. (...) Assim, a regra para atingir o              2a A concepo de P. metafsico encontra-
ltimo grau de clareza na apreenso das idias              se em W. James e em F. C. S. Schiller; suas teses
 a seguinte: Considerar quais so os efeitos               fundamentais consistem em reduzir verdade a
que concebivelmente tero o alcance prtico                 utilidade, e realidade a esprito. A segunda des-
que atribumos ao objeto da nossa compreen-                 tas teses foi compartilhada pelo P. metafsico
so. A concepo destes efeitos  a nossa con-              com boa parte da filosofia contempornea; o
cepo do objeto" (Chance, l.ove and Logic,                 prprio James reconheceu e gabou a concor-
I, 2.  1; trad. it., p. 39). O princpio dessa re-         dncia substancial cie sua filosofia com a dos
gra metodolgica  que "a funo do pensa-                  espiritualistas franceses, especialmente a de
mento  produzir hbitos de ao", crenas. A               Bergson. A primeira tese  caracterstica dessa
PRAGMATISMO                                             785                                           PRATICO


forma de pragmatismo. Sen pressuposto  o                         A este P. metafsico vinculam-se as outras
princpio que ela tem em comum com o P.                       manifestaes fora do circuito anglo-saxo; em
metodolgico: a instrumentalidade do conhe-                   primeiro lugar, vincula-se com a filosofia de
cer. Mas este pressuposto  entendido e reali-                Hans Vaihinger. exposta na obra Filosofia do
zado por ela de modo totalmente diferente. Em                 como se(Philosophie des Ais Ob, 1911), na qual
primeiro lugar, ela procura evidenciar a depen-               ele afirma o carter fictcio de todo conheci-
dncia de todos os aspectos do conhecimento                   mento e o carter biolgico da preferncia por
(ou do pensamento) em relao a exigncias                    um conhecimento e no por outro. Vincula-se
da ao, portanto em relao s emoes em                    tambm ao P. pluralista de A. Aliotta (A guerra
que tais exigncias se concretizem. Tambm a                  eterna e o drama da existncia, 1917), em que
"racionalidade'', segundo James,  uma espcie                est presente a mesma tnica espiritualista do
de sentimento ("O sentimento da racionalida-                  P. de James (cf. de ALIOTTA, O sacrifcio como
de" em The Will to Believe, 1897). Deste ponto                significado do mundo, 1947). Finalmente, vin-
de vista, as aes e os desejos humanos                       cula-se ao fidesmo pragtnatista de Miguel de
condicionam a verdade: qualquer tipo de ver-                  Unamuno, na forma exposta no Comentrio
dade, inclusive a cientfica. Portanto no  leg-            ao Dom Quixote (WO^) e em Do sentimento tr-
timo, deste ponto de vista, recusar-se crer em                gico da L>da(9l$), e de Jos Ortega y Gasset
doutrinas que tenham condies de exercer                     (O tema do )iosso tempo, 1923; Sobre (jalileu.
ao benfica na vida do homem s porque                      1933: Histria como sistema, 1935, etc), que.
elas no so apoiadas por provas racionais sufi-              porm, especialmente nas ltimas obras, reve-
cientes. Em casos como estes, afirmava James,                 la a influncia do existencialismo de Heidegger.
 preciso correr o risco de acreditar. K F. C. S.                 PRTICO (gr. TpcxKTiK; lat. Prac/icus; in.
Scliller levava esta doutrina s suas conse-                 Practcal; fr. Pratique; ai. Praktiscb, it. Prati-
qncias extremas, ressuscitando palavras de                  co). Em geral, o que  ao ou diz respeito 
Protgoras, "o homem  a medida de todas as                   ao. H trs significados: 1" o que dirige a
coisas", e afirmando a relatividade do conheci-               ao; 2." o que pode traduzir-se em ao; 3" o
mento em relao  utilidade pessoal e social                 que  racional na ao.
(Humanism. 1903). Enquanto Schiller se limita-                    1Q O primeiro  o significado filosfico tradi-
va a este relativismo. James abria caminho,                   cional. Plato j distinguia a cincia prtica (p.
atravs dele. ao tesmo e s doutrinas espiritua-             ex.. construo civil), que  "inerente por natu-
listas tradicionais, com a alegao de que elas               reza s aes", da cincia cognitiva (como a
so teis  ao e benficas  vida humana.                   aritmtica), que no se relaciona com a ao
Embora procurasse limitar o dogmatismo des-                   (Pol.. 258 d-e). Aristteles dizia que "nas cin-
sas doutrinas, insistindo no carter pluralista               cias P. a origem do movimento est em alguma
do universo (v. PLUAUSMO) e no carter finito                deciso de quem age porque 'IV e escolha' so
da divindade (v. Dia s), o P. foi para ele essencial-         a mesma coisa" (Met., VI, 1, 1025 b 22). Para
mente uma via de acesso  metafsica tradicio-                Aristteles, as cincias P. eram a poltica, a eco-
nal, lim dos motivos que James aduzia para                    nomia, a retrica e a cincia militar; a tica 
justificar o exerccio da vontade de crer  que a             parte fundamental da poltica (Et. nic. I, 2,
crena pode produzir sua prpria justificao:               1094 b). Este significado continuou uniforme
o que acontece s vezes nas relaes humanas,                 na tradio filosfica. P. ex., ([Liando S. Toms
quando acreditar que algum  nosso amigo                     de Aquino diz que teologia . em parte, cincia
leva-nos a ter comportamento amistoso para                    prtica (S. Th.. I, q. 1, a. 4) e quando Duns Scot
com essa pessoa, conquistando a sua amizade.                  afirma que ela  totalmente cincia P. (Op. O.x.,
Dificilmente se pode fazer uso teolgico ou                   Prol., q. 4, n. 31), esto fazendo referncia ao
metafsico dessa proposio: no entanto, ela                  significado tradicional: P.  o que dirige a ao.
tornou-se um princpio importante da sociolo-                 De modo semelhante, Wolff definia a filosofia
gia contempornea. Quanto ao resto, enquan-                   P. como a cincia que "dirige as aes livres
to o P. metodolgico teve continuao nos estu-               mediante regras generalssimas" (Philos. prac-
dos de lgica e de metodologia e em algumas                   tica.  3), e, como Aristteles, dividia-a em ti-
correntes do neo-empirismo, o P. gnosiolgico                 ca, Economia e Poltica. Este significado preva-
confluiu para as correntes espiritualistas (cf. H.            lece no uso filosfico do termo.
W. SCHXFIDF.R, A llistoryofAmerican Pbilosophy.
2J ed., 1957).                                                    2" No segundo significado, que pertence 
                                                              linguagem comum mais que  filosfica, P. 
                                                        7
PRAXIOLOGIA                                                 6                                              PRAZER


tudo aquilo que  fcil ou imediatamente tradu-                  segunda, constituda pelo conjunto das ativi-
zvel em ao, no sentido, p. ex., de produzir                   dades espirituais humanas (cf. ENGHI.S, Anti-
sucesso ou proporcionar vantagem. Neste sen-                     dbring, 1878).
tido, uma idia  chamada de "P." porque pode                       PRAZER (gr. rjSovt: lat. Voluplas; in. Plea-
ser concretizada e levaro sucesso. Homem P.                     sure. fr. Plaisir. ai. Litst: it. Piacere). P. e dor
 o que tem idias P., que so realizveis com                   constituem os tons fundamentais de qualquer
facilidade ou com probabilidades de vantagem                     tipo ou forma de "emoo". A determinao de
ou sucesso. Este significado geralmente no                      suas caractersticas depende da funo que se
tem lugar na linguagem filosfica.                               atribui s emoes, e por isso est relacionada
    3y O terceiro significado  o mais restrito e                com a teoria geral das emoes. Aqui  preciso
foi empregado por Kant. Este entende por P.:                     observar que, na tradio filosfica, essa palavra
"Tudo o que  possvel por meio da liberdade".                   tem um significado diferente do de felicidade,
Mas a liberdade nada tem a ver com o arbtrio                    mesmo quando ligada a ela: o P.  indcio de
animal; assim, o que  independente de est-                     um estado ou condio particular ou tempor-
mulos sensveis, portanto pode ser determi-                      ria de satisfao, enquanto a felicidade  um
nado por motivos representados apenas pela                       estado constante e duradouro de satisfao to-
razo, chama-se de livre arbtrio; e tudo o                      tal ou quase total (v. FlUCiDADi-:).
que a ele se liga, como princpio ou como con-                       A mais famosa definio do P. foi a de Aris-
seqncia, chama-se P." (Crt. R. Pura. Doutri-                  tteles, que. alis, utilizava os conceitos de
na do Mtodo, cap. II, se. I). Esse uso restrito                Plato (Rep., IX, 583 ss.; Fil, 53 c): "P.  o ato
do termo, caracterstico de Kant, no teve se-                   de um hbito conforme  natureza" (lit. we.
guidores.                                                        Vil. 12, 1153 a 14), sendo preciso lembrar que
    PRAXIOLOGIA (in. Praxiology-, Ir. Prci-                      hbito .significa "disposio constante". Essa de-
xologie-, it. Prassiologia). Termo criado por                   finio servia para desvincular o P. de sua co-
Kotarbinsky, para designar "a teoria geral cia                   nexo com sensibilidade, visto que um hbito
atividade eficaz", que deveria compreender a                     pode ser sensvel ou n.o. A partir do Renasci-
totalidade dos domnios da atividade til dos                    mento as definies de 1'. basearam-se em
sujeitos agentes, do ponto de vista da eficcia                  sua funo biolgica. Para Telsio,  aquilo
cie suas aes (Praxiology, An Introduclion to                   que favorece a conservao do organismo
lhe Science of l-fficient Action, Oxford, 1965: a                (De rer. nat.. IX, 2). Descartes definiu a ale-
obra polonesa original  cie 1955). V. TKC-                      gria, considerada uma das seis emoes fun-
NOLOGIA.                                                         damentais, como "a emoo prazerosa da
   PRAXIS. Com esta palavra (que  a transcri-                   alma, na qual consiste a fruio do bem que as
o cia palavra grega que significa ao), a ter-                impresses do crebro lhe representam como
minologia marxista designa o conjunto de rela-                   seu" (Pass. de 1 me,  91). Spinoza afirmava:
es de produo e trabalho, que constituem a                    "Entendo por alegria a paixo graas  qual a
estrutura social, e a ao transformadora que a                  mente eleva-se a uma perfeio maior" (Et., 1 1 1,
revoluo deve exercer sobre tais relaes.                       11), o que  uma parfrase da definio aristo-
Marx dizia que  preciso explicar a formao                     tlica. Enquanto Hobbes voltava  definio
das idias a partir da "prxis material", e que,                 biolgica, vendo no P. o sinal de um movimen-
por conseguinte, formas e produtos da cons-                      to proveitoso ao corpo, transmitido pelos r-
cincia s podem ser eliminados por meio da                      gos sensoriais ao corao (De corp.. 25, 12).
"inverso prtica das relaes sociais existen-                  Nietzsche afirmava: "O P.: sensao de maior
tes", e no por meio da "crtica intelectual" (A                 potncia" ( WUcZurMatcbt, ed. Krner, 660).
ideologia alem, 2; trad. it., p. 34) (v. MATKRIALIS-            Em oposio a essas teorias, que podem ser
MO HISTRICO). Por "inverso da P.". Engels                      chamadas de positivas, encontra-se a teoria ne-
entendeu a reao do homem s condies                          gativa de Schopenhauer, segundo a qual o P. 
materiais da existncia, sua capacidade de inse-                 simplesmente a cessao da dor, de tal modo
rir-se nas relaes de produo e de trabalho e                  que ele  conhecido ou sentido apenas me-
de transform-las ativamente: esta possibilida-                  tliatamente, atravs da lembrana do sofrimen-
de  a subverso da relao fundamental entre                    to ou da privao passada (Die Weil, I.  58).
estruturai: superestrutura, em virtude cia qual                      A psicologia moderna manteve as caracters-
 somente a primeira (a totalidade das relaes                  ticas tradicionais atribudas ao P.: reiterou sua
de produo e de trabalho) que determina a                       funo biolgica, mas ao mesmo tempo, com
PRAZER, PRINCIPIO DO                                       787                                      PREDICATTVO


base na observao, tambm confirmou o carter                   cientes no tempo anterior que, juntamente com
ativo que Aristteles reconhecia no P. (cf. J. C.                o que ele contm, no est mais em nosso po-
FLUGEL, Studies in Feeling and Desire, 1955. p.                  der" (Religion, I, cap. IV, Observao Geral)
118 ss.).                                                        (v. DETERMINISMO).
   PRAZER,          P R I N C  P I O DO (in.   Pleasure             PREDICADO (in. Predicate; fr. Predicai; ai.
principie, ai. Lustprinzp it. Principio dipiacere).             Prdikat; it. Predicato). Na lgica aristotlica, a
Fsse foi o nome que Freud deu a um dos dois                      proposio consiste em afirmar (ou negar) algo
princpios fundamentais que regem o funcio-                      cie alguma coisa: portanto, divide-se em dois
namento mental, mais precisamente o que di-                      termos essenciais, o sujeito, aquilo de que se
rige a atividade psquica para libertar-se da dor.               afirma (ou se nega) alguma coisa, e o P. (Korrr|-
O outro princpio seria o da realidade, graas                   yopo|ivov), que  justamente o que se afir-
ao qual a busca do prazer no se d pelas vias                   ma (ou nega) do sujeito: assim em "Scrates 
mais curtas, mas obedecendo s condies                         branco", "Scrates"  o sujeito; "branco", o
impostas pelo mundo externo (Triebe nnd                          predicado. O P. pode ser essencial, prprio, ou
Triebsch icksale,     1915).                                     simplesmente acidental. Atravs de Bocio.
   PREAMBULA FIDEI. Foi esse o nome que                          essa doutrina passou  Lgica medieval (cf.
S. Toms de Aquino deu ao conjunto das ver-                      PEDRO HISPANO, 1.07: "Subiectum est de quo
dades cuja demonstrao  necessria  prpria                   aliquid dicitur; praedcatnm est quocl cie alte-
t, em primeiro lugar a da existncia de Deus                    ro dicitur") e, dela, a toda a Lgica ocidental.
(In Boet. de Trinit.. a. 3) (v. DEIS. PROVAS DF:                 Na lgica contempornea, com a crise da con-
TOMISMO).                                                        cepo predicativa da proposio (segundo a
   PR-ANIMISMO. V. ANIMISMO.                                    qual a proposio consiste na atribuio de um
    PRECISO (in. Precision: fr. Prcision; ai.                  P, a um sujeito), o termo "P." passou a ter uso
Prcisione; it. Precizione). Procedimento pelo                   oscilante. Russell (Princ. math., l2, pp. 51 ss.)
qual se considera cada parte de um todo. sem                     d o nome de "P." s funes proposicionais de
considerar o todo e as outras partes, de tal                     primeira ordem, que contm somente variveis
maneira se chegue a determin-la em seus carac-                  individuais (substituveis apenas por nomes
teres prprios. Foi desse modo que a Lgica de                   prprios, que denotam indivduos). Hilbert e
Arnauld (I, 5) definiu a P., considerando, por-                  Ackermann (Grnndzge der tbeoretiscben
tanto, uma forma particular de abstrao (v.).                   Logik), retornando de alguma maneira ao uso
O resultado desse procedimento obviamente                       clssico, entendem propriamente por "P." o
a caracterizao exata das partes de um todo;
                                                                 functor de uma proposio funcional qual-
portanto, na linguagem corrente, "P." tornou-
se sinnimo de exatido, e "preciso", de exato.                  quer com uma ou mais variveis. Analoga-
                                                                 mente, mas com maior preciso. Carnap (cf. p.
    PREDESTINAO (lat. Praedestinatio-, in.                     ex., Einfuhnuig in de Symboliscbe Logik,
Predestination; fr. Prdestination; ai. Pr-                     1954, pp. 4 ss.) usa "P." para indicar o smbolo
destination; it. Predestinazione). Na teologia                   de propriedades ou relao atribudas a indi-
crist,  a escolha que Deus faz dos eleitos, da-                vduos.                                      G. P.
queles que se salvaro: segundo S. Agostinho,
foi feita antes da criao do mundo (Deprae-                        PREDICAMENTO. V. CATEGORIA.
destinatione, 10). Para os problemas relativos a                    PREDIO. V. PREVISO.
ela, v. GRAA. A P.  sempre P.  salvao, mas                     PREDICATIVO (in. Predicative-, fr. Prdi-
s vezes tambm foi defendida (e condenada                       catif.. PrdicatiiK it. Predicativo). 1. Chama-
pela Igreja) a P. dupla, para a salvao e para a                se P. o uso do verbo ser como cpula de uma
condenao. Fsta doutrina foi defendida, p.                      proposio, ou seja, em seu significado no
ex.. pelo monge Godescalco de Corbie e com-                      existencial (v. SER).
batida por Hinkmar (sea IX). Na era moderna,                         2. Chama-se de P. uma definio que no 
foi defendida pelos Calvinistas (v. PRETERIO).                 impredicativa, no sentido que Poincar deu a
    PREDETERMINISMO (in. Predeterminism,                         este termo (v. IMPRFDICATIVA, DEFINIO); por-
fr. Prdeterminisme; ai. Prdeterminismus; it.                   tanto, chama-se de P. tambm a teoria que ex-
Predeterminsmo). Termo empregado por Kant                       clui por princpio as definies impredicativas
para designar o determinismo rigoroso, aquele                    (in o clculo proposicional baseado nessa ex-
segundo o qual "as aes voluntrias, enquan-                    cluso (cf. p. ex., CHIRCII, Intr. to Matbemati-
to acontecimentos de fato. tm suas razes sufi-                 cal Logic,  58) (v. ANTINOMIA).
PREDICVEIS                                            788                                         PREMOO


    PREDICVEIS (gr. KaxriyopoLteva; lat.                   um homnculo que contm todas as partes do
Praedicabila; in. Predicablesi; fr. Prdicables-,           feto humano. A doutrina da P. era aceita por
ai. Prdicabilien-, it. Prdicabili). Os universais,         Leibniz, para quem "Deus formou previamente
porquanto aptos por natureza a ser predicados                as coisas de tal maneira que os novos organis-
de muitas coisas. Porfrio foi o primeiro a enu-             mos no passam de conseqncia mecnica de
merar os cinco universais simples ou primiti-                um organismo precedente" (Thod., pref.1. Se-
vos, que so gnero, espcie, diferena, prprio             gundo Kant, uma vez admitido o princpio teo-
e acidente (Isaq., 1). Aristteles enumerou                  lgico para a produo dos seres organizados,
como elementos de cada proposio ou pro-                    s h duas hipteses para explicar a causa de
blema quatro elementos, que so definio,                   sua forma final: a do ocasionalismo, segundo a
prprio, gnero e acidente (Top., I, 4, 101 b                qual Deus intervm diretamente em cada nova
24), mas esta enumerao, ao incluir a defini-               formao orgnica, ou a da harmonia preesta-
o (que  composta de gnero e de espcie),                 helecida, segundo a qual um ser orgnico pro-
no leva em considerao a simplicidade dos                  duz o seu semelhante. Por sua vez, esta ltima
elementos. A enumerao de Porfrio tornou-se                pode ser ou teoria da P. -- se a gerao for
clssica e passou a fazer parte integrante da                considerada como simples desenvolvimento
lgica tradicional.                                          de uma forma preexistente -- ou teoria da
                                                             tpigenesia -- se a gerao for considerada
    No teve seguidores, porm, a proposta                   como produo. Kant no escondia sua simpa-
kantiana de chamar de P. os conceitos do inte-               tia pela teoria da epigenesa, porquanto parecia
lecto derivados das categorias, que seriam os                reduzir muito mais que a outra a ao das cau-
conceitos de fora, ao, paixo (derivveis da              sas sobrenaturais e prestar-se mais a provas
categoria da reciprocidade), surgir, perecer,                empricas (Crt. do Juzo.  81). A moderna teo-
mudar (derivveis das categorias da modalida-                ria da evoluo eliminou o prprio fundamen-
de), etc. (Crt. R. Pura,  10).                             to da oposio entre teoria da P. e teoria da
    A noo desse termo desapareceu da lgica                epigenesia (v. EncENv.s.iA; EVOLUO).
contempornea (v. os verbetes particulares).
                                                                 PREFORMACIONISMO ou PREFORMIS
    PREENSO (in. Prehension). Termo com
                                                             MO. V. PRKFORMAO.
que Whitehead (Process andReality, 1929) de-
                                                                PREGUIA DA RAZO. V.            RA/O   KG-
                                                                                                         PKU
signou a percepo, porquanto nela o sujeito
                                                             OSA.
apreende ou "apropria-se" de uma "entidade
                                                                  PR-LGICO (fr. Prlugique). Adjetivo in-
real", uma coisa ou um evento. Na realidade, o               troduzido por L. Lvy-Bruhl para caracterizara
prprio nome cie percepo j tem esta cono-                 mentalidade dos povos primitivos, considera-
tao (v. PKRCITO).                                        da indiferente ao princpio de contradio e
    PREESTABELECIDA, HARMONIA. V.                            fundada naparticipao{\.) (Lesfonctionsmen-
PRKFORMAAO.                                                 tales dans les socits infrieures. 1910, pp. 78
    PREEXISTNCIA. V. MKTKMPSICOSH.                          ss.). Depois. Lvy-Bruhl abandonou esse con-
    PREFORMAOn. Preformalion-ix. Pr-                     ceito: "No h mentalidade primitiva que se
Jrmation; ai. Praformaton: it. ['reformazio-               distinga da outra por dois caracteres que lhes
 )ie). Com o nome de teoria da P. (ou pre-                   so prprios (mstico e P.). Existe mentalidade
formismu) toi designada no sc. XV11I a teoria               mstica mais acentuada e mais facilmente
sobre a formao dos organismos, segundo a                   observvel entre os primitivos do que em nos-
qual seus rgos j esto preformados no ovo.                sas sociedades, mas que est presente em todo
 Malpighi, em 1637, propusera essa teoria, reco-             o esprito humano" {Les carnets, 1949, VI; trad.
nhecendo que os rgos no se acham prefor-                  t., p. 161).
mados no ovo assim como sero no embrio                          PREMISSA (gr. rtpTOtGi; lat. Pmemissa-M.
 ou no adulto, mas em forma de filamentos ou                 Premise-, fr.   Premisse; ai.   Prcimisse; it. Pre-
 estames, cada um dos quais  a potncia de um               messci). Toda proposio da qual se infere ou-
rgo (La formcizione dei poliu neliuoro,                    tra proposio.
 1637). Essa teoria foi aceita no sc. XVIII por                 PREMOO (lat. Praemotio; in. Premotiom
muitos bilogos, como Haller, Spallanzani e                  fr. Prmolioii; it. Premozione). Termo empre-
 Bonnet, que se chamavam "avisteis", para dis-               gado pelos telogos cio sc. XVII para indicar
 tingui-los dos "animaculislas", que no fim do               a determinao fsica, por parte de Deus, da
sc. XVII afirmavam que o espermatozide                    vontade humana: determinao fsica que no
PRENOO                                            789                                     PRESSUPOSTO

eliminaria a liberdade do homem. Malebranche              diferente do modo de ser do homem, que  a
discutiu essa noo em Reflctions sur Ia P.              existncia (Sein nncl Zeit,  9). Sartre, por sua
physique (HO*)).                                          vez, falou de "P. do para-si no ser", ou seja, da
   PRENOO (in. Prenotion- fr. Prenotion;                conscincia, no sentido de que tal presena im-
ai. Vorbegrijf; it. Premozion). Termo intro-             plicaria que "o para-si  testemunha de si em P.
duzido por Durkheim para indicar os conceitos             do ser como no sendo o ser": o que significa-
pr-cientficos fundados na generalizao im-             ria que a P. no ser  "P. do para-si em no sen-
perfeita ou apressada, que F. Bacon chamava de            do" (I/tre et le nant. pp. 166-67).
antecipaes ou dolos kgles de Ia mtbode                  PRESENTAO (in. Presentalion; fr. Pr-
sociologic/ne, p. 23) (v. ANTECIPAO).                   sentation-, ai. Prsentation-, it. Preseiitazioue).
   PREOCUPAO. V. CUIDADO; CUKA.                         Conhecimento imediato ou direto: percepo
   PR-PERCEPO (in. Preperception; fr.                  ou intuio. Ksse termo foi introduzido por
Preperception; ai. Praperzeption; it. Preperce-           Spencer. que fazia a distino entre conheci-
zione). Assim foi s vezes chamada a funo               mento presentativo (que se tem quando "o
seletiva que a ateno intelectual exerce sobre           contedo de uma proposio  a relao entre
a percepo sensvel (cf., p. ex.. James. Princ.          dois termos, ambos diretamente presentes,
ofPsychoL, I, pp. 438-45).                                como quando machuco o dedo e e.siou simul-
  PRESCINCIA. V. TIODICHIA.                             taneamente ciente da dore da sua localizao")
   PRESCINDNCIA(in. Prescssion). Abstrao              e o conhecimento representativo, que  a lem-
"prescindente", que Peirce distingue da abstra-           brana ou a imaginao do outro conhecimen-
o hiposttica, como a operao de escolha               to (Princ. of Psychologv,  423). Ksse termo foi
que est implcita no mais simples fato de per-           aceito por muitos psiclogos no sc. XIX. mas
cepo: p. ex.: perceber uma cor significa pres-          hoje est em desuso.
cindir da forma e em todo caso isolar essa de-                PRESENTACIONLSMO (in. Presentatio-
terminao "cor" das outras, s quais a cor               nism. fr. Pi'sentationisme, it. Presentazionis-
esteja unida (Coll. Pap., 1.549 n: 2.428; 4.235)          mo). Foi assim que Hamilton chamou seu "rea-
(v. ABSTRAO).                                           lismo natural", doutrina segundo a qual a
   PRESENA (in. Presence, fr. Prsencc. ai.              percepo 6 uma relao imediata com o
Auivesenbeil; it. Presenza). liste termo  em-            objeto existente (Disserlationson Reici, p. 825).
pregado em dois significados principais: ly                   PRESENTE. V. INSTANTE; AGORA; TrMPO.
existncia de um objeto em certo lugar, pelo                  PRESSUPOSTO (in. Presuppositiou; fr. Pr-
que se diz, p. ex., "estava presente  reunio de         siippositiorv, ai. Vorausselzung; it. Presnppos
ontem  tarde'"; 2" existncia do objeto numa             to). 1. Premissa no declarada de um racioc-
relao cognitiva imediata; assim, diz-se que             nio, utilizada no decorrer de um raciocnio,
um objeto est presente quando 6 visto ou                mas que no foi previamente enunciada, no
dado a qualquer forma de intuio ou de co-               havendo, pois. um compromisso definitivo em
nhecimento imediato.                                      relao a ela. Diferentemente da premissa, do
   No mbito do primeiro significado, e com               postulado, da hiptese, etc. o P.  introduzido
objetivos teolgicos (para descrever a presen-            sub-repticiamente no decorrer de um racioc-
a de Deus ou dos anjos nas coisas ou a pre-              nio, limitando ou dirigindo-o de maneira
sena do corpo de Cristo no po do sacramen-              dissimulada ou oculta. Pode ser tambm de-
to do altar), os escolsticos distinguiam duas            finido como regra sub-reptcia de inferncia.
formas de P.: a chamada circunscriptra, em               Portanto, o princpio da eliminao dos P. e
que uma coisa est inteira em todo o espao               fundamental para todos os campos da inves-
que ocupa, com parte em cada parte do espa-               tigao no mundo moderno. A expresso
o, e a definitiva, em que uma coisa est inteira         "eliminao dos P." (ai. Voraussetzungslo-
na totalidade do seu espao e inteira tambm              sgkeit) parece ter sido cunhada apenas por
em cada uma das partes dessa totalidade. A                Fr. Strauss (Leben Jesu, 1836, p. IX), mas a
primeira P.  um modo de ser quantitativo; a              exigncia que ela encerra est na origem da
segunda exclui qualquer quantidade (cf., p.               cincia moderna (que com Galileu procurou
ex., S. TOMS DF. AQHNO, S. Th., 1. q. 52, a. 2;          livrar-se dos P. metafsicos) e da filosofia
OCKHAM, Quodi, VII, q. 19).                               moderna (que com Bacon e Descartes afir-
  Heidegger chamou de P. ou simples P. ( Vor-             mou a exigncia de uma investigao radi-
handenheit) o modo de ser das coisas, que                cal, fundada apenas em premissas declara-
PRESUNO                                                  790                                           PREVISO

das). A eliminao dos P. tambm tem o fim                       pressou-o nas palavras de abertura da Introdu-
de evitar que. em certo campo de investiga-                      o a Prinzipien derMecbi)rik(lti9^): "O pro-
es, atuem crenas pertencentes a campos                        blema mais imediato e, certamente, o mais
diferentes que limitem a investigao de                         importante que nosso conhecimento da nature-
modo no controlvel. Husserl fez uso mais                       za permite resolver  a previso dos aconteci-
restrito e tcnico do princpio da eliminao                    mentos futuros, de tal modo que possamos or-
dos ['.. lanando mo dele para delimitar a                      ganizar nossas atividades presentes de acordo
esfera fenomenolgica (Lof>iscbc inlersiicbini-                  com tais previses". Para Peirce, a P.  a base
!>en, II, Intr.,  7).                                           da verdade prtica da hiptese cientfica: "Na
    2. O mesmo ([Lie premissa, postulado ou                      induo no  o fato previsto que, em alguma
hiptese. Kste segundo significado pode levar                    medida, determina a verdade da hiptese ou a
a confuses.                                                     torna provvel, mas sim o fato de ele ter sido
   PRESUNO (lat. Praesiimptio: in. Pre-                        previsto com sucesso e de ser uma amostra
sitmplioii; fr. Prsomptiou, ai. Prsuniptiuii; it.              aleatria cie todas as P. que podem basear-se
Presimzio)ie).\. Juzo antecipado e provisrio.                  na hiptese e que constituem a verdade prtica
que se considera vlido at prova em contrrio.                  dela" (Co//. Pap.. 6.527).
P. ex., "V. de culpa"  um juzo de culpabilida-                     No neoempirismo contemporneo, alguns
de que se mantm at que seja aduzida uma                        filsofos tendem a reduzir a P.  explicao;
prova em contrrio; tm significado anlogo as                   outros, a reduzir a explicao  previso. No
expresses "P. de verdade" ou "P. favorvel"                     primeiro sentido, Carnap expressa-se dizendo
ou "P. contrria" a uma proposio qualquer.                     que "a natureza cie uma P.. no que diz respeito
    1. Confiana excessiva em suas prprias                       confirmao ou  comprovao,  a mesma
possibilidades; e neste senlido chama-se de                      de um enunciado sobre um evento presente
presunoso quem alimenta tal confiana.                          no diretamente observado por ns, como p.
    PRETERIO (in. Prctcritioii; fr. Prlcri-                   ex. sobre um processo em curso no interior de
tioir, it. Prctcrizionc). Conceito utilizado pela                uma mquina ou um acontecimento poltico na
teologia calvinsta para atenuar a doutrina da                   China ("Testability and Meaning", em Keadings
dupla predestinao: os rprobos so assim                       in tbe Pbil, of Science. 1953. p. 87). No segun-
porque Deus "os preteriu" em sua escolha (et.                    do sentido. Quine declara acreditar que o
Calvin, Iiistitutions de kl religion cbrticimc,                 esquema conceituai da cincia , em ltima
111. cap. 2^1                                                    anlise, um instrumento para prever a expe-
    PREVISO (gr. Trpyvcuot; in. Predictioit,                  rincia futura  luz da experincia passada
fr. Prvision: ai.   Xorausscige; it. Precisionc). l : m         (From a I.ogical Point of Vicie. II, 6). A identi-
dos objetivos fundamentais da explicao cien-                   dade entre lgica da P. e lgica da explicao
tfica, ou a prpria explicao. Na cincia anti-                foi asseverada por Feigl (em Readini>s. cit., p.
ga, a importncia tia P. foi acentuada apenas                    417-]H), enquanto Hempel defendeu a tese da
em medicina (HIPOCRATKS, Prognoslikon. 1).                       identidade estrutural (ou da simetria) entre
Galileu expunha esse conceito afirmando que                      explicao e P., no sentido cie que "toda expli-
"chegar ao conhecimento de tini nico efeito                     cao adequada  potencialmente uma P., e. in-
para suas causas abre-nos o intelecto ao en-                     versamente, toda P. adequada  potencialmen-
tendimento e  certeza de outros efeitos, sem                    te uma explicao" (Aspccls of Scieiitific
necessidade de recorrer  experincia" (Discor-                  tixpkiiuitiou, 1965, p. 367). Popper. depois de
si inlonio a clue m/oreseienze. Opere, ed. Utet,                 afirmar que todas as cincias tericas, inclusive
II, p. 799). A P. foi utilizada por Hume em sua                  as sociais, so cincias de P.. ressaltou a distin-
crtica da causalidade: "Por sermos levados                      o entre a P. cientfica e a profecia histrica,
pelo costume a transferir o passado para o tu-                   porque esta ltima carece do carter condicio-
turo. em todas as nossas inferncias, sempre                     nal da primeira: "As P. comuns cia cincia so
que o passado se manifesta regular e uniforme,                   condicionais. Asseveram que certas mudanas
esperamos o acontecimento com a mxima                           (p. ex., da temperatura da gua numa chaleira)
certeza e no damos ocasio a suposies con-                    sero acompanhadas por certas transformaes
trrias" (liKj. ()iic. Vnderst.. VI). Comte ps                 (p. ex., a ebulio da gua)" ((Jonjecliires and
esse conceito em primeiro plano com sua fr-                     Refutatioiis. 1965, p. 339).
mula "Cincia, portanto P.-. P.. portanto ao"                     Reichenbach usou o termo ps-visibilidade
(Cours depbil. pos., 1830. I. p. SI). Heltz ex-                  (post-dictability) para indicar a possibilidade
PRIMADO                                               791                                         PRIMITIVO

de determinar "os dados passados em termos                  condicionam as "qualidades secundrias". "Es-
de observaes dadas" (Phlosophic Founda-                  cola P."  aquela que- todos devem freqentar
lions of Quantum Mechanics. 1944. p. 13). O                 e que prepara aos outros tipos de escola. "Aten-
termo ps-viso ou retroviso (postidictio)i or             o P." foi o nome dado por alguns psiclogos
rvtrocJictiou) foi empregado para indicar o in-              ateno primitiva, originria, etc. Diz-se "im-
verso lgico de uma P., ou seja, a inferncia               portncia P." para dizer importncia fundamen-
que procede de um acontecimento presente                    tal ou condicionante.
para trs. em direo a uma condio inicial j                 2. O mesmo que primitivo (v.).
conhecida (HANSON, The Concept of lhe Po-                       PRIMEIRO MOTOR. V. f)Kts. PROVAS DH.
sition, 1963. p. 193)- V. EXPLICAO.                          PRIMEIRO MVEL. V. MVKL, PRI.MKIRO.
   PRIMADO (in. Primacy, ir. Primaut, ai.                      PRIMITrVTSMO (in. Primitivism: fr. Primi-
Primat; it. Primata). Importncia primria de                tivisme, it. Primitivismo). 1. Atitude ou mentali-
uma coisa ou o que condiciona uma coisa em                  dade dos povos primitivos, especialmente no
relao s outras. Kant diz: "Por P. entre duas             aspecto cie conformao do indivduo aos va-
ou mais coisas ligadas pela razo, entendo a                lores do ambiente.  neste sentido que esse
superioridade cie uma delas por ser o primeiro              termo  usado, p. ex., por Scheler (Sympatbie,
motivo que determina a ligao com Iodas as                 cap. III; trad. fr., p. 362, n. 2).
outras". Mais precisamente. "P. cia razo prti-                 2. Crena de que a forma mais perfeita de
ca" significa a prevalncia do interesse prtico            vida humana 6 a que existiu no primeiro pero-
sobre o terico, no sentido de a razo admitir,             do da humanidade (mito da idade do ouro), ou
por ser prtica, proposies que no poderia                a que se observa nos povos primitivos, consi-
admitir no uso terico e que no constituem                 derados mais jovens (mito do "bom selvagem").
uma de suas extenses cognoscitivas: os postu-              Quanto a este significado cie P., v. Lovejoy e
lados da razo prtica (Crt. R. Prtica, II. cap.          Boas, Primitivism and Related Ideas in Ant-
2, se. 3). A palavra P. foi usada no campo                 (jiiity, 193^; Boas, Essays ou Primitivism and
poltico para indicar a funo predominante                 Related Ideas in lhe Middle Ages, 1948).
que certo elemento (povo. nao, classe, gru-                   PRIMITIVO (in. Primitive-, fr. Primitif, ai.
po social, etc.) tem ou deve ter na totalidade             Prmitiv, it. Primitivo). 1. O mesmo que origi-
qual pertence. Giobert falou neste sentido do              nrio (v.), nos dois sentidos deste termo: a) o
P. moral e civil dos italianos( 1843). Nesta exten-         que pertence  fase inicial de um desenvolvi-
so, o termo adquire significados ainda mais                mento ou de uma histria, e neste sentido dize-
vagos e arbitrrios que no primeiro significado.            mos "a nebulosa IV, "a humanidade IV. etc: b)
   PRIMALIDADE (lat. Primalitas- ai. Prima-                 o que funciona como condio, princpio ou
litt: it. Primalit). Princpio constitutivo cio           premissa, e por isso determina outras coisas,
ser, segundo Campanella. H trs P.: poder                  no sendo, porm, determinado por elas; neste
ipotentia), saber (sapeutia) e amor (amor),                sentido, dizemos "proposies IV, "funo IV.
que em Deus so infinitas e nas coisas so                  Chamam-se "smbolos IV os introduzidos dire-
limitadas pelos seus contrrios -- impotncia,              tamente, sem ajuda de outros smbolos.
insipincia e dio --, que constituem o no ser                 2. O que  simples, no sentido de constituir
(Metaphisica. 1638. VI. Proem). Esse termo tem              a forma mais elementar que certo objeto pode
o mesmo valor de princpio (v.).                            assumir; neste sentido fala-se em "homens P."
    PRIMRIAS e SECUNDRIAS, QUALI                          ou simplesmente "os IV. Durkheim utilizou
DADES. V. QlAUDADK.                                         esse significado para definir os P., juntamente
    PRIMRIO (lat. Primarius; in. Primaty, fr.              com o significado estudado em (a) (Lesformes
Primare; ai. Primar, it. Primrio). 1. O que              lementaires de Ia vie religiense. 1937, p. 1).
primeiro ou mais importante num campo qual-                 Mas Lvy-Bruhl escreveu: "Com este termo im-
quer, ou o que  primeiro no sentido de con-                prprio, mas de uso quase indispensvel, preten-
dicionar o que vem depois, sem ser condicio-                demos designar simplesmente os membros das
nado por ele. liste era uni dos sentidos -- o               sociedades mais simples que conhecemos" (Les
fundamental -- que Aristteles atribua  pala-             fouctions mentales dans le socites iufcrieures,
vra "primeira" (Mel., V, 11, 1019 a 2), sendo o              1910, p. 2). No mesmo sentido, emprega-se
mais freqentemente relacionado com o uso                   hoje a palavra primrio (v.).
do termo. "Qualidades IV, p. ex.. so as quali-                 No que diz respeito s interpretaes do
dades que no podem faltar nos corpos e que                 mundo P., podem ser agrupadas em duas cias-
PRIMORDIAL                                           792                                        PRINCIPIO


ses: a) as que consideram o mundo P. como                  P.  ponto de partida do ser, do devir ou do
pr-lgico, pr-emprico e mstico, portanto de            conhecer" {Met., V. 1, 1012 b 32-1013 a 19).
constituio completamente diferente cia socie-                Esses reparos de Aristteles contm quase
dade civilizada; esta foi a interpretao defen-           tudo o que a tradio filosfica posterior disse
dida especialmente por Lvy-Bruhl (do qual                 a respeito dos princpios. Talvez caiba distin-
alm da obra citada, v.: La mentalitprimitive,            guir outro significado: como ponto de partida e
1922; Lme primitive. \L)21; L'exprience mys-             causa, o P. s vezes  assumido como o ele-
tique et le symboles chez les primitifs; 1938),            mento constitutivo das coisas ou dos conheci-
mas corrigida por ele mesmo, no sentido de                 mentos. Este, provavelmente, era um dos senti-
matizar ou atenuar a diferena entre a menta-              dos da palavra entre os pr-socrticos, s vezes
lidade F. e a no P., que  mais de grau que de            utilizado pelo prprio Aristteles (Met., I, 3,
qualidade (Les canteis, 1949); ti) as que admi-            983 b 11; 111. 3, 998 b 30, etc). Neste sentido.
tem nas comunidades P. a posse de abundante                Lucrcio chamava os tomos de P. (De rer. nal.
patrimnio de conhecimentos fundados na ex-                II, 292, 573. etc), e os esticos distinguiam
perincia e na razo, considerando que o ho-               elementos e P., pelo fato de que os P. no
mem P. tende a recorrer  magia ou ao misticis-            so gerados e so incorruptveis (I)IG. L,
mo s quando os conhecimentos que possui                   VII. 1, 134).
no o ajudam mais. lista  a interpretao de-                 No sc. XVIII, ao definir o P. como "o que
fendida principalmente por Bronislaw Mali-                 contm em si a razo de alguma outra coisa",
nowski (Magic, Science etnd Religion, 1925) e              Wolff (Ont.,  886) observava que esse signifi-
hoje adotada por quase todos os socilogos.                cado estava de acordo com a noo de Arist-
   PRIMORDIAL (in. Primordial; fr. Primor-                 teles e que os escolsticos no se haviam aias-
dial-, it. Primordial). O mesmo que origin-              tado dela ( Ont.,  879). Baumgarten, a quem a
rio (v.).                                                  terminologia moderna tanto deve, repetia a de-
   PRINCPIO (gr. pxn; lat. Principiam; in.               finio de Wolff (Met.,  307). Kant. por um
Principie; fr. Prncipe-, ai. Prinzip. Grundsatz;          lado, restringia o uso do termo ao campo do
it. Principio). Ponto de partida e fundamento              conhecimento, entendendo por P. "toda propo-
de um processo qualquer. Os dois significados,             sio geral, mesmo extrada da experincia por
"ponto de partida" e "fundamento" ou "causa",              induo, que possa servir de premissa maior
esto estreitamente ligados na noo desse ter-            num silogismo", mas por outro lado introduzia
mo, que foi introduzido em filosofia por Ana-              a noo de "P. absoluto" ou "P. em si", vale
ximandro (Simplcio, Fs., 24, 13); a ele recorria         dizer, conhecimentos sintticos originrios e
Plato com freqncia no sentido de causa do               puramente racionais, que ele julgava insubsis-
movimento (Fed.. 245 c) ou de fundamento                   tentes. mas aos quais a razo recorreria no seu
da demonstrao (Teet., 155 d); Aristteles foi            uso dialtico (Cnt. R. Pura, Dialtica, II, A).
o primeiro a enumerar completamente seus                       Na filosofia moderna e contempornea a
significados. Tais significados so os seguintes:          noo de P. tende a perder importncia. Com
1'- ponto de partida de um movimento, p. ex..              efeito, inclui a noo de um ponto de partida
de uma linha ou de um caminho; '-' o melhor               privilegiado, no de modo relativo (em relao
ponto de partida, como p. ex. o que facilita               a certos objetivos), mas absoluto, em si. Um
aprender uma coisa; 3o ponto de partida efeti-             ponto de partida desse gnero hoje dificilmen-
vo de uma produo, como p. ex. a quilha de                te poderia ser admitido pelas cincias. Poincar
um navio ou os alicerces de uma casa; 4U causa             observava com razo que um P. no passa de
externa de um processo ou de um movimento,                 lei emprica que se considere cmodo subtrair
como p. ex. um insulto que provoca uma briga:              ao controle da experincia por meio de con-
5o o que, com a sua deciso, determina movi-               venes oportunas: portanto, um P. no  ver-
mentos ou mudanas, como p. ex. o governo                  dadeiro nem falso, mas apenas cmodo (La
ou as magistraturas de uma cidade; 6" aquilo               valeur de Ia science. 1905, p. 239). Em mate-
de que parte um processo de conhecimento.                  mtica e lgica, nas quais h oportunidades
TOTOO p. e-x. ^ ptemsf,'^ te \ \ m wKmswv
 o. Aristteles acrescenta a esta lista: "'Causa'        indicar as premissas de um discurso, e foi subs-
 tambm tem os mesmos significados, pois to-               titudo por axioma ou postulado. Nestes cam-
 das as causas so princpios. O que todos os              pos,  freqente dar-se o nome de P. a teo-
 significados tm em comum  que, em todos.                remas particulares, cuja importncia para o
PRINCIPIO ATIVO                                       793                                 PROBABILIDADE

desenvolvimento ulterior de um sistema simb-               uma classe de eventos. Nesse sentido, P. sem-
lico se queira ressaltar. Peirce chamara de P.              pre supe uma alternativa, e  a escolha ou
guia (Leading Principie) o P. que "se deve su-              preferncia por uma das alternativas possveis.
por verdadeiro para sustentar a validade lgica             Se dissermos, p. ex., "amanh provavelmente
de um argumento qualquer" (Coll. Pap., 3, 168;              chover", estaremos excluindo como menos
cf. DKWKY, Logic, I; traci. it., p. 46).                    provvel a alternativa "amanh no chover";
   PRINCPIO ATIVO (gr. T TTOIOV). Foi esse               se dissermos "a P. de uma moeda ciar coroa 
o nome que os esticos deram  Razo,  Cau-                de metade", o significado dessa afirmao de-
sa ou Deus que d forma  matria (que 6 o P.               corre do confronto com a outra alternativa pos-
passivo), produzindo nela os seres individuais              svel, de ela dar cara. Podemos exprimir esse
(DIOG. L, VII, 134); identificaram esse princpio           carter da P. dizendo que ela  sempre funo
com o Fogo. no sentido de calor ou cie esprito             de dois argumentos. Outro carter geral da P.
animador (Ibicl., VII, 156; CCERO, Derutt. deor.,          (.seja qual for a interpretao)  que do ponto
11. 24).                                                    de vista quantitativo ela e expressa com um n-
   PRINCPIO DE AO MNIMA; DE CAU                         mero real cujos valores vo de 0 a 1.
SAUDADE; DE CONTRADIO; DE IDEN                                 O problema a que a noo de P. d origem 
TIDADE; DOS INDISCERNVEIS; DE IN                           o do significado, ou seja, do prprio conceito de
DIVIDUAO; DE RAZO SUFICIENTE;                            probabilidade. O clculo de P.. p. ex.. no d
DO TERCEIRO EXCLUDO; etc V termos re-                      origem a problemas enquanto no  interpre-
lativos.                                                    tado: os matemticos esto de acordo sobre
   PRIORIDADE (in. Priority fr. Priorit, ai.               todas as coisas que podem ser expressas por
Prioritt: it. Priorit). 1. Precedncia no tempo.          smbolos matemticos, porm seu desacordo
    2. Carter do que  primrio (v.).                      comea quando se trata de interpretar tais sm-
   PRIVAO (gr. OZpT}OlQ; lat. Privatio; in.              bolos. Carnap (lhe Tivo Cot iccpts of Probability,
Privation; fr. Privation; ai. Privation; it. Priva-         1945. agora em Readiugs in tbe Philosopby of
zione). Falta daquilo que, por qualquer razo,              Science, 1953, pp. 441 ss.) e Russell (Humau
poderia ou deveria ser. V. este o sentido da                Kiouiedge, 1948, V, 2) falaram da existncia de
definio de Wolff: "Ausncia cie uma realida-              dois conceitos diferentes e irredutveis de P.; o
de que podia ser ou  qual no repugna ser''                primeiro chamou, respectivamente, de P. in-
(Ont,  273). Aristteles inclura entre os signi-          dutiva (ou grau de confirmao) e P. estatstica
ficados desse termo (todos redutvei.s ao que               (ou freqncia relativa); o segundo falou em
acabamos de enunciar) tambm a falta de um                  grau de credibilidade e 1'. matemtica. Foram
atributo que no pertence naturalmente  coi-               propostos outros nomes para esses dois tipos
sa, como quando se diz que uma planta no                   de P. Kneale deu o nome cie aceitabilidade ao
tem olhos (Met., V, 22. 1022 b 22). Mas essa ge-            primeiro tipo e de acaso (chance) ao segundo
neralizao excessiva torna o conceito quase                (Probability and Induction, 1949, p. 2.2.);
que intil. O prprio Wolff fazia a distino               Braithwaite denominou o primeiro de razoahi-
entre entidades privativas, que consistem na                lidade e o segundo de P. (Scientific Kxplanation,
falta (como cegueira, morte, trevas, etc.) e                 1953, p. 120).
em seus nomes relativos, de entidades positi-                    Os dois conceitos defrontaram-se nos lti-
vasc seus nomes (Ont.,  273-274); essa distin-             mos quarenta anos, procurando cada qual eli-
o foi reproduzida por John Sruart Mill. que               minar o outro, o que  tipicamente representa
observava a respeito; "Os nomes denominados                 do nas posies de Von Moiss e de Jeffrevs. O
privativos indicam duas coisas: ausncia de certos          primeiro rejeita, por ser subjetivo, o conceito
atributos e presena de outros, a partir dos                de P. indutiva, considerando sem sentido uti-
quais se poderia esperar naturalmente a pre-                lizar o termo P. fora do conceito estatstico
sena cios primeiros" (Logic. I, 2,  6). Kstas             (Probability, Statistics and Truth. 1928. ed.
distines conservaram-se na lgica tradicio-                1939. lect. I, III) O segundo acha que a chama-
nal do sc. XIX (cf., p. ex.. SiGWAifT. Logik...            da definio objetiva de P.  nutilizvel e que
 1889. I,  22).                                            nem os estatsticos a empregam, porque "todos
    PROBABILIDADE (gr. TO EIKO; lat. Pro-                  usam a noo de grau de crena razovel, em
babilitas; in. Probability; fr. Probabilt; ai             geral sem notarem que a esto usando"
 Warbscheinlicbkeit; it. Probabilit). Grau ou a            ("lheory of Probability, 1939. p. 300). Visto que
medida da possibilidade de um evento ou de                  as observaes de Carnap e de Russell tornam
PROBABILIDADE                                            79-                                  PROBABILIDADE


essa polmica sem significado, mas ao mesmo                      1939). Todos esses escritores definem a P.
tempo confirmam a existncia de dois concei-                    como um "grau de crena racional" e admitem
tos diferentes de P., pode-se, com base em tais                 a validade do princpio de indiferena, mas,
conceitos, lazer um apanhado das doutrinas re-                  como notou o prprio Carnap, o carter subje-
lativas. Para se evitarem qualificaes polmicas               tivo dessa definio  apenas aparente, pois o
(e inexatas), como "subjetivo", "objetivo", etc,                que eles procuraram determinar so os poss-
pode-se simplesmente considerar como carac-                     veis graus de confirmao de determinada
terstica distintiva dos dois conceitos de P. a                 hiptese. De fato, os graus de crena s pode-
funo desempenhada por cada um deles e fa-                     riam ser estabelecidos por mtodos psicol-
lar, conseqentemente, de 1" P. singular, 2" P.                 gicos, ao passo que, na realidade, os mtodos
 coletiva.                                                      propostos por esses autores nada tm de psico-
     V Para caracterizai' o primeiro conceito de P.             lgicos; so lgicas e referem-se  disponibili-
pode-se dizer que ele tem em vista o grau cie                   dade e  natureza das provas que podem con-
possibilidade de um evento nico e que, por-                    firmar uma hiptese. Com base nesse conceito
tanto, seus argumentos so eventos, fatos ou                    objetivo de P. singular, Carnap criou um siste-
estados de coisas ou circunstncias, sendo a                    ma de lgica quantitativa indutiva, com funda-
 probabilidade expressa por proposies do tipo                 mento no conceito de confirmao em suas
 "Amanh provavelmente chover". O antece-                      trs formas: positiva, comparativa e quantitativa
dente histrico remoto dessa noo  o concei-                  (I.ogical Foundations of Probability, 1950). 0
to neo-acadmico de representao persuasira                     conceito positivo de confirmao  a relao
(v.), cujos graus eram enumerados por Carna-                   entre dois enunciados h (hipteses) e p (pro-
des, que os determinava por provas ou por                       va), que pode ser expressa por enunciados da
 indcios negativos ou positivos (v. PFRSI/ASIVO).              seguinte forma: "b  confirmado por p"; "h
     Os criadores do clculo de P. tinham em                    apoiado porp"; "p uma prova (positiva) para
 mente esse conceito de probabilidade. Ber-                     b"; "p uma prova que consubstancia (ou cor-
 nouilli deu a seu tratado, primeira obra impor-                robora) a assuno de h". O conceito compara-
tante sobre o assunto, o nome de A rs con-                      tivo (topolgico) de confirmao geralmente 
jectand (1713). A grande obra de Laplace,                      expresso em enunciados que tm a forma "h
 intitulada Tbore analytique cies probabilits                mais fortemente confirmado (apoiado, con-
(1812). inspirava-se no mesmo conceito; em                      substanciado ou corroborado, etc.) por p do
sua introduo, Laplace afirmava que "a P. dos                  que t por /;'". Finalmente o conceito quantita-
eventos serve para determinar o temor ou a                      tivo (ou mtrico) de confirmao (conceito de
esperana das pessoas interessadas na existn-                  grau de confirmao) pode ser determinado
cia deles" (Hssaiphilosophique sur lesprobabi-                  nos vrios campos por mtodos anlogos aos
 lits, I, 4), e toda a sua obra no trata de estats-          utilizados para introduzir o conceito de tempe-
tica, mas dos mtodos para estabelecer a                        ratura, com o fim de explicar os de "mais
aceitabilidade das hipteses. Desse ponto de                    quente" ou "menos quente" ou o de qitociente
vista, a P. era definida como "a relao entre os               intelectual, para determinar os graus compara-
nmeros de casos favorveis e o de todos os                     tivos de inteligncia. Carnap tambm defendeu
casos possveis". O princpio fundamental para                  o princpio de indiferena (mesmo consideran-
avaliar as P. era o chamado princpio de indife-                do-o como forma limitada), aplicando-o s dis-
 rena ou de eqiprobabildade, segundo o                       tribuies estatsticas, e no s distribuies
qual, na falta de qualquer outra informao,                    individuais. A teoria de Carnap foi amplamente
assume-se que os vrios casos so igualmente                    discutida e aceita. Foram propostas outras
possveis; desse modo, p. ex., quando se lana                  determinaes do conceito de grau de confir-
um dado, admite-se que cada uma de suas fa-                     mao (cf. p. ex., HKIAIKR e OITKNHKIM, "A
ces tem idnticas P. de aparecer, uma vez que                   Syntactical Definition of Probability and Degree
cada face tem a mesma P. de 1/6 ( Op. cit.. I, 3).              of Confirmation" em fournal ofSymbolic Logic,
                                                                1945, p. 25-60).
     Embora esta teoria tenha sido acerbamente
criticada, foi retomada em 1921 pelo economis-                     O conceito de P. singular, ou seja, de grau
ta ingls John Maynard Keynes, em seu Trata-                    de confirmao,  o nico a que se faz geral-
 do sobre a P., e mais tarde exposta por F. P.                  mente referncia nos acontecimentos da vida e
Ramsey ( The Foundations of Mathematics.                        que  assumido, explcita ou implicitamente,
 1931) e por H. Jeffreys (Theory of Probability,                como orientador dos comportamentos indivi-
                                                        7
PROBABILIDADE                                           95                                        PROBABILIDADE


duais.  preciso observar que. entre os indcios             P. do acontecimento em questo. Mas esse
ou provas que podem ser assumidos como                       acontecimento nunca  singular, portanto a
confirmao de uma hiptese qualquer, co-                    P. assim calculada no servir para prever o
mo fundamento de um juzo de P.. nada impe-                  resultado do prximo lance da moeda e per-
de que se inclua a considerao cias freqncias             mitir, p. ex., que um jogador escolha a sua
estatsticas s quais se reduz o segundo concei-             aposta. A P. dessa espcie vale para classes de
to de P. As vezes, porm, a P. estatstica taz               eventos, e no para eventos singulares. No se
parte de determinao da P. singular com sinal               pode falar. p. ex.. da P. de um indivduo qual-
invertido; p. ex.. para quem aposta na loteria,              quer morrer no ano em curso, mesmo quando
a freqncia com que certo nmero toi sor-                   conhecemos o limite de freqncia da mortali-
teado nos ltimos tempos  um indcio cie P.                 dade no grupo ao qual ele pertence (cl. tam-
negativa: para ele, so bons os nmeros menos                bm de YON MOISKS. Kleines Lebrbuch des
sorteados durante um perodo mais ou me-                     Positivismns.  4). Keinchenbach afirmou a
nos longo.                                                   propsito: "A assero que concerne  P. de
    2" O segundo conceito lundamental 6 de P.                um caso individual tem significado fictcio.
coletiva ou estatstica, cujo objeto nunca so               construdo atravs da transferncia de significa-
eventos ou fatos individuais, mas classes, esp-             do do caso geral para o particular. A adoo
cies ou qualidades de eventos, podendo, por-                 dos significados fictcios no  justificvel por
tanto, ser expressos apenas por funespropo-                motivos cognitivos, mas porque  til aos
sicioimis (\\), e no por proposies. Seu                   objetivos da ao considerar tais asseres
antecedente histrico mais distante  o concei-              dotadas cie significado" ( Tbeory of Proba-
to aristotlico do verossmil (v.): "Provvel               bility. p. 37"7). A outra caracterstica funda-
aquilo que sabidamente acontece ou no na                    mental da teoria  a eliminao do princpio de
maioria das vezes, que  ou no na maioria cias              indiferena, ou seja. cia P. cipriori.A teoria es-
vezes" (An. pr.. II, 27. 70 a 3; Rei., 1. II, 135"7 a        tatstica da P. de fato nada pode dizer a respeito
3). Mas a formulao rigorosa desse conceito                cia P. cie uma classe de eventos se antes no ti-
s foi feita recentemente por Fischer (Philo-                ver determinado as freqncias desse evento;
sophicl Tmuscictions ofthe Royal Society. srie             portanto, qualquer grau de P. s pode ser de-
A. 1922), por Von Moiss (Probability. Sla/istics            terminado eiposteriori. ou seja. depois de efe-
and '1'rutb, 1928). por Popper (I.ogik der Fors-             tuada a determinao das freqncias (Ri-i-
chung, 1934) e por Reichenbach ( Wabrscbein-                 Clll-NHACII, Op. Cil..  7 0 . p p . 3 5 9 SS.).
licbkeilslehn: 1935; Theory of Probability,                      A teoria coletiva ou estatstica cia P. foi am-
 1948).                                                      plamente aceita na filosofia contempornea
   Como ilustrao dessa noo de P., pode-                  (vejam-se, alm das obras citadas, |. O. Wis-
mos escolher a elaborao de Von Moiss, com                 no\[, Fonndalions of Inference in Mdtnrcil
o conceito da freqncia-limite. Se para ;/ ob-              Science. 1952. e BRAITHVAITK. Scenlfic lixfla-
servaes o evento examinado ocorre in ve-                   nation. 1953). Outra determinao dessa dou-
zes, o quociente tn/nc a freqncia relativa cia             trina foi feita por Popper, principalmente com
ciasse de eventos em questo: relativa ao n-                vistas  sua utilizao na teoria quntica. domo
mero n cie observaes. Mas se quisermos fa-                 dissemos, a P. estatstica no se refere a even-
lar simplesmente em freqncia, sem limitar a                tos singulares, mas a classes ou seqncias cie
extenso das observaes, podemos supor que,                 eventos. Popper prope considerar como deci-
 medida que o numerador e o denominador                     sivas as condies sob as quais a seqncia 
vo ficando maiores, a funo m/n tende para                 produzida, vale dizer, considerar que as lre-
um valor-limite. podendo-se considerar esse                  qncias dependem das condies experimen-
valor-limite como medida da freqncia, ou                   tais e portanto constituem uma qualidade dis-
seja. como medida da P. no sentido proposto.                 posicio)Kil&.\ ordenao experimental. Popper
Assim. p. ex.. se lanando uma moeda 1.000                   diz: "Qualquer ordenao experimental  ca-
vezes tivermos freqncia 550 para cara. se em               paz de produzir uma seqncia de trecieneias
2.000 vezes tivermos freqncia 490, em 3.000                que dependem dessa particular ordenao, se
freqncia SOS. em 4.000, freqncia 49~\ em                 repetirmos a experincia mais vezes. Estas fre-
 10.000, freqncia 5.003, e assim por diante,               qncias virtuais podem ser denominadas pro-
visto que o valor-limite dessas sries  O.S.                babilidades. Mas, visto que as P. dependem cia
assumiremos esse valor-limite como valor da                  ordenao experimental, elas podem ser
PROBABILISMO                                         796                                         PROBLEMA

consideradas propriedades dessa ordenao.                     3. Corrente da cincia contempornea, que
Caracterizam a disposio ou propenso da                  atribui carter de probabilidade a grande n-
ordenao experimental a dar origem a certas               mero de conhecimentos ou a todos eles (v.
freqncias caractersticas, quando o experi-              CAUSALIDADE; CONDIO; DHTKKMINISMO).
mento  repetido vrias vezes" ("The Propensity                PROBLEMA (gr. npfSA.riua; lat. Problema,
Interpretation of the Calculus of Probability              in. Problem, fr. Problme, ai. Problem, it. Pro-
and the Quantum Theory", em Observation and                 blema). Em geral, qualquer situao que inclua
Interpretation. A Symposium ofPbilosophers and             a possibilidade de uma alternativa. O P. no
Pbysicists, ed. por Krner, 1957, p. 67). A van-           tem necessariamente carter subjetivo, no 
tagem dessa interpretao seria considerar fun-            redutvel  dvida, embora, em certo sentido,
damental "a P. do resultado de um experimen-               a dvida tambm seja um problema. Trata-se
to nico em relao com suas condies, e                  mais do carter de uma situao que no tem
no a freqncia dos resultados numa srie de              um significado nico ou que inclui alternativas
experimentos" (Ibd., p. 68). Popper faz ana-              de qualquer espcie. P.  a declarao de uma
logia entre esse conceito e o de campo (v,),               situao desse gnero.
observando que nesse caso uma P. pode ser                      A noo de P. foi elaborada pela matemtica
considerada um "vetor no espao das possibi-               antiga, que a distinguiu cia noo de teorema
lidades" (Ibid). Essa interpretao tende, ob-             (v.). Por problema entendeu-se uma proposi-
viamente, a diminuir a distncia entre os dois             o que parte de certas condies conhecidas
conceitos fundamentais de probabilidade.                   para buscar alguma coisa desconhecida. Alguns
   PROBABILISMO (in. Probabilism, fr. Pro-                 gemetras (provavelmente os da escola plat-
babilisme, ai. Probabilsmus; it. Probabilismo).           nica) acreditavam que sua cincia era consti-
                                                           tuda essencialmente por problemas; outros,
1. Ceticismo da Nova Academia que, mesmo
                                                           por teoremas (PROCI.O, Com. ao I de Euclides,
negando a existncia de um critrio de verda-              77, 7-81, 22, Friedlein). Aristteles definia o P.
de, considerava critrio suficiente para dirigir a         como um procedimento, dialtico que tende 
conduta da vida aquilo que Arcesilau chamava               escolha ou  recusa, ou tambm  verdade e ao
de plausvel (Siixm E., Adi: malh.. Vil. 158) e            conhecimento" (7b/).. I. II, 104 b), no qual as
Carnades, de provvel (Ibid., VII, 166; Pirr.             palavras "escolha" ou "recusa" significam as
hyp.. 1, 33. 226).                                         alternativas que se apresentam aos problemas
    2. Doutrina  qual Ireqentemente recor-               cie ordem prtica, enquanto "verdade" e "co-
ria a casustica dos jesutas do sc. XVII, se-            nhecimento" designam as alternativas tericas.
gundo o qual, para no pecar, nos casos de                 Aristteles exemplifica sua definio dizendo
regra da moral duvidosa, basta ater-se a uma               que pertence  primeira espcie o P. de saber
opinio provvel, considerando-se provvel                 se o prazer  um bem ou no;  segunda esp-
a opinio defendida por algum telogo.                     cie, o P. de saber se o mundo  eterno {Ibid..
Leibniz observava a respeito: "O defeito dos               14 b 8). Visto que, onde existem P. tambm
moralistas laxistas foi, em grande parte, te-              existem silogismos contrrios, os P., segundo
rem uma noo demasiadamente limitada e                    Aristteles, s podem nascer quando no h
insuficiente do provvel, que eles identifica-             discurso concludente: em outros termos, o P.
ram com o opinvel de Aristteles", enquanto               pertence ao domnio da dialtica, isto , dos
o provvel , segundo Leibniz, um conceito                 discursos provveis, e no ao da cincia. Seja
muito mais amplo (Nouv. ess., IV, 2, 14). O P.             como for, para Aristteles o P. conserva o car-
teve, especialmente no sc. XVII. inmeras va-             ter de incieterminao que lhe  dado pela
riantes, entre as quais podemos lembrar: o                 alternativa. No uso matemtico do termo, po-
probabliorsmo, segundo o qual, nos casos de              rm, esse carter foi-se atenuando. A lgica
aplicao duvidosa de uma regra moral, no se              medieval desprezara a anlise e a definio
deve adotar uma opinio provvel qualquer,                 dessa noo, e quando ela volta a atrair a aten-
mas a mais provvel, e o lutiorismo, segundo               o dos lgicos, no sc. XVII, o significado
o qual  preciso seguir a opinio que se confor-           que eles lhe atribuem  extrado da matem-
ma com a lei. Trata-se de doutrinas ou -disputas           tica. Assim, Jungius diz que "o P. ou a proposi-
que no tm significado fora da casustica je-             o problemtica  uma proposio principal
suta do sc. XVII (cf. A. ScuMirr, Zur Geschi-            enunciando que alguma coisa pode ser feita,
chte des Probabilismus, 1904).                             mostrada ou achada" (lgica hamburgensis,
PROBLEMA                                            797                                  PROBLEMTICO


1638. IV, 11, 7). Leibniz notava que "por P. os            1959, p. 56). Contudo,  anlise de Dewey cabe
matemticos entendem as questes que dei-                 acrescentar uma determinao fundamental: o
xam em branco uma parte da proposio"                    reconhecimento do fato de que um P. no  eli-
(Nouv. ess., IV, II, 7). F, foi recorrendo ao uso         minado ou destrudo pela sua soluo. Um "P.
matemtico que Wolff definiu: o P. como "uma              resolvido" no  um P. que no se apresentar
proposio prtica demonstrativa", entendendo             mais como tal, mas  um P. que continuar a se
por "prtica" a proposio "com a qual se afir-           apresentar com probabilidade de soluo. A
ma que alguma coisa pode ou deve ser feita" e             descoberta de um medicamento que cure uma
excluindo explicitamente o significado aristot-          doena  a soluo de um P., mas nem por isso
lico do termo (Log.,  266, 276). No muito di-          o P. est eliminado, pois a doena continuar a
ferente  a definio de Kant: "P. so proposi-           ocorrer; portanto, o que a soluo permite ,
es demonstrveis que exigem provas ou                   em certos limites, resolver o P. todas as vezes
expressam uma ao cujo modo de execuo                  que ele se apresente. Com base neste carter
no 6 imediatamente certo" (Logk,  5H).                 do P., fala-se da problematicidadedos campos
   Tambm no pensamento moderno a noo                   em que se apresenta o P. Neste sentido, o P. 
de P. foi e continua sendo das mais negligen-             diferente no s da dvida (que, uma vez re-
ciadas. Embora falem o tempo todo em P. e                 solvida, est eliminada e  substituda pela
achem que 6 sua funo solucionar certo n-               crena), mas tambm da pergunta, que, uma
mero deles, especialmente dos definidos como              vez respondida, perde o significado.
  mximos", os filsofos no se preocuparam                   PROBLEMTICA (ai. Problematik). Reunio
muito em analisar a noo correspondente. Na
                                                          ordenada ou sistemtica de problemas.
maioria das vezes o P. foi considerado como
condio ou situao subjetiva e confundido                   PROBLEMATICIDADE. Carter de um
com a dvida. O prprio Mach o definia neste              campo de indagao em que os problemas no
sentido, como "a discordncia dos pensamen-               so eliminados pela sua soluo. P. ex., "P. da
tos entre si" (Krkenntniss undlrrtum, cap. XV;            experincia"  o carter em virtude do qual, na
trad. fr., pp. 252-53). S recentemente foi reco-         experincia, os chamados problemas resolvi-
nhecido o carter de indeterminao objetiva,             dos so apenas possibilidades de solues pre-
que define o P.: isto aconteceu na Lgica(1939)           viamente apresentadas para os problemas que
de Dewey, para quem o P.  a "propriedade                 vo surgindo, e que tm algumas garantias de
lgica primria". O P.  a situao que constitui         sucesso. Esse termo  empregado freqente-
o ponto de partida de qualquer indagao, ou              mente na filosofia contempornea, sem escla-
seja, a situao indeterminada. "A situao               recimentos explcitos.
indeterminada torna-se problemtica no pr-                   PROBLEMATICISMO. Termo difundido na
prio processo de sujeio  indagao. Decorre            Itlia por Ugo Spirito, para designar a doutrina
de causas reais, como acontece, p. ex., no de-            da "vida como busca": Vida condenada a pro-
sequilbrio orgnico da fome. Nada h de inte-            curar a verdade sem encontr-la, oscilando en-
lectual ou cognitivo na existncia de situaes           to entre o dogmatismo e o cepticismo (La vta
desse gnero, a no ser que elas so a condi-             come ricerca. 1937).
o necessria para operaes ou indagaes                  PROBLEMTICO (in. Problematic- fr. Pm-
cognitivas. O primeiro resultado do fato de               blmatque-, ai. Problematisb; it. Problemtico).
promover a indagao  que a situao  reco-             1. O que representa um problema ou diz res-
nhecida como problemtica (Logic. cap. VI.                peito a um problema.
trad. it., p. 161). A enunciao do P. permite a              2. O que no implica contradies nem ga-
antecipao de uma soluo possvel, que 6 a              rantia de verdade, de tal modo que pode ser
 idia: a idia exige o desenvolvimento das re-           afirmado ou negado arbitrariamente. Este  o
laes inerentes ao seu significado, que  o ra-          significado que Kant atribui ao termo: "A pro-
 ciocnio. Finalmente, a soluo real  a deter-          posio P.  a que exprime s uma possibilida-
 minao da situao inicial, em que se chega             de lgica (no objetiva), ou seja, a livre escolha
a uma situao unificada em suas relaes e               de assumir tal proposio como vlida" (Crt.
distines constitutivas. Anlise anloga a esta,         R. Pura.  9). "Chamo de P. um conceito que
em sua estrutura fundamental, foi feita por G.            no contm contradies e que. como limita-
 Boas, que define o P. como "a conscincia de
                                                          o de conceitos dados, liga-se a outros conhe-
um desvio da norma" (lhe Inquring Mind,
                                                          cimentos, mas cuja verdade objetiva no pode
PROCESSO                                                                                      PROGRESSO


ser conhecida de modo algum" (Ibicl.. Anal.              (v. AO). O platonismo, porm, diminura
dos Princ, cap. III).                                    essa diferena. Plotino afirmou que, para a na-
   PROCESSO (gr. rcpoo; lat. Processio; in.          tureza, "ser o que  significa produzir: ela 
Processioir, ai. Procession; it. Processione). O         contemplao e objeto cie contemplao por-
que procede de Deus. segundo os Neopla-                  que  razo; e como  contemplao c objeto
tnicos: essa procedncia d origem a realida-           de contemplao e de razo, produz. A P. 
des de classe inferior, que se assemelham                contemplao" (Hnn.. III, 8, 3). listas considera-
quelas das quais provm. "Toda P. realiza-se            es foram freqentemente repetidas do ponto
por meio de semelhana das coisas segundas               de vista idealista, o que no impede que a me-
com relao s primeiras", diz Proclo (Itist.            lhor definio do termo em questo continue
 Tbeol., 29; d". Pl.OTixo, limi.. IV. 2. 1. ti: Y, 2,    sendo a aristotlica.
2; Scorrs ERIGKYA. De diris. nat., III. 17, 19,             PRODUTO LGICO. K a figura (a . fo) re-
25). A teologia crist empregou a mesma no-              sultante de multiplicao lgica (v.).        G. P.
o para determinar a relao entre as pessoas              PROERESE. V. KSCOLHA.
divinas. S. Toms de Aquino distinguia -Aprocessio          PROFUNDO (in. Profomid. Deep. fr. Pro-
ad extra, na qual a ao tende para algo de ex-         foud; ai. Tief, it. Profondo). O que possui signi-
terno, e a processio cid inra. na qual a ao          ficado oculto e inexprimve. Ksse termo adqui-
tende para algo de interno, como acontece na            riu significado tcnico na filosofia c na
P. que vai do intelecto ao objeto cio entendi-          psicologia contempornea para indicar aqui-
mento, que continua dentro do prprio intelec-          lo que fica fora da formulao explcita dos
to. Neste segundo sentido, segundo S. Toms             problemas, constituindo uma esfera que
de Aquino deve-se entender que a P. de pessoas          pode ser "sentida" ou "intuda" de alguma
divinas 6 de Deus pai (S. Th., I, q. 2 7 . a. 1).       maneira, portanto interpretada ou expressa
   PROCESSO (lat. Processas: in. Process-, fr.          metaforicamente; indica tambm aquilo que,
Processas-, ai. Process; it. Processo). 1. Procedi-     em algum campo cie indagao, foge ao al-
mento, maneira de operar ou de agir. P. ex., "o         cance de seus procedimentos, mas manifesta
P. de composio e de resoluo", para indicar          sua presena de modo obscuro. J Husserl
o mtodo que consiste em ir das causas ao efei-         opunha-se  noo de P. em filosofia: "A cin-
to, ou do efeito s causas (c., p. ex., S. TOMS       cia propriamente dita. em tudo o que abrange
de Aquino, .V. Th.. III, q. 14, a. 5); "P. ao infini-   a sua doutrina autntica, no conhece sentido
to", que  ir de uma causa a outra, infinitamen-        profundo. Cada momento de uma cincia per-
te (Ihid.. I, q. 16. a. 2).                             feita  um todo cie elementos cie pensamentos,
    2. Devir ou desenvolvimento, p. ex.. "o P.          cada um deles compreendido imediatamente,
histrico". K nesse sentido que Whitehead               portanto sem sentido P." (Phil. ais slrenge
emprega o termo para designar a formao do              Wissenschqfl. 1910, no fim, trad. it.. p. 81). Hoje.
unindo (Process and Realily, 1929).                     a noo de P. prevalece principalmente em
    3. Concatenao qualquer de eventos, como           certas correntes psicolgicas e antropolgicas,
p. ex. o "P. digestivo" ou "o P. qumico".              como a psicanlise, o intuicionismo, o existen-
    PRODUO (gr. Ttoeoi; lat. Produciio: in.         cialismo, mas, apesar da riqueza de anlises a
Prodiiction, fr. Produciion-, ai. Prodiictiou-, it.     que deu origem, j comea a suscitar reaes
Produzioiie). Pr como ser alguma coisa que             crticas salutares. "As psicologias abissais" --
poderia no ser. Plato definia como arte pro-          escreveu V. Belaval -- "e as filosofias que nelas
dutiva "qualquer possibilidade que se tome              se inspiram no criaram novos fenmenos: su-
causa de gerao de coisas que antes no exis-          puseram processos e intenes ocultas, pro-
tiam" (Sof.. 265 b), e Aristteles via na P. a fun-     puseram novas idias sobre o homem, mas
o da arte, distinguindo-a da ao e do saber:         essas hipteses ou idias sempre deixam de
"Toda arte concerne  gerao e procura os              ser formuladas na lngua cios conhecimentos
instrumentos tcnicos e tericos para produzir          progressivos em que cada palavra designa
uma coisa que poderia ser e no ser e cujo              univocamente um fenmeno determinado, e
princpio reside em quem a produz, e no no             cada regra de sintaxe uma operao tcnica
objeto produzido" (Et. nic. VI, -t, 11+0 a 10).         precisa" (I.es coiidutes dchec, 1953, p. 274).
Deste ponto de vista, a P. distingue-se da ao,          PROGRESSO (in. Progress-, fr. Progrs: ai.
que  a operao cujo fim est em si mesma;             Portschrft; it. Progresso). Esse termo designa
diferena na qual S. Toms de Aquino insistiu           duas coisas: Ia uma srie qualquer cie eventos
PROGRESSO                                           799                                       PROGRESSO


que se desenvolvam em sentido desejvel; 2- a             nas primeiras dcadas, a bandeira do Roman-
crena de que os acontecimentos histricos                tismo e assumindo o carter de necessidade. O
desenvolvem-se no sentido mais desejvel, rea-            conceito de necessidade do plano progressista
lizando um aperfeioamento crescente. No                  da histria era expresso por Fichte da maneira
primeiro sentido, fala-se, p. ex.. do "P. da qu-         mais enrgica: "Qualquer coisa que realmente
mica" ou do "P. da tcnica"; no segundo sen-              exista, existe por absoluta necessidade; e exis-
tido, dizemos simplesmente "o P.". Neste se-              te necessariamente na forma exata em que
gundo sentido, a palavra designa no s um                existe". Hssa necessidade  racionalidade pura;
balano da histria passada, mas tambm uma               "Nada  como  porque Deus o queira arbitra-
profecia para o futuro.                                   riamente, mas porque Deus no pode manifes-
   O primeiro sentido restrito do termo no d            tar-se de outro modo. (...) Compreender com
origem a problemas e acha-se em toda parte.               inteligncia clara o universal, o absoluto, o
Os antigos tambm o possuram, em particular              eterno e o imutvel, que  o guia da espcie
os esticos, que o empregaram para indicar o              humana,  tarefa dos filsofos. Fixar de fato a
avano do homem no caminho da sabedoria e                 esfera cambiante e mutvel dos fenmenos,
da filosofia (J. STOHKO, HCL. II, 6, 146: o termo         atravs dos quais prossegue a marcha segura
                                                          cia espcie humana,  tarefa cio historiador,
    O segundo sentido cio termo no foi co-               cujas descobertas so s casualmente lembra-
nhecido na Antigidade clssica e na Idade M-            das pelo lilsolo" (Cnuulzge des gegeiucr-
dia. A concepo geral que os antigos tiveram             tigoi Zeilalters, 1806, 9). Idntica concepo
cia histria foi a de decadncia, a partir de uma         era defendida pelo positivismo, que, com
perleio primitiva (idade do ouro), 011 de ciclo         Augusto Comte, exalta o P. como idia diretiva
de eventos, que se repete identicamente sem               da cincia e da sociologia, considerando-o
limites (v. HISTORIA). Costuma-se atribuir a pri-         como "o desenvolvimento cia ordem" e esten-
meira enunciao da noo de P. a Francis                 dendo-o tambm  vida inorgnica e animal
Bacon, que assim a exps num famoso trecho                (Politic/uepositive, 1851. 1, pp. 64 ss.). ()n the
do Novum Organnm (1620): "Por antigidade                 Origin of Species (1859), de Darvvin, atribua
deveria entender-se a velhice do mundo, que               base positiva ou cientfica ao mito do P.,
deve ser atribuda aos nossos tempos e no               aduzindo provas favorveis ao transormismo
juventude do mundo, aos antigos. Do mesmo                 biolgico interpretado em sentido otimista ou
modo como de um homem idoso podemos                       progressista. A obra de Spencer (First Princi-
esperar um conhecimento muito maior das coisas            pies, 1862) utilizava a noo de P. para dar da
humanas e um juzo mais maduro que o de um                realidade uma interpretao metafsica que
jovem, graas  experincia e ao grande nme-             pretendia ser positiva ou cientfica.
ro cie coisas que viu. ouviu e pensou, tambm                 Fstas so apenas as etapas mais marcantes
da nossa era (se ela tivesse conscincia de suas          da afirmao de um conceito que dominou
foras e quisesse experimentar e compreen-                todas as manifestaes da cultura ocidental do
der) seria justo esperarmos muito mais coisas             sc. XIX e ainda continua sendo pano de fundo
que dos tempos antigos, pois esta  a maiorida-           de muitas concepes filosficas e cientficas.
de do mundo, em que ele est enriquecido por              As principais implicaes dessa noo so as
inmeras experimentaes e observaes" (Soi'.            seguintes: \- o curso dos eventos (naturais e
 Orf>., I, 84). Bacon conclui com a expresso de          histricos) constitui uma srie unilinear; 2a cada
Aulo Glio (ou melhor, que Aulo Glio atribua            termo desta srie  necessrio no sentido de
a um antigo poeta): ventas filia WniporsiNoct.           no poder ser diferente do que ; 3a cada ter-
Att.. XII. 11). Alguns anos antes, conceitos se-          mo da srie realiza um incremento de valor so-
melhantes a estes haviam sido expostos por                bre o precedente-, 4a qualquer regresso  apa-
Giordano Bruno em Cena delle Cener (1584).               rente e constitui a condio de um P. maior. s
No sc. XV11 a noo de progresso d os pri-              vezes, como na filosofia de Hegel, limitam-se
meiros passos, principalmente por meio da                 as condies de validade da 3- proposio por
disputa sobre os antigos e os modernos (v.                se admitir que a histria constitui um crculo no
ANTIGOS), enquanto no sc. XVIII, com Voltaire,           qual as fases mais elevadas, j realizadas, cons-
Turgot e Condorcet, prevaleceria na concep-               tituem as condies para as mais baixas, de tal
o da histria. Mas foi s no sc. XIX que esse          modo que estas possuem a mesma racionalida-
conceito se afirmou totalmente, tornando-se, j           de ou perfeio do todo (cf. HKGIX, Wissens-
PROJEO                                             800                                    PROPEDUTICA


chaft der Logik, I, I. I, cap. II, nota I, "O pro-         o de possibilidades: qualquer previso, pre-
gresso infinito''; CROCE, La storia comepensiero           dio, predisposio, plano, ordenao, pre-
e come azione, 1938. p. 25). Mas nenhuma des-              determinao, etc, bem como o modo de ser
sas quatro teses encontra apoio nas regras da              ou de agir prprio de quem recorre a possibilida-
metodologia historiogrfica que permitem deli-             des. Neste sentido, na filosofia existencialista, o
mitar, hoje, o campo da "histria"; nenhuma                P.  a maneira de ser constitutiva do homem
delas  compatvel com tais regras; portanto, a            ou, como diz Heidegger (que introduziu a no-
idia de P. no pertence ao domnio da histo-              o), sua "constituio ontolgica existencial"
riografia cientfica. Por outro lado, na cultura           (Sein und Zeit,  31). Heidegger insistiu tam-
contempornea a crena no P. foi muito abala-              bm na tese de que tocio projetar-se, por ante-
da pela experincia das duas guerras mundiais              cipar possibilidades de fato, incide sempre no
e pela mudana que elas produziram no cam-                 fato e no vai alm: de tal modo que a mxima
po da filosofia, pondo por terra a tendncia ro-           cio homem que se projeta  "S o que s"
mntica que a tinha como pedra angular. Por-               (Ibid.). Em outro trecho Heidegger disse que o
tanto, no estgio atual dos estudos, essa iciia           P. do mundo, em que consiste a existncia hu-
s pode ser considerada vlida como esperan-               mana,  antecipadamente dominado pela
a ou empenho moral para o futuro, e no                   facticidade. que ele procura transcender, mas
como princpio diretivo da interpretao histo-            acaba reduzindo-se e nivelando-se com a
riogrfica. Sobre o perodo ureo da crena no             facticidade (Vom Wesen des Grundes, 1929,3;
P.. cf. J. B. BUKY, Theldea ofProgress, 1932 (v.           trad. it., pp. 67 ss.). Sartre substancialmente
HISTRIA).
                                                           repetiu esses conceitos de Heidegger, mas ressal-
    PROJEO (in. Projection; fr. Projection;              tou a gratuidade perfeita dos "P. do mundo",
ai. Projektiori; it. Proiezione). Com este termo           em que consiste a existncia. Chamou de "fun-
era freqente designar, na psicologia do sc.              damental" ou "inicial" o P. constitutivo da exis-
XIX, a referncia da sensao ao objeto, graas            tncia humana no mundo e considerou-o cont-
 qual o objeto  localizado no espao circun-             nua e arbitrariamente modificvel: "A angstia
dante, embora a sensao s ocorra no rgo                que, ao ser revelada, manifesta-nos  conscin-
do sentido. Quem mais contribuiu para o xito              cia a nossa liberdade,  testemunho da perp-
desse termo foi Helmholtz (Physiologische                  tua possibilidade de modificar nosso P. ini-
Optik, 1867, p. 602). Hoje est em desuso, visto           cial'' (L'tre et le nant, 1943, p. 542).
que o problema j no subsiste nos mesmos
termos, em vista do novo conceito de percep-                   Apesar de caracterstica da filosofia existen-
o (y.).                                                  cialista, a noo de P. passou a fazer parte da
    Hoje, chamam-se projetivas as tcnicas de              terminologia filosfica e cientfica contempor-
averiguao psicolgica que consistem em                   nea. Mostrou ser til para expressar aspectos
apresentar um material (especialmente figuras)             importantes das situaes humanas tanto das
de significao ambgua, que pode ser inter-               mais gerais, analisadas pela filosofia, como das
pretado segundo tendncias, necessidades ou                especficas, que constituem o objeto das cin-
represses, e cuja interpretao pode revelar              cias antropolgicas: psicologia, sociologia, etc.
o estado de quem o interpreta. O mais conhe-               V. ESTRUTURA e MODELO.
cido destes artifcios projetivos foi criado em               PROLEGMENOS (in. Prolegomena; fr.
1921 pelo suo Rorschach (cf. H. H. ANDERSON,             Prolgomnes; ai. Prolegomena; it. Prolegome-
e G. L. ANDERSON, An Introduction to Projective            n). Estudo preliminar, introdutivo e simplifica-
 Techniques, 1951).                                        do. Esse termo aparece no ttulo de algumas
    Na psicanlise, o conceito de P.  usado               obras de filosofia, como a de Kant, P. a toda
para descrever o processo mediante o qual                  metafsica futura (1783).
um indivduo atribui a outro as atitudes ou                   PROLEPSE. V. ANTECIPAO.
os sentimentos de que sente vergonha ou que                   PROPEDUTICA (gr. 7ip07iou(X; in.
ache difcil ou penoso reconhecer em si                    Propaedeutics; fr. Propdeutique, ai. Prop-
mesmo (cf. J. R. SMITHIES, "Analysis of Pro-               deutk it. Propedutica). Ensino preparatrio.
jection" em British Journal of Philosophy of               Foi assim que Plato chamou o ensino das
Science, 1954, p. 120).                                    cincias especiais (aritmtica, geometria, astro-
    PROJETO (in. Plan; fr. Projet- ai. Projekt,            nomia e msica), relativamente  dialtica
Entwurf it. Progetto). Em geral, a antecipa-               (Rep., VII, 536 d). Ainda hoje se d esse nome 
PROPENSO                                              801                                     PROPOSIO

parte introdutiva de uma cincia ou de um cur-               tar (p. ex., o homem  um animal bpede ter-
so que sirva de preparao a outro curso.                    restre ou no?), a P. consiste na assero (p.
    PROPENSO (lat. Propensio; in. Propen-                   ex., o homem  um animal bpede terrestre)
sity; fr. Propension; ai. Neigung; it. Propensio-            ou na assero contraditria (7b/?., I, 4101 b
ne). Tendncia, no significado mais geral. Hu-               28). Porm, em qualquer caso, a verdade ou a
me usava esse termo para definir o costume:                  falsidade de uma P. depende do fato de a com-
"Sempre que a repetio de um ato ou de uma                  posio ou diviso dos termos nos quais con-
ao particular produz P. para repetir esse ato              siste corresponder ou no quela que o intelecto
ou ao sem a coao por raciocnio ou por                   encontra nas coisas existentes. Aristteles
processo intelectual, dizemos que essa P.  o                diz: "No s branco porque acreditemos que
efeito do costume'' (Inq. Cone. Underst., V., D.             s branco, mas. por seres branco, dizemos a
    PROPORO. V. ANALOGIA.                                  verdade ao afirmarmos isso. Se algumas coisas
    PROPOSIO (gr. 7ipTaoi; lat. Propositio;              esto sempre unidas e no podem ser dividi-
in. Proposition; fr. Proposition; ai. Satz; it.              das, e outras esto sempre divididas e no podem
Proposizione). Enunciado declarativo ou aquilo               estar unidas, se outras coisas ainda podem ser
que  declarado, expresso ou designado por                   compostas ou divididas, o 'ser' consistir em
tal enunciado. Os dois usos do termo foram                   ser combinado ou ser dividido, e o 'no ser'
nitidamente distinguidos por Carnap (Intr. to                consistir em ser dividido ou em ser v-
Semautics, 1941,  37), mas ainda so freqen-               rias coisas" (Mel., IX, 10, 1051 a 34). Ao
temente confundidos, conquanto a distino                   combinar seus termos, a P. expressa a ao com-
tenha sido amplamente aceita na lgica con-                  binante ou dissociante do intelecto que se se-
tempornea (cf. CHURCH, Intr. to Mathema-                    gue  combinao e  dissociao das coisas
tical Logic,  04; W. KNKALE e M. KNKALF, The                existentes.
Development of Logic, pp. 49 ss.). Os dois usos
so determinados por dois conceitos diferentes                   Essa doutrina conservou-se substancialmen-
de P., mais precisamente os seguintes: 1) P.                 te inalterada na tradio antiga, exceo feita
como expresso verbal de uma operao men-                   aos esticos (e pela corrente a iniciada), que
tal, freqentemente chamada de juzo. 2) P.                  introduziram a noo de enunciado(v.). A tra-
como entidade objetiva ou valor de verdade de                dio medieval e boa parte da lgica moderna
um enunciado.                                                conservou-a. S. Toms de Aquino dizia que a
    1. A doutrina de que a P.  expresso verbal             verdade e a falsidade esto no intelecto, por-
de uma operao mental foi formulada pela                    quanto este procede compondo e dividindo:
primeira vez por Aristteles, para quem o con-               "de fato, em toda P. uma forma significada pelo
junto ((XVjLUT.OKf|) dos termos (nome e verbo)              predicado aplica-se a alguma coisa significada
do discurso declarativo (.yo rrcxpavTiK)               pelo sujeito ou se distancia dessa coisa" (S. Th.,
corresponde a umpensamento(vr\[ia) ineren-                  I, q. 16, a. 2). Na linha da lgica terminista,
te necessariamente ao ser verdadeiro ou falso;               Ockham admitia uma "P. mental", que identifi-
portanto, "o verdadeiro e o falso" versam sobre              cava com ato do intelecto (liberperiermenias
a composio e sobre a diviso (oveoi KOU                 proemium), ainda que para ele a verdade da P.
Siapeoi) (De interpr., 1, 16 a 9 ss.). O dis-              dependesse da suppositio(\. abaixo, 2). A par-
curso declarativo , assim, expresso de um                  tir de Descartes o termo "P."  substitudo pelo
pensamento que procede compondo e dividin-                   termo "juzo", porque a ateno da lgica filo-
 do: a composio d origem  afirmao; a                   sfica estar cada vez mais concentrada na
diviso,  negao (Ibid., 6, 17 a 23). Nos Analti-         operao intelectual que encontra expresso
 cos (na teoria do silogismo), Aristteles chamou            na P. (v. Juzo, 4).
o discurso declarativo de "pratas is" (cujo equi-                Mas at mesmo Russell reduz a P. a atitude
valente latino  'propositio'), ou seja, "premis-            mental, embora a distinguindo do enunciado.
sa de raciocnio", definindo-a como "o discurso              Na verdade, considera-a como "crena" ou "ati-
que afirma ou que nega alguma coisa de algu-                 tude proposicional", e afirma que as P. devem
ma coisa" (An. pr. I, 1, 24 b 16), ou como "a                ser definidas como eventos psicolgicos (ou fi-
 assero de um dos membros da contradio"                  siolgicos) de certa espcie: imagens comple-
(Ibid. II, 12, 77 a 37). Desse ponto de vista, a P.          xas, expectativas, etc. Segundo Russell, isso 
 difere do problema (v.) apenas na forma, visto              evidenciado pelo fato de que as P. podem ser
 que, enquanto o problema consiste em pergun-                falsas (An Inquiry into Meaning and Truth,
PROPOSIO                                             802                                       PROPOSIO

cap. XIII, A; ed. Pelican Books, p. 172; Cf.                  significado (o verdadeiro), assim como todas as
Humari Knowledge, pp. 449-50) (v. Juzo, 3).                  projees falsas (o falso), segue-se que umaP.
    2. A doutrina segundo a qual a P. constitui o             no pode reduzir-se apenas ao seu significado.
designado do enunciado assume formas dife-                    nem apenas ao seu sentido (que seria uni pen-
rentes, segundo a natureza atribuda ao desig-               samento puro), mas deve resultar do conjunto
nado. s vezes, este  entendido como "P. em                 de ambos (IJber Sinn und Redeutung.  5, em
si" ou "entidade" de algum tipo; outras vezes,                Phil. Writings q/G. F., ed. Geach and Black,
como objeto, situao objetiva, estado cie coi-              pp. 63 ss.). Nas P. indiretas ou oblquas, nas
sas ou carter. Em todos os casos, essa inter-               quais h verbos como "dizer"', "ouvir", "pen-
pretao de P. no faz referncia a atos ou a                sar", "acreditar", "concluir" e semelhantes
operaes mentais.                                           (como p. ex. em "Coprnico acreditava que
    Os esticos, que introduziram a noo de                 as trajetrias cios planetas eram circulares"), a
enunciado (v.). consideram que este expressa                  V. secundria introduzida por que vale ape-
uma condio ou um estado de coisas. Assim,                  nas como o nome de um pensamento, po-
afirmavam que "quem diz ' dia' mostra que                   dendo por isso ser variada sem comprometer o
acha que 6 dia. Ora, se realmente for dia, o                 valor da verdade cia P. inteira (Ibid,  6; em
enunciado que est diante de ns ser verda-                 Geach, pp. 66 ss.).
deiro; se no for dia. ser falso " (Dig. L, VII,               Em torno desse conceito cie Frege giram as
65). Deste ponto de vista, o fato de ser dia  o             discusses da lgica contempornea a res-
significado ou o valor de verdade do enuncia-                peito da natureza da P. Das duas dimenses
do "E dia". A lgica terminista medieval desig-              da P. admitidas por Frege, Wittgenstein pro-
nou o significado denotativo dos termos da P.                curou eliminar o sentido (Sinn). como "pen-
com o conceito da suposio (v.), segundo o                  samento" ou "contedo objetivo", e usar
qual uma P. 6 verdadeira se os termos dos                    essa mesma palavra para designar aquilo
quais resulta correspondem ao objeto existen-                que Frege entendia por significado (Retleu-
te (tf. OCKHA.M. Sumnui hf>., II, 2). \ a s lawsof            luug). empregando esta ltima apenas como
 Tboughl (1854) Boole distinguia as P. prim-                tlenotao dos nomes e dos signos. "A P." --
rias, que expressam uma relao com a coisa,                 disse ele -- " uma figurao (fild, picture)
e as P. secundrias, que expressam uma rela-                 da realidade: de fato, tomo conhecimento da
o entre proposies (Cap. IV,  1). Mas                    situao por ela representada to logo com-
Bolzano opusera  P. verbal a P. em siiSalz uri              preendo a P. F. compreendo a P., sem que o seu
Sich). que  vlida independentemente do fato                sentido me seja explicado" ( Tractatits, 4.021).
de ser ou no ser expressa ou pensada, e cons-               Desse ponto de vista, "a forma universal da P.
titui o elemento da matemtica pura ( Wissens-               6: as coisas esto assim e assim" (Ibid.. 4. 5).
chaftslebre, 1837,  19). Retomando a polmica               Por essa razo, compreender uma P. significa
de Husserl contra o psicologismo, Meinong dis-               simplesmente saber "como esto as coisas, no
tinguia em todo "juzo" (termo para ele equiva-              caso de ela ser verdadeira" (Ibid., 4.024), no
lente a V.) o objetivo(Objektv). que  o conte-            sentlo, pois, necessrio recorrer a um pensa-
do interno cio juzo, e o objeto ( Objek.t). que 6 a         mento ou a qualquer contedo objetivo. Por-
entidade externa  qual o juzo se refere ([".'her           tanto, para Wittgenstein. o "sentido" de que fa-
Annabmen, 1902, p. 52). Para todos os efeitos,               lava Frege  intil, porque o sentido tia P. o
essa distino eqivale quela que Frege esta-               seu prprio significado, e "a P. mostra seu sen-
belecera entre sentido e significado ( Vber                  tido" (Ibid.. 1.022). Por outro lado, Wittgenstein
Sinu uud Bedeuiung, 1892) (v. SIGNIFICADO). A                afirma que "a P. possui um sentido indepen-
propsito tia P.. Frege dissera que. enquanto o              dente dos fatos" (4.061) e que "as P. '/;' e 'nop'
sentido (Sinn) da P.  um "pensamento" -- no                tem sentido oposto, embora nelas se expresse
entendido subjetivamente, mas como "conte-                  uma nica e mesma realidade" (4.0621), o que,
do objetivo que pode constituir a posse comum                na terminologia cie Frege, implicaria um senti-
cie muitos" --, o significado (Bedeiitung) da P.             do que no depende do significado.
6 o seu "valor de verdade", isto 6, "a circuns-
tncia cie ser verdadeira ou falsa". Deste modo,                 Opondo-se a Wittgenstein, alguns lgicos
a V. pode ser considerada como um nome pr-                  contemporneos tendem a reduzir o significa-
prio, e o verdadeiro ou falso 6 o objeto da P.               do ao sentido, empregando o termo "signifi-
Mas como todas as P. verdadeiras tero o mesmo               cado" (Meaning) para indicar aquilo que Frege
                                                             chamava de sentido. Assim, Aver definiu a P,
PROPOSIO ATRIBUTIVA                                 80-?                                              PRPRIO

como a "classe dos enunciados que tm o mes-                 complexas, compostas de P. simples atravs
mo significado (significance) intencional para               dos conectivos lgicos 'no', 'ou', 'e'. implica'),
qualquer um que o entenda" (Langiiage Tmtb                   cuja verdade (ou falsidade) seja unicamente
and Logic, [1936], 1948. p. 88). Neste mesmo                 funo da verdade ou falsidade das P. compo-
sentido, Quine considerou as P. como "os                     nentes. A questo cie existirem ou no P.
significados dos enunciados" (From a lgi-                   moleculares no funcionais foi amplamente
ca! Point of Vieir. VI, 2: p. 109; Word and                  discutida na Lgica contempornea, contra a
Ohject. 1960,  42). Mais prximos da posi-                  lese e.xlensiona. defendida principalmente por
o de Frege esto Carnap e Church. Carnap                   Wittgenstein, segundo a qual todas as P. mo-
distinguiu a extenso de um enunciado, que 6                 leculares so funes-verdade das componen-
seu valor de verdade, de sua intoiso, que 6                 tes; Russell e outros defenderam a possibilida-
a P. que ele expressa. No sentido de Carnap.                 de de P. compostas que no sejam funes,
todavia, a P.  uma entidade to objetiva                    como p. ex.. "A cr em p" (onde 'A'  um nome
quanto a "propriedade", embora apenas de                     de pessoa e 'p'  uma P.).
natureza lgica. Segundo Carnap, pode-se                        PROPOSIIONAL CLCULO, FUNO. V.
falar de P. tambm a propsito de enuncia-                   CAI.CII.O; FYNO PROPOSICIONAL.
dos falsos, porque as P. so entidades com-                      PROPRIEDADE (in. Propcrty, fr. Propril;
plexas, compostas por outras entidades: e                    ai. Iiigenschaft; it. Propriel). 1. Determinao
ainda que se admita que os componentes lti-                 ou caracterstica prpria de um objeto em um
mos de uma P. devem ser "exemplificados"                     dos sentidos do termo prprio (v.).
(isto , devem ser verdadeiros), nem por isso a                  2. Qualquer qualidade, atributo, determina-
P., em seu conjunto, dever s-lo (Meaning                   o que sirva para caracterizar um objeto oti
andNecessily.  6; pp. 26-30). Church. que acei-             para distingui-lo dos outros.
tou a terminologia de Frege, Lisa o termo "P."                   PROPRIEDADE OMUTATIVA, DISTRI
como equivalente ao termo "sentido", de Fre-                 BUTIVA. V. CO.MtTATIYO. DlSTRlBlTIVO.
ge, e afirma dever-se a uma deciso de algum                    PROPRINIPIA. Termo usado por Cam-
modo arbitrria o fato de recusarmos o nome                  panella para indicar os tlois princpios que en-
de P. aos sentidos dos enunciados (das lingua-               tram na constituio das coisas fnitas, isto . o
gens naturais), porquanto expressam um senti-                Ser e o No-ser (Met.. II, 2, 2) (v. PRIMALIDADI:).
do, mas no tm valor de verdade (Inlr. Io                      PRPRIO (gr. Ttov; lat. Propriiinv. in.
Malhemalical I.ogic.  04. op. 27). Por outro                Proper. fr. Propre: ai. Higen; it. Prprio). 1. l a n a
lado, Bergmann utilizou o termo de Brentano e                determinao que pertence a Ioda uma classe
de Ilusserl. "inteno", para reinterpretar o                de objetos, pertencendo sempre e somente a
"significado" de Frege. A inteno  o objeto                essa classe, mesmo que no faa parte de sua
dos atos intencionais, e a P.  o "carter" corres-          definio. F.ste  o sentido fundamental do ter-
pondente  inteno. "No paradigma", disse                   mo, da maneira como foi esclarecido por Aris-
ele, "a inteno  um fato expresso em 'isto 6               tteles Clbp., I, S, 102 a 18) e passou a fazer
verde'. Chamo de carter correspondente 'a P.                parte da tradio lgica (cf. Arnaukl, I.og., I, 7;
isto  verde' e uso P. como um nome geral para               Jungius. Lgica bamburgensis, I, I, 33). Neste
essa espcie de carter" (I.ogic and Reality,                sentido, o P., apesar cie no fazer parte da
 1964, p. 32).                                               essncia substancial de uma coisa, est estrita-
   As discusses havidas entre os lgicos a res-             mente conexo a essa essncia ou deriva dela
peito da P., bem como a respeito de stias equi-              de algum modo. O exemplo aduzido por Aris-
valncias ou sinonmias, alm de outros pro-                 tteles  o do aprendizado da gramtica:
blemas relativos, continuam centrados na                     esta determinao  P. do homem, no senti-
distino entre sentido e significado, ou suas               do de que quem  capaz de aprender gram-
distines correspondentes.                                  tica  homem, e  homem quem  capaz de
  PROPOSIO ATRIBUTIVA; ATMICA;                            aprender gramtica: as duas determinaes
COMPARATIVA; DELARATTVA; DESRITI                           "homem" e "capaz de aprender gramtica " so
VA; SECUNDARIA. V. esses adjetivos.                          reciprocveis. Neste sentido, o P.  uma deter-
  PROPOSIO FUNCIONAL (in. Functio-                         minao privilegiada que est entre a essncia
nalproposition, fr. Proposition fonctionelle; ai.            e as determinaes acidentais.
Funktionellsatz; it. Proposizione fiuizionale).                  2. No entanto, mesmo Aristteles chama cie
D-se esse nome s P. moleculares (ou seja, P.               prprias tambm as determinaes acidentais
PROSSILOGISMO                                         804                                        PROTOTESE

ao fazer a distino entre P. por si, "que  esta-              PROTOCOLO (in. Protocol; fr. Protocol; ai.
belecido com relao a todos os objetos e se-               Protokoll; it. Protocolo). Termo introduzido pe-
para o objeto em questo de qualquer outro                  lo Crculo de Viena para indicar o registro do
(como no caso de ser P. do homem ser um ani-                dado imediato ou experincia direta (sensa-
mal mortal que pode receber o saber)" e o P.                o, percepo, emoo, pensamento, etc). As
em relao a outra coisa, "que distingue o obje-            "proposies protocolares" so as que contm
to apenas de algum objeto dado e no de qual-               unicamente P. e por isso fazem referncia dire-
quer outro objeto" ( Top.. V, 1, 128 b 34). O "P.           ta aos dados imediatos; por serem instrumento
por si"  o P. no sentido estrito, ou seja. a               da verificao emprica, no precisam de verifi-
determinao sempre que pertence a todo o                   cao porque sua verdade  garantida pelo P.
objeto dado, e somente a ele, enquanto o P.                 que contm, graas ao qual correspondem ime-
"em relao a outra coisa" foi distinguido por              diatamente ao dado emprico (cf. R. Carnap,
Porfrio (com base nas mesmas consideraes                 em Krkenntnis, II, 1931, pp. 437 ss.). A noo
de Aristteles) em outras trs determinaes:               de P. est ligada  fase do neopositivismo que,
Ia aquilo que pertence a uma nica espcie,                 para declarar significativa urna proposio, exigia
mas no a todos os indivduos da espcie (nes-              a verificao direta da proposio mediante
                                                            protocolos. Mas mesmo Carnap, a partir da
te sentido ser filsofo  P. do homem); 2- aqui-
                                                            obra Teslabilily and Meaning (1936), limitava
lo que pertence a todos os indivduos de uma
                                                            essa exigncia afirmando que, para serem
espcie, mas no a uma nica espcie (serbpede
                                                            significativos, os enunciados devem ser con-
 P. do homem); 3a aquilo que pertence a todos
                                                            firmveis, ou seja, devem conter apenas
os indivduos de uma nica espcie, mas nem
                                                            "predicados-coisa observveis". Estes precli-
sempre (neste sentido, encanecer  P. do ho-                cados-coisa no so mais P., isto , dados da
mem). Porfrio enumerava como quarto sig-                   experincia imediata, mas nomes de qualida-
nificado o mais restrito (Isag., 12, 12 ss.). Os            des elementares (p. ex., "vermelho"). Para uma
quatro significados de Porfrio foram habitual-             crtica do conceito de P., no mbito do positi-
mente reproduzidos pela lgica medieval (cf.,               vismo lgico, cf. K. Popper, Logik der Fors-
p. ex., PEDRO HISPANO, Sitmm. log., 2, 13), mas             chung, 1934, trad. in., 1958 (v. EXPERINCIA).
a partir da Lgica de Arnauld (I. V), mesmo
mencionando-se as quatro distines de Por-                     PROTOFILOSOFIA (in. Protophilosophy, fr.
frio, preferiu-se limitar o conceito de P. ao mais         Protophilosophic-, ai. Protophilosophie, it. Proto-
restrito. Na realidade, em seu significado lato.            filosofia). Termo empregado principalmente pe-
o conceito de P. pode incluir qualquer deter-               los socilogos para indicar a filosofia dos po-
                                                            vos primitivos, expressa na forma do mitoiy.).
minao, atribuda a qualquer ttulo a um obje-
to, perdendo, assim, caracterstica ou utilidade                PROTOLOGIA(in. Pwtologyjv. Protologie,
especfica. Seja como for, a noo est estrita-            ai. Protologie, it. Protologia). Termo empregado
mente ligada  da lgica aristotlica e  sua               por alguns escritores italianos do incio do sc.
                                                            XIX, especialmente por Ermenegildo Pini
estreita vinculao com a teoria da substncia,
                                                            (P-, 3 vols., 1803), para designar aquilo que
sendo por isso abandonada pela lgica con-
                                                            Fichte denominava doutrina da cincia ou
tempornea.
                                                            cincia das cincias. Esse termo foi adotado
   PROSSILOGISMO. V. POUSSII.OGISMO.                        por Vincenzo Gioberti na sua ltima obra, pu-
   PRTASE. V. PROPOSIO.                                  blicada postumamente (P., 1857). Gioberti defi-
    PROTENSIVIDADE (in. Prolensity, ai. Pro-                ne a P. como "a cincia do ente inteligvel,
tention; it. Protensione). Durao de conscin-             intuda atravs do pensamento imanente"; essa
cia. Termo introduzido por Kant, que obser-                 cincia  a base de qualquer outra, sendo tam-
vava; "A felicidade  a satisfao de todas as              bm anterior  ontologia. O uso desse termo
nossas propenses, tanto extensivas em sua                  parou em Gioberti.
multiplicidade quanto intensivas (em relao                    PROTON PSEUDOS (gr. 7ipcTOV \|/e8o).
ao grau) e proteyisivas(em relao  durao)"              Falsidade da premissa maior, que determina a
(Crt. R. Pura, Doutr. do Mtodo, cap. II, se.             falsidade do silogismo (Aristteles, An. pr., II,
II). Husserl chamou de P. "a pr-lembrana                  18. 66 a 16).
reprodutiva em sentido prprio", ou seja, o                     PROTOTESE (in. Protothesis; fr. Protothse,
estado de expectativa que prepara a reprodu-                ai. Protothse, it. Prototesi). Termo empregado
o da lembrana (Ideen, I,  77).                          por W. Ostwald para indicar as hipteses sus-
PROTTIPO                                              805                                             PROVA

cetveis de verificao experimental no estado               idias so chamadas de P.; quando por esse
atual da cincia, que por isso se distinguem das             meio  clara e evidentemente percebida a con-
que no o so (Die Hnergie und ihre Wand-                    cordncia ou a discordncia, d-se-lhe o nome
lungen, 1888,  68). Na realidade, nenhuma                   de demonstrao, pois ento a coisa  mostra-
hiptese . como tal, diretamente verificvel                da ao intelecto, e o esprito  levado a ver que
(v. HIPTESE; TEORIA).                                       ela  assim" (Ensaio, IV, 2. 3). Mas a doutrina de
  PROTTIPO (gr. rcpcoTnmo; lat. Prototy-                  Locke marca uma guinada importante na hist-
pus; in. Prototype, fr. Prototype, ai. Prototyp; it.         ria do conceito de P. porque admite, pela pri-
Prottipo). Modelo originrio. O mesmo que                   meira vez, a possibilidade de P. provveis. 'A
arqutipo (v.).                                              probabilidade" -- dizia Locke -- "no pas.sa de
   PROTRPTICO(gr. 7tpoxpe7txiK). Kxorta-                  aparncia da concordncia ou discordncia en-
o  filosofia (cf. PLATO, Hutici, 278 c; CRISIFO,         tre duas idias mediante a interveno de P.,
Stoicurom fragmenta, III, 189). Essa palavra                 cuja ligao no  constante nem imutvel, ou.
foi empregada como ttulo de livro por Arist-               pelo menos, no  percebido como tal, mas 
teles, Epicuro, Cleante e outros.                            ou parece ser na maioria das vezes, sendo su-
    PROVA (gr. TEKiiptOV; lat. Probatio; in.                ficiente para induzir o esprito a julgar que a
Proofjr. Preuve, a. Beweis: it. Prova). Procedi-            proposio  verdadeira ou falsa, e no o contr-
mento apto a estabelecer um saber, isto , um                rio" (Ibid., IV, 15. 1). Wolff, por sua vez, mesmo
conhecimento vlido. Constitui P. todo procedi-              identificando a P. com o silogismo, distingue-a
mento desse gnero, qualquer que seja sua                    cia demonstrao, pois ela seria um silogismo
natureza: mostrar uma coisa ou um fato, exibir               "que utiliza apenas premissas que so defini-
um documento, dar testemunho, efetuar uma                    es, experincias indubitveis e axiomas" (f.ug..
induo so P. tanto quanto as demonstraes                  498). Mas foram principalmente Hume e Kant
da matemtica e da lgica. Portanto, esse ter-               que estabeleceram as distines fundamentais
mo  mais extenso que demonstrao (v.): as                  nesse campo. Hume props distinguir todos os
demonstraes so P., mas nem todas as P.                    argumentos em demonstraes, P. e probabili-
so demonstraes.                                           dades, entendendo por P. "os argumentos ex-
    O conceito foi estabelecido no sentido res-              trados da experincia, que no admitem dvi-
trito por Aristteles, que. ao dizer "Dizem que              da e objees" (Inq. Cone. IJnderst., IV, nota);
P. 6 o que produz saber", fez a distino entre              nessa distino, as demonstraes se limita-
prova e indcio, que proporciona apenas co-                  riam ao domnio das puras conexes de idias,
nhecimento provvel (An. pr., II. 27. 70 b 2).               Kant. por sua vez, distinguiu quatro espcies
Em Retrica acrescentou: 'Quando se acha que                 de P.: Ia a P. lgica rigorosa, que vai do geral ao
o que foi dito no pode ser refutado, acredita-              particular e  a demonstrao propriamente dita;
se ter apresentado uma P., porquanto a P.                   2a o raciocnio por analogia; 3a a opinio veros-
sempre demonstrada e perfeita"; o prprio silo-              smil; 4a a hiptese, que  o recurso a um prin-
gismo  uma P. necessria nesse sentido (Ret..               cpio explicativo simplesmente possvel (Crt.
I, 2, 1357 b 5). O mesmo conceito de procedi-                do Juzo,  90). Afirmou que as P. demonstrati-
mento que estabelece ou descobre um conhe-                   vas ou apodticas acham-se apenas no domnio
cimento foi expresso pelos esticos na defini-               da matemtica, visto que esta procede median-
o do sinal indicativo, como "enunciado que.                te a construo de conceitos, e que os princ-
procedendo com conexes corretas, descobre                   pios empricos de P. no podem produzir nenhu-
o que se segue" (SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp., II,             ma P. apocltica (Crt. R. Pura, Doutrina do
104), ou de raciocnio demonstrativo, que. "por              Mtodo, cap. I, se. II). Esta era substancial-
meio de premissas estabelecidas, descobre por                mente uma aceitao do ponto de vista de Hume.
deduo uma concluso patente" (Ibid., II, 135)              Devvey tambm aceitou esse ponto de vista.
Os entendimentos aos quais se faz aluso nes-                observando que h, "por um lado, a demons-
sas definies so P. por serem "aptos a desco-              trao racional, que  questo de rigorosa
brir", ou seja, por produzirem (e justificarem)              eonseqencialidade no discurso, e, por outro, a
conhecimentos. No sc. XVII, Locke reproduzia                demonstrao puramente ostensiva"(Logic, cap.
a seu modo (com o pressuposto cartesiano da                  XII; trad. it., p. 327).  freqente a distino
superioridade da intuio) este conceito de P.:              entre demonstrao, "P. lgica" "P. dedutiva",
"As idias intermedirias que servem para de-                "P. necessria" e a P. em geral (cf. p. ex., W.
monstrar a concordncia entre duas outras                    HAMILTON, Lectures on Logic, 1866, 11, p. 38; G.
PROVA                                              806                                             PRXIMO

BERGMAW. Philosopby of Science. 1957, p. 4).             f.ogical Syiitax of Lciiif>itcif>e. 193 7 .  35-36;
mas. enquanto a anlise dos procedimentos de             QriNK, Mathematical Logic. 1940, cap. 7). 0
P. usados pelas cincias individualmente (e              teorema cie Gclel. como observa Quine, leva
portanto da noo de P. em geral) recebeu                 maturidade um novo ramo da teoria matemti-
pouca ateno dos filsofos metodolgicos e              ca, conhecido como metamatemtica ou "teoria
no fez progressos, a noo de P. lgica loi re-         da ]'.". cujo objeto  a prpria teoria matemti-
petidamente elaborada por matemticos e lgi-            ca (Melbods of Logic.  41). Ksse teorema esta-
cos. Os princpios da 'teoria da P." foram esta-         belece, porm, que uma P. de coerncia  sem-
belecidos por I). Hilbert da maneira seguinte:           pre relativa, pois seu resultado vale apenas na
"Lima P.  uma figura que deve ser apresentada           medida em que se admite a coerncia do siste-
como tal; consiste em conseqncias inferidas            ma com base no qual ela  efetuada (cf. QUINE,
segundo o esquema:                                       From a Logical Poinl of Vieir. pp. 99 ss.). Cf,
                                                         tambm. E. Nagel e J. R. Nevvmann. (iodeis
                                                         Proqf. 1958 (v. MATEMTICA).
                                                            PROVVEL (in. Probable. fr. Probable. ai.
                         T                               Wahrscheinlich: it. Probcibile). 1. Evento ou
                                                         proposio com grau comparativo suficiente de
em que cada uma das premissas (frmulas Sc               confirmao ou de credibilidade (v. PROBABILI-
S --> 7)  um axioma (posto diretamente como             DADE, 1).
tal), ou coincide com a frmula final Tde um               2. Classe ou seqncia de eventos dotada
raciocnio anteriormente agregado  P., ou seja,         de certo grau de freqncia relativa (v. PROBA-
consiste na assuno dessa frmula final. Diz-           BILIDADE, 2).
se que uma frmula  suscetvel cie P. se ela              3. Aquilo que  considerado verdadeiro pela
axioma (isto 6, assumida como axioma por                 maioria ou pelos competentes. liste  o concei-
posicionamento) ou  a frmula final de outra            to de endoxou. em que Aristteles baseou a
P. ("Die Logischen Grundlagen der Mathe-                 dialtica (v.h tem pouco, ou nada a ver com as
matik", em Matbematisch Anncilen. 1923, p.               duas noes precedentes.
 152). Em outros termos, uma P. lgica 6 um                 PROVIDNCIA (gr. npvota; lat. Providen-
procedimento que consiste na manipulao de              tia: in. Prorideiice-, fr. Proridence: ai. Vorse-
frmulas: manipulao que. por sua vez.  um             hung; it. Prorrdenza). Governo divino do
conjunto de frmulas. Church diz: "l'ma se-              mundo, geralmente distinguido de destino, pois
qncia finita de uma ou mais frmulas bem                considerado como existente em Deus, ao passo
formadas ser uma P. se cada uma das frmu-              que o destino  esse governo visto atravs das
las bem formadas da seqncia for um axioma              coisas do mundo (v. DESTINO). A noo de pro-
ou for inferida imediatamente das frmulas pre-          vidncia faz parte integrante cio conceito de
cedentes cia seqncia, por meio de uma das              Deus como criador da ordem do mundo ou
regras de inferncia" (Ititr. to Mathematical            como sendo Ele mesmo esta ordem (v. DKES).
Logic. 1956.  07). Wittgenstein j dissera a            Para os problemas conexos ao conceito de P.,
respeito: "A P. em lgica  apenas um expe-              V. MAL; TEODICTA.
diente mecnico para reconhecer mais facil-                  PROVIDENCIALISMO (in. Providentialim.
mente a tautologia quando complicada" ( Trac-            it. Prorvidenzalisino). 1. Confiana na ao da
tatus. 6. 1262).                                         providncia.
    A teoria matemtica da I'. consiste substan-             2. Doutrina que v na histria uma ordem
cialmente em reduzi-la  P. da no-contradio.          ou um plano providencial, (v. HISTORIA).
Ora. um teorema estabelecido por K. Gclel                   PRXIMO (gr.xv nkr\a'\0V\ lat. Proximus:
em 1931 afirma que, com a ajuda de uma parte             in. Neigbbonr, fr. Procbaiit; ai. Ncbste. it. Pros-
da matemtica, s se pode provar a no-contradi-         simo). Xa interpretao do Evangelho de Lucas
o de uma parte mais restrita da prpria mate-          (X. 29-37) da mxima bblica "Ama ao P. como
mtica, mas no se pode provar a no-contradi-           a ti mesmo" (Levtico. XIX, 18). P.  o outro ho-
co do conjunto da matemtica ou de uma                  mem em geral, independentemente de quais-
parte mais extensa dela. Pode-se, p. ex., de-            quer laos de raa. de amizade ou parentesco,
monstrar a no-contradio da teoria dos n-             na medida em que ele  misericordioso para
meros inteiros partindo da teoria dos nmeros            ns ou ns para com ele. Isso significa que a
reais, mas no reciprocamente (cf. CARNAP,               misericrdia eleve ser praticada em relao
PRUDNCIA                                            807                                         PSICANLISE

a qualquer homem que esteja conosco, no se                 infncia, nascem os fenmenos a seguir des-
restringindo a um crculo determinado de pes-              critos: a) Sonhos: expresses deformadas e
soas.                                                      simblicas dos desejos reprimidos (cf. De
    PRUDNCIA (kit. Prudentia-, in. Prudente,               Traumdeutung. 1900). b) Atos falhos, ou lap-
fr. Pnidence: ai. Klughet; it. Prudeuza). V. S.v          sos: distraes falsamente atribudas ao aca-
ISKDORIA.                                                   so, chegando s brincadeiras e ao humorismo
    PSEUDOCONCEITO. R, "fices concei-                     (cf. Zur Psychopathologie des Alltagslebeiis.
tuais" ou "conceitos initos" foram os nomes                1901; Der Witz unel seine Redeutnug '/.um
dados por Croce s noes geralmente deno-                  Unbewussten. 1905). c) Doenas mentais:
minadas conceitos, em contraposio ao "con-               que podem ser tratadas levando o paciente a
ceito puro" ou "conceito autntico" com que                 identificar os conflitos dos quais elas emer-
ele designou a Razo Universal em sua forma                gem, atravs cia conversao. A esse respei-
cognitiva. Os P. serviriam para conservar e clas-          to, o sintoma de uma doena deve ser con-
sificar os conhecimentos adquiridos (Lgica,               siderado como "sinal e substituio de uma
1920, cap. 11).                                            satisfao instintiva que ficou latente, resultado
   PSEUDOPROPOSIES (in.            Pseudostale-          tle um processo de recalque" (Ilemmung,
meiit: ai. Pseudosdtzen; it. Pseudoproposi-                Symplom und Augst, 1926, cap. 2; tratl. it., p.
zioni). Termo empregado por Carnap para                    29). Um dos fenmenos caractersticos do trata-
indicar "expresses erroneamente conside-                  mento psicanaltico  a transferncia tios senti-
radas proposies, mas que no possuem                     mentos do doente (positivos ou negativos, tle
contedo cognitivo, embora possam ter com-                 amor ou de dio) para a pessoa do mdico
ponentes de significado no cognitivo, por                 (Hinfhruug, cit., cap. 2 7 : tratl. Ir., pp. 461 ss.).
exemplo emotivo" (Meaning and Secessiiy.                   d) Siiblimao: transferncia do impulso sexual
 5). Segundo Carnap. muitas proposies cia               para outros objetos, o que ensejaria os fenme-
metafsica clssica so P. nesse sentido (d.               nos chamados espirituais: arte, religio, etc. e)
lirkennlnis, II, 1931).
                                                           Complexos: sistemas ou mecanismos associa-
    PSICANLISE (in. Psycboanalysis; fr. Psy-              tivos, relativamente constantes em todas as
chaualyse: ai. Psychioanalyse: it. Psiccmalisi).           pessoas, aos quais devem ser atribudas as prin-
A designao P. compreende: 1" um mtodo                   cipais perturbaes mentais. A noo de com-
de tratamento de certas doenas mentais; 2"                plexo e o seu termo foram introduzidos por um
uma doutrina psicolgica; 3U uma doutrina meta-            discpulo de Freud, C. G. [L NC". ( Wandlungen
fsica; e, mais freqentemente, certa mescla               und Symbole der Libido, 1912), mas j em In-
desordenada dessas trs coisas. Os fundamen-               terpretao dos sonhos Freud esboara todos
tos da P. foram resumidos por seu fundador,                os fatos fundamentais do chamado "complexo
Sigmund Freud. na introduo de uma de suas
                                                           de Kdipo", em virtude do qual o menino inclui
principais obras, da seguinte maneira: 1" os
processos psquicos so em si mesmos incons-               no amor pela me certo cime ou averso
cientes, e os processos conscientes so apenas             pelo pai.
atos isolados, fraes cia vida psquica total: 2"              Km 1923. na obra ligo e Id( Das Ich und das
os processos psquicos inconscientes so em                Ps). Freud exps Lima teoria psicolgica que foi
boa parte dominados por tendncias que po-                 amplamente aceita pela psicologia de sua po-
dem ser qualificadas tle "sexuais" no sentido              ca. Dividia o esprito em trs partes: ligo, que 
restrito ou lato do termo. Kste ltimo pressu-             organizao e conscincia, e por isso est em
posto na realidade 6 a caracterstica funda-               contato com a realidade e procura submet-la a
mental da P.. que consiste essencialmente na               seus fins; Superego, aquilo a que geralmente se
tentativa de explicar a vida do homem (no s              d o nome de conscincia moral e que  o con-
a pessoal ou individual, mas tambm a pblica              junto das proibies instiladas ao homem em
ou social) recorrendo a uma nica fora, que              seus primeiros anos de vicia, acompanhando-o
o instinto sexual ou libido (v.) no sentido tc-           depois, mesmo que de forma inconsciente; e
nico deste termo (Piufhriing in de Psycbo-               Id, que  constitudo pelos impulsos mltiplos
analyse, 1917. intr.). Do conflito entre os im-            da libido, sempre voltada para o prazer. lista
pulsos sexuais tio inconsciente e as superestru-           doutrina, que foi revisada pelo prprio Freud
turas morais e sociais constitudas por proibies         mais tarde (cf. Hemmung, Symptom uudAugst,
e censuras acumuladas e consolidadas pela                  1926). revelou-se bastante til tanto para a des-
PSICANLISE                                          SOS                                            PSICIDE


crio e a interpretao das doenas mentais               inconsciente coletivo, que  a base comum da
quanto para a teoria da personalidade.                     natureza humana (Psicologia do incosciente,
    Freud e seus seguidores no apresentaram               1942"1). Adler, ao contrrio, identificou o instin-
nem apresentam seus conceitos como hipte-                 to fundamental do homem com a vontade de
ses ou instrumentos de explicao, mas como                po/nciadc que falava Nietzsche, ou seja, como
realidades absolutas, de natureza metafsica.              um esprito de agresso e de luta em conflito
Pode-se chamar de prpria metafsica -- e at              com outro instinto, o sentimento de comunida-
de mitologia -- a teoria formulada por Freud               de humana, que liga o indivduo a todos os
numa de suas ltimas obras. Das L')ibehagen                outros. A interao dessas duas foras deter-
in der Kulluri 1930, trad. in., com o ttulo de            minaria o carter de cada homem e suas mani-
Civilisation and its Discontents, 1943). em que            festaes patolgicas (Conhecimento do ho-
considera a histria da humanidade como a                  mem, 1927).
luta entre dois instintos, o da vida (Eras) e o da            PSICANLISE EXISTENCIAL (fr. Psycha-
morte (Tanatos): " nessa luta que consiste                nalyse exstencielle). Sartre deu este nome 
essencialmente a vida, e por isso o desenvolvi-            anlise filosfico-exstencial, porquanto ela pro-
mento da civilizao pode ser descrito como a              cura determinar a "escolha originria" que est
luta da espcie humana pela existncia. Trata-             na base de todo "projeto humano de vida". 0
se de uma batalha de tits, que nossas babs
                                                           princpio dessa psicanlise  que "o homem 
tentam compor com suas ladainhas sobre cu"
(Civilisation and ils Discontents, 1943, p. 102).          uma totalidade, e no uma coleo", e o seu
Essa doutrina outra coisa no  seno a expres-            objetivo  "decifrar os comportamentos empri-
so -- no muito atualizada -- do dualismo                 cos do homem". Alm disso, seu ponto de par-
maniquesta.                                               tida  a experincia e seu mtodo  o compa-
                                                           rativo (L'tre et le nant, 1943, p. 656). A P.
    A importncia da P. consiste, em primeiro              existencial distingue-se da de Freud, que Sartre
lugar, em dar destaque  funo do fator sexual            chama de "emprica", porque procura determi-
em todas as manifestaes da vida humana.                  nar a escolha originria', no os "complexos"
Pela primeira vez. esse fator deixou de ser uma            (Ibid., p. 657).
zona de ignorncia obrigatria para a cincia e
para a filosofia e pde ser estudado em seus                   PSICODLICO (in. Psychedelic). Adjetivo
reais modos de ao. Em segundo lugar, a P.                que deveria significar "o que manifesta a
forneceu um conjunto de conceitos que, con-                psique", cunhado para qualificar as expe-
quanto no muito compatveis entre si. pres-               rincias produzidas pelo uso do cido lisr-
tam-se a ser utilizados por vrios ramos da psi-           gico (LSD) ou de outras drogas, consideradas
cologia contempornea, principalmente se isen-             revelaes cie uma realidade mais profunda
tos do dogmatismo com que alguns .seguidores               que a manifestada na experincia comum e
de Freud os trataram. F.ste segundo aspecto                que seria de natureza divina ou representa-
positivo tem, porm, uma contrapartida nega-               ria a prpria divindade imanente no mundo
tiva: a P. d a muitos diletantes a oportunidade           (cf. W. BRADF.N, The Private Sea, Londres,
de apresentar explicaes aparentemente plau-              1967).
sveis e fceis dos fenmenos humanos mais                    PSICOFSICA. V. PSICOLOGIA, h).
dspares, confundindo tambm, s vezes, essa                  PSICOGNESE (in. Psychogenesis; fr. Psy-
explicao com uma justificao moral ou me-               chognse, ai. Psychogenese, it. Psicogenesi).
tafsica. Em terceiro lugar, a P. teve o mrito de         Desenvolvimento dos processos mentais, ou o
propiciar um instrumento de tratamento que con-            estudo desse desenvolvimento.
tinua .sendo eficaz, apesar de perdidas muitas                 PSICOGNOSE (in. Psychognosy). Termo
das iluses otimistas inicialmente suscitadas.             empregado por Peirce para indicar o conjunto
    Entre as muitas tendncias interpretativas             cias cincias psquicas (Coll. Pap., 1.242).
que modificaram em maior ou menor grau as                     PSICOGRAPIA (in. Psychograph; fr. Psy-
doutrinas fundamentais da P.,  possvel lem-              chographie, ai. Psychographie, it. Pscografia).
brar duas, a de Jung e a de Adler. Jung conce-             Descrio dos processos ou das caractersticas
beu o instinto fundamental do homem no                    psquicas de um indivduo.
como de natureza sexual, mas como uma ener-                   PSICIDE (in. Phychoid, fr. Psychoid; ai.
gia originria e criativa que se identifica com o          Psychide, it. Psicoide). Nome dado pelo bilo-
conceito genrico de divindade e constitui o               go vitalista H. Driesch  fora psquica que
PSICOLOGIA                                             809                                      PSICOLOGIA

 preside  formao e ao desenvolvimento dos                 se inspiram na metafsica tradicional, mas dei-
 organismos (v. VITALISMO).                                  xou de ter eficcia sobre o desenvolvimento
    PSICOLOGIA (in. Psychulogy, ir. Psycho-                  cientfico da psicologia.
 logie; ai. Psychologie; it. Psicologia). Disciplina             b) AP. psicofsica ou, mais simplesmente, a
que tem por objeto a alma, a conscincia ou os               psicofsica constituiu a primeira corrente emp-
eventos caractersticos da vida animal e huma-               rica, experimental ou cientfica da psicologia.
na, nas vrias formas de caracterizao de tais              Wolff j lhe prescrevera um mtodo indutivo
eventos com o fim de determinar sua natureza                 ou experimental, caracterstico de todas as
especfica. s vezes, tais eventos so consi-                cincias empricas; no incio do sc. XIX, Maine
derados como puramente "mentais", ou seja,                   de Biran prescrevia seu campo de ao: a cons-
como "fatos de conscincia"; outras vezes, como              cincia (lissai sur les fondements de Ia psy-
eventos objetivos ou objetivamente observ-                   cbologie, 1812). No entanto, ainda no existiam
veis, ou seja, como movimentos, comporta-                    todas as condies para a fase cientfica da psi-
mentos, etc, mas cm todo caso a exigncia a                  cologia. Faltavam duas, estreitamente inter-
que essas definies correspondem 6 a de deli-               relacionadas: em primeiro lugar, o reconheci-
mitar o domnio da indagao psicolgica ao                  mento da estreita relao entre os eventos
campo restrito os fenmenos caractersticos                 psquicos e os fsicos, atravs da ao do siste-
dos organismos animais, em especial do ho-                   ma nervoso; em segundo lugar, a introduo
mem. Do ponto de vista da formulao con-                    de alguma tcnica de medio. A concre-
ceituai (que interessa  filosofia) podemos                  tizao dessas duas condies levou a P. a
distinguir as seis correntes fundamentais se-                constituir-se como psicofsica. Isto aconteceu
guintes: a) P. racional; b) P. psicofsica; c) beha-         graas a Helmholtz, Weber, e Fechner: o pri-
viorismo; d) gestaltismo; e) P. do profundo; /') P.          meiro conseguiu medir, em 1850, a velocidade
funcional.                                                   do impulso nervoso, enquanto o segundo
   a) A P. racional ou filosfica foi fundada                enunciava a denominada "lei" da relao entre
por Aristteles, o primeiro a coligir em seu li-             o estmulo e a sensao (segundo a qual o
vro De Anima as opinies que seus predeces-                  aumento do estmulo necessrio para ser per-
sores haviam expresso a respeito desse assun-                cebido como tal  proporcional  intensidade
to. Essa P. tem por objeto "a natureza, a                    do estmulo originrio), e o ltimo estabelecia a
substncia, e as determinaes acidentais de                 'lei psicofsica fundamental", representada pela
alma", entendendo-se por alma "o princpio                   frmula matemtica que expressa a lei de
dos seres vivos" {De an., I, 1, 402 a 6). O                  Weber. Em 1860 Fechner publicava os Elemen-
pressuposto fundamental dessa P. est explcito              tos de psicofsica, que a definiam como "a
nas seguintes notas: nos eventos estudados,                  cincia exata das relaes funcionais ou rela-
pressupe um princpio nico e simples, uma                  es de dependncia entre o esprito e o cor-
substncia necessria, da qual seja possvel de-             po". Esse foi o programa da P. cientfica nessa
duzir's determinaes que esses eventos pos-                primeira fase de sua organizao: programa no
suem constantemente ou na maioria das ve-                    qual logo encontraram lugar os resultados das
zes. Neste sentido, a P.  uma cincia dedutiva              anlises do empirismo ingls, desde Locke at
da alma, cujos fenmenos particulares s so                 Spencer. Este ltimo, em Princpios de P.
considerados como confirmaes ocasionais                    (18'TS). tambm definira como psicofsica a ta-
dos teoremas que a constituem. Com muita ra-                 refa da P., afirmando que "a P. distingue-se das
zo, no sc. XVIII, Wolff dava a essa P. o ttulo            cincias em que se apoia [anatomia e fisiolo-
de "racional", porquanto ela trata de "derivar a             gia] porque cada uma de suas proposies
priori, do nico conceito de alma humana, to-                leva. em conta tanto o fenmeno interno co-
das as coisas observadas a posteriori como de                nexo quanto o fenmeno externo conexo,
sua competncia" (log., Disc, prel.,  112). Mas             ao qual se refere." (Principies of Psychology,
foi mrito de Wolff acrescentar a tal P. uma                 3a ed., 1881, p. 132). Do empirismo ingls, a
outra, "emprica", definida como "a cincia                  P. extraiu duas caractersticas fundamentais,
que, atravs da experincia, estabelece os prin-             que a acompanharam nessa primeira fase,
cpios capazes de esclarecer o que acontece na               de constituio: o atomismoiy.) e o associacio-
alma humana" (Ibid.,  111; Psycbologia em-                  nismo (\O. Desse modo, suas estruturas te-
prica, 1732,  1). Neste sentido, a P. racional             ricas fundamentais podem ser resumidas da
continua sendo uma corrente das filosofias que               seguinte maneira:
PSICOLOGIA                                         810                                     PSICOLOGIA

     Ia A P. tem por objeto os "fenmenos inter-         es dos organismos aos estmulos, entenden-
nos" ou "fatos da conscincia", e seu principal          do-se por reaes movimentos ou fenmenos
instrumento de indagao  a introspeco ou             objetivamente observveis, relacionados com
reflexo. Graas a esse aspecto, a corrente              os eventos do ambiente, que funcionam como
em exame foi muitas vezes chamada de P. sub-             estmulos. Em 1907, o fisiologista russo Bech-
jetiva ou reflexiva, ou -- mais raramente --             terev publicava uma P. objetiva (depois tra-
 "crtica".                                              duzida para ingls e francs), que defendia
    2a Os fatos de conscincia ou fenmenos              justamente essa tese, mais tarde difundida e
 internos so estudados pela P. em sua conexo           defendida pelos estudos de Pavlov sobre os
 funcional com os fenmenos externos (fisiol-           reflexos condicionados (v. Ao REFLEXA). Por-
gicos ou fsicos). Graas a esse aspecto, que           tanto, pode-se dizer que a tem incio o beha-
 o mais caracterstico da fase em questo, tal           viorismo. Esse nome, porm, s lhe foi atribu-
 P. foi chamada de psicofsica ou tambm/ziiof-         do alguns anos mais tarde, pelo americano J.
gica (por Wundt). Com este aspecto tem re-               B. Watson, em um artigo de 1913 e depois
 lao a hiptese que sustentou nesta fase o             num livro intitulado Comportamento, intro-
 trabalho experimental da P.: o paralelismopsi-          duo  P. comparativa {Behavior, An In-
 cqfisico (v.).                                          troduction to Comparative Psychology, 1914).
     3a Tendncia a resolver o fato de conscin-         Nessa primeira fase, o behaviorismo assumia
 cia por elementos ltimos (sensaes, emoes           carter de necessitarismo rigoroso; a reao do
 elementares, reflexos ou instintos elementares)         animal era considerada efeito causai necessrio
 e explicar os fenmenos mais complexos com              do estmulo, por isso infalivelmente previsvel
 a combinao de tais elementos (atomismo,               a partir dele. O abandono desse necessitarismo
 associacionismo).                                       e o reconhecimento do carter simplesmente
     4S O carter cientfico da P.  constitudo         estatstico ou probabilstico das constantes ve-
 pelo recurso aos procedimentos de induo,              rificveis nas reaes de resposta dos organis-
 de experimentao e de clculo matemtico,              mos aos estmulos constitui a fase mais moder-
 que estabelece o carter descritivo reivindica-         na do behaviorismo (v. BEHAVIORISMO).
 do pela P., analogamente ao que fazem as outras             ) As denominadas P. abissaisou P. do pro-
 disciplinas empricas.                                  fundo concentram seus ataques no 4a princpio
     c) A P. da forma ou gestaltismo concentra           fundamental da P. cientfica clssica, conside-
 seus ataques no 3B princpio fundamental da P.          rando a P. como cincia de interpretao, e
 psicofsica, o atomismo e o associacionismo.            no de descrio. Com efeito, para a psicanli-
 Consiste em assumir como ponto de partida o             se, que  a maior e a mais coerente expresso
 princpio simetricamente oposto ao da P. asso-          das P. abissais, o ponto de partida da interpre-
 ciativa: o fato fundamental da conscincia no          tao no est nos fatos, como faz a descrio,
  o elemento, mas a forma total, visto que esta         mas nos sintomas, e a noo de sintoma  fun-
 nunca  redutvel  soma ou  combinao de             damental em psicanlise (v. INCONSCIENTE). Na
 elementos. Seus fundadores foram Weltheimer,            interpretao dos sintomas a psicanlise segue
 Khler e Koffka; mesmo mantendo inalterado              uma nica regra bsica: reduzir o sintoma a
 o 2a princpio fundamental da psicofsica, dei-         smbolo ou expresso deformada de uma
 xou de falar em fatos e fenmenos de cons-              necessidade ou de um conflito de natureza
 cincia para considerar formas, configura-              vagamente sexual, atinente  libido (v. LIBI-
 es ou campos, em sua estrutura total. O               DO; PSICANLISE; SEXUALIDADE). So variantes
 gestaltismo tratou principalmente da percep-            da psicanlise a denominada P. individual de
 o, a respeito da qual acumulou um nmero              Alfred Adler, que insiste particularmente no ca-
 enorme de traballlos experimentais (v. PER-             rter finalista dos problemas psquicos (Pmxis
CEPO, 3, a).                                           und Theorie der Indvdualpsychologe, 1924),
   d) AV. objetiva ou behaviorismo concentra             e a P. analtica de C. G. Jung, que na realidade
seus ataques no 1Q princpio fundamental da P.            muito pouco analtica (no sentido prprio do
psicofsica, negando que o instrumento funda-            termo), pois no faz seno atribuir carter
mental da P. seja a introspeco ou a reflexo           simblico a muitos sintomas que para Freud
e que os fatos de conscincia ou fenmenos               tinham significado direto (Coll. Pap. onAnaly-
internos sejam objeto dessa cincia; afirma              ticalPsychology, 1916). (V. INCONSCIENTE; PRO-
que, ao contrrio, os objetos da P. so as rea-          FUNDO.)
PSICOLGICO                                             811                                  PSICOLOGISMO


   f) Para a P. funcional ou funcionalismo, o                     2. O que se refere  conscincia do indiv-
objeto da P.  constitudo pelas funes ou                   duo, ou seja, s atitudes ou s valoraes indi-
operaes do organismo vivo, consideradas                     viduais. Nesse sentido, dizemos, p. ex., que se
como unidades mnimas indivisveis. O funcio-                 trata de uma "questo puramente P." quando
nalismo inicia-se com uma obra de Dewey.                      diante de uma questo cuja base no pode ser
()uceito do circo reflexo em P. (1896), na qual              encontrada nos fatos ou no mbito de determi-
se afirmava categoricamente que o arco reflexo                nado universo de discurso (p. ex., cientfico,
no pode ser dividido em estmulo e resposta,                 lgico, etc).
mas deve ser considerado como uma unidade                         PSICOLOGISMO (in. Psychologism; fr.
da qual apenas o estmulo e a resposta auferem                Psycbologisme-, ai. Psychologsmus; it. Psicolo-
significado. Para indicara unidade da funo, o               gismo). 1. Kste termo tem origem no sc. XIX;
prprio Dewey empregou depois a palavra                       designa em primeiro lugar qualquer filosofia
transao (\.), que servia para ressaltar a im-               ([ue assuma como fundamento os dados da
possibilidade de considerar os elementos de                   conscincia, como reflexo do homem sobre si
uma funo qualquer como entidades autno-                    mesmo. Foi assim que G. F. Fries (1773-1844)
mas e independentes da relao de que partici-                e F. E. Beneke (1798-1854) entenderam O P.,
pam (cf. Kiowing and lhe Knoivn, 1949, em                    em oposio ao idealismo hegeliano. Ambos
colaborao com A. F. Bentley). A corrente fun-               assumiram explicitamente como mtodo e ta-
cionalista abandona os pressupostos l. 2" e 3"               refa cia tilosolia a auto-observao ou cons-
da P. tradicional. Abandona o 1" porque o objeto              cincia. Desse ponto de vista, a psicologia,
que se prope estudar no  um fato de cons-                  como descrio da experincia interna, torna-
cincia, e sim uma funo, ou seja, uma opera-                se a nica filosofia possvel (cf. FRIES, Neue
o em virtude da qual o organismo entra em                   oder anthropologische Krtik der Yernunft,
relao com o ambiente. Abandona o 2-' prin-                   1828; Beneke, Die Philosophie in ihrem Ver-
cpio fundamental porque o mtodo de                          haltnis zur l-jfabntng, zur Specitlation mui
                                                              Zum l.eben. 1833). Mais. genrica e polemi-
que este se vale no  introspectivo, mas
                                                              camente, V. Gioberti entendia por P. o procedi-
objetivo ou comportamentista: as funes de-                  mento filosfico que vai do homem a Deus,
vem ser estudadas mediante procedimentos de                   contraposto quele que vai de Deus ao ho-
observao objetiva. Finalmente, o funciona-                  mem. Este ltimo  o ontologismo (v). O P. 
lismo tem em comum com o gestaltismo o                        considerado por Gioberti como a caracters-
abandono do 3" princpio fundamental. Mas a                   tica da filosofia moderna, de Descartes em
principal novidade do funcionalismo  o pro-                  diante (lutr. alio studio delia filosofia, 1840,
bablismo, que consiste em negar no s aos                   II, p. 175).
procedimentos da cincia, mas tambm a todas
as funes cognitivas humanas (inclusive a per-                   2. No seu uso polmico, o termo  constan-
cepo imediata), o carter de certeza infalvel,             temente empregado para designar a confuso
e em atribuir a todas essas funes a possibili-              entre a gnese psicolgica do conhecimento e
dade de atingirem uma validade apenas prov-                  sua validade; ou a tendncia a julgar justilicada
vel. Por este probalilismo, o funcionalismo                   a validade de um conhecimento, quando na
constitui a insero da P. no campo das idias                verdade s se explicou seu acontecimento na
fundamentais da cincia contempornea (et.                    conscincia. Neste sentido, foi Kant o primeiro
                                                              a esclarecer o conceito de P. (apesar de no ter
BRI;\SWIK, Psychology in Terms of Objects,
                                                              usado esse nome); foi quem iniciou a polmica
1936, CANTRIL. AMKS. FIASTORF, IITHLSON, "Psy-
                                                              contra ele. fazendo a distino a propsito dos
cholofiy and Scientitic Research, em Science,
                                                              conceitos apriori, entre a quaestiofact de sua
vol.   110,   1949; CANTRIL.    The "Why" of Maus
                                                              "derivao fisiolgica", isto , do seu aconteci-
Hxpehence. 1950; trad. it., As motivaes da ex-              mento na mente ou na conscincia do homem,
perincia, 1958; v. tambm as obras citadas na                e a quaestio juris, que consiste em perguntar o
bibliografia deste ltimo livro).                             fundamento de sua validade, exigindo como
  PSICOLGICO (in. Psychological; fr. Psy-                    resposta a deduo (v. DKDI.AO TRA\SCI;N-
chologic]ite:'d\. Psychologisch; it. Psicolgico). 1.         DI-:NTAL) (Crt. R. Pura,  12). Fssa distino,
O que concerne  psicologia; nesta acepo,                   sempre presente na obra de Kant, significa a
esse termo tem tantos significados quantas                    descoberta da dimenso lgico-objetiva cio co-
so as correntes conceituais da psicologia.                   nhecimento: irredutibilidade dessa dimenso 
PSICOLOGISMO                                          812                                    PSICOTERAPIA

conscincia ou s condies subjetivas do co-               no empirismo lgico (cf. p. ex.. A. Pap, Ele-
nhecer foi defendida por muitas escolas kan-                ments of Analytic Philosophy, 1949. p. 406).
tianas: pela escola de Baden (Windelband,                       PSICOMETRIA (in. Psycbometry, fr. Psy-
Rickert), pela de Marburgo (Cohcn, Natorp) e                chomtrie, ai. Psychometrie, it. Psicometria).
pela fenomenologia (Husserl), que, na filosofia             Medida da freqncia, da intensidade ou da
dos ltimos decnios do sc. XIX e nos primei-              durao dos eventos psquicos. Esse termo
ros do sc. XX, combateram constantemente o                 (psycheometria). bem como a exigncia de se
psicologismo. Herman Lot/e, em Lgicai 1874),               aplicarem medidas a fatos psquicos, foram
insistiu sistematicamente no ponto de vista                 propostas de Wolff (Psychol. emprica,  522,
antipsicolgico, fazendo a distino entre ato              616). O termo foi muito empregado pela psicof-
psquico de pensar, que existe s como deter-               sicu, que s vezes se identificou com a psico-
minado evento temporal, e o contedo do pen-                metria. Atualmente est em desuso.
samento, que tem outro modo de ser, o da vali-                  PSICOPATIA (in. Psychopaty; fr. Psycho-
dade. Na lgica matemtica, Frege impusera o                pathie, ai. Psychopathie, it. Pscopalia). Distr-
mesmo ponto de vista: ''Que no se tome como                bio ou doena mental, ou as formas menos gra-
definio matemtica a simples descrio do                 ves clessas doenas. Neste ltimo sentido, a P.
modo como se forma em ns certa imagem,                     seria diferente cia psicose (vj.
nem como demonstrao de um teorema o rol                      PSICOSE (in. Psycbosis; fr. Psychose; ai.
de condies fsicas ou psquicas que em ns                Psychosc, it. Psicosi).Ko significado atualmente
devem ser satisfeitas para que possamos com-                um uso, doena mental grave que implica per-
preender seu enunciado. Que no se coniunda                 da ou distrbio dos processos mentais. Psico-
a verdade de uma proposio com o fato de ela               >ii'iirose ou simplesmente neurose, doena ou
ser pensada!  preciso lembrar bem: que uma                 distrbio mental menos grave. Em geral, enten-
proposio no deixa de ser verdadeira quan-                de-se por P. o enfraquecimento ou o desapare-
do no a penso, assim como o sol no deixa de               ciniento da relao verificvel com as coisas ou
existir quando fecho os olhos" (Die Grundla-                com os outros; essa relao  constituda pela
gen derArithmetik, 1884, Intr.; trad. it., em Arit-         personalidade (v.), e sua alterao, portanto,
mtica e lgica, p. 23). Essas consideraes                comporta o desequilbrio da personalidade.
eram repetidas quase literalmente por Husserl               Por relao verificvel pode-se entender a rela-
(Logische 1'ntersuchimgen, 1900, I,  17 ss.),             o passvel de confirmao, ou a que no seja
que mais tarde reforava: 'se dissermos que                 desmentida por critrios comumente conside-
um nmero  uma formao psquica, incidi-                  rados vlidos, ou a que, de qualquer modo,
remos num absurdo, chocar-nos-emos contra                   no equivalha  negao de qualquer relao
o sentido intrnseco do discurso aritmtico, que            possvel.
est acima de todas as teorias e em todos os                    PSICOSSOMTTCO (in. Psychosomatic, fr.
momentos e claramente contemplvel em sua                   Psychosomatijiie. ai. Psychosomatik, it. Psico-
plena validade" (Ideen, I, 1913,  22), prevenin-           somatco). Que concerne  influncia das atitu-
do contra a tendncia a "psicologizar o eid-               des: mentais (modo de pensar e de sentir de
tico", a identificar as essncias com a conscin-           uma pessoa) sobre os processos orgnicos.
cia que se tem delas em cada caso (Ibid.,  61).            Chama-se psicossomtico o ramo da medicina
A corrente antipsicolgica, nesse sentido, hoje             que; estuda tais influncias (compare F. Ale-
 a base de filosofias aparentemente dspares,              xander, Psvchosomatic Medicine, 1949).
como p. ex. do existencialismo, na forma                       PSICOTCNICA (in. Psychotechnic; fr.
observada na obra de Heidegger, que  a anli-              Psycbotechnique; ai. Psychotechnik; it. Psi-
se das situaes humanas em sua essncia, e                 cotcnica). Aplicao da psicologia aos pro-
no em sua ocorrncia psquica (cf. Sein und                blemas do trabalho e da produo: engenha-
Zeit,  7); o mesmo se pode dizer do empirismo              ria psicolgica.
lgico, cujo principal representante, R. Carnap,               PSICOTERAPIA (in. Psychotberapy, fr. Psy-
travou polmicas constantes contra o P. (cf.                chcithrapie, ai. Psychotberape, it. Psicotera-
Der Logiscbe Aufbau    der   Weil   1928,   151           pia). Soluo dos conflitos individuais ou de
ss.; "Empiricism, Semantics, and Ontology",                 grupo, ou o tratamento de estados mentais pa-
1950, em Keadings in Phil. of Science, 1953, p.             tolgicos por meio de aconselhamento, es-
514). A polmica contra o P. , alis, freqente            clarecimentos ou sugestes verbais, sem re-
                                                            correr a meios materiais. A psicanlise  a
PSIQUE                                                813                                                PURO

forma mais conhecida e difundida de psicote-                (KANT, Met. der Sitten, Doutrina da virtude,
rapia. Uma forma mais recente  a denominada                I. 7).
"P. no diretiva", segundo a qual o mtodo de                   2. Em sentido lingstico: espcie de pedan-
tratamento consiste em procurar encontrar,                  tismo relativo  pretenso de conservar a for-
atravs uma conversao amigvel com o pa-                  ma clssica e original de uma lngua.
ciente, a imagem que ele faz de si mesmo e de                   3. Em sentido metafsico: espcie de pedan-
seus objetivos na vida, ajudando-o a livrar-se              tismo relativo  separao excessivamente ri-
dos conflitos (cf. C. R. ROC.FRS. Counselingand             gorosa de uma faculdade humana da outra.
Psychotberapy. 1937) (v. PSICANLISE).                      A palavra foi usada nesse sentido por G. C. Ha-
   PSIQUE (in. Psyche. fr. Psych. ai. Psyche. it.          mann. como ttulo de uma obra (Metacrtica
Psiche). Alma ou Conscincia. Ver esses dois                do P. da razo, 1788, pstumo), na qual repre-
termos.                                                     endia Kant por essa espcie de pedantismo
    PSITACISMOGn. Psittacism-, fr. Psittacisme.             com respeito  razo.
ai. Psittazismus; it. Psittcicismo). Uso das pala-             PURO (in. Pur. fr. Pi ir, ai. Re in-, it. Puro).
vras sem referncia aos objetos, como fazem                 O que no est misturado com coisas de outra
os papagaios. I.eibniz dizia: "Raciocina-se mui-            natureza, ou, com mais exatido, o que  cons-
tas vezes com as palavras, quase sem ter o ob-              titudo de modo rigorosamente conforme 
jeto no esprito" (...); neste caso, "nossos pensa-         prpria definio. Esta segunda definio expli-
mentos e nossos raciocnios, contrrios ao sen-             ca o enorme uso que os filsofos fazem desse
timento, so uma espcie de P." (Ao/1, ess., II,           adjetivo, porquanto, depois de definirem um
                                                            objeto, muitas vezes se acham na obrigao
21. 35). Sobre a linguagem oratria considerada
                                                            de distinguir as condies em que o objeto se
como uma espcie de P., cf. C. K. Ogden-I. A.               apresenta rigorosamente em conformidade
Richards, Tbe Meaning of Meaning, 10a ed.,                  com sua definio, das condies em que dela
 1952, p. 218.                                              se afasta em alguma medida: nas primeiras
   PUBLICIDADE (in. Publicity fr. Publicit.                condies, o objeto  chamado de P. Anaxgoras
ai. ffentlichkeit; it. Puhblicit). Segundo Kant.          dizia que o intelecto  P. porque s ele, 'entre
 o critrio para reconhecer imediatamente a                todos os entes,  simples e sem mistura"
legitimidade de uma pretenso jurdica. Kant                (AKISTOTF.LKS. De (in., 405 a 16). Plato falava
chama cie frmula transcendental do direito                 eni prazer "P.", sem mistura de dor (Fil. 51 a,
pblico o seguinte princpio: "So injustas todas           52 c). I )escartes falava da matemtica "P." (Md.,
as aes relativas ao direito de outros homens              VI); Leibniz, da "P." razo (Op., ed. Erdmann,
cuja mxima no seja suscetvel de P." (Zitm                pp. 229-2.30. etc), assim como Wolf (Psycbol.
ewigeu Freiden, apndice II).                               emprica,  495). O primeiro motor de Aristteles
  PBLICO (in. Public, fr. Publique, ai. Of-                foi chamado cie "Ato P." por ser atividade per-
fentlich; it. Pubblco). Esse adjetivo foi usa-             feita, desprovida de potncia, mas essa expres-
 do em sentido filosfico (especialmente por                so no  aristotlica (cir. Mel., Xll, 6, 1071 li
 escritores anglo-saxes) para designar os co-              12; 8, 1074 a 36).
 nhecimentos ou os dados ou elementos de                        2. Kant chamou de P., ou "absolutamente
 conhecimento disponveis a qualquer pessoa                 P.", o conhecimento "no qual, em geral, no
 em condies apropriadas e no pertencentes                se misture nenhuma experincia ou sensa-
  esfera pessoal e no verificvel da conscin-            o, sendo por isso possvel completamente a
 cia. Neste sentido,  P. o que Kant denominava             prion" (Cr/7. R. Pura, Intr.,  VII). Neste sentido,
 objetivo (v.): aquilo de que todos podem par-              razo P. " a que contm os princpios para co-
 ticipar igualmente, podendo portanto tam-                  nhecer algo absolutamente Apriori". Cincia da
 bm ser expresso ou comunicado pela lingua-                ra/.o P.  uma crtica, e no uma doutrina, por-
 gem (cf. B. RKSSF.LL, Ilumati Knowledge, II, 1;            quanto no pode proporcionar um sistema aca-
 trad. it., p. 8f).                                         bado cia razo P., mas pode apenas ter funo
   PUNIO. V. PENA.                                        negativa, "servindo para purificar, e no para
   PURIFICAO. V. GVIARSF.                                 anipliar, a nossa razo, libertando-a dos er-
   PURISMO (in. Purism; fr. Purismo-, ai. Pu-               ros" (Ibid). Neste sentido, o oposto de P. 
rismus; it. Purismo). 1. F.m sentido moral: "es-            emprico. Esse adjetivo foi usado no mesmo
pcie de pedantismo relativo  observao                   sentido por Fichte, que disse ser P. o Eu absolu-
do dever considerado no sentido mais lato"                  to (ou a sua atividade), por ser diferente do eu
PURPUREA, ILIACE, AMABIMUS                         814                 PURPUREA, ILIACE, AMABIMUS

empiricamente condicionado e porque sua ati-             que- se acha em cada uma das slabas (A ou E
vidade prescinde completamente da expe-                  ou /ou O indica se o modo deve ser afirmado
rincia (Wissemchaftslehre. 1794. III,  5. II).         ou negado e se a proposio deve ser afirma-
Este uso foi constante no idealismo de inspira-          da ou negada. A significa a afirmao do modoe
o romntica. Gentile chamou o pensamento               a afirmao da proposio; /:'. a afirmao do
pensante de ato P. por ser independente de               modo e a negao da proposio; /, a negao
condies ou de contedo emprico (Teoria                cio modo e a afirmao da proposio; l', a ne-
gcuerale clello spirilo come alio puro, 1920).           gao do modo e a negao cia proposio. Des-
   3. Na linguagem comum, chama-se P. uma                ta ilianeira. todas as quatro proposies indica-
cincia ou uma disciplina tratada teoricamente,          das pela mesma palavra so eqipolentes, de
sem considerao de suas possveis aplicaes;           tal forma que. se uma 6 verdadeira, as outras
neste caso. F. 6 o contrrio de aplicado. Hamil-         tanibm so verdadeiras (AKNAfi.n, Log., II. 8).
ton j anotava a impropriedade desse uso                 V ex.. se p for uma proposio qualquer, para
(Leclures ou Logic, 1, 1866. p. 62).                     a palavra Pinprea temos:
   PURPUREA, ILIACE, AMABIMUS, DEN                          Possvel = U = No  possvel que no p
TULJ. Termos mnemnicos da lgica tradicio-                  Contingente = L' = No 6 contingente que
nal para exprimir a equivalncia das quatro              nc) p
proposies modais, cada uma representada                    Impossvel = E = K impossvel que no/?
por uma slaba na seguinte ordem: possvel,                  Necessrio = A =  necessrio que p.
contingente, impossvel, necessrio. A vogai                Analogamente para as outras palavras.
                                               Q

  QUACRISMO (in. Quakerism; ir. Quake-
risme, it. Quaccherismo). A mais radical e li-
beral das correntes religiosas da Reforma. O
movimento foi iniciado em 1649 na Inglater-
ra por George Fox, e o verdadeiro nome dos
quacres foi "Sociedade dos Amigos" (Friends
Sociely). O nome quacre toi cunhado pelo
juiz Bennet porque durante um longo inter-
rogatrio de George Fox este lhe disse que
"tremia ante as palavras do Senhor". Entre as
maiores personalidades religiosas que aderi-
ram a esse movimento estava W. Penn, que, no
perodo das perseguies, emigrou para a                              subcontrrias             O
Amrica e fundou a colnia de Pennsyl-
vania, e Robert Barkley, terico do movi-           lgicas fundamentais. A e K so contrrias:
mento. O Q. caracteriza-se: 1Q pela resoluta        ambas podem ser falsas, mas no podem ser
averso a qualquer forma de culto externo,          ambas verdadeiras: A e O, F. e I so contradit-
de rito, de pregao, etc; 2" pelo reconheci-        rias: no podem ser ambas verdadeiras nem
mento de que o nico guia do homem  a luz          ambas falsas; I e O so subcontrrias: podem
interior, proveniente de Deus; 3" pelo carter      ser ambas verdadeiras, mas no ambas falsas; A
ativo e otimista que semelhante f interior ad-     e 1, E e O so subalternas, no sentido de que A
quire nos quacres, que consideram o prprio         se subalterna (implica) a I, E se subalterna (im-
pecado original como uma corrupo natural          plica) a O (mas no vice-versa). A origem deste
supervel; 4Q pela condenao da violncia,         clebre artifcio didtico, certamente medieval,
portanto pela averso  guerra. Em Cartas            obscura. Foi atribuda erroneamente por
sobre os ingleses (1734), Voltaire exaltava a       Prantl ao platnico bizantino M. Pselo, e por
justeza e a validade da religiosidade dos           isso o Q.  tambm chamado de "Q. de Pselo";
quacres (Cartas, IV) (cf. ELFRIDA VIPONT. The       no entanto, est presente em documentao
Story (if Quakerism, 1652-1952, Londres,            mais antiga, Introdnctiones in lgicam, cie Gui-
1954).                                              lherme de Thyreswood (segunda metade do
   QUADRADO DOS OPOSTOS. Indicado,                  sc. XII), embora no faltem exemplos de
segundo o uso escolstico, por A, E, I, e O, res-   paradigmas e esquemas deste gnero em tex-
pectivamente, a proposio universal afirmati-      tos anteriores.
va ("todo homem corre"), a universal negativa           QUADRVIO. V. Ci:i.Tl'KA. AlTH.
("nenhum homem corre"), a particular afirmativa         QUAESTIO. Mtodo escolstico de tratar
("algum homem corre") e a particular negati-        um argumento a partir cio sc. XII. O primeiro
va ("algum homem no corre") e dispondo-as          exemplo desse mtodo est em Sic et Non de
em Q. deste modo: obtemos suas relaes             Abelardo, que  uma coletnea cie opinies
QUALIDADE                                             816                                         QUALIDADE


(sentenliae) de Padres da Igreja, dispostas por             cincia e, em geral, as virtudes; so disposies
problemas, de tal maneira que as vrias senten-             a sade, a doena, o calor, o frio, etc. (Ca., 8, 8
as aparecem como respostas positivas ou ne-                b 25; cf. Mel., V, 14, 1020 a -12). A filosofia
gativas do problema proposto (da o ttulo sim              contempornea s vezes tambm recorre a h-
e no). Nu sua forma madura, a Q. 6 constituda             bitos disposicionais (cf., p. ex., C. 1.. STI-ATNSOK,
pelas seguintes partes: Ia enunciado (ex.: Vtnim            litbicsandLcwguage, III,  4, 19%, 5a ed., p. 46
 denm esse sit perse notum): 2a relao das ra-             ss.), mas o precedente aristotlico geralmente
zes favorveis  tese que ser rejeitada pelo               ignorado.
autor (Ad primum sicproceditur Videtur quod                     2. Uma segunda espcie de Q. consiste na
deumesse sit per se notum); 3a relao das ra-              capacidade ou incapacidade natural; neste sen-
zes favorveis  tese oposta (Sed contra-,...); 4a         tido fala-se em lutadores, corredores, sos,
enunciao da soluo escolhida pelo autor                  doentes, etc. ( Cat., 8, 9 a 14). Esta  a Q. que os
(Conclusio); 53 ilustrao dessa soluo; 6a refu-          escolsticos chamaram de ativa (cf., p. ex.. S.
tao das teses aduzidas pela soluo rejeitada,                   V
                                                            TOMS. . . Th., III, q. 49. a. 2).
na ordem em que foram aduzidas (Adprimum
                                                                3. O terceiro gnero de Q.  constitudo
ergo dicendum... Ad secundum...). A ordem
                                                            pelas afeies e suas conseqncias: estas so
em que as questes eram tratadas era fornecida
                                                            as Q. sensveis propriamente ditas (cores, sons.
por algum texto ao qual toda a coletnea servia
de comentrio: algum livro da Bblia, alguma                sabores, etc). (Cat., 8, 9 a 27; cf. Met.. V. 14.
obra de Bocio ou de Aristteles ou, mais                    1020 a 8). Os e.scol.sticos chamaram essas es-
freqentemente, as Sentenas de Pedro Lom-                  pcies de Q. passivas (cf. S. TOMS, loc. cit.).
bardo. Quaesliones quodlibetales ou mais sim-                   4. A quarta espcie de Q.  constituda pelas
plesmente Quodlibeta eram as coletneas de                  formas ou determinaes geomtricas, como
questes que os aspirantes ao ttulo em teolo-              p. ex. pela figura (quadrado, crculo, etc.) ou
gia deviam discutir duas vezes por ano (antes               pela forma (retilnea, curvilnea) (Cat., 8, 10
do Natal e antes da Pscoa) sobre qualquer                  a 10).
tema. de quolibet. As quaestiones disputatae,                   Na histria ulterior da filosofia pouco ou
ao contrrio, eram resultado das diputationes               nada foi acrescentado a essas determinaes e
ordinariaequc os professores cie teologia sus-              distines feitas por Aristteles sobre a qualidade.
tentavam durante seus cursos sobre os mais                  Querendo-se eliminar delas o que  devido 
importantes problemas filosficos e teolgicos              sua mais estreita conexo com a metafsica
(cf. sobre esses assuntos, MARTIN GRABMAW,                  arstotlica, pode-se obter maior simplificao,
Die Gesch ichte derscholastischei i Methode. 1911.          e reduzir a trs os quatro grupos acima, caracte-
nova ed., 19%).                                             rizanclo-os da seguinte maneira:
    QUALIDADE (gr. Ttotxri; lat. Qualitas; in.                a) determinaes disposiciouais, que com-
Quality, fr. Qualit. ai. Qualitat. it. Qualit).           preendem disposies, hbitos, costumes, ca-
Qualquer determinao de um objeto. Como                    pacidades, faculdades, virtudes, tendncias, ou
determinao qualquer, a Q. distingue-se da                 qualquer outro nome que se queira dar s de-
propriedade(v.), que. em seu significado espe-              terminaes constitudas por possibilidades do
cfico, indica a Q. que caracteriza ou individua-           objeto;
liza o prprio objeto, sendo portanto prpria                   b) determinaes sensreis, simples ou com-
dele. A noo de Q.  extensssima e dificil-               plexas, que so fornecidas por instrumentos
mente pode ser reduzida a um conceito unit-                orgnicos: cores, sons, sabores, etc;
rio. Podemos dizer que ela compreende uma                       c) determinaes mensurveis, que se sub-
famlia de conceitos que tm em comum a fun-                metem a mtodos objetivos de medida: nme-
o puramente formal de servir de resposta                 ro, extenso, figura, movimento, etc.
pergunta qual'* Aristteles distinguiu quatro                   Com esta modificao, a diviso aristotlica
membros dessa famlia, sendo esta ainda a me-               corresponde exatamente  de Locke; com efei-
lhor exposio j feita sobre o conceito de qua-            to, as Q. (a) so as que Locke incluiu na terceira
lidade.                                                     espcie de Q.: "aquelas que todos concordam
    1. Em primeiro lugar, entendem-se por Q.                em considerar apenas como meras capacidades
os hbitos e as disposies, que se distinguem              que os corpos tm de produzir certos efeitos.
porque o habito  mais estvel e duradouro                  embora se trate de Q. to reais no objeto quan-
que a disposio. So hbitos a temperana, a               to as que, para adenuar-me ao modo comum
QUALIDADE                                              sr                                          QUALQUER

de falar, chamei de Q.. mesmo distinguindo-as               rio" remontam a Boyle. mas a distino  bas-
das outras pelo nome de Q. secundrias" (Hn-                tante antiga e remonta a Demcrito (l'r. 5,
saio, II, 8, 10). Por outro lado. as Q. (b) e (c)           Diels). Depois de muitos sculos foi retomada
correspondem s c|iie Locke chamava, respec-                por Galileu (cf. Opere. ed. nac. VI, p. 347, ss.).
tivamente, de qualidades primrias c secund-               por Hoblies (Decorp., 25. 3). por Descartes (Princ.
rias (v. mais adiante). Assim retificada, a distin-         phil, I. 57; Md.. VI) e por Locke (Ensaio, II, 3,
o entre as vrias espcies cie Q. abrange todo            9), que a difundiu na filosofia europia. A base
o campo das discusses e dos problemas a que                da distino  a possibilidade de quantificao
deu origem na tradio iilosfica.                          que as Q. no sentido c tm em relao s do
    a)  noo de determinao clisposicional               sentido h. por esta possibilidade, fogem s
faz referncia no s a noo de Q. oculta, mas             valoraes individuais, mostrando-se indepen-
tambm a de fora, que a suplantou nos pri-                 dentes do sujeito e plenamente "objetivas" ou
mrdios da cincia moderna. Newton dizia: "Os               "reais". Km segtiida a distino foi combatida
aristotlicos no deram o nome de Q. oculta a               (p. ex.. por Berkeley), principalmente com o
qualidades manifestas, mas a Q. que eles supu-              fim de mostrar que nem mesmo as Q. primrias
seram alm dos corpos, como causas desconhe-                so objetivas, e que todas so igualmente subje-
cidas de efeitos manifestos: estas seriam as causas         tivas, ou seja. consistem em "idias" (Principies
da gravidade, cia atrao magntica e eltrica              ofHitman Knowledge, 1,  K1). Segundo Husserl,
ou das fermentaes, se supusssemos tratar-                o significado da distino seria o seguinte: "A
se de foras ou aes derivadas de Q. que desco-            coisa experimentada fornece o simples boc.
nhecssemos ou que fossem impossveis de                    um .Y vazio que se torna portador das determi-
descobrir ou manifestar. Tais Q. ocultas impe-              naes matemticas e cias frmulas inerentes, e
dem o progresso da filosofia natural, e por isso            c[ue no existe no espao perceptivo, mas num
foram abandonadas nestes ltimos-anos" (Optics.             espao objetivo do qual o primeiro  apenas
 1740, III, 31). Com o mesmo esprito, Wolff                indcio, ou seja, numa variedade euclideana
definia como oculta a Q. "desprovida de razo               tridimensional de que s' possvel fazer uma
suficiente", e acrescentava: "Q. oculta , p. ex..
                                                            representao simblica" (Ideen, 1,  40). Neste
a gravidade se for concebida como fora primi-
tiva ou como fora que Deus infundiu  matria,             sentido, as Q. objetivas delineariam a natureza
para a qual no se possa dar apriori nenhuma                de um objeto transcendente  percepo sens-
razo natural. Tal  tambm a fora motriz, se              vel, ao qual esta acenaria como a algo distante.
for considerada uma fora primitiva que Deus                   Q U A L I D A D E D A S P R O P O S I   E S (lat.
infundiu  matria no momento da criao. Cer-              Qitalitas propostionum; in. Qtially ofpro-
tamente Aristteles e setis seguidores, que ad-             positiuns; fr. Qualit des propus ilions; ai.
mitiram as Q. ocultas, usaram esse termo com o              Qitalitt des Urteils-, it. Qualit de lie propo-
mesmo significado" ( Cosm.,  189). O reparo de             sizioni). Foi provavelmente o neoplatnico
Wolff  mais claro que o de Xewton: uma fora               Apuleio. contemporneo de Galem >, o primein >
 ser uma Q. oculta se dela no se der razo                a usar as palavras Q. e quutilidae para indi-
suficiente natural, mas no o ser se for dada              car, respectivamente, a distino das proposi-
tal razo. Mas disso resulta tambm que tanto               es em afirmativas e negativas e em universal
a noo de Q. oculta quanto a de lora so                  e particular (De nl.. p. 266; cf. PRANTL. Cescbichte
 integrveis na noo de Q. como disposio.                der Logik, I, p. 581). Kant acrescentou aos dois
    O mesmo significado de Q. est presente no              juzos tradicionais de Q. o juzo infinito. (V.
conceito de (/iialificao. "Qualificar-se para"            IM-IMTO, Jrizo)
ou "ser qualificado para" significa ter a capaci-              QUALIFICAO. V. QIWI.IDADI-:.
dade ou a competncia, ou seja, a qualidade                    QUALQUER (gr. rai; lat. Omnis-, in. Any. fr.
clisposicional para realizar dada tarefa ou alcanar        Cbaqne-, ai. feder, it. Og)ii). Na lgica contem-
determinado objetivo. s vezes, porm, o ter-               pornea, "Q"  um operador de campo, cujo
mo "qualificado" significa somente "limitado"               smbolo mais usado  "(x)". p. ex. em formulas
ou "caracterizado por dadas condies", como                como "(x)" . "/(x)", que se l "para qualquer .r,
acontece na linguagem jurdica.                             f(x)  verdadeiro". Isso corresponde a um pro-
    b, c) As Q. nos sentidos B e C so as Q. tra-           duto lgico (ou conjuno lgica) operado no
dicionalmente distingtiidas como primarias e                campo de validade de (x). ou seja.  conjuno
secundrias. (As'termos "primrio" e "secund-              "f(a) e f(b) e /(c) e...". Sempre que/(x) for
QUANTICA, FSICA                                         818                                      QUANTIDADE

predicado, cia eqivale  frmula habitual Q.                   nhece a Q. deles, ou seja. seu nmero (FiL,
 v /"". ou ento "todos os .v so /'" da lgica                17a, 18 h). Aristteles, por sua vez, definiu a Q.
tradicional. Aristteles utilizara "Q." na proposi-            como o que  divisvel em partes determinadas
o universal afirmativa "Qualquer A 6 B", o                     >
                                                               < u determinveis. Uma Q. nnmervel  uma
que foi adotado pela lgica medieval. Neste                    pluralidade divisvel em partes descontnuas.
uso. a funo de "Q." no se distingue da de                    l'ma Q. mensurvel  uma grandeza divisvel
"todo/todos". No entanto, a lgica terminista                  cm partes contnuas, em uma, duas ou trs di-
medieval distinguiu dois significados de "to-                  menses. Uma pluralidade completa  um n-
dos": o significado coletivo, quando se diz. p.                mero; um comprimento completo 6 unia linha;
ex., "Todos os Apstolos so 12". donde no se                 uma extenso completa  um plano; uma pro-
segue que "Kstes Apstolos so 12", e o signifi-               fundidade completa  um corpo (Mel., V, 13,
cado distributiro, quando se diz. p. ex.. "Todos                102" a 7).
os homens desejam naturalmente saber", don-                         Essas determinaes cie Aristteles foram re-
de se segue que "Qualquer homem deseja na-                      petidas na escolstica e passaram a fazer parte
turalmente saber". Neste ltimo caso, "Q." indi-               das noes geralmente aceitas no incio da Ida-
ca uma disposio da coisa que pode funcionar                  de Moderna. Pareceu indubitvel que a mate-
como sujeifo ou prec/fcaco (Pi:i)i<() HSFSO,                riltea pudesse ser definida como "a cincia da
Summ. log.. 12.04-06).                                         Q." at que a evoluo dessa cincia mostrasse
    Na lgica moderna, a distino entre Q. e                  qe essa definio era restrita e imprpria (v.
lodo foi feita por Frege (Grundgesetz der                      MATEMTICA). Foi justamente pensando na ma-
Ahthmetik, 1893, 1.  17) e por Russell. Segun-                temtica que no sc. XVIII Wolff definiu a Q.
do este ltimo, tal distino consiste no fato de              como "aquilo em virtude do que as coisas se-
que uma assero que contenha uma varivel                     melhantes, ressalvada a sua semelhana, po-
,v(p. ex., "x= x") pode ser vlida para todos os               dem diferir intrinsecamente" (Cosm..  348),
exemplos ou para um exemplo qualquer.                          definio que poderia ser facilmente invertida
sem decidir a qual exemplo se faz referncia.                  dizendo-se que Q.  aquilo em virtude do que
Neste segundo caso, utiliza-se o operador qual-                a.s coisas dessemelhantes, ressalvada a sua des-
quer. Assim, nas demonstraes de Euclides.                    SQmelhana, podem ser semelhantes. Mas com
toma-se como base de raciocnio um tringulo                   esta forma, que corresponderia mais aos con-
qualquer ABC sum determinar que espcie de                     ceitos matemticos modernos, no se estaria
tringulo . Neste caso, o tringulo ABCvalc                   definindo a Q., e sim a grandeza (y.). De fato.
como varivel real: ele  um tringulo qual-                   em matemtica o termo Q. tornou-se sinni-
quer. ainda que continue o mesmo durante                       mo de grandeza, que  especfico de certo
toda a demonstrao. O operador todos, ao                      cumpo cie indagao e que depende da esco-
contrrio, tem como base variveis aparentes.                  lha oportuna de unidades de medida. Portanto,
([ue, seja qual for a determinao dada. no                   a Q. como categoria ou conceito generalssimo
mudam o valor da funo. Russell considera                     nCio pertence mais s cincias, e no mximo
que a distino entre todos e Q.  necessria ao               pode-se dizer que constitui o carter genera-
raciocnio dedutivo (Malbematical Logic as                     lNsimo comum aos objetos dspares das cin-
liased ou lhe Iheory of Types, 1908, em Logic                  cias positivas, que  a possibilidade de serem
and Knowledge, p. 64 ss.; cf. Principies of                    medidos.
Mathematics,  60-61; Principia mathematca).                      A tendncia geral do pensamento cientfico
   QUANTICA, FSICA. V. COMIM.KMK.NTARI-                       a reduzir qualidade a Q. foi interpretada de ma-
DADI; CONDIO; D H T K R M I M S M O ; FSICA; INDE-         neira singular por Hegel, que falou em "linha
TERMINADA.                                                     nodal das relaes de medida". A mudana gra-
   QUANTIDADE (gr. 710OV; lat. Qnantitas;                     dual da Q. levaria, em certo ponto (ponto ou
in. Quautity, fr. Quantit: ai. Quantilt; it.                 "linha nodal"),  mudana da qualidade, c a
Quautit). Km geral, a possibilidade da medi-                  mudana gradual desta nova qualidade levaria
da. Foi esse o conceito emitido por Plato e                   a outro ponto nodal. e assim por diante. Hegel
Aristteles. Plato afirmou que a Q. est entre                observava que, do lado qualitativo, a passagem
o ilimitado e a unidade, e que s ela  o objeto               para uma nova qualidade " um salto; a.s duas
do saber; p. ex., conhece realmente os sons                    qualidades so postas de modo completamente
quem no admite que eles sejam infinitos nem                   extrnseco uma  outra", e que por isso a gra-
procura reduzi-los a um nico som, mas co-                     dualiclade da mudana quantitativa no permi-
QUANTIDADE DAS PROPOSIES                                   819                                                 QUEDA

te compreender o devir ( Wissenschaft der                           na notao de Russell. "(x)" = "todos") e o
f.of>ik, I. se. 3". cap. 2; trad. it.. I. pp. 446--t7).           quantificador existencial c.s.. "(3x)" = "existe
Com isso ele negava que a passagem da Q.                          pelo menos um x que..."l, de novo referem-
c|iialidade ou vice-versa servisse para alguma                     se apenas aos argumentos ou variveis de uma
coisa. Isso. porm, no impediu que Lngels                         funo proposicional, transformando estas em
considerasse "a converso Q. em qualidade"                         variveis aparentes e as funes em proposi-
como lei fundamental da dialtica e visse em                       es propriamente ditas (universais ou particu-
llegel o descobridor dessa lei (Didlcktk der                      lares): p. ex.. "x  mortal"  uma funo "(x). 'x
Sdlur, trad. it., pp. S7 ss.). (V. DIALKTICA; NOOAL                 mortal'" (= "todos os x so mortais"),  Lima
LlNHA: SALTO).                                                     proposio universal.                       (1. P.
    QUANTIDADE DAS PROPOSIES. 1 oi o                                 Q U A N T I F I C A   O D O P R E D I C A D O (in
neoplatnico Apuleio (v. Q\ Ai.iDADt- DAS PRO-                     Quanlificalion of predicate). Opondo-se  l-
poRCors) o primeiro a chamar de Q. a diviso                       gica tradicional. Hamilton defendeu o princpio
das proposies em universais e particulares,                      da Q. cio predicado, afirmando: 1" o predicado
individuais e indefinidas (ARISTOITLKS, De /;//..                   to extensivo quanto o sujeito; 2" a lingua-
"*; An. l\, 1. 1). Kant reduziu a trs as classes                 gem comum quantifica sempre que ocorre o
cios juzos segundo a Q., mais precisamente                        predicado: diretamente, por meio do uso cie
proposies universais, particulares e individuais                 quantificadores (p. ex.. "Pedro, Joo, Tiago,
{(,'rt. R. Pm ei. 9). Hamilton tambm falou da                    etc. so todos apstolos"), ou indiretamente,
Q. dos conceitos, distinguindo a Q. intensiva,                     atravs da limitao e da exceo, como quan-
que  a inteno ou compreenso, e a Q. ex-                        do se diz "A virtude  a nica nobreza", ou
tensiva, que  a extenso ou denotao (I.eclures                  ento "Sobre a terra no h nada de grande a
ou Logic, i, pp. 140 ss.).                                         no ser o homem" (l.ectiires ou Logic, II, pp.
    QUANTIFICAO (in. Qiumtificalion; fr.                         2S7 ss.).
(Jitantification;   ai.   Qiianlifikatioii;   it.   Qitcm-            QUANTIFICADOR. V. OPKRAOOR.
tificazione). Km Lgica, designa-se por "Q." a                        QUANTIFRENIA (in. .Quanlopbrenia: fr.
operao mediante a qual. com o uso de sm-                        Qiiantophrnie. it. Quantojrena). Foi assim
bolos chamados quantificadores, se determina                       que P. Sorokin chamou a "mania de quantificar
o mbito ou a extenso de um termo da propo-                       a qualquer custo" no campo das cincias psico-
sio. Na Lgica de Aristteles e em toda a L-                    lgicas e sociais (Fads and Faihles in Modem
gica clssica derivada, conhecia-se apenas a Q.                    SociologyandRelatedSciences, 19%, caps. VII-
do sujeito da proposio: em Aristteles, me-                      YIII).
diante os operadores "todo" e "em parte" ("|o                         QUATERNIO TERMINORUM. I xpresso
predicadol B pertence a toclo\o sujeito] A"; "B                    Lisada para indicar o tipo mais comum de lal-
pertence em parte a A"); na Lgica medieval ou                     cia lgica, constituda pela duplicidade de sig-
moderna, por meio dos operadores "omnis"c                          nificado de um dos termos empregados no ra-
"alit/iiis" ("omnisA est B";      "ciliijiiisA es/ B"). A          ciocnio, como no exemplo tirado de Sneca:
proposio quantificada com "lodo" era chamada                     "Mus (o rato)  Lima slaba; o rato ri o queijo;
de universal; a quantificada com "em parle"                        portanto a slaba ri o queijo" (Jp.. t8) (v.
("algum") era chamada de particular; a no                         FOUYOCACAO).
quantificada era chamada de indefinida. No                             QUEDA (gr. K7TWGI ; lat. Casits: in. Fali; fr.
sc. XIX a exigncia de submeter a silogstica                     (.'bule. ai. Fali: it. Cadnta). O mito da Q., se-
tradicional a alguma espcie de clculo mate-                      gundo o qual a alma humana teria decado de
mtico induziu alguns lgicos ingleses (Ben-                       Lim estado original de perfeio, no qual con-
tham, 182"?; Hamilton. 1833) a quantificar tam-                    templava a verdade de frente, na bem-aven-
bm o predicado, interpretando, p. ex., a                          turana,  exposto em Fedro (248a ss.) de
proposio universal afirmativa "todos os A so                    Plato e repetido por Plotino (/;';/., VI, 9, 9).
15" como "todos os A so alguns B". Deste                          por outros neoplatnicos. pelos gnslicosv.) e
modo, porm, a proposio era interpretada                         pelos padres da Igreja Oriental. Orgenes expli-
Linilaleralmente como uma relao de incluso                      cou a formao do mundo sensvel a partir da
ou excluso, parcial ou total, entre classes. A                    queda de substncias intelectuais c|Lie habita-
Lgica contempornea retomou essa concep-                          vam o mundo inteligvel: Q. devida  sua pre-
o, mas integrou-a. Nela, porm, os quantifica-                   guia e  averso ao esforo exigido pela prti-
dores, ([lie agora so o quantificador universal                   ca do bem. Deus estabelecera que o bem
QIDIDADE                                             820                                      QUODLIBETA

dependeria exclusivamente da vontade dessas                  o nome que se d hoje  crena no adven-
substncias intelectuais e deu-lhes liberdade.              to de uma renovao radical do gnero hu-
Sua Q. (e assim a formao do mundo sens-                  mano e na instaurao de um estado defi-
vel) depende exclusivamente cio mau uso des-                nitivo de perfeio. O Apocalipse de S. Joo
sas liberdades (Deprinc, II. o. 2; Fr. 25 A). Os             o principal documento de crenas seme-
gnsticos, ao contrrio, negaram essa liberda-              lhantes, que foram muito freqentes nos pri-
de. No mundo moderno, a teoria da Q. foi                    meiros sculos do cristianismo, voltando a
retomada por Renouvier (Nora mouadolof>ia,                  apresentar-se tambm na Idade Mdia.
1899). O homem, sado das mos de Deus                      Gioacchino da Fiore (sc. XII) preconizou o
como criatura livre, ao usar a liberdade provo-             iminente advento de uma terceira era da his-
cou sua queda e, ao mesmo tempo, a runa do                 tria humana, a do Esprito Santo (Concr-
mundo harmonioso criado por Deus. Poder                    dia Abi'/ et Veteris Testameiil, IV, 3T). Kant
erguer-se atravs cia prpria liberdade e da su-            talou de um Q. filosfico "que aspira a um
cesso de provas dolorosas que o reeducaro,                estado de paz perptua, fundada na unio
devolvendo-o  harmonia original do universo                das naes, como repblica mundial (Reli-
(V. APOCATASTASH).                                          ,i>io)i, I. 3).
   QIDIDADE (lat.       Quidditas: in. Qukkti-                QUINQUE VOCS. So os cinco conceitos
tv. fr. Quiddit, ai.   Quidditcit; it. Qitiddit).         generalssimos, ou cinco tipos de predicado
Termo introduzido pelas tradues latinas fei-              universal (por isso chamados tambm de "pre-
tas no sc. XII (do rabe) a partir das obras de            dicveis") cia Lgica clssica: gnero, espcie,
Aristteles; corresponde  expresso aristot-              diferena, prprio e acidente. O cerne da sua
lica x Ti r)v eivai (quod quid erat esse). Esse            distino e da problemtica relativa est nos
termo significa essncia necessria (substan-               Tpicos de Aristteles, mas o estudo formal e
cial) ou substncia (v. KSSHNCIA; SUBSTANCIA).              explcito delas como categorias fundamentais
    QUIETISMOn. Quietsnr, fr. Quitisme, ai.              da lgica acha-se em Isagoge cie Porfrio. Foi
Quielismus; it. Quietismo). Crena de que o                 sobretudo graas  verso e aos comentrios
estado de graa ou de unio com Deus pode                   cie Bocio sobre esta obra que elas passaram
ser obtido ponclo-se a vontade pessoal nas mos             para a Lgica medieval.
de Deus, sem qualquer rito ou prtica religiosa.               QUINTESSNCIA, (lat. Quinta essentia.m.
O Q. foi adotado por muitas correntes religio-              Quiutessence, fr. Qnntessence; ai. Quuitessenz.
sas, mas esse termo foi cunhado com refern-                it. Quinta essenza). 1. O ter, isto , a substn-
cia  forma por ele assumida no catolicismo                 cia que. segundo Aristteles, compe os cus,
por obra de Miguel Molinos ( 1627-1696). cujas              que  diferente dos quatro elementos que com-
leses foram condenadas pelo papa Inocncio                  pem os corpos sublunares (V. TT.R).
XI em 1687.                                                     2. Extrato corpreo cie uma coisa, obtido
    QUIETIVO (in Quielive: fr. Quitif. ai.                 pela sua anlise alqumica mediante a separa-
Quietiv, it. Quietiro). Foi assim que Schopen-              o do elemento dominante dos outros ele-
liauer chamou o conhecimento filosfico, por                mentos que esto misturados nela. Segundo
analogia e anttese com motivo, porquanto ele               Paracelso. na Q. esto os arcanos, que so
leva  negao da vontade de viver, ao as-                  as foras ativas de um mineral, de uma pe-
cetismo: essa negao "ocorre depois que o                  dra preciosa, de uma planta; so utilizados
conhecimento total do ser tornou-se Q. cio que-             pela medicina na feitura ele medicamentos
rer" (Die We/t, I,  68). Q.. neste sentido, tam-           (De misteriis naturalibus, I. 4). Neste senti-
bm  a atte como contemplao desinteressada               do, emprega-se tambm o termo para indicar
das idias platnicas (Ibid.. 1,  70).                     o princpio ativo de uma coisa ou a sua parte
    QUILIASMOUn. Cbiliasm.h. Chiliasne-..                mais pura.
(,'biliasnuis; it. C.hiliasmo). Q. ou milenarismo               QUODLIBETA. V. QUAKSTIO.
   RAA. V. RACISMO.
                                            R
   RACIOCNIO (gr. ,OYIGU.; lat. Ratiocina-
                                                           RACIOCNIO APAGGICO. V. APAGOGICO.
                                                           RACIOCNIO POR ANALOGIA. V. ANALO-
tio; in. ReasoHing; fr. Raisonnement; ai. Ver-          GIA.
muiftscbluss; it. Racionamento). Qualquer pro-              RACIONAL (gr. ^oyiK; lat. Rationalis,
cedimento de inferncia ou prova; portanto,             Rationabilis; in. Rational; fr. Ralionnel, Ra-
qualquer argumento, concluso, interncia,              sotinable, ai. Vernnftig; it. Razionale, Ragione-
induo, deduo, analogia, etc. Stuart Mill di-        vole). 1. Aquilo que constitui a razo ou diz.
zia: "Inferir uma proposio de uma ou mais             respeito  razo, em qualquer dos significados
proposies precedentes, e crer ou pretender            deste termo (v.).
que se creia nela como concluso de qual-                   2. Quem tem a possibilidade cio uso da ra-
quer outra coisa significa raciocinar, no mais          zo; nesse sentido diz-se que o homem  um
amplo sentido do termo" (Logic, II, I, I). John         animal racional. S. Agostinho afirma que os
Stuart Mill exclua do mbito do R. somente             sbios "chamaram de racionvel ( rationabilis)
"os casos nos quais a progresso cie uma ver-           quem faz ou pode fazer uso da razo, e de ra-
dade para outra 6 apenas aparente, porque o             cional (rationalis) aquilo que  feito ou dito
conseqente  mera repetio do antece-                 pela razo"; portanto, acha que  preciso cha-
dente" (Ibid., II, 1, 3): alm disso, identificava      mar de racionais os discursos ou os banhos, e
raciocnio e inferncia. Mas essa restrio desa-       de racionveis aqueles que os praticam (De
pareceu do uso corrente do termo, que hoje              ordine, XI. 31 ) Mas essa distino no  facil-
compreende tambm as inferncias tautol-               mente defensvel porque os antigos chama-
gicas. consideradas prprias da matemtica e            ram tambm o homem de racional (nt., p. ex..
da lgica (cf. P. E STRAWSON, Intr. to l.ogical         QUNTILIANO. Inst.. V, 10, 56). Por outro lado.
Tbeory, 1952, p. 12 ss.). Portanto, a ilustrao        chamamos hoje de racionvel tambm aquilo
dos significados do termo pode ser achada               que se conforma  razo.
nos verbetes que constituem a extenso do                  3- Que tem por objeto a razo, sua forma e
termo em questo, e especialmente nos seguin-           seus procedimentos. Neste sentido, Sneca
tes: DHI)('OO, Ixnro, PROVA, DFMOSTRACAO,            (fp..X9. 17) eQuintiliano (/;/.;>?., XII. 2. 10) cha-
IMT:RKNCIA. SILOGISMO, ARGIMHNIO, ANALOGIA.             maram a lgica de "filosofia R.". o que foi imi-
Contudo, a classificao fundamental dos R.             tado por Wolff (.og.. 1728) e por outros.
divide-os em dednlivosc indiitivosliss-d distin-           RACIONALISM (in. Ralionalisnr, IV. Ra-
o, j estabelecida por Aristteles (An. pr.. II.      lionalisme;   ai.   Rationalismus;   it.   Razionalis-
23, 68 b 13), costuma ser utilizada ainda hoje.         mo). Km geral, a atitude de quem confia nos
s vezes com nomes um pouco diferentes. Peirce,         procedimentos da razo para a determinao
p. ex., falava em R. explicativos analticos ou de-     de crenas ou de tcnicas em determinado
dutivos, por um lado, e de R. explicativos, sint-      campo. Esse termo foi usado a partir do sc.
ticos, ou indutivos, por outro ( Chance, [.ove and      XVII para designar tal atitude no campo religio-
Logic. I, 4, 3; trad. it., p. 67). que so justamente   so; "H uma nova seita difundida entre eles
os nomes mais empregados para designar as               (presbiterianos e indepenclentesl. que  a dos
duas espcies fundamentais do raciocnio.               racionalistas: o que a razo lhes dita, eles consi-
RACIONALISMO                                             822                                             RACISMO

deram bom no listado e na Igreja, at que                      der conceitualmente" (Ibid., 1. p. 113: trad. it.. I,
achem algo melhor" (CI.ARKMX)N. State Papeis,                  p. 95). Com base nessas observaes histri-
II. p. XL. na data de l-t-X-19-i). Nesse senti-               cas, pode-se dizer que o termo em foco
do Baumgarten dizia: "R.  o erro de quem                      compreende os seguintes signilicados:
elimina da religio todas as coisas que esto                     1" O R. religioso designa algumas correntes
acima da prpria razo" (li/bicaphilosophica.                  protestantes, ou um ponto de vista semelhante
 r 6 5 ,  52).                                                ao cie Kant.
     Kant loi o primeiro a adotar esse termo                      2" O R. filosfico designa propriamente a
como smbolo de sua doutrina, estendendo-o                     doutrina de Kant (que adotou esse termo), ou
do campo religioso para os outros campos de                    ento a corrente metafsica da filosofia moder-
investigao. Deu o nome de R.  sua filosofia                 na, cie Descartes a Kant.
transcendental (no texto de 1804 sobre os                         3" F.m sua significao genrica, pode ser
"Avanos da Metafsica", Werke. V. 3. p. 101),                 usado para indicar qualquer orientao filosfica
ao passo que chamava de noologistas ou dog-                    que recorra  razo. Mas. nessa acepo to
mticos os filsofos que a historiografia alem                vasta, esse termo pode indicar as filosofias mais
do sc. XIX chamou depois de racionalistas: de                 dspares e carece de qualquer capacidade de
um hido Phtiio e de outro os seguidores de                     individu;)]>y.:):)o.
Wolff (Cri/. R. /'ura. Doutr. do Mtodo, cap.                     RACIONALIZAO (in. Rationalization. ir.
IV). No terreno da moral, defendia "o R. do                    Ralioualisaton: ai. Rationcilisienmg, it. Ra-
juzo, que da natureza sensvel toma apenas o                  zioualizzazioue). 1. Esse foi o nome s vezes
que a Razo Pura pode pensar por si, ou seja,                  dado ao processo de constituio das cincias
a conformidade com a lei", opondo-se por isso                  da natureza em disciplinas tericas, com ado-
ao misticismo e ao empirismo da razo prtica                  o dos procedimentos da matemtica; supu-
(Cri/. R. Prtica. I, cap. II, Da tipologia do                 nha-se que esse processo se realizaria perfeita-
juzo puro prtico). No campo esttico, falava                 mente na mecnica racional (cf. HISSF.RL. hleeii.
analogamente de um "R. cio princpio do gosto"                 I,  9). O ideal da R. foi atualmente substitudo
(Crl. do Juzo.  58). Finalmente, caracterizava              pelo da axiomatizao (v. AXIOMATICA).
como R. seu ponto de vista em matria religio-                     2. Termo freqentemente empregado por
sa: "O racionalista, em virtude desse mesmo                    psiclogos e socilogos para indicar a tendn-
ttulo, deve manter-se nos limites da capacidade               cia a procurar argumentos e justificaes para
humana. Portanto, nunca usar o tom contun-                    crenas cuja fora no est nesses processos ra-
dente do naturalista nem contestar a possibili-               cionais, mas em emoes, interesses, instintos,
dade nem a necessidade de uma revelao. (...)                 preconceitos, hbitos, etc.
Porquanto sobre tais assuntos nenhum homem
                                                                   RACISMO (in. Racialism. fr. Racisme. ai.
pode decidir o que quer que seja pela razo"
                                                               Rcissisnws; it. Rnzzismo). Doutrina segundo a
(Religiou, IV, se. I: trad. it., Durante, p. 169).
                                                               qual todas as manifestaes histrico-sociais
     Por outro lado. Hegel foi o primeiro a carac-             do homem e os seus valores (ou desvalores)
terizar como R. a corrente que vai de Descartes                dependem da raa; tambm segundo essa dou-
a Spinoza e Leibniz, opondo-o ao empirismo                     trina existe uma raa superior ("ariana" ou
de origem lockiana. Por R. ele entendeu a "me-                 "nrdica") que se destina a dirigir o gnero hu-
tafsica do intelecto", que  a "tendncia  subs-             mano. O fundador dessa doutrina foi o francs
tncia, em virtude da qual se afirma, contra o                 Gobineau. em seu lisscii sur 1'ingalit des races
dualismo, uma nica unidade, um nico pensa-                   bumcihies (1853-55), que visava a defendera
mento, cia mesma maneira como os antigos                       aristocracia contra a democracia. No incio do
afirmavam o ser" (Geschichte der Philosophie.                  sc. XX. um ingls naturalizado alemo, Hous-
ed. Glockner, III. pp. 329 ss.; trad. it.. III, 2, pp.         ton Stewart Chamberlain, difundiu o mito do
68 ss.). A contraposio entre racionalismo e                  arianismo na Alemanha (Die Gniudlagen des
empirismo fixou-se depois nos esquemas tradi-                  XIX labrhunderts. 1899). identificando a raa
cionais cia histria da filosofia, por mais que o              superior com a alem. Como o anti-semitismo
prprio Hegel notasse seu carter aproximati-                  era antigo na Alemanha, a doutrina cio deter-
vo. Quanto ao "R. religioso", Hegel afirmava                   minismo racial e da raa superior encontrou
que ele  "o oposto da lilosofia" porque coloca                fcil difuso, traduzindo-se no apoio dado ao
"o vazio no lugar do cu" e porque sua forma                   preconceito contra os judeus e  crena de
 um raciocinar sem liberdade, e no um enten-                 eme existe uma conspirao judaica para do-
RACISMO                                                                                 RADICALISMO

minar o mundo; assim, o capitalismo, o marxis-        seja, a eaucasiana, a monglica e a negride.
mo e, em geral, as manifestaes culturais e          Portanto, os grupos nacionais, religiosos, geo-
polticas que enfraquecem a ordem nacional            grficos, lingsticos e culturais no podem ser
so fenmenos judaicos. Depois da Primeira            chamados de "raas" por nenhum motivo; no
Guerra Mundial, os alemes viram no R. um             constituem raas os italianos, os alemes, os in-
mito consolador, uma fuga da depresso da             gleses, assim como no constituram os latinos
derrota; Hitler transformou-o no carro-chefe de       ou os gregos, etc. No existe nenhuma raa
sua poltica, e a doutrina foi elaborada por          "ariana" ou "nrdtca", assim como no It qual-
Alfred Rosenberg. em Mito do sculo XX (1930).        quer prova de que a raa ou as diferenas ra-
Rosenberg afirma um rigoroso determinismo             ciais exeram algum tipo de influncia nas ma-
racial: qualquer manifestao cultural de um          nilestaes culturais ou nas possibilidades de
povo depende cie sua raa. A cincia, a moral,        desenvolvimento da cultura em geral. Tampou-
a religio e os valores que a cultura descobre e      co existem provas de que os grupos em que
defende dependem da raa e so expresses             pode ser dividido o gnero humano diferem
tia fora vital da raa. Portanto, a verdade  ver-   em sua capacidade inata cie desenvolvimento
dade apenas para determinada raa. A raa su-         intelectual ou emocional. Ao contrrio, os es-
perior 6 a ariana que provindo do Norte, di-          tudos histricos e sociolgicos tendem a forta-
fundiu-se na Antigidade para o Kgito, a ndia,       lecer a idia cie que as diferenas genticas so
a Prsia, a Grcia e Roma, dando origem s ci-        fatores insignificantes na determinao de di-
vilizaes antigas, que decaram porque os ari-       ferenas sociais e culturais entre grupos hu-
anos se misturaram com raas inferiores. Todas        manos diferentes. Foram inmeras as transfor-
as cincias, artes e instituies fundamentais da     maes sociais ocorridas sem relao com
vida humana foram criadas por essa raa. Em           mudanas raciais. Tampouco est provado que
oposio a ela, est a anti-raa parasitria judai-   as misturas raciais produzam resultados biol-
ca, que criou os venenos da raa, que so a           gicos prejudiciais. E muito provvel que no
democracia, o marxismo, o capitalismo, o inte-        haja "raa pura" e que nunca tenha havido, at
Icctualismo artstico e at mesmo os ideais de        onde se possa averiguar n passado. Os resul-
amor, humildade e igualdade difundidos pelo           tados sociais das misturas raciais, sejam eles
cristianismo, que representa uma corrupo ro-        bons ou maus, podem ser atribudos a fatores
mano-judaica dos ensinamentos do ariano Je-           sociais.
sus. V.m seu conjunto, essa doutrina foi apre-           Em 1951, junto  WNF.SCO, em Paris, uma co-
sentada explicitamente pek) nazismo como um           misso composta por cinco geneticistas e seis
 mito, criado, difundido e mantido pela fora         antroplogos, de pases diferentes, elaborou
vital da raa. Isso no significa que no se pro-     uma declarao sobre as raas, que consiste na
curou racionaliz-la, atribuindo base cientfica      exposio dos princpios acima mencionados
ao conceito de raa, que era seu fundamento.          (sobre eles, c. Rira HKMDK.T, Racc. Science
Na realidade, porm, o prprio uso que o R. faz       and Politics, 19 R); e RALPH LINTON, The Science
da noo de raa revela, do ponto de vista cien-      ofMan in tbe World Crisis, 7a ed.. 1952). Na rea-
tfico e filoslico, a inconsistncia da doutrina.    lidade, esteja onde estiver e seja qual for a sua
     1 loje, o conceito de raa  considerado una-    justificativa, o R.  da alada da psiquiatria, que
nimemente pelos antroplogos como um re-              Veblen chamava de aplicada, ou seja,  arte de
curso til  classificao e capaz de fornecer o      explorar para fins pessoais um preconceito
esquema zoolgico no qual podem ser situa-            preexistente. Trata-se neste caso de um precon-
dos os vrios grupos do gnero humano. Essa           ceito extremamente pernicioso porque contra-
palavra, portanto, deve ser reservada exclusiva-      diz e impede o encaminhamento moral cia hu-
mente aos grupos humanos dotados de carac-            manidade para a integrao universalista e
tersticas fsicas diferentes, que podem ser          porque transforma os valores humanos (a co-
transmitidas por hereditariedade. Tais caracte-       mear pela verdade) em fatos arbitrrios que.
rsticas so principalmente: a cor da pele, a         por expressarem a fora vital cia raa, no tm
altura, a conformao da cabea e do rosto, a         substncia prpria e podem ser livremente ma-
cor e a qualidade dos cabelos, a cor e a forma        nipulados com fins violentos ou abjetos.
dos olhos, o formato do nariz e a compleio
fsica. Convencionou-se distinguir trs grandes           RADICALISMO (in. Radicalisnr, Ir. Radica-
raas, que so a branca, a amarela e a negra, ou      lismo-, ai. Radikalismus; it. Radicalismo). 1. Po-
                                                      sitivismo social que se desenvolveu na Inglater-
RAIZ                                                   24                                               RAZO


ia entre o fim do sc. XVIII e a primeira metade             definio. Este  um significado freqente na
do sc. XIX; seus expoentes foram Jeremias                   filosofia aristotlica ou nas correntes nela inspi-
Bentham (1748-1832), James Mill (1773-1836)                  radas. Quanto a isso, v. ESSNCIA; FINDAMKNTO;
e John Stuart Mill (1806-1873). Esta corrente                FORMA; St INSTNCIA.
valeu-se do positivismo filosfico, do utilitarismo             3 Argumento ou prova. Nesse sentido dize-
moral e das doutrinas econmicas de Malthus                  mos: "Ele exps suas R." ou " preciso ouvir as
e Ricardo para defender reformas "radicais"                  R. do adversrio". A esse significado refere-se
na organizao do Estado e no sistema de                     tambm a expresso "Ter R.", que significa ter
distribuio das riquezas (v. LIBERALISMO).                  argumentos ou provas suficientes, portanto,
    2. Mais genericamente, esse termo 6 hoje                 estar com a verdade. Quanto a esse significado
usado para designar qualquer tendncia filos-               v. ARGUMKNTO; PROVA.
fica ou poltica que proponha a renovao ra-                   4" Relao, no sentido matemtico. Nesse
dical dos sistemas vigentes, representada pe-                sentido fala-se tambm em "R. direta" ou "R.
la transformao dos princpios nos quais se                 inversa" (em ingls o termo empregado nesse
apoiem os sistemas de crenas ou as institui-                caso  rathi). Quanto a esse significado, v. RE-
es tradicionais.                                           LAO.
   RAIZ (gr. p\C,(\xa; in. Root; fr. Racine-, ai.               No significado de referencial da conduta hu-
 Wnrzel, it. Radico). Termo com que. na lingua-              mana no mundo, a R. pode ser entendida em
gem filosfica, se designa freqentemente um                 dois significados subordinados: A) como facul-
princpio primeiro ou um elemento ltimo.                    dade orientadora geral; B) como procedimento
Empdodes chamou de R. os quatro elementos                   especfico de conhecimento.
(gua, ar, terra e fogo) que compem as coisas                   A) Este  o sentido fundamental, do qual a
(Fr. 6, Diels); a partir da, os filsofos utiliza-          palavra extraiu a potncia de significado que a
ram freqentemente esse termo para indicar                   transformou, h sculos, no emblema da livre
elementos ou princpios. Schopenhauer, p. ex.,               investigao. A R.  a fora que liberta dos
deu a uma de suas dissertaes o ttulo de So-               preconceitos, do mito, das opinies enraizadas
bre a raiz qudrupla do princpio de razo                   mas falsas e das aparncias, permitindo estabe-
suficiente (1813), razo porque o adjetivo radical           lecer um critrio universal ou comum para a
passou a indicar o que diz respeito a um princ-             conduta do homem em todos os campos. Por
pio ou constitui um princpio. Kant deu o nome               outro lado, como orientador tipicamente huma-
de "mal radical"  tendncia do homem para o                 no, a R.  a fora que possibilita a libertao
mal, inerente  sua estrutura moral (cf. Religion,           dos apetites que o homem tem em comum
cap. I). Hoje, chama-se de radical a anlise                 com os animais, submetendo-os a controle e
que remonte aos princpios ou s primeiras                   mantendo-os na justa medida. Esta  a dupla
origens. Husserl, p. ex., insistia na raclicalidade          funo atribuda  R. desde os primrdios da fi-
da filosofia como cincia dos verdadeiros prin-              losofia ocidental. A polmica de Herclito e
cpios e das primeiras origens: "A cincia do                Parmnides contra as opinies da maioria, ou
que  radical deve ser radical tambm em seu                 seja. contra as crenas discordantes e ilusrias
mtodo e sob tod<>s os aspectos" (Phil. a!sstreiif>e         aceitas pela maioria, foi assestada em nome da
 Wissenscbaft, 1911; trad. it., p. 83).                      R., que deve ser o nico critrio orientador de
   RAMIFICADA, TEORIA DOS TIPOS. V.                          todos os homens. Herclito diz: "E preciso se-
ANTINOMIA.                                                   guir o que  universal, comum a todos; e s a
   RAZO (gr. yo ; lat. Ralio, in. Reasoir, fr.           R.  universal. No entanto, a maioria vive como
Raison; ai. Vem i ti ift; it. Racione). Esse termo           se cada um tivesse uma mente particular" (Fr.
tem os seguintes significados fundamentais:                  2, Diels). E Parmnides: "Afasta o pensamento
   ly Referencial de orientao do homem em                  dessa via de investigao e no permitas que te
todos os campos em que seja possvel a inda-                 levem para ela o costume de guiar-se por um
gao ou a investigao. Nesse sentido, dize-                olho que no v, por um ouvido que ressoa,
mos que a R.  uma "faculdade" prpria do ho-                pela palavra: em lugar disso, julga com a R"   ,
mem, que o distingue dos animais.                            (Fr. 1, 33-37, Diels). Plato e Aristteles, por
                                                             outro lado, opem a R.  sensibilidade, que
   2" Fundamento ou R. de ser. Visto que a R.                fonte das cwnj^ comuns (PLATO. /Wm 83a:
de ser de uma coisa  sua essncia necessria                ARISTTKI.IS, Mel., 1,1, 980 b 26), e aos apetites
ou substncia expressa na definio, assume-se               que o homem tem em comum com os animais
s vezes por "R.'" a prpria substncia ou a sua
RAZO                                                825                                              RAZO

(PLATO,  Tini., 70a; ARISTTELES, Et. nic, I, 13,         que so" (Enn., III, 2, 2). Em outros termos, ela
1102 b, 15). Em ambos os casos, R. tem, ao mes-             a funo formadora e plasmadora do intelec-
mo tempo, funo negativa e positiva: negativa             to; para dispor todas as coisas do mundo (boas
em relao s crenas infundadas e aos apeti-              e ms) em sua ordem apropriada, ela deve
tes animais; positiva no sentido de dirigir as             adaptar-se  matria (Ibicl., III, 2, 11-12). Nesse
atividades humanas de maneira uniforme e cons-             sentido, a R.  a tcnica da criao e do gover-
tante. Mas foi principalmente com os esticos              no do mundo, pois graas a ela os seres criados
que prevaleceu a doutrina da R. como nico                 no se clestroem entre si, mas concordam e
guia dos homens. Para eles, havia uma espcie              combinam-se da melhor maneira. Plotino diz:
de diviso simtrica entre os animais e os ho-             "Graas  R., cada ser age ou sofre aes se-
mens: os animais so guiados pelo instinto,                gundo necessidades, e no ao acaso e desorde-
que os leva a conservar-se e a procurar o que              nadamente" (Ibicl., II, 3, 16). Esse conceito de
 vantajoso; aos homens foi dado o guia mais               superioridade cio intelecto foi herdado pela
perfeito, que  a R.; desse modo, para eles, vi-           escolstica medieval. R. e intelecto so identifi-
ver segundo a natureza significa viver segundo             cados no significado geral de princpio orienta-
a R. (Dic;. L, VII, 1, 15-86). Esses conceitos            dor (cf.. p. ex., S. TOMS m: AQUINO, ,S. Th., I, q.
constituram um dos eixos da cultura clssica.             29, a. 3, ad. 4y; q. 79, a. 8). Mas em seguida a
Ccero dizia: "A R., nica diferena que nos dis-          razo  subordinada ao intelecto por seu car-
tingue do bruto, por meio da qual podemos                  ter discursivo, que parece inferior ao carter
conjecturar, argumentar, rebater, discutir, levar          intuitivo daquele (v. adiante). Mais tarde, o
a termo e concluir, certamente  comum a to-               prprio Bacon considerava a R. como uma
dos; diferente em termos de preparao, mas                atividade especial do intelecto (ao lado da me-
igual quanto a ser faculdade de aprender" (De              mria e da fantasia), mais precisamente a fun-
leg., I, 10, 30). Sneca exaltava a R. por sua             o cuja tarefa  dividir e compor as noes
imutabilidade e universalidade:. "A R.  imut-            abstratas "segundo a lei da natureza e a evidn-
vel e firme no seu juzo porque no  escrava,             cia das prprias coisas" (De augm. scetit.. II,
mas senhora, dos sentidos. A R.  igual  R. as-            1). Assim,  s com Descartes que a R. volta a
sim como o justo ao justo; portanto tambm a               ser o guia fundamental do homem.
virtude  igual  virtude porque a virtude outra               Identificando razo e bom senso, Descartes
coisa no  seno a reta R.r (Ip., 66). Deste              restabelece o conceito clssico de R., e com
ponto de vista tambm a metafsica estica da              base nele formula o problema novo do mto-
R., para a qual ela  -- como diz o prprio                do. "A capacidade de bem julgar e de distinguir
Sneca (Ibicl.) -- "uma parte do esprito divino           o verdadeiro do falso, que recebe o nome de
infundida no corpo do homem", no nega sua                 senso ou R.,  por natureza igual em todos os
autonomia, mas, ao contrrio, exalta-a e confir-           homens; portanto, a disparidade de nossas opi-
ma-a. Certamente foi nesses conceitos que S.               nies no provm do fato cie que umas so
Agostinho se inspirou ao fazer o elogio da R.,             mais racionais que as outras, mas apenas de
que constitui os ltimos captulos de De online:           conduzirmos nossos pensamentos por cami-
"A R.  o movimento da mente que pode dis-                 nhos diferentes, sem levar as coisas em con-
tinguir e correlacionar tudo o que se aprende"             siderao. No basta ter o esprito so; o prin-
(De orei., II, 11, 30).  a fora criadora do mun-         cipal  aplic-lo bem" (Discours, I). Estas pa-
do humano: inventou a linguagem, a escrita, o              lavras famosas reintrocluziram no mundo
clculo, as artes, as cincias;  o que de imortal         moderno o conceito antigo (e especialmente
existe no homem (Ibicl., II, 19, 50). O entusias-          estico) de R. como guia de lodo o gnero
mo de S. Agostinho pela razo se explica facil-            humano. Assim, Spinoza surpreendia-se ao ver
mente: para ele, a vida  busca, e a R.  o                que s vezes queriam "submeter a R., mximo
princpio que institui e dirige a busca, tornan-           ciom de Deus e luz realmente divina, s pala-
do-a fecunda.                                              vras", no se considerando crime "falar inclig-
   No entanto, o neoplatonismo j subordinara              namente desse verdadeiro testemunho do Ver-
a R. ao intelecto, considerando-o superior                bo de Deus, que  a R., declarando-a corrupta,
razo porque dotado do carter intuitivo ou                cega e impura" (Tmct. theologico-jwliticus,
imediato que o transforma na viso direta da               cap. 15). Leibniz, por sua vez, insistia na velha
verdade. Segundo Plotino, a R. emana do inte-              tese de que a R. pertence ao homem e somente
lecto, "que est presente em todas as coisas               ao homem (your. ess., IV, 17, 2), e I.ocke atri-
RAZO                                                826                                                RAZO

bufa  R. uma determinao fundamental, que                 a filosofia s concede queles que advertiram
constitui a nica inovao autntica do concei-             a exigncia interior de compreender" (Fil. tio
to moderno em relao ao clssico: "a R.  o                (lir.. Pref.; trad. it. Messineo, p. 17). Isso signi-
instrumento do conhecimento provvel, e no                 fica que a razo no guia, mas chega postfactiiin
apenas do conhecimento estabelecido". Locke                 a compreender a realidade, a justific-la.
dizia: "Assim como a razo percebe a correla-                   li) O reconhecimento da R. como guia cons-
o necessria e indubitvel entre as idias ou             tante, uniforme e (s vezes) infalvel de todos
provas, em cada grau de qualquer demonstra-                 os homens, em todos os campos da atividade
o que produza conhecimento, de maneira                    destes, e acompanhado na maioria das vezes
anloga tambm percebe a correlao provvel                Pela determinao de um procedimento espe-
entre as idias ou provas em qualquer grau de               cifico no qual se reconhece a atuao prpria
 uma demonstrao  qual julgue ser devido o                da razo. As determinaes j concebidas so-
assentiniento" (Ensaio, IV, l"7, 2). Com essa de-           bre a tcnica especfica cia R. podem ser resu-
terminao, a R. era qualificada segundo a fun-             midas nos seguintes conceitos fundamentais: a)
o que lhe era atribuda pelo iluminismo sete-             discurso; li) autoconscincia; c) auto-revelao:
centista: princpio de crtica radical da tradio          d) tautologia.
e de renovao igualmente radieni do homem.                     //)  proeedmenio tli.scursiro  :> lcniai
Kanl tentava realizar plenamente o ideal ilu-              mais freqentemente considerada prpria da
mnista da R. Por um lado, idenliticava-a com a            razo. A ele Plato recorre para marcar a dife-
prpria liberdade de crtica ("Sobre a liberdade           rena entre a opinio verdadeira e a cincia: as
de crtica repousa a existncia da R., que no             opinies podem dirigir a ao to bem quanto
tem autoridade ditatorial, mas cuja sentena               a cincia, mas tendem a fugir para todos os
nunca deixa de ser o acordo dos cidados li-               lados, como as esttuas de Odalo, enquanto
vres, cada um dos quais deve poder formular                nio "so amarradas por um raciocnio causai
sem obstculos as suas dvidas e at seu veto")            L\Ien., 98 a). Ksse atamento ou essa conexo 
e por outro pretendia levar a R. diante cie seu            a tcnica discursiva. Tcnica discursiva  todo
tribunal e instaura a "crtica da R. pura", que            o procedimento silogstico de Aristteles,  pane
"no se imiscui nas controvrsias imediatamente            a determinao dos princpios, que so intu-
referentes aos objetos, mas  instituda para              dos pelo intelecto: discursivas so a silogstica
determinar e julgar os direitos da R. em geral"            necessitante e a dialtica (An.post., I, 33, 89 b
(Crit. R. Pura, Teoria transcendental do mto-             ~: Et. iiic, VI, 11, 1U3 b 1). No mesmo senti-
do, cap. 1, se. II). Est de acordo com o con-            do, os esticos definiam a R. como "um sistema
ceito iluminista de R. a definio de Whitehead:           de premissas e concluses" (I)IOG. I... VII, 1,
"a tuno da razo  promover a arte cia vida",             iS). A funo freqentemente atribuda  razo
no sentido cie que a R. teria a tarefa cie agir            (distinguir, correlacionar, comparar, etc. [v. os
sobre o ambiente para promover formas de                   trechos de Ccero e S. Agostinho citados em A\)
vida mais satisfatrias e perfeitas ('lhe Ennction         nio passa de expresso do mesmo procedi-
of Reasim. 1929, cap. I; trad. it. Cufaro, pp. 6           mento. S. Toms de Aquino dizia: "Os homens
ss.). Knquanto isso, aquilo que  primeira vista           chegam a conhecer a verdade inteligvel proce-
parece ser a maior garantia cia eficcia da R. --          dendo de uma coisa  outra; por isso so cha-
crer que ela habita a realidade e a domina, de             mados de racionais. F. evidente que raciocinar
tal modo que no h realidade no racional,                est para entender assim como mover-se est
nem racionalidade no real -- na verdade                   pura ficar parado, ou adquirir para ter: destas
constitui o abandono da funo diretiva da R.              coisas, a primeira  prpria do imperfeito; a
Hegel, que afirmou com mais rigor esse ponto               segunda, do perfeito" (S. Th., I, q. 79, a. 8). No
de vista, tambm negou a funo diretiva da R.:            comeo da Idade Moderna Descartes moldava-
"O que est entre a R. como esprito autocons-             se no mesmo procedimento para determinar
ciente e a R. como realidade presente, o que               siias regras do mtodo: "Os longos encadea-
diferencia aquela desta e no permite que se               mentos de razes, todas simples e fceis,
encontre satisfao nesta,  o estorvo de algu-            do que os gemetras costumam lanar mo
ma abstrao que se no libertou e no se                  pura chegar s suas demonstraes mais dif-
transformou em conceito. Reconhecer a R. no                ceis, deram-me a oportunidade de imaginar
presente e, assim, fru-lo  o reconhecimento              que todas as coisas que podem chegar ao co-
racional que reconcilia com a realidade, o que             nhecimento cios homens correlacionam-se da
RAZO                                                 82"                                               RAZO

mesma maneira" (Discours, II). A Lgica de                  experincia, portanto puramente fictcias e ape-
Port-Royal expressava de maneira diferente os               nas fonte de raciocnios dialticos, ou seja.
mesmos conceitos (ARNAILD, l.og., III, 1) em                sofsticos (v. In:iA; ANTINOMIAS). O resultado
que tambm Locke baseava sua doutrina da                    dessa distino kantiana  que s  vlido o
razo: "Xa R. podemos considerar estes quatro               procedimento do intelecto cujos conceitos deri-
graus: o primeiro e mais elevado consiste em                vam imediatamente da experincia, e que o
achar e descobrir as verdades; o segundo, cm                procedimento discursivo racional, com suas
disp-las de maneira regular e metdica, siste-             pretenses totalitrias, s d origem a noes
matizando-as numa ordem clara e justa, de tal               fictcias. Portanto, depois de Kant lica difcil
modo que sejam percebidas com evidncia e                   manter a definio da razo como tcnica
facilidade sua fora e suas interconexes: o ter-           discursiva.
ceiro, em perceber tais conexes: o quarto, em                  O conceito cia R. como discurso permite a
tirar uma justa concluso" (Ensaio. IV, 17, 3). A           considerao formal do procedimento racio-
distino que Spinoza estabelecia entre o se-               nal: possibilita uma lgica, que  na realida-
gundo gnero de conhecimento, que ele cha-                  de a lgica tradicional na forma elaborada
mava de R., e o terceiro, que chamava de cin-              pelos filsofos desde Aristteles at o fim do
cia intuitiva,  a distino tradicional entre o            sc. XIX. Entendida neste sentido, a lgica  ao
procedimento discursivo e o intelecto intuitivo             mesmo tempo descritiva e normativa: descriti-
(HL, II. -IO. schol. 2). F. Leibniz s fazia encon-          va em relao aos procedimentos prprios da
trar a expresso mais simples para o mesmo                  R., normativa no sentido de que essa mesma
conceito de R. ao afirmar que a R.  "a concate-            descrio vale como regra para o LISO correto
 nao das verdades" (Op., ed. F.rdmann, p. 479,            da razo. Nesse sentido, a lgica tradicional era
 393). Wolff dava o nome de "juzo discursivo"             definida com exatido como "arte de racioci-
operao da R., na medida em que consiste na                nar".
 correlao das proposies (Log.,  50-S1).                   /;) O conceito da R. como autoconsciuca
     O conceito de R. como discurso entra em                remonta a Fichte. Caracteriza-se pela identifi-
 crise com Kant, que, ao mesmo tempo em que                 cao entre R. e realidade, e pressupe o con-
 atribui carter discursivo a toda a atividade              ceito de R. como discurso. Como discurso, a R.
 cognoscitiva humana, considerando que ape-                  deduo; como deduo, tem um nico princ-
 nas Deus possui o conhecimento intuitivo (v.               pio, que  o F.u. Do Ku deriva, com necessi-
 DiscrRSjvo), distingue nitidamente a R. do inte-           dade infalvel, todo o sistema do saber, que 
  lecto, apesar cio carter discursivo comum aos            ao mesmo tempo o sistema da realidade. "Fon-
 cfos. A R. 6 a faculdade "que produz os concei-           te de toda a realidade  o F.u. Somente com o
 tos por si"; portanto, pode ser chamada de fa-             Ku e pelo Ku  dado o conceito de realidade.
 culdade dos princpios. Mas os conceitos que a             Mas o Eu  porque se pe e pe-se porque .
 R. produz no tm base na experincia; por                 Portanto, pr-se e ser so uma s e mesma
 isso. so simplesmente fictcios. "Se o intelecto          coisa" ( Wsseuschaftslehre. 1794,  4. C; trad. it..
 pode ser uma faculdade da unificao dos fe-               p. 92). As equaes em que essa doutrina se
 nmenos por meio de regras, a R.  a faculda-              baseia so as seguintes: R. = saber dedutivo;
 de de unificar as regras cio intelecto por meio            saber dedutivo = realidade; realidade + saber =
 de princpios. Por isso, ela nunca visa imediata-          autoconscincia. Schelling expressava essas
mente  experincia ou a um objeto qualquer,                mesmas equaes ao afirmar: "A natureza al-
mas ao intelecto, para, por meio de conceitos,              cana seu fim mais elevado, que  tornar-se
imprimir aos mltiplos conhecimentos deste                  inteiramente objeto de si mesma, com a ltima
uma unidade a priori; essa unidade, que po-                 e mais elevada reflexo, que nada mais  que
de ser chamada de racional,  de espcie to-                o homem ou. de modo mais geral, aquilo que
talmente diferente da outra que pode ser produ-             chamamos de razo. Temos assim, pela primeira
zida pelo intelecto" (Crt. R. Pura. Dialtica              vez, o retorno completo da natureza a si mes-
transcendental, Intr. II. a). Assim como o inte-            ma, estando evidente que a natureza  origi-
lecto, a R. procede discursivamente, mas consi-             nariamente idntica quilo que em ns se
dera que os procedimentos discursivos do inte-              revela como princpio inteligente e cons-
lecto se realizem em idias de totalidade e                 ciente (System des trajiszendentalen Idealis-
unidade (alma, mundo, Deus), que so perfei-                mus, 1800. Intr.,  1; trad. it.. p. 9). F Hegel
tas, umas no podem ser confrontadas com a                  expressava o mesmo conceito da seguinte
RAZO                                                     828                                              RAZO

maneira: "A autoconscincia, ou seja, a certe-                  el<-\ a R.  o manifestar-se fenomenolgico dos
za de que suas determinaes so to objetivas                  objetos (que podem ser coisas ou essncias),
-- determinao da essncia das coisas -- quanto                seja esse manifestar-se dotado de carter neces-
seus prprios pensamentos,  a R.; esta, por                    srio ou apodtico, seja de carter assertrio.
ser tal identidade,  no s a substncia ab-                   Husserl diz: "A viso por assim dizer assertria
soluta, mas tambm a verdade como saber"                        de uma individualidade, como p. ex. o perce-
(Ene,  439). Km outras palavras, para Hegel a                  ber uma coisa ou uma facilidade individual,
R.  a identidade da autoconscincia como pen-                  distingue-se em seu carter racional da viso
samento com suas manifestaes ou determina-                    apodticad compreenso de uma essncia ou
es, que so as coisas ou os acontecimentos;                   de uma relao de essncias" (Ideen, 1,  137).
 a identidade de pensamento e realidade. De                    O termo mais abrangente, o conceito que com-
forma epigrfica, esse conceito era expresso                    preede tanto a viso assertria, que  dada de
por Hegel da seguinte maneira: "a R.  a certeza                fato, mas pode ser diferente, quanto a viso
da conscincia cie ser realidade: assim o idealis-              apodtica, que  necessria,  a conscincia ra-
mo expressa o conceito de R." (Pbdnomen. des                    cional, que Husserl chama tambm, em geral,
Geisles. 1, V, 1; trad. it., p. 209).  bvio que. des-         de evidncia (Ibid.. 137). Desse ponto de vista,
se ponto de vista, a H. no  discursiva no                     o carter -fundamental da racionalidade  a vali-
sentido de concatenar expresses lingsticas e                 dade do posicionamento: se o objeto  verda-
inferir uma da outra por meio de regras deter-                  deiramente posto, o ato  vlido, e a posio
minadas ou determinveis, mas  a inferneia                    tem carter racional (Ibid.,  139). Mas aquilo
(pretendida) das determinaes cio pensamento                   que do ponto de vista cio ato notico  a posi-
e da realidade, umas das outras, num processo                   o do objeto, do ponto de vista objetivo  a
nico cuja perfeita "necessidade"  afirmada.                   evidenciao do objeto, seu dar-se ou seu re-
F.ste ponto de vista impossibilita a considerao               velar-se (Ibid.,  139). E como, em qualquer
formal das tcnicas racionais, que est ligada                 esfera do ser, o modo de auto-revelar-se dos
concepo a) de R. Como autoconscincia, a R.                   objetos  diferente, todo tipo de realidade
nunca  formal:  sempre idntica  realidade.                  traz consigo "uma nova doutrina concreta da
Hegel diz: "O intelecto determina e firma as de-                R." (Ibid.,  152). F.sse conceito de R. como
terminaes. A R.  negativa e dialtica porque                 autorevelao ou auto-evidncia  aceito inte-
em nada resolve as determinaes do intelec-                    gralmente por Heidegger: "Apenas porque a
to. Kla  positiva porqtie gera o universal e nele              funo do logos  fazer ver algo, fazer perceber
compreende o particular" ( Wissenschaft der                     o ente, logos pode significar R." (Sein undZeii,
I.ogik, Pref. da Ia ed.; trad. it., p. 5). Por "com-             7, B). Esse mesmo conceito  apresentado de
preender o particular" entende-se que compreen-                 forma mais mtica por Jaspers: "A R. no  de
de as coisas ou as determinaes reais, que, em                 fato uma verdadeira nascente originria, mas,
ltima anlise, nada mais so que suas mani-                    por ser conexo de tudo,  semelhante a uma
festaes particulares. A negao da lgica for-                nascente originria na qual vm  /z/ztodas as
mal  parte integrante desse ponto de vista; por                nascentes" ( Vernunft undlixistenz, 1935. II, 5;
isso, retorna sempre que ele aparece. Basta                     trad. it., p. 50). A direo para a qual a R. se
lembrar que Croce rejeitava a lgica formal                     move  a infinita clareza, e aquilo que nela ten-
baseada no mesmo pressuposto hegeliano de                       ta aclarar-se  a existncia: "a existncia alcana
identidade entre R. e realidade, expresso na                    a clareza somente por meio da R.: a R. s tem
forma cie identidade entre filosofia e histria:                contedo em virtude da existncia" (Ibid., II, 6;
"A riqueza da realidade, dos fatos, da experin-                p. 53). F bvio que, mesmo deste ponto de vista.
cia, de que pareceria carecer o conceito puro,                   impossvel a considerao formal do pro-
portanto a filosofia, em virtude da declarada                   cedimento racional. A R. nunca  formal por-
distncia em relao s cincias empricas, -                  que  sempre preenchida pelo contedo que
lhe devolvida e reconhecida; e no mais na                      nela se manifesta evidente ou se esclarece.
forma diminuta e imprpria do empirismo, mas
sim de modo total e integral. Isso se realiza                      d) O conceito de R. como tautologia tem
pela conjuno, que  unidade, de filosofia e                   origem em Hume, que toi o primeiro a fazer a
histria" (Lgica, 1920, p. 392).                               distino ntida entre "relaes de idias" e
                                                                "coisas de tato". "A primeira classe pertencem
   t") O conceito de R. como auto-revelao ou                  cincias como a geometria, a lgebra e a arii-
evidncia foi estabelecido por Husserl. Para                    mtica; em suma, toda proposio intuitiva ou
RAZO                                               829                                               RAZO

demonstrativamente certa [no sentido lockia-              Assim, o procedimento racional julgado caracte-
no]. (...) As proposies dessa classe podem              rstico das disciplinas s quais Hume atribua
ser descobertas com uma pura operao do                  por objeto apenas as relaes de idias (lgi-
pensamento, e no dependem de coisas que                  ca e matemtica) foi reduzido  tautologia.
existem em algum lugar do universo" (Inq. Cone.           Wittgenstein diz que as proposies da lgica,
 Underst., IV, 1). Na verdade, Hume no afir-             assim como as da matemtica (Ibicl., 6.21),
mou explicitamente o carter tautolgico ou               nada dizem. No entanto, isso no quer dizer
(para usar um termo kantiano) analtico das               que so inteis, pois revelam a identidade de
proposies que expressam simples relaes                significado existente sob formas proposicionais
das idias entre si, mas de algum modo o pres-            diferentes e podem, portanto, ser usadas para
sups quando insistiu no fato de que as propo-            a transformao de uma proposio numa ou-
sies que expressam coisas de fato no so               tra que tenha o mesmo significado, mas forma
logicamente derivveis uma da outra. Todavia,             diferente. Contudo, nenhuma das proposies
para formar a concepo de R. em foco inter-              da lgica e da matemtica fornece qualquer
veio tambm outro componente conceptual,                  informao acerca do mundo. A reduo da R.
exposto pela primeira vez por Hobbes: a redu-             a procedimento tautolgico tem, pois, os seguin-
o da R. a clculo das proposies verbais.              tes resultados: 1" so racionais, no sentido pr-
Hobbes disse: "A R. nada mais  que o clculo             prio do termo, somente os procedimentos for-
-- a adio e a subtrao -- das conseqncias            mais da lgica e da matemtica (como parte ou
dos nomes gerais usados para caracterizar e               todo da lgica); portanto, racionalidade e logi-
significar nossos pensamentos: para caracteri-            cidade coincidem; 2- racionalidade e logicidade
z-los quando calculamos para ns mesmos,                 nada tm a ver com realidade. Portanto, esse
para signific-los quando demonstramos ou                 conceito da R. constitui a inverso simtrica
comprovamos nossos clculos para os outros                cio conceito b), que, ao contrrio, identificou
homens" (Leviath., I, 5). Esta idia de Hobbes            racionalidade e realidade, e ops ambas as con-
concretizou-se apenas a partir de meados do               cepes  formalidade lgica pura, declarada
sc. XIX, com a fundao da lgica matemtica             sem valor (cf. sobre a concepo em exame, R.
por parte de G. Boole (Laws ofTbought, 1854),             VN MISHS, Kleines Lehrbnch des Positivismns,
que foi o primeiro a mostrar a impossibilidade            1939,  10; trad. it., pp. 164 ss. ; J. R. WKINBF.RG,
de reduzir o raciocnio matemtico s formas              An Examination qf Logical Posilivisni, 1950),
de raciocnio descritas por Aristteles, dando            cap. II; trad. it., pp. 86 ss.).
incio a uma lgica estreitamente ligada aos                 As quatro alternativas tpicas que a teoria da
mtodos de clculo. O sucesso ulterior dessa              R. seguiu at hoje so claramente insuficientes
lgica, principalmente graas a Frege e a                 em face da tarefa que se atribui  R. de guiar o
Russell (v. LCICA), constitui um antecedente            homem em todos os campos. A primeira delas
histrico indispensvel do conceito de R. em              esgotou-se historicamente, e o abandono da
exame. Que tal procedimento tivesse carter               lgica em que era expressa  um sinal desse
to lgico s ficou claro mais tarde, no Crculo          esgotamento. As alternativas (b)c( c) impossibili-
de Viena, com a obra de Wittgenstein (1922). O            tam a determinao de procedimentos rigoro-
fundamento dessa obra  a reduo da R.                  sos; a (b) pe em risco a prpria funo diretiva
linguagem. Wittgenstein afirmava que "as pro-             da razo. A alternativa (d) possibilita o desen-
posies da lgica so tautologias" ( Jractcitus,         volvimento de uma disciplina autnoma, que 
6.1), que "nada dizem (so as proposies ana-            a moderna lgica matemtica, mas  restrita
lticas)" (Ibid., 6.11), e que "so sempre falsas         demais para expressar as tarefas da R. em todos
as teorias que mostram uma proposio cia l-             os campos.  certamente possvel empregar
gica provida de contedo" (Ibicl., 6.111). F,             em todos o,s campos as tcnicas lgico-matemti-
acrescentava: "A caracterstica especial das pro-         cas construdas com base na noo de R. como
posies lgicas  que, s pelo smbolo, pode-            tautologia, mas nem todos os procedimentos
se reconhecer que so verdadeiras, e este fato            que podem ser definidos como racionais po-
encerra em si toda a filosofia da lgica.                 dem ser reduzidos a tais tcnicas. Em geral,
Analogamente, um dos fatos mais importantes               comportamento racional  o que permite domi-
 que a verdade ou falsidade das proposies              nar uma situao, enfrentar suas mudanas e
no lgicas no pode ser reconhecida somen-               corrigir os eventuais erros do prprio procedi-
te a partir da proposio" (Tractatus, 6.113).            mento. Portanto, a racionalidade de um proce-
RAZO DE ESTADO                                     830                                    REAIS CINCIAS


climento s pode ser determinada em relao              sentido mais geral que essa expresso costuma
situao especfica que ele permite enfrentar. E          ser usada at nossos dias.
a considerao da R. remete desde logo (como                 RAZO PURA. V. Pr RO.
queria Husserl)  considerao das esferas ou                RAZO SUFICIENTE. V. FUNDAMENTO.
dos campos especficos, unicamente em rela-                    RAZOVEL Vlat. Ralionabihs ou RiUioimin-,
o aos quais se pode decidir sobre a ra-                 in. Reasonable. fr. Raisonable, ai. Venuinftig,
cionalidade de um procedimento. Deste ltimo              it. Ragiouerole). Aquilo que est em conformi-
ponto de vista, a teoria da R. hoje no pode ser          dade com a razo ou com ;is regras que ela
dada por uma metafsica da R., mas por investi-           prescreve em determinado campo de pesquisa
gaes metodolgicas e crticas que, do exame             ou em geral. Neste sentido. Locke talava da
de procedimentos autnomos de que o ho-                   "racionabilidade do cristianismo". Fala-se tam-
mem dispe em cada campo de pesquisa, re-                 bm de "certeza R." para designar a certeza que
montem s condies gerais em que esses pro-              pode ser deduzida das regras do domnio a
cedimentos podem *er projetados.                          que se faz aluso, mas no  absoluta. Devvey
    RAZO DE ESTADO. Joo Botero, que in-                 diz: "A racionabilidade  questo de relao
troduziu essa expresso como ttulo de um li-             entre os meios e os fins. (...) F R. buscar e esco-
vro seu (Delia rcigiou di stcito, 1589). usou-a           lher os meios que, com toda a probabilidade,
para designar "a resenha dos meios aptos a                produziro os efeitos desejados" (Logic. I; trad.
fundar, conservar e ampliar um Estado", que              it., pp. 4l--t2).
"o domnio firme sobre os povos". Mas na rea-                  Como correlativo cie racionabilidade. o ter-
lidade essa expresso passou a indicar o prin-            mo R. implica uma conotao limitativa que,
cpio do maquiavelirimo vulgar, e isso graas             em primeiro lugar, exclui a infalibilidade da ra-
ao prprio Botero, que, mesmo se opondo a                 zo e, em segundo, inclui a considerao dos
Maquiavel, admitia o princpio de que os fins             limites e das circunstncias em que a razo
justificam os meios em poltica (v. MAQTIA-               vera a agir. Portanto, "ser R." significa, na lngua
VKI.ISMO).                                                comum, dar-se conta das circunstncias c das
   RAZO PREGUIOSA (gr. py A.yo; kit.               limitaes que elas comportam, renunciando-
Ignararatkr.A. Fan/e\'eniiiuft;'tt. Kagionpigra).         se a atitudes absolutas, sejam elas tericas ou
Raciocnio ou arguniento que leva  inrcia.              prticas.
J Plato chamava de' preguioso o argumento                   RAZES SEMINAIS (gr. Ayoi OKepuaxtKO:
sofista de que  intil indagar por que no se            lat. Nalionesseniinales). Partes da razo divina
pode indagar aquilo que se sabe (uma vez que              que do origem s coisas. Segundo os esticos,
se sabe) nem aquilo que no se sabe, uma vez              assim como todo ser vivo  produzido por uma
que no se sabe o que indagar (Meu., 86 b).               semente, todas as coisas so produzidas por
Mas com o nome de R. preguiosa chegou at                uma partcula da razo divina, que por isso 
ns especialmente um argumento de provvel                uma semente racional. Essa noo ressalta a
origem megrica, exposto pelo estico Crisipo             predeterminao daquilo que  gerado (AKCIO,
(Pu TAKCO, Moralia, II, p. 574 e: cf. Stoicorum           Plac. ir. 33; cf. J. STOBKO, I-cl., I, P . 3); foi
fragmenta, II, p. i7"7), que Ccero assim rela-           retomada pelos neoplatnicos (cf. PI.OTINO, Emi.
tou: "Se for teu destino curar-te dessa doena,           II. 3. 16) e por S. Agostinho (Pe diivrsisc/itaes-
 vais curar-te recorrendo ou no a um mdico.             tionibns. 83, q. 46),
 Assim tambm, se for teu destino no te cura-               REAO (in.        Reaction-. fr.   Ractioir. ai.
 res dessa doena, no vais curar-te recorrendo           Reac/ion: it. Reazione). 1. Ao igual e de sentido
ou no ao mdico. Ora, teu destino  uma dessas           contrrio a determinada ao. E neste senti-
 duas coisas; portanto, de nada te adianta recor-         do que a fsica nevvtoniana utiliza essa palavra.
 rer ao mdico" (Defalo. 12. 28). Leibniz fez                 2. Em psicologia: qualquer resposta a um
 aluso a esse velho argumento megrieo ou                estmulo. Tempo de reao: intervalo entre est-
estico ( Tcod.. I, 55). Mais genericamente. Kant         mulo e resposta.
chama de R. preguiosa "todo princpio que                    .3. Em poltica: movimento que tende a anu-
 leve a considerar como absolutamente cumpri-             lar ou a neutralizar os efeitos de uma revoluo
da a investigao, de tal modo que a R. se                ou de uma mudana qualquer, ou mesmo im-
 tranqiliza, ao dar por cumprida sua tarefa"             possibilitar a ocorrncia de mudanas.
 (Crt. R. Pura, Dialtica. Apndice  Dialtica            REAIS CINCIAS. V. CINCIAS, CLASSIFICA-
 transcendental: do objetivo final, etc). E neste         O DAS.
REAL                                                         31                                          REALIDADE


   REALdat. Realis: in. Real: Ir. Reh ai. Real:                   dade a que a idia parece aludir, mas sem pro-
 il. Reale). 1. Que se refere  coisa. P. ex.. "defi-              vas, assim como uma pintura no prova a R. da
nio R.  a definio da coisa e no do seu                       coisa representada. Para justificar a R. das coi-
nome.                                                              sas, Descartes recorreu  veridicidade de Deus:
     2. Aquilo que existe de fato ou atualmente.                   em sua perfeio. Deus no pode enganar-nos,
Corresponde aos vrios sentidos do termo rea-                      no pode permitir que haja em ns idias que
lidade (x.).                                                       nada representem (Md.. IV). Mas Descartes
     3. I lerhart chamou de Reais os seres efetiva-                chegou  existncia de Deus no s reelabo-
mente existentes, "cuja natureza simples e pr-                    rando a prova ontolgica como tambm admi-
pria desconhecemos, mas sobre cujas condi-                         tindo o princpio de que "na causa eficiente e
es interiores e exteriores  possvel adquirir                   total deve haver pelo menos tanta R. quanto no
uma soma de conhecimentos que p o d e m                            efeito", princpio com base no qual a idia de
aumentar infinitamente". Tais entes so irrela-                    Deus. que  a idia tia mxima perfeio, deve
tivos entre si e por isso qualquer das suas rela-                  ter como causa um ser que lenha tanta "K."
es deve ser considerada uma constatao                          quanto aquela que a idia representa: Deus
acidental (zjallige Ansicl.il) que no qualifica                  {Ibiii. 111). A evoluo ulterior tio problema
c no modifica sua natureza (Hiiileituiif) in die                  levou  negao tia realidade. O empirismo
Pbilosopbie. 1813.  1S2 ss.).                                    ingls, com Berkeley e Hunie. reduzi:! a R. das
     REALIDADE (in. Reality; IV. Ralit; ai.                      coisas ao ser percebido, negando-a, pois. como
Realilat. \\"irklicbkeit: t. Realt). 1. Hm seu sig-              modo tle ser autnomo. Por outro lado, com
nificado prprio e especfico, esse termo indica                   I.eibniz. o racionalismo resolvia as coisas em
o modo de ser das coisas existentes fora da                        elementos ou tomos (mnadas) de natureza
mente humana ou independentemente dela. A                          espiritual, negando, tambm desse modo. o
palavra realilas foi cunhada no fim da es-                         carter especfico ele sua R. (v. IM.-V1T:KIAI.ISMO).
colastica. mais precisamente por Duns Neot.                            Kant de algum modo reafirmou a R. das
liste a usou sobretudo para definir a individua-                   coisas, mantendo na pahnra R. (Realill) a sig-
lidade, que consistiria na "ltima realidade do                    nificao especfica de R. das coisas ou. como
ente", que determina e contrai a natureza co-                      ele mesmo tliz. "coisalidade" (Sachbeil) ((.'rl.
mum ad esse bane reiu.  coisa singular (Op.                       R. Pura. Analtica, II. cap. I). contrapontlo-lhe a
O.Y.. II, d. 3. q- =>. n. 1). D u n s e s e u s discpulos         "idealidade" do espao e tio tempo, que so
preferiram chamar essa realitasc baeccelas.                      formas tia intuio, e no tias coisas (Ibid.,  3).
Mais tarde, esse termo passaria a designar o                       Mas, para ele. o problema tliz respeito  exis-
esse in re&d cscolstica, p. ex. no sentido com                    tncia (l)asein) mesma tias coisas. K o que ele
que S. Anselmo pretendia passar, atravs da                        examina em "Refutao do Idealismo". A solu-
prova ontolgica. do esse in inlellectn ("Knte                     o ento proposta  que "a conscincia tle mi-
superior a tudo") ao seu esse in re{l'i'osl. 2). ou                nha prpria existncia  ao mesmo tempo
ento no sentido com que os escolsticos tala-                     conscincia tia existncia tle outras coisas fora
vam do universal /;/ iv, "incorporado nas coi-                     tle mim". A prova tlessa assero  que a cons-
sas". Assim, o oposto de R.  iclealidade, que                     cincia do tempo, isto , da mudana, no seria
indica o modo de ser daquilo que esta na men-                      possvel sem a conscincia tle algo permanen-
te e no pode ser ou ainda no foi incorporado                     te: e esse algo permanente, no podendo ser
ou atualizado nas coisas. A referncia a coisas                    datlo pela prpria conscincia do tempo, pode
tambm evidente est em expresses como                            ser tlado apenas pela coisa exterior  conscin-
"definio real", para indicar a definio da coi-                 cia. Seja vlida ou no essa demonstrao, est
sa, e no do nome, e "direitos reais", para indi-                  claro que. por uni lado, Kant julgava vlido o
car os direitos pertinentes s coisas, e no s                    primado tia conscincia estabelecido por Des-
pessoas.                                                           cartes, para quem a R. tias coisas  um proble-
                                                                   ma que exige demonstrao, e. por outro, ten-
   O problema suscitado diretamente pela no-                       dia a destruir essa formulao, relacionando a
o de R.  o da existncia das coisas ou do                       conscincia da existncia com a existncia tias
"inundo exterior". Hsse problema nasceu com                        coisas (V. CoisscifNCiA). Hle nem sequer se pro-
Descartes, ou seja. com o princpio cartesiano                     punha o problema do modo de ser especfico
de que o objeto do conhecimento humano                            das coisas, do tipo de existncia que lhes 
somente a idia. Desse ponto de vista, torna-se                    prprio. Contudo, esse problema est intima-
imediatamente duvidosa a existncia da reali-
REALIDADE                                                                                       REALIDADE


mente ligado ao da "existncia" das coisas, e s         origem da nossa crena na realidade do
uma resposta a ele (seja ela qual tor) pode dar          mundo exterior, em Gesammelte Schriftcn,
significado  sua soluo positiva. Isto porque,         1890, V, 1, pp. 90 ss.). A resistncia definiria o
se as coisas existem, surge imediatamente a              modo de ser da R., isto , das coisas; cor-
pergunta: qual 6 o sentido de sua existncia?            respondentemente, a experincia dessa R. se-
Portanto, deve-se considerar que o problema              ria mais volitiva e prtica que cognitiva. Scheler
da R.  composto por esses dois problemas                aceitou esta interpretao da R. (Die Wis-
inseparveis: o da existncia e o do modo de             sensformen   und die Cesellscbaft,   pp.   455 ss).
ser especfico das coisas. O idealismo ps-              Tese substancialmente anloga foi apresentada
kantiano deteve-se mais no segundo que no                por Santayana no livro Ceticismo e f animai
primeiro desses problemas. Segundo Fichte, a             (1923), no qual ele mostrava que a crena na
R. consiste em geral na atividade do Eu, que             realidade  devida a experincias puramente
"pe o objeto limitando-se" e transporta para o          animais (fome, luta, etc.) e s  justificvel
objeto uma parte de sua atividade. "A fonte da           com base em tais experincias. O mesmo
realidade ( Realitt)  o Ku" -- diz Fichte. "Ape-       Santayana expusera essa noo de R. em
nas pelo Ku e com o Eu  dado o conceito da              lsays in Criticai Realism (1920), obra publi-
realidade. Mas o Hu  porque se pe, e se pe            cada por sete filsofos americanos (v. RFA-
porque . Portanto, pr-se e ser so uma e               LlSMO).
mesma coisa. Mas o conceito de pr-se e o de                 Na filosofia mais recente o problema da R.
atividade em geral so, por sua vez, uma s e            praticamente deixou de ser problema da "exis-
mesma coisa. Portanto, toda R.  ativa e toda            tncia" cias coisas para tornar-se cada vez mais
coisa ativa  R." ( Wissenschaftsleh re,  4, E).        problema do modo de ser especfico das coi-
Essa idia de R. como atividade passou a fazer           sas. Suas formulaes so feitas segundo a
parte da bagagem do Romantismo e influen-                alternativa aberta pelas doutrinas que reconhe-
ciou o desenvolvimento posterior do proble-              cem o carter no simplesmente cognitivo da
ma. "Atividade  R. propriamente dita" -- dizia          experincia da realidade. Heidegger negou ex-
Novalis (Fragmente, 190). Schopenhauer afir-             plicitamente o primado da conscincia, do qual
mava categoricamente "que a essncia cios ob-            nascia o problema da existncia cias coisas. "Crer
jetos intuveis 6 a sua ao: que  na ao que          n realidade do 'mundo exterior' (com ou
consiste a R. do objeto, e que a pretenso de            sem direito), demonstrar essa realidade (sufi-
uma existncia do objeto fora da representa-             cientemente ou no), pressupor essa realidade
o do sujeito e mesmo de uma essncia da                (explicitamente ou no), tudo isso so tentati-
coisa real diferente da sua ao no tem senti-          vas que pressupem antes de mais nada o su-
do; ao contrrio,  uma contradio" (I)ie Welt,         jeito sem mundo, vale dizer, no consciente de
I,  5). Como se v, na origem da reduo cie R.         seu mundo, que eleve, portanto, comear por
a atividade est um sentido idealista. Todavia,          fundar a segurana cie seu mundo" (Sein und
ela serviu para abrir uma nova alternativa de            Zeit,  43, a). O problema da existncia do
soluo para o problema: a R. no seria simples          mundo exterior ou cias coisas desaparece por
objeto de conhecimento, mas um modo de ser               si mesmo uma vez que se elimine o pressupos-
que se revela melhor para outras formas de ex-           to falaz do "sujeito sem mundo", ou seja, pressu-
perincia. A noo cie atividade, to apreciada          posto de que o homem no  j e sempre
pelo Romantismo, representa o primeiro mo-               sobretudo um ser no mundo. Restabelecido este
delo dessa soluo. Por outro lado, o sensaeio-          carter fundamental do modo de ser do ho-
nismo de Condillac mostrara que a idia de R.            mem, que por isso  um 'ser-a" (em que a in-
derivava cio sentido cio tato; mas o sentido era         dica sua relao com o mundo), o problema da
entendido por Condillac de maneira ativa e di-           R. torna-se o problema do modo como as coi-
nmica, como guiado e sustentado pela neces-             sas do mundo se apresentam ao homem ou
sidade e por desejos (Trait des sensations,             esto em relao com ele. Segundo Heidegger,
 1754, 1, 3, 1; I, 7. 3; II, 5, 5). Mais tarde, Destut   esse modo de ser  a "simples presena", uma
de Tracy relacionara a idia de R. com a expe-           vez que a existncia  o modo cie ser reservado
rincia da resistncia que as coisas opem ao            ao ser-a, ao homem. "Se a expresso R. signifi-
movimento (Ideologia, 1801, cap. 8). Na filoso-          ca ser do ente (res) simplesmente presente no
fia contempornea, Dilthey defendeu idia an-           mundo (e de fato nada mais deve ser pensado
loga (Contribuio  soluo do problema da              dela) na anlise desse modo de ser segue-se
REALIDADE                                           33                                        REALIDADE

que o ente intramundano s  concebvel                   da R.: o modo cie ser das coisas. A esse respei-
ontologicamente se tor esclarecido o fenmeno             to, limitou-se (como fazem seus seguidores at
da intramundanidade. Mas este se baseia no fe-            hoje) a repropor a velha tese de Mach (Amilyse
nmeno do mundo, que, por sua vez, enquan-                der Hmpfindmif>en, 1900), segundo a qual as
to momento essencial da estrutura do ser-no-              coisas so compostas pelos mesmos elementos
munclo, pertence  constituio fundamental               ltimos que compem o eu (as sensaes), e
do ser-a. O ser-no-mundo, novamente,  onto-             estes elementos ltimos so neutros em si, ou
logicamente articulado na totalidade do ser cio           seja, nem subjetivos, nem objetivos. Ksta tese
ser-a, que se caracteriza como Cuidado                   obviamente no d conta do carter especfico
{(.'ura)" (Ibitl.  43, b). Precisamente porque o         da R. cias coisas, no explica por que um con-
ser do ser-a (a existncia humana)  Cuidado,            junto de tais elementos neutros assume, em
os entes de qtie essa existncia se ocupa, que            cada caso diferente, as caractersticas cie uma
so diferentes dela -- as coisas (cujo modo de            "coisa" ou de um "eu".
ser  a R.) -- caracterizam-se pela instntmenta-              Alm do significado cujas interpretaes
lidade. "O modo cie ser desse ente  a instru-            estudamos at aqui. a palavra R. tambm cos-
mentaliclade, que, no entanto, no deve ser               tuma ser usada nos outros significados abaixo,
vista como tendncias cie interpretao. (...) A          que devem ser considerados secundrios por-
instrumentalidacle  determinao ontolgico-             que so designados com mais propriedade por
categoral do ente como  em si" (Ibd.,  15).           outros termos do vocabulrio filosfico.
De tal modo, Heidegger destacou o carter ins-                2. Em oposio a aparncia, iluso e outros
trumental das coisas, em virtude cio qual elas            semelhantes, R. significa s vezes o ser em
podem valer como meios para o homem. Mas                  qualquer dos seus significados existenciais.
Heidegger julga que esse carter no pertence             Assim p. ex., na obra de Bradley. Appearance
s coisas na medida de sua relao com o                  and Realty (1895), a oposio anunciada pelo
homem, mas constitui seu ser "em si", sua                 ttulo  entre o aparecer e o ser, uma vez que
essncia.  parte essa pretenso, a anlise de            ele no  limitado  realidade no seu sentido
Heidegger pode ser considerada uma caracte-               especfico, vale dizer, ao modo cie ser das coi-
rizao do modo de ser das coisas ou da "R.",             sas. Dewey empregou a palavra no mesmo
entendida em seu significado prprio e espec-            sentido, mas com uma conotao crtica: "Na
fico. Por outro lado, essa mesma anlise mos-             sua frmula mais breve, a R. torna-se existn-
trou o carter arbitrrio do "problema da R.",            cia, qual gostaramos que fosse depois que
no modo como foi entendido a partir de Des-               analisamos seus defeitos e decidimos quais de-
cartes, como problema cie Lima R. "exterior"             vem ser eliminados; a 'R.'  aquilo que seria a
conscincia. Mostrou que tal problema surge               existncia se nossas preferncias racionalmente
cie um pressuposto filosfico infundado, re-              justificadas estivessem to completamente es-
presentado pela tese do "sujeito sem mun-                 tabelecidas na natureza que esgotassem e de-
do" ou, em outras palavras, de uma existncia             finissem seu ser por inteiro, tornando, pois,
do homem que no consiste na relao com o                desnecessrias a luta e a busca. O que  elimi-
mundo.                                                    nado (uma vez que a perturbao, a luta, o
     significativo observar que quase simul-             conflito e o erro ainda existem empiricamente,
taneamente a essas anlises de Heidegger o                algo  eliminado), sendo excludo por defini-
problema da R. exterior era considerado um                o da R. plena,  atribudo a um grau ou a
"pseudoproblema" de um ponto de vista total-              uma ordem do ser que se afirma ser metafisica-
mente diferente, do Crculo de Viena. Carnap              mente inferior; essa ordem recebe vrias desig-
(Scheinsprobleme in derPhosophie, das Fremd-             naes: aparncia, iluso, esprito mortal ou
psychische und der ldealismus-streit, 1928) e             puramente emprico, em contraposio ao que
Schlick (Positivismus und Realismus. reed. em             , real e verdadeiramente'" (Hxperience and
Gesammelte Aufstze, 1938) rejeitavam tanto a             Nature, cap. If, p. 54).
tese da irrealidade do mundo exterior quanto                  3. Em oposio a possibilidade, potncia-
da sua R. tachando-as de pseuclo-afirmaes,              lidade e s vezes tambm a necessidade, essa
porquanto nenhuma das duas se prestava a veri-            palavra significa atualidade, efetividade ou aquilo
ficaes experimentais. Mas o Crculo de Viena            que se atualizou ou efetivou e possui existncia
no apresentou qualquer soluo cio segun-                de fato. O termo alemo Wirklichkeit, diferente
do aspecto -- o mais legtimo -- do problema              de Realitt, tem esse sentido especfico, em-
REALIDADE PRESUNTFVA                                            83 i                                              REALISMO


bora os filsofos nem sempre se atenham                                oposta a elas. tia qual elas dependem em sua
estritamente a essa distino. Nesse sentido, a                        existncia emprica" ( Wisseiischa/tslehre. 1794,
palavra designa uma das categorias tia lgica                           V. II; trad. it., 231). Schelling falava cie um idea-
tle Hegel. "A R.  a unidade imediata, que se                          lismo realista {Rcal-idcalismus) ou tle um R.
produziu, da essncia e tia existncia, ou do                          idealista (Ideal-tvalismus) (Wcrkc. 1. X. p. 107)
interno e tio externo" (F.nc,  1-42): com isso.                       no mesmo sentido que Fichte. A partir tle en-
1 legel pretende tli/er que a R.  a essncia que                      to, o R. foi qualificado e definido das maneiras
se atualizou como existncia, ou o interno que                         mais diferentes, e quase sempre as doutrinas
se manifestou efetivamente no externo. Quem                            que o adotaram como insgnia qualificaram tam-
insistiu na distino entre Wirklicbkcit e                             bm como realistas as doutrinas do passado
Rea/itat i\n   Lotze   (Mikrokosmos.   III.   p.   S3^).   X.          que coincidiam com seu ponto de vista. Assim.
Hartmann, por sua vez. utilizou a distino,                           p. ex.. Plato foi considerado realista porque
descobrindo na efetividade ( Wirklicbkcit) o                           admitia a realidade tias idias (seja qual tora
sentido primrio do ser (Mglicbkcit mui Wirk-                         significao disto), mas tambm loi definido
licbkcit. 1938) (v. SHR).                                              como idealista porque tratava tle idias. Seme-
   REALIDADE PRESUNTIVA (ai.                       Prasitm/)-          lhantes anlises (e as controvrsias que provo-
tirc Wirklicbkcit). Foi assim que Husserl cha-                         cam) no passam de perda de tempo. Menos
mou a R. das coisas em relao  "R. absoluta",                        intil talvez, seja esclarecer o significado das
necessria, tia conscincia (Iclccn. 1,  46).                         formas mais conhecidas que o R. assumiu na
  REALISMO (lat. Realismus. in. Recilisni, fr.                         filosofia moderna. Nesse caso, alm das j cita-
Ralismc. ai. Rcalisiuus. it. Realismo). Fsta pala-                    das, podem ser lembradas as seguintes:
vra comeou a ser usada em fins do sc. XV.                                ei) O R. emprico tle Kant assumiu vrios
designando a corrente mais antiga cia F.sco-                           nomes, permanecendo substancialmente o mes-
lstica. em oposio  chamada corrente "mo-                           mo: independncia tia existncia tias coisas em
derna" tios nominalistas ou terministas. O pri-                        relao ao ato de conhecer. \Y\ Hamilton cha-
meiro a us-la foi provavelmente Silvestro                             mou esse ponto de vista de R. natural ou pre-
Mazolino de Prieria. em Conipcndiuni dialcc-                           sciitacioiiismo. considerando-o tpico da es-
ticcic. de 1 t96(ef. PKAML, Gcscbicblc der I.ogik.                     cola escocesa, tia qual derivava sua filosofia (v.
IV. p. 292). O R. afirmava a realidade dos uni-                        PRRSKNTAQOMSMO). C) famoso artigo tle G. E.
versais (gneros e espcies), entendendo con-                          Moore. publicado em Minddc 1903. "Rcfuia-
tudo tle maneiras diferentes essa mesma reali-                         co do idealismo", inspira-se num ponto de
dade (V. rMVI-RSAl.).                                                  vista anlogo: defende a independncia do
    No sentido mais genil e moderno, esse ter-                         objeto conhecido em relao ao ato psquico
mo foi retomado por Kant na primeira edio                            com que  conhecido. Fssa independncia era
tle Crtica da Razo Pura. para indicar, por um                        chamada de tese tio R. ingnuo (ai. Scven
lado, a doutrina (oposta  que ele defendia)                           Realismus) por G. Schuppe (Gruudriss der
segundo a qual < > espao e o tempo so indepen-                       F.rkciiiilnistbcoric uud I.ogik. 1910. pp. 1-2).
dentes tle nossa sensibilidade, que  o R.                             O. Klpe dava a esse mesmo ponto de vista o
transcendental, e por outro lado uma doutrina                          nome de R. cientfico (I)ie Realisieriuig. 11.
sua, que admite a realidade exterior das coisas                        1920. p. l-l8), enquanto J. Maritain, que defen-
e que  o R. emprico. Kant dizia: "O idealista                        deu a mesma forma tle realismo porque, se-
transcendental  um realista emprico que                              gundo ele. correspondia mais  tradio to-
atribui  matria, como fenmeno, uma rea-                             mista, chamou-o de R. crtico (JJistiiiguerpoiir
lidade que no precisa ser deduzida, mas                              unir. 1932. p. 149). Finalmente, o mesmo tipo
imediatamente percebida" ( Crt. R. Pura. l- ed.,                      cie R.  chamado tle mcilcricilisniop^as defen-
Dialtica transcendental, Crtica do quarto                            sores cio malerialismo dialtico:  o que faz. p.
paralogismo da psicologia transcendental). Com                         ex.. Lenin (Matcrialismo c cmpiriochlicismo.
Kant, esse termo entrou em filosofia, designan-                        1909, trad. it., p. ^5). Fssa mesma forma tle R..
do doutrinas tle interesse atual, e no simples-                       sem adjetivos ou com adjetivos vrios,  fre-
mente histrico. Fichte afirmava que "a doutri-                        qente na filosofia contempornea: pode ser
na da cincia  realista" porque "mostra que                          facilmente encontrada no existencialismo, no
absolutamente impossvel explicar a conscin-                          instrumentalismo. no empirismo lgico e em
cia das naturezas finitas se no se admitir a                          todas as correntes filosficas que adotam o
existncia cie Lima fora independente delas.                          pensamento cientfico como ponto cie partida.
RECEPTIVIDADE                                               835                                       RECIPROCIDADE

    b) R. transfigurado CPransfignrared Rea-                      do conhecimento, que se baseia na "esponta-
lisni) de II. Speneer: "O R. com que estamos                      neidade dos conceitos" ((j~t. R. Pura, Lgica
comprometidos sustenta simplesmente que a                         Transcedental, Intr., I).
existncia objetiva  separada e independente                         RECEPTOR (in. Receptor). Termo da psico-
da existncia subjetiva. Mas no afirma que                       logia contempornea que designa qualquer r-
cada um dos modos da existncia objetiva seja                     go ou estrutura com que o organismo recebe
na realidade aquilo que parece ser, nem que as                    os estmulos. So R. tanto os rgos dos senti-
conexes entre os modos sejam objetivamente                       dos (p. ex., olho, ouvido, etc.) quanto as estru-
aquilo que parecem ser. Por isso, esse R. distin-                 turas nervosas que recebem estmulos da pele,
gue-se claramente do R. cru; para marcar a                        dos msculos, das articulaes, etc. Os primei-
distino podemos cham-lo propriamente cie                       ros so chamados de exterorreceptores-, os ou-
R. transfigurado" (Principies ofPsychology;  -CJ2).              tros, de propriorreceptores. s vezes fala-se
    c) O novo R. defendido em volume coletivo                     tambm de oi/ororrcccptorespiim indicar os R.
por um grupo de pensadores americanos (F. 15.                     situados nas vsceras.
IIOI.T, W. T. MAKWIN, W. P. M O M A G I K . R. B.                     RECIPROCAO (lat. Recprocalio; in. Re-
PFRRY, \ \ \ B. PITKIN. K. G. SPAILDING. ibe.Xeic                ciprocation; it. Recprocazione). Na lgica de
Reasm, 1912) baseia-se no princpio segundo                      1600, um modo de refutao que consiste em
o qual a relao cognoscitiva no modifica os                     usar contra o adversrio o mesmo argumento
seres entre os quais se estabelece; portanto, o                   por ele utilizado; com isso, demonstra-se que o
lato de os seres conhecidos parecerem estar                       argumento  vicioso (cf. JUNCirs. Lgica ham-
apenas em relao conosco no implica que                         biii[>ensis. 1638, VI. 16. 20).
seu ser se esgote nessa relao. Segundo o                            RECIPROCIDADE (in. Reciprocity. fr. Re-
novo R., tambm so seres objetivos os concei-                    ciprocit;   ai.   \\'7ecbseltrirkitng;   it.   Rcciprocil
tos abstratos utilizados pela cincia; o prprio                  d'azione). K o princpio da conexo universal
erro  um fato objetivo devido a uma distoro                    cias coisas no mundo, em virtude do qual elas
fisiolgica. Ponto de vista anlogo, tambm ba-                   constituem uma comunidade, um todo organi-
seado nas correntes da fenomenologia e do                         zado. Portanto, a ao recproca nada tem a ver
logicismo, foi defendido por Nicolai Hartmann                     com o princpio cie ao e reao enunciado
numa srie de obras que comearam com                             por Newton. Kant faz da ao recproca um
Cnmdzngc einer letapbysik der lirkenntnis                        princpio puro do intelecto, e v nele a terceira
(1921). Constituem o R. de Hartmann as duas                       analogia da experincia (v.X         expressa     com   as
teses seguintes: 1' a relao cognitiva  extrn-                 seguintes palavras: "Todas as substncias,
seca ao ser, que no  qualificado nem mo-                        quando podem ser percebidas no espao como
dificado por ela; 2- o ser  constitudo no s                   simultneas, esto entre si numa ao recproca
por coisas, mas tambm por objetos ideais ou                      universal". Assim como a sucesso temporal
abstratos, ou por valores.                                        tem fundamento na conexo causai, tambm a
   d) O R. crtico foi defendido em um volume                     simultaneidade temporal tem fundamento na R.
coletivo por um grupo de pensadores america-                      de ao entre as substncias. Kant diz: "Sem
nos (I). DRAKK, A. O. LOVKJOY. J. B. PKAIT, A. K.                 comunidade, cada percepo (dos fenmenos
RI X:,I:KS, G. SANTA YANA, R. W. SKI.IARI:. C A. STRONC;,         no espao) se separaria das outras, e a cadeia
lissays in CriticaiRealism, J92). que defendia                   das representaes empricas, isto , a expe-
fundamentalmente o ponto de vista de San-                         rincia, deveria recomear do incio a cada
layana, segundo o qual o objeto imediato ao                       novo objeto, sem que a precedente pudesse li-
conhecimento  uma essncia (v.), ao passo                        gar-se a ele ou estar em relao temporal com
que a existncia nunca  apreendida imediata-                     ele." (Crt. R. Pura, Anal. dos prin.. III. 3). O
mente ou intuda, mas apenas afirmada, posta                      sentido da conexo recproca  esclarecido em
ou reconhecida por exigncias emocionais e                        seguida por Kant da seguinte maneira (loc.
prticas que Santayana chamava de f animal                       c/7): "A palavra (iemeinscbafl [= comunidade]
{Sceptcism and Animal Faith, 1923).                              tem duplo significado: pode .significar tanto
   RECEPTIVIDADE (in. Receptirily, Ir. Rcep-
                                                                  commnnio quanto comerciam. Aqui a empre-
lirit, ai. Receptiritdt: it. Recettivit). Capacidade            gamos no segundo sentido, como comunidade
de sofrer uma ao ou de registrar os efeitos cia                 dinmica, sem a qual nem a comunidade espa-
ao sofrida. Kant chamou de R. a capacidade                      cial (comi)inno spatiz) poderia ser conhecida
de receber impresses, e a ops ao carter ativo                  empiricamente " No admira que o Romantis-
                                                                                                           T
RECIPROCO                                            836                                         REDUO

mo tenha valorizado ao mximo essa noo,                  pete mais ou menos do mesmo modo, a inter-
de carter to nitidamente metafsico e espiritua-         valos.
lista. Schelling afirma (System des transzenden-              2. Designa-se tambm com este termo o
talen Idealismus, p. 228) que "a relao de                raciocnio reflexivo ou auto-reflexivo cjue d
causalidade no pode ser construda sem a                  origem s antinomias lgicas (v. ANTINOMIAS).
ao recproca", enquanto Hegel (Ene,  154                  3. Em matemtica a expresso "raciocnio
ss.) v na passagem da causalidade  ao rec-            por R." designa o princpio da induo mate-
proca a passagem da necessidade ao desven-                 nitica (v. INDUO MATEMTICA).
damento da necessidade, ou seja,  liberdade.                 RECUSA, GRANDE (in. Grecit refusal; fr.
O que tudo isso significa  expresso com toda              Orand refus; it. Grau rifiuto).  a recusa da
a clareza por Lotze, em Microcosmo (III2, p.               realidade em favor da imaginao e das possi-
482): "A ao recproca das substncias finitas            bilidades que ela desvenda em arte. Essa ex-
no mundo s poder ser entendida se elas fo-               presso foi empregada com esse sentido por
rem partes de Lima Substncia infinita que as              Andr Breton no primeiro manifesto dos
abranja todas em si mesma." Essa noo  fre-              surrealistas (1924) (Les manifestes du suira-
qente nas concepes espiritualistas do mun-              lisme, 1946). Foi adotada por H. Marcuse para
do, no passando cie transcrio, em termos                VLUCW "O protesto contai A represso supi-
mais modernos, da simpatia universal (v. SIMPA-            flua, a luta pela forma definitiva de liberdade:
TIA) que as concepes mgicas (v. MAGIA) ad-              viver sem angstia" (Erosand Civilization, 1954,
                                                           cap. VII). V. UTOPIA.
mitiam entre as coisas do mundo. Portanto,
no  de surpreender que Schopenhauer afir-                    REDENO (in. Salvation; fr. Salut; ai.
masse que "a ao recproca no existe", por-              fieil; it. Salvezza). Libertao de um mal mortal
quanto "ela pressuporia que o efeito 6 a causa             que ameace o corpo ou a alma do homem. A
da sua causa, e que aquilo que segue , ao                 R. pode ser entendida: lp como libertao de
mesmo tempo, o que precede" (Uber die                      um mal especfico que pese sobre o homem no
vierfacbe Witrzel des Salzes vom zureichenden              nuindo; este  o sentido com que o termo 
Grande, 1813,  20).                                       entendido mesmo fora da religio; 2- como
                                                           libertao do mundo, entendido como um mal
    RECPROCO (in. Reciprocai; Converse, fr.               em sua totalidade; portanto,  o rompimento
Reciproque, ai. Reziprok it. Reciproco). Em l-            definitivo da cadeia de nascimentos (budismo),
gica, chama-se de recproca a proposio obti-             ou libertao de sofrimentos, dores ou puni-
da pela converso da proposio dada, isto ,              es. Neste sentido, o termo tem significado
pela troca entre sujeito e predicado. O termo              especificamente religioso (v. REUGIO).
latino tradicional para tal proposio  conver-              REDUO (in. Reduetionjr. Rduction..
sa, e foi empregado por Bocio (De syllogismo              Reduktion; it. Riduzione). 1. Transformao de
categrico, P. L, 64. col. 804; cf. HAMILTON,              um enunciado em outro eqipolente mais sim-
I.ectures o)i Logic, II, p. 259). Por "inversa'En-         ples ou mais preciso, ou capaz de revelar a
tende-se comumente a negativa de uma propo-                verdade ou a falsidade do enunciado originrio.
sio (v. CONVERSO).                                      Fala-se tambm de "R. da cincia aos termos da
   RECONCILIAO. V. SNTESE.                              experincia imediata" (QUINE, From a Logical
    RECONHECIMENTO (in. Recognition; ack-                  point ofView, II, 5) ou de R. das extenses s
nowledgment; Ir. Reconnaissance-, ai. Anerkn-              intenes, das classes s propriedades (CARNAP,
nung; it. Riconoscimento). 1. Em geral, conhe-             Meaning and Necessity,  23, 33).
cer algo por aquilo que . Neste sentido diz-se,               2. Explicao que consiste em considerar
p. ex., "Reconheci-o como ladro", ou "Reco-               que certas ordens de fenmenos esto sujeitas
nheo a justia dessa observao".                         a leis mais bem estabelecidas ou mais precisas
    2. Um dos aspectos constitutivos da mem-              que uma outra ordem de fenmenos; p. ex., a
ria, porquanto os objetos lhe so dados como               que consiste em considerar que os fenmenos
j conhecidos (v. MEMRIA).                                orgnicos esto submetidos s leis dos fenme-
   RECORDAO. V. MEMRIA.                                 nos fsicos, enquanto estes ltimos esto sujei-
   RECORRNCIA (in. Recurrence, fr. Rcur-                 tos s leis dos fenmenos mecnicos. (Sobre
rence; ai. Recntrenz; it. Ricorrenza). 1. Aquilo           este tipo de explicao, cf. E. NAGEL, "The
que volta a acontecer ou se repete a intervalos            Meaning of the Reduction in the Natural
regulares ou irregulares. Neste sentido, chama-            Sciences", 1949, em Science and Civilization,
se de recorrente um acontecimento que se re-               ed. R. T. Staufer, 1949, pp. 99-138.)
REDUPLICAO                                         37                                         REFLEXO

   3. Por R. fenomenolgica Husserl entendeu               cimento que o intelecto tem de si mesmo; 2 a
a cpocb fenomenolgica, que  a neutrali-                 como conscincia; 3 a como abstrao.
zao cia atitude natural, ou pr o mundo entre                Ia Mesmo no empregando o termo R., Aris-
parnteses (Ideen, 1,  56 ss.). s vezes, mais           tteles admite o fato bvio cie que o intelecto
particularmente, ele entendeu por R. o momen-              "pode pensar-se" (De an., III, 429, b 9). Os
to positivo da epoch, que 6 o da reflexo inter-          escolsticos expressaram esta possibilidade com
na sobre o ato, em busca de captar o ato em                o termo "R.'1. S. Toms de Aquino diz: "Ao re-
sua intencionalidade (cf. especialmente Krisis,            fletir sobre si mesmo, o intelecto entende, con-
1954, p. 247).                                             forme essa R., tanto o seu entender quanto a
   4. Quanto a R. aos princpios, v. RFTOKNO. 2.           espcie por meio da qual entende" (S. Th., I, q.
   REDUPLICAO (gr avaTCcooi; lat.                   85, a. 2). Desse modo, atribui  R. uma funo
Reduplicatr, fr. Rduplication; it. Reduplcazio-         especfica porque o intelecto, cujo objeto  o
ne). Com este termo, que significa predicao              universal, s pode entender o particular refle-
repetida, eram indicadas em lgica algumas pa-             tindo sobre si mesmo e considerando aquilo de
lavras usadas para relacionar o predicado com o            que abstrai o universal (Ibid., 1, q. 86, a. 1). Os
sujeito: como. enquanto, na qualidade de. etc.             escolsticos, porm, no consideravam a R.
V. ex.: "o homem, enquanto animal,  mortal". As           como fonte autnoma de conhecimento. Isso
proposies em que ocorre a R. chamam-se                   s acontece com Locke.
reduplicativas (ARISTTFLFS, An.pr., I 38 49 a 26;             2a Com Locke inicia-se o conceito da R.
1)1 INS SCOT, In An.pr.. 1, 35 em Obras, I, p. 327         como conscincia. Segundo Locke, a segunda
a; |INGH;S, Lgica hamburgensis, II, 11, 22).              das duas fontes principais (a primeira  a sen-
   REDUTIBILIDADE, AXIOMA DE. V                            sao) de onde o intelecto aufere suas idias 
ANTINOMIAS.                                                a R., entendida como "percepo das aes
    REFERNCIA (in. Referen ce-, fr. Rfrence-,           exercidas por nossa alma sobre as idias que
ai. Bericht; it. Riferimento). 1. Em geral, o ato          recebeu dos sentidos: tornando-se o objeto das
de pr um objeto qualquer em qualquer rela-                R. cia alma, essas aes produzem na intelign-
o com oLitro objeto. Neste sentido, esse ter-            cia uma outra espcie de idias, que os objetos
mo tem um significado bastante amplo: um                   exteriores no poderiam ter fornecido; tais so
mesmo objeto (p. ex., um comportamento)                    as idias daquilo que se chama perceber, pen-
pode referir-se ao seu autor, aos seus efeitos,            sar, duvidar, crer, raciocinar, conhecer, querer,
ao seus fins, s suas intenes, s suas condi-            etc." (Ensaio, II, 1, 4). Alm disso, Locke tam-
es, etc. O sentido especfico da R., ou seja, a          bm chama a R. de sentido interno, nada mais
relao que ela estabelece, 6 esclarecido ou               sendo, ento, que conscincia, nome com que
sugerido em cada caso pelo contexto.                       foi freqentemente chamada pelos filsofos
    2. Mais particularmente, chama-se de R. o              ingleses posteriores. A definio cie Vauve-
ato que estabelece uma relao entre o smbo-              nargues. "R.  o poder de dobrar-se sobre as
lo e o seu objeto, ou seja, o ato de interpreta-           idias, cie examin-las, de modific-las ou de
o (x.). Foram sobretudo Ogden e Richards                 combin-las de maneiras diferentes: ela  o
que difundiram o uso do termo nesse sentido.               grande princpio do raciocnio, do juzo, etc."
Identificaram a R. com o pensamento, e ambos               Unir.  Ia connaissance de lesprit huniain,
com aquilo que chamaram de significado cog-                1746, I, 2), bem como a de Leibniz, "a R. nada
nitivo ( The Meaning of Meaning, 10a ed., 1952,            mais  que a ateno quilo que est em ns,
pp. 9 ss.). No mbito deste significado, os mes-           enquanto os sentidos no nos do inteiramente
mos autores chamaram de referendo( referend)               o que j temos em ns" (Nouv. ess., Avant-
o veculo ou o instrumento de um ato de R., e              propos). tm o mesmo significado: a R.  cons-
de referente (. referent) o objeto a que o ato de          cincia. Era exatamente com este termo que
R. visa.                                                   Kant a definia: "A R. (reflexio) no visa aos
                                                           objetos em si para chegar aos conceitos deles;
   REFERENTE. V. RF.FFRFNCIA.
                                                            o estado de esprito em que comeamos a
   REFLEXA, AO. V. AO RFFLFXA.
                                                           dispor-nos a descobrir as condies subjetivas
   REFLEXO (in. Rejlection; fr. Rjexion; ai.
                                                           que nos permitem chegar aos conceitos. Ela 
Reflexion; it. Ri/lessione). Em geral, o ato ou o
                                                           a conscincia da relao entre as representa-
processo por meio do qual o homem considera
                                                           es dadas e as vrias fontes de conhecimento"
suas prprias aes. Este conceito foi determi-
                                                           (Crt. R. Pura, Anal. dos Princ, Anfibolia dos
nado de trs maneiras, a saber: I a como conhe-
REFLEXO                                               838                        REFLEXIVO/REFLEXIONANTE

conceitos da reflexo). Alm disso. Kant elistin-            che o infinito. Mas no pode refletir sobre si
guia a R. lgica, cjue  o simples confronto das             mesmo e. em geral, sobre nada, se aquilo so-
representaes entre si. da R. transcendental,               bre que reflete no  limitado. Portanto, o cum-
dirigida para os objetos, que contm "a razo                 primento desta lei  condicionado e depende
cia possibilidade da comparao objetiva das                 do objeto" (Wissenscbafts/ebn; IT94,  8).
representaes entre si. O objeto da R. trans-               Como esclarecia Schelling, neste sentido a K. 
cendental, portanto, so os conceitos cie identi-            uma abstrao, porque leva a separar o objeto
dade-diversidade, de concordncia-posio, de                do Eu do prprio Eu, enquanto, na realida-
interior-exterior, de matria-forma. que repre-              de, o objeto no passa de produto do Eu.
sentam o fundamento cie qualquer possvel                    "Essa separao entre ato e produto, no uso
confronto entre as representaes" (Ibid.). O                ordinrio cia linguagem, chama-se abstrao.
carter ativo e criativo cia R.. que traz  luz a            Portanto, como primeira condio da R. tem-se
verdadeira natureza daquilo que se investiga, e              a abstrao" (Syslcni des rcniszciiclciilcilen
portanto produz tal natureza de algum modo.                  Idealisnuis. III, poca III, I; trad. it., p. 179).
foi um dos pontos fundamentais da filosofia de               Quanto a Hegel. ao mesmo tempo em que
Hegel: "Uma vez que, na R.. se obtm a verda-                exaltava (como se viu) a R. como atividade que
deira natureza, e esse pensamento e minha ati-               no s traz  tona, mas tambm produz a na-
vidade, essa verdadeira natureza  do mesmo                  tureza racional das coisas que investiga,
modo produto do meu esprito, isto , do meu                 considerava falseador o intelecto reflexivo.
esprito como Sujeito pensante, de mim na mi-                "Por intelecto retlexionante ou reflexivo deve-
nha simples universalidade, como Eu que                     se entender, em geral, o intelecto abstrator.
por si mesmo, da minha liberdade" (/.'//</..  23).         portanto separativo. que persiste em suas sepa-
Maine de Biran tambm atribuiu  R. uma fun-                 raes. Fazendo face  razo, esse intelecto
o metafsica: "Chamo de R. a faculdade que                 comporta-se como o intelecto humano comum,
o esprito tem cie perceber, num grupo de sensa-             ou senso comum, e impe sua viso de que a
es ou numa combinao cie fenmenos, as                    verdade repousa na realidade sensvel: de que
relaes comuns de todos os elementos com                    os pensamentos so apenas pensamentos (no
uma unidade fundamental: p. ex.: de vrios                   sentido de que a percepo sensvel lhes tki
modos ou qualidades com a unidade de resis-                  substncia e realidade) e cie que a razo, que
tncia, de vrios efeitos diferentes com uma                 permanece em si e por si, nada produz alm
mesma causa, de modificaes variveis com o                 cie sonhos" ( Wissenscbajt der logik, Intr.; trad.
mesmo eu ou sujeitei, etc." (Fondenients de Ia               it., I, p. 2"). Em outros termos, a R. caracteriza-
psychologie, ed. Naville, 11. p. IZ^). No  muito           se pela separao entre conceito e realidade, o
diferente o significado que Husserl lhe atribui              que  uma falsa abstrao: ao mesmo tempo, a
quando afirma: "Toda co(>itttiopoc tornar-se               razo caracteriza-se pela identidade entre con-
objeto da chamada percepo interna e de-                    ceito e realidade. Assim, para Hegel, a filosofia
pois objeto de uma avaliao reflexa, de apro-               da K.  a do senso comum, cujo pice est na
vao ou desaprovao, etc." (Ideai, 1,  68).               filosofia de Kant, que afirma a incognoscihi-
Neste sentido, a R.  aquilo que Husserl chama               lidade da coisa em si.
de percepo manenle. que constitui unidade
imediata com o percebido, sendo a prpria                       Na filosofia contempornea, esse termo 
conscincia (Ibid..  68). Husserl distinguiu                usado principalmente no 2" significado, sendo,
tambm a R. natural, que se realiza na vida co-              portanto, sinnimo de conscincia (nos senti-
mum, da R. fenonienol(\i>icaou transcendental,               dos 1 e 2 do verbete respectivo), introspeco,
feita atravs da epoch (v.) universal quanto               sentido interior, observao interior.
existncia ou  no-existncia do mundo ( C.irt.               REFLEX1BILIDADE (in. Reflectirity, fr. Re-
Meti.,  1 5 ) .                                             Jlexirit;   ai. Reflectiritdt; it.   Rijlessivit). Carter
                                                             da relao no aliorrelativa, ou seja. tal que
    3a O terceiro conceito de R. considera-a                 um termo possa ter consigo mesmo. P. ex., a
como abstrao, mais precisamente como abs-                  relao no maiorijite reflexiva (v. RKI.ACO).
trao falseadora; esse conceito pertence ao                       REFLEXIVA, PSICOLOGIA. V. PSICOLOGIA,
idealismo romntico. Comeou com Fichte,                     B).
que viu na R. o ato com que o eu se considera                      REFLEXIVO/REFLEXIONANTE E DETER
limitado pelo objeto: "() Eu tem em si a lei de              MINANTE (in. Repectug and delerniinaul; fr.
refletir sobre si mesmo como algo que preen-                 Rjlecbissaut et dteniiiant; ai. Rejlectierend
REFORMA                                                 839                                          REPUTAO


mui HcstiniDwiiri; it. Riflei teu te e determinau-            reta tio homem com Deus. Ao culto sacertlotal.
/e). Juzo determinante e juzo R. so. segundo               Lutem ops o exerccio tios tleveres civis,
Kant. os dois modos de ao tia faculdade tio                 como nico "servio divino" com valor religio-
juzo (v. JrnicATivA. FAcn.DADi-:). Km geral, ain-            so.2" C) outro  a negao tia liberdade huma-
da segundo Kant, o juzo 6 "a faculdade de pen-               na e o reconhecimento da predestinao por
sar o particular como contedo cio geral". Dado               parte tle Deus. A te  o sinal seguro dessa
o geral (regra, princpio, lei), o juzo que realiza          predestinao, portanto indcio tle salvao (/A'
a suhsuno do particular  chamado de deter-                 liberlale cbrisliana, 1520). Foi este aspecto
minante. Se, ao contrrio,  dado o particular, o             que deu origem  polmica entre Krasmo e
juzo que encontra nele o geral  chamado de R.               Lutem:         Diatribe de libero arbtrio (1524)
(Crit. dojiizo, lntr..  IV). 'Juzo determinante"           tle Frasmo. Lutem respondeu com De serro
significa juzo (/uedetermina ou constitui o ob-              arbtrio (1525). em que insistia no carter
jeto:  o que, segundo Kant. faz o juzo intelec-             imperscrulvel da escolha divina (ef. PRF.ni:s-
tual (considerado na (,'n'l. R. Pura), que forma              TINACO).
o objeto emprico unificando o material da expe-                 Das outras duas liguras principais da R. pro-
rincia segundo as categorias. Juzo R. significa             testante, rlrich Zwinglio (1+84-1531) e Joo
juzo que j encontra o objeto constitudo, de-               Calvino (1509-1 5(H). O primeiro foi bem alem
vendo, pois. limitar-se a refletir sobre ele para             tle Lutem na negao tias formas religiosas
encontrar o modo de subordin-lo a uma unida-                 tradicionais, atribuindo ao prprio sacramento
de ou lei simplesmente subjetiva; como fazem,                 tia eucaristia valor meramente simblico e
por um lado. o juzo de gosto (que julga os ob-               negando a obedincia passiva  autoridade
jetos segundo o critrio de belo) e. por outro,               poltica; o segundo considerou o retorno aos
o juzo teleolgico. que julga os objetos segun-              princpios especialmente como retorno  reli-
do o critrio tio tini.                                       giosidade do Antigo Testamento. Fm Institui-
    REFORMA (in. Reformaton-, fr. Refornia-                  o da religio crist (publicada em latim em
tioii. ai. Reformatiou; it. Riforma). Renovao               153() e em francs em 15 li lessa traduo  o
religiosa ocorrida na Furopa durante o sc.                   primeiro texto literrio tia prosa francesa]),
XVI. como retorno s origens do cristianismo.                 Calvino props-se efetivamente a mostrar a
Preparada pelo humanista Krasmo de Roterd                    unidade do Antigo e tio Novo Testamentos,
( I i6(>153(>), a R. foi iniciada pelo monge agos-            extraindo daquele o princpio tle que o bom
tiniano Martinho I.utero ( 1-I83-15 16). que.                 sucesso nas atividades tia vida  prova eviden-
em 151". afixou nas portas da catedral de                     te do favoreeimento de Deus. sinal tle sua pre-
Wilienberg noxenta e cinco teses contra a ven-                dileo. Foi esse princpio que transformou o
da das indulgncias. Fm sua orientao global,                ealvinismo em tica inspiratlora da burguesia
a R. protestante apresenta-se como uma das                    capitalista emergente, com seu esprito ativo e
vias de realizao do retomo cios princpios,                 agressivo, marcado pelo desprezo por senti-
lema tio Renascimento (v.). No domnio reli-                  mentos e orientado para o bom xito tios ne-
gioso, o retorno aos princpios levava a negar                gcios.
o valor da tradio, portanto tia Igreja, que se                 REFUTAO (gr. EeyKO: lat. Confiilalo:
julgava sua depositria e intrprete. No texto                in. ('onfutation: fr. Refutatiou: ai. Wider-
Contra HenrUjite VIU da Inglaterra ( 1522). Lu-               leguug; it. C.onfutazone). Mtodo adotado por
tem contrapunha  tradio eclesistica e a to-               Scrates, que consiste em evidenciar a con-
dos os rituais e interpretaes por ela acumula-              tradio  qual leva a assero tio interlocutor,
dos durante sculos o retorno direto  palavra                permitindo, pois. isentar o prprio interlo-
tle Jesus Cristo, concretizada no Fvangelho. Se-              cutor da presuno de saber. Plato sempre consi-
gundo Lutem, o ensinamento fundamental tio                    derou esse procedimento como a propedutica
Kvangelho  a justificao por meio da f. que                indispensvel da investigao cientfica (Ap.,
implica dois corolrios fundamentais. 1- l'm                  21 a ss.; Meu., 8 a-c: Sof.. 2.30 b ss.). Aristteles
deles  a negao do valor das obras como                     definiu a R. como a "demonstrao do con-
tcnicas religiosas (ritos, sacrifcios, cerimnias),         traditrio" (/:/. sof., I. 165 a 2), isto . como o
com a reduo tios sacramentos aos menciona-                  silogismo que a tem como concluso (que 
dos na Bblia (batismo, penitncia e eucaristia),             assim "relutada"). Para Aristteles, as R. (elen-
mas sem qualquer superviso sacertlotal, sen-                 cos) sofsticas no so verdadeiras R.; suas duas
do eles considerados expresso tia relao di-                classes (as que utilizam o modo de exprimir-se
REGIO                                                                                    REGULA FIDEI

e as que prescindem dele) so no demonstra-          mado cie regressivo o mtodo analtico, e de
es negativas, mas artifcios ou truques ver-        progressivo o mtodo sinttico (cf. HAMILTON,
bais cuja finalidade  reduzir o adversrio ao        Icctures ou Logic, 11, p. 7). (V. AKLLSK.)
silncio e de levar a melhor.                            REGRESSO (it. Ricorso). Com esse termo,
    REGIO (ai. Region). 1. Termo emprega-            Vio designou o retorno cia histria sobre seus
do por Husserl para indicar "a unidade supe-          prprios passos, que se verifica quando os re-
rior e completa de gnero,  qual pertence            mdios que a Providncia dispe contra a
um concreto", ou seja, "a totalidade ideal de         corrupo dos estados se esgotam ou no
todos os indivduos possveis de uma essn-           agem eficazmente. O R. consiste em voltar ao
cia concreta" (Ideen, I,  16). P. ex., "todo obje-   estado de selvageria, em retornar aos rigores
to emprico concreto insere-se, com sua essn-        da vida primitiva, que dispersa e extermina os
cia material, num gnero material superior, numa      homens, at que o pequeno nmero de ho-
R. cie objetos empricos" (Ibid.,  9). A natureza    mens remanescentes e a abundncia das coisas
 uma regio desse tipo (Ibid.,  10). Corres-        necessrias  vida possibilitem o renascimento
pondentemente, Husserl fala de uma "ontologia         da civilizao, novamente com base na religio
regional", referente s estruturas de determina-      e na justia (Cincia nova, 1744, Concluso).
da regio.                                                REGULADOR (in. Regulative; fr. Rgulatif;
    2. O gestaltismo empregou esse conceito           ai. Regulativ; it. Regalativo). KUII chamou de R.
com sentido diferente, ligado  noo topo-           o uso das idias da razo pura como regras
lgica correspondente (v. TOPOLOGIA). K. Lewin        simples do trabalho intelectual, em oposio
entende por R.: lu tudo aquilo em que um ob-          ao seu uso constitutivo, em virtude do qual elas
jeto do espao de vicia (p. ex., uma pessoa) tem      sao consideradas constitutivas do objeto da
lugar ou move-se; 2" tudo aquilo em que se            atividade intelectual. "Afirmo que as idias
possam distinguir vrias posies ou partes ao        transcendentais nunca so de uso constitutivo,
mesmo tempo, ou que seja parte de um todo             tal que por meio delas possam ser dados os
mais amplo. Com base nessa definio, a prpria       conceitos de certos objetos, e que se forem
pessoa  uma R. no espao de vida, e tambm           assim entendidas sero simplesmente conceitos
o espao de vida, como um todo,  uma R.              sofsticos (dialticos). Ao contrrio, tm um uso
(Principies of Topological Psychology, 1936, p.       R. excelente e indispensvel, que consiste em
93).                                                  dirigir o intelecto para certo objetivo, em vista
   REGIME (lat. Regimen). Em geral, orienta-          do qual as linhas diretivas de todas as suas
o ou direo; em particular, orientao ou          regras convergem como para um ponto; este,
direo do Estado, o governo.                         enibora nada mais seja que uma idia (Jcus
   REGRA (lat. Regula; in. Ride, fr. Rgle-, ai.      iiiaginarius), ou um ponto do qual, na realida-
Regei; it. Rego/a). Chama-se de R. qualquer           de, no partem os conceitos do intelecto por-
proposio de natureza prescritiva. Esse ter-         que ele est fora dos limites da experincia
mo  generalssimo e compreende as noes             possvel, ainda assim serve para conferir a tais
mais limitadas de norma, mxima e lei. Neste          conceitos a maior unidade com a maior exten-
sentido, Wolfi definiu a regra como "uma pro-         so possvel" (Crt. R. Pura, Apndice  dialti-
posio que enuncia uma determinao em               ca, Do uso regulador, etc). (V. IDIAS.)
conformidade com a razo" (Ont.,  475). Kant,            REGULA FIDEI. 1. Com esta expresso de-
analogamente, afirmava: "Chama-se de regra a          si^na-se em teologia a regra que determina o
representao cie uma condio geral  qual           objeto da f, o contedo autntico da revela-
certa multiplicidade pode ser submetida; quan-        o. Na filosofia patrstica e escolstica, foi ado-
do deve ser submetida, chama-se lei") (Crt. R.       tado como regra desse tipo o ''Smbolo dos
Pura, \- ed., Deduo dos conceitos puros do          Apstolos" (SymbolumApostolorum), que com-
intelecto, 4). Esse significado generalssimo         preendia, alm do contedo da Bblia, tambm
continua caracterizando a R. (v. Li:i; MXIMA;        o conjunto da tradio eclesistica (decises
NORMA).                                               conciliares e papais, opinies dos escritores
    REGRESSO (in. Regression; fr. Regression;        aprovados pela Igreja, etc.) (c. M. GRAUMANIX,
ai. Regression; it. Regressione). Em geral, movi-     Die Geschichte der scholastschen Methode, I,
mento inverso ou retorno. Freqentemente com          pp. 76 ss.). Essa regra continuou vlida para o
conotao pejorativa de regresso como movi-           cristianismo catlico, mas o cristianismo pro-
mento oposto ao progresso. s vezes, foi cha-         testante limitou-a ao contedo da Bblia. A dife-
REGULARIDADE                                           84 1                                            RELAO

rena entre catolicismo e protestantismo gira                 de um princpio, e falou de um "R. tsico da
precisamente em torno da diferena da regula                  natureza" e de um "R. moral da graa" (Monad.,
fidei (v. REFORMA).                                            87). No mesmo sentido, Kant falou de um R.
    2. Com a mesma expresso designa-se s                    dos fins (v. FINS), de um R. da liberdade (cf.
vezes o princpio segundo o qual a f  a regra               Relighm. 11, se. 11), de um R. da graa e de um
da verdade.  assim em S. Toms de Aquino:                    R. da natureza (Crt. R. Pura, Doutrina transe,
"Uma vez que a f se baseia na verdade infal-                do mtodo, cap. 11, se. II). Mais recentemente,
vel, e como  impossvel demonstrar o contr-                 Santayana empregou esse termo com significa-
rio do verdadeiro,  evidente que os argumen-                 o semelhante (Realws ofBeng, 4 vols.: 'be
tos aduzidos contra a t no so demonstra-                   Realni of fsseiicc, The Realm of Maiter, 'lhe
es, mas argumentos refutveis" (S. Tb., I, q.               Realm ofTrulh, The Realm (fSpirit, 1927-40).
1, a. 8).                                                        REINO DOS FINS. V. FINS.
    REGULARIDADE (in. Regularity fr. Rgu-                         RELAO (gr. x TCp; lat. Ad aliijuid, Re-
laut, ai. Regelmassigkeit; it. Regolarit). Em ge-           ltio; in. Relatiou; fr. Relatiorr, ai. Relatiou; it.
ral, conformidade com a regra. Kant viu na R.                 Relazioue). Modo de ser ou de comportar-se
a condio ao mesmo tempo do pensamento e                     dos objetos entre si. Esta definio no passa
da realidade: "A R. que conduz ao conceito de                 de esclarecimento verbal do termo, que no
um objeto  a condio indispensvel (comlitio                pode ser definido em geral de outro modo,
sitie qua non) para perceber o objeto numa                    ou seja, fora das interpretaes especficas que
nica representao e determinar a multiplici-                os filsofos lhe deram. Esta , alis, a definio
dade em sua forma" (Crt. do Juzo,  22, nota).              retificada que Aristteles deu da R.: como aqui-
Kant considera a prpria natureza em geral                    lo "cujo ser consiste em comportar-se de certo
como "R. dos fenmenos no espao e no tem-                    modo para com alguma coisa" (Cal., ~!, 8 a 33),
po" (Crt. R. Pura,  26) (v. NATI RKZA).                     o que coincide substancialmente com a defini-
    REIFICAO (fr. Rificatiou; ai. Verdingli-               o de Peirce: "R.  um fato em torno de certo
chung; it. Reificaziom').'Ycrmo empregado por                 nmero de coisas" (Coll. Pap., 3.416).
alguns escritores marxistas para designar o fen-                 Os dois problemas fundamentais oriundos
meno, ressaltado por Marx, de que, na economia                do conceito de R,, de cuja soluo dependem
capitalista, o trabalho humano torna-se simples               as determinaes cio prprio conceito, so os
atributo de uma coisa: "A magia consiste sim-                 seguintes: 1'-- Devem ser consideradas includas,
plesmente em que, na forma de mercadoria,                     no conceito de relao, as determinaes subs-
devolvem-se aos homens, como espelho, as                      tanciais (essenciais ou qualitativas), ou tais de-
caractersticas sociais de seu prprio trabalho,              terminaes devem ser excludas do conceito?
transformadas em caractersticas objetivas dos                2- As R. constituem entidades reais ou so ape-
produtos desse trabalho, na forma de proprie-                 nas realidades mentais? Esses problemas, ob-
dades sociais naturais das coisas produzidas;                 viamente, so interdependentes, e com base
portanto a mercadoria espelha tambm a rela-                  nas respostas interligadas que lhes foram cia-
o social entre produtores e trabalho global,                das ao longo da histria  possvel distinguir
como relao social de coisas existentes tora                 trs doutrinas fundamentais: A) a que admite a
dos prprios produtos. Por meio desse quidpro                 objetividade e a realidade das R.; B) a que nega
c/uo os produtos do trabalho tornam-se merca-                 a realidade e a objetividade das R.; O a que
dorias, coisas sensivelmente supra-sensveis, isto            admite a objetividade das R.. mas no sua
, sociais" (Das Kapital I, I,  4). O termo R. para          realidade.
indicar esse processo foi usado e difundido por                   A) Plato certamente admitiu a objetividade
G. Lukes (cf. Geschichte und Klassenkewusst-                 das R.. mas  duvidoso que admitisse sua reali-
sein. 1922; trad. fr., 1960, pp. 110 ss.).                    dade: "Creio que admites que, de alguns dos
    REINO (lat. Regnum; in. Realni; fr. Royau-                entes, se deve dizer que so unicamente por si,
me\ ai. Reicb; it. Reguo). Termo introduzido na               enquanto, de outros, que esto sempre em rela-
filosofia por Bacon para indicar o domnio do                 o com outros" (Sof, 255 c-d). No entanto, os
homem sobre a natureza (cf. o ttulo da primei-               entes em R., assim como o diferente e o idnti-
ra parte do Novum Organum. "Aforismos sobre                   co, no so o ser (Ihid., 255 c-d): isso tam-
a interpretao cia natureza e sobre o R. do ho-              bm poderia significar que eles no tm exis-
mem"). Leibniz usou esse termo com sentido                    tncia ou realidade como tais. A doutrina de
diferente, como domnio ou campo de validade                  Aristteles  igualmente confusa neste pon-
RELAO                                              8-1.2                                            RELAO

to. Hle distinguiu trs espcies de R.: F! as                 cer e perceber as coisas" (Ibicl.). As R. de razo
aiianlilaliras. como as expressas por dobro,                  so somente aquelas em que ambos os termos
metade, etc.; 2' as potenciais, que consistem                 so entes de razo; so as R. existentes "quan-
numa potncia ativa ou passiva, como ser                      do a. ordem ou a disposio s pode existir se-
causa ou causado, cortar ou ser cortado, etc; 3'!            gundo a apreenso da razo, como no caso de
as R. que tm termo num objeto real, como a                   se afirmar que uma coisa  idntica  outra"
medida com respeito ao mensurvel, o conhe-                   Ubid).
cimento com respeito ao cognoscvel, a sensa-                     Mas afirmar a realidade das R. significa privi-
co com respeito ao sensvel (Mel.. V. 15, 1020               legiar certo tipo cie R., moldando todas elas de
b 25). A 1J espcie j parece implicar a existn-             acordo com a segunda e a terceira espcie de
cia de R. reais (as da 2- e da 3a espcies); na               Aristteles; mais precisamente, significa consi-
realidade, o prprio Aristteles diz que "algumas            derar qualquer tipo de R. como Lima poten-
 R. acham-se necessariamente dentro ou em torno               cialidade ou disposio, ou como uma condi-
das coisas s quais se relerem", e que "tal  o              o ou um estado dos termos relativos. No fim
caso da simetria, da propriedade e da dispo-                 do ,sc. XIII, Duns Scot insistiu nessa natureza
sio" Cop., IV, 4. 125 a 33). No entanto, boa              tia U., propondo a doutrina cia R. como ivs-
parte do captulo das Categorias dedicado s R.              pectus. termo que pretende traduzir a palavra
discute o problema de saber se entre as R. h                grega O)(Ot (usada, por exemplo, por Si.M-
substncias: a concluso, embora no categri-               1'i.iQo, AdCat.. 61 B) e significa disposio. O
ca,  negativa: certamente no h substncias                principal argumento aduzido por Scot em favor
primeiras entre as R.. e tambm  difcil dizer              de Mia teoria era que, a no se admitir tal
que as substncias segundas sejam R. (Cal.,                  respeclus. no  possvel compreender a com-
"", 8 b 15). Alm disso, um dos argumentos adu-              posio cios entes, visto que, se a unio de cie
zidos por Aristteles contra a doutrina das idias           /; no passa de a e /; absolutos, o composto cie
 o fato de que ela levaria a admitir a realidade            a e /; em nada difere de a e /; separados, logo
das R.: "A R. no  sobretudo natureza ou subs-              nao  um composto (O/;. O.v.. II. d. 1, q. 4, n.
tncia; vem depois da qualidade e da quantida-               5). hssa doutrina foi adotada por todos os escri-
de e e, antes, uma determinao cia quantidade,              tores escotistas. mas combatida por Ockham c
como se disse, mas no matria" (Mel., XIV, 1,               pelos nominalistas e terministas do sc. XIV
1088 a 21). Neste caso. Aristteles considera,               (ver mais adiante). No sc. XVII, Jungius ainda
evidentemente, apenas as R. da 1"' espcie, mas              recorria a tal doutrina, considerando a K. como
a sua afirmao no  condicionada por qual-                 habjtudo ou respectus (Lgica banibiirgensis,
quer limitao. No admira, portanto, que de-                I. 8, -4), Fm poca recente, o problema das R.
pois tenham recorrido a Aristteles tanto os                 foi tratado de modo semelhante ao de Duns
que afirmavam quanto os que negavam a reali-                 Scot por F. H. Bradley. que mostrou que as R.
dade das R. Flotino reproduz a doutrina de Arist-           so podem ser entendidas como atributos do
teles com as mesmas confuses (limi., VI, 1.                 relativo, consistindo portanto numa qualidade
6). A escolstica crist estilizou-a na distino            ou modificao dos termos relativos. Seja como
entre R. de razo, R. potencial v R. real. o que             for. a relao e incompreensvel porque s faz
corresponde exatamente s espcies distin-                   predicar o idntico com o diferente e o diferen-
tas por Aristteles. Mas, por motivos teolgi-               te com o idntico (Appearance and Really.
cos, a escolstica crista tinha interesse em ad-              1902. 2- ed.. pp. 21 ss.). Essa doutrina, conheci-
mitir a realidade das R.. utilizando esse con-               da conio "doutrina das R. internas", foi combati-
ceito para esclarecer o dogma da trindade; essa              da especialmente pelos lgicos matemticos.
era a tese defendida por S. Toms cie Aquino
contra "os que afirmaram no ser a R. coisa de                   h) A segunda doutrina fundamental das R.
natureza, mas somente de razo", o que ele de-               nega sua objetividade e realidade, consideran-
clarou falso porque "as coisas tm uma ordem                 do-as acidentais ou subjetivas. Foi proposta
ou uma disposio natural umas com respeito                  pela primeira vez por Avicena, que reproduzia
s outras" (S. Th., I, q. 13, a. 7). Com base nis-           um ponte) cie vista defendido pela seita mao-
so. S. Toms de Aquino reexps as distines                 metana motakallinnun. valendo-se de teses
de Aristteles, defendendo o carter real das R.             aristotlicas anlogas. Avicena dizia: "Ao afir-
em que consistem a cincia e a sensibilidade,                mar-se que uma R. existe, imediatamente 
porquanto tais R. "so ordenadas para conhe-                 preciso dizer que ela  um acidente, porque
                                                             no h dvida de que no pode ser entendida
RELAO                                              843                                           RELAO


por si, mas sempre de algo com respeito a                  verdades, mas no do esprito dos homens,
algo" (Mel.. III, 10). Afirmar o carter acidental         porque h uma inteligncia suprema que as
das R. eqivalia, para Avicena. a negar sua rea-           determina em todos os tempos" (Ibid.. II. 30, 4).
lidade, uma vez que, como acidentes, as R. no             Em conformidade com este mesmo conceito.
so substncias. Quando essa doutrina foi reto-            Wolff definia a R. como "aquilo que no con-
mada pelos filsofos nominalistas e terministas,           vm  coisa de maneira absoluta, mas que s 
no sc. XIV, assumiu a forma de reduo da                 entendida quando se refere a outra coisa"
R. a pura "entidade de razo", destituda de               (I.og..  8S6): e completava: a R. "no acrescen-
realidade ou fundamento fora da alma hu-                   ta nenhuma realidade ao ente" (Ibid..  8S 7 ). A
mana. Tal 6 a doutrina sustentada por Hen-                 subjetividade das R,, alm disso,  o princpio
rique de Gand (QuodL, IX, q. 3; V. q. 6). por              fundamental do kantismo: "Se suprimssemos
Herveus Natalis (Quocli, I, q. 9) e por Pedro              nosso sujeito ou mesmo apenas a natureza sub-
Aurolo. Este ltimo afirmava: "A R. no tem               jetiva dos sentidos em geral, toda a natureza,
existncia nas coisas, prescindindo de apreen-             todas as R. entre os objetos no espao e no
so intelectivo-sensvel. mas existe subjetiva-            tempo, alis, o espao e o tempo mesmo desa-
mente apenas na alma, porquanto nas coisas                 pareceriam" (Cri/, li. Pura.  8). Nesse mesmo
s h fundamentos e termos: o hbito e a cone-             princpio (aduzido na maioria das vezes de ma-
xo das coisas deriva da alma cognoscitiva" (In            neira implcita) baseia-se boa parte da filosofia
Sent., I, d. 30, q. 1). Este foi tambm o ponto de         contempornea.
vista defendido porOckham, que institLiiu uma                  O A terceira concepo fundamental consi-
crtica minuciosa da doutrina do respectus. Se-            dera que as R. no so reais, mas so objetras.
gundo ele, esta doutrina multiplicaria as entida-          Ockham, que foi o mais resoluto crtico da reali-
des ao infinito: "Com o movimento do meu                   dade das R., afirmara tambm, a seu modo. seu
dedo, eu encheria todo o universo, o cu e a               carter objetivo: "No  o intelecto que torna
terra de novos acidentes, pois que, mudando a              Scrates semelhante a um outro, assim como no
posio do dedo com respeito s outras partes               o intelecto que o torna branco" (/;/ Seul.. I, d.
do cu haveria outros tantos novos respeclus               30, cj, 1, P); isso significa que a relao, como
nessas partes, que so infinitas, portanto have-           inteno ou conceito da alma, refere-se a vrias
ria infinitos novos acidentes" (QuodL. VII, q. 8;          coisas isoladas ou  vrias coisas isoladas, "as-
In Seul., II, q. 2. Y). Todo corpo conteria, por           sim como o povo  vrios homens e nenhum
motivos anlogos, infinitas realidades, uma vez            homem  povo" (Ibid.). No entanto, nestas
que todo corpo pode ser considerado duplo                  afirmaes, assim como nas de Locke e de ou-
com respeito  sua metade, e esta metade pode              tros que insistiam na referncia objetiva da R.
ser considerada o dobro de sua metade, e as-               (como conceito ou idia), tal referncia  en-
sim por diante (QuodL, VI. q. 10; Sitmmct log..            tendida como referncia  realidade.
I, 50). No entanto, Ockham no afirma o car-                  A caracterstica da doutrina moderna, nesse
ter puramente mental das R., como fizera                   sentido,  que a objetividade da R. no implica
Avicena (v. abaixo). Essa doutrina reapareceu              sua realidade, ou seja, reconhecer que a R. 
no mbito cio cartesianismo. Foi defendida por             objetiva no implica que em todos os casos ela
Locke, que considerou as R. como idias com-               ocorra entre coisas ou entidades reais. Este
plexas, que consistiriam em "considerar e con-             sentido da R. esta intimamente ligado ao senti-
frontar uma idia com a outra" (Ensaio, II, 12,            do que o ser predicativo assumiu na lgica
7
  ), e reconheceu explicitamente o carter sub-            contempornea (v. SHR). Desse ponto de vista
jetivo delas, embora no exclusse a aluso s             a matemtica e a lgica foram definidas como
coisas. Uma vez que os modos mistos e as R.                "cincias das R." (v. LGICA; MATKMATICA). Fm
no tm outra realidade alm da que possuem                particular, no que diz respeito  lgica, pode-
no esprito humano, para tornar real essa esp-            se dizer que tanto o clculoproposicio)ialt\uM~\io
cie cie idias s  preciso que elas sejam forja-          o de classes versam exclusivamente sobre R.,
das de tal maneira que haja possibilidade de               porquanto so R. os conectivos (e, ou. no,
existncia em contormidade com elas" (Ibid..               se... enlio) de que trata o clculo proposicio-
II, 30, 4). Por sua vez. Leibniz afirmava que as           nal e as entidades de que trata a lgebra das
R. tm realidade mental ou fenomnica (Xour.               classes. Contudo, o clculo das R. tambm
c\s\s\. II. 12.7) e que, por conseguinte, "tm uma         constitui um ramo especfico da lgica contem-
realidade dependente do esprito, tais como as             pornea, ramo cujos avanos se devem espe-
RELAO                                              844                      RELATIVIDADE, TEORIA DA

cialmente a li. Schrder (lgebra der Logik,               v. O. QUIKK, Methods of L.ogic, 1942. especial-
1895) e a Peirce (The Logic of Relatives. 1897.            mente o  40.
Coll. Pap., 3.456-526). Neste sentido restrito,               RELAO DE COISAS. V. ESTADO DK COISAS.
entendem-se por R. as funes proposicionais                   RELACIONAI,(in. Relalional; ai. Relationnel-
didicas ou polidicas (com duas ou mais va-               it. Retazionale). O que  uma relao ou diz
riveis), que so escritas na forma f(x, y) ou,            respeito a uma relao. O adjetivo exclui o
mais freqentemente, xRy. As caractersticas               significado relativista que pode ter o termo relati-
mais gerais da R. neste sentido so as seguintes:          vo (v.). Portanto,  preferido pelos filsofos
    1- Se A1 ocorre no s entre x t y, mas tam-           que, rnesmo insistindo na importncia da rela-
bm entre y e x, diz-se que  simtrica.  si-             o, no pretendem chegar a concluses re-
mtrica, por exemplo, a relao entre dois                 lativistas. Nesse sentido, N. Hartmann distin-
irmos. Caso contrrio,  chamada de assi-                 guiu relaciona/idade de relatividade: p. ex.,
 mtrica. As R "antes", "depois", " esquerda"             os valores esto em relao com o homem e
so assimtricas.                                          com seu mundo sem perder sua absolutidade
    2- Se A" tal que, quando .x'tem R. /('com y e         irrelativa (Kthik 1949, p. 140). O termo rela-
 ytem R. A1 com z, tambm .rtem a R. A1 com z,             cionismo( relazionismo) foi usado na Itlia pa-
chama-se Iranstiva. So transtvas as R. "me-            ra indicar uma filosofia que considera a relao
nor", "precede", " esquerda";  i)itransitivai\           como fenmeno essencial do universo e do
R. de paternidade.                                         homem, mas sem implicaes relativistas (cf.
   3a Se A* tal que nenhum termo est em R.               Y. PA(;I, Dallesistenzialismo ai relazionismo,
A" consigo mesmo, a R.  chamada de aliorre-               1957, p. 45 e passim).
laliva. So aliorrelativas as R. "irmo", "mari-              RELATIVIDADE, TEORIA DA (in            Theory
do", "pai", etc.                                           of relatvty, fr. Thorie de Ia relativit, ai.
   4a Se Ri: tal que, dados dois termos diferen-           Relatirittstheorie; it. Teoria delia relativit).
tes do campo, x e y, pode ocorrer entre .vc )'             Com oste termo designam-se dois corpos de
ou entre y e x ou entre x e y e entre y e x, a R.          doutrinas formuladas por F.instein: o primei-
 chamada de coerente. V. coerente a R. "maior             ro em 1905 como o nome de R. restrita e o
ou menor"; no  coerente a R. "antepassado".              segundo em 1913 com o nome cie R. geral. A
    5a O termo xque tem R. A" com um ou mais               R. restrita baseia-se no reconhecimento de
termos ( y, z...) chama-se dominante, enquanto             que a escolha de um sistema de referncias,
so chamados de dominantes inversos os                     indispensvel para fazer medies, pode in-
termos com que o termo .v tem a R. A, quais"               fluenciar os resultados dessas medies; e
sejam, os termos y, z, etc. Na R. de "paternida-           que, no existindo um sistema de referncias
de", pai  dominante, "filhos" so dominantes              privilegiado (ou "absoluto"),  diferena do
inversos.                                                  eme julgara a fsica clssica, por um lado 
   6a O campo da uma R. consiste no conjunto               preciso explicitar o sistema segundo o qual 
do dominante e dos dominantes inversos. No                 feita a medio e por outro lado  necessrio
caso da R. de paternidade, o campo  o conjun-             encontrar frmulas de converso que tornem
to pai-filhos.                                             vlidas tais medies tambm em outros sis-
   7a Diz-se que uma R. implica outra se esta             temas. A R. geral  substancialmente a exten-
vlida sempre que a primeira  vlida.                     so do princpio cie R. a todos os sistemas, e
    Kssas noes elementares definem a nature-             no apenas aos sistemas nerciais para os
za objetiva, conquanto no real, das R., na for-           quais  vlida a R. restrita; assim,  substan-
ma constantemente empregada pela lgica e                  cialmente uma teoria eme recluz a gravitao
pela matemtica contemporneas. Trata-se de                a umu deformao do contnuo quadrimen-
caractersticas que generalizam ao mximo a                sional do espao-tempo (cf. A. EINSTI-IN, L.
noo de R., permitindo incluir nela e esclare-            IMKI.1), The Hvolution of Physcs, 1938, trad.
cer com ela os conceitos mais dspares (cf.                it-, 1950; quanto  bibliografia, o volume dedi-
WIUTI:II:AI) e RISSKLL, Principia matbematica,            cado u Kinstein na coleo "Living Philoso-
vol. 1, 1925). Para uma exposio sumria da               phers" de Schilpp, 1949).
noo das R. em funo dos conceitos funda-                    A teoria da R. teve numerosas interpretaes
mentais da matemtica, cf. RUSSILL, Introduc-              filosficas. Uma delas  a relativista, que a enten-
tion to MathematicalPhlosophy, 1918; trad. it.,           deu como continuao do relativismo filosfico
1947. Quanto aos aspectos matemticos, cf. W.              (cf, p. ex., A. ALLIOITA, Relativismo, idealismo e
RELATIVISMO                                             84 S                                  RELATIVISMO


 teoria de Hinstein. 1948). Outra 6 a idealista ou          po, a ineognoscibilidacle e a existncia do Ab-
 espiritualista, defendida especialmente por A.             soluto, uma vez que se pode crer tambm na-
 Fddington ( The Naure ofthe Phisical World,               qiiilo que no se conhece ( Leclnres, cit., II, pp.
  1928; ThePhilosophy ofPhysical Science. 1939),            530-531). Kssas teses foram utilizadas como
 mas na realidade a teoria da R. presta-se muito            apologtica religiosa por F. L. Mansel Pbi-
 menos a interpretaes filosficas do que as teorias       losophy ofthe Cjnditknied, 1866). Mas o principal
 clssicas. A relatividade de que ela fala nada tem         responsvel por sua difuso foi o positivismo.
 a ver com o relativismo: uma medida por certo              pt)is Spencer aceitava o ponto de vista cie Ha-
 6 relativa, no ao homem nem ao sujeito                    milton, admitindo a relatividade cio conheci-
 cognoscente, mas ao sistema de referncia, po-             mento humano, a ineognoscibilidacle do Ab-
 dendo tambm ser expressa com base em ou-                  soluto e sua existncia (First Principies, 1862.
 tros sistemas. Tampouco se pode dizer que a teo-            23 ss.).
 ria da R. seja mais subjetivista ou idealista que a            Fora do positivismo, o R. foi aceito por algu-
 fsica clssica. A lio mais importante que a             mas correntes do neocriticismo e do pragmatis-
 filosofia pode aprender com ela diz respeito ao            mo. No neocriticismo, H. Kenouvier (/<ssc/is de
 mtodo, e pode ser inferida das seguintes pala-           critique gnmle, 1854-64) insistiu na relativi-
 iras de Kinstein: "Para o tsico, um conceito s          dade do fenmeno, que s subsiste em relao
tem valor quando  possvel estabelecer se ele             com outros fenmenos e em relao com o
convm ou no. Portanto, precisamos cie uma                sujeito cognoscente (lissiis, I, pp. 50 ss.); G.
definio da simultaneidade que fornea o m-              Siiiimel afirmava que "o R. pode ser afirmado
todo para reconhecer por meio de experincias              da seguinte maneira, com referncia aos prin-
se dois relmpagos foram simultneos ou no.               cpios do conhecimento: os princpios consti-
Fnquanto essa condio no se realizar, eu, como           tutivos fundamentais, que expressam defini-
fsico (e tambm como no fsico), estarei me              tivamente a essncia das coisas, tornam-se
iludindo se achar que posso atribuir significado           princpios reguladores, que so apenas pontos
 expresso de simultaneidade" (l 'her die spazielle       de vista para o progresso do conhecimento"
itnddieallgemeine Relativiitstheorie, 1917,  8:          (pbilosopbie des Geldes, 1900. p. 68). No mbi-
trad. it., p. 18). Essas palavras expressam a exi-         to do pragmatismo, o R. era defendido por F. F.
gncia geral de que. para ser vlida, qualquer             S. Schiller; desse ponto de vista, era a negao
proposio deve poder ser confirmada ou com-               da s verdades "absolutas" ou "racionais" e o re-
provada por mtodos hbeis (v. SIGNIFICADO).               conhecimento de que a verdade  sempre rela-
     RELATIVISMO (in. Relatirism, fr. Relali-              tivii ao homem,  vlida porque til a ele; por
fisine; ai. Relcitirismus-, it. Relativismus). Dou-        isso, Schiller via no ditado de Protgoras "o
trina que afirma a relatividade do conhecimen-             homem  a medida de todas as coisas" a maior
to, no sentido dado a esta expresso no sc.               descoberta da filosofia (Slndies in llumanism,
XIX. a saber: 1" como ao condicionante do                1902. pp. X ss.). A sofistica antiga, o ceticismo
sujeito sobre seus objetos de conhecimento; 2"             e (em parte) o empirismo e o criticismo torna-
como ao condicionante recproca dos obje-                vam-se, desse ponto de vista, manifestaes de
tos de conhecimento. Kste condicionamento                  uni R. que buscava precedentes e tentava criar
duplo dos objetos cie conhecimento foi primei-             tradio. Na realidade, porm, o R. foi um fe-
ramente tomado como fundamento cio R. por                  nmeno moderno, ligado  cultura do sc. XIX,
W. Hamilton, que, por um lado, insistia no fato            e constituiu uma espcie de subverso da filo-
de que todos os objetos existentes podem ser               sofia dogmtica do sc. XX. Isso pode ser nota-
conhecidos apenas em relao com as faculda-               do com certa facilidade na manifestao extre-
des humanas e em condies ditadas por essas               ma (a nica autntica) cio R., que  a doutrina
mesmas faculdades (Leclitres ou Metaphvsics,               exposta por O. Spengler em seu livro A deca-
1, 1870, V ed, p. 148), e, por outro, na con-              dncia do Ocidente(1918-22). em que se afir-
dicionalidade que os objetos de conheci-                   ma no s a relatividade do conhecimento,
mento exercem uns sobre os outros (Discussion              mas tambm de todos os valores fundamentais
ou Philosophy, 1852, p. 13). Com base nesses               da vida humana nas pocas da histria consi-
dois pontos (que nada tinham de original, pois             deradas como entidades orgnicas, cada uma
podem ser facilmente reconhecidos como as                  da,-> quais cresce, desenvolve-se e morre sem
teses mais genricas do empirismo e do                     relao com a outra. Segundo esse ponto de
criticismo), Hamilton afirmava, ao mesmo tem-              vista, a relatividade est no s na verdade reli-
RELATIVO                                             8-i6                                            RELIGIO

giosa e filosfica, mas tambm na verdade mo-               enunciado significante, especialmente se for
ral e cientfica. "Cada cultura" -- dizia Spengler          importante para o significado total do contexto
-- "tem seu prprio critrio, cuja validade co-             em que se acha. s vezes tambm so chama-
mea e termina com ela. No h moral humana                 dos de R. os elementos de fato, importantes
universal" (Der l Utergaug ciesAbendkiiules, I.             para o juzo de determinada situao.
cap. 1. p. 55).                                                 RELIGIO (lat Relgo: in. Relighm. fr. Reli-
    Nesta forma, que  a nica rigorosamente                gion: ai. Religion-, it. Relgioue). Crena na ga-
coerente, o R. afirma a relatividade dos valores            rantia sobrenatural de salvao, e tcnicas des-
somente porcjue considera necessria a relao              tinadas a obter e conservar essa garantia. A
entre eles e a poca histrica  qual pertencem,            garantia religiosa  sobrenatural no sentido de
negando-lhes a possibilidade de serem relati-               situar-se alm cios limites abarcados pelos po-
vos a outros homens, a outras pocas ou a ou-               deres cio homem, de agir ou poder agir onde
tras circunstncias, obtendo assim uma autono-              tais poderes so impotentes e de ter um modo
mia parcial que desmentiria o R. F.sse mesmo                de ao misterioso e imperscrutvel. A origem
ponto de vista  defendido com freqncia na-               sobrenatural da garantia no implica necessa-
quilo que hoje se chama de R. cultural, que                 riamente que ela seja oferecida por uma divin-
parte do reconhecimento da diversidade dos                  dade e que. portanto, a relao com a divinda-
costumes e das normas vigentes em culturas di-              de seja necessria  R.: na realidade, existem K.
versas. Esse R. tem razes remotas (Herdoto,               atestas, como o budismo primitivo, retomado
Protgoras e Discursos duplos, texto de inspira-            e defendido neste seu carter por escolas pos-
o sofista, talvez da primeira metade do sc.              teriores (cf. G. Tvcci, Storia delia filosofia india-
IV a.C), mas hoje se apoia no reconhecimento                na, pp. 71 ss.; 312 ss.). Alm da determinao
qtiase universal da pluralidade e da heteroge-
neidade das culturas. Km sua forma extrema,                 da relao cio homem com a divindade, a fun-
foi defendido por Herskovits ( CulturalAuthro-              o de demonstrar a existncia desta e de es-
polog}1, 1955); a respeito, v. o volume coletivo            clarecer suas caractersticas e funes em rela-
Relatiris))! and lhe Sludy of Man, org. por                 o ao homem e ao mundo sempre foi
                                                            atribuda mais  filosofia qtie  R.; o cumpri-
SCHOECK e WlGGINS, 1961).                                   mento dessa tarefa pode at ter carter anti-
   RELATIVO (lat. Rekitirus; in. Relatire, fr.              religioso, como aconteceu no epicurismo. que
Relatif ai. Relativ-, it. Relativo). 1. Aquilo que          pretendeu estabelecer ao mesmo tempo a exis-
participa de uma relao ou desempenha a fun-               tncia da divindade e sua indiferena para com
o de termo numa relao. Neste sentido, diz-              o mundo e os homens, regulando com base
se "o fenmeno ,v  relativo a v como causa".               nisso as relaes da divindade e do homem.
    2. Termo que no tem significado, ou que                (EPICIRO, Carta a Meneceit, 123-24; FII.ODKMO,
no tem significado exato, a no ser em refe-               De pietate, p. 122; fr. 38, Usener). Por outro
rncia a outro termo. Neste sentido "maior",                lado, hoje, para alguns telogos, a relao entre
"menor", "duplo", etc. so R. porque so sempre             o homem e Deus  artigo de f, e no de R.,
citados com referncia a alguma outra coisa.                porque no depende das formas mticas que a
   3. Aquilo que vale somente em determinadas               R. assumiu e  constitutiva da existncia huma-
circunstncias ou condies e no vale fora                 na no mundo (v. F: DEI S; Di-:rs, MORTE DIO.
delas. Neste sentido, diz-se que o conhecimento
 R. ou que os valores so R., e que o oposto                  F.m qualquer caso, a salvao de que a R.
de R.  "absoluto" ou "incondicionado".                     pretende ser garantia no se refere necessaria-
   4. O que  relao ou concerne a uma rela-               mente a este ou aquele mal do mundo: pode
o. Neste sentido, diz-se, p. ex., que "o conhe-           inclusive significar livrar-se do mundo, j que
cimento  R.", "significando que ele consiste               este  considerado um mal em sua totalidade,
em estabelecer relaes entre dados. Contu-                 como cie fato acontece no prprio budismo.
do, neste caso, o adjetivo relacionai(v.)  mais            Alm disso, na definio proposta, convm su-
apropriado.                                                 blinhar a diferena entre a cre)ia na garantia
    5. Como substantivo, o termo  usado por                sobrenatural e as tcnicas que permitem obter
Schrder (lgebra der Logik, 1895) e por Peirce             ou conservar tal garantia. Por tcnicas enten-
(Coll. Pap., 3.456.526: "The Logic of Relatives",           dem-se todos os atos ou prticas de culto: ora-
1897), sendo sinnimo de relao.                           o, sacrifcio, ritual, cerimnia, servio divino
    RELEVANTE (in. Relevant; fr.Relevam, ai. Be-            ou servio social. A crena na garantia sobrena-
deutend; it. Rilevante). Chama-se de R. a um                tural  a atitude religiosa fundamental, poden-
RELIGIO                                              8-r                                            RELIGIO


cio ser simplesmente interior e pessoal (religio-           mento uma revelao originria que garante
sidade individual); ao contrrio, as tcnicas               sua verdade ou consideram as crenas e as
destinadas a obter e conservar essa garantia                instituies com que se identificam continuamen-
constituem o lado objetivo e pblico da R., seu             te confirmadas por testemunhos sobrenaturais,
aspecto institucional. l'ma R. natural d consti-            o que  o mesmo. Portanto, do ponto de vista
tuda simplesmente por essa atitude; Lima R.                cia filosofia, o reconhecimento cia origem divi-
positiva  constituda essencialmente por essas             na ou do valor absoluto da R. concretiza-se na
tcnicas.                                                   tese de que a R.  revelao. Pode-se dizer que
    O conceito de R. compreende ambos os                    essa tese nada mais  que a expresso filosfi-
aspectos. Ftimologicamente, essa palavra signi-             ca do valor absoluto que a R. se atribui. Esse
fica provavelmente "obrigao", mas, segundo                ponto cie vista foi expresso com toda a clareza
Ccero, derivaria de relegere: "Aqueles que                 por Hegel: "No conceito da verdadeira R., que
cumpriam cuidadosamente todos os atos cio                    aquela em que est contido o Esprito absolu-
culto divino e, por assim dizer, os reliam aten-            to, est posto essencialmente que ela  revela-
tamente foram chamados de religiosos -- de                  da, e revelada por Deus" (linc,  564). E acres-
relegere --, assim como elegantes vem de                    centa que "se a Deus for negada a revelao,
elegere, diligentes de cliligere e inteligentes             no restaria outro contedo a atribuir-lhe seno
de intelligere-, de fato, em todas essas palavras           a inveja. Mas. se  que a palavra esprito tem
nota-se o mesmo valor de legere, que est pre-              sentido, significa a revelao de si" (Ibid.. 
sente em R." (De ncit. c/eor., II, 28. ""2). Para           560. No  diferente deste o conceito que
Lactncio (Inst. Div., IV, 28) e S. Agostinho               Schleiermacher tinha de R: "O universo  uma
(Retract., I, 13), porm, essa palavra deriva de            atividade ininterrupta que se nos revela a todo
religare, e a propsito Lactncio cita a expres-            momento. Todas as formas que ele produz,
so de Lucrcio "soltar a alma dos laos da R."             todos os seres aos quais d, pela plenitude da
(De rei: nat., I, 930).                                     sua vicia, uma existncia particular, todos os
    Deve-se notar tambm que o grego no                    acontecimentos que ele gera em seu seio sem-
possui o equivalente exato cia palavra latina e             pre rico e fecundo, correspondem a uma ao
moderna. Aocipea significa servio divino; por-            que ele exerce sobre ns; assim, em aceitar
tanto, refere-se apenas ao segundo dos ele-                 cada coisa particular como parte do Todo, cada
mentos da R. S. Agostinho (De civ. Dei, X, 1)               coisa tinira como expresso do Infinito, consis-
estabelecia a correspondncia entre religio e               te a R." (Reden berdie Religiou, 1799, II; trad.
0pr)O7rea, mas tambm esta palavra se refere               it., p. 39). Pode-se expressar essa mesma dou-
exclusivamente s tcnicas cia R.                           trina afirmando que a R.  a experincia do
    As diterentes definies at hoje feitas de R.          divino e que, como toda experincia, revela a
podem ser classificadas com base nos dois pro-              realidade de seu objeto. Este era o conceito
blemas fundamentais a que correspondem, a                   que Bergson tinha cia R. autntica, ou seja, o
saber: I. Com base no problema da origem da                 misticismo: "Se as semelhanas exteriores en-
R., que na realidade  o problema do tipo de                tre os msticos cristos dependem de uma
validade da R.; II. Com base no problema da                 comunidade de tradies e de ensinamentos,
funo atribuda  R., ou seja, o carter espec-           seu acordo profundo  sinal de identidade de
fico da garantia que ela oferece  salvao do              intuio, que pode ser explicada de maneira
homem.                                                      mais simples pela existncia real do ser com o
                                                            qual acreditam estar em comunicao" (Deit.x
    1. Como acontece tambm em outros casos,                soitrces, III; trad. it., pp. 270-71).
o problema da origem consiste na realidade
em saber que tipo de validade se pretende atri-                ! A doutrina da origem poltica reduz a R. a
buir  R. V. possvel distinguir trs solues para         um estratagema poltico: portanto, anula seu
este problema, a saber: Ia a doutrina da origem             valor intrnseco. O primeiro a defender essa
divina da R.; 2- a doutrina da origem poltica; 3a          teoria foi Crtias, um dos trinta tiranos de Atenas.
a doutrina cia origem humana cia religio.                  Segundo ele, "os antigos legisladores inventa-
    Ia A doutrina da origem divina expressa o               ram a divindade como uma espcie de inspetor
reconhecimento do valor absoluto (ou infini-                das aes humanas, boas ou ms. a fim de que
to) da R. \l bvio que a pretenso cie ter origem           ningum ofendesse ou trasse seu prximo, por
divina ou sobrenatural  intrnseca em qualquer             medo cia vingana dos deuses". Esse estratage-
R., j que todas elas afirmam ter como funda-               ma foi necessrio porque "as leis realmente clis-
RELIGIO                                                    18                                           RELIGIO

suadiam os homens de praticar violncias s                        acontecimentos tia vida e, portanto, das espe-
claras, mas eles as cometiam s escondidas",                       ranas e dos temores incessantes que o agitam.
de tal maneira qtie "algum homem talentoso e                       Suspenso entre a vida e a morte, entre a sade
experiente inventou o temor dos deuses para                        e a doena, entre a abundncia e a privao, o
que os malvados se sentissem amedrontados                          homem atribui a causas secretas e desconhecidas
mesmo no que fizessem, dissessem ou pensas-                        os bens cie que frui e os males pelos quais 
sem s escondidas" (SKXTO EMPRICO, Ac/r. math.,                   continuamente ameaado (Natural fistoiy of
IX, 54). Concepes anlogas recorrem de vez                       Religion, II. em lissays, II. p. 316). Voltaire ex-
em quando na histria da filosofia: podem ser                      punha da seguinte maneira esse mesmo con-
reconhecidas no libertinismo e em algumas cor-                     ceito: "fi natural que um povo, assustado com
rentes do iluminismo e do marxismo.                                o trovo, afligido pela perda de stias colheitas,
    3" A doutrina da origem humana considera a                     maltratado pelo povo vizinho, sentindo todos
R. como formao humana, cujas razes es-                          os dias a sua fraqueza, sentindo por todos os
to na situao do homem no mundo. Essa                            lados um poder invisvel, tenha finalmente dito:
doutrina no est empenhada em atribuir  R.                       'H algum ser superior a ns que nos faz bem
determinada validade, mas sim em com-                              e mal'" (Dictounaire philosophiijue, 1764, v.
pv eentA - A wmo ienmeno humano v express-
          V                                                        ReUgkvn. U.
la num conceito suficientemente amplo para                             Kssa doutrina eclipsou-se no incio do sc.
abranger todas as suas manifestaes mais                          XX. Por um lado, mesmo o conceito romntico
dspares. Essa concepo orientou-se para dois                     cie R. como revelao ou sentimento tio infinito
tipos de explicaes. O primeiro considerou a                      foi compartilhado at por filsofos que nega-
religio como uma torma de satisfao da ne-                       vam a validade da R. Feuerbach, p. ex., trans-
cessidade tcortica, ou seja, de conhecimento.                     formando a teologia em antropologia, afirma-
O segundo considerou que a R. 6 sugerida ao                        va: "A R. 6 a conscincia tio infinito: por
homem pela situao em que ele se encontra                         isso, no  e no potle ser outra coisa seno
no inundo, substancialmente por suas neces-                        a conscincia que o homem tem da infinidade
sidades prticas. Soluo do primeiro tipo en-                     de seu ser, e no de sua limitao" ( Wesen
contra-se em Hpicuro, para quem a origem da                        der Cbristeiithum, 18-l,  1). Analogamente,
R. est nas imagens onricas e na necessidade                      Max Mller via a essncia da R. na potencial
humana de explicar a regularidade dos movi-                        capacidade humana de "apreender o infinito"
mentos celestes (Li iCR:cio, De rei: nat.,\, 116"                 ( Voiiesuiigen berdeii l'rspruiif> uud die F.nt-
ss.). A R. seria mais contemplativa que prtica.                    wickhtng der Religion, 1880, p. 28). F.mbora,
Hobbes foi o primeiro a atribuir-lhe origem                        com essas expresses, se pretendesse ressaltar
prtica; citando as palavras de Estcio " Primus                   a origem humana da R., lanava-se mo de
in orbedeosfecil linior" ( 1'heb., III, 661), H o b b e s          conceitos que se prestavam mais a exprimir
afirmava que a principal causa do aparecimen-                      sua origem divina e seu valor absoluto. Por
to da R.  o temor que nasce da incerteza do                       outro kido. tambm no campo da investigao
luturo: "Por ser inegvel que existem causas                       sociolgica, que comeava a examinar as for-
para todas as coisas que existem ou existiro,                     mas de R. tios povos primitivos, manifestava-se
 impossvel, para o homem que tenta preve-                        a tendncia a considerar a R. como contempla-
nir-se contra os males que teme e obter os bens                    o, interpretando-a como concepo tio mundo
que deseja, deixar de viver em contnua preo-                      (ou filosofia) certamente grosseira, mas no
cupao com o porvir, de tal maneira que to-                       destituda de certa coerncia. K. B. Tylor via a
dos os homens, sobretudo os mais previden-                         essncia da R. primitiva no auimismoiw), que
tes, vivem num estado semelhante ao de                              a crena em seres espirituais considerados
Prometeu." F. desse estado de temor, bem como                      presentes em todas as coisas e causadores de
tia esperana de garantir os bens de que neces-                    todos os eventos (Primitive (hilture, 1871).
sita e do desejo de atingir um conhecimento                        Nesses termos, a R. seria Lima metafsica da na-
completo do mundo, que. segundo Hobbes,                            tureza. Segundo Durkheim. porm, ela seria
nasce a R. (Leviath.. 1. 12). Doutrina anloga,                    metafsica da sociedade; para ele, R.  "o mito
mas exposta de maneira mais pormenorizada,                         que a sociedade faz de si mesma", no sentido
foi reapresentada por Hume em Histria natu-                       de que "sociedade  a realidade que as mitolo-
 ral dei religio (17V7). A R. no surge da con-                   gias representaram com tantas formas diferen-
templao, mas do interesse do homem pelos                         tes, mas que  a causa objetiva, universal e
RELIGIO                                                849                                           RELIGIO


eterna da.s .sensaes suigetwrsdc que  feita               nar propcios os poderes superiores que domi-
a experincia religiosa" (Formes lmentaires                 nam a natureza. Ksta foi a doutrina mais aceita
de Ia i'ie religieuse, 1937, p. 597). Isso quer               por socilogos e filsofos. A. Loisy sustentava
dizer que a R. primitiva consiste em atribuir a               um ponto de vista bem prximo ao cie Frazer
uma suposta realidade as caractersticas da so-               (Hssai historicjue sur le sacrifico, 1920) e H.
ciedade primitiva: as que essa sociedade consi-               jVIalinowski apresentava novas provas para a
dera essenciais para si mesma. Essas teses ba-                mesma tese. Segundo Malinowski. a R. e a ma-
seavam-se principalmente numa interpretao                   jjia surgem e funcionam em situaes de ten-
do tolcinisnio: para Durkheim, o totem 6 sm-                 so emocional: crises da vida, tentativas malo-
bolo da fora que sustenta o indivduo: a pr-                gradas, morte e iniciao nos mistrios da tribo,
pria sociedade: nela, a mente primitiva haure                 ;imores infelizes e dios insatisfeitos. R. e ma-
todas as suas categorias para a interpretao do              j>ia tambm tm em comum o fato de oferece-
mundo. Assim, para Durkheim, a R. tem um ca-                  rem uma sada para tais situaes por meio de
rter contemplativo, tambm atribudo a ela                   crenas e prticas que se referem ao domnio
por outro grande socilogo francs. I.ucien                   tio sobrenatural. Distinguem-se contudo pelo
I.vy-Bruhl. que expressa essa tese identifican-              fato de a magia utilizar tcnicas limitadas e sim-
do com o miseismo no s a K., mas a vida                    ples, eTuriiviTiVo a H. cornpTeeTieVe vim corrjvinto
dos povos primitivos em sua totalidade (I.e.x-                 de tcnicas; a magia limita-se a uma classe cie
prieuce mystique et les symboles chez les                     pessoas que faz dela profisso, ao passo que a
prniitifs, 193<-i). Para todas essas correntes filo-          R.  assunto de todos, e cada indivduo partici-
sficas e sociolgicas, a R. . em sua origem,                 pa dela ativamente. Por fim, ambas tm fun-
um fato cognitivo:  uma tentativa de explicar o              des diferentes: a da magia  suprir a deficin-
mundo ou de formar uma idia do mundo com                     cia ou a imperfeio dos instrumentos naturais
base em certo nmero de experincias mais                     c'om instrumentos sobrenaturais, enquanto a
freqentes na vida dos homens.                                funo da religio  fortalecer certas atitudes
                                                              especiais, como a coragem e a confiana na
    O retorno  concepo setecentista de R.,
                                                              luta contra as dificuldades (Xhigic. Science and
segundo a qual sua origem est na situao do
                                                               fieligion, 1925). No muito diferente desta, em-
homem no mundo, verifica-se apenas nas cor-
                                                              bora expressa em termos teolgicos e msticos,
rentes mais modernas e crticas da sociologia.
                                                              foi a tese defendida por Rudolf Otto em seu li-
Foi W. Robertson Smith quem comeou a insis-
                                                              vro intitulado O sagrado( 191"7). Segundo Otto,
tir na importncia assumida pelo segundo dos
                                                              cleriva do medo o sentimento de estar em pre-
dois elementos (as tcnicas) na R. primitiva. "A
                                                              sena de um poder superior, que se cristaliza
R. nos tempos primitivos no foi um sistema de
                                                              naquilo que ele chama de trememliim ou
crenas com aplicaes prticas: foi um corpo
                                                               l)iaieslas; deriva do sentimento de desesperan-
de prticas tradicionalmente fixadas, s quais
                                                              a, impotncia, insignificncia o sentimento
todos os membros de uma sociedade se con-
                                                               criatundescrito no Antigo Testamento; e das
formavam naturalmente. Os homens criam re-
                                                              fantasias compensadoras nasce o conceito da-
gras gerais de conduta antes de comearem a
                                                              quilo que  completamente outro, que se mis-
expressar em palavras os princpios gerais;
                                                              tura aos acontecimentos mais corriqueiros sem
as instituies polticas so mais antigas que as
                                                              deixar de parecer novo e estranho. Assim, os
teorias polticas e, de maneira semelhante,
                                                              ingredientes do sobrenatural eram atribudos,
as instituies religiosas so mais antigas que
                                                              tambm por Otto.  situao do homem no
as teorias religiosas" {hectares ou lhe Religion
                                                              inundo. F.sse foi o ponto de partida das mais
oftho Semites, 19(F, p. 16). Mais tarde, a obra
                                                              modernas teorias da religio. Segundo Freud. a
de G. Prazer (The Coklen Bough, 1911-14)
                                                              R. "d aos homens inlormaes acerca da fonte
mostrava a estreita conexo entre R. e magia,
                                                              c tia origem tio universo, garante-lhes prote-
partindo da considerao de que o homem 
                                                              o e felicidade final apesar da.s eambiantes
dominado em primeiro lugar pela preocupao
                                                              v icissitudes da vida e guia seus pensamentos e
de controlar os acontecimentos naturais, com o
                                                              nuas aes com preceitos apoiados na fora da
objetivo de submet-los s exigncias da vida.
                                                              ;tutoridade" (A i\'eit] Series of Introductory
A diferena entre magia e R., segundo Frazer,
                                                              ioclitros ou 1'sycho-Aualyss, 1933, p. 220).
consiste no seguinte: a primeira tende ao con-
                                                              Com esses fundamentos, Freud acredita que a
trole direto dos acontecimentos naturais, ao
                                                              R. consiste na crena de um pai sobrenatural
passo que a segunda procura os meios de tor-
RELIGIO                                                                                        RELIGIO

que protege os homens dos perigos, recom-              existncia chama-se nirvana. Mas. segundo o
pensando-os ou punindo-os conforme o caso.             prprio budismo, o nirvana tambm  o estado
Assim, a relao entre o homem e a divindade           de bem-aventurana de quem. j nesta vida.
estaria moldada na relao entre pai e filho           eliminou o desejo e, portanto, o germe da futu-
(Ibicl., pp. 222 ss.). Sem levarem conta o fundo       ra existncia. Desse ponto de vista, a salvao
psicanaltico desta concepo, pode-se dizer            concebida pelo budismo no s como liber-
que ela no difere muito das outras menciona-          tar-se do mundo, mas tambm como libertar-
das anteriormente: a R.  entendida como cor-          se dos males do mundo. Esses dois aspectos
retivo, defesa ou protesto diante da situao de       esto presentes em muitas R., com exceo da
incerteza que o homem encontra no mundo,               de Israel, que ignora o primeiro: a promessa de
liste  tambm o conceito que Bergson apre-            bem-aventurana a ser alcanada alm do
senta de R. esttica,  qual ele ops a A', cliu-     mundo ou aps a morte costuma ser acompa-
mica (o misticismo). R. esttica seria. pois. "a       nhada pela promessa de felicidade, de paz ou
reao defensiva da natureza contra o poder            de bem-estar j na vida terrena. Quando a feli-
desagregador da inteligncia", no sentido cie          cidade ou a paz pode ser alcanada nesta vida
que a inteligncia mostra claramente ao ho-            s com a superao da condio humana e da
mem a incerteza e os perigos da vida, bem              (leificao, que  a unio com Deus e com o
como a inexorabilidade da morte, enquanto a            princpio csmico, tem-se o iisticisio(\.). No
R. seria o conjunto das reaes defensivas con-        misticismo. Bergson viu a R. dinmica, a conti-
tra as representaes intelectuais da condio         nuao supra-orgnica do cl vital, o impulso
humana no mundo (Deux sourccs, 1932, cap.              para a criao de uma sociedade nova, baseada
II, trad. it.. pp. 131 ss.). Estritamente sobre a R.   no amor universal (Den.x sourccs, 1932. cap.
primitiva, tese anloga foi defendida com base         III). Na realidade, o misticismo  apenas uma
em ampla documentao por P. Radin em seu              das solues para o problema cia salvao, sen-
livro sobre a R. dos primitivos (Primitive keligion,   do tpico de uma religiosidade pessoal, con-
ils Xatiire and Origiu, 1937).                         templativa e solitria, para a qual as atividades
    II. O segundo dos problemas aos quais as           e as relaes humanas so alheias e insignifi-
definies de R. j propostas pretendem ciar res-      cantes.
posta  o da funo especfica cia R. Esse proble-         2a A garantia infalvel tia verdade  preten-
ma pode ser entendido em dois sentidos. Fm             so implcita em qualquer R. Do ponto de vista
primeiro lugar, para o problema da garantia de         filosfico, essa tese apresenta-se como identi-
salvao que a R. pretende oferecer ao homem,          dade entre R. e filosofia, com diferenas pura-
 possvel distinguir trs solues principais: Ia     mente formais entre elas. Essa foi, p. ex., a
a R. como meio cie libertar-se do mundo; 2a a R.       teoria defendida por Hegel: "A filosofia tem o
como verdade; 3- a R. como moralidade. Km              mesmo objeto cia R. porque ambas tm como
segundo lugar, o prprio problema pode ser             objeto a verdade, no sentido superior da pala-
entendido do ponto cie vista da luno exercida        vra, porquanto Deus. e somente Deus.  a ver-
pela R. na sociedade ou na economia geral da           dade" (Fiic  1). Todavia, a R. distingue-se da
vida humana (4a).                                      filosofia por no expressar a verdade em forma
     Ia A garantia que a R. pretende oferecer ao       de conceito, mas em forma de representao c
homem pode ser antes de mais nada a de                 sentimento. Hegel diz: "R.  a relao com o
libert-lo do mundo, que  considerado um              Absoluto na forma de sentimento, de represen-
mal. Essa  a doutrina do budismo: "No se             tao, de f; no seu centro, que tudo abarca,
eleve fruir aquilo que nasce e se transforma,          tudo est apenas como algo acidental e eva-
aquilo que se forma e constitui, que  instvel,       nescente" (/'//. do c/ir.,  270). Portanto, aquilo
dependente cia velhice e da morte, fonte de            que a R. intui de modo acidental, aproximativo
doenas, frgil, surgido do trnsito dos alimentos.    e confuso  demonstrado com carter de ne-
Fugir desse estado significa encontrar outro es-       cessidade pela filosofia (Ene.  S^3). Est claro.
tado, tranqilo, situado alm cio domnio do           porm, que a doutrina da identidade entre R. e
pensamento, estvel, no nascido, no forma-           filosofia tambm pode ser afirmada do ponto
do, sem dor, sem paixo, felicidade que pe            de vista da superioridade da R. como forma ou
fim s condies de misria e destri para sem-        revelao da verdade:  o que faz a filosofia da
pre os elementos da existncia" (Itiviittakxu 43,      f de Haman, Herdei" e Jacobi,  qual o prprio
trad. Pavolini). Esse estado de destruio da          I legel se ope (v. Fi;, FILOSOFIA DA). Contudo 
RELIGIO                                              851                                          REUGIAO

evidente c|ue nesse easo no   religio que se            F.m primeiro lugar, exclui que a R. exija cincia
confia a garantia da verdade*, mas a um rgo,              cie' Deus e inclui que basta possuir a simples
a f. da qual depende a validade da filosofia e             idia de Deus. Km segundo lugar, essa defini-
tia R.. bem como de qualquer outro tipo de sa-              o previne a "falsa idia de que a R.  um
ber. Portanto, atribuir  R. como objetivo espe-            conjunto de dev eres especiais que' se relerem
cfico a verdade na maioria das vezes significa,            imediatamente a Deus", e impede, portanto,
do ponto de vista filosfico, atribuir-lhe' a fun-          que. alm cios deveres humanos tico-sociais,
o de manifestar a verdade numa forma sem                  sejam admitidos "os servios corteses com que
dvida infalvel e certa, mas inferior  forma              poderamos tentar compensar nossas faltas
que" a verdade pode assumir em filosofia. As-               piira com os deveres da primeira espcie"
sim, para Gentile, a R.  "a exaltao do objeto            (Ibid., IV, se. I, nota). Nesta interpretao, po-
subtrado aos vnculos do esprito, no que con-             rm, o que* a R. garantiria seria o absolutismo
siste a idealidade. a cognoscibilidade e a ra-              ck) mandamento moral: no garantiria (porque
cionalidade do objeto" (Teoria gen. de/Io spi-              isso  da alada cia liberdade humana) a
rito. 1913. XIV. 7). Portanto, a essncia da R.            efetivao elo mandamento moral, isto . a rea-
o misticismo, que  a anulao do sujeito no                lizao propriamente dita dos valores morais
objeto, eiu virtude do e\ue o ser ele Deus  o              no mundo. Contudo, na maior parte das ve/.es
no-ser do sujeito ()iscorsi di ivligione. 1920.           pede-se ou atribui-se  R. esta segunda espcie
p. 78). A R. encontra sua verdade* apenas na                de" garantia: de que os valores morais e, em
filosofia, que resolve Deus no ato do pensamen-             geral, os que interessam ao homem e  sua
to. "Como pode esse Deus ser uma vontade a                  vida espiritual no fiquem confiados unicamente
 reconhecer, suplicar e esconjurar,  qual  pre-            boa vontade humana, mas encontrem na provi-
ciso subordinar-se, se Deus est dentro do ho-              dncia divina a sah aguarda infalvel, capaz de
mem, do seu eu, sendo propriamente o seu eu                 garantir seu triunfo final. Neste sentido, H.
em seu atualizar-se?" (Sistema di lgica. II.               Hffding afirmou que a R.  a "crena na con-
 1922, IV. 8. -4). De maneira mais clara e in-              servao dos valores" (Religiouspbilusopbe,
sofismvel. Croee disse que a R.  uma forma                1902, p. 13); a f religiosa seria a convico "da
provisria e imperfeita cie filosofia, e por isso o         solidez, da certeza e cia continuidade da rela-
lilsofo deveria ver o religioso como "o seu                o fundamental dos valores com a realidade"
 irmo menor, ele mesmo num momento ante-                   (Ibid.. 1902, p. 105). Esse  precisamente o
rior" (/'//. delia pratica. 1909, p. 314).                 otimismo providencialista que muitas correntes
                                                            filosficas idealistas e espiritualistas haurem ou
    3'1  crena bem antiga que a R. garante os             pretendem haurir na R., em nome do qual insti-
valores morais do homem, entendendo-se por                  tuem apologticas religiosas mais ou menos
morais os valores que* regulam a ordem da vida              engajadas.
social. Era essa a funo que Plato atribua 
R.: "A divindade que, segundo a tradio, rege                  4a No mais considerando a R. em termos
o princpio, o fim e o curso de todos os seres,             ek* garantia sobrenatural cie sah ao. mas com
e procede conforme sua natureza no seu movi-                referncia s relaes inter-humanas. nas quais
mento circular; atrs dela vem sempre a justia             se insere como sistema de crenas e de institui-
punitiva para quem despreza a lei divina" (Leis,            es,  fcil evidenciar a sua utilidade biolgica
715 e, 716 a).                                              e .social. No que haja acordo unnime entre os
    No mundo moderno, esse ponto de vista foi               filsofos sobre esse aspecto. Ao afirmarem a
adotado e defendido por Kant: "A R., conside-               no-ingerncia da divindade nas atividades hu-
rada do ponto de vista subjetivo. 6 o conheci-              manas, os epicuristas tinham em vista eliminar
mento de todos os nossos deveres como man-                  o medo que os deuses inspiravam, pois consi-
damentos divinos. A R. em que preciso antes                 deravam a R. como um motivo suplementar de
saber que* alguma coisa  um mandamento di-                 preocupao e medo. e no de ajuda (cf. EPI-
vino para consider-lo meu prprio dever e a                Ct'RO. Fp. a Menaceu. 123; Ep. a Herdoto, 11;
R. revelada (ou que exige uma revelao); ao                Mass. Cap., 1). Alguns socilogos contempor-
contrrio, a R. em que devo saber que algo                 neos tampouco deixaram de observar que muitas
um dever antes de consider-lo um manda-                    vezes os ritos religiosos e as crenas a eles
mento divino,  a R. natural" (Keligiou. IV, se.           associadas so motivo de angstia, de tal ma-
I). Kant observa que essa definio cie R. previ-           neira que o efeito psicolgico do ritual parece
ne vrias interpretaes falsas desse conceito.             ser um sentimento de insegurana e perigo (cf.
REMINISCENCIA                                         852                                         RENASCIMENTO

A. R. RADCUFFK-BRONXN, StructureandFunction                 com a queda de Ado. A partir do sc. XV, po-
in Primitive Society. 1952, pp. 148-49). Mas                rm, essa palavra passa a ser empregada para
mesmo nesses casos  possvel reconhecer a                  designar a renovao moral, intelectual e polti-
funo social da R., na forma de fortalecimento             ca decorrente do retorno aos valores da civili-
cios laos sociais, principalmente nas socieda-             zao em que. supostamente, o homem teria
des primitivas UbcL, pp. 157 ss.). A. Loisy dizia:         obtido suas melhores realizaes: a greco-ro-
"F.ntregue  ao dos elementos, do clima, da-              mana. Assim, o R. foi forado a ressaltar as
quilo que a terra d ou recusa, da boa ou m                diferenas que o distinguiam do perodo medie-
sorte na caa e na pesca, das vicissitucles na              val, em sua tentativa de vincular-se ao perodo
luta contra semelhantes, o homem acredita en-               clssico e de haurir diretamente dele a inspira-
contrar um meio de regularizar com simulacros               o para suas atividades. Contudo no faltam
de ao as suas possibilidades mais ou menos                elementos cie continuidade entre a Idade M-
incertas. O que faz no tem utilidade para o                dia e o R.. e muitos dos problemas preferi-
objetivo almejado, mas ele ganha confiana em               dos por humanistas e filsofos do R. eram os
seus feitos e em si mesmo; ousa e, ousando,                 mesmos j discutidos pela Idade Mdia, com
realmente obtm mais ou menos o que quer.                   as mesmas solues. Isso explica por que a
Confiana rudimentar por vias humildes, mas 6               interpretao do R. sempre oscilou entre dois
o comeo da coragem moral" (Essai historiqitc               extremos: de um lado, a oposio radical entre
sur Io sacrifico, 1920, p. 533). Esse ponto de              ele e a Idade Mdia; de outro, a continuida-
vista foi desenvolvido mais tarde por Mali-                 de intrnseca entre os dois. A primeira posio
nowski (Magic, Science and Religion, ed. An-                foi defendida por Burckhardt (Die Kulttirder
chor Books, 1925, p. 89). Como vimos,  mais                Rcnaissance in Italien, 1860), sendo repeti-
ou menos isso que Bergson pensa. Trata-se de                da e ampliada por Gentile e seus discpulos.
ponto de vista vlido sobretudo para as socie-              A segunda concepo inspira-se sobretudo na
dades primitivas, mas tambm se sabe (v. PRI-               obra de K. Burdach ( Vom Mittelalter zu Rofor-
MITIVOS) que a sociologia contempornea tende               malion, Reuassance, Humanismus, 1926J) e
a eliminar o abismo entre mentalidade primiti-              ganhou forma extremada com G. Toffanin (His-
va e mentalidade civilizada. Ultrapassados os               tria do humanismo, 1933). As caractersticas
limites de controle cios acontecimentos por meio            fundamentais do R. podem ser brevemente re-
de tcnicas racionais -- limites, ademais, bas-             capituladas da seguinte maneira:
tante estreitos -- o homem reivindica liberda-
de cie f e entrega-se a crenas libertadoras ou               l1 Humanismo, como reconhecimento do
consoladoras, a tcnicas que lhe prometam sal-              valor do homem e crena cie que a humani-
vao infalvel. Obtendo ou no o cumprimen-                dade se realizou em sua forma mais perfeita
to dessas promessas, a funo dessas tcnicas               na Antigidade clssica (v., a respeito, Hi1-
                                                            MAMS.MO).
 bem clara: dar esperana e coragem, consolidar               4!
as relaes com os outros homens e com o                        2 Renovao religiosa, atravs da tentativa
mundo.                                                      cie reatar os laos com uma revelao origin-
                                                            ria, na qual se teriam inspirado os prprios
   REMINISCENCIA. V. ANAMNRSK.                              filsofos clssicos, como  o caso do platonismo
    RENASCIMENTO (in. Renaissance.h. Renas-                (Nicolau de Cusa, Pico delia Miranclola, M.
sauce-, ai. Renaissance-, it. Rinascimento). De-            Ficino), OLI atravs da tentativa de restabelecer
signa-se com este termo o movimento literrio,              o contato com as fontes originrias do cristia-
artstico e filosfico que comea no fim do sc.            nismo, ignorando a tradio medieval, como 
XIV e vai at o fim do sc. XVI. difundindo-se              o caso da Reforma protestante, (v. RKFORMA).
da Itlia para os outros pases da Kuropa. A pa-                3a Renovao das concepes polticas; com
lavra e o conceito cie R. tm origem religiosa,             o reconhecimento da origem humana ou natu-
como ficou demonstrado pelos estudos de                     ral das sociedades e dos Kstados (Maquiavel)
Hildebrand, Walser e Burdach: renascimento                 ou com a tentativa de voltar s formas histri-
o segundo nascimento, o nascimento do ho-                   cas originrias ou  natureza das instituies
mem novo ou espiritual de que falam o Kvan-                 sociais   (jusuaturalismo.   |v.|).
gelho de So Joo e as Epstolas de So Paulo.                 4" Naturalismo, como novo interesse pela
Durante toda a Idade Mdia, tanto o conceito                investigao direta da natureza, tanto na forma
quanto a palavra designavam o retorno do ho-                do aristotelismo, das manifestaes de magia
mem a Deus, sua restituio  vida perdida                  ou da metafsica da natureza (Campanella c
REPETIO                                              853                                 REPRESENTAO


Giordano Bruno) quanto na forma das primei-                  cki R." (The Logic ofScientific Discovery, 1959,
ras conquistas da cincia moderna.                           pp. 420 ss.) (V. INDUO; TEORIA).
    Sobre o R. cf. a Bibliografia de H. BARON,                  REPRESENTAO (lat. Repraesentatio, in. Re-
"Renaissance in Italien", em Archivfr Kultur-               pyesentation; fr. Reprsentation; ai. Vorstellung;
geschichte, 1927,1931. (Em especial E. CASSIRER,             it. Rappresentazione). Vocbulo de origem me-
Indivduo e cosmo na filosofia do R, e os tex-               dieval que indica imagem (v.) ou idia ([v.] no
tos de E. Garin; em particular: Idade Mdia e                2" sentido), ou ambas as coisas. O uso desse
R., 1954).                                                   termo foi sugerido aos escolsticos pelo con-
    REPETIO (in. Repetition; fr. Rptition;               ceito de conhecimento como "semelhana" cio
ai. Wiederhohing; it. Ripetizione). 1. Termo in-             objeto. "Representar algo" -- dizia S. Toms de
troduzido na terminologia existencialista por                A(juino -- "significa conter a semelhana da
Kierkegaard. Este, para esclarecer sua signifi-              coisa" (De ver, q. 7, a. 5). Mas foi principal-
cao, aproxmou-o da expresso aristotlica                 mente no fim da escolstica que esse termo
quod quid erat esse (v. ESSNCIA; SUBSTNCIA),               passou a ser mais usado, s vezes para indicar
                                                             o significado das palavras. (Cf., p. ex., GRA-
que, significando literalmente aquilo que o ser              ZIANO Dl ASCOI.I, Perihermenias, 2.) Ockham
era, expressa a necessidade e a imutabilidade                distinguia trs significados fundamentais: "Re-
do ser, a sua repetio. Kierkegaard va\e\i-se               presentar tem vrios sentidos. Em primeiro lu-
desse coneeito sobretudo para descrever a natu-              gar, designa-se com este termo aquilo por meio
reza da vida tica:  diferena da vida esttica,            do qual se conhece algo; nesse sentido, o co-
que procura evitar a R., buscando novidades a                nlrecimento  representativo, e representar sig-
todo instante (sendo por isso simbolizada por                nifica ser aquilo com que se conhece alguma
Don Juan), a vida tica baseia-se na continuida-             coisa. Em segundo lugar, por representar en-
de, na escolha repetida que o indivduo faz de si            tende-se conhecer alguma coisa, aps cujo
mesmo e de sua tarefa, sendo, pois, simbolizada              conhecimento conhece-se outra coisa; nesse
pelo matrimnio (Die Wiederhohing, 1843; cf.                 sentido, a imagem representa aquilo de que 
Dirio, IV, A, 15 6). Heidegger, por sua vez, uti-           imagem, no ato de lembrar. Em terceiro lugar,
lizou esse conceito para caracterizar a existncia           por representar entende-se causar o conheci-
autntica, como ela se realiza na angstia. A an-            mento do mesmo modo como o objeto causa o
gstia, por libertar o homem 'das possibilidades             conhecimento" (Qiiodl., IV, q. 3). No primeiro
nulas e liber-lo para as autnticas", consiste em           caso, a R.  a idia no sentido mais geral; no
retomar, para o porvir, as possibilidades que j             segundo,  a imagem; no terceiro,  o pr-
foram no passado: isso  R. (Sein undZeit,  68              prio objeto. Esses so, na realidade, todos os
b). Desse ponto de vista, R.  deciso autntica:            possveis significados do termo, que voltou
"A R.  a transmisso explcita, ou seja, o retorno          a ter importncia com a noo cartesiana de
s possibilidades do ser-a que  j tendo sido. A           idia como "quadro" ou "imagem" da coisa
autntica R. de uma possibilidade de existncia              (Ad., III) e foi difundido sobretudo por
que j foi, o fato de o ser-a escolher seus heris,         Leibniz, para quem a mnada era uma R. do
baseia-se existencialmente na deciso antecipa-              uriiverso (Monad.,  60). Inspirado nessa
dora, porque  nela que se escolhe a escolha                 doutrina, Wolff introduziu o termo Vorstel-
que liberta para a sucedaneidade da luta e para              lung, para indicar a idia cartesiana, no uso
a fidelidade quilo que deve ser repetido" (Jbid.            filosfico da lngua alem (Vernnftige Ge-
 74). Isso quer dizer que a deciso autntica,              danken von Gott, der Welt und der Seele des
em que consiste a historicidade da existncia                Menschen, 1719, I,  220, 232, etc). Deve-se
humana,  uma R. ou, pelo menos (como Hei-                   a Wolff a difuso do uso desse termo nas ou-
degger diz no mesmo trecho), uma rplica de                  tras lnguas europias. Kant estabeleceu seu
possibilidades passadas.                                     significado generalssimo, considerando-o g-
                                                             nero de todos os atos ou manifestaes cog-
   2. Na filosofia da cincia, o conceito de R.             nitivas, independentemente de sua natureza
empregado para expressar o fundamento das                    de quadro ou semelhana (Crt. R. Pura,
proposies indutivas, que (segundo Hume) se-                Dialtica, livro I, se. I), e foi desse modo
riam a expresso da R. de casos (cf. HUME, Inq.              que o termo passou a ser usado em filosofia.
Cone. Underst., V, 1). Desse ponto de vista, a R.            Hamilton defendia o uso dessa palavra tam-
muitas vezes foi considerada a justificao das              bm em ingls (Lectures on Logic, 2- ed., 1966,
proposies universais. K. Popper criticou essa              I, p. 126).
doutrina, que ele chama "doutrina do primado
REPRESENTATIVO                                       854                                            RESPEITO

   Mas neste sentido, os problemas inerentes              dos antecedentes restantes" (Logic, III, 8,  5)
R. so os mesmos que inerem ao conhecimen-                 (V. CONCOMITNCIA; CONCORDNCIA; DIFERENA).
to em geral (v. CONHKCIMKNTO) e  realidade                   RESDUOS E DERIVAES (in. Residues and
que constitui o termo objetivo do conhecimen-              derivations; fr. Rsidus et drvations; it. Resdui
to (v. REALIDADE), OU, em outra direo, os                echrivazioni). Com estes termos, Vilfredo Pareto
concernentes  relao entre as palavras e os              designou os dois fatores das teorias no cien-
objetos significados (quanto a isso. v. SIGNO;             tficas correspondentes s afirmaes experi-
SIGNIFICADO) .                                             mentais e s dedues lgicas das teorias cient-
    REPRESENTATIVO (in. Representativa fr. Re-             ficas. Os resduos so os instintos, os sentimentos,
prsentalifi. Vorstelleml; it. Rappresentativo).         os interesses, etc, que constituem os materiais
 1. O sentido deste adjetivo  mais limitado que           das teorias no cientficas; as derivaes so as
o do substantivo correspondente, uma vez que               sist^matizaes lgicas ou pseudolgicas da-
contm referncia ao carter de "semelhana"               das a esse material ( Trattato di sociologia
ou "quadro", excludo por alguns dos significa-            Reiierale. 1916,  803, 750, 210, 1397). (Cf. a
dos do substantivo. Assim, "idia R."  a idia            discusso desta doutrina em TALCOTL PARNONS,
que se concebe como imagem ou reproduo                   Tbo Structure of Social Action, 2a ed., 1949, pp.
cie seu ohjeto. Diz-se que o eonhecrrnenfo ern            11X) ssJ
natureza R. quando se acha que ele constitui                  RESPEITO (gr. odSc; lat. Respectus: in. lies-
imagem ou cpia do objeto.                                 pect; fr. Respect; ai. Acbtung; it. Rispetto). Reco-
    2. Emerson chamou de homens R. aqueles                 nhecimento da dignidade prpria ou alheia e
que Hegel chamava de "indivduos da histria               comportamento inspirado nesse reconhecimen-
universal" ou outros romnticos chamavam de                to. Demcrito foi o primeiro a transformar o R.
"heris": homens que so smbolos e. ao mes-               em princpio da tica: "No deves ter para com
mo tempo, instrumentos de realizao das                   os outros homens mais R. que para contigo
aspiraes de todos os homens (Represem'ative              mesmo, nem agir mal quando ningum o saiba
Men, 1850).                                                mais do que quando todos o saibam; deves ter
    3. No sentido poltico, sistema R.  o sistema         paru contigo mesmo o mximo R. e impor  tua
que se baseia no princpio de delegao de                 alma a seguinte lei: no fazer o que no deve
certos poderes polticos a alguns cidados, feita          ser feito" (Fr. 264, Diels). No discurso com que
por uma parte dos cidados.                                Protgoras, no dilogo homnimo de Plato,
    REPUGNNCIA. O mesmo que incompatibi-                  expe a origem da sociedade humana, diz-se
lidade (v. COMPATIBILIDADE.).                              que "temendo que nossa estirpe se extinguis-
    RES DE RE NON PRAEDICATUR. Mxima                      se, Zeus ordenou que Hermes trouxesse o R.
de Abelardo (citada porJoo DL: SASBURV. Me-              recproco e a justia para o meio dos homens,
talogicus. II, 17), segundo a qual o universal             a rirn de que esses fossem princpios ordenadores
no pode ser uma coisa nem uma palavra, mas                das cidades, criando entre os cidados vnculos
somente uma expresso (sermo), uma vez que                 de benevolncia" (Prol.. 322 e). O R. recproco
s a expresso pode ser predicado de vrias                e a justia so, assim entendidos, os dois ingre-
coisas (v. UNIVERSAL).                                     dientes fundamentais da "arte poltica', que  a
   RESDUO FENOMENOLGICO (ai. Pbno-                      tcnica de vida em comunidade.
menologiscbe Residuum). Foi esse o nome que                    Aristteles, porm, incluiu o R. entre as
Husserl deu ao ser cia conscincia que "no               emoes, excluindo-o das virtudes (/:'/. nic, II,
atingido em sua essncia absoluta pela neutra-             7, 1108 a 32), e o ops ao temor (Ibid., 10, 9,
lizao fenomenolgica", isto , pela epoch               1179 b 11). Kant tambm o reduziu  esfera das
(Ideen. I, 33).                                           emoes, considerando-o, porm, como um
   RESDUOS, MTODO D O S (in           Method of          sentimento suigeueris. alis como o nico sen-
residues; fr. Mtbode des rsidus; ai. Rckstands-         timento moral e no patolgico. O sentimento
methode-, it. Mtodo dei resdui). l;m dos quatro          de K. " produzido apenas pela razo. No ser-
mtodos da pesquisa experimental enumerados                ve ao juzo das aes nem como fundamento
por Stuart Mill, mais precisamente o expresso              da lei moral objetiva, mas simplesmente como
pela regra: "Uma vez subtrada de um fenme-               nibil pan transformar essa lei em mxima". 0
no a parte que, atravs de dedues anteriores,            R. Sempre se refere s pessoas, nunca s coi-
 identificada como efeito de determinados an-             sas;  prprio do ser racional finito porque su-
tecedentes, o resduo do fenmeno  o efeito               pe a ao negativa da razo sobre a sensibi-
RESPONSABILIDADE                                       855                                 RESSENTIMENTO

lidade, portanto a prpria sensibilidade. Por                HUME, Inq. Cone. Underst., VIII; STUART MILL,
isso, "no se pode atribuir R.  lei a um ser                nota a AnalysisofthePhenomena oftheHuman
supremo ou a um ser isento de sensibilidade,                 MinddeJ. MILL, 1869, II, p. 325). Na verdade,
para quem, portanto, esta no pode ser obst-                a noo de R. baseia-se na de escolha, e a
culo  razo prtica" (Crt. K. Prtica, 1,1, cap.           noo de escolha  essencial ao conceito de
III). Mesmo fora da filosofia, a noo de R. foi             liberdade limitada (v. LIBERDADE). Est claro
fortemente influenciada por essas observaes                que, no caso da necessidade, a previso dos
de Kant. Por R. entende-se comumente o empe-                 efeitos no poderia influir na ao, e que tal
nho em reconhecer nos outros homens, ou em                   previso no poderia influir na ao no caso
si mesmo, uma dignidade que se tem o dever                   da liberdade absoluta, que tornaria o sujeito in-
de salvaguardar.                                             diferente  previso. Portanto, o conceito de R.
    RESPONSABILIDADE (in. Responsibility,                    inscreve-se em determinado conceito de liber-
fr. Responsabilit; ai. Verantwortlichkeit; it.              dade, e mesmo na linguagem comum chama-
Responsabilit). Possibilidade de prever os                  se algum de "responsvel" ou elogia-se seu
efeitos do prprio comportamento e de corri-                 "senso de R." quando se pretende dizer que a
gi-lo com base em tal previso. R.  diferente               pessoa em questo inclui nos motivos de seu
de imputabilidade (gr. odTa; lai. hnputatio; in.            comportamento a previso dos possveis efei-
Imputability, fr. mputabilit; ai. Zurecbenbar-             tos dele decorrentes (cf. o fascculo citado da
keit; it. Impiitabilit), que significa a atribuio         Revue Internationale de Philosophie, especial-
de uma ao a um agente, considerado seu                     mente os artigos de McKeon, Abbagnano e
causador. Plato aludia  noo de imputa-                   Weil. Para a distino entre imputabilidade e
bilidade quando, a propsito da escolha que as               R., cf. SCHELER, Der Formalsmus in der Ethik,
almas fazem de seu prprio destino, afirmava:                pp. 504 ss.) (v. INTENO).
"Cada qual  a causa de sua prpria escolha,                    RESPOSTA. V. Ao REELKXA.
ela no pode ser imputada  divindade" (Rep.,                   RESSENTIMENTO (in. Resentment; fr. Ressen-
X, 617 e; cf. Tim., 42d). Wolff definia a imputa-            timento ai. Ressentimento it, Risentimento).dio
o como "o juzo em virtude do qual o agente                impotente contra aquilo que no se pode ser
6 declarado causa livre daquilo que se segue                ou no se pode ter. Essa noo foi introduzida
sua ao, ou seja. do bem e do mal que dela                  por Nietzsche em Genealogia da moral(1887):
decorrem para ele mesmo ou para os outros"                   "A revolta dos escravos na moral contempor-
(Philosophia practica, I,  527). Essa definio             nea comea quando o R. se torna criador e
era simplesmente repetida por Kant: "A impu-                 gera valores: R. dos seres aos quais  negada a
tao (imputatio) no significado moral  o juzo             verdadeira reao, a da ao, e que portanto s
em virtude do qual algum  considerado                      encontram compensao numa vingana ima-
como autor (causa livre) de uma ao que est                ginria" {Genealogie der Moral, I,  10). Segun-
submetida a leis e se chama fato" (Met. der                  do Nietzsche, a moral crist  fruto do R., no
Sitten, I, Intr., IV). A imputabilidade assim en-            sentido de ser manifestao do dio contra os
tendida  um conceito completamente diferente                valores da casta superior aristocrtica, inacess-
do de responsabilidade.                                      veis aos indivduos inferiores. Outra manifesta-
    O termo R. e seu conceito so recentes: apa-             o do R., ainda segundo Nietzsche,  a raiva
recem pela primeira vez em ingls e em fran-                 secreta dos filsofos contra a vida, em vista do
cs em 1787 (em ingls, aparecem em Federalst               que a filosofia foi at agora "a escola da cal-
de Alexandre Hamilton, f. 64; cf. R. MCKEON,                 nia": calnia contra o mundo real ou sensvel,
Revue Internationale de Philosophie, 1957', nQ               que os filsofos tentaram substituir pelo mun-
1, pp. 8 ss.). O primeiro significado do termo               do ideal da metafsica e da moral (Wille zur
foi poltico, em expresses como "governo res-               Macht, c. 1901,  259, 287). Por sua vez,
ponsvel" ou "R. do governo", indicativas do                 Scheler insistiu na ao do R. no campo moral,
carter do governo constitucional que age sob                embora negando que ele possa ser aplicado 
controle dos cidados e em funo desse con-                 concepo crist,  qual Nietzsche fazia aluso.
trole. Em filosofia, o termo foi usado nas con-              Segundo Scheler, os produtos do R. so o hu-
trovrsias sobre a liberdade e acabou sendo til             manitarismo e o altrusmo modernos, e no o
principalmente aos empiristas ingleses, que qui-             amor cristo. O conceito de igualdade entre os
seram mostrar a incompatibilidade cio juzo moral            homens, a afirmao do subjetivismo dos valo-
com a liberdade e a necessidade absolutas (cf.               res e a subordinao de todos os valores  utili-
RESTRIO                                                    856                                          RETRICA

dade so outros trs produtos do R. na vida                           Na filosofia contempornea. Heidegger con-
moderna, segundo a concepo de Scheler. ( Uber                    traps a R.  verdade, entendida como revela-
Ressentiment, 1912; trad. fr., 1958). (Cf. R. K.                   o do ser. Segundo Heidegger, foi Plato
MKRTON. Social Theory and Social Stnicture, I-                     quem introduziu o conceito de verdade como
ed., 1957, pp. 155 ss.).                                           R., ou seja. como critrio do juzo humano,
   RESTRIO (lat. Restrictio; in. Restrilion-.k.                  preparando assim o terreno para o nascimento
Restriction: ai. Restriktioir. it. Restrizione). A                 do subjetivismo moderno ( Die Zeit des Welt-
partir da lgica do sc. XIII, esse termo desig-                   bildes", em Ilolzwege, 1950, p. 84).
na a limitao da extenso ou denotao de                            RETRICA (in. Rheloric. fr. Rhtorique. ai.
um lermo comum, de tal modo que ele se refi-                       Rhetorik it. Retrica). Arte de persuadir com o
ra a um nmero menor de objetos designados                         uso de instrumentos lingsticos. A R. foi a
(cf. Lamberto de Auxerre em PRANTL, Geschicbtc                     grande inveno dos sofistas, e Grgias de
der Logik, III, p. 31. n 130). Pedro Hispano dis-                 Leontinos foi um de seus fundadores (sc. V
tinguiu quatro espcies de R.: a que se faz                        a.C). O dilogo de Plato intitulado Grgias
com o nome, como quando se diz "homem                              insiste no carter fundamental da R. sofista: sua
branco", em que o termo homem no supe                            independncia em relao  disponibilidade de
(iion supponit pro) os negros; a que se faz                        provas ou de argumentos que produzam co-
per participo, como quando se diz "o ho-                          nhecimento real ou convico racional. O obje-
mem discute correndo"; e a que se faz por                          tivo da R.  "persuadir por meio de discursos
implicao, como no caso "o homem, que 6                           os juizes nos tribunais, os conselheiros no con-
branco, corre" (Summ. log., 11.02). O pro-
cesso inverso 6 a ampliao ou extenso.                           selho, os membros da assemblia na assem-
Hamilton chamou de R. a relao de snbalter-                       blia e em qualquer outra reunio pblica"
nao (v.).                                                        ( Grg.. 452 e); portanto, o retrico  hbil "em
                                                                   falar contra todos e sobre qualquer assunto, de
    RESTRIO MENTAL (lat. Reservei tio-, in.                      tal modo que. para a maioria das pessoas, con-
Reservalion-, fr.   Restriction: ai.   Reservatio)t.   it.         segue ser mais persuasivo que qualquer outro
Rserva). Um dos tpicos caractersticos da                        com respeito ao que quiser" (Ibiel., 457 a). As-
casustica catlica do sc. XVII, bem como do                      sim entendida, a R. pareceu a Plato mais pr-
probabilismo ou laxi.smo: a tese de que uma                        xima da arte culinria que da medicina: mais
mentira deliberada no compromete quem a                           apta a satisfazer o gosto do que a melhorar a
pronuncia e no  pecado. Na IX de suas Car-                       pessoa (Ibid.. <i65 e). Plato ops a ela a R. pe-
tas provinciais (1656), Pascal fez uma crtica                     daggica ou educativa, que seria "a arte de
famosa a essa tese.                                                guiar a alma por meio de raciocnios, no so-
   RETIDO (gr. p9iT|; K0ttp6axii; Reti-                      mente nos tribunais e nas assemblias popula-
ludo: in. Reclitucle-, fr. Redunde; ai. Recbl-                     res, mas tambm nas conversaes particula-
licbkeit; it. Rettitndine). Critrio ou medida                     res" (Fedro. 26 1 a); no entanto, a R. assim
racional das coisas, ou seja, o princpio para                     entendida identifica-se com a filosofia. Portan-
julg-las. Plato diz, por exemplo, que "a R. do                   to. Plato no atribuiu  R. uma funo espec-
nome  mostrar o que a coisa 6" ( Crat.. 428 e),                   fica. Isso, na verdade, foi feito por Aristteles,
entendendo que este  o critrio para julgar                       que a considerou em ntima relao com a dia-
acerca da justeza do nome. Com o mesmo sen-                        ltica, como se fosse a contrapartida desta
tido Aristteles usa a expresso reta razo                        (Rei.. I. 1, 135-4 a. 1). Segundo Aristteles, a R.
(p8^yo), identificando-a com a sabedoria                       "a faculdade de considerar, em qualquer caso.
Et. nic, VI, 13, 1144 b 23). Mas foram sobretu-
do os esticos que deram significado tcnico                       os meios de persuaso disponveis" (Ibid.. I, 2.
ao termo, ao designarem com ele "a convenin-                      1355 b 26). Enquanto qualquer outra arte s
cia ou bem, que consiste em estar de acordo                        pode instruir ou persuadir em torno de seus
com a natureza" (CCKKO, De finibns. III. 14,                      prprios objetos, a R. no se limita a uma esfe-
45). Como o acordo com a natureza  o critrio                     ra especial de competncia, mas considera os
de avaliao, a R. no  seno esse critrio. Com                  meios de persuaso que se referem a todos os
sentido anlogo, Duns Scot chamou as propo-                        objetos possveis (Ibid., I, 2, 1355 b 26). Portan-
sies teolgicas de rectitiulines. porquanto for-                 to, a R. future da Tpica a considerao dos
necem o conhecimento do reto comportamento                         elementos provveis (os que tm capacidade
do homem em face de Deus (Op. Ox., Prol.,                          de persuadir) e fornece as regras para o uso
q. 4, n. 31).                                                      estratgico de tais argumentos.
RETRICA                                              57                                         RETORNO


    F.sse eoneeito de R., estabelecido por Arist-              RETORNO (gr. Tuaipocprv, Lu. Conuersio-,
teles, prevaleceu por muitos sculos. O huma-               in. Reli mi; fr. Retour. ai. Rckgang). 1. No neo-
nismo ressaltou a importncia da R., na qual                platonismo antigo, o movimento graas ao
identificou, segundo o exemplo de Plato e                  qual a alma percorre de volta o processo de
Ccero, um valor substancial (cf. Testi itmanistci         emanao, reintegrando-se na sua origem
sulkt R. de M. Ni/olio, F. Patrizi, P. Ramus, org.          (bem, causa. Deus, unidade) atravs da con-
por F. CIARIN, P. Rossi, F. VASOU. 1953). Com P.            templao. Plotino dizia: "A purificao  ne-
Ramus, a tarefa da R. volta a ser substancialmen-           cessria  unio: a alma une-se ao Bem, vol-
te a que j lhe fora atribuda por Aristteles: "A          tando para ele. Mas ento  converso segue-
tcnica de persuaso, que Ramus estuda nos                  se a purificao? Exatamente: o R. acontece
textos de Ccero, essa capacidade de usar a lin-            depois da purificao. O R.. ento,  a virtude da
guagem para criar as expresses mais bem feitas             alma? Sim,  a virtude que do R. resulta e deriva
e tecnicamente elaboradas, deve contudo estar               para a alma. K o que  o R.? F. a contemplao
sempre unida ao exerccio da filosofia,  qual              e a impresso que os objetos inteligveis pro-
est confiada a construo essencial de todos os            duzem na alma, do mesmo modo como a viso
princpios cognitivos, com o uso da dialtica.               produzida pelos objetos visveis" (lm.. I, 2.
Por isso.  R., entendida no significado mais tc-          i). Proclos generalizava o conceito de R.,
nico e particular, Ramus s conceder as duas               atribuindo-o a todas as manifestaes do ser,
funes propeduticas da doentio e da pn>-                  cada uma das quais efetuaria o R. a seu modo.
innicidtioi...). ao passo que. contra as opinies           "Cada ser realiza seu R. apenas em relao 
de Quintiliano e de Ccero, atribuir  dialtica a         substncia ou tambm em relao  vida e ao
tarefa de organizar a verdadeira substncia do              conhecimento, visto que, ou recebeu da Causa
discurso lgico" (F. YASOLI. Op. cit.. pp. II 7 -           apenas o ser, ou recebeu tambm a vida, ou re-
 118). Depois do lloreseiniento cio Renascimen-             cebeu tambm a faculdade cognitiva. Se  ape-
to, a sorte da R. decaiu, chegando ao desapareci-           nas, realiza um R.  Substncia; se vive. retorna
mento quase completo que a caracterizou no                   vida: se conhece, retorna ao Conhecimento.
sc. XIX. O dogmatismo racionalista iniciado                Com efeito, do mesmo modo como procedeu
por Descartes e adotado maciamente no sc.                 da Causa primeira, assim retorna para ela; e as
XIX foi a maior causa da decadncia da retrica.            medidas do R. so determinadas pelas medidas
Onde a razo  tudo e pode tudo, uma arte que               da processo" (Inst. theoi. 39).
busque seus instrumentos da persuaso obvia-                    2. O Renascimento, ao retomar esta con-
mente est deslocada. Por isso, no admira que.             cepo generalizada de Proclos, considerou
com o abandono do dogmatismo racionalista,                  o R. aos princpios como a nica via de re-
a R. volte hoje a ser homenageada como a arte               novao radical da vida pessoal e social do
clssica da persuaso, mas com a ressalva de                homem. Pico delia Mirandola unia o antigo
que deve levar em conta uma multiplicidade                  conceito neoplatnico de R. aos princpios com
de condies. O Trait de iargumentalion cie                o novo princpio de via de renovao (Deente
Perelman e Olbrechts-Tyteca (1958) comea                   et it)H>. VII, Proem.). Maquiavel considerava a
com as seguintes palavras: "A publicao de um              "reduo aos princpios" a nica via de renova-
tratado dedicado  argumentao e sua vincula-              o das comunidades humanas, evitando-se a
o com a velha tradio da R. e da dialtica gre-          decadncia e a derrocada, porquanto todos os
gas constituem a ruptura com a concepo de                 princpios contm em si algo de bom, de que
razo e raciocnio que se iniciou com Descartes             as coisas podem retirar vitalidade e fora primi-
e deixou marcas na filosofia ocidental dos trs             tiva {Discursos, III, 1). E Campanella via o ca-
ltimos sculos." No h dvida de que essa ob-             minho da renovao religiosa no princpio que
servao  correta. Se a razo  infalvel e a in-          ele julgava estar expresso no salmo XXII: Qnod
vestigao humana pode ser confiada s suas                 remiusceritur ei convertentur ad Domiiium
regras infalveis em qualquer campo, no h lu-             itiiirersifines terrae. cujas primeiras duas pala-
gar para a R., que  a arte da persuaso. Mas, se,          vras ele usava como ttulo do texto em que
na esfera do saber humano, a parte do incerto,              anunciava a renovao religiosa (Qnocl remi-
do provvel, do aproximativo  mais ou menos                luscentur. 1615). Outrossim, a prpria Reforma
ampla, a persuaso pode ter alguma funo e                 protestante obedecia  exigncia de voltar aos
sua arte pode ser cultivada.                                princpios, remontando diretamente  fonte
RETRODUO                                          858                                      REVOLUO


primitiva da religiosidade crist, a Bblia; por          ao homem e de subida do homem a Deus;
outro lado, a Contra-Reforma pretendeu recon-             tambm chamava de teofana toda a obra da
duzir a Igreja  fora expansionista que ela              criao, porquanto ela manifesta a substncia
possua em suas origens. Outra forma do mes-              divina que se torna sensvel nela e atravs dela
mo princpio  a do R.  natureza, considerada            (pe divis. nat., I, 10; V, 23). Este conceito rea-
na maioria das vezes como princpio ou ori-               pareceu com freqncia na histria da filosofia,
gem dos seres. Nesta forma, o R. aos princpios           mas a maior recorrncia se deu na filosofia do
 uma exigncia freqente no pensamento dos               romantismo (v.). Fichte, p. ex., dizia: "O saber
sc. XVII e XVIII.                                         a existncia, a manifestao, a perfeita ima-
    3. Eterno R. (v. CICLO DO MUNDO).                     gem da fora divina" (Grundzge der gegen-
   RETRODUO (in. Retroduction). Termo                   Wrtigen Zeitalters, 1806, IX). liste pensamento
introduzido por Peirce para indicar o primeiro            domina tambm as filosofias de Scheling e cie
estgio da investigao, que, assim como a                Hegel. No entanto, cumpre observar que nelas
induo, parte do conseqente para o antece-              a R. no  apenas manifestao:  tambm --
dente, mas  realizado de forma espontnea,               cc>mo dizia Fichte -- existncia (isto , realiza-
ou seja, sem mtodo rigoroso ("Reality of God".           o) de Deus.  essa a caracterstica especfica
em Values in a Uniivrse of Chance, pp. 368 ss.)           assumida pelo conceito de R. no romantismo e
(V. ABDro).                                             conservada de maneira mais ou menos decisiva
    RETROSPECO (in. Retrospection; fr. Re-              nas filosofias da R. que constituem a segunda
trospection; it. Retrospezione). Bergson desig-           fase do romantismo e tm como lema a defesa
nou com esse termo a tendncia a "relegar as              da tradio. As filosofias de Maine de Biran,
realidades atuais para o passado, para um esta-           Rosmini, Ciioberti, Mazzini partem todas do
do de possibilidade ou virtualidacle" (Lapense           princpio de que a conscincia  a revelao de
et le mouvant, 33 ecl., 1934, p. 26).                     Deus. A propsito, Maine de Biran nada mais
    REVELAO (in. Revelation; fr. Rvlation:            fazia que exprimir uma convico bastante
ai. Offenbarnng; it. Rivelazione). Manifestao           difundida ao afirmar que a R. no  apenas
da verdade ou da realidade suprema aos ho-                externa (tradio oral ou escrita), mas  tam-
mens. A R. foi entendida de duas maneiras: Y-             bm interna ou da conscincia, visto que ambas
como R. histrica; 2a como R. natural.                    procedem diretamente de Deus Hiivres, ecl.
                                                          Naville, III, p. 96).
    1-  histrica a R. que toda religio positi-
va adota como fundamento. Consiste na ilu-                    O conceito de R. foi adotado como funda-
minao com que foram agraciados alguns                   mento da filosofia de Heidegger, mas sem o
membros da comunidade, cuja tarefa teria                  tom religioso do sc. XIX. A R. do ser, segundo
sido encaminhar a comunidade para a salva-                Heidegger, nunca  perfeita e exaustiva por-
o. Neste sentido, a R.  um fato histrico,             que o ser se esconde ao mesmo tempo em que
ao qual se atribui a origem cia tradio reli-            se revela: "O ser subtrai-se a si mesmo enquan-
giosa.                                                    to se revela no ente. Assim, o ser, iluminando
    2a A R. natural  a manifestao de Deus na           o ente, ao mesmo tempo o desvia e o encami-
natureza e no homem. s vezes essa forma de               nha para o erro" (Ilolzwege, p. 310). Segundo
R.  admitida ao lado da outra, outras vezes             Heidegger, a R. do ser ocorre atravs da lingua-
negada ou subordinada  outras. S o conceito             gem, que no  instrumento humano, mas o
de R. natural tem valor filosfico, sendo o               prprio ser em stia R. (Brief tiber deu Hu-
outro especificamente religioso. Contudo a fi-            nianisnnis, p. 81). Por outro lado, a concepo
losofia hauriu o conceito de realidade natural e          da linguagem como R. hoje no pertence ape-
humana como manifestao de um princpio                  nas a Heidegger (v. LI\GI:AF.M), O que  mais
sobrenatural ou divino da prpria religio, sen-          urna prova da persistncia em filosofia do con-
do esse conceito tpico das filosofias que tm            ceito teolgico de revelao.
carter ou finalidade religiosa. Na Antigidade,              REVERSVEL (in. Reversible, fr. Reversible.
esse conceito pertenceu aos neoplatnicos,                ai. Umkebrbar, it. Reversibile). So qualificados
para quem o mundo, como produto da emana-                 com este termo os processos que no tm sen-
o divina, revela, pelo menos parcial ou im-             tido definido (V. IRREVKRSVEL).
perfeitamente, a natureza divina que o produz.                REVOLUOn. Revolution, fr. Rvolutioit. ai.
Desse ponto de vista, Scotus Erigena chamava              Revolution; it. Rivolnzione). Violenta e rpida
de teofania(w) o processo de descida cie Deus             destruio de um regime poltico, ou mudana
RIGORISMO                                             859                                  RITSCHI1ANISMO

radical de qualquer situao cultural. Neste se-            assumir esse R., bem como na considerao de
gundo sentido fala-se de "R. filosfica", "artsti-         todas as possveis garantias que eu possa obter
ca", "literria", "dos costumes", etc, ou tam-              (AHHAGNANO, Iiilroduzioiie ali'esistenzialismo,
bm de "R. copernicana". Mas est claro que.                4 a ed., 1957, I, 3).
neste sentido, o uso da palavra visa somente a                 RISO. V. CMICO.
ressaltar a importncia da mudana ocorrida, e                 RITMO (in. Rhytbm, IV. Rytbme, ai. Rhythmus;
no tem significado preciso. O nico significa-             it. Ritmo). Alternncia de fenmenos opostos
do preciso do termo 6 o poltico, que teve in-             nc> mesmo processo. Este  o significado atri-
cio no sc. XVIII. R. propriamente ditas foram              budo ao termo pelo positivismo, que o utilizou
a inglesa, a americana, a francesa e a russa, mas           pla primeira vez de modo especfico, esten-
s vezes tambm so chamadas de R. transforma-              dendo seu significado primitivo de movimento
es polticas que tiveram menor importncia                regularmente recorrente. Spencer falou de uma
na histria geral do mundo, apesar de serem                 lei do R., segundo a qual o mximo e o mni-
marcos fundamentais na histria cie determina-              mo, a queda e a elevao, alternam-se no
do pas.                                                    desenvolvimento cie todos os fenmenos;
    RIGORISMO (in. Rigorism-. fr. R^orisme, ai.             essa lei seria um dos princpios fundamentais
Rii>orsmns; it. Rigorismo).1\i\ terminologia reli-         da evokio (Firsl Principies, 11, cap. 10). Dessa
giosa do sc. XVIII, R. ope-se a laxismo e                 mesma lei falaram Ardig (Of>., II. p. 227; V.
designou o ponto de vista cie todos aqueles                 pp. 232, etc) e. mais recentemente, Whitehead:
que (especialmente jansenistas e padres do ora-             "IVfo modo do ritmo, uma srie de experincias
trio) hostilizavam o princpio cie moral relaxa-           que formam determinada sucesso de contras-
da (cf. BAVLK, Diclioiiuaire hstorique et criti-           tei obtenveis no mbito de um mtodo preci-
que, v. "Rigoristes"). Segundo Kant. foram comu-            so  regulada cie tal maneira que o fim de um
mente chamados de rigoristas os que no ad-                 ciclo  o estgio que antecede o incio de um
mitiam "nenhuma neutralidade moral (adici-                  outro ciclo semelhante. O ciclo  tal que, ao
pborti) nem nos atos nem nos caracteres huma-               completar-se, produz as condies para sua
nos", enquanto os outros eram chamados de                   siiiple.s repetio" (The Hioiction of Reason,
latitudi)irios(Relii>oii, I, Observao). O pr-          1929, cap. I, trad. it.. p. 25; cf. Tbe Aims of
prio Kant, porm, na mesma passagem, de-                    Hclticcitioii, cap. II. III).
monstra aceitar pessoalmente o princpio rigo-                 RITO (in. Rite-, fr. Rite. ai. Ritus-, it. Rito).
rista, de tal modo que, no sem razo. falou-se             Tcnica mgica ou religiosa que visa a obter
e continua-se falando de "R. moral" com refe-               sobre as foras naturais um controle que as tc-
rncia  doutrina moral kantiana.                           nicas racionais no podem oferecer, ou a obter
    RISCO (gr. KVSUVO; in. Risk fr. Risque-, ai.          a manuteno ou conservao de alguma ga-
Wcigniss, Cje/dhr, it. Rischio). Em geral, o as-            rantia de salvao em relao a essas foras. O
pecto negativo cia possibilidade, o poder no               conceito de R. como "pratica relativa s coisas
ser. Essa noo  freqente nas filosofias que              sagradas" foi esclarecido por Durkheim (For-
reconhecem o possvel, tais como nas de Plato              mes lmeutaires de Ia vie religieuse. 1912,
e dos existencialistas contemporneos. Aristte-            pcissim)(d. T. PARSONS, The Structure of Social
les considerava o R. como "o aproximar-se                   Acuou. 2a ed.. 1949, pp. 420 ss., 673 ss., etc; cf.
daquilo que  terrvel" (Rei., II, 5, 1382 a 33).           Rl-LIGIO).
Para Plato, o R. era belo e inerente  aceitao              RITSCHLIANISMO(in. Ritschlianism; fr. Rits-
cie certas hipteses ou crenas (Fed, 114 d).               chlcinisme. ai. Rtscblianismiis; it. Ritscbiliauis-
No existencialismo. o R.  considerado ineren-               inu). Corrente do cristianismo protestante do
te  escolha que o eu faz de si mesmo e a toda              sc. XIX, iniciada por Alberto Ritschl (1822-89),
deciso existencial (cf. JASPHRS, Pbil., II, pp.            segundo a qual a religio baseia-se exclusiva-
1X0, 403, etc). A aceitao cio R. implcito                mente no sentimento e na revelao interior:
nessa escolha  um dos pontos fundamen-                     essa revelao se concretiza especialmente nos
tais do existencialismo contemporneo: "A                   juzos de valor, que so independentes dos fa-
pretenso implcita na deciso baseia-se nu-                to,*; t-1 elevam o homem para uma esfera supe-
ma indeterminao efetiva, ou seja, na possi-               rior  de sua limitao emprica. Ao fortalecer a
bilidade de que as coisas se passem de ma-                  revelao cio sentimento interior, a comunida-
neira diferente daquilo que eu decido; mas                  de dos fiis realiza as exigncias dessa revela-
tambm se baseia no fato de eu, que decido,                 o: o reino de Deus realiza-se nela (cf. K.
ROMANTISMO                                           860                                     ROMANTISMO

BARTH, Die protestantische Theologie in 19,                ou super-lo, ao verdadeiro infinito, que se iden-
Jahrhundert, 1947).                                        tifica com o finito, com o mundo, e se realiza
    ROMANTISMO (in. Romanticisnrjr. Roman-                 nele e por ele. Este infinito  um Princpio es-
 tisme, ai. Romanticismus; it. Romanticismo).              piritual criativo: aquele que Fichte chamou de
Designa-se com este nome o movimento fi-                   Eu, Schelling de Absoluto e Hegel de Idia.
losfico, literrio e artstico que comeou                Mus o infinito, ou melhor, a infinidade da cons-
nos ltimos anos do sc. XVIII, floresceu nos              cincia pode ser entendida de duas maneiras.
primeiros anos do sc. XIX e constituiu a marca            Em primeiro lugar, como atividade racional,
caracterstica desse sculo. O significado co-             que se move de uma determinao para outra
mum do termo "romntico", que significa "sen-              com necessidade rigorosa, de tal forma que
timental", deriva de um dos aspectos mais evi-             qualquer determinao pode ser deduzida da
dentes desse movimento, que  a valorizao                outra de modo absoluto e apriori. E este o con-
do sentimento, categoria espiritual que a Anti-            ceito de infinidade de conscincia encontrado
gidade clssica ignorara ou desprezara, cuja              em Fichte, Schelling e Hegel (quanto ao segun-
fora o sc. XVIII iluminista reconhecera, e               do, apenas numa primeira fase de sua filoso-
que no R. adquiriu valor preponderante. Essa               tia). Em segundo lugar, a infinidade de cons-
grande valorizao cio sentimento  a principal            cincia poce ser entendida como atividade vre,
herana recebida do movimento Sturm und                    aniorfa, privada de determinaes rigorosas, e
Drang (v.). que constitui a tentativa de, atravs          tal que se coloca continuamente alm de qual-
da experincia mstica e da f, superar os limi-           quer de suas determinaes: neste sentido a
tes da razo humana, reconhecidos pelo ilumi-              infinidade de conscincia  o sentimento. O sen-
nismo. Segundo os filsofos do Sturm und Drang,            timento  o infinito na forma do indefinido, e
Haman, Herder e Jacobi. pode-se obter com a                foi desta forma que Schleiermacher e a cha-
f o que a razo no  capaz de dar, sendo a f            maxia escola romntica (E. Schlegel, Novalis,
entendida como fato de sentimento ou de ex-                Tick e outros) reconheceram a infinidade da
perincia imediata. Mas, precisamente por isso,            conscincia.
para os seguidores do Sturm und Drang (en-                     De fato, o R. literrio comeou com a obra
tre os quais estiveram Goethe e Schiller. na               de Schlegel (1772-1829), que, entre 1798 e
juventude) a razo continuava sendo o que                  1800, publicou em colaborao com o irmo o
fora para o Iluminismo: uma fora humana li-               peridico Atbenaeum, primeiro porta-voz da
mitada, capaz de transformar o mundo gradual-              escola romntica. Schlegel apontava explicita-
mente, mas que no  absoluta nem onipoten-                mente Fichte como iniciador do movimento ro-
te, estando, pois, sempre mais ou menos em                 mntico, como descobridor do conceito romn-
conflito com o mundo e em luta com a realida-              tico de infinito, mas interpretava o infinito
de que se destina a transformar. Do Sturm und              como algo exterior e superior  racionalidade,
Drang passa-se para o R. somente quando esse               como infinidade de sentimento. O mesmo con-
conceito de razo  abandonado e comea-se                 ceito do infinito aparece no poeta e literato
a entender como razo uma fora infinita (onipo-           Ludwig Tieck e em Novalis: este sustentava um
tente) que habita o mundo e o domina, consti-              idealismo mgico, segundo o qual o mundo
tuindo sua prpria substncia. O princpio da              no passa de uma grande obra de poesia. A
autoconscincia (v.), infinidade da conscin-              essa mesma corrente pertence o telogo Frie-
cia que  tudo e faz tudo no mundo,  fundamen-            drich Schleiermacher (1768-1834), que definiu
tal noR.,e dele derivam os aspectos relevantes             a religio como "sentimento do infinito".
do movimento. Fichte foi o primeiro a identi-
ficar a razo com o Eu infinito ou Autocons-                   Nesta interpretao do princpio de infinito
cincia Absoluta, fazendo dele a fora pela qual           baseia-se a supremacia que por vezes o R. atri-
o mundo  produzido. A infinidade, nesse sen-              bui  arte. Com efeito, se o infinito  sentimen-
tido, era de conscincia ou de potncia, e no             to, revela-se melhor na arte que na filosofia,
de extenso ou durao; seu modelo encontra-               porque a filosofia  racionalidade, ao passo
va-se em conceitos da filosofia neoplatnica,              que a arte apresenta-se aos romnticos como
especialmente em Plotino. Hegel, a prop-                  "expresso do sentimento". Para Schelling, que
sito, opunha o falso infinito, ou mau infinito,            teridia a essa interpretao, a melhor manifesta-
que  diferente do finito, isto , da realidade ou         o do absoluto estava na arte, o mundo era
do mundo e se ope a ele e tenta transform-lo             uma espcie de poema ou de obra artstica cujo
                                                           autor seria o absoluto, para o homem a expe-
ROMANTISMO                                           861                                       ROMANTISMO


rincia artstica era o nico meio eficaz de apro-         Infinita:  verdade e perfeio. Portanto, o esprito
ximar-se do absoluto, ou seja, do modo como                ihiminista  crtico e revolucionrio; o espri-
o absoluto deu origem ao mundo.                            to romntico  exaltativo e conservador. O con-
    Quando o movimento romntico se difun-                 ceito de histria como projeto providencial do
diu fora da Alemanha, foi exatamente essa a                mundo domina toda a filosofia do sc. XIX;
sua bandeira. O R. de Madame de Stal e de                 mesmo no sc. XX, a filosofia s consegue li-
Chateaubriand consiste sobretudo na exalta-                bertar-se desse conceito atravs de amargas
o cios valores do sentimento, e foi com essa             experincias histricas e culturais.  nessa con-
mesma forma que o R. encontrou expresso na                cepo de histria que mais se manifesta a afi-
Itlia.                                                    nidade entre idealismo e positivismo no sen-
    Essas duas interpretaes da autoeonscin-             tido comum de romantismo. Comte tem o mesmo
cia muitas vezes se opuseram; Hegel, principal-            conceito de histria de Fichte. Schelling -- mais
mente, abriu polmica contra a primazia do                 tarde --. ('roce e dos epgonos do romantismo
sentimento. No conjunto, porm, 6 sobretudo                no sc. XX. A histria como manifestao de
nessa oposio e nessa polmica que consiste               urii princpio infinito (Eu. Autoconscincia,
a caracterstica fundamental do R. No entanto,             R;tzo. Esprito, Humanidade, ou qualquer ou-
pertence apenas  escola do sentimento um                  tro nome que se lhe d)  racionalidade total e
dos aspectos mais evidentes do R.: a ironia.               perfeita, no conhecendo imperfeio ou mal.
c[iie representa a impossibilidade de a cons-              A forma extremada desse conceito de histria
cincia infinita levar a srio e considerar sli-          est em Hegel (repetido por Croce): a hist-
dos os seus produtos (natureza, arte. o eu), nos           ria no  progresso ao infinito, visto que. se assim
(juais v apenas suas prprias manifestaes               fosse, cada um de seus momentos seria me-
provisrias.                                               nos perfeito que o outro; ela  infinita perfei-
    So, porm, caracteres comuns e fundamen-              o de todos os seus momentos. A contraposio
tais de todas as manifestaes do R. o otimis-             h(?geliana entre o "verdadeiro infinito" e o
mo, o providencialismo. o tradicionalismo e o              "mau infinito" no significa outra coisa. E bvio
titanismo. Otimismo  a convico de que a                 que., num conceito da histria semelhante, no
realidade  tudo aquilo que deve ser. e de que             hi lugar para o indivduo e suas liberdades,
 em todos os momentos racionalidade e per-                pelos quais o iluminismo se batera. H lugar
feio.  devido a esse otimismo que o R. tende            apenas para os "heris" ou "indivduos da hist-
a exaltar a dor, a infelicidade e o mal, pois a            ria csmica", instrumentos de que a providn-
infinidade do esprito tambm se manifesta                 cia histrica se vale para realizar astutamente
nesses aspectos da realidade, superando-os e               seus fins.
conciliando-os em sua perfeio. Hegel apre-                   Aspecto importante do providencialismo
senta-nos o mundo romntico na felicidade de               romntico  o tradicionalismo: com efeito, a
sua perfeita pacificao racional. Schopenhauer            exaltao das tradies e das instituies que
apresenta-o na infelicidade de suas oposies              a encarnam  um dos aspectos tpicos do movi-
irracionais, mas ainda assim satisfeito por reco-          mento romntico. A essa atitude deveu-se a
nhecer-se nesse contraste. A vontade irracional            revalorizao da Idade Mdia, que  caracters-
de Schopenhauer  um princpio to otimista                tica do R. A Idade Mdia afigurara-se ao ilumi-
quanto a razo absoluta de Hegel.                          nismo (assim como. antes, ao humanismo)
    Com o otimismo metafsico do R. relaciona-             como uma poca de decadncia e de barbrie,
se seu proriclencialismo histrico. A histria            em que haviam sido perdidos os valores hu-
um processo necessrio, no qual a razo infini-            manos e racionais criados pela Antigidade
ta se manifesta ou se realiza; por isso, nela              clssica. Para o R. no existem pocas de de-
nada h de irracional ou intil. Nesse aspecto.            cadncia ou de barbrie porque toda a hist-
o R. ope-se radicalmente ao iluminismo. liste             ria  racionalidade e perfeio. Na Idade M-
ltimo contrape tradio e histria:  fora da           dia, alis, mais do que no mundo clssico,
tradio, que tende a conservar e perpetuar                pode-se e deve-se ver -- segundo o R. -- a ori-
preconceitos, ignorncias. violncias e fraudes,           gem do mundo moderno: assim, o retorno 
ope a histria como reconhecimento dessas                 Idade Mdia constitui uma de suas palavras
coisas tais quais so, e como esforo racional             de ordem. Em virtude dessa mesma atitude, o
para libertar-se delas. Para o R., porm, tudo o           R. alemo comeou a exaltar as tradies ori-
que a tradio lega  manifestao da Razo                ginrias da nao alem, surgindo a primeira
ROMANTISMO                                           862                                           RUPTURA

forma de nacionalismo, que se difundiria e                 infalvel. E faz da cincia, que  sua manifesta-
acabaria por tornar-se uma das marcas da cul-              o humana preferida, o infinito da verdade,
tura europia do sc. XIX. De fato, o conceito             elegendo-a como nica diretriz dos homens
de nao  composto por elementos tradicio-                em todos os campos.
nais (raa, lngua, costumes, religio), que no               As caractersticas assumidas pelo R. em pol-
podem ser negados ou renegados sem traio,                tica, arte e costumes esto intimamente ligados
pois constituem aquilo que a nao foi desde               aos aspectos ora esclarecidos. Fm poltica, o R.
sempre. Ao contrrio, o conceito setecentista               defesa e exaltao das instituies humanas
de povo era definido pela vontade e pelos in-              fundamentais, nas quais se personifica o Princpio
teresses comuns dos indivduos. Tradicionalismo            infinito: F.stado, Igreja, com tudo o que im-
e nacionalismo fincam razes no terreno co-                plicam. Em arte, busca a realizao do infinito
mum cio providencalismo romntico.                        atravs de formas grandiosas e dramticas, em
    Finalmente, um dos aspectos fundamentais               que os conflitos so levados ao extremo para
e mais evidentes do R.  o titanismo. De fato,             depois reconciliarem-se e pacificarem-se de
o culto e a exaltao do infinito tm como con-            maneira igualmente extremada e definiti-
trapartida negativa a inaceitabilidade do inito           va. Nos costumes, o amor romntico busca a
ou a impossibilidade de satisfazer-se com ele.             unidade absoluta entre os amantes, sua
Nessa inaceitabilidade (ou insatisfao) esto             identificao no infinito; em favor dessa unida-
as razes da atitude de rebeldia contra tudo o             de ou identificao sacrifica o sentido autntico
que parece ser ou 6 limite ou regra e do desa-             da relao amorosa e sua possibilidade de
fio incessante a tudo o que, por sua finitude,             constituir a base para uma vida em comum (v.
parece inferior ou inadequado ao infinito. Pro-            AMOR).
meteu  adotado como smbolo desse tita-                       ROSMENIANISMO. So designadas com este
nismo, numa interpretao muito distante cio               termo as principais caractersticas da filosofia
esprito do antigo mito grego. Para este, Prometeu         cie Antnio Rosmni Serbati (1797-1855), em
era o homem que transgredira a lei do destino              especial: Ia tradicionalismo, como preocupao
para possibilitar a sobrevivncia do gnero hu-            em defender os valores tradicionais e em justi-
mano, sofrendo as conseqncias dessa                      ficar a tradio como produto ou manifestao
transgresso. Para o R., porm,  o smbolo do             de Deus; 2a ontologismo-. tese segundo a qual o
desafio e da rebeldia ao finito: atitudes cuja             esprito humano frui um conhecimento do ser
razo de ser no est naquilo a que se opem,              imediato e indubitvel, conquanto parcial, sen-
mas apenas no fato de que aquilo a que se                  do tal conhecimento a base de todo saber (v.
opem no  o infinito. A atitude titnica no             ONTOLOGIA): 3a escolasticismo: concepo da
conduz,  crtica das situaes de fato e ao es-           filosofia como instrumento para justificar as ver-
foro de transform-las, pois no julga que uma            dades da religio.
situao de fato seja ou possa ser superior ou                 RUPTURAUil Zenissen hei t).Termo introduzi-
prefervel a outra; exaure-se num protesto uni-            do pelas filosofias existencialistas. Para Jaspers,
versal e genrico, e no pode empenhar-se em               a R. do mundo se d quando a busca da tota-
qualquer deciso concreta.                                 lidade absoluta, que tudo abarca, desemboca
    O culto e a exaltao do infinito, o fato de           numa multiplicidade de perspectivas, cada uma
no se contentar com menos que a infinidade,               das quais  relativa a determinado ponto de
constituem caractersticas marcantes do esprito           vista e nenhuma, portanto, pode eqivaler a
romntico. Como j foi dito, o prprio positivismo         um mundo (PhiL, I, pp. 64 ss.). Segundo Hei-
se enquadra nesse esprito. Ele estende o con-             degger, a R. do mundo ocorre com a cincia e
ceito de progresso a toda a histria do mundo:             a tcnica, que organizam a separao entre o
na verdade,  esse o sentido de "evoluo". Faz.           homem e a natureza (ErlierungenzuHlder-
da histria humana um progresso necessrio e               lin, pp. 271 ss.).
                                                      s
    SABEDORIA1 (gr. (ppvnai; lat. Sapientia,         o melhor ser do mundo" Ubid., VI, 7, 1141 a
Pntdentiai in. Wisdom, fr. Sagesse, ai. Weis-         21);  um ser mutvel, e a S. que lhe diz respei-
 beit; it. Saggezza). Em geral, a disciplina racio-   to  tambm mutvel, ao passo que a verdadei-
nal das atividades humanas: comportamento             ra sabedoria  sempre a mesma (Jbid., 1141 a
racional em todos os domnios ou virtude de           20 ss.). Portanto, Aristteles pe esse tipo de
determinar o que  bom e o que  mau para o           sabedoria acima de tudo. sendo seu objeto
homem. O conceito de S. refere-se tradicional-        aquilo que no pode mudar nem ser diferente
mente  conduta racional nas atividades huma-         do que : o necessrio.
nas, ou seja,  possibilidade de dirigi-las da            A distino e a oposio feitas por Aristte-
melhor maneira. No  o conhecimento de coisas        les mantiveram-se atravs dos sculos, e o modo
elevadas e sublimes, afastadas da humanidade          de entender os dois tipos cie S. (que em algu-
comum, o que  expresso por sapientia, mas o          mas lnguas so indicadas pela mesma palavra)
conhecimento cias atividades humanas e da             revela a orientao geral de determinada filoso-
melhor maneira de conduzi-las. A superiorida-         fia: para a contemplao ou para a ao. Aps
de atribuda  prudentia ou  sapientia de-           Aristteles, prevaleceu o ideal de sabedoria
monstra a interpretao fundamental que se            prtica. Epicuro dizia que a $., "de que nascem
tem de filosofia: o predomnio da segunda            todas as virtudes,  at mais preciosa que a filo-
tpico cio conceito de filosofia como contem-         sofia" (Cartasa Menec, 132). Os esticos iden-
plao pura: o primado concedido  prudentia          tificavam esse tipo de S. com virtude total, da
expressa o conceito de filosofia como guia do         qual todas as outras provm (Di. I.., VII, 125-
homem no mundo (v. FILOSOFIA, II).                    26). O neoplatonismo, por sua vez, exaltava o
    F.m Aristteles, encontra-se uma distino        outro tipo de sabedoria (PLOTINO, Enn., V, 8.
ntida entre dois tipos de sabedoria, que no         4). ao passo que S. Toms reproduzia essa dis-
se encontra em Plato. F.ste chama de sofia           tino, chamando a S. prtica de prudentia e
(oocpa) a cincia que preside  ao virtuosa        considerando-a "conselheira em todas as coisas
Utep., IV, 443 e: cf. 428 b), que corresponde        referentes  vida humana, bem como o fim
prudentia. Diz que ela  "a mais elevada e,           precpuo da vida humana" (S. Th., II, 1, q. 57,
sem a menor dvida, a mais bela, pois trata da        a 4). O mundo moderno d preferncia ao ideal
organizao poltica e domstica,  qual se d o      prtico da S., que retorna em Descartes (Princ.
nome de prudncia e justia" (ORanq., 209 a).         phil, pref.) e em Leibniz. F.ste ltimo une, em
As formas de saber que constituem fins em si          sua definio, o aspecto terico e o prtico: "a
mesmas so alheias  concepo filosfica de          S.  o perfeito conhecimento de todos os prin-
Plato. Fsse saber, no entanto,  exaltado por        cpios e de todas as cincias, bem como da arte
Aristteles, que o considera a forma mais ele-        de aplic-los" (De Ia sagesse, Op., ecl. Frdmann.
vada e divina: o outro tipo de sabedoria restrin-     p. 673), mas a incluso do aspecto prtico sig-
ge-se a coisas meramente humanas, portanto,           nifica a refutao do ideal de sapientia. Ao
de menor valor. Desse ponto de vista, ela  de-       mesmo mbito pertence a definio de Kant:
finida como "hbito prtico e racional que diz        "A S. consiste na concordncia da vontade
respeito ao que  bom ou mau para o homem"            de um ser com seu objetivo final" (Met. der
(Et. nic, VI, 5, 1140 b 4). Mas "o homem no          Sitten, II,  45).
SABEDORIA 2                                           864                                      SABEDORIA2

    Hegel acentuava o carter humano e terreno              no conhecem as coisas que lhes so teis,
cia S., ao falar de uma 5. terrena ( Weltweisbeit),         mas as coisas excepcionais, maravilhosas, di-
que o Renascimento teria oposto como razo                  fceis e divinas, porm inteis, visto que no
humana,  razo divina,  religio (Geschichle              indagam acerca dos bens humanos" (Ibid.
der Pbilosophie, ed. Glockner, 1. pp. 92 ss.).              VI, 7, 1041 b 1). Portanto, o objeto especfico
Schopenhauer acentua ainda mais o carter ter-              da S.  o necessrio, aquilo que no pode ser
reno da S., entendendo por ela "a arte de levar             cie outro modo (Ibid., 1041 b 11), ao passo
a vida da maneira mais agradvel e feliz poss-             que a S. tem por objetivo as atividades huma-
vel" (Aphorismen zur Lebensweisbeil, Pref.).                nas mutveis e contingentes. Essa doutrina de
    Para os filsofos contemporneos a palavra              Aristteles constitui um dos aspectos que mais
S., em suas duas acepes, parece solene de-                acentuam a divergncia entre ele e Plato, por-
mais para que eles se detenham na tarefa de                 quanto a filosofia de Plato tem em mira a
esclarecer seu conceito. No entanto, para eles.             sabedoria humana, enqtianto a de Aristteles
assim como para os antigos, a S. continua liga-             ope a esta a sabedoria divina. A afirmao cio
da  esfera dos afazeres humanos, e pode-se                 primado desse tipo de S. caracteriza as filoso-
dizer que  constituda pelas tcnicas antigas              fias cie tipo contemplativo, tanto quanto a afir-
ou novas de que o homem dispe para a me-                   mao da superioridade cia sabedoria prtica
lhor conduta de vida.                                       caracteriza as filosofias orientadoras (v. FILO-
    SABEDORIA2 (gr. oocpa; kit. Sapieniia-, in.            SOFIA. II).
 Wisdom, fr. Sagesse, ai. Weisheit; it. Sapieiiza).             Em vista do carter "divino" da S. (oocpa),
 o conhecimento superior cias coisas excelen-
tes. Caracteriza-se: 1" por ser o grau mais ele-            no admira que nas filosofias de fundo religio-
vado de conhecimento, ou seja. o mais slido                so da poca alexandrina e posteriores, ela tenha
e completo; 2" por ter como objetivo as coisas              sido substancializada e entendida como uma
mais elevadas e sublimes, que so as coisas di-             espcie cie intermediria entre Deus e o mun-
vinas.                                                      do; um equivalente do logos (v.). Segundo
                                                            Plotino. h uma S. que  substncia, e nenhu-
    Esse, pelo menos, foi o conceito inicial para
distinguir os dois tipos de S., o que ocorreu em            ma outra S.  melhor que ela: "cria todos os se-
Aristteles. At ele, e mesmo em Plato, o con-             res, todos emanam dela; ela mesma  os seres
ceito era um s e identificava-se com o de sa-              que nascem com ela e com ela se identificara,
bedoria como conduta racional da vida huma-                 de tal maneira que S. e substncia so uma ni-
na (cf. PLATO, Rep. 428 b; 4-33 e). Aristteles            ca coisa "(A'., V, 8, -). Esta concepo j se
distinguiu e contraps as duas coisas: "A sofia            encontrava no livro bblico cia Sabedoria, onde
o mais perfeito dos saberes. Quem o detm                   se cliz; " um vapor da virtude divina e uma
deve saber no s o que deriva dos princpios,              emanao sincera da luz de Deus onipotente. 
mas tambm conhecer os princpios. Assim, a                 esplendor cia luz eterna, espelho imaculado da
5. pode ser chamada ao mesmo tempo de inte-                 majestade de Deus e a imagem de Sua bonda-
lecto e cincia, e, encabeando todas as cin-              de. Embora sendo una, pode tudo, e, permane-
cias, ser a cincia das coisas mais excelentes"            cendo em si, inova todas as coisas e transporta-
(Et. nic, VI, 7, 11 4 Ia 16). Intelecto e cincia           se cie nao a nao nas almas santas, que
tm a o sentido especfico definido por Arist-            constituem os amigos de Deus e os profetas"
teles: intelecto (vo) como conhecimento di-               (Proc. VII, 25-27). Por outro lado, os gnsticos
reto dos princpios da demonstrao (Ibid.. VI,             haviam personificado a S., transformando-a na
6, 1141 a 7), cincia como "hbito cia demons-              ltima emanao ou co>i. que quer sair de seu
trao" ou faculdade de demonstrar (Ibid., VI. 3            estudo de desejo e alcanar o conhecimento di-
1139b 3D. Portanto, a S. (aocpoO  o conheci-              reto do Pai URINEI', Adi', llaer. II, 5). Os pr-
mento mais certo e perfeito, por ser, ao mesmo              prios esticos chamaram Deus, como alma do
tempo, conhecimento dos princpios e das de-                mundo, cie "perfeita S." (CCERO, Acad., I, 29).
monstraes que deles resultam. Alm disso,                     A filosofia medieval, com S. Toms, retoma
como tal, tambm  a cincia das coisas mais                o conceito aristotlico de S. Segundo ele, a S.
elevadas e sublimes. "Por natureza, h outras               tern em comum com todas as cincias a ca-
coisas muito mais divinas que o homem, como                 pacidade de deduzir concluses de princpios,
os astros luminosos de que se compe o mun-                 mas tambm tem algo mais que as outras cin-
do. (...) Por isso se diz que Anaxgoras, Tales             cias, "porquanto julga todas as coisas, no s
e outros homens desse tipo so sbios, porque               quanto s concluses, mas tambm quanto
SABEDORIA POTICA                                      865                                                SBIO

aos primeiros princpios; assim,  uma virtude                apenas por meio de frases denotativas" ("On
mais perfeita que a cincia" (5. Th., III, q. 57, a.          denoting", 1905. em Logic and Knowledge.
2, ad 1").                                                    1956, p. 41). Tal distino constituiu um dos
    Na filosofia moderna, esse termo conservou                pontos altos da doutrina do Crculo de Viena;
o significado de conhecimento perfeito, tanto                embora Carnap tenha reconhecido desde logo
por ser completo quanto pela natureza de seu                 suas dificuldades ("Testability and Meaning"
objeto.                                                       in Readings in lhe Philosophy of Science, 1953,
    SABEDORIA POTICA (it. Sapienza po-                     pp. 48 s,s.) ela continuou sendo e ainda  o
tica). No segundo livro de Cincia nova                      pressuposto de muitas doutrinas, inclusive a de
(1744), Vio deu esse nome  cultura primitiva               Carnap (v. EXPKKINCIA).
do gnero humano, que se basearia na sensibi-                    2" Como cincia, ou seja, como conheci-
lidade, mais que na inteligncia: "A S. potica,              mento cuja verdade  de certo modo garantida
que foi a primeira S. dos gentios, teve que co-              (para este significado v. CINCIA).
mear de uma metafsica no racional e abstra-                   SBIO (gr. ao<p. lat. Scipiens-, in. Sage, fr.
ta, como a dos doutos de hoje, mas sentida e                  Sage. ai. Weise, t. Saggio). A figura estereotipa-
imaginada, que devia ser a daqueles primeiros                da do S. foi traada pela filosofia grega do pe-
homens, assim como entm eles, de nenhum ra-                  rodo alexandrino por epicuristas, esticos e
ciocnio mas de sentidos robustos e vigoro-                  cticos (sobretudo pelos esticos) e entrou para
sssimas fantasias". Como partes cia S. potica.             a tradio com certas caractersticas fundamen-
Vio fala de lgica potica, moral potica, eco-             tais. O carter primordial e fundamental que as
nomia potica, histria potica, fsica potica,             trs escolas atribuem ao S.  o de serenidade
cosmografia potica, astronomia potica, cro-                Ou indiferena em relao s vicissitudes ou
nologia potica e geogralia potica.                         aos movimentos humanos, ao que do o nome
    SABEIIANISMO (in. Sabellianism; fr. Sa-                  de ataraxia.   aponia ou   apatia (v.).   As outras
bellianisme, ai. Sabellianismus; it. Sabellianis-            caractersticas so as seguintes:
mo). Doutrina trnitra sustentada por Sablo                  l Isolamento, como claro afastamento dos
na primeira metade do sc. II cl.C: insistindo               outros mortais, com os quais o S. nada tem em
na unidade da Substncia Divina, reduzia as                  comum. Os esticos levaram esse afastamento
Pessoas Divinas a trs modos ou manifestaes                ao limite extremo, admitindo duas espcies de
da Substncia nica. Por isso. essa doutrina foi             homens, os que praticam a virtude e os que
chamada de modalismo (v.).                                   no a praticam, dizendo que os primeiros so
    SABER (in. Knowng, To knoir. fr. Saroir.                sbios e todos os demais, loucos. (J. STOISHO,
ai. Wissen; it. Supere). Este verbo substantivado            Hei, II, 7, 11; 65. 12).
 usado com dois significados principais:                        2i! Impossibilidade de progresso: quem no 
    1" Como conhecimento em geral, e neste                   S.  tolo ou louco, e no pode haver S. que seja
caso designa: qualquer tcnica considerada ca-               mais S. que outro. Ccero diz: "Quem est imer-
paz de fornecer informaes sobre um objeto;                 so na gua. mesmo que esteja to perto da
um conjunto de tais tcnicas; ou o conjunto                  superfcie a ponto de quase emergir, no con-
mais ou menos organizado de seus resultados.                 segue respirar tanto quanto se estivesse ainda
W. James aceitou a distino estabelecida por J.             no fundo (...): da mesma maneira, quem avan-
Grote (Hxploratiophilosophicu, 1856, p. 60) en-              ou um pouco em direo ao hbito da virtude
tre conhecer uma coisa, uma pessoa ou um                     no est menos sujeito  infelicidade do que
objeto qualquer (que significa ter certa familia-            quem no avanou nem um pouco" (Definibus,
ridacle com esse objeto), e S. algo a respeito do            III, 14, 48).
objeto (o que significa ter dele um conheci-                     3a Autarquia. Este carter j foi exaltado
mento talvez limitado, mas exato, de natureza                por Aristteles: "O justo ainda necessita de pes-
intelectual ou cientfica) ( The Meaning of                  soas que possa tratar com justia, com as quais
 Tnith. 1909, pp. 11-12). Mas essa distino di-             ser justo; o mesmo se diz do homem moderado,
fundiu-se especialmente na forma dada por                    do corajoso e cada um dos outros homens vir-
Russell em famoso artigo de 1905: "A distino               tuosos. O S., ao contrrio, pode contemplar so-
entre experincia direta (acqiiaintance) e co-               zinho, tanto mais quanto mais for S.; talvez seja
nhecimento sobre {knowledge aboul)  a dis-                  melhor quando tem colaboradores, contudo 
tino entre as coisas que nos esto imediata-               totalmente auto-suficiente" (El. nic, X, 7, 1177
mente presentes e as que ns alcanamos                      a 30). No entanto, Aristteles fazia aluso  ati-
SBIOS, SETE                                         866                              SAGRADO ou SACRO

vidade contemplativa,  qual se limitava o S.; as           "Cuida de ti mesmo" e "No desejes o impos-
escolas ps-aristotlicas estendem o carter de            svel" (Ibid., I, 70).
auto-suficincia do S. a todas as manifestaes                 SACERDOTALISMO (in. Sacerdotalism).
de sua vida, no limitada necessariamente                 Termo usado principalmente por escritores
contemplao.                                              anglo-saxes para designar a tendncia a atri-
    4a Renncia. Foi nesse carter que os esti-           buir, em religio, a mxima importncia ao
cos latinos, Epicteto, Sneca e Marco Aurlio              aspecto eclesistico e sacramentai, em detri-
mais insistiram. Em vista da distino feita por           mento do aspecto interior e espiritual.
Epicteto entre as coisas que o homem pode                       SACRIFCIO (in. Sacrifice, fr. Sacrifice, ai.
dominar (seus estados de esprito), e as que ele            Opfer, it. Sacrifcio). Destruio de um bem ou
no pode (as coisas exteriores), o S. deve                 renncia ao mesmo, em honra  divindade. O
renunciar s coisas externas e colocar o bem               S.  uma das tcnicas religiosas mais difundi-
e o mal unicamente nas que esto em seu                    das. Seu objetivo  a purificao de alguma
poder (Manual, 31). Isso implica a renncia                culpa ou pecado: neste caso,  desinteressado,
a ocupar-se das coisas e a aceitao da mxi-              ou seja, no tem objetivo utilitrio imediato.
ma "suporta e abstm-te" (A. GLIO, Noct. Att.,            Seu objetivo tambm pode ser a consagrao,
XVII, 19. 6).                                              que  uma finalidade mais ou menos utilitria,
    53 Conscincia. Esta caracterstica foi acres-         pois consiste em persuadir a divindade a dar
centada  figura do S. pelo neoplatonismo, que             garantias  coisa ou  pessoa que se consagra.
exaltou principalmente a faculdade de olhar                Tanto a purificao quanto a consagrao na
para dentro de si, extraindo tudo de si mesmo.             maioria das vezes tm carter simblico, no
Plotino diz: "O S. extrai de si mesmo aquilo               sentido de que a ddiva sacrificada no tem
que manifesta aos outros: olha apenas para si:             apenas o valor econmico que a comunidade
no s tende a unificar-se e a isolar-se das coi-          lhe atribui, mas tambm certa relao simblica
sas exteriores, mas tambm est voltado para si            com o objetivo (purificao ou consagrao) da
e encontra em si todas as coisas" (Enn., III. 8,           cerimnia sacrificai. Essas caractersticas podem
6; tf. I, 4, 4). Este movimento de olhar para si           ser identificadas nas tcnicas sacrificais de to-
mesmo e encontrar tudo em si  a conscincia               das as religies, seja qual for seu grau de de-
(v.); segundo este ponto de vista,  s no S.              senvolvimento ou de refinamento intelectual
que a conscincia se realiza e vive.                       (tf. S. RHINACH, Cultes. mythesetreligions, 1905;
   SBIOS, SETE (gr. Zocpioxai; in. Seven Sa-              E. DIRKHEIM, Les formes lmentaires de Ia vie
ges; fr. Sept Sages; ai. Sieben Weisen. it. Sette          religieuse. 1912; A. LOISY, Essai bistorique sur
Savi). Esse foi o nome dado a algumas perso-               le sacrifice. 1920; P. RADIN. Primitive Religkm.
nalidades da Antigidade grega que expressa-               1937). '
ram sua sabedoria em sentenas ou expres-                      SAGACIDADE (gr. eiiouveaa; kit. Sagacitas;
ses brevssimas; por esta ltima caracterstica           in. Sagacity, fr. Sagacit. ai. Sagazitt; it. Saga-
tambm receberam o nome de gnmicos. Eles                  cia). Perspiccia na investigao. Aristteles
foram enumerados de vrias maneiras pelos                  identificou a S. com o ato de apreender (Et.
escritores antigos. Tales. Bias, Ptaco e Slon            nic, VI, 10, 1143 a 17), e Kant definiu-a como
esto includos em todas as listas. Plato,                "o dom natural que consiste em julgar por an-
que foi o primeiro a enumer-los, acrescentou              tecipao (judiciam praevum) onde pode ser
Clebulo, Mson e Qulon (Prot.. 343 a). A                 encontrada a verdade e de aproveitar as meno-
Tales atribui-se o ditado 'Conhece-te a ti mes-           res circunstncias para descobri-la" (Antr., I,
mo" (DiG. I... I, 40); a Bias foram atribudas as          56).
frases "A maioria  malvada" (Ibid. I, 88) e                   SAGRADO ou SACRO (gr. ep; lat. Sacer,
"Pelo fardo se conhece o homem" (ARISTTKI.KS,             in. Sacred; fr. Sacr, ai. Heilig; it. Sacro). Obje-
Et. nic, V, 1, 1029 b 1); a Ptaco, o ditado               to religioso em geral, ou seja, tudo o que 
"Aproveita o dia de hoje" (DiG. L, I, 79); a              objeto de garantia sobrenatural ou que diz respei-
Slon, a mxima "Leva a srio as coisas impor-             to a ela. Como essa garantia s vezes pode ser
tantes" e a expresso "No mais alm" (Ibid., I,           negativa ou proibitiva, o S. tem carter duplo,
60. 63); a Clebulo, a mxima "O melhor  a                de santo e sacrlego: S. porque prescrito e exal-
medida" (Ibid., I, 93): a Mson. o ditado "Procu-          tado pela garantia divina, ou porque proibido
ra as palavras nas coisas, e no as coisas nas             ou condenado pela mesma garantia (tf.
palavras" (Ibid., I, 108): a Qulon, os ditados            DURKHKIM. les formes lmentaires de Ia vie
SALTO                                                867                                   SANSIMONISMO

 religien.se, 1912). R. Otto chamou estes dois             Angst, I,  2: trad. it., p. 35 e nota). Jacobi, no
aspectos, respectivamente, de fascinante e tre-            entanto, usara a expresso salto mortale (em
 mendo (Das Heilige, 1917). Heidegger, inter-              italiano) para caracterizar a passagem da f ao
pretando uma poesia de Hlderlin que identi-               conhecimento filosfico ( Werke, IV, pp. XL
fica a natureza com o S., considerou o S.                  ss.), ao passo que Kant utilizou a mesma ex-
como raiz do destino dos homens e dos deu-                 presso para indicar a passagem da razo
ses: "O S. decide inicialmente, acerca dos ho-             para a f cega (Religion. B 158).
mens e dos deuses, quem sero, como sero e                    SALVAO. V. RKDENO.
quando sero" (Hrlauteerungen zu Hlderlin.                    SAMSARA. V. BIDISMO.
194.3, pp. 73-74). Heidegger afirma tambm                     SANO (lat. Sanctio; in. Sanction: fr.
que "O S. no  S. porque divino, mas o divino             Sanction: ai. Sanktion; it. Sanzioue). H dois
 divino porque S." (Ibd., p. 58).                        conceitos para este termo, correspondentes s
    SALTO (lat. Saltus; in. leap. fr. Saiit: ai.           duas orientaes fundamentais da tica (v.).
Sprutig; it. Salto). Termo empregado por Kier-                 lu No primeiro, que corresponde  tica dos
kegaarcl para indicar a "passagem qualitativa",            fins. a S.  a conseqncia agradvel ou dolo-
brusca e sem mediao de uma categoria para                rosa (recompensa ou castigo) que determinada
outra ou de uma forma de vida para outra (p.               ao produz em determinada ordenao (natu-
ex., da vida tica para a vida religiosa) ou, em           ral, moral ou jurdica). Neste caso, a natureza
geral, de um estado para outro (p. ex., da ino-            da S. depende da natureza da ordenao  qual
cncia para o pecado, do pecado para a f.                 se faz referncia, existindo ento S. naturais,
etc). Kierkegaard ops essa noo de S.  no-              morais e jurdicas, segundo a natureza da orde-
o hegeliana de mediao (v.) e ilustrou-a                nao que a determine.
aproximando-a: l"do eutimema(x.)\ 2- da ana-                   2" No segundo significado, a S. , em geral,
logia e da induo; 3" cia teoria hegeliana. l            um estmulo  conduta. Este  o conceito de S.
Entimema  o silogismo contrado, no qual se               estabelecido por Bentham: "Os estimuladores
omite uma premissa e se passa diretamente da               da conduta transferem a conduta e suas conse-
premissa maior  concluso ("Todos os animais              qncias para a esfera das esperanas e dos te-
so mortais, logo o homem  mortal") (Dirio.              mores: das esperanas que nos oferecem um
VI A, 33). Nesse sentido, a palavra S.  encon-            excedente cie prazeres; dos temores que pre-
trada em Kant com o mesmo uso: "S. (saltus)                vem um excedente de dor. Esses estimuladores
na deduo ou na prova  a conexo de uma                  podem receber o nome de S." (Deo)itology,
premissa com a concluso, de tal maneira que               1834,1, 7). Este mesmo conceito de S. foi aceito
a outra premissa  negligenciada" (Logik. 1800,            pelos utilitaristas ingleses (cf. STI/AKT MILL.
 91). 2o A analogia estabelece uma relao                Cliltarianisni, cap. III) (v. PENA).
entre coisas qualitativamente diferentes e a indu-             SANQUIA. Um dos grandes sistemas filos-
o passa do particular ao universal (Dirio. V            ficos hindus, segundo o qual existem duas
A, 74). 3" A doutrina hegeliana sobre a mudan-             substncias opostas, mas ambas eternas e infi-
a quantitativa que provoca uma mudana                    nitas: as almas (purusba), que so mltiplas,
qualitativa  a fonte autntica do conceito                simples e inativas, e a natureza (prakrti), que 
kierkegaardiano. Hegel dizia: "A gua, com a               nica, complexa e dinmica. Ksse sistema no
mudana da temperatura, no s se torna mais               admite a existncia de uma divindade regula-
ou menos quente, mas passa pelos estados s-               dora do mundo. Tudo nasce da natureza e vol-
lido, gasoso e lquido. Esses estados diferentes           ta a ela por um movimento circular que se
no nascem aos poucos, mas o prprio proces-               repete indefinidamente (cf. G. Trcci, Histria
so gradativo de mudana na temperatura  por               da filosofia indiana, 1957, cap. V. e a biblio-
eles interrompido, e o aparecimento de um                  grafia respectiva).
novo estado  um salto. Qualquer mudana e
qualquer morte, em lugar de ser um contnuo                   SANSIMONISMO (in. Saint-Simonism; fr.
pouco a pouco  um truncamento do pouco a                  Saint-Simonisme; ai. Saint-Simonismus; it.
pouco e um salto da mudana quantitativa para              Sansimonismo). Doutrina do conde Claude
a mudana qualitativa ( Wissenschaft der Logik,            Henri de Saint-Simon (1760-1825), exposta em
I, seo III, cap. II, B; trad. it., pp. 418-419).         numerosos textos, sendo os principais: Intro-
Kierkegaard censura Hegel por haver limitado               duetion aux travaux scientifiques du XIX si-
este conceito ao domnio da lgica (DerBegriff             cle, 1807; Linduslrie, 1816-18; Nouveau chris-
                                                           tianisme, 1825, etc. Saint-Simon  o verdadeiro
SANTIDADE                                                  868                                                   SEITA

fundador do positivismo social, cujo objetivo                    Kant foram amplamente repetidas na filosofia
era utilizar a cincia e a filosofia nela baseada                moderna.
como fundamento de uma reorganizao radi-                           SAPERE AUDE. Estas palavras de Horrio
cal da sociedade humana. Na nova sociedade.                      (Epist. XII. 40) foram adotadas no sc. XVIII
0 poder espiritual seria entregue aos cientistas,                como lema do Iluminismo ("Ousa conhecer");
e o poder temporal, aos industriais. No Noro                     neste sentido, foi citado por Kant em sua
cristianismo, Saint-Simon definiu o surgimento                   obra sobre o Iluminismo ( Was ist Atifk.l-
da sociedade tecnocrtica como retorno ao                        riDig?, 1784, em Werke, ed. Cassirer, IV, p.
cristianismo primitivo. O S. contribuiu para a                   169). que, ao traduzi-lo, dizia: "Tem coragem
conscincia da importncia social e espiritual                   de usar teu prprio intelecto". l em 1736 essa
das conquistas da cincia e da tcnica, incen-                   frase fora adotada como lema por uma "So-
tivando poderosamente o desenvolvimento                          ciedade dos Aletfilos" de Berlim, que se
industrial: ferrovias, bancos, indstrias e at                  inspirava em Wolff (cf. sobre os empregos
a idia de construir os canais de Suez e do                      dessa expresso: FRANCOVKNTURI, Rivista Sto-
Panam couberam a sansimonistas (v. POSI-                        rica Italiana, 1959, pp. 119 ss.).
TIVISMO).                                                            SARCASMO (gr. oapKao|i; in. Sarcasm,
    SANTIDADE (gr. ovwXT|; lat. Sauditas-, in.                 fr. Sarcasmo-, ai. Sarkasmus; it. Sarcasmo). Iro-
1 loliness; fr. Saintet; ai. Heiligkeil: it. Sa)iiit).         nia unida  zombaria. O conceito  de ori-
Este termo tem dois significados fundamentais:                   gem estica (cf. J. STOBKO. liei., II, 6, 222).
um objetivo, que designa a inviolabilidade e                        SCHEBLTMINI. Termo que aparece no ttu-
em geral um valor a ser reconhecido e salva-                     lo cie uma obra de J. G. Hamann (Golgotha
guardado; 2" um subjetivo, que designa o grau                    und S.. 1784) dirigida contra Mendelssohn. 0
excelente e superior da virtude ou da religio                   termo, provavelmente extrado de um texto de
como virtude.                                                    Lutero, significa inspirao divina e a exaltao
    No primeiro sentido chama-se cie santo o                     que ela comunica, donde sua oposio simtri-
que  sancionado ou garantido por uma lei hu-                    ca a "Glgota", que  o smbolo da humilhao.
mana ou divina: p. ex.. a santidade das leis, do                 (Cf. os esclarecimentos de L. SCHREINEIR no vol.
juramento, etc. No segundo sentido,  chama-                     II cie /. G. Hamanns Hauptschriften erklrt,
do de santo o ser que realiza em si a vida mo-                   1956; e V. VERRA, DopoKant. Ilcriticismo neWet
ral ou religiosa no seu grau mais elevado. No                    pre-romantica, 1957, pp. 147 ss.).
primeiro sentido, Plato diz "atribuir correta-                     SECUNDRIA, PROPOSIO (in                   Secon-
mente a todos o que  justo e santo" (Pol.. 301                  darypropositon-, fr. Proposition secoudaire, ai.
d); no segundo, ele nega que a S. consista em                    Sekundr Satz; it. Proposzione secondaria).
"fazer coisas agradveis aos deuses" (Eut.. 6 e)                 Boole indicou com esta expresso as proposi-
e identifica a S. com o grau supremo de virtu-                   es que tm por objeto outras proposies,
de, que  a justia (Rep., X, 615b; Leis, II, 663b,              ao passo que chamou de primrias as proposi-
etc). Ainda neste segundo sentido. S. Toms                      es ([tie tm por objeto as relaes entre coi-
identificava a S. com a religio, isto , com a                  sas (Laivs ofThought, 1854, cap. XI).
mais alta virtude (S. Th.. II, 2, q. 81, a. 8). e                   SECUNDRIAS e PRIMRIAS, QUALIDA
Kant definia a S. como "a conformidade com-                      DES. V. Ql'ALinADK.
pleta da vontade  lei moral". Assim, segundo                        SECUNDUM QUID ET SIMPLICITER
Kant, a S.  "uma perfeio de que no  capaz                   (FALCIA). J identificada por Aristteles
nenhum ser racional do mundo sensvel em                         (El. sof., 5, 167 a),  a falcia (v.) que consis-
nenhum momento de sua existncia". Portanto,                     te em passar de uma premissa, em que certo
ela s pode ser admitida como limite do pro-                     termo  tomado em sentido relativo, para uma
gresso infinito para a perfeio moral (Crt. R.                 concluso em que o mesmo termo  tomado
Prtica, I, II, cap. II,  4). Por outro lado, Kant              em sentido absoluto ("Se o no-ser  objeto de
admite tambm a S. no sentido objetivo, que                      opinio, o no-ser "). (Cf. PEDRO HISPANO,
ele define como inviolabilidade. Assim, diz que                  Sn mm. log., 7. 46 ss.)
'"a lei moral  santa (inviolvel)" (Ibid.,  5) e                   SEITA (lat. Secta; in. Sect-, fr. Secte, ai. Sekte,
que "a humanidade deve ser santa para ns em                     it. Setta). 1. Escola ou corrente filosfica.  nes-
nossa pessoa" (Ibid.,  5): nesses casos, obvia-                 te sentido que a palavra  empregada pelos
mente, a noo de S.  de valor supremo, que                     escritores latinos (CCERO, Bnit., 31,120; QUINT.,
no pode ser ignorado. Essas observaes de                      Inst. or., V, 7, 35, etc).
SELEO                                               869                                     SEMELHANTE


    2. Grupo de pessoas que defendem com fa-                ciologia); S., que, sem considerar as circunstn-
natismo ou intolerncia uma crena qualquer.               cias concretas (psicolgicas e sociolgicas) do
este o sentido com que se usa hoje o adjetivo               comportamento lingstico, restringe seu cam-
sectrio.                                                   po de investigao  relao entre signo e re-
    SELEO (in. Selectiotv, fr. Slectioir. ai.            ferente (significatum, designatum, denotahtm);
Selektion; it. Selezone). Escolha: entendida co-           e sinttica, que, abstraindo at mesmo dos sig-
mo procedimento consciente ou como resulta-                 nificados, estuda as relaes entre os signos de
do de um procedimento no deliberado. Neste                 determinado sistema lingstico. S. e sinttica
segundo sentido, C. Darwin falou de S. natural              na verdade constituem dois grandes captulos
como procedimento atravs do qual a luta pela               que dividem a lgica formal pura. Desta ltima,
vida assegura a sobrevivncia do mais apto                  porm, faz parte mais a 51. pura, que constitui
(Orgin ofSpecies, IV,  1).                                cipriorias regras de um sistema sinttico geral,
    SEMNTICA (in. Semantics; fr. Sman-                    do que a S. descritiva, que  uma investigao
tique, ai. Semantik). Propriamente, a doutrina              emprica com vistas  descrio de determina-
que considera as relaes dos signos com os                 do sistema semntico (ou grupo de sistemas
objetos a que eles se referem, que  a relao              afins), portanto mais pertinente  lingstica
de designao. Kste termo, proposto para tal                que  lgica. Assim, a S.pura, mais que doutri-
doutrina por Bral (Kssais de smantiqtie.                  na dos significados,  uma teoria geral da ver-
Science des significations, 1897), encontra justi-          dade e da deduo nos sistemas sintticos
ficao etimolgica no verbo grego OT||iaveiv,             interpretados; por isso, distingui-la cia sinttica
introduzido por Aristteles para indicar a fun-             torna-se difcil e problemtico (cf. MORRIS,
o especfica do signo lingstico, em virtude             Foundations ofthe Theoty ofSigns. 193H, cap.
da qual ele "significa", "designa" algo. A S. seria         IV; CARNAP, Foiuidatious of Logic and Mathe-
portanto a parte da Lingstica (e mais especial-           matics, 1939, I, 2; Meaning and Necessity,
mente da Lgica) que estuda e analisa a funo               1957, p. 233; Introduction to Semantics. 1942;
significativa dos signos, os nexos entre os sig-            2a ed., 1958; LINSKY, editor, Semantics and the
nos lingsticos (palavras, frases, etc.) e suas            Philosophy of I.angtiage, 1952).
significaes. Embora seja esta a acepo mais                  Mais recentemente. Quine insistiu na di-
difundida, hoje em dia, em filosofia e lgica               ferena entre a referncia semntica propria-
esse termo tambm tem outras acepes. Por                  mente dita, que seria o significar, e a refe-
ex., A. Korzybski (Science and Sanitv) utiliza              rncia do nomear. Tal diferena resulta, p.
"S." para indicar uma teoria relativa ao uso da             ex., do fato de que se pode nomear o mes-
linguagem, sobretudo em relao s neuroses                 mo objeto, como quando se diz "Scott" e "o
que, segundo esse autor, so efeitos ou causas              autor de Waverley", mesmo que os significa-
de certos maus LISOS lingsticos. Os lgicos               dos sejam diferentes. A S. conteria, assim, duas
poloneses em geral (e em particular Chwistek),              partes: uma teoria do significado,  qual per-
que contriburam sobremaneira para o surgi-                 tenceria a anlise dos conceitos de sinonmia,
mento desse ltimo ramo da lgica formal, no               significao, analiticidade, implicao; e uma
costumam distinguir entre proposio e enun-                teoria da referncia,  qual pertenceria a an-
ciado, entre significado lgico e forma lings-            lise dos conceitos de nomeao, verdade, de-
tica de uma proposio, e usam esse termo para              notao e extenso. Mas o prprio Quine ob-
indicar a lgica formal em seu conjunto. No                serva que at agora a palavra S. foi empregada
obstante, foi graas ao impulso dado pelos                  principalmente para a teoria da referncia, embo-
estudos dos lgicos poloneses que, por volta                ra esse nome fosse mais adequado  teoria
de 1956, comeou-se a delimitar o campo des-                do significado (From a Logical Point of View,
sa nova disciplina. Foi graas a Ch. W. Morris e            1953, VII, 1; II, 1). V. SIGNIFICADO.
R. Carnap que no seio da semitica (teoria dos
signos em geral, dos signos lingsticos em par-               SEMASIOLOGIA. O mesmo que semn-
ticular) comearam a ser distinguidos alguns                tica (v.).
aspectos fundamentais: pragmtica, que estu-                   SEMELHANTE (gr. M.OIO; lat. Similis; fr.
da o comportamento gestual dos seres hu-                    Semblable. in. Alik.e, Similar, ai. hnlicb; it.
manos que fazem sinais por determinados                     Simile). Aquilo que tem qualquer determina-
motivos, para atingirem certos objetivos, etc.              o em comum com uma ou mais coisas.
(portanto,  um ramo da psicologia e/ou da so-              Aristteles distinguiu os seguintes significados
                                                            do termo: 1Q so S. as coisas que tm a mesma
SEMENTES                                             870                                          SENSAO

forma, ainda que sejam substancialmente di-                Morris preferiu no volume Signs, Language
ferentes; neste sentido so S. um quadrado                 and Behavior, 1946, I, 2 (v. SIGNO).
maior e um menor, bem como duas linhas                         SEMITICA (gr. x GTIUICOXIKV; in. Semio-
retas desiguais; 2" so S. as coisas que tm a             tic, fr. Smiolique, ai. Semiotik. it. Semitica).
mesma forma, mas esto sujeitas a variaes                Este termo, usado inicialmente para indicar a
quantitativas, quando suas quantidades so                 cincia dos sintomas em medicina (cf. GALENO,
iguais; 3" so S. as coisas que tm em comum               Op., ed. Kn, XIV. 689), foi proposto por Locke
a mesma afeio, como p. ex. o branco; 4 so S..          para indicar a doutrina dos signos, correspon-
as coisas cujas afeies iguais so mais nu-               dente  lgica tradicional (Ensaio, IV, 21, 4);
merosas que as afeies diferentes (Met., X, 3.            depois foi empregado por Lambert como ttulo
1054 b 3).  graas ao primeiro significado que            da terceira parte do seu Novo Organon (1764).
em geometria as figuras so chamadas de S.                 Na filosofia contempornea, E. Morris utilizou
(cf. EUCUDES, KL, VI, def. 1, 3; def. 11, etc). Na         o conceito de S. como teoria da semiose (v.),
tradio posterior, a semelhana foi entendida             mais do que do signo, dividindo a S. em trs
especialmente em relao  qualidade comum                 partes, que correspondem s trs dimenses
(PKDKO HISPANO, Summ. log., 3. 29), mas s                 da semiose: semntica, que considera a rela-
vezes tambm com relao  forma (S. TOMS,                o dos signos com os objetos a que se refe-
Contra GenL. I, 29; cf. S. Th.. I, q. 4a 3). Mais          rem; pragmtica, que considera a relao dos
genericamente, Wolff dizia que "so S. as coisas           signos com os intrpretes; e sinttica, que con-
que so idnticas naquilo em que deveriam                  sidera a relao formal dos signos entre si
distinguir-se uma da outra" (Ont.,  195). De-             (Foundations of the lheory of Signs, 1938, II,
terminaes desse tipo definem pouco e di-                 3). Aceita por Carnap (Foundations of Logic
zem apenas que os critrios de semelhana                  and Mathematics. 1939, I, 2), essa distino
podem ser variados indefinidamente; o im-                  difundiu-se amplamente em filosofia e lgica
portante  que sejam declarados explicitamen-              contemporneas (V. PRAGMTICA; SKMNTICA; SIN-
te em cada caso.                                           TAXE).
   Foi s na matemtica moderna que a noo                    SEM-LEI (it. eslege). Vio d esse nome ao
de semelhana recebeu definio diferente,                 estado que "a providncia divina imps aos fe-
graas  teoria dos conjuntos. So considera-              rozes e violentos que se conduzissem para a
dos S. os conjuntos que apresentem relao de              humanidade e se organizassem em naes,
termo a termo. Russell, p. ex., diz: "Diz-se que           despertando neles uma idia eonfusa de divin-
uma classe  S. a outra quando existe uma rela-            dade... E assim, por temor a tal divindade ima-
o de termo a termo, em que uma classe  do-              ginada, comearam a organizar-se de algum
minante enquanto a outra  o dominante inver-              modo" (Scienza nuova, dign. 31). Segundo
so" (Introductioti to Mathematical Philosophy,             Vio esse tempo de estado prova a funo que
cap. II, trad. it., p. 27). Esta noo tem grande          a religio exerceu no surgimento da sociedade
importncia para definio matemtica do infi-             civilizada.
nito (v.).                                                     SENSAO (gr. aa6r|oi; lat. Sensus, Sen-
   SEMENTES (gr. O7ip|!0CTa; lat. Se mina).               sio; in. Sensation; fr. Sensation; ai. Empfin-
Assim foram chamados freqentemente os ele-                dnng; it. Sensazione). Este termo tem dois sig-
mentos ltimos das coisas. Anaxgoras foi o                nificados fundamentais: 1Q um significado gene-
primeiro a usar esse termo para designar as                ralssimo, em virtude do qual designa a totali-
partculas que Aristteles chamou de homeo-                dade do conhecimento sensvel, ou seja, todos
merias (Fr. 4, Diels). Esse termo foi usado de-            e cada um de seus elementos; 2e um significa-
pois por Epicuro (Fr. 250, Uesener) e por                  do especfico, em virtude do qual designa os
Lucrcio (Derer. nat., VI, 201 ss.; VI, 444, etc).         elementos do conhecimento sensvel, ou seja,
A mesma metfora est presente na noo                    as partes ltimas, indivisveis, de que suposta-
estica de razes seminais (v.).                           mente  constitudo. Este segundo significado
   SEMIOSE (in. Semiosis). O processo em                   aparece somente na filosofia moderna.
que algo funciona como signo, que  o objeto                   Io Para Aristteles esse termo significa: a) as
da semitica, no sentido de Morris (Fonnda-                qualidades elementares, como branco, preto,
tions of the Theory of Signs, 1938, II, 2). Essa           doce, etc (Dean., 111, 2 passim); b) a percep-
palavra  equivalente  expresso compor-                  o do objeto real, chamada de S. em ato, que
tamento gestual (por sinais), que o prprio                coincide com a realidade do objeto: pelo que
SENSAO                                                 871                                        SENSAO

 uma sensao auditiva em ato  idntica ao                    cente pelos primeiros estudiosos que cultiva-
 som em ato {Ibid., III, 2, 425 b 26); c) a facul-             ram esta cincia. Condillac foi o primeiro a dar-
 dade de sentir, em geral, ou senso comum (v.),                se conta do alcance desse conceito. Se a S.  o
 ao qual atribui a funo de perceber tudo o que               elemento ltimo do conhecimento, deve ser
c sensvel e as prprias S. (ou seja, sentir o sen-            possvel reconstituir, a partir dela, todo o mun-
tir) (Desomno, 2, 445 a 17; Dean., III, 2, 246                 do do conhecimento ou da atividade espiritual
b 11; 415 b 12); d) o sentido especfico, como                 humana. Foi essa a demonstrao que ele ten-
a audio, a viso, etc. (Desomno, 2, 445 a 14;                tou dar no Tratado das S. (1754), em que adotou
De an., III, 2, passim); e) o rgo do sentido,                como fundamento o princpio de que "o juzo,
chamado mais freqentemente de sensrio (De                    as reflexes, as paixes e, numa palavra, todas
part. an., II, 10, 657 a 3; IV, 10, 686 a 8; De                as operaes da alma no passam da prpria S.
sensu, 3, 440 a 19). Esta terminologia mantm-                 que se transforma de vrias maneiras" (Trait
se por muito tempo na histria do pensamento                   dessensations, Compndio da primeira parte).
ocidental, at que, com Descartes, o conceito                  Mesmo polemizando contra o sensacionismo,
de S. comea a ser distinguido nitidamente do                  Maine de Biran reconhece o carter simples e
de percepo.                                                  elementar da S. {CEuvres, ed. Navine, II, p.
    2a Descartes especificou mais o significado                115); esse mesmo carter da S.  reconhecido
de S., entendendo por S. o simples advertir                    por Herbart (Allgemeine Metaphysik, 1828, II,
"movimentos provenientes das coisas'1; distin-                 p. 90).
guiu-a de percepo, que  a referncia  coisa                    O conceito de carter elementar da S. foi to-
externa (Pass. de Vme, 1, 23). A partir desta                 mado como base da psicologia por H. Spencer,
distino, que se consolidou cada vez mais de-                 que afirmava: "as S. so estados de conscincia
pois de Descartes, especialmente graas  esco-                primariamente indecomponveis" (Principies of
la escocesa, a S. foi reduzida a unidade ele-                  Psychology, 1855,  211). Esse princpio era
mentar do conhecimento sensvel, o que Locke                   consagrado por G. Fechner em Elemente der
chamou de "idia simples"; era considerada                     Psychopbysik (1860) e por Wundt, que definia
material de conhecimento, ao passo que a fun-                  as S. explicitamente como "os estados de cons-
o cognitiva propriamente dita, vale dizer, a                 cincia que no podem ser divididos em partes
referncia ao objeto, cabia  percepo (v.). Foi              mais simples" (Grundzge derphysiologischen
esse o conceito aceito e difundido por Kant,                   Psychologie, 1893, 4- ed., p. 281). Tornou-se lu-
que diz: "A S.  o elemento puramente subje-                   gar-comum em psicologia, que em sua primei-
tivo da nossa representao das coisas que esto               ra fase foi atomista e associacionista (v. PSICO-
fora de ns, mas  propriamente o elemento                     LOGIA).
material dessa representao, o real. aquilo                      Por outro lado, o modo como os filsofos
com que  dado algo de existente" (Crt. do                    interpretaram a S. quase sempre pressups um
Juzo, Intr.,  VII; cf. Crt. R. Pura,  I; Dialtica         carter elementar ou atmico. Helmholtz elimi-
transcendental, livro I, se. I: "Uma percepo                nou dela o carter representativo, consideran-
que se refira unicamente ao sujeito, como mo-                  do-a simples sinal das coisas, mas reconheceu
dificao de seu estado,  S."). O carter pri-                seu carter elementar (Vortrage und Reden, I.
mordial ou elementar da S. tambm era acen-                    1884, p. 393). Husserl considerava as S. como
tuado por Hegel, embora de maneira arbitrria                  componentes elementares das experincias re-
e fantasiosa: "A S.  a forma da agitao obtusa               presentativas (Logische Untersuchungen, II, p.
do esprito em sua individualidade destituda                  714), e Mach valeu-se de seu carter elementar
de conscincia e de intelecto." Em certo senti-                para consider-las neutras (nem objetivas, nem
do,  verdadeira, segundo Hegel, a assero de                 subjetivas), portanto como componentes sim-
que "tudo est na S.", com o sentido de que ela                ples de qualquer objeto fsico ou psquico
 fonte e origem de tudo; mas fonte e origem                   (Analyse der Empfindnngen, 1903, 4a ed., pp.
significam apenas a primeira e mais imediata                   14, 17, etc). As experincias elementares de
maneira como algo aparece, e a S. no se justi-                que R. Carnap falava em Viso lgica do mun-
fica por si {Ene,  400).                                      t/oso, mais uma vez, as S. (DieLogischeAufbaii
    O conceito de S. como elemento simples e                   der Welt, 1928,  67).
ltimo do conhecimento foi primeiramente                          Quando o gestaltismo (v. PSICOLOGIA) elimi-
aceito e ilustrado por filsofos, sendo depois                 nou o atomismo e o associacionismo da antiga
utilizado como fundamento da psicologia na.s-                  psicologia, o conceito de S. tornou-se pratica-
SENSACIONISMO                                          872                                    SENSO COMUM

mente intil. A psicologia fala ainda de S. para             e o S. acidentalo S. por si, na medida em que
indicar sons, cores, etc, mas como esse mate-                o primeiro  percebido acidentalmente, como
rial  dado ao homem somente em relao com                  acontece quando se percebe o branco ao se
o objeto externo, ou seja, na percepo,  esta              perceber que uma pessoa  branca (De An., II,
ltima que passa a interessar  psicologia, tor-             6. 418 a 16).
nando-se intil o conceito de S. como unidade                    2. Aquilo que tem a capacidade de sentir.
psicolgica elementar.                                       Nesta acepo, os animais so chamados de
    SENSACIONISMO (in. Sensationalism, fr.                    "seres S.", ou diz-se que ".r particularmente S.
Sensualsme, Sensationisme. ai. Sensualismus-,               a algo". Em ingls,  chamado de S. (sensible)
it. Sensismo). Doutrina que reduz conhecimen-                quem possui bom senso ou, em geral,  capaz
to a .sensao e realidade a objeto da sensao.             de julgar corretamente.
Kant chamava Epictiro de sensacionista (Crt.                    3. Quem tem capacidade de compartilhar as
 R. Pura, Doutrina do Mtodo, cap. IV). Nas fi-              emoes alheias ou de simpatizar (v. SIMPATIA).
losofias modernas, esse nome foi reservado s                    SENSO (in. Sense; fr. Sens; ai. Siri n; it.
doutrinas segundo as quais todos os conheci-                  Seiiso). Capacidade de julgar em geral. Com
mentos derivam dos sentidos: essa tese foi en-               esta significao, a palavra  empregada nas se-
trevista por Hobbes (Leviat., f. ), mas foi s             guintes expresses: bom S., que Descartes con-
Condillac que procurou demonstr-la, dizendo                 sidera sinnimo de razo e define como "facul-
que das sensaes desenvolvem-se gradati-                    dacie de bem julgar e de distinguir o verdadeiro
vamente os conhecimentos e as prprias facul-                do falso" (Discours, I); S. moral, que Shaftesbury
dades humanas (Trait cies sensalions, 1754).                (Characteristics of Men, 1111) e Hutchinson
Esse termo costuma ser aplicado a doutrinas                  (System of Moral Philosophy, 1755) considera-
desse tipo.  raro (e imprprio) que ele seja                ram capacidade instintiva cie avaliao moral,
aplicado ao empirismo de cunho Iockiano (que                 portanto como guia infalvel do homem; S. ra-
admite, ao lado da sensao, uma outra fonte                 ciorialou S. lgico, que Romagnosi considerou
de conhecimento, que 6 a reflexo).                          corno atividade que julga e organiza as sensa-
    SENSIBILIDADE (in. Sensibility, Feeling; fr.             es (Che cos' Ia mente sana. 1827,  10). Com
Sensibilit. ai. Sinnlchkeit; it. Sensbilit). 1.          esta mesma acepo do termo relaciona-se a
Esfera das operaes sensveis do homem, con-                expresso S. comum,  qual foi dedicado uni
siderada em seu conjunto, o que inclui tanto o               verbete  parte, bem como expresses como S.
conhecimento sensvel quanto os apetites, os                 pratico, S. financeiro, S. artstico, etc, que de-
instintos e as emoes.                                      signam a capacidade de julgar ou de orientar-se
    2. Capacidade de receber sensaes e de                  nos campos especiais, indicados pelo adjunto
reagir aos estmulos. P. ex., "a S. dos vegetais".           adriominal.
    3. Capacidade de julgamento ou avaliao                     SENSO COMUM (gr. Koivr) ac0r|at; lat.
em determinado campo. P. ex., "S. moral", "S.                Seiisus communis; in. Common sense; fr. Sens
artstica", etc.                                             coinmuri; ai. Gemeinsinn; it. Senso comune). 1.
    4. Capacidade de compartilhar as emoes                 Aristteles designou com esta expresso a ca-
alheias ou de simpatizar. Nesta acepo, diz-se              pacidade geral de sentir,  qual atribuiu duas
que  sensvel quem se comove com os outros,                 funes: 1- constituir a conscincia da sensa-
e insensvel quem se mantm indiferente s                   o, que  o "sentir o sentir", porquanto tal
emoes alheias (V. SIMPATIA).                               conscincia no pode pertencer a um rgo
    SENSITIVO (in. Sensitiva fr. Sensitif, ai.               especial do sentido, como, p. ex.,  viso ou ao
Sensitii:). Sensvel no 2- significado. s vezes,            tato (De somno, 2, 455 a 13); 2- perceber as
quem  extremamente sensvel.                                determinaes sensveis comuns a vrios senti-
    SENSVEL (gr. aioGrix; lat. Sensibilis-                do,';, como o movimento, o repouso, o aspecto,
in. Sensible, fr. Sensible; ai. Sensibel; it. Sens-         o tamanho, o nmero e a unidade (De an., III,
bile). 1. Aquilo que pode ser percebido pelos                I, 425 a 14). Essa noo foi admitida tambm
sentidos. Nesta acepo, "o S."  objeto do co-              pelos esticos, que atribuam ao S. comum as
nhecimento S., assim como o "inteligvel"                   mesmas funes (J. STOBHO, liei, I, 50). Reto-
objeto do conhecimento intelectivo (ARISTTF.LES,            mada por Avicena (Dean., III, 30), passou para
Dean., II, 6, 418 a 7; KANT, Crt. K. Pura, Anal.            a escolstica medieval (cf. S. TOMS, S. Th., I, q.
dos princ, cap. III, Nota). Aristteles distinguiu           78, a 4) e mais tarde tambm foi comumente
os S.prpriost os S. comuns(v. SF.NSO COMUM),               aceita por todos os aristotlicos e pelos escrito-
SENSO COMUM                                      873                                                SENTIDO

 res que se inspiraram de algum modo na psico-         da de S. comum (sensus communis), pois esta
 logia aristotlica.                                   no julga conforme o sentimento, mas con-
     2. Nos escritores clssicos latinos, essa ex-     forme conceitos, embora se trate em geral
 presso tem o significado de costume, gosto,          de conceitos obscuramente representados" (Crit.
 modo comum de viver ou de falar. Neste senti-         do Juzo,  20). A inteligncia comum (Ge-
 do, Ccero adverte que no orador  falta grave        meine Verstand) neste trecho  o S. comum
 "abominar o gnero vulgar do discurso e o cos-        dos escritores latinos e da escola escocesa, que
 tume do S. comum" (Deor, I, 3, 12; cf. 2, 16,         Kant considera intil em filosofia (Prol., A
 68), e Sneca afirma que "a filosofia visa a de-      197); essa tambm  a opinio de Hegel e de
 senvolver o S. comum" (h'p., 5, 4; cf. 105, 3).       outros (cf. R. CAXTO.M, Trgico e senso comu-
 Vio expressava numa frmula lapidar o pen-           ne, pp. 3^ ss.).
 samento tradicional dos autores latinos ao afir-         SENSORIAL (in. Sensory, fr. Seusorie, ai.
 mar: "O S. comum 6 um juzo sem reflexo, co-         Sensorisch; it. Sensoriale). Que concerne ao
 mumente sentido por toda uma ordem, todo              sensrio, aos rgos dos sentidos.
 um povo, toda uma nao, ou por todo o gne-             SENSRIO (gr. orioStpiov; lat. Sensorium).
 ro humano" (Cincia nova, 1744, Dignidade             Na terminologia aristotlica, o rgo de um
  12), e ao atribuir ao S. comum a funo de con-      sentido (Dean., II, 9. 421 b 32; Depart. an., II,
 firmar e determinar "o arbtrio humano, incer-        10, 657 a 3. etc): aquilo que hoje  chamado
 tssimo por sua prpria natureza, (...) no que        de receptor.
 diz respeito s necessidades ou utilidades hu-           SENSUALIDADE (lat. Sensualitas: in. Sen-
 manas" {Ibicl., Dignidade 11). Essa expresso         sual ily;   fr.   Sensualit-,   ai.   Snulichkeit;   it.
 teve o mesmo significado na Escola Escocesa.          Sensualit) . Tendncia a entregar-se aos pra-
 Km Investigao sobre o esprito humano se-           zeres sensveis.
 gundo os princpios do senso comum (1764). T.            SENSUALISMO (fr. Sensualismo). 1. A ati-
 Reid usa essa expresso para designar as cren-        tude que consiste em atribuir uma importncia
 as tradicionais do gnero humano, aquilo em          excessiva aos prazeres dos sentidos. Em tal
 que todos os homens acreditam ou devem                sentido a palavra  usada por Berkeley (Alei-
 acreditar. Para essa escola, o S. comum  o cri-      phron, II. 1 6).
 trio ltimo de juzo e o princpio que dirime           2. O mesmo que sensacionismo (v.). Kste
 todas as dvidas filosficas.                         emprego, que s aparece raramente em alguns
     Hoje, essa expresso costuma ter significado      escritores italianos e franceses do sculo passa-
 anlogo, embora sem a conotao elogiosa atri-        do,  devido  sugesto do termo alemo cor-
 buda pelos filsofos escoceses. Dewey. p. ex.,       respondente a sensacionismo: Sensualismus.
 ressalta o carter prtico do S. comum: "Visto           SENTENA (lat. Sententia; in. Sentence, ai.
 que os problemas e as indagaes em torno do          Ausspruch; it. Sentenza). juzo, opinio ou m-
,S. comum dizem respeito s interaes entre os        xima: p. ex., "as S. de Epicuro" (cf. CCERO, De
 seres vivos e o ambiente, com o fim de realizar       nat. deor., 1, 30, 85). Na terminologia medieval,
 objetos de uso e de fruio, os smbolos em-          alm do significado genrico, esse termo assu-
 pregados so determinados pela cultura cor-           miu outro mais especfico, de definio autnti-
 rente de um grupo social. Eles formam um sis-         ca do significado das Escrituras Sagradas e, em
 tema, mas trata-se de um sistema de carter           geral, de "concepo definida e certssima".
 mais prtico que intelectual. Esse sistema           Uma coletnea de S. constitu uma Summa: a
 constitudo por tradies, profisses, tcnicas,      mais famosa foi a de PEDRO LOMBARDO, IJbri
 interesses e instituies estabelecidas no gru-       qtiattuorsententiarum, composta entre 1150 e
 po. As significaes que o compem so efeito*,       1152 (cf. M, GRABMAN, Die Geschichte der
 da linguagem cotidiana comum, com a qual os           scholastischen Methode, II, pp. 21 ss.).
 membros do grupo se intercomunicam" {Logic,              SENTIDO (gr. cda6r|Gi; lat. Sensus; in. Sen-
 VI, 6; trad. it., p. 170).                            se, fr. Sons-, ai. Snn; it. Senso). 1. Faculdade de
     3. Na doutrina de Kant o S. comum  o prin-       sentir, de sofrer alteraes por obra de objetos
 cpio do gosto, da faculdade de formar ju-           exteriores ou interiores. Essa foi a definio da-
 zos sobre os objetos do sentimento em geral.          da por Aristteles (De an., II, 5, 416 b 33) que
 "Tal princpio s poderia ser considerado S. co-      permaneceu na tradio filosfica. (S. TOMS,
 mum, que  essencialmente diferente da inteli-        S. Th., I. q. 78, a. 3; DUNS Scoi, In Sent., I, d 3.
 gncia comum, que s vezes tambm  chama-            q. 8; WOLFF, Psvchol. emp..  67; KANT, Antr., I,
SENTIDO COMPOSTO e DIVIDIDO                            874                                     SENTIMENTO

 7, etc). Nesta acepo, o S. compreende tanto              de, porm, existe sentimentalismo mesmo
a capacidade de receber sensaes quanto a                   quando algum se entrega s suas prprias
conscincia que se tem das sensaes e, em                   emoes ou  sua manifestao externa, ilu-
geral, das prprias aes: capacidade que na                 dindo-se quanto  sua fora e consistncia, e
filosofia moderna  chamada mais freqente-                  aumentando sua importncia.
mente de S. interno ou reflexo (cf. LOCKE, En-                  SENTIMENTO (in. Sentiment; fr. Sentiment;
saio, II, I, 4; KANT, Crt. R. Pura, Esttica,  1).         ai. Gefhl; it. Sentimento). Esse termo pode
e s vezes de 5, ntimo(WAiNV. DE BIRAN, Journal            significar: I a o mesmo que emoo, no signifi-
Intime, I, pp. 13-14; CEuvres, ed. Tisserand, p.             cado mais geral, ou algum tipo ou forma supe-
15, etc.) ou conscincia (v.).                               rior de emoo. Para este significado, v. EMO-
    2. Sensao ou conjunto de sensaes,                    O; 2- pressentimento, no sentido em que se
como quando se diz "os S. mostram que...", ou                usam frases como "sinto que algo no vai bem"
ento apetites sensveis, em especial os desejos             para dizer que se tem uma opinio que no 
sexuais.                                                     possvel justificar naquele momento; quanto a
    3. rgos dos S., aquilo que se chama mais               esse sentido, v. OPINIO; 3 U fonte de emoes,
propriamente de sensrio, ou. na terminologia                como princpio, faculdade ou rgo que presi-
moderna, receptor.                                           de s emoes, e do qual elas dependem, ou
    4. O mesmo que significado (v.).                         como categoria na qual elas se enquadram.
    SENTIDO COMPOSTO e DIVIDIDO, FA-                              com este ltimo sentido que essa palavra
LCIA DO. V. COMPOSIO; DlVISO.                             comumente empregada hoje, p. ex. quando
    SENTIMENTAL (in. Sentimental: fr. Senti-                 se ope o "S."  "razo" (considerada como
 mental; ai. Sentimentalisch; it. Sentimentale).             rgo ou faculdade de conhecimentos objeti-
O significado deste adjetivo, no uso comum,                  vos), em frases como "no se faz poltica com
no tem relao com o significado geral de                   sentimentos". Este emprego  justificado por
sentimento, mas costuma referir-se a uma emo-
                                                             uma tradio filosfica relativamente recente,
o particular, o amor. "Problemas $.", "crises
                                                             s encontrada na Idade Moderna. Isto porque
S.", etc. so expresses que se referem a situa-
                                                             a filosofia antiga e a medieval no conheceram
es em que est em jogo o amor, mais preci-
                                                             o S. como fonte ou princpio das afeies, afe-
samente o amor sexual. Freqentemente esse
                                                             tos ou emoes e portanto no usam essa no-
adjetivo tambm inclui referncia ao amor em
sentido romntico (v.), como acontece no ttu-               o como categoria para organizar e classificar
lo de dois romances famosos: A viagem S. de                  as afeies da alma. Nem a psicologia platni-
Sterne e Educao S. de Flaubert.                            ca, que distingue uma alma racional, uma concu-
                                                             piscvel e uma irascvel (Rep., IV, 12-15), nem
    Em sentido especfico, esse adjetivo foi em-
                                                             a psicologia aristotlica, que distingue um prin-
pregado por F. Schiller para indicar uma e.sp-
                                                             cpio vegetativo, um sensitivo e um intelec-
cie de poesia, em oposio  poesia ingnua
                                                             tivo (De an., II, 2), reconhecem uma fonte e
(v. INGENUIDADE).
                                                             um princpio autnomos das emoes: estas
   SENTIMENTALIDADE ou SENTIMENTA-
                                                             so repartidas entre as vrias divises ou
LISMO (in. Senti mentalism, fr. Sentimenta-
                                                             princpios admitidos, sem excluso do prin-
lisme; ai. Sentimentallitt; it. Sentimentalit
                                                             cpio racional ou intelectivo. O mesmo acon-
ou Sentimentalismo). Consiste em entregar-se
s emoes prprias ou alheias, em exaltar-se                tece com a filosofia medieval, que segue as
com elas desproporcionalmente  fora, aos li-               pegadas da psicologia aristotlica. Na reali-
mites e  funo dessas emoes. Kant viu no                 dade, o reconhecimento de Lima fonte ou
sentimentalismo a fraqueza de deixar-se domi-                princpio autnomo das emoes relaciona-se
nar, at contra a vontade, pela participao no              com o reconhecimento da subjetividade huma-
estado emocional de outrem. Por isso, ops                  na como algo irredutvel a um conjunto de ele-
S. o autodomnio, que possibilita a sutileza de sen-         mentos objetivos ou objetivveis ou a modifica-
timentos graas  qual as emoes alheias no                es passivas produzidas por tais elementos.
so julgadas segundo a fora de quem julga,                  Este reconhecimento caracteriza os primrdios
mas segundo a fraqueza de quem sente. Diante                 da filosofia moderna e , como todos sabem,
do autodomnio,  ridculo e pueril deixar-se                uma contribuio do cartesianismo.
dominar pela emoo alheia, compartilhando-a                   Os pressupostos desse reconhecimento de-
indiscriminadamente (Antr., I,  62). Na realida-            vem ser buscados na linha de pensamento que
SENTIMENTO                                          875                                     SENTIMENTO


vai de Pascal aos moralistas franceses e ingle-           fundamentais da filosofia, o terico e o prtico,
ses (La Rochefoucauld, Vauvenargues, Shaftes-             KANT reconheceu um terceiro poder ou faculda-
bury e Hume) e chega at Rousseau e Kant,                 de, o sentimento. "Todos os poderes ou facul-
culminando neste ltimo: essa  a linha que le-           dades da alma -- diz KANT (Crt. do Juzo, Intr..
vou  elaborao do conceito moderno cie pai-              III) -- podem ser reduzidos a trs, que no
xo como emoo dominante e  noo de                    so redutveis a um princpio comum: o poder
gosto (v.) que est intimamente relacionada               cognitivo, o S. do prazer e da dor e o poder de
com a de sentimento. "S.", "corao", "esprito           desejar." O S. de prazer ou dor deve ser inse-
de fineza" foram expresses usadas por Pascal             rido entre o poder cognitivo e o poder de de-
para indicar o princpio ou o rgo das emo-              sejar; a ele cabe um princpio autnomo, que
es, que  diferente do rgo ou do princpio            Kant chama de faculdade de juzo (v.). Assim,
dos raciocnios e irredutvel a este. Pascal diz:         o S. 6 o campo de crtica da faculdade de juzo,
"Os que esto acostumados a julgar com o S.               assim como a faculdade de desejar 6 o campo
nada entendem das coisas cio raciocnio por-              de crtica da razo prtica. Kant caracteriza o S.
que logo querem penetrar a questo com um                 como o aspecto irredutivelmente subjetivo da
lance de olhos, desacostumados que esto a                representao. Diz (Ibid.,  VII): "Aquilo que
buscar princpios. Os outros, ao contrrio, que           h de subjetivo numa representao e que no
esto acostumados a raciocinar por princpios,            pode de modo algum tornar-se artigo de co-
nada entendem das coisas do S., porque bus-               nhecimento  o prazer ou a dor que esto liga-
cam princpios, e no podem apreend-los                  dos  representao; isso porque atravs deles
apenas com um lance de olhos" (Penses, 3).               nada conheo do objeto da representao, ain-
Ao S. ou ao corao deve-se a mesma certeza               da que eles possam ser efeito de algum conhe-
que tm os primeiros princpios do raciocnio             cimento." Em conformidade com esta reivindi-
("Os princpios so sentidos, as proposies              cao cie autonomia do S. como categoria
so deduzidas, e em cada uma dessas duas for-             espiritual, em sua Antropologia pragmtica,
mas h certeza, embora obtida por caminhos                Kant divide a primeira parte, dedicada ao "mo-
diferentes'); ao S. e ao corao 6 atribuda a            do de conhecer interior e exterior do homem",
verdadeira religiosidade, da qual o raciocnio            em trs livros, dedicados respectivamente ao
pode somente aproximar-se e da qual s pode               poder cognitivo, ao S. cie prazer e dor e ao
dar expectativas (Ibid.. 282). Assim, os moralis-         poder apetitivo. Por sua vez, o segundo livro
tas ingleses e franceses acima citados contribu-          dividido em duas partes principais, a pri-
ram para a elaborao e o reconhecimento da               meira das quais dedicada ao "S. de deleite e
categoria do sentimento, por terem acentuado o            prazer sensvel na sensao do objeto"; a se-
papel dominante das emoes na vida do ho-                gunda, dedicada ao "S. do belo, que  em parte
mem. Finalmente,  preciso lembrar que a "volta           sensvel e em parte intelectual, sendo prprio
 natureza", proclamada por Rousseau como                 da intuio reflexa ou do gosto". Esta segunda
meio capaz de libertar o homem dos males                  parte resume de forma mais acessvel os resul-
produzidos pelos artificialismos sociais e de             tados da Critica do Juzo; a primeira contm
reconduzi-lo  bondade original,  entendida              uma srie de observaes sobre o S. de prazer
por ele como volta ao primitivo S. natural. O S.          e dor em relao com os dados dos sentidos
natural  um instinto, uma tendncia originria           (cf. tambm Met. der Sitten, Intr. 1, nota) (v.
que o conduz para o bem; quando no  altera-             EMOO).
da, afetada ou bloqueada, conserva o homem
no bem e no bem permite-lhe progredir. Nestas                Com isso, o S. ingressara oficialmente na fi-
famosas teses de Rousseau talvez se encontre a            losofia como categoria independente. O pr-
primeira apario da categoria do S. como prin-           prio Hegel aceita-o como determinao do
cpio autnomo da vida espiritual. Mas o pri-             esprito subjetivo e define-o como ''uma afei-
meiro a falar em termos filosficos sobre essa            o determinada", mas determinada de mo-
categoria e a inclu-la numa nova subdiviso              do simples, isto , de tal modo cjue, mesmo
dos pocleres ou das faculdades espirituais foi            quando seu contedo  slido e verdadeiro (o
provavelmente Kant. Enquanto Wolff (e depois              que nem sempre acontece), ele assume a for-
dele os wolffianos) admitia somente duas ativi-           ma de "particularidade acidental". Hegel acres-
dades fundamentais do esprito humano, co-                centa: "Quando, ao discutir sobre uma coisa,
nhecimento e volio, objetos dos dois ramos              algum no recorre  natureza e ao conceito da
                                                          coisa, ou pelo menos  razo e  universalida-
SENTIMENTO                                               876                                       SENTIMENTO

de do intelecto, mas a seu S., nada se pode fa-                altrusmo, mas um altrusmo to desenvolvido
zer; porque desse modo essa pessoa est se                     que criar inclinaes e instintos benvolos que,
recusando a aceitar a comunho da razo e fe-                  tanto quanto o sentimento, agem sem necessi-
cha-se em sua subjetividade, em sua particulari-                dade de reflexo. As preocupaes religiosas e
dade" (Ene,  447). Nesse aspecto, Hegel                        morais de Comte levaram-no a insistir no valor
ope-se  tendncia literria do Romantismo,                    do S. e a exalt-lo  maneira romntica.
cuja bandeira foi a descoberta e a exaltao do                     Mas fora do Romantismo, e contra ele, o S.
S., considerando-o a forma mais ntima e ao                     foi aceito como categoria fundamental da vida
mesmo tempo mais livre de vida espiritual.                      espiritual, como uma das "faculdades" ou
Para os romnticos s pode ser artista quem --                  "poderes" do esprito.  curioso notar que,
como diz Friedrich Schlegel (kleen,  13). --                  enquanto Kant admitia a tripartio conheci-
"tem uma religio prpria, uma intuio origi-                 me-ntos-vontade-S. com base apenas num mo-
nal do infinito". Essa intuio original do in-                 desto mas vlido motivo metodolgico (porque
linito  aquilo que os romnticos chamam de                     os trs grupos de fenmenos no so redu-
sentimento. Em outras palavras, S. 6 a manifes-                tveis a um princpio nico), logo depois dele
tao do Infinito, de Deus,  intimidade da                     es.sa tripartio comea a serdogmatizada: para
conscincia. Portanto, as caractersticas que de-              Fries ela j  resultado imediato cia auto-obser-
finem o S. na concepo romntica so dois:                    vaco (Anthropologie. I, 1837,  4). Herbart.
1 seu carter de extrema subjetividade, consti-               conquanto negasse a doutrina cias faculdades
tuindo o que h de mais subjetivo no sujeito;                  da alma, considerando-as "conceitos de classe"
2y sua capacidade de revelar o Princpio infinito              segundo os quais os fenmenos estudados se
da realidade. Km virtude deste segundo aspec-                  organizam, nem por isso deixou cie incluir en-
to, o S.  entendido pelos romnticos, alternada               tre tais conceitos de classe o conceito de senti-
ou concomitantemente, como rgo da arte, da                   mento. Para Benecke. o S. era a base da moral
filosofia e da religio. Schleiermacher conside-               e cia religio; esta ltima originar-se-ia do S. de
rou-o rgo da religio, afirmando que "s o S.                dependncia em relao a Deus, justificado
revela o Infinito" (Reden, II; trad. it., p. 43), tese         pelo carter fragmentrio da vida humana e
reexposta e defendida freqentemente de-                       pela exigncia de completitude, que s pode vir
pois disso. Em tempos mais recentes foi consi-                 de Deus (System der Metaphysik, und Reli-
derado rgo da arte por Gentile (Filosofia da                 gionspbi/osophie, 1840). Para Rosmini o S. era
arte. 1931), porquanto a arte  "a subjetivi-                  a conscincia que cada um tem de si, ponto de
dade pura, ntima e inexprimvel do sujeito                    partida e base para o conhecimento da alma
pensante", e o S.  precisamente isso. Na con-                 (Psicologia,  69).
cepo de arte de Gentile, o S. conserva todas
as conotaes romnticas:  o infinito espiritual                   A tripartio das faculdades do esprito em
na prpria forma de sua infinidade, livre de                   conhecimento, sentimento e vontade manteve-
determinaes conceptuais necessitantes, cons-                 se como esquema praticamente constante na
tituindo "a subjetividade pura do sujeito" (Jbid..             filosofia do sc. XIX. Para sua difuso muito
pp. 176 ss.); como tal, a infinidade do S.  a                 contribuiu a obra de Cousin, que estabeleceu a
infinidade do homem em sua universalidade,                     correspondncia entre essa tripartio e trs va-
estando portanto acima e alm da diversidade                   lores absolutos: o Verdadeiro, o Belo e o Bem
emprica dos homens, considerados individual-                  (Ou rrai, dit bean et du bien foi ttulo da obra
mente" (Ibd., p. 205). Mas a outra corrente do                mais conhecida de Cousin, 1853). Se deixar-
Romantismo oitocentista, o positivismo, tam-                   mos de lado as crticas de carter metodolgico
bm no ficou alheia  exaltao do sentimento.                sobre a oportunidade de semelhantes esque-
Ao delinear as caractersticas do futuro regime                mas rgidos de subdiviso no estudo dos fen-
sociocrtico (dominado e dirigido por uma                      menos espirituais, podemos dizer que essa
corporao de filsofos positivistas), Comte                   tripartio ainda hoje  a mais difundida, ten-
afirmou que esse regime ser dominado mais                     do-se incorporado ao modo de pensar comum.
pelo sentimento que pela razo e que, portan-                  Exceo  Croce. que reconduziu as formas do
to, atribuir papel importante s mulheres, que                esprito s duas formas admitidas por Wolff: a
representam o elemento afetivo do gnero                       terica e a prtica, criticando o S. como catego-
humano (Politiquepositive, I, pp. 204 ss.). Isto               ria espria e ambgua. Para Croce, S. era uma
porque a moral dessa sociedade futura ser o                   palavra "usada para denominar uma classe de
                                                               fatos psquicos constituda segundo o mtodo
SENTIMENTO                                             877                                      SENTIMENTO


naturalista e psicolgico": noo que vrias ve-             estado emotivo faz parte do contedo fenome-
zes exerceu funo negativa e crtica em estti-             nal, o S. puro est entre as funes destinadas a
ca, historiografia, lgica e tica, pois contrapu-           apreender ti contedo. Desse ponto de vista,
nha s interpretaes demasiado limitadas e                  a tendncia a suportar ou a fruir nada tem a ver
estreitas tudo o que havia de "indeterminado"                com a sensibilidade em relao ao prazer e 
ou "semideterminado" fora dessas interpre-                   dor. O grau de prazer ou de dor pode ser o
taes. O testemunho a que recorria para rejei-              mesmo, mas o sofrimento e o gozo por eles
tar essa categoria  o da observao interior:               provocados em dois indivduos ou no mesmo
"Quem quiser, investigue seu esprito e tente                indivduo em momentos diferentes podem ser
indicar um ato sequer que, ao contrrio dos                  completamente diferentes. Ora, enquanto os
indicados acima latos tericos e prticos], cons-            estados emotivos podem ser relacionados ape-
titua algo novo e original, e merea a denomi-               nas de modo indireto com os objetos ou os fa-
nao especial de S." (Fil. da pratica, I, I, c. 2).         tos de que so efeito ou sinal, os sentimentos
Mas esse tipo de testemunho  extremamente                   puros referem-se imediatamente a um objeto
varivel e infenso a qualquer verificao; para              especfico, que  o valor. Portanto, a relao
Fries, p. ex., e para muitos outros, a distino             entre S. e valor  a mesma observada entre a
entre S. e outras atividades espirituais era to             representao e seu objeto: a relao intencio-
claramente provada pelo testemunho interior                   naliv. INTENCIONALIDADK). Enquanto  neces-
quanto desmentida para Croce. Na realidade, o                srio um ato de reflexo para relacionar um esta-
uso de tais categorias, como S., atividade teri-            do emotivo com o objeto de que  sinal ou que
ca, atividade prtica, s pode ser discutido,                julgamos ter provocado, o S. relaciona-se com
portanto submetido a limites e regras, com base              seu objeto especfico, o valor, de modo ime-
na anlise precisa de um grupo delimitvel de                diato, como acontece, p. ex., quando sentimos
fenmenos: anlise que Croce nem sequer ten-                 a beleza dos montes cobertos de neve ao pr-
tou. Contudo, na filosofia contempornea no                 do-sol. A conexo intencional entre S. e valor
faltam anlises desse tipo, que figuram entre                no tem, pois, nada a ver com um vnculo cau-
suas contribuies menos discutveis para o co-              sai entre S. e objeto, e independe tambm da
nhecimento do homem em seu mundo. Uma                        causalidade psquica individual, ou seja, das
dessas contribuies -- das mais importantes                 leis que regem a vida psquica do indivduo. De
--  a de Max Scheler, que se referiu s pala-               fato, quando as exigncias dos valores no so
vras de Pascal, "o corao tem razes que a ra-              satisfeitas, sofremos, p. ex., por no nas sentir-
zo desconhece", mas sem interpret-las no                   mos to alegres quanto o valor de um aconte-
sentido freqentemente encontrado na filosofia               cimento mereceria, ou por no nos sentirmos
moderna e contempornea (v. CORAO), de                     to tristes pela morte de um ente querido quanto
que a razo deveria ter certa condescendncia                esse fato exigiria (Formalismus, pp. 260 ss.).
para com o S. e tentar corresponder s suas                  Assim, segundo Scheler, o S. d acesso a um
exigncias, porm no sentido de que o S. tem                 mundo de objetos to reais quanto as coisas ou
suas prprias leis, seus prprios objetos e cons-            os fatos que constituem o objeto da representa-
titui, portanto, um mundo diferente do racio-                o, mas que nada tm a ver com eles, porque
nal. Scheler comea fazendo a distino entre                no so coisas nem fatos, mas valores. Scheler,
os estados emotivos simples, que no tm ca-                 portanto, est de acordo com Kant ao julgar
rter intencional, ou seja, que no se referem               que o S. no  "artigo de conhecimento", mas
imediatamente a um objeto prprio (v. EMO-                   discorda dele quanto a julgar que ele no tem
O), e o S. originrio e intencional, que, ao               nenhum objeto e , por isso, destitudo de ca-
contrrio,  uma reao particular ao estado                 rter intencional. Apenas as emoes sensveis
emotivo e consiste nas atitudes extremamente                 so destitudas de objeto e por isso constituem
variveis e mutveis assumidas diante do esta-               estados emotivos puros, ao passo que os sen-
do emotivo: enfrentar, tolerar, fruir, suportar,             timentos vitais e os psquicos sempre podem
etc. Estado emotivo, p. ex.,  o prazer sensvel             revelar carter intencional (referir-se a um ob-
correspondente ao carter agradvel de uma                   jeto-valor); os S. espirituais revelam-no neces-
refeio, um perfume, um leve toque. O S.                    sariamente (para a distino entre os graus emo-
puro, ao contrrio, consiste nas reaes do eu a             cionais, V. EMOO). A anlise de Scheler  muito
tal estado emotivo: p. ex., fruir em maior ou                importante porque lana novas luzes sobre a
menor grau, tolerar, etc. Assim, enquanto um                 vida emocional do homem. Contudo, o prprio
SENTIMENTO                                           878                                                  SER

Scheler usou sua anlise como fundamento de                 a possibilidade de ser ameaado pelas coisas
uma verdadeira metafsica dos valores, em que              e pelos acontecimentos do mundo e de reagir a
estes no so considerados somente objetos,                essa ameaa com medo ou com coragem. Tam-
no sentido prprio e restrito do termo (v. Ois-            bm neste caso, se deixarmos de lado a lingua-
jF.ro). mas verdadeiras realidades, no sentido             gem especfica da ontologia de Heidegger,
em que so chamadas de reais as coisas, as                 podemos dizer que sua anlise concorda fun-
entidades e os fatos, com a diferena de que,              damentalmente com a da psicologia contempo-
diante de qualquer outra coisa, entidade ou                rnea e qtie confirma a noo de S. como capa-
fato, os valores seriam realidades ltimas ou              cidade de apreender o valor que um fato ou
"absolutas". Hssa integrao metafsica de uma             uma situao apresenta para o ser (animal ou
anlise meritria pelo modo como foi conduzida             homem) que deve enfrent-la. Finalmente, 
e pelas suas concluses pode levantar dvidas              preciso lembrar que para Hartmann o S. -- que
quanto  sua legitimidade. Com efeito, pode-se             serviu de base para a sua tica --  a "principal
considerar que um dos resultados dessa anli-              sede em que os valores se do" (Etbik, 1926).
se  estender o significado de "objeto" como                  SENTIMENTO FUNDAMENTAL Ut. Senti-
termo ou fim de um ato intencional, cie tal modo           mento fomlamentctle) Com este termo Rosmini
 que no sejam chamados de objetos apenas os               designou a conscincia que o homem tem de
 que possam ser considerados reais no sentido              seu eu e da conexo (que o constitui) entre
 cie terem caractersticas de fatos ou entidades           alma e corpo. "Existe no homem, tal qual ele 
 subsistentes. Por realidade entende-se, pois, de          por natureza no primeiro instante cie sua vida.
 modo estrito e rigoroso, o termo de um proces-            1") um sentimento nico constante-fundamen-
 so cognitivo passvel de verificao (v. RI:ALI-          tal, animal-espiritual; 2") Lima percepo racio-
 DADI:), e no h razo para identificar a inten-          nal, imanente, do sentimento animal" (Psicolo-
 cionaliclade emotiva com a intencionaliclade              gia, 1850,  256).
 cognitiva; o prprio Scheler d boas razes                   SEPARAO (gr. tKpiot; lat. Separaiio-,
 para fazer o contrrio. Se as coisas so assim,           fr. Sparation, ai. Treminng; it. Separazione).
 ou seja, se a intencionaliclade do S.  diferente         Resoluo de um composto em suas partes ou
 da intencionaliclade do conhecimento, sendo               em seus elementos, liste termo foi usado por
 tambm diferentes seus respectivos objetos,               Anaxgoras {Fr. 10, Diels) e por Hmpdocles
 deixa de ter fundamento a crtica de Scheler             (Fr. 58, Diels) (cf. PLATO. Sof, 243 b; ARIST-
 tendncia da psicologia contempornea, de ne-             TFI.KS. Met., I, 4, 985 a 25).
 gar a "funo cognitiva" dos S. Isto porque a                 SEQNCIA (lat. Sequentia-, in. Sequence-,
 psicologia contempornea admite a funo dos              fr. Sqnence, ai. Folgo-, it. Sequenza). Conjunto
 S. no comportamento vital do organismo, e                 de termos entre os quais h uma relao de
 considera-os anncio de situaes presentes ou            antes e depois (cf. PKIRCK, Coll. Pap.. 3.562 B).
 futuras, o que permite enfrentar tais situa-                 SER (gr. xv; lat. Frisou Esse, in. lieing-, fr.
 es da mesma maneira como um dispositivo                 tn'; ai. Sen; it. fssere). Preliminarmente, con-
 de alarme pe em movimento os meios de                    vm distinguir os dois usos fundamentais des-
 enfrentar um perigo. Assim como Scheler.                  se termo: 1") o uso predcalivo, em virtude do
 Heidegger reconheceu a importncia funda-                 qu;il dizemos "Scrates  homem", ou "a rosa 
 mental do S., que ele considera arraigado na              vermelha"; 2") o uso existencial, em virtude do
 substncia humana, vale dizer, na estrutura               qual dizemos "Scrates " (= existe) ou "a rosa
 antolgica de sua existncia. Heidegger chama             " (= existe). Kmbora nem sempre explicita-
 de situao afetiva (Refindlchkeit) o tom emo-           mente formulada, essa distino  assumida ou
 cional da ocupao cotidiana do homem, e v               pressuposta quase universalmente. Em Parm-
 nesse tom uma manifestao essencial do ser               nides. Plato d destaque  diferena entre a
 do homem no mundo: "O estado da situao                  hiptese "o um  um" e a hiptese "o um ";
 afetiva constitui, essencialmente, a abertura do          nesta ltima "" significa "participao no S."
 ser-a no mundo" (Sen iindZel.  29). Segun-            (Pcirm., 137 e; 142 b). Aristteles expressa de
 do Heidegger, a situao fundamental de um                vrias formas a mesma diferena: como dife-
 ente que, como o homem, vive num ambiente                 rena entre  como terceiro predicado e 
 que lhe fornece as coisas a serem utilizadas              como segundo predicado (De int., 10. 19b 19);
 e que, por isso, pode amea-lo com a no-                como diferena entre  como predicado por
 instrumentalidade. com a resistncia das coisas.          acidente ("Homero  poeta") e  predicado por
SER                                                  879                                                   SER

'("Homero ") (Deint., II, 21 a 25); eomo dife-           riais ou acidentais. Aristteles diz: "Inerir, inerir
rena entre "S. alguma coisa" e "S. absoluta-              necessariamente e inerir possivelmente so
mente1' (El. sof., 5, 167 a 1). Na diferena entre         coisas diferentes" (An. pr, 1, 8, 29b 28). Ine-
S. predicativo e S. existencial baseia-se ainda a          rncia necessria  a da essncia necessria
distino aristotlica entre tese e hiptese,              (expressa pela definio)  coisa da qual 
como premissas cio silogismo: a primeira no               essncia; inerir ou inerir possivelmente  refe-
assume a existncia do objeto a que se refere; a           rir-se  coisa com uma qualidade, quantidade
segunda, sim (An. post., 1, 2, 72 a 18).                   ou qualquer outra das determinaes catego-
    A diferena entre esses dois significados de           riais no includas na definio da coisa ou pu-
S. permanece constante na tradio filosfica              ramente acidentais. Este  o significado da dis-
posterior a Aristteles. S. Toms afirma: "S.              tino aristotlica entre S. necessrio (ou por si)
tem dois significados: num modo significa o                e S. acidental. "Em sentido acidental, dizemos,
ato de S.: no outro significa a composio da              p. ex., que o justo  msico, que o homem 
proposio que o homem encontra ao juntar o                msico e que o msico  homem, ou dizemos
predicado ao sujeito" (S. Th., 1, q. 3, a. 4; cf.          que o msico constri quando acontece de o
De ente, 1). Na lgica terminista medieval dis-            construtor ser msico ou de o msico ser cons-
tinguia-se o verbo S. como segundo constituin-             trutor: em todos esses casos, dizer 'isto  aqui-
te (secundo adiacens) da proposio, do ver-               lo' significa 'A isto acontece aquilo'"(Afe/., V, 7,
bo S. que aparece como terceiro constituinte               101 7 a 7). Ao contrrio, a inerncia necessria
(tertio adiacens), em funo predicativa ou de             ou por si no tem carter acidental, e, mesmo
cpula (OCKIIAM, Summa log., II, 1; ALBERTO                ao especificar-se segundo as categorias, seu
1 1 SAXNIA, Lgica, I, 5). Kant estabeleceu a
 3-                                                        principal fundamento  a substncia. Aristte-
distino entre a posio predicativa ou re-               les diz: "Assim como ''inere a todas as coisas
lativa, expressa pela cpula de um juzo, e a              de modos diferentes, pois a algumas inere de
posio absoluta ou existencial, com que se                modo primrio e a outras de modo secundrio,
pe a existncia da coisa (Der einzig mglche             tambm o" o qu' [essencial inere absolutamente
Beweisgrund ztt einer Demonstration des                     substncia e s de certo modo s outras coi-
Daseins Gottes, 1763.  2). Na filosofia moder-            sas. A respeito de uma qualidade podemos at
na e contempornea, essa distino  lugar-co-             perguntar o que ela , e por isso at uma qua-
mum, embora nem sempre seja explicita-                     lidade  exemplo de essncia, mas no de modo
mente formulada. Na evoluo sofrida pelas                 absoluto. Assim, alguns afirmam que, por lgi-
interpretaes desses dois significados de S.              ca, o no-S. , todavia no  de modo simples,
ao longo da histria, pode-se perceber uma                 mas apenas como no-S.: o mesmo se diga da
correspondncia entre as interpretaes do                 qualidade" Ubid., VII, 4, 1030 a 22). Portanto,
primeiro significado e as do segundo. Contu-               segundo Aristteles, o S. predicativo expressa
do, por uma questo de clareza, o estudo de                a inerncia ao sujeito de sua essncia necess-
cada uma delas dever ser feito em separado.               ria, de determinaes categoriais (que, embora
                                                           no pertencendo  essncia, dependem dela)
    1'-' Significado predicativo. Nas interpreta-          ou de determinaes acidentais. Esse significado
es do significado predicativo  possvel dis-            de S. tem um sentido privilegiado, que  o inerir
tinguir trs doutrinas fundamentais: ^4) inern-           substancial, ou seja, o inerir da essncia neces-
cia; B) identidade (ou suposio); O relao.              sria (expressa pela definio)  substncia
    A) Segundo a doutrina da inerncia, S., na             definida. "Scrates  animal bpede"  um ca-
relao predicativa, significa pertencer ou inerir         so de inerncia predicativa privilegiada se "ani-
(gr. Tip/etV; kit. Inesse). "Scrates  homem"           mal bpede"  definio do homem, porque 
significa que a Scrates inere a essncia ho-              a inerncia da essncia necessria  substncia.
mem; "a rosa  vermelha" significa que  rosa              As outras determinaes, como p. ex. "Scrates
pertence a qualidade vermelho, e assim por                  filsofo", constituem casos de inerncia se-
diante. O fundamento dessa doutrina  a teoria             cundria ou acidental.
aristotlica da substncia (v.). De fato. as rela-
es de inerncia qtie podem ser expressas                    As caractersticas fundamentais desse con-
pelo verbo S. so esclarecidas e distinguidas              ceito do ser predicativo so: 1L> sua reduo a
por Aristteles com base nas relaes entre a              um tipo nico de relao, qualificada como
substncia e sua essncia necessria, ou entre             pertena ou inerncia; 2B privilgio concedido
a substncia e suas outras determinaes catego-            forma necessria dessa relao, ou seja,  for-
SER                                                     880                                                  SER

ma como ocorre essa relao entre substncia                  simplesmente que o sujeito "Scrates" e o
e essncia. Estas caractersticas so mantidas                predicado "branco" referem-se ao mesmo ob-
pela doutrina em exame ao longo de toda a sua                 jeto existente, que. portanto, pode ser qualifi-
histria, que  longuissima. A tradio lgica                cado com um ou com o outro dos dois termos.
medieval at o sc. XIII (quando do ressurgi-                 A origem desta doutrina est provavelmente
mento das doutrinas dos esticos atravs cia                  na lgica estica, na qual  fundamental a refe-
ria moderna) no conhece alternativa. As dou-                 rncia cie qualquer enunciado a uma situao
trinas modernas de carter racionalista geral-                de fato imediatamente presente (v. ESSKN-
mente as compartilham. Leibniz diz: "Todo predi-              CIA). Mas  expressa claramente s na lgica do
cado verdadeiro tem algum fundamento na                       sc. XIII, em polmica com a teoria da inern-
natureza das coisas, e quando uma proposi-                    cia. Ockham diz: "Proposies como 'Scrates
o no  idntica, vale dizer, quando o pre-                  um homem' ou 'Scrates  um animal' no
dicado no est compreendido expressamente                    significam que Scrates tem humanidade ou
no sujeito,  preciso que esteja compreendido                 animalidade. Tampouco significam que a hu-
virtualmente:  isso que os filsofos chamam                  manidade ou a animalidade est em Scrates,
de i)i-esse, ao afirmarem que. o predicado est               nem que o homem ou o animal  uma parte da
no sujeito" (Disc. de mt., 8). Do mesmo modo,                substncia ou da essncia de Scrates, ou uma
para Hegel, o significado predicativo de S.                  parte do conceito ou cia substncia de Scrates.
a identidade entre individual e universal, ou                 Significam que Scrates  na realidade um ho-
seja, aquela mesma relao entre substncia                   mem e  na realidade um animal: no no senti-
e essncia que para Aristteles era o caso pri-               do de Scrates ser esse predicado 'homem' ou
vilegiado de relao predicativa. Hegel diz: "A               esse predicado 'animal', mas no sentido de que
cpula  vem da natureza do conceito, que                    existe alguma coisa em lugar da qual esses dois
de ser idntico a si mesmo ao se tornar extrn-               predicados esto; como quando acontece que
seco: como momentos seus, o individual e o                    esses predicados esto no lugar cie Scrates"
universal so determinaes que no podem                     (Summa log., II, 2; Qnocll., III, 5). Essa doutrina
ser isoladas" (tine,  166). Segundo Hegel, o                  expressa quase nos mesmos termos por
juzo tende a expressar de modo mediato ou                    Hobbes: "A proposio  um discurso que
reflexo a unidade entre predicado e sujeito,                  consta de dois nomes conjuntos: quem fala
vale dizer, a unidade de um conceito nico                    pretende dizer que, para ele, o segundo nome
que, atravs do prprio juzo e, mais completa-                um nome da mesma coisa cujo nome  o pri-
mente, atravs do silogismo, articula-se em                   meiro, ou -- o que d no mesmo -- o primeiro
suas determinaes necessrias (Wissenscbaft                  nome est contido no segundo. Por ex., o dis-
der I.ogik, III, I, cap. 2; trad. it., pp. 77 ss.). A         curso 'O homem  animal', em que os dois no-
doutrina exposta por alguns hegelianos ingle-                 mes esto reunidos pelo verbo ,  uma propo-
ses (BRADLKV, Principies of Logic. 1883; BOSA.V               sio porque quem a enuncia pretende dizer
yrr.T, Logic, 1888), de que S. predicativo signi-             que, para ele, o segundo nome 'animal' 
fica referncia de um conceito ao sistema total               nome da mesma coisa cujo nome  'homem'"
da realidade (de sorte que, no juzo, o conceito              (Decuip., 1, 3,  2). Essa doutrina foi substan-
 uma qualificao essencial da Realidade Lni-                cialmente reproduzida por Stuart Mill, que dis-
versal), representa a forma assumida pela                     tinguia as afirmaes "essenciais", ou seja,
doutrina hegeliana da cpula na filosofia con-                gerais, que s explicam a essncia nominal
tempornea. Tambm nessa forma, pode-se re-                   de uma coisa (v. ESSNCIA), das proposies
conhecer a teoria da inerncia: a substncia ou               "reais", que sempre implicam a existncia do
realidade  qual o predicado inere  a totalida-              sujeito a que se referem "porque, no caso de
de do real, em vez de ser (como na doutrina de                um sujeito inexistente, a proposio nada teria
Aristteles) uma nica substncia.                            para asseverar" (Logic, I, VI, 2).
   B) A segunda interpretao fundamental de                     A referncia  realidade imediatamente
S. predicativo  de identidade (v.) ou suposi-                dada ou intuda  a primeira caracterstica fun-
o (v.): segundo ela, a cpula significa identi-             damental da doutrina em exame. Os lgicos do
dade do objeto ao qual o sujeito e o predicado                sc. XIV chegavam a considerar falsa at mes-
da proposio se referem ou no lugar do qual                  mo proposies tautolgicas como "A quimera
esto (supponunt pro). Assim, p. ex., na ex-                   quimera", quando nelas o sujeito representa
presso "Scrates  branco", a cpula indicaria               um objeto inexistente (OCKHAM, Summa log..
SER                                                  881                                                SER

II, 14). A segunda caracterstica dessa doutrina           relaes cuja realidade est no sujeito cognoscen-
6 a identidade da referncia objetiva dos ter-             te, embora no somente nele. Kant expressou esse
mos da proposio (identidade da coisa em lu-              mesmo conceito ao afirmar que o ato de juzo,
gar da qual esto).                                        atividade prpria do intelecto,  a sntese: "En-
    O Segundo a terceira interpretao funda-              tendo por sntese, no sentido mais amplo dessa
mental, a cpula  unia relao. Esta interpre-            palavra, o ato de unir diversas representaes
tao pode ser dividida em duas alternativas: a            e compreender a sua multiplicidade num s
primeira (a) considera que a relao predica-              conhecimento" (Crl. R. Pura.  10). Todas as
tiva 6 subjetiva; a segunda (b) considera-a                interpretaes idealistas da relao predicativa
objetiva.                                                  no mundo moderno partem dessa afirmao
    a) A interpretao do S. predicativo como              kantiana. Atividade sinttica, poder sinttico do
relao que  ato ou operao do sujeito                   esprito, sntese a priori. so expresses s
pensante tem como pressuposto bvio o                      quuis a interpretao idealista do kantismo. a
princpio cartesiano de que o objeto imediato              partir do Romantismo, emprestou um significa-
do conhecimento humano  apenas a idia.                   do enftico e criativo, que de certo no tinham
Desse ponto de vista, a proposio apresenta-              na doutrina de Kant: de qualquer modo, expres-
se como juzo e comea a ter esse nome par-                sar?] o carter subjetiva c/a atividade sinttica.
que juzo 6 exatamente o ato com que o espri-             que como tal s pode operar entre "idias" ou
to escolhe ou decide. Descartes diz: "Dos meus             "representaes", vale dizer, entre elementos
pensamentos, alguns so como imagens das                   ou estados do mesmo sujeito. A dificuldade
coisas, e a eles s convm o nome de idia:                fundamental que se ope a essa doutrina  a
como quando represento um homem. Lima                      obvia considerao de que uma assero qual-
quimera, o cu, um anjo, ou Deus. Outros pen-              quer no visa a estabelecer uma relao entre
samentos tm, alm destas, outras formas; p.               duas idias, representaes ou conceitos, mas
ex.. quando quero, temo, afirmo ou nego,                   entre os objetos aos quais se faz referncia
estou concebendo alguma coisa como objeto                  atnns deles. Quando se afirma "Scrates  um
da ao de meu esprito, mas, com essa ao,               homem", no se quer dizer que a representa-
acrescento alguma outra coisa  idia desse                o Scrates  homem, mas sim o indivduo
objeto; desses pensamentos, alguns so cha-                real ao qual o nome se refere. K em observa-
mados de vontades ou emoes; outros, de                   es desse tipo que se baseia a alternativa
juzos" (Md, III). Portanto, segundo Descartes,           objetivista.
juzo  uma ao do esprito por meio da qual                  b) A doutrina da cpula como relao objeti-
"se acrescenta alguma coisa"  idia que se tem            va foi apresentada pela primeira vez por De
de um objeto; em outros termos,  um ato de                Morgan (FormalLogic, 1847, cap. 3) e adotada
unificao ou sntese. Esta noo  claramente             pelo criador cia lgica matemtica, Boole. Para
expressa na Lgica, de Arnauld: "Quando digo               este, a lgica tem duas espcies de relaes:
'Deus  justo', 'Deus'  o sujeito dessa propo-            entre coisas e entre fatos; estas ltimas tambm
sio, justo'  o atributo, e a palavra '' marca          poejem ser chamadas de relaes entre proposi-
a ao cio meu esprito que afirma, ou seja, que           es (Ixiivs ofTbougbt. 1854, I,  6). De acordo
liga as idias 'Deus' e 'justo' como convenientes          coin essa teoria, a relao expressa pela cpula
uma  outra" (Log., II, 3). A definio lockiana            a mesma em todas as formas proposicio-
de conhecimento como "percepo de vnculo                 nai.s, no porque sua natureza esteja expres-
e concordncia ou de discordncia e oposio               sa na proposio, mas porque  estabelecida
entre nossas idias" (Ensaio, IV, I,  2) expres-          por conveno. A cpula pode ento ex-
sa exatamente a mesma tese. Locke diz: "Tu-                pressar uma relao qualquer. Nesse senti-
do o que sabemos ou podemos afirmar sobre                  do, ela foi chamada por De Morgan (Cam-
uma idia qualquer reside em ser ou no essa               bridge Philosophical Transactions. X, 339)
idia igual a uma outra; em coexistir ou no               de cpula abstrata. Peirce distinguiu os v-
com alguma outra idia no mesmo sujeito; em                rios tipos de cpula da seguinte maneira:
ter uma ou outra relao com alguma outra                  "Cpula transitiva  aquela para a qual  v-
idia; ou em ter existncia real ou fora do es-            lido o modo Barbara. Schrder demonstrou o
prito" (Ibid.. IV, I  7). Portanto, mesmo em seu         importante teorema de que, se usamos A1 para
LISO existencial, o verbo S. s faz expressar re-          representar a espcie de cpula cujo exemplo
laes percebidas pelo esprito, vale dizer, as             'maior que', ento existe algum termo relativo r
SER                                                  882                                                SER

tal que a proposio 'Sc P seja precisamente               Mas, tomado nesse sentido, o significado de S.
equivalente a 'S  r a P e  r a qualquer coisa            coincide com o de existncia (no Ia sentido), e
 qual Pseja r'. Cpula de incluso correlatva            seu estudo poder ser encontrado no verbete
 aquela para a qual so vlidos tanto o modo              EXISTNCIA.
Barbara quanto a frmula de identidade. Se                     II. Em segundo lugar, S. pode significar
representarmos essa cpula com , existir um              existncia privilegiada ou primria, na sua
termo relativo r tal que a proposio 'SP' seja           modalidade primeira e fundamental, da qual
precisamente equivalente a 'S ra qualquer                 dependem todas as suas manifestaes de-
coisa  qual P r. Se a ltima proposio se               terminveis. Na maioria das vezes, este segun-
seguir da penltima, qualquer que seja o termo             do significado  preparado e anunciado pelo
relativo r, a cpula ser a de incluso, usada             acima exposto (2-, I). O S. se diz de muitos mo-
por Peirce, Schrder e outros. De Morgan usa               dos, mas apenas um  seu significado primrio
uma cpula que vale para qualquer relao                  e fundamental. Esse  o ponto de vista de Aris-
que seja ao mesmo tempo transitiva e convers-             tteles (Met, VII, 4, 1030 a 21).  justamente da
vel, como p. ex. 'igual a' ou 'da mesma cor de'.           relao entre os mltiplos significados que, 
Para cada cpula desse tipo existir algum ter-            primeira vista, parecem caber ao S. e o signifi-
mo relativo rtal que a proposio 'S  P' ser             cado nico e fundamental nos quais eles de-
exatamente equivalente a 'S ra cada coisa e               vem ser integrados, que nasce o chamado
s a cada coisa  qual P f. Tal cpula pode               "problema do S.". Trata-se do problema do sig-
ser chamada de identidade correlativa. Se a                nificado primrio, nico e simples que se pre-
ltima proposio se seguir da penltima, a c-            sume no S., mas que permanece mais ou me-
pula  a de identidade, usada por Thompson,                nos oculto na multiplicidade dos seus aspectos
Hamilton, Baynes, Jevons e muitos outros"                  aparentes. A investigao metafsica, na sua
(Coll. Pap., 3, 622). Com mais simplicidade,               forma clssica, funda-se nesse problema. Tra-
hoje se costuma distinguir uma cpula de per-              ta-se de ver se existe um significado primrio
tena, simbolizada pore, que designa a relao             de S.: em primeiro lugar, no sentido de expres-
entre um indivduo e uma classe; uma cpula                sar melhor que os outros a existencialidade do
de incluso, simbolizada por u, que designa a              S.; em segundo lugar, no sentido de possibilitar
relao entre uma classe e outra classe; estas             a integrao dos outros significados, servindo-
duas espcies de cpulas so distinguidas de               lhes de fundamento ou princpio.
operador (ou quantificador) existencial (v.
                                                               A indagao do problema do S. tende  de-
OPKRADOR). De qualquer forma, a caracters-
                                                           terminao de um significado que preencha
tica fundamental desta concepo de S. pre-
                                                           esses dois requisitos. Mas a disputa a que d
dicativo  a mxima generalidade: as outras
                                                           origem s se compara  "batalha de gigantes"
interpretaes de cpula podem ser consi-
                                                           de que falava Plato (Sqf., 2^6), em que se
deradas casos especiais de relao, e como
                                                           defrontam os gigantes, ou "filhos da terra", para
tais analisados. Alm desses,  possvel consi-
                                                           os quais toda a realidade  corpo, e os deuses,
derar outros casos.  exatamente essa teoria da
                                                           que afirmam a incorporeidade do S. e o redu-
cpula que possibilita a doutrina da proposio
                                                           zem s formas ideais. Xa realidade, o significa-
como funo, segundo a qual o predicado  a
                                                           do de S. no  suficientemente estabelecido
funo, e o sujeito  a varivel da funo (v.
                                                           pelo carter de corporeidade ou pela sua nega-
FUNO).
                                                           o, porque um ser considerado corpreo
    2" Significado existencial. O segundo signi-           pode ter os mesmos caracteres formais de uni
ficado fundamental de S., o existencial, deve              S. considerado incorpreo, como ocorria com o
ser dividido em dois significados subordinados:            S. de que falavam os dois grupos protagonistas
I, como existncia em geral; II, como existn-             da "batalha de gigantes".  bem verdade que
cia privilegiada.                                          os caracteres formais do S. evidenciados corno
    I. Em primeiro lugar, S. pode significar exis-         soluo do problema, ou seja, como determi-
tncia no 1Q significado, geral e indeterminado,           nao do significado primrio de S., so sem-
mas especificvel ou definvel de acordo com               pre extrados de uma esfera particular do S., ou
um critrio qualquer.  nesse sentido que Aris-            pelo menos de um grupo de entes, ou de um
tteles afirma que "o S. se diz de muitos mo-              ente, de algum modo privilegiado e tomado
dos" (Met., VI. 2, 1026 a 32) e que se pode at            como exemplo. Mas tambm  verdade que
dizer que o no-S.  (Ibid., VII, 4, 1030 a 23).           em todos os casos s se pode obter resposta ao
SER                                                    88-i                                                  SER

problema do S. quando, entre <xs caracteres da                Aristteles diz: "Se a verdade tem significado,
esfera, cio grupo ou do ente considerado, se                  necessariamente quem diz. homem diz animal
escolhe um que seja passvel de generalizao,                bpede porque isso significa homem. Mas se
vale dizer, que possa tambm referir-se s                    isso  necessrio, no  possvel que o homem
outras esferas, grupos ou entes. Nesse sentido,               no seja animal bpede: necessidade significa
Plato desafiava os materialistas a dizerem o                 exatamente isto:  impossvel que o S. no
que h de comum entre as coisas corpreas e                   .seja" (Met., IV, 4. 1006 b 30). O aspecto pelo
as incorpreas, desde que se diga que ambas                   qual  necessrio que um S. seja (o nico gra-
soUbid.. 247d). Mas. apesar cie se procurar                  as ao qual o S.  objeto de cincia, visto que
um significado primrio formal (generalizvel)                do S. acidental no h cincia, Ibicl., VI, 2. 1027
do S.. pode-se dizer que todas as solues para               u)  a sua substncia. Aristteles diz: "K um s
o problema s fazem privilegiar, ou seja. consi-              o significado do S.: a sua substncia. Indicar a
derar primria e fundamental, uma modalidade                  substncia de uma coisa  indicar o seu S."
determinada do ser. Ora, como as modalidades                  (Ibid., IV, 4, 1007 a 26). Portanto, para ele, a
pelas quais o S. pode ser enunciado ou asseve-                substncia  o sentido primrio do S.:  tam-
rado so trs (necessidade, possibilidade e                   bm o sentido fundamental, no qual os outros
assertorieciacej, teoricamente tambm so trs               significados podem ser integrados, visto que,
as possveis solues para o problema do ser.                 para Aristteles, todas as determinaes dis-
Mas, uma vez que (como veremos) a asserto-                    tinguidas ou distinguveis cio S. so aspectos ou
riedade se reduz  necessidade, ao longo da                   manifestaes da substncia (Ibid, VII, 17) (v.
histria da filosofia encontram-se duas solu-                 SUBSTNCIA).
es fundamentais, bem evidentes por trs das                     Este ponto de vista aristotlico foi decisivo
aparentes multipliciclades e disparidades cias                liara o desenvolvimento posterior do proble-
solues propostas. Para a primeira dessas so-                ma do S. Graas a ele, o significado primrio e
lues (que indicaremos com a) o S. primrio                  fundamental do S. passou a ser (e continua
 a necessidade; para a segunda (que indicare-                sendo para grande parte cia filosofia) a neces-
mos com |3), o S. primrio  a possibilidade. A               sidade, com os atributos, que traz consigo, de
soluo a corresponde  interpretao A do                    imutabilidade, eternidade, unidade, etc. Mes-
significado predicativo; a soluo (3 correspon-              mo quando esses atributos deixaram de referir-
de s interpretaes B e C. Um carter distinti-              se  estrutura formal do S. (o que ocorreu no
vo das duas solues, mas que deve ser consi-                 neo-platonismo antigo e rabe e no aristotelismo
derado secundrio por nem sempre estar                        medieval), e passaram a referir-se a um ente
presente, 6 o que exporemos a seguir. Na in-                  privilegiado (ou seja, no a todas as substn-
vestigao cio significado do ser, a primeira de-             cias, mas  substncia superior. Deus), conside-
las no toma em considerao a prpria inves-                 rou-se que as outras substncias derivariam ou
tigao, enquanto a segunda pode tomar esse                   participariam desta, e que derivariam ou parti-
fato em considerao, atribuindo-lhe impor-                   cipariam de sua necessidade e de seus atri-
tncia na determinao do significado do ser.                 butos. Assim, segundo S. Toms, a participa-
K o que fazem Plato e os existencialistas.                   o das coisas criadas no S. de Deus  participao
   a) A interpretao do S. segundo a modali-                 da perfeio e da imutabilidade d'Kle (.V. Th., I,
dade cia necessidade prevalece na metafsica                  q. 65. a. I). Mas o conceito que dominou a me-
clssica. A famosa tese de Parmnides. "O S.                 tafsica medieval e, atravs dela. a moderna e a
e no pode no ser" (Fr. 4, Diels), estabelece                contempornea, foi exposto por Avicena no
que o significado fundamental do S.  a neces-                sc. XI: a necessidade do S. como tal. Todo S..
sidade, o no poder no ser: no que se refere                 enquanto tal,  necessrio. Avicena dizia: "Se
ao tempo,  eternidade (simultaneiclacle, tutum               Uma coisa no  necessria em relao a si
siniu); no que se refere  multiplicidade,  uni-            mesma,  preciso que seja possvel em relao
dade: no que se refere ao devir (nascer e mor-                a si mesma, mas necessria em relao a uma
rer),  imutabilidade (fr. 8, 2-4, Diels). Aristte-          coisa diferente" (Met., II, I. 2). A propriedade
les tambm d prioridade  necessidade. Para                  essencial cio possvel  exatamente esta: preci-
ele, o princpio de contradio, que fundamen-                sar de outra coisa que o faa existir em ato.
ta a sua "filosofia primeira" (cincia do S.                  Mas, por isso mesmo, o que existe em ato exis-
enquanto S.),  o princpio que postula a ne-                 te sempre necessariamente, s que s vezes
cessidade do S., que se realiza na substncia.                sua necessidade provm cie outra coisa (Ibid..
SER                                                884                                                SER

II, 2, 3). Os mesmos conceitos, expressos por            v na necessidade e na universalidade os
Algazel (Met., I, I, 8), fundamentaram a esco-           caracteres primrios do S. (Nuovosaggio,  428-
lstica judaica e crist.                                29). Husserl afirma energicamente a necessida-
    No mundo moderno, o conceito de S. como              de do S. que ele considera primrio, que  o S.
necessidade foi reafirmado principalmente por            da conscincia: "A tese do mundo, que  aci-
Spinoza e Hegel. Spinoza viu o S. de Deus na             dental, ope-se a tese do meu eu puro e do vi-
necessidade, e o S. das coisas na necessidade            ver do eu. que  necessria e indubitvel. Toda
com que derivam da substncia divina (Et., I, 8,         coisa dada, mesmo que presente em carne e
scol. II). Hegel expressou esse mesmo concei-            osso, pode no ser; mas uma vivncia, dada
to com o famoso aforismo que serviu de base              em carne e osso, no pode no ser. Esta  a lei
para toda a sua filosofia: "O que  racional            essencial que define essa necessidade e essa
real; o que  real  racional." A racionalidade          acidentalidade" (Ideen, I,  46).
do real  a sua necessidade; em virtude dela, o              Caracterstica tpica dessa concepo do S.,
real, em suas determinaes fundamentais, s             ou melhor, uma de suas teses fundamentais,  a
pode ser o que . Por isso, Hegel diz que "a             identificao entre S. e racionalidade, que ser-
funo da filosofia  entender o que , pois o           viu de princpio para a filosofia de Hegel. Algu-
que ,  a razo" (Fil. do dir., Pref.). Tambm          mas vezes essa identificao foi entendida
por isso no existe um dever S., um ideal, uma           como imanentsmo (v.), no sentido de ima-
perfeio que seja diferente do S. e em cujo             nncia do S. na conscincia. Embora esta tam-
nome se esteja autorizado a criticar o S. ou a           bm seja uma tese hegeliana, nada tem a ver
dar-lhe lies. "O que est entre a razo como           com a outra. Foi expressa pela primeira vez
esprito autoconsciente e a razo como realida-          por Parmnides, que, exatamente nesse senti-
de presente, o que diferencia aquela razo des-          do, identificou S. e pensar (Fr. 5; Fr. 8, 34-36,
ta e no permite que se encontre satisfao              Diels). Certamente a tese de Parmnides nada
nesta  o empecilho de alguma abstrao que              tinha a ver com o imanentismo, porque a noo
no se libertou e no se tornou conceito"                de conscincia nem sequer tinha nascido (v.
(Ibd., Pref.). Noutras palavras, s com falsas          CONSCINCIA): expressava apenas o carter ra-
abstraes distingue-se o que deveria ser do             cional da necessidade ontolgica. Esse mesmo
que , racionalidade de S. real; isso significa          carter era expresso por Aristteles, na doutrina
que o S. real  tudo o que deve ser, e que sua           de que a determinao fundamental da substn-
modalidade, seu sentido primrio,  essa ne-             cia  a essncia necessria, que  a razo de ser
cessidade. Por outro lado, toda a filosofia de           (Jogos) da coisa (Depart. an., I, 1, 639 b 15).
Hegel est voltada para a demonstrao da ne-            Para Rosmini, o S. possvel era a prpria forma
cessidade das determinaes do S.: visa a mos-           da razo (Nuovosaggio,  396). A tese em ques-
trar que o S., em sua realidade,  tudo o que            to, ao mesmo tempo em que expressa a neces-
deve ser (Ene,  I). A necessidade continua              sidade do S., postula um conceito correspon-
sendo o carter primrio do S. em concepes             dente de razo em geral (v. RAZO).
filosficas dspares. Quando Fichte afirma que
S. e atividade do eu so a mesma coisa, est re-             Ao que parece, a ontologia de Hartmann
conhecendo como carter essencial dessa ati-             escapa a essa tradio, pois no assume a ne-
vidade a necessidade com que ela se pe e o              cessidade como significado primrio do S., mas
no-eu (Wissenschaftslehre, 1798,  1). Conce-           a efetividade (Wrklchket),  qual seriam
ber o S. como "Conscincia" ou "Matria" no             redutveis possibilidades e necessidades. A efe-
faz diferena: as determinaes qualitativas no         tividade  a terceira alternativa da modalidade
influenciam sua determinao formal primria.            do S., a assertoriedade. O S. ao qual o dever-
Tanto o Absoluto dos idealistas (Green, Brad-            ser e o poder-ser se reduzem, segundo Hart-
ley e outros) quanto a matria dos materialistas         mann,  o S. simplesmente existente, em sua
so S. necessrios. Necessria  a Histria, de          pura efetividade ou atualidade, o S. que, no
que fala Croce, tanto quanto  necessrio o Ato          domnio da realidade de fato, apresenta-se
Puro, de que fala Gentile. Este afirmava: "A             "desse modo e no de outro", ou seja, como
necessidade do S. coincide com a liberdade do            existncia anloga  matria. Mas os enuncia-
esprito" (Teoria generale, XII,  20). Mesmo            dos nos quais, segundo Hartmann, se expressa
Rosmini, para quem a idia do S. como "S. pos-           a reduo do necessrio e do possvel ao atual
svel"  fundamento do conhecimento humano,              demonstram que, na realidade, a efetividade
                                                         ainda  e sempre foi necessidade. Esses enun-
SER                                                 885                                                SER

ciados so os seguintes: Io o que  realmente             modo, no  tarefa da filosofia enunciar a tese
possvel  tambm realmente efetivo; 2" o que             universal da necessidade ou da impossibilida-
 realmente efetivo  tambm realmente ne-                de da comunicao, mas estudar em particular
cessrio; 3e o que  realmente possvel  tambm          quais so as coisas que podem (6^.iv) unir-
realmente necessrio. Negativamente: 4a aquilo            se entre si e quais as que no podem {Ibid..
cujo S.  realmente impossvel tambm  real-             252-53). Este conceito no d ensejo a uma
mente inefetivo; 5 o que  realmente inefetivo           metafsica simetricamente oposta quela que
tambm  realmente impossvel; 6Q aquilo cujo             interpreta o S. como necessidade: no d ense-
no-S.  realmente possvel tambm  realmen-             jo a nenhuma metafsica. E essa sua principal
te impossvel (Mglicbkeit und Wirk.lichkeit.             caracterstica. De fato, se  possibilidade, o S.
 1938, p. 126). Assim, o primado da asserto-              no tem determinaes unvocas necessitantes:
riedade no tem significado diferente do pri-             no  necessrio que ele seja um, e no mui-
mado da necessidade. A ontologia de Hart-                 to.s; imutvel, e no mutvel; imvel, e no em
mann pretendeu apresentar a terceira soluo              movimento; eterno, e no temporal, etc. De
teoricamente possvel para o problema do S.,              duas determinaes opostas e contraditrias,
mas essa soluo  idntica, mesmo em sua                 no  necessrio que uma lhe pertena e a
enunciao.  interpretao do S. como neces-             outra no: ambas podem pertencer-lhe em de-
sidade, tpica da antiga metafsica.                      terminadas mas diferentes condies. Portan-
    (3) O primeiro a formular a concepo de S.           to, no  possvel enumerar definitivamente as
primrio como possibilidade foi Plato, para              determinaes unvocas do ser. Plato chegara
quem essa concepo atende a duas exigncias              a essa concluso em Parmnides; neste dilo-
fundamentais: em primeiro lugar, explicar por             go mostra-se que o S. no  um ou muitos, mas
que se diz que tanto as coisas corpreas quan-            um e muitos ao mesmo tempo, no sentido de
to as incorpreas soiSof. 247 d); em segundo             que tanto pode ser um quanto muitos (144 e),
lugar, levar em conta o fato de que o S.  ou             e que o mesmo vale para as outras suas deter-
pode .ser conhecido (Ibid., 248 e). A primeira            minaes eventuais. A desconcertante conclu-
exigncia exclui que a materialidade ou a                 so deste dilogo  que "o uno, sendo ou no
imaterialidade possam fazer parte da definio            sendo, ele e as outras coisas, em relao a ele
do S. A segunda exclui que da definio do S.             e t;ntre si, todas, em tudo, so e no so. apare-
possam fazer parte determinaes necessrias;             cem e no aparecem" (166 c): palavras que
p. ex.: que o S. seja necessariamente imvel              reconhecem a possibilidade de determinaes
(ou seja, que "'tudo seja imvel), ou que o S.            opostas do S. e excluem que ele possa ser chama-
esteja necessariamente em movimento (ou seja,             do de "um" ou "muitos", ou mesmo simples-
que "tudo esteja em movimento"), etc. (Ibid..             mente "S." em sentido nico e absoluto. Deste
249 d). Em vista disso, Plato afirma que o ser          ponto de vista, uma metafsica que seja o
apenas possibilidade (Sva(J.i): portanto,               inventrio sistemtico das determinaes un-
pode-se dizer que qualquer coisa , desde que             vocas e absolutas do S.  manifestamente sem
tenha uma possibilidade qualquer de praticar              sentido. Portanto, no se deve esperar que essa
uma ao, ou ento de ser submetida a uma                 concepo d formulaes sistemticas, anlo-
ao por parte de outra coisa qualquer, ainda             gas ou correspondentes  filosofia primeira de
que insignificante e mesmo que essa ao seja             Aristteles,  metafsica clssica. Ao contrrio,
mnima e s ocorra uma vez (Ibid., 247 e). Nes-           podemos dizer que essa concepo tende a
se sentido, possibilidade nada tem a ver com a            evidenciar-se sempre que a determinao das
potncia de Aristteles. A potncia, de fato.            caractersticas universais e necessrias do S.
tal apenas em relao a Lima atualidade que.              cede lugar  investigao emprica: esta ltima
ela s,  o S. primrio (v. ATO). Mas para Pla-            busca de possibilidade, no de determina-
to o S. primrio  mesmo possibilidade. Pos-             es necessrias. Deste ponto de vista, pode-
sibilidades so tambm as relaes reais entre-           se dizer que a tradio filosfica empirista 
os entes: estes no se mesclam nem deixam de              herdeira e principal representante da concep-
mesclar-se em absoluto, mas apresentam deter-             o de S. cuja primeira formulao se encontra
minadas possibilidades de relaes. O mesmo               no Sofista de Plato. Uma possibilidade pode
que acontece com as letras do alfabeto e com              ser determinada unicamente com base na expe-
os sons -- alguns podem misturar-se e outros              rincia, na observao dos fatos, nunca por
no -- acontece com todas as coisas: desse                meio puramente racional ou a priori. Atribuir
SER                                                  886                                                  SER

ao S. o significado de possibilidade significa              um animal racional"), enquanto nega que
abrir caminho a indagaes especficas, desti-             unia proposio afirmativa qualquer possa ser
nadas a determinar, em cada caso, de que pos-              necessria. Todas as proposies afirmativas
sibilidade se trata. Com fundamento na con-                sc> contingentes porque a proposio "O ho-
cepo a, mesmo que as determinaes do S.                 mcm  animal racional" seria falsa por falsa im-
mudem,  necessrio que mudem, pois a mu-                  plicao, se o homem no existisse (Quodl., V.
dana 6 determinada por princpio e absoluta-              q. 15). Esses reparos implicam duas tese fun-
mente previsvel. Quanto  concepo p\ ao                 damentais: 1-' o S. no  redutvel a um pre-
contrrio, toda determinao, porquanto pos-               dicado; 2e o S. 6 uma possibilidade que pode
svel, s pode ser confirmada por investigao             ser" expressa s por uma proposio contingen-
ad hoc.                                                    te. Esta ltima tese revela a modalidade prim-
   Sabemos que para os esticos o significado              ria que as observaes de Ockham atribuem ao
do S. estava na possibilidade de praticar ou de            S.: essa modalidade  a possibilidade. O empi-
sofrer uma ao; por isso, chamavam de entes               rismo clssico do sc. XVII-XVIII atm-se a essa
apenas os corpos (PLUTARCO, Comm. Not., 30.                modalidade. Locke contrape a certeza das
2, 1073; DICI. L, VII, 56); mas, apesar de t-los         proposies universais, que no dizem respeito
encaminhado para o materiaVismo, esse princ-               realidade,  contingncia das proposies
pio no constituiu a base de um empirismo                  particulares, que dizem respeito  existncia.
coerente. O empirismo, ao contrrio, surge                 "As proposies universais, de cuja verdade ou
sempre que se nega a tese fundamental da                   falsidade podemos ter conhecimento seguro.
concepo oposta, que  a redutibilidade do S.             no dizem respeito  existncia; as afirmaes
a predicado. Tal negao pode ser considerada              ou negaes particulares, que no seriam cer-
uma tese tpica dessa concepo, assim como 6              tas se transformadas em gerais, referem-se ape-
tpica da outra a identificao entre S. e racio-          nas  existncia, pois declaram somente a
nalidade. No fim da Escolstica, Ockham for-               unio ou a separao acidentais das idias em
mulava a tese de que o S. ou o no-S. de uma               coisas existentes, idias que. em sua natureza
coisa s pode ser alcanado pelo ''conhecimen-             abstrata, podem no ter entre si nenhuma liga-
to intuitivo", que  a prpria experincia (In             o ou rejeio conhecida" {Ensaio, IV, 9, 1).
Sent., II, q. 15 H; Ibicl., Prol., q. 1 Z); de tal         Portanto, com exceo apenas da existncia de
modo, podia afirmar a irredutibilidade do S. a             Deus, conhecida por meio da demonstrao,
uma determinao conceituai e o seu significa-             ou seja, por meio da relao que ela tem com
do de possibilidade. E diz: " pergunta a coisa            outras existncias, segundo Locke a existncia
existe?' s se pode responder quando se sabe                conhecida de modo contingente e imediato,
se a coisa existe: isso acontece quando se co-             atravs de uma relao direta com o objeto:
nhece uma proposio na qual o S. existencial              relao que  intuio no caso da existncia
 predicado do sujeito. Ora, uma proposio                do eu e sensao no caso da existncia das
assim discutvel (...) de nenhum modo pode                 coisas. Isso exclui que a existncia seja um
ser conhecida com evidncia, se a coisa sig-               predicado ou que de qualquer maneira possa
nificada pelo sujeito no for conhecida intuiti-           sei' reduzida a uma determinao conceptual.
vamente e em si: p. ex., se ela no for percebi-           Locke diz: "Como, com exceo da existncia
da por um sentido particular ou se no for um              de Deus. no existe nenhuma conexo neces-
inteligvel no sensvel que seja visto pelo inte-         sria cie qualquer existncia com a existncia
lecto cie modo anlogo quele pelo qual a fa-              de algum homem em particular, segue-se que
culdade visual externa v o objeto visvel.                ningum em particular pode conhecer a exis-
Assim, ningum pode saber com evidncia que                tncia de outro ser seno quando este, atuando
o branco ou pode .serse no viu algum objeto              sobre ele. passa a ser percebido. O fato de se
branco; e embora eu possa acreditar nas pes-               ter a idia de uma coisa em mente no de-
soas que me falam da existncia do leo, do                monstra a existncia dessa coisa, tanto quanto
leopardo e assim por diante, no conheo com               o retrato de um homem no serve de testemu-
evidncia essas coisas" (Summa log., III 2).               nho de sua existncia no mundo, ou tanto
Aqui o sentido primrio do S.  posto na pos-              quanto as vises de sonho no constituem, por
sibilidade da experincia. Conseqentemente,               si, uma histria verdica" (Jbid., IV, II, I). Esse
Ockham atribui necessidade apenas s propo-                conceito da sensao como rgo de conheci-
sies condicionais ("Se o homem , o homem                mento do que existe nada mais  que o antigo
SER                                                   88"                                               SER

conceito estico cie representao catalptica,             qualquer aspecto (Ibid.. Anal. dos princ, Refti-
que "deriva de um ente subsistente e  impres-              tao do idealismo). Na filosofia contempor-
sa e marcada por ele, de tal modo que se con-               nea, as doutrinas abaixo remetem-se a essa
forma a ele " (DIOG. L, VII, 46; SEXTO EMPRICO.            interpretao do significado do S.
Ac/r. matb., VI I. 248). Essa doutrina eqivale a               a) Teorias que, em matemtica, em fsica e
definir o S. das coisas como possibilidade de               nas cincias em geral, definem a existncia
manifestao delas  percepo ou como per-                 como modo de S. particular; p. ex., como
cepo mesmo.                                               "ausncia de contradio", "possibilidade de
    A definio de S. como possibilidade 6 ex-              construo" ou "possibilidade cie verificao".
plicitamente retomada pela filosofia alem do               A modalidade no necessria do S. que assim
sc. XVIII. em especial por Wolff: "Ente  o que            se define  evidente (v. EXISTNCIA).
pode existir e. conseqentemente, cuja existn-                 b) Formas do empirismo. que s reconhe-
cia no repugna" (Onl.,  13-0. Mas como o                  cem S. aos objetos de experincia possvel. E. a
que pode existir  possvel, o que  possvel              possibilidade cie experimentao e observao
e>ile(lbicL,  1 35). Mas nesta definio tudo de-          que define o significado do S. (v. EXPERINCIA).
pende, obviamente, do significado de possvel.                  c) Teorias filosficas que afirmam o primado
E a propsito Woltt retoma um conceito talvez               da possibilidade. Seu precedente est na filoso-
oriundo cie Duns Scot (in Seul., I, d. 2, q. 7).            fia de Kierkegaard. que foi o primeiro a propor
que se encontra j formulado em I.eibniz                    uma interpretao da existncia humana em
(1'hod.. II,  22-t): "possvel  o que no impli-         termos de possibilidade (V. EXISTNCIA, 3). Por
ca contradio, vale dizer, o que no 6 im-                 outro lado, o mesmo ponto cie vista pode ser
possvel" (Onl.,  85). Desse ponto cie vista,              reconhecido em alguns aspectos da enoine-
a possibilidade era definida como simples                   nologia cie Husserl e nas doutrinas a ela liga-
ausncia da impossibilidade, ou seja, como ne-              das. Embora Husserl privilegie o S. da cons-
cessidade negativa. Portanto, nessa doutrina, a             cincia e o considere necessrio, ao contrrio
concepo de S. em termos de possibilidade                  das realidades das coisas, a anlise fenome-
era simples aparncia. Kant, com muita firme-               nolgica, sob esse aspecto,  Lima anlise cie
za, viu o que se escondia por trs dessa apa-               possibilidade; para ela, como disse Heidegger
rncia: "O jogo de prestgio, em virtude do qual            (Sein undZeil,  7 C): "mais elevada que a rea-
a possibilidade lgica do conceito (que no se              lidade est a possibilidade". Husserl diz: "Para
contradiz) 6 confundida com a possibilidade                 mim, o lato cie uma natureza, um mundo cul-
transcendental das coisas (em virtude da qual               tural e humano, com as suas formas sociais,
ao conceito corresponde um objeto), pode                    etc. existirem significa que as experincias cor-
enganar e contentar s os inexperientes". A                 respondentes me so possveis, ou seja, que,
"possibilidade real"  a dada por Lima intuio             independentemente de minha experincia real
sensvel, isto . pela experincia atual ou poss-          desses objetos, posso, a qualquer instante,
vel (Crl. R. Pura, Anal. dos princ, cap. II).              realiz-los e desenvolv-los em certo estilo sin-
Conseqentemente, "S. no  predicado real,                 ttico. Isso signitica que me so possveis
ou seja, um conceito de alguma coisa que se                 outros modos de conscincia correspondentes
pode acrescentar ao conceito de Lima coisa. (...)           a essas experincias como atos cie pensamento
Se CLI disser Deus 6 ou que Deus existe,                    indistinto, etc, e que  inerente a esses atos a
no estarei afirmando um predicado novo cio                 possibilidade de eles serem confirmados ou
conceito de Deus, mas apenas o conceito em                  invalidados por meio de experincias de Lim
si, com todos os setis predicados, e o objeto               tipo previamente estabelecido" (Cart. Meei,
em relao ao meti conceito. Ambos devem ter                 37). Deste trecho significativo, decorre que
exatamente o mesmo contedo, porm nada                     a anlise fenomenolgica  uma anlise em
se pode acrescentar ao conceito que expressa                termos de possibilidade; vale dizer: a possibili-
simplesmente a possibilidade quando penso                   dade  o significado primrio que ela atribui ao
seu objeto como dado (com a expresso: 'Kle                 ser. O mesmo acontece no existencialismo.
')" (Ibici, O ideal da razo pura, seo IV).              Heidegger disse: "O ser-a, enquanto com-
Deste ponto de vista, est claro o carter limita-          preenso, projeta o seu S. em possibilidades"
do e condicional de qualquer possibilidade ou               (Sein itucl Zeit,  52); na realidade, todas as
S., portanto o carter fictcio ou tantasioso de            anlises cie Heidegger tm como tema as
uma "possibilidade absoluta", que valha sob                 possibilidades do ser-a, que constituem o
SER, GRANDE                                         888                                               SER-AI


tema da analtica existencial. Do mesmo                   em ingls, e Realit-humaine, em francs, so
modo, para Jaspers, as possibilidades objeti-             usados hoje para traduzir o significado existen-
vas constituem a prpria existncia (Phii,                cialista do termo. Ele significa, na origem, exis-
 18), enquanto Sartre afirma que "o possvel            tncia real. tanto das coisas finitas quanto a
uma estrutura do para-s, ou seja, da conscin-           de Deus. Nesse sentido,  empregado por Kant
cia" (1,'tre et le nant, p. 34).  verdade que.         (Crt. R. Pura, Anal., II, cap. 2, seo 3, 4): "No
para Sartre, distinguir-se-ia dessa estrutura o           simples conceito de uma coisa no se pode en-
S. em si. que  o S. do fenmeno que no                  contrar nenhum carter de sua existncia real
seria nem possvel nem necessrio, mas sim-               (Dasein). Porque, ainda que ele seja to com-
plesmente existente. Entretanto, Sartre atri-             pleto que nada lhe falte para pensar o objeto
bui a esse mesmo S. o carter de contingn-               com todas as suas determinaes internas, a
cia e no acha possvel analisar o S. em si seno         existncia real nada tem a ver com isso. mas s
a partir do S. para si, a conscincia: portanto,          com a questo de que uma coisa nos  dada,
nessa doutrina, o primado da possibilidade               de tal modo que a percepo dela possa sem-
evidente.                                                 pre preceder o seu conceito". Nesse sentido,
    Cumpre observar, porm, que uma das ca-               para Kant,  a segunda das categorias da moda-
ractersticas da concepo em exame  a recu-             lidade e ope-se ao no-ser (Ibid.,  10). Usan-
sa explcita das solues simples e globais para          do essa palavra no mesmo sentido. Jacobi dizia
o problema cio S., ou a desistncia de encontr-          que a filosofia tem a tarefa de desvendar e reve-
las; portanto,  o abandono do tratamento "me-            lar a existncia ( Werke, IV, p. 72). Hegel fazia
tafsico" desse problema. De fato, reconhecer o           a distino entre o Dasein, como simples deter-
significado do S. como possibilidade exige                minao do ser, e a existncia, que  o ser em
que se passe imediatamente  considerao                 relao. Diz: "Etimologicanente. Dasein  estar
e ao estudo das possibilidades, nos campos                em determinado lugar, mas a representao
especficos em que so condicionadas, onde                espacial no vem ao caso. O Dasein, ou ser de-
tm "realidade". Logo, no  possvel desen-              terminado,  em geral, em conformidade com
volver uma metafsica da possibilidade, toman-            seu devir, um ser com um no-ser, de tal modo
do como modelo a metafsica clssica da necessi-          que esse no-ser est reunido em unidade sim-
cidade e visando a substitu-la. Uma tentativa            ples com o ser" ( Wissenschaft der Logik, I, 1,
desse gnero s teria como resultado o retorno            seco I, cap. 1, A; trad. it., p. 109). Em palavras
puro e simples  metafsica da necessidade:               mais simples, o Dasein  o ser com determina-
isso se demonstra no prprio Heidegger,                   do carter ou qualidade, aquilo que se chama
que, ao abandonar o terreno da anlise exis-              em geral de "alguma coisa" (Ene,  90). Mas.
tencial e passar  elaborao do "problema                no uso filosfico contemporneo, essa palavra
do S. em geral", voltou s teses clssicas da             ingressou com o significado atribudo pelo
metafsica tradicional com o reconhecimento               exstenciasmo, sobretudo por Heidegger, que
da necessidade do S. (Einfhrung in die Me-               a usou para designar a existncia prpria do
 tapbysik, Tbingen, 1953).                               homem. "Esse ente, que ns mesmos sempre
                                                          somos e que, entre as outras possibilidades
    SER, GRANDE (fr. Granei tre). Foi desse              de ser, possui a de questionar, designamos com
modo que Comte designou a humanidade                      o termo Dasein." (Sein und Zet,  2). Assim
como primeira pessoa da trindade positivista; a           entendido, o S. possui um "primado ntico",
segunda pessoa seria o Grande Fetiche (a Ter-             no sentido de que deve ser interrogado pri-
ra) e a terceira, o Grande Meio (o Espao)                meiramente, e um "primado ontolgico", por-
(Syntbse subjective ou systme universal des             quanto a ele pertence originariamente certa
 conceptions propres  Ihumanit, 1856).                  compreenso do ser: por isso, ele  tambm o
    SER-AI (in. There-being ou Reingthereness;            fundamento de qualquer ontologia (Ibid.,  4).
fr. Ralit-humaine, ai. Dasein; it. Esserci). O          Na filosofia contempornea, esse termo  habi-
termo alemo, que 6 o originrio, comea a ser            tualmente usado no significado especfico esta-
usado no sc. XVIII. Em italiano, o termo                 belecido por Heidegger, como ser do homem
esserci  usado por Spaventa (Princ. di fil,              no mundo. Jaspers usa-o nesse sentido (Phil,
 1867, p. 134) para traduzir o correspondente             1, 6 ss.). Com significao semelhante, foi usa-
termo hegeliano e, em ingls, There-being foi             do por Husserl, que com ele designa a existn-
usado por Stirling em Segredo de //<?(?/(1865)           cia da conscincia, considerada privilegiada por-
para traduzir o mesmo termo. Reingthereness,
SERIE                                                   889                                                SEXO

que necessria: "Na essncia de um eu puro,                   sexualidade como estrutura fundamental da
em geral, e de uma vivncia em geral funda-se                 existncia; "Embora o corpo tenha uma tarefa
a possibilidade ideal de reflexo que tem o                   importante, precisa remeter-se ao ser no mun-
carter de evidente e inextinguvel tese do S."               do e ao ser para os outros: desejo um ser hu-
(Ideen, I,  46).                                             niano, no um inseto ou um molusco, e dese-
   SRIE (in. Series; fr. Srie, ai. Reihe, it. Se-           jo-o na medida em que ele est, e eu estou, em
rie). 1. Conjunto de termos entre os quais haja               situao no mundo, e na medida em que ele 
qualquer relao definvel.                                   outro para mim e eu sou outro para ele" (Ltre
    2. Relao assimtrica, transitiva e coerente.            et le nant. 1943, pp. 452-53). O sexo seria a
Neste sentido, S. no  conjunto de termos, ou                estrutura fundamental da existncia humana
seja, campo de relao, mas a-prpria relao;                enquanto existncia no mundo (cf. tambm
p. ex., as sries 1, 2, 3: 1, 3, 2; 2, 3, 1 so dife-         ABBAGXANO, Strutluradellesistenza,     1939,  55)
rentes embora tenham o mesmo campo (cf. B.                    (y. AMOR, PSICANLISE).
RUSSKLL, Introduction to Mathematical Philo-                      2. Os filsofos, ao contrrio, insistiram fre-
sophy, IV; trad. it., p. 47). (V. RELAO.)                   qentemente na diferena sexual. Para Arist-
    SERIEDADE (in. Earnestness-, fr. Srieux,                 teles, a mulher constitui uma monstruosidade
a\. KrnsU it. Seriel). Kierkegaarci ez a S. uma            c\a nviuneza, inevitvel porm para a conserva-
espcie de categoria moral, definindo-a como                  o da espcie (Degen. an., 7, 775 a 15-17). A
"a originalidade conquistada pelo sentimento,                 niulher difere do homem por participar em
conservada na responsabilidade da liberdade e                 rrienor grau dos poderes da razo (Pol., 1260 a
afirmada no gozo da bem-aventurana". A S.                     11-14): portanto, seu lugar  de subordinao
consiste na repetio e  condio para que a                 ao homem, a este cabendo comandar e a ela
repetio no diminua o valor dos atos repeti-                obedecer (Pol.. 1254 b 13-15; 1259 b 2-10). Por
dos (DerBegriff'Angst. IV,  2, c).                           um vnculo constante na tradio, essa desva-
   SER LANADO. V. DECADNCIA; FACnCIDADI-.                   lorizao da dignidade da mulher  acompa-
   SER PARA SI. V. PARA SI.                                   nhada pela exaltao da. famlia (que, segundo
   SERVO e SENHOR. V. ESCRAVIDO.                             Aristteles, existiria mesmo que no houvesse
    SEXO (in. Sex, fr. Sexe, ai. Sex, it. Sess). 1.          sociedade) e das tarefas e virtudes familiares da
Raramente os filsofos trataram do sexo como                  niulher (Pol., 1260 a 29-31; Et. nic, 1162 a 19-
componente do homem. Em O Banquete, de                        27). Exatamente por isso Schopenhauer defen-
Plato, ao falar da origem do sexo, Aristfanes               deu a poligamia, que estaria destinada a com-
expe o mito dos andrginos, dos quais, por                   bater as pretenses da mulher  equiparao e
meio de uma separao desejada por Zeus com                   a eliminar o fenmeno da prostituio (Parerga
fins punitivos, ter-se-iam originado os dois se-               und Paralipomena, II, 27,  362 ss.).
xos complementares (O Banq., 189 c). Mas as                        Por outro lado, Plato, mesmo admitindo a
especulaes platnicas no versam propria-                   inferioridade da mulher (Rep., 455), considera-
mente sobre o sexo, mas sobre o amor.  o que                 va que homens e mulheres deviam ser admiti-
tambm fazem muitos outros filsofos, inclusi-                dos indiferentemente em todos os nveis da
ve Schopenhauer, que, em Metafsica do amor                   educao, para que s funes exercidas pelas
sexual, considera o amor sexual como um ex-                   classes superiores tivessem acesso apenas os
pediente de que se valeria o "gnio da esp-                  indivduos que demonstrassem capacidade de
cie", ou Vontade de Vida, para favorecer a obra               exerc-las, qualquer que fosse o sexo. Cnicos
obscura e problemtica da propagao da                       e esticos afirmavam, como princpio, a igual-
espcie. No mundo moderno, a ao da psi-                     dade entre homens e mulheres. A mulher de
canlise (v.) chamou a ateno dos filsofos                  Crates andava pelas ruas de Atenas usando,
para o $.; foram especialmente os fenome-                     como o marido, o saio tosco dos cnicos; e um
nologistas e os existencialistas que se interes-              ponto da doutrina estica era que homens e
saram pelos fenmenos a ele relativos. Max                    mulheres deveriam usar as mesmas roupas
Scheler, no livro Wesen und Formen der Sym-                   ( p i o c . L, VII, 33). As mulheres eram aceitas na
pathie (1923; trad. fr., pp. 168 ss.), tentou atri-           escola de Epicuro, na qual muitas exerceram
buir ao ato sexual o valor de forma de expresso              cargos de direo.
da personalidade humana. Por outro lado, en-                       Na antropologia contempornea, no se
quanto Heidegger considerou o Daseiti des-                    subestima a diferena entre os S., tanto quanto
provido de sexualidade, Sartre considerou a                   qualquer outra diferena biolgica existente en-
SIGNIFICAO ou SIGNIFICADO                          890                  SIGNIFICAO ou SIGNIFICADO

tre os indivduos humanos, mas faz-se a distin-            representado" (Ibki, VIII, 70; DiG. L, VII, 63).
o entre essa diferena e a exigncia de pari-            Nestas observaes, os dois aspectos do S. so
dade de direitos, baseada no reconhecimento                chamados respectivamente de "palavra", ou
de que as funes subordinadas atribudas                 "representao racional", e "aquilo que 6", ou
mulher, na maior parte das sociedades conhe-               "sujeito". "Aquilo que 6", ou "sujeito",  o S.
cidas, 6 um produto cultural, para o qual pou-             como objeto; a "palavra", ou "representao
co ou nada contribui a dierena entre as fun-             racional",  o S. como nome, conceito ou
es biolgicas.                                           essncia. Os esticos reservam especialmente
    SIGNIFICAO ou SIGNIFICADO (gr XZK-                   a este ltimo aspecto o nome cie S.; nisso, so
xv: lat. Significaiio; in. Meaning; fr. Signifi-          seguidos (como veremos) por alguns autores
cation; ai. Bedeutung; it. Significato). Kntende-          modernos. Na lgica medieval, a distino
se por este termo a dimenso semntica do                  entre os dois aspectos foi expressa como clis-
procedimento semiolgico, ou seja. a possibili-            lino entre "significao" e "suposio". Pedro
dade de um signo referir-se a seu objeto. Os as-           Hispano diz: "A suposio e a significao dife-
pectos (ou condies) fundamentais do S. so               rem porque a significao  feita por meio da
dois: 1" uni nome, um conceito ou uma essn-               imposio de uma palavra para significar um
ria Ip. i_vx., "Mussandio MMY/.OTI". "homem",             oV>}vto, mvts 'A suyyosio v \\ acepvv* *-k; um \tv-
"autor de Os noiros"), usados com a finalidade             mc> j significante para alguma outra coisa,
de delimitar e orientar a referncia: 2" o objeto          como, p. ex.. quando se diz 'o homem corre',
(p. ex., respectivamente, Alessandro Manzoni,              e o termo 'o homem' est no lugar de Scrates
os homens, Alessandro Manzoni), ao qual o                  e no lugar cie Plato. Portanto, a significao
nome, o conceito ou a essncia se referem. Os              precede a suposio, e as duas coisas no so
dois aspectos so inseparveis; o segundo                 idnticas porque signilicar  prprio da pala-
fuuo do primeiro porque  o nome ou con-                 vra, e a suposio  prpria cio termo que j 
ceito que determina a que objeto se faz ou                 composto de palavra e significado" (Sumiu,
no referncia. Mas os dois aspectos no se                log.. 6.03). Aqui, entende-se por significatioo
identificam porque o objeto pode ser o mes-                mesmo que os esticos entendiam por lkton:
mo, ao passo que o nome ou conceito usado                  o conceito ou a representao usada para a re-
para a referncia  diferente, como no caso de             ferncia objetiva, ao passo que a prpria refe-
"Alessandro Manzoni" e "autor de Os noiros",               rncia objetiva 6 designada como suppositio.
que se referem ao mesmo objeto, mas so no-                Mus, alm das idias dos esticos, essa doutri-
mes diferentes. Tampouco as determinaes                  na inclui a separao dos dois aspectos do S.,
que tm o mesmo objeto podem ser conside-                  atribuindo o primeiro aos termos tomados iso-
radas equivalentes, porque no podem ser subs-             ladamente, o segundo aos conjuntos, ou seja.
titudas umas pelas outras: p. ex.. perguntar              s proposies. Doutrina idntica era exposta
se "Alessandro Manzoni  o autor de Os noivos"             na Idade Mdia por Ockham (Sutnma log., I,
no  o mesmo que perguntar "se Ales-                      63), por Buridan (Sophismata, 2) e por Alberto
sandro Manzoni  Alessandro Manzoni". A di-                da Saxnia (Lgica, II, I), ao passo que S. To-
ferena entre os dois aspectos do S. (ou a rela-           ms aludia a uma doutrina diferente apenas do
o entre eles) constitui a base dos problemas             ponto de vista terminolgico, segundo a qual
aos quais esse termo deu origem e das diferen-             S. e suposio coincidem nos termos particula-
tes definies que ele recebeu.                            res mas no nos gerais, para os quais S. 6
                                                           essncia (S. Th., I, q. 39, a. 4. no incio).
   Os esticos, que fundaram a doutrina da S.,
reconheceram ambos os aspectos. "So trs os                  K na distino entre os dois aspectos de S. que
elementos que se inter-relacionam: o S., aquilo            se baseia a distino estabelecida pela lgica
que. significa e aquilo que . O que significa  a         moderna de cunho tradicional entre os dois ele-
palavra, como p. ex. "Don'. O S.  a coisa indi-          mentos do conceito, chamados ora de compreen-
cada pela palavra, que ns apreendemos ao                  so e extenso (v. COMPRIT.NSO), ora de in-
pensarmos na coisa correspondente. Aquilo                  teno e extenso (v. INTKNSO), ora de conotao
que ,  o sujeito exterior, como p. ex. o pr-            e olenotao (v. CONOTAO). O primeiro par de
prio Don" (SKXTO KMTRICO, Ac/r matb., VIII,              termos foi introduzido pela Lgica de Port-Royal
12). Mais precisamente, para eles S. 6 uma "re-            (I, 6): o segundo, por Leibniz (Nour. ess., IV, 17.
presentao racional, graas  qual  possvel              9); o terceiro, por Stuart Mill (Logic, I, 1,  5). Este
expor por meio de um discurso aquilo que                  ltimo propunha restringir o sentido de S. 
SIGNIFICAO ou SIGNIFICADO                          891                SIGNIFICAO ou SIGNIFICADO

conotao, chamando-se de denotao a re-                  capaz de provocar muita confuso, e tenta
ferncia objetiva. Dizia: "Sempre que os no-               evit-lo em seu estudo (Ibid.,  12). Na realida-
mes dados aos objetos comportam alguma in-                 de, porm, consegue evit-lo apenas porque
formao, ou seja, sempre que, propriamente,               introduziu em sua anlise do signo, com outros
tm um S., o S. no reside naquilo que eles                nomes, os dois componentes cio S. que a tradi-
denotam, mas naquilo que eles conotam. Os                  o distinguiu constantemente. Os lgicos
nicos nomes de objetos que nada conotam                   contemporneos manifestam a tendncia, j
so os nomes prprios; estes, a rigor, no tm             presente em Stuart Mill, a restringir o uso da
significao" (Ibid., I, 2,  5). O que ele enten-         palavra significado  esfera da conotao.
dia por conotao aparece claramente no tre-               Lewis. reservando esse (ermo para ambos os
cho seguinte: "A palavra homem, p. ex., denota             aspectos, faz a distino entre significao
Pedro, Joana, Joo e um nmero indefinido de               (signification) do termo (ou seja. a conotao)
outros indivduos, que ela designa como clas-              e sua referncia objetiva, que ele distingue em
se. Mas essa palavra  aplicada a eles na medi-            denotao e compreenso: a primeira seria a
da em que possuem certos atributos, e para                 classe de todas as coisas reais s quais o termo
significar que os possuem" (Ibid.). Os atributos           se aplica, a segunda seria a classe de todas as
que constituem o homem -- p. ex., corpo-                   coisas possreis s quais se aplica (Analysis of
reidade, animalidade, racionalidade, etc. --               Knouiedge and Valuation, 1946, cap. III, pp.
formam, portanto, a conotao do nome "ho-                 39 ss.). Em seguida, Lewis faz a distino entre
mem": aquilo que a tradio filosfica chamava             significao e "significado-sentido" (sense mea-
de "essncia" ou, mais tarde, "conceito".                  iiing), que dela se distinguiria por ser o modo
   Portanto G. Frege nada mais fazia alm de               como o esprito se refere  significao (Ibid..
expressar urna antiga e nova tradio, ao dis-             p, 113 e nota 3). Mas essas distines no mo-
tinguir sentido e significado. Dizia: "Ao pensar           dificam substancialmente a dicotomia tradicio-
num signo (seja ele uni nome, uma expresso                nal do significado de significado. Essa mesma
com vrias palavras, ou uma simples letra) de-             dicotomia  expressa por Quine, como dicoto-
vemos relacion-lo com duas coisas distintas:              niia entre S. (ou conotao, ou intenso) e
no s com o objeto designado, que se chama-               nominao (naming), que seria a extenso ou
r de significado (Bedeutung) desse signo, mas             denotao (Fm? a I.ogical Ponl ofView, 1953,
tambm com o sentido (Sirui) do signo, que                 II, 1), e por Carnap, que nela baseia a dicotomia
denota o modo como nos  dado esse objeto".                entre duas operaes fundamentais possveis
Frege advertia que, por sentido ou nome, enten-            em relao a uma expresso lingstica dada: a
dia "uma indicao qualquer que desempenhe                 de "analisar a expresso com a finalidade de
a funo de nome prprio, vale dizer, que seja             entend-la, de apreender seu S., e a que con-
um objeto determinado (tomando a palavra ob-               siste na investigao da situao de fato  qual
jeto no sentido mais amplo)" (Uber Sinn und                a expresso se refere" (Meaning andNecessily,
Bedeutung, 1892,  1; trad. it., em Aritmtica             1947,  45). Alm cisso, insistiu no fato de que
e lgica, pp. 218-19). A mesma distino era               o conceito de significado intencional, como
feita por Peirce, mas com terminologia dife-               condio geral que um objeto deve preencher
rente: Peirce falava de objeto do signo e de               para que um falante X predique com esse sig-
inteipretante do signo, que  o sentido de Fre-            nificado o objeto,  desprovido de qualquer re-
ge. Peirce diz: "O signo cria alguma coisa no              ferncia psicolgica e pode ser aplicado at a
esprito do intrprete e esse alguma coisa, por            um rob (Ibid., p. 246 e nota 5). Por sua vez,
ter sido criado pelo signo, foi criado tambm,             Church adotou a terminologia de Frege, cha-
de modo mediato e relativo, pelo objeto do                 niando de sentido a conotao e de significado
signo, embora o objeto seja essencialmente di-             a denotao, e introduzindo a palavra conceito:
ferente do signo. Essa criatura do signo  cha-            "Diremos que um nome denota ou nomeia a
mada de interpretante" (Coll. Pap., 8.179, o               sua denotao e expressa o seu sentido. Menos
texto  de 1903). Fssa terminologia foi substan-           explicitamente, podemos dizer que um nome
cialmente aceita por Morris, que deu ao objeto             tom certa denotao e tem certo .sentido. Dize-
o nome de designatum, e ao conceito o de                   nios que o sentido determina a denotao ou
interpretante (Fonndalions of the 1'heory of                um conceito da clenotao" (hitroduction to
Signs, 1938,  2). E verdade que Morris conside-           MathemaiicalLogic, 1956,  01). Em confronto
ra intil o termo "significado", que lhe parece            com essa slida e -- ressalvando-se a varieda-
SIGNIFICAO ou SIGNIFICADO                          892                 SIGNIFICAO ou SIGNIFICADO

de terminolgica -- uniforme tradio, esto                Hu.sserl. Este negou que o objeto constitusse o
as tentativas de modific-la, quer unificando              S. ou coincidisse com ele (Logische Untersu-
as duas dimenses (A), quer acrescentando no-               chungen, II, p. 46). Sua tese  que "o S. lgico
vas espcies de significados (13).                          Uma expresso", no sentido de que ele eleva
    ) A tentativa de unificar as duas dimenses           o sentido (Sinn) perceptivo da coisa "ao reino
do significado foi feita em ambas as direes:             do logos, do conceituai, portanto do universal".
reduzindo sentido a significado, ou significado            Err\ outros termos, Husserl substitui a dicoto-
a sentido. A primeira tentativa foi feita por              mia objeto-conceito pela dicotomia sentido
Russell e por Wittgenstein. Toda a teoria ex-              (ptrcebido)-conceito, na qual o conceito  a
posta por Russell no artigo que escreveu em                essncia da coisa, a sua conceituao ou ex-
 1905 ("On Denoting", atualmente in Logic and              presso acabada (Ideen, I,  124). Tentativa de
Knowledge, 1956, pp. 41 ss.), no primeiro cap-            reduo anloga a esta foi feita por Royce, que,
tulo de Principia mathematica, que escre-                  depois de fazer a distino entre S. externo de
veu com Whitehead (1910), e no seu outro                    uma idia, que  a correspondncia da idia
livro, An Inquiry itito Meaning and Truth                  com o objeto, e seu S. interno, que  "o obje-
(1940), consiste, nas prprias palavras do autor,          tivo consciente incorporado na idia", reduz a
no fato cie que "no i significado, mas                  este /tmo o prprio S. externo, com o funda-
apenas, s vezes, uma denotao" (Logic and                mento de que  "a prpria idia que escolhe o
Knowledge, p. 46, nota). Na realidade, para                objeto com o qual quer ser confrontada" (The
Russell, o S. de um smbolo se reduz unica-                 World and the Individual, 1901, II, cap. I).
mente aos componentes do fato a que o sm-                     13) As principais tentativas de apresentar no-
bolo se refere. "Os componentes do fato que                vas espcies de S. em acrscimo ou em concor-
tornam verdadeira ou falsa uma proposio,                 rncia com as duas consagradas pela tradio
conforme o caso, so os S. dos smbolos que                sao as seguintes:
devemos entender para entender a proposio"                   Ia Definio de S. como uso. Esta  a tese
(Logic and Knowledge, p. 196). Desse ponto de              encontrada em Philosophical Investigations
vista, a linguagem ideal  a que tem apenas sin-           (1953), de Wittgenstein. "Para uma vasta classe
taxe e nenhum vocabulrio, pois nela o voca-               de casos -- embora no para todos --, nos
bulrio  inutilizado pela correspondncia de              quais empregamos a palavra 'S.', esta pode ser
cada termo com um objeto simples e de cada                 assim definida: S. de uma palavra  seu uso na
objeto simples com um termo (Lbid., p. 198; cf.            linguagem. O S. de um nome s vezes  expli-
LINGUAGEM). Essa doutrina foi expressa com ri-
                                                           cado indicando-se seu portador" (Op. cit,  43).
gor por Wittgenstein: "O nome significa o obje-            Mas, embora apresentada pelo prprio Witt-
to. O objeto  seu S." ( Tractatus, 1922, 3- 203).         genstein e por outros em concorrncia com a
" configurao dos signos simples na propo-               definio semntica de S., a noo de uso per-
sio corresponde configurao dos objetos na              tence a outra esfera de problemas e a outro n-
situao" (lbid., 321). "O nome faz as vezes do            vel de indagao. Com efeito, o problema a
objeto na proposio" (lbid. 3-22). Desse pon-             que diz respeito  o da formao dos significa-
to de vista, mesmo as proposies aparente-                dos; nas lnguas naturais. O uso no o S., mas
mente sem sentido so legtimas porque "se                 determina-o, no sentido de que a ele  devida
uma proposio no tem sentido, isso pode ser              a conexo entre um objeto e uma palavra (ou
devido apenas ao fato de no termos dado S. a              em geral um veculo "sgnico"). Sem dvida, as
uma de suas partes constitutivas" (lbid., 5.4733),         definies de um dicionrio so estabelecidas
ou seja, de no termos estabelecido a corres-              pelo uso. mas exprimem a conotao e a deno-
pondncia entre essa parte e um objeto. Essa               tao dos termos. Portanto, a teoria do uso no
conseqncia  importante porque constitui a                uma teoria do S., mas uma teoria sobre a ori-
reduo ao absurdo do fato de se eliminar o                gem e a formao das lnguas naturais.
sentido (Sinn) do S.: a referncia ao objeto,
no sendo guiada ou limitada pelo conceito,                   2a A proposta de um S. emotivo, paralela-
sempre legtima, e s no aparece quando no               mente ao S. "simblico" ou "descritivo", foi fei-
 efetuada.                                                ta por Ogden e Richards (Meaning of Meaning,
                                                           1923, ed. 1952, p. 149 e passim) e expressa por
   A reduo inversa, de S. a sentido, vale di-            E. L. Stevenson da seguinte maneira: "S. emotivo
zer, a tentativa de reduzir S., em seu conjunto,            um S. em que a resposta (do ponto de vista
 conotao ou conceito, foi realizada por                 de quem ouve) e o estmulo (do ponto de
SIGNIFICAO ou SIGNIFICADO                         893                    SIGNIFICADO, ESPCIES DE

vista de quem fala)  um conjunto de emo-                    Associa-se a essa confuso entre inteno e
es" (Hthics andLanguage, 1944, p. 59). O S.             S. o uso deste termo em frases como: "Um
emotivo assim entendido seria diferente do sig-           universo mecnico no teria S.", "Se tudo acon-
nificado simblico, que consistiria em sua refe-          tecesse por acaso, a histria no teria S.", nas
rncia ao objeto, e o prprio significado pode-           quais a palavra S. obviamente eqivale a inten-
ria ser definido em geral como a qualidade                o ou objetivo, portanto a valor.
disposicional de um signo a produzir uma ou                  4a Proposta de um S. "pietrico" ou "ima-
outra dessas reaes, ou seja, um conjunto de             gtico", paralelamente aos outros, porquanto "a
emoes ou a referncia ao objeto (Ibid., pp.             linguagem pode ser empregada com a inteno
53 ss.). Deixando de lado o fato de que o uso             primria de exprimir ou evocar pinturas (ou
do termo emotivo para indicar normas legais,              imagens) de um modo que difere do uso dos
prescries tcnicas ou comandos (coisas todas            signos e formula possibilidades empiricamente
que caberiam na categoria dos significados                significantes" (v. E. ALDKICH, Pictorial Meaning
emotivos) pode com motivo ser considerado                 and Picture Thinking", em Readings in Philoso-
aberrante (v. F.MOO), a doutrina em questo             phical Analysis, 1949, pp. 175 ss.). Est claro
parece sugerida pelo fato cie que o significado           que tambm esta proposta  sugerida pelo
denotatvo  restringido  referncia a coisas            pressuposto (estranho a qualquer teoria lgica
reais, de tal maneira que muitos signos simples           do S.) de que o objeto da referncia  uma coi-
ou compostos parecem no ter denotao por-               sa real ou uma situao de fato e de que no
que no se referem a coisas. Na realidade, a re-          pode ser de outra natureza. Na realidade, os S.
ferncia denotativa vale para objetos em geral            "pietricos" tm conotao e denotao como
(v. OHJETOS), e objetos so tanto as coisas reais         todos os demais.
quanto as quimricas, tanto os planos, os proje-             5a Definio do S. como vetor de campo, no
tos, os desejos e as aspiraes quanto as qua-            sentido de que ele seria uma disposio atuali-
lidades sensveis ou as entidades percebidas.             zada pelo objeto que se destaca do fundo de
Portanto, um enunciado que expresse uma                   um campo ou contexto apropriado. Mais pre-
ordem, um desejo ou um projeto pode ter, na               cisamente, ele seria a ativao ou a atualiza-
situao a que tais coisas se referem, a sua              o de uma resposta descritiva, provocada
denotao, vale dizer, seu objeto ou seu refe-            pelo objeto (A. P. USHHNKO, The Field Iheory
rente. Alis, nem mesmo do ponto de vista                 of Meaning, 1958, p. 109). Mas esta  uma
lgico, que  o da teoria do significado, tais            teoria da formao dos S. (que pode ser dis-
objetos podem ser distinguidos dos outros.                cutida no mbito da teoria da linguagem) e
                                                          no traz inovaes no que se refere  composi-
    3a Na definio de significado como inten-            o do significado do $., que continua determi-
o de quem fala, o S. seria aquilo que o falan-          nado por seus dois componentes: conotao e
te pretende dizer, sem se levar em conta a refe-          denotao (cf. Op. cit., pp. 75-76).
rncia objetiva da palavra ou do enunciado                   SIGNIFICADO, ESPCIES DE (in           Kinds
empregado. Neste sentido, emprega-se "quer                of meaning; fr. Espces de signficalion-, ai.
dizer..." (em ingls: Imean..., do verbo to mean,         Bedeutungsarten; it. Specie di significato). Po-
que tem a mesma raiz de meaning = S.),                    dem-se distinguir vrias espcies de S. quando
para esclarecer ou corrigir uma declarao.               se deixa de fazer referncia aos signos toma-
Est bem claro que qualquer descrio ou                  dos isoladamente e passa-se a fazer referncia
esclarecimento da inteno do falante s pode             aos conjuntos de signos, aos enunciados. Estes
ocorrer atravs da determinao do objeto ao              podem ter: Ia um S. lgico; 2- um S. factual; 3y
qual se refere, ou de sua conotao, ou seja,             um S. expressivo.
por meio do uso das dimenses prprias do                    1Q O enunciado tem S. tpico quando pode
significado. Portanto, tais dimenses so sim-            ser declarado verdadeiro ou falso com base no
plesmente pressupostas pela definio em fo-              S. dos termos que o compem. Tm S. desse
co. s vezes  proposta como um S. acres-                 gnero proposies do tipo "nenhum solteiro 
centado ao tradicional (cf. M. BLACK, Problems            casado", que tambm so chamadas de analti-
of Analysis, 1954, pp. 55-56), porm est claro           cas ou tautologias e so objeto da lgica. (V.
que a inteno do falante no  outra espcie             ANALTICO; LGICA.)
cie significado, mas o modo como o falante usa               2- Tm S. factual os enunciados que, alm
as dimenses lgicas do significado.                      de inclurem termos com S., so verificados por
SIGNIFICANCIA                                       894                                                  SIGNO

um fato ou por um conjunto de fatos. Nesse                entanto, em sentido prprio e restrito, essa
sentido, tm S. factual as proposies das cin-          noo deve ser entendida como a possibili-
cias naturais (fsica, qumica, etc). Semelhantes         dade cie referncia de um objeto ou aconteci-
enunciados tambm costumam ser chamados                   mento presente a um objeto ou acontecimento
de sintticos, para distinguir dos enunciados             no-presente, ou cuja presena ou no-presen-
analticos da lgica. Reichenbach dividiu o S.            a seja  indiferente. Nesse sentido mais restrito,
factual em fsico, que  a possibilidade fsica,          a possibilidade de uso dos S. ou semiose  a
ou seja, no contradiz as leis empricas, e tc-          caracterstica fundamental do comportamento
nico, que 6 a possibilidade tcnica definida              humano, porque permite a utilizao do passa-
por mtodos prticos conhecidos ("Veririability           do (o que "no est mais presente") para a pre-
Theory of Meaning", em Proceedings of the                 viso e o planejamento do futuro (o que "ain-
American Academy ofArts and Sciences, 1951,               da no est presente"). Nesse sentido, pode-
pp. 53 ss.).                                              se dizer que o homem . por excelncia, um
   O S. lgico e o S. factual costumam ser cha-           animal simblico, e que nesse seu carter se ra-
mados de S. cognitivosou tericos; os enuncia-            dica a possibilidade de descoberta e de uso das
dos que possuem tais S. so reconhecveis por             tcnicas em que consiste propriamente sua ra-
possibilidade de serem declarados verdadeiros             zo (v.).
ou falsos.                                                   Ainda hoje  vlida a doutrina do S. formu-
   5" Diz-se que tm S. expressivo as locues            lada pelos esticos. Estes chamavam de S,, de
que no tm S. terico mas que apesar disso               modo geral, "aquilo que parece revelar alguma
manifestam um estado de esprito do sujeito               coisa", mas em sentido especfico chamavam
que os emprega ou servem para produzir esta-              de S. "aquilo que  indicativo de uma coisa
dos de esprito anlogos no .sujeito que os ouve.         obscura", no manifesta (SEXTO EMPRICO, Adv.
As interjeies, as exclamaes, as expresses            math., VIII, 143; Pirr. hyp., I, 99 ss.). Portanto,
metafricas tm S. desse gnero.                          consideravam que os S. eram de duas espcies
    s vezes, especialmente por parte dos se-             fundamentais: renwmorativos, que se referem
guidores do empirismo lgico (v.), as expres-             a coisas apenas ocasionalmente obscuras, como
ses da metafsica tradicional so consideradas           p. ex. a fumaa, que  S. do fogo, e indicativos,
enunciados desse gnero, negando-se-lhes qual-            que nunca so observados juntamente com a
quer valor cognitivo. Esse uso, porm,  pol-            coisa indicada, que  obscura por natureza;
mico e s pode ser registrado como tal (v. ARTK;          neste sentido, diz-se que os movimentos do
METAFSICA; POPSIA).                                      corpo so S. da alma Ubd., VIII, 148-155). Sa-
   SIGNIFICANCIA (in. Significance-, ai. Be-              bemos tambm que na capacidade de usar os
dentsamkeit; it. Signficanza). 1. O mesmo que            S. os esticos viam a diferena entre homens e
significado (v.).                                         animais (Ibid., VIII, 276), e que consideravam
    2. Importncia ou valor. Desse ponto de               o S. um produto intelectual, identificando-o com
vista, diz-se, p. ex., que certos acontecimentos          "uma proposio constituda por uma conexo
histricos so significantes.                             vlida e reveladora do conseqente1' (Ibid., VIII,
    SIGNO (gr. cr|u.eiov; lat. Signum, in. Sign-,         245). Os epicuristas, ao contrrio, considera-
fr. Signe, ai. Zechen; it. Segno). Qualquer ob-          vam que o S. tem natureza sensvel, capaz de
jeto ou acontecimento, usado como meno cie              permitir e fundamentar a induo (Ibid.. VIII,
outro objeto ou acontecimento. Esta definio,            215 ss.; cf. INDUO). Mais tarde, nos moldes da
geralmente empregada ou pressuposta na tra-               doutrina estica, o S. continuou sendo definido
dio filosfica antiga e recente,  genera-              como relao de referncia entre dois termos
lssima e permite compreender na noo de S.              conexos. S. Toms no exclua que se pudesse
qualquer possibilidade de referncia: p. ex., do          chamar de S. a causa sensvel de um efeito
efeito  causa ou vice-versa; da condio ao              oculto (S. Th., 1,70, a. 2, ad. 2"). A lgica terminis-
condicionado ou vice-versa: do estmulo de                ta distinguiu a referncia do S. quilo que de-
uma lembrana  prpria lembrana; da pala-               nota, que  a relao cie significao instituda
vra a seu significado; do gesto indicativo (p.            arbitrariamente, da suposio (v.), que  a rela-
e.x., um brao estendido)  coisa indicada; do            o pela qual o termo compreendido numa pro-
indcio ou do sintoma de uma situao  pr-              posio est em lugar de alguma coisa (cf. PKDRO
pria situao, etc. Todas essas relaes podem            HISPANO, Sumin. log., 6.03). Ockham definiu o
ser compreendidas pela noo de signo. No                 S. como "tudo aquilo que, uma vez aprendido,
SIGNO                                               895                                               SIGNO

permite chegar a conhecer alguma outra coisa"             nas, e atribua a validade desses S. ao fato de
(Sumr)ia log., I, 1). e fez a distino entre S.          terem entre si uma ordem que reproduz a
natural, que  o conceito (ou inteno cia alma)          ordem existente entre as coisas, e no o fato
enquanto produzido pela prpria coisa do mes-             de serem semelhantes s coisas (Die Tatsachen
mo modo como a fumaa  produzida pelo                    in der Wabniehmung, 1879). Na mesma linha
fogo. e S. convencional, institudo arbitraria-           de pensamento. E. Cassirer estudou as formas
mente, que  a palavra Ubid., I. 14). A filosofia         simblicas da vida humana e seu significado
inglesa dos scs. XVII e XVIII valeu-se ampla-            conceituai (Die Philosophie der symboliscben
mente da noo de S.. mas no o definiu de                formen, 3 vol., 1923-29), e chamou o homem
maneira nova. Hobbes dizia: "S. 6 o anteceden-            de animal syuibolicum (Kssay on Man, 1944,
te evidente do conseqente ou, ao contrrio, o            cap. II; trad. it., p. 49).
conseqente do antecedente quando antes j                    Quando, por influncia da lgica matemti-
tiverem sido observadas conseqncias seme-               ca, a teoria dos S. volta a ser estudada na filoso-
lhantes; quanto mais vezes tiverem sido obser-            fia contempornea, seus traos fundamentais
vadas, tanto menos incerto ser o S." (I.eviatb..         no variam, mas -lhe acrescentada outra or-
I, 3). Berkeley utilizou a noo de S. para defi-         dem de consideraes, mais precisamente as
nir a funo das idias gerais, eme seriam idias         que se incluem na chamada pragmtica (v.).
particulares "adotadas para representar ou                vale dizer, as que concernem  relao do S.
substituir outras idias particulares do mes-             com seus intrpretes. Pode-se dizer que. desse
mo tipo" (Principies of Human Knouiedge.                  ponto de vista, o objeto da semitica, que  a
Intr.,  12). No ltimo captulo cie Ontologia.           teoria dos signos, no  mais o prprio S., mas
Wolff apresenta uma doutrina lcida e incisi-             a semiose (v.), ou seja, o uso dos signos ou o
va do S., defininclo-o como "um ente do qual              comportamento semitico. Essa orientao foi
se infere a presena ou a existncia passada              inaugurada por E. S. Peirce. Depois de dar a
ou futura de outro ente" (Ont..  952) e distin-          definio tradicional cio S. (como "algo que,
guindo, conseqentemente, o S. demonstra/i-               uma vez conhecido, conhecemos outra coisa),
 i'o, que indica um objeto presente designado, o          Peirce acrescentou que "S.  um objeto que.
S. prognstico, cujo ser designado  futuro, e o          por um lado, est em relao com seu objeto e.
S. rememoratiro, cujo ente designado  passa-             por outro, em relao com um interpretante,
do (Ihid.,  954). Com base nesses conceitos,            de tal modo eme produz entre o interpretante c
bvio que qualquer procedimento cognos-                   o objeto uma relao correspondente  sua pr-
citivo pode ser considerado semiolgico. Km               pria relao com o objeto." O S. , pois. uma re-
oposio a isso, Kant considerou, por um lado.            Uio tridica entre o prprio S., seu objeto e o
as palavras e os S. visveis (algbricos. numri-         interpretante (Coll. Pap.. 2.243 ss.; 8.332).
cos, etc.) como simples expresses dos concei-            Conseqentemente. Peirce classificava os S. se-
tos, ou seja, como "caracteres sensveis que de-          gundo trs pontos de vista diferentes: por si
signam conceitos e servem apenas como meios               mesmos; em sua relao com o objeto; em sua
subjetivos de reproduo, e. por outro lado, os           relao com o interpretante. Considerados em
smbolos como representaes analgicas, in-              si mesmos, os S. podem ser: aparncias ou
fra-intelectuais, dos objetos intudos (Crt. do          (jualissignos; objetos ou acontecimentos indi-
Juzo,  59; Antr., I, 38). Portanto, segundo             viduais, vale dizer, sinsignos (nessa palavra. >/>/
Kant, "quem s sabe expressar-se de modo                   a primeira slaba cie semel, siiuul, similar.
simblico tem poucos conceitos intelectuais, e            etc); tipos gerais ou legissignos (Ihid.. 8.334).
aquilo que freqentemente se admira na vivida             Considerado em relao ao objeto representa-
expressividade presente nos discursos cios sel-           do, o S. pode ser: um cone, como p. ex. uma
vagens (e s vezes tambm dos supostos s-                percepo visual ou auditiva; um ndice, como
bios de um povo rude) no passa de pobreza                um nome prprio ou o sintoma de uma doen-
de idias, portanto tambm de palavras para               a; ou um smbolo, cjue  um S. convencional
express-las" (Ibicl., 38). No entanto, os kan-           (Jbid., 8.335). Km relao ao objeto imediato, o
tianos no foram to contrrios quanto seu                S. pode ser de uma qualidade, de um ente ou
mestre a reduzir qualquer conhecimento ao                 ele uma lei. Finalmente, em relao ao inter-
uso de signos. H. Helmholtz considerava as                pretante. o S. pode ser um rema. um enun-
sensaes como sinais produzidos em nossos                ciado ou um tema. isto , um termo, uma
rgos dos sentidos pela ao de foras exter-            proposio ou um raciocnio(Ibid., 8.337). Essa
SIGNO                                                896                                          SILOGISMO

classificao foi depois reexposta pelo prprio            gulas, parnteses, cpula, conjunes e, ou,
Peirce com outra terminologia, mais aceita.                etc; e em modalizadores, que so, p. ex., pon-
Chamou de tipo a forma definidamente signi-                tos de exclamao, etc Morris revalidou na
ficante, que no  uma coisa nica ou um                   filosofia contempornea a teoria do S. estabe-
evento nico, que no existe por si mas  de-              lecida por Peirce, introduzindo uma termino-
terminada por coisas que existem; chamou de                logia til: chamou de veculo o objeto ou o
ocorrncia (tok.en) o evento singular que ocor-            acontecimento que serve como S.; de designa-
re uma nica vez, assim como uma palavra que               do o objeto a que o S. se refere; de nter-
se encontra numa nica linha de uma nica p-              pretante o efeito do S. sobre o intrprete, ou
gina de uma nica cpia de um livro; e cha-                seja, o sentido do S.; e de intrprete o sujeito
mou de tom (tone) o carter significante indefi-           do processo semiolgico (Foiindations of the
nidamente significante, como o tom de voz                  Theory of Signs, 1938, II, 2). Na esteira de
(Co//. Pap., 4.537). Essas trs espcies corres-           Peirce, Morris tambm insistiu no carter
pondem ao legissigno, sinsigno e qualissigno               comportamental do processo semiolgico;
da classificao anterior (v. PALAVRA; TIPO).              alis, procurou definir o S. em termos exclusi-
   Teve muito sucesso (imerecido) a classifica-            vamente comportamentais. A definio a que
o proposta por Ogden e Richards em The                   chegou  a seguinte: "Se A orienta o comporta-
Meaning of Meaning (1923). Distinguiram o                  mento para um objetivo de maneira semelhan-
uso simblico do uso emotivo dos S.; o uso sim-            te (mas no necessariamente idntica)  ma-
blico  a assero, ou seja, a referncia do S. a         neira como B orientaria o comportamento para
um objeto; o uso emotivo tende a expressar e a             o mesmo objetivo no caso de se observar B,
produzir sentimentos e atitudes. "Na funo                ento A  um S." (Ibid., I, 2; trad. it., p. 21). 
simblica incluem-se tanto a simbolizao da               evidente a influncia que a teoria cios reflexos
referncia quanto a comunicao dela ao                    condicionados exerceu sobre essa definio (v.
ouvinte, vale dizer, a produo de referncia              AO REELKXA). Carnap -- e com ele muitos
semelhante no ouvinte. Na funo emotiva                   outros -- aceitou os fundamentos da teoria de
incluem se tanto a expresso de emoes, ati-              Morris, bem como a diviso da semitica geral
tudes, disposies, intenes, etc. do falante,            nas trs partes por ele propostas (cf. R. CAKNAI\
quanto a comunicao dessas emoes, etc,                  Foiindations of Logic and Mathematics, 1939,1,
que  a sua evocao no ouvinte" (The Mea-                 2; trad. it., pp. 6-7) (v. SEMITICA).
 ning of Meaning, 10a ed., 1952, p. 149). Essa                 SILNCIO (lat. Silentium; in. Silence, fr. Si-
classificao foi utilizada (especialmente por E.          lence-, ai. Schwegen; it. Silenzio). Atitude ms-
L. STKVENSON, Fthics and Language, 1944) na                tica diante da inefabilidade do ser supremo (cf,
anlise da linguagem da moral e, em geral, da              p. ex., BOAVF.NTURA, Itnerarium mentis in
linguagem normativa, mas seus fundamentos                  Deum, VII, 5). Segundo Jaspers, a atitude dian-
no so consistentes, sobretudo pela impossi-              te do ser da Transcendncia (Phil., III, p.
bilidade de propor um critrio simples e sufi-             223)- Segundo Wittgenstein, a atitude diante
cientemente seguro para se fazer a distino               dos problemas da vida: "Sobre o que no se
proposta nos casos particulares. Classificao             pode falar, deve-se calar" (Tractatns, 7).
mais adequada e menos preconcebida  a de                      SILOGISMO (gr. auXoyiOLt; lat. Syllo-
Morris, que distingue os identificadores, que              gismus; in. Syllogisni; fr. Syllogisme, ai. Syllogis-
significam a localizao no espao e no tempo;             mus; it. Sllogismo). Essa palavra, que na ori-
os designadores, que significam as caractersti-           gem significava clculo e era empregada por
cas do meio-, os apreciadores, que significam              Plato para o raciocnio em geral (cf. Teet., 186
um status preferencial; os prescrtores, que               d), foi adotada por Aristteles para indicar o
significam a solicitao de respostas especficas          tipo perfeito do raciocnio dedutivo, definido
(Signs, Language and Behavior, 1946, III, 2;               como "um discurso em que, postas algumas
trad. it., p. 97). Desses S., chamados em con-             coisas, outras se seguem necessariamente" (An.
junto de lexicais, Morris distingue os S. forma-           pr. I, 1, 24 b 18; I, 32, 47a 34). As caractersti-
dores, que significam que "a situao significada          cas fundamentais do S. aristotlico so: l'J car-
de outro modo  uma situao alternativa"                  ter mediato; 2- necessidade. O carter mediato
(Ibid., VI, 1). Estes ltimos so divididos por            do S. decorre do tato de ser a contrapartida l-
sua vez em determinadores, como "todos",                   gico-lingstica do conceito metafsico de subs-
"alguns", "nenhum"; em conectores, como vr-               tncia. Em virtude disto, a relao entre duas
SILOGISMO                                               897                                       SILOGISMO

determinaes de uma coisa s pode ser                        princpios a que se referem, e no pela forma
estabelecida com base naquilo que a coisa                    lgica. A rigor, tampouco so espcies de S.
necessariamente: sua substncia; p. ex., para                 os S. compostos, como o epiqurema ou o
decidir se o homem tem a determinao mor-                   sorites; ou truncatlos, como o entimema: sobre
tal", s se pode levar em considerao a subs-                cada um deles, v. os verbetes correspondentes.
tncia do homem (aquilo que o homem no                       Tambm no  silogismo a diviso, que  um
pode no ser) e raciocinar da maneira seguinte:               dos mtodos da dialtica de Plato, que
 Todos os animais so mortais; todos os ho-                   Aristteles chama de "S. fraco" (An. pr., 1, 31,
mens so animais; logo todos os homens so                    46 a 33).
mortais". Isso significa que o homem  mortal                     Os esticos, que no fundamentaram sua
porque animal: a animalidade  a causa ou a                   lgica com a teoria da substncia, mas com a
razo de ser de sua mortalidade. Nesse senti-                 da percepo, no consideraram como tipo
do, diz-se que a noo "animal" desempenha a                  fundamental de raciocnio o S., mas o racioc-
funo de termo mdio do S.: obviamente, o                    nio anapodtico, que tem somente dois termos
termo mdio  indispensvel no S. porque re-                  e cuja premissa maior  uma proposio condi-
presenta a substncia, ou a aluso  substncia,              cional ("Se  dia h luz. Mas  dia. Logo h
e somente esta possibilita a concluso (An.                   luz"; v. ANAPODTICO). OS aristotlicos, a partir
post.. II, 11, 94 a 20). Portanto, o S. tem trs ter-         de Teofrasto, traduziram os raciocnios anapo-
mos, a saber o sujeito e o predicado da conclu-               dticos dos esticos para os esquemas aristotli-
so e o termo mdio, mas  a funo do termo                  cos, acrescentando ao S. categrico de Aris-
mdio que determina as diferentes figuras do                  tteles, como duas outras espcies de S., o
silogismo (v. SILOGSTICA). Alm das figuras,                 hipottico e o disjuntivo (cf. PRANTL, Geschichtc
Aristteles distinguiu vrias espcies de silogis-            der logik, I, p. 375 ss.; os textos fundamentais
mo. O S.  por definio uma deduo neces-                   so apresentados por Alexandre, Ad an. pr, f.
sria: portanto, sua forma primria e privilegia-             134 a-b). Essa doutrina oi transmitida  filoso-
da  o S. necessrio, que Aristteles chama                   fia ocidental pela obra de Boco, que se inspi-
tambm de demonstrativo, ou cientfico, ou S.                 rava em autores posteriores, principalmente
do universal (An. pr., I, 24, 25 b 29). Dele se               em Galeno (De syilogismo hypothetico, em P.
distingue o S. dialtico, que se baseia em pre-               L, 64). A doutrina do S., assim completada, foi
missas provveis, sendo, pois, apenas provvel                transmitida pela tradio sem mudanas subs-
(Md., II, 23, 68b 10; An.post., II, 8, 93 a 15).             tanciais; depois disso, os lgicos s deram livre
tambm chamado de retrico-, uma espcie                      curso  fantasia, atribuindo nomes para qual-
dele  o S. erstico, baseado em premissas que                quer modificao insignificante nas estruturas
parecem provveis mas no so ( Top., I, 1, 100               tradicionais.
b 23). Dos S. necessrios, a primeira e melhor
espcie  a dos ostensivos (v.), que Aristteles                  f dissemos que o fundamento do S. aristo-
contrape aos que partem de uma hiptese                      tlico  a teoria da substncia (cf. Vi ANO, Ia
(An. pr, I, 23, 40 b 23). Kstes ltimos no so               lgica di Aristotele, 1955, III, 6). Como estrutu-
aqueles que sero chamados depois de S. hi-                   ra necessria do ser, a substncia garante a liga-
potticos, mas aqueles cuja premissa maior no                o entre as determinaes, cuja conexo  de-
 a concluso de outro S.. nem  evidente por                 monstrada pelo S.: assim, essa conexo nada
si, mas  tomada como hiptese (Ibid., I, 44, 50              mais  que a prpria necessidade com que se
a 16). Uma das espcies desses S.  aquele que                interligam as determinaes da substncia. A
conclui mediante a reduo ao absurdo (Ibid.,                 necessidade dessa ligao  expressa na uni-
50 a 29). Entre os S. ostensivos, os mais perfei-             versalidade da predieao: universalidade que
tos so os universais da primeira figura, nos                 em Aristteles serve de base para o "S. perfei-
quais  possvel integrar todas as outras formas              to". Segundo Aristteles, "dizer que uma coisa
de S. (Ibid., I, 7, 29 b 1). Finalmente, do S. de-            est contida na totalidade de outra coisa  o
dutivo distingue-se o S. indutivo ou induo                  mesmo que dizer que um termo  predicado
(Ibid., I, 23, 68b 15). Por outro lado, no so               por todas as coisas do outro termo. E dizemos
espcies de S. aquilo que Aristteles chama de                que se predica de todas as coisas sempre que
S. geomtrico, mdico, poltico (Top., I, 9, 170 a            no haja coisa alguma daquelas pelas quais o
32) eprtico(Et. nic, VI, 12, 1044 a 3D. que se               sujeito pode ser tomado de que no seja pos-
distinguem entre si apenas pelo contedo dos                  svel predicar a coisa em questo"(/l.pr., I, 1,
                                                              24 b 26). Ser um termo na totalidade de outro
SILOGISMO                                             898                                        SILOGISMO

termo  a relao de inerncia que. segundo                 compreendidos em todos os animais, mas ao
Aristteles, expressa a necessidade do ser                  mesmo tempo estou entendendo que a idia
predicativo (v. SKR). Nessa relao de inerncia            de animal est compreendida na idia de ho-
Ixiseia-se a predicao de onuii, ou seja. a                mem. Animal compreende mais indivduos que
referncia do predicado a qualquer coisa                    homem, mas homem compreende mais idias
indicada pelo sujeito. Em seguida, na lgica                e mais formas: um tem mais exemplos, o outro
medieval, foi justamente o princpio de omiti               tem mais graus de realidade; um tem mais ex-
que se reconheceu como fundamento do S.                     tenso, o outro tem mais intenso. Portanto,
His como era expresso por Pedro Hispano: "Ser               pode-se talvez dizer sem ferir a verdade que
dito de omni  quando no se admite no sujei-               toda a doutrina silogstica poderia ser demons-
lo nada de que o predicado no seja dito, como              trada pela doutrina cio continente e cio conte-
p. ex. todo homem corre'. Ser dito de niillo               do, do compreensivo e do compreendido, que
([liando no se admite no sujeito nada de                    diferente da doutrina do todo e da parte, pois
([lie o predicado no seja removido, como p.                o todo sempre excede a parte, ao passo que o
ex. 'nenhum homem corrc'"( Snmm. log.,                      compreensivo e o compreendido s vezes so
4.01). Hsta lei fundamental do S. foi expressa              iguais, como acontece nas proposies recpro-
nos mesmos termos por uma longa tradio                    cas" (ISoitf. ess., IV. 1~\ 8). Mas foi principal-
(d., p. ex., Jr\c,it ; s, Lgica hambnrgensis. III.         mente Hamilton quem imps o ponto de vista
 11,4; WOI.FF, Log.,  346). Na lgica tradicional,         extensivo como fundamento do S.. com base
o dctum de omiti et millo nunca leve significa-            naquilo que ele chamava de "lei cie identidade
do extensivo: a possibilidade de que alguma                 ou no-identidade proporcional". segundo a
coisa seja dita de onuii no passa de inerncia             qual o S. se baseia unicamente nas trs poss-
necessria do predicado ao sujeito. Kant quis               veis relaes entre os termos: 1" de co-ncluso
dar ao S. um fundamento semntico, que ele                  toto-lotal, ou seja, de identidade ou de absoluta
expressou com as seguintes regras: "a nota [ca-             conversibilidade ou reciprocao; 2'-' de co-
racterstica 1 de uma nota  uma nota da prpria            e.xchiso lolo-total, ou seja, de no-identidade
coisa" (nota nolaeesteiiam nota rei ipsins); "o             ou de absoluta no-conversibilidade ou no-
que repugna  nota repugna  prpria coisa                  reciprocao; 3" cie co-inclnso incompleta,
{ repngnaits itotae repngnat rei ipsiT, mas                 que implica uma relao de co-exchtso in-
reconheceu que essa frmula  apenas outro                  completa, ou seja, identidade ou no-identida-
modo de expressar o princpio de omiti: modo                de parciais, ou conversibilidade ou recipro
cuja nica vantagem  evitar a "falsa sutileza"             cao relativas (Leclnres ou Logic, II. 1866, pp.
da distino das quatro figuras (Die falsche                290 ss.). O prprio Hamilton teve a preocupa-
Spitzjindigkeit der vier syllogistiscben Figiiren,          o de ressaltar os precedentes de sua doutri-
 1762,  2). Fm Lgica (\H().)), Kant recorreu ao          na, mas no inclui entre eles o principal, que 
fundamento tradicional do S., clefinindo-o como             Leibniz (Ibid., 346-18). A lgica posterior de
"o conhecimento da necessidade de uma pro-                  inspirao aristotlica no seguiu, nesse aspec-
posio mediante a subsuno de sua condi-                  to, a doutrina de Hamilton, retornando  inter-
o a uma regra geral dada" (Lvgik  56): o                 pretao intensiva do fundamento do silogis-
princpio geral do S.  assim expresso: "O que              mo. Na realidade, o legado da proposta de
est sob a condio de uma regra est tambm                Hamilton seria acolhido principalmente pela
sob a prpria regra". Kant observa que o S.                 lgica matemtica; esta, porm, a partir de sua
pressupe: a) uma regra geral; b) uma subsuno             primeira manifestao, as Leis do pensamento
 condio que ela expressa; e acrescenta que               (1854) de G. Boole, alinhou-se com o empiris-
"o princpio de que tudo est sob o universal e             mo (ver adiante) e negou ao S. seu primado
6 determinvel em regras universais tambm                 de forma fundamental e tpica do raciocnio.
o princpio da racionalidade ou da necessida-               Boole dizia: "O S.. a converso, etc. no so os
de" (principiam ralonalitatis, sen necessitats)           ltimos processos da lgica. Baseiam em
(Ibicl.,  57).                                             outros processos mais simples, que constituem
                                                            os elementos reais do mtodo em lgica, e
   Por outro lado, porm, Leibniz tentara ex-               neles se resolvem. De tato no  verdade que
pressar o fundamento do S, em termos de                     qualquer inferncia seja redutvel s formas
extenso, depois de distinguir claramente ex-               particulares cie S. e de converso" (Laws of
tenso e intenso: "Ao dizer 'todo homem                   Thought. cap. 1, Dover Pubblications, p. 10).
animal' quero dizer que todos os homens esto
SILOGSTICA                                            899                                       SILOGSTICA

Segundo Boole, "os processos elementares da                  do silogismo (v.). Desenvolvida pela primeira
lgica so idnticos aos processos elementares               vez por Aristteles em Analylica priora, em
da aritmtica" (Ibicl., p. 11): afirmao que ser-           poucos anos transformar-se-ia no cerne da lgi-
viu de base para toda a evoluo posterior da                ca, continuando como tal at o advento da l-
lgica matemtica. Mas com isso o S. era defini-             gica matemtica contempornea. A parte mais
tivamente derrubado de seu trono de tipo fun-                antiga  a teoria do silogismo dedutivo categ-
damental do raciocnio dedutivo, feito que a                 rico, exposta pelo prprio Aristteles. Este fixa
crtica empirista no lograra totalmente. Desde              os quatro modos vlidos da primeira figura (as
ento, o S. deixou de ser um captulo aut-                  figuras so caracterizadas pela posio do ter-
nomo da lgica, e a preocupao dos lgicos                  mo mdio: na primeira, funciona como sujeito
em relao a ele consiste unicamente em                      na premissa maior e como predicado na me-
mostrar que ele pode ser resolvido e expres-                 nor; na segunda,  predicado em ambas as
so nas frmulas de clculo que preferirem:                   premissas; na terceira  sujeito em ambas, don-
preocupao que no deixa de ser acompanha-                  de a necessidade de converter uma das
da por perplexidade (cf., p. ex., W. v. O.                   premissas. Os modos dispem-se assim: em
QHNK, Metbodsof Logic, 1952,  14: A. CHIRCH,                primeiro lugar, os que concluem com uma pro-
Introduction to Mathemutical Logic, J 956.                   posio universal afirmulivn, depois o.s que
 46.22).                                                    concluem com uma universal negativa, em se-
    Como j dissemos, independentemente da                   guida os que concluem com uma particular
discusso sobre seus fundamentos, a validade                 afirmativa e finalmente os que concluem com
do S. foi questionada vrias vezes do ponto de               uma particular negativa). A seguir, passa  an-
vista do empirismo. Para Sexto Emprico, o S.                lise dos modos possveis da segunda e da ter-
ou era a repetio intil do que j se conhece,              ceira figuras, demonstrando sua redutibilidade.
ou um crculo vicioso: isso porque a premissa                principalmente por meio da tcnica de conrcr-
maior ("Todos os homens so mortais") impli-                 so(v.), a modos correspondentes da primeira.
caria j a verdade da concluso ("Scrates                  Depois disso, Teofrasto formulou os modos da
mortal") (Pirr. hyp., I, 163-64; II, 196). Stuart            quarta figura, mas parece que seu reconheci-
Mill observava a propsito que no existe cr-               mento e sua exposio como figura indepen-
culo vicioso, porque, ao se chegar  proposi-                dente couberam a Galeno. Todavia, mais tarde,
o geral, a inferncia ter terminado, e s nos             vrios lgicos como Averris, Zabarella e. na
restar "decifrar nossas observaes" (Logic, II.            idade moderna, Wolff e Kant, pronunciaram-se
3. 2). Mas isso significa reduzir o S.  simples             contrrios a ela, pois a consideraram substan-
decifrao de notas j possudas. Bacon obser-               cialmente intil. De fato os modos dessa figura
vara que "o S. tora o assentimento, mas no a               no passam de modos indiretos da primeira,
realidade" (Nor. Org., I, 13). Foi essa a idia              com permuta das duas premissas; alm disso,
que, graas a Loeke, prevaleceu no que se re-                alguns deles (o primeiro e o quarto) no "con-
fere  natureza do S.: este no descobre nem                 cluem necessariamente" (condio essencial,
idias nem a correlao entre idias, que s a               segundo Aristteles, para que haja silogismo).
mente pode perceber, mas "demonstra apenas                   A essas quatro figuras, o.s lgicos modernos
que, se a idia do meio concorda com as outras               acrescentaram os cinco modos "fracos" obtidos
a que se refere imediatamente de ambos os                    da primeira e da segtinda (e quarta) por subal-
lados, ento essas duas idias distantes (ou das             ternao (substituio da concluso universal
extremidades) certamente concordam". Assim,                  por uma particular).
"a conexo imediata de cada idia com aquelas                    Essa teoria, j amplamente explorada pelos
a que se aplica de ambos os lados -- conexo                 fomentadores cio fim da Antigidade, peripa-
de que depende a fora cio raciocnio --  bem               tticos e neoplatnicos, e depois sintetizada
percebida tanto antes do S. quanto depois dele,              por Bocio, foi reelaborada pelos lgicos me-
pois ao contrrio quem faz o S. nunca poderia                dievais, tornando-se extremamente formalista.
enxerg-la" (Ensaio, IV, 17, 4). Essa famosa crtica         Com efeito, coube aos grandes terministas me-
de Locke deu incio  perda de supremacia do                 dievais transformar todos os modos em frmu-
S., o que terminaria com o predomnio da lgica              las, de acordo com uma tcnica complicada:
matemtica na segunda metade do sculo XIX.                  com quatro vogais (a, e, i, o) indicaram os qua-
   SILOGSTICA (in. Syllogislic, fr. Syllogis-               tro tipos de proposio (respectivamente: uni-
tique, ai. Syllogslik it. Sillogistica).  a teoria         versal afirmativa [a], universal negativa \el, par-
SILOGISTICA                                                900                                        SILOGISTICA


ticular afirmativa [/]; particular negativa [o]);                antecedente ou o conseqente da implicao
com B, E, D, F, indicaram os quatro modos da                     contida na maior; a concluso afirma ou
primeira figura, designando-os com as pala-                      respectivamente nega o conseqente ou o an-
vras-frmulas Barbara, Celarent, Darii, Ferio,                   tecedente:
em que as nicas letras significativas so as ini-
ciais e as trs vogais (que indicam o tipo de                    modus ponens: se A, B modus tollens: se A, B
proposio no que diz respeito  premissa                                      A                       no/J
maior,  premissa menor e  concluso). Quan-                                  logo B                 logo no-/)
to aos modos das outras trs figuras, as trs pri-
meiras vogais tm o significado de costume; as                       Analogamente, o silogismo disjuntivo con-
iniciais indicam a que modo da primeira figura                   siste em uma premisssa (maior) em que so
se reduzem; alm disso, so significativas algu-                 afirmadas (modus tollendo ponens) ou reci-
mas letras minsculas pospostas  vogai, que                     procamente negadas (modus ponendo tollens)
indicam operaes a serem realizadas nas pro-                    duas proposies, em uma premissa (menor)
posies indicadas por aquela vogai:s: conver-                   em que  negada, ou, respectivamente, afirma-
so "simplciter"; p: converso "per accidens";                  da uma das disjuntas da premissa maior, e na
m: mettese das premissas; c. "reduetio ad                       concluso, que consiste em afirmar ou, respec-
impossibile". Ora, teoricamente, os modos ma-                    tivamente, negar, a outra disjunta:
tematicamente possveis em qualquer figura
so 16, obtidos com a combinao dois a dois                     modus tollendo ponens: A ou B          A ou B
em todos os modos possveis (com repetio);                                            TiQ-B          no-/)
as quatro letras a. e, /', o (pois no silogismo o                                       logo A          logo B
que decide so as premissas, e as premissas                      modus ponendo tollens: ou A ou B       ou A ou B
so duas): aa, ea, ia, oct; ae, ee, ie, oe-, ai, ei, ii,                                A               B
oi; ao, eo, io, oo. Portanto, resultariam 64 mo-                                        logo no-/J     logo no-^4
dos, mas desses so vlidos somente os se-
guintes 19:                                                          Apesar de certas analogias foradas, estes ti-
    Ia figura: Barbara, Celarent, Darii, Ferio;                  pos de "silogismo" representam uma estrutura
    2a figura: Cesare. Camestres, Festino, Ba-                   completamente diferente da do silogismo cate-
roco;                                                            grico, de tal maneira que, se no se levasse
    3a figura: Darapti, Disamis, Datisi, Felapton,               em considerao a etimologia, dificilmente po-
Bocardo, Feriso;                                                 deriam ser chamados de silogismo; com efeito,
    4a figura: Baralipton, Celantesou Calemes),                 para usarmos a linguagem da lgica contem-
Dabitis, Fapesmo, Frisesmorum.                                   pornea, eles pertencem ao clculo proposidonal
    Mais os modos "fracos": Barbari, Celaront,                   simples e baseiam-se em implicaes materiais,
Cesaro, Camestros, Calemos (obtidos de Barbara,                  ao passo que os modos do silogismo categ-
Celarent, Cesare, Camestres, Calemes).                           rico pertencem ao clculo das funes pro-
    Foram tambm os lgicos da Idade Mdia                       posicionais e baseiam-se em implicaes for-
que introduziram o silogismo com proposies                     mais. No obstante, na lgica moderna,
singulares (como "Todos os homens so mor-                       principalmente no sc. XIX, foi feita uma ten-
tais; Scrates  homem; logo Scrates  mor-                     tativa (mas em bases mais gnosiolgicas e
tal"), que no se incluam na S. propriamente                    epistemolgicas que propriamente lgicas) de
aristotlica, totalmente baseada na acepo uni-                 reduzir o silogismo categrico a silogismo hi-
versal dos termos, portanto no uso dos opera-                    pottico, interpretando o primeiro como infe-
dores "tudo" e "em parte" [alguns].                              rncia bipottico-dedutva: "se todos os ho-
    De origem estica, mas devido em grande                      mens so mortais, e se Scrates  homem,
parte  elaborao dos lgicos medievais (a                      Scrates  mortal". Mas a exposio lgica
partir de Bocio)  o importante captulo da teo-                completa desta ltima forma de inferncia mos-
ria do silogismo hipottico e disjuntivo. O si-                  tra que na realidade ela no se reduz a nenhu-
logismo hipottico consiste em uma premissa                      ma das duas formas clssicas, perdendo-se a
(dita maior) que estabelece implicao entre                     conciso rigorosa e a estrutura ternria destas.
um enunciado e outro ("se A, B"), em uma pre-                       Faltaria considerar o silogismo indutivo, mas
missa (dita menor) que afirma (modusponens)                      seu estudo no pertence  S. propriamente dita
ou nega (modus tollens), respectivamente, o                      (v. INDUO).                                 G.P.
SIMBOLISMO                                              901                                          SIMPATIA


    SIMBOLISMO (in. Symbolism; fr. Sytnbo-                    de nmero de potncias variadas que colabo-
lisme, ai. Symbolismus; it. Smbolismo).                      ram para a unidade desse grande animal que 
    1. Uso dos signos, ou seja, comportamento                 o universo." (Enti., IV, 4, 40). Plotino tambm
semiolgico ou semioseiv.).                                   dizia que "a S.  como uma corda esticada, que
    2. Uso de um sistema de signos especial (p.               ao ser tocada numa das pontas transmite o mo-
ex., o "S. matemtico").                                      vimento para a outra ponta.(...) K se a vibrao
    3. Liso de smbolos no 2L> sentido do termo:              passa de um instrumento para o outro por S.,
de signos convencionais e secundrios (signos                 tambm no universo h uma harmonia nica,
de signos, como ocorre na arte, na religio,                  que s vezes  feita de contrrios, mas outras
etc). Neste sentido, essa palavra  usada por                 vezes  feita tambm de partes semelhantes e
Cassirer ao falar da expresso simblica como                 congneres" (Ibid., IV, 4, 41). A magia insere-
forma mais madura de desenvolvimento lin-                     se na S. universal e, recorrendo a meios opor-
gstico, marcada pela distncia entre o signo e              tunos, aproveita-a para suas prprias finalida-
seu objeto" (lhe Philosophy of Symbolic Forms,                des, realizando assim efeitos que parecem
II, p. 237); de fato, essa distncia  prpria do             extraordinrios e milagrosos. F.sse conceito de
comportamento semiolgico.                                    S., que pressupe a animao de todas as coi-
    SMBOLO (in. Symbol; fr. Symbole, ai. Symbol;             sas,  o fundamento da magia, sendo admitido
it. Smbolo). 1. O mesmo que signo.  com esta                igualmente por todos os mgicos da Renascen-
significao genrica que a palavra  mais usa-               a (cf. CAMPANEI.I.A, De sensu rerum, IV. 1; 14;
da na linguagem comum.                                        AGRIPA, De oceulta philosophia, I, 1; I, 37;
    2. Uma espcie particular de signo. Segundo               CARDAN, De vahetatererum. 1,1-2; G. B. ELMONT,
Peirce: "Um signo que pode ser interpretado                   Opusculapblosophica, I, 6, etc).
em conseqncia de um hbito ou de uma dis-                       Com o declnio da magia no mundo moder-
posio natural" (Coll. Pap., 4.531). Segundo                 no, o significado de S. limitou-se a indicar a
Dewey, um signo arbitrrio ou convencional                    comunho de emoes entre os indivduos
(Logic, Intr., IV, trad. it., p. 93). Segundo Morris:         humanos. Hume foi o primeiro a insistir na
um signo que substitui outro signo na orienta-                importncia da S. no que se refere  formao
o de um comportamento (Signs, Language                      de todas as emoes humanas: "Nenhuma qua-
and Behavior, I, 8). Segundo outros, um signo                 lidade da natureza humana  mais importante
tpico, em contraposio ao signo individual,                 em si mesma ou em suas conseqncias do
que  a palavra como significado (v. PALAVRA)                 que a propenso que temos a simpatizarmos
(M. BLACK, Language and Philosophy, VI, 2;                    uns com os outros, a recebermos a comunica-
trad. it., p. 181).                                           o das inclinaes e dos sentimentos dos
    SIMETRIA (in. Symmetr\>, fr. Symtrie, ai.                outros, por mais diferentes que sejam dos nos-
Symmetrie; it. Simmetria). Mensurabilidade,                   sos, ou mesmo contrrios. (...) A esse princpio
proporo ou harmonia. Diz-se que  simtri-                  podemos atribuir a grande uniformidade obser-
ca a relao entre os dois termos nos dois sen-               vvel nos humores e nos modos de pensar dos
tidos: p. ex., a relao "irmo" (v. RELAO).                membros de uma mesma nao:  muito mais
    SIMPATIA (gr. O"ULt7i6eta; in. Sympathy,                 provvel que essa semelhana surja da S. que
fr. Sympatie; ai. Sympathie, it. Simpatia). Ao              da influncia do solo e do clima, que, apesar
recproca entre as coisas ou sua capacidade de                de serem sempre os mesmos, no conseguem
influncia mtua. Esse conceito  antigo e des-               manter inalterado por um sculo inteiro o car-
de a antigidade foi aplicado tanto  realidade               ter de uma nao" (Treatise, 1738, II, I, 11).  de
humana quanto  fsica, mas foi usado pelos fi-               se notar que Hume atribuiu  S. o carter que
lsofos antigos principalmente em relao ao                  mais tarde seria ressaltado por Scheler e rejei-
mundo fsico. Para os esticos, a S.  o nexo                 tado por autores mais modernos: o fato de ela
que interliga as coisas, mantm-nas ou as faz                 no implicar nenhuma identidade de emoes
convergir para a ordem do mundo (ARNIM,                       ou fuso emocional nas pessoas entre as quais
Stoicorum fragmenta, II, p. 264). Para Plotino,               ocorre. Adam Smith s fez adotar a idia diretiva
a S. era o fundamento da magia: "De onde                      de Hume, ao considerar a S. como base da vida
provm os encantamentos? Da S., graas  qual                 moral e ao entend-la como "a faculdade de
h uma concordncia natural entre coisas se-                  participar das emoes de outrem, sejam elas
melhantes e discordncia natural entre as coi-                quais forem" (Theory of Moral Sentiments, 1759,
sas diferentes, e graas  qual tambm h gran-               I, 1, 3). Ocasionalmente, recorreu-se  S. no
SIMPLES                                                902                             SINCATEGOREMTICO


 campo esttico e biolgico, chamando-a s vezes             Analogamente, por simplificao entende-se
 de empatia (v.). Bergson devolveu  S. o car-              todo procedimento apto a tornar econmica a
 ter instintivo e viu nela a possibilidade de apre-          conceitualizao ou a teorizao, ou seja, qual-
 ender diretamente a natureza da vida: "O ins-               quer procedimento que reduza o nmero OLI a
 tinto  simpatia. Se essa S. pudesse estender               complexidade dos conceitos empregados.
seu objeto e refletir sobre si mesma, dar-nos-ia                SIMULACRO. V. DOLOS.
 a chave das operaes vitais, da mesma manei-                  SINAL (in. Situai: fr. Signa/-, ai. Signah it.
ra como a inteligncia, desenvolvida e retificada,           Segnale). 1. O mesmo que signo (v.). Morris en-
 nos introduz na matria" (rol. cratr., 8- ed.,            tende essa palavra no sentido cie signo natural
  1911, p. 191). Por outro lado, numa obra famo-             (Signs. I.anguage and Bebavioi; 1. 8).
sa sobre a S., Scheler distinguiu-a dos fenme-                  2. O mesmo que smbolo (v.). Neste segun-
 nos afins mas no idnticos, especialmente da-              do sentido, a palavra  empregada quando se
 quilo que ele chama de contagio emotivo ou                  fala, p. ex., de um "S. de perigo", em que S. 
fuso emotiva. A fuso emotiva consiste em ter               um signo convencional, um smbolo.
 a mesma emoo de outrem: p. ex., os pais que                   SINCATEGOREMTICO (lat. Syncategorc-
 perderam um filho sentem a mesma dor. A S.,                  matienm: in. Syncategorematic; fr. Syncat-
 ao contrrio, no supe a identidade de emo-                gormatique; ai. Synkategorematisch; i. Sin-
 es: participar da dor alheia por sentir pieda-            categorematco). Assim so chamadas, na gra-
 de no significa sentir a mesma dor. Por isso,              mtica e na lgica medievais, as partes do
 para Scheler a S. era o componente da compreen-             discurso que no tm significao em si, mas
 so, que  condicionada pelo reconhecimento                 s a adquirem em contato com as outras partes
 cia alteridacle entre as pessoas: "A S., a partici-         do discurso: exemplos so as conjunes, as
 pao afetiva autntica, 6 uma funo e no                 preposies, os advrbios, etc. Prisciano (II, 15)
 comporta um estado afetivo na pessoa que o                  diz: "Segundo os dialticos, as partes do discur-
 sente. O estado afetivo de B. implcito na pie-             so so duas. o nome e o verbo, porque juntas,
 dade que sinto por ele, para mim continua                   e s elas. constituem um discurso completo;
 sendo o estado afetivo cie B: no passa para                chamam as outras de sincategoremata, ou seja.
 mim, quando o lastimo, e no produz em mim                  co-significantes". Essa distino  retomada na
um estado semelhante ou idntico" (Sympa-                    lgica de Pedro Hispano (Sitnmi. log., VII, 5.
 Ihe. 1923. 1; trad. fr., p., 69).                          11). em S. Toms (/;/ Perihermeneias). em
     SIMPLES (gr. 7T>.o: lat. Simple.x-, in. Sim-         Dtins    Scot   (In   Praedicamenta,    12)   e   em
ple-, fr. Simple; ai. Hinjdcb; it. Semplice). Aquilo         Ockham (Sitmma log.. I, 4), que assim a ex-
que carece de variedade ou de composio,                    pe: "Alguns termos so categoremticos.
vale dizer, o que existe de um nico modo ou                 outros sncategoremticos. (...) Estes ltimos
 destitudo de partes. Aristteles entendeu o S.            no tm significado completo e preciso, e no
no primeiro sentido, como falta de variedade:                significam coisas diferentes das significadas
"No sentido primrio e fundamental o que                    pelos categoremata; assim como em aritmtica
S.  necessrio porque no  possvel que o S.               o zero nada significa por si mesmo, mas acres-
seja ora de um modo, ora de outro" (Met.. V. S.              centado a outro algarismo adquire significado".
 1015 b 12). Leibniz usou essa palavra no se-                Ockham aplicou essa distino ao conceito de
gundo sentido, ao definir a mnada como                      infinito e fez a distino entre infinito ccitego-
substncia S.. porque sem partes (Monad.,                    remtico, que designa a quantidade do sujeito
 1). Foi graas a Wolff que esse conceito se                ao qual se aplica o predicado infinito, e o infi-
consolidou com esse sentido (Ont.,  673). Na                nito S., que designa apenas de que maneira o
 lgica termini.sta medieval usava-se com o mes-             sujeito se comporta com relao ao predicado.
mo sentido o termo incomplexum(= no com-                    Nesse sentido, infinito  aquilo que podemos
 posto), como contrrio de complexo(v.): ou no               tornar to grande quanto queiramos, mas que
sentido cie um termo constitudo por uma s                  apesar disso continua finito (OCKHAM, In Seul..
 palavra, ou no sentido do termo de uma pro-                 I. d. 17, q. 8): conceito que se tornaria funda-
 posio, constitudo por uma ou mais palavras               mental na matemtica moderna (v. INKIMTO).
 (cf. OCKHAM, Kxpositio urea, p. 40 b).                     Essa palavra tambm se encontra nos lgicos
                                                             modernos. Stuart JVliJJ (Logic, ]., rap. JJ, $ 2) em-
     Por simplicidade como caracterstica da.s hi-           prega esse termo para indicar palavras que no
pteses ou das teorias cientficas, entende-se               podem ser usadas como nome mas como par-
exigncia de economia (v.; v. tambm TFORIA).
SINCATETESE                                                 903                                         SINGULAR2

tcs de nome. Esse termo  usado em sentido                        binada de diferentes fatores. Fvs.se termo  fre-
anlogo por Husserl (l.ogische Intersuchiin-                      qente na linguagem comum e cientfica,
gen, II,  4).                                                    sendo empregado, p. ex., tanto para indicar a
    Na lgica contempornea, as partes S. da                      cooperao dos rgos em um corpo vivo.
linguagem so chamadas mais freqentemente                        quanto o fortalecimento recproco da ao dos
de smbolos imprprios (porquanto no tm                         medicamentos. As vezes, mas raramente, foi
significao prpria) c divididos em conectivos                   empregado como sinnimo de simpatia ou de
(v.) e operadores (v.).                                           cooperao inteligente (cf. RIBOT, Psycbulogie
    SINCATETESE. V. AsscNTi.MF.NTO.                               des sentiments. 1896, p. 229: Eotiii.LKi, Morale
    SINCRETISMO (lat. Synkretismns; in. Syn-                      des ides-forces, 1908. p. 352).
cretism:   fr.   Symcrtisme;   ai.   Synkretismns;   it.             SINERGISMO (in. Synergism: fr. Syner-
Sincretsmo). Termo introduzido na terminolo-                     gisnie: ai. Synergism lis-, it. Sinergismo). Dou-
gia filosfica por Brucker para indicar Lima                      trina teolgica segundo a qual a salvao do
"conciliao mal leita de doutrinas filosficas                   homem no depende apenas da ao de Deus,
completamente diferentes" (Historiei critica                      mas tambm da vontade humana, que colabo-
philosophiae, 1^44, IV. p. 750). Desde ento,                     ra com ela para produzi-la. Essa doutrina foi
designa-se freqentemente com essa palavra                        sustentada porMelanchthon contra o monegismo
qualquer conciliao que se considere mal fei-                    de Lutero. que atribua a salvao unicamente 
ta ou mesmo os pontos de vista que auspiciem                      ao de Deus (v. GRAA).
uma conciliao indesejvel. Esse termo tam-                          SINGULAR1 (in. Singular, fr. Singnlier, ai.
bm foi empregado na histria das religies,                       F.inzg, Singular, it. Singolare). Termo ou uma
para indicar os fenmenos de sobreposio e                       proposio que denota um nico objeto; em
fuso de crenas de origens diversas. Neste                       outras palavras, "forma (ou expresso) que
caso o termo tambm  usado com disposio                        contm uma nica varivel livre" ( C H U  : H ,
polmica, para designar snteses mal feitas, no                   Introduction to MathematicalLogic. 1956,  02:
tendo, portanto, significado preciso.                             cf. Q u \ i - , Methods of Logic.  34).
    Mais arbitrrio ainda  o significado com                         SINGULAR2(in. Single: fr. Singnlier, ai. Kin-
que  empregado por alguns escritores france-                     zeln; it. Singolo). 1. Que  um indivduo ( v j .
ses, para indicar a viso geral e confusa de uma                       2. O indivduo considerado como valor me-
situao qualquer (cf. RFNAN. Lcuvnir de Ia                       tafsico, religioso, moral e poltico supremo.
science. p. 301).                                                  Neste sentido,  o tema preterido de algumas
    SINCRNICO. V. DlACRMCO.                                     filosofias modernas e contemporneas. Kierke-
    SINDXICOUn. Syndoxic: fr. Syiu/oxit/ne:                      gaard. polemizando com Hegel, afirmava o va-
it. Sindossico). Termo empregado por J. M.                        lor existencial do S.: "A existncia corresponde
Baldwin para indicar o conjunto de conheci-                        realidade singular (o que j foi ensinado por
mentos comuns que se formam nos indivduos                        Aristteles): no  abarcada pelo conceito e, de
que tm as mesmas experincias, mas que nem                       qualquer modo, no coincide com ele". (Di-
por isso so necessariamente vlidos (Ihought                      rio, X2 A, 328). O S.  superior ao universal, ao
and 'Ihings, 1906, , p. 146) (v. SINMICO).                      contrrio do que julgava Hegel. "Nos gneros
   SINECOLOGIA(al. Sinecbologie). Teoria da                       animais sempre vale o princpio de que 'o indi-
continuidade no tempo e no espao, que, se-                       vduo  inferior ao gnero'. O gnero humano,
gundo Herbart.  uma parte da metafsica, ao                      em que cada indivduo  criado  imagem de
lado da metodologia, da ontologia e da idololo-                   Deus, tem essa caracterstica, de o S. ser supe-
gia (Kurze linciclopadie der Pbilosophie, 18(.                    rior ao gnero" (Ibid., X2, A, -126). Km Kier-
pp. 297 ss.).                                                     kegaard, essa exaltao tio S.  acompanhada
   SINEQUISMOUn. Synecbisnv, fr. Synchis-                        pela desvalorizao da categoria "pblico", em
me-, it. Sinecbismo). Termo empregado por                         que o S. desaparece; mas o pblico no  a co-
IVirce para indicar o princpio de continuidade,                  munidade na qual, ao contrrio, o S.  reconhe-
que ele julga de primeira importncia em todas                    cido como tal (Ibid.. X2. A, 390). O nico (\.),
as formas da realidade (cf. Chance, Lore and                      de Stirner, e o snper-homem (v.), de Nietzsche,
Logic, II. 3; trad. it.. pp. 44 ss.).                             so concepes anlogas  que. Kierkegaard
   SINERGIA (in. Synergy-, fr. Synergie; ai.                      indicou como singular. No mesmo sentido,
Synergie, it. Sinergia). Coordenao de diferen-                  Jaspers insiste no carter excepcional do S. (Phil,
tes faculdades ou forcas, ou ento ao com-                      II. p. 360).
SINOLON                                             904                                            SINTAXE

    SNOLON (gr. x avvoXov; lat. Composi-                Contudo, as exigncias expressas por Lewis e
tum). Com este termo, que significa "uma coisa            Carnap para a definio de S. continuam no
s", Aristteles indicou o composto de matria            campo da intensionalidade das formas lingsti-
e forma, a substncia concreta. "A substncia            cas.  o que acontece tambm com a defini-
a forma imanente, cia qual, juntamente com a              o de Church (Introduclion to Mathema-
matria, deriva aquilo que se chama de S. ou               tical Logic,  01). Quine demonstrou, nesse
substncia: p. ex., a concavidade  a forma da            mesmo plano, como  difcil utilizar a S. para
qual, juntamente com o nariz, (matria) deri-             definir a analiticidade, pois "dizer que 'solteiro'
va o nariz achatado" (Met., VII, II, 1037 a               e homem no casado' so sinnimos do ponto
30). A traduo cio termo  "composto" ou                 de vista cognitivo, significa dizer que  analtica
"concreto".                                               a assero 'todos os solteiros e s eles so
    SINMICO (in. Synnomic; fr. Synnomique-,              homens no casados"'. Portanto, segundo
it. Sinnomico). Termo empregado por G. M.                 Quine, a S. pode ser definida eximo a possibi-
                                                          lidade cie substituio recproca cie dois ter-
Baldwin para indicar o conjunto de conheci-               mos, salva analyticitate, vale dizer, a possibi-
mentos comuns que se formam nos indivduos,               lidade de, numa expresso, substituir dois termos
quando esses conhecimentos so considerados               um pelo outro sem que a expresso perca o ca-
"aptos ou apropriados a todos os processos                rter analtico (trom a Logical Point of View,
lgicos como tais" (Thought and Things, 1906, II,         1953, IL 3).
p. 270). Sindxico, ao contrrio,  aquilo que 
comum mas sem carter cie normatividade (v.                   SINNIMO (in. Synonym; fr. Synonyme, ai.
SINDXICO).                                               Syyionym. it. Sinnimo). Segundo a definio
    SINONMIA (in. Synonimy fr. Synonymie-,               aristotlica (Cat., 1 a 6; 3b 7), diz-se que so S.
ai. Synonimie, it. Sinonimia). A relao de S.           as coisas que tm em comum o nome e a defi-
                                                          nio da essncia, assim como o homem e o
importante para os lgicos porquanto a utili-             boi so chamados (e so) ambos animais. No
zam para definir a noo de analiticidade (v.).           uso moderno, porm, so chamados de S. os
Como o conceito de S. como "identidade de                 vocbulos (ou enunciados) diferentes na forma
significado entre duas formas lingsticas" no           da expresso, mas de igual contedo semnti-
 suficiente, os lgicos costumam acrescentar             co. Na lgica contempornea so chamados de
alguma outra condio para definir a sino-                S. os enunciados que tm forma diferente mas
nimia. Lewis diz: "Duas expresses so sinni-            o mesmo sentido (designando a mesma pro-
mas se e apenas se: lu tm a mesma intenso               posio): no entanto nem sempre  fcil distin-
e se essa intenso no  zero nem universal, ou           guir sinonimia (semntica) de equivalncia
2" se sua intenso  zero ou universal, mas elas          (sinttica).
so analiticamente confrontveis" (Analysis of
Knouiedge and Valuation, 1946, p. 86). Por                    SINOPSE (gr. avoxjn; in. Synopsis; fr.
'expresses que tm intenso zero ou univer-             Synopsis; ai. Synopsis; it. Sinoss). Viso de con-
                                                          junto. Plato emprega esse termo para indicar
sal", Lewis entende expresses como "ser'',               o primeiro momento do procedimento dialtico,
"entidade", "coisa", "qualquer coisa" (Ibid., p.          que consiste em reunir uma multiplicidade
87). Carnap, por sua vez, observou: "Se pedi-             numa nica idia (Rep., 537 e; Fed., 265 d).
mos a traduo exata de dada assero de                  Esse termo tambm foi empregado por Kant na
uma lngua para outra, p. ex. de uma hiptese             primeira edio da Crtica da Razo Pura, na
cientfica ou de um testemunho em tribunal,               expresso "a sinopse aprori&A multiplicidade
costumamos esperar mais que a concordncia                por meio do sentido" (Crt. R. Pura,  14, ao
das intenses dos enunciados. (...) Mesmo se              final), que seria a apreenso da multiplicidade
restringirmos nossa ateno a significados                sensvel nas formas da intuio (espao e tem-
designativos (cognitivos), a equivalncia lgi-           po), que ele distingue da sntese imaginativa e
ca dos enunciados no ser suficiente; ser               da sntese conceituai.
preciso que pelo menos alguns dos desig-
nadores constitutivos sejam logicamente                       SINTAXE (gr. cruvTi; lat. Syntaxis; in.
                                                          Syntax; fr. Syntaxe; ai. Syntux; it. Sinlassi).
equivalentes ou, em outras palavras, que as               1. Qualquer organizao, combinao ou sis-
estruturas intensionais sejam semelhantes".               tematizao de partes. O estico Crisipo define
A S. seria expressa, pois, por um "isomor-                como "S. do todo" o destino que governa a
fismo intensional", cujas regras Carnap ex-               ordem do mundo (Stoicorum fragmenta, II,
pe (Meaning and Necessity, 1957,  14, 15).             p. 293).
SINTIJCO                                                      905                                             SNTESE

    2. Uma das dimenses do procedimento                             que no se extingue no peito de Ado depois
semiolgico (v. SEMIOSK), que  a possibilidade                      de sua expulso do Paraso" (Comni. in Kzech.,
de combinar signos com base em regras deter-                         em P. L, 25, col. 22). Reaparece em outros pa-
mina veis. Neste sentido pode-se falar, p. ex., de                   dres cia igreja (Baslio, Gregrio, o Grande) e
"S. dos sons" ou "das cores", etc.                                   nos Vittorini. Mas foi s em Bonaventura e em
   3. A cincia que estuda as formas gramati-                        Alberto Magno que se transformou em faculda-
cais ou lgicas da linguagem, entendendo-se                          de natural de juzo moral, que guia o homem
por formas as suas possibilidades de combina-                        para o bem e cria nele o remorso pelo mal. So
o. Mais particularmente, Carnap definiu a S.                       Boaventura considera a S. como a iluminao
lgica das linguagens como "a teoria formal                          que Deus concede ao intelecto humano no do-
das formas lingsticas, a declarao sistemti-                     mnio prtico, correspondendo  iluminao
ca das regras formais que a regem, as lingua-                        que, no domnio terico, o leva para a cincia.
gens e as conseqncias decorrentes dessas                           (In Sent., II, d. 39 a. 2, q. 1). Portanto a S.  "o
regras". Carnap acrescenta que "uma teoria,                          pice da mente", o ltimo grau da ascenso a
uma regra, uma definio, etc. deve ser chama-                       Deus, o que precede imediatamente o arreba-
da de formal quando no faz qualquer refern-                        tamento final (Itinerarium mentis in Deiun, I,
cia ao significado dos smbolos (p. ex., das pa-                     6). Definio anloga aparece em Alberto Mag-
lavras) ou ao sentido das expresses (p. ex.,                        no (S. Th., II, 16, q. 99). S. Toms modificou
dos enunciados), mas unicamente s espcies                          seu conceito, transformando-o de noo msti-
e  ordem dos smbolos com que as expresses                         ca cm noo moral, vale dizer, deixando de
so construdas" (Logische Syntax der Spracbe,                       consider-lo como luz proveniente do alto, e
1934,  1). Carnap identificou com a S. toda a                       considerando-o como hbito moral. Diz: "A S.
lgica ou metodologia das cincias (Ibid.,  81),                    no  um poder especial superior  razo ou 
com base na considerao de que "para deter-                         natureza, mas  o hbito natural dos princpios
minar se um enunciado  ou no conseqncia                          prticos, assim como o intelecto  o hbito dos
de outro, no  necessria qualquer referncia                       princpios especulativos" (S. Tb., I, q. 39, a. 12;
ao significado dos enunciados"; portanto, "uma                       De ver., q. 16, a. 1). Assim como o intelecto
lgica especial do significado  suprflua; tuna                     apreende os princpios ltimos que servem de
lgica no formal'  uma contradio nos ter-                        fundamento  cincia, a S. apreende os princ-
mos. A lgica  S." (Ibid.,  71). Mais tarde, o                     pios que servem de fundamento  atividade
prprio Carnap admitiu a diviso da anlise da                       prtica. Esse conceito no foi alterado pelos
linguagem ou semitica em pragmtica, se-                            escritores escolsticos posteriores (cf. p. ex.,
mntica e S., considerando o ponto de vista                          Di'NS SCOT. Op. Ox., II, d. 39, q. 2, a. 4). Essa
sinttico como o procedimento que abstrai do                         noo reaparece, mas raramente, em escritores
fator semntico (Foundations of Logic and                            posteriores: foi utilizada por Nicolau de Cusa,
Mathematics, 1939.  8).                                             em seu significado mstico (De visioneDei, ed.
                                                                     Bohnenstadt, pp. 150 ss.); foi empregada com
   SINTLICO (in. Syntelic; fr. Syntlique. it.                      o mesmo significado por B. Gracin: " o trono
Sintelico). Termo empregado por G. M. Bald-                          da razo, a base da prudncia, porque graas a
win para designar os elementos prticos co-                          ela custa pouco vencer. E presente do cu, o
muns a vrios indivduos, mas nem por isso                           mais cobiado. (...) Consiste na propenso ina-
necessariamente vlidos: elementos que cor-                          ta a tudo o que mais se conforma  razo,
respondem quilo que  chamado de sin-                               sempre em conjunto com o que h de mais
dxico no domnio do conhecimento ( Thought                          certo" (Orculo manual, 1647,  96).
and Things, 1906, III 79-80).
    SINTRESE(gr. o\)VTiipr)oi; lat. Synteresis-                        SNTESE (gr. ouveEOt; lat. Synthesis, in.
in.   Synteresis;   fr.   Syntrse,   a.   Synteresis, it.         Synthesis; fr. Syntbse; ai. Synthese-, t. Sintesi).
Sinteresi). Diretriz da conscincia moral do ho-                     Este termo, alm do significado comum de uni-
mem ou essa mesma conscincia. Esse termo                            ficao, organizao ou composio, tem os se-
significa "conservao" e foi empregado pela                         guintes significados especficos: 1Q mtodo cog-
primeira vez para indicar a conservao cio cri-                     nitivo oposto a anlise; 2- atividade intelectual;
trio do bem e do mal por parte de Ado,                             5" unidade dialtica dos opostos; 4- unificao
depois da expulso do Paraso. Nesse sentido,                        dos resultados das cincias na filosofia.
foi So Gernimo o primeiro a usar a palavra,                            1'-' No primeiro significado, como um dos
designando com ela "a centelha de conscincia                        mtodos fundamentais do conhecimento (em
SNTESE                                             906                                            SNTESE

oposio a anlise), a sntese pode ser conside-          quisermos descobrir a origem primeira de nos-
rada como o mtodo que vai do simples ao                  so conhecimento" (IbicL). Portanto, a S. pura
composto, dos elementos s suas combinaes,              precede qualquer anlise, pois s se pode
nos objetos cuja natureza se pretende explicar.           analisar o que j se deu unido num ato cog-
A oposio dos dois mtodos foi expressa pela             noscitivo. A S. pura, que  possvel a priori,
primeira vez por Descartes (Rp. au.x II ob/ec-           pode ser distinguida da S. figurada (Synthesis
tions; v. ANI.ISK); l.eibniz assim a expressava:         speciosa) e da sntese intelectual (Synthesis in-
"Chega-se muitas vezes a belas verdades por               tellectualis): ambas so transcendentais por-
meio da S., indo do simples ao composto, mas              que constituem a possibilidade de qualquer co-
quando  preciso encontrar o meio de tazer aqui-          nhecimento, mas enquanto a segunda unifica
lo que se prope, a S, normalmente no basta              uma multiplicidade puramente pensada, a fi-
(...) e cabe  anlise ciar-nos o tio condutor,           gurada  uma S. da multiplicidade cia intuio
quando isso  possvel, porque h casos em                sensvel, ou melhor,  uma S. da imaginao
que a natureza do problema exige que se pro-              entendida como "faculdade de determinai a
ceda tateando, e nem sempre  possvel cortar             priori a .sensibilidade" (Ihid..  24).  nessa S.
caminho" (Nouv. ess., IV. 2, 7). Segundo Kant.            transcendental da imaginao que se baseia o
o mtodo sinttico  "progressivo", ao passo               cogito, ou apercepo originria (v.). Mas.
que o analtico  "regressivo", vai do objeto s          como todo conhecimento  sntese e o conhe-
condies que o possibilitam (Prol.,  5, nota).          cimento efetivo, segundo Kant,  a experincia,
Segundo Kant. o procedimento da filosofia                Kant chama a experincia de "sntese, segundo
analtico, enquanto o da matemtica  sintti-            conceitos, do objeto dos fenmenos em geral"
co, mas neste caso os dois termos no tm                 (Crt. R. Pura, Anal. dos princ, cap. 11. se.
nenhuma relao com a classificao dos juzos            II). Na primeira edio, Kant falara em trs
em analticos e sintticos. Em geral, assim como          espcies de S.: Ia S. cia apreenso ra intuio; 2a
o procedimento analtico  caracterizado pela             S. da reproduo na imaginao; 3J S. da
presena de dados (inerentes ao objeto ou                 recognio no conceito (Crt. R. Pura, 1- ecl.,
situao a ser resolvida) que o guiam e contro-           An. transe. I Livro, cap. 2, se. 2). Mas tanto
lam, o procedimento sinttico pode ser carac-             na primeira quanto na segunda edio Kant re-
terizado pela ausncia de tais dados e pela pre-          duziu qualquer espcie ou grau de atividade
tenso, inerente a ele. de produzir por si mesmo          cognitiva a S. Fsse foi um dos aspectos mais
os elementos de suas construes (v. FILOSOFIA).          evidenciados e discutidos cie sua obra. Enquanto
     2" No segundo significado, o termo designa           a noo de S. mudava de natureza no idealismo
a unio do sujeito e do predicado na proposi-             (v. mais adiante), era retomada e adaptada por
o, portanto o ato ou a atividade intelectual            outros filsofos de maneiras diferentes. Galluppi
que realiza tal unio. Foi neste sentido que              inverteu o ponto de vista kantiano, pondo a
Aristteles utilizou o termo, ao dizer que "onde          anlise antes cia sntese. "A S.  a faculdade de
est o verdadeiro e o falso est tambm certa S.          reunir as percepes separadas pela anlise. A
de pensamento semelhante  S. que h nas                  anlise , pois. uma condio essencial para a
coisas" (Dean., III. 6, 430 a 27), e "o que cria          sntese" (Saggiofil. sulla critica delia conos-
essa unidade  o intelecto" (Ibci.. 430b 5). Mas         cenza, 1831, II,  146). Alm disso, fez a dis-
foi Kant quem mais utilizou o conceito de S.,             tino entre a S. ideal objetiva, que consiste em
reduzindo a ela todas as espcies de atividade            reconhecer as relaes objetivas que existem
intelectual. Definiu a S. em geral como "o ato            entre as coisas, S. imaginativa civil, que con-
de unir diferentes representaes e de com-               siste em reunir numa representao complexa,
preender essa unidade num nico conhecimen-               que no corresponde a nenhum objeto, dife-
to" (Crt. R. Pura,  10), e distinguiu numerosas         rentes representaes, cada uma das quais tem
espcies de S. com base nos elementos que                 um objeto, e S. imaginativa potica, que 
nela se encontram. Km primeiro lugar, fez a               uma espcie da precedente (Ibid.. III,  147-
distino entre S.pura, na qual a multiplicidade           149). Por sua vez, Rosmini chamava S. primiti-
no  dada empiricamente, mas apriori(como                 veis sua "percepo intelectiva" (Nuovosaggio,
a do espao e do tempo), e a S. emprica, em               46:  528, etc). Em geral, o conceito de S.
que a multiplicidade  dada empiricamente. A              continuou expressando em filosofia a ativida-
S. pura  "o ato originrio do conhecimento, o            de ordenadora. organizadora e sstematzadora
 primeiro fato ao qual devemos dar ateno se             do intelecto. Os neokantianos fizeram amplo
SNTESE                                                 907                                    SINTETICIDADE

uso dessa noo. Para A. Riehl, em especial, a                nalmente volta a compreend-lo em si mesmo
atividade sinttica  a funo fundamental da                 (System destranszendentalenIdealismus, 1800,
conscincia e o a priori de todo o conheci-                   III, cap. I; trad. it., pp. 58 ss.). Hegel, no entan-
mento    (Derphilosophsche   Kriticismus,   II,   2,         to, preferiu os termos "identidade" ou 'unida-
188 7, p. 68). Outros neokantianos, como                      de", mesmo lamentando que a palavra unidade
Cohen, preferiram o conceito de origem, e                     indicasse, bem mais que "identidade" uma "re-
no de S. (Logik der reinem Erkenntnis, 1902,                 flexo subjetiva". A unidade ou a identidade
p. 36). Wundt introduziu esse conceito em                     que fecha uma trade dialtica  uma conexo
psicologia e falou do "princpio da S. criativa",             objetiva; segundo Hegel, seria melhor cham-la
segundo o qual ''no s as partes que com-                    de "inseparabilidade" se, desse nome, no fosse
pem uma S. aperceptiva adquirem, ao lado                     excluda a natureza positiva da S. (Wissenschaft
do significado que tinham isoladamente, um                    der Logik, I, livro I, se. I, cap. I, e, nota 2;
novo significado, devido  sua conexo na                     trad. it., p. 85). Na linguagem filosfica france-
representao total, como tambm essa re-                     sa e italiana, a palavra S. foi preterida a "iden-
presentao  um novo contedo psquico,                      tidade" ou "unidade" para indicar o momento
que  possibilitado pelas partes componen-                    resolutivo do procedimento dialtico, que 
tes, mas no consiste nelas" (rundriss der                   realmente o momento produtivo e criativo. O.
Psychologie, 1896, p. 394). Por outro lado. a                 Hamelin falou em mtodo sinttico, que con-
filosofia fenomenolgica evidenciou a funo                  sistiria em "mostrar a conexo necessria entre
da S. na "constituio das objetiv idades de cons-            noes opostas"; sua mola seria a cotrelao,
cincia". Husserl acredita que todo objeto de                 graas  qual os opostos remetem um ao outro
                                                              e colaboram entre si (Essai sur les lments
conhecimento em geral  uma "unidade sint-                   priiicipaux de Ia representativa, 1907, p. 20).
tica", uma S. de conscincia (Ideen, I,  86).                Os idealistas italianos (Croce e Gentile) empre-
Faz a distino entre S. conlinuativas, do tipo,              garam a expresso S. a priori no sentido de ati-
p. ex., que constitui a espacialidade, e as S.                vidade produtiva ou criadora. Com ela Gentile
articuladas, que so os modos particulares,                   entendeu auto-sntese, que seria "posicionar-
em que atos separados uns dos outros se                       se na sua prpria identidade e diferena", que
conectam num nico ato sinttico de grau su-                   a autocriao (Sistema di lgica, II, 3a ed.,
perior. So S. articuladas, p. ex., os atos de                1942, p. 83, cf. I, 2a ed., 1922, p. 27). Croce
preferncia ou as emoes simpticas; alm                    falou da S. a priori como atividade criadora do
disso, h as S. coligantes, disjungentes (que                 esprito: "A S. a priori pertence a todas as for-
visam a isto ou quilo) e explicitantes, que                  mas do Esprito porque o Esprito, considerado
determinam as formas da lgica e da ontologia                 genericamente, nada mais  que S. a priori: e
formal (Ideen, I,  118).                                     esta se explicita na atividade esttica e na pr-
    3o A noo de S. como unidade dos contr-                 tica, bem como na atividade lgica" (Lgica, 4a
rios nasceu com o conceito correlato de dia-                  ed., 1920, p. 141). Para ele, a S. a priori era a
ltica (v.) e foi exposta pela primeira vez por               identidade entre filosofia e histria, pois ela
Fichte, que diz: "O ato pelo qual se busca, nas               "contm em si a historidade que seu descobri-
comparaes, a caracterstica graas  qual as                dor [Kant] omitia ou desconhecia" (Ibid., p. 369).
coisas comparadas so opostas entre si chama-                    4y Finalmente, entendeu-se por S. a unifica-
se procedimento antittico (chamado ordi-                     o dos resultados finais das cincias especfi-
nariamente analtico). (...) O procedimento sin-              cas no seio da filosofia primeira, segundo o
ttico, ao contrrio, consiste em buscar nos                  conceito positivista de filosofia (v.). Tal S. foi
opostos a caracterstica graas  qual eles so               chamada de subjetiva por Comte, que a consi-
idnticos" (Wissenschaftslehre, 1794,  3-D, 3).              derava imprescindvel em vista das necessida-
A lei dessa identidade  que "nenhuma anttese                des naturais do homem (S. subjetiva ou siste-
 possvel sem uma S. porque a anttese consis-               ma universal das concepes prprias do
te precisamente em buscar nos iguais a caracte-               estado normal da humanidade, 1856, I). Pelo
rstica oposta, mas os iguais no seriam iguais               mesmo motivo, Spencer chamou o conjunto de
se antes no tivessem sido postos como                        sua obra de "Sistema de filosofia sinttica"; o
iguais por um ato sinttico" (Ibid.,  3, D, 3).              primeiro volume  constitudo pelos Primeiros
Schelling falava de um "processo que vai da                   princpios (1862).
tese  anttese e depois  sntese", em virtude                  SINTETICIDADE (in. Syntbeticity). Valida-
do qual o eu afirma o objeto, ope-se a ele e fi-             de das proposies que depende dos fatos.
SINTETISMO                                         908                                            SISTEMA


Feio menos este  o significado que hoje se              mente, e nada houvesse de melhor a fazer (cf.
costuma atribuir ao adjetivo sinttico quando se         W.   T.   KRUG,     Fundamentalphilosophie,   1818;
refere a proposies ou enunciados. Kant, a              HEGEL, Ene.  250, nota). Rosmini chamou de
quem se deve a introduo dos termos analti-            S. a unio do princpio senciente com o corpo,
co e sinttico, empregou-os para distinguir os           sentido no ser animado, e em geral a unio de
juzos explicativos e os juzos extensivos. Os           elementos diferentes, um dos quais espiritual e
primeiros nada acrescentam, por meio do                  o outro material, em todos os aspectos da rea-
predicado, ao conceito do sujeito, mas limitam-          lidade. Neste sentido, ele disse que o S. "
se a dividir por meio da anlise o conceito em           lei e chave da natureza cie todas as coisas cio
seus conceitos parciais, que nele j eram pen-           universo" (Antropologia,  325; Psicologia, I,
sados, ainda que confusamente; os segundos,              34ss.).
pelo contrrio, acrescentam ao conceito do su-               SINTOMA. V. INCONSCIENTE; PSICANLISE.
jeito um predicado que no estava contido nele               SISTEMA (gr. aoTr|ua; in. System; fr. Sys-
nem podia ser dele deduzido por anlise" (Crit.          tnie, ai. System: it. Sistema). 1. L'ma totalidade
R. Pura, Intr.,  IV). Mas, segundo Kant, os             dedutiva de discurso. Essa palavra, desconheci-
juzos sintticos so no apenas os que se refe-         da neste sentido no perodo clssico, foi em-
rem a coisas de fato, mas tambm os da mate-             pregada por Sexto Emprico para indicar o con-
mtica e da fsica pura, porquanto baseados na           junto formado por premissas e concluso ou o
intuio a priori do espao e do tempo e nas             conjunto de premissas (Pirr. byp., II, 173), e
categorias, sendo por isso chamados de "juzos           passou a ser usada em filosofia para indicar
sintticos a priori". Na filosofia contempor-           principalmente um discurso organizado dedu-
nea, porm, a S. como carter das expresses             tivamente, ou seja, um discurso que constitui
foi entendida no sentido das "proposies de             um todo cujas partes derivam umas das outras.
fato" cie Humc ou das 'verdades de fato" de             Leibniz chamava de S. o repertrio de conheci-
Leibniz (v. EXPERINCIA; FATO), OU seja, como            mentos que no se limitasse a ser um simples
proposies que se referem a situaes ou                inventrio, mas que contivesse suas razes ou
estados de coisas e que podem ser verdadeiras            provas e descrevesse o ideal sistemtico da
ou falsas em relao a elas. Carnap diz: "Uni            seguinte maneira: "A ordem cientfica perfeita
enunciado sinttico  verdadeiro s vezes --              aquela em que as proposies so situadas
quando existem certos fatos -- e s vezes falso;         segundo suas demonstraes mais simples e de
portanto, ele diz algo sobre quais os fatos que          maneira que nasam umas das outras" (Me-
existem. Os sintticos so os enunciados autn-          thode de Ia certitude, Op., ed. Erdmann, pp.
ticos acerca da realidade" (Lugische Syntax der          174-75). Wolff, por sua vez, dizia: "Chama-se
Spracbe,  14). Todavia, os lgicos muitas vezes         cie S. um conjunto de verdades ligacias entre si
preferem definir negativamente os enunciados             e com seus princpios" (Log.,  889). A noo de
sintticos, como enunciados que no so anal-           S. moldava-se assim na de procedimento mate-
ticos nem contraditrios:  o que fazem, p.              mtico. Kant subordinou-a a outra condio: a
ex., Lewis (Analyss of Knouiedge and Valua-             unidade do princpio, que fundamenta o siste-
tion, 1946, p. 35) e Rechenbach (Tbeory of              ma, pois ele entendeu por S. "a unidade de
Probabilty, 1949, p. 20). Assim como as                 mltiplos conhecimentos, reunidos sob uma
proposies analticas (v. ANALITICIDADE) so            nica idia"; afirmou que o S.  um todo orga-
chamadas de "verdades necessrias" porque                nizado finalisticamente, sendo portanto uma
sua negao  impossvel, tambm as propo-               articulao (aiUculalio), e no um amontoado
sies sintticas so chamadas freqente-                (coacervatio): pode crescer de dentro para fora
mente de contingentes, no sentido de no                 (per intussusceptonem), mas no de fora para
serem nem necessrias nem impossveis (cf.               dentro (per appositionem), sendo, pois, seme-
CARNAP, Meaning and Necessity,  39).                    lhante a um corpo animal, cujo crescimento
                                                         no acrescenta nenhum membro, mas, sem al-
    SINTETISMO (ai. Synthetismus). Esse no-              terar a proporo do conjunto, torna cada um
me, que se baseia na unidade de ser e saber,             dos membros mais forte e mais apto a seu ob-
foi dado  sua filosofia por um certo "Senhor            jetivo (Crt. R. Pura, Doutr. do mtodo, cap.
Kmg", que desafiou Hegel a deduzir nem que               III). Com base nisso, Kant fala de "unidade
fosse a pena com que escrevia, ao que Hegel              sistemtica do conhecimento, da qual as idias
respondeu que isso no seria impossvel,                 da razo pura tentam aproximar-se" (Ibid.,
quando a cincia tivesse progredido suficiente-
SISTEMA                                                 909                                          SISTEMA


Dialtica, cap. II, se. I). A unidade do S., ou                  O ideal de S. como organismo dedutivo ba-
seja, sua possibilidade de derivar de um nico                seado num nico princpio continuou sendo
princpio,  a caracterstica que determinou o                patrimnio da filosofia, que o cultivou mesmo
sucesso dessa noo na literatura filosfica ro-              quando -- a exemplo de Kant -- declarou que
mntica. Constitui o ideal da teoria da cincia               esse ideal era inatingvel pelo conhecimento
de Fichte: "Se no deve haver somente um ou                   humano. Contudo, esse termo foi e  empre-
vrios fragmentos de S., nem mesmo vrios S.,                 gado tambm sem relao com este signifi-
mas um S. nico e perfeito do esprito humano,                cado, para indicar qualquer organismo dedu-
ento dever haver um princpio fundamental                   tivo, mesmo que no tenha um princpio nico
absolutamente primeiro e supremo. H embora,                   corno fundamento.  o caso dos S. cie que hoje
a partir dele. nosso saber se expanda por si em               se fala em matemtica e lgica. Os S. hipotti-
tantas sries, das quais procedem outras s-                  co-dedutivos. abstratos, axiomticos, etc. no
ries e assim por diante, todas essas sries de-               so S. por terem um princpio nico; alis,
vem unir-se num s elo, que no est preso                    os seus princpios, que so os axiomas, de-
a nada, mas se mantm e a todo o sistema                      vem ser independentes entre si, no devem
por sua prpria fora" (Uber den Begriffder                   poder ser deduzidos um do outro (v. AXIOMA,
 Wissenschaftslehre, 1794,  2; trad. it., p. 19). Na         ASIOMATI/.ACO). So chamados de S. unica-
                                                              mente por seu carter dedutivo, e no mesmo
filosofia romntica  lugar-comum considerar
                                                              sentido fala-se de S. numrico e, s vezes, de
o S. como forma da cincia, que supe um                      \S. de axiomas" para indicar um simples con-
princpio nico e absoluto. A origem disso  o                junto no contraditrio de proposies primiti-
ideal matemtico, no qual Leibniz, Wolff e o                  vas (cf. M. R. COHF.N H. NAGEL. "The Nature of
prprio Kant se haviam inspirado; mas esse                    a Logical orMathematical System", em Readngs
ideal acaba por voltar-se contra a prpria ma-                itl the Philosophy of Science. 1953, pp. 129
temtica e sendo reivindicado exclusivamente                  ss-). Isso significa que o uso dessa palavra
para a filosofia. Shelling dizia: "Admite-se em               perdeu o significado forte ou elogioso de dis-
geral que  filosofia convm uma forma espe-                  curso dedutivo.
cificamente sua. que se chama de sistemtica.
Pressupor tal forma no deduzida cabe a ou-                       2. Qualquer totalidade ou todo organizado.
tras cincias, que j pressupem a cincia da                 Neste sentido, fala-se em "S. solar", "S. nervo-
cincia, mas no a esta, que se prope como                   so", etc, e tambm de "classificao sistemti-
objeto a possibilidade de semelhante cincia"                 ca ou, mais simplesmente, de S. em lugar de
(System des transzendentalen ldealismus, 1800,                classificao, como fez I.ineu, quando quis
I, cap. I; trad. it., p. 27). Hegel s fez sancionar          insistir no carter ordenado e completo de sua
o mesmo ponto de vista: "A cincia do Absolu-                 classificao (Systema nalurae. 1735).
to  essencialmente S., porque o verdadeiro,                      Desse ponto de vista, s vezes se faz a dis-
como concreto,  tal apenas na medida em que                  tirio entre o S. como conjunto contnuo de
se desenvolve em si, se rene e mantm em                     piirtes que tm inter-relaes diversas e a
unidade, vale dizer, como totalidade, pois s                 estrutura (v.) ou a organizao que os compo-
pela diferenciao e pela determinao de suas                nentes dele podem assumir em determinado
                                                              momento (W. BUCKLKY. Sociology and Modem
diferenas so possveis a necessidade destas e
                                                              System 'lheoty, 1967, p. 5).
a liberdade do todo" (Une,  14). Hegel acres-
centa que "um filosofar sem sistema no pode                      3. Qualquer teoria cientfica ou filosfica,
ser nada cientfico" porque expressa um modo                  especialmente quando se quer ressaltar seu ca-
de sentir subjetivo; e em oposio s doutrinas               rter escassamente emprico. No sc. XVIII fala-
                                                              va-se de "S. do mundo" para indicar as teorias
romnticas irracionalistas ou tidestas ele im-
                                                              cosmolgicas (cf., p. ex., D'AI.KMKERT, (Euinvs.
pe a exigncia sistemtica. Essa mesma exi-                  etl. Conclorcet, pp. 165 ss.). Leibniz chamava
gncia manteve-se e foi valorizada nas filosofi-              de S. stias teorias sobre a relao entre a alma e
as idealistas. Croce dizia: "Pensar determinado               o corpo ou entre as diferentes substncias
conceito puro significa pens-lo em sua rela-                 (Svstme nourean de Ia nature et de Ia com-
o de unidade e distino com os outros to-                  munication dessubstances, 1695). Baumgarten
dos; assim, o que se pensa nunca  realmente                  chamava de S. psicolgicos as "opinies que
um conceito nico, mas um S. de conceitos, o                  parecem aptas a explicar a relao entre alma e
Conceito" (Lgica, 4a ed., 1920, p. 172).                     corpo" (Met..  761); no mesmo sentido, mas de
SISTEMA LOGSTICO                                              910                                           SITUAO

maneira depreciativa, os iliiministas falavam de                     ma um sistema, mas em seu uso puro, por
S. e de esprito sistemtico. Diderot dizia:                         simples conceitos,  apenas um sistema de
"Chamo de esprito sistemtico o costume de                          investigao, segundo princpios, da unida-
traar planos e criar sistemas do universo, para                     de  qual a experincia s pode fornecer a
depois pretender adaptar-lhes os fenmenos,                          matria" (Crt. R. Pura, Doutr. do mt., cap. I,
pela razo ou pela fora" (Giuvres, p. 291).                         se. I). F.ssa noo firmou-se principalmente
D'Alembert falava igualmente de S. como "so-                         no criticismo alemo. Natorp falava de "S. filo-
nhos dos filsofos" (cf. p. ex.. Giuvres, ed.                        sfica" no sentido cie investigao destinada a
Conclorcet, p. 234). Hegel queixava-se desse                         conferir ao saber filosfico a unidade prpria
uso dos filsofos franceses, para os quais, se-                      do sistema (Philosophische Systematik,  1).
gundo ele. S. coincidia com unilateralidade ou                           SISTEMTICO (in. Systemalic, fr. Systma-
o dogmatismo (Gescbichte der Pbilosophie, I.                          tique, ai. Systematisch; it. Sistemtico). 1. Que
c a p . III, se. I, B. 4; trad. it.. II. p. 293: I. c a p .         constitui sistema ou pertence a um sistema,
III, se. III, E; trad. it., III, 1, p. 29). Esse u s o              em qualquer dos sentidos dessa palavra.  nes-
m a n t e v e - s e na Frana m e s m o no sc. XIX (cf.             te sentido que se diz "saber S." ou "erro S."
E. BKKNAKD, Introduction  Ia medicine expri-                           2. Que tende para o sistema, mas no 
mentale. 1865, I, II,  6).                                          um sistema: com referncia a sistemtica.
  SISTEMA LOGSTICO (in. Logistic sysiem;                            Neste sentido, N. Hartmann distinguia na
fr. Systme logistic/ue, ai. I.ogistiches System; it.                histria da filosofia o pensamento-sistenui.
Sistema logstico). Clculo lgico ao qual no se                    voltado para a construo do sistema, e o pen-
d nenhuma interpretao. Para constituir um                         satnento-probtema, que se mantm na inda-
S. logstico so suficientes:                                        gao aberta (Systematische Pbilosopbie,
     1" um vocabulrio de smbolos primitivos:                       1931,  1). Alm disso, segundo ele, "j ficou
     2- as regras de formao que determinam                         para trs o tempo das vises S., e a filosofia
quais as combinaes de smbolos primitivos                          S. acabou no terreno despretensioso mas
so permitidas e quai.s no so:                                     slido da indagao problemtica" (Derpbi-
    3" regras de inferncia, ou seja. de transfor-                   losophiscbe Gedanke und seine Geschichte,
mao das expresses compostas que do ori-                          III, 4; cf. Zur Grundlegung der Ontologia;
gem a outras;                                                        1935, p. 31).
    4Q algumas proposies primitivas ou axio-                           SITUAO (in. Situation; fr. Situatioti; ai.
mas.                                                                 Sititation; it. Situazione). A relao do homem
     Distingue-se do S. logstico a linguagem for-                   com o mundo, na medida em que limita,
mal, pois a esta ltima  dada certa interpreta-                     condiciona e, ao mesmo tempo, fundamenta e
o. Para passar do S. logstico  linguagem for-                    determina as possibilidades humanas como
mal so. pois. necessrias algumas regras                            tais. Esse termo foi introduzido por Jaspers,
semnticas que atribuam um significado s fr-                       que; assim o explicava: "A situao externa,
mulas do sistema. Pode-se dizer tambm que a                         apesar cie to mutvel e diferente, segundo o
diferena entre S. logstico e linguagem formal                      homem ao qual se aplica, tem a seguinte carac-
6 que o primeiro tem somente regras sintti-                         terstica tpica: para todos tem duas faces, incita
cas e a segunda tem tambm regras semnti-                           e obsta, inevitavelmente limita e destri,  am-
cas (d., sobre isso, A. CHURCH, "The Need for                        bgua e insegura" (Psycbologie der Weltans-
Abstract Entities in Semantic Analysis", em                          chciuungen, 1925, cap. III,  2; trad. it., p. 268).
Proceedings of tbe American Academy ofArts                           Jaspers falava tambm de situaes-limite que
and Sciences, 1951, pp. 100 ss.; Introduction to                     possuem em grau elevado as caractersticas
Mathematcal Logic. 1956) (v. CLCULO, FOR-                          prprias de qualquer S. do homem no mundo.
MALIZAO).                                                          Tais so as situaes imutveis, definitivas,
    SISTEMTICA (in. Systematics; fr. Systma-                       incompreensveis, nas quais o homem se acha
tique, ai. Systematik; it. Sistemtica'). Tcnica,                   corno se estivesse diante de um muro contra o
caminho ou meio de realizar o sistema. F.ssa                         quul se choca sem esperana. So elas: estar
noo deriva do princpio kantiano de que o                          sempre em determinada situao; no poder
sistema  o ideal regulador da investigao filo-                    viver sem luta e sem dor; a necessidade de
sfica, e no sua realidade. "No entanto -- diz                      assumir culpas; ter a morte como destino
Kant -- o mtodo pode sempre ser sistemtico.                        (PhiL, II, p. 209). Nessas situaes Jaspers via a
Pois nossa razo (subjetivamente)  por si mes-                      C(/>YI (v.) (revelao negativa) da existncia.
SIT VERUM                                                911                                               SOBERBA


Heidegger notou que esse termo tambm tem                      autnomos e estveis nem em si mesmos, nem
significado espacial, mas designa sobretudo a                  na vontade pessoal dos indivduos, mas de te-
determinao pela qual a existncia, como ser                  rem razes profundas na unidade do listado --
no mundo, decide acerca de seu prprio lugar                   que outra coisa no  seno a identidade deles
(Sei ri nnd Zeit,  60). A existncia impessoal                -- constituem a S. do Estado" (/';'/. do dir.,
acha-se diante de "S. gerais" e perde-se nas                    278). Hegel esclarece esta noo dizendo: "O
oportunidades mais prximas. A conciamao                     idealismo que constitui a S.  a mesma determi-
da conscincia leva o homem  presena de                      nao segundo a qual, no organismo animal, as
sua situao prpria e  exigncia de uma deci-                chamadas partes deste no so partes, mas
so autntica (Ibicl.,  60). Em sentido seme-                 membros, momentos orgnicos cujo isolamen-
lhante se disse: "A necessidade da relao en-                 to ou existncia por si  enfermidade" (Ibid.,
tre a finitude do ente e a determinao cons-                   278). Essas determinaes de Hegel so diri-
titutiva do mundo e do outro ente  a S. exis-                 gidas contra o princpio afirmado pela Revolu-
tencial cio ente. (...) O constituir-se do ente na             o Francesa, de que a S. est no povo. Rous-
S. que o individualiza na sua finitude  o acon-               seau qualificara de soberano o corpo poltico
tecer do ente, sua bistoricidade fundamental                   que nasce com o contrato social (Conlrat so-
(ABBAGNANO, Estrutura da existncia, 1939,
                                                               cial, I, 7) e assim definira o seu poder: "O cor-
 70). F Sartre disse: "Se opara-si\n conscincia
do homem] nada mais  que sua situao, de-                    po poltico ou soberano, cujo ser deriva to-so-
corre que o ser em S. define a realidade huma-                 mente da santidade do contrato, nunca pode
na, dando conta ao mesmo tempo de seu estar                    obrigar-se, nem mesmo em relao a outros, a
ac de seu estar alm. Com efeito, a realida-                  nada que derrogue aquele ato primitivo, que
de humana  o ser que est sempre alm de                      seria a alienao de alguma parte de si mesmo
seu ser-a. F a S.  a totalidade organizada do                ou a sua submisso a outro soberano. Violar o
ser-a. interpretado e vivido por e para o ser.                ato graas ao qual existe significaria anular-se;
alm deste mesmo ser" (L'tre et le nant,                     e o que nada  nada produz " (Ibid., I. 7). Por-
 1943, p. 6.34).                                               tanto, o princpio da S.  ser o poder mais alto
                                                               em certo territrio: isso no significa poder ab-
    F.m sentido psicolgico, mais precisamente                 soluto ou arbitrrio. Para a moderna teoria do
gestltico (v. PSICOLOGIA), esse termo foi utiliza-            direito, a S. pertence  ordenao jurdica (v.
do por Dewey, que identificou a S. com o cam-                  ESTADO), sendo entendida como a caracterstica
po {Logic, 1939, I, cap. IV; trad. it.. pp.                    em virtude da qual "acima cia ordenao jurdi-
 111 ss.). Mas o prprio Dewey insistiu no ca-
                                                               co-estatal no existe outra" (II. KHLSKN. General
rter objetivo da S. (Ibicl.. cap. IV,  1) trad. it..
                                                               'heoiyofl.aii'and State,   1945; trad.   it., p. 390).
 159 ss.).
                                                               Segundo Kelsen, se admitirmos a hiptese da
    SIT VERUM. Lima das obrigaes (v.) da                     prioridade do direito internacional, o Estado
lgica terminista medieval. Consiste em res-                   pode ser considerado soberano apenas em
ponder a Lima proposio como quem sabe
                                                               sentido relativo; se admitirmos a hiptese da
que ela  falsa, ou como quem sabe que ela 
verdadeira, ou como quem dela duvida (et.                      prioridade do direito estatal, pode ser chama-
OCKHAM, Summa log., III, III, 44).
                                                               do de soberano no sentido absoluto e origi-
                                                               nrio da palavra. A escolha entre as duas hi-
   SOBERANIA (in. Sovereignty, fr. Souverai-
                                                               pteses  arbitrria (Ibid., p. 391).
uet, ai. Souveranitt. it. Sovranita). Poder pre-
ponderante ou supremo do Estado, considera-                        SOBERBA (gr. xofuvxn; lat. Sitperbia; in.
do pela primeira vez como carter fundamental                  Pricle-, fr. Orgueil; ai. Hochmuth, it. Superbia).
cio Estado por Jean Bodin, em Sx livres de Ia                 Vcio correspondente  virtude da magnani-
rpublii{iie(\^n(-)). Segundo Bodin, a S. consis-              midade(v.) e que tem como extremo oposto a
te negativamente em estar liberado ou dispen-                  pusilanimidade, na tica de Aristteles. Segun-
sado das leis e dos usos do Estado; positiva-                  do ele. "os soberbos so insensatos porque se
mente, consiste no poder de abolir ou criar leis.              enganam sobre si mesmos: empreendem ta-
O nico limite da S.  a lei natural e divina (Si.x            refas honradas acreditando serem dignos delas,
livres de Ia republique, 9a ed., 1576, I, pp. 131-             mas com isso s demonstram sua pmpria insu-
32). O termo e o conceito foram aceitos por                    ficincia" (IX. nic, IV, 3. 1125 a 27). Essa defini-
Hegel: "As duas determinaes, de os negcios                  o tornou-se tradicional e foi repetida muitas
e os poderes particulares do Estado no serem                  vezes. Spinoza dizia: "A S.  uma alegria cuja
SOBRENATURAL                                          912                                         SOCIEDADE


origem est em o homem sentir-se mais do que                 fenda ou preconize a reorganizao da so-
" (Ibid., III, 26, scol.).                                  ciedade em bases coletivistas. Nesse sentido,
    SOBRENATURAL (in. Supernatitmk fr. Sur-                  so s. o de Plato e o de Marx, o de Owen e o
naturel; ai. Ubernatrlicb-, it. Soprannaturale).            de Proudhon, o de Lnin e o de Stlin. Refere-
O que acontece na natureza, mas no decor-                   se a esse significado a distino feita por Marx
re das foras ou dos procedimentos da natu-                  e Engels entre S. utpico, para o qual a socieda-
reza e no pode ser explicado com base neles.                de socialista  um ideal que no leva em conta
E um conceito prprio da teologia crist, que                as vias ou os modos de realiz-la, e o S. cient-
atribui  f a crena no S. assim entendido (et.            fico, que, sem apresentar qualquer ideal, prev
S. TOMS, S. 'lh., I, q. 99. a. 1).                          o advento inevitvel da sociedade socialista
    SOBRENATURALISMO (in. Supranatnra-                       com base nas prprias leis que determinam o
lisni. fr. Surnaturalisme; ai. Supranalurals-               desenvolvimento da sociedade capitalista (cf
 mus; it. Soprannaturalismo).\. Km geral, a cren-            sobre esta distino, especialmente: ENGELS,
a no sobrenatural. De modo mais especfico,                 Anticlibrinf>, 1878, introduo e cap. 1 da III
Kant chamou de S. "a doutrina que julga ne-                  parte).
cessria para a religio em geral a f na reve-                 Neste sentido, o termo  muito vago e incli-
iao sobrrtauraf" {Religiott, IX, l; frac. if..         c:t qcra/quer aspirao, ideal, tendncia ou dou-
Durante, p. 169).                                           trina que tenha em vista alguma transformao
   2. Corrente filosfica que defende a tradio            da sociedade atual em sentido coletivista.
catlica; difundiu-se na Itlia e na Frana entre               2- Em sentido mais restrito, entendem-se
o fim cio sc. XVIII e o incio do XIX e conta              por S. as correntes coletivistas que se distin-
com os nomes de De Bonald, De Maistre, Ros-                 guem do comunismo (v.) e se opem a ele,
mini, Lamenais, Gioberti. Seus partidrios fo-              enquanto: a) excluem a necessidade da ditadu-
ram tambm chamados de teocrticos ou ultra-                ra cio proletariado; b) excluem que tal ditadura
mundanistas (v. TRADICIONAUSMO).                            possa ser exercida, em nome do proletariado,
    SOBREVIVNCIA. V. IMORTAUDADH.                          por qualquer partido poltico; c) excluem a di-
    SOCIAL (in. Social; fr. Social; ai. Sozial; it.         ferena radical, que se observa nos pases
Sociale). Que pertence  sociedade ou tem em                de regime comunista, entre a qualidade de
vista suas estruturas ou condies. Neste senti-            vida da elite dirigente e a da maioria dos ci-
do, fala-se em "ao S.", "movimento S.",                   dados; d) excluem a subordinao da vida
"questo S.". etc.                                          cultural s exigncias do partido,  vontade de
    2. Que diz respeito  anlise ou ao estudo              seus dirigentes; e) exigem respeito s regras do
da sociedade. Neste sentido, fala-se em "eco-               mtodo democrtico.
nomia S.", "psicologia S.", etc. Em especial, a                 A distino das formas histricas que o S.
expresso cincias S. designa o conjunto das                assumiu diz respeito  poltica mais que  filo-
disciplinas sociolgicas, jurdicas, econmicas e           sofia, no pertencendo, portanto,  sua alada.
s vezes tambm a tica e a pedagogia.                          SOCIEDADE (lat. Societas; in. Society fr.
    SOCIALIDADE (in. Sociality, fr. Socialit,               Socjt, ai. Gesellscbaft; it. Socict). No sentido
ai. Ceselligkeit; it. Socialit). O mesmo que so-           geral e fundamental: 1Q campei de relaes
ciedade no primeiro sentido. G. H. Mcad en-                 intt?rsubjetivas, ou seja, das relaes humanas
tendeu a S. em sentido mais vasto, atribuindo-a             de comunicao, portanto tambm: 2Q a totali-
ao universo inteiro. "O carter social do univer-           dade dos indivduos entre os quais ocorrem
so consiste na situao de o novo acontecimen-              essas relaes; 3y um grupo de indivduos en-
to estar ao mesmo tempo na velha ordem e                    tre os quais essas relaes ocorrem em alguma
na ordem nova, cujo prenuncio  sua realizao.             forina condicionada ou determinada.
S.  a capacidade de ser vrias coisas a um s                  Io O primeiro significado, como se disse,  o
tempo" (ThePhilosophyofthePresent, 1932, p. 49).            fundamental; foi introduzido na cultura ociden-
    SOCIALISMO (in. Socialism; fr. Socialismo-,             tal pelos escritores latinos -- especialmente
ai. Sozialsmiis; it. Socialismo). Este termo, que          por Ccero -- que o hauriram no estoicismo.
se difundiu na Inglaterra (em oposio a indi-              Nos escritores clssicos da Grcia, os aspectos
vidualismo) nas primeiras dcadas do sc. XIX,              estutal e social encontram-se fundidos e no se
tem duas significaes principais:                          distinguem do conceito de polis-, graas ao
    Ia Uma significao mais ampla, desig-                  cosmopolitismo dos esticos, foram dissocia-
nando, em geral, qualquer doutrina que de-                  dos e, portanto, a S. passou a ser considerada
SOCIEDADE                                               913                                        SOCIEDADE

independente do estado, da organizao polti-                polticas dos autores gregos, p. ex.. de Plato e
ca. Foi expondo a doutrina dos esticos que                   de Aristteles, e as teorias jusnaturalistas anali-
Ccero disse: "Nascemos para a agregao dos                  sam a S. nesse sentido.
homens e para a S. e a comunidade do gnero                       b) As condies que, de fato, possibilitam as
humano" (De finihus, IV, 2, 4). Ksse conceito                 relaes humanas. Essas condies foram defi-
de S. 6 retomado pelo jusnaturalismo moder-                   nidas de vrias maneiras, e sua definio pode
no, no qual  acompanhado pelo conceito de                    ser considerada a primeira tarefa da sociologia
direito natural (o que j acontecia nos esti-                (v.). Max Weber identificou-as na atividade so-
cos). O direito natural, alis, 6 empregado pe-               cial, que se realiza segundo uma ordem delibe-
los jusnaturalistas para delimitar o campo da                 rada e relativamente constante (Uber eiuige
sociedade. Huig van Groot (Grcio), p. ex., diz               Kategorien der verstehendeu Soziologe, 1913,
que "a conservao da S.. em conformidade                     V; trad. it., in // mtodo delle scieuze storico-
com a inteligncia humana,  fonte do direito                 sociali, pp. 262 ss.). Durkheim considerou ca-
propriamente dito" (De jure bcllis aepacis, 1625.             ractersticos da S. humana os modos de agir
Proleg..  8). Analogamente, para Hobbes, a S,                que so impostos de fora e se consolidam nas
era uma associao decorrente das necessida-                  instituies (Kgles de Ia mthode sociologique,
des humanas e do temor, vale dizer, constitu-                1895. cap. 1). F. a prpria ao. ou comporta-
da em ltima anlise por relaes humanas de                  mento, s vezes  considerada elemento objeti-
utilidade recproca (Deeive, 1642, 12). Pufendorf             vo que define o campo das relaes humanas
fundamentava a lei natural com o princpio se-                (cf. TALCOTT PARSONS.      The Strueture of Social
guinte: "Cada um, no que depender de si, deve                 Adiou, 1949: 2- ed., 1957). Kste segundo modo
promover e manter para com seus semelhan-                     de entender a S. atribui-lhe explcita ou implici-
tes um estado de sociabilidade pacfica, condi-               tamente o carter de "campo" e a reduz portan-
zente em geral com a ndole e as finalidades do               to a uma construeto conceituai, isentando-a do
gnero humano", e explicava que se devia                      carter de totalidade real e do carter de ideal
entender por sociabilidade "a disposio do                   normativo.
homem para com o homem, graas  qtial um                         2" O conceito cie S. como totalidade de indi-
se considera vinculado ao outro pela benevo-                  vduos entre os quais h relaes intersubje-
lncia, pela paz e pela caridade" (De jure                    tivas. ou seja, como "mundo social", em geral
 mtturae. 1672, II, 3). Tambm  possvel                     est ligado ao conceito de S. como organismo
encontrar uma definio indireta da S. nos tex-               ou "superorganismo". Os antigos j haviam
tos que insistem na tendncia natural do ho-                  comparado a comunidade poltica, o Fstado.
mem para a sociabilidade. como os que apare-                  a um organismo. Os esticos compararam
cem freqentemente nas obras de Kant. "O ho-                  toda a S. -- como comunidade de seres racio-
mem tem inclinao a associar-se porque no                    nais -- a um organismo (cf. MARCO AIRKUO,
estado de S. sente-se mais homem, vale dizer,                 Memrias, VII. 13): esse paralelo continua na
sente que pode desenvolver melhor suas dis-                   Idade Moderna. Comte chama a sociedade de
posies naturais. Mas tambm tem forte ten-                  "organismo coletivo" (Cours dephil. positive,
dncia a dissociar-se (isolar-se) porciue tem em              IV, pp. 442 ss.). Por sua vez, Spencer chama de
si tambm a qualidade anti-social de querer                   superorgnica a evoluo que conduz  S. e
voltar tudo para seu prprio interesse, em vir-               considera a prpria S. como um organismo
tude do que deve esperar resistncia de todos                 cujos elementos so, em primeiro lugar, as
os lados e. por sua vez, sabe que ter de resistir            famlias e depois os indivduos isolados. Segun-
aos outros" (Idee zu einer allgemeinen Ges-                   do Spencer, o organismo social difere do orga-
chichte in iveltbrgerlicher Absieht, 1784, IV;               nismo animal porque a conscincia pertence
trad. it., p. 127; Met. derSitten, II,  47; Crt. do         apenas aos elementos que o compem, pois a
Juzo,  41). Fichte expressava esse mesmo                    S. no tem rgos de sentido como os animais,
conceito ao dizer: "Chamo de S. a relao rec-               mas vive e sente apenas atravs dos indivduos
proca entre seres racionais" (Die Bestimmung                  que a compem (Tbe Study of Sociology, 1873);
des Gelehrteu, 1794, II). Desse ponto de vista,               Wundt expressou-se no mesmo sentido (System
a anlise da S. pode ter como objetivo:                       derPbilosophie, 2 ed., 1897, pp. 616 ss.). A hi-
   a) Os fins que a totalidade do gnero huma-                ptese organicista continua por trs de muitas
no deve ter em vista e dos meios que a razo                  teorias polticas e sociolgicas modernas. Pode
indica para a consecuo de tais fins. As teorias             ser considerada uma variante dessa mesma
SOCIEDADE                                            91 i                                        SOCIOLOGIA


concepo a doutrina de Hegel, para quem a                  grupo de indivduos quanto a instituio que
"S. civil"  uma fase imperfeita ou preparatria            caracteriza esse grupo, como acontece nas ex-
do Estado, que  a Idia Divina realizada na                presses "S. comercial", "S. capitalista", etc.
terra: "A substncia que. enquanto esprito, se             Esse emprego  to bvio que em geral no 
parliculariza abstratamente em muitas pessoas               sequer definido. As vezes  definido em rela-
(a famlia  uma s pessoa), em famlias ou em              o com cultura, como fazem Kluckhohn e
indivduos, que por si esto em liberdade, so              Kelly: "S. refere-se a um grupo cie pessoas que
independentes e particulares, e perde seu car-             aprenderam a agir em conjunto; cultura refere-
ter tico; isso porque essas pessoas, enquanto              se aos modos de vida que distinguem esse gru-
tais, no tm na conscincia e como objetivo a              po de pessoas" (R. NTON, 'lhe Science of Man
unidade absoluta, mas sua prpria particulari-              in the World Crisis. 7J ed., 1952, p. 79).
dade e seu ser por si: da nasce o sistema da                   SOCINIANISMO (in. Socinicuiism: fr. So-
atomstica". Este sistema  precisamente a so-              ciiiicniisnte, ai. Sociiiicmisnms; it. Sociniane-
ciedade civil como "conexo universal e media-              sinio). Doutrina religiosa de Lelio Socini (1525-
dora de extremos independentes e de seus                    62) e Fausto Socini (1539-160)), que exerceu
interesses particulares" ou como "listado exte-             influncia especialmente na Polnia; seus prin-
rior" (Fnc,  523; Fil. do clir.,  184). Neste             cipais pontos so os seguintes: 1" negao do
sentido, segundo Hegel, a S. civil compreende,              dogma trinitrio: 2o negao do pecado original
em primeiro lugar, o sistema das necessida-                 e da predestinao; 3" negao do valor das
des; em segundo lugar, a administrao da jus-              obras e da necessidade de mediao eclesis-
tia; em terceiro lugar, a polcia e a corporao,          tica; 4" recurso direto  Bblia como meio nico
ou seja, os rgos que detm a tutela dos inte-             de salvao; 5" recurso  razo como nico ins-
resses particulares (Fil. do clir.,  188). O pr-          trumento para a interpretao autntica da B-
prio Marx manteve inalterado este conceito da               blia. Alm da Polnia, o S. difundiu-se na Ho-
S. civil, mas inverteu sua relao com o Estado             landa e na Inglaterra, mas sua influncia foi
e adotou-o como princpio de explicao do                  enorme em toda a cultura liberal moderna (d.
prprio Estado e, em geral, de todo o mundo                 D. CANTIMOR. Frelici ilctlhmi dei Cincjiieceiito,
ideolgico: "Por meus estudos, fui levado                  Florena, 1939).
concluso de que nem as relaes jurdicas nem                 S O C I O C R A C I A , SOCIOLATRIA (in. 5o
as formas do Estado poderiam ser compreen-                  ciocracy, sociolatiy, fr. Soeocracie, sociolatrie,
didas por si mesmas ou pelo chamado desen-                  ai. Soziokratie, Soziolatrie, it. Sociocrazia, so-
volvimento geral cio esprito humano, mas de                ziolatria). Termos criados por A. Comte para
que esto enraizadas nas relaes materiais da              designar, respectivamente, o regime poltico
existncia, cujo conjunto  enfeixado por Hegel             baseado na sociologia, que ele concebe como
com o nome de S. ciril: a anatomia dessa S. ci-             anlogo ou correspondente  teocracia medie-
vil deve ser buscada na economia poltica"                  val, baseada na teologia (Poliliqne positive,
(Ziir Krlik der politischeti konome, 1859,                1851, I, p. 403), e o culto da sociedade, que de-
Pref.; trad. it., Cantimor. p. 10). Conceito an-          veria tomar o lugar das religies positivas
logo de S. pareceu a Bergson ser o prprio                  (Catchsme posiliiisle, VI).
ideal de S. "aberta", ou S. mstica. "Uma S. ms-
tica que abarque toda a humanidade e que.                       SOCIOLOGIA (in. Sociology-, fr. Socologie;
animada por uma vontade comum, marche                       ai. Soziologic* it. Sociologia).  a cincia da so-
para a criao incessantemente renovada de                  ciedade, entendendo-se por sociedade o cam-
Lima humanidade mais completa, certamente                   po das relaes intersubjetivas. Esse termo foi
se realizar no porvir tanto quanto no passado              criado em 1838 por A. Comte, para indicar "a
existiram S. humanas funcionando de maneira                 cincia de observao dos fenmenos sociais"
orgnica  semelhana das S. animais. A aspi-               (Cours de phil. positive, IV, 1838), e  usado
rao pura  um limite ideal como a obrigao               atualmente para qualquer tipo ou espcie de
nua" (Deuxsources. I, trad. it., p. 87).                    anlise emprica ou teoria que se refira aos
                                                            fatos sociais, ou seja. s efetivas relaes inter-
   3" Na linguagem comum e nas disciplinas                  subjetivas, em oposio s "filosofias" ou "me-
sociolgicas a palavra S. costuma ser usada no              tafsicas" da sociedade, que pretendem expli-
terceiro significado, de conjunto de indivduos             car a natureza ela sociedade como um todo,
caracterizado por uma atitude comum ou insti-               independentemente dos fatos e de modo defi-
tucionalizada. Neste sentido, designa tanto um              nitivo. Sem dvida, na histria cio pensamento
SOCIOLOGIA                                            915                                      SOCIOLOGIA


ocidental sempre foram feitas observaes                   1900), com o nome de psicologia dos povos, na
teis e decisivas no campo social, que encon-               Alemanha, foi um conceito constantemente do-
traram lugar especialmente na tica e na polti-            minado pelo princpio de evoluo, tomado
ca. Contudo, tais observaes no constituam               em seu sentido otimista de progresso necess-
uma disciplina autnoma, dotada de metodolo-                rio: princpio q\ie inspirou tambm alguns estu-
gia prpria: isso s comeou com Comte. E                   dos sociolgicos que se tornaram clssicos
possvel distinguir dois conceitos fundamen-                (como, p. ex.. os de E. WESTER.MARK sobre a
tais de S., sucessivos no tempo: lu S. sinttica             Origem e desenvonvimeiito das idias morais,
(ou sistemtica), cujo objeto  a totalidade dos             1906-1908). Mas a maior realizao da S. siste-
fenmenos sociais a serem estudados em seu                  mtica talvez seja o Tratado de s. geral (1916-
conjunto, em suas leis; 2y S. analtica, cujo               23) de Vilfredo Pareto. que, sob outro aspecto,
objeto so grupos ou aspectos particulares dos               tambm o incio da crise desse tipo de S.
fenmenos sociais, a partir dos quais so feitas            Com efeito, Pareto. ao mesmo tempo em que
generalizaes oportunas. Nesta segunda fase.               quer realizar a S. como uma cincia positiva
a S. fragmenta-se numa multiplicidade de cor-               que estuda "a realidade experimental pela apli-
rentes de investigao e tem certa dificuldade              cao dos mtodos j comprovados em fsica,
para reencontrar sua unidade conceituai.                    qumica, astronomia, biologia e nas demais
    - Foi com Comte que nasceu a S. como                   cincias", por outro lado repudia qualquer
sistema, como determinao da natureza da                   construo sistemtica demasiado complexa e
sociedade em seu conjunto, atravs da de-                   no hesita em qualificar de metafsicas e dog-
terminao de suas leis. Nessa fase, tenta orga-            mticas as doutrinas sociolgicas de Comte e
nizar-se  semelhana da fsica newtoniana:                 Spencer (Tratado.  5, 112). Segundo Pareto, o
como cincia que. atravs de leis rigorosas, de-            carter essencial da cincia  igico-experi-
lineia uma ordem necessria e o desenvolvi-                 mental" e implica dois elementos: o raciocnio
mento dessa ordem, no menos necessrio.                    lgico e a observao do fato. Contudo, o obje-
Portanto, Comte chamava a S. de fsica social.              tivo da cincia continua sendo o de tormular
cuja primeira parte seria o estudo da ordem                 leis necessrias que descrevam em seu conjun-
social (esttica) e a segunda, o estudo do pro-             to aquilo que Pareto chama de equilbrio so-
gresso social (dinmica) (Cours de phil. po-                 cial, por ele comparado s vezes a um sistema
sitive, IV, p. 292). Alm disso, Comte atribua            mecnico de pontos, outras vezes a um orga-
S. a mesma funo atribuda s outras cincias              nismo vivo (Cours d'conomiepolitique, 1896.
a partir de Bacon: dominar os fenmenos de                   619). Entretanto, ele tambm insiste no sim-
que tratam em proveito do homem. Conse-                     ples carter de 'uniformidade experimental"
quentemente, a S. teria J funo de "perceber               da lei e no fato de que todo fenmeno con-
nitidamente o sistema geral das operaes su-               creto  devido  interseco de certo nmero
cessivas -- filosficas e polticas -- que devem            de leis diferentes (Tratado,  99); isso signifi-
 libertar a sociedade de sua fatal tendncia               ca que toda explicao cientfica  aproxima-
dissoluo iminente e conduzi-la diretamente                tiva e parcial (Ibid.,  106). Ainda mais distante
a uma nova organizao, mais progressista e                 do ideal sistemtico de S.  o corpo de anlises
slida que a fundada na filosofia teolgica"                que Pareto apresenta em seu Tratado, cujo ob-
(Ibid., IV. p. 7). A sociocracia (v.) seria assim o         jeto  principalmente aquilo que ele chama de
efeito inevitvel da fundao da S. como cin-              "aes no lgicas", cujos elementos estariam
cia. Mesmo isentando a S. da tarefa de fundar               nos resduos e nas derivaes (v.).
uma nova humanidade, Spencer conservou seu                     2- Pode-se dizer que o marco da passagem
carter sistemtico. Segundo ele, trata-se de uma           da S. sinttica para a analtica  a obra de E.
cincia descritiva que visa a determinar as leis            Durkheim, que se afasta do pressuposto fun-
da evoluo superorgnica, que regem o pro-                 damental da S. sistemtica, de que a sociedade
gresso do organismo social. Neste sentido, a S.             constitui um todo ou um sistema orgnico.
 o estudo da ordem progressiva da sociedade                Durkheim diz: "O que existe, o que s  dado 
como um todo (Principies of Sociology, 1876,                observao, so as sociedades particulares que
1). Este conceito inspirou a primeira organiza-             nascem, se desenvolvem e morrem, indepen-
 o da S. em todos os pases do mundo. Aceito              dentemente umas das outras" (Rgles de Ia
 por W. G. Summer (Folkways. 1906) nos Esta-                mtbode sociologique, 1895. 11a ed., 1950, p.
 dos Unidos, e por Wundt ( Volkerpsychologie,               20). Paralelamente, Durkheim insistiu no car-
SOCIOLOGIA                                            916                                      SOCIOLOGIA


ter exterior do objeto da cincia social: "Os               componentes elementares cie todos os agrupa-
fatos sociais consistem em modos de agir, pen-              mentos) atravs da participao ativa dos pr-
sar e sentir, exteriores ao indivduo e dotados             prios sujeitos estudados (cf. MORKNCY, Who
de um poder de coero graas ao qual se                    Shall Sunive?, 1934); 4Q tcnicas estatsticas,
impem a ele" (Ibid., p. 5). Considerar os fatos            que a S. compartilha com muitas disciplinas
sociais deste modo significa consider-los                  sociais (et., para um quadro dessas tcnicas,
como coisas, independentemente de precon-                   Tfait de sociologie, dirigido por G. Gurvitch,
ceitos subjetivos e das vontades individuais                1958, pp. 135 ss.). Com o uso dessas tcnicas,
(Ibid., pp. 11 ss.). Os mesmos motivos foram                foi realizado grande nmero de "pesquisas de
sistematizados na obra metodolgica de Max                  campo" nos sentidos mais dspares, tendo-se
Weber. A este cabe o mrito de ter sido o pri-              acumulado dessa maneira, sobretudo nos lti-
meiro a distinguir a S. das outras disciplinas              mos trinta anos, um material de observao
antropolgicas, especialmente das historiogr-              volumoso e complexo.
ficas. Ele identificou o objeto da S. na uniformi-              Mas a pesquisa sociolgica no se desenvol-
dade da atitude humana, que  dotada de senti-              veu no mesmo sentido em todos os pases. Na
do, ou seja, acessvel  compreenso. Mais                  Inglaterra, dedicou-se sobretudo a descrever o
precisamente, atitude  a ao humana que: 1"               mundo dos primitivos, suas instituies e seus
refere-.se, segundo a inteno de quem age,                comportamentos fundamentais (cf. especial-
atitude dos outros; 2" seu curso  determinado              mente a obra de G. FRAZKR, The Golden Bough,
tambm por essa referncia; 3" pode ser                     1911-14, 12 vols., e os textos de B. Malinowski
explicada por essa referncia ( Uber einige                 e A. R. Radcliffbrown). Na Frana, alm de des-
Kategorien der verstehenden Soziologie, 1913,               crever a mentalidade dos primitivos (cf. espe-
trad. it., em // mtodo delle scienze storico-              cialmente os textos de Lvy-Bruhl a partir de
sociali, p. 243). A segunda conquista importan-             Les fonetions mentales dans les socits inf-
te da S. de Max Weber  a ntida separao que              rieures, 1910), conservou o carter terico, de-
pretendeu estabelecer entre a investigao                  dicando-se ao estudo de problemas funda-
emprica ou lgica, por um lado, e as avalia-               mentais, em especial por obra de Gurvitch (La
es prticas ou ticas, polticas ou metafsicas,          vocation actuelle de Ia sociologie, 1950; D-
por outro lado (Der Sinn der Wetifreiheit der               terminismes sociaux et liberte humaine, 1955).
soziologischen und konomischen Wissens-                    Nu Itlia, depois cie haver dado uma contribui-
 chaften, 1917; na coletnea citada, pp. 311 ss.).          o importante  S. sistemtica com a obra de
Ainda que, obviamente, seja mais fcil propor               Pareto e de outros autores menores, calou-se
essa separao como exigncia do que realiz-               no perodo entre guerras devido  influncia
la na pesquisa, ela vale at hoje como regra                negativa da cultura idealista, e s hoje vai
que empenha a honestidade do pesquisador.                   readquirindo fora e capacidade, atualizando-
F.m terceiro lugar, da obra de Weber dimana                 se rapidamente nos mtodos e interesses e de-
a exigncia da investigao emprica particu-               dicando-se ao estudo da sociedade italiana.
lar, a nica que pode determinar as unifor-                 Mas  sobretudo nos Estados Unidos que a
midades de atitudes que constituem o objeto                 pesquisa sociolgica produziu uma quantidade
da sociologia. Esses trs pontos permaneceram               considervel de trabalhos com as mais diferen-
no desenvolvimento posterior da S. contempo-                tes orientaes. Aqui s ser possvel indicar os
rnea. Esta aceitou com entusiasmo o convite                principais caminhos tomados pela pesquisa
de Weber no sentido da pesquisa emprica par-               sociolgica:
ticular e da formulao de tcnicas adequadas
de observao. Hoje a S. dispe de um impo-                    a) S. urbana: desenvolveu-se nos Estados
nente conjunto de tcnicas que podem ser clas-              [Incios, principalmente graas ao incentivo de
sificadas em quatro grupos fundamentais: 1-'                R. E. Park. dando origem a obras clssicas como
tcncus de observao (observao direta, livre            as de R. S. e H. UND, Middletoivn (1929) e
ou controlada, observao clnica, observao               Middletown in Transiction (1937) (cf. tambm
participante, etc); 2a tcnicas de entrevistei, que         o estudo clssico de PARK, Voe City, 1925, atual-
vo desde a entrevista livre at os question-              mente em lluruan Communities, 1952).
rios; 3U tcnicas de experimentao a tcnicas                  b) Estudo da estratificao e da mobilidade
sociomtricas. estas ltimas tendem a descrever             social: iniciou-se nos Estados Unidos, na poca
as relaes sociais espontneas (consideradas               da crise (1929), e alcanou desde ento resul-
                                                            tados importantes (cf., para um balano, G.
SOCIOLOGIA                                                                                      SOFISMA

GADDA CNTI, Mobilit e stratificazkme socialc,        na importncia das tcnicas objetivas s vezes
1959).                                                 sentem saudade da velha forma sistemtica da
    c) Estudo dos grupos tnicos: conta hoje           S. (cf. PITIRIM SOROKIN, Fads and Faibles in
com importante conjunto de obras, entre as             Modem Sociology andKelated Sciences, 1956).
quais a clssica obra de Thomas e Znaniecki,           Contudo, no faltam  literatura sociolgica
lhe Polish Peasant in Enrope and America               moderna certas tentativas importantes e felizes
(1918-21).                                             de estabelecer uma teoria sistemtica do objeto
   d) Estudo da famlia: deteve-sc especialmen-        da S.. que  a ao social (cf., p. ex., T. PAR-
te na anlise cia desorganizao familiar e nos        SONS, The Structure of Social Action, 1937. 2-
problemas conjugais (cf., p. ex., E. V. HAMIL-         ed.. 1949), outras de consolidara relao entre
TON, Estudos sobre o casamento, 1929).                 a teoria social e a pesquisa social (cf., p. ex., R.
    e) Anlise da opinio pblica e dos instru-        K. MKRTON. Social Theory and Social Struc-
mentos de propaganda, que conta hoje com               ture). ou mesmo de realizar a S. como uma
uma riqussima literatura (cf., p. ex., R. K.          "tipologia quantitativa e descontinusta", alta-
MKRTON. Mass Persuasion. 1947).                        mente terica, como  a de G. Gurvitch ( Trait
   /) Estudo de pequenos grupos, cujos melho-          de sociologie. 1959, pp. 155 ss.). Portanto, o
res resultados foram obtidos nos Estados Uni-          que se pode prever, dado o estado atual dessa
dos (cf. E. SHII.S, LO stato attuale delia S. ameri-   disciplina,  a multiplicao e o fortalecimento
cana, em Qitaderni di $., 1953. n. 7).                 das tentativas de conceituao terica do mate-
   f>) S. industrial, termo com que se designa o       rial a que se teve acesso atravs cie pesquisas
estudo das relaes em locais de trabalho e as         especiais, sem contudo voltar  forma sistem-
influncias reciprocas entre essas relaes e a        tica que a S. assumira na sua primeira fase
organizao industrial (cf., para um balano.          dogmtica.
FRANCO FRRRAROTTI, La S. industriale in Ame-
                                                           SOCIOLOGISMOn. Sociologism; fr. Socio-
rica e in Europa, 1959).
                                                       logisme, ai. Soziologismus-, it. Sociologismo).
    h) S. da religio, fundada por Max Weber
                                                       Termo polemstico para designar a tendncia
(Die protestantische Ethik, und der Geist des
                                                       a reduzir fenmenos morais ou religiosos a
Kapitalismus, 1904; Dieprotestantische Sekteu
                                                       fatos sociais (cf. BOUTROUX, Science et reli-
und der Geist des Kaptalismus, 1906, etc), que
                                                       gion. p. 342).
consiste na anlise das interaes entre as rela-
es sociais e os fatos religiosos; nos ltimos           SOCIOMETRIA. V. SOCIOLOGIA.
anos no obteve grandes resultados.                       SOCRATISMO (in. Socratism, fr. Socratis-
    i) S. do conhecimento, cuja fundao costu-        me-, ai. Socratismus; it. Socratismo). Doutrina
ma ser atribuda a Marx, que foi o primeiro a          de Scrates, da forma como se consolidou na
insistir nas interaes entre o saber e as formas      tradio antiga; seus fundamentos podem ser
sociais; foi cultivada especialmente por Max           assim resumidos: 1- valor da indagao filosfi-
Scheler (Die Wissensformen und die Gesells-            ca, sem o que a vida no  digna de ser vivida;
chaft, 1926) e por Karl Mannheim (Das Pro-             2- a indagao restringe-se ao homem, no ha-
blem ener Soziologie des Wissens, 1926).              vendo interesse por qualquer estudo da natu-
   Como j dissemos, a quantidade de traba-            reza; 3" identificao entre cincia e virtude, no
lhos realizados em muitos desses ramos da              sentido de que  possvel ensinar e aprender a
pesquisa sociolgica  enorme, mas a sua uti-          virtude, e no  possvel praticar o bem sem
lizao conceituai no foi adequada. Shils dis-        conhec-lo; 4y importncia atribuda ao ensi-
se: "O principal defeito da sociologia america-        namento: nada se ensina, pois apenas se favo-
na  o inverso de sua principal virtude: sua           rece a criao intelectual dos ouvintes; 5U m-
indiferena, at agora dominante, para com a           todo de interrogao e a ironia (vj.
formao de uma teoria geral est estreitamen-            SOFISMA (in. Sopbism; fr. Sopbisme- ai.
te ligada  sua avidez de preciso na observa-         Sophisma; it. Sofisma). 1. O mesmo que fa-
o imediata" (Lo stato attuale delia S. america-      lcia (v.).
na, em QuadernidS., 19S3, n. 8). Essa situao            2. Raciocnio caviloso ou que leva a conclu-
no  exclusiva da S. americana, mas est pre-         ses paradoxais ou desagradveis. Neste senti-
sente em todos os pases em que a pesquisa             do, esse termo tem uso muito vasto, e at os
sociolgica alcana certo grau de desenvolvi-          paradoxos(v.) e os argumentos duplos podem
mento. Por isso, mesmo os que mais insistiram          ser chamados de S.
SOFISTICA                                               918                                         SOLIPSISMO

    SOFSTICA (in. Sophistics; fr. Sophistique,                diana, a no ser em vista de outros laos com
ai. Sophistik, it. Sofistica). 1. Aristteles chamou           homens do passado e do futuro, com os quais
de S. "a sabedoria (sapientia) aparente mas                    seja possvel uma forma nova ou mais fecunda
no real" (El. soph., 1, 165 a 21), e esse passou              de comunicao. O fato de a solido dispensar
a indicar a habilidade de aduzir argumentos                    esses laos , pois, uma tentativa de libertar-se
capciosos ou enganosos.                                        deles e ficar disponvel para outras relaes so-
    2. Em sentido histrico, a S.  a corrente filo-           ciais" (ABBAGNANO, Problemi di sociologia.
sfica preconizada pelos sofistas, mestres de re-              1959, XI,  8).
trica e cultura geral que exerceram forte                         SOLIDARIEDADE (in. Solidarity: fr. Soli-
influncia sobre o clima intelectual grego entre               darit, ai. Solidaritat; it. Solidariet). Termo de
os scs. V e IV a.C. A S. no  uma escola filo-               origem jurdica que, na linguagem comum e na
sfica, mas uma orientao genrica que os S.                  filosfica, significa: 1" inter-relao ou interde-
acataram devido s exigncias de sua profisso.                pendncia; 2" assistncia recproca entre os
Seus fundamentos podem ser assim resumidos:                    membros de um mesmo gaipo (p. ex.: S. fami-
    1 O interesse filosfico concentra-se no ho-              liar, S. humana, etc). Neste sentido, fala-se de
mem e em seus problemas, o que os sofistas ti-                 solidarismo para indicar a doutrina moral e ju-
veram em comum com Scrates.                                   rdica fundamentada na S. (Cf. L BOURGEOIS.
    2" O conhecimento reduz-se  opinio e o                   La sol ida ri t. 1897).
bem,  utilidade. Conseqentemente, reconhe-                       SOLILQUIO (lat. Soliloquium). Colquio
ce-se da relatividade da verdade e dos valores                 da alma consigo mesma. Soliloquia foi o ttulo
morais, que mudariam segundo o lugar e o                       que S. Agostinho deu a uma de suas primeiras
tempo.                                                         obras, em que declarava desejar conhecer ape-
    3L> F.rstica: habilidade em refutar e sustentar           nas Deus e a alma, e nada mais (Sol., I, 2). S.
ao mesmo tempo teses contraditrias.                           Anselmo chamou de MonologUm o seu col-
    4'-' Oposio entre natureza e lei; na nature-             quio interior em torno cia essncia de Deus.
za, prevalece o direito do mais forte.                             SOLIPSISMO (in. Solipsism- fr. Solipsisme;
    Nem todos os sofistas defendem essas teses:                ai. Solipssmus; it. Solipssmo). Tese de que s
os grandes sofistas da poca de Scrates (Pro-                 eu existo e de que todos os outros entes (ho-
tgoras e Grgias) sustentaram principalmente                 mens e coisas) so apenas idias minhas. Os
as duas primeiras. As outras foram apangio da                termos mais antigos para indicar essa tese so
segunda gerao de sofistas (cf. UNTERSTEIXER,                 egosmo (cf. WOI.FF, Psychologia rationalis.
1 sofisti, 1949).                                               38; BAIMGARTEN. Met.,  392; GANUPPI, Saggio
    SOLECISMOn. Solecism; fr. Solcisme-, ai.                filosfico sulla critica delia conoscenza, IV, 3,
Solecismus; it. Solecismo). Em Aristteles (El.                24, etc), egosmo metafsico(KANT, Antr, I,  2)
sof., passim) e depois, na lgica de origem aris-              ou egosmo r;m;o (SCHOPENHAUF.R, Die Welt, I,
totlica, designa um dos objetivos da dialtica                 19). Kant empregou o termo S. para indicara
sofistica, qual seja, a tentativa de induzir o                totalidade das inclinaes que produzem felici-
interlocutor a aceitar um enunciado que con-                   dade quando satisfeitas (Crt. R. Prtica, I, livro
tm urna impossibilidade gramatical, como ho-                  1, cap. III; tracl. it.. p. 85); esse mesmo termo
 mines currit. Esse termo passou a indicar uma                 foi empregado para indicar o egosmo me-
aberrao gramatical de natureza morfolgica                   tafsico por alguns escritores alemes da se-
ou sinttica.                                   G. P.          gunda metade do sc. XIX (cf. SCHUBERT-SOL-
    SOLIDO (in. Solitude; fr. Solitude- ai.                   DERN, Grundlageu zn einer Erkenntnistheorie.
Fhisamket; it. Solitudine). Isolamento ou bus-                1884, pp. 83 ss.; W. SCHUPPI-, Der Solipsismus,
ca de melhor comunicao. No primeiro senti-                   1898; H. DRIHSCH, Ordnungslehre, 1912, pp.
do, a S.  a situao do sbio, que, tradicional-              23 ss., etc). Como j notava Wolff, o S. 
mente,  autrquico e por isso se isola em sua                 uma espcie de idealismo que reduz a idias
perfeio (v. SBIO). Afora esse ideal, o isola-               no s as coisas, mas tambm os espritos
mento  um fato patolgico:  a impossibilida-                 (Psychol. rat..  38). Freqentemente, o S. foi
de de comunicao associada a todas as formas                  declarado irrefutvel, pelo menos com provas
da loucura. Em sentido prprio, contudo, a S.                  tericas: tal era a opinio de Schopenhauer
no  isolamento, mas busca de formas dife-                   (loc. cit.), muitas vezes repetida (cf. RENOUVIER.
rentes e superiores de comunicao: "No dis-                  les dilemmes dela mtaphysique pur, 1901; A.
pensa os laos com o ambiente e a vida coti-                  LEVI, Sceptica. 1921; SARTRE, Vtre et le nant.
SOLIPSISMO                                            919                                              SONHO

 1943, p. 284). Na realidade, o S. s  irrefutvel         donar todo o sistema do positivismo lgico"
do ponto de vista idealista (com o qual coinci-             (An Examination of Lgica! Pusilivism, cap.
de), segundo o qual os atos ou as aes cio su-             VII; trad. it., pp. 235 ss.). Na realidade, o pres-
jeito so conhecidos de maneira imediata, pri-              suposto do positivismo qtie d origem ao S. 
vilegiada e absolutamente segura.                           reflexo cia tese idealista na teoria da lingua-
    Foi a aceitao (explcita ou implcita)                gem: os elementos da linguagem so signos de
dessa tese que por vezes levou a adotar o S.                experincias imediatas, porque as experinci-
como ponto de partida obrigatrio da teoria                 as imediatas so a nica realidade (v. EXI>I-:RIKN-
do conhecimento (cf., p. ex., DRIKSCH, Op. cit.,            CIA; LlNGUAGKM).
p. 23) ou como procedimento metodolgico                       SOMA LGICA (in. Lgica! sum; fr. Som me
(ScHnsKRT-Soi.DKRN, Op. cit., pp. 65 ss.). Este             logique, ai. Logsche Summe; it. Somma lgica).
ltimo ponto de vista foi adotado pelo positi-               a figura (a + b) resultante de uma adio lgi-
vismo lgico, especialmente por Wittgenstcin                ca (w).                                        G.P.
e Carnap. O primeiro, tendo observado que                      SOMTICO (in. Somatic fr. Somalque, ai.
"os limites de minha linguagem constituem os                Somatisch; it. Somtico). Corpreo (v. CORPO).
limites de meu mundo" ('1'rcictatiis, 5, 6), con-              SOMATOLOGIAn. Somatolog)-, fr. Soma-
cluiu "ser absolutamente correto o significado              tulogie-, ai. Somatologie-, it. Sotnatologia). Parte
do S., que, apesar de no poder ser dito. mani-             da antropologia que considera os aspectos tsi-
festa-se. O lato de os limites da linguagem (da             cos do homem (V. ANTROPOLOGIA).
linguagem que s eu entendo) constiturem os                   SOMBREAMENTO (ai. Abschaitung). Ter-
limites do meu mundo revela que o mundo                    mo empregado por Husserl para indicar o
o meu mundo" (Ibid., 5.62) e que, portanto,                 modo parcial e aproximativo com que a coisa
"eu sou o meu mundo" (Ibid., 5.63). Mas. assim              externa  ciada  conscincia perceptiva. P.
entendido, o S. transforma-se imediatamente                 ex.: "A mesma cor aparece em seqncias con-
em realismo: "O S. rigorosamente desenvolvi-                tnuas cie sombreamentos de cores. O mesmo
do coincide com o realismo puro. O eu do po-                vale para qualquer qualidade sensvel e para
sitivismo reduz-se a um ponto inextenso, e a                qualquer figura parcial. Uma nica e mesma fi-
realidade a ele se coordena" (Ibid., 5.64). O               gura, dada em carne e osso como sempre a
pressuposto desse discurso  a teoria segundo               mesma, aparece continuamente 'de modo dife-
a qual a correspondncia entre os elementos                 rente', em sombreamentos sempre diferentes
cia linguagem e os cia realidade se d termo a              de figura. Essa  a situao necessria das coi-
termo, e os elementos da realidade se reduzem               sas, que tem validade universal" (Icleeii, I,  4).
a fatos de experincia imediata, sendo, pois,                  SONHO (gr. v7txiov; lat. Somnium; in.
apenas meus. Quando faltam tais fatos, falta o              Dream; fr. Rve, ai. Traum; it. Sogno). Ao da
significado (o objeto) da palavra, e eu no a               imaginao durante o sono. Esta  a definio
entendo: portanto, Wittgenstein diz que os                  j proposta por Plato (Tini., 45 e) e Aristteles
limites de minha linguagem so os limites do                (De sonmiis, 1, 459 a 15), sendo tambm ado-
mundo. O mesmo pressuposto leva Carnap a                    tada pela psicologia moderna; nesta, d origem
falar de S. meldico. Com muita razo Carnap                a uma srie de problemas que escapam com-
fala de S. a propsito da escolha dos elementos             pletamente  alada da filosofia (cf. a propsito
bsicos (Grun delem ente), porque, como atra-               desses problemas E. SKRVADIO, IIsogno, 1955).
vs de tais elementos (que servem de base para              Freud e os psicanalistas interpretaram o S. de
a construo lgica do mundo) Carnap escolhe                modo funcionalista, ao tentarem determinar
(assim como Wittgenstein) os fatos imediatos                sua funo na vida do homem. Segundo Freud,
da experincia, ou, como diz ele, "a base ps-              o S. " um meio de suprimir as excitaes (ps-
quica prpria", seu procedimento  solipsista               quicas) que perturbem o sono, supresso essa
(DerlogischeAufbau der Weil, 1928,  64). J. R.             realizada atravs de satisfaes alucinatrias"
Weinberg j observava que no positivismo lgi-              (Intr.  Ia psycbanalyse, 1932, p. 151). O que
co o S. lingstico  inevitvel; por isso, uma             encontra realizao simblica no S. na maioria
vez que 6 necessrio super-lo para atingir a               das vezes so desejos proibidos, inibidos pela
objetividade cientfica, "ou se alteram neces-              censura, que, portanto, sofrem uma elaborao
sariamente alguns postulados do sistema para                radical, cabendo ao psiclogo interpret-la.
isentar o positivismo das idias metafsicas, ou            (Ibid., pp. 189, 234). Essa teoria de Freud foi
-- se esse mtodo falhar -- ser preciso aban-              muito discutida, e no parece apta a explicar
SONHO                                               920                                                     SORTE


todas as espcies de S. ou todos os seus aspec-           chamados de sonhos ou no. porque a expe-
tos; apesar disso, foi a nica a propor o proble-         rincia mostra que no nos enganamos ao
ma da funcionalidade do S., vale dizer, da                aprendermos os fenmenos, quando eles so
funo que ele exerce na economia da vida                 aprendidos segundo as verdades de razo"
psquica.                                                 (Souv. cvs., IV, 2. 14). Voltaire dizia: "Se os
   Os filsofos algumas vezes se dedicaram               rgos, por si ss, produzem os S. da noite,
anlise do S. para mostrar a incerteza da discri-         por que no poderiam produzir, por si ss, as
minao entre ele e a viglia, utilizando-o como          idias do dia? Se a alma, por si s, tranqila no
elemento de dvida terica. Plato dizia: "Nada           descanso dos sentidos e agindo sozinha,  a
nos impede de crer que as conversas que agora             causa nica e o nico sujeito de todas as idias
mantemos sejam mantidas em sonho, e quando                que temos dormindo, por que todas essas
em S. cremos contar um S.. a semelhana das               idias so quase sempre irregulares, irracio-
sensaes no S. e na viglia  realmente maravi-          nais, incoerentes?" (Dictiouuairepbi/osophiaiie,
lhosa" (Teci., 158 e). Por outro lado, "o tempo            1764, art. Songes). Schopenhauer talvez seja o
durante o qual dormimos 6 igual ao tempo em               ltimo a apresentar esse tema em sua torma
que estamos acordados, e em ambos nossa                   clssica: "A vida e os S. so pginas de um
alma afirma que s as opinies que tem naque-             mesmo livro. A leitura contnua chama-se vida
le momento so verdadeiras; desse modo. por               real. Mas quando o tempo habitual de leitura
igual espao de tempo dizemos que so verda-              (o dia) chega ao fim e vem a hora de des-
deiras ora estas, ora aquelas, e defendemos               cansar, ento s vezes continuamos, fracamen-
umas e outras com a mesma energia" (Ibid.,                te, sem ordem e conexo, a folhear aqui e aco-
158 d). Nos scs. XVII e XVIII esse tema foi              l algumas pginas: s vezes  uma pgina j
freqentemente repetido por poetas e filso-              lida, muitas outras vezes uma outra ainda des-
fos. Shakespeare dizia: "Somos feitos da mes-             conhecida, mas sempre do mesmo livro" (Die
ma substncia de que so feitos os S.. e nossa             Weil, 1,  5).
curta existncia est contida no perodo de um                  SONO e VIGLIA. V. SONHO.
sono" (lempest, ato IV, cena I). Caldern de Ia               SORITES (lat. Acerrns; in. Sorites; fr. So-
Barca utilizou o mesmo tema em A vida  S.                rite. ai. Sorites; it. Sorile). 1. Argumento de Eu-
(1635): "So as glrias to semelhantes aos S.            blides contra a multiplicidade (V. MONTO.
que as verdadeiras passam por falsas, e as fal-           ARcr.wr.NTo oo).
sas por verdadeiras?  to pouca a distncia                  2. Silogismo composto ou polissilogismo
entre umas e outras que  preciso saber se o              (v.), no qual a concluso do silogismo que pre-
que se v ou frui 6 S. ou realidade?" (Ato III.           cede  adotada como premissa do silogismo
cena X). Descartes empregava o mesmo tema                 subseqente, at se chegar a relacionar o ante-
como elemento de dvida: "O que acontece                  cedente do primeiro silogismo com a conse-
em sonho no parece to claro e distinto quan-            qncia do ltimo (cf. ARNAITD, Log., III, I; JUN-
to o que acontece durante a viglia. Mas. pen-            c;n s, Lgica bamburgensis, III. 28; WOI.IT,
sando a respeito, lembro-me de ter sido muitas            Log.,  "74; HAMILTON, l.ectires on Logic, p. 5()b,
vezes enganado por simples iluses, enquanto              etc). A expresso soriticussyllogismus deve ler
dormia. K, detendo-me nesse pensamento, vejo              sido usada pela primeira vez por Mrio Victo-
com clareza que no h indcios concludentes,             rino (sc. IV) (cf. PRANTL, Gescbicbte derLogik
nem sinais bastante seguros, que possibilitem             I, p. 663), mas foi difundida por Loureno
distinguir com nitidez a viglia do S., a tal             Valia     (Dialecticae dispulatoiies,   III.   12).
ponto que fico admirado, e minha admirao 
tanta que quase me convence de que estou                        SORTE (gr. Ti>CT: lat. Fortuna; in. Fortune;
dormindo" (Md., I; tf. Princ.pbil, I, 4). A teo-         fr.   Fortune; ai.    (Uck:    it.   Fortuna). Segundo
ria de Leibniz, segundo a qual a vida da                  Aristteles, distingue-se do acaso (x.) porque
mnada (substncia espiritual)  "um S. bem               se verifica no domnio das aes humanas e
regulado", constitui outra manifestao do                por isso no podem ter S. ou falta de S. os seres
mesmo tema. Leibniz diz: "Metafisicamente                 que no podem agir livremente. "Os seres ina-
falando, no 6 impossvel que haja um S. to              nimados. os animais, as crianas, no fazem
contnuo e duradouro quanto a idade de um                 nada por S. porque no tm escolha: e a boa ou
homem. (...) Mas. desde que os fenmenos                  a m S. s lhes  atribuda por semelhana, da
estejam interligados, no importa que sejam               mesma maneira como Protarco disse que as
                                                          pedras do altar tm sorte porque so homena-
SOTERIOLOGIA                                            921                   SUBCONTRRIA, PROPOSIO

geadas, enquanto suas companheiras so pi-                    capaz de atingir o Infinito; isso tem incio com
sadas" (Fs., II, 6, 197b D. Essa significao                Fichte. em quem realmente se encontra a pri-
manteve-se no uso moderno da palavra. Seu                     meira inspirao do romantismo (v.).
conceito filosfico . portanto, o mesmo de                       SUAREZISMO (in. Siiaivzianism; Ir. Sua-
acaso (v.).                                                   rzismc it. SnarezisDio). Doutrina do espa-
    SOTERIOLOGIA (in. Soteriologw ir. Sote-                   nhol Francisco Surez (15)8-1617), que  a
roiogie-, ai. Soteriologie-, it. Solerologia). Dou-         maior expresso filosfica da Contra-Reforma
trina religiosa da salvao. Sobre o aparecimen-              catlica. Trata-se, substancialmente, de um re-
to de tendncias soteriolgicas no ocidente, v.               torno decidido e rigoroso ao tomismo: stia obra
a obra de F. CIMONT, Les religions orentales                 Dispiita/ones metaphvsicae  um manual sis-
clans lepaganismo romain, 1906, 2- ed., 1909.                 temtico cie metafsica tomista. Surez, porm,
    SPINOZISMO (in. Spinozism- fr. Spinozis-                  faz uma importante concesso  escolstica do
me; ai. Spinozismus; it. Spinozismo). Doutrina                sc. XIV. ao admitir a individualidade do real,
de Baruch Spinoza (1632-77), nos principais                   vale dizer, ao reconhecer que cada coisa 
aspectos reconhecidos pela tradio filosfica,               tal por si mesma, e no pela matria, pela for-
que podem ser assim resumidos: 1" unicidade                   ma ou por outro princpio qualquer. Afastou-se
da substncia do mundo e sua identificao                    tambm do tomismo na doutrina poltica ex-
com Deus, graas  qual Spinoza se refere                    posta em De legibits (1612), ao afirmar que o
substncia com a expresso " Deussire uatura";                poder temporal dos prncipes provm apenas
2" alesmo ou, como tambm se diz (com                        do povo: isso tem a finalidade cie privilegiar o
Megel), acosmsmo (\.), segtindo o qual Deus                  poder eclesistico, que proviria diretamente cie
 o princpio e a ordem do mundo: 3" o neces-                 Deus.
sitarismo, segundo o qual todas as coisas deri-                   SUBALTERNAO (lat. Snballeniato; in.
vam por absoluta necessidade da substncia                    Siibcilteniatiiv, fr. Siibalteniatiou; ai. Subciller-
divina; 4- o geomelrsmo, afirmao cio carter               uatioir. it. Snbahenioizione). Com este termo e
geomtrico da necessidade csmica que  o                     com a expresso oposio subalterna, indica-se
modelo do mtodo geomtrico da filosofia; 5"                  a relao entre a proposio universal e a par-
reduo da liberdade humana ao reconheci-                     ticular correspondente e da mesma qualida-
mento e  aceitao da necessidade da ordem                   de; p. ex., entre "todo homem  justo" e "al-
csmica; 6" defesa da liberdade filosfica e reli-            guns homens so justos", ou entre "nenhum
giosa do homem, fundada na reduo cia f re-                 homem  justo" e "alguns homens no so jus-
ligiosa  obedincia (v. F;).                                tos". A proposio universal chama-se snbal-
    STATUS. Condio ou modo de ser. espe-                    temante e a particular, subaltemada (PI-DRO
cialmente em sentido sociolgico, como per-                   HISPANO. Snmm. log.. 1.1-); J U N G I I S , Log.
tencente a determinado estrato social.                        hambiirgensis, II, 9, 15; B. HKRD.MAW, I.ogik,
    STURM UND DRANG. Com esta expresso,                       70). Hamilton chamou a S. de restrio (Lec-
que significa "tempestade e mpeto" e foi ttulo              tnres ou Logic, U2, p. 269). (V. QUADRADO DOS
de um drama de Klinger, escrito em 1776, de-                  OPOSTOS.)
signa-se um movimento filosfico e literrio                      SUBCONSCIENTE (in. Subconscious- fr. Sttb-
que surgiu na Alemanha na segunda metade                      conscott: ai. liiterbeivusst; it. Subcosciente).
cio sc. XVIII e constitui o antecedente imedia-              O mesmo que inconsciente. Alguns psiclogos
to do Romantismo. As atitudes peculiares desse                franceses do sculo passado procuraram dis-
movimento so simbolizadas pelas duas pala-                   tinguir o S. do inconsciente, considerando-o
vras acima. Trata-se de manifestaes irracio-                como conscincia dbil ou diminuda (Riboy,
nalistas cuja expresso filosfica se encontra nas            [anel e outros). Mas essa distino pareceu fa-
doutrinas de Haman, Herder e Jacobi: estas re-                laz, e a palavra caiu em desuso (v. INCONS-
metem aos limites impostos por Kant  razo                   CII-NTI-:).
apenas para irem alm da razo e recorrer  ex-                   SUBCONTRRIA, PROPOSIO (lat Pro-
perincia mstica ou  f (v. FK. FILOSOFIA DA).              positio sitbcontmrici; in. Subcontrary propn-
 Do "S. und Drang" passa-se para o Romantis-                  sition; ai. Subcontrrsatz; it. Proposizone
 mo ao se passar do conceito kantiano de razo                sub-cotitraria). Na lgica tradicional so as-
finitci--  qual se contrape a f ou o senti-                sim chamadas, em suas inter-relaes, a pro-
 mento, atribuindo-se-lhes poder cognoscitivo                 posio particular afirmativa e a particular
 superior -- para o conceito de razo infinita ou             negativa; p. ex.: "alguns homens correm" e
SUBCONTRARIEDADE                                          922                                           SUBLIME


"alguns homens no correm" (et., p. ex., PE-                        SUBJETIVO (in. Subjective; fr. Subjectf, ai.
DRO HISPANO, Summ. log., 1.13) (v. HADRADO                      Subjektir. it. Saggettivo). Aquilo que pertence
DOS OPOSTOS).                                                   ao sujeito ou tem carter de subjetividade. Esse
    SUBCONTRARIEDADE (lat. Subcontrare-                        adjetivo teve dois significados, corresponden-
 las-, in. Sitbcontrary, ir. Subcontraire, ai. Sub-             tes aos do termo sujeito, mas somente o segun-
 contrr, it. Suhcontrariet). Relao de opo-                  do ainda  usado. 1. A partir da escol.stica do
sio entre proposies particulares. P. ex.:                   sc. XIII, o adjetivo significa simplesmente
 "Scrates corre", "Scrates no corre" (PEDRO                  substancial. Ockham dizia: "Pode-se dizer com
 HISPANO, Summ. log., I. 27). s vezes, a rela-                 probabilidade que o universal no  algo real
o entre possvel e no necessrio (JiNC.u s,                  que tenha existncia substancial (esse subjec-
 Lgica bamburgensis, II, 12, 29).                               vnm) na alma ou fora da alma, mas que existe
    SUBDIVISO. V. DIVISO.                                     na alma num modo de ser representativo (in
    SUBJETIVIDADE (in. Subjeclivity, fr. Snb-                    esse objeclivo) que corresponde quilo que a
 jeclivit; ai. Subjektivilh it. Soggettivit). 1. Ca-         coisa externa  na sua existncia substancial"
                                                                (In Sent., 1. d. 2, q. 8. E; cf. DtNS SCOT, Dean.
 rter de todos os fenmenos psquicos, en-
                                                                 17, 14). Este significado mantm-se em toda a
quanto fenmenos de conscincia (v.), que                       Idade Mdia.
o sujeito relaciona consigo mesmo e chama de
 "meus".                                                            2. O significado cie S. como pertencente ao
    2. Carter do que  subjetivo no sentido de                 eu ou ao sujeito do homem  encontrado pela
ser aparente, ilusrio ou falvel. Nes.se .sentido.             primeira vez em alguns escritores alemes do
 Hegel situava na esfera cia subjetividade o de-                sc. XVIII (sobre eles cf. CASSIRF.R, lirkenntnis-
 ver-ser em geral, bem como os interesses e as                  problein, 1908, livro VII). J Baumgarten falava
 metas do indivduo. Dizia: "Uma vez que o                      da "f considerada subjetivamente", em oposi-
                                                                o  " considerada objetivamente", que  o
contedo cios interesses e das metas est pre-
                                                                conjunto de crenas (AM., 1739,  993). Algu-
sente apenas na esfera unilateral do subjetivo,                 mas dcadas depois, discutia-se a beleza ou a
e que a unilateraliclacle  um limite, essa falta               verdade: seriam subjetivas ou objetivas? Enten-
 manifesta-se ao mesmo tempo como inquieta-                     dia-se por objetiva "uma propriedade dos ob-
o, como dor, como algo negativo" ( Voiiesun-                  jetos", e por S. "uma representao da relao
gen ber die stbetik, ed. Glockner, p. 141).                   entre as coisas e ns, ou seja, uma relao com
 Kierkegaard quis inverter o ponto de vista                     quem as pensa" (J. E. Lossius, Physische Ursa-
 hegeliano, colocando a S. acima da objetivida-                 chen des Wahren, 1775, p. 65). A mesma dis-
de: "O erro consiste principalmente no fato de                  tino encontra-se em Tetens (Philosophische
o universal, em que -- segundo o hegelia-                        Yersuche, 1776, I, pp. 344, 560, etc.). Foi desse
 nismo -- consiste a verdade (e o individual tor-               uso do adjetivo que Kant extraiu o novo signifi-
na-se verdade s se nele subsumido), 6 uma                      cado atribudo ao substantivo sujeito.
abstrao: o Estado, etc. Ele no chega a dizer                     SUBLIMAO (in. Sublimaton; fr. Subli-
que  a S. em sentido absoluto, e no chega                     mation: ai. Sublimierung; it. Sublimazione).
verdade, ou seja, ao princpio cie que realmen-                 Mecanismo psicolgico de defesa, que consiste
te, em ltima instncia, o individual est acima                em transformar os impulsos sexuais em ativi-
do universal" (Dirio, X2 A 426).                               dades psquicas superiores, especialmente na
    SUBJETTVISMO (in. Subjectwism; fr. Sub-                     produo artstica. E.sse mecanismo foi assim
jectivisme-, ai. Subjectwismus; it. Soggettivsmo).             descrito por Freud: "As excitaes excessivas
Termo moderno cjue designa a doutrina que                       que derivam de fontes diversas da sexualidade
 reduz a realidade ou os valores a estados ou                   so desviadas e utilizadas em outros dom-
atos do sujeito (universal ou individual). Nesse                nios, de tal modo que as disposies que no
sentido, o idealismo  S. porque reduz a reali-                 incio eram perigosas produziro um aumen-
dade das coisas a estados do sujeito (percep-                   to aprecivel nas aptides e nas atividades ps-
es ou representaes); analogamente, fala-se                  quicas (Trais essais sur Ia tborie de Ia se-
de S. moral e S. esttico quando o bem, o mal,                  xualit. trad. fr., p. 177).
o belo ou o feio so reduzidos s preferncias                      SUBLIME (gr. )V|/o; lat. Sublime; in. Subli-
 individuais. Esse termo  empregado na maio-                   me: ai. Erbabe)i\ it. Sublime). 1. Forma lin-
 ria das vezes com intenes polmicas, e por                   gstica, literria ou artstica que expresse sen-
 isso seu significado no  muito preciso.                      timentos ou atitudes elevadas ou nobres. Essa
SUBLIME                                                   923                                           SUBLIME


palavra comeou a ser usada com tal sentido                     vez, inspirara-se em Fontenelle Ui/lexions sur
no se. I a.C, tendo sido analisada no pequeno                  Ia potique. 36): o prazer provm cio exerccio,
tratado Sobre o S. do Pseudo Logino: "O S.  a                  ou seja, do movimento que a dor e o terror
ressonncia da nobreza da alma, tanto que                       provocam no esprito quando isentos do real
admiramos s vezes um pensamento singe-                         perigo de destruio. Nesse caso -- como diz
lo, sem voz, por si, pela superioridade do sen-                 Burke -- o que nasce no  exatamente o pra-
timento. O silncio de Ajax em Nekyia  maior                   zer, mas "uma espcie de horror deleitvel, de
e mais nobre que qualquer discurso" (Desubi,                    tranqilidade matizada de terror; este, porm,
IX). No mesmo significado, essa palavra foi                     quando provm do instinto de conservao, 
usada pelos autores latinos, principalmente por                 uma das paixes mais fortes. Isso  o S." (Ibid.,
Quintiliano (Inst. ar, VIII, 3, 18; VIII, 3, 74; XI, I,         IV, 7). Nas Observaes sobre o sentimento do
3; XI, 3, 153, etc). Este  tambm o significado                belo e do S. (1764), Kant repeliu substancial-
com que essa palavra costuma ser usada; refe-                   mente os mesmos conceitos, robustecendo-os
re-se no s a expresses lingsticas ou liter-               com vasta exemplificao, de valor bastante
rias, mas tambm a aes ou atitudes conside-                   duvidoso, pois continha entre outras coisas a
radas nobres ou elevadas. Foi nesse mesmo                       caracterizao dos diferentes povos, com base
sentido que Croce entendeu o S., definindo-o                    em suas atitudes em relao ao S. e ao belo
como "afirmao subitnea de uma fora moral                    (Beobacbtungen iiber das Gefhl des Schnoi
poderosssima", para expungi-lo da arte (Estti-                und Erhabenen, IV). Mas em Crtica do juzo.
ca,  ed.. 1912, p. 107).                                       as idias de Hume e Burke toram expressas
    2. Em sentido prprio e estrito, o S.  o                   com maior rigor conceituai, ganhando forma
prazer que provm da imitao (ou da contempla-                 clssica. Segundo Kant, o sentimento do S. tem
o) de uma situao dolorosa. Com esse senti-                  dois componentes: 1" apreenso de uma di-
do, essa noo vem diretamente do conceito                      menso desproporcional s faculdades sens-
aristotlico de tragdia: que deve provocar                     veis do homem (S. matemtico), ou de um po-
"piedade e terror"; por isso, como diz Aristte-                der terrificante para essas mesmas faculdades
les, o poeta trgico "deve propiciar o prazer                   (S. dinmico); I- o sentimento de conseguir
que nasce da piedade e do terror por meio da                    reconhecer essa desproporo ou ameaa, e,
imitao" (Poet. 14, 1453 b 10). No sculo XVIII,               por isso, de ser superior a ambas. Kant diz: "A
essa noo de tragdia deu origem a um pro-                     qualidade do sentimento do sublime  ser ele,
blema que foi examinado por Hume num dos                        em relao a algum objeto, um sentimento de
seus Ensaios morais epolticos (1741): "Parece                  padecimento, representado ao mesmo tempo
inexplicvel o prazer que os espectador de uma                  como final; isso  possvel porque nossa impo-
tragdia bem escrita aufere cia dor, do terror, da              tncia revela a conscincia de um poder ilimita-
angstia e de outras paixes que, em si mes-                    do do mesmo sujeito, e o sentimento s pode
mas, so desagradveis e penosas" ( assim                      julgar esteticamente este ltimo atravs da pri-
que Hume inicia o ensaio intitulado Of Tra-                     meira" (Crt. do Juzo,  27). Por isso, Kant defi-
f>edy); sua anlise serviu de fundamento para a                 ne o S. como "o que agrada imediatamente
obra de Burke, que em Inquiry ou the Origin                     pela sua oposio ao interesse dos sentidos"
 of our Ideas of Sublime and Beautiful (1756)                   (Ibid.,  29. Obs. geral); com isso entende
distinguiu claramente o S. do Belo: "O Belo e o                 que, ao advertir a desproporo ou o perigo
S. so idias de natureza diferente: um tem                     que o S. representa para a sua natureza sens-
fundamento na dor e o outro no prazer; embo-                    vel, o homem se d conta de que, justamente
ra possam depois afastar-se cia verdadeira na-                  por adverti-la, no  escravo dessa natureza,
tureza de suas causas, estas continuaro sendo                  mas livre perante ela. Friedrich Schiller s fez
diferentes uma da outra, e essa diferena nun-                  expor e esclarecer as idias de Kant ao afirmar
ca dever ser esquecida por quem se propuser                    que "se chama de S. o objeto para cuja repre-
suscitar paixes" (Inquiry ou the Origin q/ our                 sentao nossa natureza fsica sente seus pr-
 Ideas of Sublime and Beautiful 1756, III, 27).                 prios limites, ao mesmo tempo em que nossa
O terror, a dor em geral, as situaes de perigo                natureza racional percebe sua prpria superio-
so causas do S. (Ibid., IV, 5). O modo como                    ridade, seu carter ilimitado: um objeto diante
essa causa pode produzir prazer (porque o S.                   do qual somos fisicamente fracos mas moral-
um prazer)  um problema que Burke resolve                      mente superiores, graas s idias" ( Vom Erha-
da mesma maneira que Hume; este, por sua                        benen, 1793). Schiller distinguiu o S. terico.
SUBLIMINAR                                            924                                              SUBSISTIR


que est em conflito com as condies do co-                    SUBORDINAO (lat. Subordinado; in.
nhecimento sensvel, do S. prtico, que est                Subordination; fr. Subordination; ai. Subor-
em condito com o instinto de conservao; no                dination, it. Subordinazione). Relao entre
S. prtico distinguiu o S. prtico contemplativo            dois conceitos: um deles (o subordinado) faz
e o S. prtico pattico: v. PATTICO (cf. PARKYSOX,         parte da extenso do outro (o sobre-ordeuado)
A esttica do idealismo alemo, I, pp. 175 ss.).            (HAMILTON, Lectures of Logic, V, p. 188; SIG-
Hegel, por sua vez, expressou na oposio infi-             WAKT, Logik. I, 2. pp. 343 ss.; v. HUSSF.RL, Ideen,
nito-finito o conflito tpico do Sublime: O S.             I.  13).
a tentativa de exprimir o Infinito, sem encon-                 SUBORDINACIONISMO                (in.    Subordina-
trar, no reino das aparncias, um objeto que se             tionisnr, fr. Subordinatianismo; ai. Subordi-
preste a essa representao" (Vorlesungen ber               ncitianismus; it. Subordiiiazonismo). Doutri-
diesthetik, ecl. Glockner. I, p. 483). Por isso.           na trinitria dos Padres gregos do sc. II, em
"as formas por meio das quais aquilo que se                 particular de Orgenes: afirma que o Filho tem
manifesta 6 tambm abolido, de tal sorte que a              natureza subordinada  do Pai. Assim, segundo
manifestao dos contedos  tambm a supe-                 Orgenes, a eternidade do Filho depende da
rao das expresses,  a sublimidade: portan-              vontade do Pai: Deus  a vida, e o Filho recebe
to, esta no consiste" -- como diz Kant -- "na              a vida do Pai. O Pai  Deus-Pa, o Filho 
subjetividade pura do sentimento e em seu                   Deus (In Johaini., II, 1-2).
poder de estar acima das idias da razo,                       SUB-REPTCIO (lat. Surreptitius; in. Sur-
mas, ao contrrio, baseia-se no significado                  replitious; fr. Subreptice; ai. Hrschlichen-, it.
representativo, em virtude do qual se refere                Surrettizio). Xo sentido do termo latino, o
a uma Substncia Absoluta" (Ibid., p. 484).                 que se possui, conquista ou faz clandestina-
Portanto, Hegel viu no S. uma forma especial                mente ou sem direito. Em filosofia, esse termo
de arte, mais precisamente a arte simblica.                 usado especialmente para indicar um pressu-
Nele, a dor e a situao de perigo que, para a              posto ou uma hiptese de que se faz uso num
esttica do sc. XVIII. representam a causa                 raciocnio, sem assumir ou declarar explicita-
do S., foram substitudas pela inefabilidade e              mente. Foi nesse sentido que Kant denominou
pela majestade da Substncia Infinita. Schopen-             de sub-repes das sensaes ("Subreptione
hauer, contudo, limitou-se a reafirmar a teoria             der Empfindungen ". Crt. R. Pura,  6) as quali-
tradicional e considerou que o S. existe quando             dades sensveis atribudas aos objetos emp-
                                                            ricos com base nas sensaes.
"os objetos, cujas formas significativas nos con-
vidam  contemplao pura, tm uma atitude                      SUBSISTIR (lat. Subsistem, in. To Subsist; ir.
hostil para com a vontade humana em geral                   Subsiste/-, ai. Subsistirei!; it. Sussistere). Existir
(cuja objetividade se evidencia no corpo hu-                como substncia, ou existir independentemen-
mano) e se opem a ela ou a ameaam com                     te do esprito ou do sujeito pensante. No pri-
sua fora superior" (Die Welt,  39). O ltimo              meiro .sentido, esse termo (que no uso latino
pensador a expor o conceito de S. nesses ter-               comum significa persistir ou durar) foi introdu-
mos foi Santayana: "A sugesto do terror faz                zido por Bocio (Phil. cons., III, 11). passando
                                                            a ser usado desse modo na tradio escolstica
que nos refugiemos em ns mesmos; a, como
                                                            (GILBERTO DF.LA PORRE, In Boetbi de trinitate,
numa ao de ricochete, intervm a conscin-                P. L. 64, 1281; S. TOMS, S. Th., I, q. 29, a. 2).
cia da segurana ou da indiferena, e ns senti-             usado com o mesmo significado pelos escri-
mos a emoo de distanciamento e libertao,                tores modernos, como p. ex. Descartes (IVRp.,
em que consiste, realmente, oS." (TheSenseof                I), Arnauld (Log., 1, 2) e Kant, que chama de
Beauty, 1896, p. 60).                                       "categoria da inerncia e da subsistncia" a ca-
   SUBLIMINAR (in. Subliminal; fr. Sublimi-                 tegoria da substncia (Crt. R. Pura,  10).
nal; ai. Subliminal; it. Subliminale). O mesmo                  No segundo sentido, de existncia que no
que inconsciente. Esse termo foi divulgado                  depende do esprito ou do sujeito pensante,
por F. Myers (Human Personality and its Sur-                esse termo foi usado por Berkeley (Dialogues
vival of'Bodily Death, 1903), que com ele de-               between llylas and Pbilonous, I, Works, ed.
signou o vasto domnio que est sob o limiar                Jessop, II, p. 199, r.42) e por Kant (Crt. R.
da conscincia, onde se vai acumulando aos                  Pura,  6, [B52, A36J); foi retomado por Peirce,
poucos o material que depois  utilizado na                 que com ele designou o ser das relaes ("A re-
criao genial.                                             lao por si  um ens rationis e uma mera pos-
SUBSTANCIA                                           925                                      SUBSTANCIA

sibilidade lgica; mas a sua subsistncia tem              a forma das coisas  eterna e no pode ser pro-
natureza de fato" (Co//. Pap., 3.571, o texto  de         duzida nem destruda (Mel., VII, 8; VIII, 3),
1903), e estendido por Russell (Problems of                pois a forma  a essncia necessria das coisas
Pbi/osopfoy, 1912, cap. 9) ao modo de ser cios             compostas. Por outro lado, Aristteles no se
universais e pelos neo-realistas americanos a              preocupou muito em enumerar toclos os mo-
todas as entidades neutras, constituintes cio              dos cie ser da substncia. Comea dizendo que,
mundo, que, com sua agregao, podem for-                  comumente, se fala de S. em quatro sentidos,
mar a conscincia ou as coisas (The New Reei-              seno em mais, a saber: como essncia neces
lisin, 1912). Este segundo signilicado  ainda             sria, como universal, como espcie e como su-
bastante difundido na filosofia contempornea.             jeito (Met., VII, 3. 1028 a 32). Mas a S. como
    SUBSTNCIA (gr. OGCX; lat. Substantia-,              universal ou como espcie  excluda pela crti-
in. Substance-. fr. Substance; ai. Substauz: it.           ca ao platonismo, ou -- o que d no mesmo --
Sostanza). Esse termo teve dois significados                chamada por Aristteles de substncia se-
fundamentais: 1'-' de estrutura necessria; 2             gunda, em confronto com a S. primeira, que 
de conexo constante. O primeiro pertence                  a autntica (Cat., 5, 2 a 13). Restam, portanto,
 metafsica tradicional: o segundo, ao empi-              apenas a S. como essncia necessria e a S.
rismo.                                                     como sujeito (v.). Neste ltimo significado, a
    1" No primeiro significado,  S.: ei) o que 6          S. pode ser a forma, a matria ou o composto
necessariamente aquilo que ; b) o que existe ne-          de ambas (Ibid., 1029 a 2). Em seus dois signifi-
cessariamente. Ambas estas determinaes fo-               cados legtimos, a S. exprime o significado fun-
ram expostas na metafsica aristotlica, que gira          damental do conceito do ser e, portanto, cons-
inteiramente em torno do conceito de S. A pri-             titui o objeto da metafsica. "Aquilo que h
meira determinao  designada por Arist-                 muito tempo vimos procurando e ainda procu-
teles com a expresso T x r|V eivai (cjiiodquiel         ramos, aquilo que sempre ser um problema
erat esse), que pode ser traduzida como essn-             para ns (o que  o ser?) significa isto: o que 
cia necessria; com efeito, ao p da letra, essa           a S." (Met., VII, 1, 1028 b 2). Por outro lado, a
expresso significa aquilo que o ser era, onde o           estrutura substancial do ser  o fundamento cio
imperfeito "era" indica a continuidade ou esta-            saber cientfico. A essncia necessria das coi-
bilidade do ser, seu ser desde sempre e para               sas que no tm causa fora de si  intuda dire-
sempre. A essncia necessria  expressa pela              tamente pelo intelecto e constitui os princpios
definio (v.) e 6 objeto do conhecimento                  primeiros que fundamentam a demonstrao,
cientfico (v. CINCIA). A segunda determinao            ao passo que a essncia necessria das coisas
relaciona-se com a primeira:  S. o que existe             que tm causa fora de si pode ser revelada, se-
necessariamente. Aristteles diz: "Temos cin-             no demonstrada, pela prpria demonstrao.
cia das coisas particulares s quando conhece-             Em todos os casos, a necessidade da demons-
mos a essncia necessria das mesmas, e com                trao  a prpria necessidade da S. (An.posl.,
todas as coisas ocorre o mesmo que ocorre                  II, 9, 43 b 21; cf. toda a discusso precedente).
com o bem: se o que  bem por essncia no                     A histria posterior do conceito de S. repete
 bem, ento nem o que existe por essncia                 o carter que j havia servido a Aristteles para
existe, e o que  uno por essncia no  uno;              defini-lo: a necessidade. Tal carter  emprega-
e assim com todas as outras coisas" (Met., VII,            do explicitamente por Plotino para a definio
6, 1031 b 6). Aristteles aduz esse argumento              do termo (Rnu.. 1.. VI, 3. 4), mas  a Escolstica
contra a separao que Plato faz entre a idia            rabe, em especial Avicena, que mais insiste
e as coisas, mas, obviamente, esse argumento               nele: "Dizemos que tudo o que  tem uma S.
significa que tudo  o que  em virtude da                 (essentia) graas  qual  o que . e graas 
essncia necessria (que  a sua causa intrnse-           qual  a necessidade disso e seu ser" ( Logic. I).
ca ou extrnseca) e que, portanto, tudo o que              S. Toms, que, com as equivalncias lingsti-
h de real ou de cognoscvel nas coisas faz par-           cas estabelecidas em De ente et essentia. puse-
te cia essncia necessria e existe necessaria-            ra fim a um longo perodo de confuses termi-
mente. Assim, para Aristteles, a S. constitui a           nolgicas (v. ESSNCIA), reduz a S. (interpretando
estrutura necessria do ser em sua concatena-              corretamente os textos de Aristteles)  qi-
o causai, porque todas as espcies cie causas            didade (essncia necessria) e ao sujeito (S.
so determinaes da S. (v. CAISALIDADI:). Pre-            Th., 1. q. 29, a. 2). Descartes s fazia expressar
cisamente neste sentido, Aristteles afirma que            o mesmo carter cie necessidade ao afirmar
SUBSTANCIA                                              926                                      SUBSTANCIA

que "quando concebemos a S., concebemos                       que o conceito  S.: "O conceito  a verdade da
uma coisa que existe de tal modo que, para                    S., e como o modo determinado de relao da
existir, no tem necessidade de outra coisa se-               5.  a necessidade, a liberdade mostra-se como
no de si mesma" (Princ. phil.. I, 51). Spinoza               a verdade da necessidade e como o modo
observava com razo que essa  a prpria defi-                de relao do conceito" ( Wissenschaft der
nio da S. infinita (R. cartesi principia phi-               Logik, ed. Glockner, II, p. 7; trad. it., III, p.
losophiae, 1663), e a adotava para definir esta               10; cf. Ene,  ISO, 152). A noo de necessi-
ltima: 'Entendo por S. aquilo que  em si e se               dade continuou a caracterizar a idia de S. em
concebe por si mesmo, ou seja, aquilo cujo                    todos os filsofos que a empregam. Rosmini
conceito no precisa do conceito de outra coisa               inclua na idia de S. em universal: ly o pensa-
pela qual deva ser formado" (Et., I, prop. 111). A            mento da existncia atual; 2- o pensamento do
definio proposta por Wolff ("S.  o sujeito                 indivduo que existe; 3'-' o pensamento "das
perdurvel e modificvel")  por ele mesmo                    determinaes que ele deve ter para existir,
considerada idntica  definio tradicional e               isto , o pensamento da necessidade de que
cartesiana (Onl.,  768, 772). A definio tra-               ele seja completo e tenha tudo o que lhe 
dicional  simplesmente repetida por Baum-                    necessrio para existir" (Nuoiv saggio, 589).
garten: " S.  o ente subsistente por si" (Mel.,              Pode-se dizer que at Wittgenstein emprega
 19D. Leibniz conseguiu expressarem termos                   esse termo neste sentido tradicional: "S.  aqui-
modernos o conceito tradicional de S.: "A natu-               lo que existe independentemente do que acon-
reza de uma S. individual ou de um ser com-                   tece" (Tractatus, 2.024).
pleto 6 ter uma noo to perfeita que com ela                    2- O segundo conceito de S., como cone-
seja possvel abranger e deduzir todos os pre-                xo constante entre determinaes simultanea-
dicados do sujeito aos quais essa noo  atri-               mente dadas pela experincia,  o produto
buda" (Disc. de mt., 1686,  8). O prprio                  da crtica empirista ao conceito tradicional. Kssa
Leibniz aproximava esta noo da noo esco-                  crtica visa o carter fundamental tradicional-
lstica tradicional de forma substancial Ubicl.,              mente atribudo  $., a sua necessidade, por-
 11), mas, na realidade, era a prpria noo de              quanto tal necessidade no  resultado da ex-
essncia necessria, que j Aristteles concebia              perincia. A incognoscibilidade cia S. em si
como o princpio do qtial podem ser deduzidas                 mesma, por no ser objeto da experincia e s
todas as determinaes de um ente.                            se dar na experincia como coleo de quali-
    Nada muda quando Kant comea a conside-                   dades, j fora sustentada por Ockham no sc.
rar a S. como categoria mental, pois a funo                 XIV (In Sent., I, d. 2, q. 2; Quodl, III, 6), mas
de tal categoria, segundo ele,  constituir os                coube a Locke difundir esse ponto de vista no
prprios objetos da experincia. Mas, com esta                mundo moderno. Neste sentido, a S.  tam-
transformao o conceito no muda. A S.  a                   bm chamada por ele de essncia real ou for-
"necessidade interna de permanncia dos fen-                 ma substancial, e sua crtica encontra-se no
menos", e "para que o que se costuma chamar                   cap. 6 do Livro III, mais do que no famoso ca-
de S. no fenmeno possa ser substrato de qual-                ptulo 2.] do Livro II: "No conhecimento e na
quer determinao temporal,  necessrio que                  distino das S.. nossas faculdades no vo
nele qualquer existncia, no passado ou no                    alm de uma coleo de idias sensveis
futuro, possa ser determinada de uma s e nica               que observamos nelas; esta, mesmo que cria-
maneira" (Crl. K. Pura, Anal. dos Princ, cap.                da com a maior diligncia e exatido de que
 11, se. III, 3). Km outras palavras, a perma-               sejamos capazes, estar sempre distante da
nncia que constitui a S. 6 necessidade: 6 s                 verdadeira constituio interna de qtie tais
poder ser de uma nica maneira. Neste mesmo                   qualidades derivam. (...) Quando nos ocorre
sentido, Fichte chamava o eu cie substncia:                  examinar as pedras sobre as quais caminha-
"Na medida em que se considera que o eu                       mos ou o ferro que manejamos todos os dias,
abrange todo o crculo absolutamente determi-                 logo descobrimos que no sabemos como so
nado de todas as realidades, ele  Substan-                   feitos nem sabemos explicar as diversas quali-
ciai...) S.  toda a reciprocidade pensada em                 dades que descobrimos neles.  evidente que
geral; acidente  alguma coisa determinada que                a constituio interna de que dependem suas
varia com alguma outra coisa varivel" ( Wis-                 propriedades nos  desconhecida" (Ensaio, III,
seuscbajhlehre, 1794, II,  4, D; trad. it., pp. 100-         6, 9). Aqui Locke identifica com justeza a S.
 101). No mesmo sentido, Hegel afirmava ainda                 com a "constituio interna" da qual deveriam
SUBSTANCIA                                           927                                           SUBSTRATO

derivar as qualidades da coisa: derivar no sen-            por Mach, porquanto a "persistncia da inter-
tido de que deveriam ser deduzveis dessa                  conexo" nada mais  que a uniformidade de
constituio, de tal modo que pudessem ser                 certas relaes.
explicadas e compreendidas em virtude dela.                   SUBSTANCIAL (in. SubslantialSx. Siibstcm-
lista era na realidade a S. aristotlica como              lel; ai. Substantiell; it. Sostanziale). 1. O que
essncia necessria das coisas. Declarando-a               constitui uma substncia ou pertence a uma
incognoscvel, Locke reduz a S. a uma simples              substncia: que  essencial ou que existe ne-
"coleo de idias", abandonando a noo de                cessariamente.
necessidade em favor cia noo de simples co-                  2. O que . num sentido qualquer, im-
existncia de fato das determinaes percebi-              portante ou decisivo: p. ex.. "uma contribuio
das. Assim, em Locke, o conceito de S. sofre               substancial".
uma transformao anloga  que o conceito                     SUBSTANCIALIDADE (in. Sithstanliality, Ir.
de causa sofrer nas mos de Hume: de ne-                  Substantialit, ai. Substantialld, it. Sostanzia-
cessidade racional passa a ser uniformidade                Ut). O modo de ser da substncia (no sentido
factual. A S. deixa cie ser necessidade racional,           1). Na primeira edio da Crtica da Razo
em virtude da qual as determinaes de um                  Pura. Kant chamou de "paralogismo da S." o
ente estariam toefas raciona/mente nteriga-              fato cie se atribuir ao "eupenso" o modo de ser
das e seriam derivveis da determinao                    a substncia (Crt. R. Pura, A, 3-49). Depois
fundamental que constitui a essncia do                    disso, Hegel preferiu empregar esse termo com
ente, e passa a ser um conjunto de determi-                <> simples significado de substncia em geral
naes que de fato esto juntas, mas cuja                  <cf. Wssenscbaft der Logik, ed. Glockner, 1,
necessidade no pode ser demonstrada.                      p. 697).
Hume expressava bem essa nova idia de S.                      SUBSTANCIALISMO (in. Substantialism-, Ir.
ao dizer que "as qualidades particulares que               Substantialisme-, ai. Substantialismus; it. Sos-
formam uma S. costumam referir-se a algo des-              tauzialismo). Termo com que a doutrina
conhecido a que elas supostamente inerem.                  metafsica da substncia foi s vezes designada
ou, deixando de lado essa fico, so conside-             pelos que a combatiam (Renouvier, Hamelin e
radas estreita e inseparavelmente interligadas             Outros).
por relaes cie continuidade e de causaco"                  SUBSTITUIO (in. Suhslitutiaii; Ir. Snhs-
(Treatise, I, J, 6; ed. Selby-Bigge, p. 16). A co-         iitnti(i;ii\. Vnlerscbiehimg; it. SosliluzioJie). Tina
nexo cie contigiclade e causao tomou o                 tias operaes fundamentais do pensamento
lugar da necessidade racional. Formulao                  cm todos os campos. Leibniz definiu a igual-
ainda mais rigorosa do mesmo conceito foi                  dade e a identidade (v.) como possibilidades
proposta por Mach: "A S. no passa de per-                 Ue substituio. A matemtica e a lgica podem
sistncia cia interconexo: persistncia que               Ser consideradas sistemas de regras de substi-
nunca  absoluta ou rigorosa (Analyse der                  tuies na medida em que a frmula a = b pode
Empfiudungen, XIV,  14; trad. it., p. 3H2). \o            Ser considerada uma regra segundo a qual a,
mesmo sentido, Dewey escreveu: "A condio,                Onde quer que aparea, pode ser substitudo
a nica condio para que possa haver subs-                por b (F. WAISMANN. FAnfruug in das ma-
tancialiclade,  que a interdependncia entre              ibematische Denken. 1936, cap. IX, C; trad. it..
certas qualificaes seja um sinal seguro de               p. 165).
que, em se verificando certas interaes, se-
guir-se-o certos resultados" (Logic, cap. VII;                Mais especificamente, fala-se em lgica de
trad. it., p. 187).                                        regra de S. como uma das regras primitivas
                                                           fundamentais cie inferncia, segundo a qual 
   A idia de S., no seu significado tradicional           permitido inferir de uma frmula A uma outra
de necessidade, e a idia correlata de causa               frmula de A substituindo uma varivel em
constituem os eixos de qualquer metafsica                 A por Lima formula B (cf. A. CHIIRCH, Intro-
(v.). Portanto, so aceitas integralmente por              duetion to Mathematical Logic,  10; CARNAP,
qualquer metafsica de cunho tradicional, ao                Tlie Lgica! Sy>itax of iMnguage,  6; Meaning
passo que as correntes empiristas tendem a ver             and Necessity,  11; QUINK, Methods of Logic,
no conceito de S. a interconexo que Hume j               %(>. e t c ) .
entrevira, ou tendem at a desprez-la, opon-                  SUBSTRATO (lat. Substratum; in. Substra-
do-lhe a idia de funo, vale dizer, de rela-             iiinv. fr. Substrat; it. Sostrato). Esse termo foi in-
o. Esta ltima passagem j foi realizada                 troduzido pela escolstica do sc. XIV para in-
SUBSUNO                                             928                                            SUICDIO

clicar o indivduo real (substratum singulare.                 SUFICIENTE, RAZO. V. FUNDAMKNTO.
PKDKO AUROLO, In Seul., 1. d. 3S. cj. 4, a. 1).               SUFISMO (in. Sufism; fr. Sufisme: ai. Sufis-
sendo depois retomado por I.ocke para desig-                nius; it. Sufismo). Misticismo rabe e persa
nar aquilo que era tradicionalmente chamado                 (assim chamado porque os mantos de seus
de subjectum ou suppositum. ou seja, o sujeito              adeptos eram feitos de plos de camelo) que
ou a substncia como sujeito (Ensaio, 11. 23.               se desenvolveu a partir do sc. VIII por in-
1). Aceito por Berkeley (Principies ofHumctn                fluncia do cristianismo e culminou no neoplato-
Knowledge, I,  7) e por Leibniz (Nouv. ess., 11,           nismo de Algazali (sc. XI) (cf. J. A. ARISHRKY.
25, 1), esse termo passou a ser muito usado e               Sufism, 1950).
acabou prevalecendo, no sem riscos cie confu-                  SUGESTO (in. Suggesthm; fr. Suggeston.
so (v. SUJFITO).                                           ai. Suggestion-, it. Suggestione). 1. F.m gera\,
    SUBSUNO (kit. Subsumplio; in. Sub-                    qualquer tipo ou forma de associao psquica.
sumption; tr. Subsumption; ai. Subsumption; it.             Peirce, p. ex.. diz: "O modo de S. com que a hi-
Sussunzione). Em sentido prprio, a assuno                ptese sugere os fatos na induo  por conti-
da premissa menor do silogismo, chamada de                  giclaele. conhecimento habitual de que as con-
hipolema por Hamilton, para reservar o termo                dies das hipteses podem ser realizadas era
lema \\.)  premissa maior [Lediires (i Logic,             certos modos experimentais" (Co//. Pap.,1.218)
l2, p. 283; cf. WOLFK, Loi>.,  361). Kant talou de         (v. ASSOCIAO).
"S. de um objeto sob um conceito" (Crt. R.                    2. Qualquer influncia exercida por uma
Pura, Anal. dos Princ, cap. I), e em sentido                pessoa sobre o comportamento de outra pes-
idntico Husserl observava que "a S. de um                  soa. Nesse sentido, esse conceito pertence 
indivduo, em geral de um este aqui, sob Lima               psicologia.
essncia no deve ser confundida com a su-                     SUICDIO (gr. ^aycoyt; in. Suicide-, fr.
bordinao de uma essncia a uma espcie                    Suicide; ai. Selbstmord; it.     Suicdio). Os fi-
ou a um gnero superiores" (Ideeu, I.  13).                lsofos condenaram o S. pelos seguintes mo-
    SUBTRAO (in. Subtractiou; fr. Sous-                   tivos:
traction; ai. Subtractiou; it. Sottrazione). A no-              1'- Porque  contrrio  vontade divina.
o de S. lgica foi introduzida por Boole da               Plato afirma que "no  irracional que algum
seguinte maneira: "Se x representa uma classe               no possa matar-se antes que a divindade lhe
de objetos, ento 1 - x representa a classe con-            comande essa necessidade" (Eed., 62 c). Este 
trria ou suplementar de objetos, que contm                o ponto de vista constantemente afirmado pe-
todos os objetos que no esto na classe .v"                los escritores cristos (v. para todos eles: S.
(Lctws of lhougbt, 1854. cap. III, Prop. III,               AGOSTINHO, Decir. Dei, I, 20; S. TOMS, S. Th.. II,
Dover publ., p. 48; v. tambm Pr.IRCE, Co//.                2. q. 64, a. 5). A afirmao de que o S.  con-
Pap., 3. 5, 9, 18, etc). Na lgica posterior essa           trrio  ordem cio destino (PI.OTINO, Enn.. I, 9)
noo desapareceu.                                          ou  lei natural (S. TOMAS, S. Th., II, 2, q. 64, a.
    SUCESSO (in. Sitccessioii; fr. Succession;             5) no  diferente, visto que o destino ou a lei
ai. Folge, it. Successione). 1. O mesmo que srie           natural so manifestaes da vontade divina.
no significado 2.                                           A esse argumento Hume replicava que nada
    2. Unia srie temporal; p. ex., "uma S. de              escapa  vontade divina, nem a morte, natural
eventos".                                                   ou voluntria, e que por isso o S. no pode ser
   SUCESSO (in. Success; fr. Succs; ai. Erfolg,            considerado contrrio  vontade divina ou 
it. Successo). Algumas vezes o instrumentalismo             ordem das coisas (Of Suicide, em Essays, ed.
americano foi chamado de "Filosofia do S.", no              Green e Grose, II, p. 412).
sentido de ser uma filosofia que considera o S.                 2y Porque o S. no chega a separar comple-
a medida dos valores. Na realidade, o instru-               tamente a alma do corpo. Este  o argumento
mentalismo tambm acentuou o carter sempre                 aduzido por Plotino contra o S.; segundo ele,
relativo e provisrio do S. Dewey disse: "O S.              quando o corpo  coagido por violncia a se-
nunca  final ou terminal. (...) O mundo no                parar-se da alma. no  ele que permite a parti-
pra quando a pessoa que obteve S. conseguiu                da da alma, mas foi uma deciso da paixo,
o que quis, nem ela mesma pra, e o tipo de S.              seja ela tdio, dor ou ira" (Enn., I, 9). Esta
que ela obteve, assim como sua atitude em                   tambm  a razo aduzida por Schopenhauer.
relao a ele,  um fator daquilo que advir"               .segundo quem "o S., longe de ser negao da
(Eluman Nature and Conduct, p. 254).                        vontade,  um ato de forte afirmao da vonta-
SUICDIO                                            929                                               SUJEITO

de" porque "o suicida quer a vicia e s est des-         gar a prpria necessidade" (Hp., 12). A exal-
contente com as condies que lhe couberam"               tao da morte por Zaratustra tem o mesmo
(Die Welt, 1.  69).                                      motivo: "Louvo minha morte, a morte livre,
    3Q Porque 6 transgresso de um dever para             que vem porque eu quero. E quando vou que-
consigo mesmo, pois, como diz Kant, "o ho-                rer? Quem tem uma meta e um herdeiro quer
mem tem a obrigao de conservar a vida uni-              a morte na hora certa, pela sua meta e por seu
camente pelo fato de ser uma pessoa" (Met. der            herdeiro" (Also sprach Zarathustra. I, Da livre
Sitten, II, parte I,  6).                                morte).
    4" Porque 6 um ato de covardia. Fichte                    3" Porque pode ser a sada para uma situa-
observava a propsito que tambm pode ser                 o insustentvel e o nico modo de salvar a
considerado um ato cie coragem. Se, de fato,              dignidade e a liberdade. Desse ponto de vista
falta ao suicida coragem "para suportar uma               Humc afirmava que "o S. est de acordo com o
vida que se tornou insuportvel", o S. execu-             interesse e o dever pessoal: isso no pode ser
tado com fria premeditaro  a expresso do               questionado por quem reconhece que a idade.
domnio da razo sobre a natureza, que  o                a doena e a infelicidade podem transformar a
instinto de autoconservao. E conclua: "Se              vida num peso insustentvel e torn-la pior
confrontado com o homem virtuoso, o suicida               que o aniquilamento" (Of Suicide, em Fssays,
 um covarde; se confrontado com o miservel              cit., p. 414). Na filosofia contempornea, Jas-
que se submete  desonra e  escravido para              pers aduziu o mesmo argumento em favor do
prolongar por alguns anos o sentimento mes-               S. (Phl, 11, pp. 303 ss.), e Sartre escreveu: "Se
quinho de existir,  um heri" (Sitenlehre.              estou mobilizado numa guerra, essa  a minha
1798. em Werkc, IV, p. 268).                              guerra: ela   minha imagem e eu a mereo.
    5" Porque  injusto para com a comunidade             Mereo antes de tudo porque podia ter-me
 qual o suicida pertence. Esta 6 a razo                 subtrado dela com o S. ou com a desero:
aduzida por Aristteles (/;'/. nic, V. 11, 11 38a         essas possibilidades extremas devem sempre
9). A esse argumento Humc objetava que as                 ser levadas em conta quando  preciso enfren-
obrigaes do homem e da sociedade so m-                tar alguma situao" (L'tre et le nanl, p. 639).
tuas; assim, a morte voluntria no anula s as               SUI GENERIS. Expresso usada em frases
obrigaes do homem para com a sociedade,                 escolstcas como: "Todas as coisas so medi-
mas tambm as da sociedade para com ele (Of               das por alguma coisa do mesmo gnero", como
Suicide, em ILssays, cit.. p. 413).                       p. ex. o comprimento pelo comprimento, o n-
   Por outro lado, os filsofos consideraram o            mero pelo nmero, etc. Kssa frase pode ser
S. lcito ou necessrio pelos seguintes motivos:          considerada uma premissa para se afirmar que,
    1 Porque pode ser um dever renunciar                pelo fato de ser Deus a medida de todas as
vida quando continuar vivendo impossibilita o             substncias, ele pertence ao gnero das subs-
cumprimento do dever. Era assim que pensa-                tncias. Mas a doutrina escolstica a propsito
vam os esticos, cuja doutrina Ccero expe da            alirma. ao contrrio, que Deus no est em
seguinte maneira: "Quem possui em maior n-               nenhum gnero, conquanto seja princpio do
mero as coisas segundo a natureza tem o dever             gnero das substncias e de todos os outros g-
de continuar vivendo; quem, ao contrrio, tem             neros (v. S. TOMS. S. Th.. I., q. 3. a. 5; Contra
ou se acredita destinado a ter em maior nme-             Gent.. I, 25).
ro as coisas contrrias, tem o dever de sair da               SUJEITO (gr. TTOKeuxvov; lat. Subjedum.
vida. Donde se segue que o sbio s vezes tem             Siipposititni; in. Subject; fr. Sujei: ai. Subjekt: it.
o dever de sair da vida mesmo sendo feliz, e              Soggetto). Esse termo teve dois significados fun-
o tolo, de continuar vivendo mesmo sendo                  damentais: lu aquilo de que se tala ou a que se
infeliz" (De finibus, III, 18. 60; v. SHNKCA.             atribuem qualidades ou determinaes ou a
lip.. 12).                                                que so inerentes qualidades ou determina-
    2" Porque  uma afirmao da liberdade do             es; 2o o eu. o esprito ou a conscincia, como
homem contra a necessidade. Epicuro dizia: "             princpio determinante do mundo do conheci-
uma desventura viver na necessidade, mas vi-              mento ou da ao, ou ao menos como capaci-
ver na necessidade no  em absoluto necess-             dade de iniciativa em tal mundo. Ambos esses
rio''; e Sneca comentava: "Agradecemos a                 significados se mantm no uso corrente do ter-
Deus que ningum possa ser retido em vida                 mo: o primeiro na terminologia gramatical e no
contra sua prpria vontade:  possvel esma-              conceito de S. como tema ou asstinto do clis-
SUJEITO                                                  930                                           SUJEITO

curso; o segundo no conceito de S. como capa-                  caes e que o S. ao qual elas inerem  sim-
cidade autnoma de relaes ou de iniciativas,                 ples, no composto e indivisvel" (Treatise, 1.
capacidade que  contraposta ao simples ser                    IV. 5. ed. Selby-Bigge. p. 242). Por outro lado,
"objeto" ou parte passiva de tais relaes,                    esse mesmo significado mantm-se at mesmo
    1" O primeiro significado pertence  tradi-                no racionalismo alemo. Leibniz pretende con-
o filosfica antiga. Aparece em Plato (Prot..               servar o significado tradicional de S. (Nonr.
3-49 h) e  denido por Aristteles como um                    css., II, 23, 2) e. ao falar de disposies "que
dos modos da substncia. Aristteles diz: "S.                 vm asubjecto, ou da prpria alma", est falan-
aquilo de que se pode dizer qualquer coisa,                    do de disposies que vm da prpria substn-
mas que por sua vez no pode ser dito de                       cia da alma (Remarquessur leLivre de lorigine
nada" (Met.. VII, 3. 1028 h 36). Neste sentido, o              du mal. em Op., ed. Erdmann, p. 645). Por sua
5. pode ser entendido: a) como a matria de                    vez, Wolff define o S. como "o ente, enquanto
que se compe uma coisa. p. ex. o bronze; b)                   dotado de essncia e capaz de outras coisas
como a forma da coisa, como p. ex. o desenho                   alm dela" (Ont..  7 11). No mesmo sentido.
de uma esttua; c) como a unio de matria e                   Baumgarten diz que o S.  o ente. determinado
forma, como p. ex. a esttua (Ihid.. 1029 a 1).                na matria cie que  constitudo (Mel..  344).
Essas determinaes pertencem estritamente                    Alis, o prprio Kant recorre a essa noo tradi-
metafsica aristotlica. Mas o que importa  o                 cional de sujeito. Diz: "H tempos observou-se
sentido geral do termo: S.  o objeto real ao                  que, em todas as substncias, o S. propriamen-
qual so inerentes ou ao qual se referem as de-                te dito, aquilo que fica depois de retirados os
terminaes predicveis (qualidade, quantida-                  acidentes (como predicados), portanto o ver-
de, etc). Este  tambm o conceito de sujeito                  dadeiro elemento substancial, nos  desconhe-
dos esticos, que o consideraram como objeto                   cido" (Prol..  46).
externo ao qual se refere o significado, ou seja,                  2" O segundo significado desse termo, como
como a denotao do significado (SKXTO EMP-                   o eu. a conscincia ou a capacidade de iniciati-
RICO, Aclr. niath., VIII, 12; cf. SIGNIFICADO). OS             va em geral, teve incio com Kant, que certa-
epicuristas empregaram esse termo com o mes-                   mente teve em mente o significado que a opo-
mo sentido (EPICIRO, Epstola. I, pp. 12, 24.                  sio entre subjetivo e objetivo assumira em
Uesener). F, com essa tradio que se relaciona                alguns escritores alemes, seus contempor-
o uso gramatical do termo, que comeou no                      neos (v. StiisjHTivo). Para Kant. S.  o eu pen-
sc. 11 d.C; Apuleio j chamava de suhjectiva                  so cia conscincia ou autoconscincia que
ou subclitci a parte do discurso que os antigos                determina e condiciona toda atividade cognos-
chamavam de nome, e cie declaratira a par-                     citiva: "Em todos os juzos sou sempre o S.
te que os antigos chamavam de verbo (De                        determinante da relao que constitui o juzo".
dogmate Plalons. III, p. 30. 30; cf. MARCIANO                 "Para o eu. para o ele ou para aquilo (a coisa)
CAPELA. De nuptiis. IV, 393).                                  que pensa, a representao  apenas de S.
    Esse significado de "S." permanece inaltera-               transcendental dos pensamentos, = xque s 
do atravs de longa tradio. Os escritores me-                conhecido atravs dos pensamentos que so
dievais adotam as determinaes de Aristte-                   seus predicados e cios quais,  parte estes, no
les: chamam a substncia de subjectum ou                       podemos ter o menor conceito" (Crt. R. Pura.
supposum porquanto a ela inerem as qualida-                   Dial. transcendental. II, cap. 1). Nessas palavras
des ou as outras determinaes (cf. S. TOMS, ,V.              de Kant pode-se reconhecer a passagem do ve-
'lh.. I, q. 29. a. 2; Dl'NS Scor. Op. Ox, II. d. 3, q.         lho para o novo significado de sujeito. O eu 
6, n. 8; OCKHAM, In Sent.. I. d. 2, q. 8, E). O sig-           S. na medida em que seus pensamentos lhe
nificado desse termo no muda quando por S.                    so inerentes como predicados: este  ainda o
 entendida a alma como substncia  qual                      significado tradicional do termo. Mas o eu 
inerem determinados caracteres ou da qual                      sujeito na medida em que determina a unio
emanam determinadas atividades. Hobbes diz:                    entre S. e predicado nos juzos, na medida em
"O S. da sensao  o prprio senciente. ou                    que  atividade sinttica ou judicante, es-
seja, o animal" (Decorp., 25. 3). Locke chama                  pontaneidade cognitiva, portanto conscincia,
o sujeito neste sentido de substratum ou supor-                autoconscincia ou apercepo; e este  o
te (Ensaio. II. 23, 1-2).  com esse mesmo sen-                novo significado de sujeito.
tido que Hume se vale desse termo: "Eis que                        A tradio ps-kantiana atm-se exclusiva-
aparece Spinoza a dizer-me que s h modifi-                   mente a este segundo significado. Para Fichte,
SUJEITO                                                  931                                          SUJEITO

o S. 6 o Eu, que  "S. absoluto, no representa-               nosso conhecimento no  esprito e fato espi-
do nem representvel", que "no tem nada em                    ritual, mas pura e simplesmente esprito, como
comum com os seres da natureza" ( Wissens-                     sujeito. Como tal, ela s  conhecida na medida
chaftslehre, 1794,  3, d). Segundo Fichte, a                  em que sua objetividade se resolve na ativida-
diferena entre a Substncia de Spinoza e o Eu                 de real do S. que a conhece" (Teoria generce
Absoluto consiste no fato de que Spinoza no                   dello spirto, 1920, 11,  3). Croce emprega a
concebeu a substncia como S. (Ibid., trad. it.,               palavra S. para indicar o Esprito do Mundo, a
pp. 78 ss.). Schelling fala no mesmo sentido de                Razo ou a Plumaniclade, que  o princpio
identidade ou unidade cio S. e de objeto na                    criativo da histria (Storografia e idealit
ALitoconsciencia Absoluta (System des transzen-                morale, 1950, p. 21).
dentalen Idealisnuts, 1800, I. cap. 11; trad. it., p.              Ficaram poucos sinais dessa pesada mitolo-
34). Por sua vez, Hegel dizia: "Tudo depende                   gia no restante da filosofia contempornea. Por
de se entender e expressar o Verdadeiro no                    um lado, as correntes do iieocnlicismo(\.), ao
somente como Substncia, mas de maneira                        insistirem no aspecto lgico-objetivo cio conhe-
igualmente decidida como S. (...) A subs-                      cimento, relegaram para segundo plano a fun-
tncia viva  o ser, que na verdade 6 S. ou --                 o do sujeito; alis, evitaram empregar seu
o que d na mesma --  o ser que na verdade                    conceito e o prprio termo em suas anlises
6 efetivo, mas somente na medida em que a                      explicativas. Por outro lado, o S. como eu (ou o
substncia  o movimento de pr-se a si mes-                   eu como S.) simplesmente desaparece em
ma ou  a mediao do vir a ser outra consigo                  algumas filosofias contemporneas porque de-
m e s m a " (Phanomen. des Geistes, Pref.,   II,   1).         saparece a funo diretiva e construtiva que ele
No mesmo sentido. Hegel afirma que a Idia                     deveria exercer.  o que acontece, p. ex., na fi-
Absoluta 6 unidade de S. e objeto {Ene,  214).                losofia de Mach, em que o eu se torna simples-
E acrescenta: "A unidade da idia  subjetivida-               mente um conjunto de sensaes, de elemen-
de, pensamento, infinidade, e portanto deve ser                tos cognoscitivos, e no tem mais funo como
distinguicla essencialmente da idia corno                     S. (Analyse der Empfindungen, 1900, 1, 12). Em
substncia do mesmo modo como se deve fa-                      sentido anlogo, Wittgenstein diz que o S. "no
zer a distino entre essa subjetividade clomi-                existe. Se eu escrevesse um livro 'O mundo
nadora, esse pensamento, essa infinidade e                     como encontrei', deveria falar tambm de meu
a subjetividade unilateral, o pensamento unila-                corpo, e dizer quais as partes dele que obede-
teral, a infinidade unilateral,  qual ela se rebai-           cem  minha vontade e quais no, etc, o que
xa ao julgar e definir" (Ene,  215). Logo, a                  seria um mtodo de isolar o sujeito ou de mos-
subjetividade como "subjetividade infinita", ou                trar que, em sentido importante, no h sujeito.
seja, no intelectual, prevalece sobre a obje-                 Com efeito, no se poderia falar dele sozinho
tividade na "unidade S.-objeto" que  a Idia                  nesse livro" (Tractatus, 1922, 5.631). O S. no
ou o Absoluto. Mas Hegel tambm viu no S.                      existe porque "o S. no pertence ao mundo,
como tal a capacidade de iniciativa ou o                       mas  um limite do mundo" (Ibid., 5.632), no
princpio da atividade em geral. "O S.  a ativi-              sentido de que, assim como o olho, v tudo
dade da satisfao dos impulsos, da racionali-                 mas no se v a si mesmo, e portanto se resol-
dade formal, vale dizer,  a atividade que tra-                ve inteiramente nos objetos vistos. No  muito
duz a subjetividade do contedo (que sob                       diferente o significado da tese de Santayana, de
esse aspecto  fim) na objetividade em que o                   que "o esprito no existe" (Scepticism and Ani-
S. se conjuga consigo mesmo" (Ene,  475).                     mal Eaith, 1923, cap. 26). Mas mesmo quando
Assim como Fichte, Schopenhauer insistia na                    se reconhece a existncia do S., sua funo 
impossibilidade cie representar o S.: "Aquele                  reduzida ao mnimo pela corrente realista. Ao
que tudo conhece e no  conhecido por nin-                    afirmar que "S. e objeto so sempre correlativos
gum  o Sujeito.  ele, pois, que tem o mundo                 um ao outro e por isso inseparveis". N. Flart-
em si;  a condio universal e sempre pressu-                 mann est reduzindo a funo do S. a "ima-
posta de qualquer fenmeno, de qualquer ob-                    gem, representao ou conhecimento do obje-
jeto: porque o que existe, existe para o sujeito"              to", excluindo inclusive a possibilidade de que
(l)ie Weil, I,  2).  quase suprfluo observar                ele modifique a natureza deste (Sistematiscbe
como o idealismo contemporneo abusou des-                     Philosopbie, 1931,  10). Finalmente, mesmo
sas noes, especialmente o idealismo italiano.                quando no excluda, a funo do S. no 
Gentile dizia: "A realidade espiritual objeto do               considerada inconclicionada ou criadora, mas
SUMA                                                    932                                              SUPERAR


submetida a limites e condies, negando-se                   recebem o ttulo de Summa. Nas grandes obras
em todos os casos que ele possa valer como                    sistemticas cio sc. XIII esse termo  usado
substncia ou tora autnoma. Husserl diz: "O                 qua^e com exclusividade, (v. M. GRAHMANN,
ego constitui-se por si mesmo na unidade de                   Geshichte der scbolastischen   Metbode,    II.   pp.
uma histria. Ao se di7.er que, na constituio               23 ss.).
cio ego, esto contidas todas as constituies de                SUNITAS (in. Sitiantes-, fr. Sunnite, ai. Sun-
todos os objetos que existem para ele. ima-                   niten-, it. Suiaiiti). Corrente islamita ortodoxa
nentes e transcendentes, reais e ideais,  preci-             que admite a validade de crenas prticas no
so acrescentar que o sistema de constituies                 prescritas no Alcoro, mas cuja origem seria o
em virtude das quais tais objetos existem para                prprio Maom. Os xiitas, ao contrrio, negam
o ego s  possvel no quadro de leis genticas"              o valor da tradio.
(Cart. Med., 1931, 37). Desse ponto de vista, o                  SUPERADDITA, FORMA. Telsio extraiu
S. 6 uma funo, no unia substncia ou uma                   essa expresso nos escolsticos de inspirao
fora criadora. Heidegger disse: "Se para o ente              escOtista para designara alma supranatural, di-
que ns somos e que definimos como ser-a                     retamente infundida no homem por Deus, que
for escolhido o termo sujeito, poderemos di-                  ele ;idmite estar ao lado da natural e material,
zer: a transcendncia implica a essncia do S..               com su}eAo da \iiAa Te'ngiosa e da aspirao
 a estrutura fundamental da subjetividade. No               do liomem pelo que est alm da natureza. Ao
que o S. exista antes como S. e depois, no                    contrrio da alma natural, a forma S. no seria
momento em que alguns objetos se revelem                      corruptvel (De rei: nat., V. 3).
presentes, ele possa at mesmo transcend-los.                   SUPERAR (in. To sublate-, fr. Dpasser, ai.
Ser S. significa ser existente na transcendncia              Aujheben; it. Superare). Termo tisado por He-
e enquanto transcendncia" ( Vom Wesen des                    gel para indicar o processo dialtico que. ao
 (j'rundes, 1929. II; trad. it., p. 30).  preciso            mesmo tempo, conserva e elimina cada um de
lembrar que, para Heidegger. transcendncia                   seu.*! momentos. Hegel dizia: "Na lngua, a pa-
(v.)  relao com o mundo; portanto, o S.                   lavni S. tem sentido duplo porqtie, por um lado,
por ele identificado com essa relao. De                     significa conservar, reter, e. por outro, fazer
modo mais emprico, Dewey ressalta o carter                  cessar, pr tini. 'Conservar' j encerra o nega-
puramente funcional da subjetividade: "Uma                    tivo, implica que algo foi privado de sua
pessoa, ou -- mais genericamente -- um orga-                  imediao, portanto de unia existncia aberta a
nismo, torna-se sujeito cognoscente em virtude                influncias externas, com o fim de ser retido.
de seu empenho em operaes de investiga-                     Assim, o que  superado  ao mesmo tempo
o controlada" (Logic, 1938, p. 526). Admitir                algo conservado que perdeu apenas a imedia-
que existe S. cognoscente independente da                     o, mas nem por isso  anulado." (Wissens-
investi-gao e anterior a ela significa supor algo           cbaft der Logik, I, Livro I, se. I, cap. 1. nota;
que  impossvel verificar empiricamente e que,               tracl it., pp. 105-06). Kmbora Hegel, no mes-
portanto, no passa de preconceito metafsico.                mo trecho, faa um paralelo entre o significado
 Hssa idia fora exposta por Dewey j em                      cio termo alemo e o latim tollere, o uso em ita-
Studies in I.ogical Theory, de 1903 (cf. tambm               liano estabeleceu a equivalncia do termo com
 ILxperience and Nature, 1926. cap. VI).                      superar. Superao significa, conseqentemen-
    SUMA. No sc. XII comeou-se a designar                   te, progresso que conservou o qtie havia de
com este termo os breves tratados sistemticos                verdadeiro nos momentos precedentes, levan-
sobre algum conjunto de conhecimentos. Abe-                   do-o a completar-se. Como exemplo desse
lardo escrevia no prefcio  sua Introduo a                 conceito, pode-se citar o que Hegel diz sobre a
Teologia-. "Kscrevi uma suma da sagrada erudi-                superao no domnio da filosofia. "Toda as fi-
o, como introduo  divina escritura" (P. /..,             losofias foram necessrias e ainda so; nenhu-
68, col. 979). As S. costumavam ter como ttulo              ma desapareceu, mas todas foram conservadas
a matria tratada (S. de vitiis et virtutibits; S. de         afiniiativamente na filosofia comei momentos
articuls fide; S. sermonum; S. grammaticalis,               de um todo: os princpios so conservados, e a
S. logicalis; etc). Depois do sc. XIII, comeou-             filosofia mais recente  o resultado de todos os
se a dar preferncia a esse termo, em vez de                  princpios precedentes: nesse sentido, nenhu-
Sententiae. para ttulo cias exposies sistemti-            ma filosofia foi refutada. O que foi refutado
cas de teologia. Os manuscritos da obra de                    no  o princpio de dada filosofia, mas apenas
Pietro da Capua (escrita por volta de 1200) j                a suii pretenso de representar a concluso lti-
SUPEREROGATRIO                                       933                                     SUPERSTIO

ma e absoluta" (Gescbicbte der Fbilosophie. I,              vrios escritores do Romantismo alemo, in-
Intr.. A, 3. b). O idealismo italiano entre guerras         clusive por Goethe (Fausto, 1, Noite). Mas foi
usou e abusou desse termo.                                  s com \ietzsche que esse termo assumiu sig-
     SUPEREROGATRIO (in. Supererogcito-                    nificado filosfico e se tornou popular. O S. 
>y). O que  feito ou dado sem estrita obri-                a enearnao da vontade de potncia: "O ho-
gao jurdica ou moral; trata-se de doao                 mem deve ser superado. O S.  o sentido da
suprflua, portanto meritria. Hssa  uma pos-              terra. (...) O homem  uma corda esticada entre
sibilidade que a moral kantiana excluiria, por-             o animal e o S.. uma corda sobre o abismo"
que, segundo Kant. o homem est sempre em                   (Also sprcicb /.aratbuslra, I. 3). O S.  a enear-
dbito para com o dever (Relf>on, II, I. o trad.          nao cios valores vitais que Nietzsche contra-
it.. Durante, p. 67).                                       pe aos valores tradicionais; para Nietzsche. 
     SUPERESTRUTURA (in. Superslnicture, fr.                o filsofo criador de valores, dominador e le-
Superstriicture, ai. Vberbau; it. Sopmstnttturc.           gislador, em oposio aos "operrios da filoso-
Termo empregado pelos marxistas para desig-                 fia", que so os comumente considerados fil-
nar a ordenao poltica e jurdica, liem como              sofos (Jeuseils rou Gut uuclBase, 211). Apesar
as ideologias polticas, filosficas, religiosas,           de o conceito nietzschiano no ter nenhum sig-
etc. na medida em que dependem da estrutura                 nificado poltico preciso, acabou servindo de
econmica de dada fase da sociedade. Marx                   pretexto ao racismo e s concepes antide-
diz: "O conjunto de relaes de produo cons-              mocrticas em poltica.
titui a estrutura econmica da sociedade, ou                    SUPERIOR (lat. Superius-, in. Superior, fr.
seja, a base real sobre a qual se ergue a S. jur-          Supriem-, ai. Hbei: it. Superioiv) 1. Km senti-
dica e poltica e  qual correspondem formas                do lgico: mais extenso, que tem maior exten-
determinadas de conscincia social. O modo                  so ou denotao. Nesse sentido, fala-se de
de produo da vida material condiciona, em                 "gnero S.". de "conceito S." ou, em geral, de
geral, o processo social, poltico e espiritual da          "termo S.". Este uso remonta  lgica terminista
vida" (Zur Kritik der politischen kouomie,                 do sc. XIV (PF.ORO HISPANO, Sunim. log., 2.08;
 1859, Pref.) (v. MATKRIAI.ISMO HISTRICO).                 3.02: 12.13; cf. PRAYII. Gcscbichte der Loi>ik.
    Esse termo tambm foi empregado por N.                  IV, p. 49).
Hartmann para indicar um estrato ou plano do                    2. O que pertence a uma fase mais avanada
ser no qual se conservem somente algumas                    da evoluo biolgica: nesse sentido, fala-se de
das categorias do plano inferior; distinguir-               "espcies S." ou "animais superiores".
se-ia cia sobreformao (Uberfornumg) por-                      3. O que pertence  esfera das funes
que nesta se conservariam todas as categorias               espirituais ou simblicas do homem. Nesse
do plano inferior. Por ex., o plano psquico                sentido fala-se em "funes S." ou "interes-
seria uma S. em relao ao plano orgnico,                  ses superiores".
porque nele  abandonada a categoria espa-                      4. Aquilo a que, em algum sentido, se
o, que ainda domina o ser orgnico. Assim,                 atribui grau mais elevado de dignidade ou
a diferena entre S. e sobreformao bloquea-               valor; p. ex. "homem S." ou "formas superio-
ria o caminho para a concepo mecanicista                  res de arte ".
da vida psquica (Aujbau der rocileu Weil,                      SUPERSTIO (gr. Seioioauovot; lat. SII-
 1940). Algumas vezes o termo de Hartmann                   perstitio; in. Superstitiou; fr. Superstitiou; ai.
 traduzido como sobreconstrito (it.. so-                 Aberglaube. it. Superstizoue). Excesso ou aber-
pracoslruzioue) (ei. BAKONF., .Xicolai Harl-                raes da religio, ou ento a forma de religio
mann. p. .3-12).                                            cie que no se compartilha. Eoi Ccero quem
   SUPER-HOMEM (gr. 7lpvep(JT0: in.                    definiu a S. no primeiro sentido: "No s os fi-
Supermcni; fr. Surbomme, ai. Uhermeiisch; it.               lsofos mas tambm os nossos antepassados
Supeniomo). O termo que se encontra em                      distinguiram a S. da religio: aqueles que reza-
Luciano (Calciplits. 16) e que algumas vezes foi            vam o dia inteiro e imolavam vtimas para que
usado para designar o homem-Deus (= Cristo;                 os filhos sobrevivessem [lat. sitpersles. su-
v. 1'. TASSO. I.ettere, V. 6). foi empregado antes          perstitis - sobrevivente] foram chamados de
por Ariosto (Orl. Fm:. 38. 62) para indicar uma             supersticiosos, e depois essa palavra ganhou
humanidade extraordinria. Foi introduzido                  significado mais extenso" (Do nat. tleor.. II, 28,
na Alemanha por Heinrich Miiller (Cleistliche               71-72). Essa definio foi repetida substancial-
Frbauu)ii>stii)ideu. 1664-66) e empregado por               mente por S. Toms: "A S.  o vcio que, por
SUPERVERDADE                                          934                                       SUPRA ENTE

excesso, se ope  religio, pois se presta culto           mo est no lugar da palavra ou do sinal escrito,
divino a quem no se deve ou na forma                       como nas frases "homem  substantivo" ou
indevida" (S. Th., II, 2, q. 93, a. 1). No segundo          "est escrito homem", onde homem est no
sentido, foi definida por Hobbes: "O temor                  lugar de uma palavra ou de tim sinal escrito.
diante dos poderes invisveis, se estes forem               Cada um desses atributos da S. foi ainda sub-
imaginados pelo esprito ou sugeridos por nar-              dividido pelos lgicos do sc. XIV e estuda-
rativas publicamente admitidas,  religio; se              do em termos de dificuldades e problemas que
sugeridos por narrativas no admitidas publi-               apresentam. Para se ter uma idia desses pro-
camente,  S." (Leriath.. 1, 6).                            blemas, eis como Ockham enfrenta a dificulda-
    Na verdade, S.  um termo polmico: para o              de apresentada pela S. do termo "homem" na
estudo objetivo (antropolgico ou sociolgico)              proposio "o homem  a mais elevada das
das crenas, no existem supersties, e sem-               criaturas". Aqui o termo "homem" no pode
pre que se fala em S., est-se tomando como                 ter uma S. simples porque no  o conceito
referncia determinado sistema religioso, que               homem que  a mais elevada das criaturas; tam-
 considerado o nico verdadeiro. Assim, cada               pouco pode ter uma S. pessoal, porque, subs-
religio parece S. aos seguidores de uma reli-              tituindo-se homem' por algum homem indivi-
gio diferente, e a nica descrio exata do ter-           dual, o juzo toma-se falso. A soluo  que a
mo  a que se encontra em Hobbes.                           proposio tem uma S. pessoal, mas que deve
    SUPERVERDADE (lat. Superreritas). Um                    ser limitada, dizendo-se que o homem  a mais
atributo de Deus. segundo Scotus F.rigena (De               elevada cie todas as criaturas que sejam diferen-
dvis. nat., I. 14) (v. SUPRA-KNTK).                        tes dele. nesse caso. a proposio  verdadeira
   SUPOSIO (gr. TIBEOI; lat. Supposito;               para cada indivduo humano (Summa log., 1, 66).
 in. Supposition; jr. Suppositiotr, ai. Voraus-                 A teoria da S. foi posta de lado quando a
 setzung, Supposition; it. Supposizione). 1. O mes-         lgica terminista foi abandonada em favor
 mo que hiptese.                                           da lgica mentalista. sob a influncia do carte-
    2. Na lgica terminista medieval,  o signi-            sianismo. Os problemas por ela tratados foram
ficado denotativo dos termos presentes na pro-              herdados pela teoria do conceito (cf. E. ARNOLD,
 posio, enquanto o significado em sentido                 Zur Geschichte der Suppostionstheorie. em
 estrito  o conotativo (v. SIGNIFICADO). Nesse             Symposion. III, 1954; E. A. M O O D Y , 1'ruth and
 sentido, a S.  definida como uma positio pro              Conseqente in Mediaeral Logic, 1953).
 alio, um estarem lugar de alguma outra coisa:                 SUPRA-ALMA(in. Oversoul). Foi assim que
 p. ex., quando dizemos "o homem corre", o                  R. W. Emerson definiu Deus, concebendo-o
 termo "homem" est em lugar de Scrates,                   princpio imanente no mundo e no homem
 Plato ou algum outro (PKDKO HISPANO, Summ.                (Nature, 1836).
                                        U
log.. 6.03; OCKHAM, Summa log., I, 63; E KIDAN,                SUPRACONSCINCIA (fr. Supraconscien-
Sophysmata, 3; ALBKKTO DE SAXMA. Lgica)                   ce). Termo usado por Bergson para indicar uma
Com exceo de alguns casos isolados, a teoria              "verdadeira atividade criadora" ou uma "cons-
da supposito  mais ou menos uniforme em to-               cincia pura", que, para ele, no  a vida (vol.
dos os lgicos do sc. XIV. Eles distinguiam                cratr, 8a ed., 1911. pp. 267, 283, etc).
trs espcies fundamentais de S.: pessoal, sim-                SUPRACONSTRUO. V. SIIPKRKSTRITIIRA.
ples e material. Tem-se a S. pessoal quando o                  SUPRA-ENTE (gr. tmepooio; ai. ber-
termo est no lugar do objeto significado, qual-            seiend; it. Superessente). Encontramos esse
quer que ele seja: coisa externa, palavra, con-             adjetivo pela primeira vez em Proclo (Inst.
ceito, sinal escrito ou outra coisa. Assim, nas             theol, 115), mas Plato j dissera que o bem
frases: "o homem  um animal", "o nome  par-               est alm da substncia (Rep., VI, 509 b), con-
te da proposio", "a espcie  um universal",              ceito que se tornou basilar na filosofia de Plo-
os termos homem, nome e espcie tm S. pes-                 tino. para quem o tino est "alm do ser"
soal porque esto no lugar dos respectivos                  (LJUI., V, 5, 6) ou "antes do ser" (Ibid., III, 8,
objetos. Tem-se S. simples quando o termo no               10). Dionsio, o Areopagita usou o termo "su-
est no lugar do objeto significado, mas de seu             pra-essencial" (De dirinis nominibus, II, em P.
conceito. Assim, quando se diz "o homem                    /.., 122y, col., 1 122), e Scotus Erigena valeu-se
uma espcie", o termo homem no est no                     do termo superessentia (De divis. nat., 1,14). O
lugar de "o homem", mas do conceito "homem".                mesmo termo  encontrado ainda na tradio
Finalmente, tem-se S. material quando um ter-               mstica e teosfica. Mestre Eckhart fala de Deus
SUPRALAPSARIANISMO                                      935                                    SYNKATATHESIS

como de "Lima essncia supra-essencial e um                      SUPRA-SENSVEL (in. Snpersensiblc- fr.
nada S." (Deutsche Mystiker des XIV Jabrhun-                  Supniseiisiblc   ai.   1'bersiwich;   it.   Sopmseu-
derts, ed. Pfeiffer, II, pp. 318-19). A mesma                 sibi/e). Na terminologia kantiana (que ps esse
qualificao aparece em Schelling (Werke, I, X,               termo em uso), o mesmo que nmeno: "Aquilo
p.      260)   (v. T E O L O G I A ; TRANSCENDNCIA).         <)ue diz respeito  faculdade especulativa da ra-
    SUPRALAPSARIANISMO (in. Supralapsa-                       >.o. mas de que nenhum conhecimento 
rianism, Ir. Supralapsarianisme, ai. Supralapsci-             possvel (iioiinioionmi non clcitnr scienliu)"
rianismus; n. Sopralupsarismo). No se. XVII,                 (FortscbrftederMeiaphysik, 1804, |A 55]). Por-
foi esse o nome dado  doutrina de que Deus                   tanto, o S.  o domnio das idias da Razo
predeterminou a queda (lapsus) cie Ado ab                    1'ura, com tudo o que elas implicam para a vida
aetenio, para pr em ao seus instrumentos de                moral do homem. Hegel empregou esse termo
salvao. Essa doutrina foi sustentada por al-                cm sentido anlogo, mas positivo, para indicar
guns telogos calvinistas, mas negada por ou-                 aquilo que a aparncia sensvel  em sua na-
tros que se chamaram de iiifralapsariciiws.                   tureza racional: "O S.  o sensvel e o perce-
Leibniz discutiu longamente esses problemas                   bido postos como so em verdade", portanto
no segundo livro da Teodicia (1710) (y. GRA-                 como "o universal simples, o universal em que
<:,4;    PRI:.I>!:STI\<A(:AO).
                                                              U multiplicidade no subsiste, em que nada h
   SUPRA-ORGNICO (in. Sitperorganic fr.                      para conhecer": em suma, o universal do modo
Siiperorga)iic]ue,A\. Uberorgcuiiscb; it. Superor-            como Schelling o entendeu (Pbcuiumei. des
>miico). Termo usado pelo positivismo para
                                                              Cjeistes, I, IV, 15; trad. it., p. J27 e nota).
indicar o que est alm da vida orgnica, vale
dizer, a vida psquica ou a vida social, espe-                   SUPREMO BEM. V. HF.M SUPRKMO.
cialmente esta ltima. Esse termo  usado fre-                   SUSPENSO DO JUZO. V. KPOCIIF..
qentemente por Spencer.                                         SYNKATATHESIS. V. ASSKNTIMHNTO.
                                               T

   TABU (in. Ta boa; fr. Taboii; ai. Tabu; it.      Kant fala-se de "'I'. das categorias" (v.      CATE-
'Tabu). Termo polinsio que significa simples-      GORIA).
mente proibir ou proibido e que passou a indi-         TBUA RASA (gr. nivat, ypacpt; lat. Ta-
car a caracterstica sagrada da proibio em to-    bula rasa). Expresso que indicou, s vezes, a
dos os povos primitivos e qualquer proibio        condio da alma antes cia aquisio dos co-
no motivada em todos os povos. A generali-         nhecimentos. Essa expresso nasce cia compa-
zao nesse sentido do conceito 6 de autoria        rao cio processo de aquisio de conheci-
de Salomon Reinach. A melhor explicao cia         mentos com o processo de impresso de sinais
funo do T. encontra-se em A. R. Radcliffe-        ou letras sobre tabuinhas cobertas cie cera ou
Brown, que nele discerniu um instrumento            cie escrita sobre pgina. Trata-se de compara-
para ressaltar a importncia social de aconte-      o bastante antiga, que j se encontra em
cimentos, aes, interditos, normas, etc.           Esquilo (Proin., 789). Plato comparava a alma
Nesse sentido, o T. est ligado a qualquer pres-    a um bloco de cera onde se gravam as sensa-
crio ritual (Stnifture and Functum in Pri-        es e os pensamentos de que depois nos
mitive Sociely, 1952, cap. VII). Freud compa-       lembramos ( Teet., 191 cl; /'//., 39 a). Aristteles
rou o T.  neurose obsessiva e viu entre as         comparava o intelecto a uma tabuinha onde
duas coisas quatro pontos semelhantes: 1" falta     nada est escrito (Decai., III, t, (30 a I). Os es-
de motivao das proibies; 2" sua validao       ticos comparavam a parte hegemnica cia
por meio de uma necessidade interior; 3" pos-       alma a um papiro onde sero escritos os sinais
sibilidade de deslocamento e contgio dos ob-       das coisas, ou seja, as representaes (PUTAR-
jetos proibidos: 4" criao de prticas cerimo-     CO, PklC. IV,   11; V. CIALKINO, ISt. pbilos., 92;
niais e mandamentos derivados das proibies                          mcitlx, VII, 228). A mesma
                                                    SF.XTO EMPRICO. Adv.
( Totem e T, 1913, cap. II; tracl. it., p. 37.)     comparao  depois repetida com freqncia
    TBUA (lat. Tabula; in. Tahle, fr. Tahle, ai.   (FLON, Ali. leg., I, 32; BOHCIO. Phil. com., V.
1'afel; it. Tavola). Esse termo foi vrias vezes    4; etc), mas a expresso "tabuinha sem escri-
usado para indicar a apresentao organizada        ta" encontra-se pela primeira vez no comen-
ou sistemtico de conceitos. Os antigos falavam     taclor de Aristteles. Alexandre de Afrodisia
das iahulae logicae, que era a apresentao hie-    (cerca cie 200 a.C); na Idade Mdia foi usada
rrquica de conceitos dispostos segundo a           por S. Toms (Dean., a. 8. resp.; S. Th., I. q.
maior generalidade: a rvore de Porfrio (v.)      89, a. 1. ad 3").
a mais conhecida dessas tbuas. No mesmo                Locke utilizou essa imagem para expressar a
sentido, denominavam T. os conjuntos de nor-        tese da origem emprica dos conhecimentos
mas morais ou jurdicas (a lei das 12 tbuas, as    (Ensaio. II, I, 2) e I.eibniz a usou na sua crtica a
T. de Moiss). Bacon deu o nome de T. s            essa tese de Locke (Nouv. ess., II, I, 2). Desde
coordenaes cias instncias, ou seja, dos aspec-   ento essa expresso passou a indicar a tese
tos particulares de um fenmeno (Nov. o>%,          empirista sobre a origem do conhecimento e a
II, 10) e distinguiu as T. de presena, as T.       negao do inatismo.
de ausncia, as T. dos graus ou comparativas e          TBUAS DE VERDADE (in. Truth tables:
as T. exclusivas (Ibid. II, 11-13). A partir de     fr. Tables de vrit; ai. Wahrheilsmglichketen:
TBUAS DE VERDADE                                                              TBUAS DE VERDADE

it. Tarole di verit). No clculo das proposi-           p                '1               pv q
es, ']'. construdas pelo mtodo de matrizes
                                                         V                V                    V
(v.), que permite enumerar todas as possibi-
lidades de verdade para certo nmero de pro-             V                F                    V
posies simples e assim identificar se uma
proposio 6 verdadeira. Fssas tbuas so                F                V                    V
construdas com os smbolos dos conectivos l-           F                F                    F
gicos (v. CONHCTIVO) e, com V e F. indicam res-
pectivamente o valor de verdade e de falsidade     que fornece o critrio mais geral para a valida-
de uma proposio. Assim, utilizando o smbo-      de de uma disjuno qualquer.
lo -/; para indicar a negao de p (ou que p         Quanto  T. de verdade cia relao condicio-
falso), tem-se a seguinte T.:                      nal, expressa atravs do conectivo se... e pelo
                                                   smbolo 3, ver os termos IMPLICAO H CONDI-
                 p           ~P                    CIONAL.
                 V           F                         Com base nessas tbuas,  possvel cons-
                                                   truir outras mais complexas, como a seguinte,
                 F           V                     que d os valores de verdade das combinaes
significando que, se /;  verdadeiro, sua nega-    condicionais possveis entre as proposies
o  falsa e, se p falso, sua negao  verda-   condicionais e as disjuntivas (cf. TARSKY, Intr. to
deira. Se considerarmos a conjuno entre duas     Logic,  3); para a funo (/; v q) (p.r), onde /;.
proposies, indicada pelo smbolo '.', teremos    q. r representam proposies quaisquer:
a seguinte T. de verdade-.
                                                    p     <1 r     p.q               (p.q)Z) (/>z> r)
             P        <1      p.q                   V     V   V     V          V           V
                                                    F     V   V     V          F           F
                                                    V     F   V     V          V           V
                                                     F    F   V     F          F           V
                      F          F
                                                    V     V   F     V          F           F
que indica todos os valores possveis de verda-
de para cada tipo cie conjuno entre as pro-       F     V   F     V          ]-         F
posies; por isso. pode ser assumida como a
prpria definio do conceito lgico de con-        V     F   F     V          F           F
juno (v.). Significa que a conjuno entre        F     F    F    F          F           V
duas proposies conexas pela palavra "e" 
vlida s no caso de ambas as proposies se-         Para simplificar o significado dessa 'I'., consi-
rem verdadeiras, como quando se diz "Est          dere-se a quinta linha depois do cabealho:
chovendo e h umidade".                            nela se supe que p e q so proposies ver-
   Tem-se disjuno quando se insere entre         dadeiras e que r uma proposio falsa. Com
duas proposies a palavra "ou", representa-       base na segunda T. fundamental, obtm-se que
da pelo smbolo v; na lngua corrente, pode         "p.q  uma proposio verdadeira e que "p 3 q"
ler dois significados: um significado inchtsi-      uma proposio falsa; unindo-se "(p.q)z)
ro (em que "ou" corresponde ao latim rei),         (pz> ?-)", obtm-se uma implicao em que o
como quando se diz "Pode-se ir a Roma por          antecedente  verdadeiro e o conseqente  fal-
este caminho ou pelo outro", em que pelo           so e que, com base na T. das implicaes,  falsa.
menos uma das duas proposies  verdade;             O uso das T. pode ser ampliado a todos os
e um significado exclusivo ("ou" nesse caso        teoremas cio clculo das proposies. Assim
corresponde ao latim aut), como quando se          como da T. de implicao material, cias outras
prope uma alternativa: "Vamos a Roma ou           T. derivam conseqncias que se mostram pa-
a Paris", em que pelo menos uma das propo-         radoxais do ponto cie vista da linguagem cor-
sies  verdadeira e pelo menos uma  fal-        rente. Vejamos as seguintes:
sa. A T. de verdade da disjuno geralmente           se c/ verdadeiro, ento c/se segue de qual-
 a seguinte:                                      quer p; ou, em outros termos, uma proposio
TALENTO                                              938                                             TAREFA

verdadeira se segue de qualquer outra propo-               clopdica da tradio judaica escrita em ara-
sio;                                                     maico, que foi compilada durante oitocentos
    se p  falso, ento /; implica um q qualquer;          anos (de 300 a.C. a 500 d.C.) na Palestina e na
ou, em outros termos, uma proposio falsa                 Babilnia. Essa obra no  um simples comen-
implica qualquer outra proposio;                         trio do Antigo Testamento, mas uma sntese
    quaisquer que sejampe q, ou p implica r/ou             de filosofia, teologia, histria, tica e folclore
q implica p, em outros termos, pelo menos uma              judaicos, acumulados durante oito sculos. O
de duas proposies quaisquer implica a outra.             T.  composto por duas partes principais: o
    Essas concluses derivam das T. de verdade,            Mishnah. redigido na Palestina, e o Gemara.
sobretudo da T. de implicao, que constitui a             que  um comentrio do primeiro. O Gema-
simplificao e a generalizao dos usos cor-              ra. compilado na Palestina,  denominado jun-
rentes na linguagem comum e nas disciplinas                tamente com o Mishnah. T de Jerusalm; por
cientficas (com exceo da matemtica), em                outro lado, o Gemara compilado na Babil-
que as relaes puramente lgicas entre as pro-            nia  chamado, tambm com o Mishnah. de
posies so submetidas a outras condies                  T. da Babilnia (v. II. L. STRACK-P. BII.I.HR-
mais restritivas. No entanto, continuam a dar              liic.K, Kommentar zum Nenen Testament aus
ensejo a discusses que alguns lgicos (como                Talmnd und Midrasch. Mnaco, 1922-28).
Tarsky) consideram ociosas.                                     TANATISMO (in. Thanatisnv. ai. Thanatis-
    Como dissemos no verbete IMPLICAO, a es-             mtts; it. Tanatismo). Termo criado por E. Hae-
cola estico-megrica, principalmente por meio             ckel para indicar a sua doutrina da mortalidade
de Flon, foi a primeira a criar a T. da implica-          da alma, em oposio a atanatismo (\\).
o material. Na lgica moderna, a idia da T.                  TAOSMOUn. 'lhoism.fr. Taoisme.. 1'aois-
foi retomada por Boole (MathematiccilArwlysis              DIIIS; it. Taoismo). Doutrina de Lao-Tse (que vi-
of Logic, 1847), por Frege (Begriffsschrift, 1879)         veu na China provavelmente no sc. VI a.C), a
e por Pierce (1885; cf. Co//. Pap.. 3.370 ss.),            quem se atribui o Tao Te Ching, isto . o Livro
sendo difundida por Wittgenstein (Tractatus,               do caminho e da virtude. Em oposio ao ca-
1921, 4.31).                                               rter racionalista, terreno e prtico cio en-
    TALENTO (lat. Talentum: in. Talent: fr.                sinamento de Confcio, est o carter mstico,
Talent: ai. Talent: it. Talento). O sentido meta-          religioso e contemplativo do ensinamento de
frico desse termo, derivado da parbola evan-             Lao-Tse; nele encontramos vestgios do pan-
glica dos T. (Mal., 25. 14-30),  de "superiori-          tesmo metafsico dos Vpanishad. Os dois as-
dade do poder cognoscitivo, que no provm                 pectos principais do T. so: monismo pantesta,
cio ensino mas da aptido natural do sujeito".             segundo o qual o tao, que  o caminho para a
Esta  a definio de T. encontrada em Kant                salvao,  tambm o princpio nico do uni-
(Antr., I,  54), que tambm distingue os T. em            verso (todas as outras coisas suas so manifes-
engenho produtivo, sagacidade e originalida-               tao); a tica do no fazer, ou seja, entrega 
de: este ltimo  o gnio. Essa doutrina kan-              ao imanente do princpio csmico e a renn-
tiana foi repetida diversas vezes com poucas               cia a interferir nele ou a obst-Io. (v. A. WALEY,
variaes; est presente at na psicologia mo-             The Way and Its Power, 1934).
derna, embora acentuando-se a importncia                     TAREFA (gr. epyov; lat. Officium, in. Task
dos chamados T. especficos.                               fr. Tache-, ai. Aufgahe, it. Compito). Limitao da
    TALIO (gr. x vn.7i7Tov9; in. Talion, fr.         atividade de uma pessoa ou de uma coisa, para
 '1'alion; ai. Vergeltnug; it. Taglioneou Contrap-         garantir o melhor resultado dessa atividade.
passo). Forma de justia segtindo a qual o ofen-           Nesse sentido, Plato entendia por T. de uma
sor deve sofrer o mesmo mal que causou ao                  coisa "aquilo que s ela sabe fazer, ou pelo me-
ofendido. Segundo relatei de Aristteles, foram            nos que faz melhor que qualquer outra coisa"
os pitagricos que definiram a justia como re-            (Rep., I, 353 a): utilizava essa noo para definir
taliao (Et. nic, V, 5, 1132 b 21). Esse mesmo            a virtude (w). No mesmo sentido e com o mes-
princpio inspira a lei mosaica do "olho por               mo fim, Aristteles utilizou essa noo quando,
olho, dente por dente" (Levit., 24, 17-21). Dante          para definir o que  felicidade, perguntava qual
modelou a estrutura moral do Inferno e do                   "a T. do homem"; e respondia que a T. do ho-
Purgatrio segundo a lei de talio.                        mem  a atividade da alma conforme  razo, e
    TALMUD. Este termo, que na lngua hebrai-              no independentemente da razo (Et. nic, I, 6,
ca significa "ensino", designa a coletnea enci-           1098 aV). Esse conceito  freqente, com o
TATO                                                     939                                            TCNICA

mesmo significado, na filosofia contempornea                  que a compem; p. ex.. "pv~p" ["chove ou
(v. FUNO; OPERAO).                                         no chove"]. Wittgenstein -- adotado a contra-
    TATO (in. Tact; fr. Tact; ai. Tact; it. Tatto). 1.         gosto por Russell -- chega a afirmar que a
Um dos cinco sentidos, que Condillac chama-                    matemtica pura (inclusive a Lgica) constam
va de "sentimento fundamental", porque este                    exclusivamente de T., alis so a classe de to-
 o "sentimento que a estatua (v.) tem da ao                 das as possveis T. (Tmctatus, cit., 6. I, 6.22).
recproca das partes do corpo e especialmente                     Na lgica atual (ps-Wittgenstein), o concei-
dos movimentos da respirao" (Trait des                      to de T. perdeu importncia e foi substitudo por
sensations, II, I). Segundo Condillac, o T.                   uma multiplicidade de noes anlogas, como
tambm o sentido do qual provm a noo do                     proposio analtica, C-verdadeira, L-verda-
mundo exterior (Ibid., II, 8, 30 ss.).                         deira, conforme os casos e conforme os pontos
    2. Sabedoria do mundo ou esprit de finesse,                de vista filosficos dos diferentes autores. G. P.
como nas frases "ter T.", "proceder com T." ou                    TAXIONOMIA (in. Taxonomy, fr. Taxino-
"falar com T.", etc.                                           mie, ai. Taxinomie-, it. Tassonomia). Teoria da
    TAT TWAM ASI. Uma das formas funda-                        classificao nas cincias naturais. Termo cunha-
mentais da filosofia do Upanishad, que signifi-                do e usado no sc. XIX. So chamadas de
ca exatamente "este s tu" e prescreve que                     taxionmicas a botnica e a histria natural.
todo homem deve reconhecer-se idntico, em                        TENDRICO (in. Theandric; fr. Than-
seu princpio (ou tman), a qualquer ser ou                    drique, it. Teandrico). Termo da teologia crist
coisa que esteja diante dele, pois o princpio                 que se refere  unio da natureza humana e da
universal, ou Brahman,  idntico em tudo.                     natureza divina na pessoa do Cristo.
Essa locuo indiana encontra-se especialmen-                     TEANTROPISMO (in. Theantrophism; fr.
te no Chandogya-Upanishad (VI, 8, 7 ss.).                      Ihantropsme, ai. Theantropismum; it. Tean-
    TAUTOLOGIA (in. Tautology, fr. Tautolo-                    trupismo). 1. Doutrina da unio da natureza di-
gie, ai. Tautologie, it. Tautologia). Na termi-                vina e da humana na pessoa do Cristo.
nologia filosfica tradicional, T. significa gene-                2. O mesmo que antropomorfismo (v.).
ricamente um discursei (em especial, uma                          TCNICA (in. Technic, fr. Technicjue, ai.
definio) vicioso porquanto intil, visto repetir              Technik, it. Tcnica). O sentido geral desse ter-
na conseqncia, no predicado ou no defi-                      mo coincide com o sentido geral de arte (v.):
 niens o conceito j contido no primeiro mem-                  compreende qualquer conjunto de regras aptas
bro: "M. de Ia Palisse, quinze minutos antes de                a dirigir eficazmente uma atividade qualquer.
morrer, ainda estava vivo".  s na lgebra da                 Nesse sentido, T. no se distingue de arte, de cin-
lgica que o termo "T" adquire significado tc-                cia, nem de qualquer processo ou operao ca-
nico, porquanto se introduzem com o nome de                    pazes de produzir um efeito qualquer: seu cam-
lei de T. os teoremas (1) a u a = a, (.2) a n a = a            po estende-se tanto quanto o de todas as
|( 1): a afirmao disjuntiva de uma mesma pro-                atividades humanas.  preciso, porm, chamar a
posio p consigo mesma eqivale  simples                     ateno para o fato de que nesse significado do
afirmao de /); a soma de uma classe a a si                   termo, que  bastante antigo e geral, no se in-
mesma  igual  simples classe a; (2) a afirma-                clui o significado atribudo por Kant, que falou
o conjuntiva de uma mesma proposio p                       de tcnica da natureza para indicar a causalidade
consigo mesma eqivale  simples afirmao                     dela (Crt. do Juzo,  72), mas negou que a
de p; a interferncia de uma classe a em si                    filosofia -- especialmente a filosofia prtica --
mesma  igual  classe a pura e simples]. Ao                   pudesse ter uma tcnica, porque no pode con-
lado dessa lei, em Principia mathematica,                      tar com uma causalidade necessria (Mel. der
Whitehead e Russell introduzem um princpio                    Sitten, Intr.,  II). O pressuposto desse significa-
de T.-. p v p. z> p. [a afirmao disjuntiva de                do, porm,  a reduo de T. a procedimento
uma mesma proposio p consigo mesma im-                       causai, ao passo que esse termo foi entendido
plica materialmente a mesma p: "se p ou p, p"\.                (da melhor maneira) como procedimento qual-
Em Wittgenstein (Tmctatus, 1922, 4.46), o con-                 quer, regido por normas e provido de certa
ceito de T. adquire notvel importncia, pas-                  eficcia.
sando a designar uma proposio molecular                          Nessa esfera de significado generalssimo in-
(funcional), cujo valor-verdade  "verdadeiro",                cluem-se, portanto, os procedimentos mais
sejam quais forem os valores-verdades das pro-                 dspares; estes, porm, podem ser divididos,
posies atmicas (variveis proposicionais)                   grosso modo, em dois campos diferentes: A) T.
TCNICA                                              940                                           TCNICA

racionais, que so relativamente independen-               Nova Atlntida, quis dar a imagem de uma
tes de sistemas particulares de crenas, podem             cidade ideal, no sonhou formas perfeitas de
levar  modificao desses sistemas e so auto-            vida social ou poltica, mas imaginou um pa-
corrigveis; B) T. mgicas e religiosas, que s            raso da T., onde fossem levadas a efeito as
podem ,ser postas em prtica com base em de-               invenes e as descobertas de todo o mundo.
terminados sistemas de crenas; no podem,                 O   sansimonismo (v.)   e   o positivismo (v.)   do
portanto, modificar esses sistemas e apresen-               sc. XIX compartilharam a exaltao baconia-
tam-se tambm como no-corrigveis ou no-                  na da tcnica. S depois do fim do sculo pas-
modificveis. Essas T. constituem um dos dois               sado e nas primeiras dcadas do sc. XX foi
elementos fundamentais de qualquer religio e               que comeou a manifestar-se o que hoje se cha-
podem ser indicadas com o nome genrico de                  ma de problema da T. que nasceu das conse-
ritos (v.).                                                 qncias produzidas pelo desenvolvimento da
   As T. racionais, por sua vez. podem ser                 T. do mundo moderno sobre a vicia indivi-
distinguidas em: l T. simblicas (cognitivas ou            dual e social do homem. Antes da Segunda
estticas), que so as cia cincia e das belas              Guerra Mundial, o conflito entre homem e T.
artes; 2" T. de comportamento (morais, polti-              foi o tema predileto da literatura profetizadora.
cas, econmicas, etc); 3" T. cie produo.                 Os profetas da decadncia e da morte da civi-
    1" As T. cognitivas e artsticas podem ser              lizao ocidental (p. ex., O. SPHNGLKR, Der
chamadas de simblicas porque consistem                     Moisch und die Technik, 1931). os defensores
essencialmente no uso dos signos. Distinguem-               da espiritualidade pura (p. ex., I). ROPS, Le
se dos mctodos(\.) que, a rigor, so indicaes             monde sa>is me, 1932) haviam j identificado
gerais sobre o carter das T. a serem seguidas.             na mquina a causa direta ou indireta da deca-
As T. simblicas podem ser: de explicao, de               dncia espiritual do homem. Segundo esses
previso ou de comunicao, mas essas distin-               diagnsticos, o mundo em que a mquina do-
es no so mutuamente excludentes.                        mina no tem alma,  nivelador e mortificante:
   2" As T. de comportamento do homem em                    um mundo onde a quantidade tomou o lugar
relao a outro homem cobrem um campo                       da qualidade e onde o culto dos valores do es-
extensssimo que compreende zonas dspares:                 prito foi substitudo pelo culto dos valores ins-
vo das T. erticas s de propaganda, das T.               trumentais e utilitrios. Depois do fim da Se-
econmicas s morais, das T. jurdicas s edu-             gunda Guerra Mundial, essas acusaes foram
cacionais, etc. Nesse grupo tambm podem ser                reforadas e desenvolvidas; esto presentes em
includas as T. organizai iras, que visam a en-            toda a obra de Albert Camus (v., p. ex., Ni
contrar condies para obter o rendimento                   bourreaux ni victimes, 1946). Para outros, o
mximo com o mnimo esforo em todos os                     mal do "maquinismo" estaria no desarraiga-
domnios da atividade humana. Essa tcnica                 mento que ele produz no homem (S. WF.IL,
tratada pela tectologiaiv.) ou praxologia (\.).            Lenracinement, 1948). Ao condenarem a T..
                                                            outros ainda implicam a "razo", que seria seu
    3" O terceiro grupo de T.  o que diz respei-           princpio, ou acalentam a utopia de um retorno
to ao comportamento do homem em relao                     produo artesanal (M. m: CORTI:, Essaisiirla
natureza e visa  produo de bens. Nesse sen-             fin dune cirilisatiou, 1949; L. DI:PLI:SSY, LU
tido, a T. sempre acompanhou a vida do ho-                  machine ou 1'homme, 1949). Por outro lado. a
mem sobre a terra, sendo o homem -- como j                 partir da obra de Hi SSHRL, A crise das cincias
notava Plato (Prot., 321 c) -- o animal mais               enropiasi 1954), a T. e a cincia em que ela se
indefeso e inerme de toda a criao. Portanto,              baseia passaram a ser freqentemente conside-
para que qualquer grupo humano sobreviva,                  radas uma degradao ou uma traio da Ra-
indispensvel certo grau de desenvolvimento                 zo Autntica, pois escravizam a razo a objeti-
da 'I'., e a sobrevivncia e o bem-estar de gru-            vos utilitrios, ao passo que sua verdadeira
pos humanos cada vez maiores so condicio-                  funo  o conhecimento desinteressado do
nados pelo desenvolvimento dos meios tcni-                 ser, a contemplao. Esse conceito constitui a
cos. O primeiro filsofo a reconhecer essa                  base de todas as crticas dirigidas  sociedade
verdade foi Francis Bacon, no comeo do sc.                contempornea, que estaria fundada na tcnica
XVII. Para ele, a atuao da cincia tinha em               e dominada pela tecnocracia (v.).
vista o bem-estar do homem e visava a produ-
zir, em ltima anlise, descobertas que facilitas-           Mas hoje h uma vasta literatura que, apesar
sem a vida do homem na terra. Quando, em                   de no partir de preconceitos metafsicos,
TCNICA                                            94 J                                    TECNOCRACIA

ideolgicos ou teolgicos, evidencia os aspec-            malignos das T. produtivas sobre o homem. A
tos negativos da T., que podem ser resumidos              esperana de que isso possa acontecer baseia-
da seguinte maneira:                                      se apenas no fato de que a prpria T. produtiva
    1" explorao intensa dos recursos naturais,          est a exigir cada vez mais que o homem tenha
acima dos limites cie seu restabelecimento na-            exatamente as capacidades de iniciativa, imagi-
tural, portanto o empobrecimento rpido e                 nao criativa e solidariedade que o prprio
progressivo desses recursos;                              sistema tecnolgico parecia ameaar.
    2" poluio da gua e cio ar por dejetos in-              TECNICISMO (in. Technicism, ai. Techui-
dustriais, com a multiplicao dos meios mec-            zismus; it. Tecnicismo). 1. O mesmo que tcni-
nicos de transporte e com a maior densidade               ca. Kant usa esse termo para indicar a tcnica
demogrfica;                                              da natureza, ou seja, o mecanicismo (Crl. do
    3" destruio cia paisagem natural e dos mo-          Juzo.  78).
numentos histricos e artsticos, em decorrn-                2. Uso de palavras ou frases pertencentes 
cia da multiplicao das indstrias e da expan-           linguagem tcnica.
so indiscriminada dos centros urbanos;                       TECNOCRACIA (in. Technocracy, fr. Tecb-
    4" sujeio do trabalho humano s exign-              nocratie-, ai. Technokratit* it. Tecnocrazia). Uso
cias da automao, que tende a transformar o              da tcnica como instrumento de poder por par-
homem em acessrio da mquina;                            te de dirigentes econmicos, militares e polti-
    5" incapacidade da T. de atender s necessi-          cos, em defesa de seus interesses, considera-
dades estticas, afetivas e morais do homem;              dos concordantes ou unificados, com vistas ao
portanto, sua tendncia a favorecer ou determi-           controle da sociedade. Esse  o conceito de T.
nar o isolamento e a incomunicabilidade dos               que se encontra nos escritores mais qualifica-
indivduos.                                               dos (p. ex.. C. \V. MILLS, The Power Elite, 1956),
    No que diz respeito aos trs primeiros fato-          que permite defini-la como "a filosofia autocr-
res, pode-se recorrer a uma contratcitica, que           tica das tcnicas" (G. SIMONDON, /)// monde
seria uma T. (ou um conjunto de T.) capaz de              dexistencedes objeta telmiques, 1958). Assim,
contrabalanar ou cie corrigir os efeitos devas-          as crticas mais radicais feitas  sociedade con-
tadores da T.: seus meios seriam suficiente-              tempornea trazem  baila a 7. A ela  imputa-
mente potentes para diminuir (seno equili-               da no s a responsabilidade por todos os ma-
brar) os efeitos cia devastao. O quarto e o             les da tcnica (para os quais, ver TCNICA) e por
quinto aspectos so humanos, morais e polti-             no poder nem querer fazer nada para elimin-
cos; costumam ser considerados como consti-               los, como tambm a responsabilidade de supri-
tuintes do fenmeno da alienao (v.).                    mir ou bloquear a liberdade de escolha do ho-
   Tanto em suas formas primitivas quanto nas             mem em todos os campos de atividade (do
requintadas e complexas, presentes na socie-              trabalho ao divertimento), com uma determina-
dade contempornea, a T.  um instrumento                 o interna que o impede de exercer sua razo
indispensvel para a sobrevivncia do homem.              crtica e reprime seu instinto vital e a livre pro-
Seu processo de desenvolvimento parece ir-                cura da felicidade. Marcuse escreveu: "O apara-
reversvel porque s dele dependem as possi-              to produtivo tende a tornar-se totalitrio na me-
bilidades cie sobrevivncia de um nmero cada             dida em que determina no s as ocupaes,
vez maior de seres humanos e seu acesso a um              as habilidades e os comportamentos social-
padro de vida mais elevado. Inclusive a dife-            mente necessrios, mas tambm as necessida-
rena entre T. e cincia, em que s vezes ainda           des e as aspiraes individuais. (...) A tecnologia
se insiste, parece diminuir ou atentiar-se quan-          serve para instituir novas formas de controle e
do se consideram as tarefas hoje atribudas              coero social mais eficazes e mais agradveis"
cincia (v.). Hoje, o nico remdio aos reais             (One Dimensional Man, 164, p. XV). Desse
perigos da T. parecem ser o seti robuste-                 ponto de vista, a T. (chamada tambm de "The
cimento e o seu desenvolvimento em todos os               F.stablishment" ou "O Sistema' por antono-
campos, e no a renncia a seus benefcios.               msia) exercitaria um determinismo necessitan-
Isso se traduziria em, por um lado, buscar no-            te sobre todas as atividades humanas e impedi-
vos instrumentos que no s controlassem mas              ria ou bloquearia qualquer forma de critica so-
tambm protegessem a natureza e, por outro,               cial, qualquer possibilidade de transformao.
buscar novas T. de relacionamento humano                  Por outro lado, porm, admite-se (como faz o
que pudessem controlar e corrigir os efeitos              prprio Marcuse, Ibid., p. 238) que "a racio-
TECNOLOGIA                                                 942                                            TEISMO


nalidade ps-tecnolgica" possa transformar a                    nuamente entre a dor e o T. (Die Welt, I,  57).
tcnica em meio de pacificao e em instru-                      Com mais profundidade e antecipando o
mento para a arte de viver, nesse caso, a funo                 existencialismo, Leopardi via no T. a experin-
da razo -- cujo uso instrumental deu origem                    cia da nulidade de tudo o que : "O que  o T.?"
T. -- convergiria para a funo da arte.                         -- perguntava. ''Nenhum mal ou dor em espe-
    Outras vezes, pe-se em dvida o carter                     cial (alis, a idia e a natureza do T. excluem a
monoltico e necessitante da tecnocracia. Gal-                   presena de qualquer mal ou dor), mas apenas
braith fala de tecnoestnitura para designar a for-               a vida plenamente sentida, experimentada, co-
mao pluralista e heterognea dos grupos que                    nhecida, plenamente presente no indivduo,
dirigem a sociedade industrial, admitindo a pos-                 ocupando-o por inteiro" (Zibaldone, VI, p.
sibilidade de minimizar a subordinao das                       421). Heidegger repetiu essas idias, perceben-
crenas s necessidades do sistema industrial e                  do no T. o sentimento que revela a totalidade
de considerar este ltimo apenas "uma parte da                   das coisas existentes, em sua indiferena: "O
vida (uma parte em processo de diminuio)",                     verdadeiro T. no  aquele provocado por um
que pode ser subordinada aos fins estticos que                  livro, por um espetculo ou por um diverti-
constituem a dimenso da vida e possibilitam a                   mento que nos maam, mas o que nos invade
liberdade individual ('lhe New Industrial State,                 quando 'nos entediamos': o T. profundo que,
1964, p. 399). s vezes tambm se apresenta                      como nvoa silenciosa, recolhe-se nos abismos
uma conotao "no pejorativa" de T. em corre-                   de nosso existir, comunga homens e coisas,
lao com o conceito mais compsito que se                       ns com tudo o que h em torno de ns. numa
tem hoje de classe social (cf.. p. ex., A. Tor-                  singular indiferena. Esse  o T. que revela o
RAINI-,   La socitpos-industrielle,   1969, cap.   I).         existente em sua totalidade" (Was ist Me-
   TECNOLOGIA (in. Technology-, fr. Techno-                      taphysik.P, 5a ed., 1949, p. 28). Nesse sentido, o
logie; ai. Technologie: it. Tecnologia). 1. Estudo               T. est muito prximo da nusea (v.), de que
dos processos tcnicos de determinado ramo                       fala Sartre, tambm ela experincia da indife-
da produo industrial ou de vrios ramos.                       rena das coisas em sua totalidade. Seu prece-
   2. O mesmo que tcnica.                                       dente talvez possa ser vislumbrado na melan-
   3. O mesmo que tecnocracia.                                   colia (Schwermut), que, segundo Kierkegaard,
   TECTOLOGIA. Termo criado pelo filsofo rus-                    a desembocadura inevitvel da vida esttica.
so A. Bogdanoy para indicar uma "cincia                         "Se perguntarmos a um melanclico qual a ra-
organizativa universal", que ensina a construir                  zo para ser assim e o que o desgosta, respon-
o mundo a partir dos elementos neutros dados                     der que no sabe, que no pode explicar. Nisso
na experincia (1'ektologija, 1923). Essa dis-                   consiste a infinidade da melancolia" (En-
ciplina, que tambm cuida da organizao                         tweder-Oder, em Werke, II, p. 171). Nesse
de todas as atividades humanas com o fim de                      sentido, melancolia  a acdia medieval (Ibid.,
determinar as condies de seu mximo rendi-                     II, 168), sendo considerada por Kierkegaard a
mento, foi depois chamada (nesse aspecto) de                     "histeria do esprito", o pecado fundamental,
praxiologiaiv.) por Kotarbinsky. Integra os es-                  porquanto " pecado no querer com profun-
tudos de organizao e administrao, de eco-                    didade e sentimento" (Ibid., p. 171).
nomia poltica e ciberntica (cf. CAI DE, MOLES e                   TESMO (in. Theism; fr. Thisme-, ai. Theis-
outros, Mthodologe vens une science de lac-                    mits; it. 1'eismo). Este termo, usado desde o sc.
tion, Paris, 1964).                                              XVII para indicar genericamente a crena em
   TDIO (in. Boredom; fr. Enruii; ai. Lan-                      Deus. em oposio a atesmo (assim tambm
gweile; it. Noa). Moralistas e filsofos algu-                  em Voltaire, Dictionnaire philosophique, a.
mas vezes insistiram no carter csmico e radi-                  Thiste), foi definido por Kant, no seu signifi-
cal desse sentimento. "Sem o divertimento" --                    cado especfico, em oposio a deis mo (v.).
dizia Pascal -- "haveria o T., e este nos levaria a              Kant diz: "Quem s admite uma teologia trans-
buscar um meio mais slido para sair dele. Mas                   cendental  chamado de desta; quem admite
o divertimento nos deleita e assim nos faz che-                  tambm uma teologia natural  chamado de
gar distrados  morte" (Penses, 171). Sho-                     testa. O primeiro admite que com a razo ape-
penhauer observou que "to logo a misria e a                    nas podemos conhecer um Ser originrio do
dor concedem uma trgua ao homem, o T. che-                      qual s temos um conceito transcendental, de
ga to perto que ele necessita de um passatem-                   Ser que tem realidade mas qtie no pode ter
po"; por isso, segundo ele, a vida oscilava conti-               nenhuma determinao a mais. O segundo afir-
TELEGNOSE                                            9-H                                            TELEPATIA

ma que a razo tem condies de dar mais de-                gomento dei telegmmnia). Argumento ou exem-
terminaes do objeto segundo a analogia com                plo aduzido por F. A. Lange para ilustrar a tese
a natureza, ou seja, pode determin-lo como                 materialista de que as reaes psquicas depen-
Ser que, por intelecto e liberdade, contenha em             dem dos estmulos fsicos e de que  possvel
si o princpio originrio de todas as outras coi-           reduzir o que comumente se chama cie alma ou
sas. Aquele representa esse Ser apenas como                 conscincia a mecanismos fisiolgicos. O T. que
causa do mundo (sem decidir se  uma causa                  anuncia a um comerciante a falncia de um de
que age pela necessidade de sua natureza ou                 seus correspondentes determina uma srie de
por liberdade), este representa-o como um cria-             reaes que podem ser fisiologicamente descri-
dor do mundo" (Crt. R. Pura, Dil. transe,                 tas do mesmo modo como se descreve fisica-
III, se. 7). Em outros termos, o desta pode ser           mente (em termos de ondulaes luminosas) o
tambm pantesta e acreditar na necessidade                 estmulo que as provocou (Geschicbte des
da relao entre Deus e o mundo, embora tam-                Materialsmus, II, III, 2 e anotao 39; trad. it., II,
bm possa no ser; o testa contrape-se ao                 pp. 385 ss. e 661 ss.). Algumas vezes esse argu-
pantesta. Ademais, indo alm daquilo em que                mento foi invertido e usado para demonstrar a
a razo pura permite acreditar, o testa afirma a           relativa independncia das reaes em relao
respeito de Deus qualidades ou caractersti-                aos estmulos. O T. "Seu filho morreu" difere s
cas no testemunhadas pela razo, mas pela re-              por Lima letra do T. "Meu filho morreu", mas
velao; nesse sentido, como Kant diz mais                  produz uma reao completamente diferente
adiante, no mesmo trecho, ele cr num "Deus                 que no corresponde  diferena fsica entre
vivo" (v. tambm Crt. dojuzo,  72). Essas ob-            os estmulos, nas pessoas que os recebem (v. C.
servaes de KANT definiram o significado do                D. BROAD, The Mind and its Place in Natwv,
termo no uso contemporneo, em virtude do                   1925, pp. 118 ss.).
que T. se contrape no s a atesmo mas tam-                   TELECLISE (ai. Teleoklise). Tendncia 
bm a desmo e a pantesmo, admitindo-se                    atividade finalista, considerada prpria dos
Deus como pessoa, embora em sentido mais                    organismos vivos. Termo raro.
elevado do que o comumente atribudo ao ho-                     TELEOFOBIAU. Teleophobie). Averso ao
mem.                                                        finalismo.
   Nesse sentido, o T.  um aspecto essencial                   TELEOLOGIA (in. Teleology, fr. Tlologie;
do espiritualismo (ou personalismo) contem-                 ai. Teleologia: it. Teleologia). Este termo foi
porneo, especialmente na sua reao ao idea-               criado por Wolff para indicar "a parte da filoso-
lismo romntico, que  sempre tendencialmen-                fia natural que explica os fins das coisas" (I.og.,
te pantesta. O T. foi explicitamente defendido             1728, Disc. prael.,  85). O mesmo que finalis-
tanto pelo espiritualismo que reagiu ao hege-               mo (v.).
lianismo clssico (Fichte Jnior, Lotze e outros)               TELEONOMIA. (in. Teleonomy, fr. Tlo-
ou ao positivismo (Renouvier, Boutroux e ou-                nomie; it. Teleonomia). Termo usado pelos
tros), quanto pelo espiritualismo que reagiu ao             bilogos modernos para indicar a adaptao
neo-idealismo romntico surgido nas primeiras               funcional dos seres vivos e de seus artefatos
dcadas do sc. XX na Inglaterra, nos Estados                conservao e  multiplicao da espcie.
Unidos e na Itlia, do qual o prprio espiri-               Deu-se o nome de informao teleonmica 
tualismo extrai muitos dos seus temas. (V. para             quantidade de informaes que deve ser trans-
o T. anglo-saxo W. E. HOCKING, Meaning of                  mitida para que as estruturas vitais sejam reali-
God in Human Experience, 1912; A. SETH                      zadas e conservadas (cf., p. ex., |. MONOD. I.e
PRiNGi.K-PArn.soN, TheIdea ofGocl in the I.ight of          hasard et Ia necessite, 1970, pp. 26 ss.)
Recent Phosophy, 1917; CLEMENT C. J. WEBB,                     TELEOSE (ai. Teleosis). Perfeio.  a trans-
God and Personality, 1920, etc. Para o T. italia-           crio fontica da palavra grega.
no: as obras de Carlini, Guzzo, Sciacca e ou-                   TELEPATIA (in. Telepalhy, fr. Tlpathic-, ai.
tros).                                                      Telepathie, it. Telepatia). Uma forma de teleg-
   TELEGNOSE (in. 1'elegnosis). O mesmo que                 nose, mais precisamente a que consiste em
vidncia: faculdade de conhecer acontecimen-                conhecer os estados do esprito de pessoas dis-
tos distantes sem auxlio dos meios de conheci-             tantes ou de saber o que lhes est aconte-
mento normais (v. TELEPATIA).                               cendo, sem a ajuda dos meios de conhecimen-
   TELEGRAMA, ARGUMENTO DO (in. 7c?-                       to normais. Esse termo foi proposto pela Socety
legram argument; ai. Telegrammbeispiel; it. Ar-            forPsychicalResearches, de Londres, em 1882,
TEMA                                                   9-i-                                              TEMPO


e eomumente aceito. As vezes, como sinni-                     poder afetivo e apetitivo). essa expresso, deri-
mo, usa-se Telesteski (v. D. J. WHST. Psychica!                vada da propriedade do sangue, refere-se 
Research Today. 1954, cap. VI).                                analogia entre os sentimentos e os desejos com
    TEMA (lat. Thenui; in. Tbeme. fr. Thme. ai.               as causas fsicas e motoras (das quais a princi-
lhenia: it. lema). Assunto ou objeto de inda-                  pal  o sangue)" (Anlr. II, 2). Depois, Kant re-
gao, discurso ou estudo. Na terminologia                     tomaria a antiga classificao hipocrtica dos
filosfica contempornea so tambm usados                     T.. que muitas vezes tambm teve aceitao na
os termos tematizar e Icmatizao para indi-                   psicologia moderna (p. ex., V. Wri\i)T. Pby-
car a escolha ou a formao dos T., que 6 uma                  sio/ogiscbePsychologie, II1, p p . 519 ss.). Mas na
fase importante e muitas vezes decisiva da in-                 psicologia, essa palavra deixou de ser usada
vestigao. Heidegger. em especial, entendeu                   desde o fim do sculo XIX, sendo substituda por
por tematizao a manifestao dos seres intra-                carter (x.).; que numa das suas acepes sig-
mundanos, em virtude do que tornam-se obje-                    nifica a estrutura orgnica originria que con-
tos (Sein nncl '/.eit, 69 b).                                  diciona as disposies naturais do indivduo. O
   TEMPERAMENTO (gr. Kpoi: lat. Tempera-                     uso da palavra carter marca tambm a passa-
mentum.m. Temper.fv. Tempranient-.-A. Tem-                    gem dessa noo do domnio da medicina para
peramenl: it. Temperamento). Disposio do                     o da psicologia e cia filosofia.
homem a agir de um modo ou de outro segun-                         TEMPERANA (gr. ococppoavri; kit. Tempe-
do a mescla de humores que compem seu                         ranta: in. Temperance-. fr. Temperance. ai. Bt>-
corpo. A teoria do '1'. foi criada pelo pai da me-             sonnenheit; it. 1'emperauza). Uma das virtudes
dicina, Hipcrates (sc. V a.C). e propagou-se                 ticas de Aristteles, mais precisamente a que
como teoria mdica. Hipcrates admitia quatro                  consiste no justo uso dos prazeres fsicos. Aris-
humores fundamentais: sangue, fleuma (linhi.                   tteles notava que a T. no se refere a todos os
soro. muco nasal e intestinal, saliva), bile                   prazeres fsicos (no compreende, p. ex.. os
amarela e atrabile ou bile negra (considerada                  que derivam da viso ou da audio), mas ape-
como secreo do pncreas), correspondentes                    nas os que derivam da alimentao, da bebida
aos quatro elementos do macrocosmo. Confor-                    e do sexo (Et. )iic. 111, 9-12). Plato definiu a T.
me o humor predominante, temos os quatro T.                    de modo diferente: para ele, era "a amizade e
fundamentais: sangneo, fleumtico, bilioso e                 a concordncia das partes da alma. existentes
melanclico ou atrabilirio. (De nat. honi., 4).               quando a parte que comanda e as que obede-
F.nconiram-se aluses a essa teoria ou a teorias               cem concordam na opinio de que cabe ao
semelhantes em Plato (O Bcinq., 188a; Tini..                  princpio racional governar, e assim no se lhe
86B), em Aristteles (Problem.. 30, 1). em S-                 opem"; segundo Plato, isso  T., tanto para o
neca (De ira, II, 18 ss.). em Lucrcio (De                     indivduo quanto para o Estado (Rep.. IV. 442
rei: nat.. III, 288 ss.), em Piutarco (Qucwst. nat..           b). Os esticos definiram a T. como "a cincia
26) e em outros, sem ligao com os pressu-                    das coisas a serem desejadas e das coisas a se-
postos filosficos de que esses autores partem,                rem evitadas" (J. STOBKO, liei. 11, 6, 102). A
como demonstra a sua unnime aceitao. Na                     tica de Demcrito tambm cuidou do assunto:
Idade Mdia a teoria dos T. tambm foi propa-                  "A sorte nos cl a mesa suntuosa; a T. nos d a
gada por meio da medicina, especialmente ra-                  mesa em que nada falta" (Fr. 210, Diels).
be (Avicena e Averris), chegando aos mdi-                        TEMPO (gr. xpvo; lat. Tempus; in. Time.
cos e magos cio Renascimento. Paracelso substituiu             fr. Temps; ai. Zeil: it. Tempo). Podemos distin-
os humores hipocrticos por seus trs elemen-                  guir trs concepes fundamentais: Ia o T.
tos (enxofre, sal e mercrio), na classificao                como ordem mensurvel do movimento; 2a
dos temperamentos. Contudo, a noo de T.                      o T. como movimento intudo; 3a  T. como
no sofreu modificao at Kant, que. para                     estrutura de possibilidades.  primeira concep-
resumi-la, distinguiu o aspecto fisiolgico e o                o vinculam-se, na Antigidade, o conceito
aspecto psicolgico do T. "Fisiologicamente                    cclico do mundo e da vida do homem (me-
falando, o 'I'.  formado pela constituio fsi-              tempsico.se) e. na poca moderna, o conceito
ca (estrutura forte ou fraca) e pela compleio                cientfico de tempo.  segunda concepo vin-
(fluido posto regularmente em movimento pela                   cula-se o conceito de conscincia, com a qual o
fora vital, no que se inclui o calor ou o frio                T.  identificado. A terceira concepo, deriva-
produzido na elaborao desses humores). Psi-                  da da filosofia existencialista, apresenta algumas
cologicamente falando, como T. da alma (do                     inovaes na anlise do conceito de tempo.
TEMPO                                                    94 S                                               TEMPO

    1- A concepo de T. mais antiga e difundi-                 ou melhor, a ordem do movimento externo
da considera-o como ordem mensurvel do                         pila ordem do movimento interno: "Se eu ten-
movimento. Os pitagricos, ao definirem o T.                    tar construir uma simples idia do T. abstrain-
como "a esfera que abrange tudo" (a esfera ce-                  do da sucesso de idias de meu esprito, que
leste), relacionaram-no com o cu, que com o                    flui uniformemente e  compartilhada por to-
seu movimento ordenado permite medi-lo per-                     dos os seres, estarei perdido e embaraado por
feitamente (ARISTOTHLKS. FS., IV, 10. 218 a 33).               dificuldades inexplicveis" (Princ iplesofHiunan
Ao definir o T. como "a imagem mvel cia eter-                  Knowledge, 1. 98).
nidade". Plato ( Tini., 37 d) pretende dizer que.                  Essa concepo de T. fundamentou a mec-
na forma dos perodos planetrios, do ciclo                     nica de Newton, que distinguia o T. absoluto e
constante das estaes ou das geraes vivas e                  0 T. relativo, mas a ambos atribua ordem e
de qualquer espcie de mudana, ele reproduz                    uniformidade. "O T. absoluto, verdadeiro e ma-
no movimento a imutabilidade do ser eterno                      temtico, na realidade e por natureza, sem rela-
(Ibici, 38 b-39 ti). A definio de Aristteles, "o             o com nada de externo, flui uniformemente
T.  o nmero do movimento segundo o antes                      (uequabiter) e tambm se chama durao. O
e o depois" (Fs., IV, II; 219 b 1).  a expresso               1  relativo, aparente e comum  uma medida
mais pcrreYi c/essa' concepo, qtrc idcniiticx o             sensve e externa" c/a durao porrnero c/o mo-
T. com a ordem mensurvel do movimento.                         vimento" (Aatiiralis philosopbiae principia. I,
No  diferente o significado da definio dos                  dof. VIII). Nessa definio de Newton. o unifor-
esticos, segundo a qual o T.  "o intervalo do                 me fluir da durao absoluta  confrontado
movimento csmico" (DiG. L, VII, Ul). Na                       com a uniformidade do movimento que  to-
verdade, intervalo no passa cie ritmo, ordem,                  mado como medida cio tempo. Leibniz esclare-
movimento csmico. Talvez no seja diferente                    cki o mesmo conceito do seguinte modo; "Co-
tampouco o significado da definio de Kpi-                     nhecendo-se as regras cios movimentos no
curo: "O T.  uma propriedade, um acompa-                       uniformes,  possvel relacion-los com os mo-
nhamento do movimento" (J. STOBKO. Fcl.. I. 8.                  vimentos uniformes inteligveis e prever com
1^2). Na Idade Mdia, essa concepo do T. foi                  este meio o que acontecer a diferentes movi-
compartilhada por realistas (ALBKKTO MAC.NO. i'.                mentos reunidos. Nesse sentido, o T.  a medi-
Tb., I, q. 21. a. 1; S. TOMS, S. Tb., 1. q. 10, a. 1)          da, do movimento, ou seja, o movimento uni-
e por nominalistas (OCKIIAM, /;/ Sent., II, q. 12),             forme  a medida cio movimento no
que repetiram unanimemente a definio de                       uniforme" (Nouv. ess., II, 14, 16). Portanto, defi-
Aristteles. Telsio. que criticava essa defini-                nia o T. como "uma ordem de sucesses"
o, reduziu o T.  durao e ao intervalo do                   (l'roisime lettre  Clarke,  4 ) : definio aceita
movimento (Derer. )iat., I, 29). Hobbes definiu                 por Wolff (Ont..  572) e por Baumgarten
o T. como "imagem (phantasma) do movimen-                       (.^let..  239). Fssa era a concepo a que Kant
to, na medida em que imaginamos no movi-                        se referia implicitamente, ao afirmar, em Est-
mento o antes e o depois, ou seja, a sucesso";                 tka transcendental, a idealidade transcendental
"; considerava que essa definio estava cie acor-              de) T., ao lado de sua realidade emprica (v.
do com a de Aristteles (De corp., 7. 3). Des-                  mais adiante). Mas a principal contribuio de
cartes simplesmente repetia essa ltima, defi-                  Kunt na interpretao do conceito cie T. no
nindo o T. como "nmero do movimento"                           est na Esttica transcendental, mas na Analti-
(Princ. phil. I, 5 7). I.ocke criticava a vincu-                ca dos princpios, mais precisamente no estudo
lao do T. ao movimento, estabelecida pela                     da segunda analogia, ou "princpio da srie
definio de Aristteles, s para afirmar que o                 temporal segundo a lei da causalidade". A
T. est ligado a qualquer espcie de ordem                      Kunt reduz ordem de sucesso a ordem causai.
constante e repetvel; "Qualquer apario pe-                   Afirma que uma coisa s "pode conquistar seu
ridica e constante, ou mudana de idias, que                  lugar no T. com a condio de que no estado
acontecesse entre espaos de durao aparen-                    precedente se pressuponha outra coisa  qual
temente eqidistantes. e fosse constante e uni-                 esta sempre deva seguir-se, ou seja. segundo
versalmente observvel, poderia servir para                     urna regra". A srie temporal no pode inver-
distinguir intervalos do T. to bem quanto as                   ter-se porque, "uma vez posto o estado pre-
que foram usadas na realidade" (Ensaio. II, 14,                 cedente, o acontecimento deve seguir-se in-
 19). Para definir o T., Berkeley substitua a                  lalvel e necessariamente"; portanto, " lei
ordem do movimento pela ordem cias idias.                      necessria de nossa sensibilidade e, conse-
TEMPO                                                946                                             TEMPO

qentemente. condio formal de todas as                   medir--, por outro lado o movimento ao qual
percepes que o T. precedente determine ne-               a medida se refere no depende da alma (Fs..
cessariamente o seguinte". Isso realmente per-             IV. 14. 223 a 20-29). No sc. XIV, retomando
mite a distino entre percepo real do T. e              essas consideraes, Ockham afirmava que no
imaginao, que poderia e pode inverter a                  existiria T. se a alma no pudesse medir nem
ordem dos eventos, transformando a sucesso                numerar (In Sent., II. q. 12). At Hobbes cha-
temporal em "nico critrio emprico do efeito             mava o T. de imagem (v. definio citada ante-
em relao  causalidade da causa" (Crt. R.               riormente). Menos significativa  a reduo do
Pura, Anal. dos princ, cap. II, se. III, 3). Essa          I., de autoria de Locke e de Berkeley,  ordem
reduo do T.  ordem causai, defendida por                das idias: porque as idias, para esses filso-
Kant em relao ao conceito de T. dominante                fos, so os nicos objetos de que se pode falar.
em sua poca (derivada da fsica nevvtoniana),             Quanto ao "subjetivismo" da concepo kan-
loi reapresentada em nossos dias com relao              tiana, segundo a qual o tempo  'intuio
fsica einsteiniana. Ao afirmar a relatividade da          pura", condio de qualquer percepo sens-
medida temporal. Einstein na realidade no                 vel, no passa de mal-entendido, pois s o T.
inovou o conceito tradicional cie T. como or-              pode ser considerado subjetivo com relao s
cem cie sucesso: s negou que a ordem cie su-            coisas em si, que esto aim cia considerao
cesso fosse nica e absoluta (v. llber die                humana, mas  objetivo e real em relao s
spezielle und die allgemeine Relativitatstheorie.          coisas naturais, em virtude do que o T. tem
1921,  8-9). Em confronto com a fsica de                "realidade emprica" indubitvel (Crt. R. Puni.
F.instein, H. Reichenbach voltou a propor a tese            6, 7). Alm disso, o objetivismo da concep-
kantiana da identidade do T. com a causalida-              o kantiana  demonstrado pela reduo
de: "O T.  a ordem das cadeias causais: este             cio T.  ordem causai: tese a que os neo-em-
o principal resultado das descobertas de                   piristas chegaram sem conhecer sua prove-
Hinstein" (Albertlnsleiri: Pbilosopher-Scientist.         nincia kantiana.
ed. por P. A. Schilpp, 1949, pp. 289 ss.). "A or-               2! A segunda concepo fundamental de T.
dem do T., a ordem do antes e do depois,                  considera-o como intuio do movimento ou
redutvel  ordem causai. (...) A inverso da or-          "devir intudo". Esta ltima definio  de He-
dem temporal para certos eventos, resultado                gel, que acrescenta ser "o T. o princpio mesmo
que deriva da relatividade da simultaneidade,             do Eu = Eu, da autoconscincia pura, mas 
apenas uma conseqncia desse fato funda-                  esse princpio ou o simples conceito ainda em
mental, lima vez que a velocidade de transmis-             sua completa exterioridade e abstrao" (Jinc,
so  limitada, existem eventos tais que ne-                258). Portanto, Hegel no identifica o T. com
nhum deles pode ser causa ou eleito do outro.              a conscincia, mas com algum aspecto parcial
Para tais eventos, a ordem do T. no  definida,           ou abstrato da conscincia. Sem essa limitao,
e cada um deles pode ser chamado de poste-                 Schelling dissera: "o T. outra coisa no  seno
rior ou anterior ao outro" (Ibid., 1949, pp. 289           o sentido interno que se torna objeto para si"
ss.). Ksses mesmos conceitos foram explicados              (System des transzendentalen Idealismus, se.
por Reichenbach em seu livro pstumo The                   III, Segunda poca. D; trad. it., p. 141). A rigor,
Direction of Time (1956), no qual identifica a             a concepo cie T. como intuio do devir traz
ordem do T. com a causalidade, e a direo do              em seu bojo a reduo de T. a conscincia. Isso
T. com a entropia crescente (v. especialmente              j acontece em Plotino. Segundo este ltimo, o
 6, 16).                                                 T. no existe fora da alma: " a vida da alma e
   A reduo do T. a causalidade pode ser con-             consiste no movimento graas ao qual a alma
siderada a mais importante (mas no por isso a             passa de uma condio de sua vida para outra"
mais consistente) proposio filosfica apre-              (F.nn.. III, 7.11); assim, pode-se dizer que at o
sentada no campo da concepo do T. como                   universo est no T. s na medida em que est
ordem. Ao contrrio, tem bem menos impor-                  na alma, ou seja, na alma do mundo (Ibid., III,
tncia a discusso -- a que muitas vezes os fi-            7, 3). A S. Agostinho deve-se a melhor expres-
lsofos se inclinaram -- sobre a subjetividade             so e a difuso dessa doutrina na filosofia oci-
ou objetividade do T. Foi Aristteles quem deu             dental. O T.  identificado por Agostinho com a
incio a tais discusses, chegando  concluso             prpria vida da alma que se estende para o
de que, se por um lado o T. como medida no                passado ou para o futuro (extensio ou distensio
pode existir sem a alma -- pois s a alma pode             animi). S. Agostinho diz: "De que modo dimi-
TEMPO                                                947                                           TEMPO

nui e consuma-se o futuro que ainda no exis-              riamente um horizonte temporal atualmente in-
te? F, de que modo cresce o passado que j no             finito de todos os lados. Isso significa que per-
 mais, seno porque na alma existem as trs               tence a uma corrente infinita de vivncias. Ca-
coisas, presente passado e futuro? A alma de               da vivncia isolada, assim como pode come-
fato espera, presta ateno e recorda, cie tal             ar, pode acabar e encerrar sua durao;  o
modo que aquilo que ela espera passa, atravs              que acontece, p. ex., com a experincia de
daquilo a que ela presta ateno, para aquilo              uma alegria. Mas a corrente de vivncias no
que ela recorda. Ningum nega que o futuro                 pode comear nem acabar" (Ideen, I.  81). Isso
ainda no exista, mas na alma j existe a espera           significa que, assim como a durao bergso-
do futuro: ningum nega que o passado j no               niana, a corrente de vivncias tudo conserva e
exista, mas na alma ainda existe a memria do               uma espcie de eterno presente.
passado. H ningum nega que o presente care-                   3a O terceiro conceito de T. transforma-o
a de durao porque logo incide no passado,               em estrutura da possibilidade. Esse  o concei-
mas dura a ateno por meio da qual aquilo                 to encontrado em Heiclegger na obra Ser e T.
que ser passa, afasta-se em direo ao passa-             (1927), que j no ttulo anuncia a identidade
do" ( O if, XI, 28, 1). A tese fundamental dessa          dos dois termos. A primeira caracterstica dessa
concepo de T. foi enunciada pelo prprio S.              concepo  o primado do futuro na interpre-
Agostinho: "A rigor, no existem trs T., pas-             tao do tempo; as duais concepes anteriores
sado, presente e futuro, mas somente trs                  fundam-se no primado do presente. O T. como
presentes: o presente do passado, o presente               ordem do movimento  uma totalidade presen-
do presente e o presente do futuro" (Ibici, XI.            te porque toda ordem pressupe a simultanei-
20, 1).                                                    dade de suas partes, de cuja recproca adapta-
    Na filosofia moderna, Bergson reexps essa             o ela nasce. A concepo de T. como devir
concepo, contrapondo-a ao conceito cientfi-             intudo s faz interpret-lo em funo do pre-
co de tempo. Segundo ele, o T. da cincia                 sente, porque a intuio do devir  sempre um
espacializado e, por isso, no tem nenhuma                 agora, um instante presente. Heiclegger. ao
das caractersticas que a conscincia lhe atribui.         contrrio, interpretou o T. em termos de possi-
Ele  representado como Lima linha, mas "a li-             bilidade ou de projeo: o T.  originariamente
nha  imvel, enquanto o T.  mobilidade. A                opor-rir (Zu-kunft); mais precisamente: quan-
linha j est feita, ao passo que o T.  aquilo            do o T.  autntico (originrio e prprio da
que se faz; alis,  aquilo graas a que todas as          existncia),  "o porvir do ente para si mesmo
coisas se fazem" (ha pense et le motivam, 3 3             na manuteno da possibilidade caracterstica
ed., 1934, p. 9). J em sua primeira obra, lissai          como tal". "Porvir no significa um agora, que,
sur les donnes immdiates de Ia cunscence,               ainda no tendo se tornado atual, algum dia o
Bergson insistira na exigncia de considerar o             ser, mas o advento em que o ser-a vem a si
T. vivido (a durao da conscincia) como                  em seu poder-ser mais prprio.  a antecipao
uma corrente fluida na qual  impossvel at               que torna o ser-a propriamente porvindouro.
distinguir estados, porque cada instante dela              de sorte que a prpria antecipao s  poss-
transpe-se no outro em continuidade inin-                 vel porque o ser-a, enquanto ente, sempre j
terrupta, como acontece com as cores do arco-              vem a si" (Sein und Zet,  65). O passado,
ris. Esse ficou sendo o conceito fundamental              como um ter-sido,  condicionado pelo porvir
de sua filosofia. Segundo Bergson, o T. como               porque, assim como so possibilidades autnti-
durao possui duas caractersticas fundamen-              cas aquelas que j foram, tambm j foram as
tais: \- novidade absoluta a cada instante, em             possibilidades s quais o homem pode auten-
virtude do que  um processo contnuo de cria-             ticamente retornar e de que ainda pode apro-
o; 2" conservao infalvel e integral de todo           priar-se (Ibid.,  65). Tanto o T. autntico, em
o passado, em virtude do que age como uma                  que o ser-a projeta sua prpria possibilidade
bola de neve e continua crescendo  medida                 privilegiada (o que j foi, de tal modo que suas
que caminha para o futuro. No muito diferen-              escolhas so escolhas do j escolhido, isto ,
te  o conceito de Husserl sobre o "T. feno-               da impossibilidade de escolher), quanto o T.
menolgico". Ele afirma: "Toda vivncia efetiva            nantntico, que  o da existncia banal, como
 necessariamente algo que dura; e com essa                sucesso infinita de instantes, ambos so o so-
durao insere-se em um infinito contnuo de               brevir do que a possibilidade projetada apre-
duraes, em um contnuo pie no. Tem necessa-              senta ao ser-a (isto , ao homem); portanto so
TEMPO                                                948                                           TENSO


um apresentar-se, a partir do futuro, daquilo              cas e passaram a fazer parte do uso filosfi-
que j foi no passado (Ibid.,  80, 81). A anlise         co corrente.
heideggeriana do T. sem dvida contm um                       TEMPORAL (in. Temporal, h. Temporeh.
grande compromisso metafsico, porquanto o                 Zeitlich: it. Temporale). 1. O que pertence ao
T.  considerado uma espcie de crculo, em                tempo, diz respeito ao tempo ou acontece no
que a perspectiva para o futuro  aquilo que j            tempo. P. ex.. ordem T., esquema T., etc.
passou; por sua vez, o que j passou  a pers-                 2. O que  mundano, pertence  ordem do
pectiva para o futuro. Nesse sentido, Heidegger            tempo, em contraposio ao que  espiritual e
laia de T. Imito, ou autntico, j que T. inau-            pertence  ordem da eternidade. A contrapo-
tntico (que ele tambm chama de databi-                   sio entre T. e espiritual  um dos temas do-
lidade ou '/'.pblico)  o desconhecimento par-            minantes do cristianismo paulino (v., p. ex., Ad
cial da natureza do T. e a sua concepo como              cor, II, IV, 18; Adhebr, XI, 25; etc).
linha aberta e sucesso infinita de instantes                  TEMPORRIO (in. Temporary, ir. Tempo-
(Sein undZeit,  79-81). Todavia, a anlise de            rairc ai. liinstweilig. it. Temporaneo). De pou-
Heidegger contm alguns elementos de inte-                 ca durao, provisrio.
resse filosfico notvel porque constitui uma                  TENDNCIA (in. Tendency. fr. Tendance,
importante inovao na anlise do conceito de              ai. TH fiz it. Tendenza). Entende-se porT. todo
tempo. Esses elementos so os seguintes:                   impulso habitual e constante para a ao. Nisso
    ly Mudana do horizonte modal, passando-               a T. distingue-se do impulso (v.), que  a ao
se da necessidade  possibilidade: o T. j no            sbita e temporria. Kant restringiu o significa-
integrado numa estrutura necessria, como a                do desse termo a apetite habitual, de natureza
ordem causai, mas na estrutura da possibili-               sensvel (Antr,  73). Schiller admitiu trs T.
dade. Esse aspecto pode ser utilizado para                 fundamentais no homem; a primeira, de natu-
expressar adequadamente a transformao a                  reza sensvel instiga-o  mudana; a segunda.
que a noo de T. foi submetida pela relativi-             ou T.  forma, instiga-o  imutabilidade; final-
dade de Einstein. Com efeito, se dois eventos              mente, a terceira, ou T, ao jogo, instiga-o a
so simultneos segundo certo sistema de refe-             combinar as duas primeiras (Briefe ber die
rncia mas podem no ser simultneos segun-                aesthetische Hrziehung, 12, 13). A esta dis-
do um outro, conclui-se que o T. no  uma                 tino Fichte contraps outra, entre a T. ao
ordem necessria, mas a possibilidade de v-               conhecimento, que torna o homem um "ser
rias ordens.                                               representante", a T. prtica, que visa  modifi-
    2" O primado do futuro na interpretao do             cao e  formao das coisas, e a T. esttica,
1'. no constitui apenas uma alternativa diferen-          que visa a determinada representao s em
te do primado do presente e a ele oposta, na               vista dela mesma, e no da coisa ou do conhe-
qual se baseiam as outras duas interpretaes              cimento da coisa (Werke, VIII, pp. 278-79). Mais
principais, mas tambm oferece a possibilidade             recentemente, Jaspers distinguiu trs ordens de
de no achatar sobre o presente as outras de-              T.: l3 as sensveis, com correlato somtico
terminaes do T. e de entend-las em sua                  (fome, sede, sexo, etc); 2a as vitais mas sem
natureza especfica: o futuro como futuro (e               localizao somtica (T.  auto-exaltao ou
no como "presente do futuro") e o passado                  submisso,  imigrao,  sociabilidade,
como passado.                                              etc); 3a as espirituais, voltadas para a reali-
    3Q A relao entre passado e futuro, que               zao de valores (AllgemeinePsychopathologie.
Heidegger enrijeceu num crculo, pode ser fa-              1913).
cilmente dissolvida com a introduo da no-                    TENSO (gr. xvo; in. Tension-, fr. Tension.
o de possvel. O passado pode ser entendido              ai. Spannung; it. Tensione). 1. Conexo entre
como ponto de partida ou fundamento das                    dois opostos que esto ligados apenas por sua
possibilidades porvindouras. e o futuro como               oposio. Segundo os antigos (v. FLON, Rer.
possibilidade de conservao ou de mudana                 dv. Her, 43), esse conceito constitua a grande
do passado, em limites (e aproximaes) de-                descoberta de Herclito; este dissera: "Os ho-
terminveis.                                               mens no sabem como aquilo que  discordan-
    4" A introduo de novos conceitos inter-              te est em acordo consigo: harmonias de T.
pretativos, expressos por termos como pro-                 opostas, como as do arco e da lira" {Fr. 51,
jeto ou projeo, antecipao, expectativa,                DIFLS). Nesse sentido, os esticos tambm fala-
etc. mostraram-se teis nas anlises filosfi-             ram da T. que mantm o universo coeso (AR-
TEOCRACIA                                             949                                          TEOLOGIA

NIM, Stoic. fragm., II, 134). Encjuanto a dialti-          origem da existncia do mal e por que no os
ca (v.)  a unidade dos opostos como sntese                elimina?" (Fr. 374, Usener). A soluo de
ou conciliao, a T.  o elo entre os opostos               Leibniz  a tradicional: o mal no  uma realida-
como tais, sem conciliao ou sntese. Por isso,            de; portanto, a responsabilidade por ele no re-
as situaes de T. no permitem prever conci-               monta a Deus (v. MAL). Quanto ao problema da
liao; essa palavra  usada com esse sentido               liberdade, Leibniz discute principalmente as v-
mesmo na linguagem comum, como quando                       rias formas assumidas pelo determinismo teol-
se fala da "T. internacional". No mesmo senti-              gico na literatura protestante de seu tempo,
do, fala-se de "T. psicolgica" para indicar um             para reivindicar a liberdade do homem no sen-
estado latente de conflito.                                 tido tradicional de autodeterminao (v. LI-
    2. Os esticos (mais precisamente Cleantes;             BERDADE). Deus predispe sem determinar, e a
v. AKMM, Stoic. frag., I, 128) introduziram a               liberdade do homem no consiste na indeter-
noo de T. como fora tendente a um resulta-               minao absoluta, ou seja, no arbtrio de indife-
do: nesse sentido,  sinnimo de tendncia ou               rena, mas na ausncia de necessidade e de coa-
de esforo, especialmente de esforo prolon-                o (v. LIBERDADE). A partir de Leibniz, a T.
gado ou penoso.                                             passa a ser considerada parte fundamental da
    TEOCRACIA (in. Theocracy, fr. Thocratie,               teologia racional (v. TEOLOGIA).
ai. Theokratie, it. Teocrazia). 1. Regime poltico              TEOFANIA (lat. Theophania; in. Theopha-
em que o governo  exercido pela casta sacer-                ny fr. Thophanie, ai. Thophanie; it. Teofa-
dotal. Nesse sentido foram T. o estado he-                  nia). Esse termo, que significa "viso de Deus",
braico, o estado maometano e o calvinismo cie               foi usado por Scotus F.rigena (sc. IX) para in-
Genebra.                                                    dicar o mundo como manifestao de Deus.
    2. Doutrina da supremacia do poder ecle-                Segundo ele, T.  o processo de descida de
sistico, do qual o poder civil extrairia direito e         Deus ao homem atravs da criao e de re-
investidura. T. nesse sentido encontrar-se-ia na            torno do homem a Deus atravs do amor. T.
Idade Mdia.                                                tambm  qualquer obra da criao que ma-
    3. Mais em geral, qualquer doutrina segun-              nifeste a essncia divina, que assim se torna vi-
do a qual toda autoridade provm de Deus (v.                svel nela e atravs dela (De divis. nat., I, 10;
AUTORIDADE).                                                V, 23).
    TEOCRASIA(gr. 6eoKpaoa; in. Tloeocrasy, fr.                TEOGNOSE (ai. Theognosis). Conhecimen-
 Thocrase, ai. Theocrasie, it. Teocrasia). Unio          to cientfico de Deus (v. C. F. KRAUSE, Vorlesun-
ou mescla da alma com Deus, no misticismo (v.               gen ber das System der Phiolosophie, 1828, p.
JMBLICO, De vita pythagorica, 33, 240).                    27). Termo bastante raro.
    TEODICIA (in. Theodicea; fr. Thodice,                    TEOGONIA (gr. 9eoyova; in. Theogony fr.
ai. Theodzee, it. Teodicea). Termo criado por               Thogonie, ai. Theogonie; it. Teogonia). Gera-
Leibniz e que serviu de ttulo a uma de suas                o dos deuses e do mundo: cosmologia mtica
obras (Ensaio de T. sobre a bondade de Deus, a              (V. PLATO, Leis, X, 886 c) (v. COSMOLOGIA).
 liberdade do homem e a origem do mal, 1710),                  TEOLOGAIS, VIRTUDES (lat. Virtutes
para demonstrar que h justia divina por meio              theologicae; in. Theological vrtues; fr. Vertus
da soluo de dois problemas fundamentais: o                theologiques; ai. Theologische Tugenden, it. Virt
do mal e o da liberdade humana. Sobre o pri-                teologiche). Foram assim chamadas na Idade
meiro problema, a T. de Leibniz responde mais               Mdia a f, a esperana e a caridade, virtudes
especificamente s consideraes desenvolvi-                que dependeriam de dons divinos e que visa-
das por Bayle em seu Dicionrio (1697), qtie                ram a obter a bem-aventurana a que o ho-
 na realidade s ampliavam o que epicuristas                mem no pode chegar s com as foras da sua
j haviam dito em polmica com os esticos:                 natureza. Por esse carter sobrenatural, as vir-
 "Deus no quer, ou no pode, ou pode e no                 tudes T. distinguem-se das ticas (v.) e dia-
 quer, ou no quer nem pode, ou quer e pode                 noticas(y.) (v. S. TOMS, 5. Th., II, 1, q. 62, a.
 eliminar o mal. Se quer e no pode,  impoten-             1). Para as virtudes em separado, vejam-se os
 te: o que Deus no pode ser. Se pode e no                 respectivos verbetes.
 quer,  invejoso, o que igualmente  contrrio a              TEOLOGIA (gr. 8EoA.oya; lat. Tbeologia; in.
 Deus. Se no quer nem pode,  invejoso e                   Theology, fr. Thologie; ai. lheologie; it. Teolo-
 impotente, portanto no  Deus. Se quer e pode             gia). Em geral, qualquer estudo, discurso ou
-- nica coisa que convm a Deus --, qual a                 pregao que trate de Deus ou das coisas divi-
TEOLOGIA                                               950                                        TEOLOGIA


nas. Foi nesse sentido generalssimo que essa                eximo se v no prlogo ao seu comentrio 
palavra foi entendida pelo grande erudito ro-                Metafsica cie Aristteles, onde ele diz que,
mano Marco Terncio Varro (sc. I a.C), cuja                cc>mo a metafsica considera em primeiro lugar
distino de trs T. foi transmitida por S. Agosti-          as substncias separadas ou divinas, em segun-
nho: T. mtica ou fabulosa-, T. natural ou fsi-             de' lugar o ente como tal e em terceiro lugar as
ca-, T. civil. A '1'. mtica ou fabulosa  utilizada         causas ou os princpios primeiros, " chamada
pelos poetas e admite muitas fices contrrias              de cincia divina ou T. quando considera as
a dignidade e  natureza da divindade. A T.                  substncias separadas; de metafsica quando
natural  a dos filsofos e estuda "o que os                 considera o ente; (...) e de filosofia primeira
deuses so, o lugar em que residem, o gnero                 quando considera as causas primeiras das coi-
deles, sua essncia, o tempo em que nasceram                 sas" (In Met., Proemium).
ou sua perenidade, e se o princpio deles est                  No sc. XVII comeou-se a fazer a distino
no fogo, como cr Herclito, nos nmeros,                    entre "filosofia primeira", que tambm foi cha-
como afirma Pitgoras, ou nos tomos, como                   mada de ontologia (v.), e T.; comeou-se tam-
acredita Epicuro". Finalmente, a T. civil "deve              bm a fazer a distino entre T. como cincia
ser conhecida e praticada pelos cidados, prin-              natural e T. baseada na revelao. Essas distin-
cipalmente pek sacerdotes-, ensini quais as                 cOes esto claramente estabelecidas em De
divindades a serem veneradas publicamente e                  atigumentis scentiarum (1623) de F. Bacon,
quais as cerimnias e sacrifcios a serem reali-             que chamou de T. natural o conhecimento
zados" (AGOSTINHO, De civ. Dei, VI, 5). Nesse                que se pode obter de Deus "atravs da luz da
sentido varroniano, Vio considerava a sua "cin-            natureza e da contemplao das coisas criadas'
cia nova" como "uma T. civil e racional da                   (De augm. scient, III, 2), e de T. inspirada ou
providncia", porquanto sua origem est na                   sagrada a que se baseia em princpios direta-
"sabedoria comum dos legisladores que funda-                 mente inspirados por Deus (Ibd., III, 1).
ram as naes e que contemplarem Deus com                        2- O segundo conceito de T. , portanto, o
o atributo de providencial" (Sc. n., 11. Corolrio           de" T. natural, que se distingue do anterior s
em torno dos aspectos principais dessa cin-                 pc'lo fato de compreender uma parte da metaf-
cia). Em sentido mais especificamente hist-                 sica, e no a sua totalidade; mais precisamente
rico-filosfico,  possvel distinguir: \- T. me-            a parte que tem por objeto as coisas divinas. A
tafsica; 2S T. natural; 3" T. revelada; 4e T.               expresso de Bacon, "T. natural", foi retomada
negativa.                                                    e difundida por Wolff: ele a definia como "a
    ly Aristteles chamou sua "cincia primeira",            cincia do que  possvel por obra de Deus",
a metafsica, de T.: entendeu-a ao mesmo tem-                portanto como uma parte da filosofia, que ,
po como cincia do ser enquanto ser (ou seja,                ein geral, a cincia das coisas possveis (Log.,
da substncia) e como cincia da substncia                  Disc. prael., 57). Baumgarten insistia no carter
eterna, imvel e separada (ou seja, de Deus)                 racional da T. assim entendida: "T. natural  a
(Met., VI, 1, 1026 a 10). Esse conceito de T.                cincia de Deus, na medida em que pode ser
como metafsica persistiu por longos sculos.                conhecido sem f" (Met.,  800), e a considera-
O estico Cleantes inclua a T. entre as partes              va fundamento da filosofia prtica, da T. e da T.
da filosofia (DIG. L, VII, 41). Para Plotino, a             revelada (Ibd.,  601). Foi esse conceito de T.
T. era a nica cincia digna desse nome (Enn.,               que, juntamente com seu contedo, Kant criti-
V, 9, 7). Desse ponto de vista, os neoplatni-               cou em Crtica da Razo Pura. Ele, porm,
cos muitas vezes chamaram os filsofos --                    preocupou-se tambm em distinguir as vrias
inclusive os fsicos e os materialistas -- de te-           espcies de 'I'., e, partindo da distino bsica
logos, porquanto eles se ocupavam (como diz                  entre T. racional e T. revelada, distinguiu na T.
Proclo) dos "princpios primeirssimos das coi-              racional a T. transcendental-- que "concebe
sas subsistentes por si mesmas" (Piai. theoi. I,             seu objeto simplesmente como razo pura, por
3). F.sse  tambm o significado que Varro atri-            meio de meros conceitos transcendentais (ens
bua  expresso "T. natural". Esse uso perdu-               ofignarium, realissimum, ens entium)" --e a
rou na filosofia crist: nem na patrstica nem na            T. natural, que utiliza "conceitos tomados da
primeira fase da escolstica seria possvel en-              natureza". Por sua vez, a T. transcendental
contrar uma delimintao exata entre T. e filoso-            pode ser cosmoteologia, se deduzir a existncia
fia. S. Toms mesmo, na primeira fase de sua                 de Deus da experincia em geral, ou onto-
obra, aceitou a identidade entre T. e metafsica,            teologia, se deduzir sua existncia a partir de
TEOLOGIA                                              951                                          TEOREMA

conceitos, sem recorrer  experincia. Final-               do prprio ser (v. TRANSCENDNCIA). Essa dis-
mente, a T. natural pode ser T. fsica, se re-              tino  repetida por Scotus Erigena (De
montar aos atributos de Deus partindo da or-                divis. nat, II, 30) e retomada pelo misticismo
dem e da constituio do mundo, ou T. moral,                especulativo alemo do sc. XIV (v. ECKE-
se considerar Deus como o princpio da or-                  HART, em PFHIFFKR, Deutsche Mysliker des 14
dem e da perfeio moral (Crt. R. Pura, Dial-             Jahrhunderls, II, pp. 318-19) e pelo Renasci-
tica, cap. III, se. VII). Algumas dessas distin-           mento, com Nicolau de Cusa (Dedocta ignor.,
es persistiram e ainda so usadas no campo                I. 24; 26) e Charles de Bouelles (De nihilo, 11,
da T. eclesistica.                                          1, 4). Pode-se considerar manifestao dessa T.
    3o A T. revelada ou sagrada extrai seus prin-           -- revivida atravs da experincia de Kierke-
cpios da revelao. A primeira formulao ex-              gaard -- a chamada "T. da crise" de K. Barth,
plcita desse conceito , provavelmente, tomis-             salvo pelo fato de esta no consistir na negao
ta: S. Toms afirma que "a sagrada doutrina                dos atributos finitos de Deus, mas em consi-
cincia porque parte de princpios conhecidos               derar a relao entre o homem e Deus como a
atravs da luz de uma cincia superior, que  a             negao de todas as possibilidades humanas
cincia de Deus e dos bem-aventurados' (S.                  (crise), que se reduziriam a meras impossibi-
 Th., I. q. 1, a. 2). A "cincia de Deus e dos bem-         lidades, de lal modo que s dessa negao
aventurados" coincide com os "artigos de f"                nasceria uma possibilidade de salvao, cuja
ou com a "revelao divina" (Ibid., a. 78). Era             origem no  mais humana, porm divina
essa a T. que Duns Scot considerava cincia                 (Rmerbrief, 1919).
puramente prtica, em confronto com a me-                      TEOLOGIZANTE, FILOSOFIA. Foi esse o
tafsica, que ele considerava a cincia terica             nome dado por Croce  filosofia que cuida de
por excelncia: o nico objetivo da '1". seria              problemas mal formulados e por isso irresolveis,
persuadir o homem a agir em vista da salvao               seja discutindo-os como problemas "mximos"
(Op. Ox., Prol., q. 4, n. 42), e mesmo as verda-            ou "eternos", seja resolvendo-os com sistemas
des aparentemente tericas teriam valor apenas              "imaginrios", seja assumindo atitude agnstica
prtico como, p. ex., a proposio "Deus                   diante deles ("Sobre filosofia T. e as suas sobre-
trino", que incluiria simplesmente o conheci-               vivncias", em Saggi filosofici, 1920, V, p. 297).
mento do justo amor que o homem deve a                          TEOMANCIA (in. Theomancy, ai. Theo-
Deus (Ibid., Prol., q. 4, n. 31 ) A negao do va-         mantie. it. Teomanzia). Adivinhao inspirada
lor cognitivo da T. persiste, no fim da es-                 pela divindade (v. ENTUSIASMO).
colstica, mesmo quando no se atribui carter                  TEOMONISMO (ai. Theomonsmus). Dou-
prtico  sua totalidade. Ockham no conside-               trina segundo a qual Deus  a nica realidade:
rava a T. como cincia, mas como um simples                 o mesmo que acosmismo(\>.) oupantesmo(v.).
conjunto de conhecimentos diversos, tericos e                 TEONOMIA (in. Theonomy, fr. Thonomie;
prticos, baseados exclusivamente na autori-                ai. Thonomie; it. Teonomia). Governo ou le-
dade e cujo nico fim seria guiar o homem para              gislao de Deus. Esse termo s vezes  contra-
a salvao (In Sent, Prol., q. 12, E-l). Esse con-          posto a autonomia.
ceito no difere muito daquilo que Spinoza ex-                 TEOPANTISMO (in. lheopantism; fr. Tho-
poria mais tarde em Tratado teolgico-poltico              pantisme. ai. Tbeopantismus; it. Teopantismo).
(v. especialmente cap. 15).                                 Doutrina segundo a qual Deus  a nica reali-
    4S O conceito da T. negativa surgiu e propa-            dade: o mesmo que pantesmo (v.).
gou-se no misticismo. A distino entre T. posi-               TEOPNEUSTIA (in. Theopneusty, fr. Tho-
tiva ou afirmativa (que parte de Deus em dire-              pneustie-, ai. Theopneustie; it. Teopneustia). Ins-
o ao finito por meio da determinao dos                  pirao divina, atravs da qual  comunicada a
atributos ou nomes de Deus) e T. negativa (que              verdade revelada.
parte do finito em direo a Deus e o considera                TEOREMA (gr. 6etpr|ua; lat. Tbeorema; fr.
acima de todos os predicados ou nomes com                   Thorme, ai. Theoreni; it. Teorema). Qualquer
os quais possa ser designado) encontra-se nos               proposio demonstrvel. Esse termo ingressou
tratados do Pseudo-Dionsio, o Areopagita (De               na linguagem matemtica j na Antigidade (v.
mysl. theoi, 1; Dediv. nom., I, 4; 4, 2; 13, 1; De          ARISTTELES, Mel, XIV, 2. 1090 a 14), mas con-
eccl. byerar., 2, 3), mas sua fonte est nos                servou, fora da linguagem matemtica, o signi-
textos neoplatnicos, para os quais Deus est               ficado de proposio no primitiva mas deriva-
acima de todas as determinaes finitas e                   da ou derivavel de outras proposies.
TEORIA                                               952                                            TEORIA


   TEORIA (gr. 8ecopa;lat. Theoria-, in. Theory,          transcendentais" que recorrem a simples idias
fr. Tborie, ai. 'Ibeorie, it. Teoria). Este termo         racionais e declarara-se favorvel s hipteses
possui os seguintes significados principais:               empricas, cuja caracterstica  "a suficin-
    1B Especulao ou vida contemplativa. Esse             cia para determinar a priori as conseqncias
 o significado que o termo teve na Grcia.                que j esto dadas" (Cr. R. Pura, Teoria do
Nesse sentido, Aristteles identificava T. com             mtodo, cap. I. se. 3). Em 1865, ao falar das
bem-aventurana (Et. nic, X, 8, 1178 b 25); T.             T., Claude Bernard afirmava seu carter in-
ope-se ento a prtica e, em geral, a qualquer            dispensvel e ao mesmo tempo hipottico, no
atividade no desinteressada, ou seja, que no             sentido estrito do termo: "O experimentador
tenha a contemplao por objetivo.                         formula sua idia lou hiptese experimental]
    2a Uma condio hipottica ideal, na qual              como uma questo, uma interpretao anteci-
tenham pleno cumprimento normas e regras,                  pada da natureza, mais ou menos provvel, da
que na realidade so observadas imperfeita ou              qual deduz logicamente conseqncias que a
parcialmente. Este significado est presente               cada momento compara com a realidade, por
quando se diz: "Teoricamente, deveria ser as-              meio da experincia" (Introduction  1'tude
sim, mas na prtica  outra coisa". Kant exami-            de Ia mdecine exprimentale, I, 2). E reco-
nou o problema da relao entre T. e prtica               nhecia a fecundidade das hipteses para a des-
nesse sentido num escrito de 1793 (ber den                coberta de fatos novos: "O objetivo das hipte-
Gemenspruch: Das mag in der Ibeorie richtig                ses  no s levar-nos a fazer experincias novas,
seiri, taugt aber nicht fr die Praxis), em que            mas tambm descobrir fatos novos que no
se encontram as seguintes definies cie T. e pr-         teramos percebido sem elas" (Ibid., III, 1, 2).
tica: "Chama-se T. um conjunto de regras tam-              No incio do sc. XX, Mach reconhecia expres-
bm prticas, quando so pensadas como prin-               samente a impossibilidade de a hiptese cien-
cpios gerais, fazendo-se abstrao de certa               tfica (e a hiptese em geral) ser diretamente
quantidade de condies que exeram influn-               provada pelos fatos: "Damos o nome cie hi-
cia necessria sobre a sua aplicao. Inversa-             pteses s explicaes provisrias cujo fim 
mente, o que se chama c prtica no  um ato              facilitar a compreenso dos fatos, mas que ain-
qualquer, mas apenas o ato que concretiza um               da escapa  comprovao pelos fatos" (Er-
objetivo e  pensado em relao a princpios               kenntniss und Irrtum, 1905, cap. XIV; trad. fr.,
de conduta representados universalmente" (Op.              p. 240). E Duhem enumerava cia seguinte ma-
cit, princ).                                               neira as condies s quais uma hiptese deve-
    3a A chamada "cincia pura", que no consi-            ria corresponder para ser escolhida como fun-
dera as aplicaes da cincia  tcnica de pro-            damento de uma T. fsica: ly a hiptese no
duo, ou ento as cincias, ou partes de cin-            deve ser uma proposio contraditria; 2g no
cias, que consistem na elaborao conceituai               deve apresentar contradio com as outras
ou matemtica dos resultados; p. ex., "fsica              hipteses da mesma cincia; 3a as hipteses
terica".                                                  devem ser tais que, de seu conjunto, seja pos-
                                                           svel deduzir matematicamente conseqncias
    4a Uma hiptese ou um conceito cientfico.             que representem, com aproximao suficiente,
Este ltimo significado deve ser considerado               o conjunto das leis experimentais (La tborie
especialmente neste verbete, visto que o pro-              physique, II, 7, 1, p. 363). Poincar, por sua
blema da T. cientfica constitui um dos captu-            vez, insistiu na necessidade de hipteses em
los mais importantes da metodologia das cin-              qualquer procedimento experimental, mas tam-
cias. Os resultados principais cias pesquisas              bm na necessidade de no multiplicar hipte-
nesse campo podem ser resumidos do modo                    ses. Esta ltima advertncia nada mais  que o
seguinte:                                                  antigo princpio de economia (v.), ou navalha
    a) A T. cientfica  uma hiptese ou, pelo             de Ockham, sempre eficaz no campo das for-
menos, contm uma ou mais hipteses como                   mulaes conceituais (La science et l'hypothse,
suas partes integrantes. A cincia moderna                 1902, cap. IX).
abandonou a repugnncia da cincia dos scs.
XVIII e XIX pelas hipteses, to bem expressa                 b) Uma T. cientfica no  um acrscimo
por Newton e outros (v. HIPTESE). ISSO aconte-            interpretativo ao corpo da cincia, mas  o es-
ceu porque a hiptese deixou de ser uma su-                queleto desse corpo. Em outros termos, a T.
posio sobre as causas ltimas ou ocultas dos             condiciona tanto a observao dos fenmenos
fenmenos. Kant j condenara as "hipteses                 quanto o uso mesmo dos instrumentos de oh-
TEORIA                                                 953                             TERICO/TEORTICO

servao. Sobre esse ponto  clssico o livro de             Obviamente, a verdade cie uma T. psicolgica
Duhem. A teoria fsica (1906; cf. especialmente              ou de uma T. econmica exige um tipo de
o cap. IV da segunda parte). Esse  um aspecto               comprovao completamente diferente cio exi-
s vezes aproveitado para demonstrar o carter               gido por uma T. fsica, visto que as tcnicas cie
relativo e imperfeito do conhecimento cientfi-              verificao so completamente diferentes. At
co. Foi o que tez, p. ex., E. Le Roy (Science et             mesmo os graus de confirmao exigidos so
philosophie, 1899-1900). Contudo, na realidade               diferentes; muitas vezes, fora do campo da f-
ele no invalida a cincia, mas apenas a tese da             sica, so chamadas de "T.'" simples conjecturas
separao ntida entre observao e T. e a tese              que no incluem o menor aparato comprobatrk >.
da verdade absoluta da cincia.                              A segunda observao  que cada aparato com-
    c) Alm da parte hipottica, uma T. cientfica           probatrio exige a limitao das hipteses conti-
contm um aparato que permite a sua verifica-                das na T.; isso porque, sempre que essas hipte-
o ou confirmao. Duhem distinguia na T. fsi-             ses puderem ser multiplicadas  vontade, a T.
ca quatro operaes fundamentais: Ia a defini-               poder manter-se at contra qualquer desmen-
o e a medida das grandezas fsicas; 2- a                   tido emprico, e sua confirmao passa a ser irre-
escolha das hipteses; 3a o desenvolvimento                  levante (foi o que aconteceu, p. ex., com a T.
matemtico da '['.; 4a o confronto entre T. e ex-            dos epkckis na cosmologia ptolemaka). Mas
perincia (La thoriepbysique, I, 2.  1). Obvia-            mesmo com essa limitao s vezes  difcil de-
mente, as trs primeiras operaes constituem a              cidir at que ponto a aquisio de algum dado
construo e o desenvolvimento da hiptese,                  experimental se concilia com a T. ou questiona
enquanto a quarta  diferente e constitui a fase             todo o seu conjunto
de confirmao. Analogamente, Norman R.                          d) l"ma T. no  necessariamente uma ex-
Campbell distinguiu em qualquer T. fsica dois               plicao do domnio de fatos aos quais se refe-
grupos de proposies: "um, que consiste em                  re, mas um instrumento de classificao e pre-
asseres sobre algum conjunto de idias carac-              viso. Duhem observava: "T. verdadeira no 
tersticas da '1'.; outro, que consiste nas relaes         aquela que d uma explicao das aparncias
entre essas idias e outras idias de natureza               fsicas conforme  realidade, mas sim a T. que
diferente". O primeiro grupo de idias  a hipte-           represente cie modo satisfatrio um conjunto
se; o segundo  o dicionrio. A finalidade do di-            de leis experimentais" (La thoriephysique, I.
cionrio  possibilitar a verificao indireta da            2, 1). A verdade de uma T. est em sua valida-
hiptese. Campbell diz: "Deve ser possvel de-               de, e sua validade depende de sua capacidade
terminar, independentemente do conhecimento                  de cumprir as funes s quais se destina. As
cia T., se determinadas proposies que contm               funes de uma T. cientfica podem ser especi-
as idias do dicionrio so verdadeiras ou fal-              ficadas da seguinte maneira: 1" uma T. deve
sas. O dicionrio relaciona algumas dessas                   constituir um esquema de unificao sistemti-
proposies, cuja verdade ou talsidade  conhe-              ca de contedos diversos; o grau de abrangn-
cida, com algumas proposies que compreen-                  cia de uma T.  um dos elementos fundamen-
dem as idias hipotticas, afirmando que. se o               tais na avaliao de sua validade; 2" uma T.
primeiro conjunto de proposies  verdadeiro,               deve oferecer um conjunto de meios de repre-
ento tambm o segundo  verdadeiro e vice-                  sentao conceituai e simblica dos dados de
versa; essa relao pode ser manifestada pela                observao. Sob esse aspecto, o critrio ao qual
assero de que o primeiro conjunto implica o                deve satisfazer  o de economia dos meios
segundo" (Pbvsics: the Hlements, 1920, p. 122).              conceituais, vale dizer, simplicidade lgica; 3"
Analogamente ainda, G. Bergmann disse que                    uma T. deve constituir um conjunto cie regras
uma 'I'. cientfica consiste em: 1" axiomas; 2"              de inferncias que permitam a previso cios
teoremas; 3U provas dos teoremas; 4" definies              dados de fato. Este  considerado hoje uma das
(Philosophyof Science, 1957, p. 35); nessa enu-              tarefas fundamentais das T. cientficas, e a ca-
merao, as "provas dos teoremas" constituem o               pacidade de previso cie uma T.  critrio fun-
aparato de verificao da teoria. Duas observa-              damental para avali-la (v. S. Ton.MiN, lhe
es so muito importantes a esse propsito. A               Philosophy of Science, 1953, p. 42; M. K. M r -
primeira  que as modalidades e o grau da                    MTZ, Space Time and Creation, 1957. IV. I).
prova ou confirmao que uma '1'. deve possuir
para ser declarada ou considerada "cientfica"                  TEORICO/TEORTICOgr. eetopr|TiK; lat.
no so detinveis segundo um critrio unitrio.             Speculatirus; in. 'lheoretical; fr. Ihortique;
                                                             ai. Theoretisch;\\. Teoretico). Esse adjetivo corres-
TEOSE                                                 954          TERCEIRO EXCLUDO, PRINCIPIO DO

ponde a especulao (\.); por isso, assim como              indica uma relao qualquer. Flegel, porm,
este substantivo, possui dois significados fun-             queria restringi-lo  relao entre a coisa e suas
damentais: 1L> o que  puramente cognitivo e                propriedades (Ene,  125).
ope-se a prtico; 2- o que no  redutvel                    Mareei contraps o T. ao ser. O T. seria a
experincia e ope-se a emprico. No primeiro               categoria dominante na exterioridade das
exemplo, fala-se de "cincias T."; no segundo,              coisas, entre as quais o homem vive em sua
de "conceitos T.".                                          funo social ou vital, enquanto o ser seria
   TEOSE. V. DF.II K:ACO.                                  a categoria prpria da subjetividade, que 
   TEOSOFIA (gr. Geoaocpoi; in. Theosophy, fr.             mistrio (Htre et avoir, 1935). No T., no fazer
'Ihosophie-, ai. Theosophie; it. Teosofia). Este           e no ser. Sartre viu as trs grandes categorias
termo j era usado pelos neoplatnicos para                 da existncia humana. Mas o fazer se resol-
indicar o conhecimento das coisas divinas, pro-             veria no T.. visto que qualquer forma de
veniente da inspirao direta por Deus (POR-                acuo ou de produo, inclusive o conhecer,
FKIO, Deabst., IV, 1 7; JMBLICO. Demyst.. VII,             uma forma de apropriao; por outro
 1; PROCI.O, 'lheol. plat.. V, 35). Foi retomada            laclo, o T. se reduz ao ser porque o desejo
com o mesmo sentido por Jacob Bhme (Sex                    de T. no fundo  redulvel ao desejo de "es-
puncUi fbetxuipbicti, J 620,- Qmiesliones tbeo-             tar cm rehio com calo objeto cm certa re-
sophicae, 1623) e pelos outros msticos da Re-              lao de ser" (Letre et le iiant [1943], 1955,
forma; Kant observava que a limitao da razo              pp. 663 ss.).
"impede que a teologia se eleve  T., a concei-                 Tanto na linguagem corrente quanto na lgi-
tos transcendentais em que a razo se perde"                ca e na matemtica, T. hoje indica apenas uma
(Crt. cio Juzo,  89). E Schelling falava do              relao de qualquer gnero.
teosofismo de (acobi, entendendo por tesofos                   TERCEIRO EXCLUDO, PRINCPIO DO
os filsofos que se consideram diretamente ins-             (in. Pri)iciple of excluded middle, fr. Prncipe
pirados por Deus (Mnchener Vorlesungen em                  du milieu ou tiers exclu; ai. Grundsalz vom
 Werke, X, p. 165).                                         ausgescblossenen Dritten; it. Principio dei terzo
    Em 1875, esse termo foi retomado pelos                  escJuso). Foi Baumgarten o primeiro a dar
fundadores da Sociedade teosfica, entre os                 nome a esse princpio, considerando-o inde-
quais se encontrava Helena Petrowna Fsla-                   pendente do princpio de contradio (Met.,
vatsky, autora de sis sem vu (1877) e Dou-                17.39,  10), embora Wolff falasse da "exclu-
trina secreta (1888), obras que expunham a                  so do mdio entre os contraditrios", como
nova T.: uma mistura de ocultismo e de                      de um corolrio do princpio de contradio
crenas orientais, que supostamente estariam                CO/.,  53).
fundadas na inspirao direta por Deus. A                       A histria desse princpio est estreitamente
atuao e as doutrinas dessa sociedade ex-                  relacionada com a do princpio de contradio,
trapolam o campo da filosofia. Aqui nos li-                 do qual no se separou at Baumgarten. Con-
mitaremos a aludir ao cisma provocado por                   tudo, Aristteles formulou-o com toda a clare-
Rudolff Steiner, que o levou  formulao da                za ao dizer: "Entre os opostos contraditrios
a > i troposofia (v.).                                      no h meio termo. Na verdade, contradio 
    TER (gr. e^ew; lat. Habere, in. To have, fr.            o seguinte: oposio em que uma das partes
Avoir, ai. Haben; it. Avere). Uma das dez                   est presente na outra, de tal modo que no h
categorias de Aristteles, na qual ele mesmo                moio termo" (Met., X. 7, 1057 a 33). Essa for-
distinguiu muitos significados, desde que pode              mulao no est isolada, porque (como se v
referir-se a qualidade, quantidade, posse, dis-             tambm no trecho citado), segundo Aristteles,
posio, uma parte do corpo, contedo de um                 a txcluso do T. no pode ser eliminada da
recipiente, uma propriedade ("T. uma casa ou                contradio (V. C. A. VIANO, La lgica di Aris-
uma fazenda"). Aristteles tambm observa                   totele, 1955, pp. 35 ss.). A lgica medieval igno-
que se diz "T. uma mulher", mas que esse sig-               rou totalmente esse princpio, que s comeou
nificado  imprprio porque significa apenas                a ser diferenciado do princpio de contradio
que se mora com ela (Cat., 15, 15 b 3 ss.).                 por Leibniz. Fste observou que o princpio de
F.ssas distines so repetidas na lgica medie-            contradio contm dois enunciados verdadei-
val (cf,   p.   ex.,   PKDRO HISPANO,   Summ. log..         ros: "Um, segundo o qual o verdadeiro e o fal-
3.37-38; JI:NGR:S, Lgica hamburgensis, I, 1-1,             so no so compatveis na mesma proposio,
24). Num significado assim amplo esse termo                 ou uma proposio no pode ser verdadeira e
TERCEIRO EXCLUDO, PRINCIPIO DO                       955                               TERCEIRO HOMEM

ialsa ao mesmo tempo; o outro, segundo o                    50, 51-77). Os prprios autores ditaram as regras
qual o oposto ou a negao do verdadeiro e do               para a construo de um sistema com um n-
Falso no so compatveis, ou no h um meio                mero finito u de valores de verdade (Phi-
termo entre o verdadeiro e o falso, ou no                 losopbiscbe Bemerkiuigeu zn mehnvcrtigeu
possvel que uma proposio no seja nem ver-               Systemen des Aussageiikalkls. nos mesmos
dadeira nem Ialsa" (Nour. ess., IV, 2, 1). A partir         Comptes rendus, 1930, classe III, p p . 51-77). E.
de meados do sc. XVIII. por obra de Wolff e                 L. Post (Intniditction to a ieneral lheory of
Baumgarten, o princpio do'I'. li. era introduzi-            Elementary Propositions, em American Journal
do entre as "leis fundamentais do pensamen-                  ofMathemcitics, 1921, 43. 16.3) tambm elabora-
to", juntamente com os de identidade e de con-               ra um tipo de lgica polivalente, e A. Heyting.
tradio.                                                    por sua vez. construiu uma lgica formal
    Mas no teve a sorte cios outros: algumas                intuicionista, com trs valores, verdadeiro, falso
vezes foi posto em dvida. Segundo relato de                 e indeterminado, que se aplica  teoria intuicio-
Ccero, Epicuro considerava-o duvidoso para                  nista da matemtica de Brovver e implica a re-
desvalorizar a dialtica (Accul., IV, 30. 97). En-           nncia  demonstrao por absurdo (I)ie
quanto Hegel repetia contra ele as crticas que             formate)! Regein der intuitionistischcn Logik,
habitualmente dirigia a todos os princpios                  em Sitziingesber.Preitss.Akad. Wiss. \Pbys.-Matb.
lgicos tradicionais (Ene  119), Kant pro-                  Klasse], 1930, pp. 42-56).
curava estabelecer uma exceo para ele na                      A lgica de trs valores constitui, portanto.
dissertao sobre as antinomias cosmolgicas.                Lima alternativa aos sistemas lgicos tradicio-
Distinguiu a oposio cuialtica, que  a da                nais. C. I. Lewis escrevia: "O princpio cio T. E.
contradio e exclui o meio termo, da oposio               no est escrito nos cus: reflete, sim, a nossa
dialtica, que, ao contrrio, admite o meio ter-            obstinao em aderir ao mais simples de todos
mo. Se as duas proposies, "O mundo 6 infi-                os modos de diviso e o nosso interesse predo-
nito quanto  grandeza". "O mundo  finito                  minante pelos objetos concretos, em oposio
quanto  grandeza", forem consideradas em                   aos conceitos abstratos. As razes pelas qLiais
oposio analtica, o mundo s pode ser finito              escolhemos um sistema lgico no derivam da
ou infinito. Mas elas s podem ser considera-               prpria lgica, assim como no derivam de
das em oposio analtica se admitirmos que o               princpios matemticos as razes para escolher
mundo  uma "coisa em si", ou seja, se admi-                as coordenadas cartesianas em vez das pola-
tirmos como vlida a idia de mundo. Kant de-               res ou das coordenadas de Gauss" (Allernalive
clara negar essa validade: portanto, as duas                 Systems of Logic, em The Monist, 1932, p. 505).
proposies esto em oposio dialtica, e po-              EI. Reichenbach demonstrou a utilidade cia l-
de-se afirmar que o mundo "no existe nem                   gica de trs valores para a mecnica quntica.
como um todo em si infinito, nem como um                    dada sua natureza probabilista (Philosopbic
todo em si finito" (Crft. K. Pura, Dial. transe,            boundations of Quantum Mecbanics,  30) (so-
cap. II, se. VII). Isso eqivale a declarar que o          bre essa questo, cf. tambm L. ROIGIHR, Trait
princpio do T. E. no  vlido no caso da opo-              dela connaissance, 1955, II, cap. VII).
sio dialtica e a introduzir um novo valor l-                TERCEIRO HOMEM (gr. ipiio vQp-
gico ao lado do verdadeiro e do falso, o                    Ko). Aristteles alude vrias vezes a um argLi-
indeterminado.                                              mento assim denominado, contrrio  doutrina
    A lgica contempornea no deixou escapar               platnica das idias, dando-o por conhecido,
a oportunidade de construir uma lgica que ex-              portanto deixando cie exp-lo (Mel., I. 9, 990 b
clusse o princpio do T. E. Lukasiewicz em 1920             17; VII. 13. 1039 a 2; El. sof, 178 b 36). Segun-
e depois Lukasiewicz e Tarski em 1930 elabora-              do Alexandre de Afrodisia (In met., I, 9), esse
ram Lima lgica de trs valores, correspondentes            argumento consistiria em dizer que, uma vez
ao verdadeiro, ao falso e ao possvel, simboliza-           que um homem individual  semelhante ao ho-
dos pelos algarismos 1, 0, 1/2. Nessa lgica, o             mem ideal, deve existir um terceiro homem do
princpio do T. excludo no tem lugar, no senti-           qtial os dois participem. Mas esse  o argumen-
do de que no  expressvel por smbolos da                 to aduzido contra a doutrina das idias de
lgica e no constitui um de seus teoremas                  Plato, qLie no entanto no menciona o exem-
(Vntersucbnngen berdenAussageukalks, em                   plo do homem (Parm., 132a). Alexandre, po-
Comptes rendas des sances de Ia Socit des                rm, menciona tambm outras formas desse ar-
Sciences et des Lettres de Varsovie, 1930, pp. 30-          gumento do T. Homem. 1" Uma delas  a usada
TERMINISMO                                           956                                               TERMO

pelos solistas: quando dizemos "o homem est               distribuio e os exponveis, e que conhecem
passeando", no estamos falando nem da idia               tambm as antinomias (obligationes) e os ver-
de homem (que  imvel), nem de um homem                   dadeiros fundamentos dos argumentos dialti-
em particular; devemos ento estar falando de              cos" (transcrito em PRANTL, Geschichle der
um homem de uma terceira espcie. 2y Fnias,               Logik, IV, p. 187). O estudo das propriedades
discpulo de Aristteles, em seu livro contra              dos termos, de que se fala a, partia da tendn-
Diodoro Cronos, atribua ao sofista Polixeno o             cia geral desses filsofos e lgicos, segundo
seguinte argumento: se o homem existe por                  os quais o conhecimento e a cincia s tm
participar da idia de homem, deve haver al-               por objeto os termos. Ockham diz a respeito:
gum homem que possua o seu ser em relao                  "Qualquer cincia, seja racional, seja real, 
com a idia; mas no ser nem a prpria idia,             cincia s de proposies, e de proposies
nem o homem em particular. Finalmente, o                   conhecidas, porquanto s as proposies so co-
prprio Alexandre nota que o argumento do T.               nhecidas. Todos os termos dessas proposies
homem, exposto na primeira forma, pode ser                 so apenas conceitos, e no substncias exter-
repetido ao infinito, porque a relao entre T.            nas" (In Sen/., I, d. 2, q. 4, M, N) (v. LGICA:
homem, por um lado, e idia do homem particu-              NOMINALISMO; UNIVF.RSAL).
lar por outro pode dar lugar no quarto e quinto                TERMINOLOGIA (in. Terniinology, fr. Ter-
homem, e assim por diante.                                 minologie, ai. Tenninologie-, it. Terminologia).
    Como Plato expe o argumento por meio                 Qualquer linguagem artificial: p. ex., "T. mate-
de Partnnides, contra a interpretao da dou-             mtica", "T. hegeliana", etc.
trina das idias que estabelece uma separao                  TERMINUS A QUO, AD QUEM. Expres-
ntida entre idias e coisas,  provvel que esse          ses usadas a propsito do movimento: T. a
argumento fosse corrente na prpria escola pla-            /HO denomina-se o lugar do qual um mvel
tnica; sua origem, porm, parece ser megrica             procura afastar-se. T. ad quem denomina-se o
ou sofistica (cf. a nota de W. D. Ross a Met., I,          lugar para qual o mvel procura dirigir-se
9, na edio de Metafsica por ele organizada,             (HOBBKS, De corp.. 8,  10; WOI.FF, Cosm., 
bem como a nota de DIF.S a Parmnides, em                  161).
Coll. des Univ. de France, VIII, p. 21).                       TERMO (gr. po; lat. "Terminus; in. Terrn;
    TERMINISMO (in. Terminsm. fr. Termi-                  fr. Terme-.. Terminus;'\{. Termine). Os signifi-
nisme: ai, lerminismus; it. Terminismo). Desde             cados principais so os seguintes:
o comeo do sc. XV, so designados pelos no-                   ly Signo lingstico ou conjunto cie signos.
mes de terministas (terministae) ou nomi-                  Fste  o significado que mais diz respeito  filo-
nalistas (nominales) os defensores da tese no-             sofia (v. adiante).
minalista na disputa sobre os universais (v.                   2- Qualquer objeto ou coisa a que um dis-
NOMINAI.ISMO; UMVF.RSAL), que eram, ao mes-                curso se refira. Nesse sentido,  sinnimo de
mo tempo, cultores da nova lgica, considera-              objeto (v.) ou de coisa (v.).
da como o estudo das propriedades dos ter-                     3y Limite de uma extenso.
mos. Jean Gerson (que morreu em 1429) j fala                  4 Ponto de chegada de uma atividade ou
cia disputa entre formalistas e terministas (De            resultado de uma operao. Nesse sentido, p.
conceptibus, em Opera. 1706, IV. p. 806). Num              ex., o T. da vontade  a ao, o T. do intelecto
manuscrito do mesmo sculo, cia Biblioteca                  o conhecimento;
Colbert (publicado em parte por S. BAI.II/.I,                  5" Ponto de partida ou ponto de chegada de
Miscellatiea. IV, p. 531 f), encontra-se: "So de-         um movimento. Nesse sentido, fala-se de
nominados nominalistas os doutores que no                 terminus a qtto e de terminus ad quem (v.).
multiplicam as coisas significadas pelos termos                No primeiro significado, que interessa  l-
segundo a multiplicao dos termos; realistas,             gica,  possvel distinguir os seguintes significa-
ao contrrio, so os que afirmam que as coisas             dos subordinados:
se multiplicam segundo a multiplicidade dos                    a) os elementos que compem as premissas
termos. (...) Tambm so chamados de nomi-                 do silogismo categrico: sujeito e predicado;
nalistas os que usam estudo e diligncia para                   b) todos os componentes simples presentes
conhecer todas as propriedades dos termos,                 nas proposies; nesse sentido, so T. no s o
das quais depende a verdade ou a falsidade                 sujeito e o predicado, mas tambm os verbos,
das proposies; tais propriedades so a supo-             as preposies e as conjunes, ou seja, os
sio, a denominao, a extenso, a restrio, a           componentes sincategoremticos (v.). ao passo
TERRORISMO                                             957                                      TESTABILIDADE

que as proposies no so T. porque no so                 relatada por Digenes Larcio, Protgoras te-
simples;                                                     ria sido o primeiro a mostrar como apoiar
   c) todos os componentes das proposies,                  Uma T. em argumentos (DIG. L, IX, 53). Na
tanto simples quanto complexos. Nesse sentido                terminologia dos lgicos medievais e dos
muito geral, so T. no s o sujeito, o predica-             matemticos prevaleceu esse significado: a
do, o verbo e os componentes sincategore-                    T. designa uma proposio que se pretende
mticos, mas tambm as proposies, j que                   demonstrar.
podem fazer parte de outras proposies, co-                     Com Kant, esse termo adquiriu novo valor
mo quando se diz ' "Scrates  homem' 6 uma                  filosfico: nas antinomias da razo pura T.  o
proposio".                                                 enunciado afirmativo da antinomia (v.).
   O significado (a)  o definido por Aristteles                Na dialtica ps-kantiana, o momento da T.
(An. pr, I, 1, 24 b 16); persistiu at a lgica               o elemento positivo ou de posio, portanto
medieval (v. PKDRO HISPANO, Summ. log.,                      inicial, do processo ou do desenvolvimento
4.01). Os outros significados foram admiti-                  dialtico (v. DIALTICA, 4'-).               G. P.
dos pela lgica terminista do sc. XIV e po-                     TESTABILIDADE(in. Testabilityjr. Testabi-
dem ser encontrados em Ockham (Siimma                        Ht, ai. Testabilitt; it. Testabiltou Atteslabilit).
hf>., l. 2).                                                 A possibilidade de pr li prova um enunciado.
    Em vista da diversidade de significados des-             portanto de confirm-lo ou de desmenti-lo.
sa palavra, foram numerosas e diversas as divi-              Esse termo  freqentemente usado na lgica e
ses do conceito. A diviso que os lgicos                   na metodologia contemporneas. A testabili-
terministas consideram fundamental  entre 'I'.              dade compreende qualquer possibilidade de
escrito, T. falado e T. pensado, corresponden-               confirmao, verificao, averiguao e aferi-
tes s trs espcies de proposies distinguidas             o, na medida em que cada uma dessas possi-
por Bocio. Eles distinguiram tambm os T.                   bilidades pode redundar na prova (v.) ou na
categoremticosv sincategoremticos(\'.)\ con-               falta de prova do enunciado em questo.
cretos a abstratos (v.); conotativos e absolutos                 Carnap, porm, restringiu o significado des-
(v. CONOTAO); unvocos e equvocos (v.)                    se termo ao de verificao emprica incomple-
(sobre essas divises, cf. OCKHAM, Summa                     ta, entendendo-o como "um procedimento que
log., I, 3 ss.).                                             conduz  confirmao, pelo menos em certo
    Na lgica moderna, essa palavra  assumida               ^rau, do enunciado ou de sua negao". Tem-
no significado mais extenso, no sentido (c) (v.              se T. quando efetivamente se possui um proce-
Cm RCH, IiUroduction to Mathematcal Logic, n.               dimento desse gnero. Ao contrrio, tem-se
4). Km matemtica,  assumida com significado                apenas confirmabilidade quando, mesmo no
anlogo, entendendo-se por T. qualquer com-                  se possuindo esse procedimento, conhecem-
ponente, simples ou complexo, de uma ex-                     se as condies nas quais o enunciado seria
presso.                                                     confirmado. Assim, um enunciado pode ser con-
    TERRORISMO (in. Terrorisnr. fr. Terroris-                firmvel sem ser testvel:  o que acontece
me; ai. Terrorismus; it. Terrorismo). Este termo             quando se sabe que certa observao o confir-
pertence  filosofia s no significado de T. mo-             maria, mas no se tm condies de efetuar a
ral, atribudo por Kant: seria a interpretao da            observao ( Testablity and Meaning, 1936, em
histria como decadncia ou regresso (.Der                  Readings in lhe Philosophy of Science, 1953, p.
Streit der Fakultten,   1798, It,   3).                     47). Carnap tambm distinguiu o que  direta-
   TESE (gr. 6OI; in. Thesis; fr. Thse-, ai. The-         mente e o que  indiretamente testvel. Algo 
se, it. Tesi). Este termo deriva dos textos lgicos          diretamente testvel quando "so concebveis
de Aristteles, nos quais se encontra com dois               circunstncias nas quais consideremos o enun-
significados principais:                                     ciado to fortemente confirmado ou no-confir-
    ly para designar o que o interlocutor pe no             inado por uma observao ou por algumas ob-
incio de uma dissertao como assuno sua                  servaes, que o aceitamos ou o rejeitamos
(Top., II, 1, 109 a 9);                                      sem outras consideraes; como, p. ex.. 'h
    2" para designar uma proposio assumida                 Uma chave na minha mesa'". Tem-se a T. in-
como princpio (An. post., I, 2, 72 a 14).                   direta de um enunciado quando se "provam
    Esses dois significados conservaram-se na                diretamente outros enunciados que estejam em
tradio filosfica. O primeiro encontra-se j               relao lgica especfica com o enunciado em
em PI.ATO (Rep., I. 335 a), e, segundo tradio             questo". Esses outros enunciados podem ser
TESTEMUNHO                                             958                                                TEURGIA


chamados de enunciados-prova (lesl senlences)                diato se o fato  objeto de experincia alheia"
Clnith and Confirmaiioii, 1936, em Readings                  (Lectures on Logic, 2a ed., II, pp. 175-76).
in Philosopbcal Analysis. 1949, p. 124).                       TEST-SENTENCE. V. TESTABILIDADE.
    TESTEMUNHO (in. Witnessing, Testimony,                     TTICA (ai. Thetik). Segundo Kant. "qual-
fr. Tmoignage; ai. Zengniss; it. Testimonian-               quer conjunto de doutrinas dogmticas", em
zd). Recurso  experincia alheia ou s as-                  oposio a Antittcaiy.) (Crt. R. Pura. Dialti-
seres alheias como mtodo de prova para as                 ca, livro II, c a p . 2, se. 2).
proposies que expressem fatos. Aristteles j                 TTICO (in. Thetic fr.           Thlique, ai.   The-
observara que  possvel referir-se "a questes               tisch: it. '/tico). Que afirma ou pe. Fichte cha-
de fato ou a questes de carter pessoal", que               mou de T. "o juzo no qual alguma coisa no 
tambm so questes de fato (Ret., I, 15, 13?6 a             posta como igual ou contrria a outra, mas ape-
23). O valor do testemunho nesse sentido  re-               nas como igual a si mesma". Esse juzo se dis-
conhecido pela Lgica de Port-Royal (1662):                  tinguiria cio juzo antittico e do juzo sinttico;
"Para julgar da verdade de um acontecimento                  mais precisamente se oporia ao juzo antittico.
e decidir-se a crer ou a no crer nele, no                 O supremo juzo T. seria "F.u sou", no qual, se-
preciso consider-lo em si. como se faria com                gundo Fichte, "nada se afirma do eu, mas dei-
uma proposio cie geometria, mas  preciso                  xa-se vazio o lugar do predicado para a poss-
considerar todas as circunstncias que o acom-               vel determinao do eu ao infinito". Fste juzo
panham, internas ou externas. Denomino in-                   seria "a absoluta posio do eu" ( Wissens-
ternas s circunstncias que pertencem ao fato               chaftslehre, 1794, I,  3. D7).
em si, e externas AS que dizem respeito s pes-                  Esse adjetivo foi usado na maioria cias vezes
soas por meio de cujo T. somos levados a crer                em sentido anlogo ao estabelecido por Fichte.
nele" (ARNAI:LD, Log., IV, 13). Locke, por sua               Husserl chamou de T. "os atos que pem o
vez, introduzia o T. como um dos dois funda-                 ser", ou seja, que tm carter de crena (Ideen,
mentos do juzo de probabilidade (o outro  "a               I,  103).
conformidade de uma coisa com o nosso co-                        TETRCTIS (gr. TETpaKT). Segundo os
nhecimento, observao ou experincia"). Se-                 pitagricos, a soma dos primeiros quatro n-
gundo Locke, no T. dos outros  preciso con-                 meros, ou seja, o nmero 10, representvel por
siderar: 1Q o nmero de testemunhas; 2- sua                  um tringulo cujo lado  o 4. (Carrn. anr, 48).
integridade; 3U sua capacidade; 4<J a inteno do            A figura constitui uma disposio geomtrica
autor, se o T. for extrado de um livro; 5Q a coe-           que expressa um nmero, ou constitui um n-
                                                             mero expresso por uma disposio geomtrica.
rncia entre as partes e as circunstncias da re-
                                                             Tinha carter sagrado, e os pitagricos costu-
lao; 6y os T. contrrios" (Ensaio, IV, 15, 4).
                                                             mavam jurar por ela.
Leibniz admitia o valor do T. subordinada-
mente ao carter de verossimilhana do acon-                     TETRAFARMACON (gr. TTp0C9pp.aKOV).
tecimento testemunhado, como argumento                       Com este termo (que significa propriamente
"no artificial", que se diferencia dos "artifi-             um medicamento composto por quatro ele-
                                                             mentos), Filodemo (Herc. Voi, 1005, 4) indi-
ciais", deduzidos das coisas atravs do racioc-
                                                             cou o conjunto das quatro mximas fundamen-
nio. Todavia, observava que o T. pode fornecer
                                                             tais da tica epicurista: - no temer a divindade,
um fato que leva  formao de um argumento
                                                             que no se preocupa com homem; 2- no te-
artificial (Nouv. ess., IV, 15, 4). Hamilton assim
                                                             mer a morte; 3a ter em mente a facilidade do
resumia a teoria do T.: "O objeto do T.  cha-
                                                             prazer; 4a ter em mente a brevidade da dor (cf.
mado de fato (factnm); sua validade constitui o              EPICURO, Ep. aMenec, 123, 124. 133)
que se chama de credibilidade histrica (cre-
                                                                 TEURGIA (gr. 6eo\)pya; lat. Theurgia- in.
diblitas histrica). Para avaliar essa credibilida-
                                                             Thenrgv, fr. Thurgie, ai. Theurgie-, it. Teurgia).
de,  preciso considerar: 1'-' a fidedignidade do
                                                             Poder mgico ou purificador das tcnicas religio-
T. (fides testinm); 2" a probabilidade objetiva do
                                                             sas, dos ritos. J admitida por Porfrio (v. AGOSTI-
fato. A primeira baseia-se em parte na sinceri-
                                                             NHO, De civ. Dei, X, 9), segundo Jmblico ela
dade da testemunha e em parte na sua compe-
                                                             estaria acima da unio espiritual com Deus, ou
tncia. A segunda depende da possibilidade                   seja, do xtase. Ainda segundo Jmblico, a carac-
absoluta e relativa do prprio fato. O T.  ime-             terstica da T.  o valor autnomo que os ritos
diato ou mediato.  imediato quando o fato re-               possuem, independentemente de quem os utili-
latado  objeto de experincia pessoal;  me-                za, vale dizer, sua capacidade de comover ou
TIMOCRACIA                                             959                                             TIRANIA


convencer as potncias divinas (De m yst. aegyp.,            formas cia doena (Op., ed. Khn. VII, 463), c
II, 11). S. Agostinho dedicou grande parte de sua            essa palavra continuou com o mesmo signifi-
obra  crtica da T., que, na sua opinio, se ende-          cado em muitos usos correntes da linguagem
rearia indiferentemente aos demnios ou aos                 comum, cientfica e filosfica. A biologia e a
anjos (Deciv. Dei, X, 10 ss.). Kant considerou a             psicologia utilizam muito esse termo e o con-
T. como "a iluso da fantasia que consiste em                sideram fundamental. Kretschmer. p. ex., diz:
acreditar possuir a inteligncia de outros seres             Aquilo que chamamos, matematicamente, de
supra-sensveis e de poder influir sobre eles";              pontos focais de correlaes estatsticas, cha-
para ele, assim como a teosofia, a T.  impossibi-           mamos tambm, em prosa mais descritiva, de
litada pelo reconhecimento cia limitao da razo            T. constitucionais. (...) Pode-se reconhecer o T.
(Crt. do Juzo,  89).                                      verdadeiro pelo fato de ele sempre conduzir a
   TIMOCRACIA (gr. TiLtOKpoaa; in. Timocra-                 maiores conexes de importncia biolgica.
cy.r. Timocratie,. Timokmtie, it. Timocrazia).            Sempre que h muitas e renovadas correlaes
1. Forma de governo baseada no desejo de hon-                com fatores biolgicos fundamentais (...) es-
rarias, que, segundo Plato,  uma corrupo                 tamos diante de pontos focais da mxima im-
da aristocracia (Rep., VIII, 545 b).                         portncia" (Krperbau und Cbarakter, 1948).
    2. Forma de governo baseada na riqueza,                  F.m psicologia, o T.  analogamente defi-
segundo Aristteles (Et. nic, VIII, 10, 1160                 nido como "um grupo cie padres correla-
a 36).                                                       tivos", do mesmo modo como padro  defini-
   TIMOLOGIA. V. AXIOLOGIA.                                  do como um grupo de atos comportamentais
    TPICA (in. Typics; fr. Typique-, ai. Typik- it.         ou de tendncias a aes correlativas (H. J.
Tpica). Kant chamou de "T. do juzo prtico"                EYSFNCK, The Structure oflluman Personality,
o que na Crtica da Razo Prtica corresponde                1953, pp. 13 ss.).
ao esqiiematismo (v.) transcendental da Crti-                  O significado dessa palavra no muda na
ca da Razo Pura. O tipo da lei moral  a                    chamada "teoria dos T. lgicos" de Russell e
prpria lei moral que "pode ser manifestada de-              Whitehead, na qual designa as formas ou os
forma concreta no objeto dos sentidos", ou seja,             modelos dos conceitos (v. ANTINOMIA). Para
livremente realizada no mundo sensvel (Crt.                Peirce, T.  a palavra ou o signo que no sejam
R. Prtica, livro I, cap. II).                               uma coisa nica ou um evento nico, mas uma
    TPICO (in. Typical-Jv. Typique, ai. Typisch;            forma definidamente significante" que, para
it. Tipico). Fm geral, o que corresponde a um                ser usada, deve ganhar corpo numa ocorrncia
tipo, a um modelo ou a uma representao ge-                 (token); esta deve ser o signo de um T., portan-
ral ou esquemtica, ou ento o que exprime ou                to do objeto que o T. significa. P. ex., 6 T. o arti-
realiza os caracteres do tipo. Assim, p. ex., a              go "o" na lngua portuguesa, que no pode ser
"beleza T.", exaltada por Ruskin,  a beleza                 visto ou ouvido porque no  um evento ni-
idealizada segundo certo modelo. "Represen-                  co, mas determina os eventos nicos, vale di-
tao T."  uma representao generalizada e                 zer, as ocorrncias ou os exemplos dele no dis-
comum a uma classe de coisas. "Caractersticas               curso escrito ou falado (Coll. Pap., 4.537) (v.
T." so as que distinguem o tipo, ao passo que               OCORRNCIA; PALAVRA; SlCiNO).
uma "experincia T." 6 a que pode servir de                      TIPOLOGIA (in. Typology>, fr. Typologie, ai.
modelo a muitas outras experincias ou re-                   Typologie, it. 'Tipologia). Estudo dos tipos numa
sume suas caractersticas comuns.                            disciplina ou cincia qualquer; p. ex., T. biol-
    Como se v, esse termo no tem um signi-                 gica, T. racial, T. psicolgica, etc.
ficado rigoroso, mas sempre implica a refern-                   TIQUISMO. V. CAUSALIDADE.
cia ao que  comum e geral e que, justamente                     TIRANIA (gr. xpavvi; lat. Tyrannis; in.
por isso,  considerado fundamental.                         Tyranny, fr. Tyranne, ai. Tyrannei; it. Tiran-
    TIPO (gr. X7IO; in. Type, fr. Type, ai. Typus;         nide). Forma de governo em que o arbtrio de
it. 'Tipo). No sentido de modelo, forma, esque-              uma ou vrias pessoas representa a lei. O con-
ma ou conjunto interligado de caractersticas                ceito de T. foi elaborado pelos gregos, junta-
que pode ser repetido por um nmero indefi-                  mente com o de constituio livre. A definio
nido de exemplares, essa palavra j  usada                  de tirano j se encontra nos versos de Ku-
por Plato (Rep., 379 a, 380 c, 396 e, etc.) e por           rpides: "No h pior inimigo que um tirano
Aristteles (Et. nic, II, 2, 1104 a 1; Md., II, 7,           numa cidade, sob o qual desaparecem todas as
 1107 b 14, etc). Galeno usou-a para indicar as              leis comuns, e s uma pessoa comanda, tendo
TIRANIA                                               960                                            TODO1

a lei em suas mos" (SuppL, II, 429-32). Segun-                 O conceito de T. acompanhou a formao
do Plato, a T.  conseqncia da excessiva li-             do liberalismo poltico porque serviu de pedra
berdade em que s vezes incidem as democra-                 de toque ou de smbolo para tudo o que o libe-
cias. "Ao fugir da fumaa -- como se diz -- da              ralismo condenava. Como tal, tambm constitui
servido sob um governo de homens livres, o                 um dos temas da retrica revolucionria e libe-
povo acaba caindo, com a T., no fogo da servi-              ral a partir do sc. XVI. Hoje esse termo  bem
do sob o despotismo de servos e, em troca da-              menos usado, no porque os regimes tirnicos
quela liberdade excessiva e inoportuna,  obri-             tenham desaparecido ou porque no haja mais
gado a vestir a tnica do escravo e a sujeitar-se           o perigo de que estes se instaurem mesmo
 mais triste e amarga das servides, a de ser              onde vigore certo grau de liberdade, mas ape-
servo dos servos" (Rep., VIII, 569 b-c). Aristte-          nas porque ele parece pertencer a uma espcie
les diz que a T. acumula os males da democra-               de retrica fora de moda. Absolutismoou totali-
cia e os da oligarquia. Da oligarquia extrai a fi-          tarismo so os termos que substituram tirania,
nalidade, que  a riqueza (nica condio para              mas o conceito no mudou, e estas mesmas pa-
se manter o poder e o luxo), bem como a falta               lavras significam ainda: regime no qual o arb-
cie confiana no povo. que  privado de armas,              trio individual ocupa o lugar da lei; escravido
e a agresso  populao, que  afastada das                imposta por escravos; governo que no pode
cidades e espalhada pelo campo. Da democra-                 ser mudado nem corrigir a no ser pela vio-
cia toma a luta contra os notveis, sua destrui-            lncia.
o pblica ou oculta, o seu exlio (Poi, V 1,                 TITANISMO. V. ROMANTISMO.
1311 a 8 ss.). Na Idade Mdia, ao mesmo tempo                  TODO1 (gr. TTTV; lat. Totmm in. Wbole, fr.
em que S. Toms acha que "quando a monar-                   Tout; ai. Ali; it. Tutto). Um conjunto qualquer
quia se transforma em T. o mal  menor do que               de partes, independentemente da ordem ou da
quando um governo de maioria se corrompe"                   disposio das partes. Nisso o T. pode ser
(De regimine prncpum, I. 5) e condena o                   distinguido da totalidade, em que a ordem das
tiranicdio, recomendando pacincia aos sdi-               partes no pode ser modificada sem modificar
tos para suportar a T. ou confiando num poder               a prpria totalidade (v. MDNDO; TOTALIDADE;
superior para elimin-la (Ibid., I. 6), Joo de             UNIVERSO).
Salisbury defende explicitamente o tiranicdio                 Com base nas determinaes de Aristteles
por considerar que o tirano  um rebelde con-               (Met, V, 26, 1023 b 25), a lgica medieval dis-
tra a lei  qual os reis, tanto quanto todos os ci-         tinguia: l" o T. universal ou essencial, cujas
dados, esto vinculados (Policraticiis, IV, 7 ).           partes constituem sua substncia-, p. ex., "corpo
Hssas idias depois foram freqentemente re-                vivo"; 2- o T. integral, cujas partes so quanti-
petidas pelos adversrios irredutveis da mo-               dades: quantidades semelhantes como em
narquia e pelos jusnaturalistas do sc. XVI e               "gua", ou quantidades dessemelhantes como
XVII. Bodin dizia: "A maior diferena entre o               em "rvore"; 3" o T. na quantidade, que  o
rei e o tirano  que o rei se conforma s leis da           universal tomado universalmente como "todo
natureza e o tirano as esmaga; um cultiva a pie-            homem" ou "nenhum homem"; A- o T. no
dade, a justia e a f; o outro no tem Deus, f            modo, que  o universal tomado sem determi-
ou lei'" (De Ia republique, 1576, II, 4, 246).              nao, como "o homem"; 5o o T. no lugar, que
Locke afirmava: "Onde acaba a lei comea a T.,               uma determinao que compreende adver-
quando a lei  transgredida em prejuzo de ou-              bialmente o lugar, como "em todos os lugares"
tros: e todo aquele que, no exerccio da auto-              ou "em nenhum lugar"; 6" o T. no tempo, que
ridade, exceder o poder que lhe foi conferido                uma expresso que compreende adverbial-
pela lei e usar a fora para realizar em relao            mente a totalidade do tempo, como "sempre" e
aos sditos o que a lei no lhe permite, est               "nunca" (PF.DRO HISPANO, Summ. log.. 5, 14-
deixando de ser magistrado e, por estar delibe-             23). Nizolio reduzia a duas estas espcies, ar-
rando sem autoridade, pode sofrer oposio                  gumentando que s duas se encontram na na-
tanto quanto sofre oposio qualquer outro                  tureza, o T. continuo (que  uma coisa s) e o
que viole pela fora os direitos alheios" ( Tiro            T. descontnuo, que  um conjunto de coisas
Treatises of Governement.   II,    202).   Hobbes.
                                                            singulares (De rers prncipiis, 1, 10). A isso
ao contrrio, afirmara que "quem se ope a                  Leibniz acrescentava o T. dis/untiro, como p.
uma monarquia d-lhe o nome de tirania" (I,e-               ex. "o animal  homem ou bruto" (nota ao tre-
riatb., II, 19, 2).                                         cho citado de Nizolio). Outras distines esto
TODO2                                                  961                                    TOLERNCIA

registradas em Hamilton: o T. por si, em que as              fiis que viveram desde os tempos dos profetas
partes esto interligadas necessariamente, co-               at hoje {Dialogas inter magistnim et discipu-
mo o corpo e a alma esto ligados no ho-                     lum, I, IV, em GOLDAST, Monarquia, II, p. 402),
mem, e o T. per accidens, em que as partes es-               e do papado como de um principado mi-
to ligadas contingentemente. O T.porsi pode                 nistrativus que no pode negar a ningum os
ser: lgico, como um universal; metafsico ou                direitos e as liberdades que Deus concedeu
real; fsico ou substancial; matemtico, quanti-             a todos os homens e que o cristianismo veio
tativo ou integral; e coletivo ou de agregao               reivindicar (De imperatonim et pontficum po-
(Lectiires on Logic, 2- ed., I, pp. 202 ss.).                testate, IV, ed. Scholz, p. 458). O famoso conto
    Na lgica moderna T.  um operador, mais                 de Boccaccio dos trs anis (Decameron, 28)
precisamente o quantifcador universal simbo-                ilustra a possibilidade de salvao concedida
lizado pela notao "(x)" (v. OPERADOR). Quanto              igualmente a maometanos, judeus e cristos.
 diferena entre todo e qualquer, ver este l-              Todavia, o princpio de T. comeou a aparecer
timo termo.                                                  como elemento indispensvel da vida civiliza-
    TODO2. V. QrALQriR.                                     da do Ocidente s depois da Reforma, nas lutas
    TODOS. V. QuALyuKR.                                      que opuseram as vrias faces da cristandade.
   TOKEN. V. OCORRNCIA.                                     E provvel cjue tenha sido explicitamente afir-
    TOLERNCIA (in. Toleration;h. Tolrance;                 mado pela primeira vez pelo grupo de re-
ai. Toleranz; t. Tolleranza). Norma ou princ-              formadores italianos que recusaram o dogma
pio de liberdade religiosa. Algumas vezes se                 da Trindade, ou seja, os socinianos, obrigados
considerou pouco apta a designar esse princ-                por Calvino a fugir para a Transilvnia e para a
pio uma palavra que significa "pacincia", mas               Polnia, onde propagaram a sua doutrina. Em
na realidade ela foi o emblema dessa liberda-                1565, Giacomo Aconcio. em seu Stratagemata
de, desde as primeiras lutas empreendidas, por               Satanae, via a intolerncia religiosa como uma
meio das quais se afirmou em formas ainda                    armadilha de Satans e afirmava que  essen-
hoje frgeis ou incompletas. Por isso, no po-               cial  f apenas o que encoraja a esperana e a
deria ser substituda por nenhum outro termo.                caridade. Em 1580, por motivos de natureza
Desde que essas lutas se iniciaram, a T. foi en-             poltica, Michel de Montaigne defendia a liber-
tendida como coexistncia pacfica entre vrias              dade de conscincia em um ensaio (fs., II, 19).
confisses religiosas, sendo hoje entendida, em              Por volta de 1593, Jean Bodin defendia, em
sentido ainda mais geral, como coexistncia                  Cooquium heptaplomeres, a necessidade da
pacfica de todas as possveis atitudes religio-             paz religiosa, a ser obtida com um retorno  re-
sas. O critrio para verificar se essa exigncia             ligio natural que eliminasse as controvrsias
est sendo realizada nas situaes histricas ou             dogmticas. Por sua vez, Huig van Groot consi-
polticas  um s: a sua realizao significa que            derava fundamentais as crenas da religio na-
o cidado no sofre violncia, inquirio jurdi-            tural, e no coercitivas as crenas da religio
ca ou policial, diminuio ou perda de direitos              positiva, freqentemente ambguas. Para ele,
ou qualquer tipo de discriminao em virtude                 acreditar no cristianismo s  possvel com a
de suas convices, positivas ou negativas, em               ajuda misteriosa de Deus-, por conseguinte,
matria religiosa.                                           querer imp-lo pelas armas  contrrio  razo
                                                             (De jure belli acpacis, 1625, II. 20, 48-49). Em
    O princpio de T., ou pelo menos um                      1644, Milton escrevia seu discurso pela liberda-
corolrio imediato, que  a possibilidade de re-             de de imprensa, intitulado Areopagitca. Todas
deno mesmo fora da f crist, encontra-se                  essas defesas do princpio de T. aduzem em
em alguns filsofos do sc. XIV, especialmente               seu favor argumentos polticos e religiosos,
em Ockham. Este diz: "No  impossvel que                   mais que filosficos ou conceituais; alis, na
Deus designe como digno da vida eterna todo                  maioria das vezes os argumentos so especifi-
aquele que viva segundo os ditames da justa                  camente religiosos, tendo ento valor apenas
razo e que s creia naquilo que sua razo na-               para quem compartilha as crenas religiosas a
tural indicar como digno de crena. E se Deus                que fazem apelo.
assim dispe, poderia salvar-se mesmo aquele
que na vida s teve como guia a justa razo"                    O primeiro a basear a defesa da T. em argu-
(In Sent., III, q. 8, C). Por outro lado, a T. reli-         mentos objetivos foi Spinoza, que apresentou
giosa j est implcita no conceito que Ockham               em seu favor o argumento por excelncia, ou
tinha de Igreja infalvel como comunidade dos                seja, a violncia e a imposio no podem pro-
TOLERNCIA                                              962                                          TOMISMO


mover a f; portanto, as leis que se propem                  lgios em favor de alguma confisso religiosa
esse fim so inteis (Tractatits theologico-po-               especfica, procurando-se, na melhor das hip-
liicus. 1670, cap. 20). Desse ponto de vista,               teses, fazer concesses formais ao princpio de
clssica a Epstola sobre a '/'. (1689). Nesse texto.         T. (cf. em especial F. RUFFINI, La liberta religio-
Locke demonstra que, ao examinar indepen-                     sa, 1901; J. B. BURY, A History of Ereedom of
dentemente o conceito cie Estado e o de Igreja,                Tbonght, 1913; nova ect., 1952; W. K. JORDAN.
o princpio de T. acaba sendo o ponto de en-                   The Development of Religious Toleratiou in
contro de suas respectivas tarefas e interesses.              England, 1932 ss.). '
O Estado 6 "uma sociedade de homens,                              2. Na linguagem comum e s vezes na filo-
estabelecida unicamente para conservar e pro-                 sfica, a T. tambm  entendida em sentido
mover os bens civis", entendendo-se por bens                  mais amplo, abrangendo qualquer forma de li-
civis a vida, a liberdade, a integridade e o bem-             berdade, seja ela moral, poltica ou social. As-
estar fsico, a posse dos bens externos, etc. Por-            sim entendida, identifica-se com pluralismo de
tanto, entre suas funes no est o cuidado                  valores, de grupos e de interesses na sociedade
com as almas e a sua salvao eterna, porque                  contempornea; s vezes se discerne nesse
em relao a essa tarefa o magistrado civil  in-             pluralismo um meio para manter o controle
competente como qualquer outro cidado e                      dos grupos sociais existentes em toda a socie-
no possui nenhum instrumento eficaz, visto                   dade, portanto um obstculo  realizao de
que seu nico instrumento  a coao, e nin-
                                                              uma nova forma de sociedade. Por "T. pura"
gum pode ser obrigado a salvar-se. Por outro
lado, a Igreja  "uma sociedade livre de ho-                  entende-se s vezes a T. que se estende s pol-
mens, unidos espontaneamente para servir a                    ticas, s condies e aos comportamentos que
Deus, em pblico, do modo que julgarem mais                    no deveriam ser tolerados por impedirem, ou
aceito por Ele. com o fim de obter a redeno                 mesmo destrurem, as probabilidades de uma
de suas almas". Como sociedade livre e volun-                 existncia sem medo ou sofrimento. Marcuse
tria, no pode vincular ningum por meio da                  afirmou que, embora a T. indiscriminada se
fora, e as sanes de sua competncia so as                 justifique nos debates incuos e nas discusses
exortaes, as advertncias e os conselhos,                   acadmicas, sendo indispensvel na religio e
nicos capazes de promover a persuaso e a                    na cincia, no pode ser admitida quando es-
f. O princpio de T. garante igualmente o in-                to em jogo a paz, a liberdade e a felicidade da
teresse religioso da Igreja e o interesse poltico            existncia, porque nesse caso eqivaleria  re-
do Estado, os direitos dos cidados e as exign-              presso de todos os fatores de inovao da rea-
cias do desenvolvimento cultural e cientfico.                lidade social (A Critique of Fure Tolerance, de
                                                              WOI.FF, MOORF. JR. e MARCU.SK. 1965). Contudo,
    Contudo, nem mesmo na Epstola de Locke                   nesse significado mais genrico, a palavra T.
o princpio de T. tem expresso completa, pois                no se distingue de liberdade, e seus proble-
para Locke "quem nega a existncia de Deus                    mas so os mesmos dos limites e das condi-
no deve ser tolerado de nenhum modo". Foi                    es da liberdade poltica.
s com o triunfo do Iluminismo no sc. XVIII e
do pensamento poltico liberal do sc. XIX que                    TOLERNCIA, PRINCPIO DE. V CON-
se chegou a reconhecer o princpio de T. em                   TRADIO, PRINCPIO DK; CONVKNCIONALISMO.
sua forma completa, que  a exposta acima. No                    TOMISMO (in. Thomism- fr. Tbomisme-, ai.
entanto, a literatura posterior pouco ou nada                 Thomismus, it. Tomismo). Fundamentos da fi-
acrescentou s justificaes desse princpio                  losofia de S. Toms, conservados e defendi-
apresentadas por Locke; nesse sentido, tam-                   dos pelas correntes medievais e modernas
pouco se distingue o Tratado sobre a T. (1763)                que nele se inspiram. Podem ser assim resumi-
de Voltaire, cuja justa fama se deve  influncia             dos:
histrica que exerceu.                                           1" A relao entre razo e f consiste em
    O princpio de T. passou a fazer parte da                 confiar  razo a tarefa de demonstrar os
conscincia civil dos povos do mundo inteiro.                 prembulos da f (v. PRFAMBULA ITDFI), de es-
Todavia, a sua realizao nas instituies que                clarecer e defender os dogmas indemonstr-
regem a vida cie muitos povos  incompleta e                  veis e de proceder de modo relativamente
est sempre sujeita a novos perigos. As discus-               autnomo (excetuando-se o respeito das ver-
ses a seu respeito muitas vezes so inspiradas               dades de f que no podem ser contraditas) no
pelo desejo de manter ou restabelecer privi-                  domnio da fsica e da metafsica.
TPICA                                                   963                                          TOTEMISMO

   2y Analogicidade do ser (v. ANALOGIA), se-                     Alguns dos conceitos da T. so aplicveis a
gundo a qual o termo ser, usado com refern-                   outras disciplinas, sobretudo no gestaltismo,
cia  criatura, no tem significado idntico, mas              que utilizou o conceito topolgico de regio
apenas semelhante ou correspondente, ao ser                    (com as suas vrias determinaes), que se
de Deus. Este princpio, que S. Toms extraa                  presta a expressar o espao vital cie um orga-
de Avicena, serve para estabelecer a distino                 nismo ( K I R T LF.WIN. Principies of Topological
entre teologia e metafsica e a dependncia da                 Psycbology, 1936. esp. cap. XI e s.). (V. CAMPO:
metafsica em relao  teologia.                              PSICOLOGIA.)
    3" Carter abstrativo do conhecimento, que                     TOTALIDADE (gr. T.OV; lat. Vniversitas;
consiste em abstrair do objeto, em qualquer                    in. Totality, fr. Totalit; ai. Allheit, Tolalital: it.
caso, a espcie sensvel ou a espcie inteligvel               Tolalil). l'm todo completo em suas partes e
(que corresponde  essncia da coisa).                         perleito em sua ordem. Este  o conceito de T.
    4" A individuao depende da matria assi-                 que se encontra em Aristteles, que se distin-
nalada (v. INDIVIDUAO).                                      gue cie todo. cujas partes podem mudar de dis-
    5" A clssica explicao dos dois dogmas                   posio sem modificar o conjunto (Mel., V. 26.
cristos da Trindade e da Encarnao (v. EN-                    1024 a 1). Nesse sentido, o mundo (cosmos) 
CARNARO; RFLAOO; TRINDADF).                                  rnr 7'.. tiuis o universo no (r. Mlixno).
   Fsses aspectos bsicos distinguem clara-                        Mesmo nas lnguas modernas, a noo de
mente o T. do escotismo (v\). que foram duas                   T. conservou a caracterstica da completitude
doutrinas proeminentes nos scs. XIV e se-                     e de disposio perfeita das partes. Segundo Kant,
guintes, e tambm constituem os tpicos de                     U "T. cias condies" corresponde, na sntese
maior interesse da retomada do T. pela neo-                    da intuio,  universalidade do predicado na
escolstica contempornea. Para a formao                     premissa maior do silogismo. A noo de T.
histrica do T. contriburam a obra cie Alberto                tias condies  a idia da Razo Pura. Por-
                                                               tanto, segundo Kant. a idia  a noo cie uma
Magno, mestre de S. Toms, a obra de Avicena
                                                               perfeio, ainda que no cie uma perfeio real
e a de Moiss Maimnides.
                                                               [Crt. R. Pura, Dialtica, livro I, se. l-II) (v.
   TPICA (gr. TOKiKr] Tj(vr|: lat. Tpica; in.               Tono).
Topics; fr. Topijue-, ai. 7'opk; it. Tpica). Teoria
                                                                  TOTALITARISMO (in. Totalitarianism; fr.
d o s lugares lgicos e a arte de invent-los (v.
                                                               Totalitarismo, ai. /'tatisnuts; it. Totalitarismo).
Lt f.ARIS).
                                                               Teoria ou prtica cio listado totalitrio, vale di-
    Kant chamou de '/'. transcendental A teoria                zer, do Estado que pretende identificar-se com
dos lugares transcendentais, ou seja, as posi-                 U vida dos seus cidados. Esse termo foi cunha-
es atribudas aos conceitos na sensibilidade                 do para designar o fascismo italiano e o nazis-
ou no intelecto puro. Essa T. deveria evitar a                 mo alemo. s vezes tambm  usado pa-
anfibolia (uso duvidoso) dos conceitos de re-                  ia designar qualquer doutrina absolutista. em
flexo (Cit. K. Pura. Analtica transe, nota a an-            qualquer campo a que se refira ( usado nesse
fibolia).                                                      sentido por G. H. SAHINF. A Hstoiy o/Political
    Droysen falou tambm em T. hisloriogrfi-                  Tbeory, 1951. cap. 35; trad. it.. pp. 708 ss.).
cet, que seria a coletnea das exposies do                   Muitas vezes, por extenso, entende-se por T.
que foi historicamente investigado ( Crundzge                 qualquer forma do absolutismo doutrinrio ou
der Hisiorik, 1882,  18).                                     poltico.
   TOPOLOGIA (in. Topologv.h. Topologie-, ai.                     TOTEMISMO (in. Talemisnr, fr. Totmisme;
Topologie, it. Topologia). Com este nome, ou                   ai. Tolemismus: it. Totemismo). Crena no to-
com o de analysis sitits, designa-se, h um s-                tem, ou organizao social fundada nessa cren-
culo, o estudo das propriedades das figuras                    a. O termo totem foi extrado do idioma dos
geomtricas que no variam mesmo quando as                     ndios norte-americanos e depois passou a in-
figuras so submetidas a transformaes to                    dicar o fenmeno (presente em todos os povos
radicais que perdem suas propriedades mtri-                   primitivos) de transformar uma coisa (natural
cas e projetivas. O precursor da T. foi L. Euler               ou artificial) em emblema cio grupo social e em
(1707-83). mas sua primeira formulao encon-                  garantia da sua solidariedade. Foi Durkheim
tra-se na obra de A. E. Moebius (1790-1868) (cf.               quem mais enfatizou esse carter do totem,
especialmente O. VFBI.FN, Analysissitus. 2- ecl.               Vendo nele a expresso cia unidade do grupo
1931, e as palavras GRITO; TRANSFORMAO).                     Social em sua inteireza e. portanto, nas inter-re-
TOTO-PARCIAL, TODO-TOTAL                               964                                          TRABALHO


 laes dos clans em que o grupo se divide (Les              sentidos (v.); 2) reao ativa a essa depen-
formes lmentaires de Ia vie religieuse, 1912).             dncia, constituda por operaes mais ou
 Ao lado desse carter do T.. A. R. Radcliffe-               menos complexas, com vistas  elaborao
 Brown evidenciou o seu carter ainda mais                   ou  utilizao dos elementos naturais; 3) grau
 universal, segundo o qual o T. constituiria "uma            mais ou menos elevado de esforo, sofrimento
 representao do universo como ordem moral                  ou fadiga, que constitui o custo humano do
 e social"; portanto, a regulamentao da rela-              trabalho.
 o entre o homem e a natureza, alm da regu-                   Era principalmente nesse aspecto que se ba-
 lamentao da relao entre os homens, seria                seava a condenao da filosofia antiga e medie-
 um elemento universal da cultura humana                     val ao T. manual (v. BANAUSIA). Com esse mes-
 (Structure and Function in Primitive Society,               mo aspecto, na Bblia o T.  considerado parte
 1952, cap. VI), Lvi-Strauss, porm, parece re-             da maldio divina, decorrente do pecado ori-
 duzir o T. a fenmeno lingstico formal: "Aqui-            ginal (Gnese, III, 19). Num texto famoso de S.
 lo que se chama de T.  apenas uma expresso                Paulo, o preceito "Quem no quer trabalhar
 particular, atravs de uma nomenclatura espe-               no coma" deriva da obrigao de no onerar
 cial formada por nomes de animais e de plan-                os outros com o cansao e o sofrimento do T.
 tas (ou, como diramos, um cdigo), que  seu               (LITessal, III, 8-10). Era nesse mesmo sentido
 nico carter distintivo, das correlaes e opo-            que S. Agostinho (De operibus monachomm,
 sies que podem ser formalizadas de outros                 17-18) e S. Toms (S. Th., II, II, q. 187 a. 3) pres-
 modos: p. ex., como acontece em certas tribos               creviam o T. como preceito religioso. Na exi-
 das Amricas, por oposies do tipo cu-terra,              gncia de distribuir imparcialmente o sofrimen-
 guerra-paz, em cima-embaixo, vermelho-bran-                 to e a degradao do T. manual inspiraram-se
 co, etc." (Le totemisme aiijoiird'bni, 1962, p.              Utopia (1516), de Thomas More, e A cidade do
 172). Por outro lado, Freud apresentou uma in-              Sol (1602), de Campanella, que prescrevem
 terpretao psicanaltica do 'I'.: "Se o animal             para todos os membros de sua cidade ideal a
 totem  o pai, ento os dois principais preceitos           obrigao do trabalho.
 do T., de no matar o totem e de no usufruir                   Com base nisso, fixava-se a contraposio
 sexualmente de nenhuma mulher do totem,                     entre trabalho manual e atividade intelectual,
 coincidem substancialmente com os dois cri-                 entre artes mecnicas e artes liberais. Mesmo
 mes de Kdipo (que matou o pai e casou-se com                no Renascimento, a defesa quase unnime fei-
 a me) e com os desejos primitivos da criana,              ta por literatos e filsofos da vida ativa em
 desejos cuja remoo insuficiente ou cujo des-              oposio  contemplativas a condenao un-
 pertar talvez constituam a raiz de todas as                 nime ao cio (que perde o carter de disponi-
 psiconeuroses" {Totem etabu, 1913, IV, 3; trad.             bilidade para atividades superiores atribudo
 it., p. 146). Para uma interpretao semelhante             pela Antigidade clssica) nem sempre levam
 a esta de Freud, v. J. G. FRAZFR, Totemism and               revalorizao do T, manual. Um trecho de
 Exogamy, 1910.                                              Giordano Bruno afirma que a providncia dis-
   TOT PARCIAL, TOTO-TOTAL (in                Toto-         ps que o homem "se ocupe na ao das mos
partial, Toto-total). Expresses usadas por W.               e na contemplao do intelecto, de tal maneira
Hamilton para indicar, respectivamente, a pro-               que no contemple sem ao e no obre sem
posio na qual o sujeito  considerado univer-              contemplao" (Spaccio delia bestia trionfante,
salmente e o predicado, particularmente (ex.,                1584, em Op. itali., II, p. 152). Mas  sobretudo
os homens so animais), e a proposio na                    nos textos cientficos e tcnicos que se afirma,
qual tanto o sujeito quanto o predicado so                  a partir do sc. XV, a dignidade do T. manual.
considerados universalmente (ex. os animais                  Galileu reconhecia explicitamente o valor das
so mortais) (Lectures on Logic, 11, p. 287).                observaes feitas pelos artesos mecnicos
   TRABALHO (gr. TTVO; lat. Labor, in. La-                 para a pesquisa cientfica (Discorsi in torno a
bor, fr. Travail; ai. Arbeit; it. Lavoro). Atividade         due nuovescienze, em Op., VIII, p. 49). Bacon
cujo fim  utilizar as coisas naturais ou modifi-            fundamentava seu experimentalismo nas "ar-
car o ambiente e satisfazer s necessidades hu-              tes mecnicas", que agem sobre a natureza e se
manas. Por isso, o conceito de T. implica: 1) de-            enriquecem com a luz da experincia (Nov.
pendncia do homem em relao  natureza,                    Org., I, 74), e considerava, pois, indispensveis
no que se refere  sua vida e aos seus interes-              as operaes materiais ou manuais para a ob-
ses: isso constitui a necessidade, num de seus               teno de um saber que fosse ao mesmo tem-
TRABALHO                                             965                                        TRABALHO

po poder sobre a natureza, com vistas  satis-              tureza, conferindo-lhe assim valor e conformi-
fao das necessidades e dos interesses huma-               dade com o fim a que se destina (Fil. do dir.,
nos (Ibid., I, 83). Se Descartes dava pouca impor-           196). S na satisfao de suas necessidades
tncia  parte tcnica ou instrumental da cincia          atravs do T.  que o homem  realmente ho-
(que para ele continua sendo um sistema rigi-               mem, porque assim se educa tanto teoricamente,
damente dedutivo) e ao T. manual, Leibniz, ao               por meio dos conhecimentos que o T. exige,
contrrio, insistia na importncia do T. dos                quanto na prtica, ao habituar-se  ocupao,
artesos, dos agricultores, dos marinheiros, dos            ao adequar suas atividades  natureza da mat-
comerciantes, dos msicos, no s em pro-                   ria e ao adquirir aptides universalmente vli-
veito da cincia, mas tambm da vida e da                   das. Por isso, ao contrrio do brbaro, que 
civilizao (Phil. Schriften, VII, pp, 180 ss.).            preguioso, o homem civilizado  educado no
    Essas idias tornaram-se dominantes no Ilu-            costume e na necessidade da ocupao (Ibd.,
minismo. sobretudo graas a Bacon e a Locke;                 197 e Zusatz). Atravs do T., "o egosmo subje-
este ltimo reconhecia na investigao experi-              tivo converte-se na satisfao das necessidades
mental, voltada para a determinao das pro-                de todos os outros'', de tal modo que, enquan-
priedades dos corpos fsicos, nico instru-                 to "algum adquire, produz e usufrui, justa-
mento cie que o inteecto humano dispe para               mente por isso est produzindo e adquirindo
ampliar esse tipo de conhecimento, visto que a             para o usufruto de outros" (Ibid.,  199). Hegel
substncia dos corpos continua desconhecida                tambm evidenciou o crescimento indefinido
(Ensaio, IV, II, 25). Na esteira de Bacon, o ver-          das necessidades, a importncia da diviso do
bete "Art", de Diderot na F.ncyclopdie, critica-          T. e a relevncia assumida pela distino de
va a distino das artes em liberais e mecni-             classes, com base nessa diviso (Ibid.,  195,
cas, considerando-a preconceito, tendente a                241, 245). Viu tambm que a diviso do T. leva
"encher as cidades de raciocinadores orgu-                  substituio do homem pela mquina. Isso
lhosos e de contemplativos suprfluos, e os                porque, com essa diviso, aumenta realmente
campos de tiranetes ociosos, preguiosos e ar-             a facilidade do T. -- portanto da produo
rogantes". O Iluminismo, em geral, marca a                 ---, mas ao mesmo tempo ocorre a limitao a
reivindicao da dignidade do T. manual, a par-            lima nica habilidade, portanto a dependncia
tir do qual Rousseau desejava que Emlio ad-               incondicional do indivduo ao contexto social.
quirisse as primeiras idias sobre solidariedade           A prpria habilidade torna-se mecnica e oca-
social e sobre as obrigaes que ela impe                 siona a substituio doT. humano pela mquina
(mile, [17621, IV). Kant, mesmo fazendo a dis-            (Ene,  526). Esses princpios hegelianos foram
tino entre T. e arte, no considerava possvel           aceitos por Marx, que. no entanto, insiste no
uma separao ntida porque at nas artes libe-            carter natural ou material da relao criada
rais " necessrio algo de obrigatrio e --                pelo T. entre o homem e o mundo, contra o ca-
como se diz -- um mecanismo sem o qual o                   rter espiritual atribudo por Hegel, que permi-
esprito no adquiriria corpo e evaporaria"                tia consider-lo um momento ou uma mani-
(Crt. do Juzo,  43).                                    festao da conscincia. Segundo Marx, os
    Foi s no Romantismo que se comeou a es-              homens comearam a distinguir-se dos animais
tabelecer a relao entre o T. e a natureza do             quando "comearam a produzir seus prprios
homem. Fichte afirmava que at mesmo a ocu-                meios de subsistncia, progresso este condicio-
pao mais reles e insignificante, se estiver li-          nado pela organizao fsica humana. Produ-
gada  conservao e  livre atividade dos se-             zindo seus meios de subsistncia, os homens
res morais,  santificada tanto quanto a ao              produzem indiretamente sua prpria vida ma-
mais elevada (Sittenlehre, III.  28). Foi Hegel           terial" (Ideologia alem, I, A; trad. it., p. 17).
quem formulou a primeira teoria filosfica do              Portanto, o T. no  apenas o meio com que os
T., utilizando os resultados a que chegara Adam            homens asseguram sua subsistncia:  a pr-
Smith na economia poltica (v.). J em Lies              pria extrinsecao e produo cie sua vida.
de Ietia (1803-04), Hegel considerava o T. como            C1 um modo de vida determinado. A produo
"mediao entre o homem e seu mundo"; isso                 e o T. no so, pois, uma condenao para o
porque, diferentemente dos animais, o homem                homem: constituem o prprio homem, seu
no consome de imediato o produto natural,                 modo especfico de ser e de fazer-se homem.
mas elabora de maneiras diferentes e para os               Pelo T., a natureza torna-se "o corpo inorgnico
fins mais diversos a matria fornecida pela na-            do homem", e o homem pode ascender  cons-
TRABALHO                                             966                                         TRADIO

cincia cie si mesmo, no tanto como indiv-               cios -Americanos: "O seu furibundo T. sem fle-
duo, mas como "espcie de natureza universal"              go --- vcio peculiar do Novo Mundo -- j co-
(Manuscritos econmico-polticos de 1844, I,               mea, por contgio, a asselvajar a velha Europa
trad. it.. pp. 230 ss.). O T. tambm transforma            e a estender sobre ela uma prodigiosa falta cie
o homem num ente social porque o pe em                    espiritualidade". Notara que s o T. proporcio-
contato com os outros indivduos, mais cio que             na "i boa conscincia" e que, ao contrrio, a in-
com a natureza: desse modo, as relaes de T.              clinao  alegria, chamada de "necessidade de
e de produo constituem a trama ou a estru-               criao", comea a ter vergonha de si mesma
tura autncia da histria, cujos reflexos so as           (Die Froehlich Wissenscbaft, 18X2,  329). Vira
vrias formas de conscincia. Isso acontece,               no T- assim concebido a melhor polcia, que
porm, no T. no alienado, que no se tornou               mantm todos subjugados e consegue impedir
mercadoria-, no trabalho alienado, que ocorre              vigorosamente o desenvolvimento da razo, do
na sociedade capitalista, manitesta-se o con-              desejo violento, cio gosto pela independncia
traste entre a personalidade individual cio pro-           (Mofgenritbe, 1881,  173). A essas idias de
letrio e o T. como condio de vida que lhe              Niet/sche remete-se, implcita ou explicitamen-
imposta pelas relaes das quais faz parte                 te, quem contrape entretenimento e T. ou
como objeto, e no como sujeito {Ideologia                 quer transformar o 'V. em entretenimento. "O
alem, I, C; trad. it., p. 75).                            entretenimento  improdutivo e intil" -- es-
    Do ponto de vista da tica religiosa. Kierke-          creveu Marcuse -- "exatamente porque apaga
gaard afirmava a estreita conexo do T. com a              as caractersticas repressivas e exploradoras do
dignidade humana: "Quanto mais baixo  o                   T. e da riqueza; mas ele 'simplesmente se en-
escalo em que est a vida humana, menos ne-               tretm com a realidade". Por outro lado. o pr-
cessidade h de trabalhar; quanto mais alto,               prio Marcuse afirma que uma ordem "no re-
tanto mais essa necessidade se manifesta. O                pressiva" do T.  uma ordem de abuudcuicia,
dever de trabalhar para viver exprime o uni-               que ocorre "quando todas as necessidades fun-
versal humano, inclusive no sentido de ser uma             damentais podem ser satisfeitas com um gasto
manifestao da liberdade. F exatamente por                mnimo de energia tsica e psquica, em tempo
meio do T. que o homem se torna livre; o T.                mnimo" (lirasecivilizao, cap. 9, trad. it., pp.
domina a natureza: com o T. ele mostra que                 212-13). Por trs da condenao cio valor do T.,
est acima da natureza (Entuvder-Oder, II, em              mais que censura s formas alienadas que o T.
 Werke, III. p. 301).                                      assumiu na civilizao contempornea, est a
    Essa estreita conexo do trabalho com a                nostalgia da vida puramente contemplativa, a
existncia humana, que enobrece o T. e graas              f numa vida instintiva que, no fora reprimida
 qual ele  fim, alm de meio, passa a ser lu-            pelo T.. levaria o homem infalivelmente ao
gar-comum em filosofia e, em geral, na cultura             paraso perdido.
contempornea. Mesmo fora do mbito marxis-                    TRADIO (gr. 7iapom; in. Traditiotr,
ta, o carter penoso do T. no  atribudo ao T.           fr. Tradition-, ai. Uberlieferung: it. Tradizione).
em si, mas s condies sociais em que ele                Herana cultural, transmisso cie crenas ou
realizado nas sociedades industriais. Dewey                tcnicas de uma gerao para outra. No dom-
diz: "F natural que a atividade seja agradvel.            nio cia filosofia, o recurso  T. implica o reco-
Fia tende a encontrar sadas, e encontr-las ,            nhecimento cia verdade da T., que, desse pon-
em si, gratificante porque marca um xito par-             to c vista, se torna garantia cie verdade e, s
cial. C) fato de a atividade produtiva ter-se tor-         vezes, a nica garantia possvel. Foi entendida
nado to inerentemente insatisfatria que os               nesse sentido pelo prprio Aristteles, que. em
homens precisam ser induzidos a empenhar-se                suas investigaes, recorre freqentemente 
nela por vias artificiais  prova cie que as con-          T., considerando-a garantia de verdade: "Nos-
dies em que o T. se realiza impedem o                    sos antepassados, das mais remotas idades,
conjunto cie atividades, em vez de promov-                transmitiram  posteridade tradies em forma
las, irritam e frustram as tendncias naturais,            mtica, segundo as quais os corpos celestes so
em vez de orient-las para a fruio" (lluman              divindades e o divino abrange a natureza intei-
 Nature and Conduct, II, 3, pp. 123-24). Nietz-            ra. Outras T. foram acrescentadas em forma de
sche. porm, via no T. Lima traio  espi-                mito, para persuadir a maioria e como objetivo
ritualidade alegre e contemplativa que deveria             de reforar as leis e promover a utilidade pbli-
ser prpria do homem. Escreveu a propsito                 ca; elas dizem que os deuses tm forma de ho-
TRADIO                                             967                              TRADICIONALISMO

mens ou de outros animais, dando sobre eles                ficar" (Geschicbte der Philosophie, ed. Glock-
outros pormenores semelhantes. Mas, se con-                ner, I, p. 29). Nesse sentido, obviamente, a T.
siderarmos apenas o essencial em separado do                apenas outro nome para designar o plano
resto, ou seja, que as primeiras substncias so           providencial da histria (v. HISTRIA).
tradicionalmente consideradas divindades, po-                  Foi esse o ponto de vista dominante em
deremos reconhecer que isso foi divinamente                todo o Romantismo, sendo o chamado tradi-
dito e que estes e outros mitos, ainda que ex-             cionalismo (v.) apenas Lima de suas mani-
plorados, aperfeioados e novamente perdi-                 festaes.
dos pelas artes e pela filosofia, foram conserva-              A anttese dessa valorizao da T.  a con-
dos at hoje como antigas relquias. E ,s desse           cepo segundo a qual: 1" nem todos cxs resul-
modo que podemos tornar claras as opinies                 tados, nem os melhores produtos da atividade
dos nossos antepassados e predecessores"                   humana foram infalivelmente conservados e
(Met.. XII, 8, 1074 b). Para Aristteles, sua pr-         incrementados ao longo do desenvolvimento
pria filosofia consiste em libertar a T. cie seus          histrico; 2" o que esse desenvolvimento con-
elementos mticos, portanto em descobrir a T.              servou nem por isso tem garantia de verdade
autntica ao mesmo tempo em que se funda na                Ou de valor. Concepo desse tipo foi assumi-
garantia oferecida por essa mesma 'f'. Esse foi o          cfa peo fuminismo (por isso mesmo freqen-
ponto de vista que predominou no ltimo pero-             temente definido como anti-historicista por
do da filosofia grega, especialmente na cor-               quem v a histria como ordem providencial
rente neoplatnica. Plotino dizia: " preciso              Ou T.). O Iluminismo erigiu-se contra a T., afir-
crer sem dvida que a verdade foi descoberta               mando que sua herana, na maioria das vezes,
por antigos e santos filsofos; a ns convm                erro, preconceito ou superstio, e recorren-
examinar quem as encontrou e como podere-                  do ao juzo da razo crtica para contest-la (v.
mos chegar a compreend-la" (HIIH., III, 7, 1).            ILUMIMSMO).
Foi graas a essa idia que, com base numa su-                 Como se v, as discusses filosficas sobre
posta T., se tornou possvel fabricar documen-             o significado e a importncia da T. na realidade
tos fictcios quando os autnticos faltavam; e as          so discusses sobre histria (vj. No campo
obras de falsas atribuies -- as mais famosas             cia sociologia, porm, analisar a 'F.  o mesmo
foram as de Hermes Trismegisto -- obedecem                 que analisar determinada atitude, ou melhor,
 exigncia de remeter ao passado a doutrina               Um tipo e espcie de atitude, mais precisamen-
em que se acredita e de atribuir-lhe, embora               te a que consiste na aquisio inconsciente
fraudulentamente, o prestgio e a garantia da              (no deliberada) de crenas e tcnicas. Na ati-
tradio.                                                  tude tradicionalista, o indivduo considera co-
    Desde ento, o conceito de T. no mudou,               mo seus os modos de ser e de comportar-se
conservando a aparncia ou a promessa dessa                que recebeu ou continua recebendo do am-
garantia. O grande retorno da idia de T. est             biente social, sem perceber que so modos de
no Romantismo. Era ldeen zttr Philosophie der              ser do grupo social. Na T., no h distino
Geschichte der Menschheit (1783-1791), J. G.               t;ntre presente e passado, entre "mim" e os
Herder exaltara a T. como "cadeia sagrada que              outros, sendo por isso uma forma de comuni-
liga os homens ao passado, conserva e trans-               cao primitiva e imprpria (ABISAGNANO, Pro-
mite tudo que foi feito pelos que os precede-              blemi di sociologia, 1959, XI, 3). Segundo esse
ram". Hegel exaltou explicitamente a T. e insis-           ponto de vista, a atitude tradicionalista ope-se
tiu no seu carter providencial: "A T. no  uma            atitude crtica, graas  qual o indivduo tem
esttua imvel, mas vive e mana como um rio                certa liberdade de juzo (que no entanto nunca
impetuoso que mais cresce quanto mais se afasta            6 absoluta ou infalvel) em relao s crenas e
da origem. (...) O que cada gerao produziu               tcnicas que hauriu da tradio. A atitude crti-
no campo da cincia e do esprito  uma he-                ca tem condies antitticas em relao s da
rana para a qual todo o mundo anterior contri-            T.: alteridade entre presente e passado e entre
buiu com sua economia,  um santurio em                   os indivduos.
cujas paredes os homens de todas as estirpes,                  TRADICIONALISMO (in. Traditionalism; fr.
gratos e felizes, afixaram tudo o que os auxi-             'iraditionalisme-, ai. Traditionalismus; it. Tradi-
liou na vida, o que eles hauriram das profundezas          Zionalismo). 1. Defesa explcita da tradio,
da natureza e do esprito. E esse herdar , ao             cujos principais protagonistas pertencem ao
mesmo tempo, receber a herana e faz-la fruti-            Romantismo francs: Madame cie Stal (1766-
TRADUCIANISMO                                                            968                                           TRGICO


 1817), que, em De VAllemagne (1813), v a                                     palco do mundo. O ponto de partida implci-
histria humana como progressiva revelao                                     to ou explcito dessas discusses quase sem-
religiosa; Ren de Chateaubriand (1769-1848),                                  pre  a definio aristotlica de tragdia,
que, em Gnie du cbristianisme (1802), v o                                    segundo a qual ela  "imitao de aconteci-
catolicismo como depositrio da tradio das                                   mentos que provocam piedade e terror e que
humanidades; e em Louis de Bonald (1754-                                       ocasionam a purificao dessas emoes"
1840). Joseph de Maistre (1753-1821) e Robert                                  (Poet.. 6, 1449 b 23). As situaes que provo-
Lamennais (1782-1854), que se transformaram                                    cam "piedade e terror" so aquelas em que a
em paladinos das duas principais instituies                                  vida ou a felicidade de pessoas inocentes 
personificadoras da T., verberadas pelo Ilu-                                   posta em perigo, em que os conflitos no so
minismo e hostilizadas pela Revoluo: a Igreja                                resolvidos ou so resolvidos de tal modo que
e o Estado. Por isso, esses escritores tambm                                  determinam "piedade e terror" nos espectado-
foram chamados de teocrticos ou ultramon-                                     res. W. Haeger escreveu: "na tragdia grega a
tanistas (v. TEOCRACIA).                                                       felicidade, como toda posse, no pode ficar
   2. Em sentido mais geral e filosfico, pode-                                muito tempo com quem a detm; a perptua
se entender por T. o retorno  tradio que                                    instabilidade  inerente  sua natureza. A con-
marcou o Romantismo da primeira metade do                                      vico cie Slon, de que h uma ordem divina
sc. XIX, entre cujos defensores estariam seus                                 no mundo, encontrou nessa noo (embora to
principais protagonistas (Fichte, Schelling, He-                               dolorosa para o homem) o apoio mais slido.
gel, Maine de Biran [1766-1824], Antnio                                       Esquilo tambm  inconcebvel sem tal convic-
Rosmini Serbati [1797-18551, Vincenzo Gioberti                                 o, que pode ser chamada mais de noo que
[1801-521 e o prprio Giuseppe Mazzini [1805-                                  de crena" (Paidia. II, cap. I; trad. it., p.
72]) e outros escritores menores em vrios pa-                                449). As interpretaes da natureza do T. no
ses (p. ex., o ingls J. Martineau [1805-1900]). A                             pensamento moderno so trs. Ia T.  o confli-
idia comum de todos esses pensadores  que                                    to continuamente resolvido e superado na or-
tanto o pensamento individual quanto a tradi-                                  dem perfeita do todo; 2a T.  o conflito no so-
o da humanidade baseiam-se numa revelao                                    lucionado e insolvel; 3a T.  o conflito que
direta de Deus, que o homem tem o dever de                                     pode ser solucionado, mas cuja soluo no 
desenvolver com a reflexo individual e com a                                  definitiva nem perfeitamente justa ou satisfa-
ao coletiva. A idia do ser, de Rosmini,  a                                 tria.
melhor expresso conceituai dessa noo de
revelao progressiva. Aplicado  histria, este                                   \- O primeiro conceito de T.  de Hegel,
conceito  o m e s m o q u e p r o r i d e n c i a l i s m o i v . ) .         para quem o conflito em que consiste o T., em-
    TRADUCIANISMO (in. Traducianism, ai.                                       bora constituindo a substncia e a verdadeira
 '1'radncianismus: it. Traducianismo). Doutri-                                 realidade, no se conserva como tal, mas en-
na segundo a qual a alma dos filhos provm da                                  contra justificao s na medida em que  su-
alma dos pais assim como um ramo (tradux)                                      perado como contradio. "No entanto o objeti-
provm da rvore. Essa doutrina j se encon-                                   vo e o carter T. so legtimos" -- diz Hegel --
trava nos esticos (TEMSTIO, Dean., II, 5; GALENO,                            "porque  necessria a soluo do conflito em
Op., IV, 699), foi aceita por Tertuliano (Dean.,                               que ele consiste. Por meio dessa soluo a
22) e por outros escritores da patrstica e de-                                eterna justia se afirma sobre os fins e os indiv-
fendida mais tarde pelos telogos protestantes                                 duos, de tal modo que a substncia moral e a
que viam nela a possibilidade de explicar a                                    sua unidade se restabelecem com o ocaso das
transmisso do pecado original. Era aceita por                                 individualidades que perturbam o seu repou-
Leibniz (Thod., I,  86).                                                     so" (Vorlesungen ber de sthetik, ed. Glo-
    A mesma doutrina foi, s vezes, indicada                                   ckner, III, p. 530). Portanto, a soluo T. resta-
com o nome de generacionismo. A doutrina                                       belece a harmonia, e o que ela destri  apenas
oposta, de que toda as almas so criadas ex-                                   a "particularidade unilateral" que no pde
novo chama-se criacionismo (v.).                                               concertar-se com a harmonia (Ibid., ed. Glo-
  TRGICO (in. Tragic, fr. Tragique, ai. Tra-                                  ckner, III, p. 530). Obviamente, desse ponto de
gsch; it. Trgico). O conceito de T. foi, s                                  vista, que caracteriza o otimismo ou provi-
vezes, discutido pelos filsofos no s em rela-                               dencialismo de carter romntico, a tragdia 
o  forma de arte que  a tragdia, mas tam-                                 simplesmente a aparncia de uma comdia
bm em relao  vida humana em geral, ou ao                                   substancial: tudo acaba bem, e o que se perde
TRGICO                                               969                                      TRANSAO

 a "particularidade unilateral" que no tem o              que  terrificante e incerto. Escreveu ento: "A
mnimo valor.                                               profundidade do artista T. reside no fato de que
    2a A segunda interpretao do T.  de                   seu instinto esttico considera as conseqn-
Schopenhauer, segundo a qual o T.  conflito                cias remotas e no se detm com viso estreita
insolvel. Para ele, "a tragdia  a representa-            nas coisas prximas; de que ele afirma a econo-
o da vida em seu aspecto terrificante.  ela              mia  larga, que justifica o que  terrvel, ma-
que nos apresenta a dor inominvel, a aflio               ligno e problemtico, mas no se contenta ape-
da humanidade, o triunfo cia perfdia, o es-                nas em justific-lo" ( Wille zurMacht, ed. 1901,
carnecedor domnio do acaso e a fatal runa                  374). Essa concepo do T. -- que costuma
dos justos e dos inocentes; por isso, ela cons-             ser expressa com imperfeio ou mesclada
titui um sinal significativo da natureza do mun-            com as otitras duas -- pode ser reconhecida
do e do ser" (Die Welt, I,  51). Mas a inevita-            pelo fato de abrir espao, em sua caracteriza-
bilidade e, portanto, a certeza de um destino               o,  problematicidadeda situao T., vale di-
malfico ou de uma injustia imanente, assim                zer,  possibilidade de ela ser decidida de um
como a nevitabilidade e a certeza da justia e             modo ou de outro, sem que a deciso seja
da harmonia, suprimem a tragicidade. Diante                 definitiva ou perfeita. Foi com esse esprito que
deles, de fato, a nica atitude possvel  a resig-         Miguel de Unamuno entendeu a tragiciclade em
nao ou o desespero: atitudes que, assim                   Do sentimento T. da w't/a(1913). expressando-a
como as que lhe so opostas, excluem o con-                 com o quin sabe? de Don Quixote. No mes-
flito constitutivo do trgico.                              mo sentido expressaram-se Scheller ( Vom
    3- A terceira concepo foi apresentada por             Vmsturz der Werte, 1953), Jaspers (ber das
Schiller na obra Uber naive imcl sentimenta-                Tragiscbe, 1952) e Cantoni (Trgico e senso
lischeDichtungdl^-^). Nela. o T.  apresen-                comune, 1964). P. Romanell diz que, ao contr-
tado como manifestao da poesia sentimental                rio da pica, em que o conflito se d entre o
(v. INGKXUIDADE), mais precisamente cia poesia              bem e o mal, no T, o conflito se d entre bens
que representa o conflito entre o real e o ideal.           diferentes, valores heterogneos entre os quais
A poesia sentimental divide-se em stira e ele-             a escolha  dolorosa e sempre implica sacrif-
gia: na stira o poeta tem por objeto o geral,              cio (Making ofthe Mexican Mind, 1952, p. 22).
considerando-o insuficiente em relao ao                   Esse carter cio T.  bem realizado na tragdia
ideal. Ainda segundo Schiller, quando a insufi-             grega. A tragdia de Sfocles baseia-se na con-
cincia do real  representada pelo conflito entre          vico de que existe uma ordem divina no
o real e nossas exigncias morais, tem-se a stira          mundo, em virtude da qual s vezes o inocente
sria, que  o T. ( Werke, ed. Karpeles, XII, p.            precisa pagar por um erro eometidf) por outros.
150). Km conceitos semelhantes inspirava-se                 O fato cie a soluo do conflito no poder ser
a chamada "pantragicidade" de Hebbel (v.                    lmpida, de algo se perder nessa soluo e de
 Werke, X, p. 43). Bem mais paradoxalmente,                 esse algo no ser -- como dizia Hegel -- uma
Nietzsche via no 'I'., por um lado, o carter               "particularidade unilateral"  o que constitui o
terrificante da existncia, por outro a possibili-          fascnio e a verdade da tragdia.
dade de aceitar e transfigurar esse carter ou                 TRANQILIDADE. V. ATARAXIA
por meio da arte ou da vontade de potncia. A                  TRANSAO (in. Transaction; fr. Transac-
primeira soluo  a que Nietzsche atribui aos              tion; ai. Transaction; it. Transazione). Termo
gregos em Die Geburt der 1'ragdie (1872). O                introduzido em filosofia por Dewey e Rentley
homem grego, que tinha condies de distin-                 para indicar uma relao que no pressupe os
guir com clareza o horrvel e o absurdo cia                 termos relativos como entidades em si. Dewey
existncia, conseguiu transfigur-la por meio               diz: "Esse termo indica negativamente que nem
do esprito dionisaco, domando e sujeitando o              o senso comum nem a cincia elevem ser con-
horrvel, que assim se transforma em sublime                siderados entidades, como  parte, completo e
(o objeto da tragdia), e libertando da averso             circunscrito.(...) Positivamente, indica que de-
a) absurdo, que assim se transforma em cmi-               vem ser marcados pelas caractersticas e pelas
co (o objeto da comdia) (Die Geburl der                    propriedades encontradas em tudo o que se re-
 Tragdie,  7). Mais tarde, Nietzsche achou que            conhece como T.: p. ex., um negcio ou uma
a sada do terrificante da vida estaria na aceita-          T. comercial. Essa '1'. transforma um dos partici-
o da vida graas  vontade de potncia, con-              pantes em comprador e o outro em vendedor:
siderando o T. como aceitao dionisaca do                 no existem compradores e vendedores a no
TRANSCENDNCIA                                        970                                TRANSCENDNCIA

ser em '/'. epor causa da T. em que so empe-               de alcan-lo. Nesse sentido, a T. se manifesta
nhados" (Knowiug and lhe Knoivn, 1949, p.                   s o b forma de   cifrei (v.) nas situaes-limite(\.)
270). Na Itlia, esse termo foi empregado por               e no pode ser caracterizada nem como "divin-
Romagnosi: segundo ele, "do comrcio entre o                dade", sem incidir na superstio. A nica cer-
interior e o exterior" do homem nasce "sobre o              teza que se pode ter em relao  T.  que "o
pano de fundo do eu pensante uma T. que har-                ser . e  assim" (Phil, III, p. 1.34).
moniza as leis do mundo interior com o exte-                    Kntrementes, as correntes realistas da filoso-
rior, para formar um nico mundo e uma nica                fia contempornea atribuam T. s coisas, aos
vicia" ((.'he cos' Ia mente sana? [1827], ed.              objetos do conhecimento em geral ou ao ser de
1936, p. 100, 138).                                         tais objetos. Nesse sentido, Husserl negava que
    TRANSCENDNCIA (in. Trancendence, fr.                   uma coisa pudesse ser dada como imanente
 Transcendance. ai. Transzendez, it. Trascen-               em qualquer percepo ou conscincia, e defi-
denza). l"sse termo foi usado com dois signifi-             nia o ser da coisa como ser transcendente, que
cados diferentes: 1" estado ou condio cio                  mais ou menos sombreado pelas aparies
princpio divino, do ser alm cie tudo, de                  da coisa  conscincia (Ideeti, I,  41). N.
toda experincia humana (enquanto experin-                 Hartmann insistia na T. cio ser em relao ao
cia de coisas) ou do prprio ser; 2" ato de es-             conhecimento, porquanto o ser fica sempre
tabelecer uma relao que exclua a unificao               alm do objeto cognitivo imanente (Melaphysik
ou a identificao dos termos.                              der Erkentitniss, 2a ed., 1925, p. 50). No mes-
    1" No primeiro sentido, esse termo vincula-             mo sentido, a T. era combatida pelas vrias
se  concepo neoplatnica de divindade.                   formas do imanentismo (v.).
Plato j dissera que o Bem, como princpio su-                 2y No segundo significado, T.  o ato de se
premo de tudo o que , comparvel como tal                  estabelecer uma relao, sem que esta signifi-
ao sol que d vida s coisas e as torna visveis,           que unidade ou identidade de seus termos,
est alm da substncia (7tKtvoc xfj ooa.            mas sim garantindo, com a prpria relao, a
Rep., VI, 509 b). A exemplo de Plato, Plotino              sua alteridade. Fsse conceito tambm tem ori-
repete que o I Ino est "alm da substncia"                gem religiosa e neoplatnica. Plotino dizia que
(linn., VI, 8, 1 9). mas acrescenta que ele tam-            a contemplao  "para quem foi alm de
bm est "alm do ser" (TCKEtva vxo, Ihid.,              tudo" (tu TOppvxt ftvia, Hnn., VI. 9. 11).
V, 5, 6) e "alm da mente" (7tKEtva vo, Ihid.,           Num trecho famoso, S. Agostinho dizia: "Se
III, 8, 9), de tal modo que  transcendente                 achares mutvel a tua natureza, transcende-te a
(7tepPef3r)Kc) em relao a todas as coisas,             ti mesmo", e acrescentava: "Lembra-te de que.
mesmo produ/.indo-as e conservando-as no ser                ao te transcenderes a ti mesmo, ests transcen-
(Ihid.. V, 5, 12). Proclo diz: "Alm de todos               dendo uma alma racional e que, portanto, de-
os corpos est a substncia da alma; alm de                ves visar ao ponto do qual provm a luz. da ra-
iodas as almas, a natureza inteligvel: alm de to-         zo" (Devera relig., 39).
das as substncias inteligveis, est o Uno" (Inst.             Esse sentido ativo de T. ficou praticamente
theoi, 20). Kscoto Frigena e outros usaram o                obliterado na filosofia tradicional e s foi reto-
termo supra-ente (\/.) para designar a T. abso-             mado pela filosofia contempornea. Com refe-
luta, graas  qual Deus est alm de todas as              rncia  T. do ser ou da coisa em relao 
determinaes concebveis, at mesmo do ser                 conscincia que a apreende ou ao ato de co-
ou cia substncia. Nem sempre, porm, a T.                 nhecimento que  seu objeto, a prpria cons-
levada ao ponto de situar Deus alm do ser,                 cincia ou o ato de conhecimento foram cha-
transformando-o de algum modo em "nada". A                  mados de transcendentes. Assim, Husserl fala
escolstica clssica, reconhecendo a analogi-               de percepo transcendente, que tem a coisa
cidade do ser, no pe Deus alm do prprio                 por objeto e em relao  qual a coisa  trans-
ser: esta forma de T. , ao contrrio, prpria da           cendente, o que difere da percepo imanente.
teologia negativa ou mstica (v. TKOI.OGIA, 4).             que tem por objeto as experincias conscientes
Fora da teologia, essa espcie de T. foi reco-              que so imanentes  prpria percepo (Ideeu.
nhecida por Jaspers, que a contraps  existn-             I,  42, 46). N. Hartmann baseou o seu realismo
cia: T.  o que est alm da possibilidade de               no conceito de T.: "O conhecimento no  um
existncia,  o ser que nunca se resolve no                 simples ato de conscincia, como o representar
possvel e com o qual a nica relao que o                 e o pensar, mas um ato transcendente. Um ato
homem pode ter consiste na impossibilidade                  desses se liga ao sujeito s por um lado, mas
TRANSCENDNCIA                                                971                                 TRANSCENDENTAL

por outro fica fora; por este ltimo, liga-se ao                       TRANSCENDENTAL (lat. Transceudentalis;
existente, que. graas a ele, se torna objeto. O                    in. Transcendental, fr. Transcendental; ai.
conhecimento  uma relao entre um sujeito                          Transzoidental, it. 7'rascendentale). Com este
e um objeto existente. Nessa relao, o ato trans-                  termo ou com transcendente, comearam a ser
cende a conscincia" (Systernatiscbe Pbiloso-                       denominadas, no fim do sc. XIII, as proprie-
/)bic. 11). No mesmo sentido ele chama de                          dades que todas as coisas tm em comum, que
transcendente a relao cognoscitiva (Ibici,                        por isso excedem ou transcendem as diversi-
 10). No entanto, a mais importante utilizao                     dades de gneros em que as coisas se distri-
do conceito nesse sentido foi a de Heiclegger,                      buem. Esse nome j se encontra em F. Mayron
que definiu como transcendente a relao entre                      (morto em 1325, Formalitates, ed. 1479, f. 22, r.
o homem (I)asein. ser-a) e o mundo. "O ser-                        A), e com certeza Lorenzo Valia (L)ialecticae
a que transcende (eis uma expresso j por si                      dispittationes. I, 1) contribuiu para a sua difu-
tautolgica) no ultrapassa nem um obstculo                        so, mas os transcendentais ou transcendentes
anteposto ao sujeito de tal modo que o obrigue                      j haviam sido definidos por S. Toms como as
a permanecer em si mesmo (imanncia). nem                           propriedades "que se acrescentam ao ente e
uni fosso que o separaria do objeto. Por stia                       que expressam um de seus modos que no 
vez, os objetos (entes que lhe esto presentes)                     expresso pelo nome do ente"; e enumerava
no so aquilo em cuja direo ocorre a ultra-                      seis delas: eus, res. itnum, aliqnid, boimni.
passagem. O que  ultrapassado 6 unicamente                         rentin(De rer, q. 1, a. 1), lista esta que se tor-
o ente, ou seja. qualquer ente que possa ser re-                    nou a mais difundida e acreditada entre todas.
velado ou revelar-se ao ser-a, portanto o ente                        Fsse conceito de T.. com alguma mudana
que o ser-a . enquanto, existindo, 6 ele mes-                     ocasional na lista dos termos, foi repetido in-
m o " (]'<)/   \\"esen des Cirandes,   1 9 2 9 . II).   Hm         meras vezes depois disso (CAMPANTU.A. Dialec-
outros termos, 6 pelo ato de T. que o homem,                        tica, 1, -4; G. BRINO. Dela causa, IV; F. BACON,
como ente no mundo, se distingue dos outros                         De ai/gm. scient.. III, I; JrNGirs, Lgica bam-
entes ou objetos e se reconhece como "ele                           burgeusis. I, 1, 45: SPINOZA, lit.. II, 40, esclio 1;
mesmo". Heidegger, portanto, considera a T.                         BKKKKI.KY. Principie of Hitmau Knowledge, 
como o significado do ser no mundo. "Quem                           118; WOI.I-T, O///., 495. 503; BAI'MGARTI:\. Mel..
ultrapassa e. portanto, vai alm, deve como tal                      7 2. 89; HAMILTON, I.ectures ou Logic, I. p.
sentir-se situado no ente. O ser-a. na medida                      198). A essa tradio junta-se o uso kantiano
em que se sente como tal. est includo no ente                     do termo. Kant diz: "F.sses supostos predi-
de tal modo que. reabarcado nele,  por ele                         cados T. das coisas nada mais so que exign-
conciliado consigo mesmo. A T.  um tal pro-                        cias lgicas e critrios para qualquer conheci-
jeto do mundo que quem projeta  dominado                           mento das coisas em geral e repousam nas
pelo ente que transcende e est j de acordo                        categorias de quantidade (unidade, pluralidade
com ele. Com esse ser includo do ser-a, ligado                    e totalidade). Mas essas categorias, que deve-
com a T., o ser-a ganhou base no ente. obteve                      riam ser assumidas no significado material co-
o seu fundamento" (Ibid.. III). So caracters-                     mo pertencentes  possibilidade das coisas, na
ticas de Heidegger essa reincidncia e esse acha-                   verdade eram usadas pelos antigos s com va-
tamento da *!'. nos objetos transcendidos, do                       lor formal, como constituintes da exigncia
projeto nas suas condies de partida, do pos-                      lgica para qualquer conhecimento; todavia,
svel no eletivo, do iuturo no passado. Hei-                        transformavam inadvertidamente esses critrios
degger chama de decadncia ou Jacticidade                           do pensamento em propriedade das coisas em
(v.) essa reincidncia ou achatamento. Foi                          si mesmas" (Crt. R. Pura, Analtica.  12). Fm
o que fez Sartre. que expressa o mesmo con-                         outros termos, Kant considera que o antigo
ceito de T. afirmando que a conscincia (opa-                       conceito de T. peca por dois motivos: 1" por-
ra-si), ao transcender para o ser (o em-si),                        que considera o T. simples conceito lgico-for-
est apenas se anulando para revelar e afirmar,                     mal; 2" porque considera esse conceito formal
atravs de si, o prprio ser (l.'lre et le nant,                  como propriedade das coisas em si. Ao contr-
II. cap. III, espec. pp. 268-69). Para uma inter-                   rio, o conceito kantiano de T. consiste em: 1"
pretao da T. que fuja ao achatamento ou                          considerar o T. como condio da possibilida-
nadificao, cf. AISBAONANO, Stnittura dellesis-                    de da coisa, ou seja. como conceito apriori ou
tenza, 1939,  18; ID., Introduzione alle-sistenzia-                categoria; 2" considerar a coisa, cuja condio 
lismo. I, 6; etc.                                                   o T.. como fenmeno, e no como "coisa em
TRANSCENDENTAL                                                                TRANSCENDENTALISMO

si". Contudo, para Kant, o T. no se identifica         esse termo no mesmo sentido; para ele, no
com as condies a prior do conhecimento               saber T., "o ato do saber chega a absorver o
humano e dos seus objetos (que so os fen-             objeto como tal", de tal modo que  "um saber
menos), mas  considerado o conhecimento                do saber, porquanto puramente subjetivo"
(ou a cincia, se existe uma cincia) dessas            (System des transzendeiitaleii Idealismus. 1800.
condies apriori. Kant diz: "No chamo de T.           Intt'.,  2). Schopenhauer atribui o mesmo senti-
o conhecimento que cuida dos objetos, mas o             do idealista: T.  "o conhecimento que determi-
que cuida do nosso modo de conhecer os obje-            na e estabelece, antes de qualquer experin-
tos, e que seja possvel apriori" (Ibid., Intr..        cia, tudo o que  possvel na experincia" ( Uber
VII). E esclarece: "No se deve chamar de T.            c/ie iierfacbe WurzeldesSatzes i<om zureichen-
qualquer conhecimento apriori. mas apenas o             deii Gninde.  20).
conhecimento que possibilite saber que repre-               Como resultado destas determinaes, o
sentaes (intuies ou conceito) so aplicadas         coriceito do T. foi-se fixando na filosofia con-
ou so possveis exclusivamente apriori a co-           tempornea como aquilo que pertence ao su-
mo isso se d. Vale dizer:  T. o conhecimen-           jeito ou  conscincia como condio do objeto
to da possibilidade do conhecimento ou do               c d'J. prprio, realkkick;. Portanto, qualifcou-tc
 uso dele apriori" (Ibid., Lgica, Intr,, II; v.        de T. qualquer atividade ou elemento da cons-
 Prol..  13. obs. III). Desse ponto de vista, T.       cincia de que dependa a afirmao ou a posi-
no  "o que est alm da experincia", mas
                                                        o da realidade objetiva. Assim, expresses
sim "o que antecede a experincia (apriori)
mesmo no se destinando a outra coisa seno a           coiiio "ponto de vista T." ou "conhecimento T."
possibilitar o simples conhecimento emprico"           eqiiivalem  expresso de Schelling "idealismo
(Prol.. Apndice, nota [A 204]). No entanto,           'IV. ou seja, doutrina que mostra qtie na cons-
preciso observar que KANT no se atem rigo-             cincia subjetiva esto as condies da realida-
rosamente a esse significado do termo e                 de. Este conceito de T. persistiu tanto nas esco-
que, muitas vezes, chamou de T. o que  in-             las cie inspirao kantiana mais estrita quanto
dependente da experincia ou de princpios              nas escolas idealistas. Gentile chamava de "Eu
empricos (cf., p. ex., Crt. R. Pura. O ideal          1'." o eu absoluto ou universal, que cria a reali-
da razo pura, se. 5, Descoberta e ilus-               dade pensando ( Teoria generale dello spirito,
trao cia aparncia dialtica). De qualquer for-        1920, I  5). Mantm-se o sentido idealista tam-
ma, com base no significado explicitamente              biii em Husserl, que qualifica de T. a expe-
aceito por Kant, podem ser chamados de T.               riiicia fenomenolgica ou a reflexo que a
apenas os conhecimentos que tm por objetos             ocasiona. "Na reflexo fenomenolgica 'I'., sa-
elementos a priori. e no estes mesmos ele-             mos cio terreno emprico praticando a epoch
mentos. Portanto, so T. a esttica, a lgica e as      universal quanto  existncia ou  no-existn-
suas partes, mas no o so as intuies puras,          cia do mundo. Pode-se dizer que a experincia
as categorias ou as idias. Mas mesmo este uso          cio mundo assim modificada, a experincia T.
no  rigoroso, pois Kant chama de T. as idias         consiste no seguinte: examinamos o cogito trans-
e de unidade T. o eu penso (Ibid..  16).               cendentalmente reduzido e o descrevemos
                                                        seii efetuar alm disso a posio de existncia
   Esse termo foi retomado por Fichte para              natural implcita na percepo espontnea"
designar a teoria da cincia, pois mostra que           (Cirt. Med.,  15). Para Heidegger, porm. T.
todos os elementos do conhecimento esto no             teni sentido objetivo porque indica "qualquer
Eu, ou seja, na conscincia: "Essa cincia no          manifestao do ser no seu ser transcendente"
 trancendente, mas continua T. em sua pro-             (Sein undZet,  7 C).
fundidade.  verdade que ela explica a cons-
cincia com alguma coisa que existe indepen-               TRANSCENDENTALISMO (in. Transcenden-
dentemente da conscincia, mas mesmo nessa              talism, fr. Transcendentalisme-, ai. Transzenden-
explicao no se esquece de conformar-se s            talismns; it. Trascendentalismo). Teoria do idea-
suas prprias leis; e assim que reflete sobre ela,      lisiio transcendental, vale dizer, do idealismo
o termo independente torna-se novamente                 roiintico. O nome foi introduzido nos pases
produto da faculdade de pensar, portanto algo           anglo-saxes, especialmente nos Estados Uni-
dependente do PAI, porque deve existir para o           do?, por Emerson (v. O. B. FRONTHINGHAM,
Eu, no conceito do Eu". (Wissenschaftslehre,            Trcinscendentalism in New F.ngland, 1876; no-
 1794,  5, II; trad. it., p. 231). Shelling entendia   va ed., 1959).
TRANSCENDENTE                                           973                                 TRANSFORMAO

    TRANSCENDENTE (lat. Transcendeu*, in.                     percepo das coisas em oposio  percepo
 Transcendent; fr. Transcendant; ai. Transzeu-                que a conscincia tem de si mesma (que  per-
dent: it. Trascendente). Este termo tem dois                  cepo imanente) Udeen, 1,  46). No mesmo
significados fundamentais, correspondentes aos                sentido, Hartmann chama de ato T. o conheci-
dois significados de transcendncia (v.): 1" o                m e n t o (Systematsche Philosophie,  II). Heideg-
que est alm de determinado limite, tomado                   gt;r define como T. "o que atualiza a ultrapas-
como medida ou como ponto de referncia; 2-                   sagem, o que se mantm na ultrapassarem"
operao de transposio.                                     (\'om Wesen desGntndes, II; trad. it., p. 29) (v.
    1" No primeiro significado, essa palavra                  TRANSCENDNCIA).
assume valores muito diferentes, segundo o                       TRANSCENDENTISMO. Termo que s se
que se considere limite ou medida. As proprie-                ericontra no italiano, s vezes usado para de-
dades transcendentais (v.) eram chamadas as-                  signar as doutrinas que admitem a transcendncia
sim por serem T. em relao aos gneros, dos                  dc> ser divino.
quais eram consideradas independentes. Fala-                     TRANSCRIAO (in. Transcreation; fr.
se de 'perfeio T." como perfeio que supera                lYanscraton; it. Transcreazione). Termo usa-
todos os graus alcanveis. Mais freqentemen-                dc> por Leibniz para indicar a ao com que
te, esse termo  usado em filosofia para indi-                Deus d razo  alma sensvel ou animal.
car o que ultrapassa os limites de alguma fa-                 Leibniz prefere esta  hiptese segundo a qual
culdade humana ou de todas as faculdades e                    a alma animal se eleva  razo por meios pura-
do prprio homem. Assim, Bocio afirmava                      mente naturais (Thod., I,  91 )
que "A razo transcende a imaginao porque                       TRANSEUNTE (in. Transeuntjr. Transeunl;
apreende a espcie universal que est ligada s               ai. Transeunt;. Transeunte). 1. O mesmo que
coisas singulares" (Phil. cons., V, 4). S. Toms              transitiro (v.).
afirmava que a teologia 'transcende todas as                      2. Mutvel, passageiro.
outras cincias tanto especulativas quanto pr-                  TRANSFERENCIA. V. PSICANLISE
ticas" porque  mais certa que elas e por tratar                  TRANSFINITO (in. Transfinite, fr. Transfh
de coisas "que, pela elevao, transcendem a                  ni; ai. Transfht; it. 1'ransfnito). Kxpresso usa-
razo" (,V. lh., I, q. 1. a. 5). Ao tratar da identi-         d;i por G. Cantor para indicar os nmeros
dade do mnimo absoluto e do mximo abso-                     qvie esto alm dos nmeros finitos. P. ex., se for
luto em Deus, Nicolau de Gusa diz que "isso                   T., o nmero ordinal da classe que compreen-
transcende o nosso intelecto, que no pode                    de todos os nmeros ordinais finitos, em sua
combinar racionalmente as coisas que so con-                 ordem natural (0, 1, 2, ...), ser denotado por
traditrias em seu princpio" (Dedocta ignor,                 um mega minsculo (G. CANTOR, Contribu-
1, 4).                                                        tion to the Founding of the Theory of Trans-
    Foi mais precisamente a partir de Kant que                finite Numbers, trad. in., 1915) (v. INFINITO).
T. passou a designar a noo que excede os li-                Conseqentemente, por "induo transfinita"
mites da experincia possvel. Portanto, segun-               entende-se a extenso da induo matemtica
do Kant, so T. as idias da razo pura: "Cha-                (v) a uma classe de nmeros ordinais arbitr-
maremos de imanentes os princpios cuja                       rios de maneira semelhante ao modo como a
aplicao se mantm em tudo e por tudo nos                    induo  aplicada a uma classe bem ordenada
limites da experincia possvel, e de T. os que               de nmeros mega.
devem ultrapassar esses limites" (Crt. K. Pura,                 TRANSFORMAO (in. Transformation; fr.
Dialtica, Intr., I; cf. Prol,  40).  diferente dos         TYansformation; ai. Umformung, Transforma-
princpios T. o uso transcendental dos princ-                tion. it. Trs for mazione). Dewey viu na T. a
pios imanentes, que se vale de princpios cog-                categoria fundamental do raciocnio matemti-
nitivos legtimos, mas sem levar muito em con-                co. "A T. dos contedos conceituais, segundo
ta os limites da experincia (Ibd., Dialtica,               regras metdicas que satisfaam determinadas
Intr., I; cf. Prol,  40).                                    condies lgicas, est implcita tanto na con-
    2- Nos significados anteriores, a palavra T.              duta do raciocnio quanto na formao dos
designa o que est alm cie certo limite. Na filo-            conceitos que fazem parte dele". Pode-se
sofia contempornea,  muitas vezes usada                     enunciar o princpio lgico da T. da seguinte
para designar uma atividade ou uma operao                   maneira: 1<J o contedo do raciocnio consiste
correspondente ao 2L> significado de transcen-                em possibilidades: 2" enquanto possibilidade,
dncia. Nesse sentido, segundo Husserl,  T. a                ele exige a formulao em smbolos (Logic, XX,
TRANSFORMISMO                                              9~74                                           TRIADICO

1: trad. it.. p. 516). Costuma-se chamar de re-                   para indicar a parte da realidade que fica alm
gras de T. as regras da inferiicia dos sistemas                  cios limites do conhecido, portanto alm cio ob-
logsticos ou das linguagens formais (v. SISTE-                   jeto de conhecimento (Metaphysik der Hrkennl-
                                                                         a
MA LOGSTICO).                                                    HS. 2 ed., 1925, p. 50).
    TRANSFORMISMO (in. Tmnsformism, fr.                               TRANSPARNCIA (ai. Durchsichtigkel). As-
Transformsmc-. ai. Trunsfonn isivus-, it. Trasfor-               sim Heidegger chamou a intuio que o ser-a
mismo). Com esse termo indica-se o evolu-                         tem de si mesmo: "Existindo, o ser-a tem a vi-
cionismo biolgico, que admite a transforma-                      so de si s  medida que se faz, de modo
o de uma espcie viva em outra (v. EVO-                         originrio, transparente em seu ser no mundo
LUO).                                                           e em seu ser com os outros momentos constitu-
    TRANSrnVIDADEn. Traiisitirity.fr. Tmn-                       tivos da sua existncia" (Sein undZeit,  31)-
sitirit. ai. Transitiritat-, it. Transitirit). Carter              TRANSPATIAin. Trauspathy). Termo usa-
cie uma relao que. se ocorrer entre x e y e                     do por escritores ingleses para indicar o cont-
entre ve z, tambm ocorre entre .Te z. Esse ca-                   gio emotivo ou a fuso emotiva, que difere da
rter  prprio cias relaes de identidade ou                    simpatia   (v.).
de igualdade como tambm das relaes tne-                            TRANSPOSIO (in. Transposition; fr.
>i(; precede,  esquerda de, etc. (v. B. RKSSKLI..               Transposition: ai. Tnuispositiou; it. Trasposizio-
Introducliaii to Matbemalical Philosopby. cap.                    )ie).  assim chamado o teorema do clculo
IV; trad. it., p. 44).                                            proposicional, segundo o qual de "se p. ento
    No clculo proposicional, as leis de '/'. da                  /" pode-se inferir "no q. ento no p".
implicao material v da equivalncia mate-                           TRANSRACIONALISMO (in. Transratio-
rial so as seguintes: "Se p implica q e q im-                    nalisni; fr. Trausrationalsine. ai. Transrationa-
plica r, ento p implica r (isto : [pz>ql                        lismus; it. Tnuisrazioiialismo). Termo usado por
iq Z3 r| => [p 3 r|). Se /;  equivalente a q e q                A. Cournot para indicar a disposio natural do
equivalente a /; ento pi- ec|uivalente a r  s t o               homem a crer no sobrenatural, no misterioso
: |p = ()] Iq = r](lp = r|)(v. A. CiKKCH, hilroduc-              ou, em geral, no que est alm da razo (Mci-
tion to Malhematical Logic, I,  48 etc).                         trialisme. ritalisme. ratioiialisme, 1875, p. 385).
   TRANSMIGRAO. V. MKTKMPSICONK.                                    TRANSUBJETIVO (in. Transubjectire- ai.
    TRANSMUTAO DE VALORES (fr Trans-                            Trcnissubjektir: it. Trausoggettivo). O mesmo
mutalion des raleurs; ai. Ihiuvertiuig aller Wer-                 que Transcendente (v).
le\ it. Trasmutazione dei ralori). Frase famosa                       TRANSUBSTANCIAO (lat. Transuslan-
com que Niet/sche resumiu a finalidade cie sua                    tiatio; in. TransHbstantiathm, fr. Transubstcw-
filosofia: "Inverso de todos os valores, eis mi-                 tiation; it. Transiistanziazione). Interpretao
nha frmula para um ato de supremo reconhe-                       do sacramento do altar, segundo a qual a subs-
cimento de si mesma por parte da humanida-                        tncia do po e do vinho se transforma na
de, ato que em mim tornou-se carne e gnio.                       substncia do corpo ou do sangue de Cristo e,
Meu destino exige qtie eu seja o primeiro ho-                     portanto, seus acidentes ficam sem substncia.
mem honesto, que me sinta em oposio s                          Essa  a interpretao de S. Toms (.V. Th., III,
mentiras cie vrios milnios" (Hcce bomo,  4).                   cj. 77. a. 1), que foi aceita pelo Concilio de
A inverso de valores consiste em substituir a                    Trento. A interpretao alternativa, aceita pela
tbua tradicional de valores, que se baseia na                    Reforma,  a da co>isnbstanciao (v.).
renncia  vida, pelos novos valores oriundos                         TRIADICO (in. Triadic, fr. Triadique-, ai.
da aceitao entusistica (dionisaca) da vida,                   Tradisch; it. Triadico). A diviso T. gozou fre-
mesmo em seus aspectos mais cruis (Ge-                           qentemente de certo privilgio em filosofia.
nealogie der Moral, I,  10; Die froeliche                        Sem falar da perfeio que os antigos pitag-
Wissenscbafte,  344 etc.) (v. VALOR).                            ricos atribuam ao nmero trs, Plotino reco-
   TRANSNATURALdr. Transmitnn4.it. Traus-                         nheceu trs fases da emanao, portanto trs
nalitrale). Termo proposto por M. Blondel pa-                     hipstases da divindade, o Uno, o Logos e a
ra indicar a situao do homem, que est posto                    Alma (F.nn., II, 9, 1). Mas foi principalmente
entre a natureza e a supranatureza e durante a                    Proclo quem privilegiou o procedimento T..
vida mortal est destinado a preparar-se para                     discernindo trs fases em todo e qualquer pro-
a vida eterna (llistoire et dogme. 1904, p. 68).                  cesso (ou emanao): l 3 aquilo que procede
   TRANSOBJETIVO (ai. Transobjektiv, it.                          permanece semelhante a si mesmo; 2- diferen-
Transobbiettivo). Termo usado por N. Hartmann                     cia-se de si mesmo; 3a retorna para si mesmo
TRIADISMO                                            975                                          TRINDADE

(Inst. theol, 31). Sobre essas trs fases da ema-          Pode-se dizer que o tringulo pode ser retn-
nao Hegel moldou suas trs ases da sua                  gulo ou obliqungulo, poclendo-se ainda divi-
dialtica, que consistem respectivamente: Ia na            dir o tringulo obliqungulo em obtusngulo e
identidade de um conceito consigo mesmo; 2a                acutngulo (v. JKNGUS, Lgica hamburgenss,
na contradio ou na alienao do conceito em               1638. IV, 7, 13).
relao a si mesmo; 3a na conciliao e na uni-                TRILEMA (in. Trilemnia-, fr. Trilemme-, ai.
dade das duas primeiras fases (v. Ene.  79-               Trilemma-, it. Trilemnia). Os lgicos do sc.
82). Segundo essa diviso T., Hegel interpretou            XIX deram esse nome ao esquema de infern-
tanto a lgica quanto a natureza e o esprito              cia que tenha como premissa maior uma
( Wissenschaft der Logik, ed. Glockner, II. pp.            tricotomia, em vez da dicotomia do dilema
340 ss.). Hmbora Hegel atribua a Kant o mrito             (v.): "Cada coisa  ou Fou Q ou M\ 5 no 
dessa triadiddade dos processos racionais e --             nem A/nem Q; logo, S P". No mesmo senti-
portanto -- de toda a realidade (Ibid., p. 3^4),           do, fala-se de tetralema ou de polilema, mas
a justificao de Kant para o fato de suas "divi-          trata-se de esquemas de inferncia pouqussimo
ses em filosofia pura serem quase sempre T."              aplicados.
 completamente diferente e provm da lgica.                  TRINDADE (in. Trinity, fr. Triuit; ai.
Kant disse: "Se for necessrio fazer uma divi-             Dreifaltgkeit; it. Trinil). Um dos dogmas fun-
so apriori, esta poder ser: analtica, segundo           damentais do cristianismo, que afirma a unida-
o princpio de contradio, e ento ser feita             de da substncia divina na T. das pessoas. A fr-
sempre em duas partes (quodlibet ensest aiitA              mula desse dogma foi fixada pelo Concilio de
aut mm A); ou sinttica, e nesse caso dever               Nicia em 325, e em sua formulao desempe-
derivar de conceitos apriorii...) e conter (l y )         nharam papis importantes a obra do bispo Ata-
a condio, (2y) um condicionado e (3Q) o con-             nsio e a polmica contra a doutrina de rio,
ceito que nasce da unio da condio com o                 que. tendia a acentuar a subordinao do Filho
condicionado, acabando assim por ser necessa-              em relao ao Pai e praticamente ignorava a ter-
riamente uma tricotomia" (Cr/7. do Juzo. Intr..           ceira pessoa da Trindade. A explicao clssica
Nota final).                                               desse dogma [assim como do dogma da en-
    TRIADISMO (in. Triadism. fr. Triadisme.                 ccimaoiv.)] foi dada por S. Toms, por meio
ai. Tnalismus. it. Triadismoou Trialismo). Dou-            do conceito da relao. A relao, por um lado,
trina de origem estica que considera o ho-                constitui as pessoas divinas na sua distino e.
mem formado por trs princpios: alma. coipo               por outro, identifica-se com a mesma e nica es-
e pneuma ou esprito;  repetida nas epstolas             sncia divina. As pessoas divinas so constitu-
de S. Paulo (v. PNKUMA).                                   das por suas relaes de origem: o Pai, pela pa-
    TRIBUNAL (in. Tribunal; fr. Tribunal, ai.              ternidade (ou seja, pela relao com o Filho); o
Gerichtshof, it. Tribunale). Esse termo foi usado          Filho, pela filiao ou gerao (ou seja, pela re-
por Kant para definir a finalidade da filosofia            lao com o Pai); o Esprito, pelo amor (ou seja,
crtica: "A crtica da razo pura pode ser consi-          pela relao recproca de Pai e Filho). Essas re-
derada o verdadeiro T. para todas as suas contro-          laes em Deus no so acidentais (nada existe
vrsias, porque esta no se imiscui nas con-               de acidental em Deus) mas reais; subsistem
trovrsias que se referem imediatamente aos                realmente na substncia divina. Portanto, a subs-
objetos, mas  instituda para determinar e                tncia divina em sua unidade, ao implicar as re-
para julgar os direitos da razo em geral, se-             laes, implica as diferenas das pessoas (S. Th..
gundo os princpios da sua primeira instituio"           I, q. 27-32 e esp. q. 29, a. 4). Esta interpretao
(Crt. R. Pura, Doutr. do mt., cap. I, se. 2).           basta, segundo S. Toms, para mostrar que "o
                                                           que a f revela no  impossvel". Do ponto de
    TRICOTOMIA (in. Tricbotomy, fr. Tricho-                vista lgico, implica uma doutrina historicamen-
tomie-, ai. Trichotomie. it. Tricotomia). Diviso          te importante sobre a natureza das relaes (v.
em trs partes, elementos ou classes. Esse ter-            RKLAO).
mo  usado quase exclusivamente para a dou-
trina da trplice composio da alma, que se                  No ltimo perodo da escolstica, porm, o
chama tambm triadismo.                                    dogma da T. recebeu duas interpretaes: foi
    A teoria lgica cia T. foi elaborada no sc.           considerado "verdade prtica", por Duns Scot
XVII, com a advertncia de que  preciso redu-             (Op. O.x.. Prol. q. 4, n" 31), ou algo que est alm
zir a T.  dicotomia sempre que dois membros               de qualquer possibilidade de entendimento,
da dicotomia tenham uma noo em comum.                    como fez Ockham (In Sent., I. d. 30, q. 1 H).
TRINITARISMO                                          976                                      TUTIORISMO


    O dogma da T. tambm foi aceito pelas igre-             a diferena entre os animais, que estabelece
jas protestantes, com exceo da tendncia re-              uma diferena entre suas representaes; 2- a
presentada pelo socinicwismu (v.), que reto-                diferena entre os homens, pelo mesmo moti-
mou as doutrinas cie tipo ariano, comuns nos                vo; 3a a diferena entre as sensaes; 4" a dife-
primeiros sculos cio cristianismo. Essas doutri-           rena entre as circunstncias, que tambm in-
nas toram retomadas pelos chamados unit-                   fluem na diversidade das opinies; 5" a di-
rios, que constituram um movimento religioso               ferena das posies e dos intervalos; 6" a
difundido principalmente na Inglaterra e na                 diferena das misturas; 7" a diferena entre os
Amrica do Norte a partir da segunda metade                 objetos simples e o.s objetos compostos; 8<J a
do sc. XVI11 (v. UMTARISMO).                               diferena entre as relaes, visto que as opi-
   TRINITARISMO (in. Thnitarianism; fr.                     nies mudam segundo as relaes das coisas
Triuit, it. Triiiilarismo). Doutrina oficial da            com o sujeito judicante: 9U a diferena entre a
Igreja crista sobre a natureza de Deus como                 freqncia ou a raridade dos encontros entre o
uma nica substticia em trs pessoas iguais e              sujeito judicante e as coisas; 10" a diferena cia
distintas (v. TKINIMDK).                                    educao, dos costumes, das leis. etc. (Pin: byp.,
   TRITESMO (in. Tritheism, fr. Trithisme,                I. 36-163).
ai. Tritheism us: it. Triteismo). Com este termo                Por sua vez, Agripa acrescentava outros cin-
designa-se comumente a heresia trinitria que               co tropos, como objees contra a possibilida-
consiste em admitir trs substncias divinas                de de atingir a verdade: 1'-' a discordncia das
relativamente independentes. Essa heresia foi               opinies; 2a o processo ao infinito em que se
sustentada no sc. V por Joo Filopono e no                 incide quando se quer aduzir uma prova, j
sc. XI por Roscelin. que, segundo relato de S.             que esta prova precisa de outra, e esta outra de
Anselmo, afirmava que "as trs pessoas da trin-             uma mais uma, e assim por diante; 5" a relao
dade so trs realidades, como trs anjos e trs            entre o sujeito e o objeto, que leva  variao
almas, embora sejam absolutamente idnticas                 da aparncia cio objeto; 4 a hiptese, que  o
em vontade e potncia" (De fide Irinitatis, 3).             recurso a uma assuno sem demonstrao,
Gilbert cie Ia Porre tambm se inclinava ao T..            portanto insustentvel; S" o dialeto, ou crculo
chamando de deidadeii nica essncia divina,                vicioso, quando se assume como princpio de
da qual participariam as trs pessoas diferentes;           prova exatamente o que se deve provar (SEXTO
 provvel que Gioacchino Da Fiore (sc. XII)               EMPRICO. Pirr. byp., I, 164-69).
adotasse esse ponto de vista. Trata-se cie uma                  Finalmente, Sexto Emprico enuncia outros
doutrina constantemente condenada pela Igreja.              dois tropos, que so argumentos segundo os
   TRVTO. V. CULTURA, I.                                   quais no se pode compreender uma coisa
    TROPOS (gr. xp7ioi; lat. '1'rapes; fr. Tropes;         nem com base em si mesma nem com base em
ai. Trupeii; it. Tropi). Assim eram chamados os             outra coisa (Pirr. hyp., I, 178-79).
modos ou os caminhos indicados pelos cp-                       TRUSMOUn. TntismAx. Tmisme-, it. Truis-
ticos para chegar  suspenso do assentimen-                nio)- Uma verdade evidente mas bvia, por-
to. Estes T. consistem na enunciao das situa-             tanto pouco importante ou pouco til. Tanto o
es das quais resultem oposio de opinies                termo quanto a noo so prprios da lngua
ou mesmo contradies. Enesidemo de Cnossos                 inglesa.
enumerava dez deles, que so os seguintes: ly                  TUTIORISMO. V. PROHABIIJSMO.
                                                    u
    U. Na lgica tradicional, smbolo da proposi-         1'utopiedans Vhistoire, 1876), em que o autor
o inodal que consiste na negao cio modo e na          se prope reconstruir "a histria apcrifa do
negao da proposio: p. ex., "no  possvel            desenvolvimento da civilizao europia, co-
que no/r' (v. ARNAWLD. Lug., II, 8) (v. PURPIJRKA).      mo poderia ter sido, mas no ioi". A finalidade
    UBI. Com esse advrbio latino (onde) Duns             do romance  mostrar a ausncia da necessida-
Scot indicou a determinao qualitativa que o             de em histria (v. HISTRIA).
corpo em movimento adquire a cada instante                    LTIMO (gr. T EO%axov; in Ultimato-, fr.
do seu movimento. O U. no  o lugar(\\) por-             Ultime-, ai. Letzt; it. Ultimo). Um dos dois extre-
que o lugar de um corpo no  um atributo                 mos de uma srie, mais precisamente aquele
dele, mas est nos corpos que o cercam;  seme-           em que a srie acaba. Como  possvel consi-
lhante ao calor, que  adquirido pelo corpo que           derar que uma mesma srie termine em um
se aquece {QuodL, q. II a. 1). Essa noo foi             dos extremos no que se refere a determinados
criticada por Pedro Aurolo (In Sent. I, d. 17, a. 4),    objetivos (ou pontos de vista) ou no outro ex-
por Ockham (In Sent., II, q. 9 c) e por Gre-              tremo no que se refere a outros objetivos (ou
grio de Rimini (In Sent., II, d. 6, q. I, a. 2), que     pontos de vista), a palavra II. muitas vezes 
reduziram o movimento do corpo que se move.               ambivalente, e as mesmas coisas so declara-
Tambm  lembrada, com desprezo, por Locke                das U. e primeiras. E o que acontece com fre-
(Ensaio, II, 23, 21).                                     qncia na terminologia aristotlica: nela, o
                                                          motor imvel  qualificado de l). por ser o
   UBICAO. V. LfCAR.
                                                          primeiro cia srie dos movimentos (Ffs., VIII, 2,
    UBIQIDADE (lat. Ubiquitas; in. Ubquity,             2^4 b 4); no entanto,  chamada de II., tam-
ir. Ubiquit, ai. Allgegonuwt; it. Ubicjitit). O mo-     bm, a espcie mais prxima do indivduo
do de ser no espao que os escolsticos do sc.           (Met., III, 3. 998 b 15). Aristteles tambm cha-
XIV chamavam de definitvo(definitvus); con-             ma cie V. um sujeito como a gua ou o ar (/te/.,
siste em estar tudo em todo o espao, e tudo em           V, 6. 1016 a 23), mas qualifica a substncia de
qualquer parte do espao. Esse modo de ser era            U. substrato (Ibid., V, 8, 1017 b 24) e considera
distinguido do chamado circtinscritii>o( circums-         o princpio de contradio "uma opinio l!."'
criptivus), que consiste em estar tudo em todo            (Ibid., IV, 3, 1005 b 33). Tambm chama de U.
o espao (ocupado) e parte em cada parte dele             o fim (Ibid.. V, 16, 1021 b 25).
(v., para esta distino, OCKHAM, In Sent.. IV, q.
4; Qitocll., VII, q. 19; Decoip. Christi, 6). O concei-      Todos estes usos, ou outros bastante seme-
to de existncia espacial definitiva servia para          lhantes a estes, permaneceram na tradio filo-
entender a presena do corpo de Cristo no po             sfica. Na Idade Mdia a bem-aventurana foi
e a onipresena de Deus no mundo. Quanto a esta           chamada de "fim {'.", porquanto  o fim alm
ltima, Leibniz (lembrando os dois primeiros              do qual no se pode prosseguir (cf. S. TOMS,
modos, que chama de uhicts). fala de uma                 S. Tb., II, I. q. 1, a. 4). Hoje se fala de "proble-
ubiel repletiva (Nonv. ess.. II, 23, 21).                mas V." ou de "razes l'." no mesmo sentido
                                                          em que se poderia falar de problemas primei-
  UCRONIA(fr. Ucbronie). F. o ttulo de um                ros ou mximos e de razes primeiras: isso
romance de Charles Renouvier (Ucbronie,                   demonstra ainda uma vez que o termo pertence
UM, UNO                                                                                               UNIO

principalmente  retrica cio discurso filosfico      dida por quem a denomina, mas apenas por
e tem pouco valor conceituai (v. ExTRHMO).             quem a contempla" (Ihid, V, 5, 6). Essas es-
    UM, UNO (gr. e: lat. ['nus-, in. Une, fr. Uii:   peculaes sobre o U. foram freqentemente
ai. iiii; it. f/zo). 1. O elemento de um conjunto     retomadas pela teologia negativa e pelo pan-
ou de uma classe qualquer, como quando se              tesmo. Em Plotino e nos outros, so acompa-
diz "O homem  um animal". Nesse aspecto,              nhadas pela exaltao da funo da unidade
diz-se que uma relao  de muitos para l '., se      em todo o domnio do conhecer e do ser (v.
para cada .velo seu campo houver um s vque            UNIDADE-:). Foi o que aconteceu nas especula-
tenha relao com x. Fala-se que a relao 6 de         es platnicas do Renascimento e tambm no
l'.para muitos se para cada v dominante inver-          Romantismo, que assumiu o Uno-Todo como
so do seu campo houver um nico .v que te-              princpio do mundo coincidente com o prprio
nha relao com y. Afirma-se finalmente que a           mundo, o que se v de modo mais explcito na
relao 6 cie V. fiara ['. se ela e o seu inverso       filosofia da natureza cie Schelling ( Werke, I. 111,
forem de um para muitos e de muitos para um.            p. 276). Hegel, por sua vez, que via concreo
Nesse caso fala-se tambm de uma correspon-             na unidade (v.). via na V. abstrao ou ime-
dncia de U. para 1T. (A. CIURCH. Introduction          diao e insistia na relao do II. com muitos.
to Malbcmatical I.ogic, pp. 556, 564).                  ilustrando-a cie modo fantasioso, com o uso
    2. O que 6 nico, como quando se diz "Deus          das noes, arbitrariamente, manipuladas, de
 U." (v. NICO).                                       atarraco e repulso (Wissenschaft der I.ogik, I,
   3. A unidade no sentido prprio cio termo            I, se. 1, cap. III. R; trad. it.. pp. 181 ss.). O con-
(v. UNIDADE-:).                                         ceito de U. nesse sentido  usado com freqn-
     4. O nmero U., ou seja, o primeiro termo          cia tanto pelas doutrinas testas quanto pelas
da srie natural dos nmeros ou, em geral, o            pantestas. Entre os que o utilizaram de modo
primeiro termo de uma srie qualquer.                   mais amplo e rigoroso, deve-se lembrar Piero
     5. O U. hiposttico ou teolgico: Deus ou o        Martinetti (La liberta, 1928, p. 490; Ragione e
Bem como primeiro termo do processo de                 fede, 19^2, 402), embora na especulao de
emanao e ltimo termo cio processo do re-             Martinetti se sinta o efeito da separao radical
torno. Nesse sentido Herclito dizia "de todas          entre Deus, como U. absoluto, e realidade em-
as coisas o U., e do U. todas as coisas" (Fr. 10        prica e multplice. em que insistira Africano
DII-LS; cf. FMPKDOCI.ES, Fr. 17. D. Mas foram           Spir (Deukeu uncl Wirklicbkeit, 1873).
principalmente os neoplatnicos que usaram                  UNHEIMLICH (Heidegger). Desambienta-
esse termo para designar a divindade ou o               do, estranho. Segundo Heidegger, esse senti-
bem. que  transcendente em relao ao ser e            mento  um cios aspectos da angstia (v.). Sen-
 inteligncia, portanto, est alm de qualquer         tir-se estranho, desambientado, significa "no
multiplicidade. Plotino dizia: " preciso que          se sentir em casa" no mundo; do ponto de vista
antes ele todas as coisas haja alguma coisa sim-        ontolgico-existencial, esse  o "fenmeno mais
ples e diferente de todas as coisas que vm             originrio" (Sein und Ziet,  40).
depois dela; ela  em si mesma, no se mis-                 UNIO (in. Union-, fr. Union,:. Verhindung;
tura com as que a seguem, mas pode estar                it. Unione). Qualquer forma de relao que
de algum modo presente nas outras: esse  o             permita considerar (a qualquer ttulo) o con-
 II., no alguma coisa que seja una, mas sim-           junto dos termos como um todo. Esta  a defi-
plesmente o U." (Fnn., V, 4, 1). Assim, a unida-        nio dada por Leibniz (De arte combinatoria.
de do primeiro princpio deve ser entendida             1666; Up., ed. Erdmann, p. 8). Um todo no 
to rigorosamente que o prprio nome "V.." pa-          necessariamente uma unidade ou uma totali-
rece imprprio a Plotino. "Este nome [.'. talvez        dade (v. TODO), e os graus de coeso entre
.s contenha a excluso da multiplicidade. Os           suas partes podem ser muito diferentes. Assim
pitagricos os designavam simbolicamente como           tambm os graus da U. podem ser muito dife-
Apoio, para indicar a negao de muitos. (...)          rentes. Kant dividiu a U. em composio
Pode-se usar essa palavra para comear a in-            (composilo) e nexo (uexus). A primeira  uma
dagao com uma palavra que designe a m-               sntese no necessria; no liga necessaria-
xima simplicidade, mas afinal  preciso negar           mente os seus termos; para Kant, pertencia 
esse mesmo atributo, que no merece mais                matemtica e se dividia em agregaes, que
que os outros designar a natureza que no               dizem respeito s quantidades extensivas, e em
pode ser atingida pelo ouvido nem compreen-             coalizo, que diz respeito s quantidades in-
NICO                                                        979                                          UNIDADE

tensivas. O nexo, ao contrrio,  uma sntese                      de II. o acontecimento histrico como tal (v.
necessria; p. ex. a sntese do acidente com a                     HISTRIA).
substncia e do efeito com a causa. Pode subsis-                        5. O que pode ser efetuado de um s modo;
tir mesmo entre termos heterogneos: pode ser                      nesse sentido dizemos que uma operao 61*.:
fsica (nexo entre os fenmenos) ou metafsica                     p. ex., a decomposio de um nmero em fa-
(li. dos fenmenos na faculdade cognitiva a                        tores primos.
priori) (Ctil. li. Pura, Analtica, livro II, cap. 2.                   UNIDADE (gr. nou; lat. Unitas; in. Uuity,
se. 3, n. [H 2021).                                                tr. Unit-, ai. Einheit: it. Unit). 1. Em sentido
    Kssa diferena de significado encontra-se                       prprio, o que  necessariamente uno. inc/iri-
tanto no uso corrente do termo quanto no filo-                      srel: ou no sentido de ser desprovido de par-
sfico e no teolgico. A teologia fala de uma                      tes ou de suas partes serem inseparveis da
"II. hiposttica" (substancial ou necessria)                      totalidade e inseparveis entre si. liste foi o
entre a natureza humana e a natureza divina na                     conceito elaborado por Aristteles, que distin-
pessoa do Cristo (v. FNCARNAO), mas fala                         guiu o que  uno por ,s7. ou essencialmente, do
tambm de LI. mstica da alma com Deus, que                        que  uno por acidente (Met.. V. 6, 1015 b 16);
no 6 nem substancial nem necessria. A filo-                       definiu a U. (|aotj) como alguma coisa indi-
sofia tala de II. entre matria e forma, e entre                   visvel, absoluta ou quantitativamente (Ibicl.,
substncia e acidente, que so necessrias, e                      1016 b 24), e distingiu quatro espcies funda-
fala ainda de LI. entre alma e corpo, que no                     mentais de V.: a) a das totalidades contnuas,
necessria (cf. LHIBNIZ, O/;., Krdmann, p. 127).                   como p. ex. os organismos; b) a das formas ou
Na linguagem comum esto ultrapassados al-                         substncias; c) a numrica; d) a definitria, ou
guns desses usos; alm disso se fala, p. ex.. de                   seja, a l!. de coisas que tm a mesma definio
"LI. carnal"; ou de LJ. no sentido de concrdia,                   (Ibid., X, 1052 a 15-1052 b 15; v. V, 6, 1016 a I-
de solidariedade ou de associao para a defe-                      1016 a 35). Essas determinaes aristotlicas
sa de interesses comuns (U. operria, etc).                        no so perfeitamente coerentes porque, ao
    NICO (lat. Vnicus\ in. Ibiique, IV. Ihque,                   mesmo tempo que definem a l". como indivi-
ai. Einzig; it. nico). 1. O que no  a espcie                   sibilidade. incluem entre suas formas a conti-
de um gnero, entendendo-se por gnero uma                         nuidade que o prprio Aristteles deine como
determinao de que possam participar vrias                       a divisibilidade em partes por sua vez divisveis
espcies. Nesse sentido s Deus  W. (v. S.                        (v. CONTNUO). Seu significado, porm, est bem
TOMS, S. Th., I, q. 3, a. 5).                                     duro. A L".. ou seja. o uno por si, , por um lado,
    2. O que est s na sua espcie, isto , o                     a identidade da forma ou cia substncia consi-
nico indivduo pertencente a determinada                          go mesma; por outro, a identidade dos objetos
espcie. Nesse sentido, na metafsica tradicio-                    que tm a mesma definio (identidade dos
nal podem-se dizer que os anjos so II., pois                     indiscernveis) e por outro ainda  o elemento
impossvel existirem dois da mesma espcie,                        ou o princpio do nmero.
porquanto so desprovidos cie matria, que                              No que diz respeito ao nmero, esse concei-
distingue os pertencentes a uma mesma esp-                        to cie LI. durou muito tempo (v. NMKRO), mas
cie (cf. S. TOMS, S. Th., I, q. 50, a. 4). Stirner enten-         das outras duas formas distinguidas por Arist-
dia do seguinte modo a unicidacle: "Eu, o LI.,                     teles, a LI. formal ou substancial foi a mais
sou o homem. A pergunta 'o que  o homem?'                         freqentemente assumida como conceito ou
Em 'oqu?' procurava-se o conceito; em 'quem?',                    ideal de LJ. na tradio filosfica. Os neoplat-
a questo resolvida, porque a resposta  dada                      nicos ilustraram e exaltaram a LI. como condi-
por quem pergunta" (Der Einzige und sei ti                         o necessria do ser, negligenciando a distin-
Eigentum, 1845; trad. it., p. 270). O "'o que"                    o aristotlica entre a L".. que  necessria, e o
o "quem", a espcie  o indivduo (v. ANAR-                        uno. que no . Para Plotino, a II.  sempre ne-
ytus.MO).                                                          cessria: "Separados do um. os seres no exis-
    3. O que no  substituvel em seu valor ou                    tem mais. O exrcito, o coro, o rebanho no
em sua funo. Nesse sentido, qualifica-se de                      existiriam se no fossem um exrcito, um coro,
II. uma pessoa ou uma obra de arte; em mate-                       um rebanho. A casa e a nave no so se no
mtica, o valor de uma funo.                                     tm unidade, porque a casa  uma casa e a
    4. O que no se repete ou no se repete                        nave  uma nave, e, se perdessem a unidade,
de modo idntico. Nesse sentido qualifica-se                       no seriam nem casa nem nave. Nem as grande-
UNIDADE                                               980                                            UNIFORME

/.as contnuas existiriam se no tivessem unida-            outra", mas sim que elas so "subordinadas
de. Divida-se uma grandeza: perdendo a U.. seu              uma  outra por meio da LI. necessria da aper-
ser se transforma. O mesmo acontece para os                 cepo" (Cr/7. R. Pura.  19). Como se v, o uso
corpos das plantas e dos animais, que. se per-              kantiano do conceito de II. , rigorosamente,
dem a L\ e .se dividem em muitas partes, per-               tradicional: Kant transfere para o eu penso, oti
dem o ser que possuam e no so mais o que                 "V. necessria da apercepo", o fundamento
eram; transformam-se em outros seres que, em                da V. necessria dos objetos, mas a noo mes-
sendo, so um ser cada um (EIDL. VI. 9,1). Essas            ma de II. necessria"  aristotlica. Nem mesmo
consideraes foram decisivas para a histria               Hegel se afasta dessa noo, lamentando que
ulterior cio conceito de unidade. Repetidas por             ela ptidesse ser entendida como 'reflexo sub-
Proclo (Inst. theol., 21, etc.) e por Dionsio, o           jetiva" e afirmando que deveria, ao contrrio,
Areopagita (Dediv. iiom., XIII, C-D), passaram              ser entendida no sentido de "no-separao e
para a filosofia medieval (v. S. TOMS, S. Tio., I,         inseparabilidade". Mas este  justamente o
q. II, a. 1) e foram retomadas por Nicolau de               conceito aristotlico de l'. ( Wissenschaft der
Gusa (Dedocta ignor., I, 5), que identificou a U.           Logik. I. livro I, se. I, cap. I, n. 2). O uso desse
absoluta com o mximo absoluto e ambas as                   termo, presente em toda a obra de Hegel para
coisas com Deus, inspirando as especulaes                 indicar o terceiro momento da dialtica, o da I'.
correspondentes de G. Bruno sobre o assunto. A              ou identidade dos opostos, conforma-se per-
substncia das coisas consiste na U. (Dela cansa,           feitamente a esse conceito.
princpio et uno. V, em O/;., ed. Guzzo e Ameno,
p. -19).                                                       No uso filosfico corrente, esse termo nem
                                                            sempre conserva o significado prprio de indi-
    Locke foi o primeiro a polemizar o conceito             visibiliclade ou inseparabilidade, ou seja. de
de II. substancial. Afirma que "a U. de substn-            nexo necessrio. Contudo, esse significado est
cia" no permite entender as vrias espcies de
                                                            presente quando se fala da l'. de Deus, do mun-
identidades, como p. ex. a identidade da subs-
tncia do homem, da pessoa, etc, e que tais                 do, da natureza, ou da histria, e mesmo quan-
identidades devem ser esclarecidas ou explica-              do se fala de LI. idias ou normativas, como "U.
das independentemente umas das outras (En-                  da humanidade" ou "U. cia famlia", etc.
saio, II. 27, 8). Mas j Leibniz voltava  defesa               2. Em correlao com o significado acima,
da identidade substancial, "nica II. verdadeira            os filsofos chamam de LI. os elementos consti-
e real" (Nour. ess., II, 27, 4). Wolff redefiniu a          tutivos ou os princpios gerais do ser. Sabe-
U. no sentido tradicional, entendendo-a como                mos que. nesse sentido, para os pitagricos "a
"a inseparabilidade das coisas por meio das                 li.  o princpio de todas as coisas" (DKX. L.
quais o ente  determinado" (Ont.,  328); se-              VIII, 25; J. STOBEO, Hei, I, 2, 58). No mesmo
gundo Wolff, determinao do ente nada mais                 sentido, o neoplatonismo falou em Manadas
 que a razo ou a forma do ente (Ibid.,  116).            ou de nadesiPROCLO, Inst. theol.. 64) e Leibniz
O papel determinante que Kant atribui  sn-                chamou de Manadas (\.) as substncias es-
tese (v.). em todos os graus e formas do co-                pirituais que, segundo ele, seriam os elemen-
nhecimento e, em geral, da atividade humana,                tos do mundo. Nesses tisos, o termo conserva
orienta-se pelo mesmo privilgio concedido                 o significado de substncia indivisvel.
noo de tinidade. Para Kant, U.  sinnimo de                  3. Em sentido genrico e imprprio o mes-
sntese ou de nexo necessrio. Seu carter espe-            mo que um/uno (v.).
cfico , em outros termos, a inseparabilidade                 UNIFICAO DAS CINCIAS. V. ENCICLO-
do que  unificado ou sintetizado. Como fun-                 PDIA.
damento de todos os grtis ou formas de U.,                     UNIFORME (gr. u.Ol|: lat. Uniformis;
que constituem as formas e os graus do conhe-                in. Uniforrn; fr. Uniforme, ai. Einfrmig, it. Uni-
cimento, Kant pe "a U. objetiva da percep-                 forme). 1. O que pertence  mesma espcie ou
o", que se manifesta com o uso da cpula .                 mesma essncia ou substncia; esse era o sen-
em sentido objetivo. Segundo Kant, essa cpu-                tido atribudo por Aristteles (Met., V, 2. 1013
la designa "a LI. necessria" do sujeito com o               b 31; I, 9, 991 b 23; VII. 7, 1032a 24, etc.) e
predicado e a relao dessa U. necessria com                aceito por S. Toms (In Sent.. II. d. 48, q. I, a. 1).
a apercepo originria. Isso no quer dizer                 Assim, qualificam-se de V. os objetos que tm o
que as representaes ligadas pela cpula se-                mesmo gnero, a mesma espcie ou, em geral,
jam "necessariamente subordinadas uma 
                                                             a mesma natureza.
UNITARISMO                                              981                      UNIVERSAIS, DISPUTA DOS

   2. O que permanece constante, imutvel ou                  essa corrente mesmo fora da associao ou em
pelo menos relativamente constante e imut-                   numerosas outras associaes da Inglaterra e
vel. Nesse sentido fala-se da uniformidade das                da Amrica do Norte. V. W. E. CIIANNING, Works,
leis da natureza (v. INDUO).                                1886; Unitciiian Christhuiity and Other lissays.
    3. O que apresenta analogias ou semelhan-                 ecl. I. H. Barlett, 1957; A. A. BOWMAN. 'IheAbsur-
as parciais, evidenciadas pela abstrao preci-              dity ofCbristianity and Other Essays, ed. C. W.
siva, e  suscetvel de previso. Nesse sentido,              Hendel, 1958.
fala-se de uniformidade da nattireza ou da uni-                   2. Em alemo, especialmente, esse termo
formidade da histria ou do mundo humano e                    eqivale a patitesmo (v.). I-ichte diz: "Se per-
social. Peirce ilustrou a uniformidade da se-                 guntssemos qual o carter da teoria da cincia
guinte maneira: "Se escolhermos muitos ob-                    no que se refere a unitarismo (ev KOtt Ttv) e dua-
jetos, seguindo o princpio de que eles devem                 lismo, a resposta seria: ela  unitarismo em seu
pertencer a determinada classe, e julgarmos                   aspecto ideal por saber que, como fundamento
que todos tm um carter comum, percebere-                    de todo o saber, encontra-se o eterno Uno, que
mos que, com grande freqncia, a classe intei-               est alm do saber; e  dualismo no aspecto real,
ra tem o mesmo carter. Ou, se escolhermos                    ao pr o saber como real" ( Wsseuschafts/ehre,
muitos caracteres de uma coisa ao acaso e de-                 1801,  32, em Werke, 11, p. 89).
pois acharmos uma coisa que tem todos esses                      UNIVERSAIS, DISPUTA D O S (in            Con tro-
caracteres, geralmente percebemos que a se-                   ve rs y about universais; fr. Querelle des univer-
gunda coisa  bastante semelhante  primeira"                 saux; ai. Universalienstreit: it. Disputa degli
(Coll. Pap., 7.131). Como observa o prprio                   universai). Essa expresso designa a disputa
Peirce, uniformidade nesse sentido poderia ser                sobre o .sVc/m'ontolgico dos II, (gneros e es-
encontrada mesmo num mundo em que tudo                        pcies), que comeou na Escolstica do sc. XI
ocorresse ao acaso (Ibicl., 7.136). So essas as              e caracterizou toda a filosofia medieval, con-
                                                              tinuando depois, com formas pouco diferen-
unibrmidades de que se valem as disciplinas
                                                              tes, na filosofia moderna. Essa disputa foi mo-
cientficas, tanto as naturais quanto as sociais,
                                                              tivada por um trecho da Isagoge (Introduo)
assim como o senso comum. O lxico de uma
                                                              de Porfrio s Categorias de Aristteles e pelos
linguagem qualquer nada mais  que a expres-
                                                              comentrios de Bocio a ela relativos. O trecho
so de uniformidades desse tipo. A repetibili-
                                                              de Porfrio  o seguinte: "Dos gneros e das
dade 6 o carter fundamental da uniformidade
                                                              espcies no direi aqui se subsistem ou se so
nesse sentido.                                                apenas postos no intelecto, nem -- caso sub-
    4. O que est em conformidade com uma                     sistam -- se so corpreos ou ncorpreos, se
ordem, ou seja, com uma regra ou uma lei qual-                separados das coisas sensveis ou situados nas
quer. Nesse sentido, so qualificados de {'. os               coisas, expressando seus caracteres comuns"
fenmenos naturais que obedecem a leis, mas                   Usag., 1). Das alternativas indicadas por Porfrio
na realidade essa espcie de uniformidade e a                 nesse trecho, apenas uma no se encontra na
precedente so a mesma coisa, visto que uma lei               histria da disputa: aquela segundo a qual os
cientfica nada mais  que uma uniformidade                   If, seriam realidades corpreas. Em compensa-
no sentido 3. Isso foi evidenciado por J. Stuart              o, uma alternativa que Porfrio no previra
Mill (System of Logic, 111, IV, I) (v. RKGULARIDADH).         verificou-se historicamente, pelo menos se-
    UNITARISMO (in. Vnitarianism; fr. Unita-                  gundo dizem: o II. no existe nem no intelecto
 risme, ai. Unilarismus. Vnitismus, it. Unitarismo).          e  apenas um nome, um Jlatus rocis. Essa  a
 1. Corrente religiosa que defende a unidade de               soluo atribuda a Roscelin por S. Anselmo
Deus, em oposio  frmula trinitria do cris-               (De fide Trinitatis. 2) e por Joo de Salisbury
tianismo. F.mbora se ligue a antigas heresias                 (Metal.. II 13; Policrat., VII, 12). As solues
religiosas, o socinianismo (v.) foi a primeira                dadas a esses problemas na Escolstica e de-
forma moderna cie l'.. constituindo depois a cor-             pois dela foram muito numerosas, e muitas
rente religiosa mais tolerante e liberal do mun-              vezes diferem por ninharias. Realismo (v.) e
do moderno. Desenvolveu-se quase exclusiva-                   nominalismo (v.) so as solues fundamen-
mente na Inglaterra e na Amrica do Norte. Na                 tais, mas Ockham, na refutao sistemtica que
 Inglaterra, a Associao Unitarisa foi criada               quis fazer ao realismo, enumerava seis for-
em 1825, e dela deriva o nome assumido por                    mas fundamentais deste (In Seul., I, d. 2. q. 4-8;
UNIVBERSAIS, DISPUTA DOS                               982                                               UNIVERSAL

Quodl.. V, q. 10-14; Summa log., I, 15-17; v.                semi-aristotlica a soluo encontrada por Duns
AIBAGNANO,     O. de Ockbam, II,  8-II).                   Sce>t. segundo o qual o verdadeiro II. existe so-
    Mas o fundamental para entender tanto a                  mente no intelecto, enquanto nas coisas exis-
origem histrica da disputa quanto o alcance                 te uma natureza comum que se distingue for-
permanente que ela pode ter  que suas duas                  mdlmente da individualidade das coisas, e no
solues fundamentais, realismo e nominalis-                 nuinericamente (Op. O.v., II, d. 3, q. 6, n. 15). O
mo, correspondem s duas tendncias funda-                   carter peculiar dessa soluo est no princ-
mentais da lgica antiga e medieval, a platnico-            pio de distino formal (v. DISTINO), que 
aristotlica e a estica. Essas duas tendncias              uma das caractersticas da filosofia de Duns
correspondem  lgica antiga e  lgica moder-               Scot.
na, nomes medievais daquilo que mais tarde foi                   Por outro lado, o nominalismo  mais unifor-
chamado de formalismo e de terminismo (v.                    me- Excetuando a mencionada tese de Roscelin
THRMINISMO). A primeira dessas correntes defen-              (sobre a qual, de resto, no existem documen-
dia as doutrinas lgicas tradicionais; a segunda,            tos convincentes), o nominalismo, de Abelardo
a doutrina da suposio (v.) e os raciocnios                a Ockham. sempre sustentou as mesmas teses
antinmicos. Os tratados lgicos da Idade M-                fundamentais, a reduo do l".  funo lgi-
dia justapem os dois troncos doutrinrios,                  ca vi pre'<Jikvibi'ik.VAAe, dividindo-se apenas no
mas a inconciliabilidade e o antagonismo deles               que' diz respeito  atribuio ou no de realida-
se manifesta na disputa dos U., que denuncia a               de psquica ao V. Ockham mostra-se indiferen-
presena ativa, na Escolstica, de uma tradio              te ;i este ltimo problema: nega, obviamente,
lgica antiaristotlica, que  a estica, haurida            que." o U. seja uma species (v.), mas considera
nas obras de Bocio e de Ccero.                             indiferente identific-lo com o ato do intelecto
    Realismo e nominalismo constituem, portan-               ou negar que tenha uma realidade qualquer na
to, as duas solues tpicas e iniciais do proble-           alnia (In Sent., I, cl. 2, q. 8, E). Seu carter
ma. Para o realismo, isto 6, para a tradio lgica          fundamental  a funo de signo, isto , a sitpo-
platnico-aristotlica, o U. , alm de conceptus            S!'vi"(v,), Esses foram os princpios fundamen-
menlis, a essncia necessria ou substncia das              tais da lgica terminista depois de Ockham; no-
coisas. Para o nominalismo, ou seja, para a tradi-           o anloga de U. encontra-se na teoria do
o estoicizante, o U.  um signo das coisas. O              coriceito defendida pelo empirismo ingls a
realismo e o nominalismo medievais constituem,               partir do sc. XVII: Locke, Berkeley e Hume (v.
assim, as duas alternativas sempre presentes                 CONCEITO. 2).
na teoria cio conceito (v. CONCEITO).                              UNIVERSAL (gr. Kcx8oi); lat. Universalis;
    Mais especificamente, no que diz respeito                in.    Universal;   fr.   Universeh   ai.   Allgemein,   it.
ao realismo,  possvel distinguir trs formas                Universale). Esse termo teve dois significados
fundamentais, que podem ser chamadas de                      principais: lk> significado objetivo, em virtude
platonizante, aristotlica e semi-aristotlica. A            do qual indica uma determinao qualquer,
forma platonizante do realismo  atribuda por               que pode pertencer ou ser atribuda a vrias
Abelardo ao seu mestre Guilherme de Cham-                    coisas; 2P significado subjetivo, em virtude do
peaux (sc. XI): o U. seria a substncia, e os               qual indica a possibilidade de um juzo (que
indivduos constituiriam acidentes dessa subs-               diga respeito ao verdadeiro e ao falso, ao belo
tncia (ABELARDO, (Euvres, ed. Cousin, p. 513).              e - feio, ao bem e ao mal, etc.) ser vlido para
A soluo aristotlica  a mais comumente de-                todos os seres racionais.
fendida na escolstica, sendo expressa por S.                    lp O primeiro significado  o clssico; Aris-
Toms, para quem o U. est in re como forma                  tteles diz que Scrates foi o descobridor do
ou substncia das coisas, post rem como con-                 universal (Met., XIII, 4, 1078 b 28). Nesse sen-
ceito no intelecto e ante rem na mente divina                tido, o U. pode ser considerado no duplo as-
como Idia ou modelo das coisas criadas (In                  pecto ontolgico e lgico. Ontologicamente, o
Sent., II, d. 3, q- 2, a. 2). Esses trs U. perfazem         U. t a forma, a idia ou a essncia que pode ser
apenas um, vale dizer, identificam-se com a                  partilhada por vrias coisas t que confere s
essncia, a substncia ou a forma da coisa, que              coisas a natureza ou o carter que tm em co-
existe ab aeterno no intelecto divino e que o                mum. O U. ontolgico  a forma ou a espcie de
intelecto humano abstrai da coisa (S. Th., I, q.             Plato (v., p. ex., Parm., 132 a) ou a forma ou
85, a. I). Finalmente, pode ser chamada de                   substncia de Aristteles: por isso, este afirma-
UNIVERSAL                                                     983                                           UNIVERSAL


va ((ue s existe cincia do U. (Dean.. II, 5, 417                  contra o intelecto, que o verdadeiro, a Idia, no
b 23). Logicamente, o II. \ segundo Aristte-                      consiste em generalidades vazias, mas em
les, "o que, por sua natureza, pode ser predi-                      uni II. que, em si mesmo,  o particular, o de-
cado de muitas coisas" (De int., 7, 17 a 39): de-                   terminado" (Geschchte der Phlosophie, ed.
finio que foi quase universalmente aceita na                      Glockner, I, p. 58). No mesmo sentido, Croce
histria da filosofia. Foi o U. nesse sentido                       escrevia: "Se o conceito  LI. transcendente em
que os lgicos medievais atriburam o carter                       relao  representao singular, tomada na sua
de signo (v.) e a funo de suposio (v.). Era                     singularidade abstrata, por outro lado  imanen-
este o LT. que M. Nizolio interpretava como um                      te em todas as representaes, portanto tam-
todo coletivo ou multitudo rerum singularium,                       bm na singular", identificando assim conceito
de modo que a preposio "o homem  animal"                         com razo ou idia (Lgica, 1920, p. 28). A "con-
ou significaria "todos os homens so animais"                       cno cio II." de que falam os escritores idea-
(De versprincipiis, I, 6); a isso Leibniz contesta-                listas nada mais  que o status ontolgico atri-
va que. ao contrrio, se trata de um todo distri-                   budo ao II. pela metafsica tradicional.
butiro, e assim a proposio significa que este                         Ao LI. ontolgico ligam-se tambm alguns
ou aquele homem, seja ele qual for,  animal                        outros usos do termo universal. Assim, "hist-
(Op., ed. F.rdmann, p. 70). Desse modo, nesse                       ria Vi."  a histria que tem por objeto a forma
aspecto Leibniz reproduzia substancialmen-                          ou a ordem global do mundo humano (v. HIS-
te a doutrina nominalista da suposio do U.                        TRIA). A "gravitao U."  uma fora ou um
(OCKHAM, Summu log., I, 70). Est claro que LI.,                    princpio que rege a totalidade do mundo, e
nesse sentido, no  seno outro nome para                          asfim por diante. Nestes usos do termo o seu
conceito, signo ou significado: por isso, os pro-                   significado objetivo est unido ao seu alcance
blemas a ele relacionados devem ser conside-                        ontolgico.
rados sob esses verbetes.                                               2" No segundo significa, U.  o que  ou
     Por outro lado, o status ontolgico cio II.                    deve ser vlido para todos. O conceito de U.
dava ensejo  chamada disputa sobre os U.,                          nesse sentido nasceu no domnio da anlise
que ocupou boa parte da filosofia medieval e                        dos sentimentos, especialmente dos sentimen-
de algum modo continuou e continua na filoso-                       tos estticos (v. Gos'i'o). J Hume se propunha
fia moderna (v. LIMVKRSAIS, DISPUTA DOS). Como                      procurar uma regra do gosto, "por meio da
dissemos, o U. no significado ontolgico  a                        qual possam ser harmonizados os vrios senti-
forma ou a substncia das coisas: conceito que                      mentos dos homens" (fssays, I, pp. 268 ss.),
no  somente aristotlico e medieval. Locke                        m;is foi Kant que, alm de usar esse tipo de
tambm observada que o fundamento da uni-                           universalidade no domnio da esttica, esten-
versalidade das proposies s pode ser a                           deu-o para o domnio moral e elucidou suas
substncia, com o nexo necessrio que ela im-                       caractersticas especficas, definindo-o como
 plica entre suas determinaes, e que onde                          validade comum ou universalidade subjetiva.
falta o conhecimento da substncia a universa-                      No que diz respeito  esfera esttica, Kant via
lidade no  rigorosa (Ensaio, IV, 6, 7). Analo-                    no juzo de gosto simplesmente "a necessidade
gamente, Kant observava que a universalidade                        objetiva de concordncia do sentimento de cada
emprica nunca  rigorosa ou verdadeira, e que                      uni com o nosso prprio sentimento", e nesse
a universalidade autntica precisa estar funda-                     sentido definia o belo como "um prazer neces-
da nas formas a priori do conhecimento, ou                          srio", no sentido de ser um prazer que todos
seja, nas formas que constituem as coisas como                      devem sentir do mesmo modo (Crt. do Juzo,
fenmenos (Crt. R. Pura, Intr., II ). Hegel. por                    22.). No domnio da tica, Kant afirmava que
sua vez. insistia na unidade do LI. e do particu-                   unia lei s  prtica se for "vlida para a von-
lar, que  o V. concreto, Idia ou Conceito Real.                   tade de todos os seres racionais" (Crt. R. Pr-
Portanto, ao ('. abstrato, que  contraposto ao                     tica,  1), e considerava a universalidade subje-
 particular e ao indivduo, ele contrapunha o II.                   tiva (possibilidade cie uma mxima valer como
concreto, que  a essncia ou a natureza po-                        lei para todos os seres racionais) o critrio para
sitiva do particular ( Wissenschaft der Logik, II,                  julgar se uma mxima  ou no uma lei moral
 livro III, se. I. cap. I, A; trad. it., III, pp. 42 ss.),         (Crundlegung   der   Metaphysik   der   Sitten,   II).
e considerava ser tarefa da filosofia conhecer o                    Mas ele tambm evidenciava a diferena entre
 LI. concreto: " tarefa da filosofia demonstrar.                   essa universalidade subjetiva e a universalida-
UNIVERSALISMO                                            984                          UNVOCO e EQUVOCO

de objetiva. Dizia: "Cada juzo objetivamente                  De Morgan (Formal Logic, 1847, p. 37) e
 U.  sempre subjetivo; isso significa que, quan-              divulgada por Boole (Lairs of Tbought, 1854,
do o juzo  vlido para tudo que est com-                    III,  4) para indicar, em geral, "a extenso do
preendido em dado conceito, tambm  vlido                    campo em cujo interior esto todos os objetos
para qualquer um que represente ura objeto .se-                do nosso discurso".
gundo esse conceito". Todavia, o inverso nem                       Mais tarde e com maior preciso, esse termo
sempre  verdadeiro, isto , nem todo juzo                    passou a indicar, na lgebra da lgica, uma cias-
que tem universalidade subjetiva ou validade                   se no vazia, da qual, e somente da qual, sejam
comum tambm  objetivamente U.; esse  o                      extrados todos os elementos com que so
caso da universalidade esttica, que possui uni-               constitudas todas as classes sobre as quais o
versalidade subjetiva, mas no objetiva (Crt.                 clculo  feito. Da se conclui facilmente que
do Juzo,  8). A partir de Kant, a universalidade             o U. do discurso  a soma lgica de todas as
subjetiva tornou-se lugar-comum em filosofia,                  classes que podem ser formadas com tais ele-
tanto quanto a noo de validade (v.),                         mentos.  indicado com o smbolo "v" ou "1".
   Talvez com mais exatido, essa espcie de                   Na interpretao proposicional. ser constitu-
1J.  hoje indicada pelo termo intersubjetivo                  do pela disjuno (soma lgica) de todas as
(v.). A referncia  intersubjetividade constitui              proposies sobre as quais  feito o clculo, ou
o significado desse termo em muitas expres-                    da conjuno (produto lgico) de todas as pro-
ses correntes, como "linguagem II.". "educa-                  posies verdadeiras.
o li", "consenso U.". "amor II.", etc. Em ou-                     Na lgica das relaes, o U. do discurso ,
tras expresses, esse termo pode ter tanto o                   ainda, formado por todos os elementos que
significado subjetivo quanto o objetivo e lgi-                podem entrar nas relaes consideradas; nesse
co: ]>. ex., "gnio II.". que pode ser entendido              caso deve conter pelo menos dois elementos,
como o gnio que todos devem reconhecer ou                     se forem consideradas apenas relaes didicas;
reconhecem, ou como o gnio que  gnio em                     pelo menos trs elementos, se forem considera-
relao a qualquer ramo do conhecimento.                       das tambm as relaes tridicas... pelo menos n
   UNIVERSALISMO (in. Univeisalism, h. Uni-                    elementos se forem consideradas as relaes
versalisme, A.llniversalismus-, it. Universalismo).           w-dicas. A relao-U.  a relao "a v b" que
1. Km sentido teolgico, doutrina de que Deus                  existe entre todos os pares possveis de ele-
quer salvar todos os homens, no existindo, pois,              mentos do universo.
predestinao  danao. K a doutrina susten-                      Na lgica contempornea, esse conceito
tada, entre outros, por Leibniz, que nesse senti-              perdeu importncia: quando usado, -o no
do fala da oposio entre "universalistas" e "par-             sentido acima definido. Na prtica, porm, usa-
ticularistas" Clhod.. 1.  80).                               se com freqncia a expresso "li. do discur-
    2. Fm sentido tico, qualquer doutrina con-                so", para indicar o conjunto de elementos (ter-
trria ao individualismo que afirme a subordi-                 mos e proposies) que constituem o campo
nao cio indivduo a uma comunidade qual-                     de determinada disciplina.                  G. P.
quer (listado, povo, nao, humanidade, etc).                      UNVOCO e EQUVOCO (gr cnwcvuuo
   UNIVERSALIZAO. V. GKNKRAUZACO.                           (J.(viJ(iO; lat. Unvocus, aequivocus; in. Uni-
   UNIVERSO (gr. t Tlv: lat. Universum; in.                  vocal equivocai; fr. Univoqtie, equivoque, ai.
Universe, fr. Univers-, ai. ['niversunv. it.   Univer-         Eindeutig, Aequivok, it. Univoco. equivoco). Es-
so). 1. Um todo qualquer: p. ex., "II. do discur-              tes dois termos receberam definies diferentes,
so", "U. das estrelas fixas" ou "II. visvel".                 segundo tenham sido atribudos ao objeto ou
   2. C) todo da natureza fsica, sem mencionar                ao conceito (ou nome).
sua ordem. Este  o significado atribudo a esse                    1. Aristteles atribuiu-os ao objeto e enten-
termo por Aristteles (Met., V. 26, 1024 a I) e                deu por unvocos (ou sinnimos) os objetos
pelos esticos (J. STOHKO. Hei, I, 21, pp. 442 ss.).           que tm em comum tanto o nome quanto a defi-
   3. O mesmo que mundo. Este uso prevalece                    nio do nome: assim, p. ex., tanto o homem
entre os modernos (v. Miwno; ToTAUnAOH;                        quanto o boi so chamados cie animais. Cha-
Tono).                                                         mou de equvocos (ou homnimos) os objetos
   UNIVERSO DO DISCURSO (in. Universo of                       que tm o nome em comum, enquanto as de-
discourse, fr. Univers du d iscou rs-, it. Universo            finies evocadas pelo nome so diferentes:
dei discorso). Esta expresso foi introduzida por              nesse sentido, chama-se de animal tanto o lio-
URDOXA ou URGLAUBE                                   985                                                TIL

mem quanto um desenho (Cat., I, Ia I-II). Es-              ma deles, e, assim como antes subimos, eles nos
sas definies so repetidas com freqncia na             permitem descer gradualmente at o caso mais
escolstica (p. ex., PEDRO HISPANO, Summ. Log.,            comum da experincia cotidiana". (Farben-
301) e encontram-se em lgicos mais recentes               lehre, 1808,  175).
(p. ex., JUNGIUS, Lgica hamburgensis, I, 2, 4-9).            USIOLOGIA (in. Usiology, fr. Asiologie; ai.
    2. A lgica terminista julgou "imprpria" a            Usologie, it. Usiologia). Doutrina das essncias.
referncia dos dois termos aos objetos e julgou            Termo raro.
que eles deveriam referir-se propriamente ape-                USO (in. Use, fr. Usage, ai. Gehrauch; it.
nas aos signos, ou seja, aos conceitos ou no-              Uso). O ato ou o modo de empregar meios,
mes. Desse ponto de vista, as definies de                instrumentos ou utenslios. Esse termo  usado
Ockham so as seguintes. "U.  ou a palavra ou             em filosofia sobretudo com referncia a instru-
o signo convencional que corresponde a um                  mentos ou meios intelectuais ou com refern-
nico conceito ou, mais estritamente, 6 aquilo             cia  prpria razo. Kant falou de U. lgico da
que, por si s, pode ser predicado de vrias               razo, por meio cio qual so feitas inferncias
coisas, ou  o pronome demonstrativo de uma                imediatas, isto , silogsticas, e de U. puro, por
coisa. Equvoco, por outro lado,  o nome que,             meio do qual a razo se faz "uma fonte espe-
significando vrias coisas, no est subordina-            cial de conceitos e de juzos". Este ltimo  o
do a um nico conceito, mas  nico signo de               U. dialtico da razo {Crl. R. Pura, Dialtica,
vrios conceitos ou intenes da alma. O U.                Intr., II, B-C). Kant distinguiu tambm o II. te-
pode derivar do acaso, como acontece quando                ricoc o U.prtico&A razo Crt. R. Pura, Pref.
o nome de Scrates 6 imposto a vrios homens,               segunda ed.) e finalmente fez a distino en-
ou de deliberao, quando se impe certo nome              tre U. emprico dos conceitos, que significa a
a certas coisas e se o subordina a um nico                sua referncia a objetos da experincia poss-
conceito, mas depois, graas  semelhana des-             vel, e U. transcendental, que significa a sua refe-
                                                           rncia a objetos que esto alm de tal expe-
se conceito com outros, estende-se a outros o
                                                           rincia (v. TRANSCENDENTAL).
mesmo nome" (Surnma log., I, 13).
    Ainda hoje esses termos recebem as defini-                Wittgenstein lanou mo da noo de U.
es terministas. As discusses sobre a nature-            para definir o significado dos termos lingsticos:
za da Linivocidade tinham imediata ressonncia             "Para uma ampla classe de casos -- embora
teolgica na Idade Mdia; quanto  disputa en-             no para todos -- nos quais empregamos a
tre os defensores da linivocidade e os da analo-           palavra 'significado', ela pode ser assim defini-
gicidade do ser, v. ANALOGIA.                              da: o significado de uma palavra  o seu II. na
                                                           linguagem" (Philosophical Investigations,  43)
   URDOXA ou URGLAUBE. Husserl usou
                                                           (v. LINGUAGEM; SIGNIFICADO).
esse termo (que significa crena originria)
para indicar a certeza que caracteriza a crena,               Os lgicos contemporneos fazem a distin-
ou seja, a referncia segura da crena a um                o entre U. de uma palavra e sua meno. Na
                                                           frase "o homem  um animal racional", a pala-
objeto existente (Ideen, I,  104) (v. CRENA).
                                                           vra "homem"  usada mas no mencionada. Ao
   URPHAENOMENON. Termo usado por
                                                           contrrio, a frase "em portugus, a traduo de
Goethe, que explicava da seguinte forma o seu              man tem cinco letras", a palavra homem 
conceito: "Na experincia, o mais das vezes cap-           mencionada mas no usada. Finalmente, na
tamos apenas casos que, com certa ateno, po-             frase "a palavra homem tem cinco letras" a
dem ser enquadrados em rubricas empricas                  palavra homem  ao mesmo tempo usada e
gerais. Estas, por sua vez, subordinam-se a rubri-         mencionada. Este ltimo U. foj chamado pelos
cas cientficas que remetem mais alm, de for-             escolsticos de suposio material (v. SUPOSI-
ma que acabamos conhecendo melhor algu-                    O) e por Carnap de U. antnimo (CARNAP,
mas condies indispensveis do que aparece.               lgica! Syntax ofLanguage,  64; QUINE, Me-
Da para a frente, tudo se sistematiza gradual-            thods of Logic,  7; CHURCH, Introductkm to
mente sob regras e leis superiores, que no se             Mathematical Logic,  80).
manifestam ao intelecto por meio de palavras                  TIL (in. Useful; fr. Utile, ai. Ntzlcb; it.
e hipteses, mas  intuio por meio de fenme-            Utile). 1. O que  meio ou instrumento para
nos. So estes os fenmenos que chamamos de                um fim qualquer. Nesse sentido, a utilidade
originrios, porque na aparncia nada est aci-            foi definida por Alberto Magno (S. Th., I, q. 8,
UTILIDADE MARGINAL                                      986                                    UTILITARISMO


a. 3), Geulinex (Ethica, III. 6) e Haumgarten                  com o til remonta a Epicuro (v. TICA), do
(Met.,  336);  um carter das coisas.                       ponto de vista histrico, o U.  uma corrente do
    2. Mais especificamente, a partir de Hobbes,               pensamento tico, poltico e econmico ingls
chamou-se de U. o que serve  conservao do                  dos scs. XVIII e XIX. Stuart Mill afirmou ter sido
homem ou, em geral, satisfaz s suas necessi-                  o primeiro a usar a palavra utilitarista (utili-
dades ou atende aos seus interesses. Hobbes                    tarian), extraindo-a de uma expresso usada
afirmava, a propsito, que cada homem  por                    por Galt em Anuais of Paris (1812); de fato, a
direito natural rbitro do que lhe  U., e que "a             ele se deve o sucesso desse nome. Contudo,
medida do direito  a utilidade"(De eii>e, 1642,              essa palavra foi usada ocasionalmente por Ben-
1, 9-10). Seguindo Hobbes, Spinoza identifica-                tham, a primeira vez em 1781. Os aspectos essen-
va o comportamento racional do homem com a                    ciais do li. podem ser resumidos do modo se-
procura cio .-. "A razo, no exigindo nada de               guinte:
contrrio  natureza, requer por si s, antes de                   le Em primeiro lugar, o U.  a tentativa de
mais nada, que cada um se ame e procure o                     transformar a tica em cincia positiva da con-
que lhe  U. e que realmente assim seja." Entre               duta humana, cincia que Bentham queria tor-
as muitas coisas . e desejveis, as mais impor-              nar "exata como a matemtica" (Inlroduction
tantes so as que convm  natureza humana;                    to the Principies of Morais, em Works, I, p. V).
por isso. a mais importante de todas 6 a con-                 Essa caracterstica faz do U. um aspecto funda-
servao do homem, na sua prpria pessoa e na                 mental do movimento positivista, ao mesmo
do outro. "Os homens que so governados pela                  tempo em que lhe garante um lugar importan-
razo, ou seja, os que procuram o que lhe  U.                te na histria da tica (v.).
segundo a direo da razo, no desejam para si                   2- Por conseguinte, o U. substitui a conside-
nada que tambm no desejem para os outros                    rao do fim, derivado da natureza metafsica
homens justos, fiis e honestos" (Et., IV, 18,                do homem, pela considerao dos mveis que
schol.). Nesse sentido, por um lado a utilidade               levam o homem a agir. Nisto, liga-se  tradio
tornou-se fundamento da doutrina moral cha-                   hedonista, que v no prazer o nico mvel a
mada utilitarismo(v) e, por outro lado, conceito              que o homem ou, em geral, o ser vivo, obede-
fundamental da economia poltica (v.). Na pri-                ce (v. HEDONISMO). Nesse aspecto, assim como
meira direo, Hume j perguntava ''por que a                 no precedente, o U. foi tratado sobretudo por
utilidade agrada", e encontrava a resposta a esta             J. Bentham (1748-1832).
pergunta na natural simpatia do homem para                        3S Reconhecimento do carter supra-indivi-
com o outro homem (Inq. Cone. Morais, V). A                   dual ou intersubjetivo do prazer como mvel,
coincidncia da utilidade individual com a social             de tal modo que o fim de qualquer atividade
                                                              humana  "a maior felicidade possvel, comparti-
estava assim j postulada e passou a ser um dos
                                                              lhada pelo maior nmero possvel de pessoas":
temas do militarismo. Bentham definia utilida-
                                                              frmula enunciada primeiramente por Cesare
de como "a propriedade de um objeto em vir-                   Beecaria (Dei diritti e delle pene, 1764,  3) e
tude da qual ele tende a produzir benefcio,                  aceita por Bentham e por todos os utilitaristas
vantagem, prazer, bem ou felicidade (Intro-                   ingleses. A aceitao dessa frmula supe a
duetion to the Principies of Morais,   1789. I,   I).
                                                              coincidncia entre utilidade individual e utili-
No campo da economia poltica, por U. enten-                  dade pblica, que foi admitida por todo o libe-
deu-se habitualmente "tudo o que satisfaz uma                 ralismo moderno (v. LIBERALISMO). A obra de
necessidade"; a percepo de que nem sempre                   James Mill e de Stuart Mill dedicaram-se principal-
o que satisfaz uma necessidade econmica (                   mente a justificar essa coincidncia. Para James
desejado como tal) satisfaz a necessidade bio-                Mill, ela decorria da lei da associao psicol-
lgica induziu Pareto a introduzir a noo de                 gica: cada um deseja a felicidade alheia porque
ofelimidade (v.), que  o . no contexto eco-                 ela est intimamente associada com a sua pr-
nmico (Trait dconomie politique, n. 2028).                 pria felicidade (Analysis of the Phenomena of
    UTILIDADE MARGINAL. V. ECONOMIA P O -                      theHuman Mind, ed. 1869, II, pp. 351 ss.). Para
LTICA.                                                       Stuart Mill essa mesma vinculao estava ligada
   UTILITARISMO (in. Utilitariansm; fr. Uti-                 ao sentimento de unidade humana, que Comte
larisme, A.JMlitarismus; it. Utilitarismo). Em-             evidenciara com sua religio da humanidade
bora se possa dizer que a identificao do bom                (Utilitarianism, 2a ed., 1871, p. 61).
UTOPIA                                                987                                             UTOPIA

     4" Associao estreita do U. com as doutri-            sociedade futura e qualquer programa para ela
nas da nascente cincia econmica. Dois dos                 (v. SOCIALISMO). NO mesmo sentido,  U. --
fundadores dessa cincia, Malthus (1766-1834)               "obra de tericos que, depois de observarem e
e David Ricardo (1772-1823), foram militaristas             discutirem os fatos, procuram estabelecer um
e compartilharam o esprito positivo e reforma-             modelo ao qual possam ser comparadas as socie-
dor do U.                                                   dades existentes para medir o bem e o mal que
     5U Esprito reformador dos militaristas no             encerram" -- Sorel contrapunha o mito, ex-
campo poltico e social: preocuparam-se em pr              presso cie um grupo social que se prepara
sua doutrina moral a servio de reformas que                para a revoluo (Keflexions sur Ia violence, 4-
deveriam aumentar o bem-estar e felicidade                  ed., p. 46). Mannheim, ao contrrio, conside-
dos homens em vrios campos. Nesse aspecto,                 rem a 13. como algo destinado a realizar-se, ao
o U. tambm foi denominado radicalismo.                     contrrio da ideologia (v.), que nunca conse-
     Cf. S. LKSLIF, The English Utilitarians, trs          guiria realizar-se. Nesse sentido, a U. seria o fun-
vols., 1900; E. ALBEE, A History of Englsh Uti-            damento da renovao social (Ideologie und
 litarianism, 1901, 2- ed, 1957.                             Utopie, 1929, II, I; v. R. K. MKRTON, Social Theory
     UTOPIA (lat. Utopia; in. Utopia; fr. Utopie,            and Social Stmcture, 1957, 33 ed., cap. XIII).
ai. Utopie; it. Utopia). Thomas More deu esse                   Em geral, pode-se dizer que a U. representa
nome a uma espcie de romance filosfico (De                a correo ou a integrao ideal de uma situa-
optimo republicaestatu deque nova insula Uto-              o poltica, social ou religiosa existente. Como
pia, 1516), no qual relatava as condies de                muitas vezes aconteceu, essa correo pode fi-
vida numa ilha desconhecida denominada U.:                  car no estgio de simples aspirao ou sonho
nela teriam sido abolidas a propriedade priva-              genrico, resolvendo-se numa espcie de eva-
da e a intolerncia religiosa. Depois disso, esse           so da realidade vivida. Mas tambm pode tor-
termo passou a designar no s qualquer ten-                nar-se fora cie transformao da realidade,
tativa anloga, tanto anterior quanto posterior             assumindo corpo e consistncia suficientes pa-
(como a Repblica de Plato ou a Cidade do Sol              ra transformar-se em autntica vontade inova-
de Campanella), mas tambm qualquer ideal                   dora e encontrar os meios da inovao. Em
poltico, social ou religioso de realizao difcil         geral, essa palavra  considerada mais com re-
ou impossvel.                                              ferncia  primeira possibilidade que  segun-
     Como gnero literrio, U. extrapola a consi-           da. Ao primeiro significado est ligada a cha-
derao filosfica: aqui s observaremos que                mada "teoria crtica da sociedade", desenvolvida
ela foi e ainda  muito divulgada, sendo adap-              por Horkheimer, Adorno e Marcuse (especial-
tada at para romances de fico cientfica.                mente por este ltimo), que se concentra so-
Cabe  filosofia avaliar a U., tanto a expressa             bretudo na crtica arrasadora da sociedade con-
em forma de romance quanto a expressa em                    tempornea. Marcuse escreveu: "A teoria crtica
forma de mito ou ideologia, etc; quanto a essa              da sociedade no possui conceitos que possam
avaliao, os filsofos no esto de acordo.                lanar uma ponte entre o presente e o futuro,
Para Comte, cabia  U. a tarefa de melhorar as              no faz promessas e no mostra sucessos, mas
instituies polticas e de desenvolver as idias           permanece negativa" (One Dimensional Man,
cientficas (Politiquepositive, I, p. 285). Marx e          1964, p. 257). E ainda: "Se hoje pudssemos
Engels, ao contrrio, condenaram como "utpi-               formular uma idia concreta cia alternativa, no
cas" as formas assumidas pelo socialismo em                 seria a de uma alternativa: as possibilidades da
Saint Simon, Fourier e Proudhon, contrapondo                nova sociedade so to abstratas, to distantes
a elas o socialismo "cientfico", que prev a               e incngruas em relao ao universo de hoje,
transformao infalvel do sistema capitalista              que levariam ao malogro qualquer tentativa de
em sistema comunista, mas exclui qualquer                   ick'ntific-la em termos deste universo" (An
previso sobre a forma que ser assumida pela               Essay on Liberation, 1969; trad. it., p. 101).
                                                  V

    VACUSTAS (in. Vacnisls; fr. Vacuistes; ai.        dade, li. Russell, porm, insistiu na dificulda-
 Vacuisten). Com este termo ou com o termo             de de distinguir o V. do geral, inclinando-se 
antiplenistas. so designados os defensores da         interpretao subjetiva da incerteza inerente
teoria do espao vazio, enquanto seus advers-         ao que  V. (Analysis of Mind, 1921, p. 184).
rios foram chamados de plenistas (v. LASSVCITZ,        Max Black fez uma anlise exaustiva da noo
Ceschichte der Atomistik, II, p. 291).                 de V., provocando uma discusso muito fr-
    VCUO ou VAZIO (gr. Kevv; lat. Vaccum,            til a esse propsito (Vagueness em I.anguage
in. Vaatum; fr. Vide, ai. Leere, it. Vuoto). A exis-   and Philosophy, 1952, cap. II; na traduo ita-
tncia do V.  um dos aspectos fundamentais            liana, Vangueness  traduzido por Indetermi-
da concepo do espao como continente dos              na tezzci).
objetos (v. ESPAO). Leibniz falou de um "V. de            VAIDADE (in. Vcinity, fr. Vanit,\. Eitelkeit;
formas" (vacttumformarum), que existiria se            it. Vanit. 1. Nulidade, coisa v.  nesse sentido
no existissem substncias capazes de todos os         que essa palavra  empregada freqentemente
graus de percepo, tanto inferiores quanto su-        na Bblia (v. Hclesiastes, 1, 2: "V. das V., disse o
periores aos homens (Op., ed. Erdmann, p.              Eclesiastes; V. das V.,  tudo V.").
43D.                                                       2. Ambio mesquinha, vangloria, egocen-
    VAGO (in. Vagne.fr. Vague, ai. Unbestimmt;         trismo (v.).
it. Vago). Diz-se que uma palavra (ou um con-              VAISESICA. Um dos principais sistemas fi-
ceito ou uma proposio)  V. se o seu signi-          losficos cia ndia antiga, cuja fundao  atribu-
ficado no for suficientemente determinado,            da a um brmane chamado kanada, que afir-
de tal modo que haver casos em que pare-              mou uma espcie de atomismo, considerando
cer impossvel decidir se ela  aplicvel ou          que a matria  formada por elementos in-
no. Assim a palavra distante  V. porque              divisveis e se caracteriza por seis determina-
existem casos nos quais  impossvel decidir           es fundamentais: substncia, qualidade, mo-
se  possvel falar de distncia ou no; entre-        vimento, generalidade, particularidade e inern-
tanto, no  V. a expresso "distante trinta quil-    ria. Esse sistema tambm admite a existncia
metros". Peirce definiu esse termo da seguinte         das almas, demonstrada, por inferncia, a par-
maneira: "Uma proposio  V. sempre que se-           tir da impossibilidade de atribuir ao corpo even-
jam possveis estados cie coisas tais que quem         tos como o conhecimento, o prazer, o amor,
fala, mesmo os contemplando, ficaria intnnse-          etc; tambm admitia a existncia de Deus, con-
camente indeciso quanto a serem afirmados ou           siderado como causa e regulador do Karman
negados na proposio. Por intrnsecamente             (v. G. Trcci, Storia delia filosofia indiana, 1957,
indeciso pretendemos falar do que  duvidoso,          pp. 112 ss.).
no pela ignorncia de quem interpreta, mas                VALNCIAOn. Valency, fr. Valence,\. Wer-
pela indeterminao da linguagem de quem               theit-, it. Valenza). Correspondente objetivo ou
fala" (em BALDWIN, Dictionary of Pbilosophy.           noemrico do valor, segundo Husserl: "Por um
II, p. 748). A indeterminao no deve ser iden-       lado falamos da simples coisa que  'valente',
tificada com ambigidade nem com generali-             tem carter de valor, tem V.; por outro, falamos
VALIDADE                                               989                                             VALOR

dos prprios valores concretos ou da objetivi-                o esquema p(p  um esquema vlido, enquan-
dade de valor" (Ldeen, I,  95).                             to o esquema p. V/ coerente, mas no  vlido,
    Peirce estabelecera uma analogia entre as                 porque  s verdadeiro quando p  interpreta-
propriedades das proposies e a V. qumica                  do como verdadeiro e q como falso (Methods
(Coll. Pap., 3, 470-71).                                      of Logic,  6). Nesse sentido, V. significa apenas
    VALIDADE (in. Validity, fr. Validit. ai. Gtil-           analiticidade ou verdade lgica.
 tigkeit; it. Validit). 1. Universalidade subjetiva             VALOR (gr. %a-, lat. Aestimabe. in. Value,
(v. UNIVERSALIDADE, 2): nesse sentido,  vlido              fr. Valeur, ai. Wert; it. Valore). Em geral, o que
o que  (ou deve ser) reconhecido como ver-                  dve ser objeto de preferncia ou de escolha.
dadeiro, bom. belo, etc. por todos.                           Desde a Antigidade essa palavra foi usada para
    2. Conformidade com regras de procedi-                    indicar a utilidade ou o preo dos bens materiais
mento estabelecidas ou reconhecidas. Nesse                   e a dignidade ou o mrito das pessoas. Contu-
sentido, diz-se que h validade na inferncia                do, esse uso no tem significado filosfico por-
que se conforme s regras da lgica, na lei que              que no deu origem a problemas filosficos. O
se conforme s regras constitucionais, na sen-               uso filosfico do termo s comea quando seu
tena que se conforme s leis, na ordem que                  significado  generalizado para indicar qual-
seja ciada peia pessoa a quem caije ci-ia e nas             quer objeto de preferncia ou de escoiiia, o
formas estabelecidas pelas regras. Com esse                  que acontece pela primeira vez com os esti-
sentido, V. deve ser distinguida de valores de               cos, que introduziram o termo no domnio da
verdade, de justia, etc. De fato, uma inferncia            tica e chamaram de V. os objetos de escolha
vlida, isto , realizada em conformidade com                moral. Isso porque eles entendiam o bem em
regras lgicas, no  uma inferncia verdadei-               sentido subjetivo (v. BEM, 2). podendo assim
ra, mas s ser verdadeira se as suas premissas              considerar os bens e suas relaes hierrquicas
forem verdadeiras. Assim, uma lei ou uma sen-                como objetos de preferncia ou de escolha.
tena vlidas nem por isso so justas, etc. (v.,             Por V., em geral, entenderam "qualquer contri-
sobre a V. lgica nesse sentido, Peirce, Coll.               buio para uma vida segundo a razo" (DIG.
Pap., 3168; 7.461).                                          L-, Vil, 105), ou, como diz Ccero, "o que est
    3. Utilidade ou eficincia de um meio ou de              em conformidade com a natureza ou  digno
um instaimento qualquer. Nesse sentido, Dewey                de escolha (selectionedignam): (De finibus, III,
afirmou que as proposies, como meios pro-                  6, 20). Por "estar em conformidade com a natu-
cessivos para conduzir uma pesquisa, no so                 reza", entendiam o que deve ser escolhido em
verdadeiras nem falsas, mas apenas vlidas (s-              todos os casos, ou seja, a virtude; como "digno
lidas, eficientes) ou invlidas (dbeis, inade-              de escolha", entendiam os bens a que se deve
quadas) (Logic, XV; trad. it., pp. 382-83).  a              da.r preferncia, como talento, arte, progresso,
esse significado de V. que se apela sempre que               entre as coisas do esprito; sade, fora, beleza
se usa a expresso vlido para. O que se segue               entre as do corpo; riqueza, fama, nobreza, entre
ao para  o fim ou a funo em relao  qual                as coisas externas (DIG. L, VII, 105-06). A divi-
se considera eficiente o instrumento, o meio ou              so entre V. obrigatrios e V. preferenciais ser
a condio de que se trata. P. ex., um bilhete de            mais tarde expressa como diviso entre V. in-
viagem  vlido para determinado percurso;                   trnsecos ou finais e valores extrnsecos ou ins-
determinada organizao  vlida para determi-               trumentais.
nadas funes, etc.                                             A retomada dessa noo no mundo moder-
    4. Mais particularmente e no domnio da lgi-            no s ocorre com a retomada da noo subjetiva
ca, Carnap props que se chamasse de vlido                  de bem: isso acontece com Hobbes: "O V. de
o enunciado (ou a classe de enunciados) que                  uin homem, como o de todas as outras coisas,
seja conseqncia de uma classe nula de enun-                 seu preo, o que poderia ser pago pelo uso
ciados, e de contravlido o enunciado do qual                do suas faculdades: portanto, no  absoluto,
qualquer enunciado possa ser conseqncia.                   mas depende da necessidade e do juzo de
Os dois termos, nesse sentido, correspondem,                 outro. O preo de um hbil comandante militar
respectivamente, a analtico e contraditrio                  alto em tempo de guerra, presente ou imi-
(lhe Logical Syntax of Imigmige,  48). Analogi-             nente, mas no em tempos de paz" (Leviath., I,
camente. Quine props chamar de vlido o es-                  10). Todavia, a noo de V. s suplantou a de
quema lgico que continua verdadeiro seja qual               bem nas discusses morais do sc. XIX, e mes-
for a interpretao dada a seus smbolos. P. ex..            mo nessa poca isso aconteceu porque foi
VALOR                                               990                                             VALOR

estendido o significado do termo que funda-               relativo, a tal ponto que s vezes os filsofos
mentava ento as cincias econmicas (v. ECO-             se recusam pudicamente a consider-lo autn-
NOMIA POLTICA). Kant identificara o bem com o            tico: o V.-dinheiro.
V. em geral: "Cada um chama de bem aquilo                     1Q A primeira concepo deve, por um la-
que aprecia e aprova, isto , aquilo em que h            do, insistir na ligao do V. com o homem e
um V. objetivo"; e acrescentava que nesse sen-            por outro na independncia do V. A primeira
tido o bem  bem para todos os seres racionais            determinao , de fato, constitutiva do V. e
(Crt. do Juzo,  5). No entanto, limitava-se a          marca a caracterstica que o distingue do bem,
designar com a palavra V. o bem objetivo, ex-             como  tradicionalmente entendido. A segun-
cluindo o agradvel e o belo. A extenso do ter-          da determinao visa a conferir carter absolu-
mo para indicar no s o bem, mas tambm o                to ao V. O conceito Kantiano do apriori pare-
verdadeiro e o belo, se deve aos Kantianos, prin-         cia conter ambas as determinaes; por isso, com
cipalmente  corrente psicologista do Kantismo.           Windelband e Rickent o conceito de V. foi elabo-
Polemizando contra o prprio Kant, Beneke                 rado em relao com o de apriori. Para Windel-
afirmava que a moralidade no pode determi-               band, o V.  o dever-ser de uma norma que tam-
nar uma lei universal da conduta, mas pode                bm pode no se realizar de fato, mas que  a
e deve determinar a ordem dos V. que devem                nica capaz de conferir verdade, bondade e be-
ser preferidos nas escolhas individuais; os               leza s coisas julgaveis (Prludien, 4. ed., 1911,
prprios V. so determinados pelo sentimento              II, pp. 69 ss.). Nesse sentido, os V. no so coi-
(Grundlinien der Sttenlehre, 1837, I, pp. 231            sas ou supra-coisas, no tm realidade ou ser,
ss; Grundlinien des Naturrechtes, 1838, I, pp.            mas seu modo de ser  o dever-ser(sollen). Rickert
41 ss.). Essa orientao da tica para os V., em          repete esse ponto de vista e reitera que o ser
filsofos que se inspiravam em Kant, sem d-              dos V. no consiste na sua realidade, mas em
vida  devida  tendncia psicologizante, que             seu dever-ser. Contudo, em Rickert os V. se
tem como corolrio a noo subjetivista do                transformam em realidades transcendentes.
bem. Mas foi principalmente Windelband quem               Rickert distingue seis domnios do V.: lgica,
falou, nos ensaios depois reunidos em Prel-              esttica, mstica (que  o domnio da santidade
dos (1884), de um "V. de verdade" e de um "V.            impessoal), tica, ertica (que  o domnio da
de beleza", alm de um "V. de bem". Para a difu-          felicidade) e filosofia religiosa. A cada um des-
so desse conceito e do termo V., Nietzsche               ses domnios corresponde um bem (cincia,
contribuiu muito com suas obras fundamentais              arte, uno-todo, comunidade livre, comunidade
Jensetsvon Gut undBse(1886) e ZurGenealo-               de amor, mundo divino); uma relao com o
gie der Moral (1887). Foi mais ou menos a                 sujeito (juzo, intuio, adorao, ao autno-
partir dessa poca que o conceito de V. passa             ma, unificao, devoo); e determinada intui-
a ser fundamental em filosofia, e as discusses           o do mundo (intelectualismo, esteticismo,
em torno dele esgotam quase totalmente o cam-             misticismo, moralismo, eudemonismo, tesmo
po dos problemas morais.                                  ou politesmo) (System der Phosophie, 1921).
                                                          A mediao entre a realidade e os V.  es-
     tambm a partir da mesma poca que                  clarecida por Rickert com o conceito de senti-
tende a reproduzir-se, no campo da teoria dos             do (Sinri): sentido  a referncia da realidade,
V., uma diviso anloga  que caracterizara a             ou de parte dela, ao mundo dos V., por meio
teoria do bem: entre um conceito metafsico ou            da qual os V. ingressam na histria e so rea-
absolutista e um conceito empirista ou subjet-           lizados pelo homem {System der Phosophie, I,
visla do V. O primeiro atribui ao V. um status            pp. 319 ss.). Teorias dos V. muito semelhantes
metafsico, que independe completamente das               a esta foram elaboradas pelo teuto-americano
suas relaes com o homem. O segundo consi-               Ugo Mnsterberg em Philosophie der Werte,
dera o modo de ser do V. em estreita relao com          de 1908, pelo americano W. M. Urban
o homem ou com as atividades humanas. A pri-              ( Valuations: its Nature and Laws, 1919; The
meira concepo  motivada pela inteno de               Intellegihle World, 1920), pelo italiano Guido
subtrair o V., ou melhor, determinados valores            delia Valle (Teoria generale eformule dei V.,
e modos de vida neles fundados,  dvida,                1916) e por numerosos outros escritores. To-
crtica e  negao: essa inteno parece pueril,         das essas teorias omitem o problema que est
se pensarmos que o v. mais solidamente anco-              por trs de sua formulao ou lhe do solues
rado na conscincia dos homens e que mais                 ilusrias. Por um lado, reconhecem que o V.
paixes provoca tambm  o v. mais mutvel e
VALOR                                                 991                                             VALOR

est de algum modo presente no homem, nas                   afirma que os V. tm um "ser em si" indepen-
atividades humanas ou no mundo humano                       dente das opinies do sujeito e que constituem
cuja norma ou dever-ser constitui; por outro,               autnticos objetos; estes, embora no sejam reais
exigem que ele seja independente do reconhe-                como os objetos das cincias naturais, tm um
cimento ou dos feitos humanos e que possua                  modo de ser igualmente imutvel e absoluto
um status indiferente em relao ao mundo hu-               (Ibid., p. 153). Com terminologia diferente por-
mano. Nessas teorias, tende-se a atribuir aos V.            que de natureza teolgica, mas anloga, os mes-
as caractersticas do ser perfeito: unidade, uni-           mos dois aspectos antnimos do V. foram ex-
versalidade e eternidade, em contraposio                 pressos por R. Le Senne, para quem o V.  um
multiplicidade,  particularidade e  mutabi-               Deus-conosco; Deus, que  nico e transcen-
lidade das manifestaes empricas cuja regra               dente; como conosco est em relao com o
eles deveriam constituir. Por outro lado, como              homem e  capaz de gui-lo (Obstacle et valeur,
regras dessas manifestaes, os V. devem ter                 1934, pp. 220 ss.).
com elas uma relao essencial, sem a qual no                  2e O sucesso do termo V. no mundo moder-
poderiam servir nem para julg-las nem para                 no se deve em grande parte  obra de Nietz-
dirigi-las.                                                 sche e ao escndalo que provocou com a preten-
    O conceito Kantiano do a priori transcen-               so de inverter os valores tradicionais. Nietzsche
dental no se revelara eficaz como modelo                   declarava depositar suas esperanas "em esp-
para uma soluo desse problema. Procurou-se                ritos fortes e suficientemente independentes
outro tipo de soluo, atribuindo-se a intuio             para dar impulso a juzos de V. opostos, para
do V. a uma experincia suigeneris, de nature-              reformar e inverter os valores eternos; em pre-
za sentimental. Segundo Scheler, o sentimento               cursores ou homens do futuro, que no presen-
 "uma forma de experincia cujos objetos so               te constituam a semente que obrigar a vonta-
completamente inacessveis ao intelecto, que               de dos milnios a abrir novos caminhos, etc.
cego para eles assim como a orelha e o ouvido               (Jenseits von Gut und Base,  203). Nietzsche
so insensveis s cores"; essa forma de expe-              considerou que a misso de sua filosofia era a
rincia nos apresenta autnticos objetos dis-               inverso dos V. tradicionais, ironizados como
postos numa ordem hierrquica eterna, que so               "V. eternos" (Ecce homo,  4). Essa inverso
os V. (Der Formalsmus in der Ethik, 3a ed.,                consistia substancialmente em substituir os V.
1927, p. 262). Em outros termos, o V.  o objeto            da moral crist, fundada no ressentimento (v.),
intencional do sentimento, assim como a reali-              portanto na renncia e o ascetismo, pelos V.
dade  o objeto intencional do conhecimento;                vitais, que nascem da afirmao da vida, de sua
e esse objeto  apreendido em sua relao hie-              aceitao dionisaca (Genealogie der Moral, I,
rrquica com os outros objetos da mesma es-                  10). '
pcie. A intuio sentimental do V.  tambm                    Essa concepo de Nietzsche foi considera-
um ato de escolha preferencial que segue a                  da uma espcie de relativismo dos V., e como
hierarquia objetiva dos valores, constituda por            tal serviu de alvo para a polmica de todas as
quatro grupos fundamentais: V. do agradvel e               doutrinas absolutistas. Na realidade, em Nietz-
do desagradvel, correspondentes  funo do                sche, so poucos os indcios de uma relativida-
gozo e do sofrimento; V. vitais, corresponden-              de dos V.: sua inteno , antes, restabelecer
tes aos modos do sentimento vital (sade, doen-             uma tbua autntica de V., que  a dos V. vitais,
a, etc); V. espirituais, ou seja, estticos e cog-         em lugar dos V. fictcios, adotados pela moral
nitivos; e V. religiosos (Op. cit., pp. 103 ss.).           do ressentimento. A tese autntica de Nietzsche
   Esta soluo de Scheler, porm, trazia de                 de intrnseca relao entre o ser do V. e o ho-
novo  tona, no domnio da intuio funda-                  mem, de tal maneira que no h V. que no
mental, a mesma antinomia que caracteriza a                 seja uma possibilidade ou um modo de ser
interpretao neocriticista ou transcendental do            do homem.  esta a tese caracterstica da in-
valor. E essa antinomia era justamente tomada               terpretao do V. que chamamos de empirista
como caracterizao do V. por Hartmann; este                ou subjetivista. Meinong foi o primeiro a reapre-
por um lado afirma que os V. so V. s em rela-             sentar explicitamente essa tese, ao reduzir o V.
o ao ser do sujeito, reconhecendo portanto a              de um objeto  sua "fora de motivao" ("ber
relacionabilidade (e no relatividade) deles                Werthaltung und Wert" em Archiv fr syste-
(Ethik, 3a ed., 1949, p. 141). Por outro lado,              matische Philosophie, 1895, p. 341). Ehrenfels,
VALOR                                                992                                              VALOR


observando que, com base nessa definio, s               antinmicos: cada ponto da histria est em
teriam V. os objetos existentes, definiu o V. como         relao direta com a esfera dos V. absolutos e
simples "desejabilidade" (System der Wertheorie,           contm em si tais V. sem relativiz-los  sua mu-
I, 1897, p. 53). Essa definio de Ehrenfels              tabilidade (Der Hstorismus und seine Pro-
importante porque introduz pela primeira vez               bleme, 1922, Gesammelte Schriften, III, p. 211).
e de modo explicito a conotao da possibili-              Do mesmo modo, Meinecke afirmava que a re-
dade na noo de V. V. no  a coisa desejada,             lao com o Absoluto  constitutiva da histria,
mas o objeto desejvel: no  coisa no sentido             mas que essa relao vai do infinito para o finito,
de no ser necessariamente um objeto real:                 e no o inverso: de sorte que, enquanto a hist-
no  desejado porque simplesmente pode s-                ria encontra fundamento nos V. que realiza, o
lo. No tem significado diferente a definio de           modo de ser destes V.  irredutvel  relativi-
V. apresentada alguns anos mais tarde por R.               dade histrica e conserva validade incondicio-
B. Perry, para quem "todo objeto, qualquer                 nal (Die Entstehung des Historismus, 1936, II,
que seja, adquire V. quando  investido por um             p. 645).
interesse qualquer" (General Theory of Value,                  Como se v, no interior desta segunda inter-
1926, 2a ed., 1950, p. 116): de fato, o interesse,         pretao fundamental do V., reproduz-se uma
diferentemente do desejo,  apenas uma pos-                situao anloga  que se verificou na primei-
sibilidade.                                                ra: a atribuio de duas caractersticas opostas
    Foi exatamente no mbito dessa concepo               ao V., absolutidade e relatividade: a primeira
de V. que nasceu o relativismo dos valores; isso           constituiria o modo de ser do valor em si, o
aconteceu no corao do historicismo, da con-              segundo o seu modo de ser na histria. O pres-
siderao da relao entre os V. e a histria. O           suposto dessa oposio  o carter de relativi-
primeiro a defender o relativismo dos V. foi               dade atribudo  histria e em geral a tudo o
Dilthey: "A prpria histria  a fora que pro-            que encontra lugar na histria, entendida se-
duz as determinaes de V., idias e metas,                gundo o esquema de Bergson como uma cria-
com base nos quais se determina o significa-               o contnua, em que tudo se cria e se destri
do de homens e acontecimentos" (Gesammelte                 a cada instante. Portanto, no h vestgio de
Schriften, VH, p. 290). Portanto, os V. e as nor-          relativismo dos V. onde no h vestgio de re-
mas nascem e morrem na histria e no subsis-              lativismo histrico e onde h um conceito me-
tem fora dela nem acima de seu curso (Ibid., p.            nos superficial e diletante de histria. Mesmo
290). O relativismo dos V. em relao  histria           insistindo na pluralidade dos V. e das esferas
foi afirmado ainda mais explicitamente por                 de V., Max Weber no via na histria uma
Simmel. Partindo do reconhecimento da relati-              incessante criao de V., cada um deles relativo a
vidade do V. econmico, Simmel chegou ao                   um momento da histria, nem uma relao fu-
reconhecimento da relatividade de todos os V.:             gaz com V. Absolutos, mas uma luta entre dife-
o V. nunca  uma entidade objetiva, mas sua                rentes V.  escolha do homem (Gesammelte
objetividade deriva apenas da correlao entre             Politische Schriften, p. 63; v. PIKTRO ROSSI, LO
sujeito e objeto. Portanto, no existem V. absolu-         storicismo tedesco contemporneo, pp. 367 ss.).
tos, e so V. s aqueles que, em determinadas              O mesmo reconhecimento da multiplicidade
condies, os homens reconhecem como tais.                 dos V. e da importncia da escolha que essa
A esfera dos V. distingue-se da esfera da reali-           multiplicidade est sempre a exigir do homem
dade, no com base num status ontolgico                   encontra-se em Dewey, que, exatamente por
prprio, mas por uma qualificao categorial,              isso, definiu a filosofia como "crtica dos V.": "A
que pode ser aplicada a qualquer objeto (Philo-            confuso em que todas as teorias do V. incidi-
sopbie des Geldes, 1900, I,  1). O historicismo           ram, entre determinada posio na relao causai
alemo, todavia, no foi unnime em reconhe-               ou sucessiva e o V. propriamente dito,  uma
cer essa relatividade; considerou-a sempre co-             prova indireta de que toda valorao inteligen-
mo um perigo, mas s vezes quis evit-la. Foi              te  tambm crtica, isto , juzo da coisa que
Troeltsch o primeiro a formular claramente a               tem V. imediato. Toda teoria do V.  necessa-
anttese entre relatividade histrica e absolutis-         riamente um ingresso no campo da crtica"
mo dos V., ao mesmo tempo em que procura-                  (Experience and Nature, 1926. p. 397). Mas a
va recuperar esse absolutismo no prprio m-               crtica dos V. nesse sentido nada mais  que a
bito do historicismo. A soluo que ele deu               disciplina inteligente das escolhas humanas.
anttese  a coincidncia entre os dois termos             Tal disciplina implica em primeiro lugar a con-
VARIAES CONCOMITANTES                               993                                         VELEIDADE

siderao da relao existente entre meios e                Methode der einander begleilenden Vern-
fins, de tal modo que no se pode julgar dos                derungen; it. Mtodo delle variazioni conco-
fins a no ser julgando ao mesmo tempo dos                  mitanti). Foi esse o nome dado por J. Stuart
meios que servem para alcan-los (Theory of                Mill a um dos mtodos indutivos j ilustrados
 Valuation, 1939, p. 53)- Por outro lado, a crtica         por Herschel (A Discourse on the Study qf Na-
dos V. no poderia ser eficazmente instituda               tural Philosophy,  145), que se expressa com
sem levar em conta outro aspecto dos V. em                  a seguinte regra: ''Qualquer fenmeno que va-
que R. Frondizi insistiu muito: a conexo entre             rie de qualquer maneira sempre que outro fe-
V. e situao: "A organizao econmica e ju-               nmeno variar de alguma maneira particular 
rdica, os hbitos, a tradio, as crenas religio-         causa ou efeito desse fenmeno ou est ligado
sas e muitas outras formas de vida que transcen-            a ele por meio de algum fato de causao"
dem a tica contribuem para configurar deter-               (Logic, III, VIII,  6). As outras regras da induo
minados valores que, ao contrrio, so con-                 so o mtodo da concordncia, o mtodo da
siderados existentes num mundo estranho                    diferena e o mtodo dos resduos, sobre os
vida do homem. Embora o V. no possa deri-                  quais v. os respectivos verbetes.
var exclusivamente de elementos de fato, tam-
                                                               VARIVEL. V. CONSTANTE.
pouco pode prescindir de conexo com a rea-
lidade. Uma separao dessas condena quem a                     VEDANTA (in. Vedanta, fr. Vedanta; ai. Ve-
executa a manter-se no plano desencarnado                   dnta; it. Vedanta). Um dos grandes sistemas filo-
das essncias" (Qu son los valores?, 1958, p.              sficos da ndia antiga, codificado no Brahma-
127). Os estudos contemporneos, elaborados                 sutra ou Vedntasutra, atribudo a Badarayana
com base nesse pressuposto negativo, eviden-                (talvez sc. III d.C). O princpio do sistema  o
ciaram os seguintes aspectos:                               Brahman ou tman, considerado como nica
                                                            realidade: o mundo  aparncia enganadora,
    le O V. no  somente a preferncia ou o                maya. Segundo esse sistema, Sankara supunha
objeto da preferncia, mas  o prefervel, o dese-          cjue o eu individual  idntico a Brahman ou
jvel, o objeto de uma antecipao ou de uma                Atman, enquanto Ramanuja elaborava um siste-
expectativa normativa (v. DEWEY, The Field of               ma testa, distinguindo de Brahman tanto o mun-
 Value: a Cooperative Inquiry, ed. Ray Lepley,              do criado quanto as almas individuais (DAS GUFIA,
1949, p. 68; Q.YDi-, KLUCKOHN e outros, em 7b-
                                                            A History of Indian Philosophy, 1932-55, III; C.
ward a General Theory ofAction, ed. Parsons e
Schils, 1951, p. 422).                                      Tucci, Storia delia filosofia indiana, 1957, pp.
                                                            136 ss.).
   2" Por outro lado, no  um mero ideal que
possa ser total ou parcialmente posto de lado                   VECULO SIGNITIVO (in. Sign Vehicle). Um
pelas preferncias ou escolhas efetivas, mas               dos quatro componentes do processo semiol-
guia ou norma (nem sempre seguida) das esco-                gico (ao lado do designado, do interpretante e
lhas e, em todo caso, seu critrio de juzo (v. C.          do intrprete), segundo Morris; mais precisa-
MORRIS, Varieties ofHuman Value, 1956, cap. I).             mente, o objeto ou coisa que funciona como
    3a Conseqentemente, a melhor definio                 signo (Foundations ofthe Theory ofSigns, 1938,
de V.  a que o considera como possibilidade                 2) (v. SIGNO).
de escolha, isto , como uma disciplina inteli-                VELEIDADE (in. Velleity, fr. Vellit, ai. Vellei-
gente das escolhas, que pode conduzir a elimi-              tt; it. Velleit). Esforo impotente ou malsu-
nar algumas delas ou a declar-las irracionais              cedido. Esse termo encontra-se em Locke, que
ou nocivas, e pode conduzir (e conduz) a pri-               com ele designa "a gradao mais baixa do de-
vilegiar outras, ditando a sua repetio sempre             sejo, que est mais prxima da inexistncia"
que determinadas condies se verifiquem.                   (Ensaio, II, 20, 6). Esse termo aparece com
Em outros termos, uma teoria do V., como crti-             sentido anlogo em Leibniz, para quem  "uma
ca dos V., tende a determinar as autnticas pos-            espcie bastante imperfeita de vontade condi-
sibilidades de escolha, ou seja, as escolhas que,           cional", ou seja, de uma vontade que, se pu-
podendo aparecer como possveis sempre nas                  desse, se empenharia, mas no pode (Thod.,
mesmas circunstncias, constituem pretenso                 III, 404). Esta considerao est muito mais
do V.  universalidade e  permanncia.                     prxima do significado moderno do termo, sen-
   VARIAES CONCOMITANTES, METO                            do tambm, por outro lado, o significado mais
DO DAS (in. Method of concomitant variations;               antigo. S. Toms entendia por V. uma vontade
fr. Mthode des variations concomitantes; ai.               antecedente, que pode ser ou permanecer sus-
VERACIDADE                                              994                                           VERDADE

 pensa, assim como a vontade do juiz que, co-                 entre definio de V. e critrio de V. Essa dis-
 mo homem, gostaria que o ru vivesse, mas                    tino nem sempre  feita, nem  freqente;
que, no entanto, deseja que ele seja enforcado                quando feita, representa apenas a admisso de
(5. Th., I, q. 19. a. 6, ad. ]'-').                           duas definies de V. P. ex., quando se faz a dis-
    VERACIDADE (in. Tnithfnlness; fr. Vra-                   tino entre teoria da correspondncia e critrio
 cit, ai. Wahrhaftigkeit; it. Veracit). 1. Carter          de V., este  definido como evidncia recorren-
do discurso que exprime a convico de quem                   do-se ao conceito de V. como revelao, e a
o pronuncia e, portanto, no pode ser fonte de                teoria da V. como conformidade a uma regra,
engano em quem ouve. Nesse sentido, Locke                     apresentada por Kant como critrio formal ao
chamava a V. de "verdade moral", e a distin-                  lado do conceito de V. como correspondncia,
guia de verdade "metafsica", que  a confor-                 torna-se ento uma definio da prpria V.
midade das idias s coisas (Ensaio, IV, 5, II).                   possvel distingtiir cinco conceitos funda-
Mas para isso Leibniz usava a palavra V. (Nouu.               mentais de V.: 1B a V. como correspondncia;
ess., IV, 5, 11).                                             2- a V. como revelao; 3Q a V. como conformi-
     2. s vezes, V. significa sinceridade, que               dade a uma regra; 4- a V. como coerncia; 5-Q a V.
no  uma qualidade do discurso, mas da pes-                  como utilidade. Essas concepes tm impor-
soa que faz habitualmente discursos verazes. Nes-             tncias diferentes na histria da filosofia: as duas
se sentido, Descartes falara em "V. divina", afir-            primeiras, em especial a primeira, sem dvida
mando que Deus no pode enganar-nos, no                       so as mais difundidas. No so nem mesmo
sentido de no poder ser causa de erros (Md.,                alternativas entre si:  possvel encontrar mais
IV).                                                          de uma no mesmo filsofo, embora usadas
    VERBAIISMOn. Verbalism; fr. Verbalisme,                  com propsito diferente. No entanto, por se-
it. Verbalismo). 1. Expresso verbal de pouco                 rem dspares e mutuamente irredutveis, de-
                                                              vem ser consideradas distintas.
significado ou de significao indefinido; ten-
dncia a valer-se dessas expresses.                              le O conceito de V. como correspondncia
    2. Uma expresso verbal.                                   o mais antigo e divulgado. Pressuposto por
                                                              muitas das escolas pr-socrticas, o primeiro a
   VERBO1. V. LOGOS.
                                                              formul-lo explicitamente foi Plato, na defini-
   VERBO2 (gr. pipa; lat. Verbum, in. Verb, fr.               o do discurso verdadeiro feita em Crta "Ver-
 Verbe, ai. Zeitwort; it. Verbo). Como parte do               dadeiro  o discurso que diz as coisas como so;
discurso, o V. foi definido por Aristteles como              falso  aquele que as diz como no so" (Crat.,
"o nome em cujo significado h uma determi-                   385 b; v. Sof., 262 e; Fil, 37 c). Por sua vez,
nao temporal, cujas partes nada significam                  Aristteles dizia: "Negar aquilo que  e afirmar
separadamente e que  o signo das coisas que                  aquilo que no ,  falso, enquanto afirmar o que
se dizem de outra coisa" (De int., 3, 16 b 6).                 e negar o quevno ,  a verdade" (Met., IV,
Essa definio foi conservada pela lgica me-                 7. 1011 b 26 ss.; v. V, 29, 1024 b 25). Aristteles
dieval (v. PEDRO HISPANO, Summ. log., 1.05). Na               enunciava tambm as duas teses fundamentais
lingstica moderna, a distino entre nome e                 dessa concepo de verdade. A primeira  que
verbo tornou-se muito menos importante, vis-                  a V. est no pensamento ou na linguagem, no
to que, embora comum a muitas lnguas, no                    no ser ou na coisa (Met,, VI, 4, 1027 b 25). O se-
existe em outras (BLOOMFIELD, Language, 1933,                 gundo  que a medida da V.  o ser ou a coisa,
p. 20).                                                       no o pensamento ou o discurso: de modo que
   VERDADE (gr. W)0eia; lat. Ventas; in.                     uma coisa no  branca porque se afirme com
Truth; fr. Vrit, ai. Wahrheit; it. Venta). Validade         V. que ela assim , mas afirma-se com V. que
ou eficcia dos procedimentos cognoscitivos.                  ela  branca porque  (Met., IX, 10, 1051 b 5).
Em geral, entende-se por V. a qualidade em                        Nas doutrinas anteriores a definio de V. e
virtude da qual um procedimento cognoscitivo                  o critrio de V. coincidem. Em outras doutrinas,
qualquer torna-se eficaz ou obtm xito. Essa                 mesmo mantendo-se fixa a definio de V., o
caracterizao pode ser aplicada tanto s con-                critrio de V.  considerado diferente;  o que
cepes segundo as quais o conhecimento                      acontece no estoicismo e no epicurismo. Esti-
um processo mental quanto s que o conside-                   cos e epicuristas continuam admitindo que a V.
ram um processo lingstico ou semitico. Ade-                 a correspondncia entre o conhecimento e a
mais, tem a vantagem de prescindir da distino               coisa (SEXTO EMPRICO, Adv. math., VIII, 38; II, 9),
VERDADE                                                    995                                           VERDADE

mas julgam que o critrio da V.  diferente, por-                SAINT-POURAIN,     In Senl., I, d. 19, q. 5). O con-
que para os esticos ele est na representao                   ceito de adequao ou conformidade, porm,
catalpticaiv.), que  a manifestao do objeto                  perde alcance metafsico e teolgico para as-
para o homem, enquanto para os epicuristas                       sumir significado estritamente lgico ou, como
ele est na sensao, que  o prprio manifes-                   hoje se diria, semntico. A identificao polmi-
tar-se da coisa (DIG. L, X, 31 ) Nesses casos,                 ca, defendida por Ockham, entre "V." e "propo-
a distino entre V. e critrio eqivale a reconhe-              sio verdadeira" eqivale propriamente  ne-
cer dois conceitos de V., considerados compa-                    gao do valor metafsico da palavra V. (Summa
tveis (ou no incompatveis).                                   log., I, 43; Quodl., V. q. 24). Os platnicos de
    Ademais, a coexistncia de dois conceitos                    Cambridge mantm, por motivos bvios, o
de V. no  rara. Muitas vezes a teoria da cor-                  carter metafsico e teolgico da noo de corres-
respondncia  acompanhada pela teoria da V.                     pondncia, falando de conformidade da coisa
como manifestao ou revelao. S. Agostinho,                    consigo mesma ou com a sua essncia contida
por um lado, define a verdade como "aquilo                       rio intelecto divino (v. HERBHRT DE CHERBURY, De
que  como aparece" (Soll, II, 5) e por outro                   Veritate, 1656, pp. 4 ss.), mas Hobbes insiste no
considera como V. "aquilo que revela o que ,                    ponto de vista nominalista da V. como simples
ou que se manifesta a si mesmo"; nesse senti-                    atributo das proposies (De corp., 3.  7); is-
do, identifica a V. com o Verbum ou Logos, que                   so tambm foi feito por Locke (Ensaio, II, 32.
 a primeira manifestao imediata e perfeita                    3-19) e at por Leibniz, que rejeita a noo
do ser, ou seja, de Deus (De vera rei, 36). Por                  metafsica de V. como "atributo do ser" e limi-
sua vez, S. Toms, retomando uma definio                       ta-se a ver na V. "a correspondncia das propo-
de Isaac Ben Salomon, do sculo IX, define a                     sies, que esto no esprito, com as coisas das
V. como ''adequao entre o intelecto e a coisa"                 quais se trata" (Nouv. ess., IV, 5. 11). Wolff unia
(S. 'lh., I, cj. 16, a. 2; Contra Gent., I, 59; De ver.,         O conceito de V. como "concordncia do nosso
q. I, a. I), mas, ao mesmo tempo em que man-                     juzo com o objeto, ou seja, com a coisa repre-
tm, com relao ao homem, a tese aristotlica                   sentada" (Log.,  505) -- que ele chamava de
de que as coisas -- e no o intelecto -- so a                   definio nominal da V. -- com a noo lgica
medida da V. inverte essa tese no que diz res-                   da V. como "determinabilidade do predicado
peito a Deus: "O intelecto divino  mensurante,                  por meio da noo do sujeito" -- que ele chama-
e no mensurado; a coisa natural  mensurante e                  va de definio reaKLbid.,  513). Baumgarten
mensurada, mas o nosso intelecto  mensura-                      retornava  noo de V. metafsica como "or-
do, e no mensurante, em relao s coisas                       clem da multiplicidade na unidade" (Met.,  89),
naturais;  mensurante s em relao s coisas                   enquanto Kant declarava pressupor simples-
artificias" {De ver, q. I, a. 2). Portanto, existe               mente a "definio nominal da V." como "acor-
tambm uma V. das coisas, que  aquilo em                        do do conhecimento com o seu objeto", e pro-
virtude do que as coisas se assemelham ao seu                    punha o problema de encontrar um critrio
princpio, que  Deus; nesse sentido Deus  a                    para a V. Excluindo a possibilidade de um crit-
primeira e suprema V. (S. Th., I, q. 16, a. 5). Esses            rio geral, vlido para qualquer conhecimento, ele
conceitos so freqentes na filosofia medieval.                  se detinha no critrio formal da V., que  a con-
O conceito de V. como correspondncia  am-                      formidade do conhecimento com as suas re-
plamente empregado. Pedro Hispano (Summ.                         gras (Crt. R. Pura, Lgica, Intr., III; v. adiante).
log., 3.34), Herveus Natalis (Quodl, III, I), An-                Esse conceito de V. como correspondncia nun-
tnio Andra {Super artem veterem, ed. 1508, f.                  ca esteve ausente, nem na filosofia mais recen-
45rA) mantm a teoria da V. como conformida-                     te, pela qual s vezes  assumido como simples
de entre intelecto e coisa, embora polemizando                   pressuposto, s vezes explicitamente defendi-
sobre o modo de ser da coisa, ou mais exata-                     do. Isso aconteceu especialmente nas corren-
mente dos objetos aos qviais o intelecto deve                    tes realistas (v., p. ex., BOL7.ANO, Wissenschaft-
conformar-se. Em geral, na Escolstica da se-                    slehre, I,  25; A. MEINONG, ber Annabmen,
gunda metade do sc. XIII e na do XIV. espe-                     pp. 125 ss.). Exatamente no esprito do realis-
cifica-se que a "coisa"  qual o intelecto deve                  mo, N. Hartmann defendeu a concepo da V.
conformar-se  a "res ntellecta", isto , a coisa               como "coincidncia com um objeto que deve
como  apreendida pelo intelecto, no exterior                   ser entendido como tal" (Systematische Philo-
ao prprio intelecto (v. Tambm DURAND DK                        sophie,  9). Hartman estende o conhecimento
VERDADE                                              996                                            VERDADE

como "reflexo do ser sobre si mesmo" (Meta-               Tem duas formas fundamentais: uma empirista
physik der Erkenntnis, 1921, cap. 27, b).                  e outra metafsica ou teolgica. A forma empi-
    Os lgicos contemporneos tambm recor-                rista consiste em admitir que a V.  o que se reve-
rem  doutrina da correspondncia, procuran-               la imediatamente ao homem, sendo, portanto,
do formul-la de tal modo que ela seja indepen-            sensao, intuio ou fenmeno. A forma me-
dente de qualquer hiptese metafsica. Deste               tafsica ou teolgica afirma que a V. se revela em
ponto de vista, quem melhor formulou essa                  modos de conhecimento excepcionais ou pri-
teoria foi Alfred Tarski, que retomou explicita-           vilegiados, por meio dos quais se torna eviden-
mente, alm da definio aristotlica acima,               te a essncia das coisas, seu ser ou o seu princ-
tambm algumas definies anlogas ou de-                  pio (Deus). A caracterstica fundamental dessa
pendentes delas, como aquela segundo a qual                concepo  a nfase dada  evidncia, assu-
"um enunciado  verdadeiro quando designa um               mida ao mesmo tempo como definio e crit-
estado de coisa existente" (B. RUSSELL, An Inquiry         rio da verdade. Mas a evidncia, obviamente,
nto Meaning and Truth, 1940, pp. 362 ss.).                nada mais  que revelao ou manifestao.
Tarski partiu de uma equivalncia do seguinte                  No sentido empirista, a V. era considerada
gnero: "O enunciado 'a neve  branca'  ver-              como revelao pelos cirenaicos, que viam nas
dadeiro se, e somente se, a neve for branca",              sensaes a prpria evidncia das coisas (SEX-
para generaliz-la na frmula: "X  verdadeiro             TO EMPRICO, Adv. math., VII, 199-200), pelos
se, e somente se, p". Utilizando a noo semn-            epicuristas, que consideravam a sensao co-
tica de satisfao entendida como a relao                mo o critrio da V. (DIG. L, X, 31-32), e pelos
entre objetos arbitrrios e determinadas ex-               esticos, para os quais esse critrio estaria na
presses chamadas de "funes enunciativas"                representao catafptica (v.) (DiG. L, VII,
do tipo "x branco", "x maior que y", etc,                54). Em Ockham, a noo de conhecimento
Tarski chegou  seguinte definio de V.: " Um             intuitivo  a noo de manifestao imediata
enunciado ser verdadeiro se for satisfeito por            das coisas para o homem (das coisas em seus
todos os objetos; caso contrrio, ser falso".             caracteres e nas suas relaes) (In Sent., Prol.,
Tarski salientou o fato de que a noo semn-              q. I, Z). No mesmo esprito, Telsio dizia que as
tica de V. (como ele a chamou e como habi-                 coisas "retamente observadas manifestam por
tualmente se chama) nada implica quanto s                 si mesmas a grandeza que cada uma tem, bem
condies nas quais um enunciado como "a                   como sua capacidade, suas foras, sua natureza";
neve  branca" pode ser asseverado. Indica s              para ele, a sensao era essa revelao imedi-
que, sempre que afirmamos ou rejeitamos esse               ata das coisas (Derer. nat., I, Proem.). Em geral
enunciado, deveremos estar prontos a afirmar               todas as doutrinas que confiam  sensibilidade
ou rejeitar o enunciado correlativo "O enuncia-            o conhecimento das coisas tendem a discernir
do 'a neve  branca'  verdadeiro". Desse modo,            na sensibilidade a revelao da natureza das
ele considera que o conceito semntico de V.               coisas e identificam com tal revelao a prpria
pode conciliar-se com qualquer atitude epis-               verdade ou o critrio de verdade.
temolgica, sendo neutro em relao a qual-                    Por outro lado, da prpria interpretao me-
quer concepo realista ou idealista, empirista            tafsica ou teolgica da V. como correspondncia
ou metafsica do conhecimento (The Semantic                nasce o conceito de V. como manifestao do
Conception of Truth", 1944, em Readings in                 ser ou do princpio supremo. Plotino dizia: "A
Phosophical Analyss, 1949, pp. 52-84; a con-             verdade verdadeira no est de acordo com
cepo de Tarski foi exposta pela primeira vez             outra coisa, mas de acordo consigo mesma: ela
num texto polons de 1933. traduzido para o                no enuncia nada fora de si, mas enuncia o que
alemo em Studia philosopbica, de 1935. pp.                ela mesma " (Enn., V, 5, 2). Nesse sentido,
261-405). Carnap aceitava essa concepo-da                a V.  hipostasiacla: no  o carter formal de
verdade, mas ressaltava que ela diferia funda-             certos procedimentos cognoscitivos, mas prin-
mentalmente dos conceitos de crena, verifica-             cpio metafsico ou teolgico que tem a mesma
o, confirmao, etc. (Intmductiori to Semantics,         substancialidade e a mesma dignidade do princ-
 7). M Black enfatizou a insignificncia filos-          pio que nela se manifesta, ou seja. Deus. Esse
fica dela (Language and Philosophy, IV,  8).              conceito  tema de numerosas especulaes na
   2" A segunda concepo fundamental de V.                filosofia patrstica e escolstica. S. Agostinho afir-
considera-a como revelao ou manifestao.                ma dever existir uma natureza que esteja to
VERDADE                                              997                                           VERDADE

prxima da unidade que a reproduz em tudo e                tude naturalista que consiste em afirmar a reali-
 una com ela; essa natureza  a V. ou Verbo               dade das coisas no mundo, tende a possibilitar
de Deus (De vera rei, 36).  comum na Escols-             que as prprias coisas manifetem sua essncia.
tica a doutrina de que a verdade  o prprio in-           Desse ponto de vista, a V.  a evidncia com
telecto ou Verbo de Deus (ANSELMO, De Veritate,            que os objetos fenomenolgicos se apresen-
14; S. TOMS, De ver., q. I, a. 4).                        tam quando a epoch  efetuada (Ideen, I,
    Mais tarde, o mesmo conceito de V. como                 136). Portanto, segundo Husser, V. e evidncia
revelao levou a reconhecer, com base no cri-             pertencem no s aos objetos tericos, mas a
trio de evidncia, a existncia de V. eternas.            todos os objetos da considerao fenomenol-
Descartes viu no cogito(y) a evidncia origin-            gica, sejam eles valores, sentimentos, etc. (Ibid.,
ria, pela qual a existncia do sujeito pensante se          139). Por sua vez, Heidegger insistiu no carter
revela ao prprio sujeito pensante, e conside-             de revelao ou de descobrimentoi V, recorrendo
rou que deveria ser considerado como verda-                inclusive  etimologia da palavra grega. Assim,
deiro tudo o que se manifesta de modo eviden-              por um lado insistiu no nexo estreito entre o
te. No mbito do que se manifesta desse mo-                modo de ser da V. e o modo de ser do homem,
do, Descartes ps as V. eternas, estabelecidas             ou ser-a, porquanto s ao homem a V. pode
e garantidas pela imutabilidade de um decreto              revelar-se e revela-se (Sein nnd Zeit,  44). Por
de Deus (Md., IV; Princ.phil., I, 49). Segun-             outro lado, insistiu na tese de que o lugar da V.
do Descartes, as V. eternas so garantidas e               no  o juzo, e que a V. no  uma revelao de
reveladas diretamente por Deus, e por isso                 carter predicativo, mas consiste no ser descoberto
so eternas (Repouses, IV, 4). Assim tambm                do ser das coisas, ou das prprias coisas, e no ser
pensava Malebranche, embora para ele, ao con-              descobridor do homem (Ibid.,  44 b; v. Vom
trrio de Descartes, elas no seriam postas, mas            Wesen cies Gntndes, I, trad. it., p. 20). Heidegger,
simplesmente reconhecidas e validadas por Deus             porm, tambm ressaltou o fato de que cada
(Recbercbe de Ia vrt, X clairissement). Mas            descobrimento do ser, por ser parcial, tambm
o conceito da V. como revelao foi muito pre-              um cobrimento dele; esse tema  recorrente
zada pelo Romantismo, que, em seu aspecto                  sobretudo nos seus textos do segundo perodo.
essencial, poderia ser classificado como filoso-           "O ser subtrai-se, ao mesmo tempo em que se
fia da revelao (v. ROMANTISMO). Hegel dizia:             revela, ao ente. Desse modo o ser, ao iluminar
"A idia  a V.: porque a V.  a correspondncia           o ente, desencaminha-o ao mesmo tempo para o
entre a objetividade e o conceito. No no sen-             erro" Holzwege, p. 310).
tido de que se as coisas externas correspondem                 5" A terceira concepo considera a V. como
s minhas representaes: estas so, nesse ca-             conformidade com uma regra ou um conceito. O
so, apenas representaes exatas que eu te-                primeiro a enunciar essa noo foi Plato. "Ao
nho como indivduo. Mas no sentido cie que todo            tomar como fundamento o conceito que consi-
o real, enquanto verdadeiro,  a idia e s tem V.         dero mais slido, tudo o que me parea estar de
por meio da idia e nas formas da idia" (Ene,             acordo com ele ser por mim posto como ver-
 213). Em outros termos, a Idia  "a objeti-             dadeiro, quer se trate de causas, quer se trate de
vidade do conceito", a racionalidade do real,              outras coisas existentes; o que no me parea
mas  medida que se manifesta  conscincia                de acordo com ele ser por mim posto como
na sua necessidade, ou seja, como saber ou cin-           no verdadeiro" (Fed., 100 a). Essa concepo
cia (System der Phosophie, ed. Glockner, I, p.            reaparece esporadicamente na histria da filo-
423: Wissenschaft der Logik, ed. Glockner, II,             sofia. S. Agostinho afirmava que "acima da nos-
p. 275): e o saber e a cincia so a automanifes-          sa mente h uma lei chamada V." e que ns
tao da Idia, vale dizer, sua autntica e com-           podemos julgar todas as coisas em conformida-
pleta revelao.                                           de com essa lei, que no entanto escapa a qual-
   Como meio-termo entre a forma emprica e                quer juzo (De vera rei., 3O-3D. Na literatura
a forma teolgica dessa concepo de V., est              de inspirao agostiniana, esse tema retorna
a concepo fenomenolgica e existencialista.              com freqncia, porm a mais importante ex-
A fenomenologia , segundo conceito prprio,               presso deste conceito de V. encontra-se em
um mtodo que possibilita s essncias mani-               Kant. Este, de fato, no se vale dessa noo para
festar-se ou revelar-se como tais. A epochiy.)            a definio da V. (pois como dissemos, ele de-
fenomenolgica, ao pr entre parnteses a ati-             clara pressupor a definio nominal da. V., que
VERDADE                                                  998                                        VERDADE

 a da correpondncia), mas como critrio de                   ta (Ibid., p. 362). Esses conceitos aparecem em
V. Segundo Kant, o critrio pode referir-se s                grande nmero de pensadores da mesma ten-
forma da V., ou seja, do pensamento em geral,                  dncia (v. IDEALISMO), sem que a noo de coe-
e consiste na conformidade com "as leis gerais                 rncia seja por isso modificada ou esclarecida
necessrias do intelecto". "O que contradiz es-                (v. COERNCIA). OS precedentes dessa doutrina
sas leis" -- afirma Kant -- " falso, porque o                 no esto tanto em Hegel (a quem, todavia, os
intelecto nesse caso contradiz suas prprias                   idealistas ingleses se referiam com mais fre-
leis, portanto a si mesmo." Todavia, esse crit-               qncia), mas em Spinoza. Na realidade, no
rio formal no basta para estabelecer a verdade                passa de transcrio daquilo que Spinoza cha-
material, ou objetiva, do conhecimento; alis, a               mava de "terceiro gnero de conhecimento" ou
tentativa de transformar esse cnone de avalia-                "amor intelectual por Deus": conhecimento da
o formal em rgo de conhecimento efetivo                    ordem total e necessria das coisas, que Spinoza
no passa de uso dialtico, ou seja, ilusrio da               identificava com o Deus {Et., V, 25).
razo (Cn?. R. Pura, Lgica, Intr., III; Logk, Intr.,             5Q A definio da V. como utilidade perten-
VII). Esse critrio foi acolhido e acentuado                   ce a algumas formas da filosofia da ao, espe-
pelos neokantianos, sobretudo pelos da Escola
                                                               cialmente o pragmatismo. Mas o primeiro a
de Baden. Windelband considerava que o obje-
to do conhecimento, aquele que mede e deter-                   formul-la foi Nietzsche: " Verdadeiro em geral
mina a V. do conhecimento, no  uma realida-                  significa apenas o que  apropriado  conser-
de externa (que como tal seria inalcanvel e                  vao da humanidade. O que me faz perecer
incognoscvel), mas a regra intrnseca do pr-                 quando lhe dou f no  verdade para mim: 
prio conhecimento (Prhuiien, 1884, 4- ed., 1911,              uma relao arbitrria e ilegtima do meu ser
passim). Rickert identificava o objeto do co-                  com as coisas externas" (.Wille zurMacht, ed.
nhecimento com a norma  qual o conheci-                       Krner, 78, 507). Foi o pragmatismo que difun-
mento deve adequar-se para ser verdadeiro                      diu essa noo, defendida primeiramente por
(Der Gegenstad der Erkenntnis, 1892). Nesses                   W. James. Este, porm, identificou utilidade e
neokantianos, a conformidade com a regra --                    V. s nos limites das crenas empiricamente
que Kant propusera simplesmente como crit-                    no verificveis ou no demonstrveis, tais co-
rio formal de V. -- torna-se a nica definio                 mo as morais e as religiosas (The Will to Be-
de V.                                                          lieve, 1897). A equao entre utilidade e V. foi
                                                               estendida a toda a esfera do conhecimento por
    4- A noo de V. como coerncia aparece                    E. C. S. Schiller (Humanism, 1903 e textos se-
no movimento idealista ingls da segunda me-                   guintes). Desse ponto de vista, uma proposi-
tade do sc. XIX e  compartilhada por todos                   o, qualquer que seja o campo a que perten-
os que participaram desse movimento na Ingla-                  a, s  verdadeira pela sua efetiva utilidade,
terra e nos Estados Unidos. Aparece pela primei-
                                                               ou seja, por ser til para estender o conheci-
ra vez em Lgica ou morfologia do conhecimen-
 to (1888) de B. Bosanquet, mas sua difuso se                 mento ou para, por meio deste, estender o dom-
deve  obra de F. H. Bradley, Appearance and                   nio do homem sobre a natureza, ou ento por
 Reality (1893)- A crtica de Bradley ao mundo                 ser til  solidariedade e  ordem do mundo
da experincia humana partia do princpio de                   humano. Critrio semelhante foi apresentado
que aquilo que  contraditrio no pode ser                    por H. Vaihinger em Filosofia do comose(Phi-
real; isso o levava a admitir que V. ou realidade              losophe des Ais, 1911) e divulgado por M. De
 coerncia perfeita. A coerncia, porm, atri-                Unamuno em Vida de Don Quijote y Sancho
buda  realidade ltima, ou seja,  Conscincia               (1905) (v. PRAGMATISMO). Talvez se possa entre-
Infinita ou Absoluta, no  simples ausncia de                ver uma forma diferente dessa mesma concep-
contradio;  abolio de qualquer multiplici-                o na tese de Dewey, da instrumentalidade
dade relativa e forma de harmonia que no se                   dos procedimentos cognoscitivos e do conheci-
deixe entender nos termos do pensamento hu-                    mento em seu conjunto, com vistas ao aperfei-
 mano (Appearance and Reality, 2a ed., 1902,                   oamento da vida humana no mundo. Contu-
 pp. 143 ss.). Segundo Bradley, os graus de ver-               do, em Dewey no se encontra a definio de
 dade que o pensamento humano alcana po-                      V. como utilidade, mas apenas a afirmao do
 dem ser julgados e classificados segundo o                    carter instrumental -- portanto vlido, mas
 grau de coerncia que possuam, embora essa                    no verdadeiro -- das proposies (Logic, XV,
 coerncia seja sempre aproximativa e imperfei-                trad. it., p. 382-83) (v. VALIDADE).
VERDADE DUPLA                                        999                                     VERIFICAO


   VERDADE DUPLA. V. DUPLA VERDADE.                        em Reading in the Phil. of Science, 1953, pp.
    VERDADEIRO (gr. ^riG; lat. Vemm; in.                519-20).
True, fr. Vrai; ai. Wahr, it. Vero). Os esticos               2. Em sentido restrito e especfico, a V. diz
distinguiam V. de verdade, porque o V.  um                respeito aos enunciados factuais e  um pro-
enunciado, logo  incorpreo, enquanto a ver-              cedimento que recorre  experincia ou aos
dade, como cincia que contm todos os V..                fatos. Foi exatamente nesse sentido que o empi-
um modo de ser da parte hegemnica do ho-                  rismo lgico (v.) entendeu a V. como critrio
mem, portanto corprea. Ademais, o V.  sim-               do significado das proposies: critrio que o
ples, enquanto a verdade consta de muitos V.,              Crculo de Viena (v.) interpretava da forma
e a verdade pertence  cincia, portanto ao                mais rigorosa, declarando desprovidos de sen-
sbio, enquanto o V. pode ser tambm do ns-               tido todos os enunciados que no se prestas-
cio (SEXTO EMPRICO, Pirr. hyp., II, 81-83; Adv.           sem a uma absoluta verificao emprica. Esse
dogm., I, 38-42).                                          ponto de vista foi expresso com todo o rigor
    Na Kscolstica o V. foi considerado um dos             por Carnap em sua obra Der logische Aufbau
Iranscedentais (v.), isto , dos caracteres que            der Welt (1928). A possibilidade de uma veri-
pertencem s coisas como tais, independente-               ficao absoluta foi, porm, negada, no mbito
mente dos seus gneros, e por V. foi entendida             do prprio Crculo de Viena, por K. Popper (Lo-
a inteligibilidade da coisa (S. TOMS, 5. 777., q.         gik der Forschung, 1935) e depois por Lewis
16, a. 3; ad. 3").                                         ("Experience and Meaning", em Phosophical
    VERDICO (in. Veridical, fr. Vridique, ai.            Reriew, 1934) e por Nagel (em Journal of Phi-
Wabrhaftig; it. Verdico). 1. O mesmo que ve-              losophy, 1934). Assim, o prprio Carnap modi-
ra z ou verdadeiro (v. VERACIDADE).                        ficava seu ponto de vista, e num ensaio de 1936
    2. O que contm uma parte ou um indcio de             ("Testability and Meaning", agora em Readings
verdade. P. ex., "sonho V", "alucinao V.", etc.          in the Phil. of Science. 1953, p, 47-92) falava de
   VERIFICABILIDADE. V. VERIFICAO.                       confirmao (confirmation) dos enunciados,
   VERIFICAO (in. Verification-h. Verifica-              em vez de V. Sempre qiie a V. completa no seja
tiori; ai. Verifikation; it. Verificazione). 1. Em         possvel (e quase nunca  possvel no campei da
gera), qualquer procedimento que permita es-               cincia), o princpio da verificabilidade expressa
tabelecer a verdade ou a falsidade de um enun-             a exigncia de uma confirmao gradualmen-
ciado qualquer. Uma vez que os graus e os ins-             te crescente (Ihid., p. 49). Deste ponto de vista,
trumentos da V. podem ser inumerveis, esse                a aceitao ou a recusa de um enunciado factual
termo tem alcance generalssimo e indica a apli-           contm sempre um componente convencio-
cao de qualquer procedimento de atestao                nal, que consiste na deciso prtica que se deve
ou prova (v.). Esse termo tambm pode ser                  tomar para considerar o grau de confirmao de
usado para indicar a aferio de uma situao              um enunciado como suficiente para a sua acei-
qualquer com base em regras ou instrumentos                tao. Este ponto de vista  hoje amplamente
idneos; nes.se sentido, fala-se em verificar as           aceitei.
contas, os graus de um ngulo ou a autentici-                  3. No que diz respeito ao procedimento de
dade de certos documentos, etc. Neste sentido              V. factual, pouco foi dito at agora pelos filso-
geral, esse termo tambm  empregado sem                   fos. Reichenbach dividiu esse procedimento
referncia  experincia ou aos fatos, poden-              em duas fases, que so: 1'-' introduo de uma
cio-se falar em V. de uma expresso matemti-              classe fundamental O de enunciados observa-
ca, de um enunciado analtico da lgica, assim             cionais, ou seja, de significados primitivos ou
como em V. de um enunciado factual ou hip-                diretos que no esto sob indagao durante o
tese cientfica. Por outro lado, a noo de V. s          curso da anlise; 1- um conjunto de relaes de-
vezes  ampliada para nela incluir no s o                 rivativas (ou regras de transformao) D, que
procedimento que permite estabelecer a ver-                permitem ligar alguns termos com as bases O.
dade ou a falsidade de um enunciado, mas tam-              Depois de definidas por indagao especfica
bm o que permite estabelecer a verdade, a                 tanto a base O quanto as relaes derivativas /),
falsidade ou a indeterminao do enunciado:                o termo "verificado" pode ser definido como "o
isso com referncia a uma lgica de trs valo-             ser derivado da base O nos termos das relaes
res, e no de dois (cf. REICHENBACH, "The Prin-            D'. A esta descrio Reichenbach acrescenta
cipie of Anomaly in Quantum Mechanics", 1948,              uma determinao importante: a condio do sig-
VEROSSMIL                                             1000                                                    VIDA

 nificado no  a atual, mas a V. possvel (sem               conhecimento da sua gnese (De antiquissma
a qual os enunciados histricos, p. ex., no te-              talorum sapientia, 1710,  1). Mas esse concei-
riam significado); portanto, a noo de V. pres-              to foi extrado cie Hobbes, que o expusera em
supe a de possibilidade, e a esse respeito Rei-              De homine (1658). Hobbes reduzira o domnio
chenbach distingue a possibilidade lgica, a                  do conhecimento humano, por um lado, 
possibilidade fsica e a possibilidade tcnica,               matemtica, cujos objetos so inteiramente
distinguindo correspondentemente trs espcies                produzidos pelo homem, e por outro lado  po-
de significados ("Verifiability Theory of Meaning",           ltica e  tica, que tambm tratam de objetos
em Proceedings of lhe American Academy of                     (leis, convenes, princpios) criados pelo ho-
Arts and Sciences, 1951, pp. 46 ss.). Assim, a                mem {De bom., 10). Analogamente, Vio ini-
teoria de V. est ligada  noo da possibili-                cialmente limitou o domnio do conhecimento
dade (v.).                                                    humano  matemtica (De antiquissima), e de-
    VEROSSMIL (gr. eit ; lat. Verisimiles; in.             pois o estendeu para a histria, Scienza nuova
I.ikely, fr. Vraisemblable, ai. Wahrscheinlich; it.           (1725).
 Verisimile). 1. O que  semelhante  verdade,                     VETOR (in Vector, fr. Vecteur, ai. Vector, it.
sem ter a pretenso de ser verdadeiro (no sen-                 Vettore). Em matemtica, uma grandeza deter-
tido, p. ex., de representar um fato ou um con-               minada em quantidade, direo e sentido. 
junto de fatos). Portanto, uma narrativa, seja                habitualmente representado por uma flecha.
um romance ou uma tragdia, pode ser V. sem                   Whitehead utilizou esse termo para indicar o
ser minimamente provvel, sem que exista qual-                referir-se da experincia sensvel ao exterior
quer probabilidade de que os fatos mencionados                (Process and Reality, 1929, p. 249).
se tenham verificado ou venham a verificar-se.                     VCIO (gr. Kcma ; lat. Vitiuni; in. Vice-, fr.
Nesse sentido, foi constante o emprego do                      Vice, ai. Laster, it. Vizio). 1. O contrrio da vir-
conceito de V. na esttica, a partir de Aristteles.          tude nos vrios significados deste termo. Com
"Narrar coisas efetivamente acontecidas" --                   referncia ao conceito aristotlico-estico de
dizia Aristteles -- "no  tarefa do poeta; dele             virtude como hbito racional da conduta, o V. 
seria a tarefa de representar o que poderia                   um hbito (ou uma disposio) irracional. Nes-
acontecer, as coisas possveis segundei verossi-              te caso, so V. os extremos opostos cujo meio-
milhana ou necessidade" (Poet., 9, 1451 a 36).               termo  a virtude: p. ex., a abstinncia e a intem-
Nesse sentido, V.  o carter de enunciados,                  perana diante da moderao, a covardia e a
teorias e expresses que no contradigam as                   temeridade diante da coragem, etc. Neste sen-
regras da possibilidade lgica ou as das possibi-             tido, a palavra V. s se aplica s virtudes ticas.
lidades tericas ou humanas. Um aconteci-                     Com referncia s virtudes dianoticas ou in-
mento humano imaginado  V. se for considera-                 telectivas, V. significa simplesmente a falta de-
do compatvel com o comportamento comum                       las: falta que, segundo Aristteles,  vergonho-
dos homens ou encontrar explicaes ou res-                   sa somente como participao malograda nas
 paldo nesse comportamento.                                   coisas excelentes de que participam todos os
     2. O mesmo que persuasivoiy.) ou provvel                outros, ou quase todos, ou pelo menos os que
(v.). Popper, contudo, fez a distino entre ve-              so semelhantes a ns, ou seja, os que tm
 rossimilhana (verisimilitude) e probabilidade,              nossa idade ou que so de nossa cidade, famlia
porque, enquanto esta ltima representa a idia               ou classe social (Ret., II, 6, 1383b 19; 1384a 22).
de aproximao da certeza lgica ou da verda-                      2. Portanto, o sentido mais geral de V.  a
de tautolgica por meio da gradual diminui-                   falta ou deficincia de alguma caracterstica que
o do contedo informativo, a verossimilhana                um objeto qualquer (no sentido mais amplo)
 representa a idia da aproximao da verdade                 deveria ter segundo a regra ou a norma que lhe
abrangente e, assim, combina verdade e con-                   diga respeito. Nesse sentido geral, pode-se falar
 tedo, enquanto a probabilidade combina ver-                 e fala-se de V. lgico ou de V. jurdico, etc.
 dade e falta de contedo (Conjectures andKe-                      VIDA(gr. cof), p"o lat. Vita; in. Life, fr. Vie;
futations, 1965, p. 237).                                     ai. Leben; it. Vita). Caracterstica que tm certos
   VERUM IPSUM FACTUM. Frmula utilizada                      fenmenos de se produzirem ou se regerem por
por G. B. Vio para expressar o princpio de que              si mesmos, ou a totalidade de tais fenmenos.
o homem pode conhecer s o que ele mesmo                      Essa caracterizao  aqui dada apenas por ser
fez, porque o conhecimento de uma coisa  o                   aquela em torno da qual  mais amplo o aor-
VIDA                                                  1001                                           VIDA

do entre filsofos e cientistas, e a ttulo pura-        nicismo afirma que a V.  devida a certa organi-
mente descritivo, sem que o reconhecimento               zao fsico-qumica da matria corprea, en-
de uma caracterstica prpria dos fenmenos              quanto o vitalismo considera que essa organiza-
da V. implique o reconhecimento de um prin-              o no  suficiente, e que a V. depende cie um
cpio ou de uma causa em si desses fenme-               princpio de natureza espiritual, que , p. ex., a
nos. Veremos, alis, que em certos nveis de V.          archeus (v.) de Helmont, a natureza plstica
a prpria distino entre o que  V. e o que no         (v.) de Cudworth, o dominante(v.) de Reinke.
o  torna-se muito difcil ou perde sentido. A           a entelqnia (v.) de Driesch, o el vital'(v.) de
disputa entre vitalismo e antivitalismo no              Bergson.
concerne ao problema da caracterizao da V.,                Leibniz objetava ao mecanicismo e ao vita-
mas ao da origem e do desenvolvimento da                 lismo que ambos contradizem o "grande princ-
V.; quanto a esse problema, v. VITALISMO.                pio da fsica", segundo o qual "um corpo s se
   Desde a Antigidade os fenmenos da V.                move se impelido por um corpo vizinho c em
tm sido caracterizados com base em sua capa-            movimento"; considerava que a nica teoria da
cidade de autoproduo, vale dizer, com base             V. compatvel com esse princpio  a da harmo-
na espontaneidade com que os seres vivos se              nia preestabelecida, segundo a qual a V. con-
movem, se nutrem, crescem, se reproduzem e               siste na concordncia cia ao das substncias,
morrem, de um modo que, pelo menos apa-                  preestabelecida por Deus (Sur le prncipe de
rente e relativamente, no depende das coisas            lie. 1705, em Op., ed. Krdmann, pp. 429 ss.). O
externas. Plato identificava alma e V. (Fed.,           conceito da V. como auto-regulao parece ser
105 c), porque considerava prpria da alma a             simplesmente pressuposto tanto por aquela
capacidade de "mover-se por si" (Fed., 245 c).           disputa quanto pela observao de Leibniz. E
Aristteles entendia por V. "a nutrio, o cres-         tambm por Kant, quando este afirma que "a V.
cimento e a destruio que se originam por si             a capacidade de atuar segundo a faculdade
mesmos" (Dean., II, I, 412 a 13). e conseqen-           de desejar", entendendo por faculdade de
temente considerava que a V.  prpria dos               desejar "a faculdade de, por meio das repre-
seres animais, pois estes "possuem em si mes-            sentaes, ser causa dos objetos dessas re-
mos uma potncia ou um princpio tal que                 presentaes" (Crt. K. Prtica, Pref., anotao;
sofrem aumento ou diminuio nas direes                Anfangsgrinde der Natunvissenschaft, III, teor.
opostas" (Ibid., II 413 a 27). Com base no mes-          3, anotao). O conceito de vida como auto-
mo conceito de V., Plotino afirmava que "toda            regulao tambm era pressuposto por Schel-
V.  pensamento" e que o pensamento "vive                ling, para quem a diferena entre o orgnico e
por si mesmo" (Fnn., III, 8, 8). S. Toms afir-          o inorgnico consiste no fato de que o orgnico
mava que V. significa "a substncia  qual convm        tem em si sua prpria organizao ou sua pr-
por natureza mover-se ou conduzir-se espon-              pria forma de V., enquanto o inorgnico  pri-
taneamente e de qualquer modo  ao" (S.                vado dela e faz parte de uma organizao mais
 Th., I, q. 18, a. 2); portanto, a alma  seu prin-      ampla, que  a V. da natureza em seu conjunto
cpio (Ibid., I, q. 75, a. 1).                           (Werke, I, III, pp. 89 ss.). Em sentido anlogo,
   Quando, com Descartes e Hobbes, surgiu o              Hegel identificava a V. com "o princpio que d
conceito mecanicista da V. e comeou-se a com-           incio e movimento a si mesmo" (Wissenschaft
parar o homem e, em geral, o organismo vivo              der Logik, ed. Glockner, II, p. 250), ou, em
a uma mquina bem montada, o conceito de V.              outros termos, com "o todo que se desenvolve,
no mudou, visto que a hiptese mecanicista              resolve seu desenvolvimento e mantm-se sim-
era inspirada aos filsofos exatamente pela cren-        ples nesse movimento" (Fhnomen. des Geistes,
a de que "os autmatos podem mover-se por               I, IV, 1). Por outro lado, Claude Bernard escre-
si" (DHSCARTRS, Trait de 1'homme, p. I; HOBBES.         via: "As mquinas vivas so criadas e cons-
Leviath., I, Intr.). O que se negava neste caso          trudas de tal modo que, ao se aperfeioarem,
era a identidade entre alma e V.: assim, con-            vo-se tornando mais livres no ambiente cs-
siderava-se possvel que a mesma matria cor-            mico geral. (...) A mquina viva mantm-se em
prea, em certas formas de organizao, teria            movimento porque o mecanismo interno do
condies de mover-se ou de desenvolver-se               organismo repara, por meio de aes e for-
por si. A disputa entre vitalismo e mecanicismo          as sempre renascentes, as perdas constitudas
(v. VITALISMO) versa sobre o seguinte: o meca-           pelo exerccio das funes. As mquinas cria-
VIDA                                                   1002                                         VIOLNCIA

das pela inteligncia do homem, embora infini-            Por outro lado, a teleonomia (v.), atribuda aos
tamente mais rudimentares, no so construdas            organismos vivos e interpretada como ativida-
de outra forma" (Intr.  1'tude de Ia medicine           de orientada, coerente e construitiva, no impe-
exprimentale, II, I, 8). Finalmente,  preciso no-       de que a biologia moderna (baseada sobretudo
tar que o el vital, em que Bergson reconheceu            na gentica e na bioqumica) considere os seres
a fonte da V., outra coisa no c seno cons-              vivos como mquinas qumicas, dotadas de uni-
cincia, e conscincia criadora, que extrai de si         dade funcional e capaz de autoconstruir-se. Es-
mesma tudo o que produz. Bergson diz-. "O ela             sas mquinas exigem a interveno de um siste-
de V. de que falamos consiste numa exigncia              ma ciberntico que governe e controle a ativi-
de criao. No pode criar de modo absoluto               dade qumica nos pontos estratgicos. Embora
porque encontra diante de si a matria, ou seja,          hoje estejamos distantes do dia em cjue a estru-
o movimento que  o inverso do seu ponto. Mas             tura dos sistemas que constituem os organismos
ele se apodera dessa matria, que  a prpria             superiores ser totalmente esclarecida, a ten-
necessidade e tende a nela introduzir a maior             dncia da cincia moderna nas pesquisas biol-
soma possvel de indeterminao e liberdade"              gicas continua sendo marcada pela ciberntica e
(vol. cratr., 83 ed, 1911, p. 273). Parece ter o        pela bioqumica (cf., p. ex., MONOD, Le hasard
mesmo significado a expresso de Whitehead,               et Ia necessite, 1970, cap. II).
de que a vida  "autofruio individual e abso-               VIDA, FILOSOFIAS DA (in. 1'hilosophies of
luta" (Nature and Life, 1934, II).                        life, fr. Philosohies de Ia re, ai. Lebensphiloso-
                                                          phieti: it. Flosofie delia vitu). Com esta expresso,
    Por outro lado, parece que a prpria cincia          utilizada especialmente na Alemanha, so de-
recorre a uma caracterizao no muito dife-              nominadas as filosofias que tm em comum a
rente dos fenmenos vitais, embora, como                 caracterstica de considerar a filosofia como V.,
bvio, evite hipostasiar em entidades ou prin-            mais que reflexo sobre a vida. Trata-se de uma
cpios essa caracterizao. Os fenmenos que              expresso polmica que pennite aproximar filo-
a cincia considera prprios da V. (metabolismo,          sofias diferentes como as de Nietzsche, Dilthey,
plasticidade, reatvidade, reproduo) so justa-         Simmel, Spengler, James, Bergson e outros; foi
mente aqueles em que  evidente o carter de              empregada com fins polmicos no ttulo de um
uma auto-regulao. Quando J. B. S. Haldane afir-         livro de Rickert (Die Philosophie des Lebens,
ma que ,se pode considerar vivo "qualquer mo-             1920).
delo de reao qumica capaz de autoperpetuar-                VIDA, TERCEIRA (fr. Troisime vie). Foi
se" ("The origin of Life", em RationalistAmuial,          esse o nome que Maine de Biran deu  vida re-
1928, pp. 148-53), est apenas expressando,               ligiosa ou mstica do homem, que se distin-
com outras palavras, o velho conceito da auto-            gue da vida simplesmente humana por ser a
regulao, ao qual recorrem tambm, embora                libertao dos afetos e das paixes, e da vida
de modo indireto ou com expresses ambguas               animal, que se caracteriza pelas sensaes e
ou disfaradas (como "totalidade", "ciclicidade".         pelos instintos (Nouveaux essas d'anthropolo-
"autonomia", "se.letivid.acle", etc), inclusive os        gie, 1823-24, em (Euvres, ed. Naville, III, p. 519).
cientistas de ntida inspirao materialista.             A terceira V.  a mesma que no Evangelho de
    Mas, apesar cie serem quase unnimes as               Joo se chama de "V. segundo o esprito".
opinies em torno do conceito de auto-regula-                    VINGANA. V. TAUO.
o, este dificilmente poderia ser considerado                   VIOLNCIA (gr. pHc; lat. Violentia-, in. Vio-
uma caracterizao suficiente dos fenmenos               lence, fr. Violence, ai. Gewaltsamkeit; it. Violen-
vitais em todos casos. Por um lado, realmente,            za). 1. Ao contrria  ordem ou  disposio
em certos extremos da escala biolgica (p. ex.,           da natureza. Nesse sentido, Aristteles distin-
para os vrus), no  possvel afirmar que se             guia o movimento segundou naturezae o mo-
trate de corpos vivos ou no. Em vista disso, j          vimento por V.-. o primeiro leva os elementos
houve quem considerasse sem sentido o uso da              ao seu lugar natural; o segundo afasta-os (De
palavra V. para referir-se aos sistemas situados              cael, I, 8, 276, a 22) (v. FSICA).
na zona limtrofe, entre a V. e a matria inorgnica             2. Ao contrria  ordem moral, jurdica ou
(N. W. PiuiF,, TheMeaninglessness ofthe Terms                 poltica. Nesse sentido, fala-se em "cometer"
"Life"and "Living", e m j . NEEDHAM e D. R. GREEN,            ou "sofrer V.". Algumas vezes esse tipo de V. foi
Perspectives in Biochemistry, 1951, pp. 21 ss.).              exaltado por motivos polticos. Assim, Sorel fez
VIRTUAL                                           1003                                             VIRTUDE

a distino entre a V. que se destina a criar uma     ou uma funo; b) hbito ou disposio racio-
sociedade nova e a fora, que  prpria da so-        nal; c) capacidade de clculo utilitrio; d) sen-
ciedade e do estado burgus. "O socialismo            timento ou tendncia espontnea; e) esforo.
deve  V. os altos valores morais com que ofe-            a) A V. como capacidade de realizar uma ta-
rece salvao ao mundo moderno" (Rflexions           refa determinada  conceito platnico. Assim
surla violence, 1966, trad. it., p. 133).             como os rgos (p. ex., a funo dos olhos 
    VIRTUAL (in. Virtual fr. Virtuel; ai. Virtuell;   ver, e a possibilidade de ver  a V. dos olhos), a
it. Virtual). O mesmo que potencial (v.).            alma tem suas prprias funes, e sua capaci-
    VIRTUDE (gr. pen ; lat. Virtus, in. Virtue,     dade de cumpri-las  a V. da alma (Rep., I, 353).
fr. Vertii; ai. Tugend; it. Virt). Este termo de-    Por isso, segundo Plato, a diversidade das V.
signa uma capacidade qualquer ou excelncia,           determinada pela diversidade das funes
seja qual for a coisa ou o ser a que perten-          que devem ser cumpridas pela alma ou pelo
a. Seus significados especficos podem ser re-       homem no Estado. As quatro V. fundamentais
duzidos a trs: 1Q capacidade ou potncia em          ou cardeais (v.) so determinadas pelas fun-
geral; 2a capacidade ou potncia do homem;            es fundamentais da alma e da comunidade.
3S capacidade ou potncia moral do homem.                 b) A concepo da V. como hbito (v.) ou
    1<J No primeiro sentido, que  o da definio     disposio racional constante encontra-se em
geral, a V. indica uma capacidade ou potncia         Aristteles e nos esticos, sendo a mais difun-
qualquer, como p. ex. de uma planta, de um            dida na tica clssica. Segundo Aristteles, a V.
animal ou de uma pedra. Maquiavel fala da "V."         o hbito que torna o homem bom e lhe permite
da arte da guerra (Oprncipe, 14), e Berkeley         cumprir bem a sua tarefa (Et. nic, II, 6, 1106 a
fala das "V. da gua de alcatro" (Subttulo de       22);  um hbito racional (Ibid., II, 2, 1103 b 32)
Siris, 1744).                                         e, como todos os hbitos, uniforme ou constan-
    2" No segundo sentido, a V.  uma capaci-         te. Os esticos, por sua vez, definiam a V. co-
dade ou potncia prpria do homem. Assim, p.          mo "uma disposio da alma coerente e con-
ex., chama-se de virtuoso/virtuose quem pos-          corde, que torna dignos de louvor aqueles em
sui uma habilidade qualquer, como p. ex., para        quem se encontra e  louvvel por si mesma,
cantar, tocar um instrumento ou usar a gazua.         independentemente de sua utilidade" (Cc.KRO,
Nietzsche quis retomar esse sentido de V.: "Reco-     Tusc, IV, 15, 34; STOBKO, Ed, II, 7, 60). Essas
nheo a V. no seguinte: le ela no se impe; 2a       definies foram repetidas inmeras vezes na
ela no supe a V. em todo lugar, mas precisa-        filosofia antiga e medieval e tambm no pen-
mente uma outra coisa; 3y ela no sofre pela          samento moderno. Encontram-se, p. ex., em
ausncia da V., mas considera essa ausncia           Abelardo (Theol. christ., II), Alberto Magno (S.
como uma relao de distncia graas  qual h         Th., II, q. 102, a. 3), S. Toms (S. Th., II, I, q. 55),
algo de veneravel na V.; 4L> ela no faz propa-       Leibniz (que faz a distino entre V. como h-
ganda; 5Q no permite que ningum se erija em         bitos, e as aes correspondentes, Nouv. ess.,
juiz, porque  sempre uma V. por si mesma; 6e         II, 28, 7) e Wolff (Phil. practica, I,  321).
ela faz exatamente tudo o que  proibido (a V.,           c) O terceiro conceito considera a V. como
como a entendo,  verdadeiro uetitumem toda           capacidade de clculo utilitrio. Foi Epicuro o
a legislao do rebanho); 7S ela  V. no sentido      primeiro a expor essa noo, considerando co-
renascentista, V. livre de moralidade" (Wille         mo V. suprema (da qual todas as outras deri-
zurMacht, ed. 1901,  431).                           vam) a sabedoria, que  capaz de julgar dos pra-
    3 No terceiro sentido, o termo designa uma       zeres que devem ser escolhidos e dos prazeres
capacidade do homem no domnio moral.                 cie que  preciso fugir, e destri as opinies cau-
Deve tratar-se de uma capacidade uniforme ou          sadoras das perturbaes da alma (DIG. L, X,
continuativa, como j declarava Hegel (EU. do         132). No Renascimento esse conceito foi de-
 dir.,  150, anexo), porque um ato moral no         fendido por Telsio, para quem a V. era a fa-
constitui virtude. Essa condio, porm, nem          culdade de estabelecer a medida certa das pai-
sempre  respeitada, e Locke, p. ex., fala de V.      xes e das aes, para que delas no proviessem
e de vcio no sentido de atos morais isolados         prejuzo ao homem (De rer. nat. IX, 5). Mais
(Ensaio, II, 28, 11). As definies de V. nesse       tarde, concepo anloga foi defendida por Hu-
sentido esto compreendidas nas seguintes             me (Ink. Cone. Morais, I) e. em geral, pelo uti-
rubricas: a) capacidade de realizar uma tarefa        litarismo ingls, em especial por Bentham, que
VIRTUDE                                                 1004                                             VISO

definia a V. como "disposio para produzir                    sem esforo algum" (mile, V.). Nesse esprito,
felicidade" (Deontology, X). Apesar de ser pe-                 Kant definiu a V. como "inteno moral em luta",
culiar ao empirismo, esse conceito de V. foi com-              que no teria sentido caso o homem tivesse aces-
partilhado por Spinoza: "Para ns, agir absolu-                so  santidade, ou seja,  coincidncia perfeita
tamente segundo a V., nada mais  que agir,                    da vontade como lei (Crt. R. Pratica, I, livro I,
viver e conservar o prprio ser (trs coisas que               cap. III). Assim como Ccero (v. CORAGEM) e
significam o mesmo) segundo a orientao da                    Rousseau, ele uniu estreitamente a noo de V.
razo sobre o fundamento da busca do til"                     com a de coragem: "A qualidade especial e o
(Et., IV, 24).                                                 propsito elevado com que se resiste a um
    d) O conceito de V. como sentimento ou                     adversrio forte mas injusto chama-se coragem
disposio, vale dizer, como espontaneidade,                   (fortitudo); quando se trata do adversrio en-
encontra-se nos analistas ingleses do sc. XVIII,              contrado pela inteno em ns mesmos, cha-
a comear por Shaftesbury: "Numa criatura sen-                 ma-se V. (virtus, fortitudo moralis). Portanto,
svel, que no  feito por meio de uma afeio                 a parte da doutrina geral dos deveres que
no produz nem bem nem mal em sua nature-                      submete a liberdade interna (e no a externa)
                                                               a leis  uma doutrina da V." (Met. der Sitten,
za, pois essa criatura s pode ser chamada de
                                                               II, Intr., I). Em polmica com Kant, Schiller
bondosa quando o bem ou o mal do sistema
                                                               procurou integrar a doutrina Kantiana na con-
com o qual ela est em relao for objeto ime-
                                                               cepo de V. como espontaneidade ou senti-
diato de alguma emoo ou afeio que a
                                                               mento, dizendo: "No tenho bom conceito do
mova" (Characteristics o/Men, Treatise IV, li-
                                                               homem que pode confiar to pouco na voz
vro I, part, 2, se. I). Com base nisto, Hutchinson            do instinto que precise silenci-lo o tempo
postulou um sentido moral como fundamento                      todo diante da lei moral; respeito e estimo mais
da V. (System of Moral Sentiments, 1754, III, I)               aquele que se entrega ao instinto com certa
e Adam Smith definiu esse sentido moral como                   segurana, sem o risco de ser por ele desenca-
simpatia (Theory of Moral Sentiments, 1759, III.               minhado" (berAnmut \tnd Wrde, 1793, em
1). Mas foi principalmente o Iluminismo fran-                   Werke, ed. Karpeles, XI, p. 202). O conceito de
cs que divulgou esse conceito: Rousseau fala-                 alma bela (v.) nascia exatamente dessa noo
va da piedade como "V. natural", que  "uma                    da V. como espontaneidade,  qual Kant res-
disposio conveniente a seres to dbeis e                    pondia que, se "o temperamento da V. for corajo-
sujeitos a tantos males quanto os homens", que                 so e portanto alegre", a V., entre os seus ou-
antecede a reflexo (De iingalit parnii les                  tros benefcios, tambm pode ser acompanhada
bommes, D; no mesmo sentido, Voltaire consi-                   pela graa (Religion, I, Observ., nota).
derava que V. outra coisa no  seno "fazer o
bem ao prximo" (Dictionnairephilosophque,                       J Hegel observava que no seu tempo no
art. Vertu). A tica do positivismo ateve-se a essa            se falava mais tanto de V. (F/7. do dir.,  150,
concepo, considerando a V. como manifes-                     Zusatz), pois "falar de V. confina facilmente com
tao do instinto altrusta (COMTK, Catchisme                 declamao vazia, pois assim se fala apenas de
                                                               algo abstrato e indeterminado"; e que o discur-
positiviste, p. 48; SPF.NCF.R, Data of Etbics,  46).
                                                               so sobre a V. destina-se ao indivduo enquanto
Na filosofia contempornea, pode-se distinguir
                                                               arbtrio subjetivo (Ibid.,  150). A observao
concepo anloga na chamada "moral aberta"
                                                               de Hegel tambm se aplica aos nossos tempos,
de Bergson, que  a manifestao do ela vital
                                                               em qtie a discusso do problema moral deixou
(Deuxsoucers, 1932, cap. I).
                                                               de ter forma de discurso sobre a V., para assumir
     e) Finalmente, a concepo de V. como es-                 a forma de discurso sobre valores e normas, de
foro foi enunciada por Rousseau e adotada                     um lado, e sobre atitudes e modos de vida de
 por Kant. Rousseau dizia: "No existe felicida-               outro (v. TICA).
 de sem coragem, nem V. sem luta: a palavra V.                    VIRTUDES CARDEAIS, DIANOTICAS,
 deriva da palavra fora; a fora  a base de toda             TICAS, TEOLOGAIS. V. CARDEAIS, VIRTUDES;
 virtude. A V. pertence apenas aos seres de                DlANOTICO; TICAS, VIRTUDES; TEOLOGAIS, VIR-
 natureza dbil, mas de vontade forte: exata-              TUDES.
 mente por isso homenageamos o homem jus-                        VISO (in. Vision, fr. vision, ai. Anschauung,
 to; tambm por isso, mesmo atribuindo bonda-                  Trumerei; it. Visione). 1. No sentido propria-
 de a Deus, no dizemos que Ele  virtuoso,                    mente filosfico, o mesmo que intuio (v.).
 porque suas boas obras so por ele cumpridas                    2. O sentido da vista.
VISIONRIO                                             1005                                   VITALISMO


    3- Alucinaes, sonhos, imagens de fantas-            essncia da vida. O V. nesta forma foi invali-
mas ou de espritos desencarnados, considera-             dado pelas descobertas da bioqumica, que, a
das reais.                                                partir de 1828 (data em que foi efetuada a fabri-
    VISIONRIO (in. Visionary, fr. Vsionnaire,           cao sinttica da uria), demonstrou a possi-
ai. Geisterseher, it. Visionrio). Quem tem vi-           bilidade de produzir substncias orgnicas em
ses no terceiro sentido do termo. Este  o               laboratrio. O neovitalismo, levando em conta
sentido da palavra do ttulo da obra de Kant,             essa possibilidade, reconhece a utilidade da in-
Sonhos de um visionrio esclarecidos por so-              vestigao fsico-qumica dos fenmenos vi-
nhos da metafsica (1766), em que ele fazia               tais, mas continua admitindo a irredutibilida-
uma analogia entre "os sonhadores da sensa-               de desses fenmenos s foras fisico-qumicas,
o", que so os que acreditam ver espritos              afirmando que eles so dirigidos por um elemen-
desencarnados, e os "sonhadores da razo", ou             to especfico que recebe vrios nomes {dominan-
metafsicos, que tambm vivem num mundo                   te [v.l em Reinke, entelquia [v.J em Driesch,
de sonhos ou de vises particulares.                      el vital'[v.l em Bergson.
    VITALIDADE (in. Vitalyjr. Vitalit/\. Vita-             A dificuldade principal desse aspecto do V.
lit; it. Vitalit). No sentido corrente do termo,         a inoportunidade de admitir uma causa des-
potncia ou plenitude de vida. Esse termo co-             conhecida e inacessvel, pouco mais que um
meou a ser usado quando Nietzsche eviden-                nome e, alm disso, capaz de tornar insignifi-
ciou e exaltou os "valores vitais", opondo-os             cante ou descabida a observao cientfica dos
aos valores renunciatrios da moral tradicional           fenmenos vitais. Uma causa assim, exatamen-
(v. TRANSMUTAO).                                        te por fugir  observao, nada explica ao pre-
    VITALISMO (in. Vitalism- fr. Vitalisme, ai.           tender tudo explicar;  um asilo da ignorncia
Vitalism us; it. Vitalismo). Termo oitocentista pa-       ou da razo indolente.
ra indicar qualquer doutrina que considere os                 2- Quase todas as formas de V. contempo-
fenmenos vitais como irredutveis aos fen-              rneo compartilham, alm da tese da irredu-
menos fsico-qumicos. Essa irredutibilidade po-          tibilidade no sentido acima, a profecia de que
de significar vrias coisas, pois vrios so os            impossvel a cincia produzir vida em labora-
problemas cujas solues dividem os partid-              trio. Obviamente, essa profecia est alm de
rios e os adversrios do V. l Em primeiro lu-            tudo o que a cincia pode afirmar legitimamen-
gar, significa que os fenmenos vitais no po-            te.  fato que a investigao bioqumica at hoje
dem ser inteiramente explicados com causas                no conseguiu produzir snteses orgnicas que
mecnicas. 2" Em segundo lugar, significa que             tenham caractersticas evidentes de matria
um organismo vivo nunca poder ser prodtizido             viva, mas qtie ela no possa chegar a isso no 
artificialmente pelo homem num laboratrio                fato, e sim tuna assero que s pode estar apoia-
de bioqumica. 3y Em terceiro lugar, significa            da num conceito ultracientfico ou metafsico
que a vida sobre a terra, ou, em geral, no uni-           da vida. Desse ponto de vista, o interesse da
verso, no teve origem natural ou histrica de-           cincia  um materialismo metodolgico qtie
corrente da organizao e do desenvolvimento              admite: 1Q que os fenmenos vitais tem carac-
da substncia do universo, mas  fruto de um              tersticas prprias, diferentes das caractersti-
plano providencial ou de uma criao divina.              cas do fenmenos fsico-qumicos, mas no
    l9 Segundo o primeiro ponto de vista, po-             to diferentes que criem um abismo entre am-
dem ser chamados de vitalistas todos os con-              bas as ordens de fenmenos e impossibilitem
ceitos clssicos que, identificando a vida com a          qualquer passagem de um para outro-, 2- que se
alma, excluem-na de qualquer influncia das               pode e deve levar adiante a anlise cientfica
foras materiais. Em sentido mais preciso, V.            dos fenmenos vitais, como a nica capaz de
a doutrina defendida por filsofos e cientistas           explicar os fenmenos. Esse  o ponto cie vista
entre meados do sc. XVIII e meados do sc.               de um grupo numeroso de bilogos contem-
XIX, segundo a qual o fundamento dos fen-                porneos (cf. a respeito G. G. SIMPSON, lhe Mea-
menos vitais  uma fora vital que no depen-             ning of Evolution, cap. X).
de de mecanismos fsico-qumicos.  caracte-                  39 Quanto ao problema da origem da vida
rstica do V. declarar intil a investigao cient-      na Terra ou, em geral, no universo a antiga
fica dos fenmenos vitais, portanto ela nunca             crena na gerao espontnea admitia como
conseguir apreender a fora que constitui a              fato normal, no miraculoso, que a vida se ori-
VITORIOSO, ARGUMENTO                                    1006                                        VOCAO

gina da matria inorgnica. Essa crena j refu-               svel que possa acontecer algo que no aconte-
tada pelas experincias de Francesco Redi                      a realmente" (EPICTETO, Diss., II, 19, I; v. C-
(1668) e de Lazzaro Spallanzani (1765), foi defini-            CERO. De fato, 6 ss.). Limitando a possibilida-
tivamente alijada da cincia por Pasteur (1862).               de ao que realmente aconteceu, Diodoro afir-
Por outro lado, a hiptese da panspermia {y.),                 mava a necessidade de tudo o qtie acontece,
que admite a migrao de sementes vitais no                    ou seja,  impossvel que o que acontece possa
universo, ao mesmo tempo que no constitui                     acontecer de modo diferente de como aconte-
uma resposta ao problema da origem da vida,                    ce (v. NECESSRIO-, POSSVEL). Na filosofia con-
parece ser contraditada pelas condies supos-             tempornea, esse argumento  adotado por N.
tamente existentes nos espaos interestelares,             Hartmann, com explcita referncia a Diodoro
sobretudo pela ao bactericida dos raios ultra-           Cronos (Mglichkeit und Wirklichkeit, 1938.
violeta.                                                   pp. 186 ss.).
    Nessa situao, s existem duas solues                   VTVACIDADE (in. Vivacity). Caracterstica
alternativas. Pela primeira, a vida  obra direta          fundamental que estabelece a distino entre
ou indireta de Deus, de tal forma que sua ori-              impresses e idias, segundo Hume: impres-
gem nada tem de natural, mas  fruto de uma                ses e idias assemelham-se, mas as primeiras
criao que ocorreu em dado ponto da histria              tm mais "fora e V.", e assim inclinam  crena
csmica ou ocorre incessante e continuamente.              (Treatise, I, I, 1; I, III, 7).
Esta ltima  a verso aceita por Bergson (vo-                VIVNCIA (ai. Erlehnis). Experincia viva ou
lution cratrice, 1907) e retomada porTeilhard             vivida, a V. designa toda atitude ou expresso da
de Chardin (Lephnomne humain, 1955).                     conscincia. Dilthey utilizou bastante essa noo
    A segunda alternativa admite a possibilida-            assumindo-a como instrumento fundamental
de de que a vida na Terra tenha uma origem                 da compreenso histrica e, em geral, da com-
natural ou histrica que se deu a partir de                preenso inter-humana. Caracterizou-a do se-
determinada fase da organizao da matria                 guinte modo: "A V. , antes de mais nada, a
inorgnica. Essa possibilidade pode ser exem-              unidade estrutural entre formas de atitude e
plificada com boas razes cientficas; isso foi            contedos. Minha atitude de observao, jun-
feito, p. ex., por A. I. Oparin (L'origine delia vita      tamente com sua relao com o objeto,  uma
sula terra, trad. it., 1956). Os ltimos avanos da        V., assim como meu sentimento de alguma
biologia devidos  gentica (v.) e  bioqumica,           coisa ou meu querer alguma coisa. A V.  sem-
do destaque a essa possibilidade, que no en-              pre consciente de si mesma" (Grundlegiing
tanto s se realizaria se a cincia conseguisse            der Geisteswissenschaften, II, 1, 2). Do mesmo
reproduzir vida em laboratrio e, assim, determi-          modo, Husserl considerou a V. como um fato
nar as condies que possibilitam efetivamente             de conscincia, logo, como um entre os demais
o seu desenvolvimento a partir da matria inor-            contedos do cogito. "Consideramos as V. de
gnica. Mas est claro que, se isso acontecesse,           conscincia em toda a plenitude concreta com
toda a discusso da origem da vida perderia sen-           que se apresentam em sua conexo concreta
tido, pois estaria determinada inclusive a data            -- O fluxo da conscincia -- e na qual se uni-
provvel de stia origem em relao a histria              ficam graas  sua prpria existncia. Portanto,
da Terra.                                                   evidente que toda V. do fluxo que o olhar
   VITORIOSO, ARGUMENTO (gr.  cupt erov                 reflexivo consegue apreender tem uma essn-
.70). Argumento famoso, com o qual Diodoro              cia prpria, a ser captada intuitivamente, em
Cronos, um dos seguidores da escola socrtica              contedo que pode ser considerado em sua carac-
de Mgara (sc. IV-V a.C), mostrava a identi-              terstica intrnseca" (Ideen, 1,  34). Carnap falou
dade entre o possvel e o necessrio. Esse argu-           de V. elementares {Rlementarerlebnissen) co-
mento era assim formulado: "Do que  poss-                mo elementos originrios de que se vale a
vel no pode seguir-se algo impossvel. Ora,              constaio lgica do mundo, juntamente com
impossvel que aquilo que passou seja diferen-             as relaes {Der logische Aufbau der Weil,
te do que foi. Mas se, num momento anterior,                   1928,  65).
tivesse sido possvel algo diferente do que foi,                 VOCAO (gr. KflGt; lat. Vocatio; in. Vo-
do possvel teria surgido o impossvel: logo, o                cation, fr. Vocation; ai. Benif it. Vocazione).
que  diferente do que foi no era possvel em                 Na origem, um dos conceitos fundamentais do
nenhum momento. Por conseguinte,  impos-                      cristianismo paulino: "Quem for chamado numa
VOLUNTRIO                                            1007                                             VONTADE

V.. nela permanea" (Ad cor, I, VII, 20). A V.          chaft und Gesellschaft. 1887, pp. 99 ss.) e
hoje um conceito pedaggico e significa pro-             principalmente nas obras de Wundt, que divul-
penso para qualquer ocupao, profisso ou              gou conceito e termo. Nesse sentido, V. no
atividade.  diferente da aptido, por ser a atra-       significa reduzir todos os processos psquicos
o que o indivduo sente por determinada for-           a V., mas explicar esses processos segundo o
ma de atividade, para a qual pode ser ou no apto.       modelo apresentado pelos processos da vonta-
A aptido pode ser controlada objetivamente; a           de (Wi'NDT, Grundzge der pbysiologischen
V. 6 subjetiva. Uma V. pode portanto ser tam-            Psychologie, 1902, 5a ed., pp.17 ss.). Esse V. foi
bm um beco sem sada (blind-alley vocation).            defendido na Frana por Fouille (Psychologie
    VOLUNTRIO (in. Voluntary.fr. Volontaire.            des ldes-forces, 1893) e adotado por numero-
ai. Freiivillig. it. Volontario). 1. Que pertence       sos psiclogos nas primeiras dcadas do sc. XX.
vontade ou diz respeito  vontade.                           2a O V. metafsico foi iniciado por Schopen-
    2. O mesmo que livre (v. LIBERDADE).                 hauer, para quem a vontade  substncia ou
   VOLUNTARISMOCin. Voluntarism.fr. Vokm-                nmero do mundo, enquanto o mundo natural
tarisme, ai. Vohtntarismn.% it. Volontarismo). Este       manifestao ou revelao da vontade. Como
termo, usado pela primeira vez porTnnies em             aparncia ou fenmeno, o mundo  represen-
1883 e divulgado por Wundt (v. FUCKEN. Geistige          tao; como substncia ou nmero,  vontade.
Strmungen der Gegemvart, p. 33), foi empre-             A vontade  a essncia do corpo humano, no
gado para indicar duas tendncias doutrinais             qual  conhecida diretamente e est em si mes-
diferentes: 1- a que afirma o primado da vonta-          ma, e essncia de qualquer outro corpo, identifi-
de sobre o intelecto; 2a a que v na vontade            cando-se com qualquer fora do mundo (Die
substncia do mundo.                                      Welt, I,  19). Como tal, a vontade determina o
    Ia A primeira tendncia  a gnosiolgica e           mundo da representao, definido por Schopen-
tica. Fsse tempo foi aplicado para caracterizar         hauer como "objetividade da vontade", e suh-
algumas correntes da filosofia medieval. Henri-          julga esse mundo, mostranclo-o nas formas de
que de Gand (morto em 1293) afirmou a supe-              espao, tempo e causalidade, que so as formas
rioridade da vontade sobre o intelecto porque            do fenmeno (Md.,  23). Fssas idias muitas
o hbito, a atividade e o objeto da vontade so          vezes foram parcialmente acolhidas pelos fi-
superiores aos do intelecto. De fato, o hbito           lsofos do fim do sculo passado: basta aqui
cia vontade  o amor; o do intelecto  a sabe-           lembrar Novos ensaios de antropologia (1813-
doria; o amor  superior  sabedoria. A ativida-         24), de Maine de Biran, e Filosofia do incons-
de do querer identifica-se com o objeto dele,            ciente, de Fduarcl von Hartmann (1869).
que  o fim, enquanto a atividade do intelecto                 VOLUPTUOSIDADE. V             PRAZER
 sempre distinta e separada do seu objeto.                    VONTADE (gr. po^r)Oi; kit. Voluntas: in.
Finalmente o objeto do querer  o bem. que                  WiII: fr. Volurit. ai. Wille., it. Volont). Fsse ter-
o fim absoluto, enquanto o objeto do intelecto           mo foi usado com dois significados fundamen-
 o verdadeiro, que  um dos bens, portanto              tais: 1" como princpio racional da ao; 2" como
subordinado ao fim ltimo Quodi., I, q. 14).            princpio da ao em geral. Ambos os significa-
Duns Scot afirmou o primado da vontade, mas              dos, porm, pertencem  filosofia tradicional e
com outro fundamento: no 6 a bondade do                  psicologia oitocentista, porque ligados  no-
objeto que causa necessariamente o assenti-              o de faculdade, ou poderes originrios da
mento da vontade, mas  a vontade que esco-              alma que se combinaram para produzir as mani-
lhe livremente o bem e livremente luta pelo              festaes do homem (v. FACULDADE). Mas hoje
bem maior (Op. Ox., I, d. I, q. 4, n. 16). A esta        nem a filosofia nem a psicologia interpretam
doutrina est ligada outra, segundo a qual o             desse modo a conduta do homem. As noes
bem e mal consistem no mandamento divino.                de      comportamento (v.)     e   de forma (v.),     bem
"Deus no pode querer algo que no seja justo            como a tendncia funcionalista da psicologia
porque a vontade de Deus  a primeira regra''            (v.), no permitem falar de "princpios" da ati-
(Md., IV, d. 46, q. I, n. 6). No ltimo perodo          vidade humana e, portanto, a classificao inte-
da F.scolstica o V. ocorre numa ou noutra               lecto-V. ou intelecto-sentimento-V. perderam
dessas formas.                                           o significado literal. s vezes, o termo V.  con-
                                                         servado, mas unicamente para indicar determi-
    Anlogo a essas concepes medievais  o V
                                                         nados tipos de conduta ou certos aspectos da
psicolgico, encontrado em Tnnies (Gemeins-
VONTADE                                                    1008                                    VONTADE

conduta. E nesse sentido que devem ser enten-                 Hegel afirma que a V.  universal, "no sentido
didas as referenciais  psicologia contempor-                de universal como racionalidade'" (EU. dodir.,
nea contidas neste verbete.                                    24). A distino de Croce entre a forma eco-
    ly O primeiro significado  o da filosofia cls-          nmica, utilitria, e a forma tica ou moral da
sica: para ela, a V.  apetite racional ou compa-             atividade prtica corresponde  distino tradi-
tvel com a razo, distinto do apetite sensvel.              cional entre desejo e vontade. Segundo Croce,
que 6 o desejo(v.). A distino entre estas duas              a forma econmica seria volio do particular,
coisas est em Plato, para quem retores e tira-              ou seja, do til; a forma moral seria volio do
nos no fazem o que querem, embora faam o                    universal, ou seja, apetio racional (Eilosofia
que lhes agrada ou parece, visto que fazer o que              delia pratica, 1909, pp. 217 ss.).
se quer significa fazer o que se mostra bom ou                    Na noo de V. como apetite racional tam-
til, e isso  agir racionalmente ( Grg., 466 ss.).          bm pode ser integrada a tendncia da psicolo-
Aristteles definiu a V. como "apetio que se                gia moderna a fazer distino entre V. e impulso
move de acordo com o que  racional" (Dean.,                  e a considerar a V. condicionada por uma ma-
III, 10, 433 a 23); o termo voluntrios usado                 nipulao de smbolos. G. Murphy, p. ex., diz:
por Aristteles para definir a escolha (v.), que              "V.  o nome com o qual se designa um com-
seria "a apetio voluntria das coisas que de-               plexo processo interior que influencia nosso
pendem de ns" (Et. nic, III, 3, 1113 a 10). Os               comportamento de tal modo que nos torna
esticos concordaram com esse conceito de V.,                 presa menos fcil da pura fora bruta dos im-
por eles definida como "apetio racional"                    pulsos. Falamos com ns mesmos, introduzi-
(DIG. L, VII, 116). Ccero referia-se a essas                mos modos diferentes de expressar nossa situa-
doutrinas afirmando que "a V.  um desejo com-                o, imaginamos as conseqncias dos vrios
patvel com a razo, enquanto o desejo opos-                  tipos de resposta e procuramos avaliar quanto
to  razo, ou demasiado violento para ela,  a               cada um deles nos agradar" (Introduction to
libidinagem ou a cupidez desenfreada que se                   Psychology, 1950, cap. IX, trad. it., p. 163). O
encontra em todos os insensatos" (Titsc, IV,                  que a psicologia moderna chama de "elabora-
6, 12).                                                       o de smbolos"  o mesmo cjue na terminolo-
    Esta concepo prevalece durante toda a Ida-              gia tradicional se chamava "processo racional".
de Mdia e  repetida por Alberto Magno (S.                       Finalmente, a mesma noo de V. est im-
 Th., I, q. 7, a. 2), S. Toms (5. Th., I, q. 80, a. 2),      plcita nas expresses V.pura, boa V., V. geral,
Duns Scot (Rep. Par., III, d. 17, q. 2, n. 3; Op.              V. de crer.
Ox., III, d. 33, q. 1, n. 9) e Ockham (In Sent., IV,              Segundo Kant, V. pura  a V. determinada
9, 14 G).                                                     apenas por princpios a pror, por leis racio-
    Todas so repeties liberais do conceito                 nais, e no por motivos empricos particulares
tradicional de V. como apetite racional. Menos                (Grundlegung der Met, der Sitten, pref.).
liberal 6 a repetio desse conceito em Spinoza.                  Boa V., tambm segundo Kant,  a V. de
que entende por V. "a faculdade de afirmar ou                 comportar-se exclusivamente de acordo com o
cie negar, e no o desejo: faculdade graas                  dever; desse modo,  exaltada por Kant como
qual a mente afirma ou nega o que  verdadeiro                o que existe de melhor no mundo ou tambm
ou o que  falso, e no desejo com que a mente                fora do mundo (Ibid., I).
deseja ou repele as coisas" (Et., II, 48, scol.X                  V. geral  concebida pelos iluministas co-
Entretanto, ainda literal  a repetio desse                 mo a prpria razo. Diderot diz: "A V. geral
conceito por Wolff (chama-se "V. o apetite ra-                 em cada indivduo um ato puro do intelecto
cional que nasce da representao distinta do                 que raciocina no silncio das paixes sobre o
bem", Psicol. emprica,  880) e pelo prprio                 que o homem pode exigir de seu semelhante e
Kant, que entende por V. a razo prtica, isto                sobre o que o seu semelhante tem direito de
, a "faculdade de agir segundo a representa-                 exigir dele" (Ari droit naturel, na Encyclop-
o de regras" (Grundlegung der Metaphysk                    die, V, p. 116). Rousseau fazia a distino entre
der Sitten, II). Eichte no pensava em nada                   "V. de todos", que pode errar, e V. geral, que
muito diferente ao afirmar que a V.  a faculda-              nunca erra porque s tem em mira o interesse
de "de efetuar com conscincia a passagem da                  comum (Contrasocial, II, 3).
indeterminao para a determinao": faculda-                     Finalmente, a V. de crer, de que fala James,
de que a razo terica obriga a pensar que                    nada mais  que a racionalidade da f, o direito
existe (Sittenlehre,  14). Em sentido anlogo,               de crer no que no  absurdo, no que torna a
VONTADE                                              1009                                        VONTADE

vida mais aceitvel e. s vezes,  posto em ser          entende um desejo absoluto, em virtude do qual
pela prpria f (The Will to Believe, 1897).             pensamos que a coisa desejada est em nosso
     2" Por outro lado, a V. s vezes foi identi-        poder" (Trait des sensations. I. 3. 9). Concep-
ficada com o princpio da ao em geral, ou seja,        es muito semelhantes encontram-se freqen-
com a apetio. O primeiro a expor esse conceito         temente nos iluministas e nos idelogos do sc.
generalizado da V. foi S. Agostinho, segundo             XVIII e do incio do sc. XIX. Mach retoma-
quem "a vontade est em todos os atos dos                va essa concepo (Popidrwissenschaftlische
homens; alis, todos os atos nada mais so que            Vorlesioigen, 1896, p. 72), e Dewey repetia
vontade" (Decir. Dei, XIV. 6). S. Anselmo re-            quase literalmente a definio de Hobbes ao
petia essa noo (Libero arbtrio, 14, 19). que          dizer: "A V. no  algo oposto s conseqn-
na idade moderna foi aceita por Descartes.               cias ou separado delas.  a cansa das conse-
Este, assim como S. Agostinho, chamou de V.              qncias;  a causao em seu aspecto pessoal;
todas as aes da alma, em oposio s pai-              O aspecto que precede imediatamente a ao"
xes: "O que chamo de aes so todas as                 (Hi)iau Sature and Conduct, p. 44). A mes-
nossas V., porque sentimos que elas vm dire-            ma tendncia geral pertence a interpretao da
 tamente do nosso espirito, e parece que de-             V. como modo de ser do cuidado (vj, segun-
 pendem s dele, enquanto as afeies so to-             do Heidegger, sendo o cuidado a manifestao
 das as percepes ou conhecimentos que se                fundamental da existncia do homem no mun-
 encontram em ns mas no foram produzidos                clo, que consiste propriamente em preocupar-
 por nossa alma, que, portanto, os recebeu das            se com as coisas e cuidar dos outros (Seiu und
 coisas representadas" (Pass. de 1'me, I, 17).           Zeit,  41). Por outro lado, certas interpretaes
 Hobbes faz uma crtica explcita  noo tradi-          da psicologia contempornea podem ser enqua-
 cional: "No 6 boa a definio de V. como                dradas na mesma tendncia geral:  o que acon-
  apetite racional, comumente proferida pelas              tece com a famosa interpretao de McDougall,
  escolas. Pois se fosse, no poderiam existir             segundo a qual a volio seria "o apoio ou o
  atos voluntrios contrrios  razo. (...) Mas se,       reforo que um desejo ou uma conao recebe
  em lugar de apetite racional, dissermos apetite          da cooperao de um impulso excitado no sis-
  resultante cie deliberao anterior, ento a V.          tema dos sentimentos de autoconsiderao"
  ser o ltimo apetite a deliberar" (Leriath.. I, 6).
                                                           (Introduction to Social Psycology, 1908). Se-
  O ltimo apetite  o mais prximo da ao, ao
                                                           gundo essas interpretaes, de fato, seriam
  qual a ao se segue. Desse ponto de vista, a V.
  humana no  diferente da apetio animal (De            atos voluntrios aqueles nos quais o impulso
  coip., 2T,  13). De modo anlogo, Locke defi-           determinante  constitudo por uma atitude de
  nia a V, como "o poder de comear ou no                 respeito ou de exaltao do Eu diante de si
  comear, continuar ou interromper certas aes           mesmo.
  do nosso esprito, ou certos movimentos do                   Finalmente, nas expresses V. de viver e V.
  nosso corpo, simplesmente com um pensa-                   de potncia, a V.  entendida no sentido mais
  mento ou com a preferncia do prprio espri-             geral.
  to" (Hnsaio, II, 21, 5). F. Hume declarava: "Por             A V. de viverque, segundo Schopenhauer, 
  V. no entendo outra coisa seno a impresso              o nmero do mundo, nada tem cie racional: "
  interior que sentimos ou de que somos cns-               um mpeto cego, irresistvel, que j vemos apare-
  cios, quando conscientemente damos origem a               cer na natureza inorgnica e vegetal, assim
  um novo movimento do nosso corpo ou a uma                 como tambm na parte vegetativa de nossa
  nova percepo do nosso esprito" ( Treatise, II,         prpria vida". Portanto, "o que a v. sempre quer
  III. I). Hume negava tambm qualquer influn-              a vida, justamente porque esta  apenas o
  cia da razo sobre a V. assim entendida, redu-            manifestar-se da V. na representao, e  sim-
  zindo as chamadas volies racionais s emo-              ples pleonasmo dizer V. de viverem vez de V."
  es tranqilas, ligadas a instintos originrios
                                                            (De Weil. I,  54).
  da natureza humana (como benevolncia e
  ressentimento, amor pela vida, gentileza para a              Analogamente, V. de potncia , segundo
  criana) ou ao apetite geral pelo bem e a aver-           Nietzsche. um impulso fundamental que nada
  so ao mal (Ibid, II, III, 3). Muito semelhante           tem de causao racional: "A vida, como caso
  a esta  a definio de Condillac: "Por V. se             particular, aspira ao mximo sentimento de po-
                                                            tncia possvel. Aspirar a outra coisa no  seno
VRTICE                                              1010                                             VULGAR

aspirar  potncia. Essa V.  sempre o que h               90), que na Idade Moderna ainda foi utilizado
de mais ntimo e profundo: a mecnica  uma                 por Descartes (Phil. princ, II, 33).
simples semitica das conseqncias (Wille                      VULGAR (lat. Vulgaris, in. Vulgar, fr. Vulgaire-,
zurMacht, ed, 1901,  296).                                 ai. Gemein; it. Volgare). Essa palavra foi usada em
    VRTICE (gr. Svo; lat. Vortex in. Vortex,             sentido no pejorativo por Tertuliano, que deu
fr. Vortex, ai. Wirbek it. Vrtice). Conceito fun-          valor ao testemunho contido nas expresses usa-
damental da fsica antiga. Anaxgoras conside-              das pelo povo; elas so "V. porque comuns, co-
rava o V. como o meio de que se vale o inte-                muns porque naturais, naturais porque divinas"
lecto divino para ordenar o mundo (CLEMENTE,                (De testimonio animae, 6). Vio dizia: "as tradi-
Strom., II, 14). Demcrito considerava-o como               es V. devem ter possudo razes notrias de
"a causa da gerao de todas as coisas" e iden-             verdade, em vista do que nasceram e foram pro-
tificava-o com a necessidade (DIG. L, IX, 45).             pagadas por povos inteiros por longos intervalos
Epicuro retomava o mesmo conceito (Ibd., X,                de tempo" (Sc. nuova. dign., 16; v. dign., 17)
  WELTANSCHAUUNG. V. INTUIO no MUN-
DO.
                                             X

   X. 1. s vezes a letra .v  usada em filoso-   vezes, nos neokantianos, o x constitui o in-
fia como smbolo da incgnita. Foi usada          determinado que o processo tende a deter-
por Kant na primeira edio da Crtica da         minar, o incgnito ser do qual cada passo do
Razo Pura e em Opus postitnutm: "O obje-         conhecimento serve para evidenciar um as-
to transcendental significa alguma coisa = .v.    pecto (NATORP. Pbilosopbie, 1921, 3a ed., pp.
da qual nada sabemos e da qual (segundo a         41 ss.).
atual constituio do nosso intelecto) nada          2, Na lgica contempornea, "x"  o argu-
podemos saber, mas que pode servir apenas         mento qualquer de uma funo (v.). O sm-
como um correlato cia unidade cia aper-           bolo '(.Y)"  o quantifieador universal, um
cepo" (Crt. K. Pura, A, 250; v. Opus pos-      dos operadores lgicos fundamentais (v. OPE-
tumum. IX, 2, pp. 280, 308, 418, etc). Outras     RADOR).
                                                   2

    ZELOTIPIAdat Zelotypi). Segundo Baum-                 Nos ltimos anos o Z. suscitou grande in-
garten,  o amor que deseja que o amor do ser           teresse nos pases ocidentais, especialmente
amado lhe seja proporcional (Met.,  905).              nos Estados Unidos, onde s vezes  estuda-
    ZEN. Corrente budista fundada por Bodhi-            do em relao com vrios aspectos da cultu-
dharma na China, no ano 527 d.C. e intro-               ra ocidental (cf. a bibliografia contida na
duzida no Japo por Ei-Sai em 1191, onde se             traduo italiana de A. W. WAITS, 'The Sprit
desenvolveu com caractersticas prprias. Seu           of Z., 1935. Para os dez graus da iniciao
ensinamento fundamental  a eliminao da               cio Z., v. CHANG-CHKNG-CHI, The Practice of
oposio -- tpica do budismo -- entre o mun-           Z, 1959, p. 33).
do das aparncias (samsara) e o nhvana; sua                 ZERO (in. Zero; fr. Zero; ai. Null; it. Zero). O
tarefa  ensinar a ver (e realizar) o nirvana nas       Z. foi introduzido como nmero s na matem-
mais simples e modestas manifestaes da vida           tica moderna. Peano incluiu-o entre as noes
diria. Um mestre do Z. enumera da seguinte             primitivas do seu sistema lgico (v. ARITM.TI-
maneira os dez passos sucessivos que consti-            CA). Russell definiu o Z. como "a classe cujo
tuem o trabalho de toda a vida de um partid-           nico membro  a classe nula" (Introduction to
rio                     do                     '/..-.   MathematicalPhlosophy, III; trad. it., p. 35).
    \- o partidrio do Z. deve crer que existe
                                                            Em sentido metafrico, s vezes se diz.
vim ensinamento (o Z.), transmitido fora da
doutrina budista geral;                                 ponto Z. para indicar o ponto de encontro
    2Q deve ter conhecimento definido desse             ou de equilbrio de possibilidades diferen-
ensino;                                                 tes. Kierkegaard diz: "O que eu sou  um
    3" deve entender por que tanto o ser sen-           nada; isso me d. e ao meu gnio, a satis-
ciente quanto o no senciente podem pregar o            fao de conservar minha existncia no
dharma (a lei do mundo);                                ponto Z., entre o frio e o calor, entre a sabe-
    4o deve ser capaz de ver a substncia como          doria e a estupidez, entre alguma coisa e o
se contemplasse algo vivido e claro liem na             nada, como um simples talvez" ( Werke, IV,
palma de sua mo; o seu passo deve ser sem-             p. 246).
pre resoluto e firme;                                       ZETTICO (gr. r|xr|TiK:; lat. Zetetic, fr.
    5" deve ter "o olho do dharma";                     Zttitjiie; ai. Zetetisch; it. Zetetico). Investigativo
    ()- deve trilhar "a senda dos pssaros" e "a       ou inquisitivo. Este termo foi primeiramente
estrada do alm" (ou "estrada do milagre");             aplicado porTrasilo para indicar um grupo de
    7<)
         deve saber desempenhar tanto um papel          dilogos de Plato (DIG. L, III, ); V. ARISTO-
positivo quanto um papel negativo no drama               K H,
                                                        T L S Pol. 1256 a 12). Em seguida, foi assumi-
do 7.:                                                  do como denominao da atitude cptica: "A
    8" deve destruir iodos os ensinamentos he-          corrente cptica  chamada de Z. por procurar
rticos e enganadores e apontar para os justos;         e investigar; suspensira pela disposio da alma
    9" deve conquistar grande fora e flexibili-        que. depois da indagao, mantm em relao
dade;                                                   ao objeto indagado; e ditbitativa por duvidar
     10'-' deve participar da ao e praticar dife-     e indagar de todas as coisas (SKXTO EMPRI-
rentes modos de vida.                                   CO. Pirr. hyp., I, 7).
ZOOLATRIA                                             1014                               ZWINGLIANISMO

    Algumas vezes se chamou de zettica a for-               apresenta como soluo para o problema do
ma de anlise matemtica que se refere  de-                 mal (v. MAL, I, b).
terminao das grandezas desconhecidas.                          ZWINGLIANISMO (in. Zwinglianism; fr.
    ZOOLATRIA (in. Zoolatry; fr. Zoolatrie- ai.              Zwinglianisme, ai. Zwinglianismus; it. Zitin-
Zoolatrie; it. Zoolatri). Culto aos animais,                glismo). Doutrina do reformador suo Ulrich
considerados manifestaes ou encarnaes                    Zwinglio (1484-1531), que compartilhou com
da divindade. A Z. esteve presente em muitas                 o humanismo a idia de que h uma sabe-
religies antigas: egpcia, frgia e siraca (V. F.          doria religiosa originria, da qual proviriam
Cl MNT, I.es religiuns orienales dans le pa-               tanto os textos das Sagradas Escrituras quan-
ganisme romain, 1906 passim) (v. TOTKM).                     to os dos filsofos pagos. Portanto, para
    ZOROASTRISMO (in. Zoroastrianism; fr.                    Zwinglio a revelao  universal, e Deus  a
Zoroastrisme, ai. Zoroastrismus; it. Zoroastris-             fora que rege o mundo e revela-se em todas
mo). Religio persa, conhecida tambm co-                    as coisas.
mo masdesmo ou parsismo, estabelecida por                       So tambm caractersticas da doutrina de
Zoroastro ou Zaratustra (sculo VI a . O , cujo              Zwinglio a predestinao (v.) e a interpretao
principal documento no Zeudavesta. O ensi-                   dos sacramentos, inclusive da Eucaristia, como
namento principal dessa religio  o dualismo                cerimnias simblicas.  sobre esse aspecto
entre dois princpios opostos, chamados res-                 que Lutero e Zwinglio discordam, pois, ao con-
pectivamente Ormuz {Abura Mazdah) e Ari-                     trrio de Lutero, Zwinglio negava tambm o
ma>i (Angra Manyu), graas ao qual ela se                    valor absoluto da autoridade poltica.
